Introdução ao Livro de Daniel - Apocalipse now
O livro de Daniel é um dos mais conhecidos, ao menos sua parte histórica; entretanto é
dos mais complexos e de difícil interpretação do Antigo Testamento. O livro fala sobre um
jovem, levado à força para a cidade da Babilônia para integrar-se à equipe diplomática do
Império. Daniel teve muito êxito e esteve no topo da pirâmide organizacional da Babilônia,
mesmo quando o Império sofreu sua derrocada.
Tal qual Ezequiel, o livro de Daniel também faz parte da literatura apocalíptica, pois se
utiliza de visões misteriosas para transmitir a mensagem divina de que os reinos deste
mundo não estão fora do domínio de Javé. Além disso, Daniel não pode ser enquadrado
como um profeta clássico, no sentido estrito do termo, pois ele não condena o
comportamento pecaminoso, nem recomenda a guarda da Lei da Aliança. Os eruditos
hebreus entenderam dessa forma e na Bíblia hebraica não o colocam entre os demais
profetas, mas junto com os livros de Esdras-Neemias, Crônicas e os livros poéticos na
seção chamada de "Escritos".
Conforme as datas citadas no livro, Nabucodonosor levou os israelitas cativos em 605
a.C. O sonho interpretado por Daniel aconteceu em 603 a.C e ele continuou na elite do
governo até o primeiro ano do rei Ciro (Dn. 1:21; 538 a.C.). Daniel ainda recebeu uma
revelação no terceiro ano do governo de Ciro (10:1; 536 a.C.), quando encerrou suas
atividades nos impérios babilônico e persa.
Mas, apesar de Daniel narrar acontecimentos relativos ao século VI a.C. muitos eruditos
afirmam que a obra foi composta no século II a.C. entre os anos de 168 a 164. A razão
para esta conclusão é a citação dos reinos do norte e do sul que coincidem com a história
do período grego no Oriente Médio que abrange os séculos IV a.C. ao II a.C.
Aqueles que apoiam esta data adiantada baseiam-se no fato de Daniel ser uma literatura
apocalíptica. Este tipo de literatura, entre outras características, eram:
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pseudonímia - atribuir à uma obra o nome de um personagem famoso do passado
para transmitir credibilidade.
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Vaticinium ex eventu - produzir uma obra literária remetendo ao passado como se
o autor vivesse antes deles.
Estas características compõem a literatura apocalíptica extrabíblica do século II a.C. ao
século II d.C. O livro de Daniel traz acontecimentos precisos do ano 168 a.C. e, por isso,
alguns estudiosos afirmam se tratar de um autor contemporâneo que escreveu estes
registros pouco tempo depois.
Outra característica apocalíptica presente em Daniel são os fatos extraordinários tais
como o livramento da fornalha dos amigos de Daniel (cap. 3) e a mão que escreveu na
parede no banquete de Belsazar (cap. 6). A literatura extra bíblica deste período era rica
neste tipo de narrativa.
Apesar de Daniel compartilhar algumas das características da literatura apocalíptica
extrabíblica o livro de Daniel diferencia-se em certos aspectos e não é simples determinar
todos os aspectos da literatura apocalíptica. Um problema em considerar Daniel uma
produção do século II a.C. está no estabelecimento da data, pois o período entre 168 164 a.C. é um período muito curto de tempo para produzir, copiar e distribuir um livro,
sem mencionar o processo de canonização pela comunidade judaica.
Outros fatos que depõem contra a data avançada de Daniel:
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O uso do aramaico no livro de Daniel sugere um período anterior ao século II a.C.
A inclusão de Daniel na Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento)
A presença de Daniel nos manuscritos do Mar Morto (II a.C.)
A Babilônia começou despontar no cenário mundial como uma grande potência,
aproveitando a decadência do Império Assírio. O ano era 626 a.C. quando Nabopolassar,
pai de Nabucodonosor, foi firmado como rei da Babilônia. O Império Assírio ruiu
definitivamente, depois de 150 anos, em 605 a.C. na batalha de Carquêmis.
Após a morte de Nabopolassar, seu filho, Nabucodonosor, assumiu o reino da Babilônia e
tomou os territórios que a Assíria não havia conquistado, incluindo o Reino do Sul, Judá.
Neste período, os filhos de rei Josias se envolveram em muitas conspirações contra
Nabucodonosor e o resultado foi o processo da deportação de parte da população de
Judá em três etapas. Nesta ocasião, Daniel já estava na corte babilônica, pois fora
deportado na primeira etapa em 605 a.C.
O reinado de Nabucodonosor terminou em 562 a.C., entretanto seus sucessores não
foram tão competentes quanto ele e o Império Babilônico chegou ao fim em 539 a.C.
quando Ciro, o persa, tomou a Babilônia sendo recebido com um herói ao invés de
conquistador. Ao assumir o governo da Babilônia, Ciro permitiu que os povos
conquistados voltassem e reconstruíssem sua sociedade (Ed. 1:1-4). O povo de Judá
considerou isso como o cumprimento das profecias e o restabelecimento da Aliança. Aos
judeus cabia apenas aguardar a restauração do governo teocrático com a capital em
Jerusalém, que de fato nunca aconteceu.
Estrutura de Daniel
O livro de Daniel pode ter o seguinte esboço:
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Parte histórica
A preparação babilônica de Daniel - 1
O sonho de Nabucodonosor - 2
A estátua de Nabucodonosor - 3
O orgulho de Nabucodonosor - 4
A queda da Babilônia - 5
O decreto de Dario e livramento de Daniel - 6
Parte apocalíptica
Os quatro animais e os quatro impérios - 7
O carneiro e o bode - 8
As setenta semanas e a explicação de Gabriel - 9
As últimos acontecimentos - 10 a 12
Cronologicamente podemos dividir o livro de Daniel da seguinte maneira:
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Capítulos 1 a 6:
Do primeiro ano de Nabucodonosor (cap1) ao último dia de Belsazar (Cap. 5),
entrando no reino de Dario (Cap. 6)
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Capítulos 7 a 10
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Primeiro ano de Belsazar (Cap. 7) ao terceiro ano de Ciro (cap. 10)
Tomando-se por base a perseguição dos persas aos judeus temos o seguinte resultado:
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Capítulos 1 a 5 - perseguição crescente da religião judaica: ordem para adora a
estátua de Nabucodonosor (Cap. 3); profanação dos objetos do Templo (Cap. 5)
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Capítulos 6 a 12 - Daniel lançado na cova dos leões (Cap. 6); profanação do
Templo e do Altar (Caps. 8 a 12).
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No capítulo 1 Javé honra a demonstração de fé que Daniel e seus amigos tiveram. No
capítulo 2 o conteúdo do sonho e a interpretação dada por Daniel refletem a soberania de
Javé sobre todas as nações. Entretanto ainda não havia chegado o tempo do domínio
pleno do Senhor, de fato uma mensagem desanimadora para os cativos. Contudo a
interpretação principal era que todos os Impérios mais poderosos ruiriam, e seriam
superados pelo reino Eterno de Javé que jamais será destruído (2:44). Esta mensagem
de esperança certamente sobrepunha o desânimo dos judeus.
O capítulo 3 deixa subentendido que a inspiração para a estátua de Nabucodonosor tenha
vindo do seu sonho e mais uma vez a fé tem como resposta o livramento. Um destaque
importante é que o texto deixa claro que o poder e soberania de Deus não serão
ameaçados caso o livramento não tivesse acontecido.
Os capítulos 4 e 5 mostram que Javé detém o controle das nações muito além de apenas
possuir um roteiro pré-fabricado, podendo interferir na história quando se faz necessário.
O capítulo 6 narra os planos dos gentios para eliminar Daniel em virtude de suas práticas
religiosas. Neste episódio até mesmo o rei persa declara a soberania do Deus de Daniel
(v. 16).
O capítulo 7 enfatiza a perversidade generalizada dos reinos, especialmente o quarto.
Entretanto, após o período de adversidade, o Reino de Deus será instaurado para sempre
(v. 16-18, 27).
No capítulo 8 lemos sobre o orgulho do rei e seu programa de perseguição em massa. O
capítulo 9 indica que a restauração total viria lentamente, o que não queria dizer que javé
não estivesse no controle. Outra revelação feita era que, ao contrário do que os cativos
que retornaram do exílio esperavam, a situação iria piorar ainda mais.
Os capítulos 10 a 12 tratam sobre o fim dos reinos das nações. Os santos não sabem
quando todas as essas coisas acontecerão, pois sua tarefa é perseverar até que o tempo
de Deus para as nações se cumpra.
Propósito e conteúdo
O livro de Daniel menciona os seguintes assuntos:
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O exercício da fé em um mundo agressivo
Javé está no controle da politica internacional
O propósito de Javé em livrar seu povo
O livro aborda do começo ao fim a soberania de Javé sobre as nações. Esta soberania se
manifesta de forma espiritual e política. A vida de comunhão com Javé de Daniel e seus
amigos é realizada em meio à hostilidade cada vez mais crescente. Em meio à
arrogância, crueldade e orgulho dos reis das nações, Javé os faz curvarem-se à sua
vontade e soberania.
As visões de Daniel destacam a soberania política de Deus sobre as nações para que os
judeus exilados pudessem ter suas esperanças renovadas. A leitura dos profetas pré-
exílicos durante este período levou os cativos a crerem que o Reino de Deus seria
estabelecido plenamente após o retorno do cativeiro de setenta anos.
O livro de Daniel corrige esta distorção hermenêutica e afirma que apesar do retorno
acontecer, isso não deve ser confundido com o estabelecimento do Reino de Deus. Na
verdade, haveria mais setenta semanas de anos até que isso acontecesse.
Enquanto a inauguração do Reino de Deus não acontecesse os judeus deveriam
aprender a viver sob perseguição e depender somente da soberania divina durante a
queda e ascensão dos reinos das nações, pois o programa de Deus não pode ser detido,
entretanto eles deveriam se preparar para uma resposta no longo prazo.
Portanto, o livro de Daniel não deve ser encarado como um calendário que marca eventos
do fim dos tempos, mas encararmos sua mensagem principal que é a promessa de Deus,
o soberano que governa a história do mundo, de estabelecer o seu Reino.
O reino de Deus
O livro de Daniel destaca o Reino de Deus como plano final para o mundo. Embora Javé
já domine em um Reino eterno (4:3,34,35), o capítulo 2 apresenta a ideia de um Reino
indestrutível (2:44). Este Reino foi dado ao Filho do Homem, que, apesar de não haver
maiores informações no livro, podemos identificá-lo como Jesus, pois este texto contém
um forte teor messiânico, mesmo que os leitores originais não tivessem uma clara noção
disso. Filho do homem será inclusive o título que Jesus adotará para si no Novo
Testamento.
Como uma espécie de antítese, os Reinos humanos são retratados como temporais e
limitados. Daniel percorre os principais reinos do mundo conhecido:
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Babilônia - Caps. 4 e 5
Medo-Persa e Grécia - Cap. 8
Grécia - Cap. 11
O modelo apresentado de quatro reinos não é detalhado, embora Nabucodonosor seja
identificado com o primeiro Reino (2:38) e os outros dois reinos mencionados (Medopersa e Grego) sejam deduzidos como dois dos três restantes. Entretanto este
mapeamento perde importância ao considerarmos que o propósito principal é destacar a
eternidade e proximidade do Reino de Deus com a temporalidade dos reinos humanos.
O orgulho e a rebelião
O orgulho dos reis das nações é um tema recorrente no livro de Daniel. Nabucodonosor
com sua estátua de ouro e seu orgulho arquitetônico (cap. 3), bem como o orgulho
demonstrado por Belsazar ao profanar os objetos do Templo (5:18-23) são exemplos de
como esta atitude desagradou a Deus. Outros exemplos de orgulho podem ser vistos no
decreto de Dario, nos atos do quarto animal da visão de Daniel no capítulo 7, no pequeno
chifre do capítulo 8, no príncipe do capítulo 9 e no reino do sul no 11.
O livro descreve o orgulho como a causa da queda destes reis; e, em contrapartida, a
razão da queda e julgamento de Judá foi a rebelião contra Javé. Portanto, o orgulho das
nações era comparável com a rebelião e desprezo de Judá pelo código da Aliança (a Lei
de Moisés).
Daniel alerta ao povo cativo que suas angústias não terminarão após a volta do exílio; e,
embora os pecados das gerações anteriores tenha sido julgado, os judeus ainda não
haviam atingido a maturidade esperada por Javé, por isso sua aflição e agonia
continuariam. Entretanto, em meio às tribulações o Senhor deu-lhes a esperança da
ressurreição (12:2) e os encorajou a permanecerem firmes durante este período de
purificação e renovo (12:10-13).
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