1 SER-ADOLESCENTE QUE ESTÁ CUMPRINDO MEDIDA SOCIOEDUCATIVA: COMPREENSÃO À LUZ DA FENOMENOLOGIA DE HEIDEGGER 2 DILCE REJANE PERES DO CARMO, 3HEDI CRESCENCIA HECKLER DE SIQUEIRA, 4STELA MARIS DE MELLO PADOIN Introdução: A pesquisa foi desenvolvida na abordagem fenomenológica a partir do pensamento de Martin Heidegger, uma vaga compreensão do mundo2 da vida do adolescente, gerada pelo estudo na graduação e a experiência no vivido profissional, levou à busca pela compreensão ainda obscura desse ser do adolescente que se modifica e se faz presente em minha cotidianidade desde então. No mundo do sistema socioeducativo, no encontro com adolescente então infrator que está cumprindo medida socioeducativa de internação, a ocupação com o cuidado é recíproca entre quem cuida e quem é cuidado, o que possibilita trocas. Prestar a Assistência de Enfermagem em uma unidade de Atendimento Sócio Educativo proporcionou a aproximação com esse adolescente. A vivência no sistema socioeducativo absorvia o ser que eu sou e então, compreender o mundo dos adolescentes que também é meu colaborou para o desenvolvimento técnico-científico, proporcionando-me aprofundar no conhecimento e na compreensão do cuidado como ciência e possibilidade de encontro, interação, troca e solidariedade4. Assim, a pesquisa tem o Objetivo de compreender a vivência do seradolescente que está cumprindo medida socioeducativa no Centro de Atendimento Socioeducativo de internação em acompanhamento no CASE-SM a luz da fenomenologia Heideggeriana. Nessa perspectiva, compreender o vivido do seradolescente que cumpre medida socioeducativa de internação poderá aprimorar a Assistência de Enfermagem em unidades da FASE no sentido de promover um desenvolvimento saudável e prevenir seu (re) ingresso no sistema socioeducativo. O cenário da pesquisa foi uma unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo, no Município de Santa Maria, RS. Deu-se inicio após a autorização pela Fundação e a aprovação pelo Comitê de Ética da UFSM. Metodologia: Para produção dos dados, optou-se por utilizar a fenomenologia, uma vez que, de acordo com a natureza de estudos fenomenológicos, é considerado o recurso apropriado para a pesquisa de vivências, pois procura captar o sentido ou o significado da vivência para a pessoa em determinadas situações por ela experienciadas em seu existir cotidiano. Dentro da fenomenologia, buscou-se mais especificamente a fenomenologia baseada nos pressupostos de Martin Heidegger, que se volta inteiramente para a busca do sentido do ser1, 4. A entrevista fenomenológica foi desenvolvida com nove adolescentes institucionalizados. Resultados: Na análise compreensiva, os resultados apontaram que o adolescente sendo infrator se mostra como segue: Ele vê na medida socioeducativa uma prisão, está sendo ruim estar preso, mas sabe que tem que pagar pelos erros. Sente falta de casa e da mãe. Revela que usa e vende drogas. Quando for maior de idade não cumprirá mais medida socioeducativa. Tem familiar no presídio e reconhece que esse 1 Dissertação defendida em 2010 pelo curso de pós graduação em Enfermagem (UFSM). Enfermeira, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutoranda do Programa de pós graduação FURG. Membro do Grupo de Estudo e pesquisa: Gerenciamento Ecossistêmico na Enfermagem/Saúde (GEES). Professora convidada pelo Dep. De Enfermagem-UFSM no Projeto: Centro Regional de Referencia de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas- (CRR). E-mail: [email protected]. 3 Enfermeira e Administradora Hospitalar. Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Programa de Pós-Graduação do Curso de Mestrado e Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do curso de Graduação em Enfermagem da Anhanguera. Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa Gerenciamento Ecossistêmico em Enfermagem Saúde (GEES). 4 Enfermeira. Coordenadora e Professora no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Líder do Grupo de Ensino e Pesquisa: Cuidado de pessoas, famílias e sociedades (PEFAS). 2 02185 tempo na instituição é perdido, não volta mais. Cuidar da mãe e criar o filho é algo que ele quer fazer, mas precisa de ajuda. Relata ter ajuda da instituição se quiser trabalhar. Estudar é bom; na rua ele não estudava. Sair para o passeio nos finais de semana é uma possibilidade. Conviver implica ter que ficar quieto e não delatar o que viu, porém, encontrar-se com rivais de rua é inevitável. Pensa em bobagens, foge, julga e pune delitos alheios e sofre agressão na instituição. Tem vínculo com pai, mãe, irmãos, prima, tia, tio e filho. Tinha namorada até cair preso. Lamenta a morte do pai, da mãe e de amigos. Diz que se tivesse dinheiro não teria sido preso e que, no CASE, é pior. Na análise interpretativa, no cotidiano o ser-adolescente se mostrou em-meio ao sistema socioeducativo, re-velando modos de ser, que criam um padrão de comportamento peculiar àquela con-vivência institucional. Exprime uma impessoalidade na maneira que se apresenta no dia-a-dia: como a gente e não como seu próprio eu; na inautenticidadade, mostra que está-lançado naquilo que está determinado e no qual ele permanece. O sentido desvelado foi à decadência, que constitui justamente um modo especial de ser-no-mundo em que é totalmente absorvido pelo mundo e pela co-presença dos outros no impessoal. De-cair no mundo indica o empenho na convivência. O sistema socioeducativo não lhe retira as possibilidades, mas ele vai precisar des-cobrilas. Para isso, mostra que precisa de ajuda do sistema socioeducativo mediado pelo trabalho transdisciplinar e do fortalecimento de uma rede de apoio social, com vistas à sua reinserção mediada pela co-responsabilidade da família, comunidade e Estado. A reflexão resultante dessa inserção subjetiva mostrou as especificidades de ser adolescente e estar cumprindo MSE. Os depoimentos revelaram quem é ele. Ele tem entre 15 e 18 anos, vive com a mãe e os irmãos ou na rua e tem vínculos familiares fragilizados ou rompidos, conta que já cumpriu outras MSE, usa drogas e sofre agressão no sistema socioeducativo, revela comprometimento prévio ao sistema com o uso de drogas, como o crack. Conclusão: Perceber a singularidade desse ser - adolescente mostrou uma forma de aproximação a esse modo de o adolescente ser lançado no mundo do sistema socioeducativo. Compreende-se que o modo da decadência aponta a necessidade de reconhecer no ECA um guia orientador da prática socioeducativa, o qual poderá contribuir para uma atenção especializada junto ao adolescente que cumpre a medida, e que o caráter socioeducativo do ECA seja implementado. Dessa forma, poder-se-á estar contribuindo no que diz respeito à assistência, levando em conta as características de adolescentes e suas necessidades especiais de saúde, devolvendo aos adolescentes as possibilidades de escolhas mediadas por oportunidades oferecidas pela instituição e por uma rede de apoio social. Nas ações de saúde, destacam-se as direcionadas à saúde mental, considerando o sofrimento gerado pala restrição de liberdade aliado ao comprometimento com o uso de drogas. Nesse sentido, a educação em saúde pode contribuir para a prevenção, promoção, recuperação, manutenção e proteção da saúde. A prevenção tange especialmente à sua reinserção no sistema socioeducativo e à recaída no uso de drogas. A promoção da saúde pode ser feita por meio de grupos de apoio que ampliem a discussão para além da instituição propriamente dita com temáticas de valor à vida, entre outras. Na dimensão do ensino, faz-se indispensável incorporar capacitação, não só à formação dos profissionais de saúde 1 Dissertação defendida em 2010 pelo curso de pós graduação em Enfermagem (UFSM). Enfermeira, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutoranda do Programa de pós graduação FURG. Membro do Grupo de Estudo e pesquisa: Gerenciamento Ecossistêmico na Enfermagem/Saúde (GEES). Professora convidada pelo Dep. De Enfermagem-UFSM no Projeto: Centro Regional de Referencia de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas- (CRR). E-mail: [email protected]. 3 Enfermeira e Administradora Hospitalar. Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Programa de Pós-Graduação do Curso de Mestrado e Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do curso de Graduação em Enfermagem da Anhanguera. Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa Gerenciamento Ecossistêmico em Enfermagem Saúde (GEES). 4 Enfermeira. Coordenadora e Professora no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Líder do Grupo de Ensino e Pesquisa: Cuidado de pessoas, famílias e sociedades (PEFAS). 2 02186 como também à educação permanente dos profissionais em exercício. É necessário terse como foco a relevância do cuidado a esses adolescentes, os quais, na maior parte das vezes, são usuários de drogas. Desenvolver e manter vínculos, por meio de parcerias com instituições de ensino, pesquisa e extensão e incluir os futuros profissionais em campo poderá ser um caminho. Palavras-chave: saúde do adolescente, adolescentes, enfermagem, fenomenologia. Área Temática: Fundamentos Teórico-Filosóficos do Cuidar em Saúde e Enfermagem Referencias. 1 Forghieri, Y.C. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo: Pioneira Thomson, 2001. 2 Heidegger, M. Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante Schuback. 3 ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Universitária São Francisco, 2008. 598 p. 3 Paula, C.C. Ser-adolescendo que tem aids: cotidiano e possibilidades de cuidado de si. Contribuições da Enfermagem no cuidar em saúde. Tese (Doutorado em Enfermagem). Rio de Janeiro: UFRJ/ EEAN, 2008. 4 Simões, S.M.F.; Souza, Í.E.O. O método fenomenológico heideggeriano como possibilidade na pesquisa em enfermagem. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, v. 6, n. 3, p. 50-56, set./dez. 1997. 1 Dissertação defendida em 2010 pelo curso de pós graduação em Enfermagem (UFSM). Enfermeira, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutoranda do Programa de pós graduação FURG. Membro do Grupo de Estudo e pesquisa: Gerenciamento Ecossistêmico na Enfermagem/Saúde (GEES). Professora convidada pelo Dep. De Enfermagem-UFSM no Projeto: Centro Regional de Referencia de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas- (CRR). E-mail: [email protected]. 3 Enfermeira e Administradora Hospitalar. Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora do Programa de Pós-Graduação do Curso de Mestrado e Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do curso de Graduação em Enfermagem da Anhanguera. Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa Gerenciamento Ecossistêmico em Enfermagem Saúde (GEES). 4 Enfermeira. Coordenadora e Professora no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Líder do Grupo de Ensino e Pesquisa: Cuidado de pessoas, famílias e sociedades (PEFAS). 2 02187