2. Orientações complementares 2.1 Para ler e interpretar obras de arte Há bem mais coisas que a Arte explica do que palavras para explicar a Arte. Almada Negreiros (1893-1970) Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir. Descartes (1596-1650) II11GP_F02 II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 17 2/19/14 3:31 PM 18 Ideias & Imagens | Guia do Professor ver doc. 46, p. 54 do Manual Holofernes estava caído sobre a cama «por estar afogado em vinho». Judite avançou em direção à cama e apossou-se da sua cimitarra; «aproximando-se da cama, agarrou-o pela cabeleira e disse: "Fortifica-me neste dia, Senhor Deus de Israel". Desferiu-lhe, com todo o vigor, dois golpes no pescoço e arrancou-lhe a cabeça... Saiu e entregou a cabeça de Holofernes à criada que a meteu no saco de provisões.» Esta narrativa da morte do tirano é-nos contada na Bíblia, no Livro de Judite. Por ter desaparecido o texto original, este episódio bíblico do povo de Israel, difícil de datar com exatidão, é considerado como apócrifo pelos Judeus e pelos protestantes, mas foi recuperado por São Jerónimo na sua tradução latina da Bíblia (Vulgata). Quando, por volta de 1599, Caravaggio reproduz a cena, procura seguir a versão bíblica, mas não deixou a criada à espera no exterior, pintou-a ao lado de Judite. O pintor consegue assim explorar habilmente o contraste entre a cor de pêssego da sua heroína e a pele enrugada da velha mulher. Judite, a viúva «muito bela» e rica «a quem nada podia ser apontado», abandonara as vestes do luto, vestira a melhor roupa e dirigira-se ao campo do inimigo para salvar o seu povo. O exército assírio comandado por Holofernes cercara a cidade de Betulia. Tomados pelo desespero, os Judeus estavam prontos a render-se quando a jovem mulher partiu para seduzir o inimigo. Depois do ato sangrento, as tropas assírias fugiram em pânico; Israel estava salvo e Judite regressou da tenda do general libertino sem ser manchada pelo pecado. «Tu és a coroa de Jerusalém, Tu és a alegria de Israel, Tu és a glória do nosso povo.» Foi com estas palavras que o supremo sacerdote glorificou a heroína […]. Holofernes assinou a sentença de morte ao querer obrigar os Judeus a adorarem o rei assírio Nabucodonosor em vez de Jeová. Holofernes era um pagão e Judite executou o assassinato para maior glória do seu – único e verdadeiro – Deus. A motivação para o ato de Judite tinha grande atualidade no fim do século XVI, altura em que Caravaggio pintava o quadro em Roma. Na época, a luta contra a heresia, se necessária pelo fogo e pelo gládio, constituía a preocupação central na capital do mundo católico. Estava-se em plena Contrarreforma. A Igreja tentava reconquistar os reinos que se haviam afastado durante a primeira metade do século XVI. A Inglaterra, a Suécia e algumas partes dos Países Baixos, da França, da Alemanha e da Suíça tinham seguido Lutero, Calvino ou Zwingli, não reconhecendo mais a autoridade do Papa e deixando de enviar para Roma o produto do dízimo […]. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 18 [O artista desta obra foi] Michelangelo da Merisi, nascido em 1571, na aldeia lombarda de Caravaggio, perto de Bergamo, cujo nome mais tarde adotou. Tendo chegado a Roma no princípio dos anos 90 […]. Em pouco tempo Caravaggio conquista reputação internacional. Em 1598-99 recebe a primeira encomenda importante – a decoração de uma capela […]. É nesta altura que pinta Judite, a sua primeira figura feminina, sedutora e erótica, apesar de decentemente vestida. Caravaggio nunca pintou um nu feminino. É possível que o pintor se sentisse atraído pela ambivalência da heroína, simultaneamente piedosa e assassina do homem […]. A maior parte dos artistas representaram Judite após cometer o ato. Caravaggio, pelo contrário, mostra o momento preciso da degolação: a vítima ainda vive, a cabeça está apenas meio separada do corpo. Os olhos ainda não estão baços e exprimem o terror da morte. Da boca muito aberta escapa um grito. Caravaggio procura o efeito teatral que alia o choque ao horror, um género de dramaturgia também apreciado pelo seu contemporâneo inglês William Shakespeare […]. Todas estas crueldades não figuravam apenas sobre a tela dos pintores ou no teatro; os artistas confrontavam-se com elas na vida quotidiana, quer na Inglaterra isabelina quer na Roma da Contrarreforma […]. Em 1603, [o artista] pinta «O Sacrifício de Isaac» por Abraão; na «Degolação de São João Baptista» (1608), que se encontra na Catedral de Valetta, em Malta, aparece a única assinatura conhecida de Caravaggio, podendo ler-se na obra muito estragada «F Michel A», escrito com a tinta usada para pintar o sangue que escorre da garganta do mártir. Em 1610, num outro quadro, a cabeça de São João Batista reaparece entre as mãos de Salomé e numa obra mais tardia de Caravaggio, David apresenta a cabeça de Golias. Os contemporâneos do pintor mostravam-se surpreendidos pela parecença de Golias com Caravaggio, de quem se dizia ter «a pele escura, os olhos ameaçadores, sobrancelhas grossas e espessos cabelos negros». A personagem Holofernes que grita e sofre poderia ser um autorretrato de Caravaggio que por masoquismo se quisesse identificar como vítima de uma violência brutal. II11GP © Porto Editora 1.Caravaggio, Judite e Holofernes, c. 1599, óleo sobre tela, 144 x 195 cm 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares Rapidamente celebrizado pelas suas obras, Caravaggio gozava da proteção dos monsenhores e dos cardeais. Tinha no entanto muita dificuldade em satisfazer os seus gostos. Na decoração das igrejas, não seguia as normas fixadas pelo Concílio de Trento que estipulavam que, embora as representações pictóricas das Sagradas Escrituras devessem servir para a educação das massas ignorantes, o trabalho artístico teria de permanecer digno e aristocrático. Caravaggio transgrediu os imperativos desse «decorum» pintando santos de pés sujos e representando a Virgem Maria afogada e inchada como se tivesse sido retirada da água. Simultaneamente, Caravaggio infringia o ideal de beleza do Renascimento. Via e mostrava o mundo de uma maneira nova e realista. As suas obras apreciadas e muito bem pagas por um número reduzido de conhecedores chocavam muitos dos seus contemporâneos. Em vez de copiar os modelos convencionais, Caravaggio pintava diretamente com modelos vivos e não esquecia as pregas e os sulcos da face nem as rugas que denunciam o trabalho de toda uma vida. «Está demasiado natural» foi tudo o que o colega 19 Annibale Carraci foi capaz de dizer ao ver o quadro de Judite. É nessa obra que aparece pela primeira vez o plano de fundo escuro, negro como as trevas, defronte do qual as figuras se destacam, iluminadas por uma luz artificial e sepulcral. Esses dois elementos tornar-se-ão característicos da obra de Caravaggio. O facto de os quadros tratarem, sem cessar, de trevas e violências pode ter origem no carácter do artista […]. Em quase todos os quadros de Caravaggio encontram-se espadas, punhais e facas. Tal como o sangue e as degolações, as armas formam uma espécie de leitmotiv sádico da sua obra […]. Várias das obras do pintor foram rejeitadas pelos dignitários da Igreja com base em incorreções teológicas […]. Vítima do delírio da perseguição, passou os últimos anos a fugir, deixando atrás de si obras-primas que virão a ter uma influência decisiva na pintura europeia do século XVII. Morreu no exílio em 1610, e, como escreve um contemporâneo, tão «solitário e miserável como tinha vivido». Rose-Marie & Rainer Hagen, Os Segredos das Obras-Primas da Pintura, Tomo 1, Colónia: Taschen, 2003 2. Diego Velásquez, As Fiandeiras ou A Fábula de Aracné, II11GP © Porto Editora 1657, óleo sobre tela, 2,20 x 2,89 m (Museu do Prado) Esquema compositivo da obra. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 19 2/19/14 3:31 PM 20 Ideias & Imagens | Guia do Professor Tela com imprimação e pintura feita de pigmentos diluídos em óleo. […] Velásquez, conhecedor das técnicas de pintura italianas, flamengas e espanholas, produz livremente as técnicas para os seus fins na pintura. Emprega fundos pardos, vermelhos e cinzentos. Sobre o fundo, do qual conserva o efeito, emprega a técnica de pintura direta. Resultado Óleo sobre tela de 2,20 m x 2,89 m. Estas dimensões de origem reduziram-se posteriormente devido a um incêndio ocorrido em 1734. Para reparar os danos, juntaram-se tiras nas partes laterais e na parte superior da tela, sem que o quadro tenha, no entanto, perdido a verosimilhança. Representação formal Formalmente, Velásquez distribui a tela em dois ambientes que delimita em compartimentos. Efetua a representação de interiores através de uma perspetiva aérea, ainda que também a linear esteja presente, quer dizer, define o espaço através da luz e da cor. Utiliza dois focos de luz: um exterior e artificial que ilumina em primeiro plano a principal figura da direita, e outro no compartimento do fundo que, sendo proveniente de uma suposta janela, a ilumina com luz solar direta. O resto da obra disposta à margem dos focos permanece na penumbra, ao modo de claro-escuro. Dominam as cores cálidas, especialmente vermelhos e pardos. A proporção das figuras e outros elementos correspondem à realidade. As figuras, nas suas posições, recordam as renascentistas. Utilização e combinação dos elementos A composição do tema ordena-se a partir das diagonais do quadro, que tem como ponto central um dos aspetos principais da representação e que coincide com a figura de Aracne. O eixo de simetria vertical divide em duas partes, nas quais se traçam outras duas diagonais que saem da parte inferior do referido eixo e terminam nos ângulos superiores respetivos. As diagonais, como elemento significativo da composição, perfilam através das figuras, objetos e tons de claro-escuro. A luz é outro elemento relevante na composição que, além de reforçar a distribuição geométrica, estabelece espaços e delimita a ordem de importância das figuras. Assim se cria um ritmo que se inicia à direita com a figura iluminada, seguindo em direção ao centro, para passar logo para a figura da esquerda e depois ao resto do quadro. Com o claro-escuro e a cor cálida e avermelhada cria-se uma atmosfera de ficção que, com a utilização de algum tom complementar, suaviza e equilibra a abundância dos tons cálidos. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 20 Tema representado Na obra encontra-se, em primeiro plano, um grupo de cinco mulheres a trabalhar: das três centrais uma fia, outra carda e uma terceira doba, enquanto as duas laterais realizam um trabalho auxiliar. Todas estão representadas como era usual na pintura de género, com vestidos que refletem o seu trabalho e condição social. A oficina onde trabalham encontra-se na penumbra e, na parede do fundo, abre-se outro compartimento mais iluminado ao qual se acede por dois degraus. Aí, em primeiro plano, três damas ataviadas segundo a moda da corte contemplam uma cena. Uma delas está situada junto à viola. Ocupando toda a parede do fundo, há um tapete que representa o mito do Rapto de Europa, perante o qual duas personagens realizam uma passagem de outro mito, o de Aracné, como se se tratasse de uma representação teatral. Esta obra chama-se As Fiandeiras e era conhecida como a Tapeçaria de Santa Isabel. II11GP © Porto Editora A. Investigações técnicas e formais Conteúdo social/ Significado (leitura dos símbolos) A pintura apresenta dois mundos, o do trabalho e o do ócio. No mundo do trabalho oferece-se uma cena laboral e de costumes, com materiais, instrumentos e mobiliário próprios de uma oficina artesanal de fiadeiras. No mundo do ócio desenvolve-se outra cena onde algumas damas, seguramente da nobreza, contemplam uma representação frente a uma tapeçaria. Ao mobiliário desta cena corresponde uma cadeira ricamente trabalhada, um instrumento musical, ou viola de «gamba», e uma tapeçaria que reproduz uma pintura de Ticiano ou Rubens. Estes dois mundos, tanto pela simbologia descrita como pelos seus ambientes de luz, estabelecem duas categorias sociais e artísticas. O tema contém um programa iconográfico onde se representam dois mitos: no compartimento do fundo está representado o de Aracné, jovem da Lídia, habilíssima tecedeira e bordadeira que um dia, com sobranceria, chega a desafiar Atena, sua deusa patrona. Ainda que a deusa, transformando-se em anciã, tenha tentado persuadi-la e incutir-lhe modéstia, Aracné insiste no seu desafio. Atena faz um tapete onde representa os deuses olímpicos e os castigos que infligem aos mortais que os desafiam, e Aracné responde-lhe com outro, o rapto de Europa, no qual figura uma das debilidades de Zeus. Encolerizada, Atena dá-lhe um golpe com a sua lançadeira, razão pela qual Aracné, humilhada, tenta enforcar-se. A deusa salva-a, mas transforma-a em aranha, animal que continuamente fia e tece as suas teias. Às três fiandeiras centrais corresponderia o mito de As Miníades, que são Alcítoe, Arsipe e Leucipe, filhas do 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares II11GP © Porto Editora rei Mínias, que ficam em casa a fiar, enquanto as demais mulheres do reino saem para prestar culto a Dioniso. O deus toma a forma de uma donzela e apresenta-se perante elas para as exortar a saírem e celebrarem o culto, porém sem o conseguir. Como castigo, foram transformadas em morcegos. A existência destes dois mitos na criação de Velásquez define-se tanto pelos aspetos formais, que correspondem a representações de outros artistas, como pelo seu conteúdo moral. Dos mitos não escolhe as metamorfoses nem outras passagens, mas o paralelismo simbólico do desafio no momento antes do castigo, quer dizer, Aracné apresenta o seu tapete do rapto de Europa a Palas Atena e esta reage com uma atitude de reprovação. Ao mesmo tempo, as três fiandeiras com os instrumentos correspondentes às filhas de Mínias encontram-se a trabalhar em vez de festejar Dioniso. Os aspetos dos dois mitos que Velásquez reproduz eram característicos de representações artísticas do século XVI, correspondentes a gravuras de Dolce que ilustram as Metamorfoses de Ovídio. […] Avaliação histórica Diego Velásquez nasce em Sevilha, no final do século XVI. Ingressa na oficina de Herrera, o Velho, e, algum tempo depois, o seu pai firma com o pintor Francisco Pacheco um contrato para lhe ensinar a arte da pintura durante seis anos. Com ele inicia-se no mundo da pintura e da corte. Em 1623, é nomeado pintor do rei e estabelece-se em Madrid, onde em 1628 conhece Rubens. Um ano depois, Velásquez viaja até Itália e visita Milão, Veneza e Roma, onde permanece um ano. A sua viagem a Itália permite-lhe conhecer os grandes artistas italianos, ficando particularmente impressionado com Ticiano. Em 1649, volta a deslocar-se a Itália onde, além de expor obras suas no Panteão, adquire pinturas para o rei Felipe IV, tal como na anterior viagem. Uns anos depois do seu regresso, em 1656, pinta As Meninas e, um ano mais tarde, As Fiandeiras. Além de pintor do rei, Velásquez tem na corte numerosos cargos e ocupações, que procura acumular. O objetivo da sua ambição é conseguir um título de nobreza e para isso faz muitos esforços e solicita intervenções do rei e do Papa. Devido ao seu cargo de aposentador da corte, Velásquez visitava com frequência a Real Manufatura de Santa Isabel, lugar que seguramente viria a influenciar a conceção de As Fiandeiras. Para compreender a obra de Velásquez, tanto no seu aspeto formal como iconográfico, é importante mencionar que possuía uma extensa e rica biblioteca com livros de ciências físicas e naturais, medicina e matemáticas, anatomia, arquitetura e pintura. Entre eles figuravam obras de Leonardo da Vinci, Vasari, Alberti, Miguel Ângelo, Dürer, Vitrúvio, Palladio e os II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 21 21 espanhóis Francisco Pacheco e Juan de Arfe. Dispunha também de tratados alegóricos como a Iconologia, de Ripa, e as Metamorfoses, de Ovídio, obras que importa ter em conta, especialmente ao analisar As Fiandeiras. Em Espanha, no século XVII, a Coroa vai-se afundando progressivamente, enquanto paralelamente floresce o Século de Ouro da pintura e da literatura. […] Em Velásquez não se encontra um eco direto do declínio da grande potência hispânica, mas em contrapartida reflete mitos sociais, como o demonstra a sua preocupação pela fidalguia. O seu interesse cultural manifesta-se através das suas invenções e conquistas técnicas e temáticas, em consonância com as tendências filosóficas do século em que vive, representadas por Descartes, Spinoza e Leibniz, bem como pelas correntes literárias dos espanhóis Cervantes, Calderón, Lope de Vega, Quevedo e Gracián. Velásquez realiza o quadro As Fiandeiras e As Meninas na fase final da sua vida, pouco antes de Felipe IV lhe conceder a insígnia de uma ordem militar. Para poder aceder a tal dignidade submete-se a uma difícil comprovação que demonstra a pureza do seu sangue e o mérito para tal distinção. Em finais de 1659, o rei concede-lhe a fidalguia para que possa receber a insígnia de Santiago, apesar de não ser considerado nobre. […] Conclusão(ões) As Fiandeiras é uma obra que faz parte do Barroco internacional, ligado a Caravaggio e Rubens. A Caravaggio corresponde o tratamento da luz e o ambiente realista e de costumes do primeiro plano. A Rubens, o tema mitológico e cortesão de influências venezianas do compartimento do fundo. Velásquez utiliza a linguagem plástica do Barroco, mostrando um instante como uma representação teatral de um facto quotidiano, e um mito com projeção ao infinito, patente no aposento do fundo. Por sua vez, a composição é aberta, sem padrões a delimitá-la e o espectador participa daquilo que acontece no quadro. Velásquez inclui, além disso, inovações e características próprias, como o movimento, a pincelada e a perspetiva aérea. As Fiandeiras é um expoente completo tanto do Barroco espanhol como do Barroco internacional. J. J. I. Rufach, M. L. P. Pena e A. S. Toà, Método para a Interpretação de Obras de Arte. Lisboa: Planeta Editora, 1992 B. Outros argumentos para a interpretação de As Fiandeiras Uma vez mais Velásquez trata um assunto mitológico como se de um tema de género se tratasse, aproximando o mito da realidade quotidiana. Tradicionalmente acreditava-se que a pintura representava a 2/19/14 3:31 PM 22 Ideias & Imagens | Guia do Professor II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 22 sensação de movimento, que não é mais que uma mancha, é já dada por Velásquez, séculos antes do futurismo e da fotografia). A disposição das duas mulheres de frente lembra as dos dois ignudos de Miguel Ângelo, na abóbada da Capela Sistina. No centro e como transição para o 2.º plano, uma mulher em contraluz baixa-se para apanhar um objeto. Ao fundo, no centro, tem lugar a cena que dá o título à obra: o momento em que Atena, tendo contemplado o tapete que Aracné fez, levanta o braço com a espada para transformar a tecedeira numa aranha. A técnica de Velásquez atinge a plenitude utilizando uma pincelada livre que cria volume e dilui contornos, plasmando na tela a atmosfera interposta entre objetos, personagens e espectadores, em perfeita harmonia. A cena tem sido interpretada como uma alegoria da nobreza da pintura e das faculdades divinas do artista. Pode ler-se como uma descrição do processo criativo, que é constituído por uma fase manual, mais mecânica e humilde de realização e outra intelectual, que, tendo uma natureza divina, requer ser iluminado pela luz da ideia e necessita de ser “julgado” para ser valorizado. II11GP © Porto Editora oficina de fiar e de enovelar da fábrica de tapetes de Santa Isabel de Madrid, até que D. Diego Angulo interpretou corretamente o tema, no que foi corroborado por D. Maria Luisa Caturla que encontrou o documento em que a tela figurava como “A fábula de Aracné”. Trata-se, seguindo a narração de Ovídio nas suas Metamorfoses, da disputa de Palas Atena (a figura de capacete), deusa que presidia às artes e ofícios, com Aracné, famosa tecedeira da Lídia, sobre qual das duas realizava o melhor tapete: em síntese, é uma questão de orgulho, de uma mortal desafiando uma deusa. Velásquez, nesta obra que acaba cerca de 1657, organizou numa só cena diversos momentos de narração (o quadro dentro do quadro), se bem que tudo esteja unido visualmente por tons harmoniosos e pela luz. A composição está dividida em dois planos, reservando-se o 1.º às figuras em contraluz, dado que a iluminação penetra pela abertura na parede do fundo, lugar onde se desenvolve o 2.º episódio da narração. No 1.º plano, onde se representa a oficina, as trabalhadoras preparam os fios para a fabricação do tapete. Nas duas diagonais contrapostas situam-se as quatro protagonistas que apresentavam complexos jogos de escorços. A luz cai, à direita, sobre as costas da jovem que movimenta o garbo, enquanto a mulher mais velha, à esquerda, faz girar a roda de fiar a toda a velocidade e por isso não se veem os raios da roda (a Mar Sánchez Ramón, Guia Breve, Museu del Prado. Madrid: Ed. Aldeasa, 2002 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 23 3.João Antunes, Igreja de Santa Engrácia, Lisboa, c. 1682/1690-1966 1 Fachada principal. 3 Planta. 2 Vista áerea. 4 Perspetiva do interior. II11GP © Porto Editora A igreja só foi concluída em 1966, quando lhe foi acrescentado o tambor e a cúpula, a balaustrada, toda a estatuária, os cenotáfios e a sua função de Panteão Nacional. A Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, assinala o início das grandes construções e afirma o novo estilo. No entanto, a sua história é atribulada […]. No local existiu uma primeira igreja. […] Em noite de temporal de 1681 a nova capela-mor desmorona-se e arrasta consigo o corpo da velha igreja, decidindo-se então, e após audição de arquitetos, fazer-se uma igreja completamente de novo. A Irmandade abriu concurso para a planta da nova obra tendo sido vencedor o arquiteto João Antunes. Santa Engrácia surpreende imediatamente pela planta 3 , um quadrado em que os ângulos são assinalados por torreões, definindo interiormente um plano centralizado sob cúpula (só recentemente foi concluída) e em forma de cruz grega […]. Apesar de a primeira pedra ter sido lançada em 1682 por D. Pedro II, na década de 80 as obras praticamente não avançavam. […] Cremos que o início real das obras se situará em 1690, e ao longo da década terá sido construída a maior parte do edifício. Só em 1690, o país inicia a recuperação de uma grave crise comercial que a quebra açucareira provocara. “Os anos de 1690 a 1705 foram de incontestável incremento e prosperidade mercantil para Portugal” II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 23 (V. M. Godinho). Os anos de paz e a resolução definitiva do problema sucessório (o futuro D. João V nasceu em 1689 e será declarado herdeiro do trono) trazem ao país, e à corte, a tranquilidade necessária ao delinear de um programa construtivo. Santa Engrácia é por isso um sinal anunciador de uma mudança conjuntural – desde logo pela planta, inspirada certamente na proposta de Bramante para São Pedro de Roma e que, figurando no tratado de Sérlio, conhecerá ampla divulgação […]. À escala lisboeta seriam estes também os desígnios propostos por João Antunes. Se a planta acusa a influência de Bramante, logo aqui pressentimos o fascínio que a arquitetura romana não deixará de exercer no Barroco em Portugal […]. Como São Pedro, também Santa Engrácia é construção que se impõe sobre a malha urbana. Kubler, pitorescamente, achava-a, mais que uma igreja, um farol para a navegação do Tejo […]. Santa Engrácia situa-se numa plataforma da encosta de Santa Clara, com admirável paisagem sobre o Tejo e a margem sul – e sabe-se da importância que para os arquitetos barrocos tinham os enquadramentos naturais e urbanos das suas obras. 2/19/14 3:31 PM 24 Ideias & Imagens | Guia do Professor II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 24 visual escuro à claridade geral da fachada. A porta principal (da galilé ou vestíbulo) é ladeada por colunas torsas acentuando a ideia de movimento que o edifício no seu conjunto propõe. O interior 4 é anunciado pelo vestíbulo, onde se rasgam portas de recorte clássico. […] A decoração de talha e azulejo está ausente, ao contrário do verificado nas pequenas igrejas longitudinais das ordens religiosas do período anterior. O mármore (material "nobre" e caro, e utilizado sobretudo em obras reais) de coloração rosa, amarelo e cinza, distribui-se pelo interior, não de modo aditivo mas inserido na ordenação geral proposta pela arquitetura. Harmonizando-se com a cor clara do calcário, os mármores definem o tom alegre, quase jovial, deste interior que propõe valores profanos para comprazimento dos olhos. A decoração marmórea de Santa Engrácia anuncia Mafra, onde os tons de rosa caracterizaram a policromia da igreja, que assume toda a sua plenitude em dias de sol intenso. Também em Santa Engrácia o colorido dos mármores pressupunha profusa iluminação assegurada por amplos janelões e pela presumível cúpula. A racionalidade e o prestígio histórico da planta conjugavam-se com os valores sensíveis da decoração numa simbiose que o Barroco sempre perseguiu. O interior pressupunha ampla utilização pública […]. Procurava-se dirigir multidões, captá-las emotiva e sensivelmente. Santa Engrácia propunha um envolvimento em dispersão visual. A escala não humana da obra completava o efeito geral a que as quatro meias cúpulas (construídas) e a cúpula central (não realizada) emprestavam pela escala um efeito de grande peso visual. Mas a importância e o significado de Santa Engrácia têm de procurar-se também no percurso acidentado da sua construção. As obras decorreram com lentidão e algumas paragens. Em 1712, data da morte de João Antunes, achava-se ainda incompleta, tendo as obras continuado sob a direção de Manuel de Couto (1657-c.1730). As primeiras décadas do século XVIII serão decisivas para a arquitetura barroca. Em 1717, iniciam-se as obras de Mafra, que mobilizam enormes recursos humanos e materiais e que em parte poderão explicar o desinteresse de D. João V em completar Santa Engrácia, apesar de se inserir na corrente estética oficial. Também a falta de recursos da Irmandade para uma obra de tais dimensões, a par da estrutural vocação nacional pelo inacabado, são fatores a considerar. […]. Obra de qualidade, Santa Engrácia afirma o arranque definitivo da arquitetura barroca e mostra a importância fundamental que João Antunes teve nesse processo. II11GP © Porto Editora Acresce que Santa Engrácia se situava então no limite oriental de Lisboa, inserida num bairro novo de cariz aristocrático que se delineava fora da apertada malha medieval da velha cidade, a qual dificultava a renovação. Os novos arranjos urbanísticos procuravam sobretudo áreas livres onde era mais fácil romper com estruturas do passado. […] O projeto de Santa Engrácia considerou esta nova realidade emergente, procurando instaurar poder ordenador sobre o casario circundante e ser seu símbolo anunciador. Com Santa Engrácia, e pela primeira vez, assiste-se em Portugal à manifestação do ideal barroco romano convertido numa linguagem internacionalizada. A planta é desde logo uma citação histórica e clássica, que a presença das ordens reforça. No portal do vestíbulo definem-se colunas salomónicas com capitéis de ordem compósita, ordem que se repete nas pilastras do interior. As ordens serão utilizadas sobretudo em obras reais ou de círculos próximos da corte e o reportório clássico é um emblema de poder, uma manifestação erudita, tanto mais eficaz quanto se afasta do gosto popular. Os valores clássicos presentes na obra e assumidos por João Antunes distanciam-se no entanto da dimensão humana de cariz renascentista ou da crise de valores do Maneirismo. São uma herança cultural, uma referência histórica. Mas Santa Engrácia é, pelas proporções e volumetria, uma obra barroca fundamentalmente. Externamente 1 e 2 a igreja apresenta uma novidade rara – a ondulação dos alçados, geradora de dinamismo visual e proporcionando contrastes de claro-escuro. Tal proposta pressupõe informações sobre a obra de Borromini cuja influência é menor entre nós que a de Bernini. A ondulação dos alçados é um facto surpreendente: nada o fazia prever em obras anteriores e a sua materialização só se explica por importação de influências. Fenómeno revolucionário, proporciona o ritmo côncavo-convexo-côncavo. Nesta perspetiva a influência de Santa Engrácia é quase nula e incompreendida. A alternância entre côncavo e convexo distribui-se pelas quatro fachadas, embora a fachada principal seja naturalmente assinalada por maior força decorativa de elementos extraídos do reportório clássico. As restantes fachadas são pesadas massas ondulantes de decoração praticamente inexistente. A obra barroca assume e desenvolve a importância que a arquitetura europeia confere à fachada principal. Santa Engrácia confirma essa constante. A sua fachada principal é pontuada lateralmente pela presumível base de duas torres, enquadrando o ritmo da parte central. Ritmo e variedade são também propostos pela alternância de frontões, janelas e nichos. Quatro colunas gigantes introduzem a galilé, contraponto José Fernandes Pereira, Arquitetura Barroca. Lisboa: Biblioteca Breve, 1992 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 25 ver Análise de Obra, p. 145 do Manual 4.A Ópera de Paris Escadaria principal da Ópera Garnier. A. O produto mais sumptuoso do segundo Império foi a Ópera de Paris. Projetado por Garnier, este edifício apresenta duas qualidades: o sentido do urbanismo e o sentido da oportunidade. A planta apresenta uma dificuldade, devido a estar destinada a um local multifacetado: o ponto de convergência de três boulevards. Não podia ter traseiras, porque todas as fachadas se tornam importantes do ponto de vista arquitetónico. A solução patenteia a tradição da École des Beaux-Arts no seu ponto mais alto e mais brilhante. Todos os eixos estão desenvolvidos de modo a valorizar o mais possível cada parte da planta. A maciez do edifício fá-lo sobressair na paisagem de Paris. No interior, a escadaria enorme, os mármores riquíssimos, os lustres, as amplas perspetivas dos foyers e promenades, tudo se conjuga para o cenário de uma ocasião única, de um momento particular. Esta é uma faceta do génio de França. II11GP © Porto Editora R. Furneaux Jordan, História da Arquitetura no Ocidente. Lisboa: Editorial Verbo, 1985 B. Catedral mundana da civilização, segundo Théophile Gautier, que muito a admirava, a Ópera de Paris é considerada, hoje em dia, a obra maior de arte e da arquitetura do século XIX. Esta representa, com II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 25 efeito, este “ecletismo” tão depreciado até há bem pouco tempo, mas cujo conceito é, todavia, já melhor compreendido nos dias de hoje. Para melhor atingir este objetivo, é necessário não isolar o edifício do seu contexto urbano, o de uma cidade de Paris submetida à influência de Haussmann, nem de três séculos e meio de evolução da arquitetura ocidental, cuja diversidade sintetiza a vários níveis. Para o parisiense atual, o termo “ópera” significa um quarteirão situado nas grandes avenidas, que oferece ao turista e ao citadino o comércio de luxo, os bancos internacionais e os grandes armazéns. O edifício, que impõe a sua enorme silhueta colorida logo a partir dos postos de venda de bilhetes do Louvre, convida a algo semelhante a um vaivém espiritual entre a vida trepidante que o rodeia incessantemente e aquela outra vida, noturna e misteriosa para o não iniciado, que é a do interior. De perto, o exterior deste edifício sumptuoso ergue-se majestoso, cuja fachada revela apenas a si mesma o fluxo e refluxo das entradas e saídas do espetáculo. É tal a importância conferida à fachada da Ópera, que o seu arquiteto, Garnier, a encarava como sendo a parte mais típica e mais pessoal da obra em termos globais. A história da arquitetura do teatro no mundo confirma esta originalidade: a obra-prima de Garnier viria a transformar-se num arquétipo. 2/19/14 3:31 PM 26 Ideias & Imagens | Guia do Professor residência de Napoleão III, o novo edifício […] estava destinado a transformar-se em algo semelhante a um salão mundano, onde a corte marcava encontro com a cidade […]. Entre os 170 desafortunados concorrentes para a elaboração do seu projeto figurava Garnier, o vencedor […]. Os melhores artistas da época procederam à interpretação dos seus desenhos em pintura, mosaico, bronze, mármore, estuque… Jamais o génio criador de um arquiteto se havia imposto com tamanha autoridade e audácia (em particular, na relação entre a estrutura metálica do conjunto e a pompa dos espaços paradoxalmente pesados e luminosos), mas também pela minúcia. A unidade absoluta da arquitetura e da decoração, concebida pelo mestre de obras, força a nossa admiração; a qualidade da execução testemunha o talento dos artesãos e dos artistas deste último terço do século XIX. II11GP © Porto Editora Programa específico da arquitetura antiga greco-romana, o teatro, enquanto monumento urbano, só muito tardiamente viria a aparecer na arquitetura moderna. Concebida como um interior, inicialmente, a sala de espetáculos não era mais do que uma dependência do palácio ou do edifício público. A Itália dos séculos XVI e XVII viria a conceber modelos para toda a Europa, ao passo que no decorrer do século XVIII os arquitetos franceses se dedicaram a aperfeiçoar a sua aparência exterior. Transformado em edifício público, ao mesmo nível que a sede municipal, o teatro passava a integrar-se definitivamente nas diversas atividades permanentes da vida urbana, até se transformar num dos símbolos máximos da civilização das Luzes […]. A localização da Ópera foi escolhida pessoalmente por Haussmann, […] que declarava: “jamais interrompi o traçado de uma via fosse esta qual fosse, nem de uma artéria de Paris, sem antes me preocupar com a perspetiva que lhe poderíamos conferir”. […] Virado na direção do Louvre e das Tulherias, Daniel Rabreau, A Ópera de Paris, in O Grande Atlas da Arquitetura Mundial. Alphabooks Publishers, 1988 ver doc. 45, p. 151 do Manual 5.Théodore Géricault - A Jangada de Medusa 1 Esquema compositivo. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 26 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 27 Metodologia a adotar: 1.º CLASSIFICAÇÃO/IDENTIFICAÇÃO Autor da obra – Théodore Géricault Nome – A Jangada de Medusa Tema – Acontecimento da época Localização atual – Museu do Louvre Data da execução – 1818-19 Dimensões – 491 x 717cm Técnicas e materiais – óleo sobre tela 2.º CONTEXTO/ENQUADRAMENTO – No seu tempo – A Jangada de Medusa é uma pintura romântica pela sua estrutura dinâmica, agitada e dramática; pela utilização de cores sombrias, pelo tratamento das volumetrias e das formas muito acentuadas, pelos contrastes de cor e de luz e sombra. – No conjunto da produção do artista – é a obra maior e mais conhecida do pintor. Géricault foi o pintor do dramático; da loucura; da Natureza animal e humana. 3.º ANÁLISE TEMÁTICA II11GP © Porto Editora Género temático – Tema inspirado num acontecimento heroico da época. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 27 Em 1816, uma fragata francesa chamada Medusa naufragou próximo da costa do Senegal. Não havia botes salva-vidas para todos e, por isso, com os restos do navio, os sobreviventes construíram uma jangada para cerca de 150 pessoas. A tempestade arrastou a jangada para mar alto onde permaneceu à deriva durante mais de 27 dias, sem rumo, sem água potável e sem alimentos. A dramática experiência dos sobreviventes impressionou o pintor Théodore Géricault e motivou-o a pintar um quadro. No processo de realização da obra, o autor fez inúmeros estudos e usou detalhes muito objetivos para a sua realização. Para compor a sua obra entrevistou os sobreviventes, visitou os doentes e viu os mortos. Horrorizado, reproduziu a realidade humana e íntima dos sobreviventes. A Jangada de Medusa retrata não somente o naufrágio da fragata, ocorrido a 2 de julho de 1816, mas acima de tudo um acontecimento da época que comoveu a França e trouxe repercussões que tocaram o mais profundo da alma humana. Os sobreviventes podem ver-se retratados na pintura em várias atitudes, nos momentos mais dramáticos e cruciais do acontecimento. Os corpos de alguns sobreviventes estão deitados, em abandono, sem reação à morte. Outros mostram-se esperançados, mas alheios aos demais. Limitam-se a aguardar. Têm um olhar perdido, distante, no vazio. Mas outros ainda mantêm uma réstia de esperança. Agitam as camisas que tiraram do próprio corpo, fixando o olhar num ponto da linha do horizonte. Agitam os braços para não passarem 2/19/14 3:31 PM 28 Ideias & Imagens | Guia do Professor II11GP © Porto Editora despercebidos. Mas o que se vê no horizonte é apenas um minúsculo ponto carregado de incertezas. Nesta obra a jangada simboliza a Terra. Os tripulantes representam a Humanidade e as atitudes de cada um perante a vida. A estrutura da composição foi feita através das medianas (linhas horizontais e verticais), das diagonais e outras verticais e oblíquas do plano. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 28 4.º ANÁLISE TÉCNICA, FORMAL E/OU PLÁSTICA A organização formal é clássica, feita por duas estruturas piramidais. As personagens assumem posições variadas, umas agitadas levantando os braços para o alto em atitudes de desespero e outras em abandono e desalento. Os corpos foram representados em escorço reforçando o dramatismo da cena. A perspetiva foi um dos recursos representativos utilizados para amplificar a dor e o desespero. 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 29 6.A temática da paisagem na pintura romântica Em Caspar David Friedrich (1774-1840): Este autor pintou preferencialmente paisagens desertas, inóspitas e agrestes, em que a presença humana, quando existe, aparece como opositora à Natureza, isto é, como alguém que lhe é estranho e a observa “de fora”, como espetáculo. Por isso as suas personagens encontram-se representadas de costas e/ou em contraluz, na mesma postura que os espectadores dos seus quadros olhando a paisagem pintada. Caspar David Friedrich, O Naufrágio do Esperança ou Mar de Gelo, 1823-24, óleo sobre tela, 126,9 x 96,7 cm. Em William Turner (1775-1851): William Turner, A Explosão do Vesúvio, 1817, aguarela, 28,6 x 39,7 cm. Turner pintou sobretudo paisagens marinhas, em grandes enquadramentos, com a linha de horizonte muito baixa de modo a fazer sobressair os céus, onde regista com particular atenção e expressividade os efeitos de luz e cor, em diferentes condições climáticas e em diferentes ambientes atmosféricos (chuva, neve, nevoeiro, fumo...). Esta característica faz dele um precursor do Impressionismo. As suas paisagens estão sempre povoadas, mas as pessoas nelas incluídas desempenham um papel muito secundário na composição, passando quase despercebidas no meio dos enquadramentos, como se da paisagem fossem parte integrante. Em John Constable (1776-1837): II11GP © Porto Editora Este pintor foi o mais naturalista dos paisagistas românticos porque as suas paisagens refletem com maior veracidade as formas, cores e ambiências da realidade. No entanto, pelas composições e pela iluminação, as suas obras atestam uma visão idílica e bucólica da Natureza, captada de modo sensível e emotivo pelo pintor, o que se pode também comprovar pelos enquadramentos escolhidos. John Constable, A Catedral de Salisbúria, 1823, óleo sobre tela, 87,6 x 111,8 cm. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 29 2/19/14 3:31 PM 30 Ideias & Imagens | Guia do Professor 1 II11GP © Porto Editora 7.Van Gogh sobre a intencionalidade da sua execução plástica Não sei se alguém falou já, à tua frente, da cor sugestiva. Dar-te-ei um exemplo: eu vou fazer o retrato de um amigo, um artista, um sonhador. Esse homem será louro e eu desejo reproduzir no quadro toda a minha admiração, todo o amor que tenho por ele. Começarei, portanto, por pintá-lo como ele é, tão fielmente quanto possível. Mas o quadro não fica pronto ainda. Para o acabar, vou tornar-me um colorista arbitrário: exagero o louro dos cabelos e chego aos tons laranja, ao amarelo-cromo, à cor de limão, clara. Por detrás da cabeça pinto, em vez da habitual parede de um quarto vulgar, o infinito. Faço um fundo azul mais forte de que sou capaz e, assim, a cabeça loura e luminosa sobre o plano de fundo recebe da riqueza do azul um efeito místico, como uma estrela no azul profundo do céu. Van Gogh, Cartas a seu irmão, em: W. Hesse, Documentos para a Compreensão da Pintura Moderna. Lisboa: Ed. Livros do Brasil, s/d. Retrato do Dr. Gachet, 1890, óleo sobre tela, 58 x 67 cm (Museu d'Orsay, Paris). 2 Tentei [no quadro Café à Noite] com o vermelho e com o verde exprimir as terríveis paixões dos homens. É uma cor que não é literalmente verdadeira, do ponto de vista do realismo, é uma ilusão de ótica, mas é uma cor sugestiva que exprime que o café é um local onde uma pessoa fica enlouquecida e pode tornar-se criminosa. Tentei isso pelo contraste do rosa-suave com um vermelho-rútilo e um vermelho-escuro cor de vinho; por um verde-amarelo e um verde-veronese, que contrastam com um verde-amarelo e um severo verde-cinzento. Tudo isto exprime a atmosfera de um mundo subterrâneo incandescente, um pálido sofrimento, a escuridão que domina por sobre tudo aquilo que dorme. Van Gogh, Cartas a seu irmão em: W. Hesse, Documentos para a Compreensão da Pintura Moderna. Lisboa: Ed. Livros do Brasil, s/d. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 30 Café à Noite, 1888, óleo sobre tela, 70 x 89 cm (Galeria de Arte da Universidade de Yale, EUA). 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 31 8.Paul Gauguin explicando-se a si próprio II11GP © Porto Editora Manao Tupapau (O Espírito do Morto Vigia), 1892, Taiti, Polinésia Francesa, óleo sobre tela, 73 x 92 cm (Galeria Albright-Knox, Buffalo, EUA). Começo com o nu deitado, representando uma rapariga “kanaca”, sem outra intenção que não seja pintar um nu; ao mesmo tempo, porém, que uma certa expressão de medo da rapariga me atrai e me obriga a pensar no espírito e na maneira de ser dos “kanakis”. Isso sugere-me o emprego de uma cor sombria, triste, assustadora, que impressione como um dobre a finados. Na colcha da cama, o amarelo ganha um carácter particular; ele sugere a ideia da luz artificial na noite e substitui assim a luz de um candeeiro, que seria demasiado banal (os “kanakis” deixam sempre durante a noite uma luz a arder, com medo dos espíritos). O amarelo forma também uma transição entre outras duas cores e completa o acorde musical do quadro. O sentido decorativo leva-me a semear o pano do fundo com flores, as quais recebem cores semelhantes a fosforescências na noite, pois só agora se condensa a parte “literária” do quadro: as fosforescências noturnas significam para o indígena que o espírito dos mortos está presente. O medo da rapariga está agora teoricamente explicado. A parte musical – linhas ondulantes, acordes de laranja e amarelo, azul e violeta e suas respetivas decomposições, iluminadas por centelhas esverdeadas – torna-se um equivalente da parte literária: o espírito de um vivo ligado com o espírito de um morto. II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 31 Paul Gauguin, Avant et Après, Paris, 1903 Guião de exploração da imagem e do texto: 1. Gauguin afirma que começou a pintar este quadro com a intenção de “fazer um nu”. O que o fez mudar de ideia? 2. Que expressão notou ele no rosto da rapariga? Como justifica essa expressão? 3. Por causa da expressão da rapariga, o quadro deixou de ser um simples nu. Que passou, então, a ser? Que nos pintou Gauguin? 4. Em que fundamenta ele esse “novo” tema? 5. Gauguin induz-nos a “ler” esse novo tema através da sua execução plástica. Explicite e comprove usando exemplos da imagem. 6. Ainda segundo Gauguin, a obra possui “uma parte (ou sentido) literária” e uma “parte musical”. O que entende por uma e por outra? 7. Como construiu ele, na tela, a parte literária? E a parte musical? 8. O novo tema do quadro é real? Onde foi Gauguin encontrá-lo? 9. Podemos chamar esta obra de simbolista? Justifique a sua resposta. 2/19/14 3:31 PM 32 Ideias & Imagens | Guia do Professor Foi em 1900, na Belle Époque, […] que Rodin levantou o pano da sua famosa Porta do Inferno, em que o humanismo prometeico fez ecoar as descobertas de Freud sobre o inconsciente e o instinto sexual recalcado. Através desta obra monumental e essencial, Rodin abre um mundo novo para a arte. Ele está para a escultura como Van Gogh, Gauguin e Cézanne estão para a pintura. Num tempo em que a escultura parecia ter perdido todo o seu espírito, foi ele o primeiro a reatar com o Cinquecento. Continuou a grande lição do Renascimento iniciada por Miguel Ângelo, transmitindo-a às gerações seguintes […]. O próprio Rodin precisou: “Caminho pela antiguidade mais recuada. Pretendo ligar o passado ao presente, retomar a recordação, julgar e chegar a completar. Os homens são conduzidos por símbolos. É diferente de ser conduzido por mensagens. A verdade e a grandeza eram o que preocupava Rodin e a Porta do Inferno constitui uma verdadeira matriz onde as suas criações inspiradas no Inferno de Dante, nas Metamorfoses de Ovídio e em As Flores do Mal de Baudelaire apenas existem através desta “vontade de poder” e desta capacidade inventiva, caras a Nietzsche. Rodin é um Miguel Ângelo que teria escutado Wagner… II11GP_20133335_F02_4PCimg.indd 32 “Mas esta porta não está acabada”, criticamos nós. E o escultor defende-se: “E as catedrais de França estão acabadas?” É sobretudo esta subversiva Porta do Inferno, onde se contraem e se flagram seres tão amorosos quanto desesperados, que põe fim, de uma só vez, ao academismo insípido que reinava há muito na escultura. Alguns dos seus antecessores, tais como Houdon ou Carpeaux, tinham já submetido a plástica à expressão do material e do psicológico. Mas Rodin vem acrescentar, e isso é que é inovador, o poder de transpor para a plástica até mesmo as tensões confusas e passionais da realidade interior. […] Em 1906, Rodin confidenciou a Bourdelle, seu discípulo: “A minha libertação do academismo fez-se por intermédio de Miguel Ângelo que, ao ensinar-me (através da observação das suas obras) regras diametralmente opostas às que tinha aprendido (escola de Ingres), me libertou… Foi ele que me estendeu a sua mão poderosa. Foi por essa ponte que passei de um ciclo para outro…” Daí em diante, Rodin pôde lançar-se às suas obras-primas, não permitindo que os seus modelos adotassem poses académicas, mas sim que circulassem livremente pelo ateliê. A sua Idade do Bronze (1875-76) provocou, desde logo, pela flexibilidade e pela força na moldagem do tema, admiração em alguns e dúvidas noutros: a obra é demasiado perfeita! É o escândalo da sobremodelagem. […] [Quanto à Porta do Inferno], Rodin meteu imediatamente mãos à obra [após a encomenda em 1889], lendo e relendo a Divina Comédia, escurecendo centenas de páginas do bloco de esboços, elaborando dezenas de maquetes e estudando atentamente os modelos existentes desse género: as portas do Baptistério de Florença e, mais em particular, a de Ghiberti, conhecida como “As Portas do Paraíso”. Dante, disse Rodin então, “não é somente um visionário e um escritor. É também um escultor…” […] o Pensador representa o próprio poeta. Mas, depressa Rodin extravasa o tema e introduz personagens que revelam também uma influência baudelairiana. A sua intenção é, declaradamente, criar um universo, executar um friso de paixões e sentimentos da Humanidade. Este trabalho imenso passará a ser o reservatório de formas ao qual Rodin irá constantemente recorrer para dar origem a toda uma série de grupos e de estátuas “individualizadas”, que se irão impondo como outras tantas obras-primas dotadas de vida própria. […] O seu ateliê transformou-se numa verdadeira fábrica onde trabalhavam mais de cinquenta praticantes, desde moldadores a canteiros de mármore, e não eram só desconhecidos, já que figuravam entre eles Maillol, Bourdelle e Camille Claudell. II11GP © Porto Editora 9. Rodin, A Porta do Inferno, 1880-1917, bronze, 635 x 400 x 85 cm (Museu Rodin, Paris) Gilles Néret, Auguste Rodin. Colónia: Ed. Tashen, 1997 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 33 ver doc. 119, p. 184 do Manual 10. Antoní Gaudí, Casa Batló (1905-06), Barcelona, Espanha 1 2 II11GP © Porto Editora Vista interior e exterior da grande janela do salão principal. A Casa Batló é um edifício modernista que possui a marca da genialidade do seu projetista, o arquiteto catalão Antoní Gaudí. Foi reconstruída a partir de um imóvel preexistente datado de 1875, a pedido de Joseph Batló, um rico aristocrata. Os pisos inferiores destinavam-se à habitação da família do senhor Batló e os superiores foram arrendados. Este imóvel situa-se no Passeig de Gràcia, no coração da cidade de Barcelona, capital da Catalunha. Vista do exterior, a fachada parece ter sido construída com “caveiras e ossos”. As caveiras (há quem diga que são máscaras) são na realidade as varandas e os “ossos” os pilares de apoio. Por isso, em Barcelona é conhecida por “Casa dos ossos”. Olhando de frente para o edifício observamos uma fachada original, fantástica e imaginativa, feita de paredes onduladas em pedra ou em argamassa coberta por fragmentos de mosaicos e de vidros coloridos que refletem e filtram a luz solar. Daí ser considerada uma obra-prima da arquitetura, na forma, na cor e na luz. O ondulado da superfície e o recorte superior do telhado parecem a coluna vertebral de um animal fantástico (um dragão?). A “coluna” (dorso) é composta por enormes placas de cerâmica vidrada que mudam de cor, de acordo com a posição do observador e a incidência luminosa. Toda a casa possui um permanente diálogo entre a luz e a cor. A claraboia central, por exemplo, deixa passar uma “cascata de luz” e é composta por enormes estruturas de ferro e placas de vidro. A luz natural filtrada pelos vitrais das janelas e as formas orgânicas de paredes, portas e janelas, em tons de verdes e azuis, fazem com que os interiores lembrem o mundo aquático. O exterior é alegre, feito de alegorias com cores orgânicas cheias de simbolismo. As grades das varandas são em forma de máscara (ou será uma caveira?) feitas em ferro fundido e forjado numa só peça. As janelas são feitas de madeira moldurada e abrem e fecham com contrapesos. As varandas exteriores do 1.º piso ou piso nobre incluem pilares delgados talhados em forma de osso. Esse andar foi a casa onde viveram os Batló e foi aí que o arquiteto deu “asas” à sua capacidade inventiva. Criou paredes ondulantes autónomas em relação às do exterior. Decorou salas. Construiu uma escadaria toda em madeira esculpida e corrimões, maçanetas de portas e elementos decorativos ergonómicos que cativam os visitantes e os conduzem a partir da entrada. Todos os projetos foram executados até ao pormenor sendo verdadeiras peças de design, de espaço, de forma, de cor e de luz. II11GP_F03 II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 33 2/19/14 3:31 PM 34 Ideias & Imagens | Guia do Professor II11GP © Porto Editora 11. Kirchner, Toilette. Mulher ao Espelho, 1912-1920, óleo sobre tela, 100,5 x 75,5 cm (Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Georges Pompidou, Paris) 1 2 G A D E H a c F d b B C A impressão imediata que este quadro nos transmite, quando o observamos, é a de desequilíbrio, de instabilidade. Tudo parece concebido nesse sentido. A postura da mulher é de uma certa firmeza, mas o seu frente a frente com o espelho inclinado está numa perspetiva no mínimo forçada. E não é a ordem dos objetos que está alterada, é a composição da obra. Curiosamente, o único objeto que possui uma estrutra vertical, o toucador, está de tal modo desenhado que, apesar da sua forma retangular e consequentemente estável, nos parece distorcido; isto porque as horizontais e verticais do retângulo azul que ele forma no 1.º plano não são de modo algum paralelas aos bordos da tela, provocando-nos assim a sensação de desequilíbrio. Apercebemo-nos também que há um movimento arredondado que parte do cotovelo esquerdo da mulher, segue em direção ao espelho e II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 34 continua através dele até ao toucador (linha a-b). Este movimento está reforçado visualmente pela forma interna do toucador (linha c-d); este movimento é o responsável maior pela sensação de desestabilização que o quadro nos transmite. Contudo, a composição do quadro orienta-se sobretudo por triangulações, isto é, um sistema de encontros de linhas oblíquas. Os braços da mulher penteando os cabelos formam uma forte diagonal que atravessa a tela do canto superior esquerdo para o canto inferior direito (linha a-b). A tela encontra-se igualmente atravessada por uma diagonal contrária, a que vai das pernas da mulher ao canto direito do espelho (linha c-d). Outra oblíqua desestabilizante é a formada pelo espelho, assente, em posição precária, sobre um livro (linha e-f). A figura da mulher é composta por uma série de “triângulos”: um formado pelos braços levantados e pelo tronco visto de costas e apertado num corpete branco, também ele triangular (triângulo 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares azul); outro composto pelas ancas e pelas pernas fletidas (triângulo amarelo); o próprio tamborete onde a figura feminina se senta tem a forma de triângulo assente sobre o vértice (triângulo verde). Outra observação relevante diz respeito à relação dos objetos representados (mulher, espelho, toucador) com o fundo, o cenário que os enquadra. As linhas que os delimitam em relação ao espaço que lhes está adjacente, à direita e à esquerda, são linhas quebradas e angulosas que reforçam o carácter instável da composição (linhas amarelas). Mas porque quis o pintor passar-nos esta forte sensação de instabilidade e desconforto? O cenário, sumariamente apontado (espelho provisoriamente apoiado num livro, poucos objetos sobre o toucador), faz-nos pensar numa existência também precária ou caótica, que vive do momento fugaz. 35 Os contrastes cromáticos – ocres, amarelo-azul, branco-preto, vermelho-verde – reforçam essa sensação. A resposta talvez esteja na relação da mulher com o espelho. Quando olhamos a sua figura de costas, de cintura fina, tronco direito e braços levantados, ajeitando os cabelos, pensamos em alguém jovem e “coquette”, num ato de embelezamento pessoal. Todavia, a figura que vemos no espelho, tem o rosto cansado e abatido, a cabeça enterrada entre os ombros flácidos e arqueados, e os braços caídos numa postura de desânimo. A mulher que vemos de costas ao espelho não é a mesma que o reflexo do espelho nos (e lhe) devolve. Qual será a verdadeira? Que pretendeu Kirchner “contar-nos”? Que relação existe entre estas duas mulheres: a que vemos de costas e a do espelho? 12. Wassily Kandinsky, Com O Arco Negro, 1912, óleo sobre tela, 188 x 196 cm II11GP © Porto Editora (Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Georges Pompidou, Paris) II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 35 2/19/14 3:31 PM 36 Ideias & Imagens | Guia do Professor II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 36 Mas o olhar segue o arco, curvado por cima da grande forma monolítica vermelha, impondo-lhe o seu contorno sem nada alterar. Em seguida, ele vai perder-se no caos gráfico da forma laranja, em baixo, à direita; e, de lá, partem algumas linhas pretas que nos “conduzem” à forma azul, à esquerda. Na sua curvatura, o arco perpassa e une, num movimento circular, as três formas essenciais que compõem a obra. Formas que se demarcam do fundo claro. Notemos que esse fundo poderá produzir um certo efeito de perspetiva, no alto à esquerda, onde uma mancha azul, em ângulo, nos prefigura algo para além de um horizonte sugerido pelo grafismo a negro. Estas três formas não têm a mesma configuração. A do alto é calma, delimitada com precisão, serenamente fixa e “flutuante” sobre um fundo fugidio. Em contraste, a forma azul está contorcionada, criando um universo autónomo e agitado pelo movimento das linhas que laceram a massa. Esta mancha é igualmente golpeada pelo verde luminoso e quebrada pelo azul quase negro que lhe está sobreposto; ela é diversa e movimentada dentro dela própria. Por seu lado, a forma da direita está como que invadida, ou, se assim o preferirmos, cheia da matéria que faz o fundo da tela. Ela é, por isso, aberta [...]. Assim, a partir destas três formas que estruturam o todo, movimentos contraditórios, mais ou menos violentos, rápidos, agitam a tela. E é um verdadeiro combate que aí se trava, mesmo quando o conjunto encontra o seu equilíbrio [...]. Um antagonismo atravessa esta pintura que parece, ao mesmo tempo, dar livre curso ao gesto improvisado e espontâneo, mas também ao de mestre. O nosso olhar fica preso num enrolamento, uma cadeia de forças, ou retido por subtis vibrações, cuja eficácia – isto é, a capacidade para produzir uma emoção – depende, em simultâneo, da intuição do pintor e do seu poder para organizar cientificamente as relações plásticas: cores, formas, linhas, brilho, textura. Poderíamos evidentemente prosseguir a descrição deste quadro até ao detalhe [...] O “passeio” poderia continuar. Mas já no ponto onde nos encontramos nos é possível vislumbrar o propósito de Kandinsky [...], salientar as possibilidades infinitas de fazer viver uma superfície, antes amorfa, mas onde agora se vão articular fortemente a objetividade das formas e a subjetividade do movimento. II11GP © Porto Editora Com O Arco Negro é uma obra duplamente importante: ela representa uma mudança de rumo no itinerário artístico de Kandinsky e, ao mesmo tempo, uma alteração fundamental na sua maneira de conceber a arte, o seu papel e o seu espaço. [...] Kandinsky realizou esta obra numa época já fortemente marcada pela efervescência da Arte Nova, nascida no último decénio do século anterior [...], e pela agitação ainda mais recente das vanguardas dos “ismos”: fauvismo, expressionismo, futurismo, cubismo. Se fosse preciso resumir numa frase o que preocupava estes movimentos [...], poderíamos citar Maurice Denis que dizia que um quadro, antes de representar este ou aquele objeto, ”é, essencialmente, uma superfície plana, recoberta de cores, colocadas por uma certa ordem”. Já os impressionistas, e depois Cézanne, Gauguin e Van Gogh haviam sido assaltados por este carácter duplo com o qual a arte era cada vez mais confrontada: de um lado a representação dos objetos da Natureza, e, do outro, as exigências próprias da organização em formas e cores, de uma superfície plana que se pretende animar. Contudo, no primeiro decénio do século, este aspeto tomou uma importância infinitamente maior; com efeito, os artistas mais sensíveis à necessidade de uma reformulação da arte estavam preocupados com a redução do motivo, com a sua deslocação ou até com o seu desaparecimento, anunciado nas obras da época. Estava, pois, em perspetiva, a questão do fim da arte tal como havia sido entendida até então e o nascimento de uma outra, desconhecida, que se bastava com as suas próprias coordenadas [...], isto é, uma arte abstrata. [...]. Ora, foi justamente Kandinsky o primeiro a afrontar esse problema e a encontrar-lhe uma solução. E Com O Arco Negro pertence inteiramente a este momento de charneira entre a pintuta figurativa e a pintura abstrata. [...] Este quadro enquadra-se na categoria de “composição”, mas é significativo de um trabalho que alia a liberdade de intuição ao rigor da construção. O seu título define na perfeição a ideia do movimento que um quadro impõe ao olhar. O arco negro é o único plano negro da obra que se inscreve como uma superfície nitidamente delimitada, destacando-se sobre a parte mais clara do fundo. Ele chama imediatamente o olhar. Mas mesmo que não o fizesse, a grande mancha arredondada que lhe está próxima, de cor vermelha – a cor mais intensa da obra –, fá-lo-ia só por si. É a partir do “arco negro” que o nosso passeio visual pela obra se organiza. O efeito “pesado” da sua forma escura sobre o fundo claro não deixa de o relacionar com a forma azul massiva que lhe fica abaixo. Claude Amey, 25 Tableaux Modernes Expliqués. França: Éditions Marabout, 1994 2/19/14 3:31 PM 2. Orientações complementares 37 13. Miró, Interior Holandês I, 1928 (MoMA, Nova Iorque, EUA) II11GP © Porto Editora 1 2 Hendrick Sorg (1610/11-1670), O Tocador de Alaúde, 1661, óleo sobre tela, 51,5 x 38,5 cm (Rijksmuseum, Amesterdão). Miró, Interior Holandês I, 1928, óleo sobre tela, 92 x 73 cm. Em 1928, Miró fez uma rápida visita à Holanda e ficou intrigado com o realismo das pinturas de género holandesas do século XVII que analisou no Rijksmuseum de Amesterdão. Do Rijksmuseum Miró trouxe reproduções e postais e, já em Paris, inspirou-se neles para criar uma série de obras a que chamou Interiores Holandeses. O Interior Holandês I (em cima, à direita) inspirou-se diretamente no Tocador de Alaúde de Sorg (em cima, à esquerda). A obra de Sorg mostra-nos um casal, junto a uma mesa, num típico interior holandês do século XVII. Estão perto de uma ampla janela aberta de onde se avista a cidade. No quadro de Miró, o interior mantém-se, bem como o cão, o gato, a janela, o homem que toca alaúde, o quadro na parede do fundo. Mas há, também, numerosas inovações: a mulher desapareceu, um sapo persegue um inseto, uma faca descasca sozinha uma maçã, um morcego volteia na sala, no chão aparece uma grande pegada negra. O interior da casa, antes sossegado, calmo e ordenado, parece agora varrido por uma agitação caótica, que tem tanto de divertida e irónica quanto de enigmática. Uma multidão de animais, plantas e pequenos objetos parecem bailar pela sala, ao som da música do alaúde. A obra evidencia a imaginação e a criatividade, a um tempo infantil e genial, de Miró. Técnica e estilisticamente, a arte de Miró é o resultado de um processo de simplificação da linguagem pictórica. A cor é plana, sem modelação e reduz-se quase às primárias – vermelho, amarelo e azul –, separadas entre si pelo branco e pelo preto. As formas, construídas pela cor, são planas e abstratizantes. Por vezes, entre as formas há linhas (ora retilíneas, ora sinuosas) que interligam e dão unidade às formas. A composição é intuitiva e recorre ao equilíbrio entre linhas e manchas-formas de cor. Foi com estes caracteres que Miró criou a sua linguagem pictórica. Nela, os objetos não aparecem como são na Natureza , mas como sígnos simples do seu universo interior. II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 37 2/19/14 3:31 PM 38 Ideias & Imagens | Guia do Professor 84,1 x 152, 4 cm (Art Institute de Chicago, EUA) O tema da obra é uma cena noturna em Nova Iorque, onde as ruas desertas se enchem de sombras e de solidão. O seu espaço vazio é ainda mais inquietante quando preenchido pela inquietante escuridão. A composição baseia-se numa cunha (a esquina do café ou bar) que avança pela tela, da direita para a esquerda, contrapondo-se à fieira de lojas (fechadas, escuras e vazias) do outro lado da rua. No interior do bar (uma caixa de vidro e luz, na escuridão), o foco luminoso localiza-se no casal e no criado do bar. O homem e a mulher sentam-se juntos ao balcão. Mas, quando os olhamos mais demoradamente, percebemos que não há comunicação entre eles. Ambas as personagens estão II11GP_20133335_F03_4PCimg.indd 38 II11GP © Porto Editora 14. Edward Hopper, Notívagos (ou Aves da Noite), 1942, óleo sobre tela, absortas em si mesmas. O isolamento entre eles afigura-se-nos total, apesar das mãos que quase parecem tocar-se. No outro canto do balcão, um homem de costas, meio envolvido pela sombra, equilibra a composição, ao mesmo tempo que fornece ao quadro uma espécie de tensão constrangedora. Quando confrontaram Hopper com esta estranha solidão que emana da obra, ele negou que ela tivesse sido propositada. Esta obra é uma das mais famosas do autor, talvez por conseguir captar, de forma completa, o espírito dos americanos da sua época. Uma geração acabada de sair da Grande Depressão dos Anos 30 que enfrentava já a violência da 2.ª Grande Guerra. 2/19/14 3:31 PM