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oi vampiro.
Júlio falava sempre tão sério que Daniel
achou difícil entender o sentido da piada.
Deu um risinho sem graça, para não perder
o amigo, mas sentiu-se obrigado a não deixar que a conversa enveredasse por aquele caminho.
— Hoje não. Acho que não é legal brincar com isso.
Júlio ficou de pé, veemente:
— Não tô brincando. É só uma questão de observar.
Você não viu a cara dela?
— Vi.
Mas não devia ter visto, pensou Daniel. Até agora sentia a mistura esquisita de medo, enjôo e vergonha ao recordar a imagem de Lucinha no caixão. Ainda não tinha
completado quinze anos e aquela já era a segunda vez que
via um cadáver. Estava chocado com o contraste brutal
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entre a imobilidade indiferente e o fogo, a energia doida
que Lucinha exalava apenas uma semana atrás.
— Pois então. Ninguém fica tão branco. Olha que eu
já vi defunto antes. Em geral são mais amarelados, ou mais
azulados. Ela tava completamente branca, parecia papel.
— Claro, morreu de anemia. Todo mundo sabe disso.
— Eu perguntei ao meu pai. — Agora Júlio andava de
um lado para o outro no quarto pequeno e abafado. — Ele
também achou estranho.
— E disse o quê?
Júlio deu aquele sorriso de quando se achava dono do
conhecimento universal:
— Que deve ter sido uma baita hemorragia. Bom, não
foi meu pai que cuidou dela, ele deduziu isso pelo que andaram falando, os sintomas...
— E daí? Essa hemorragia pode ter tido milhões de
causas.
— Um vampiro, por exemplo... — Júlio mostrou os caninos e deu um salto em cima de Daniel, grunhindo selvagem: — ... aquele pescocinho macio, a carótida latejando...
Daniel rolou para o lado e quase caiu da cama, mas
conseguiu se livrar do ataque.
— E você não acha que, se ela tivesse dois buracos no
pescoço, alguém teria notado? Ela ainda apareceu na escola depois de ficar doente, e a blusa do uniforme deixa aparecer o pescoço inteiro.
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Júlio continuou como se não tivesse ouvido. Daniel conhecia muito bem o processo: depois de desencadeado, ele
só daria atenção ao que corroborasse sua hipótese.
— ... e agora Lucinha deve estar se transformando
dentro do caixão...
— Ah, não enche! — Daniel já estava ficando irritado.
Às vezes Júlio passava da conta.
†
No fundo era bom estarem falando bobagem. O enterro
havia abalado a turma toda. Mesmo o pessoal mais barrapesada compareceu munido de caras circunspectas e olhos
arregalados, escondendo pensamentos sem nome, pensamentos de gente velha. Se desse ouvidos a Júlio, Daniel
acabaria concordando: tinha sido estranho. Lucinha era
encapetada. Vivia pegando no pé dos professores e se recusava a ficar de castigo. Aprontava correrias pela sala, saltando sobre as carteiras, debaixo das gargalhadas da turma.
E, enquanto o inspetor não aparecia, virava tudo de cabeça
para baixo. Na verdade, nem o inspetor era capaz de meter
medo: o dono da escola devia favores consideráveis, e principalmente dinheiro, à família dela.
O pai fez o maior escândalo no enterro, abraçando o caixão, xingando médicos, perguntando que humanidade é
essa que decifra códigos genéticos e não consegue curar uma
simples anemia, chorando no ombro dos amigos e mos-
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trando um lado desconhecido a todos os que se curvavam
diante do seu poder. Lucinha era filha única, herdeira de
muito dinheiro, sim, mas principalmente de muitos sonhos e
expectativas passados de geração em geração de figuras ilustres. A mãe, mesmo no momento extremo, mantinha pose
de uma das dez mais elegantes da sociedade. Por dentro sentia-se fracassar — mais do que pela morte da filha, por não
ter concebido um herdeiro homem que levasse adiante o
nome comprido e cheio de hífens. Júlio contou mais tarde
que a viu no carro, sacudindo-se convulsivamente, um lenço
negro cobrindo o rosto sob o chapéu de aba enorme.
Na segunda-feira anterior ninguém havia se dado conta
de uma tranqüilidade anormal nas aulas. Só no fim do período um dos professores comentou o comportamento exemplar de Lucinha — não conseguindo resistir a um elogio
aliviado. Em meio a risadas, a turma começou a notar outros detalhes: olheiras fundas de noite maldormida, palidez,
um ar geral de cansaço. E começaram as gozações, os risinhos e as alusões maldosas.
Naquele dia ela não se mostrava disposta a brincadeiras. Ao se perceber na berlinda, soltou um palavrão e saiu
da sala com a cara emburrada.
O mausoléu da família era imponente, de granito cinzaescuro e com um enorme portão de ferro batido. Dentro,
quatro túmulos, mais parecendo sarcófagos cobertos por
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lápides de mármore, guardavam restos de cidadãos com nomes em ruas e praças. Ali só entraram o bispo e o núcleo da
família (num farfalhar de sedas, tafetás e musselinas negras).
Dom Bernardo discursou um monte de fantasias sobre a filha
exemplar, a aluna querida, a colega admirada — ouvidas
atentamente por rostos compungidos que fingiam crer. Coroas e mais coroas de flores falavam, nas entrelinhas das frases bombásticas, das complexas relações entre os remetentes
e a família enlutada. Os colegas de turma tiveram a oportunidade de passar pela porta, esticando os pescoços inutilmente. Depois, reunidos em grupos, ficaram falando besteira
e soltando risos abafados sob os olhares de ira dos professores.
Na terça-feira havia adormecido por duas vezes na sala.
Estava bastante pálida, mas ainda tentou aprontar uma confusão. O professor de geografia, um gordo presunçoso, perdeu
as estribeiras quando ela disse que dormiu porque a matéria
era chata demais, e que se ele parasse de tomar cerveja e perdesse uns quilos talvez as aulas também ficassem mais leves. O
professor mandou Lucinha sair da sala e ir ao gabinete do inspetor. Como de costume, ela recusou. Ao ver que ele vinha em
sua direção, levantou-se correndo para o fundo.
Mas não conseguiu chegar. Depois de três passos parou
um instante com as mãos nas têmporas — e desabou no
tampo da carteira de Júlio.
Júlio ainda ficou com uma sensação estranha, depois de
ela ter sido levada semi-inconsciente. Não sabia se pela se-
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cura da pele roçando em seu braço ou se tinham sido os
olhos de Lucinha grudados nos dele, parecendo pedir ajuda
do fundo de um lago turvo demais.
Quando a família saiu do mausoléu as pessoas começaram
a se dispersar. Daniel e Júlio se afastaram dos companheiros de
turma e foram olhar túmulos. Júlio conhecia todos os mais
importantes: os mais ricos, os que guardavam tragédias, os que
contavam a história da cidade e dos imigrantes suíços e alemães. Daniel escondia a sensação desagradável de medo e
morbidez com um riso que se pretendia de pouco-caso.
Na quarta-feira Lucinha não foi à aula. Os pais telefonaram para dizer que ela iria ao médico. Na quinta e na
sexta os murmúrios corriam pela sala: era leucemia, era
Aids, era tumor no cérebro. No fundo ninguém acreditava
que a vida pudesse escapar por algum ponto do corpo ágil
de Lucinha, do corpo de Lucinha que assombrava os sonhos da maioria dos garotos da escola.
Por fim Daniel sugeriu que fossem embora. O cemitério
já estava praticamente vazio, e o sol havia desaparecido por
trás dos morros. O domingo parecia mesmo acabado.
No sábado à tardinha o rádio havia dado a notícia, convocando colegas de turma, parentes e amigos da família
para o enterro. As causas da morte, debaixo do diagnóstico
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de anemia, provocaram uma das maiores ondas de boatos.
Lucinha, a tempestade de energia que devastava sonhos e
aulas, fora imobilizada.
†
— O seu problema é essa mania mórbida de viver trancado. — Daniel se sentou de novo e procurou voltar à conversa, tentando afastar pensamentos que, com certeza,
perturbariam seu sono mais tarde. — Abre a janela, cara,
deixa entrar pelo menos um pouco de ar. De tanto ficar
nesse quarto fechado você acaba pensando que mora num
túmulo.
Júlio deu um salto e abriu os braços em frente à janela,
impedindo que o outro tentasse chegar perto:
— Deixa assim, eu gosto! Dá mais clima. Você tem é
medo. — E mudou de tom, falando com um romantismo
forçado que o fazia parecer ainda mais distante da realidade: — Lembra o rosto dela? Branco, parecia moldado em
cera. Lembra o museu de cera que passou aqui no início do
ano? Se tivesse um meio de preservar Lucinha do jeito que
ela tá agora, bem que ela podia ser colocada no museu.
Botava uma roupa vermelha, com metade dos peitos de
fora...
— Tá, tá bom. Você não tem jeito mesmo.
— ... e pintava um filete de sangue descendo pelo pescoço, escorrendo até sumir entre os dois seios...
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Daniel começou a rir. Era tão absurdo o contraste entre
a realidade espantosa que haviam presenciado há pouco e
esse desvario gótico, que entendeu: Júlio estava perplexo
— como ele, como os outros colegas, como toda a cidade. E
buscava em desespero um jeito de afastar o espanto, um
jeito qualquer de lidar com a ordem natural das coisas que
desmoronava diante dos olhos. E era assim que conseguia,
com histórias de vampiros, transformando a imagem de
Lucinha num boneco de cera fantasiado para um filme com
Christopher Lee.
O domingo estava mesmo encerrado. O melhor era ir
para casa — provavelmente o rádio já teria parado de
transmitir jogo de futebol, ele não precisaria se trancar longe dos berros dos irmãos mais velhos e do pai. Levantou-se:
— É, fica aí, imóvel na sua cripta. Eu já vou indo.
Júlio acendeu uma vela em cima de Madame Butterfly
— um crânio de verdade que Daniel se obrigava a manusear de vez em quando escondendo a repulsa — e se deitou
na cama, o olhar circulando pelo quarto até pousar no teto.
Aquele era o seu refúgio, sua tumba no Vale dos Reis —
como dizia o amigo. Um espaço pequeno, atulhado de móveis antigos e escuros: guarda-roupa, mesa, cadeira, cama,
as pilhas de gibis em todos os cantos, o cheiro de coisas guardadas e longamente manuseadas.
Ficou parado, pensando que, assim que o amigo saísse,
estaria irremediavelmente só, sem ter com quem falar bobagem. Arrepiando-se de prazer com o medo e as lem-
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branças; construindo medos distantes, já que a vida, logo
na manhã seguinte, apresentaria outros bem mais prosaicos
— e mais difíceis de enfrentar.
†
— Corre, Júlio! Parece mulherzinha! Olha a bola aí!
Fora de órbita, Júlio procurou de onde vinha a voz do
professor de educação física. Num segundo a bola já estava
longe, o jogo prosseguia independente de seu susto, independente de Daniel e do que estavam falando; e o professor
já não se preocupava com eles. Apenas, de vez em quando,
gritava alguma coisa, para fazer constar a presença.
Enorme campo de futebol. A aula de educação física, às
sete da manhã, fazia das segundas-feiras o dia de maior sacrifício. Os dois odiavam futebol com a mesma gana — o
que só colaborava para que fossem vistos como monstros
extraterrestres. Na hora da divisão dos times, ficavam sempre para o final, restolhos que não contavam e nem faziam
questão de contar.
Já durava seis anos aquela amizade que era acima de
tudo uma tábua de salvação. Daniel lembrava muito bem
os primeiros meses depois de se transferir para o colégio
particular, na segunda série. Havia abandonado os poucos
amigos da escola pública como se estivesse partindo para
um exílio no outro extremo da galáxia. E foi assim que se
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sentiu por algum tempo. O colégio novo era enorme, cheio
de marmanjos que tropeçavam nele durante o recreio, derrubando sua merenda em meio a uma correria insensata.
Daniel sentia medo. Medo do diretor que falava com aquele
terrível sotaque alemão; medo da mulher do diretor entrando sem pedir licença na sala de aula, com o olhar de bruxa
seca procurando coisas inomináveis nos rostos dos alunos
(Daniel sabia que nunca disfarçava suficientemente bem —
embora não soubesse o que estava disfarçando); tinha medo
de pedir para ir ao banheiro desde o dia em que ficou perdido
nos corredores e, ao voltar para a sala sem conseguir o alívio,
acabou se aliviando nas calças; tinha medo da turma de desconhecidos que trocavam risos tácitos e pareciam estar sempre lançando olhares de desprezo para o seu lado.
Depois de três meses de pânico e sobressaltos percebeu
outro garoto na mesma situação: Júlio se sentava bem
atrás, e talvez por isso tenham demorado a fazer contato.
Quando trocaram as primeiras palavras foi como o mar vermelho se abrindo ao comando de Cecil B. de Mille: o caminho estava ali o tempo todo, apenas oculto. E era um
caminho a ser compartilhado.
A bola veio de novo. Daniel esticou o pé, mas não o
suficiente: ela passou intocada, seguida de perto por um
bando de corpos suarentos cheios de gritos roucos. Júlio
deu um passo atrás, procurando não ser atropelado.
— Demorei pra cacete até dormir de noite, pensando.
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— Eu também.
— Cada vez fico mais convencido: anemia está fora de
cogitação. Não foi à toa que a família não deixou fazer
autópsia.
Daniel sabia que o único caminho possível era embarcar no delírio. Sabia, principalmente, porque aqueles acabavam sendo os melhores momentos de suas vidas: quando
penetravam no mundo particular, cheio de brumas e formas cambiantes. Onde os berros dos outros caras e o apito
do professor chegavam amortecidos por grossas paredes de
pedra e uma atmosfera densa. Aos poucos as lembranças do
dia anterior foram-se amoldando aos códigos estabelecidos
em anos de diálogos quase cifrados.
— Tá legal, vamos que tenha sido.
Agora era a vez de Júlio demonstrar cautela:
— Não quero dizer que tenha, necessariamente.
— Mas vamos que tenha sido. Como é que a gente
pode ter certeza? E mais, como é que uma coisa dessas viria
parar exatamente aqui?
A partir do momento em que haviam se descoberto, a
vida ficou mais fácil. Na primeira conversa a grande surpresa foi descobrir que moravam no mesmo bairro, e Daniel
poderia optar por um caminho de ida à escola passando pela casa de Júlio. Logo depois o quarto de Júlio se mostrou o
lugar ideal para as viagens: ele morava numa casa grande,
escura e cheia de cômodos que os irmãos mais velhos, estu-
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dando no Rio, não ocupavam mais. E havia o consultório
do pai, com armários antigos e a coleção de vidros de formatos estranhos. Quando ele não estava, os dois costumavam se esgueirar para dentro e olhar as figuras dos livros de
anatomia: corpos nus, com partes dissecadas, que infelizmente nunca mostravam os órgãos sexuais.
— Ô, imbecil! Olha aí, ele vai fazer gol!
— Defende a bola. Manda de qualquer jeito, desgraçado!
Boa parte do time veio rodear os dois, as caras suadas
cuspindo raiva:
— São dois otários, mesmo.
— Ô idiota, não viu que ele tava cara a cara com o gol?
Daniel tentou articular algum som, mas o pensamento
custava a entrar nos eixos.
— Vamos encher eles de cacete! — Era Cesinha; um
pirralho, o menor da sala, mas incrivelmente folgado.
Júlio achou que a briga seria inevitável e tentou pensar
se conseguiria se defender. A voz do professor pareceu chegar de Saturno:
— Dispersando, gente! O jogo vai continuar.
— Olha, professor, assim não dá. Com esses dois idiotas a gente não consegue nada.
— No meu time eles não jogam mais.
— Vamos encher de cacete! — Cesinha esfregava as
mãos, sádico.
— Vocês dois. — O professor abriu caminho entre os
times, encarando Júlio e Daniel com ar irritado. — Pelo
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menos um mínimo de esforço! Não precisam nem jogar direito, basta prestar atenção.
Pelos próximos dez minutos não puderam conversar.
Correram de um lado para o outro, perseguindo uma bola
que estava sempre quilômetros à frente, indesejada.
À medida que o tempo passava descobriam mais pontos
de contato, mais assuntos, mais objetivos comuns. Gostavam de andar pelos morros, descobrindo cachoeiras geladas, gostavam de esperar a noite nos matos, assobiando
para provocar sacis, até que a crença em sacis foi se transformando no prazer das histórias de fantasmas.
À medida que o tempo passava, descobriam diferenças
surpreendentes, diferenças que eram tão compartilhadas
quanto as semelhanças. Diferenças que acabavam sendo absorvidas e virando outras semelhanças: Júlio gostava de música clássica, Daniel, de rock (tinha ganhado um violão aos
doze anos, depois de implorar durante meses, e tocava razoavelmente bem, trancado no quarto para ninguém ouvir).
Queria ser artista — músico, escultor, ator. Júlio queria afundar na ciência. Daniel sonhava morar na cidade grande, Júlio sonhava com fazenda e gado. Daniel gostava de livros de
espionagem e filmes de artes marciais, Júlio só via filmes de
terror e tinha a maior coleção de gibis do mundo. Daniel vivia pensando em Lucinha, Júlio, em Célia.
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Segunda-feira era dia de corpos suados e fedorentos
empesteando a sala depois da aula de educação física. A professora de português fez um breve discurso em memória de
Lucinha. Por alguns minutos o clima de espanto e irrealidade
do cemitério pairou sobre as carteiras, mas acabou por se dispersar, soprado pela necessidade besta de corrigir os trabalhos.
No recreio, como sempre, alguns garotos tinham arranjado uma bola e corriam novamente, levantando a poeira vermelha do pátio de terra. E, como sempre, Júlio e Daniel
procuraram um banco vazio para comer o lanche e conversar.
— Sabe o casarão perto da ponte do trem? — Júlio falou enquanto se sentavam.
— Sei.
— Já viu alguém lá dentro alguma vez?
— Claro que não. Aquilo tá vazio desde que eu me entendo por gente.
— Tem uma coisa que só hoje lembrei. — Júlio procurou fazer suspense enquanto mastigava um pedaço de pão
com goiabada. Daniel esperava, conhecendo a inutilidade
de tentar apressá-lo. — Há uns quinze dias vi umas luzes
acesas na janela de cima.
— Você tá zoando com a minha cara. Aquela casa não
tem ligação elétrica faz muito tempo.
— Parecia luz de vela. Ainda não estava escuro, devia
ser umas cinco e meia. Não é mentira, eu vi, só que não
lembrava mais.
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— Bom, eu não passo pela trilha há séculos.
— Desde aquele dia eu também não passei mais, e nem
dei importância. Pensei que pudesse ser algum mendigo lá
dentro.
Daniel terminou de comer o lanche, antes de fazer a
pergunta que iria colocá-los novamente num outro plano
de realidade:
— Você acha que... ele tá morando lá?
— E tem lugar melhor?
Daniel sentiu um tremor invisível. A casa perto do pontilhão da estrada de ferro era um dos cenários perfeitos para
esbarrar no fantástico. De vez em quando os dois desviavam o caminho na volta da escola e passavam por lá. O terreno era completamente tomado por árvores que, mesmo
de dia, enchiam de sombras os três andares de arquitetura
suíça. No teto cortado por águas-furtadas crescia capim e
pequenos arbustos. Uma trilha se desviava do pontilhão,
passava junto à casa, subia uma pequena ladeira e desembocava na rua de cima junto à fábrica de linhas, já perto de
onde Júlio morava. Nunca haviam entrado. Apenas imaginavam as possibilidades infinitas de tragédias passadas nos
quartos antigos.
— Tudo bem. — O sino do final do recreio estava tocando e Daniel se levantou preguiçosamente atrás de Júlio.
— Mas como é que a gente vai descobrir se ele está mesmo
lá dentro?
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Júlio colocou as mãos nos bolsos e ergueu os ombros,
exercitando um cinismo dissimulado e antecipando o encaminhamento da conversa. Disse a frase exata para provocar
a reação de Daniel:
— Se a gente tomar cuidado, é moleza.
— Moleza?
— É só uma questão de preparo. A gente vai de dia,
leva uns crucifixos, réstias de alho, um bocado de água
benta...
— Parece que você nunca viu filme de terror. Mesmo
de dia ele é capaz de abrir os olhos e hipnotizar a vítima.
Júlio prendeu o riso. Às vezes Daniel embarcava tão rápido nas suas gozações que ele próprio se via forçado botar
o pé atrás. Mas continuou, sabendo o efeito que causaria:
— Tem de ser rápido. Eu jogo a água benta em cima
dele e você crava a estaca no coração.
— Ah, isso não! — Daniel falou alto demais e atraiu
alguns olhares curiosos. Continuou mais baixo: — Você
crava a estaca!
— Tá legal. — Júlio se virou para trás, encarando-o
com um riso torto. — Eu cravo a estaca.
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