Livro Analisado: As Pupilas do Senhor Reitor
Preparação: Prof. Menalton Braff
O Autor
Júlio Dinis é o pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que
nasceu no Porto em 1839. Formado em medicina, foi por pouco tempo
professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, abandonando a carreira
por questões de saúde. Em Ovar e Funchal procurou a cura para seu mal,
a tuberculose, falecendo, contudo, prematuramente em 1971.
Enquadrado na terceira e última fase do Romantismo português, Júlio
Dinis prenuncia o Realismo, com sua preocupação da verdade nas
descrições, nos caracteres e na evolução da intriga. "Burguês dos quatro
costados", o autor tem como propósito fundamental uma pedagogia
social. Sua fé na bondade natural de Rousseau leva-o a pretender que
seus livros sejam "livros instrumentos", capazes de educarem e
civilizarem e doutrinarem as massas.
Nos finais dos romances de Júlio Dinis, assiste-se sempre a comovedoras
cenas de concórdia, de confraternização, de reconciliação, verdadeiros
quadros moralizadores. As heroínas de J.D. estão sempre incumbidas
dessa missão de pacificação social.
A Obra
As Pupilas do Senhor Reitor, publicado inicialmente em 1866 em forma de
folhetim, só no ano seguinte apareceria em livro. Seu caráter moralizador
e a religiosidade que perpassa por todo o romance, a bondade capaz de
chegar a extremos quase incríveis de sacrifício pessoal, são alguns dos
ingredientes que transformaram em muito pouco tempo o autor
desconhecido em sucesso nacional.
O espaço
Toda a ação transcorre em uma aldeia típica de Portugal. Seus costumes,
suas festas, seus valores e personagens. Da estada para tratamento de
saúde em
Ovar, interior de Portugal, são as memórias que o autor utiliza na
composição de seu romance. Os costumes rurais portugueses, incluindo aí
as maledicências, as beatas de verniz, mas também os valores positivos
do agricultor próspero, cuja moral do trabalho Júlio Dinis dá como modelo
social.
O tempo
a) O tempo histórico é o presente, como convinha a um autor pré-Realista
que preconizava a substituição do maravilhoso psicológico pelo romance
de costumes. E presente, neste caso, é o início da segunda metade do
século XIX.
b) Quanto ao tempo narrativo, não se pode precisar a extensão, mas
trata-se de alguns anos, que vão da infância de Daniel, passam pelo
tempo em que faz Medicina no Porto, seu regresso e a introdução, em um
tempo narrativo mais acelerado, das principais ações da trama, isto é, o
período dos escândalos na aldeia até a descoberta do amor.
O foco narrativo
A narrativa é feita em primeira pessoa, com narrador testemunha, sem
participação na história. É do tipo tradicional de
narrador-testemunha, interferente, com muitas e longas digressões
reflexivas. Um narrador que opina a respeito dos acontecimentos e dos
valores em discussão.
Personagens
Mais ou menos na ordem de entrada em cena são as seguintes:
José das Dornas - Lavrador abastado, por volta de 60 anos, homem
alegre, encarnação do pensamento positivo do autor. Um viúvo forte e
rijo, de formação moral tradicional. Mandar o filho para a cidade, para
estudar, não é propriamente pensamento seu, mas ao fazê-lo torna-se o
arquétipo dos agricultores de sua situação no país.
Pedro - Filho mais velho de José das Dornas. Em tudo semelhante ao pai:
robustez, disposição. Ingênuo, mas alegre, dado a cantorias, muito ligado
à vida do campo. Apaixona-se por Clara, de quem fica noivo.
Daniel - O segundo filho de José das Dornas. Em tudo diferente do irmão.
Detesta o trabalho no campo, começa estudando latim e finalmente vai
para a cidade do Porto, de onde volta muitos anos depois, já médico
formado. É um estróina que inquieta o sossego da aldeia, fazendo
vibrarem os corações femininos e provocando a antipatia de quase toda a
aldeia com sua mania de conquistador. Representa, no romance, o tema
romântico do resgate através do amor. Tocado pelo amor, muda de vida,
torna-se um homem sério.
Padre Antônio - É o senhor Reitor, o pároco local, uma espécie de anjo
benfazejo, onipresente, incansável, providencial.
Clara - Das duas pupilas, ela é a mais nova. Única herdeira dos pais
mortos, filha de um segundo casamento (sua mãe era proprietária rural),
era moça alegre, dada também a cantorias. Um pouco leviana, mas
regenerada por algumas das vicissitudes por que passa, como castigo por
sua leviandade. Torna-se noiva de Pedro, com quem deverá casar
brevemente, mas impressiona-se com Daniel, quando este regressa do
Porto.
Guida - A irmã mais velha de Clara. Filha de um primeiro casamento, seu
pai, viúvo, casa em segundas núpcias, mas não sobrevive muito tempo à
primeira esposa. Ao perder o pai, Margarida recebe tratamento cruel da
madrasta, a quem serve de empregada. Vive uma infância solitária de
trabalhos duros, como o de pastora. Passa os dias isolada nos campos e
montes, onde seu único consolo e o menino Daniel, a quem ama
apaixonadamente. Neste romance, é Margarida que representa o papel da
bondade a qualquer preço. Autodidata, torna-se a mestra dos meninos da
aldeia. Ela é fada, que só pensa na felicidade alheia, que se anula para
que a irmã seja feliz, mas que, no fundo,
escondidamente, sofre terrivelmente por frustração amorosa.
João da Esquina - Merceeiro que, com sua família, centraliza as fofocas
locais. O plano de casar Francisca, sua desmiolada filha, com Daniel, rico
herdeiro, ao falhar, torna-o um inimigo irreconciliável dos "das Dornas".
João Semana - O único médico da aldeia, até que Daniel regresse do
Porto. Conservador, nacionalista fervoroso, contador de anedotas picantes
sobre frades. Encarna a solidariedade comunitária, com sua medicinaapostolado, a vida sem outro sentido que não seja a prática do bem e a
preocupação com os problemas alheios.
A ação
Daniel não demonstra vocação para a agricultura e é posto a estudar
latim com o padre. Talvez torne-se um. Cedo, porém, descobre Guida
pastoreando sozinha nos montes e por ela se apaixona. O pároco
descobre que o menino também não sente-se vocacionado para a vida
eclesiástica. Padre Antônio aconselha José das Dornas a fazê-lo médico e
para isso é enviado para o Porto. Os amantes são separados. Durante os
anos que se seguiram, Clara fica noiva de Pedro e com ele vai casar, mas
Margarida só pensa no menino que um dia foi-lhe tirado à força. Anos
mais tarde, Daniel regressa médico formado. O acaso, entretanto,
primeiro joga-o na direção de Francisca, a cuja pele trigueira dedica
alguns versos. Estoura o escândalo (médico aproveita-se da paciente),
mas Daniel consegue safar-se ileso. O mesmo acaso, põe-no perante
Clara e Daniel, que tão mal pensara das aldeãs, agora é um citadino
civilizado, fica deslumbrado com a rapariga. Seu olhar, sua beleza, o
sorriso franco, os ditos espirituosos. Tudo o deslumbra. Sabe que Pedro e
Clara estão para casar, mas os costumes adquiridos em anos na cidade
(vício, ociosidade, corrupção) o impelem para a tentativa de sedução. A
Clara não é indiferente o cortejar de um jovem bonito e civilizado.
Leviana, como é, permite que o cunhado avance além das conveniências.
As pessoas começam a reparar, estalam as fofocas. Advertida pelo Reitor,
Clara percebe o abismo onde vai despencando. E percebe a tempo. Exige
que Daniel a respeite. Ele, entretanto, insiste. E insiste até o momento em
que se vê descoberto. Então pensa em suicídio, coberto de vergonha. Mas
Guida sacrificara a própria honra para a salvaguarda da honra da irmã: o
noivado está salvo. O problema, agora, é a reputação de Guida. A aldeia
toda comenta que ela tivera uma entrevista noturna com Daniel. Ela
mesma provocara a situação para salvar a irmã. A partir deste instante,
contudo, Daniel percebe o quanto trilhara já o caminho errado. O amor da
infância retorna com intensidade, mas Margarida não pode acreditar nele.
Profundamente magoado com o descaso com que até então fora tratada
por seu antigo amor, não pode dobrar-se para aceitá-lo tranqüilamente.
Recusa todos os seus pedidos. Sofre e faz sofrer. Mas Clara tudo percebe
e, salvo seu casamento, cria coragem e chantageia a irmã: aceita Daniel
ou a verdade será revelada. Estão nisso quando chegam, para reforçar a
posição, José das Dornas e o Reitor. Pedro e Daniel estão na sala
contígua. Todos pressionam - Margarida cede. Aceita o pedido de
casamento de Daniel e José das Dornas, duplamente sogro, comentou
satisfeito: "- E fica tudo numa família."
Enfim, "o mal não é uma fatalidade inelutável; o 'coração' e a
'consciência', juízes infalíveis, sempre consultados pelas personagens de
J.D., indicam o bom caminho. Desfeitos os mal-entendidos e esclarecidas
as
situações
equívocas,
que
originaram
atritos
e
puseram
temporariamente em perigo a felicidade das personagens, todas
simpáticas e boas, a harmonia social é restabelecida graças a 'grandes
lições de grandeza de alma'."
"Para concretizar o seu sonho de harmonia social, J.D. é um romancista
casamenteiro, que santifica pelo matrimônio..." E a ação vai-se completar,
obviamente, com o duplo casamento dos irmãos "das Dornas" com as
pupilas do Senhor Reitor.
Considerações
- Os capítulos são tipicamente folhetinescos: unidades narrativas com
peripécias e final em suspensão.
- O narrador se intromete na narrativa, que pontilha de digressões
moralistas, como era objetivo do autor.
- O narrador lança mão do recurso da interlocução, em geral, dirigindo-se
a uma leitora virtual. A leitura de romances era costume feminino.
- O romance está cheio de ironias bem humoradas, tornando-o, apesar do
moralismo intencional, de leitura mais agradável.
- As oposições: como costuma acontecer com escritores românticos, Júlio
Dinis também vê o mundo com as lentes do maniqueísmo. Assim, assenta
sua obra em um jogo contínuo de oposições. Entre as principais,
destacam-se:
A cidade - O campo
A modernidade - A tradição
O desejo - O amor
- Note-se que neste jogo os quesitos da direita são sempre os
vencedores.
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