DANIEL.
-€0?mímtóü7
VI,
argumento de Daniel e a noite, que é sempre boa
conselheira, dissiparam completamente a idéa de
suicídio no espirito de Julio. No dia seguinte
accordou o rapaz vexado com os acontecimentos
da véspera. Esperou-o Daniel que lhe perguntou
â>* fe
pela saude do espirito, ao que lhe respondeu
Julio que estava curado, accrescentando :
Mas não creio que fosse inútil o meu projecto.
Porque?
Porque ganhei um amigo.
Dizendo isto, o moço abraçou Daniel com toda a effusão; o perigo
estava passado.
Depois do almoço, sahiram ambos, um para voltar á casa, outro para
ir ao escriptorio.
Não se separaram porem, sem promessa reciproca de se visitarem.
Fácil era travar-se entre os dois rapazes uma solida amizade, e effectivãmente a pouco e pouco foram-se affeiçoando ató que acabaram na
maior intimidade, antes de completar-se um mez depois dos acontecimentos acima narrados.
OKIMIr Ml
T. XIII.-Maio de '87o.
5
130
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
oceasiao
segunda
a
foi
Daniel
convidara
O jantar para o qual Azevedo
n'¦¦'...
de se encontrarem o advogado e Carlota.
AM
,,m
um
eia
Daniel
conversa.
larga
D'esta vez travou-se entre ambos mais
no meio de tantos palradores
encontrar
de
espécie
rara
bom conversador,
^Cariota
cheia de senillustrada,
tanto
algum
era amável, espirituosa,
,,
timento e ingenuidade.
diria a ella,
o
nao
mas
a
era
pérola,
Dizia o velho Matheus que ella
metter-lh a a
mesmo
o
valia
que
o
que
nem ás irmãs; dizia-o a Daniel,
j_^u
da rapariga fizesse
tio
velho
o
O moco não precisava porem que
a impressão interdia
n'esse
respeito;
esse
a
já
nenhuma insinuação
vida do advogado,
da
horizonte
no
modo
que
rompida, continuou por
~
começou a levantar-se o sol do amor.
e ate pelos
consignada
poetas
pelos
expressão
é
uma
amor
do
O sol
lua, que inllue
uma
simplesmente
é
amor
o
prosadores. De ordinário
marés enchentes e
as
n'elle
coração
do
mar
produzindo
n'este mysteriso
vasantes.
A maré do coração de Daniel começava a encher.
E Carlota?
adivinhar que
mas
cousa,
mesma
podia-se
a
sentir
de
deixava
vão
Em
não era o primeiro amor que tinha em sua vida.
se algum amor
acontecimentos
que,
d'estes
chronista
ao
Quer parecer
não era da força ao
sobretudo,
e
era,
fraquissimo
houve anteriormente,
_¦
.
de Daniel.
irmãs de
duas
as
mas
cousa;
deram
Matheus
pela
, Nem Azevedo, nem
entre os
seja
o
descobriram
que
eram,
quer
Carlota, como mulheres que
tres.
dois, o que foi objecto de conversas e risos entre as
Já sei que estás presa, dizia Adelaide no dia seguinte.
Eu? perguntava ingenuamente Carlota.
Tu sini, acudio Luiza.
Presa aquém?
Ora!
Francamente, não sei.
; — Pois não ha de saber 1
, — Não sei.
Ora, o advogado, disse Luiza rindo.
Carlota vae pôr uma demanda, acudio Adelaide.
Eu não lhe opponho embargos, tornou Luiza.
i
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
131
— Vocês querem zombar comigo !
. — Qual zombar! é muito serio.
Estas e outras palavras diziam as moças entre si, e Carlota continuava
a negar, não como quem deseja convencer, mas como quem quer deixar
adivinhar a verdade sem confessal-a. ¦
Daniel voltou á casa de Adelaide dias depois. Imaginem como seria
recebido, que risinhos da parte das raparigas, e que enleio da parte de
Carlota.
A conversa foi entretanto amigável e geral. Tanto era a attençâo de
Adelaide nos olhares dos dois namorados, que Azevedo pôde conversar
mais affoutamentc c ato chegou a proferir um discurso, ao qual sua amavel esposa apenas oppoz um levantar de hombros e um gesto de aborrecim en to.
Dankl era um perfeito calouro ; acanhava-se quando se achava com
Carlota um pouco afastados dos outros, e quando se achavam todos
presentes, ficava com os olhos presos n'ella.
Carlota não sustentava o olhar d'elle, mais talvez por modéstia ou por
falta de vontade, do que por politica.
Tinha essa situação alguma cousa de má em si ? Cousa nenhuma; mas
a verdade é esta. Parece que o amor das mulheres, quando ainda não é
paixão louca, tem umas reservas cujo segredo ninguém conhece.
Pela minha parte, conheci uma mulher que amou profundamente um
homem. Era um delírio ; mas um delírio que só se revelava
quando os
dois se achavam a sós. Quando porem estavam n'uma sala não havia
estatua mais fria nem insensível do que ella, que dizia ao namorado
cousas tão indifferentes como se elle não fosse mais que um freqüentador
da casa.
Estudem esse phenomeno.
Carlota era mulher, isto é, tinha o talento de todas as mulheres n'esses
casos. Era capaz de disfarçar a ponto que ninguém o
perceberia.
Não se comprehende muito essa tartufice do bem, essa hypocrisia de
um sentimento tão puro e tão justo. O caso é que ella existe, e
pois'que
existe devemos contar com ella.
A hypocrisia de Carlota chegava a enganar o noviço Daniel que, ás
vezes duvidava de alguns signaes favoráveis anteriores. Mas para logo
vinha um olhar da moça dissipar as duvidas e mais tarde um gesto crealas outra vez.
Daniel continuava a ajudar o velho Matheus na obra com que este
queria enriquecer as lettras nacionaes.
d32
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
estavam os dois
Uma noite Daniel interrompeu o silencio em que
se Carlota ia casar.
occupados com o trabalho para perguntar ao medico
cousa,
semelhante
de
sabia
não
medico
ao
espantou
que
A pergunta
d'elle.
nem era acontecimento que se desse sem consentimento
Para mim é novidade, respondeu Matheus. Porque' diabo me pergunta isso ?
Porque ouvi dizer hoje.
Continuaram a trabalhar.
D'ahi a alguns minutos, perguntou outra vez que idade tinha Garlota.
Matheus respondeu sem levantar a cabeça do papel em que escrevia um
capitulo acerca de Manco-Capac»
Um quarto de hora depois Daniel levantou-se para accender um charuto, e aproveitou o ensejo para dizer que Carlota era bastanteJns-„
truida.
. Aqui o velho Matheus largou a penna, inclinou-se para traz, e disse
sorrindo ao seu collaborador :
Que diabo é isso, Daniel ? É a terceira vez que você me falia hoje
em Carlota.
Nada mais natural: é de todas as suas sobrinhas a mais sympathica...
Justamente, disse Matheus rindo; a questão ó de sympathia.
Parece-lhe isso ?
É cousa evidente.
Daniel sentou-se; e no fim de alguns segundos disse sorrindo :
. — Confesso que sympathiso com ella. Ha algum mal n isso?
-; — Nenhum; ha todo o bem. Quer-me para alguma cousa?
Para nada; eu sympathiso; mas não posse dizer mais nada do que
isto, e nem sei se ella sympathisa também. Em todo o caso, o segredo não
passará d'aqui.
Daniel foi franco por caracter; mas independentemente da vontade de
ser franco, mentio a Matheus mentindo-se a si mesmo. 0 que elle sentia
era mais do que sympathia; era já amor.
A prova é que, saindo de casa de Matheus, não se furtou ao desejo de
ir passar pela porta de Carlota , apezar do desvio que era preciso fazer.
Esteve diante das janellas da casa alguns minutos e seguio para lá.
. Regra geral: sempre que um namorado pára de noite diante da casa
da mulher dos seus pensamentos, está profundamente tocado pela aza do
amor.
Era o caso de Daniel.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
133
No fim de alguns minutos, o rapaz seguio para casa absorvido nos seus
pensamentos.
Ao entrar porem no Rocio, vio parar a pouca distancia um tilbury,
d'onde sahio üm sujeito que caminhou para elle.
Era Júlio.
Donde vens ? perguntou Daniel.
Os dois já se tratavam com intimidade.
Venho de um baile, respondeu Júlio.
E quero dar-te um abraço. Venha de lá.
Porque? perguntou Daniel ao rapaz dando-lhe o abraço pedido.
Estou curado completamente. Acabo de vel-a no baile d'onde venho.
Nem um estremecimento sentir nem-^-menet^^
com a mesma indifierença com que olharia para os grades d'este jardim.
-'Bravíssimo ! exclamou a advogado. Faltava-te esta prova; está verdadeiramente curado.
E quando eu me lembro que , por aquella mulher, hoje tão nulla
para mim, ia eu sacrificando a minha vida! Agora é que aprecio melhor
o serviço que me prestou.
Nâo fallemos nisso.
Fallemos sempre; se nao fosses tu, teria eu commettido a maior
tolice d'este mundo. Ah! se eu podesse pôr isto na gazetilha do Jornal do
Commercio, a laia de remédio para o mal das videiras. D'onde vens tu?
Da casa do doutor Matheus.
Ah! aquelle amigo que me apresentaste hontem em íua casa.
Justo.
Bem, eu te acompanho até a casa.
Júlio mandou o tilbury embora, e seguiram os dois até a casa do Daniel, aonde Júlio decidio-se a passar a noite.
¦':
VIL
0 encontro de Júlio com a antigo namorada foi a verdadeira pedra de
toque do estado do coração do rapaz. Se não fosse Daniel, a bala teria
esmigalhado a cabeça do infeliz namorado, sem a consolação extrema
(doce e rara consolação) de ser longamente chorado.
O romancista pode ser indiscreto sem offensa dos personagens da obra;
fiquem pois sabendo os leitores que a ingrata Cecília não valia a pena do
134
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
sacrifício de Julio. Não passava de uma moça caprichosa. Mas quasi semnão valem a pena.
pre sacrificam-se os homens por aquellas que
Ganhara em todo este negocio o marido de Cecilia, sujeito de boas
bens de raiz e uma
qualidades, figurando entre ellas uma riqueza em
complacência creio que de raiz tambem. 0 caso é que Cecilia gastava
exactamente como se possuísse o dobro.
Eu poderia dizer muitas outras cousas n'este sentido se a pessoa de
Cecilia e de seu esposo tivessem de entrar na acçao d'esta veridifca novella; mas não, foram apenas um incidente.
Convém ao caso saber que Julio estava definitivamente curado, o que é
realmente uma virtude mais para o romance que ainda não se manchou
com"uma"gôta drsatTgue sequer.
Julio conhecia Azevedo e ató se dava com a familia d'elle, a cuja casa
ia freqüentemente antes da tentativa do suicídio. Depois d'isso não voltara lá, o que não deixara de ser notado por todos. Estaria doente? perguntára Adelaide; e esta pergunta queria dizer o mesmo que Azevedo
fosse indagar do estado do amigo.
*" Azevedo foi á casa de Julio e soube
que este se achava perfeitamente
bom ; apenas acontecia dormir algumas vezes tora.
Algum romance, pensou Azevedo.
Voltou com a resposta que não era nenhuma.
Quem é esse Julio ? perguntaram Carlota e Luiza a Adelaide.
Tanto Luiza como Carlota viviam com sua tia, outra irmã de Matheus,
e apenas iam de quando em quando visitar a irmã.
Julio e um amigo de Azevedo, um excellente moço , muito amável
e serviçal. Coitado! teve ha tempos uma grande paixão.
Conte lá isso! disse Carlota.
Sim? É assumpto que te interessa?
A mim, como a todos.
Mais a ti.
Deixemos-nos de graças.
Uma grande paixão, continuou Adelaide,
por uma moça que..,
casou com outro.
Cruel! disse Carlota.
Quem sabe? acudio Luiza; talvez
gostasse mais do outro.
Justo!
N'isto entrou na sala o velho Matheus, que ouvira do corredor toda a
a conversa das tres sobrinhas.
Ora vivam lá as tagarelas I Corn
que então conversavam de namoro.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
135
Fallavamos do Julio.
Onde anda elle?
Ninguém sabe.
Matheus sentou-se, respirou ruidosamente, tirou a boceta e tomou uma
repetidas vezes, limpou
pitada. Depois passou o lenço dobrado pelo nariz
a camisa com a ponta do lenço, crusou as pernas, e inclinando-se para
traz, soltou estas palavras :
Com que então a Carlota tem motivos para interessar-se em questoes de namoro ?
As duas irmãs de Carlota olharam para ella sorrindo ; ella perguntou
com affectada simplicidade :
Eu, meu tio?
_—Ijuas irmãs disseram isto ha pouco; eu ouvi tudo.
Brincadeira dellas.
Então visto isso...
Pura brincadeira
#
O velho sorrio velhacamente, e disse :
Pois, senhor, eu cuidei que o meu dedo tinha adivinhado.
O que ? perguntaram as tres.
Que amanhã temos chuvaijrespimdeu_AJLelhoJ_
As tres raparigas riram muito da resposta do tio, que pegou na mão de
Carlota e entrou a brincar com ellã.
N'este momento entrou Azevedo na sala.
Ahi vem o doutor Daniel.
Ah! disse o velho.
'no tio
As duas moças olharam para Carlota, esta tinha os olhos fitos
que não tirava os seus d^lla.
Eram sete horas da tarde.
As duas moças foram receber Daniel á porta da sala; Carlota ficou ao
lado do tio, em pé, com a mão entre as d'elle.
Matheus aproveitou os poucos segundos em que se achou só com a
sobrinha para dizer-lhe em voz baixa.
Não te palpita o coração ?
Carlota não respondeu.
Basta! disse o tio sorrindo.
Entrou Daniel.
Daniel comprimentou as duas senhoras que o receberam á porta
com Azevedo e foi apertar a mão a Carlota que deu alguns passos para
elle.
136
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
A mão de Daniel tremia como a de uma virgem que pela primeira
vez falia de amor a um namorado.
'aqui,
disse Matheus sem
Ora, mal sabia eu que nos encontrávamos
se levantar.
É verdade, respondeu Daniel. Eu tambem não contava com esse
prazer.
Daniel sentou-se, e a conversa tornou-se geral, Matheus observou os
acontece, os nasempre
Como
namorados.
dois
dos
olhares
os
e
gestos
morados suppunham-se extranhos ao mundo e era fácil surprehenderlhes de quando em quando um olhar longo e profundo.
Oh! os olhos! Quem ha que tenha amado e não saiba que os olhos são
os primeiros e mais fieis mensageiros do amor? Estão duas creaturas
nrfuffiãsi^^
nao podem fallar, mal poderá trocar duas palavras de quando em quando
baixinho; mas os olhos lá estão firmes no seu ponto, semelhantes a
duas estações de telegrapho communicando estes velhos e sempre novos
telegrammas:
« Como te amo! »
(( E eu ! »
¥ Como és formosaTF
« Ai! vidade minha alma! que gente importuna!»
(( O deserto comtigo vale o mundo ! »
« Seria o céo! seria tudo. »
Por quanto, quando duas creaturas se qiferem verdadeiramente todo o
mundo para ellas ó nada; melhor fora que não existisse, ou existindo
longe d'elles. 0 mundo d'elles só tem dous pólos : os olhos de cada
um.
Tal era a situação de Daniel e Carlota. É possivel que esta tivesse tido
algum namoro antes; mas Daniel era a primeira vezque amava; abriamse-lhe viva e irresistível a fonte dos grandes affectos; era um amor que
começava lento e tênue e tomava cada dia maiores proporções, como os
rios que começam por um fio d'agua e acabam caudaes e impetuosos.
Por isso mesmo que amava pela primeira vez, Daniel sentia-se acanhado diante de Carlota; esta como mulher que era, sabia desfarçar
mais; não tanto porem, que o velho tio não percebesse que a chamma
de Daniel (estylo antigo) era correspondida.
O velho Matheus alegrou-se com a descoberta; amava a sobrinha e o
rapaz; queria vel-os unidos; achava que não havia outro
par mais completo.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
137
Encarregou-se elle mesmo de aproximar os dois
jovens que viviam
ainda um pouco extranhos. A conversa era excellente meio
para isso.
Quando Daniel sahio da casa de Azevedo, levava a certeza de
que era
correspondido por Carlota.
Sahio lépido e conversador. 0 velho sorrio vendo o rapaz assim
contente e feliz; Daniel deu-lhe o braço e contava-lhe mil historias,
cada
qual mais indifferente ao assurnpto, misturando porem o nome de Carlota com ellas, e tão disparatamente,
que era um regalo para o interlocutor.
Daniel passou o resto da noite com o medico; começavam a trabalhar,
mas o moço sentia-se tão pouco disposto, interrompia o trabalho
a cada
momento com uma pergunta alheia ao assurnpto
que o historiador das
antigüidades americanas achou melhor
parar alli.
Porque?
perguntou Daniel.
Não estou disposto, respondeu velho.
o
Bem, trabalharemos amanhã, respondeu
o rapaz.
E sahio.
''¦¦-"¦'¦¦'¦¦¦•¦'..'¦
VIII.
N'essa noite, Daniel não poude dormir.
Deitou-se, mas debalde fechou os olhos; o somno fugia-lhe; o
que
lhe apparecia era a moça, sempre bella, sempre os olhos n'elle.
Daniel levantou-se depois de uma hora de esforços inúteis.
Sentou-se para ler, mas os olhos corriam-lhe
pelo papel, sem transmittir á alma as idéas escriptas.
Se fosse poeta escreveria com certeza alguns versos; mas não o era.
Que importa? A prosa, quando tem de exprimir amores, não é tambem
poesia?
Daniel entrou a rabiscar papel, e rabiscou durante duas horas, até
que
o cancaço operou o milagre de produzir o somno.
Foi deitar-se.
No dia seguinte a primeira visita que teve no escriptorio foi a de Julio,
0 ex-suicida vinha convidal-o para um passeio á rtoite
pelos arrabaldes
da cidade, em companhia da familia de Azevedo.
Azevedo encontrara a pouco antes com Julio e convidára-o
para ó reterido passeio.
O convite era temerário da parte de Azevedo; todos sabemos
que o
joven marido de Adelaide fazia em casa os papeis de comparsa.
T. XIII.
'
5.
138
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
Effectivamente quando Azevedo disse a Adelaide que encontrara finalmente o Júlio e o convidara para um passeio, recebeu uma resposta nedeixar
gativa. Adelaide, porem, negara para ceder mais tarde; não queria
um aresto de obediência. Tinha curiosas idéas aquella moça.
Agora perguntarão os leitores com que autoridade Júlio convidava ao
advogado. Seria amizade que não vê conveniências? Ou leviandade que
não vê as praticas ordinárias da vida? Seriam ambas as cousas.
O que convém saber é que Daniel, não tendo recebido convite do resto
da familia, declarou que não iria.
Júlio pendia a outros assumptos.
Reparou que Daniel tinha dormido pouco; via-lhe isso nos olhos; Daniel
não contestou.
Alguma paixão? perguntou Júlio.
Não, respondeu Daniel sorrindo.
Mas aquelle « não » aquelle sorriso queriam dizer que sim. Júlio comprendeu e sorrio também.
É quanto basta, disse elle.
O que é que basta?
Nada.
Seguio-se algum tempo de silencio.
E tu? Tens alguma paixão nova?
Não. E se a tivesse nâo t'o diria.
Porque?
Porque a confiança quer confiança : é um capitulo de Victor Hugo
;
e antes de sel-o, era já uma verdade cravada no espirito humano.
Não entendo, respondeu Daniel.
Tinha entendido.
E simples. Tu tens com certeza alguma cousa
que te preoccupa ,
uma mulher, um amor. Sou ou não sou teu amigo
.
~ Sem duvida.
É nega-me a confiança?
Não fanego.
Então...
. — Ouve. Eu não quero expôr-me a uma decepção; amo, confesso
;
mas a quem? Isso só poderei dizer-fo um dia em que souber
que sou
amado.
Essa agora...
E um capricho; mas deixa-me assim.
Promettes contar-me tudo ?
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
139
Na hypothese figurada, prometto.
A hypothese ha de realisar-se, disse Júlio levantando-se e batendolhe no hombro.
Espero ao menos!
Já é muito : uma esperança! Para alguns é tudo !
Estás hoje philosopho!
Tenho o direito para sel-o : sabes que venho do outro mundo.
N'esse momento entrou Azevedo no escriptorio.
Vinha convidar Daniel para o passeio á noite.
Daniel prometteu que iria.
Azevedo fez um pequeno romance acerca da maneira por que conven-cêraLAmulher da necessidade do passeio, concluindo que Adelaide era o
typo da doçura e da bondade da esposa; adoptava-lhe todas as vontades.
Daniel e Júlio trocaram um olhar.
Os dois sabiam já que Azevedo tinha dois fracos : o de ser dominado
pela mulher, e o de dizer a todos que elle era quem a dominava.
0 passeio verificou-se , tomando parte n'elle as tres irmãs, Azevedo,
Daniel, Matheus e Júlio.
Foram ao Andarahy.
Nada melhor que um d'estes pass*eios para estabelecer intimidade.
Daniel poude estar algum tempo a sós com Carlota. Ambos estavam
enleiados. Daniel não achou uma só palavra para dizer-lhe; mas olhava-a
tanto, e ella para elle , que a conversa foi mais eloqüente do que se fal"
lassem muito. '
.
Quando as suas duas irmãs se encontraram uma vez por acaso, não poderam resistir, e apertáram-se muito uma á outra.
Que mais poderiam dizer!
A noite foi por tanto de rosas para o joven advogado, que sonhou logo
com o ideal da vida : casado com ella e vivendo n'uma casinha isolada
do resto do mundo.
IX.
Este capitulo é um parenthesis.
Quem quizer seguir o romance pode passal-o por alto.
Já attendi acima na facilidade que teem os namorados de excluírem o
mundo de todos os seus sonhos. 0 mundo devia agradecer-lhes esta sem
ceremonia.
Pois que! Ha de haver no mundo uma cousa que se chama politica, e
140
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
acompanhada de outras cousas chamadas eleições; os governos hão de
andar em perpetuo conflicto; o Oriente ha de andar sempre a jogar as
cristas com o Occidente; a America com a Europa; a guerra ha de ser
sempre o divertimento dos povos; ha de haver uma cousa chamada gloria
militar; e os namorados terão sempre o animo e a ousadia para se separarem d'esses nomes todos, e dizerem que o mundo está nelle, e sonharem sempre com uma casinha isolada, um ninho , o céo por cima, e as
flores em roda.
Oh 1 namorados!
Nada são aos nossos olhos as lutas do homem, com a penna e a espada,
a espada que manda a gente para o outro mundo, e a penna que atassalha quando não convence, e conspurca quando não discute?
Namorados soisl Não vos importaes com a existência de uma camara
e de um senado e de um governo, com as eleições, com as urnas, com os
jornaes, absolutamente nada!
Pode ser que estej aes perto do céo, mas com certeza não estaes na
terra.
Miseros!
X.
O velho Matheus levantou-se um dia convencido de que não ha collaborador possivel n'um rapaz que está namorado.
Daniel continuava a ir ajudal-o; mas nem era com a mesma assiduidade, nem com a mesma àttenção.
A litteratura estava ameaçada de uma perda ou ao menos de um adiamento. 0 velho Matheus, que não era ridículo, tinha apenas o fraco
de acreditar sinceramente n'esse desastre litterario.
_.
*
Entendeu por tanto, que era necessário precipitar os acontecimentos,
e casar Daniel com Carlota.
A musa da historia descia do seu pedestal para exercer o officio de
casamenteiro.
Por onde principiar ? Evidentemente pela sobrinha.
Matheus foi ter com ella e sondou-lhe o coração. A moça negou a
principio. Eslápara nascer mulher que confesse o amor que tinha logo á
primeira vista. Mas o velho Matheus que já contava com o
pouco resultado
dos reconhecimentos á força, deu batalha campal e tomou a
praça.
Pode-se affirmar que aquelle foi o mais agradável de todos os seus
vomitorios.
JORNAL DAS FAMILIAS.
141
Pois se gostas do rapaz, disse Matheus, casa com elle.
A moça baixou os olhos.
.¦•¦."..
N'este ponto, a leitora deixa o livro e faz mentalmente um comprimento ao autor, e a verosimilhança das suas scenas.
Abaixar os olhos n'uma situação cTaquellas é cousa tão certa como a
paschoa depois da semana santa.
O tio de Carlota sahio promettendo que seria o medianeiro no negocio.
Dirigio-se com effeito a Daniel,
advogado ouvio contentissimo as palavras de Matheus; mas hesitou
em acceitar a idéa de precipitar as cousas.
Para que? perguntou-lhe elle. É tão agradável esta vida de simples
namorado, que eu desejo gozal-a por mais alguns dias. Espere; será
d'aqui a pouco tempo.
Mas...
Não me faça suppor, disse Daniel alegremente,
que eu me quero
fazer de rogado. Acredite no que lhe digo, mais algum tempo.
Ah! meu caro amigo, se fosse
já... Casava-se você; eu via-os felizes, e passada a lua de mel continuaríamos a obra.
Daniel sorrio-se.
Olhe, então acho melhor acabar a obra antes do casamento;
porque
eu tenho idéa de que a minha lua de mel vae ser muito extensa...
Cousas de namorados!
Afíirmo.
Pois bem, acceito a idéa; acabemos antes a obra. Entretanto o meu
conselho é que não deixes o negocio de mão...
Daniel cumpria a palavra promettida, indo assiduamente á casa de Matheus e entregando-se ao trabalho com afinco.
Isto não impedia que Daniel visitasse a casa de Azevedo, aonde já então via Carlota com extrema freqüência.
Uma noite, depois de ter passado algumas horas com ella na sala de
Azevedo, Daniel voltou para casa cheio das melhores impressões d'este
mundo.
Lembrou-se de escrever uma carta a Carlota.
Pegou na penna e escreveu estas linhas :
¦
¦..¦¦'
¦
¦
¦
¦-
.¦
¦¦.¦¦¦".¦.
.-.¦.'
,-¦
»
•
« Luz de minha vida , alma de minha alma, que poder tens tu para
receber toda a minha existência, para fazer da minha mocidade, em vez
de árido deserto que era um céo provado e feliz ?
f
Releu o que tinha escripto, e rasgou o papel; achava tu do aquillo pai-
142
'
DAS
JORNAL
»
FAMÍLIAS.
seno
lido, frio e enternecido. Não tinha expressões com que dissesse que
tia, ,desistio de escrever.
Estava n'isso quando appareceu Júlio.
cântaroA entrada de Júlio foi ruidosa. 0 rapaz vinha do Alcazar, e
lava não sei que pedaço da opera do dia.
— Que estas fazendo?
Nada.
Não te has de cançar.
Dizendo isto foi-se Júlio sentando, sem tirar o chapéo, e accendendo
%
um charuto.
Admirou-me ver a tua porta aberta, dizia elle.
É que eu tencionava sahir outra vez.
Entrevista?
Não.
7 — Ahi Romeo, em que estára pensando agora a tua Julieta?
Está dormindo.
Isso está.
Júlio puchou duas grand^^
mem que não tem remorsos do dia de hontem , nem receios do dia dV
manhã, e soltou estas palavras:
Daniel referio a Júlio tudo o que havia a respeito de Carlota , e das
esperanças que estava de casar com ella.
Júlio apertou-lhe affectuosamente a mão.
Está direito, disse elle, fazes muito bem. Quem me dera ser tão
feliz com tu ! Olha que o és! Lá vi isso outro dia. Como ella olhava para
ti! E que olhar!
Daniel enlevava-se com a lembrança da moça, e ouvio as palavras de
Júlio como uma musica suave.
Quando Júlio sahio da casa de Daniel, dirigio-se para um hotel onde
ceiou, e depois foi para casa onde dormio tranquillamente a noite inteira.
Quanto a Daniel, que recusara sahir com Júlio, sahio pouco depois.
A noite estava deliciosa; havia um magnífico luar, o céo estava azul e
sereno.
Daniel dirigio-se machinalmentepara a casa de Azevedo, onde sabia
que estava Carlota, e ahi esteve parado diante da janella algum tempo.
A casa estava* toda fechada.
De repente, vio elle abrir-se a porta e apparecer um vulto.
Éra Azevedo que sahia apressadamente.
ir-
¦
•
•
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
443
Daniel suspeitou que houvesse algum desastre em casa, e sem hesitar
correu para Azevedo para saber o que era.
0 marido de Adelaide contou-lhe que era Carlota que se achava doente
e que elle ia chamar o tio medico.
Daniel ficou sem dizer palavra.
Mas Azevedo ia despedir-se para seguir caminho, quando Daniel o de'
teve dizendo
Não, vá para casa: eu vou buscar o Doutor Matheus.
Sim?
Immediatamente. Vá.
Azevedo voltou para casa.
Daniel entrou no primeiro tilbury que a fortuna lhe depozera e foi
buscar o velho Matheus.
Mas que moléstia é ?
Ah! não sei, não perguntei. Apenas sei isto.
O velho Matheus entrou no tilbury de Daniel, e este voltou a pé para a
casa de Azevedo.
Estava resolvido a não ir para casa sem saber do estado da moça.
Caminhando apressadamente, Daniel sentio correrem-lhe duas lagrimas pelas faces.
cristal;
[Continuar-se-ha.)
ii
i
4
jáü I
¦•¦.!.<
'''
I! I
tWÍ
W\
7
H jlj /ijg
\,
/ - i
'/
i
\
m
Wltl
11
¦lii/i/11 i . _ j P^^Y^ \ \
III
*
QUEM BOA CAMA FAZ..
CONTINUAÇÃO.
|IV.
'*
Mal sabia D. Fernanda Tavares a que experiências a destinavam estes
dois amigos, e de que maneira nova e romântica o
primo se queria desfazer d'ella.
Que ella gostava do primo era cousa que podia ver
quem lhe examinasse
os olhos nas occasiões em que se achavam
juntos na casa d'elle ou na
casad'ella. Só o bacharel nunca reparara n'isso; a mãe
d'elle porem
que a amava como filha, e que desde longa data imaginara uma união
entre ambos, logo percebeu o
que se passava no coração da sobrinha
Não se demorou em communical-o á mãe de Fernanda,
que era sua
irmã mais moça e depois ao desembargador.
Nenhum caso fez este da descoberta durante os
primeiros tempos •
mas um dia vendo que o filho não tomava emenda,
achou que era azado
meio casar os dois primos, e communicou, como
vimos, a resolução ao
bacharel. Sua opinião era que o rapaz ia ficar contentissimo.
Tinha razão de o suppôr.
Fernanda era realmente bonita. Tinha a côr
morena, os olhos negros e
naturalmente languidos, todas as feições delicadas
e correctas. As mãos
em que o bacharel nunca reparara, eram
obras-primas, e o
pé, nas pou-
JORNAL DAS FAMILIAS.
»
145
cas vezes em que se atrevia a transpor a fimbria do vestido, convenceu
aos profanos de que alem d'aquillo só se fosse invisível de todo. ;
Nenhum d'esses dotes, nem todos juntos, seduziram nunca o coração
desoccupado do primo Luiz. 0 amor em que ella ardia era silencioso e
paciente. Tinha esperança de que mais tarde ou mais cedo viria a triumphar, e com essa esperança vivia e soffria. Uma só palavra de Luiz causava alegria a toda a familia, — a prima, o pae, a mãe, e a tia; mas
essa palavra os lábios d'elle teimavam em não dizer.
Esperemos, dizia o coração de Fernanda.
E esperava.
Alguns dias depois da conversa de Luiz e Ernesto, foi este apresentado
em casa do desembargador Fonseca. Ha homens que nunca perdem o
gesto e o ar do centro em que vivem. Ernesto não era assim. N'uma casa
de familia era um homem circumspecto e grave. N'aquella oceasiao esta
mudança era essencial; mas nao lhe custava, e tudo correu ás mil maravilhas. 0 desembargador ficou encantado com o amigo de Luiz; D. Theresa sua mulher, achou-lhe uma serie de boas qualidades que sinceramente julgava perdidas na mocidade. Ernesto foi convidado a considerar
~~
aquella casa como sua.
No dia seguinte, Luiz veio dizer-lhe que a prima lá estava e que convinha ir iVessa noitej
Não, senhor, disse Ernesto ; convém pelo contrario que eu lá não
vá. É preciso que teu pae e tua mãe me preparem o terreno.
Eífectivamente tanto o desembargador como a mulher não se fartaram
de elogiar o amigo de Luiz. Tudo lhe achavam ; gravidade, instrueçao,
não sei quê que insensívelum
mais
e
formosura,
maneiras,
boas
graça,
mente a todos arrastava. A curiosidade de Fernanda e de sua mãe foi
naturalmente excitada ao ultimo ponto.
Ernesto voltou ácasa do desembargador alguns dias depois, e amiudou
as visitas á proporção que a intimidade ia sendo maior. Ao cabo de um
mez era quasi um amigo velho.
Prouvera a Deus, dizia comsigo o desembargador, que todos os
amigos de Luiz fossem como este!
Ernesto não deixava oceasiao de louvar as qualidades de Luiz Fonseca.
em
Referia ao desembargador as discussões que costumava a ter com elle
sua casa, sobre questões de direito e de philosophia.
Muitas vezes sae de lá ás quatro horas, continuava o fiel amigo;
...--.
moido, ó verdade, mas vencedor.
O velho ficava pasmado.
i
**.
:,v.\
m,
\-.TI*^.*>
!46
"•.'*..
JORNAL
É\
DAS FAMÍLIAS.
Ah! dizia elle, se elle só discutisse lá todas as noites!
Todas as noites seria impossivel, tornava Ernesto; mas as disdivertecussões são freqüentes. De mais, elle é rapaz e naturalmente
uüi . .
¦¦
;
,
regrado de
e
cauteloso
o
com
e
outras
Com estas
procedimento
petas,
se havia
Luiz, o desembargador foi acreditando que realmente o filho
amendado.
enSeis semanas depois de assidua freqüência, pôde haver o primeiro
contro entre Ernesto e Fernanda. Tanto haviam fallado d'elle a ella, que
a moça ardia por contemplar essa espécie de phenix da mocidade. A imo tado preciso para apparecer
tinha
Ernesto
boa.
realmente
foi
pressão
aos olhos de Fernanda com as melhores cores e as mais adequadas ao seu
intento.
De sua parte a impressão foi magnifica. Achou-lhe uma bella figura,
ainda que um ar extremamente frio.
— Não importa, disse elle ao bacharel; a frieza é uma camada de
neve, que se pode e se ha de derreter. De mais, é sabido que ella arde lá
por dentro.
_j^JIas, olha, que já lá vae mais de um mez, e o tempo voa.
Descança. Cuida de ti. Hontem entraste tarde para casa.
—* Às onze horas apenas.
Foi tarde de mais.
Mas então ás ave-marias ?
Não, mas ás nove. Deves tomar o chá em casa. Sacrifica-te alguns
mezes para gozares o resto dos teus dias.
Terrível remédio!
Mas necessário.
Ernesto advogava sinceramente a causa do companheiro. Não menos
sinceramente etóreu^^^^
de sopetão, mas a pouco e pouco, como o Jacome amansa cavallos, como
os políticos amansam os povos rebeldes.
V.
Fernanda gostava da conversação de Ernesto , mas nem se mostrava
alegre nem desejosa de o ter ao pé de si. Seus olhos buscavam a miúdo
os do primo, que lhe fugiam cautelosamente com o fim sabido de lhe ir
matando as esperanças aos poucos. As esperanças porem não morriam
mm
. y
'M
"..
:'¦$
¦
f-È
¦yy$_
'_
¦
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
147
de longe; não se
assim do pé para a mão. O amor tinha raizes e vinha
apaga um incêndio com uma bochecha d'agua.
da
Entendia Luiz que era ie bom effeito fazer o amigo no espirito
contra elle. Ernesto abanou a cabeça quando
insinuações
algumas
prima
elle lhe disse isto.
Seria estragar tudo, acerescentou Ernesto.
Estragar ?
Sem duvida. Dizer mal de ti é aguçar-lhe e multiplicar-lhe a paixão.
ao
lenha
deitar
de
Nada
Luiz.
mulheres,
das
coração
o
conheces
Tu não
achara um
Luiz insistio; a única resposta do amigo foi dizer-lhe que
processo para elle.
-Sim? •
_ É verdade; o meu padeiro teve uma briga com um vizinho por
algum advocausa de questões amorosas. Perguntou-me se eu conhecia
mãos
cujas
em
um
excellente,
conhecia
Respondi-lhe
que
gado bom.
,
ninguém perdia processo d'essa ordem.
Mas que houve ? 1
O rival injuriou o padeiro; o padeiro quer tirar vingança judiciai.
muito massante. Olha, nao
Está feito, disse Luiz, não será processo
a
me dês processos massantes.
Pelo contrario, já te livrei de um.
Ah!
_ Um tio meu tem umas velhas questões de terrenos em S. Christote dar a demanda;
de
idéia
Teve
e
complicada
muito
grave.
vam, cousa
a ti da
Livrei-te
atarefado.
muito
andavas
tu
mas eu respondi-lhe que
massada, e a elle de perder os terrenos.
—— Pplintra
~lj^roces<olo
na casa do desembargador. Luiz
Hata
padeifõloruraa
ao pae, que an^
consultas
muitas
e
muitas
fazer
aproveitou o ensejo para
udicial do filho
renascimento
este
j
com
dava contentissimo
a entrevista do desembardesde
mezes
dois
de
mais
Eram já passadas
encetado eífectivãmente
tinha
não
Ernesto
ainda
e
bacharel
gador com o
elogiava-o
amigo,
ao
contrarias
insinuações
fazer
a campanha. Longe de
isso Fere
tanto
elogiava
o
por
Ninguém
muito na presença da moça.
foi revêFernanda
fria
A
,
d'dle.
principio
nanda preferia a conversa
do
sólidas
e
espirito
do
qualidades
dotes
lando a pouco e pouco brilhantes
era apenas mosca
o
chamava
lhe
primo
como
coração. A mosca morta,
'..
:.;
ê
148
JORNAL
DAS FAMÍLIAS.
escondida; rompeu o envolucro e começou a esvoaçarcom summa agilidade e graça.
Ernesto tornou-se uma necessidade da casa. Elle sabia jogar todos os
jogos desde o xadrez até ás prendas; discutia sobre litterátura, andava
em dia com as modas, recitava ao piano, conhecia receitas de doces; era
uma encyclopedia domestica e viva. Todos o queriam ao pé de si; e
mais ainda que todos a noiva de Luiz. Ernesto dividia-se com discrição,
mas sempre de maneira que a Fernanda coubesse quinhão maior. Gabava-lhe o rapaz todos os seus dotes naturaes, ria-se dos seus ditos, applaudia as suas observações, e com este systema foi ganhando terreno
incalculável.
Um dia percebeu que Fernanda tinha uma tal ou qual tendência poetica. Não se deteve ; entrou a fallar de luas e boninas.
, — Oh! que bella cousa não seria, dizia elle, viver ao pé de um lago,
dentro de um castello que só a imaginação poderia construir, ao lado de
quem se ama, üvres ambos dos cuidados d'este mundo, divorciados da
prosa, entre a terra e o céo !
A moça não respondeu ; estava embebida a ver o quadro que elle lhe
pintava.
Ernes4o-contínuüu
Não lhe parece que a imaginação é um triste dom do homem ?
*
Talvez.
Imaginar impossíveis, ou pelo menos, ambicionar
gozos rarissimos
na terra é a maior desgraça que o espirito pode conceber. Eu nunca pude
comprehender Werther; Carlota não me apaixonaria, creio eu. Detesto o
que vae terra-a-terra.
Ernesto esquecia-se n-este ponto , que ainda na véspera fizera a apologia do amor com ervilhas e ensinara á mulher do desembargador a
melhor maneira de comer costelletas de porco. JMas se el]e_se esquecia,
não menos se esquecia «a prima de Luiz Fonseca. Quando elle acabou de
desenvolver a sua theoria acerca do amor, a mpça quo olhava justamente
para a lua, estando ambos á janella, suspirou e disse :
Eu tenho ás vezes idéas phantasticas. Dizem
que ha habitantes na
lua; se os ha, penso que só lá existe a vida tal qual 'eu a imagino. Se ella
é tão bella vista de longe, o que não será, vista de perto ?
Talvez não.
Oh! não me tire então este sonho !
Melhor é que lh'o tire a reflexão do
que a experiência. A lua é a
imagem exacta da felicidade; formosa de longe, vulgar de perto.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
149
~- Quem sabe?
A astronomia, que nos tira as illusões. Eu também as tive , e ainda
hoje as tenho, mas padeci e padeço.
Padece ?
Ernesto suspirou. A moça que parecia anciosa por ouvir confidencias,
talvez para poder fazer as suas, repetio a pergunta. Ernesto abanou a
cabeça.
Não, disse elle, não fallemos mais n'isto.
Prefere então a terra ?
Prefiro o céo. Essas lembranças não eram céo nem terra; mas inferno com todas as suas chammas.
A conversa continuou d'este modo entre os dois até que a mãe de Fernanda os veio interromper. Não tinha vontade d'isso a pobre velha, que
que já no seu coração dizia ser muito melhor que a filha cazasse com Ernesto; mas era tarde e era preciso voltar para casa.
(Continuar-se-ha.)
o. o.
O MENINO PREGUIÇOSO.
o dia 19 de Janeiro de 1736 nasceu em Greenock,
na Escossia, James Watt, filho d'uma familia laboriosa e pobre. Si em sua biographia não ha rivalidades de corte, outros obstáculos, outras rivalidades,
n'uma palavra, outros obstáculos vieram desafiar seu
espirito inventivo.
Tão débil era sua compleição que passou sua mocidade encerrado n'uma alcova fechada. Quando se
quiz mandal-o á escola conheceu-se que sua. saude o
não permittia; teve pois de ficar em casa onde aprendeu a ler com sua mãe e a escrever e contar com
seu pae. 0 isolamento sobre tudo obrigou-o á reflexão e a obrigação d'instruir por si mesmo desenvolveu a engenhosa curiosidade de seu espirito.
Um dia foi encontrado em casa de seu pae deitado de bruços tendo
diante de si o assoalho coberto d'arabescos brancos que desenhava com
um pedaço de giz. Os que viram isso não suspeitaram o alcance d'esse
trabalho, e julgaram dever caridosamente advertir o pae do menino.
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
i51
_ Não fazeis bem em consentir na ociosidade de James,
já tem seis
annos e bem poderia ir á escola.
Examinai de perto, respondeu o
pae.
Vio-se que o menino de seis annos desenhava figuras
geométricas, e
procurava uma solução. Fazia por si mesmo sua educação; exercitava
sem mestre suas faculdades; e adquiria conhecimentos
pouco a pouco
a força (Testar só.
A tia de James Wa.tt agastava-se enormente com as ociosidades do
sobrinho.
Nunca vi um
preguiçoso como tu, dizia ella, passas horas inteiras
sem dar um passo nem articular uma palavra.
A excellente senhora não podia comprehender que uma hora de reflexão
vale para o futuro cem vezes mais que dez horas d'um trabalho visível.
Quando via algumas vezes o sobrinho trabalhar, era sempre desarmando
brinquedos de crianças para reconstruir outras e d'um modo mais engenhoso.
Um dia (quem o crera!) James passou uma hora inteira a sós com
uma chaleira. A cada instante punha e tirava a tampa, collocava alguma
cousa na passagem por onde sahia o vapor, contemplava o frêmito da agua,
via-a evaporar-se, erguer-se ao ar e recahir em gotas sobre a polida tampa.
N'essa oceasião a tia agastou-se seriamente. Não ha duvida^ exclamou
ella, James nunca será nada. No entanto que era n'esse momento
que o
menino começava a mais bella cie suas obras, pois nascia n elle a concepção que um dia devia immortalizar seu nome. Desde então mudou de
forma a chaleira dos rendeiros escossezes; hoje é a machina de vapor que
arrasta os comboios;, a differença é grande; o principio é o mesmo :
noutros termos Watt foi um dos inventores do vapor.
Seu nome era obscuro; não tinha protectores nem capitães, mas possuia ura dom raro de que sentia confusamente a grandeza e a força, um
dom melhor do que a nobreza, e mais precioso que os bens da fortuna
porque as riquezas se exgotam e a nobreza não vem sempre de nós: tinha
o poder da observação. Mais tarde comprehendeu que devera sua ventura
a essa apreciável faculdade e por isso fez gravar sobre o crystal de seu
sinete um olho aberto com esta única palavra : observar.
Conhecia tanto a superioridade intellectual que esse instrumento interior lhe facultava, que por vezes tinha a faceirice d'excusar-se d'elle, por
assim dizer. Esforçava-se por fazer passar por indolência sua tranquilla
meditação : « Nao conheço senão dois prazeres, dizia elle , o somno e a
preguiça.»
152
JORNAL
DAS FAMÍLIAS..
Por muito tempo, desde a tia de James até os mais prespicazes sabias
creram na indolência e fraqueza de James Watt.
Mas voltemos ao assumpto. Só lentamente o poder de sua observação
triumpho u de sua pobreza porque numerosos foram os obstáculos com
munido d'extrae
que teve de lutar. Attingindo aos dezanove annos já
ordinários conhecimentos, capaz d'entrar nas carreiras liberaes, não achou
diante de si uma só vereda aberta. Teve de entregar-se ao trabalho manual, o que o não desanimou.
John Morgan, constructor d'instrumentos de mathematica e de marinha em Finch-Lane (Cornhill) necessitava d'um official. Watt entrou na
casa de Morgan e poz-se duranto um anno a construir instrumentos de
precizão.
Em seguida foi estabelecer-se por sua conta em Glasgow com uma
officina; mas foi-lhe prohibido ganhar por esse modo a subsistência.
Uma manhã vieram dizer-lhe que não tinha esse direito e que seu estabelecimento não era tolerado. As antigas corporações d'artes e officios que
reinavam em Glasgow sobre o commercio, não permittiam esse attentado
contra seus velhos privilégios. Com que direito vinha esse intruso estabelecer-se entre os patronos dmdamente~ãüctõ^
Watt propóz uma indemnisação, mas foi repellido. Resignado, preparava-se para deixar a cidade, quando lhe propuzeram de trabalhar como
operário nos barcos e para o serviço da Universidade de Glasgow. Aceitou immediatamente. Essa Universidade compunha-se n'essa oceasião
d'homens modestos que se illustráram depois. Um dos que se interessaram
pelo joven operário trabalhava então n'um assumpto novo e magnífico :
a riqueza das nações. Era Adão Smith , cujas idéas fizeram o giro do
mundo e fundaram a economia politica.
0 chimico Black, e o grande geometro Roberto de Shnson_, jiniram
seus esforços aos de Smith para protegerem o moço que vivia honestamente, dando provas d'um caracter doce , e que possuía grande habilidade manual.
Qual não foi sua admiração quando um dia perceberam que o joven
operário era um sábio de primeira força 1 Entretendo-se com elle desçobria-se, sob o aspecto e o trajo d'um trabalhador manual, um homem
d'um espirito elevado. Foi essa descoberta que o libertou dos embaraços
das corporações; e foi ella que tornou sua loja o emprazamento livre e
simples de todos os conhecimentos. Os estabelecimentos foram esquecidos porque, discípulos e professores, vinham ter com'aquelle que chamavam : o engenheiro. Communicavam-lhe suas duvidas, suas indagações,
*
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
153
seus embaraços scientificos; e elle os recebia todos com uma candura e
uma paciência inalterável. Compenetrava-se do que se lhe dizia, fixava a
idéa, ou a questão em seu espirito como um assumpto novo e precioso
em torno do qual exercitava de boa mente sua reflexão. Voltando-se de
nova a ter com elle achavam-se as duvidas esclarecidas, as questões simplificadas, e Watt attribuia essa honra aos que haviam provocado suas
indagações.
A admiração d'aquelles que obsequiava cedo grangeou-lhe uma nomeada e deu-lhe um prestigio singular. Surprehendia ver reunidas no
mesmo homem a destreza do espirito e a das mãos. Comparavam a intelligencia do Watt á tromba do elephante dizendo : do mesmo modo que
a tromba suspende por um movimento regular, flexível e seguro, uma
penna, ou um enorme pezo, a perspicácia e destreza de Watt se applicam
diariamente, sem esforço, quer a fabricar instrumentos de precizão, quer
a resolver os mais abstractas problemas.
Nada podia suspender sua actividade; trabalhava sempre ; não conhecia outra lingua além da sua; nunca tivera mestres e faltava-lhe o tempo
para estudar. Pertencia todo á lima e ao cinzel que o faziam viver, mas
restava-lhe a noite. Como si as difficuldades dessem maior impulso a
seu espirito, depois de consagrar o dia aos trabalhos da ofíicina, de noite
abria um livro onde ensinava a si mesmo o allemão, o italiano, ou outra
lingua; d'alli passava ás questões scientificas e para distrahir-se inventava alguma cousa.
A ausência de mestres desde a infância cedo o habituara a servir-se de
sua própria vontade como d'um mestre sempre prompto e pouco dispendioso.
Bem vedes que não lhe foram inúteis os obstáculos que lhe oppuzeram
pois que refugiando-se na Universidade achou-se, não ao nivel dos operarios, mas sim ao dos chefes da sciéncia.
victoria colonna.
•M*M****MMMI*«.™.3--«___-_--»w™^
MOSAICO.
ANECDOTAS.
Um sujeito, que fora inutilmente a Roma em busca d'um chapéo de
cardeal, voltou para sua cidade extremamente indefluxado, o que fez
dizer a alguém que não era para admirar esse resultado visto que tinha
voltado sem chapéo.
A senhora Quinault, faltando dvum sujeito que tinha o costume de
repetir cem vezes uma idéa que achava espirituosa, dizia : esse homem
não abandona uma idéa bonita emquanto não tenha feito d'ella uma
asneira.
Contava o cardeal Mazarino que Urbano VIII tendo soffrido algumas
ingratidões d'uma familia em cujo seio contava-se um santo recentemente
beatificado exclamara : « Questa gente e molto ingrata 1 io ho beatificato
uno de loroparenti che non lo meritava. » Esta familia e muito ingrata
beatifiquei um de seus parentes que não o merecia.
Plutarco comparava os ouvidos d'um curioso ás ventosas que attrahem
. a si tudo o que ha de ruim.
JORNAL
DAS
FAMÍLIAS.
155
Uma senhora vendo sobre um relógio de mesa, esculpidas duas figuras
abraçadas, symbolisando a paz e a justiça disse a uma amiga que lhe
estava próxima : « Vê, ellas se abraçam e despedem para nunca mais se
encontrarem*»
Um moço casado de pouco tempo tinha de ser apresentado a vários
não conhecia, para esse fim seu
parentes de sua mulher os quaes ainda
de
esquecendo
não
se
reunio;
os
onde
casa
cm
sua
um
dou
jantar
pae
recommendar previamente ao filho dc não fallar senão no caso de ser-lhe
da
absolutamente impossivel, pois temia que viessem ao conhecimento
parvoice de seu novo parente.
Ao jantar, um tio da noiva vendo que o moço só respondia por monosyllabos a todas as perguntas que lhe eram dirigidas, disse baixo ao seu
vizinho, mas de modo a ser ouvido pelo noivo; parece-me que meu novo
sobrinho c um grande parvo.
Meu pae, disse o moço immediatamente, agora que já sabem quem eu
sou, acho que posso fallar, não é assim?
os
Escuso dizer-vos que o pae não achou o dito tão espirituoso como
mais.
horas
Pedro, disse um barão feito ás pressas a seu criado, vai ver que
são no relógio solar.
a hora
ver
hei
de
como
noite;
é
criado,
o
respondeu
barão,
Mas,* senhor
que só o sol pode marcar.
Não importa, tornou-lhe o barão, leva uma vela accesa.
e ás vezes lhe
seu
en
dormir
criado
quarto
o
fazia
barão
O mesmo
perguntava :
Pedro, eu estou dormindo?
Está, sim senhor.
Está bom.
PAULINA PHILADELPHIA.
-ÉSÉ-
9gS£*&3-
POESIA.
SIMPLES ENGANO.
i
Um dia — era quinta feira —
Fui á rua do Ouvidor :
Ia vagar sem destino,
Ver a turba galhofeira
Que alli anda com fervor
Vagando tambem sem tino.
Aqui andava uma moça
Com um temível topete
Maior do que o Corcovado ;
Outra além, em vez de tufo,
Trazia emsiumtufão-y.
Outra, á frente d'uma troça
Dejanotas seis ou sete,
Vai com o rosto pintado,
E tendo o cabello rufo
Faz d'um preto ostentação;
Outra distribúe olhares
E sorrisos aos milhares...
Ia vendo estas fraquezas
Das fluminenses beldades,
Quando súbito espiando
JORNAL DAS
FAMÍLIAS.
157
P'ra dentro da Notre-Dame^
Vejo dois corpos garbosos,
(Pareciam de deidades)
Gom vistosas polonezas.
Não posso logo, parando,
Me conter, que nao exclame :
cc Quão bellos serão os rostos
D'aquelles corpos airosos! »
Ergui a vista; quem diz?
— Eram cabides expostos
Aos olhos dos curiosos.
x.
s\\\\Y
\\G»*—^
^Soxv.;*:! ,!3i;?.• i'i; y\-[»'ir 1
x^\7^ XV*
li!'"'''''IfUI '
.«i-^x^TC-XvV* KS fã '7,111. M
• «?**!
MODAS.
DESCRIPÇÃO DO FIGURINO DE MODAS.
Primeiro vestuário. — Trajo de panno de seda cinzento. Saia com pregas
grandes atraz. A frente é guarnecida com franzidos em forma de leque; o
tudo enfeitado com guipure de Arlet. Botões e viezes de setim azul..
Segundo vestuário. — Trajo para noiva. Vestido de faille branca. Corpinho-casaca aberto na frente e arregaçado atraz; avental composto com viezes bordados e renda. Saia guarnecida courf&ttros;
TRABALHOS.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS E TRABALHOS.
NM. — Véo para poltrona ou ventarola. Tira-se contra-prova
d'este bomto desenho sobre papel transparente
que se engruda sobre um pedaço
de oleado ou fazenda encorpada e tesa. Alinhava-se depois
cordãozinho
inglez do tamanho conveniente seguindo todos os contornos
do desenho.
As barrinhas se fazem nos lugares indicados, e estando
tudo concluído
corta-se o alinhavado que segura o bordado no
papel.
'
O escudo que tem um pavão , borda-se separadamente,
e
cassa, de setim ou de tafetá de côr. No nosso modelo, o escudo pode ser de
era de setim
encarnado; o bordado de retroz de cores naturaes; as
uvas de verde chro
¦aopasse; a folhagem verde
mais escuro, em ponto de armas; o
pavão em
ponto lançado de retroz verde e azul; o cocar e as manchas mais escuras
da
p lumagem em flos de ouro. Alarga lira em pontos
encaxilha o escudo
era de cordãozinho inglez muito largo. Esta obra, que
depois de acabada, tem
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
159
como véo de poltrona ou ventarola.
servir
elegância;
c
pode
muita graça
de seda de côr irmanada com
transparente
um
sobre
ella
caso
põe-se
N'este
o nanei da sala.
trabalho que se faz em
Este
almofada.
—
de
pequeno
parle
Quarta
|of.
modelo era de panno escuro bordado
Nosso
lindíssimo.
c
horas
aisümas
vivíssimas. A obra toda é em ponto lande
cores
retroz
de
cordãozinho
com
linhas sem ângulos em ponto de chaiAs
um
angulo
cada
ponto.
em
cadoe a linha que cerca
nelle' os dentes que formam como um franjado pequeno
muito frouxo. O salpico é feito
a obra toda , se fazem em ponto de festão
com pérolas pequenas ou em ponto prendido.
chainette e ponto
N° 3. — Desenho para chinella. A obra toda é em ponto
lançado, com retroz de cores vivíssimas.
e cordãozinho.
No .4 __ Debuxo para canto de lenço. Plumelis
era de panno azul, bormodelo
Nosso
almo
de
—
fada.
5'
N°
Quarta parle
do desenho por um
angulo
cada
em
dc
ouro,
preso
cordãozinho
dado com
fácil como elegante.
nonto dc retroz còr de milho. Este bordado é tão
a
N" 6 - Desenho para a parte central da almo fada n° 5. Querendo que
nos ângulos como
desenhos
d'esses
bordam
se
rica
quatro
mais
obra seia
a obra , borabreviar
e
almofada
de
para
n'csta
quarta parte
está indicado
O bordado se faz da maneira
almofada.
da
centro
no
desenho
esle
dar-se-ha
6XLl°7a *JDesenho
tapetes de candieiro. A obra
ou
alfinetes
de
almofada
para
de retroz de côr
cordãozinho
de
lançado,
c
chainette
ponto
toda é'em ponto
sobre o fundo.
sobresahindo
viva
bordado orientai
se
faz
de
trabalho
feto
costnm
baqmnho para
Hff b
e corretroz
de
é
floche
bordado
o
setim
ou
preto;
sobre cachemira, panno
de re roz dobrado.
só
um
de
é
da
ponto
lado
cada
grega
Subo de our
irmãcordãozinho
com
borda-se
c
acolchoado
tafetá
ou
Foi-ra-se com setim
.
nado com os matizes do bordado. nome.ou mium
substituída
ser
por
pode
lembrança
k\X™
(souvenir)
ciaes. O saquinho se fecha com um pequeno botão. _
etc. Ilhós e
criancinha,
vestido
fina,
para
roupa
Entremeio para
N° 9.
htt -!_U» - «*«"-•Nosso ra;del° erid_?
âr;s
£_*__!
as Les
douradas,
e
ouro
de
pequenas
pérolas
bordado com cordãozinho
"tí^Cl^a
—
en
* bordado ori«.«al. Nosso modelo
de côr»bnd«£¦*£
de oahemirfr„a bordada com retro, f_hdc™P^JW
as' *£
o
e
a fantasia
gosto
fundo. N'estes trabalhos,
e
po
eatrctanl^armonMdjs
e
ciso que as cores sejam diversificadas
to
o
conforme
go
ouro
de
fios
alguns
tambem ajuntar
Q
bamJu
f^™mQ
de
sei
.
obra, estende-se ella sobre a ventarola que podeforra se com
da côr
madeira;
indica o desenho ou dc qualquer outra
do fundo.
.
.
.
naKr_rin
acabada.
de
depois
N° 12. — Debuxo da ventarola
N° 13 até 20. — Nomes e iniciaes ornados.
160
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE MOLDES.
VERSO
DA PRECEDENTE
DE
ESTAMPA
BORDADOS.
'
¦.
..
,,.¦._¦...
¦.'¦¦
'
',
;.
¦.-.-'.-
.
.
.'.¦.¦.
-
Molde da confection do primeiro figurino da gravura de modas.
N° 1. — Frente* O molde está dobrado na linha de pontos por falta de
lugar. Corta-se separadamente o pedaço dobrado e ajunta-se ao outro. Os
galões, dos quaes dois só estão indicados por pontinhos, e os botões , devem ser continuados até ao fundo na mesma distancia.
N° 2. — Costas. Os galões não estão indicados; seguem a mesma direcção
.
que os da frente.
* N° 3. — Pequeno lado que se cose até ao fundo dos dois lados. .
N° 4. — Manga que se corta de um pedaço só; a parte inferior está indicada; os galões continuam até ao fundo na distancia e lugar dos dois que
estão indicados na parte superior da manga. Essa guarnição pode ser de
renda branca, como na nossa gravura ou de passamanarias com pérolas ou
sem ellas, ou de galão como o debuxo que damos na mesma estampa.
N° 5. — Debuxo da confection guarnecido com galões de lã.
N° 6. — Alphabeto grande para lençóes, toalhas, etc.
A TRANSFIGURAÇÃO (POR RAPHAEL).
GRAVURA
SOBRE
MADEIRA.
Este quadro, a expressão mais elevada do gênio de Raphael, foi encommendado ao afamado artista pelo Cardeal Júlio de Medicis,
que foi depois
Papa com o nome de Clemente VIL O painel,
que devia servir de ornalo
na Egreja de Narbonna (sede do arcebispado do
prelado), ficou em Roma e
não sahio da cidade eterna até o anno de 1797. N'essa época, Napoleão Bonaparte, general en chefe dos exércitos francezes victoriosos, transfcrio a
obra prima de Raphael para Paris;
porém, depois dos acontecimentos de
1815, o quadro foi restituido e collocado de novo na
galeria do Vaticano.
MlA*'%
Il
, At i -V
Paris. - Typographia de G. Chamerot,rua dosSantcs-Padres,
19.
Download

que daniel