DANIEL. -€0?mímtóü7 VI, argumento de Daniel e a noite, que é sempre boa conselheira, dissiparam completamente a idéa de suicídio no espirito de Julio. No dia seguinte accordou o rapaz vexado com os acontecimentos da véspera. Esperou-o Daniel que lhe perguntou â>* fe pela saude do espirito, ao que lhe respondeu Julio que estava curado, accrescentando : Mas não creio que fosse inútil o meu projecto. Porque? Porque ganhei um amigo. Dizendo isto, o moço abraçou Daniel com toda a effusão; o perigo estava passado. Depois do almoço, sahiram ambos, um para voltar á casa, outro para ir ao escriptorio. Não se separaram porem, sem promessa reciproca de se visitarem. Fácil era travar-se entre os dois rapazes uma solida amizade, e effectivãmente a pouco e pouco foram-se affeiçoando ató que acabaram na maior intimidade, antes de completar-se um mez depois dos acontecimentos acima narrados. OKIMIr Ml T. XIII.-Maio de '87o. 5 130 JORNAL DAS FAMÍLIAS. oceasiao segunda a foi Daniel convidara O jantar para o qual Azevedo n'¦¦'... de se encontrarem o advogado e Carlota. AM ,,m um eia Daniel conversa. larga D'esta vez travou-se entre ambos mais no meio de tantos palradores encontrar de espécie rara bom conversador, ^Cariota cheia de senillustrada, tanto algum era amável, espirituosa, ,, timento e ingenuidade. diria a ella, o nao mas a era pérola, Dizia o velho Matheus que ella metter-lh a a mesmo o valia que o que nem ás irmãs; dizia-o a Daniel, j_^u da rapariga fizesse tio velho o O moco não precisava porem que a impressão interdia n'esse respeito; esse a já nenhuma insinuação vida do advogado, da horizonte no modo que rompida, continuou por ~ começou a levantar-se o sol do amor. e ate pelos consignada poetas pelos expressão é uma amor do O sol lua, que inllue uma simplesmente é amor o prosadores. De ordinário marés enchentes e as n'elle coração do mar produzindo n'este mysteriso vasantes. A maré do coração de Daniel começava a encher. E Carlota? adivinhar que mas cousa, mesma podia-se a sentir de deixava vão Em não era o primeiro amor que tinha em sua vida. se algum amor acontecimentos que, d'estes chronista ao Quer parecer não era da força ao sobretudo, e era, fraquissimo houve anteriormente, _¦ . de Daniel. irmãs de duas as mas cousa; deram Matheus pela , Nem Azevedo, nem entre os seja o descobriram que eram, quer Carlota, como mulheres que tres. dois, o que foi objecto de conversas e risos entre as Já sei que estás presa, dizia Adelaide no dia seguinte. Eu? perguntava ingenuamente Carlota. Tu sini, acudio Luiza. Presa aquém? Ora! Francamente, não sei. ; — Pois não ha de saber 1 , — Não sei. Ora, o advogado, disse Luiza rindo. Carlota vae pôr uma demanda, acudio Adelaide. Eu não lhe opponho embargos, tornou Luiza. i JORNAL DAS FAMÍLIAS. 131 — Vocês querem zombar comigo ! . — Qual zombar! é muito serio. Estas e outras palavras diziam as moças entre si, e Carlota continuava a negar, não como quem deseja convencer, mas como quem quer deixar adivinhar a verdade sem confessal-a. ¦ Daniel voltou á casa de Adelaide dias depois. Imaginem como seria recebido, que risinhos da parte das raparigas, e que enleio da parte de Carlota. A conversa foi entretanto amigável e geral. Tanto era a attençâo de Adelaide nos olhares dos dois namorados, que Azevedo pôde conversar mais affoutamentc c ato chegou a proferir um discurso, ao qual sua amavel esposa apenas oppoz um levantar de hombros e um gesto de aborrecim en to. Dankl era um perfeito calouro ; acanhava-se quando se achava com Carlota um pouco afastados dos outros, e quando se achavam todos presentes, ficava com os olhos presos n'ella. Carlota não sustentava o olhar d'elle, mais talvez por modéstia ou por falta de vontade, do que por politica. Tinha essa situação alguma cousa de má em si ? Cousa nenhuma; mas a verdade é esta. Parece que o amor das mulheres, quando ainda não é paixão louca, tem umas reservas cujo segredo ninguém conhece. Pela minha parte, conheci uma mulher que amou profundamente um homem. Era um delírio ; mas um delírio que só se revelava quando os dois se achavam a sós. Quando porem estavam n'uma sala não havia estatua mais fria nem insensível do que ella, que dizia ao namorado cousas tão indifferentes como se elle não fosse mais que um freqüentador da casa. Estudem esse phenomeno. Carlota era mulher, isto é, tinha o talento de todas as mulheres n'esses casos. Era capaz de disfarçar a ponto que ninguém o perceberia. Não se comprehende muito essa tartufice do bem, essa hypocrisia de um sentimento tão puro e tão justo. O caso é que ella existe, e pois'que existe devemos contar com ella. A hypocrisia de Carlota chegava a enganar o noviço Daniel que, ás vezes duvidava de alguns signaes favoráveis anteriores. Mas para logo vinha um olhar da moça dissipar as duvidas e mais tarde um gesto crealas outra vez. Daniel continuava a ajudar o velho Matheus na obra com que este queria enriquecer as lettras nacionaes. d32 JORNAL DAS FAMÍLIAS. estavam os dois Uma noite Daniel interrompeu o silencio em que se Carlota ia casar. occupados com o trabalho para perguntar ao medico cousa, semelhante de sabia não medico ao espantou que A pergunta d'elle. nem era acontecimento que se desse sem consentimento Para mim é novidade, respondeu Matheus. Porque' diabo me pergunta isso ? Porque ouvi dizer hoje. Continuaram a trabalhar. D'ahi a alguns minutos, perguntou outra vez que idade tinha Garlota. Matheus respondeu sem levantar a cabeça do papel em que escrevia um capitulo acerca de Manco-Capac» Um quarto de hora depois Daniel levantou-se para accender um charuto, e aproveitou o ensejo para dizer que Carlota era bastanteJns-„ truida. . Aqui o velho Matheus largou a penna, inclinou-se para traz, e disse sorrindo ao seu collaborador : Que diabo é isso, Daniel ? É a terceira vez que você me falia hoje em Carlota. Nada mais natural: é de todas as suas sobrinhas a mais sympathica... Justamente, disse Matheus rindo; a questão ó de sympathia. Parece-lhe isso ? É cousa evidente. Daniel sentou-se; e no fim de alguns segundos disse sorrindo : . — Confesso que sympathiso com ella. Ha algum mal n isso? -; — Nenhum; ha todo o bem. Quer-me para alguma cousa? Para nada; eu sympathiso; mas não posse dizer mais nada do que isto, e nem sei se ella sympathisa também. Em todo o caso, o segredo não passará d'aqui. Daniel foi franco por caracter; mas independentemente da vontade de ser franco, mentio a Matheus mentindo-se a si mesmo. 0 que elle sentia era mais do que sympathia; era já amor. A prova é que, saindo de casa de Matheus, não se furtou ao desejo de ir passar pela porta de Carlota , apezar do desvio que era preciso fazer. Esteve diante das janellas da casa alguns minutos e seguio para lá. . Regra geral: sempre que um namorado pára de noite diante da casa da mulher dos seus pensamentos, está profundamente tocado pela aza do amor. Era o caso de Daniel. JORNAL DAS FAMÍLIAS. 133 No fim de alguns minutos, o rapaz seguio para casa absorvido nos seus pensamentos. Ao entrar porem no Rocio, vio parar a pouca distancia um tilbury, d'onde sahio üm sujeito que caminhou para elle. Era Júlio. Donde vens ? perguntou Daniel. Os dois já se tratavam com intimidade. Venho de um baile, respondeu Júlio. E quero dar-te um abraço. Venha de lá. Porque? perguntou Daniel ao rapaz dando-lhe o abraço pedido. Estou curado completamente. Acabo de vel-a no baile d'onde venho. Nem um estremecimento sentir nem-^-menet^^ com a mesma indifierença com que olharia para os grades d'este jardim. -'Bravíssimo ! exclamou a advogado. Faltava-te esta prova; está verdadeiramente curado. E quando eu me lembro que , por aquella mulher, hoje tão nulla para mim, ia eu sacrificando a minha vida! Agora é que aprecio melhor o serviço que me prestou. Nâo fallemos nisso. Fallemos sempre; se nao fosses tu, teria eu commettido a maior tolice d'este mundo. Ah! se eu podesse pôr isto na gazetilha do Jornal do Commercio, a laia de remédio para o mal das videiras. D'onde vens tu? Da casa do doutor Matheus. Ah! aquelle amigo que me apresentaste hontem em íua casa. Justo. Bem, eu te acompanho até a casa. Júlio mandou o tilbury embora, e seguiram os dois até a casa do Daniel, aonde Júlio decidio-se a passar a noite. ¦': VIL 0 encontro de Júlio com a antigo namorada foi a verdadeira pedra de toque do estado do coração do rapaz. Se não fosse Daniel, a bala teria esmigalhado a cabeça do infeliz namorado, sem a consolação extrema (doce e rara consolação) de ser longamente chorado. O romancista pode ser indiscreto sem offensa dos personagens da obra; fiquem pois sabendo os leitores que a ingrata Cecília não valia a pena do 134 JORNAL DAS FAMÍLIAS. sacrifício de Julio. Não passava de uma moça caprichosa. Mas quasi semnão valem a pena. pre sacrificam-se os homens por aquellas que Ganhara em todo este negocio o marido de Cecilia, sujeito de boas bens de raiz e uma qualidades, figurando entre ellas uma riqueza em complacência creio que de raiz tambem. 0 caso é que Cecilia gastava exactamente como se possuísse o dobro. Eu poderia dizer muitas outras cousas n'este sentido se a pessoa de Cecilia e de seu esposo tivessem de entrar na acçao d'esta veridifca novella; mas não, foram apenas um incidente. Convém ao caso saber que Julio estava definitivamente curado, o que é realmente uma virtude mais para o romance que ainda não se manchou com"uma"gôta drsatTgue sequer. Julio conhecia Azevedo e ató se dava com a familia d'elle, a cuja casa ia freqüentemente antes da tentativa do suicídio. Depois d'isso não voltara lá, o que não deixara de ser notado por todos. Estaria doente? perguntára Adelaide; e esta pergunta queria dizer o mesmo que Azevedo fosse indagar do estado do amigo. *" Azevedo foi á casa de Julio e soube que este se achava perfeitamente bom ; apenas acontecia dormir algumas vezes tora. Algum romance, pensou Azevedo. Voltou com a resposta que não era nenhuma. Quem é esse Julio ? perguntaram Carlota e Luiza a Adelaide. Tanto Luiza como Carlota viviam com sua tia, outra irmã de Matheus, e apenas iam de quando em quando visitar a irmã. Julio e um amigo de Azevedo, um excellente moço , muito amável e serviçal. Coitado! teve ha tempos uma grande paixão. Conte lá isso! disse Carlota. Sim? É assumpto que te interessa? A mim, como a todos. Mais a ti. Deixemos-nos de graças. Uma grande paixão, continuou Adelaide, por uma moça que.., casou com outro. Cruel! disse Carlota. Quem sabe? acudio Luiza; talvez gostasse mais do outro. Justo! N'isto entrou na sala o velho Matheus, que ouvira do corredor toda a a conversa das tres sobrinhas. Ora vivam lá as tagarelas I Corn que então conversavam de namoro. JORNAL DAS FAMÍLIAS. 135 Fallavamos do Julio. Onde anda elle? Ninguém sabe. Matheus sentou-se, respirou ruidosamente, tirou a boceta e tomou uma repetidas vezes, limpou pitada. Depois passou o lenço dobrado pelo nariz a camisa com a ponta do lenço, crusou as pernas, e inclinando-se para traz, soltou estas palavras : Com que então a Carlota tem motivos para interessar-se em questoes de namoro ? As duas irmãs de Carlota olharam para ella sorrindo ; ella perguntou com affectada simplicidade : Eu, meu tio? _—Ijuas irmãs disseram isto ha pouco; eu ouvi tudo. Brincadeira dellas. Então visto isso... Pura brincadeira # O velho sorrio velhacamente, e disse : Pois, senhor, eu cuidei que o meu dedo tinha adivinhado. O que ? perguntaram as tres. Que amanhã temos chuvaijrespimdeu_AJLelhoJ_ As tres raparigas riram muito da resposta do tio, que pegou na mão de Carlota e entrou a brincar com ellã. N'este momento entrou Azevedo na sala. Ahi vem o doutor Daniel. Ah! disse o velho. 'no tio As duas moças olharam para Carlota, esta tinha os olhos fitos que não tirava os seus d^lla. Eram sete horas da tarde. As duas moças foram receber Daniel á porta da sala; Carlota ficou ao lado do tio, em pé, com a mão entre as d'elle. Matheus aproveitou os poucos segundos em que se achou só com a sobrinha para dizer-lhe em voz baixa. Não te palpita o coração ? Carlota não respondeu. Basta! disse o tio sorrindo. Entrou Daniel. Daniel comprimentou as duas senhoras que o receberam á porta com Azevedo e foi apertar a mão a Carlota que deu alguns passos para elle. 136 JORNAL DAS FAMÍLIAS. A mão de Daniel tremia como a de uma virgem que pela primeira vez falia de amor a um namorado. 'aqui, disse Matheus sem Ora, mal sabia eu que nos encontrávamos se levantar. É verdade, respondeu Daniel. Eu tambem não contava com esse prazer. Daniel sentou-se, e a conversa tornou-se geral, Matheus observou os acontece, os nasempre Como namorados. dois dos olhares os e gestos morados suppunham-se extranhos ao mundo e era fácil surprehenderlhes de quando em quando um olhar longo e profundo. Oh! os olhos! Quem ha que tenha amado e não saiba que os olhos são os primeiros e mais fieis mensageiros do amor? Estão duas creaturas nrfuffiãsi^^ nao podem fallar, mal poderá trocar duas palavras de quando em quando baixinho; mas os olhos lá estão firmes no seu ponto, semelhantes a duas estações de telegrapho communicando estes velhos e sempre novos telegrammas: « Como te amo! » (( E eu ! » ¥ Como és formosaTF « Ai! vidade minha alma! que gente importuna!» (( O deserto comtigo vale o mundo ! » « Seria o céo! seria tudo. » Por quanto, quando duas creaturas se qiferem verdadeiramente todo o mundo para ellas ó nada; melhor fora que não existisse, ou existindo longe d'elles. 0 mundo d'elles só tem dous pólos : os olhos de cada um. Tal era a situação de Daniel e Carlota. É possivel que esta tivesse tido algum namoro antes; mas Daniel era a primeira vezque amava; abriamse-lhe viva e irresistível a fonte dos grandes affectos; era um amor que começava lento e tênue e tomava cada dia maiores proporções, como os rios que começam por um fio d'agua e acabam caudaes e impetuosos. Por isso mesmo que amava pela primeira vez, Daniel sentia-se acanhado diante de Carlota; esta como mulher que era, sabia desfarçar mais; não tanto porem, que o velho tio não percebesse que a chamma de Daniel (estylo antigo) era correspondida. O velho Matheus alegrou-se com a descoberta; amava a sobrinha e o rapaz; queria vel-os unidos; achava que não havia outro par mais completo. JORNAL DAS FAMÍLIAS. 137 Encarregou-se elle mesmo de aproximar os dois jovens que viviam ainda um pouco extranhos. A conversa era excellente meio para isso. Quando Daniel sahio da casa de Azevedo, levava a certeza de que era correspondido por Carlota. Sahio lépido e conversador. 0 velho sorrio vendo o rapaz assim contente e feliz; Daniel deu-lhe o braço e contava-lhe mil historias, cada qual mais indifferente ao assurnpto, misturando porem o nome de Carlota com ellas, e tão disparatamente, que era um regalo para o interlocutor. Daniel passou o resto da noite com o medico; começavam a trabalhar, mas o moço sentia-se tão pouco disposto, interrompia o trabalho a cada momento com uma pergunta alheia ao assurnpto que o historiador das antigüidades americanas achou melhor parar alli. Porque? perguntou Daniel. Não estou disposto, respondeu velho. o Bem, trabalharemos amanhã, respondeu o rapaz. E sahio. ''¦¦-"¦'¦¦'¦¦¦•¦'..'¦ VIII. N'essa noite, Daniel não poude dormir. Deitou-se, mas debalde fechou os olhos; o somno fugia-lhe; o que lhe apparecia era a moça, sempre bella, sempre os olhos n'elle. Daniel levantou-se depois de uma hora de esforços inúteis. Sentou-se para ler, mas os olhos corriam-lhe pelo papel, sem transmittir á alma as idéas escriptas. Se fosse poeta escreveria com certeza alguns versos; mas não o era. Que importa? A prosa, quando tem de exprimir amores, não é tambem poesia? Daniel entrou a rabiscar papel, e rabiscou durante duas horas, até que o cancaço operou o milagre de produzir o somno. Foi deitar-se. No dia seguinte a primeira visita que teve no escriptorio foi a de Julio, 0 ex-suicida vinha convidal-o para um passeio á rtoite pelos arrabaldes da cidade, em companhia da familia de Azevedo. Azevedo encontrara a pouco antes com Julio e convidára-o para ó reterido passeio. O convite era temerário da parte de Azevedo; todos sabemos que o joven marido de Adelaide fazia em casa os papeis de comparsa. T. XIII. ' 5. 138 JORNAL DAS FAMÍLIAS. Effectivamente quando Azevedo disse a Adelaide que encontrara finalmente o Júlio e o convidara para um passeio, recebeu uma resposta nedeixar gativa. Adelaide, porem, negara para ceder mais tarde; não queria um aresto de obediência. Tinha curiosas idéas aquella moça. Agora perguntarão os leitores com que autoridade Júlio convidava ao advogado. Seria amizade que não vê conveniências? Ou leviandade que não vê as praticas ordinárias da vida? Seriam ambas as cousas. O que convém saber é que Daniel, não tendo recebido convite do resto da familia, declarou que não iria. Júlio pendia a outros assumptos. Reparou que Daniel tinha dormido pouco; via-lhe isso nos olhos; Daniel não contestou. Alguma paixão? perguntou Júlio. Não, respondeu Daniel sorrindo. Mas aquelle « não » aquelle sorriso queriam dizer que sim. Júlio comprendeu e sorrio também. É quanto basta, disse elle. O que é que basta? Nada. Seguio-se algum tempo de silencio. E tu? Tens alguma paixão nova? Não. E se a tivesse nâo t'o diria. Porque? Porque a confiança quer confiança : é um capitulo de Victor Hugo ; e antes de sel-o, era já uma verdade cravada no espirito humano. Não entendo, respondeu Daniel. Tinha entendido. E simples. Tu tens com certeza alguma cousa que te preoccupa , uma mulher, um amor. Sou ou não sou teu amigo . ~ Sem duvida. É nega-me a confiança? Não fanego. Então... . — Ouve. Eu não quero expôr-me a uma decepção; amo, confesso ; mas a quem? Isso só poderei dizer-fo um dia em que souber que sou amado. Essa agora... E um capricho; mas deixa-me assim. Promettes contar-me tudo ? JORNAL DAS FAMÍLIAS. 139 Na hypothese figurada, prometto. A hypothese ha de realisar-se, disse Júlio levantando-se e batendolhe no hombro. Espero ao menos! Já é muito : uma esperança! Para alguns é tudo ! Estás hoje philosopho! Tenho o direito para sel-o : sabes que venho do outro mundo. N'esse momento entrou Azevedo no escriptorio. Vinha convidar Daniel para o passeio á noite. Daniel prometteu que iria. Azevedo fez um pequeno romance acerca da maneira por que conven-cêraLAmulher da necessidade do passeio, concluindo que Adelaide era o typo da doçura e da bondade da esposa; adoptava-lhe todas as vontades. Daniel e Júlio trocaram um olhar. Os dois sabiam já que Azevedo tinha dois fracos : o de ser dominado pela mulher, e o de dizer a todos que elle era quem a dominava. 0 passeio verificou-se , tomando parte n'elle as tres irmãs, Azevedo, Daniel, Matheus e Júlio. Foram ao Andarahy. Nada melhor que um d'estes pass*eios para estabelecer intimidade. Daniel poude estar algum tempo a sós com Carlota. Ambos estavam enleiados. Daniel não achou uma só palavra para dizer-lhe; mas olhava-a tanto, e ella para elle , que a conversa foi mais eloqüente do que se fal" lassem muito. ' . Quando as suas duas irmãs se encontraram uma vez por acaso, não poderam resistir, e apertáram-se muito uma á outra. Que mais poderiam dizer! A noite foi por tanto de rosas para o joven advogado, que sonhou logo com o ideal da vida : casado com ella e vivendo n'uma casinha isolada do resto do mundo. IX. Este capitulo é um parenthesis. Quem quizer seguir o romance pode passal-o por alto. Já attendi acima na facilidade que teem os namorados de excluírem o mundo de todos os seus sonhos. 0 mundo devia agradecer-lhes esta sem ceremonia. Pois que! Ha de haver no mundo uma cousa que se chama politica, e 140 JORNAL DAS FAMÍLIAS. acompanhada de outras cousas chamadas eleições; os governos hão de andar em perpetuo conflicto; o Oriente ha de andar sempre a jogar as cristas com o Occidente; a America com a Europa; a guerra ha de ser sempre o divertimento dos povos; ha de haver uma cousa chamada gloria militar; e os namorados terão sempre o animo e a ousadia para se separarem d'esses nomes todos, e dizerem que o mundo está nelle, e sonharem sempre com uma casinha isolada, um ninho , o céo por cima, e as flores em roda. Oh 1 namorados! Nada são aos nossos olhos as lutas do homem, com a penna e a espada, a espada que manda a gente para o outro mundo, e a penna que atassalha quando não convence, e conspurca quando não discute? Namorados soisl Não vos importaes com a existência de uma camara e de um senado e de um governo, com as eleições, com as urnas, com os jornaes, absolutamente nada! Pode ser que estej aes perto do céo, mas com certeza não estaes na terra. Miseros! X. O velho Matheus levantou-se um dia convencido de que não ha collaborador possivel n'um rapaz que está namorado. Daniel continuava a ir ajudal-o; mas nem era com a mesma assiduidade, nem com a mesma àttenção. A litteratura estava ameaçada de uma perda ou ao menos de um adiamento. 0 velho Matheus, que não era ridículo, tinha apenas o fraco de acreditar sinceramente n'esse desastre litterario. _. * Entendeu por tanto, que era necessário precipitar os acontecimentos, e casar Daniel com Carlota. A musa da historia descia do seu pedestal para exercer o officio de casamenteiro. Por onde principiar ? Evidentemente pela sobrinha. Matheus foi ter com ella e sondou-lhe o coração. A moça negou a principio. Eslápara nascer mulher que confesse o amor que tinha logo á primeira vista. Mas o velho Matheus que já contava com o pouco resultado dos reconhecimentos á força, deu batalha campal e tomou a praça. Pode-se affirmar que aquelle foi o mais agradável de todos os seus vomitorios. JORNAL DAS FAMILIAS. 141 Pois se gostas do rapaz, disse Matheus, casa com elle. A moça baixou os olhos. .¦•¦.".. N'este ponto, a leitora deixa o livro e faz mentalmente um comprimento ao autor, e a verosimilhança das suas scenas. Abaixar os olhos n'uma situação cTaquellas é cousa tão certa como a paschoa depois da semana santa. O tio de Carlota sahio promettendo que seria o medianeiro no negocio. Dirigio-se com effeito a Daniel, advogado ouvio contentissimo as palavras de Matheus; mas hesitou em acceitar a idéa de precipitar as cousas. Para que? perguntou-lhe elle. É tão agradável esta vida de simples namorado, que eu desejo gozal-a por mais alguns dias. Espere; será d'aqui a pouco tempo. Mas... Não me faça suppor, disse Daniel alegremente, que eu me quero fazer de rogado. Acredite no que lhe digo, mais algum tempo. Ah! meu caro amigo, se fosse já... Casava-se você; eu via-os felizes, e passada a lua de mel continuaríamos a obra. Daniel sorrio-se. Olhe, então acho melhor acabar a obra antes do casamento; porque eu tenho idéa de que a minha lua de mel vae ser muito extensa... Cousas de namorados! Afíirmo. Pois bem, acceito a idéa; acabemos antes a obra. Entretanto o meu conselho é que não deixes o negocio de mão... Daniel cumpria a palavra promettida, indo assiduamente á casa de Matheus e entregando-se ao trabalho com afinco. Isto não impedia que Daniel visitasse a casa de Azevedo, aonde já então via Carlota com extrema freqüência. Uma noite, depois de ter passado algumas horas com ella na sala de Azevedo, Daniel voltou para casa cheio das melhores impressões d'este mundo. Lembrou-se de escrever uma carta a Carlota. Pegou na penna e escreveu estas linhas : ¦ ¦..¦¦' ¦ ¦ ¦ ¦- .¦ ¦¦.¦¦¦".¦. .-.¦.' ,-¦ » • « Luz de minha vida , alma de minha alma, que poder tens tu para receber toda a minha existência, para fazer da minha mocidade, em vez de árido deserto que era um céo provado e feliz ? f Releu o que tinha escripto, e rasgou o papel; achava tu do aquillo pai- 142 ' DAS JORNAL » FAMÍLIAS. seno lido, frio e enternecido. Não tinha expressões com que dissesse que tia, ,desistio de escrever. Estava n'isso quando appareceu Júlio. cântaroA entrada de Júlio foi ruidosa. 0 rapaz vinha do Alcazar, e lava não sei que pedaço da opera do dia. — Que estas fazendo? Nada. Não te has de cançar. Dizendo isto foi-se Júlio sentando, sem tirar o chapéo, e accendendo % um charuto. Admirou-me ver a tua porta aberta, dizia elle. É que eu tencionava sahir outra vez. Entrevista? Não. 7 — Ahi Romeo, em que estára pensando agora a tua Julieta? Está dormindo. Isso está. Júlio puchou duas grand^^ mem que não tem remorsos do dia de hontem , nem receios do dia dV manhã, e soltou estas palavras: Daniel referio a Júlio tudo o que havia a respeito de Carlota , e das esperanças que estava de casar com ella. Júlio apertou-lhe affectuosamente a mão. Está direito, disse elle, fazes muito bem. Quem me dera ser tão feliz com tu ! Olha que o és! Lá vi isso outro dia. Como ella olhava para ti! E que olhar! Daniel enlevava-se com a lembrança da moça, e ouvio as palavras de Júlio como uma musica suave. Quando Júlio sahio da casa de Daniel, dirigio-se para um hotel onde ceiou, e depois foi para casa onde dormio tranquillamente a noite inteira. Quanto a Daniel, que recusara sahir com Júlio, sahio pouco depois. A noite estava deliciosa; havia um magnífico luar, o céo estava azul e sereno. Daniel dirigio-se machinalmentepara a casa de Azevedo, onde sabia que estava Carlota, e ahi esteve parado diante da janella algum tempo. A casa estava* toda fechada. De repente, vio elle abrir-se a porta e apparecer um vulto. Éra Azevedo que sahia apressadamente. ir- ¦ • • JORNAL DAS FAMÍLIAS. 443 Daniel suspeitou que houvesse algum desastre em casa, e sem hesitar correu para Azevedo para saber o que era. 0 marido de Adelaide contou-lhe que era Carlota que se achava doente e que elle ia chamar o tio medico. Daniel ficou sem dizer palavra. Mas Azevedo ia despedir-se para seguir caminho, quando Daniel o de' teve dizendo Não, vá para casa: eu vou buscar o Doutor Matheus. Sim? Immediatamente. Vá. Azevedo voltou para casa. Daniel entrou no primeiro tilbury que a fortuna lhe depozera e foi buscar o velho Matheus. Mas que moléstia é ? Ah! não sei, não perguntei. Apenas sei isto. O velho Matheus entrou no tilbury de Daniel, e este voltou a pé para a casa de Azevedo. Estava resolvido a não ir para casa sem saber do estado da moça. Caminhando apressadamente, Daniel sentio correrem-lhe duas lagrimas pelas faces. cristal; [Continuar-se-ha.) ii i 4 jáü I ¦•¦.!.< ''' I! I tWÍ W\ 7 H jlj /ijg \, / - i '/ i \ m Wltl 11 ¦lii/i/11 i . _ j P^^Y^ \ \ III * QUEM BOA CAMA FAZ.. CONTINUAÇÃO. |IV. '* Mal sabia D. Fernanda Tavares a que experiências a destinavam estes dois amigos, e de que maneira nova e romântica o primo se queria desfazer d'ella. Que ella gostava do primo era cousa que podia ver quem lhe examinasse os olhos nas occasiões em que se achavam juntos na casa d'elle ou na casad'ella. Só o bacharel nunca reparara n'isso; a mãe d'elle porem que a amava como filha, e que desde longa data imaginara uma união entre ambos, logo percebeu o que se passava no coração da sobrinha Não se demorou em communical-o á mãe de Fernanda, que era sua irmã mais moça e depois ao desembargador. Nenhum caso fez este da descoberta durante os primeiros tempos • mas um dia vendo que o filho não tomava emenda, achou que era azado meio casar os dois primos, e communicou, como vimos, a resolução ao bacharel. Sua opinião era que o rapaz ia ficar contentissimo. Tinha razão de o suppôr. Fernanda era realmente bonita. Tinha a côr morena, os olhos negros e naturalmente languidos, todas as feições delicadas e correctas. As mãos em que o bacharel nunca reparara, eram obras-primas, e o pé, nas pou- JORNAL DAS FAMILIAS. » 145 cas vezes em que se atrevia a transpor a fimbria do vestido, convenceu aos profanos de que alem d'aquillo só se fosse invisível de todo. ; Nenhum d'esses dotes, nem todos juntos, seduziram nunca o coração desoccupado do primo Luiz. 0 amor em que ella ardia era silencioso e paciente. Tinha esperança de que mais tarde ou mais cedo viria a triumphar, e com essa esperança vivia e soffria. Uma só palavra de Luiz causava alegria a toda a familia, — a prima, o pae, a mãe, e a tia; mas essa palavra os lábios d'elle teimavam em não dizer. Esperemos, dizia o coração de Fernanda. E esperava. Alguns dias depois da conversa de Luiz e Ernesto, foi este apresentado em casa do desembargador Fonseca. Ha homens que nunca perdem o gesto e o ar do centro em que vivem. Ernesto não era assim. N'uma casa de familia era um homem circumspecto e grave. N'aquella oceasiao esta mudança era essencial; mas nao lhe custava, e tudo correu ás mil maravilhas. 0 desembargador ficou encantado com o amigo de Luiz; D. Theresa sua mulher, achou-lhe uma serie de boas qualidades que sinceramente julgava perdidas na mocidade. Ernesto foi convidado a considerar ~~ aquella casa como sua. No dia seguinte, Luiz veio dizer-lhe que a prima lá estava e que convinha ir iVessa noitej Não, senhor, disse Ernesto ; convém pelo contrario que eu lá não vá. É preciso que teu pae e tua mãe me preparem o terreno. Eífectivamente tanto o desembargador como a mulher não se fartaram de elogiar o amigo de Luiz. Tudo lhe achavam ; gravidade, instrueçao, não sei quê que insensívelum mais e formosura, maneiras, boas graça, mente a todos arrastava. A curiosidade de Fernanda e de sua mãe foi naturalmente excitada ao ultimo ponto. Ernesto voltou ácasa do desembargador alguns dias depois, e amiudou as visitas á proporção que a intimidade ia sendo maior. Ao cabo de um mez era quasi um amigo velho. Prouvera a Deus, dizia comsigo o desembargador, que todos os amigos de Luiz fossem como este! Ernesto não deixava oceasiao de louvar as qualidades de Luiz Fonseca. em Referia ao desembargador as discussões que costumava a ter com elle sua casa, sobre questões de direito e de philosophia. Muitas vezes sae de lá ás quatro horas, continuava o fiel amigo; ...--. moido, ó verdade, mas vencedor. O velho ficava pasmado. i **. :,v.\ m, \-.TI*^.*> !46 "•.'*.. JORNAL É\ DAS FAMÍLIAS. Ah! dizia elle, se elle só discutisse lá todas as noites! Todas as noites seria impossivel, tornava Ernesto; mas as disdivertecussões são freqüentes. De mais, elle é rapaz e naturalmente uüi . . ¦¦ ; , regrado de e cauteloso o com e outras Com estas procedimento petas, se havia Luiz, o desembargador foi acreditando que realmente o filho amendado. enSeis semanas depois de assidua freqüência, pôde haver o primeiro contro entre Ernesto e Fernanda. Tanto haviam fallado d'elle a ella, que a moça ardia por contemplar essa espécie de phenix da mocidade. A imo tado preciso para apparecer tinha Ernesto boa. realmente foi pressão aos olhos de Fernanda com as melhores cores e as mais adequadas ao seu intento. De sua parte a impressão foi magnifica. Achou-lhe uma bella figura, ainda que um ar extremamente frio. — Não importa, disse elle ao bacharel; a frieza é uma camada de neve, que se pode e se ha de derreter. De mais, é sabido que ella arde lá por dentro. _j^JIas, olha, que já lá vae mais de um mez, e o tempo voa. Descança. Cuida de ti. Hontem entraste tarde para casa. —* Às onze horas apenas. Foi tarde de mais. Mas então ás ave-marias ? Não, mas ás nove. Deves tomar o chá em casa. Sacrifica-te alguns mezes para gozares o resto dos teus dias. Terrível remédio! Mas necessário. Ernesto advogava sinceramente a causa do companheiro. Não menos sinceramente etóreu^^^^ de sopetão, mas a pouco e pouco, como o Jacome amansa cavallos, como os políticos amansam os povos rebeldes. V. Fernanda gostava da conversação de Ernesto , mas nem se mostrava alegre nem desejosa de o ter ao pé de si. Seus olhos buscavam a miúdo os do primo, que lhe fugiam cautelosamente com o fim sabido de lhe ir matando as esperanças aos poucos. As esperanças porem não morriam mm . y 'M ".. :'¦$ ¦ f-È ¦yy$_ '_ ¦ JORNAL DAS FAMÍLIAS. 147 de longe; não se assim do pé para a mão. O amor tinha raizes e vinha apaga um incêndio com uma bochecha d'agua. da Entendia Luiz que era ie bom effeito fazer o amigo no espirito contra elle. Ernesto abanou a cabeça quando insinuações algumas prima elle lhe disse isto. Seria estragar tudo, acerescentou Ernesto. Estragar ? Sem duvida. Dizer mal de ti é aguçar-lhe e multiplicar-lhe a paixão. ao lenha deitar de Nada Luiz. mulheres, das coração o conheces Tu não achara um Luiz insistio; a única resposta do amigo foi dizer-lhe que processo para elle. -Sim? • _ É verdade; o meu padeiro teve uma briga com um vizinho por algum advocausa de questões amorosas. Perguntou-me se eu conhecia mãos cujas em um excellente, conhecia Respondi-lhe que gado bom. , ninguém perdia processo d'essa ordem. Mas que houve ? 1 O rival injuriou o padeiro; o padeiro quer tirar vingança judiciai. muito massante. Olha, nao Está feito, disse Luiz, não será processo a me dês processos massantes. Pelo contrario, já te livrei de um. Ah! _ Um tio meu tem umas velhas questões de terrenos em S. Christote dar a demanda; de idéia Teve e complicada muito grave. vam, cousa a ti da Livrei-te atarefado. muito andavas tu mas eu respondi-lhe que massada, e a elle de perder os terrenos. —— Pplintra ~lj^roces<olo na casa do desembargador. Luiz Hata padeifõloruraa ao pae, que an^ consultas muitas e muitas fazer aproveitou o ensejo para udicial do filho renascimento este j com dava contentissimo a entrevista do desembardesde mezes dois de mais Eram já passadas encetado eífectivãmente tinha não Ernesto ainda e bacharel gador com o elogiava-o amigo, ao contrarias insinuações fazer a campanha. Longe de isso Fere tanto elogiava o por Ninguém muito na presença da moça. foi revêFernanda fria A , d'dle. principio nanda preferia a conversa do sólidas e espirito do qualidades dotes lando a pouco e pouco brilhantes era apenas mosca o chamava lhe primo como coração. A mosca morta, '.. :.; ê 148 JORNAL DAS FAMÍLIAS. escondida; rompeu o envolucro e começou a esvoaçarcom summa agilidade e graça. Ernesto tornou-se uma necessidade da casa. Elle sabia jogar todos os jogos desde o xadrez até ás prendas; discutia sobre litterátura, andava em dia com as modas, recitava ao piano, conhecia receitas de doces; era uma encyclopedia domestica e viva. Todos o queriam ao pé de si; e mais ainda que todos a noiva de Luiz. Ernesto dividia-se com discrição, mas sempre de maneira que a Fernanda coubesse quinhão maior. Gabava-lhe o rapaz todos os seus dotes naturaes, ria-se dos seus ditos, applaudia as suas observações, e com este systema foi ganhando terreno incalculável. Um dia percebeu que Fernanda tinha uma tal ou qual tendência poetica. Não se deteve ; entrou a fallar de luas e boninas. , — Oh! que bella cousa não seria, dizia elle, viver ao pé de um lago, dentro de um castello que só a imaginação poderia construir, ao lado de quem se ama, üvres ambos dos cuidados d'este mundo, divorciados da prosa, entre a terra e o céo ! A moça não respondeu ; estava embebida a ver o quadro que elle lhe pintava. Ernes4o-contínuüu Não lhe parece que a imaginação é um triste dom do homem ? * Talvez. Imaginar impossíveis, ou pelo menos, ambicionar gozos rarissimos na terra é a maior desgraça que o espirito pode conceber. Eu nunca pude comprehender Werther; Carlota não me apaixonaria, creio eu. Detesto o que vae terra-a-terra. Ernesto esquecia-se n-este ponto , que ainda na véspera fizera a apologia do amor com ervilhas e ensinara á mulher do desembargador a melhor maneira de comer costelletas de porco. JMas se el]e_se esquecia, não menos se esquecia «a prima de Luiz Fonseca. Quando elle acabou de desenvolver a sua theoria acerca do amor, a mpça quo olhava justamente para a lua, estando ambos á janella, suspirou e disse : Eu tenho ás vezes idéas phantasticas. Dizem que ha habitantes na lua; se os ha, penso que só lá existe a vida tal qual 'eu a imagino. Se ella é tão bella vista de longe, o que não será, vista de perto ? Talvez não. Oh! não me tire então este sonho ! Melhor é que lh'o tire a reflexão do que a experiência. A lua é a imagem exacta da felicidade; formosa de longe, vulgar de perto. JORNAL DAS FAMÍLIAS. 149 ~- Quem sabe? A astronomia, que nos tira as illusões. Eu também as tive , e ainda hoje as tenho, mas padeci e padeço. Padece ? Ernesto suspirou. A moça que parecia anciosa por ouvir confidencias, talvez para poder fazer as suas, repetio a pergunta. Ernesto abanou a cabeça. Não, disse elle, não fallemos mais n'isto. Prefere então a terra ? Prefiro o céo. Essas lembranças não eram céo nem terra; mas inferno com todas as suas chammas. A conversa continuou d'este modo entre os dois até que a mãe de Fernanda os veio interromper. Não tinha vontade d'isso a pobre velha, que que já no seu coração dizia ser muito melhor que a filha cazasse com Ernesto; mas era tarde e era preciso voltar para casa. (Continuar-se-ha.) o. o. O MENINO PREGUIÇOSO. o dia 19 de Janeiro de 1736 nasceu em Greenock, na Escossia, James Watt, filho d'uma familia laboriosa e pobre. Si em sua biographia não ha rivalidades de corte, outros obstáculos, outras rivalidades, n'uma palavra, outros obstáculos vieram desafiar seu espirito inventivo. Tão débil era sua compleição que passou sua mocidade encerrado n'uma alcova fechada. Quando se quiz mandal-o á escola conheceu-se que sua. saude o não permittia; teve pois de ficar em casa onde aprendeu a ler com sua mãe e a escrever e contar com seu pae. 0 isolamento sobre tudo obrigou-o á reflexão e a obrigação d'instruir por si mesmo desenvolveu a engenhosa curiosidade de seu espirito. Um dia foi encontrado em casa de seu pae deitado de bruços tendo diante de si o assoalho coberto d'arabescos brancos que desenhava com um pedaço de giz. Os que viram isso não suspeitaram o alcance d'esse trabalho, e julgaram dever caridosamente advertir o pae do menino. JORNAL DAS FAMÍLIAS. i51 _ Não fazeis bem em consentir na ociosidade de James, já tem seis annos e bem poderia ir á escola. Examinai de perto, respondeu o pae. Vio-se que o menino de seis annos desenhava figuras geométricas, e procurava uma solução. Fazia por si mesmo sua educação; exercitava sem mestre suas faculdades; e adquiria conhecimentos pouco a pouco a força (Testar só. A tia de James Wa.tt agastava-se enormente com as ociosidades do sobrinho. Nunca vi um preguiçoso como tu, dizia ella, passas horas inteiras sem dar um passo nem articular uma palavra. A excellente senhora não podia comprehender que uma hora de reflexão vale para o futuro cem vezes mais que dez horas d'um trabalho visível. Quando via algumas vezes o sobrinho trabalhar, era sempre desarmando brinquedos de crianças para reconstruir outras e d'um modo mais engenhoso. Um dia (quem o crera!) James passou uma hora inteira a sós com uma chaleira. A cada instante punha e tirava a tampa, collocava alguma cousa na passagem por onde sahia o vapor, contemplava o frêmito da agua, via-a evaporar-se, erguer-se ao ar e recahir em gotas sobre a polida tampa. N'essa oceasião a tia agastou-se seriamente. Não ha duvida^ exclamou ella, James nunca será nada. No entanto que era n'esse momento que o menino começava a mais bella cie suas obras, pois nascia n elle a concepção que um dia devia immortalizar seu nome. Desde então mudou de forma a chaleira dos rendeiros escossezes; hoje é a machina de vapor que arrasta os comboios;, a differença é grande; o principio é o mesmo : noutros termos Watt foi um dos inventores do vapor. Seu nome era obscuro; não tinha protectores nem capitães, mas possuia ura dom raro de que sentia confusamente a grandeza e a força, um dom melhor do que a nobreza, e mais precioso que os bens da fortuna porque as riquezas se exgotam e a nobreza não vem sempre de nós: tinha o poder da observação. Mais tarde comprehendeu que devera sua ventura a essa apreciável faculdade e por isso fez gravar sobre o crystal de seu sinete um olho aberto com esta única palavra : observar. Conhecia tanto a superioridade intellectual que esse instrumento interior lhe facultava, que por vezes tinha a faceirice d'excusar-se d'elle, por assim dizer. Esforçava-se por fazer passar por indolência sua tranquilla meditação : « Nao conheço senão dois prazeres, dizia elle , o somno e a preguiça.» 152 JORNAL DAS FAMÍLIAS.. Por muito tempo, desde a tia de James até os mais prespicazes sabias creram na indolência e fraqueza de James Watt. Mas voltemos ao assumpto. Só lentamente o poder de sua observação triumpho u de sua pobreza porque numerosos foram os obstáculos com munido d'extrae que teve de lutar. Attingindo aos dezanove annos já ordinários conhecimentos, capaz d'entrar nas carreiras liberaes, não achou diante de si uma só vereda aberta. Teve de entregar-se ao trabalho manual, o que o não desanimou. John Morgan, constructor d'instrumentos de mathematica e de marinha em Finch-Lane (Cornhill) necessitava d'um official. Watt entrou na casa de Morgan e poz-se duranto um anno a construir instrumentos de precizão. Em seguida foi estabelecer-se por sua conta em Glasgow com uma officina; mas foi-lhe prohibido ganhar por esse modo a subsistência. Uma manhã vieram dizer-lhe que não tinha esse direito e que seu estabelecimento não era tolerado. As antigas corporações d'artes e officios que reinavam em Glasgow sobre o commercio, não permittiam esse attentado contra seus velhos privilégios. Com que direito vinha esse intruso estabelecer-se entre os patronos dmdamente~ãüctõ^ Watt propóz uma indemnisação, mas foi repellido. Resignado, preparava-se para deixar a cidade, quando lhe propuzeram de trabalhar como operário nos barcos e para o serviço da Universidade de Glasgow. Aceitou immediatamente. Essa Universidade compunha-se n'essa oceasião d'homens modestos que se illustráram depois. Um dos que se interessaram pelo joven operário trabalhava então n'um assumpto novo e magnífico : a riqueza das nações. Era Adão Smith , cujas idéas fizeram o giro do mundo e fundaram a economia politica. 0 chimico Black, e o grande geometro Roberto de Shnson_, jiniram seus esforços aos de Smith para protegerem o moço que vivia honestamente, dando provas d'um caracter doce , e que possuía grande habilidade manual. Qual não foi sua admiração quando um dia perceberam que o joven operário era um sábio de primeira força 1 Entretendo-se com elle desçobria-se, sob o aspecto e o trajo d'um trabalhador manual, um homem d'um espirito elevado. Foi essa descoberta que o libertou dos embaraços das corporações; e foi ella que tornou sua loja o emprazamento livre e simples de todos os conhecimentos. Os estabelecimentos foram esquecidos porque, discípulos e professores, vinham ter com'aquelle que chamavam : o engenheiro. Communicavam-lhe suas duvidas, suas indagações, * JORNAL DAS FAMÍLIAS. 153 seus embaraços scientificos; e elle os recebia todos com uma candura e uma paciência inalterável. Compenetrava-se do que se lhe dizia, fixava a idéa, ou a questão em seu espirito como um assumpto novo e precioso em torno do qual exercitava de boa mente sua reflexão. Voltando-se de nova a ter com elle achavam-se as duvidas esclarecidas, as questões simplificadas, e Watt attribuia essa honra aos que haviam provocado suas indagações. A admiração d'aquelles que obsequiava cedo grangeou-lhe uma nomeada e deu-lhe um prestigio singular. Surprehendia ver reunidas no mesmo homem a destreza do espirito e a das mãos. Comparavam a intelligencia do Watt á tromba do elephante dizendo : do mesmo modo que a tromba suspende por um movimento regular, flexível e seguro, uma penna, ou um enorme pezo, a perspicácia e destreza de Watt se applicam diariamente, sem esforço, quer a fabricar instrumentos de precizão, quer a resolver os mais abstractas problemas. Nada podia suspender sua actividade; trabalhava sempre ; não conhecia outra lingua além da sua; nunca tivera mestres e faltava-lhe o tempo para estudar. Pertencia todo á lima e ao cinzel que o faziam viver, mas restava-lhe a noite. Como si as difficuldades dessem maior impulso a seu espirito, depois de consagrar o dia aos trabalhos da ofíicina, de noite abria um livro onde ensinava a si mesmo o allemão, o italiano, ou outra lingua; d'alli passava ás questões scientificas e para distrahir-se inventava alguma cousa. A ausência de mestres desde a infância cedo o habituara a servir-se de sua própria vontade como d'um mestre sempre prompto e pouco dispendioso. Bem vedes que não lhe foram inúteis os obstáculos que lhe oppuzeram pois que refugiando-se na Universidade achou-se, não ao nivel dos operarios, mas sim ao dos chefes da sciéncia. victoria colonna. •M*M****MMMI*«.™.3--«___-_--»w™^ MOSAICO. ANECDOTAS. Um sujeito, que fora inutilmente a Roma em busca d'um chapéo de cardeal, voltou para sua cidade extremamente indefluxado, o que fez dizer a alguém que não era para admirar esse resultado visto que tinha voltado sem chapéo. A senhora Quinault, faltando dvum sujeito que tinha o costume de repetir cem vezes uma idéa que achava espirituosa, dizia : esse homem não abandona uma idéa bonita emquanto não tenha feito d'ella uma asneira. Contava o cardeal Mazarino que Urbano VIII tendo soffrido algumas ingratidões d'uma familia em cujo seio contava-se um santo recentemente beatificado exclamara : « Questa gente e molto ingrata 1 io ho beatificato uno de loroparenti che non lo meritava. » Esta familia e muito ingrata beatifiquei um de seus parentes que não o merecia. Plutarco comparava os ouvidos d'um curioso ás ventosas que attrahem . a si tudo o que ha de ruim. JORNAL DAS FAMÍLIAS. 155 Uma senhora vendo sobre um relógio de mesa, esculpidas duas figuras abraçadas, symbolisando a paz e a justiça disse a uma amiga que lhe estava próxima : « Vê, ellas se abraçam e despedem para nunca mais se encontrarem*» Um moço casado de pouco tempo tinha de ser apresentado a vários não conhecia, para esse fim seu parentes de sua mulher os quaes ainda de esquecendo não se reunio; os onde casa cm sua um dou jantar pae recommendar previamente ao filho dc não fallar senão no caso de ser-lhe da absolutamente impossivel, pois temia que viessem ao conhecimento parvoice de seu novo parente. Ao jantar, um tio da noiva vendo que o moço só respondia por monosyllabos a todas as perguntas que lhe eram dirigidas, disse baixo ao seu vizinho, mas de modo a ser ouvido pelo noivo; parece-me que meu novo sobrinho c um grande parvo. Meu pae, disse o moço immediatamente, agora que já sabem quem eu sou, acho que posso fallar, não é assim? os Escuso dizer-vos que o pae não achou o dito tão espirituoso como mais. horas Pedro, disse um barão feito ás pressas a seu criado, vai ver que são no relógio solar. a hora ver hei de como noite; é criado, o respondeu barão, Mas,* senhor que só o sol pode marcar. Não importa, tornou-lhe o barão, leva uma vela accesa. e ás vezes lhe seu en dormir criado quarto o fazia barão O mesmo perguntava : Pedro, eu estou dormindo? Está, sim senhor. Está bom. PAULINA PHILADELPHIA. -ÉSÉ- 9gS£*&3- POESIA. SIMPLES ENGANO. i Um dia — era quinta feira — Fui á rua do Ouvidor : Ia vagar sem destino, Ver a turba galhofeira Que alli anda com fervor Vagando tambem sem tino. Aqui andava uma moça Com um temível topete Maior do que o Corcovado ; Outra além, em vez de tufo, Trazia emsiumtufão-y. Outra, á frente d'uma troça Dejanotas seis ou sete, Vai com o rosto pintado, E tendo o cabello rufo Faz d'um preto ostentação; Outra distribúe olhares E sorrisos aos milhares... Ia vendo estas fraquezas Das fluminenses beldades, Quando súbito espiando JORNAL DAS FAMÍLIAS. 157 P'ra dentro da Notre-Dame^ Vejo dois corpos garbosos, (Pareciam de deidades) Gom vistosas polonezas. Não posso logo, parando, Me conter, que nao exclame : cc Quão bellos serão os rostos D'aquelles corpos airosos! » Ergui a vista; quem diz? — Eram cabides expostos Aos olhos dos curiosos. x. s\\\\Y \\G»*—^ ^Soxv.;*:! ,!3i;?.• i'i; y\-[»'ir 1 x^\7^ XV* li!'"'''''IfUI ' .«i-^x^TC-XvV* KS fã '7,111. M • «?**! MODAS. DESCRIPÇÃO DO FIGURINO DE MODAS. Primeiro vestuário. — Trajo de panno de seda cinzento. Saia com pregas grandes atraz. A frente é guarnecida com franzidos em forma de leque; o tudo enfeitado com guipure de Arlet. Botões e viezes de setim azul.. Segundo vestuário. — Trajo para noiva. Vestido de faille branca. Corpinho-casaca aberto na frente e arregaçado atraz; avental composto com viezes bordados e renda. Saia guarnecida courf&ttros; TRABALHOS. EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS E TRABALHOS. NM. — Véo para poltrona ou ventarola. Tira-se contra-prova d'este bomto desenho sobre papel transparente que se engruda sobre um pedaço de oleado ou fazenda encorpada e tesa. Alinhava-se depois cordãozinho inglez do tamanho conveniente seguindo todos os contornos do desenho. As barrinhas se fazem nos lugares indicados, e estando tudo concluído corta-se o alinhavado que segura o bordado no papel. ' O escudo que tem um pavão , borda-se separadamente, e cassa, de setim ou de tafetá de côr. No nosso modelo, o escudo pode ser de era de setim encarnado; o bordado de retroz de cores naturaes; as uvas de verde chro ¦aopasse; a folhagem verde mais escuro, em ponto de armas; o pavão em ponto lançado de retroz verde e azul; o cocar e as manchas mais escuras da p lumagem em flos de ouro. Alarga lira em pontos encaxilha o escudo era de cordãozinho inglez muito largo. Esta obra, que depois de acabada, tem JORNAL DAS FAMÍLIAS. 159 como véo de poltrona ou ventarola. servir elegância; c pode muita graça de seda de côr irmanada com transparente um sobre ella caso põe-se N'este o nanei da sala. trabalho que se faz em Este almofada. — de pequeno parle Quarta |of. modelo era de panno escuro bordado Nosso lindíssimo. c horas aisümas vivíssimas. A obra toda é em ponto lande cores retroz de cordãozinho com linhas sem ângulos em ponto de chaiAs um angulo cada ponto. em cadoe a linha que cerca nelle' os dentes que formam como um franjado pequeno muito frouxo. O salpico é feito a obra toda , se fazem em ponto de festão com pérolas pequenas ou em ponto prendido. chainette e ponto N° 3. — Desenho para chinella. A obra toda é em ponto lançado, com retroz de cores vivíssimas. e cordãozinho. No .4 __ Debuxo para canto de lenço. Plumelis era de panno azul, bormodelo Nosso almo de — fada. 5' N° Quarta parle do desenho por um angulo cada em dc ouro, preso cordãozinho dado com fácil como elegante. nonto dc retroz còr de milho. Este bordado é tão a N" 6 - Desenho para a parte central da almo fada n° 5. Querendo que nos ângulos como desenhos d'esses bordam se rica quatro mais obra seia a obra , borabreviar e almofada de para n'csta quarta parte está indicado O bordado se faz da maneira almofada. da centro no desenho esle dar-se-ha 6XLl°7a *JDesenho tapetes de candieiro. A obra ou alfinetes de almofada para de retroz de côr cordãozinho de lançado, c chainette ponto toda é'em ponto sobre o fundo. sobresahindo viva bordado orientai se faz de trabalho feto costnm baqmnho para Hff b e corretroz de é floche bordado o setim ou preto; sobre cachemira, panno de re roz dobrado. só um de é da ponto lado cada grega Subo de our irmãcordãozinho com borda-se c acolchoado tafetá ou Foi-ra-se com setim . nado com os matizes do bordado. nome.ou mium substituída ser por pode lembrança k\X™ (souvenir) ciaes. O saquinho se fecha com um pequeno botão. _ etc. Ilhós e criancinha, vestido fina, para roupa Entremeio para N° 9. htt -!_U» - «*«"-•Nosso ra;del° erid_? âr;s £_*__! as Les douradas, e ouro de pequenas pérolas bordado com cordãozinho "tí^Cl^a — en * bordado ori«.«al. Nosso modelo de côr»bnd«£¦*£ de oahemirfr„a bordada com retro, f_hdc™P^JW as' *£ o e a fantasia gosto fundo. N'estes trabalhos, e po eatrctanl^armonMdjs e ciso que as cores sejam diversificadas to o conforme go ouro de fios alguns tambem ajuntar Q bamJu f^™mQ de sei . obra, estende-se ella sobre a ventarola que podeforra se com da côr madeira; indica o desenho ou dc qualquer outra do fundo. . . . naKr_rin acabada. de depois N° 12. — Debuxo da ventarola N° 13 até 20. — Nomes e iniciaes ornados. 160 JORNAL DAS FAMÍLIAS. EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE MOLDES. VERSO DA PRECEDENTE DE ESTAMPA BORDADOS. ' ¦. .. ,,.¦._¦... ¦.'¦¦ ' ', ;. ¦.-.-'.- . . .'.¦.¦. - Molde da confection do primeiro figurino da gravura de modas. N° 1. — Frente* O molde está dobrado na linha de pontos por falta de lugar. Corta-se separadamente o pedaço dobrado e ajunta-se ao outro. Os galões, dos quaes dois só estão indicados por pontinhos, e os botões , devem ser continuados até ao fundo na mesma distancia. N° 2. — Costas. Os galões não estão indicados; seguem a mesma direcção . que os da frente. * N° 3. — Pequeno lado que se cose até ao fundo dos dois lados. . N° 4. — Manga que se corta de um pedaço só; a parte inferior está indicada; os galões continuam até ao fundo na distancia e lugar dos dois que estão indicados na parte superior da manga. Essa guarnição pode ser de renda branca, como na nossa gravura ou de passamanarias com pérolas ou sem ellas, ou de galão como o debuxo que damos na mesma estampa. N° 5. — Debuxo da confection guarnecido com galões de lã. N° 6. — Alphabeto grande para lençóes, toalhas, etc. A TRANSFIGURAÇÃO (POR RAPHAEL). GRAVURA SOBRE MADEIRA. Este quadro, a expressão mais elevada do gênio de Raphael, foi encommendado ao afamado artista pelo Cardeal Júlio de Medicis, que foi depois Papa com o nome de Clemente VIL O painel, que devia servir de ornalo na Egreja de Narbonna (sede do arcebispado do prelado), ficou em Roma e não sahio da cidade eterna até o anno de 1797. N'essa época, Napoleão Bonaparte, general en chefe dos exércitos francezes victoriosos, transfcrio a obra prima de Raphael para Paris; porém, depois dos acontecimentos de 1815, o quadro foi restituido e collocado de novo na galeria do Vaticano. MlA*'% Il , At i -V Paris. - Typographia de G. Chamerot,rua dosSantcs-Padres, 19.