HOMOSSEXUALIDADE E AIDS: A TRAJETÓRIA DE HERBERT DANIEL E SUAS RECONFIGURAÇÕES IDENTITÁRIAS Autoria: Cláudio José Piotrovski Dias Incubadora de empreendimentos solidáriosUniversidade Estadual de Ponta Grossa Resumo: Introdução: neste trabalho analisamos um aspecto da trajetória de Herbert Daniel, militante contra a Ditadura Civil Militar brasileira (1964-1985), pelo direito dos homossexuais masculinos e dos pacientes de AIDS, estes dois últimos aspectos desenvolvidos na década de oitenta – após seu retorno ao país, depois de longo exílio na Europa – até 1992, ano de seu falecimento, por conta da soropositividade. Objetivos e metodologia: nosso objetivo consiste em averiguar se ocorreram vicissitudes na forma como Daniel percebia a homossexualidade após o momento em que se descobriu soropositivo, em 1989. Para tanto, usaremos como referencial teórico/ metodológico, usaremos as considerações de Roger Chartier e Pierre Bourdieu, acerca das representações e construções de identidades. Discussão e conclusões: elencamos primeiramente uma breve história da AIDS no Brasil, que se estende de 1983 – primeiros casos no país – à 1992, ano que marcou a morte de Daniel. Neste item, damos ênfase às discussões sobre a configuração do perfil epidemiológico para a enfermidade e suas causas. Após, arrolamos uma discussão sobre a emergência da identidade soropositiva, por volta de 1987/ 1988. Por fim, por meio de artigos e livros publicados por Herbert Daniel, bem como através de vídeos em que concedeu entrevistas ou participou de debates, construímos nossa análise a partir das perguntas destacadas acima. Concluímos que existiram mudanças na identidade de Herbert Daniel e na sua forma de perceber a homossexualidade, principalmente por conta do advento da identidade soropositiva. Palavras-chave: AIDS; homossexualidade; identidade. 1033 Introdução/ Justificativa Este trabalho discute homossexualidade masculina, AIDS e experiência soropositiva. Desejo explorar um ponto que ficou em aberto após a conclusão de minha dissertação de mestrado (DIAS, 2012), e pensar se ocorreram mudanças no discurso de Herbert Daniel sobre práticas homoeróticas/ homoafetivas, após descobrir-se portador de HIV, em 1989. A hipótese é de que esta nova identidade foi a responsável pelo deslocamento de suas argumentações em defesa da legitimidade de relacionamentos entre homens para aquelas que objetivaram pensar os direitos dos soropositivos. Além disso, as mudanças ocorridas no perfil epidemiológico da síndrome na segunda metade da década de oitenta – a crescente percepção de que o HIV poderia ser contraído por qualquer indivíduo e não mais somente por aqueles que faziam parte dos chamados “grupos de risco”, notadamente homens homossexuais – pode ter levado Daniel a colocar entre parênteses suas discussões específicas sobre homossexualidade. Pensar tal mudança a partir da trajetória de Herbert Daniel, justifica-se pelo seu intenso e constante posicionamento acerca da homossexualidade masculina e sobre HIV/ AIDS. Da fato, boa parte de sua vida foi dedicada à militância. Sua participação na luta armada contra a Ditadura civil-militar foi intensa. Integrou diversos grupos entre o final dos anos 60 e início dos 70, como Polícia Operária, Vanguarda Popular Revolucionária, Vanguarda Armada Revolucionária e Comando para Libertação Nacional (DANIEL, 1982b, p. 47-55). Nestes grupos, passou inclusive por treinamento militar (DANIEL, 1982b, p. 29) – como no período em que freqüentou a “Escola de Guerrilha Rural”, em Ribeira, cidade do interior paulista (DANIEL, 1986b, p. 20). Porém, em 1972, por conta do desmantelamento de muitas das organizações, e pelo perigo de ser capturado, Daniel teve que se exilar. Após um breve período em Portugal, seguiu para França, (DANIEL, 1982b, p. 34), de onde retornou somente em 1981 após ter sido anistiado (DANIEL, 1986b, p. 21). No Brasil, passou a escrever crônicas sobre a situação política do país, pleiteando inclusive uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 1986, quando não logrou sucesso (DANIEL, 1986b, p. 21). Também escreveu livros sobre o período em que viveu no exílio. Neles, 1034 tematizou sua experiência homossexual, os preconceitos sofridos e a autorepressão por ter uma identidade sexual estigmatizada, além de inúmeras críticas à ditadura e aos grupos guerrilheiros dos quais participou (DANIEL, 1982b; DANIEL, 1984). Por volta de 1983, começou a se interessar por discussões acerca da nova e ainda misteriosa doença, a AIDS, publicando sobre ela diversos livros e textos, inclusive alguns ficcionais – caso de “Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos”, lançado em 1987. Daniel também foi co-fundador em 1986, ao lado do sociólogo Herbert de Souza - o Betinho - da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), além de ter fundado o “Grupo pela Vidda”, em 1989. Estes grupos, mas não apenas eles1, atuaram em diversas frentes em prol dos soropositivos (NASCIMENTO, 2005, p. 9199). Foi justamente na época da fundação do “Pela Vidda”, que Daniel descobriu ser portador de HIV. A partir daí, ele intensificou sua produção sobre a vivência soropositiva, como em “Vida antes da morte” (DANIEL, 1994), ou no conhecido texto “O primeiro AZT a gente nunca esquece” (DANIEL, 1990b, p. 8-10), publicado em 1990 no Jornal do Brasil. Pelo fato de Daniel ter “representado” estas coletividades – gays e soropositivos – e, como indicamos em nossa hipótese, alterou sua identidade quando passou a ser paciente de AIDS, utilizaremos como referencial teórico o conceito de “representação”, tal como desenvolvido por Roger Chartier e Pierre Bourdieu. Esta ferramenta conceitual deve ser utilizada para apreender esquemas de percepção da realidade, desenvolvidos por indivíduos e/ ou grupos, e que são a condição para que o mundo ganhe sentido, que o presente se torne cognoscível e decifrável (CHARTIER, 1988, p. 17). Mas seria um enorme engano acreditar que o conceito de representação permite somente perceber como uma realidade é construída. Mais do que isso, aqueles esquemas de percepção da realidade levam a formação de identidades sociais. Segundo Chartier (2002, p. 73), estas se formam a partir de: (...) primeiro, o trabalho de classificação e de recorte que produz as configurações intelectuais múltiplas pelas quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade; em seguida, as práticas que visam a fazer reconhecer uma 1 No Brasil, criaram-se inúmeros grupos de militância em torno da Aids, formados por indivíduos oriundos de diversas classes sociais/ perfil econômico, gênero, etc., como é o caso do GAPA, GIV, RNP+, dentre outros. (GALVÃO, 2000, p. 60-84). 1035 identidade social, a exibir uma maneira própria de estar no mundo, a significar simbolicamente um estatuto e uma posição; enfim, as formas institucionalizadas e objetivas graças às quais „representantes‟ (instâncias coletivas ou indivíduos singulares) marcam de modo visível e perpetuado a existência do grupo, da comunidade e da classe. Daniel foi importante para as coletividades das quais fez parte – formou ONGs, escreveu textos e livros, militou, etc. Mas não agiu desta forma somente para si, mas sim em prol de outros com quem se identificava. Por isso, cabe aqui uma definição complementar do conceito de “representação”, qual seja, a capacidade de representar. Para o sociólogo Pierre Bourdieu, isto é possível pela delegação concedida principalmente àquele que Chartier chamou de “indivíduo singular”, de falar em nome do grupo, ou seja, representá-lo. Para ele, isto é praticamente um ato mágico, performativo: Através do qual o representante constitui o grupo que o constitui: o portavoz dotado do poder de falar e de agir em nome do grupo, falando sobre o grupo pela magia da palavra de ordem, é o substituto do grupo que existe somente por esta procuração. Grupo feito homem, ele personifica uma pessoa fictícia (...) ele recebe o direito de falar e de agir em nome do grupo, de „se tomar pelo‟ grupo que ele encarna, de se identificar com a função à qual ele „se entrega de corpo e alma‟, dando assim um corpo biológico a um corpo constituído (BOURDIEU, 1998, p. 82-83). A partir deste referencial teórico, cumpre então averiguar se houveram mudanças no discurso de Herbert Daniel, passando a representar muito mais uma coletividade formada por portadores de HIV do que aquela que foi tantas vezes defendida por ele, composta por gays. Objetivos Nosso objetivo consiste em analisar se ocorreram mudanças na forma como Daniel percebia a homossexualidade após o momento em que se descobriu soropositivo, em 1989. Em outros termos, desejamos pesquisar se, por conta do desenvolvimento da conceitualização da identidade soropositiva universal e das mudanças do perfil epidemiológico da AIDS, Daniel passou a defender com mais intensidade os soropositivos - de maneira geral – do que, de modo específico, os homossexuais masculinos. 1036 Resultados Durante os anos que marcaram os primeiros registros de casos de AIDS, mais precisamente entre 1981 e 1987, ocorreram diversas tentativas de classificar os indivíduos mais propensos de se tornar soropositivos. Assim, foram definidos os “grupos de risco”, isto é, “aqueles em que a prevalência da doença é maior, em comparação com a população em geral” (NASCIMENTO, 2005, p. 64). No caso em questão, eram homossexuais, hemofílicos e usuários de drogas injetáveis (NASCIMENTO, 2005, p. 83). Francisco Inácio Bastos (2007, p. 33) acrescenta imigrantes haitianos residentes nos Estados Unidos. Estava formada a “fábula dos 4 Hs” – os usuários de drogas mais atingidos seriam os “heroinômanos” - os usuários de heroína (BASTOS, 2007, p. 44).2 Exceto pelos haitianos, os “grupos de risco” para a Aids foram reproduzidos no Brasil. Esta atitude gerou práticas discriminatórias, perpetradas contra aqueles que pertenciam àqueles segmentos. Como indica Susan Sontag (2007, p. 98) enfermidades cuja transmissibilidade ocorra por via sexual, tendem a gerar a culpabilização dos indivíduos que são sexualmente mais ativos. De fato, dentre os “grupos de risco”, é quase certo que o mais atingido pelo preconceito foi o homossexual, já que foi neste segmento que se verificou o maior número de casos, pelo menos até meados da década de oitenta. Sobre isso, em 1984, a revista brasileira “Veja” publicou números relativos à síndrome: 70% das pessoas que contraíram a moléstia ao redor do mundo, num total de 8000, eram homossexuais. No Brasil, mais especificamente em São Paulo, único Estado da federação que havia registrado casos até finais de 1983, entre 116 ocorrências, 104 disseram pertencer ao segmento mais atingido (VEJA, 28 nov. 1984, p. 107). Desta feita, existia a crença de que os homossexuais eram os únicos passíveis de se tornarem doentes. Sobre isso esclarece com acuidade o médico Francisco Inácio Bastos (2007, p. 33) “a humanidade se subdividiria daí em diante em duas supostas metades: gays, sob o risco absoluto de contrair o HIV/Aids, e nãogays, a salvo do misterioso mal”. Não é por acaso, portanto, que antes de ser 2 O próprio Francisco Inácio Bastos mostra que a crença de que os heroinômanos seriam os usuários de drogas que mais se tornavam soropositivos, era falaciosa. Segundo ele, a transmissão do vírus ocorre, por diversos motivos que aqui não convém enumerar, muito mais entre aqueles que injetam cocaína – prática, aliás, muito comum no Brasil (BASTOS, 1996, p. 215-217). 1037 batizada, na versão anglo-saxônica, de Acquired immune deficiency syndrome (AIDS), em 1982, a nova enfermidade recebeu alguns nomes, “carregados de concepções morais, tais como a „pneumonia gay‟, „câncer gay‟, „síndrome gay‟ ou mesmo Gay Related Immune Deficiency (Grid) – imunodificiência ligada ao homossexualismo” (NASCIMENTO, 2005, p. 82). Mas este perfil epidemiológico se alterou ao longo do tempo. A partir de 1987 o número de homossexuais que se contaminaram ano a ano só baixou, enquanto o de heterossexuais aumentou de maneira alarmante, mesmo que os primeiros se mantivessem na ponteira das estatísticas. Como mostrou o historiador Ítalo Tronca (2000, p. 149), a propósito de dados epidemiológicos levantados nos Estados Unidos, “no início de 1987, as pesquisas começaram a indicar que a Aids não estava restrita a grupos socialmente marginalizados (...) Naquele momento, a maioria dos contaminados nos EUA era heterossexual, homens e mulheres”. Este novo perfil é perceptível também nas campanhas de prevenção produzidas a mando do governo brasileiro. Em um vídeo de 1987 existiu claramente a preocupação de não vincular a enfermidade a nenhum grupo. “A AIDS ataca homens, mulheres e crianças”, diz o texto da primeira delas. (AIDS, você precisa saber evitar, 1987). Foi justamente neste período, quando a mudança na percepção sobre quem poderia se tornar portador de HIV parecia eminente, que se desenvolveu a “identidade soropositiva universal”. Seus defensores afirmavam que “pessoa vivendo com AIDS” era todo e qualquer sujeito, fosse soropositivo ou soronegativo (TERTO JÚNIOR, 1997, p. 66-69). Para Veriano Terto Júnior, foi justamente Herbert Daniel quem criou esta definição. Tratava-se de uma estratégia para mostrar que o soropositivo era igual a qualquer outra pessoa, e que o fato de conviver com um vírus não deveria significar a perda de direitos. Caso isto ocorresse, caracterizaria uma violação dos direitos humanos, portanto algo que dizia respeito a todos (TERTO JÚNIOR, 1997, p. 69-70). Não por acaso, Daniel também foi o fundador do Grupo pela Vidda – Valorização, Integridade e Dignidade do doente de AIDS. Como informa Dilene Nascimento (2005, p. 95), esta ONG “teve como objetivo dar voz aos portadores do HIV e doentes de Aids, garantindo-lhes participação ativa e determinante nas políticas públicas sobre a doença e retirando-os da posição passiva e vitimizada comum na época”. 1038 A identidade soropositiva universal, não obstante a afirmação de Terto Júnior sobre o pioneirismo de Daniel em sua criação, disseminou-se por todo mundo. De fato, a fundação do “Pela Vidda” no Brasil, fez parte de um movimento global. Segundo Dennis Altman, desde o começo da epidemia surgiram grupos que propagavam esta tendência, primeiramente entre os gays, passando a serem desenvolvidas também entre prostitutas, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos (ALTMAN, 1995). A partir deste contexto, sustentado pelas mudanças no perfil epidemiológico da AIDS e na construção conceitual da “identidade soropositiva universal”, a grande questão que se coloca quando pensada a trajetória de Herbert Daniel, é a seguinte: ocorreu um deslocamento de sua argumentação militante, de um discurso em que defendia homens com práticas homossexuais para outro, em que sua defesa focou o soropositivo? Para conseguir uma resposta consistente, precisamos tentar trilhar o caminho construído por Daniel na década de oitenta e início da década de noventa. Para Daniel, a vivência da homossexualidade era em si um exílio. O homossexual era obrigado constantemente a viver na clandestinidade. Os próprios locais de encontro sexual entre homens a indicavam: “A entrada da sauna é uma porta neutra, sem anúncio luminoso, sem indicação evidente. Uma portinha discreta, quase clandestina, que dá entrada a uma pequena recepção com ar de guichê de cinema ou de estação de ferro duma cidadezinha perdida”, afirmou ele, descrevendo o local onde trabalhou (DANIEL, 1982b, p. 155). Esta clandestinidade, muitas vezes, era aceita por aqueles que eram afligidos por ela. A sustentação da arbitrariedade esteve principalmente na forma de agir politicamente dos militantes homossexuais. Sobre isso, Daniel depôs afirmando que: O discurso do movimento homossexual sempre se caracterizou pelo que chamo de “machismo-leninismo”. Isto porque ele sempre se considerou uma organização de vanguarda, em que alguns poucos bons, que se consideram iluminados a respeito do sexo, vão levar à grande massa a consciência sobre o corpo (ISTO É, 27 jul 1983b. p. 84). Mas em sua volta ao Brasil, Daniel passou a atacar o discurso da esquerda sobre sexualidade. Relembrando a época em que viveu como guerrilheiro, engendrou críticas mordazes. Segundo ele, a esquerda não considerava a homossexualidade - e de maneira mais ampla, a sexualidade - algo que 1039 demandasse discussões políticas. Daniel destacou a fórmula clássica dos militantes da época, quando se referiam à homossexualidade: “isto não é um assunto diretamente político” (DANIEL, 1982b, p. 215). Para o ex - guerrilheiro, este tipo de posicionamento reiterava o gueto: “O silêncio é a forma do discurso duma certa parcela da esquerda sobre a homossexualidade. É uma forma de exilar os homossexuais” (DANIEL, 1982b, p. 217). Além disso, resultava na autocensura: o silêncio da esquerda, como “discurso”, imobilizou os próprios homossexuais, não auxiliando em ações que reivindicassem direitos ou levassem a denúncias de situações preconceituosas. Mas Daniel não fez somente críticas pontuais à esquerda. Ele também atacou o próprio sistema, grupos conservadores da sociedade que sustentavam as estruturas que garantiam a dominação e o preconceito. Tais grupos tornavam alienado o corpo do cidadão. Modelos de comportamento e de sexualidade eram impostos, e as pessoas não poderiam escolher que sexualidade exercer - como visto, segundo Daniel existiam múltiplas possibilidades: “Nossos corpos são o que exigem de nós, sede de recepções, rampa de projeções, espaços alheios de mim (...) Diante da multiplicidade feliz do que poderíamos ter sido, um ataque feroz nos reduz à estreiteza de uma uniformidade. Uma unicidade”, ele diz (DANIEL, 1984, p.180-181). E um dos piores modelos de sexualidade que poderia ser “permitido” às pessoas, segundo Daniel, era justamente aquele das divisões binárias, isto é, hetero/ homo; passivo/ ativo; dominador/ dominado. A homossexualidade estava embasada pela dualidade macho/fêmea, que colocava um primeiro problema, que diz respeito à hierarquização entre ambos: “A relação macho e fêmea não aparece nessa ideologia como um confronto de atividades sexuais (quero dizer: corporais) distintas e igualmente ativas. É uma conjugação de uma dualidade fundamental: passivo x ativo” (DANIEL, 1984, p. 321). Neste modelo dominante, o homem deve cumprir um papel, o de ativo; a mulher, o contrário. Qual o problema para o homossexual? Ele era tomado como fêmea, logo, passivo: “Os homossexuais (...) herdam o estigma do passivo homossexual. Passam a ser considerados aberrações, porque não obedecem os papéis sexuais pré-determinados” (DANIEL, 1986c). Mas Daniel apontou maneiras de se desvencilhar desta situação negativa. No livro “Meu corpo daria um romance” (1984), Daniel desenvolveu a tomada de 1040 consciência de que algo deveria ser feito em relação à opressão sexual, particularmente, a negação e discriminação do homossexual: (…) minha única saída era interrogar o meu sexo, forma possível de questionar o de todos. É sempre vã – e ditatorial – a explicação expositiva impositiva do sexo alheio. Só no nosso próprio sexo podemos encontrar alguma indicação (DANIEL, 1984, p. 52). Para que a homossexualidade fosse de fato aceita, Daniel propôs a retomada do poder sobre o próprio corpo, a liberdade para dispor dele da forma como bem aprovasse a cada um. Para angariar a autonomia corporal, as pessoas deveriam discutir a sexualidade em âmbito político. O cidadão deveria sair da indiferença e questionar o poder em sua tentativa de alienar os corpos (DANIEL, 1982a, p. 73). Especificamente para o gay, isso significava o abandono da pretensa identidade homossexual, e do binarismo “ativo-passivo”, que transformavam a vivência da homossexualidade em um exílio, um gueto (DANIEL, 1984, p. 371-372). Para Daniel, a AIDS também se apresentava como um problema para gays. Segundo ele, a síndrome fortaleceu a medicalização de homossexuais masculinos: “Do doente que era (afinal, a medicina deixou de considerar a homossexualidade uma doença há pouco tempo) agora o homossexual é sujeito a patologias próprias. Estamos assistindo ao nascimento de uma nova especialização médica: a Gayatria...” (DANIEL, 1986a, p. 110). Fez duras críticas a Igreja Católica, que, por intermédio de alguns de seus clérigos, afirmava que as causas da doença eram a promiscuidade e libertinagem, próprias a gays, que experimentavam como consequência a ira divina (ARAÚJO SALES, 1987, p. 11). Quanto a alguns coletivos homossexuais, foi taxativo ao afirmar que se portaram erroneamente ao negar que existiam ocorrências de HIV entre gays quando surgiram os primeiros casos da enfermidade nos princípios da década de oitenta, algo que levou o incipiente movimento homossexual a se isentar do problema. Não poupou sequer a mídia – meio pelo qual circulou após sua volta do exílio, escrevendo artigos e crônicas – Instituição que teria reforçado a associação entre homossexualidade e AIDS, principalmente a partir do sensacionalismo (DANIEL, 1983a, p. 122). Sensacionalismo da mídia, moralismo católico, repressão e controle dos corpos por parte da medicina, e aceitação de tudo isso pelos mais atingidos ao longo da década de oitenta: os homossexuais. O que estava em jogo não era o extermínio 1041 homossexual, segundo Daniel, mas o reforço do gueto: “o grande perigo da utilização da AIDS numa guerra de extermínio, é a organização e higienização do „espaço homossexual” escreveu ele (DANIEL, 1986a, p.113). Fosse falando somente sobre homossexualidade masculina, fosse versando sobre as relações deste tipo de sexualidade e AIDS, é notória a argumentação de Daniel em defesa da retomada do poder sobre o próprio corpo, que, ocorrendo, levaria a vivência legítima da homossexualidade. Mas aqui é necessário fazer um corte sincrônico, mais precisamente em 1989, ano em que ele se descobriu portador de HIV. A nosso ver, se alterou seu discurso sobre homossexualidade e se se voltou definitivamente para a discussão somente sobre soropositividade, sem deter-se em argumentos referentes a grupos específicos, como o homossexual. De fato, depois do adoecimento é difícil encontrar a palavra “homossexual” em seus textos. Ele reiterou que a AIDS se prestou para o controle dos corpos, mas com uma diferença: não somente dos gays, mas de todos os soropositivos. Brincando com as palavras, Daniel afirmou que “GRID” [ver a quinta página deste artigo] significava, em inglês, grelha ou grade, que serve justamente para mapear, controlar algo. É como se estívessemos mapeando, através de uma „grade‟, um determinado tipo de comportamento social, e depois pegando um animal ao qual prestaríamos „ajuda‟. É um pouco essa idéia terrorista da AIDS, do grupo de risco: vamos pegar esse grupo de risco na nossa rede e vamos ajudá-lo, ou seja, ajudá-lo a morrer, não mais do que isso. No Brasil, nos países de língua latina, a palavra teria que ser SIDA que é um sufixo muito interessante, para uma civilização suicida, ou homicida, ou genocida (DANIEL, 1990a). Além do mais, existia a tentativa - no pensamento de Daniel, errônea – de construir modelos para explicar o espraiamento do HIV. A adoção, no Brasil, do modelo explicativo norte-americano – AIDS como doença de gay - era totalmente falaciosa, dizia o ex - militante. Sua crítica se dirigia ao governo brasileiro que, mesmo com todas as evidências de que a AIDS se tornava geral, sustentava aquele modelo sem levar em consideração o que ocorria na África e nas Antilhas, em que o número de casos da enfermidade era muito maior entre heterossexuais. O governo federal, ao incorrer em tal erro, fechava os olhos para uma modalidade de transmissão grave que ocorria no país, isto é, por intermédio do sangue. Além, é claro, de sustentar que o HIV continuava restrito a poucos grupos. Daniel questionava algumas estatísticas apresentadas pelo governo, a propósito da 1042 AIDS: Vemos na „dança‟ dos números que não podemos confiar absolutamente em nenhuma das estatísticas brasileiras. Estas tentam se adequar ao modelo e não vice versa. Aqui no Brasil, há um caso como o de sangue. Em conseqüência da gravidade da situação do sangue, um genocídio foi cometido contra os hemofílicos, contra milhares de pessoas que foram transfundidas com sangue podre por causa da ganância de traficantes. Temos essa parte importante no modelo brasileiro que o nosso governo faz questão de obscurecer (DANIEL, 1990a). Para ele o vírus não deveria ser percebido como deste ou daquele grupo, mas sim em seu mais alto grau de generalidade: um vírus humano, patrimônio de toda a humanidade – diria que o “H” de “HIV” deveria, de uma vez por todas, significar “humano” (1990a). Por isso, não importava mais a maneira como determinado indivíduo havia contraído HIV. Tão pouco, a que segmento se identificasse. Salutar era perceber que se tornara doente que deveria ter seus direitos garantidos. Esta questão fica evidente numa fala de Daniel sobre a condição do homossexual e da mulher na epidemia, em entrevista concedida ao Programa “Roda Viva”, da TV Cultura: Mesmo que a doença atingisse só homossexuais, homossexuais são cidadãos completos e devem também... eles devem entender a gravidade do problema, eles devem se precaver sim, eles estão em risco sim, mas não acho que é umaquestão só de homossexual não. Acho que a questão da homossexualidade é uma questão que eu estou discutindo junto com a AIDS, junto com muitas outras. A questão da mulher, por exemplo, a mulher tem sido permanentemente discriminada na questão da AIDS. A AIDS é tão estudada no campo masculino que parece que é uma doença masculina. Então, quando aparece um caso de AIDS na mulher, é muito mais difícil de tratar, porque foi definida a partir de critérios muito masculinos. Então, a mulher com AIDS sempre sofre a condição de estar sendo mais discriminada (ENTREVISTA Herbert Daniel, 1991). Mas a discussão proposta por Daniel transcende estes aspectos. Para ele, a AIDS não era somente um problema de quem fosse atingido pelo HIV. Era também de quem não era soropositivo, quem talvez nunca fosse contrair o vírus: a doença era um mal da civilização do final do século XX, do final do segundo milênio. Isto fica evidente na questão dos modelos explicativos. Não existiam modelos para se compreender a doença, tão pouco de quem contraía o vírus HIV. Diz Daniel sobre isso que: Se entendermos a epidemia como fato mundial, não podemos falar de forma alguma, que essa epidemia tenha um modelo em que o homossexual desempenha um papel mais importante que o heterossexual. Não dá para dividir assim, como não dá para dividir o mundo em doentes e saudáveis. Como não dá para dividir o mundo em mortais e imortais (DANIEL, 1990a). 1043 Por conta do discurso sobre o espraiamento da AIDS por todo o corpo social e pela criação da identidade soropositiva universal – diga-se de passagem, ambos os aspectos intimamente ligados – cremos que seria paradoxal se Daniel retomasse, ou mantivesse suas considerações acerca da homossexualidade masculina, de maneira estrita. Embora importante, sustentá-la talvez fosse a sustentação para a continuidade dos defensores da AIDS como “peste gay”, algo que sem dúvida, Daniel repudiava. Considerações finais Tentamos analisar neste artigo se ocorreu mudança na identidade de Herbert Daniel quando soube-se soropositivo. Especificamente, buscamos perceber se sua defesa intensa de homossexuais masculinos – os mais atingidos na década de oitenta, tanto pelo HIV como pelo preconceito e discriminação – seria deixada de lado em 1989, quando se tornou paciente de AIDS e já estava delineada a “identidade soropositiva universal” - que via a síndrome como problema de toda a humanidade – e quando o perfil epidemiológico da doença se ampliava. Ao final consideramos que sim, porque fazer seu discurso girar em torno de homossexuais masculinos se tornaria um contra-senso, quando não algo anacrônico, pois a AIDS se encontrava, no final da década de oitenta e início da década de noventa, em outro estágio. Para chegarmos a tais considerações, precisamos apresentar inicialmente, o perfil epidemiológico da doença, suas mudanças, e também as considerações preconceituosas que se abateram sobre os “grupos de risco” - em especial, sobre gays, “causadores” de uma “nova peste”. Depois, versamos sobre a “identidade soropositiva universal”. Por fim, a partir de uma gama variada de fontes, fizemos a análise do discurso de Herbert Daniel, sobre homossexualidade e soropositividade. Seguimos seus passos ao longo de praticamente dez anos, inicialmente destacando suas considerações que se estendem até 1988, sobre relacionamentos afetivos/ sexuais entre homens, e seus argumentos sobre soropositividade, aprofundados entre 1989 e 1992. Esperamos com este artigo ter preenchido uma lacuna em nossa dissertação de 1044 mestrado, quando focamos na soropositividade de Herbert Daniel e a importância de sua militância em prol dos soropositivos mas quando, contudo, deixamos de notar as mudanças que se processaram em seu discurso sobre homossexualidade masculina. Referências Bibliográficas AIDS, você precisa saber evitar – cama. Realização do Ministério da Saúde/ Programa Nacional de DST/ AIDS. Brasília, 1987. 1 videocassete, (30 seg): VHS, son., color. Áudio em português. ALTMAN, Dennis. Poder e Comunidade. Respostas Organizacionais a culturais à AIDS. Tradução de Hugo Melo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ ABIA/ IMS-UERJ, 1995. ARAÚJO SALES, Eugênio de. O mal e a covardia dos bons. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro. 27 jul. 1987. p. 11. BASTOS, Francisco Inácio. Ruína e reconstrução. Aids e drogas injetáveis na cena contemporânea. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ ABIA/ IMS-UERJ, 1996. _____________. Aids na terceira década. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas lingüísticas: O que falar quer dizer. Tradução de Sérgio Miceli, Afrânio Catani e Denice Barbara Catani. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. CHARTIER, Roger. Introdução. Por uma sociologia das práticas históricas. In: _________________. A História Cultural entre práticas e representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel, 1988. p. 13-28. ______________. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002. DANIEL, Herbert. Às vésperas do AI-5exo. LP, Rio de Janeiro, v. 8, s.n, maio 1982a. ______________. Passagem para o próximo sonho. Rio de Janeiro: Codecri, 1982b. ______________. A síndrome do preconceito. In: DANIEL, Herbert; MICCOLIS, Leila. Jacaré e Lobisomen: dois ensaios sobre a homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé/ Socci, 1983a. p. 121-133. ______________. O gueto desmistificado. Preconceito e machismo entre os homossexuais. Isto É, São Paulo, p. 82-84, 27 jul. 1983b. Entrevista concedida a revista. ______________. Meu corpo Daria um Romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1984. 1045 ______________. A síndrome dos nossos dias. Desvios, Rio de Janeiro, s.v, n. 5, 1986a. p. 108-115. ______________. Duplo clandestino. Homem de ação – mas tinha um segredo. Afinal, São Paulo, s.v., s.n., p. 20-21, 22 jul. 1986b. Entrevista concedida à Ali Kamel, Celso Fonseca e Valdir Sanches. ______________. Os dois lados do beijo. Okzinho, Rio de Janeiro, s.p., jun. 1986c. Entrevista concedida ao Grupo Triânculo Rosa. ______________. Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos. Rio de Janeiro: Espaço e tempo, 1987. ______________. Direitos Humanos e preconceitos: o caso da AIDS. s.l, s.v., s.n, jul. 1990a. ______________. O Primeiro AZT a gente nunca esquece. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro. 30 set. 1990. p. 8-10. ______________. Vida antes da morte/ Life before death. 2 ed. Rio de Janeiro: ABIA, 1994. DIAS, Cláudio José Piotrovski. A trajetória soropositiva de Herbert Daniel (19891992). Rio de Janeiro, 2012. 133 f. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz, 2012. DIAS DE AFLIÇÃO. A Aids se espalha medo depois do caso Magic Johnson, mas o contágio entre heterossexuais ainda está restrito aos parceiros de bissexuais e drogados. Veja, São Paulo, s.v, n. 1210, p. 62-64, 27 de nov. 1991. ENTREVISTA com Herbert Daniel. Programa Sem censura. Direção de Lúcia Leme, realizado pela TV Educativa. Rio de Janeiro: TVE, 1991. 1 videocassete, (95 min): VHS, son., color. Áudio em português. GALVÃO, Jane. AIDS no Brasil. Agenda de construção de uma epidemia. Rio de Janeiro: ABIA; São Paulo: 34, 2000. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. As pestes do século XX: tuberculose e Aids no Brasil, uma história comparada. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. O AVANÇO DA AIDS. A doença já fez 50 mortos só em São Paulo. Veja, São Paulo, s.v, n. 847, p. 107, 28 nov. 1984. SONTAG, Susan. A doença como metáfora, A AIDS e suas metáforas. Tradução de Rubens Figueiredo e Paulo Henrique Brito. São Paulo: Cia das Letras, 2007. TERTO JÚNIOR, Veriano. Reiventando a vida: histórias sobre homossexualidade e AIDS no Brasil. Rio de Janeiro, 1997. 255 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) Instituto de Medicina Social/ Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1997. TRONCA, Ítalo. As máscaras do medo, Lepra e Aids. Campinas: Unicamp, 2000. 1046