Introdução O projeto de pesquisa apresentado almejava analisar a produção acadêmica dos alunos de Comunicação Social da Universidade Municipal de São Caetano do Sul desde a criação do programa de iniciação cientifica da instituição. A Universidade Municipal de São Caetano do Sul completou recentemente 40 anos de trajetória acadêmica. Nesse período, um dos alicerces da USCS se fixou no desenvolvimento de pesquisas científicas e, para tanto, conta hoje com uma Coordenadoria de Pesquisas acadêmicas cujos objetivos são1: Estimular o desenvolvimento de pesquisa científica na Universidade Municipal de São Caetano do Sul; Promover interação entre os docentes e discentes da Graduação e da PósGraduação; Desenvolver mecanismos para despertar para o interesse dos alunos de graduação em participar de projetos de pesquisa; Favorecer a interação entre as atividades de pesquisa desenvolvidas na Universidade e as atividades pedagógicas; Estimular a produção acadêmica dos docentes e discentes. Para contemplar os objetivos elencados anteriormente é necessário fazer o acompanhamento dessa produção acadêmica, identificando o perfil dos estudos que estão sendo realizados, suas temáticas principais para, com base nesses dados, definir rotas para as novas pesquisas. Desta forma, produzir conhecimento é muito importante em uma instituição acadêmica, entretanto, acompanhar esta produção científica e verificar sua real contribuição para a ciência é ação que merece atenção por parte dos produtores deste próprio conhecimento, no caso, os do segmento da Comunicação Social. Conhecer o passado permite planejar melhor o futuro da pesquisa na instituição e aproveitar o que já foi produzido, sem necessidade de “reinventar a roda” no campo da pesquisa acadêmica, ampliando o conhecimento e não ficar realizando sempre o mesmo tipo de objeto. Esse recorte de nos ater somente ao conhecimento produzido pelos alunos de iniciação científica do curso de Comunicação Social levou em consideração três importantes ingredientes no momento da formulação da pesquisa: viabilidade, relevância e utilidade. Especificamente sobre a relevância, o termo pode abrigar muito mais do que um exame rápido pode mostrar. É o que lembram GASKELL & BAUER (2002, p. 482), quando afirmam que “a relevância incorpora tanto a utilidade, quanto a importância. Nem tudo o que é útil é também importante, e coisas importantes podem não ser imediatamente ou podem não ser nunca úteis”. Quanto aos dois últimos itens, não há dúvida de que o estudo desenhado foi relevante justamente por colocar às claras o perfil das pesquisas e a contribuição que a instituição está dando na construção do conhecimento em Comunicação Social; e foi também útil para que os pesquisadores envolvidos com o tema possam conhecer o que foi produzido através da construção de um banco de dados temático, ainda inexistente. Essa base de dados temática constitui-se em estudo inédito sobre a produção acadêmica em Comunicação Social para a USCS e pode ser ampliado para outros cursos da universidade. Entretanto, o ingrediente viabilidade só se mostrou durante a pesquisa, 1 Informação disponível no site www.uscs.edu.br. Acesso em 21/05/2010. uma vez que tempo e acessibilidade aos documentos foram fundamentais para uma boa pesquisa acadêmica. Objetivos O principal objetivo dessa pesquisa foi construir um estudo da realidade da pesquisa produzida pelos alunos de iniciação científica da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, no segmento Comunicação Social, e verificar quais as linhas de pesquisa e reais contribuições para o conhecimento que estão sendo oferecidas pelos estudos realizados na instituição. Como questionamentos respondidos durante esta pesquisa destacaram-se: a) Quantas pesquisas de iniciação científica já foram realizadas na instituição desde a criação do programa? b) Qual o perfil – gênero, idade, semestre e curso em que está matriculado – do aluno-pesquisador de iniciação científica? c) Qual a temática e autores mais presentes nas pesquisas realizadas? d) Os resultados das pesquisas foram publicados em alguma revista científica ou apresentados em algum evento? e) O perfil das pesquisas de iniciação científica colaborou com a linha de pesquisa preconizada pela instituição: Comunicação, Inovação e Comunidades? Como objetivo secundário, o estudo tentaria criar um protocolo a ser aplicado nas demais áreas de estudo da instituição a fim de realizar o levantamento de todos os trabalhos de iniciação científica da USCS para abrigá-los em um repositório acadêmico e disponibilizar o conhecimento não só para o público interno – docentes e discentes – mas também para pesquisadores de outras instituições para que sejam referenciados em novos estudos. Metodologia e formas de análise A pesquisa adotou ao mesmo tempo as metodologias de análise documental e de conteúdo e tentou, ainda, incluir a análise bibliométrica das referências bibliográficas encontradas, mas diante das dificuldades de acesso aos trabalhos, esta parte ficou prejudicada. Tratou-se, também, de estudo que teve o princípio da acessibilidade como referência para levantamento da produção científica em questão, haja vista que não tínhamos informação sobre a disponibilidade – em arquivo – de toda produção científica no período que foi estudado. O pesquisador tentou levantar toda a produção científica do curso de Comunicação Social da USCS, realizado no âmbito da iniciação científica, desde a criação deste programa, em 2002. A primeira parte deste estudo teve como característica metodológica o princípio da acessibilidade. A amostragem por acessibilidade é assim definida por GIL (1995, p.97): Constitui o menos rigoroso de todos os tipos de amostragem. Por isso mesmo é destituído de qualquer rigor estatístico. O pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que estes possam, de alguma forma, representar o universo. Ressaltamos que o pesquisador tentou cobrir em 100% a produção de iniciação científica no segmento de Comunicação Social da instituição, mas diante das dificuldades em acessar os trabalhos, esse índice não foi alcançado. Como parte da produção não se encontrava em mídias digitais, a aplicação do método da análise documental foi necessária nesta etapa do projeto. Moreira (In: DUARTE & BARROS, 2005) lembra que a análise documental compreende a identificação, a verificação e a apreciação de documentos para determinado fim. A pesquisadora acredita que, no caso da pesquisa científica, é, ao mesmo tempo, método e técnica. Método porque pressupõe o ângulo escolhido como base de uma investigação. Técnica porque é um recurso que complementa outras formas de obtenção de dados, como a entrevista e o questionário. MOREIRA (2005, p.272) ressalta: “No âmbito da análise documental, o pesquisador pode deparar-se também com material de fontes primárias: pertencem a essa categoria escritos pessoais; cartas particulares; documentos oficiais; textos legais; documentos internos de empresas e instituições.” Muitas fontes pesquisadas não estarão em livros, mas em documentos – de acesso não muito fácil, mas que também podiam contribuir com informações importantes para encontrarmos de forma mais clara as origens e o perfil das pesquisas que são nosso objeto de estudo. Grande parte dessa documentação estava abrigada em documentos administrativos e na biblioteca da USCS. A utilização dessa fonte, de importância fundamental para o estudo, acaba por ser classificada como pesquisa documental, reiterada por GIL (1995, p. 51): A pesquisa documental assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica. A diferença essencial entre ambas está na natureza das fontes. Enquanto a pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos da pesquisa. Após levantamento dos produtos derivados da iniciação científica no período proposto, o aluno-pesquisador aplicou o método misto de análise de conteúdo. Sugerido por KRIPPENDORF (1990), o método misto de análise de conteúdo pode combinar técnicas qualitativas e quantitativas e sugere algumas etapas para um trabalho sério de análise, a saber: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) Formular uma hipótese ou questão para a pesquisa; Definir a população em questão; Selecionar uma amostra adequada da população; Selecionar e definir as unidades de análise; Construir as categorias do conteúdo a ser analisado; Estabelecer um sistema de quantificação; Treinar os codificadores e conduzir um estudo piloto; Codificar o conteúdo de acordo com as definições estabelecidas; Analisar os dados coletados; 10) Estabelecer conclusões e pesquisar indicações. Todo o processo de análise de conteúdo dos trabalhos de iniciação científica em Comunicação Social da USCS seguiu também as etapas sugeridas por FONSECA JUNIOR (2005, p. 290): A análise de conteúdo organiza-se em três fases cronológicas: (1) Pré-análise: consiste no planejamento do trabalho a ser elaborado, procurando sistematizar as idéias iniciais com o desenvolvimento de operações sucessivas, contempladas num plano de análise; (2) Exploração do material: refere-se à análise propriamente dita, envolvendo operações de codificação em função de regras previamente formuladas. Se a pré-análise for bem-sucedida, esta fase não é nada mais do que a administração sistemática de decisões tomadas anteriormente; (3) Tratamento dos resultados obtidos e interpretação: os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos e válidos. Operações estatísticas (quando for o caso) permitem estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos. A partir desses resultados, o analista pode então propor inferências. Ao proceder a análise de conteúdo da produção científica dos alunos de iniciação científica da USCS, no segmento da Comunicação Social, o aluno-pesquisador se deteve, também, de modo especial nas referências bibliográficas utilizadas pelos autores para identificar quais os principais marcos teóricos utilizados pelos pesquisadores. Esse tipo de análise é comum na bibliometria, ramo da Ciência da Informação em que elementos textuais, paratextuais e contextuais referentes a monografias e artigos de periódicos constituem variáveis comumente abordados nos estudos bibliométricos (ALVARENGA, 2000). A autora lembra que os resultados alcançados refletem aspectos quantitativos de campos de conhecimento, evidenciando ângulos, tais como produtividade de autores ou de fontes discursivas, os autores que constituem as frentes de pesquisa em determinado campo de conhecimento e constatações de regularidades que podem fazer emergir fatos históricos, no processo de evolução de uma disciplina. ALVARENGA (2000) salienta ainda que o mapeamento de relações estabelecidas entre autores e textos, por meio de citações, podem constituir insumos empíricos de maior importância para que se evidenciem ângulos peculiares do processo de produção de conhecimentos, ensejando o desenvolvimento de posteriores análises de natureza qualitativa. Tal pesquisa poderia ser de grande importância para a universidade, pois ajudaria a preservar e a compreender a história da instituição, tendo em vista que o curso de comunicação teve inicio em meados dos anos 2000 e por ser tão recente, ainda não tem uma tradição solidificada na área da pesquisa em iniciação científica. Talvez esta pesquisa represente o inicio da formação de uma história “física” da área de comunicação, fato de extrema importância para o posicionamento da universidade perante o mercado de comunicação como uma escola de tradição. Falando da universidade como um todo e não somente da área de comunicação, esta pesquisa se mostrou pertinente aos interesses da instituição em preservar sua história e serviria também para alavancar comercialmente o nome USCS. Análise dos resultados No total, foram 51 pesquisas realizadas na universidade no período estudado. Dessas, o pesquisador teve acesso somente a 15 em forma de paper/artigo científico. Tal fato expõe a deficiência do atual sistema ou realmente a inexistência dele. Dessas pesquisas, 33 eram de alunos matriculados no curso de Jornalismo, o que mostra a força da iniciação científica para o curso. A maioria dos pesquisadores eram do sexo feminino, em número de 29 pesquisadoras. A professora que mais orientou pesquisas é a Profa. Dra. Priscila Perazzo, com oito pesquisas cadastradas na plataforma Lattes. Aliás, a consulta aos currículos Lattes dos orientadores foi uma forma de chegar ao resultado obtido, uma vez que boa parte das pesquisas não existe fisicamente nos arquivos da biblioteca da USCS; muitos alunos que participaram da iniciação científica procurados pelo pesquisador não responderam ou informaram não dispor do produto final da pesquisa. Alguns professores contribuíram com cópias pessoais dos projetos orientados e outros nem sequer registraram as orientações na Plataforma Lattes alegando não terem comprovantes da universidade para que pudessem fazê-lo. Analisando as pesquisas obtidas, todas tinham um caráter histórico, todas analisavam um movimento influente na história, geralmente ocorrido na região do Grande ABC. Os dois autores mais citados pelos pesquisadores foram: Maurice Halbawchs, com a obra “A memória coletiva” e Jacques Le Goff, com a obra História e memória. Com esse número limitado de pesquisas, a maioria da professora Priscila, foi difícil traçar um padrão de temas pesquisados e, dessa forma, não se pode obter a identidade cultural da universidade. O resultado da pesquisa serve para alertar sobre a precariedade do sistema de arquivamento das mesmas, carecendo de novas formas de armazenamento e construção de conhecimento nessa área. Referências bibliográficas ALVARENGA, Lídia. Bibliometria e arqueologia do saber de Michel Foucault: traços de identidade teórico-metodológica. IBICT, 2000. Disponível em: <http://www.ibict.br/cienciadainformacao/include/getdoc.php?id=658&article=345&mo de=pdf.>. Acesso em: 21/05/2010. FONSECA JÚNIOR, Wilson Corrêa. Análise de conteúdo. IN: DUARTE, Jorge & BARROS, Antonio (orgs). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, p. 280-315. 2005. GASKELL, George & BAUER, Martin W. (ed.) Pesquisa qualitativa com texto: imagem e som: um manual prático. Petrópolis, RJ: Vozes, p.470-490, 2002. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1995. KRIPPENDORF, Klaus. Metodologia de analisis de contenido. Teoria y prática. Barcelona: Paidós Comunicación/n.39, 1ª edición – España, 1997 (año de la 1ª reimpresión). MOREIRA, Sônia Virginia. Análise documental como método e como técnica. In: DUARTE, J. & BARROS, A. (org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p.269-279.