O ESCRITOR JORNAL DA UBE RESENHAS A poesia morreu. Viva a poesia! A poesia morreu. Viva a poesia! Por esta saudação poderíamos começar a falar de Maravilta e Outros Cantares (Alpharrabio Edições, São Paulo/SP, 2001), de Erorci Santana, na comemoração do rei que sempre reaparece (porque a instituição real nunca morre), exatamente quando se anuncia seu fim. Hoje, talvez mais que nunca, o lamento e a saudação estão presentes, principalmente nos últimos 100 anos, com a escalada de um poderio científico que promove, acima de qualquer coisa, a hegemonia tecnológica (e tecnocrata). Numa época assim o primeiro altivo (e ingênuo) descarte há de ser o da poesia, tão infensa a essa hegemonia, o que a leva a parecer obsoleta. Os verdadeiros poetas, no entanto, sabem mais e, por trás de uma certa raiva orgulhosa, deixam transparecer um tom de piedade desassossego pela ignorância da turba, esta turba pragmática que se concentra “nos resultados” e descarta exatamente aquilo que nos mantém humanos: os veículos da necessária transcendência, se é que desejamos ir além da banalidade ou do sem sentido da experiência vital. E nos verdadeiros poetas vigora ainda (como sempre foi e talvez venha a ser) o primado artístico da poesia. Erorci Santana, autor de Maravilta e Outros Cantares mente amealhou.” (p.19) Em Maravilta é constante a referência a um outro tempo (outros lugares) – a Antigüidade, que não conseguimos ainda assimilar e já descartamos. Afinal estamos a ver já os “...velhos feitores debruçados, pranteando / o cadáver evanescente da História.” (p.23) No poema XXVIII, mais do que clara está a sensação do momento único que vivemos, num ápice tecnológico a matar o humano: “atestando a falência da humanidade nesses seis milênios,” (p.71). Já no XXXII, o que ressalta é a consciência do quanto os meios expressivos são insuficientes para exprimir uma consciência realmente aguda do real. Pois “...sabemos inúteis as palavras,” (p.79). “Filhos do mistério” que somos (como diz Flávio Gikovate em À procura da felicidade, defrontamo-nos com a barreira momentânea do indizível. Mas é exatamente a poesia que nos pode fazer transpor as barreiras, aquelas que a tecnologia nem mesmo pode começar a encarar, por- Cancioneiro do cacau O poeta Cyro de Mattos recria nesse livro a saga do cacau com os seus mistérios, desde as suas origens até os dias atuais, uma epopéia que teve o seu parto dolorido e solitário lá onde a serva respira. Assis Brasil Cancioneiro do Cacau é, sem dúvida, a culminância e a síntese estética e existencial da obra poética de Cyro de Mattos, a levar em conta que vida e poesia se unem sempre no ser sensível que é o poeta. E tal postura emblemática fica logo patente através da linguagem que ele manipula para viver e criar. Este Cancioneiro do Cacau é indicativo de toda a preocupação estética do poeta, o regional e o existencial de braços dados para a síntese de uma linguagem suficiente, plena de nuances e recursos expressionais. As partes em que se divide – Os Sortilégios, As Raízes, As Safras, Os Bichos, As Cidades, Os Trabalhos, Os Transportes, As imaginações, Os Recantos, Os Descaminhos – nos levam a sentir as suas “canções de experiências”, de que nos fala William Blake. E é aqui que o regional tem preponderância na obra poética de Cyro de Mattos, em destaque as lembranças já transformadas em linguagem criativa. CM movimenta-se entre as suas vivências transformadas em linguagem poética, com amplos recursos na área da alteração e da homofonia, do ritmo e da metáfora visual. Linguagem rica de significações sintáticas, um jogo pendular de imagem e realidade, que fazem deste cancioneiro um motivo exemplar do fazer poético. Festa do intelecto, como queria Valéry, e também da sensibilidade, Cyro de Mattos é co-partícipe da vida e da criação, sem o que nenhum escritor realiza o seu projeto estético. Além da experiência de vida – e principalmente a que vem dos longes da infância – a vivência da criação, o que dá ao poeta o conhecimento da técnica do poema. Linguagem que se enriquece nas várias facetas do ritmo e mesmo da rima, como é o caso de seus sonetos, plenamente realizados. Mas o que tem saliência é a adequação das expressões nas várias temáticas que o autor elege para a sua poesia. Consciente de tal coisa, Cyro de Mattos procura a unidade na diversidade, onde confluem e se reconciliam vida e poesia. Desde o encantamento da infância, como o de observar a natureza, como no poema Vaga-lume (Vejo as mãos / catando verdes / lanterninhas / nas moitas da infância /com que emoção /olhinhos da noite / quase tontos de sono / piscando- “a poesia está morta mas juro que não fui eu eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la”.# MAGALY TRINDADE GONÇALVES e ZINA BELLODI, professoras e críticas literárias, são autoras da Antologia Escolar de Literatura Brasileira (Musa Editora), em conjunto com Zélia Thomaz de Aquino. piscando), à escatologia da vida, como em Santa Casa de Misericórdia (era preciso um leito / na última agonia / Para curar e aliviar / era preciso um leito / Monsenhor Moysés Couto / sem hesitar dizia. /Fez-se a planta / numa colina. / Canto de um dia novo / andou na cidadezinha. / Santa casa que clareia, / santa casa das dores. / Até hoje no leito / duelam a noite e o dia). Da visão lírica à realidade, o sentido social também está presente na poesia de Cyro de Mattos, pois ele toca em algumas feridas existenciais do seu Nordeste, mas é a problemática humana, em visão global, que o assoberba e é preciso ler este seu livro devagar, sorvendo aos poucos a beleza de sua linguagem. A atitude do poeta é simples e profunda diante da vida, não só neste cancioneiro mas em toda a sua obra poética. Cyro de Mattos é também um contista em primeiro plano da literatura brasileira.# ASSIS BRASIL é jornalista, crítico literário, ensaísta, ficcionista e autor de livros infanto-juvenis. Publicou mais de cem livros, dentre os quais Beira Rio Beira Vida e Os que bebem como cães, ambos romances premiados no Concurso Nacional WALMAP. ! Zina Bellodi No grande momento da civilização grega (da nossa civilização ocidental, talvez toda a civilização), Aristóteles parece ter descoberto o motivo de existir (e ter sempre de existir) a poesia, que para nós representa, no seu ponto mais sutil, a literatura em si. Foi quando disse que a poesia é “mais filosófica do que a História, porque esta mostra o que ocorreu, enquanto aquela mostra o que poderia ter ocorrido”, talvez a primeira clara afirmação da virtualidade como traço definido da literatura (e da arte em geral, acrescentemos). Não a virtualidade como objeto de mero consumo alienante ou até meio “voyeurista” da mídia atual, mas aquela que caracteriza o potencial de transcedência que define a arte. Hoje, no clamor da morte da poesia, do romance (digamos logo, do “humano”) nada como ver a poesia afirmar-se exatamente no anúncio de sua morte. O século de Aristóteles e nossos últimos 100 anos podem, pelo menos na teoria da arte, apresentar grandes paralelos. A diferença é que aquele não perdera as amarras do humano. A poesia de Erorci Santana tem a energia da raiva (pela decretação de morte) e a beleza (lírica) da afirmação de vida. Uma afirmação: sobre “a dança dos despojos/ que insiste em celebrar a morte da poesia.” (p.15). Morte que não é só da poesia, mas, a ser verdadeira, será da própria civilização humana, posta na condição de coisa extinta pela onda bárbara que vem: “devastando a forma viva / e os valores mais sagrados / que o espírito humano ardua- No 101 - Dezembro/2002 - Pág. 22 Magaly Trindade Gonçalves que são as questões básicas da experiência do existir e pensar. A poesia de Erorci, com todo esse escopo que ultrapassa limites de qualquer cultura, está, entretanto, sempre de pés firmes numa experiência específica de lugar e tempo, de Brasil atual. Nela há sempre o sinal (claro ou obscurecido) de um chão, de um céu, de uma natureza enfim, que tem contornos mais do que precisos. O etéreo, aqui, não vem em prejuízo da concretude, seu ponto de partida inescapável. É o que ocorre é claro, com a experiência maior, o amor, como vemos no poema XXXVI: “Se a Poesia sagrasse o seu império aqui, / na borda deste copo, no rubro dos teus lábios. / Cintilasse no verniz dos teus sapatos, nas borbulhas / e fagulhas desse porre perigoso e sacrossanto. (p.87 – grifos nossos). A “morte” e “vida” da poesia, em Maravilta, lembram os versos de Ferreira Gullar (Toda Poesia): “Onde está a poesia? indaga-se / por toda parte. E a poesia/vai à esquina comprar jornal.” Os versos de Erorci Santana, como os acima, sobrevivem ao momento de banalização tecnológica e até a ele recorrem, se necessário, sem negar que nele há de existir, no mínimo, uma centelha (porque imortal) do essencialmente humano e, portanto, só passível de pleno entendimento (quando possível) no plano da transcendência, na poesia, por exemplo. E Erorci poderia dizer, como faz José Paulo Paes, (Melhores poemas – p.161): ! A poesia de Erorci Santana, em Maravilta e Outros Cantares, tem a energia da raiva (pela decretação de morte) e a beleza (lírica) da afirmação de vida. Ultrapassa limites de qualquer cultura mas está, entretanto, sempre de pés firmes numa experiência específica de lugar e tempo, de Brasil atual.