Personagens da Bíblia
DANIEL
PORQUE TEMER A GLOBALIZAÇÃO?
O dilema de ser fiel no mundo de hoje é real, e crucial. Cada
cristão deve encarar o desafio e se questionar a respeito da sua
coerência de vida.
Felizmente para mim – para nós - o desafio de viver no mundo, e de
um modo que agrade a Deus, não é exclusivo nosso. É um grande
desafio, porque o temos de enfrentar. É um desafio novo, porque a
nossa condição, nosso contexto é único e diferente daquele
enfrentado pelos que nos precederam. Mas, podemos olhar para o
passado e ver os que nas suas vidas venceram esse desafio e
podem servir de inspiração para revigorar a nossa empreitada pelo
mesmo objetivo.
Daniel, fiel a Deus em tempos de mudança.
Tenho sido impactado pela vida do profeta Daniel. Refletindo
sobre este caráter bíblico, vejo uma similaridade grande entre a sua
experiência e a situação atual. Por isso, vejo Daniel como um
exemplo de como enfrentar o nosso tempo, e tudo o que o marca.
Tal como nós, vejo que Daniel viveu em um mundo de rápidas e
drásticas transformações. A maneira como as coisas estavam
organizadas na vida dos pais de Daniel, não permaneceram do
mesmo modo para ele. Tudo aquilo que foi válido, em termos de
sistemática de vida, para os pais, os avós e tantas gerações de seus
antepassados, não valiam mais para ele. As mudanças foram
dramáticas, violentas e sobrevieram em um curto espaço de
tempo, capaz de deixar qualquer um desorientado, atordoado.
Tal como nós, vejo Daniel sofrendo as consequências de uma
cultura alienígena imposta, que desrespeitou valores, tradições
nacionais e se esforçou por impor um outro modo de vida.
Dependendo da nossa ideologia política e econômica, talvez nos
consideremos vitimas da globalização, que acaba com nossos
empregos, que nos torna servos do capitalismo internacional, e que
nos empurra um padrão cultural, sem sequer perguntar se o
desejamos. Daniel também tinha o direito - talvez até mais do que
nós - de nutrir esse sentimento de vítima.
No tempo de Daniel, a globalização tinha o nome de Babilônia. O
caldeu Nabopolassar consolidou o seu reino e iniciou uma imensa
expansão territorial, consolidada pelo seu filho Nabucodonozor. Os
babilônios dispararam seus exércitos pelo mundo, se impondo
como poder dominante, atropelando quem quer que
encontrassem pelo caminho, desrespeitando povos, poderes,
religiões e culturas.
Vejo assim Daniel obrigado a viver em um mundo que não era o
seu, pois o seu mundo foi destruído. Suas referências se tornaram
ruínas, figurativa e literalmente. Tudo o que Daniel recebeu como
herança, como ensino do certo, foi aniquilado. Ele mesmo passou
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DANIEL
a viver em um lugar que não escolheu viver, que nunca tinha
conhecido antes, transplantado que foi para a Babilônia.
Olho para Daniel e vejo nesse profeta um paradigma para a vida
contemporânea, para alguém que quer ser fiel a Deus no mundo
de hoje. Daniel enfrentou situação similar a que preciso enfrentar.
Vejo Daniel como meu tutor, meu guia, torcendo ardentemente
para que eu consiga correr a minha carreira. E assim, vejo Daniel
me apresentando conselhos valiosos para a minha empreitada de
ser cristão no mundo de hoje.
Primeiro conselho de Daniel:
Não se intimide
Ouço de Daniel para mim: Não se intimide. Não se intimide com as
pressões do mundo. Não se amedronte.
Já nos primeiros capítulos de Daniel, fica clara a intimidação que
ele sofreu. Tal intimidação passou pela humilhação de ver a sua
família, a sua cidade, o seu país destruídos sem piedade. Passou
pelo sentimento de impotência ao integrar as hordas de
deportados levados sem saber para onde, e para qual futuro. Mais
importante, a intimidação passou pelo sentimento de frustração de
perceber que a crença mais poderosa de seu povo, que Daniel
tinha recebido nos seus ensinos desde cedo, tinha falhado. O seu
povo, que sempre se considerou um povo protegido por Deus com
uma benção especial, estava agora escravizado. A sua terra,
sempre considerada a herança do Senhor, a terra que Deus tinha
prometido e dado para os seus antepassados, se tornou
estacionamento de exércitos estrangeiros. E o que falar da cidade
Santa, a Jerusalém, morada do Senhor? E o que dizer a respeito do
templo, que no passado viu a revelação da glória de Deus? Todo o
referencial cultural e espiritual de Daniel estava violado, saqueado,
destruído. Só sobrou o lamento desesperador do salmo 79 “Ó Deus,
as nações invadiram a tua herança: profanaram o teu santo
templo, reduziram Jerusalém a ruínas. Deram os cadáveres dos teus
servos às aves dos céus por alimento, e a carne dos teus fiéis aos
animais selvagens (...). Somos objeto de zombaria para os nossos
vizinhos, de riso e menosprezo para os que vivem ao nosso redor.”
A intimidação vem principalmente pelo medo. Diante do medo,
do terror fico imobilizado, sem reação, sem poder valer a minha
vontade. Fico vulnerável e inteiramente sujeito à influência dos
outros. É a lógica da violência, que está presente no nosso
cotidiano. A truculência é usada para enfraquecer as pessoas e
obter o que se deseja.
Mas, não é só o medo que intimida. O maravilhoso, o fantástico
também me imobiliza e me deixa perplexo. Se adentro a uma
construção espetacular e luxuosa, me sinto inexpressivo e pequeno.
Se devo participar de um evento social onde a postura, o vestir, a
sofisticação são espetaculares para mim, de um padrão superior ao
meu habitual, não me sinto à vontade. Não sei como agir; não sei
o que fazer. E quando tal sensação de intimidação começa, ela só
faz crescer o meu incômodo, a minha desorientação.
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DANIEL
O inusitado, o não explicável, o surpreendente, o sobrenatural
também tem o poder de intimidar. Quantas práticas religiosas
inescrupulosas não fazem uso deste fato?
Daniel esteve sujeito não apenas à intimidação do medo,
representado pelo poder avassalador dos Babilônios. Também
sofreu a intimidação sutil da imposição cultural de um povo que se
considerava superior, pois era o povo vencedor. Os valores, e as
crenças de Daniel pertenciam ao velho mundo dos derrotados, e
tal mundo devia definitivamente ser deixado para traz.
Novos trajes, novos nomes, novos hábitos. Nesta tragédia toda
Daniel ainda era um felizardo. Sua formação de família real, sua
refinada educação pelo menos lhe serviriam para abrir as portas
para uma melhor condição. Graças à bondade e ao espírito
superior dos conquistadores, Daniel poderia ter uma chance. Se
sobressaísse, se conseguisse cair nas graças dos poderosos, Daniel
poderia ter um futuro confortável. Não precisaria se submeter aos
rigores do trabalho no campo, poderia evitar as mãos calejadas
dos operários braçais, não precisaria ver sua pele precocemente
envelhecida pela exposição ao sol. Viveria no palácio, no ambiente
sofisticado de alta classe. Certo, seria um serviçal, talvez um
garçom da mesa real, mas depois de tudo que ocorreu, não estaria
bom? Não seria dos males o menor? Precisava só se esforçar para
agradar aos seus superiores, cumprir direito as instruções, se mostrar
cooperativo. O futuro estava garantido.
Era mais uma intimidação para Daniel renegar sua crença e aceitar
os valores ditos superiores dos vencedores, daqueles que estavam
por cima, daqueles que estavam com tudo.
Fico a refletir qual era de fato a base da fé de Daniel. O que posso
deduzir, sem equívoco, é que a fé de Daniel em Deus era de um
tipo especial, do tipo à prova de chuvas e trovoadas. Essa fé não
estava fundamentada na ideia de um Deus protetor, que devia ser
adorado porque protegia e privilegiava o seu povo. Aqueles que
tinham uma fé desse tipo já a viram naufragar, em vista dos
acontecimentos. A fé de Daniel também não se fundamentada na
cidade sagrada, nem no templo, nem no culto que se prestava no
templo, nem em qualquer outra coisa visível. Se fosse desse tipo, a
sua fé também já teria morrido, na penosa jornada entre Jerusalém
e Babilônia. Que tipo de fé subsiste a evidência de que Deus
abandonou o fiel à sua própria sorte? Esse é o tipo de fé que
continuava a dirigir a sua vida. Ele não se intimidou com toda a
derrota à sua volta, tanto quanto não se intimidou com a proposta
tentadora de Aspenaz. É o tipo de fé que faz com que dele se diga:
“Daniel, porém, propôs no seu coração não se contaminar.”
E assim, ouço de Daniel para a mim: Não se intimide. Não deixe que
as pressões e as impressões do mundo imobilizem a sua fé. Quer
sejam pressões representadas pelo medo das adversidades,
derrotas, ou daquilo que a princípio se apresenta como tragédia.
Quer sejam pressões vindas dos apelos de um estilo de vida que
deslumbra, encanta e nos deixa pasmos. Não se intimide.
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DANIEL
Quaisquer que sejam as intimidações do mundo, seu alvo é
enfraquecer a nossa fidelidade a Deus. Portanto devo manter-me
fiel, sem aceitar as intimidações que o mundo impõe.
Segundo conselho de Daniel:
Não se acanhe
Ouço ainda Daniel me encorajando com mais um conselho: Não se
acanhe. Não se acanhe diante das oportunidades que o mundo
oferece. Não pense pequeno. Não se limite.
Definitivamente, o conciliar o mundo com a minha fidelidade a
Deus é um desafio enorme. É como andar por um caminho estreito,
bordeado por precipício em ambos os lados. Se pisar em falso com
o pé esquerdo, vai-se ribanceira a baixo. Se falsear com o pé
direito, o precipício do outro lado está à espera.
Se, de um lado, os meus valores espirituais forem muito limitados, se
tiver medo de me expor ao mundo, se preferir evitar o confronto
com o mundo, para assim não sofrer a sua intimidação, estarei
perdendo a oportunidade de influenciar o mundo e de fazê-lo ouvir
a minha voz. É a opção do isolamento, tantas vezes escolhida.
Talvez seja até mais fácil permanecer fiel, mas fica esquecida a
segunda parte: ser fiel, mas no mundo.
Se por outro lado, os meus valores espirituais forem por demais
elásticos para acomodar mais do que deve ser acomodado, corro
o risco de ser cada vez mais do mundo e menos fiel. Irei aceitando
como válido tudo o que o mundo oferece, sem a visão crítica, sem
o discernimento que a Bíblia me ordena ter. Estarei no mundo, com
o mundo, mas sem ser fiel a Deus.
E então o segundo conselho de Daniel se torna de valia para mim:
Não se acanhe. Não se esconda. Dê o melhor de si para vencer no
mundo e deixar a sua influência ser a mais ampla possível.
A vida de Daniel fundamenta esse conselho. Ele desempenhou
funções públicas de alta relevância. Foi governador sobre todas as
províncias da Babilônia, e chefe principal dos sábios do país, no
reinado de Nabucodonozor. - Algo como um vice-rei ou,
atualizando para o nosso contexto, um chefe da Casa Civil. Depois,
foi também um dos três presidentes de Dario.
Pela sua
capacidade, dedicação, e benção de Deus, Daniel se tornou uma
das pessoas mais importantes da sua época. E não só uma, mas
duas vezes. Para quem chegou à Babilônia como um deportado,
originário de um pequeno e distante povo que foi escravizado, a
carreira política de Daniel é algo memorável, para qualquer época.
Quando o reino que subjugou o povo de Daniel chegou ao fim e foi
dominado por outro poder ainda mais forte, o dos Medos, pela
segunda vez Daniel veio a ocupar um posto de primeira grandeza.
Para os medos, Daniel era o derrotado dos derrotados, mas ainda
assim a sua conduta e a sua capacidade o levaram a gozar da
confiança dos novos governantes.
Para um poderoso, quer seja ele Nabucodonozor, quer seja Dario,
quer seja qualquer outro, entregar uma posição de alta
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DANIEL
importância para alguém é uma decisão crítica. Inclui não somente
a competência do escolhido, mas, sobretudo, a sua fidelidade, a
sua maneira de ser e a confiança que se tem nele. Não podemos
deixar de reconhecer que estas características obrigatoriamente
foram percebidas em Daniel para que ele pudesse galgar os postos
que galgou, e mais ainda: permanecer nos postos por longo tempo.
De fato, Daniel soube conciliar a sua fidelidade a Deus com a
fidelidade aos senhores a quem serviu, ainda que Daniel não tinha
nenhuma razão para ter consideração por esses senhores que
destruíram o seu povo e a sua terra e o fizeram escravo. Daniel não
se esquivou de aproveitar as oportunidades que teve para servir ao
mundo em que viveu, que não era o seu mundo, e deixar marcado
o seu testemunho de fidelidade intransigente a Deus.
As poucas letras do relato bíblico nos deixam apenas a grande
figura, a ideia essencial, do que foi Daniel e da sua importância no
mundo em que viveu. Isto é o que sobrou, o que ficou para nós,
quase 2500 depois. Mas eu fico pensando na rotina diária, naquele
suceder de atividades, providências, encaminhamentos que
compõem o cotidiano de qualquer pessoa de responsabilidade. No
caso de Daniel, não poucas responsabilidades. As situações que
chegavam ao limite de fronteira entre a fidelidade aos princípios
divinos e a fidelidade ao rei a quem servia, não deviam ser poucas.
Mas os anos que Daniel serviu aos reis da Babilônia, mais os que
serviu aos medos evidenciam o quanto Daniel foi sábio em
solucionar o dilema da fidelidade a Deus versus o servir ao mundo.
Com certeza, Daniel tinha muito daquela sabedoria que vem do
temor do Senhor, como Provérbios nos conclama a buscar.
E o seu exemplo deve impulsionar-me a seguir o seu conselho: Não
se acanhe. Não perca as oportunidades de servir ao mundo. Dê o
melhor de si, onde você está, e seja fiel a Deus no mundo de hoje.
“Assim brilhe também a luz de vocês diante dos homens, para que
vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que está
nos céus.” (Mt 5:16)
Terceiro conselho de Daniel:
Não perca o foco
Ouço mais um conselho de Daniel, também colocado na forma de
negativa: Não perca o foco. Não perca o foco no alvo maior. Não
desista. Não desanime. Não perca a perspectiva.
Quando as coisas não vão fáceis, e as dificuldades, mesmo as
pequenas, vão se acumulando, o tempo passa e se solidifica a
impressão de que o esforço de se manter fiel não vale a pena, e
que talvez seja melhor desistir. Ninguém gosta de empreender
esforços inúteis. Gastar tempo, empenhar-se por um objetivo, e
perceber que não se chega aos frutos desejados. Nestas horas, é
momento de mais uma vez ouvir Daniel e perceber, como o profeta
percebeu, que há uma perspectiva maior que deve me animar a
permanecer fiel, ainda que eu não esteja conseguindo visualizar os
benefícios da minha fidelidade.
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DANIEL
O livro de Daniel se divide em duas partes distintas. Até o capítulo
seis temos o registro biográfico de Daniel. A partir do sétimo temos o
seu relato profético. Esta segunda parte contém profecias que se
entende ainda não totalmente cumpridas, e cuja interpretação
ainda não é de todo clara. Mas essas profecias são um indicativo
de quem era Daniel, da sua fidelidade a Deus, a quem buscava
com insistência, e que lhe deu o dom da revelação. No capitulo
nove temos um exemplo do quanto Daniel se ocupava da sua vida
espiritual. Lendo os escritos do profeta Jeremias (Jr 25.11), Daniel
percebeu que o tempo da desolação de seu povo estaria
chegando ao fim, visto que estava marcado para ser de 70 anos.
Talvez (o texto não diz isso) acendeu em Daniel o desejo de que
ainda reveria Jerusalém. Este relato evidencia o quão jovem Daniel
veio para a Babilônia, cerca de 70 anos atrás. Mas o fato que
interessa é que apesar desse tempo todo, apesar de toda a
relevância que ganhou no reino dos babilônios e dos medos, Daniel
continuava com o seu coração preso ao seu povo, sua terra, e
esperava o cumprimento inevitável da vontade de Deus. Há certo
tom de ansiedade, de expectativa no aguardo das promessas,
ainda que muito do que foi revelado, Daniel não veria se cumprir.
Frente à eternidade dos planos de Deus, minha vida é um grão de
areia, uma folha levada pelo vento. Muitas vezes, as dificuldades e
as ansiedades do tempo presente são como armadilhas das quais
parece que não consigo escapar. No entanto, não posso me
esquecer de que o Deus em quem creio é o Senhor do tempo, e no
tempo certo da Sua transcendência, as coisas se cumprirão, e o
resultado florescerá. Compete-me não desistir. Devo insistir em ser
fiel, mesmo quando os motivos para desistir se acumulam. Não
posso perder o alvo, a perspectiva, de que a vontade permanente
de Deus transcende a minha vida. Ser fiel a Deus é um projeto de
vida. De toda a vida. E durante a minha existência, compete a mim
o testemunho de um viver fiel a Deus no meu mundo.
Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo. (Mt 24:13)
Concluindo
É possível ser fiel a Deus no mundo de hoje? Para Daniel foi e pode
também ser para mim. Se eu aprender com Daniel a não deixar o
mundo me intimidar, não me acanhar diante das oportunidades e,
sobretudo, não perder a visão de Deus que dirige a história, e cuja
vontade em relação à humanidade transcende a minha vida, o
tempo da minha geração, e ao fim prevalecerá na sua plenitude.
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