José Eliada Cunha Barbosa UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS: REGIMES DE PROPRIEDADE E CONFLITOS NA RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE MARACANÃ. Belém, 2011 José Eliada Cunha Barbosa GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS: REGIMES DE PROPRIEDADE E CONFLITOS NA RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE MARACANÃ. Dissertação apresentada ao Curso de PósGraduação em Ciências Sociais junto à Universidade Federal do Pará para obtenção de título de Mestre, Dr.Heribert Schmitz. Belém, 2011 orientado pelo Professor José Eliada Cunha Barbosa GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS: REGIMES DE PROPRIEDADE E CONFLITOS NA RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE MARACANÃ. Dissertação apresentada ao Curso de PósGraduação em Ciências Sociais junto à Universidade Federal do Pará para obtenção de título de Mestre, orientado pelo Dr.Heribert Schmitz. Banca Examinadora: __________________________________ Prof. Dr. Heribert Schmitz Orientador - PPGCS / UFPA __________________________________ Profa. Dra. Kátia Marly Leite Mendonça Presidente da Banca – PPGCS / UFPA __________________________________ Profa. Dra. Sônia Maria Simões Barbosa de Magalhães Santos Examinadora - PPGCS / UFPA __________________________________ Prof. Dr. Maria Dolores Lima da Silva Examinador – PPGCP / UFPA ___________________________________ Prof. Dr. Luís Fernando Cardoso e Cardoso Examinadora Suplente - PPGCS / UFPA Defendido em: 01 /03 /2011 Conceito: Professor À Cristo Jesus e à minha família que me ensinaram a importância da educação. AGRADECIMENTOS Ao meu Deus, Deus meu, mais uma vez te dou graças. À minha família extraordinária. Pai, Mãe e Irmãs. Ao Professor Heribert pela paciência e compreensão ao longo do desenvolvimento deste trabalho. Às amizades que consegui durante o mestrado: Josiane (amiga antiga, mas merece estar aqui!), Sebastião, Newton, Lizany, Tatiana, Glaucia, Jaciel e a Lélia. Aos professores que nos ensinaram ao longo de dois anos. À Thiara Silva por ter fornecido dados sobre a realidade de Maracanã. À Graça Ferraz pelo apoio incondicional. À Rosiane Fonseca, querida prima. À Maria Dolores que aceitou presidir a banca. Sempre te admirei. À Dalva Mota por ter aceitado estar na banca de qualificação e por suas orientações. À Sônia Magalhães que mais uma vez se faz presente para avaliar o desenvolvimento do trabalho. À todos os moradores de Maracanã e das comunidades de São Tomé, Aricuru e Espírito Santo. Sem vocês este trabalho não seria possível! Ao ICMBio e a Auremar pela ajuda neste trabalho. Às organizações sociais Colônia de Pescadores Z-7 e o Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã. Olhai os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem juntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu alimenta-os. Será que não valeis mais do que os pássaros? (Lucas, 12:24) RESUMO Este trabalho objetiva compreender e explicar a gestão coletiva de bens comuns assim como sua relação com regimes de propriedade e conflitos que ocorrem na Reserva Extrativista Marinha (RESEXMAR) de Maracanã, especialmente, em sua Zona de Amortecimento (ZA). Procurando identificar e caracterizar os tipos de gestões realizados no interior de territórios conservados, temos como alvo de estudo a RESEXMAR de Maracanã localizada no estado do Pará. Criada em 2002, a reserva totaliza 30 mil hectares, sendo sua vegetação composta por mata de terra firme, florestas secundárias, vegetação de várzea e manguezais. A RESEXMAR envolve 75 comunidades ribeirinhas, com cerca de 1500 famílias, sendo que mais de 5 mil usuários sobrevivem dos recursos naturais explorados tanto em áreas de mangue e marinhas quanto em áreas de terra firme, esta ultima localizada na zona de amortecimento. Para alcançar o objetivo proposto utilizamos procedimentos metodológicos como consulta a fontes secundárias (livros, artigos, jornais, revistas etc.), pesquisa de campo mediante observação participante e uso de formulários semi-estruturados, além de entrevistas informais. Foram realizadas entrevistas na área urbana do município de Maracanã e em três comunidades rurais que se localizam nos arredores da reserva: São Tomé, Aricuru e Espírito Santo (ou Mangueirão). Como resultados, foram encontrados três tipos de gestões: oficial, comunitária e consuetudinária. Estas gestões fazem parte do que chamamos de gestão coletiva de bens comuns. Além destes tipos de gestões identificamos e caracterizamos conflitos e regimes de propriedade que estão relacionados às formas como os indivíduos interpretam o bem comum. Afirmamos, então, que o conceito de gestão coletiva de bens comuns, operacionalizado nesta pesquisa, envolve os três tipos de gestão anteriormente descritos, os regimes de propriedade e os conflitos inerentes ao processo de interação social entre atores internos e externos. Palavras-chave: Reserva Extrativista Marinha de Maracanã. Campo da Mangaba. Uso comum. Terra “sem dono”. Ação coletiva. ABSTRACT This work aims to identify and describe the collective management of common as well as its relationship with property rights and conflicts that occur in the Reserva Extrativista Marinha (RESEXMAR) de Maracanã, especially in its zona de amortecimento. Seeking to identify and characterize the types of managements conducted within conserved regions, we have aimed to study the RESEXMAR Maracana located in the state of Pará. Created in 2002, the RESEXMAR secondary forests, lowland and mangrove vegetation. The RESEXMAR involving 75 coastal communities, with about 1500 families, with more than 5000 surviving users of natural resources used in marine, mangrove areas and upland areas, the latter located in the zona de amortecimento. The methodological procedures used were: Query secondary sources (books, articles, newspapers, magazines, etc.), participant observation, formal and informal interviews. Interviews were conducted in the urban area of Maracana and in three rural communities that are located outside the reservation: Sao Tome, Aricuru and Espírito Santo (or Mangueirão). As a result, we found three types of managements: official, community and customary. These managements are part of what we call the collective management of common. Besides these types of managements identify and characterize conflicts and property rights that are related to the ways people interpret the commons. We affirm, then, that the concept of collective management of common, operationalized in this research, involves three types of management described above, property arrangements and the conflicts inherent in the process of social interaction between internal and external actors. Key words: Reserva Extrativista Marinha de Maracanã. Campo da Mangaba. Common use. No man's land. Collective action. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APEAGA - Associação de Pescadores e Agricultores de Aricuru ARPA - Programa de Áreas Protegidas da Amazônia AUREMAR - Associação de Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Maracanã CNPT - Conselho Nacional de Populações Tradicionais CPOS - Centro Popular de Orientação a Saúde CPP - Comissão Pastoral de Pesca CPT - Comissão Pastoral da Terra GCBC - Gestão Coletiva de Bens Comuns IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MMA – Ministério do Meio Ambiente RB - Relação de Beneficiários RDS - Reserva de Desenvolvimento Sustentável RESEX / RESEX’S - Reserva Extrativista RESEXMAR - Reserva Extrativista Marinha SEMA - Secretaria especial de Meio Ambiente SIPAAM - Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação SUDAM - Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia UC / UC’s - Unidades de Conservação ZA - Zona de Amortecimento SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .......................................................................................12 2. GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS, REGIMES DE PROPRIEDADE E CONFLITOS ..................................................................17 2.1 DEFININDO O PROBLEMA DE PESQUISA ..........................................17 2.2 OBJETIVOS ............................................................................................17 2.2.1 Objetivo Geral ....................................................................................17 2.2.2 Objetivos Específicos .......................................................................17 2.3 PERGUNTAS DE PESQUISA ................................................................18 2.4 METODOLOGIA .....................................................................................18 2.5 REFERENCIAL TEÓRICO .....................................................................27 2.5.1 Dilemas da cooperação ....................................................................27 2.5.1.1 Mancur Olson e a lógica da ação coletiva ...................................27 2.5.1.2 Hardin, o problema da superpopulação e a tragédias dos bens comuns ........................................................................................................29 2.6 REGIMES DE DIREITO DE PROPRIEDADE ........................................32 2.7 GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS E ARRANJOS INSTITUCIONAIS..........................................................................................35 2.8 CONFLITO ..............................................................................................40 3. O MUNICÍPIO E A RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE MARCANÃ....................................................................................................45 3.1 CHEGANDO AO MUNICÍPIO..................................................................45 3.2 POR UMA GESTÃO COMUNITÁRIA: O EXEMPLO DE ARICURU ......50 3.3 A GESTÃO OFICIAL E O PLANO DE UTILIZAÇÃO DA RESEXMAR DE MARACANÃ .................................................................................................53 3.4 PREOCUPAÇÕES COM OS BENS COMUNS ......................................56 3.4.1 O mangue e o mar .............................................................................57 3.4.2 Campo da Mangaba: gestões e conflitos ........................................59 3.5 DISCUSSÃO E SISTEMATIZAÇÂO .......................................................64 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS .....................................................................74 REFERÊNCIAS ............................................................................................76 APÊNDICE A – Roteiro de Entrevista .......................................................81 APÊNDICE B – Formulário de Pesquisa ...................................................82 ANEXO A – Imagem do Município de Maracanã (Fonte desconhecida). ....85 ANEXO B – Cidade de Maracanã (Google Earth 6.0 beta , 2010)........ ......86 ANEXO C – Campo da Mangaba (amarelo) e cidade de Maracanã (azul), (Google Earth 6.0 beta, 2010)..............................................................................................................87 ANEXO D – Caminhos no Campo da Mangaba (Google Earth 6.0 beta, 2010)..............................................................................................................88 ANEXO E – Logo do Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã (SIPAAM), 2006............................................................................89 ANEXO F – Desenho de José Guilherme (Barco Z-7), 2010. ......................90 ANEXO G - Desenho de Walmir Corrêa (tipos de currais de pesca.............................................................................................................91 12 1. INTRODUÇÃO Nesta dissertação objetivamos identificar, descrever e compreender a gestão coletiva de bens comuns e sua relação com regimes de propriedade e conflitos que ocorrem na RESEXMAR de Maracanã, especialmente, em sua Zona de Amortecimento (ZA). Para tanto, utilizamos referenciais teóricos da ação coletiva e dos conflitos. A intervenção de agências externas (públicas ou privadas) na gestão coletiva de bens comuns 1 foi amplamente defendida desde a formulação da obra “A lógica da ação coletiva”, de Mancur Olson, publicada em 1965, e do artigo “Tragédia dos bens comuns” de Garret Hardin, de 1968. A discussão, tanto de Olson (1998), quanto de Hardin (1968), enfatiza as escolhas racionais dos indivíduos em processos associativos e de gestão coletiva de bens comuns, respectivamente. Para eles, as escolhas racionais sempre tenderiam a lograr benefícios individuais, o que comprometeria supostas ações coletivas de um grupo qualquer ou mesmo da sociedade e haveria, portanto, a necessidade de regulação seguida de sanções das ações humanas por meio de uma autoridade central. A tragédia dos comuns tornou-se parte da sabedoria convencional de estudos ambientais, do planejamento de recursos e das ciências econômica e política e está presente em vários livros [...]. Adicionalmente tem sido utilizada na formulação de políticas de manejo de recursos (FEENY et al., 2001) 2. Porém, estudos que enfatizam a relação entre arranjos institucionais 3 e regimes de propriedade 4, aliados ao manejo sustentável de bens comuns, 1 Gestão coletiva de bens comuns é entendida segundo Schmitz et al. (2009, s/p) “como um resultado de um processo de interação entre os indivíduos ou grupos para uso desses mesmos bens”. 2 3 Originalmente publicado em 1990. Tem o mesmo sentido de Instituição segundo OSTROM (1990, citado por Schmitz et al., 2009) que “significa um conjunto de regras de trabalho que determinam, entre outros, aos participantes, as ações permitidas ou proibidas, as informações necessárias, a distribuição de benefícios”. 13 demonstraram falhas presentes nas análises de Hardin (1968) sobre o esgotamento de recursos comuns e a possível degradação ambiental, além da publicação de estudos de casos em que a gestão coletiva feita por grupos de usuários mostrou-se, em muitos casos, bem sucedida (FEENY et al., 2001; OSTROM, 1990; MCKEAN e OSTROM, 2000 5; LUNA, 2004; ALMEIDA, 2004; RAMALHO, 2004; ALMEIDA, 2008; SCHMITZ et al., 2009). Baseando-se no que foi brevemente exposto acima, a proposta aqui apresentada tem por alvo de estudo o atual estado de gestão coletiva de bens comuns na Reserva Extrativista Marinha (RESEXMAR) de Maracanã. A RESEXMAR está localizada na região Nordeste do Estado do Pará e foi criada em 2002 com “objetivos de assegurar o uso sustentável e a conservação dos recursos naturais renováveis, protegendo os meios de vida e a cultura da população extrativista local” (BRASIL, Decreto s/n de 13 de dezembro de 2002). As reservas extrativistas, em sua concepção, tinham por intenção serem autogeridas pelos próprios usuários quando concebidas. Desde a década de 1990, quando foram assinados decretos sobre a disposição de reservas extrativistas, ao ano de 2000 houve a institucionalização federal destes espaços, estabelecendo-se a chamada co-gestão, através da criação de conselhos gestores e da transferência de administração para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) (CUNHA et al.,2009). Atualmente o órgão responsável pela administração de reservas extrativistas é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) 6. 4 FEENY et al., (2001) define quatro tipos de regimes de propriedade: livre acesso, propriedade privada, propriedade comunal ou comunitária e propriedade estatal. No segundo capítulo desta dissertação estes regimes estão detalhados. 5 6 Originalmente publicado em 1995. Ao longo de sua história de criação e implementação, as reservas extrativistas foram transformando-se em instrumentos de política pública, sendo incluída a partir do ano 2000 no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, Lei 9985/00 de 18/07/00). 14 A co-gestão é um sistema que agrega diferentes atores em espaços de decisão, onde são pensadas e demandadas regulamentações de usos e sanções no interior de territórios conservados. Assim, esse modelo de gestão é uma parceria entre órgãos governamentais, não-governamentais e populações tradicionais 7, sendo que esta última deve necessariamente ser organizada através de uma associação-mãe que represente a Reserva Extrativista. Existem ainda dois tipos de conselhos atuando em Unidades de Conservação (UCs): o deliberativo e o consultivo. No caso de Reservas Extrativistas, o conselho é de caráter deliberativo e o gestor da reserva (funcionário do ICMBio) é necessariamente o presidente do conselho, como instituiu o SNUC (2000) 8. Ao longo da década de 2000 foram criadas na região Nordeste do Pará nove RESEXMAR, em nove municípios, com objetivo de assegurar a conservação de áreas costeiro-marinhas e de mangue, além de regulamentar o uso de espécies características destes ecossistemas como peixes e caranguejos. Com a implementação da reserva a partir de 2002, no município de Maracanã, essa área ganhou status legal de uso coletivo, porém, nem todos os moradores assimilaram esta nova realidade, além do que, a falta de entendimento do que seja uma Reserva Extrativista ainda está presente entre os que residem nesses municípios. As RESEXMAR são baseadas no modelo de Reserva Extrativista (RESEX) implantado no estado do Acre, na década de 1990, e são compostas por três ecossistemas no estado do Pará: regiões costeiromarinhas, mangue e terra-firme, sendo esta última localizada na zona de amortecimento. Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (2000) – SNUC – “zona de amortecimento é o entorno de uma unidade de 7 Neste trabalho utilizamos o conceito de populações tradicionais, porém entendemos a existência de um debate em torno do conceito (BARRETO FILHO, 2006). 8 “A Reserva Extrativista será gerida por um Conselho Deliberativo, presidido pelo órgão responsável por sua administração (atualmente o ICMBio) e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, conforme se dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade” (BRASIL, 2000, Art. 18, parágrafo 2º). 15 conservação, onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas, com propósito de minimizar os impactos negativos sobre a unidade” (BRASIL, 2000, artigo 2 º, parágrafo XVIII). Apesar de as zonas de amortecimento não estarem no foco da pesquisa, é nela que encontra-se o ecossistema terra-firme, onde as populações extrativistas vivem, logo é onde a análise e discussão dos dados obtidos em campo estão mais presentes. Apresentamos dados referentes a regiões alagadas, porém a maior parte da pesquisa se refere as relações perpetradas na zona de amortecimento (ZA). A zona de amortecimento é um termo técnico desconhecido pela maioria dos moradores entrevistados. Eles, inclusive, não sabem que vivem nos arredores da reserva e não na própria reserva. Estudos que tratam de aparatos jurídicos e suas contradições referentes às ZA (ANDRADE, 2005) ou de como elas sofrem com diferentes tipos de ameaças como expansão urbana, aterro sanitário, expansão agrícola, depósito de entulho (VITALLI, 2007) enfatizam perspectivas legalistas e conservacionistas, porém não avançam na problemática referente a desigualdades e incertezas que envolvem as ZA. Para se ter uma idéia, algumas ZA também abrigam em seu interior, além de espaços rurais, áreas consideradas urbanas, pois muitas UC estão bem próximas de sedes de municípios. É o caso da RESEXMAR de Maracanã já que sua zona de amortecimento abriga a área urbana do município 9. Neste trabalho entendemos que as ZA são cenários onde vivem as populações ditas tradicionais (que praticam diferentes tipos de extrativismo e atividades ligadas agricultura), na RESEXMAR, e é onde a “realidade” acontece. As ZA demonstram sérios problemas com relação a sua gestão, pois a legislação atual do SNUC não esclarece como os gestores das 9 A zona urbana do município de Maracanã encontra-se situada na zona de amortecimento da reserva, pois segundo uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), de 1990, as zonas de amortecimento de unidades de conservação possuem um raio de 10 km. CONAMA, nº 13/1990. Disponível em: http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res90/res1390.html 16 unidades de conservação devem atuar sobre este espaço, ou seja, o “entendimento” sobre ZA depende exclusivamente de como o gestor pensa e age sobre este espaço, o que possibilita a geração conflitos sociais ou a não mitigação de conflitos já existentes nas ZA, como ocorre na RESEXMAR de Maracanã. Ademais, neste trabalho foram identificados três tipos de gestões segundo o interesse de alguns atores. Cada uma das gestões apresenta características específicas. Ao longo da pesquisa percebeu-se que não poderíamos tratar da gestão sem falar dos regimes de propriedade e dos conflitos presentes na gestão. Os dados obtidos em campo mostraram a necessidade de se relacionar estas temáticas. Assim, descrevemos os tipos de gestões encontrados, os regimes de propriedade praticados e os conflitos identificados que acontecem em regiões oceânicas, de mangue e no campo da mangaba. O leitor, no decorrer do trabalho, perceberá que o campo da mangaba torna-se o foco das discussões, pois encontramos ali um palco de disputas que envolvem a compreensão dos variados atores no que diz respeito à gestão (ou gestões) e aos regimes de propriedade. Evidentemente descrevemos os conflitos decorrentes das interpretações em torno da gestão e dos regimes, assim como dos diferentes interesses em torno de bens comuns. Por fim, o trabalho não tenta demonstrar que as populações extrativistas de Maracanã possuem uma relação ecológica com os bens comuns, mas descrever a maneira pela qual é realizada e constituída a gestão coletiva de bens comuns. A gestão é coletiva quando é realizada por diversos atores que possuem interesses diversos entre si, o que pode ocasionar conflitos entre os mesmos. 17 2. GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS, REGIMES DE PROPRIEDADE E CONFLITOS Neste capítulo apresentamos o problema, os objetivos e a metodologia de pesquisa utilizada. Abordamos, ainda, a discussão, acerca da ação coletiva envolvendo recursos naturais, realizada por teóricos como Garret Hardin (1968), Feeny et al. (2001) Ostrom (2000) 11 10 , Ostrom (1990), McKean e e Schmitz et al.(2009). Objetivamos aqui descrever as principais idéias desses autores no que diz respeito ao: comportamento individual e coletivo, regimes de direitos de propriedade e gestão coletiva de bens comuns. 2.1 DEFININDO O PROBLEMA DE PESQUISA Considerando o que foi exposto até o momento, a pergunta central desta pesquisa é: Como é realizada a gestão coletiva de bens comuns na RESEXMAR de Maracanã, levando em consideração que ela é feita por diversos atores (ICMBio, AUREMAR 12 , Conselho gestor, atores internos e externos)? 2.2 OBJETIVOS 2.2.1 Objetivo Geral Compreender e explicar a gestão coletiva de bens comuns e sua relação com regimes de propriedade e conflitos que ocorrem na RESEXMAR de Maracanã e, especialmente, na zona de amortecimento. 2.2.2 Objetivos Específicos a) Identificar e caracterizar a gestão coletiva e os atores envolvidos; b) Identificar e caracterizar os regimes de propriedade; 10 Originalmente publicado em 1990. Originalmente publicado em 1995. 12 Associação de usuários da Reserva Extrativista Marinha de Maracanã. A AUREMAR é uma associação composta por uma diretoria que faz parte da gestão oficial da reserva extrativista. É também um dos membros do conselho deliberativo. 11 18 c) Identificar e caracterizar os conflitos; 2.3 PERGUNTAS DE PESQUISA Foram elaboradas algumas perguntas com o intuito de ajudar no desenvolvimento da pesquisa: a) Quais os tipos de gestões existentes? b) Quais os tipos de regimes de propriedade? c) Quais os conflitos existentes? Onde ocorrem? d) Como se realiza a co-gestão? e) Quais as normas do plano de utilização? 2.4 METODOLOGIA Nesta pesquisa utilizamos a metodologia qualitativa, seguida do método observação participante, e de técnicas como entrevistas baseadas em roteiros e formulários, além da entrevista receptiva ou informal. Foram utilizados, ainda, caderno de campo e máquina fotográfica, esta última empregada apenas na primeira visita de campo. Foram entrevistados homens, mulheres e crianças, totalizando quarenta e um entrevistados (sendo uma entrevista realizada em Belém). Para a construção metodológica da pesquisa foram consultados autores como Blalock Júnior (1976), Abramo (1979), Haguette (1987), Tavares dos Santos (1993), Oliveira (1998), Gil (1999), Bandeira (2000), Flick (2004) e Quivy et al. (2005). A 170 km de Belém, localizada no nordeste paraense, encontra-se o município de Maracanã que abriga uma Reserva Extrativista Marinha – das nove existentes no Estado – e que possui um total de 30 mil hectares de área. A vegetação de Maracanã é composta de mata de terra firme, florestas 19 secundárias, várzea e manguezais, além de um campo natural chamado campo da mangaba, localizado na zona de amortecimento da RESEXMAR. A pequena população do município (de aproximadamente 29.417 habitantes - IBGE, 2010), economicamente ativa, é composta basicamente por pensionistas, aposentados, beneficiários do governo estadual ou federal, feirantes, pequenos comerciantes, extrativistas, funcionários públicos, além daqueles que fazem parte da pequena classe política e jurídica. Na zona de amortecimento da RESEXMAR estão abrigadas 75 comunidades banhadas pelos rios Marapanim, Cuinarana, Maracanã, Caripí e a Baia de Maracanã. Habitam na zona de amortecimento aproximadamente mil e quinhentas famílias, totalizando cerca de cinco mil usuários que vivem e sobrevivem dos recursos naturais explorados nas áreas da reserva e do seu entorno. 20 Fonte: MMA/IBAMA/CNPT A RESEXMAR de Maracanã abriga o Campo da Mangaba que se localiza nos arredores da reserva na chamada zona de amortecimento. É descrito como um espaço, onde se exercem atividades extrativistas realizadas por catadores de mangaba, homens e mulheres (SILVA, 2010), e é um espaço de conflito entre diferentes atores. Além disso, o campo é caracterizado como uma área comum de livre acesso que, durante os anos de 1950, foi somente aproveitada para fins extrativistas. Nessa região, também, se praticou a extração do leite da mangabeira para a produção de borracha, atividade que durou até o ano de 1977 (SCHMITZ et al., 2008). Na região de Maracanã, os catadores de mangaba acumularam experiência de enfrentamento com atores externos. Na década de 1980 21 ocorreu um conflito social violento envolvendo os cadadores e uma empresa de Belém que devastou o campo para plantação de coqueiros. Uma parte da população local se revoltou e incendiou as plantações de coqueiros (SCHMITZ et al., 2008). Na realização da pesquisa de campo, obtivemos relatos de moradores sobre o cercamento e impedimento de acesso à retirada de mangabas no interior do campo. Esse cercamento está presente na área desde a década de 1980. Há aqueles que afirmam que o campo faz parte da reserva e caracteriza-o como patrimônio da união e que, portanto, o campo não tem “dono(s)”. Em discussões com o ICMBio 13 , uma parte dos moradores indagou sobre a possibilidade de transformação do campo em Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), e foi respondido a eles, com o apoio de outros moradores contrários a transformação, que o campo já estava protegido pela reserva. Há confusões e dissensos entre os moradores quanto ao pertencimento do campo à reserva extrativista (LIMA et al., 2009). Aqueles que defendem a transformação do campo em RDS afirmam que existem queimadas periódicas na localidade e que estas são intencionalmente provocadas, outros rebatem dizendo que essas queimadas são apenas incidentes causados por “pontas” de cigarros, que ao atingirem a vegetação rasteira e folhagens secas, provocam incêndios. No interior do Campo, os extrativistas coletam também o bacuri, que é outro recurso alvo de disputas na zona de amortecimento da reserva. Apanhadores de localidades próximas e mesmo aqueles que vivem nos arredores da reserva praticam a retirada do bacuri, ainda não amadurecido, em grandes quantidades para serem vendidos na área urbana. Estes são colocados em paneiros e são vendidos assim que se tornam maduros. Esta 13 Reunião realizada no dia 15 de janeiro de 2010 na sede da RESEXMAR. 22 prática é danosa para os demais extrativistas locais que acabam ficando sem o fruto e alguns questionam a gestão do ICMBio no que diz respeito à fiscalização e mitigação desta prática. Porém, a realidade das populações extrativistas da RESEXMAR de Maracanã não se concentra apenas na coleta da mangaba ou do bacuri, pois os mesmos desenvolvem atividades em áreas de mangue, além de atividades pesqueiras (SANTOS, 2008; LIMA et al., 2009). Essas práticas são reguladas por instrumentos de gestão como o plano de utilização e o plano de manejo, este último ainda falta ser discutido e aprovado pelo conselho gestor. Os primeiros contatos com a reserva foram realizados no dia 04 e 05 de dezembro de 2009, onde foram entrevistados líderes locais e extrativistas com propósito de levantamento de dados para ajudar na definição da problemática de pesquisa. Após isso, foi realizado, de forma constante, levantamento de dados secundários. Utilizamos pesquisa bibliográfica já que pretendíamos levantar dados que nos fornecessem aspectos teóricos e empíricos acerca da realidade alvo de estudo. Foram coletados dados sobre Unidades de Conservação (UC’s), mas precisamente Reservas Extrativistas (RESEX’s), e “sujeitos ou grupos sociais residentes” em substituição a categoria “populações tradcionais”, como proposto por West & Brechin (1991, p.6 citado por BARRETO FILHO, 2006), além de revisar a literatura sobre Maracanã, conflitos sociais, gestão e ação coletiva. Além disso, foram feitas buscas em bibliotecas digitais como http://www.scielo.br, do Museu Paraense Emílio Goledi (http://www.museugoeli.br), da Biblioteca Virtual Centro Edelstei (http://www.bvce.orgbr), no portal do periódico da capes (www.periodicos.capes.gov.br) e no Google acadêmico (http://scholar.google.com.br). 23 Foram feitas buscas nas seguintes bibliotecas físicas: Biblioteca Pública Arthur Viana, Biblioteca Setorial do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Biblioteca setorial do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), Biblioteca setorial do Núcleo de Estudos em Agricultura Familiar (NEAF), Biblioteca Central da UFPA e na Biblioteca Pública Municipal Laércio Barbalho. Todas as bibliotecas listadas se localizam em Belém, com exceção da última que se encontra em Maracanã. Nesta pesquisa utilizamos teóricos da ação coletiva e do conflito. Detalharemos o debate em torno da cooperação (ação coletiva) feita por estudiosos como Hardin (1968), Axelrod (1984), Olson (1998), Sabourin (2006); gestão coletiva de bens comuns realizada por Ostrom (1998), Feeny et al. (2001), McKean e Ostrom (2001), Goldman (2001), Diegues (2001), Schmitz et al. (2009); regras sociais e regimes de propriedade estudados por Luna (2004); Almeida (2004); Ramalho (2004); Almeida et al.(2008); no que diz respeito ao estudo de conflitos utilizamos autores como Simmel (1983), Birnbaum (1995), Giddens (2005), Ogburn et al.(1971), Schmitz et al. (2008) e Collins (2009); Outros autores foram consultados para auxiliar no desenvolvimento da pesquisa como: Furtado (2002), Malinowski (2003), Andrade (2005), Creado (2006), Gohn (2007), Vitalli (2007), Machado (2007), Vitalli et al. (2009), Silva (2010), Pereira (s/a), Chamy (2004). Na pesquisa documental serviram de auxílio fontes não escritas que podiam ser vestuários, obras, instrumentos, símbolos, fotografias, caminhos e aldeias com o objetivo de “desvendar os sentidos e penetrar nos significados dos objetos” (BANDEIRA, 2000). No que se refere a fontes escritas objetivamos também analisar fontes oficiais e não-oficiais como jornais, revistas, enciclopédias e periódicos. Obtivemos dentre estes: uma ata de reunião da Associação de Pescadores e Agricultores de Aricuru (APEAGA), concernente a sua fundação; um 24 documento chamado “Relatório sobre Aricuru” encontrada na casa de uma moradora; o Plano de utilização da RESEXMAR cedido pelo presidente da AUREMAR Jeremias Correa; um documento contendo o parecer técnico da Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) sobre o campo da mangaba cedido por Thiara Silva; o Estatuto do Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã (SIPAAM) cedido pelo próprio presidente do sindicato Domingos Carrera. Foi utilizado também o Google Earth 6.0 beta e o Google Maps (http://maps.google.com.br/), para a localização do Município de Maracanã e de áreas pertencentes a reserva através de imagens de satélite. Nas viagens que se sucederam a Maracanã, com o intuito de definirmos as comunidades alvo da pesquisa, primeiramente coletamos informações na zona urbana do município: nos hotéis, restaurantes, na feira local, no trapiche onde se vende pescados, na sede da “Tribuna de Maracanã”, um jornal local da cidade, nos pequenos mercados onde se vende alimentos, nas sedes das organizações dos extrativistas como na Colônia de Pescadores Z-7 e no Sindicato de Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã (SIPAAM). As comunidades, que se localizam na zona de amortecimento, onde realizamos entrevistas foram escolhidas à medida que era necessário deslocar-se em busca de informações. Atores que participavam ativamente da gestão da reserva foram às principais bússolas da pesquisa. Assim, nossa amostra foi composta por sujeitos que vivem, além da área urbana, em três comunidades: São Tomé, Aricuru e Espírito Santo (chamado também de Mangueirão). Foram definidas essas três comunidades pela seguinte razão: a) A comunidade de partida, para a realização da pesquisa, foi São Tomé, pois lá residi Tomásia Oliveira dos Santos, antiga secretária da 25 AUREMAR, e por ter sido uma das primeiras moradoras que tivemos contato; b) Aricuru foi escolhida devido aos relatos sobre a atuação de duas freiras, junto dos moradores, que lutam pelo transformação do campo em RDS, além das organizações sociais que a comunidade possui. Era uma oportunidade de entender como era realizada a gestão e ação coletiva nesta comunidade; c) Espírito Santo é uma comunidade que se localiza no interior do campo da mangaba – as outras comunidades vivem ao redor do campo – e participou ativamente de um conflito social pela posse de terra que envolveu, também, um fazendeiro que se instalou na região; d) não foram escolhidas outras comunidades por causa do tempo estabelecido para a pesquisa e feitura da dissertação. O número de entrevistados foi maior em São Tomé e Aricuru. Vejamos o quadro: Quadro 1- Entrevistas realizadas no Município de Maracanã Área Entrevistas Formais Informais Total Urbana 6 2 8 Rural (comunidades) São Tomé Aricuru Espírito Santo (Mangueirão) 11 9 3 5 4 -16 13 3 29 11 41 * * Foi incluído neste resultado uma entrevista realizada na capital Belém. A pesquisa realizada pode ser dividida em algumas etapas: (a) Inicialmente as entrevistas foram feitas mediante um roteiro que continha 27 perguntas sobre o Conselho deliberativo, zona de 26 amortecimento, atividades dos extrativistas e outras 14 . A escolha dos entrevistados deu-se de forma aleatória; (b) Posteriormente foi elaborado um formulário 15 com perguntas sobre família, habitação, atividades coletivas, criação da reserva e outras 16 . A escolha dos entrevistados deu-se de forma dirigida: os entrevistados eram escolhidos pela participação e atuação no que se refere à gestão oficial e comunitária da reserva; (c) Por fim, na realização de algumas entrevistas não foram utilizadas, enquanto técnicas, nem o formulário, nem caderno de campo. É o que estamos chamando de entrevista informal. Este tipo de entrevista, baseada na receptividade do sujeito, mostrou-se importante pela qualidade de dados obtidos durante as “conversas informais”: sem o observador está munido de roteiros, formulários e caderno de campo foi possível obter dados com mais “riqueza” de detalhes, já que o sujeito entrevistado sente-se “mais a vontade”, quando comparados com dados obtidos em entrevistas formais. Este tipo de entrevista tem suas dificuldades, pois a clareza e descrição dos dados obtidos dependem da memória do pesquisador. Para mitigar possíveis problemas os dados eram escritos no caderno de campo logo após o termino da entrevista. A observação participante, enquanto método, foi fundamental para o desenvolvimento da pesquisa, pois possibilitou a caracterização de um tipo de gestão, das três descritas neste trabalho, que é baseada na tradição. Sem o acompanhamento das atividades dos extrativistas como apanhar mangaba, vender caranguejos, fazer farinha, pescar no curral, tirar água do poço e participar de festividades religiosas não seria possível entender e caracterizar este tipo de gestão. 14 Ver apêndice. 15 ABRAMO (1979, p.40) considera a diferença entre formulário e questionário: “[...] questionário, quando preenchido pelo próprio informante, e [... ] formulário, quando preenchido pelo pesquisador ou aplicador”. 16 Ver apêndice. 27 2.5 REFERENCIAL TEÓRICO 2.5.1 Dilemas da cooperação É a partir dos trabalhos de Olson (1998) em a “Lógica da ação coletiva” e de Garret Hardin (1968) em “A tragédia dos bens comuns”, que a ação coletiva é tratada como uma problemática de pesquisa. Ambos tratam de questões relacionadas à abordagem da escolha racional que busca compreender fenômenos sociais. Esta linha teórica foi desenvolvida por economistas para explicar fenômenos sociais, tais como a utilização de um pasto comum entre vários pastores ou a pesca no mar aberto. A lógica seria discutir, principalmente, idéias utilitaristas no sentido de que o homem segue seus próprios interesses quando associados a outros. 2.5.1.1 Mancur Olson e a lógica da ação coletiva Olson (1998) estudou grupos de pressão (lobbies) com o objetivo de analisar os motivos que levam indivíduos a cooperar. Olson (1998) questiona a idéia comumente aceita sobre cooperação, na qual as pessoas com objetivos comuns se unem voluntariamente para adquirirem vantagens. Ainda que todos os indivíduos num grupo sejam racionais e egoístas, não é o facto de todos beneficiarem da concretização do objectivo do grupo que os leva a agir de forma a atingir esse objectivo. Na verdade, os indivíduos não agem com vista aos seus objetivos comuns ou com vistas ao interesse do grupo (OLSON, 1998, p.2). Para o autor, os incentivos que levariam um indivíduo a se engajar em uma causa coletiva seriam avaliados pelo próprio indivíduo, através de aspectos racionais, e este tomaria a decisão se valeria a pena ou não lutar pelo bem comum 17 17 , mesmo ele tendo clareza de que o bem alcançado seria Bem comum, coletivo ou público, seria um bem que “uma vez consumido por uma pessoa [...], num grupo [...] não é passível de ser negado às outras pessoas desse grupo” (OLSON, 1998, p.13) 28 para seu beneficio. Na verdade, Olson (1998) questiona a idéia de que a racionalidade individual estaria a favor dos objetivos do grupo. Afirma ainda que os indivíduos não teriam interesses puramente econômicos em processos associativos, pois além destes haveriam incentivos pessoais baseados no prestígio, respeito, amizade, além de outros “objetivos sociais e psicológicos”. Porém, mesmo que existam essas outras motivações na execução de uma ação coletiva, o indivíduo não deixaria de estar sendo racional, “pois o status social e a aceitação social são bens individuais e não coletivos” (OLSON, 1998, p.54). Consideremos o grupo latente formado pelos consumidores de um produto bem determinado, [...], a carne de açougue. Suponhamos que a qualidade desse produto caia sensivelmente e que, ao mesmo tempo, seu preço aumente. Cada consumidor será, sem dúvida, sensível a essa piora de situação. [...] Como conseqüência, irá ele se unir aos outros para uma ação coletiva de protesto? (BOUDON e BOURRICAUD, 2007). Para responder a questão acima, de acordo com a lógica de Olson (1998), diríamos que os indivíduos não se engajam voluntariamente, e sim de acordo com seus interesses individuais, portanto, o que o autor afirma é que indivíduo calcularia se os benefícios são compensadores em relação ao investimento realizado. Assim, muitos não irão se engajar em determinada ação coletiva por conta da sua lógica racional. Mesmo que o indivíduo não cooperasse com a causa coletiva, ele poderia ser beneficiado pelos objetivos alcançados pelo grupo. Sendo assim, o indivíduo poderia decidir se ajudaria ou não o grupo alcançar os objetivos traçados. Mesmo que não ajudasse cooperando, ele racionalmente entenderia que seria beneficiado. Desse modo, Olson (1998) introduz no debate o termo “free rider” (aproveitador) para o indivíduo ou grupo que se beneficia mediante o trabalho de outros. 29 Isso configura um dos principais dilemas da cooperação, pois o indivíduo, de certa forma, obteria o bem comum participando ou não da ação, o que geraria um desinteresse de real participação e engajamento no grupo. Olson (1998) afirma que os resultados em grupos menores seriam mais proveitosos em relação a grupos maiores, pois o primeiro permitiria certo controle e coerção dos aproveitadores, já que os resultados são divididos para um número menor de pessoas. Já os grupos maiores não apresentam muitas vantagens quanto à cooperação, pois o controle é mais difícil, sendo os benefícios divididos para um número maior de pessoas. Também é mais difícil identificar os aproveitadores que acabam não sendo excluídos dos benefícios. 2.5.1.2 Hardin, o problema da superpopulação e a tragédias dos bens comuns Hardin (1968) em a “Tragédia dos bens comuns” desenvolve a temática da ação coletiva relacionada ao uso de recursos naturais. Utiliza exemplos como recursos pesqueiros e uso de pastos coletivos. Hardin (1968) preocupa-se com o crescimento demográfico e a pressão exercida sobre os recursos naturais de livre acesso, como em áreas oceânicas, por exemplo. A tragédia dos bens comuns consiste em afirmar que todos têm livre acesso aos recursos dessa natureza e acabam por explorá-los em busca de benefícios individuais, porém os efeitos desta exploração, como no caso de uma sobrepesca e sobrepastejo, seriam de todos. Ou seja, todos dividiriam os prejuízos. A publicação do artigo de Hardin (1968), intitulado “Tragédia dos bens comuns”, que trata sobre a possibilidade de degradação de recursos de propriedade comum (ou bens comuns) 18 18 em conseqüência do aumento Bem comum faz referência a natureza física do recurso, segundo McKean e Ostrom (2001). Feeny et al. (2001) utiliza o termo “recursos de propriedade comum”. 30 populacional e da lógica racional individual, causou grande impacto nas visões acerca da problemática ambiental. As idéias de Hardin (1968) se popularizam e influenciaram, inclusive, políticas públicas relacionadas ao manejo de recursos em vários países (FEENY et al., 2001; MCKEAN e OSTROM, 2001). Hardin (1968, s.p.) afirma que o problema do aumento demográfico mundial não se pode resolver através de soluções técnicas, como, por exemplo, por meio do cultivo em áreas marinhas ou criando novas variedades de trigo. Para ele, “The population problem cannot be solved in a technical way, […]”. Hardin (1968) preocupa-se com o crescimento demográfico e a pressão exercida sobre os recursos naturais de livre acesso 19. Um exemplo citado pelo autor é a pesca marinha, que é de difícil controle, já que todos os países têm acesso livre a este bem. […] the oceans of the world continue to suffer from the survival of the philosophy of the commons. Maritime nations still respond automatically to the shibboleth of the "freedom of the seas". Professing to believe in the "inexhaustible resources of the oceans”, they bring species after species of fish and whales closer to extinction (HARDIN, 1968, s.p.). O autor relaciona o problema da superpopulação à racionalidade individual, o que causaria o esgotamento de bens comuns. Cita, ainda, Adam Smith em “A riqueza das nações”, onde é defendido que a racionalidade que persegue benefícios individuais traria, em conseqüência da “mão invisível”, promoção do interesse público. If it is correct we can assume that men will control their individual fecundity so as to produce the optimum population. If the assumption is not correct, we need to reexamine our individual freedoms to see which ones are defensible (HARDIN, 1968, s.p.). 19 Livre acesso é considerado por Feeny et al. (2001) como um regime de direito de propriedade. 31 Porém, Hardin (1968), contrariando Adam Smith, afirma que a busca por benefícios, baseada em uma racionalidade individual, não traria resultados positivos para o problema da superpopulação presente nas sociedades modernas. Hardin (1968) utiliza um exemplo de pasto coletivo para provar sua hipótese. A pergunta de partida é como se comportariam os pastores no interior de um pasto coletivo. As a rational being, each herdsman seeks to maximize his gain. Explicitly or implicitly, more or less consciously, he asks, "What is the utility to me of adding one more animal to my herd?" This utility has one negative and one positive component. Adding together the component partial utilities, the rational herdsman concludes that the only sensible course for him to pursue is to add another animal to his herd. And another; and another.... […]. Each man is locked into a system that compels him to increase his herd without limit −− in a world that is limited. Ruin is the destination toward which all men rush, each pursuing his own best interest in a society that believes in the freedom of the commons. Freedom in a commons brings ruin to all (HARDIN, 1969, p.4-5) Para este autor, com o desordenado crescimento demográfico, o mundo não suportaria tal situação, o que levaria conseqüentemente a uma escassez de recursos naturais. Apenas o controle estatal ou privado, seguido de punições àqueles que desrespeitassem as regras, poderia solucionar problemas relacionadas à superpolução e, conseqüentemente, a tragédia dos bens comuns. It is a mistake to think that we can control the breeding of mankind in the long run by an appeal to conscience.[…]. […]. To make such an appeal is to set up a selective system that works toward the elimination of conscience from the race (HARDIN, 1968, p.8-9). 32 Assim, para Hardin (1968), um apelo à consciência não teria sentido na ausência de sanções, pois o homem livre não se sentiria coagido a mudar suas práticas antiecológicas e seguiria sua racionalidade, a qual tenderia sempre a beneficiar seus anseios individuais, mesmo que soubesse que isso traria conseqüências indesejadas futuramente. É necessário, portanto, que a racionalidade individual seja controlada por meio de agências externas ao indivíduo, para que a tragédia dos bens comuns não aconteça. Para ele isso se daria através de duas formas: 1) autoridade central estatal ou 2) por meio da privatização. A idéia de regulação formulada por atores externos, baseada em sanções, induziria o comportamento dos indivíduos a favor da cooperação entre os mesmos, sendo então possível o manejo sustentável de recursos de uso comum. Na verdade, Hardin (1968) debate sobre “escolhas” racionais, mas acaba fazendo previsões baseadas numa lógica individual determinista, que não deixa espaço para os indivíduos realmente escolherem, já que acabariam agindo em beneficio próprio. Na metade da década de 1960 iniciam-se as discussões acerca dos problemas ambientais e os limites do crescimento econômico, sendo que o trabalho de Hardin (1968) gera bastante influência em grupos decisórios acerca da problemática ambiental. 2.6 REGIMES DE DIREITO DE PROPRIEDADE A tragédia dos [bens] comuns, de Garret Hardin, foi publicada há 22 anos. Embora enfocando a superpopulação, o legado dominante desse trabalho foi a metáfora do manejo de recursos de propriedade comum [ou bens comuns]. Nesse período, as idéias popularizadas por Hardin tornaram-se explicações amplamente aceitas a respeito da sobreexploração de recursos manejados de forma comunal. A idéia essencial era a de que tais recursos, como oceanos, rios, atmosfera e áreas de parques, são sujeitos a maciça degradação (FEENY et al., 2001, p.17). 33 Feeny et al.(2001), em seu artigo intitulado “A tragédia dos comuns: vinte anos depois”, criticam a visão catastrófica de Hardin (1968), afirmando que o autor considera livre acesso, que seria um regime de direitos de propriedade, equivalente à bens comuns, relativo à natureza física do recurso. Para tanto, Feeny et al.(2001) define bem comum como “uma classe de recursos para a qual a exclusão é difícil e o uso envolve subtração” (BERKES et al., 1989, p.89 citado por FEENY et al., 2001, p.20). Assim, a exclusão de potenciais usuários ao acesso de recursos comum é custosa e muitas vezes impossível, como por exemplo, o controle de vidas selvagens ou águas subterrâneas; outra característica do bem comum, apresentada na definição, seria a subtração, que significa que cada usuário ao explorar determinado recurso tem a capacidade de subtrair parte da prosperidade do outro, ou seja, “o nível de exploração de um usuário afeta adversamente a habilidade de exploração de um outro usuário” (FEENY et al., 2001, p.20). Os autores apresentam quatro tipos de regimes de direitos de propriedade (FEENY et al., 2001, p.20-21): a) livre acesso: caracterizado pela ausência de direitos de propriedade, como acontece com a pesca em regiões oceânicas; b) propriedade privada: a exclusão de terceiros é decidida e regulada por um indivíduo ou por um grupo de pessoas, como empresas; c) propriedade comunal ou comunitária 20 : seria um regime identificado por sua exclusividade e regulação no uso dos recursos manejados. Essa exclusão e regulação seriam feitas por uma “comunidade identificável de usuários interdependentes”; 20 Schmitz et al. (2009) defende que o termo seja grafado como “propriedade comunitária” para dirimir confusões. Neste trabalho utilizamos o termo “propriedade comunitária” ao invés de comunal. 34 d) propriedade estatal: os direitos aos recursos são exclusivos do governo e caberia ao mesmo decidir sobre o acesso e a natureza de exploração desses recursos; Os quatro tipos de regimes de propriedade apresentados são tipos analíticos ideais, ou seja, não se apresentam dessa mesma forma na realidade. Muitas vezes existem casos de sobreposição, além de existirem casos onde esses regimes são conflitantes entre si, sendo que há variações nesses regimes (FEENY et al., 2001). Além do mais, a administração estatal, como defendida por Hardin (1968), não necessariamente assegura o uso sustentável dos recursos. Um dos problemas freqüentemente evidenciado é a grande quantidade de regulações de uso. Em regiões do sul da Ásia e da África, onde o regime vigente era de propriedade estatal, constatou-se exploração de áreas florestais de maneira clandestina (FEENY et al., 2001). [...] Isso não surpreende se considerarmos que os agentes governamentais que tomam as decisões não possuem o mesmo horizonte de tempo ou mesmos interesses dos proprietários particulares, do público em geral, ou mesmo do próprio governo. A propriedade estatal é raramente associada ao manejo bem sucedido em países menos desenvolvidos. A infra-estrutura profissional responsável pelo manejo de recursos no organograma estatal normalmente é pouco desenvolvida e a imposição de normas é problemática. (FEENY et al., 2001, p.30-31). A lógica do argumento da “Tragédia dos [bens] comuns” é que proprietários particulares ou gerentes estatais podem e normalmente conseguem manejar recursos com sucesso. Ou seja, os dois regimes de direitos de propriedade providenciariam os incentivos para o uso regulado de forma consistente com a sustentabilidade. Hardin implicitamente argumenta 35 que tais incentivos seriam ausentes ou frágeis em outros regimes (FEENY et al., 2001, p.31). Hardin (1968) não consegue afirmar claramente que os prejuízos de livre acesso estão relacionados à ausência de direitos de propriedade, ou seja, na liberdade do acesso e não no uso comum dos recursos. Assim, o regime de propriedade comunal (ou comunitária) “se refere aos arranjos de direitos de propriedade nos quais grupos de usuários dividem direitos e responsabilidades sobre os recursos” (MCKEAN e OSTROM, 2001, p.80). Além do mais, Hardin (1968) não considera a possibilidade de exclusão de usuários em um regime de propriedade comunitária. Para Hardin (1968) somente a propriedade estatal ou privada é que possibilitaria um controle sobre os recursos. “O argumento do autor negligencia o importante papel de arranjos institucionais que geram exclusão e regulação de uso [em propriedades comunais]. [...]. O sucesso pode ser identificado em três, e não somente dois regimes de direitos de propriedade” (FEENY et al., 2001, p.32). 2.7 GESTÃO COLETIVA DE BENS COMUNS E ARRANJOS INSTITUCIONAIS Arranjos institucionais são um conjunto de regras formais e informais que são estabelecidas e seguidas pelos usuários no que diz respeito à exploração do recurso comum (TUCKER e OSTROM, 2009). Assim os arranjos institucionais se baseiam na composição de elementos como: “assembléia, negociação, decisão, acordos, regras, monitoramento, sanções e instâncias de fácil acesso para a resolução de conflitos” (SCHMITZ et al., 2009). Experiências de sucesso de arranjos institucionais em regimes de propriedade não são incomuns. Em vários países regimes de propriedade comunitária foram desconsiderados pelas políticas públicas, seja por desconhecê-los ou ignorá-los em função, também, das discussões promovidas por Olson (1998) 36 e Hardin (1968). Foram apresentadas soluções, para o manejo de recursos naturais, baseadas na propriedade privada e/ou pública devido a uma suposta eficiência na regulação e proteção desses recursos. O deslocamento de direitos de propriedade de grupos tradicionais sobre recursos comuns para outros grupos de usuários acabou por afetar os arranjos institucionais como monitoramento e sistemas de exploração, diminuindo a eficácia do manejo anteriormente utilizado pelas comunidades tradicionais (MCKEAN e OSTROM, 2001). Estudos de casos ilustram que as populações podem organizar e monitorar o uso dos recursos pelos seus membros. “Uma diversidade de sociedades no passado e no presente tem, de forma independente, elaborado, mantido ou adaptado sistemas comunais voltados ao manejo de recursos de propriedade comum”. Assim, essas populações podem realizar uma gestão de bens comuns bem sucedida. (FEENY et al., 2001, p.32) Com relação à gestão, Schmitz et al. (2009, p.278) defende que se use o termo gestão coletiva de bens comuns ao invés de gestão comunitária, pois a primeira seria caracterizada pela atuação de vários e diferenciados atores em um território, sendo que esses atores ou grupos muitas vezes possuem interesses diferentes e até opostos entre si. Assim, para Schmitz et al. (2009, p.279), gestão coletiva de bens comuns seria “um resultado de um processo de interação entre os indivíduos ou grupos para uso desses mesmos bens”. Exemplos de gestão de bens comuns são apresentadas por Ostrom (1998) 21 que se destaca por criticar a visão de que o uso comum, por exemplo, de uma área de pasto, de peixes e outros bens, não poderiam funcionar se fossem regulamentados coletivamente, já que segundo Hardin (1968) a gestão coletiva de bens comuns estaria fadada ao fracasso. 21 Nota de aula referente a disciplina Temas Avançados em Sociologia – Ação Coletiva, ministrada pelo professor Heribert Schmitz no dia 24 de setembro de 2009 37 Exemplos de florestas e prados em comunidades japonesas, em regime de propriedade comunitária, definiam datas para o fim e o início para a exploração de determinado recursos. Guardas fiscalizavam e puniam caso as regras fossem descumpridas. Havia uma escala gradual de multas aos infratores. As ferramentas da coleta também eram reguladas. Assim, normatizações legisladas pelos comunitários garantiam o uso sustentável das terras comuns por gerações (McKean, 1982 citado por FEENY et al., 2001, p.28). Alarmados pelos crescentes número de usuários e escala de conflitos, os pescadores em Alanya desenvolveram um sistema para regular o uso: áreas de pesca eram situadas de maneira suficientemente distantes para evitar interferências, e os pescadores concordavam entre si em pescar em regime de rotação para assegurar igualdade de acesso ás melhores áreas, sendo a posições iniciais determinadas por lotes mapeados (FEENY et al., 2001, p.29). Ostrom (1998) cita alguns exemplos de gestões coletivas bem sucedidas a partir de Netting (1976), como no vilarejo Törbel, na Suiça. O vilarejo possuía associações, regimentos e regras de parentesco bem definidas inclusive visando estrangeiros. O número de vacas deveria ser de acordo com a alimentação desses animais, além de serem aplicadas multas aos infratores de direitos de propriedade (havia um oficial local que multava e ficava com parte da multa como pagamento). Havia também um sistema de heranças, no qual todos os filhos não podiam dividir os bens até que ficassem adultos. Por fim, este é um exemplo de que os próprios moradores podiam administrar o bem comum. As condições que promovem o uso coletivo são abordadas por vários autores, como Netting (1976) 22 , que argumentam que formas comunitárias de posse de terra são mais apropriadas quando: (1) o valor da produção por 22 Nota de aula referente a disciplina Temas Avançados em Sociologia – Ação Coletiva, ministrada pelo professor Heribert Schmitz no dia 24 de setembro de 2009. 38 unidade de terra é baixa; (2) a freqüência ou a confiabilidade do uso ou da colheita é baixa; (3) a possibilidade de melhoria ou intensificação é baixa; (4) um território grande é necessário para o uso efetivo; (5) grupos relativamente grandes são requeridos para atividades de investimento de capital. Lembrando que isso são apenas tendências ou indicações, não significa que sempre será assim nesses moldes. Ostrom (1998) dá outros exemplos e diz que no Japão em uma região montanhosa havia três vilarejos (Hirano, Nagaike e Yamaroka) que tinham características semelhantes ao exemplo anterior: havia terras comuns na parte de cima e propriedades privadas na parte debaixo das montanhas. As terras comuns, que não eram pastos, tinham bastantes florestas de onde retiravam madeiras, plantas apodrecidas para adubo, carvão vegetal etc. A terra comum atende as cinco condições que Netting (1976) apresenta anteriormente. A base do cálculo de bens (distribuição de riquezas) era de acordo com o cume (grupo de lares) e este não poderia aumentar segundo as regulamentações do vilarejo. Para cada cume foi designado um sistema de rodízio para o uso da floresta evitando que uns utilizassem áreas com madeiras mais nobres do que outros. Além do mais, somente uma doença, tragédia ou ausência de adultos era considerado como desculpa para ausência no trabalho coletivo. Cada vilarejo possuía seu próprio sistema de monitoramente e sanção. Havia detetives que os vilarejos contratavam para evitar a entrada de estrangeiros ao vilarejo. Os detetives confiscavam os cavalos e materiais dos transgressores, sendo que essas posses só eram liberadas quando o transgressor pagasse uma multa ao vilarejo. Existia uma multa que bania e expulsava o infrator do vilarejo. Um terceiro exemplo é o da Huerta de Valência, na Espanha, onde existem relatos de tempos remotos onde regulamentos formais 39 especificavam quem usava e quem tinha direitos de usar os canais de água de valência (sistemas de irrigação). Os agricultores eram organizados por comunidades de irrigação com a presença de síndicos (a organização não era apenas uma questão técnica, mas também de usuários). Aqui também havia um tribunal das águas que se encontravam durante séculos nas terças-feiras no mesmo lugar, aonde eram eleitos os síndicos e funcionários para tomar conta desses canais. Existiam multas para a manutenção do sistema: o sindico recebia 2/3 da multa e 1/3 para o denunciante, porém as multas aplicadas eram baixas. Outro exemplo, agora na realidade brasileira, se refere ao manejo tradicional praticado por catadoras de mangaba 23 , há décadas, e que conseguem aliar “o extrativismo da mangaba à coleta de produtos de manguezal, à pesca, à agricultura, ao artesanato e ao assalariamento no turismo” (SCHMITZ et al., 2009, s/p). Teóricos que tratam de questões envolvendo a reciprocidade relativizam as visões de Hardin (1968) e de Olson (1998), baseadas em escolhas racionais, pois demonstram que o indivíduo em processos associativos (formais e informais) tendem a cooperar ou não baseados na ação do outro (AXELROD, 1984) 24. Sabourin (2006) demonstra que existem práticas de ajuda mútua rural no mundo moderno que evidenciam a lógica da reciprocidade (dar, receber e retribuir). O autor se refere, por exemplo, a atividade rural denominada mutirão, onde grupos se unem para agir em prol do próprio grupo ou de determinado indivíduo, na qual existe uma cooperação baseada em obrigações sociais. 23 24 Estudo realizado em alguns estados da região Nordeste brasileira. Baseado no modelo “tit for tat” (olho-por-olho), que estipula que se um indivíduo coopera em determinada situação o outro tende a cooperar, caso contrário, se o individuo não coopera o outro também passa a não cooperar. 40 Isso, portanto, evidencia a possibilidade de ações coletivas bem sucedidas, apesar dos dilemas que cercam estas ações. Conseqüentemente, a gestão coletiva de bens comuns pode ser realizada de forma satisfatória ou não, dentro das especificidades situacionais. Assim, o objetivo deste estudo é justamente demonstrar como é realizada a gestão coletiva de bens comuns na RESEXMAR de Maracanã. 2.8 CONFLITO Filosofias sociais, mais especificamente o darwinismo social, influenciaram pensadores a formular teorias que comparavam dinâmicas de sociedades animais com a lógica do sistema social. Os mais aptos sobreviveriam na luta pela vida, havendo então uma seleção natural dos melhores. Assim conflitos entre diferentes raças humanas, baseadas nas diferenças biológicas, poderiam ser justificados. Com o desenvolvimento de teorias sociais, o conflito passa a ser analisada a partir de perspectivas sociológicas e não mais ideológicas (BIRNBAUM, 1995). Para Birnbaum (1995), Hobbes, ao colocar “os problemas do fundamento da ordem”, é o primeiro a abordar o problema a partir de uma perspectiva sociológica. Segundo Birnbaum (1995), Hobbes afirma que, em uma “sociedade natural”, o homem vive pelas suas paixões e uso da força e que só através da abdicação desses impulsos poderia ser instaurada uma paz civil e prosperidade coletiva. Para Hobbes, somente o poder político absoluto poderia exercer o domínio e controle social sobre os homens. Para Auguste Comte, ao contrário de Hobbes, não seria necessária uma coerção externa absoluta para que se instaurasse a ordem, pois com a evolução gradativa da sociedade e com o crescimento do positivismo 25 e da racionalidade, estariam postas as condições necessárias para o desenvolvimento de uma sociedade pacífica. Já “Marx e Tönnies, [...], 25 “O positivismo constitui [um]a corrente filosófica [...], tendo como hipótese central [...] que a sociedade humana é regulada por leis naturais que atingem o funcionamento da vida social” (MINAYO, 1996, p. 39). 41 invertem a dicotomização social proposta por Hobbes” e defendem que “[...], a guerra de todos contra todos desencadeia-se na sociedade baseada na propriedade privada e não na comunidade natural” (BIRNBAUM, 1995, p. 250). De acordo com Birnbaum (1995, p. 252-253), Durkheim, de corrente funcionalista, estudava os meios para manter a sociedade integrada e dotada de uma ordem social. A unidade social deveria ser assegurada por princípios de integração social. Para Marx “[...], uma sociedade que tenha abolido a propriedade privada consegue eliminar as dissensões; [...]”, enquanto que para Durkheim “[...], a erradicação do confronto está associada à implementação funcional da divisão do trabalho social”. Segundo Giddens (2005, p.35), “os sociólogos que empregam teorias do conflito enfatizam a importância de estruturas dentro da sociedade”. A sociedade é analisada através de modelos explicativos de funcionamento, onde são destacadas questões relacionadas ao poder, lutas e desigualdades. O que causariam os conflitos seriam os diferentes interesses em relação a um determinado objeto em disputa, além do que sempre haveria um grupo em desfavorecimento se relacionado a outro. Sendo assim, os teóricos do conflito examinam as tensões entre grupos dominantes e desfavorecidos dentro da sociedade e buscam compreender como as relações de controle são estabelecidas e perpetuadas. [...]. Em todas as sociedades há uma divisão entre aqueles que mantêm a autoridade e aqueles que são largamente excluídos dela, entre os que fazem regras e os que obedecem elas (GIDDENS, 2005, p.35). A sociologia do conflito social que questiona a estrutura funcional da sociedade, ganha corpo a partir da década de 1950 no ocidente (BIRNBAUM, 1995). Ralf Dahrendorf, influenciado por Max Weber, afirmava 42 em sua obra 26 que teóricos do funcionalismo consideravam apenas aspectos como harmonia e concordância nas sociedades estudadas. Segundo Ralf Dahrendorf a vida social também é marcada pela divisão e pelo conflito. Para ele, o conflito, entre indivíduos e grupos, surge a partir dos diferentes interesses que estes possuem. Para Marx, as diferenças de interesses estavam ligadas principalmente à classe social, enquanto que para Dahrendorf essas diferenças estavam ligadas à autoridade e ao poder (GIDDENS, 2005). Simmel (1983) 27 , ao defender uma natureza sociológica do conflito, afirma que ele é uma forma de interação, de associação e que as causas do conflito, como inveja, necessidade, ódio ou desejo, são fatores de dissociação. Ele atribui ao conflito uma natureza dualística, tanto negativa quanto positiva, e pretende ressaltar a positividade do conflito, já que teoricamente a tendência é que os aspectos negativos sejam mais percebidos. O conflito é percebido por este autor como um fenômeno que produz estruturas sociais em cooperação com “forças unificadoras”. O conflito, segundo ele, seria um fenômeno capaz de integrar grupos e indivíduos. Esta força ou fenômeno seria inerente as relações sociais e os seres humanos não poderiam viver sob a forma de “um grupo absolutamente centrípeto e harmonioso, uma união pura não é só empiricamente irreal, como não poderia mostrar um processo de vida real” (SIMMEL, 1983, p.124) Para ele as mudanças e o próprio desenvolvimento das sociedades estão de fato ligados a discordâncias, a diferenciações de pensamento e ao próprio conflito. Ele via a “unidade” social como uma conseqüência de disputas de interesses, já que seria a partir da verbalização ou 26 Classe e Conflito de classe na sociedade Industrial, publicada em 1959. 27 Publicado originalmente em 1908. 43 externalização da insatisfação, de um indivíduo ou grupo, que não nos tornaríamos oprimidos e nem nos sentiríamos vítimas das circunstâncias. Como o conflito nasce a partir das relações sociais, Simmel (1983) diz que “tendências contraditórias coexistem” (p.131) e se complementam no interior de outros tipos de relações. Comparativamente ele afirma que relações do tipo eróticas se complementam “por meio de traços opostos; de amor e de vontade de dominar ou necessidade de dependência” (p.130). A mistura de relações harmoniosas e hostis, todavia, apresenta um caso nos quais as séries sociológica e ética coincidem. Começa com a ação de A em beneficio de B, desloca-se para o beneficio do próprio A sem beneficiar B, mas também sem prejudicá-lo, e finalmente torna-se uma ação egoísta de A à custa de B. Na medida em que tudo isso é repetido por B, embora dificilmente do mesmo modo e nas mesmas proporções, surgem as combinações inumeráveis de convergência e divergência nas relações humanas (SIMMEL, 1983, p.132). Com isso ele se refere as incoerências e dualidades presentes nos indivíduos e nas suas relações sociais, e portanto presentes no conflito. Simmel (1983, p.122) acha que o conflito é “um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes”. Para Glasl (1997:90-93 citado por SCHMITZ et al., 2008) o conflito necessita de vários fatores para acontecer, não podendo ser reduzido a apenas uma causa. O conflito para este autor seria definido “como uma interação entre atores na qual pelo menos um deles vivencia incompatibilidades no pensamento, na representação, na percepção, no sentimento ou no querer com um outro, assim que na ação ocorre um impedimento através do outro” (GLASL, 1997:14-15 citado por SCHMITZ et al., 2008). 44 Baseando-se em Simmel (1983) e Glasl (1997 citado por SCHMITZ et al., 2008), o conflito pode ser considerado como “[...] uma parte integral da vida organizacional, tanto nas relações internas e externas de indivíduos e grupos, quanto entre organizações. O conflito ocorre muitas vezes porque diferenças de opiniões e concepções sobre temas e iniciativas entre grupos e pessoas não são tratados devidamente” (SCHMITZ et al 45 3. O MUNICÍPIO E A RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE MARCANÃ Neste capítulo descrevemos, com mais detalhes, as gestões identificadas durante a realização da pesquisa: oficial, comunitária e consuetudinária. Detalhamos também as visitas as comunidades estudadas, além de apresentarmos um tópico destinado a discussão e sistematização dos dados obtidos. 3.1 CHEGANDO AO MUNICÍPIO Para se chegar ao município de Maracanã existem atualmente dois meios de transporte terrestre: um é através da linha Belém-Maracanã que é realizada pela empresa de ônibus “Estrela do Mar”, que alcança seu destino em aproximadamente quatro horas; o outro é através de “vans” que fazem o mesmo percurso em torno de três horas. O município possui duas realidades distintas, mas que coexistem: a rural e a urbana. Ao adentrar em Maracanã pela rodovia PA - 127 logo se percebe uma extensa área de mata nativa onde são encontrados clarões que abrigam pequenas casas de alvenaria, madeira ou taipa. Os quintais das casas são repletos de pequenos animais domésticos como aves e suínos. Além disso, existem pequenos lagos naturais, cercados pela vegetação, onde as pessoas tomam banho e lavam roupas. Nos domínios do município a rodovia PA-127 é dividida por quilometragem e ao longo desta existem caminhos feitos de piçarra ou barro batido que levam a outras ruas e casas. No decorrer da rodovia mulheres andam no acostamento com latas de água na cabeça e são acompanhadas de crianças; ciclistas transportam alguns objetos como lascas de madeira para produção de carvão; comércios 46 residenciais vendem alimentos básicos como farinha, óleo de cozinha, sal, açúcar e bases protéicas. Há, ainda, pequenas escolas de alvenaria de ensino fundamental que foram pintadas em três cores: branco, vermelho e um azul berrante. Algumas dessas escolas levam o nome de personalidades políticas do município. Também pela rodovia, nos altos, são percebidas caixas de água responsáveis pelo abastecimento e distribuição desta aos moradores. No final da estrada chega-se a área urbana de Maracanã, próximo ao rio de mesmo nome, onde encontramos: a feira local, o serviço de postagem de cartas, as lan houses, os pequenos comércios, hotéis e pousadas, as igrejas católica e evangélica, as sedes de clubes de futebol, concessionárias de água, energia e gás, posto de saúde, as duas escolas públicas (uma que possui ensino fundamental e a única escola que detêm o ensino médio do município), a sede da prefeitura e da câmara municipal e um banco comercial que existe na cidade. Todos esses serviços e espaços atraem as pessoas que vivem nas comunidades rurais dentro e fora da zona de amortecimento da reserva. A pequena área urbana tem ainda uma orla turística e uma praça, esta última é um espaço de sociabilidade juvenil e de constantes festividades “modernas” acompanhadas pelo tecnobrega 28 . A praça também abriga a igreja católica, sendo que enquanto os cultos são ministrados não pode haver nenhum tipo de interrupção por parte das aparelhagens de som. Elas devem aguardar até que o culto termine para que a festa possa ser iniciada. É um tipo de acordo mútuo. Os jovens, os padres e as agradáveis senhoras devotas agradecem. Algumas organizações sociais dos extrativistas também se encontram na zona urbana: dentre elas temos o Sindicato de Trabalhadores Rurais, a 28 Ritmo musical pertencente ao estado do Pará que é caracterizado por batidas eletrônicas e dançantes. 47 Colônia de Pescadores Z-7, o Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aquicultores (SIPAAM) e, por último, a Associação dos Caranguejeiros. Todas essas organizações fazem parte do chamado conselho deliberativo da RESEXMAR de Maracanã 29, exceto a Associação dos Caranguejeiros. Da pequena zona urbana do município em direção as comunidades rurais é necessário seguir em direção a feira, adentrá-la e tomar um caminho que fica logo atrás do mercado municipal, aonde se encontra mais comerciantes, dentre eles os peixeiros. Estes comercializam seus produtos em um local que é coberto com telhas e construído com madeira. É também o lugar onde os pescados são pesados assim que chegam. Abaixo deste local e a frente está o imenso e belo rio Maracanã. Esta casa de pesagem do pescado é ligada a um trapiche que se torna pequeno comparado a quantidade de barcos que aportam nele. Os barcos a motor têm um horário único para fazerem a travessia. Esses barcos são propriedades dos próprios pescadores locais, ou seja, não existe um transporte fluvial municipal. Uma alternativa, caso se perca o barco, é a lancha, porém a travessia se torna bem mais cara. Para que os jovens estudantes sejam transportados da área rural até a cidade, a prefeitura freta barcos dos próprios comunitários para fazer o traslado. Aliás, é necessário que se conheça os regimes da maré para não que se perca o barco, pois na maioria das comunidades eles só passam uma vez ao dia! Os horários dos barcos mudam de acordo com a vazante e enchente, eles podem chegar uns 20 minutos mais cedo ou mais tarde. E esse horário pode variar ainda mais. Do trapiche ao barco a motor, é necessário saber qual deles vai passar pela comunidade que se pretende chegar. Após o pagamento no valor de R$2,00 e a lotação ser completada a viagem pela orla do rio Maracanã se inicia. O motor anuncia a partida. De um lado está a área 29 Criado e aprovado em 16 de outubro de 2009. 48 urbana assentada em um terreno acima das águas (algumas partes é visível o assoreamento), do outro a vegetação de manguezais e plantas aquáticas. A viagem para a comunidade de São Tomé, a primeira parada, dentre as outras comunidades existentes, leva em torno de 20 a 30 minutos, mas na viagem esse tempo é imperceptível. As brincadeiras pueris dos botos, as pequenas ondulações do rio provocadas pelo andar do barco, o silêncio das pessoas durante a condução ajudam na perda da percepção do tempo. Na pequena praia, de água salobra, onde os passageiros desembarcam para se dirigirem a comunidade de São Tomé, parte inicial da areia é avermelhada causada pela dinâmica da maré que despedaça pequenas pedras que acabam por se espalhar tanto dentro da água, quanto na areias próximas, ocasionando a coloração característica daquela praia. Logo à frente, do lado esquerdo, temos um pequeno estaleiro, onde se consertam e constroem os barcos. Do lado direito, nos altos de uma encosta assoreada, temos uma placa deteriorada com um anuncio quase ilegível: “Reserva Extrativista Marinha de Maracanã – Decreto Presidencial de 13/12/2002 – Acesso somente com autorização”, seguida de logomarcas do CNPT, ARPA, IBAMA e MMA 30 . A placa que anuncia a reserva demarca seu fim e não seu início. Isso porque a reserva extrativista é marinha, ou seja, é destinada a proteger principalmente áreas alagadas, como nos mangues, e áreas marinhas. A área de terra-firme, onde vivem os extrativistas, é considerada zona de amortecimento. Esta zona se inicia onde a praia termina e continua 10 km para o interior da área de terra-firme. Seu principal objetivo é mitigar impactos ambientais para que eles não cheguem às áreas conservadas. Seguindo o caminho de areia que logo é substituído pelo de barro seco e amarelado, é possível avistar as primeiras casas dos moradores. O 30 Conselho Nacional de Populações Tradicionais, Programa de Áreas Protegidas da Amazônia, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, e Ministério do Meio Ambiente. 49 caminho leva a uma estrada principal que obriga o visitante a escolher entre a direita ou esquerda. Ao longo do percurso é possível observar os instrumentos de trabalho dos pescadores próximos as suas casas: redes, canoas e anzóis. Porém, nem todos são pescadores. Existem aqueles que se denominam de caranguejeiros, mas que também utilizam outros recursos naturais presentes em áreas de mangue como mexilhão, sernambi, turú e siri. Também é praticado o extrativismo vegetal, em área de terra-firme, onde se coleta mangaba, bacuri, jaca e outros. A comunidade possui energia elétrica, água encanada (que não chega para todos), escola com as séries iniciais, um campo de futebol, uma igreja protestante, um espaço católico onde se realizam as missas e pequenos comércios familiares que ocupam parte da casa do proprietário. Não existe uma organização formal como uma associação de moradores, no entanto a prática do mutirão com finalidade de roçado é bastante corriqueira. No mutirão não existe partilha do que é plantado ou colhido. A retribuição em forma de cooperação gira em torno da força de trabalho. Se se ajuda a fazer roçado na área destinada de propriedade de uma família, esta, por sua vez, tem a obrigação social de desempenhar a mesma tarefa na área de roçado daqueles que a ajudaram. As casas de alvenaria, as geladeiras e fogões, fornecidos dentro do contexto da política de reforma agrária do INCRA 31 , é um dos grandes destaques da positividade da criação da reserva, segundo os próprios moradores. Nem todos conseguiram o benefício, pois alguns não acreditavam que haveria construções de casas e distribuição de materiais para subsidiar a atividade pesqueira e, portanto, não realizaram seu cadastro que seria incluído na Relação de Beneficiários (RB). Entre as criações de animais encontram-se porcos, galinhas e patos. A relação entre consumo e venda desses recursos varia. O peixe e outros 31 Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. 50 recursos aquáticos são mais utilizados para venda, seguida da farinha e de outros produtos de origem vegetal. Porém, a utilização desses recursos é marcadamente para a subsistência. O quintal também é fonte de alimentação. Existem plantações próximas a casa que fornecem banana, abacaxi, limão e manga. Na roça, ou “centro”, se planta mandioca, arroz, feijão e milho. É consenso entre os moradores que o solo não fornece plantações com muita qualidade, pelo menos não como já forneceu anteriormente. É também comum se ouvir falar sobre a escassez de determinadas espécies de pescado ou de sua diminuição drástica ao longo dos últimos anos. O caranguejo também é alvo deste impacto, tanto na sua diminuição em tamanho, quanto em volume. Para a mitigação desses impactos a reserva ainda se referencia em seu plano de utilização, não possuindo ainda um plano de manejo, porém este último ainda está sendo pensado e discutido no recém criado conselho deliberativo. 3.2 POR UMA GESTÃO COMUNITÁRIA: O EXEMPLO DE ARICURU Deixando a comunidade de São Tomé, via fluvial, e indo para a próxima comunidade, a mais ou menos 30 minutos, se encontra Aricuru. Durante a viagem vemos muitos currais ao longo da margem do rio, parecem até fazer parte daquele ecossistema. Em Aricuru, ao se sair do barco, é necessário subir uma pequena encosta para se chegar em terrafirme. O visitante é saudado com outra placa indicando o fim da reserva extrativista marinha e o início da zona de amortecimento. Lá do alto, olhando o horizonte, vemos o rio Maracanã sumir por entre os manguezais iluminados pelo dia claro. As comunidades são constituídas por grupos de famílias que formam um sistema de parentesco. Em Aricuru existem cinco famílias nucleares que possuem entre si genros, noras, sobrinhos, netos, compadres e comadres. 51 Ao total são 43 famílias que vivem nesta comunidade. A população é bastante jovem e constituída de muitas crianças. Nesta comunidade existe água encanada (não chega para todos), energia elétrica, escola com as séries iniciais provida pelo município, um clube e um campo de futebol. Existe ainda uma escola de reforço para as crianças, na qual as professoras são as próprias moradoras da comunidade, uma mini-biblioteca chamada “Espaço de Leitura Paulo Freire”, o Salão São Benedito que possui uma sede espaçosa onde são realizadas reuniões e festividades religiosas, e a Associação de Pescadores e Agricultores de Aricuru (APEAGA). Toda essa formação de organizações de base comunitária pode ser atribuída a Coordenação de São Sebastião, fundada pelos moradores e por duas freiras atuantes na comunidade, sendo que uma delas nasceu em Aricuru. Elas e alguns moradores fazem parte da Comissão Pastoral da Terra e de Pesca (CPT e CPP). A ação coletiva nesta comunidade é caracterizada por um engajamento feminino intenso. As mulheres se organizam também em um grupo que utiliza recursos da floresta encontrados no campo da mangaba para fazer remédios à base de plantas medicinais. O Centro Popular de Orientação a Saúde (CPOS) possui sede própria e produz remédios de forma artesanal, baseado em uma medicina popular, que é comercializado entre os moradores. Essa organização também foi mobilizada pelas freiras que atuam na comunidade. No centro são produzidas pomadas, pílulas de creolina e de babosa, garrafadas e xaropes da casca de jatobá, de mastruz e algodão. Existem dois tipos de xarope: os feitos a partir da casca de pau e de plantas. Temos conflitos que ocorrem, em sua maioria, nas comunidades que estão em torno do campo da mangaba, mas que afetam aquelas que mesmo distantes fazem uso dos recursos naturais do campo: 52 (1) cercamento do campo da mangaba, campo este em que os extrativistas coletam frutas como bacuri e mangaba; (2) impedimento de acesso a Ilhas de mangabeira, provocado por um fazendeiro da região; (3) queimadas no interior do campo da mangaba para produção de carvão; (4) Coleta indiscriminada do bacuri, retirado por usuários externos a reserva, quando o fruto ainda não está maduro. A prática consiste em arrancar o bacuri “verde” e catalisar o processo de amadurecimento utilizando o abafamento do fruto através de jornais e/ou enterrando-os, para posterior comercialização. Além da perda no sabor original do fruto, provocada por este processo, há uma perda no volume de recursos que é de propriedade dos extrativistas; Para tentar solucionar os conflitos os moradores de Aricuru e Espírito Santo, junto às freiras, estão propagandeando a necessidade de tornar o campo da mangaba uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) que garanta o acesso dos extrativistas e defenda o campo de potenciais usuários externos. São enviados convites a várias comunidades e promovidas reuniões junta a Secretaria de Meio Ambiente do estado do Pará (SEMA) para que se possa implementar a reserva no campo da mangaba. 53 3.3 A GESTÃO OFICIAL E O PLANO DE UTILIZAÇÃO DA RESEXMAR DE MARACANÃ O sistema de gestão oficial da reserva é baseado na atuação de três organizações: ICMBio, AUREMAR e Conselho deliberativo. Cada organização é responsável por fiscalizar e discutir assuntos emergentes relacionados à reserva. O conselho deliberativo, enquanto principal arranjo institucional, é composto por 27 entidades membros, além de um presidente, sendo que este deve ser, segundo estabelece a legislação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o próprio gestor da reserva extrativista que pertence ao quadro de funcionários do ICMBio. Antes da criação do conselho as decisões eram tomadas em assembléias e reuniões que, evidentemente, não envolviam todos os membros atuais. As comunidades também fazem parte do conselho deliberativo através de um sistema de representatividade. O sistema funciona assim: as comunidades estão agrupadas em pólos, sendo que um pólo agrupa cerca de 9 comunidades, mas existem pólos que agregam menos comunidades. Ao total são 9 pólos que compõe a reserva e que fazem parte do conselho. O nome de cada pólo leva o nome de algumas das comunidades. Há ainda as comissões de fiscalização em cada pólo, no qual existe um representante titular por pólo e os representantes suplentes que são distribuídos por comunidade. Os comitês de fiscalização também são um instrumento utilizado para “engajar” os moradores no que diz respeito à proteção de recursos da reserva e do seu entorno através de denuncias de irregularidades. Para a fiscalização dos recursos da reserva foi realizado um curso de formação de agentes ambientais promovido pelo IBAMA. O alvo deste curso eram os próprios moradores. Eles tornar-se-iam fiscalizadores com poder de advertir àqueles que não cumprissem as normas ambientais. 54 Além da formação de comitês e agentes ambientais considera-se que cada extrativista, morador das 75 comunidades, está inserido no sistema de gestão da reserva como fiscal ambiental. Cada morador é considerado responsável pela manutenção dos ecossistemas pertencentes a reserva extrativista marinha e a zona de amortecimento, como consta no plano de utilização (s/a): Cada extrativista é um fiscal da Reserva, cabendo a qualquer um a obrigação de denunciar a AUREMAR, ao IBAMA, Delegacia Especializada em Meio Ambiente – DEMA e ao Batalhão de polícia Ambiental ou outro órgão competente as irregularidades que estejam sendo praticadas dentro ou no entorno da reserva. O plano de utilização, como instrumento da gestão oficial, representa as regras e condutas que o usuário deve conhecer e perpetrar em seu cotidiano, mesmo que isso afete sua antiga relação com os recursos de uso comum. Recursos de origem animal, mineral e vegetais são citados no plano de utilização como recursos que devem ser protegidos. No entanto, recursos de origem animal de áreas alagadas ganham grande destaque, como peixe, camarão, siri, ostra, caranguejo e outras espécies aquáticas. Recursos de origem vegetal são mencionados no plano de maneira generalizada, não sendo destacados, de forma específica, recursos de uso comum que estão presente no campo da mangaba como o bacuri e a própria mangaba: Não será permitido na Resex o desmatamento, corte de raízes, retiradas de cascas de mangue, devendo ser obedecida a legislação que trata do assunto. Qualquer atividade ou projeto que pretenda manejar fauna silvestre ou flora nativa deverá ser encaminhado para análise e aprovação do IBAMA e posteriormente contemplado pelo Plano de Manejo da Reserva. 55 Já os recursos de origem mineral como pedras, areias, seixos rolados (a maioria destes recursos se encontram na zona de amortecimento) só poderão ser retirados se a solicitação obtiver: (a) o “aceite” da comunidade local; (b) a aprovação da AUREMAR; (c) a aprovação do CNPT/IBAMA. No que diz respeito a aves, répteis (jacarés, camaleões, tartarugas) e mamíferos (macacos, botos, guaxinins) o plano de utilização proibi claramente a captura desses animais. Todavia, é preciso que os órgãos competentes estejam atentos a práticas conduzidas por um protecionismo excessivo já que, segundo uma moradora da comunidade de Aricuru, que se identifica como agricultora, o aumento da população de cotias tem provocado perdas significativas nas plantações dos agricultores, pois esses animais se alimentam das produções das lavouras causando prejuízos aos roçados. O aumento no número de guaxinins também tem se mostrado problemático, pois eles se alimentam freqüentemente de crustáceos como caranguejos e siris. Esses animais, sem predadores naturais, e também sem o homem para poder consumi-los, tornaram-se verdadeiras pragas aos extrativistas e agricultores. Os objetivos conservacionistas da reserva sem dúvida tem alcançado sucesso, no entanto os desejos para que se mantenha uma “ordem natural” da vida silvestre tem se mostrado danoso ao próprio meio natural, já que se continuar havendo um crescente aumento populacional de guaxinins, por exemplo, isso poderá acarretar em diminuição de outras espécies protegidas pela reserva como siris e caranguejos. Além do mais, essas pragas estão afetando a já ínfima qualidade alimentar dos moradores da reserva. 56 3.4 PREOCUPAÇÕES COM OS BENS COMUNS Da orla da cidade pode-se ver o rio Maracanã, que se encontra no interior da reserva extrativista marinha. Ao longo da orla, próximo as encostas 32 , existem dois restaurantes em funcionamento: o “Beira Mar” e o “Rola Papo”. Os dois restaurantes estão situados, em parte, na zona de amortecimento (ou seja, em área de terra-firme), e em parte no interior da reserva (nas encostas), sendo que as construções ou reformas realizadas nesses imóveis sofrem fiscalizações por parte da Associação dos Usuários da RESEXMAR de Maracanã – AUREMAR. Não é permitido realizar construções ou reformas em áreas da reserva, pois esta prática é considerada danosa aos ecossistemas. É necessária uma autorização ambiental para construir ou reformar um imóvel em áreas protegidas, caso contrário tal atitude é considerada infração ambiental, sendo o “infrator” sujeito a sanções como multas. Nesta mesma situação encontram-se extrativistas de comunidades que possuem casas em praias, onde é proibida também a construção de qualquer imóvel, já que o solo arenoso de praia passou a ser considerado um ecossistema protegido e encontra-se no interior da reserva. Após a implantação da reserva comunidades que residem em praias também se tornaram infratoras, porém existe a possibilidade de requerimento de licenças ambientais para construções nesses ambientes. Para a obtenção da permissão de construção de ranchos de pesca, casas de praia ou a reforma de imóvel em terrenos praianos é necessário, segundo consta no plano de utilização da RESEXMAR de Maracanã (s/a, p.2): (a) o “aceite” da comunidade local; 32 Essas superfícies são intermediárias entre o rio Maracanã e a terra-firme e estão inseridas no interior da RESEXMAR. 57 (b) a aprovação da AUREMAR; (c) a aprovação do conselho deliberativo da reserva; (d) e, por fim, o licenciamento dos órgãos competentes, quando necessário; O próprio presidente da AUREMAR, Jeremias Correa, age como fiscalizador ambiental, tendo autuado inclusive a prefeitura do município por cometer irregularidades contra a reserva. Certa vez o próprio presidente averiguava a construção de banheiros públicos, anexados a um ponto de venda de passagens marítimas mantida pela prefeitura, que estavam despejando dejetos diretamente no rio Maracanã. A preocupação com a conservação dos espaços naturais é claramente presente entre líderes, gestores e comunitários da reserva. A conservação de bens comuns está intimamente ligada às preocupações com as gerações futuras. O discurso ambiental mais recorrente faz referência à diminuição do pescado e caranguejo, o que quer dizer que, em conseqüência disso, devam existir ações com objetivos de proteção para estas espécies, como por exemplo, através do defeso do caranguejo em sua época de acasalamento. 3.4.1 O mangue e o mar O Suatá 33 , como é conhecido, é um fenômeno de fertilidade dos caranguejos e é caracterizado pela “andança” dos caranguejos-macho em busca das “condessas” (caranguejos-fêmea), sendo que durante esse período é regulamentada a captura destes animais 34. Existem informações, por parte dos moradores, de que na reserva ocorre efetivamente fiscalizações realizadas pelo Instituto Chico Mendes de 33 Esta palavra não existe no dicionário de língua portuguesa por isso é comum encontrá-la grafada de formas variadas como: “Soutá” (SANTANA, 2006) ou “Soatá” (SANTOS, 2008). 34 O caranguejo-uçá fêmea está em defeso no período de 1ª de dezembro a 31 de maio de cada ano e o tamanho mínimo para a captura de machos e fêmeas é de 6 cm. Para declarar o estoque, o catador ou comerciante deverá dirigir-se às Superintendências nos estados (Diário do Pará, 2011). 58 Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em relação à pesca artesanal e em épocas de defeso do caranguejo, sendo a ação do órgão criticada por um morador que se identifica como caranguejeiro e agricultor: segundo ele, o órgão não entende as variadas épocas em que o ocorre o Suatá o que ocasiona fiscalizações em períodos desnecessários, além de o calendário do ICMBio não acompanhar a lógica da “andança” dos caranguejos nas variadas comunidades, já que, a reprodução desses crustáceos ocorre em dias diferenciados nas comunidades. Áreas alagadas como rios, igarapés, mangues, ou terrenos arenosos como os de praia, além de animais característicos destes ecossistemas como tartarugas, peixes e caranguejos são focos ambientais na reserva. Tomásia Oliveira dos Santos, extrativista vegetal e agricultora, moradora da comunidade São Tomé, foi a primeira secretária da AUREMAR 35 e em um de seus relatos também manifestou sua preocupação com a redução do pescado atribuindo esta diminuição a duas causas: (1) Ao constante assoreamento do rio Maracanã, devido à grande quantidade de chuvas que já provocaram deslizamentos de encostas no rio. Aliás, saindo da área urbana do município em direção a comunidade de São Tomé é perceptível que grandes partes das encostas sofreram perdas de sua matéria arenosa, pois há enormes buracos nestas encostas; (2) Existem espécies de peixes que se reproduzem na foz do rio Maracanã, porém a reprodução destes peixes fica comprometida devido à pesca comercial realizada por grandes embarcações que utilizam redes de pesca proibidas pelo plano de utilização da reserva, redes estas que impedem a passagem de peixes do mar para o rio Maracanã. Além do mais, existe 35 A primeira diretoria da AUREMAR exerceu seu mandato durante três anos: de 2004 a 2007. 59 ainda a falta de fiscalização por parte dos órgãos competentes em áreas oceânicas; 3.4.2 Campo da Mangaba: gestões e conflitos A RESEXMAR de Maracanã abriga o Campo da Mangaba que está localizada em área de terra-firme, ou seja, na zona de amortecimento da reserva. O campo é um espaço, onde se exercem atividades extrativistas por diferentes comunidades e é também um espaço onde ocorrem conflitos entre diferentes atores. A maioria das comunidades está localizada ao redor do campo, mas existem comunidades que se localizam no interior do mesmo como a de Espírito Santo, ou “Mangueirão”, como também é chamada. No total cerca de quinze comunidades se envolvem diretamente com atividades extrativistas realizadas no campo. Foram identificadas, atualmente, ameaças que o campo vem sofrendo como: queimadas, loteamento, cercamentos, apropriação privada e indevida do espaço coletivo, sendo que conflitos envolvendo cercamentos foram identificados, de acordo com os entrevistados, desde a década de 80. Conflitos envolvendo uma empresa de Belém e os extrativistas, também são datados a partir da década de 80. Segundo alguns moradores, a prefeitura de Maracanã estava envolvida na geração deste conflito, pois a mesma arrendou o campo à empresa para que esta pudesse fazer plantação de coqueirais. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) teria sido responsável pela liberação de recursos financeiros, mediante seus planos desenvolvimentistas, para a execução do projeto. Porém, a monocultura promovida pela empresa não obteve sucesso, já que o solo arenoso não era adequado para este tipo de plantação. A empresa abandonou a área após sua ação devastadora que deixou grande 60 parte do campo sem a vegetação original causando prejuízos àqueles que viviam do extrativismo vegetal. Este acontecimento ainda está muito presente na memória coletiva dos extrativistas, pois esta história sempre é mencionada quando se questiona sobre o campo da mangaba. O acontecimento marcou a população local pela grandiosidade do projeto, já que o campo, além de ser uma área muito grande, foi quase todo derrubado com o uso de tratores e correntes. Além do mais, o empreendimento também contou com a participação de extrativistas locais, que sobreviviam do campo, como mãode-obra para a derrubada da vegetação nativa e plantação de coqueirais. Apesar deste acontecimento trágico, o campo se restituiu naturalmente nas décadas seguintes a devastação. Porém, atualmente, o campo ainda sofre com incêndios contínuos, tendo defensores que argumentam que as queimadas são deliberadamente provocadas, enquanto outros afirmam que os focos de incêndio acontecem por duas razões: uma seria por causa da caça aos ovos de camaleão-fêmea que requer a queimada do terreno para que os ovos, guardados em covas, fiquem expostos; o outro motivo estaria ligado ao período de estiagem, pois as queimadas são apenas incidentes causados por “pontas” de cigarros, que ao atingirem a vegetação rasteira e folhagens secas, provocam os incêndios. Aliás, essas alegações a favor de que existe alguém que intencionalmente inicia os incêndios tornaram-se necessárias para aqueles que defendem a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no campo da mangaba. Apesar de estas queimadas anuais consumirem “mangabas que estavam do tamanho de laranjas”, como afirmou uma catadora, estas não são as únicas preocupações dos extrativistas locais, pois recentemente, um fazendeiro “Gaúcho”, como é identificado, que se instalara na região, cercou as ilhas de mangabeiras, onde ele reside, e proibiu a passagem de 61 catadores por um caminho que dava acesso a essas ilhas, restringindo a atividade extrativista e privatizando caminhos utilizados pelos moradores. Ilhas de mangabeiras, como definiu uma moradora da comunidade Espírito Santo, são algumas partes territoriais aonde se concentram as plantações de mangabeira, pois essas plantações não estão em todo o campo, apenas em algumas partes dele. Os moradores de Espírito Santo, localizado no interior do campo, e de comunidades próximas ao campo como Brasília e Vista Alegre presenciaram recentemente a ação destruidora, por parte deste fazendeiro, do campo da mangaba. O fazendeiro utilizou um trator para “limpar” uma parte do campo com intuito de cultivar plantações de feijão, milho e soja. Ele propôs às comunidades uma partilha da colheita em troca de permissão para usofruto da terr. Isso seria conseguido através de um documento que solicitava aos moradores suas assinaturas e suas identificações pessoais como a do Cadastro de Pessoa Física (CPF) e do Registro Geral (RG). O documento dava direitos ao fazendeiro para que ele pudesse fazer plantações em terras comunais. O acordo com os extrativistas asseguraria que o fazendeiro iria arar e gradear a terra, serviços feitos com um trator para facilitar o manejo da terra, e parte da produção obtida iria ficar com os moradores e a outra parte deveria ser entregue exclusivamente à “Gaúcho”. Moradores de comunidades como Brasília e Vista Alegre assinaram o contrato proposto diferentemente de Espírito Santo que se recusou, pois os mesmos acharam o acordo inconveniente, já que: (a) O milho e o feijão só iriam ser colhidos por safra, e isso não seria vantajoso para os moradores que precisariam dividir seu tempo entre os cuidados com os seus roçados e com as plantações de “Gaúcho”; 62 (b) Outra desvantagem seria o fato de que a soja ocuparia uma grande área da terra, novamente sem benefícios para os extrativistas; O conflito acabou ganhando proporções maiores e os moradores de Espírito Santo levaram o caso à prefeitura e à delegacia do município. O delegado local pediu ao fazendeiro que apresentasse um documento que comprovasse a posse oficial da terra. “Gaúcho”, em resposta, disse que não só tinha este documento como o havia registrado em cartório, porém o delegado contra-argumentou dizendo que a área não poderia pertencer a ele, este por sua vez tentou levar o caso ao fórum do município, no entanto a juíza não foi localizada. Neste caso, também houve a intervenção do IBAMA, porém mesmo após essa intervenção o fazendeiro continuou no local e ainda impediu que catadores de mangaba fossem até as ilhas de mangabeira, que ficava em sua suposta propriedade, garantindo isso através de um caseiro e cães. Os moradores compreendem o campo da mangaba como propriedade comunitária pertencente aos extrativistas que vivem dele e é considerado usuário externo: (a) aquele que não mora nos arredores do campo ou nas comunidades próximas; (b) aquele que não pratica o extrativismo, que não se identifica ou que não é identificado enquanto extrativista; Há ainda uma condição de usuário baseada no tempo que o individuo já exerce esta atividade. Com relação à gestão consuetudinária, baseada na tradição, podemos perceber sua manifestação através dos usos sociais como os de poços que existem nas comunidades: o “poço do caju”, em Aricuru, que possui, aproximadamente, um século de existência é mantido pelos próprios usuários. A água do poço serve para tomar banho, lavar roupa e ingeri-la. O espaço em torno do poço é comum, desde que não se esteja tomando banho. Ao se aproximar deste espaço é necessário seguir regras de 63 conduta: o usuário tem de saber se não tem alguém utilizando o espaço do poço antes de adentrá-lo, pois pode haver alguém tomando banho. Para saber se há alguém, é necessário que se emita um sinal audível como um assovio ou um longo “uhuuu”. Assim, entendemos que o recurso água é comum, assim como o espaço onde ele se localiza, porém a certos momentos que este espaço não pode ser compartilhado por todos. No que diz respeito aos regimes de propriedade de uso privado temos como exemplo as roças e os quintais que são espaços destinados exclusivamente à família nuclear. Isso não significa que não possa ser partilhado se o proprietário achar que deva assim fazer. Em Aricuru os quintais servem de caminho para os moradores. Existe uma estrada principal que dá acesso a outros caminhos, porém aos quintais também é atribuído este papel. Não existe cerca na maioria das propriedades onde se localizam as casas. O que demarca os limites da propriedade podem ser esteios, árvores ou plantas. Nos quintais existem caminhos entre os capins altos que foram sendo desenhados pelos que transitaram e transitam por ali. É evidente que o uso comum da propriedade, como acontece com os quintais atualmente, já vem sendo praticado há séculos. A concepção de propriedade parece ser uma mescla entre o entendimento comunitário indígena e a que foi introduzida pelos colonizadores quando estiveram na Amazônia. É também por entenderem o território a partir de uma concepção de propriedade comunitária que existem conflitos em torno das ilhas de mangabeira: um fazendeiro sulista que se instalou em terras próximas ao campo da mangaba impede o acesso de moradores às mangabeiras. Um caminho muito utilizado pelos comunitários também foi alvo de privatização por parte do fazendeiro que impediu que os moradores transitassem por ali garantido isso através de cães de guarda e um caseiro. 64 Além do conflito que acontece na zona de amortecimento, descrito acima, existem conflitos envolvendo extrativistas e pescadores de grande porte. Peixes que atravessavam águas marinhas para se reproduzir em águas do rio Maracanã, ou próximas a ele, estão em constante diminuição, já que a pesca predatória e empresarial em nível oceânico não é fiscalizada. Em conseqüência, os extrativistas amarguram a diminuição do pescado em suas redes e currais. As gestões comunitária e consuetudinária prosseguem de forma independente da gestão oficial da reserva, sendo que esta última ainda não abarca as demandas sociais dos diversos extrativistas. A luta pela transformação do campo da mangaba em RDS é um exemplo de que a gestão comunitária está mais próxima dos moradores, apesar das grandes distâncias entre as comunidades. Aliás, algumas comunidades são maiores do que a zona urbana do município. 3.5 DISCUSSÃO E SISTEMATIZAÇÂO Nesta pesquisa foram identificados três tipos de gestão: (1) um que chamamos de oficial, (2) outro de comunitária e (3) por último um que é baseado na tradição, chamada de consuetudinária. Chamamos atenção para o fato de que existem oposições e um distanciamento entre a gestão tipo 1 quando comparada as gestões de tipo 2 e 3. Neste trabalho entendese que o conceito de gestão coletiva de bens comuns engloba os três tipos de gestões aqui apresentados. 65 Figura 1 - Tipos de gestões identificados na RESEXMAR de Maracanã GCBC G1 ----------------------------------------------------------------------- G2 G3 Legendas: GCBC – Gestão Coletiva de Bens Comuns G1 – Gestão de tipo 1 (oficial) G2 – Gestão de tipo 2 (comunitária) G2 – Gestão de tipo 3 (consuetudinária) A gestão oficial (tipo 1) é caracterizada pela co-gestão ou parceria composta pela tríade ICMBio, AUREMAR e Conselho deliberativo, este último é composto de 27 entidade-membros 36 . Este tipo de gestão concentra suas ações na orientação do comportamento de indivíduos diante de bens comuns e na fiscalização e punição daqueles que transgridem as regras impostas no plano de utilização e nos regimentos internos. 36 Art.2º O Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista Marinha de Maracanã contempla as seguintes representações: I - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio; II - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará - EMATER; III - Marinha do Brasil / Capitania dos Portos da Amazônia Oriental - CPAOR; V - Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aquicultores de Maracanã SIPAAM; VI - Conselho Nacional de Seringueiros - CNS; VII - Prefeitura Municipal de Maracanã; VIII Igreja Católica / Diocese de Castanhal - Paróquia de São Miguel Arcanjo; IX - Igreja Evangélica Adventista, como titular, e Igreja do Evangelho Quadrangular, como suplente; X - Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Chocoaré-Mato-Grosso - AUREM/C-MG; XI - Colônia de Pescadores Z-07 de Maracanã-PA; XI - Movimento dos Pescadores do Pará - MOPEPA; XII - Universidade Federal Rural da Amazônia - UFRA; XIII - Universidade Federal do Pará - UFPA; XIV - Câmara Municipal de Maracanã-PA; XV - Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Maracanã; XVI - Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Maracanã-PA - AUREMAR; XVII - Secretaria Estadual de Meio Ambiente - SEMA; XVIII - Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG; XIX - Pólo Sede; XX - Pólo 40 do Mocooca; XXI - Pólo São Roberto; XXII - Pólo Aricuru; XXIII - Pólo Tatuteua; XXIV - Pólo Penha; XXV - Pólo Mota; XXVI - Pólo São Cristóvão; XXVII - Pólo Itamaraty (Portaria 59 de 29/07/2009). 66 Suas ações são pautadas em documentos oficiais que apresentam distâncias consideráveis das realidades sociais. Os sistemas de uso comum (ALMEIDA, 2008) não são contemplados pelo plano de utilização da reserva, o que dificulta o entendimento, por parte dos gestores oficiais, de lógicas sociais baseadas na tradição, além de que o sistema de co-gestão tem se mostrado omisso com relação à resolução de conflitos no interior da reserva e daqueles que ocorrem na zona de amortecimento. A gestão comunitária, ou tipo 2, é composta pelos indivíduos das comunidades estudadas, assim como suas organizações, algumas devidamente formalizadas, como associações. Um aspecto importante é o envolvimento de duas freiras, vinculadas a Comissão Pastoral de Pesca (CPP) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), que impulsionaram e ajudaram na criação de várias organizações sociais na comunidade de Aricuru como: (a) Associação de Pescadores e Agricultores de Aricuru (APEAGA), criada em 1999. A APEAGA conseguiu adquirir um barco após sua fundação, porém o barco está em desuso atualmente por problemas técnicos. A associação tem sede própria. (b) Coordenação de São Benedito, que é uma coordenação religiosa e foi responsável pela construção do Salão de São Benedito e da primeira Igreja Católica. Atualmente a segunda igreja está em construção, ocupando uma área maior que sua antecessora; (c) O Centro Popular de Orientação a Saúde (CPOS) foi criado para auxiliar na prevenção e cura de doenças através da manipulação e produção de remédios a partir de plantas medicinais. Grande parte dessas plantas é conseguida no campo da mangaba. O CPOS possui sede própria; (d) O Espaço de Leitura Paulo Freire abriga uma pequena biblioteca e uma pequena sala destinada ao ensino-aprendizagem de alunos de séries iniciais e as professoras que lecionam nesta “pequena creche” são moradoras da comunidade de Aricuru. 67 Apesar dessas organizações se concentrarem na comunidade de Aricuru, as ações das freiras, no que diz respeito ao campo da mangaba, ultrapassam os limites da comunidade e envolvem cerca de outras quinze que utilizam de forma direta o campo (OLIVEIRA et al., 2007). Já a gestão consuetudinária apresenta características que não são exclusividades de uma ou de outra comunidade. A gestão de tipo 3 foi formatada ao longo de séculos, pois esta apresenta formas de relacionamento entre indivíduos e bens comuns que remetem a preceitos de gerações anteriores. Imbricado a esse tipo de gestão está o chamado sistema de uso comum (ALMEIDA, 2008) que possui por sua vez regimes de propriedade (FEENY et al., 2001; MCKEAN & OSTROM, 2001) com regras sociais específicas para os usos de bens comuns e que estão imbuídas de lógicas de reciprocidade, comunitária e privativa (LUNA, 2004; ALMEIDA, 2004) . Ao longo da pesquisa percebeu-se que a gestão de tipo 1 (oficial) preocupa-se demasiadamente com os recursos naturais, não compreendendo os sistemas sociais em torno de bens comuns, praticadas na gestão de tipo 3 (consuetudinária). Apesar de o conselho deliberativo ser composto por extrativistas é necessário que se qualifique o debate em torno da real participação dos mesmos em cenários de tomada de decisão. Este trabalho não procurou através qualificar a participação dos extrativistas em arranjos institucionais como no conselho deliberativo, porém entendemos que a existência de espaços de decisão e de deliberação como conselhos, assembléias e reuniões, que coordenam a vida organizacional, presentes em reservas extrativistas, não significam necessariamente que interesses e demandas provenientes de diferentes tipos de extrativismo estejam sendo representados. 68 Os conselhos podem ser tanto instrumentos que realizam uma gestão democrática e participativa, quanto estruturas burocráticas formais que apenas transmitem políticas sociais que muitas vezes não mediam conflitos, tornando-se estruturas enfadonhas, além de gerar ônus para administrá-la. Ou seja, o conselho em si, enquanto representante de um sistema organizativo, não garante a participação (GOHN, 2001). A gestão de tipo 2 (comunitária) busca instituir ações coletivas que defendam direitos dos extrativistas ligados principalmente a questões fundiárias e melhoria da qualidade de vida, que serão conseguidos através da ação organizada. Apesar dos esforços deste tipo de gestão não existe um reconhecimento das ações coletivas, desenvolvidas em comunidades como Aricuru, por parte da gestão oficial. Não há uma interação entre estas gestões que, muitas vezes, parecem estar em realidades paralelas. A falta de um debate qualificado em torno de zonas de amortecimento e sua funcionalidade para as unidades de conservação só aumentam o abismo entre essas duas gestões. A gestão de tipo 3 é invisibilizada quando comparada as outras duas. Os sistemas de uso comum só podem ser percebidos e identificados em contato com o cotidiano das comunidades. A percepção desses sistemas também é escassa aos próprios moradores, pois estes sistemas encontramse de forma inter-relacionada com os afazeres habituais dos extrativistas seja através de mutirões para cuidar do roçado, da manutenção e proteção de plantações que se localizam no campo da mangaba (assim como dos caminhos que dão acesso as ilhas de mangabeiras) ou na fundação e manutenção de poços. Na perspectiva da gestão consuetudinária o campo sempre foi dos extrativistas que sobreviveram e sobrevivem dos recursos provenientes deste ecossistema, inclusive no que se refere à manutenção e proteção do campo contra usuários externos que sempre foi difícil e custoso. 69 Em decorrência de conflitos que ocorrem constantemente no campo da mangaba, a gestão comunitária, em consonância com a importância do campo apresentada na gestão consuetudinária, propõe que o campo tornese uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). De acordo com a gestão oficial o campo da mangaba faz parte da zona de amortecimento da reserva, logo ele se encontra protegido pela mesma, porém existem conflitos no campo que não são mediados por meio desta gestão. No que diz respeito aos regimes de propriedade, estes retratam a complexidade da relação entre as gestões aqui apresentadas. Os regimes de propriedade apresentam-se sobrepostos na realidade e foram identificados a partir do campo da mangaba: (a) Propriedade estatal, já que o campo faz parte da zona de amortecimento, segundo a gestão oficial; (b) Propriedade comunitária de acordo com os sistemas de uso comum perpetrados na gestão consuetudinária; (c) Propriedade privada percebida em áreas de roçado e em partes do campo que foi privatizado por um fazendeiro; (d) Livre acesso, pois alguns atores (como no caso de um fazendeiro que impediu o acesso de catadores às mangabeiras) não reconhecem os direitos de propriedade estatal ou comunitária; A idéia de livre acesso permite privatização de partes de um território de acordo com as vontades do ator, ou seja, ele pode privatizar partes de uma região qualquer de forma momentânea ou duradoura. Como o ator percebe que uma determinada região não possui “donos” claramente definidos (através de um documento oficial, por exemplo) ele deliberadamente o ocupa e o privatiza. E ele pode não ser o único a fazer isso. Para facilitar o entendimento pensemos nas regiões oceânicas inseridas na RESEXMAR de Maracanã: as “cidades flutuantes” são um 70 aglomerado de barcos comerciais que se localizam no oceano próximo do estuário de Maracanã. O oceano percebido como uma área de livre acesso e dotado de bens comuns atrai empresas pesqueiras de grande porte que competem entre si para a aquisição desses bens. O livre acesso, podemos afirmar, de acordo com este exemplo, não é um regime caracterizado pela ausência de direitos de propriedade, mas pela difusão e pelo não reconhecimento mútuo desses direitos por parte dos atores envolvidos. Ou seja, não há uma unidade entre os membros para competirem entre si segundo regras estabelecidas, ao contrário do regime de propriedade comunitária que estabelece regras e direitos que não são exclusivos de um ou de outro, mas de um conjunto de sujeitos interdependentes que também competem para a aquisição de bens, porém esta competição se baseia em arranjos pré-definidos socialmente. As beiras de praias na reserva podem parecer inicialmente uma área de livre acesso aonde qualquer um pode colocar seu curral, já que não há um controle aparente realizado pelos extrativistas, porém os lugares onde se colocam os currais são privatizados pelos pescadores. Mesmo em um sistema de uso comum (ALMEIDA, 2008) as privatizações de pequenas áreas são praticadas. Elas demarcam as propriedades da família nuclear garantindo assim o acesso a bens comuns. Comparando com o exemplo anterior, o das “cidades flutuantes”, os currais são regidos por um sistema que une para competir. Nos regimes de propriedade comunitária a rivalidade no acesso aos bens não é percebida de forma negativa, porém isso também depende da escalação da rivalidade, ou seja, depende de como ela é tratada caso exista um desentendimento entre os atores envolvidos para que ela não se torne um conflito. Conflitos envolvendo regimes de propriedade não são incomuns. No caso do campo, apesar de ele ser entendido por alguns moradores como uma área pertencente aos que vivem e sobrevivem do extrativismo vegetal o controle deste território apresenta complicações no que diz respeito à 71 contenção de interesses externos (o que de certa forma também se pode atribuir também ao tamanho do campo que é de 3.570, 78 ha). Alguns atores entendem o campo como uma terra “sem dono” e que, portanto, deve ser conservado e destinado aos extrativistas, porém outros vêem nele a possibilidade de obtenção de lucros. Enquanto uns compreendem o campo sob a ótica de uma propriedade comum, que possui áreas familiares privadas, outros privatizam partes do campo com a intenção de auferir lucros e impedem, através de cercas, que bens comuns possam servir aos extrativistas. Esse tipo de prática não condiz com os direitos de propriedade comunais exercidos pela gestão consuetudinária onde os bens comuns são utilizados como forma de renda, mas principalmente para subsistência familiar. Como existem racionalidades diferentes envolvendo os bens comuns no que diz respeito aos direitos de propriedade (comunitária e privado, neste caso) os atores vivenciam incompatibilidades de pensamento situação propicia para a manifestação do conflito através da ação. Um dos conflitos identificados se refere a interesses sobre o campo que não condizem com o entendimento das gestões comunitária e consuetudinária. Um caso exemplar são os loteamentos ilegais. Aliás, é importante salientar que os próprios moradores que sobrevivem do campo podem envolver-se na venda desses lotes. Decisões como esta contrariam as gestões de tipo 2 e 3 perpetradas por outros extrativistas, porém as ações e interesses do(s) ator(es) são contextuais e podem contrastar mesmo que de forma interna à essas gestões (ALMEIDA, 2008). Nosso objetivo geral sugere que existe uma relação entre gestão e conflitos. Aliás, alguns conflitos são provocados de forma endógena, o que quer dizer que existem atores internos à gestão que conflitam entre si. Como neste trabalho a gestão coletiva é entendida como uma interação entre atores (SCHMITZ, 2009) ela não está isenta do possível aparecimento de conflitos, já que estes últimos fazem parte da vida social (SIMMEL, 1983; 72 OGBURN et al.1971). Entendemos, portanto, que a gestão é, por vezes, permeada por conflitos. O conceito de gestão coletiva de bens comuns sugere que atores externos também participam da gestão quando os mesmos se envolvem no processo que se sucede, o que aumenta as chances da ocorrência e do agravamento de conflitos dependendo da intenção do(s) ator(es) externo(s). Afirmamos, então, que o conceito de gestão coletiva de bens comuns, operacionalizado nesta pesquisa, envolve os três tipos de gestão anteriormente descritos, os regimes de propriedade e os conflitos inerentes ao processo de interação entre atores internos e externos. 73 Figura 2 – Mapa ilustrativo de regimes de propriedade e conflitos no campo da mangaba e em região oceânica Campo da Mangaba ( propriedade estatal) Conflitos Poços Área referente a regimes de propriedade comunitária e privada Comunidades Curral de pesca Áreas destinadas ao roçado 74 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A reserva extrativista Marinha de Maracanã possibilitou uma participação da população rural no que diz respeito à gestão oficial daquele espaço. Em troca de serviços ambientais, os moradores receberam produtos duráveis como geladeira e fogão, além da construção de casas e recebimento de créditos para aquisição de materiais utilizados nas atividades cotidianas. Apesar disso, a co-gestão (parceria entre organizações governamentais, não-governamentais e extrativistas), é um sistema que ainda está em processo de implementação e, portanto, de ajustes. Entendemos que a gestão oficial não atende ou não representa os interesses de extrativistas pertencentes às comunidades de São Tomé, Aricuru, e Espírito Santo. Este trabalho possibilitou entendermos que os sistemas de uso comum precisam ser percebidos como realidades concretas na qual os indivíduos possuem mobilidade e são dotados de capacidades de ação. Além do mais, é necessário que os extrativistas realmente sejam incluídos no desenvolvimento de planos de utilização e em planos de manejo para que se mitigue incoerências entre realidade legal e as realidades sociais. Com relação aos regimes de propriedade, estes têm de ser entendidos a partir das lógicas sociais e da compreensão dos atores que estão competindo pelo bem comum. São os anseios, os desejos e as intenções do ator, perpetrados por meio da ação, que configuram a gestão e os regimes de propriedade. Como demonstrado, por exemplo, no sistema de uso comum (ALMEIDA, 2008) os indivíduos se unem para competir, porém a rivalidade entre os diferentes atores pode aumentar dependendo da intenção dos envolvidos no processo. O aumento da rivalidade pode ocasionar o aparecimento de conflitos sociais em torno dos bens comuns inseridos em regimes de propriedade que pode envolver atores internos e externos. 75 Finalizando, é necessário, ainda, ampliar o debate sobre o conceito de bens comuns, pois segundo McKean & Ostrom (2001) o conceito está relacionado à natureza física do recurso, no entanto é necessário afirmar à natureza social do mesmo. Os bens comuns devem ser compreendidos como recursos que estão sob uma lógica social baseada em direitos de propriedade (estatal, comunitária ou privado) e são alvos de competição entre diferentes atores. Estes atores por sua vez podem conflitar entre si por perceberem o bem comum a partir de direitos de propriedade diferentes. Enquanto a gestão oficial entende que o campo da mangaba faz parte da zona de amortecimento, já que esta zona possui 10 km de extensão e abriga o campo em seu interior, moradores pleiteiam junto a SEMA a transformação do campo em outro tipo de unidade de conservação com o intuito de torná-lo propriedade comunitária destinada aos extrativistas que sobrevivem dele. Já o fazendeiro que se instalou no campo não compartilha da concepção de propriedade comunitária dos moradores. Ao tentar privatizar partes deste território, inclusive caminhos que os extrativistas utilizam para seu deslocamento, o fazendeiro fomentou o desagrado de comunidades que tiveram que se envolver em um conflito em torno da posse da terra. Assim, os bens comuns são recursos que podem estar sob a lógica de direitos de propriedade distintos, que podem divergir e conflitar entre si, dependendo das ações dos atores envolvidos. 76 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Terra de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livre”, “castanhais do povo”, faixinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas. 2.ª ed, Manaus: pgsca–ufam, 2008. 192 p. ALMEIDA, Mauro W. Barbosa de; PANTOJA, Mariana Ciavatta. Justiça local nas reservas extrativistas. Revista Raízes, vol. 23, nº 1 e 2, PósGraduação de Ciências Sociais de Campina Grande, Campina Grande, jandez, 2004. ANDRADE, André de Lima. A problemática do licenciamento ambiental em zona de amortecimento de unidades de conservação. 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Quais as mudanças provocadas pela criação da Resex? 11. Quais os tipos de atividades (econômica e de subsistência) são desenvolvidos? 12. O que plantam? 13. O que consomem desta plantação? 14. O que vendem? 15. Qual a renda familiar provocada por essas atividades? 16. Quais as organizações formais e informais presentes? 17. Havia organizações antes da criação da Resex? Quais? 18. O conselho gestor é formado por quantos membros e quem são eles? 19. Qual o papel do conselho? 20. Como está sendo pensada a construção do plano de manejo? 21. Existem conflitos? 22. Quais os tipos de conflitos existentes? 23. Quais as possíveis causas do conflito? 24. Quais os atores envolvidos em conflitos? 25. O campo da mangaba está dentro da reserva? Se sim, é apenas uma parte ou todo campo? 26. O que são as zonas de amortecimento? 27. Qual a efetividade dessas zonas de amortecimento (o que são e o que realmente e o que existe na prática?) 82 APÊNDICE B – Formulário de Pesquisa DATA:___/_______/___ COMUNIDADE: ____________________ ENTREVISTA Nº: ______________ 1.FAMÍLIA 1.1. Nome 1.2. Naturalidade 1.3. Sua família já morava neste local? 1.4. Em que ano chegou na área atual? 1.5. Parentes na localidade Nome Apelido 1.6 Composição familiar Nome Grau de parentesco Id ade S exo 2. HABITAÇÃO 2.2. Nº de compartimentos 2.4 É uma casa construída a partir de recursos do INCRA? Escolarida de 83 2.5. O que você acha desse benefício? Está satisfeito(a)? 2.5. Porque ainda existem pessoas que não receberam a casa do INCRA? 3. ATIVIDADES DESENVOLDIDAS 3.1 O que você planta? 3.2 O que você cria? 3.3 O que você utiliza do seu quintal? 3.4 Você vende algo? 3.5 Se sim, o quê e por quanto? 3.6 Qual é, na sua opinião, a sua principal atividade? 4. ATIVIDADES COLETIVAS 4.2 Você divide tarefas com vizinhos ou parentes? 4.3 Se sim, quais são essas tarefas? 4.3 Existe uma periodicidade para a realização dessas tarefas? 4.4 Como é dividido o que vocês conseguem? 5. CRIAÇÃO DA RESEX MARINHA 5.1 Como se deu a criação da reserva extrativista? 5.2 Quem foram os responsáveis pela criação da mesma? 5.3 Depois que a reserva foi criada, você recebeu algo do governo ou dos órgãos responsáveis? 5.4 Se sim, o quê recebeu? 5.5 Quantas famílias residem nesta comunidade? 5.6 Quantas famílias residem atualmente na reserva? 5.7 Quantas comunidades existem na reserva? 5.8 O que é zona de amortecimento? 5.9 Você sabe onde começa e termina a zona de amortecimento? 84 5.10 Como era o extrativismo antes da reserva? O que mudou? 5.11 Como era a pesca antes da reserva? O que mudou? 5.12 Existe a possibilidade de criar uma nova unidade de conservação no campo da mangaba? 5.13 Se sim, porque isso acontece? 5.14 Todos apóiam esta nova criação? 5.15 Se não, quais os principais argumentos dos que se opõe e dos que defendem a criação? 6. GESTÃO DA RESEX MARINHA 5.1 De acordo com o plano de utilização, o que se pode e não se pode fazer com os recursos florestais? 5.2 De acordo com plano de utilização, o que se pode e não se pode fazer com os recursos pesqueiros? 6.1. Na comunidade existe alguém responsável pela gestão desta mesma comunidade? 6.2. Como esse responsável é chamado(a)? 6.3. Como é realizada a divisão feita por pólos na reserva? 6.4. Quantos pólos existem? 6.5. Existe alguém aqui da comunidade que participa das reuniões do conselho? Se sim quem é? 6.6. Você já ouviu falar do Programa ARPA? 6.7. Qual o papel do ARPA na reserva? 7. CONFLITOS 7.1 Existem conflitos por terra e recursos (agentes internos, externos e órgãos)? 7.2 Existem conflitos entre pescadores, agentes, externos e órgãos? 7.3 Existem conflitos entre grupos, organizações? 85 ANEXO A – Imagem do Município de Maracanã (Fonte desconhecida). 86 ANEXO B – Cidade de Maracanã (Google Earth 6.0 beta , 2010). 87 ANEXO C – Campo da Mangaba (amarelo) e cidade de Maracanã (azul), (Google Earth 6.0 beta , 2010). 88 ANEXO D – Caminhos no Campo da Mangaba (Google Earth 6.0 beta , 2010). 89 ANEXO E – Logo do Sindicato dos Pescadores Artesanais e Aqüicultores de Maracanã (SIPAAM), 2006. 90 ANEXO F – Desenho de José Guilherme (Barco Z-7), 2010. 91 ANEXO G – Desenho de Walmir Corrêa (Tipos de currais de pesca), 2010.