Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA GRADUAÇÃO TEOLOGIA MARINGÁ-PR 2013 Reitor: Wilson de Matos Silva Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD: Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora: Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretor Comercial, de Expansão e Novos Negócios: Marcos Gois Diretor de Operações: Chrystiano Mincoff Coordenação de Sistemas: Fabrício Ricardo Lazilha Coordenação de Polos: Reginaldo Carneiro Coordenação de Pós-Graduação, Extensão e Produção de Materiais: Renato Dutra Coordenação de Graduação: Kátia Coelho Coordenação Administrativa/Serviços Compartilhados: Evandro Bolsoni Coordenação de Curso: Edrei Daniel Vieira Gerente de Inteligência de Mercado/Digital: Bruno Jorge Gerente de Marketing: Harrisson Brait Supervisora do Núcleo de Produção de Materiais: Nalva Aparecida da Rosa Moura Design Instrucional: Rossana Costa Giani Capa e Editoração: Daniel Fuverki Hey, Fernando Henrique Mendes, Humberto Garcia da Silva, Jaime de Marchi Junior, José Jhonny Coelho, Nara Emi Tanaka Yamashita, Robson Yuiti Saito e Thayla Daiany Guimarães Cripaldi Supervisão de Materiais: Nádila de Almeida Toledo Revisão Textual e Normas: Jaquelina Kutsunugi, Keren Pardini, Maria Fernanda Canova Vasconcelos, Nayara Valenciano, Rhaysa Ricci Correa e Susana Inácio Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - UNICESUMAR C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Temas Atuais em Teologia. Elton Vinicius Sadao Tada. Maringá- PR., 2013. 101 p.. “Graduação em Teologia – EaD” 1. Teologia. 2. Pós Modernidade. 3. Literatura. 4. Economia. 5. Meio Ambiente. 6. Culto Cristão. EaD. I. Título. CDD 22ª Ed. 201 NBR 12899 - AACR/2 “As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir dos sites PHOTOS.COM e SHUTTERSTOCK.COM”. Av. Guedner, 1610 - Jd. Aclimação - (44) 3027-6360 - CEP 87050-390 - Maringá - Paraná - www.cesumar.br NEAD - Núcleo de Educação a Distância - bloco 4- (44) 3027-6363 - [email protected] - www.ead.cesumar.br TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada APRESENTAÇÃO DO REITOR Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja reconhecimento como uma instituição universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada. Professor Wilson de Matos Silva Reitor TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 5 Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar, mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo(a) no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma, possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se de que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. Então, vamos lá! Desejo bons e proveitosos estudos! Professora Kátia Solange Coelho Coordenadora de Graduação do NEAD - Unicesumar 6 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância APRESENTAÇÃO Livro: TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Caro(a) aluno(a), é com grande prazer que apresento o material que você deve utilizar para o estudo da disciplina Temas Atuais em Teologia. Há alguns anos tenho me dedicado ao estudo das atualidades teológicas e faço questão de dividir com você aquilo que há de mais atual e academicamente relevante sobre tal disciplina. Minhas pesquisas se dão no âmbito do diálogo entre teologia e literatura, um novo campo de pesquisa que ainda está se consolidando, mas que já conta com contribuições de acadêmicos renomados e a produção de materiais muito interessantes. O diálogo entre teologia e literatura em particular, e entre religião e artes em geral, será um dos pontos abordados na presente disciplina. Outros temas igualmente interessantes serão tratados. A relação entre teologia e meio ambiente, por exemplo, é algo que todo teólogo da atualidade precisa saber tratar. Vivemos em um mundo no qual os rumos do nosso planeta são bastante questionados, os recursos para a manutenção da vida humana estão sendo perigosamente degradados e o posicionamento da teologia clássica muitas vezes não responde às questões que são igualmente atuais e iminentes. Nesse sentido, vários pesquisadores e pensadores da teologia têm voltado seu olhar para tentar responder com pertinência a uma demanda social urgente. A disciplina que trata sobre as temáticas atuais da teologia não pode ser vista como nada menos do que o âmbito do curso de teologia que prepara seus estudantes para sair do ambiente acadêmico sabendo lidar com os problemas reais da sociedade atual. Sem essa preparação, muitos teólogos e teólogas não conseguem dialogar com o mundo ao seu redor, e têm seus trabalhos limitados ao âmbito de revisão de questões já trabalhadas por teologias de outros séculos. Mais importante do que dividir com você o conteúdo sobre as temáticas que serão abordadas no presente texto, é mostrar que a teologia pode e deve dialogar com o ambiente ao seu redor, ou seja, que nós, teólogos e teólogas, temos capacidade e liberdade de dialogar com demais profissionais das mais diversas áreas sobre os assuntos que pedem atenção. A divisão do presente material é bastante simples e parte do princípio de que você, aluno(a), deva ter liberdade para conhecer camadas diversas sobre uma mesma temática, incentivando acima de tudo a curiosidade para que determinados temas se tornem seus objetos de pesTEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 7 quisa. Trataremos primeiramente o que diz respeito ao local da teologia na pós-modernidade. Desse modo, se apresentará um panorama geral sobre qual a situação do pensamento do ser humano contemporâneo. Em segundo lugar será tratada a relação entre teologia e literatura, que pretende exemplificar como os horizontes que podem ser tocados pela teologia contemporânea são amplos. A terceira unidade discutirá as polêmicas relações entre teologia e economia. Nesse sentido, é muito importante que se entenda a diversidade de contextos econômicos que vivemos no Brasil em nossos dias. Em quarto lugar trataremos de perguntas que têm sido levantadas sobre como a teologia deve lidar com os problemas ambientais. Por último, e mais voltados para a prática do cristianismo, debateremos alguns posicionamentos sobre a teologia do culto, ou seja, pensaremos sobre as especificidades das manifestações cúlticas e litúrgicas contemporâneas. Não existe uma forma de escrever que seja totalmente neutra, isto é, por mais que eu não queira imprimir minha opinião nas páginas que se seguem, há ainda o peso da forma como penso tais assuntos. Por isso, prefiro deixar o aviso de que este material, assim como qualquer outro que você se depare, deve ser utilizado como um princípio de diálogo, ou seja, uma voz específica dizendo coisas específicas a respeito de determinada temática. A sua opinião e pesquisa é que determinarão a forma como deverá conduzir os trabalhos teológicos que irá fazer na prática da profissão. 8 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância SUMÁRIO UNIDADE I TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE O QUE É PÓS-MODERNIDADE.............................................................................................13 POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE.................................18 A DIFERENÇA ENTRE A TEOLOGIA FEITA SOBRE A PÓS-MODERNIDADE E A TEOLOGIA PÓS-MODERNA......................................................................................................................21 UNIDADE II TEOLOGIA E LITERATURA UM NOVO CAMPO DE ESTUDO............................................................................................35 A QUESTÃO DO MÉTODO......................................................................................................41 UNIDADE III TEOLOGIA E ECONOMIA TEOLOGIA E ECONOMIA NA AMÉRICA LATINA..................................................................53 O PROBLEMA DO CAPITAL VERSUS SOCIAL: A QUESTÃO DO CONSUMO.....................56 ABORDAGENS ATUAIS DA RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E ECONOMIA..........................57 UNIDADE IV TEOLOGIA E MEIO AMBIENTE SITUAÇÃO ACADÊMICA DA QUESTÃO ................................................................................63 LEITURAS BÍBLICAS...............................................................................................................65 TEOLOGIA DA CRIAÇÃO........................................................................................................67 UNIDADE V TEOLOGIA DO CULTO CRISTÃO TEOLOGIA LITÚRGICA...........................................................................................................73 TEOLOGIA E MÚSICA.............................................................................................................75 TEOLOGIA E ARQUITETURA.................................................................................................76 CONCLUSÃO...........................................................................................................................80 REFERÊNCIAS........................................................................................................................81 ANEXO I...................................................................................................................................88 ANEXO II..................................................................................................................................94 UNIDADE I TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Objetivos de Aprendizagem • Entender a mudança de pensamento e comportamento da modernidade para a pós-modernidade. • Visualizar as possíveis relações entre religião e pós-modernidade. • Entender as diferenças entre o estudo da pós-modernidade e o engenho pós-moderno. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • O que é pós-modernidade • Possíveis relações entre teologia e pós-modernidade • A diferença entre a teologia feita sobre a pós-modernidade e a teologia pós-moderna INTRODUÇÃO Quando assistimos aos noticiários ou lemos matérias em revistas de grande circulação, podemos notar com frequência a presença da temática da pós-modernidade. Uma dica que dou a você é sempre desconfiar de um assunto complexo tratado de maneira muito simplista. Não se deixe cair no erro de trazer para o ambiente acadêmico noções restritas de temáticas que precisam ser bem elaboradas. A questão da pós-modernidade é hoje um dos assuntos mais mal compreendidos em nossa sociedade. O mais comum é confundir a pós-modernidade com um tipo de liberalismo amplo que quer se impor na sociedade em detrimento dos valores fortes de outrora. A pósmodernidade – sobretudo para nós que estudamos teologia – nada tem a ver com tal ponto e deve ser compreendida como uma cadeia de eventos bastante complexos que precisam ser entendidos de maneira minuciosa. O QUE É PÓS-MODERNIDADE A pós-modernidade é algo que nós só poderemos entender quando nos certificarmos que entendemos bem a noção de modernidade. Por isso pergunto você: quais são seus conhecimentos sobre a modernidade, e especialmente sobre a teologia moderna? Outro aviso que preciso dar a você é que pós-modernidade não é entendida da mesma forma em âmbitos diferentes do pensamento. Por exemplo, as artes em geral conseguem lidar de maneira muito mais profícua com tal conceito do que qualquer outra ciência. A arquitetura traz consigo uma ideia de superação da modernidade que envolve fatores sociais e antropológicos muito importantes. A filosofia e a teologia, por outro lado, ainda estão construindo maneiras de dialogar com tal conceito, e podemos ter certeza de que qualquer autor que ouse propor um fim ou uma finalidade específica a tal questão está se precipitando grandemente. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 13 A modernidade é uma época marcada pelo reinado da racionalidade. Esse reinado não pode ser considerado algo ultrapassado, pelo contrário, é algo ainda bastante vigente. Um exemplo simples que posso dar a você é que em qualquer curso de graduação precisamos ter as disciplinas muito bem divididas e independentes, com uma carga horária específica e um conteúdo a ser estudado predeterminado, sobre o qual precisamos ser avaliados. Essa postura é o entendimento de que é necessário que se verifique racionalmente a aptidão do aluno e da aluna em relação ao aprendizado de determinados conteúdos. Costumo brincar que em cada sala de aula das universidades existe um René Descartes escondido atrás de uma porta ou embaixo de uma mesa. Descartes é o filósofo que marca o início da modernidade. Vou explicar rapidamente como se entende o pensamento cartesiano. Descartes tem duas obras que são fundamentais para o entendimento de seu pensamento. A primeira se chama Meditações Sobre Filosofia Primeira e a segunda é conhecida como Discurso do Método. Essas obras são do século XVII e devem ser entendidas como o princípio de superação do pensamento medieval. Nas meditações o que Descartes faz é se propor a tentar responder a seguinte questão: como eu posso saber que eu existo? Na tentativa de responder a tal dilema, ele afirma que sabe que existe porque pensa. Daí se deriva a célebre máxima cartesiana: “penso, logo existo”. O interessante é notarmos que o filósofo faz um longo percurso antes de chegar a tal afirmação. Ele pergunta, por exemplo, como pode ter certeza de que está acordado e não sonhando? A essa questão e a tantas outras ele só consegue responder que tem certeza que existe pelo fato de estar pensando na existência. O pensamento tem função central no entendimento do ser humano moderno. Tudo que se considera correto durante a modernidade deriva de uma explicação racional. Acredito que você já tenha ouvido falar de um movimento chamado Iluminismo. Tal movimento é um exemplo bastante sincero de como se dá o pensamento moderno. Imannuel Kant, um representante de tal movimento, nos explica que se temos uma opinião sobre determinado assunto e tal opinião é divergente, devemos repensar a questão, pois necessariamente um de nós está recaindo sobre algum erro ou engano intelectual. Ele afirma isso partindo do pressuposto de 14 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância que tanto eu quanto você somos dotados de racionalidade, e a racionalidade é igual em todos os seres humanos. Assim sendo, se eu utilizar corretamente minha racionalidade e você usar corretamente a sua, sempre chegaremos a uma mesma opinião, pois a racionalidade que rege meu modo de pensar rege também o seu. A ciência que se desenvolve durante a modernidade é também muito racionalista. Pensadores como Francis Bacon e David Hume nos ensinam que a ciência deve ser feita de modo experimental que comprove suas teorias. As teorias, quando comprovadas, acabam se tornando leis. A lei da inércia de Newton, por exemplo, nos diz que todo corpo em repouso tende a manter-se em repouso assim como todo corpo em movimento tende a manter-se em movimento. O movimento só cessará por uma força exterior e um corpo só sairá do repouso quando sofrer a ação de alguma força alheia. Afirmar tal teoria não é suficiente. Para a mentalidade moderna é necessário que se prove. Nós, entretanto, não precisamos refazer os testes e experimentos que comprovam a lei da inércia, confiamos que a racionalidade dos cientistas de outra época é tão confiável quanto a nossa. O advento do Iluminismo fez com que o ser humano se elevasse na relação com o conhecimento. A ciência enquanto método que não havia sido expressivo durante idade média começara a se desenvolver. Nas artes, na filosofia, na teologia, nas ciências naturais e em outros diversos âmbitos houve um grande aumento da produção técnico-metodológica. Essa produção era necessária para que fossem criadas verdades universais relacionadas às ciências. Não que de fato alguém tenha alcançado uma verdade aplicável totalmente a determinado conhecimento, mas com certeza foram desenvolvidos vários “sistemas” de pensamento. Esses sistemas são regras desencadeantes, formulados sobre pressupostos que implicam necessariamente num determinado fim. Assim, o método da ciência era baseado num sistema demonstrável logicamente. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 15 As universidades na modernidade foram nichos nos quais essas produções eram incansavelmente efetuadas. Nesses ambientes, a história que hoje se estuda foi produzida. As diferentes correntes de pensamento foram construídas nesse momento, idealismo, naturalismo, racionalismo, empirismo e várias outras correntes e rótulos foram desenvolvidos na necessidade de afirmação ou objeção de paradigmas de tal sociedade. A produção do conhecimento nesse momento histórico ficou um tanto quanto restrito ao ambiente acadêmico, principalmente pela falta de acesso da sociedade em geral aos textos básicos estudados e aos estudos. O estudo que outrora, na idade média, se restringia a alguns clérigos de maior prestígio, agora tinha um alcance um pouco maior. As obras de difícil acesso como as clássicas começaram a ser reproduzidas com o advento da imprensa. A reprodução gráfica eliminou a necessidade da cópia manual de quaisquer livros, o que aumentou a oferta e baixou o preço dos livros. Chegando a modernidade, os livros não eram um bem comum a toda sociedade, mas eram possuídos pelas grandes universidades históricas. Justamente por isso o ambiente acadêmico tornou-se o berço da produção científica e filosófica. Outro grupo de pessoas que tinham acesso a grandes obras eram as famílias tradicionais muito ricas. Isso não implica necessariamente que o material por elas possuído era utilizado positivamente ou estudado exaustivamente. Muitas dessas famílias possuíam uma vasta biblioteca pelo simples fato de que tal atitude ostentava uma determinada “imagem” socialmente prestigiada. Em outras palavras, era “chique” possuir uma grande biblioteca. Todavia, há muitos relatos de estudiosos que serviam como tutores dos filhos de famílias abastadas e que consequentemente tinham acesso a essas bibliotecas e faziam suas pesquisas nesse ambiente. Isso não exclui a passagem anteriormente dessas pessoas pela academia ou o retorno constante a ela. Isso demonstra como era o ambiente acadêmico da modernidade. Mais uma vez, é pertinente 16 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância citar a universalidade da educação universitária moderna. O pensador moderno tinha preocupações políticas, sociais, filosóficas, físicas, matemáticas, biológicas etc. A obra de um único indivíduo era recheada por produções em todos esses sentidos. Para tanto, era necessário que ele tivesse uma educação básica que compreendesse as línguas clássicas, o ensino cristão em grande parte dos casos e, também, a literatura. A noção atual de pós-modernidade que faz mais sentido para a análise acadêmica é aquela herdeira da noção arquitetônica de pós-modernismo. Nesse sentido, modernismo diz respeito a um tipo específico de construções, enquanto o pós-modernismo é a superação de tal estilo. O mesmo é válido para as artes visuais no sentido mais amplo. É essencial que você perceba que a noção artística e acadêmica de pós-modernidade se diferencia de uma noção antropológica ou sociológica. Socialmente, não há uma afirmação conjunta de repúdio ao estilo social da modernidade. Uma das áreas mais marcantes e de mais fácil compreensão da estrutura moderna da sociedade é o modo de produção industrial, bem como a forma como a sociedade se articula financeiramente a partir das formas de trabalho. Por mais que hoje vivamos com algumas brechas sobre o modo de trabalho, os arranjos e posições de cada profissão, ainda lidamos com a lógica simples do lucro empresarial com bases no emprego Fonte: SHUTTERSTOCK.com formal e fixo do trabalhador dotado de competência limitada e uniforme. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 17 POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE O século XX trouxe diversas inovações no âmbito do pensamento, especialmente aquele que reivindicava papel de preponderância ante a situação política que se instaurou em um mundo atormentado por grandes guerras. Desse ambiente se sobressaem os pensadores que apontam para as dificuldades sociais, fazendo com que o mundo se estreite, ou seja, que a já questionada metafísica perca ainda mais seu sentido. Parecia ser altamente incoerente pensar as coisas que se esquivam da physis quando o mundo tangível clamava por reflexões que atendessem às suas demandas. Filósofos em busca de sentido para seus engenhos se tornaram pensadores sociais. A escola de pensamento social de Frankfurt é o mais óbvio exemplo disso. Enquanto Heidegger em Marburg relia Nietzsche e se preocupava com o franco declínio da validade da ideia de progresso, os frankfurtianos ensaiavam suas válidas contribuições sobre o consumo dos produtos artístico-culturais. Nas fronteiras e nomadismos do pensamento encontramos figuras que desenvolvem suas teorias por vias inéditas. Deve-se citar como exemplo desses profetas periféricos que frequentavam as festas dos palácios intelectuais pessoas como Erich Fromm e Emannuel Levinas. Erich Fromm, que chegou a ser partícipe da escola de Frankfurt, passou toda sua vida no linear entre suas interpretações dos pensamentos de Karl Marx e Sigmund Freud, considerando o segundo mais importante que o primeiro. Levinas era intérprete do pensamento judaico clássico, mas não resistiu às tentações de pensar a metafísica e a ontologia desde os pressupostos gregos. Esse é o tipo de pensamento mais pertinente a ser aqui analisado. Vejamos por que o pensador Lituão propõe um desencantamento da metafísica. O diálogo entre Tillich e Levinas é deveras fértil1. Um primeiro olhar pode imaginar que eles se Outro diálogo que seria muito pertinente é sobre a obra de arte entre Tillich e Levinas. Tillich teve uma produção, ainda que relativamente curta, bastante expressiva sobre a arte. Bem como Levinas também tece seus comentários: “Para Levinas a arte traz sempre a possibilidade de uma renovação essencial, pois as cores, os sons, as palavras, e tudo o mais que é apto a tornar-se um substantivo portador de adjetivos, remetem-se ao 1 18 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância apresentam como antagonistas. Entretanto, mostrar-se-á aqui tanto as principais diferenças quanto semelhanças dos autores em questão. Deve-se questionar: o que é a pós-modernidade e por que relacionar o diálogo desses dois autores com a mesma? Para responder a primeira questão, talvez não haja local melhor no contexto da teologia brasileira para se recorrer do que a obra de Jaci Maraschin. Valhe-monos, pois, dela: Quando se pensa na superação da metafísica e da Teologia e se relaciona essa possibilidade com a condição pós-moderna, muita gente sente medo de que a alternativa seja a irracionalidade. Na verdade, o que se busca é uma nova forma de pensar que não se circunscreva aos métodos estabelecidos pela filosofia tradicional nem pela lógica formal (MARASCHIN, 2004, p. 130). E acrescenta a importante informação: Heidegger, por exemplo, demonstrou o que já estava em germe principalmente em Hegel depois em Nietzsche, Marx e Freud e, finalmente, na pós-modernidade. Demonstrou que esse tipo de pensamento se esgotara nesses movimentos de experiência e da razão, anunciando tanto a morte da metafísica como também da teologia (MARASCHIN, 2004, p. 122). Indubitavelmente, a questão da pós-modernidade torna essa discussão ainda mais interessante. A questão da metafísica é chave para a pós-modernidade. Por isso ela se torna um link importante da presente discussão. Na verdade, nem Tillich nem Levinas parecem estar muito preocupados com questão da pós-modernidade. Tillich não chegou a dialogar com as teorias pós-modernas como se apresentam hoje. O que ele vivenciou foi o declínio da credibilidade da metafísica enquanto filosofia primeira, o que de fato não chegou a considerar como um evento muito válido. Levinas não se preocupou em defender uma condição pós-moderna ou militar por essa causa. Ele simplesmente quis apregoar a importância da alteridade em suas últimas consequências, ou seja, para seu engenho, ele superaria a metafísica ou qualquer outra coisa que se pusesse em seu caminho. Ele critica os modismos de sua época: ser” (FABRI, 1997, p.127). Sobre a arte em Tillich, conferir: MARASCHIN, J. A impossibilidade da expressão do Sagrado. São Paulo: Emblema, 2004; especialmente p. 25 e seguintes. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 19 Fim do humanismo, fim da metafísica – a morte do homem, morte de Deus (ou morte a Deus) -, idéias apocalípticas ou slogans da alta sociedade intelectual. Como todas as manifestações do gosto – e dos maus gostos – parisienses estas proposições se impõem com a tirania da última moda, mas se colocam ao alcance de todos os bolsos e se degradam (LEVINAS, 1993, p. 91). Mesmo assim, ele acaba se aliando bastante com alguns princípios pós-modernos: Pensar, após o fim da metafísica, é responder à linguagem silenciosa do convite; é responder, do fundo de um escutar, à paz que é a linguagem original; pensar é maravilhar-se deste silêncio e desta paz (LEVINAS, 1993, p. 96). Nesse ponto ele se difere de Tillich. Para Tillich, existe a inquietude da pergunta pelo ser-emsi, existe a preocupação última (ultimate concern), não a paz. Outro ponto importante na relação entre Tillich e Levinas é a presença do sujeito. Tillich afirma categoricamente o “eu”, enquanto Levinas o nega constantemente. Para Tillich: “o eu, ao ter um mundo ao qual pertence – esta estrutura altamente dialética – precede lógica e experimentalmente todas as outras estruturas” (TIILICH, 2005, 174). Já no pensamento de Levinas: A condição da subjetividade é a condição de refém, explicada pela passividade para além da identidade do Mesmo. Dizer eu é confirmar uma unicidade de único, é dizer eis-me aqui. Por conseqüência, a substituição é uma inversão da própria identidade (FABRI, 1997, p. 162). Agora, vejamos uma aproximação final de Tillich e Levinas, a partir da teologia pós-moderna de Jean-Luc Marion, apresentada aqui por Fabri: Vamos aprofundar o tema da idolatria utilizando as contribuições de Jean-Luc Marion, autor que se aproxima de Levinas na medida em que pergunta sobre a possibilidade de se compreender o problema de Deus independentemente da ontologia ou do Ser. Segundo Levinas, trata-se de uma tentativa profunda e sutil de pensar o problema de Deus à distância da diferença ontológica (FABRI, 1997, p. 149). Se Levinas procura um Deus que não se dá na diferença ontológica, talvez o Deus de Tillich lhe seria uma opção, pois é um Deus que se mostra no “mistério” do ser. E esse mistério, como já foi desenvolvido, trata-se da pergunta pelo ser-em-si, que é um ser que possui um não ser, 20 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância e que não pode ser categorizado na “diferença ontológica”2: Fundamentado nas críticas heideggerianas à onto-teo-logia, Jean-Luc Marion refere-se ao fato de que a metafísica, na medida em que busca uma certa apreensão de Deus, só pode fazê-lo mediante as figuras da eficiência, da causa e do fundamento. Isso significa que, ao demonstrar Deus como causa sui, o discurso metafísico o mostra como ídolo, dizendo muito pouco do ‘Deus divino’ (FABRI, 1997, p. 151). O engenho da metafísica de apreender Deus não é algo assumido por Tillich. Ele sempre expõe a debilidade da ontologia na busca do Deus divino. O Deus além de Deus de Tillich não se demonstra a priori como um Deus idolátrico, como um ser enaltecido em meio a outros seres, mas, pelo contrário, em muitos momentos parece estar apontando para o mesmo infinito para o qual a ética levinasiana aponta3: A análise levou à percepção de que, se Deus é experienciado como Deus vivo e não como uma identidade morta, deve haver um elemento de não-ser no ser de Deus, isto é, o estabelecimento da alteridade. A vida divina seria então a reunião da alteridade com a identidade num ‘processo’ eterno. Esta consideração nos levou à discussão de Deus como fundamento, Deus como forma e Deus como ato, uma fórmula pré-trinitária que conferia sentido ao pensamento trinitário. Certamente, os símbolos trinitários exprimem os mistérios divinos assim como todos os outros símbolos que afirmam algo sobre Deus. Este mistério, que é o mistério do ser, permanece inacessível e impenetrável; ele é idêntico à divindade do divino (TILLICH, 2005, p. 722). A DIFERENÇA ENTRE A TEOLOGIA FEITA SOBRE A PÓS-MODERNIDADE E A TEOLOGIA PÓS-MODERNA Um erro grosseiro que se costuma cometer em relação ao entendimento da relação entre teologia e pós-modernidade é confundir a teologia que se faz sobre o pós-moderno com uma Nilo Júnior transpõe a questão de maneira mais simples: “Nesse sentido o Deus que se diz na palavra já não cabe na ontologia. Deus como bem é Palavra e, portanto, é o Bem melhor que o ser. Esta palavra ordena fazer o bem ao outro e a cuidar de sua sorte e de sua morte. Apesar da aproximação sempre maior entre o Bem e o bem do outro, isto é, do mandamento do rosto e da palavra de Deus, a filosofia da alteridade insiste em que não é possível dizer ainda que a palavra ‘Deus’ seja Deus mesmo se dizendo” (RIBEIRO JUNIOR, 2008, p.449). 2 3 Cf. Levinas, E. Ética e infinito. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 21 teologia que seja pós-modernista. Por trás de toda questão há ainda quem julgue ruim ou inapropriado qualquer estudo voltado para a pós-modernidade, uma vez que a mesma tende a suspender os juízos morais modernos. Não há motivos para temer a pós-modernidade acreditando que a mesma irá suspender valores correspondentes ao cristianismo. Não há um conteúdo autoritário na pós-modernidade, mas sim o apontamento de uma diferenciação estilística quando comparada ao período moderno. Também não existe um “alguém” que seja responsável pelo pós-moderno, que o tenha idealizado e que tire vantagens de sua propagação. Na história da humanidade, é comum que se entenda as mudanças naturais que as diversas sociedades sofrem pelo curso natural dos fatos, bem como por sua necessidade de manutenção ou anseio de desenvolvimento. De fato, o que é considerado pós-moderno só incide necessariamente nas sociedades que viveram uma modernidade linear, norteada pela lógica cartesiana. Qualquer comentário que supere tal perspectiva se trata de uma leitura equivocada do movimento histórico ou de uma tentativa sensacionalista de promover uma escatologia mentirosa. O pós-modernista é aquele que defende a mudança de posicionamento estilístico, seja na arte, economia, relações pessoais ou estruturas sociais. Uma teologia pós-moderna seria um estudo promotor de um advento de mudança estrutural na forma de se pensar criação, redenção, graça e salvação. Nesse sentido, você pode se ater à procura de uma teologia que se volte para tal proposta nas mais diversas tradições e línguas, e dificilmente a encontrará. O que se pode encontrar com certa facilidade é uma teologia que questiona seu método de trabalho no ambiente da filosofia pós-metafísica. Ou seja, levando em conta que a metafísica é algo que pode ser superado filosoficamente, como seria possível fazer uma teologia relevante partindo do pressuposto que muitos assuntos da teologia são fundamentalmente metafísicos? Existe uma diferença relevante entre a teologia que é feita em prol da disseminação de uma estrutura pós-moderna de pensamento e uma teologia que quer entender e dialogar com os âmbitos pós-modernos da cultura contemporânea. 22 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Existem diversas correntes, interpretações e estudos sobre o pós-moderno, entretanto, não há um estatuto pós-moderno. A pós-modernidade não é algo ainda bem definido, e se dá de maneira correspondente com seu recente surgimento. Talvez as áreas que melhor expressam esse recente fluxo pós-moderno sejam as artes e a filosofia. A teologia não se dá como pioneira nesse assunto, mas discorre sobre o tema a partir da necessidade de entender e responder as demandas da contemporaneidade. Começo com o que parece ser o fato mais espantoso sobre o pós-modernismo: sua total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico que formavam uma metade do conceito baudelairiano de modernidade. Mas o pós-modernismo responde a isso de maneira bem particular; ele não tenta transcendê-lo, opor-se a ele e sequer definir os elementos “eternos e imutáveis” que poderiam estar contidos nele. O pós-modernismo nada, e até se espoja, nas fragmentárias e caóticas correntes da mudança, como se isso fosse tudo o que existisse (HARVEY, 2004, p. 49). Em primeiro lugar a própria estrutura capitalista de nosso Estado tende para uma educação superficial que está muito ligada com o movimento de neomodernidade (pós-modernidade) que apresenta a efemeridade desvairadamente, a qual não demonstra tempo nem interesse em valores educacionais concretos e profundos. Aliás, é importante continuar aqui algumas reflexões sobre a pós-modernidade. O pós-modernismo, por exemplo, representa uma ruptura radical com o modernismo ou é apenas uma revolta no interior deste último contra certa forma de “alto modernismo” representada, digamos, na arquitetura de Mies van der Rohe e nas superfícies vazias da pintura expressionista abstrata minimalista? Será o pós-modernismo um estilo ou devemos vê-lo estritamente como um conceito periodizador (caso no qual debatemos se ele surgiu nos anos 50, 60 ou 70)? (HARVEY, 2004, p. 47). Harvey faz essas questões já tendo em mente a hipótese que pretende defender. Fato é que em momento algum da história pode-se dizer que um período segue o outro imediatamente. Não há uma definição exata de períodos. Não houve, na passagem do medievalismo para a modernidade, um acordo mundial no qual todos os feudos deixaram de funcionar de um dia para o outro e as cidades se formaram imediatamente. Há um processo. Uma ruína e um triunfo. Nesse sentido, como a pós-modernidade é algo estritamente recente, Harvey prefere entender o estilo pós-moderno, aquilo que o marca e delimita suas fronteiras. Não há como TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 23 dizer que o pós-moderno foi imposto ou que passou a funcionar a partir de uma data. Pode-se dizer que há um estilo pós-moderno, que pode vir a substituir a modernidade, complementá-la ou conviver com a mesma. Harvey cita ainda um evento importante: No tocante à arquitetura, por exemplo, Charles Jencks data o final simbólico do modernismo e a passagem para o pós-moderno de 15h32m de 15 de Julho de 1972, quando o projeto de desenvolvimento de habitação Pruitt-Igoe, de StLousi (uma versão premiada da “máquina para a vida moderna” de Le Corbusier), foi dinamitado como um ambiente inabitável para as pessoas de baixa renda que abrigava (HARVEY, 2004, p. 45). O projeto de desenvolvimento de habitação Pruitt-Igoe era como que um troféu da modernidade. Ele expressava arquitetonicamente as características mais marcantes da modernidade. A funcionalidade, a mecanicidade, a ausência estética, a reprodutividade funcionava como um altar ao fordismo. Entretanto, precocemente foi dinamitada. Não resistiu, não subsistiu às demandas do mundo atual. E isso simbolizou, de algum modo, a insuficiência do sistema e estilo moderno. A modernidade é marcada pela tecnicidade e funcionalidade. Assim como a forte expressão dialética e idealista. Desse modo, os frankfurtianos, por exemplo, fazem uma crítica bela e ferrenha das atividades culturais e artísticas sempre levando em conta o pano de fundo do ideário neomarxista. Fonte: <http://www.arquitetonico.ufsc.br/pruitt-igoe> 24 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Outro ponto marcante da passagem do moderno ao pós-moderno é a tribalização globalizada. Esse é um dado bastante interessante para a educação em geral. A fragmentariedade pós-moderna irrompeu nas camadas mais populares da sociedade sem necessidade de conceituação ou consciência desse ato: As neotribos são indubitavelmente erupções da socialidade – expedições em geral não-planejadas ao mundo além do alcance moral, agora não mais apertadamente “estruturadas” nem pelas comunidades hereditárias nem pelos órgãos legislativos do estado político; breves invasões de reconhecimento impulsionadas por uma esperança (embora não por perspectivas realistas) de mais colonização protraída, sempre duradoura (BAUMAN, 1997, p. 163). Nós, caro(a) aluno(a), que queremos pensar sobre a teologia atual devemos nos voltar para a reflexão sobre os dados sociais contemporâneos. Entre esses, um dos mais importantes é essa irrupção espontânea de neotribos, de identidades confusas e não estruturadas na lógica moderna, que se confrontam com setores mais conservadores da sociedade. Não entender as neotribos e sua nova forma de “organização não lógica” é abster-se de pensar a educação, cultura e religião em seus próprios condicionamentos, é como julgar o cidadão de um país como estrangeiro. Essas neotribos, novas redes de organização social, se dão como exemplo de um dado maior, que é a queda das grandes narrativas, dos sistemas fortes e estabelecidos de linguagem que não implicam na queda da teologia ou das religiões, mas sim no formato moderno sobre o qual elas se estruturam: A “atomização do social em redes flexíveis de jogos de linguagem” sugere que cada um pode recorrer a um conjunto bem distinto de códigos, a depender da situação em que se encontrar (em casa, no trabalho, na igreja, na rua ou no bar, num enterro, etc.) na medida em que Lyotard (tal como Foucault) aceita que o “conhecimento é a principal força de produção” nesses dias, o problema é definir o lugar desse poder quando ele está evidentemente “disperso em nuvens de elementos narrativos” dentro de uma heterogeneidade de jogos da linguagem (HARVEY, 2004, p. 51). Há agora uma mistura de pequenas narrativas, pequenas leis que funcionam dentro de um tempo-espaço indefinidos, e que não pretende se definir. Assim, o que se diria, por exemplo, no TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 25 escrito da bandeira brasileira, se torna questionado por uma gama de fatores e grupos: “ordem e progresso”. Pergunta-se, bastante pertinentemente, o que é ordem e o que é progresso. Quem deve estabelecer a ordem e por que a ordem deve ser estabelecida de acordo com tais ou quais parâmetros? Quem deve progredir? Por que é necessário o progresso? Não é mais importante a realização pessoal do que a coletiva? Essas questões representam a queda do estilo moderno de estabelecimento de narrativas fortes e sistemas fixos. Representam que o ser humano pós-moderno não pensa em grandes adequações a sistemas estabelecidos, mas vive de acordo com a possibilidade de autoentendimento e aceitação dentro das perspectivas que a sociedade assim lhe permite. Nossas igrejas, cientes ou não de seus atos, têm repensado suas práticas a partir de tais realidades. As políticas econômicas dos grandes detentores de poder como o Banco Mundial também são fatores realmente fortes para tal situação. Essas estruturas se ligam mutuamente, pois uma dá subsídios à outra diametralmente. O estilo pós-moderno não parte do exterior da sociedade, mas irrompe da mesma. Assim, tanto órgãos governamentais quanto privados acabam formando um nicho possível para esse redirecionamento. Bauman mostra de maneira bastante clara como se dá a consciência pós-moderna: Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois seus exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia (1997, p. 65). A consciência limpa no fim do dia não é resposta ou obediência aos padrões. Sabe-se que não há erro pelo qual se culpar, mas não porque se obedeceu a determinada lei moral, mas porque não importa em termos absolutos, e sim apenas dentro de nichos ou tribos específicas. Isso não implica na barbárie como alguns profetas desavisados da pós-modernidade indicam. Isso implica que a lógica moderna caiu. O cogito cartesiano caiu. A razão pura kantiana caiu. O bom selvagem rousseauniano ruiu. Agora há uma “lógica” pós-moderna, não linear e nem um pouco preocupada com a linearidade. 26 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Esses são dados marcantes para a teologia ainda é um dos setores que resistem fortemente ao estilo pós-moderno. Quando se faz um trabalho na universidade, um artigo ou uma monografia, alguns pontos básicos são exigidos: sujeito, objeto, hipótese, método e conclusão. Um trabalho que falhe em algum desses pilares é considerado academicamente fraco. Entretanto, o estilo pós-moderno não há de aceitar esses fatores. A lógica não linear não o aceita. Por que é necessário uma conclusão de toda pesquisa se minha pesquisa pode estar lidando com dados religiosos extremamente subjetivos? Por que devo ter uma hipótese? Por que meu objeto precisa ser definido, se muitas vezes ele é indefinível e multifacetado? O método acadêmico também tende a falir, pois é uma apreciação das ciências empírico-naturais modernas: A experiência do tempo e do espaço se transformou, a confiança na associação entre juízos científicos e morais ruiu, a estética triunfou sobre a ética como foco primário de preocupação intelectual e social, as imagens dominaram as narrativas, a efemeridade e a fragmentação assumiram precedência sobre verdades eternas e sobre a política unificada e as explicações deixaram o âmbito dos fundamentos materiais e políticoeconômicos e passaram para a consideração de práticas políticas e culturais autônomas (HARVEY, 2004, p. 203). Teorias diferenciadas que suspendem o valor e os juízos morais em vários âmbitos, tal qual a de Nietzsche e Foulcaut são também muito utilizadas sobre diversos fatores e inúmeros pontos de vista para sustentação de atitudes tanto na “macroeducação cultural” quanto nas atitudes e projetos religiosos, como também na própria estrutura da sociedade e seu comportamento ante a ação teológica: O eu moral é a mais evidente e a mais importante das vítimas das tecnologias. O próprio eu moral não pode sobreviver e não sobrevive à fragmentação. No mundo mapeado por anseios e deformado por obstáculos à sua rápida gratificação, deixa-se amplo espaço ao homo ludens, ao homo oeconomicus e ao homo sentimentalis; para o jogador, o empreendedor, ou o hedonista, mas nenhum espaço para o sujeito moral (BAUMAN, 1997, p. 226). A teologia na pós-modernidade tem se mostrado cada vez mais preocupada com a especialização e a especificação de sua área de atuação. Outrora, desde a antiguidade, pessoas letradas normalmente sabiam sobre várias ciências. Descartes, por exemplo, enquanto matemático que era por formação, foi consagrado enquanto filósofo com importantes noções TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 27 teológicas. Hoje em dia a teologia é canalizada o máximo possível. Há de se dizer que isso seja como uma gigante produção sob o modelo fordista. Tal analogia funciona da seguinte forma: toda a sociedade seria uma única linha de produção que teria como o objetivo manter uma determinada produção. Para tanto, cada indivíduo se encarregaria de uma parte do processo, e somente dessa parte. Há quem faça apenas teologia bíblica, há quem faça apenas teologia sistemática. Há ainda quem trabalhe apenas com teologia sistemática a partir de Calvino ou Lutero, pouco se importando com a totalidade do labor teológico. Kant, Rousseau e Bacon, por exemplo, tinham um vasto domínio em suas obras. Mesmo sendo os três filósofos, todos trabalhavam igualmente em diversas áreas, inclusive na teologia, conforme a necessidade e o anseio de cada um. Kant essencial para a ética e moral. Bacon fazia ele mesmo vários experimentos com animais e foi um dos grandes representantes do empirismo. É quanto a essa liberdade de ação na sociedade que se difere a pós-modernidade. Na pósmodernidade, cada indivíduo possui um campo de atuação bem claro e definido. Sendo assim, não há espaço para que uma pessoa de determinada área opine sobre outra questão. Desse modo, é defendido o valor de compra do conhecimento na pós-modernidade. Entretanto, o que se pode comprar é um conhecimento específico, mas não a liberdade de pensamento, especialmente no campo teológico. Nas artes – e por artes, entenda-se algo bastante abrangente, que vai desde a arquitetura, música, poesia, literatura, artes cênicas e pintura – a mudança de paradigma se expressa a partir da subversão do valor artístico pré-definido. As artes, mesmo sendo uma das expressões humanas mais livres da modernidade, especialmente por não se tratar de ciência, ainda respondem a paradigmas de conceituação artísticas bastante obsoletos. Quando surge a tentativa de uma arte pós-moderna, está se falando da queda desses antigos pressupostos 28 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância em prol da possibilidade de uma expressão diferenciada. A teologia é uma espécie de arte, que pode manter seu caráter de ciência hermenêutica, mas jamais deve deixar de lado seu compromisso com a fé do ser humano. Nesse sentido, caro(a) aluno(a), tanto eu quanto você podemos nos voltar para o estudo da cultura na pós-modernidade sem enfrentar grandes problemas teológicos. Entretanto, não se deixe cair na fragmentação, sendo um teólogo ou uma teóloga que só sabe lidar com uma temática específica e que fecha seus olhos para as realidades ao seu redor, focando-se apenas na literatura que lhe interessa de maneira particular. O engenho teológico atual lida com realidades específicas de nosso tempo, mas não precisa e nem deve se render à tentação de falar a uma tribo específica. O grande problema da teologia de nossos dias é a dificuldade de uma construção teológica com linguagens que saltem barreiras tribais que possam assim expor suas reflexões para além de sua própria casa, seu ambiente de conforto matriarcal. Desafio o leitor e a leitora a fazer seu trabalho teológico sempre levando em conta a realidade estilística de nossos dias. Não há nada de especial em conseguir se comunicar teologicamente com os seus. A dedicação da teologia atual está em não deixar que seu trabalho seja demasiadamente diminuído, fragmentado e especificado, mas que consiga falar e pensar para Fonte: SHUTTERSTOCK.com com o outro e os outros possíveis. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 29 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), o maior desafio que aqui se põe é entendermos qual o sentido do conceito de pós-modernidade para nossa realidade e quais são as interferências da mesma em nosso modo de fazer teologia. Note que existem vários detalhes a serem compreendidos e que nossa reflexão serve basicamente como uma provocação inicial de algo que pode ser muito mais desenvolvido. A história do pensamento humano pode nos revelar muito mais e nos ajudar a compreender as relações entre teologia e pós-modernidade. Que não nos furtemos de tal engenho. ATIVIDADES DE AUTOESTUDO 1. Quais as principais diferenças da modernidade para a pós-modernidade? 2. Qual o papel da teologia na pós-modernidade? 3. A teologia pós-moderna implica no cristianismo pós-moderno? Explique. “[...] o que a mente pós-moderna está consciente é de que há problemas na vida humana e social sem nenhuma solução boa, há trajetórias torcidas que não se podem endireitar, há ambivalências que são mais que erros lingüísticos bradando por correção, há dúvidas que não se podem banir da existência, há angústias que nenhuma receita ditada pela razão pode suavizar, nem se fale curar” (BAUMAN, 1997, p. 279). 30 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Maraschin deixou como parte de seu legado uma obra ampla e inovadora sobre temas atuais e representativos da teologia. Além disso, fez escola, deixando alunos como Frederico Pires e Carlos Eduardo Calvani. A obra em questão marca o princípio da democratização das questões sobre teologia e pós-modernidade no ambiente acadêmico brasileiro. MARASCHIN, J.; PIRES, F. P. Teologia e pós-modernidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 31 UNIDADE II TEOLOGIA E LITERATURA Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Objetivos de Aprendizagem • Entender em que consiste o campo de estudo relacional de teologia e literatura a partir da teologia. • Apresentar e entender as diferenças metodológicas possíveis no estudo teológico da literatura. • Vislumbrar leituras teológicas possíveis da literatura. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Um novo campo de estudo • A questão do método INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesta unidade veremos um pouco sobre a teoria do desenvolvimento da pesquisa em teologia e literatura. Esse é um novo campo da teologia que tem ocupado papel de destaque nos estudos de religião. Existem possibilidades de estudo tanto na literatura sagrada quanto na literatura secular. No texto que por hora apresento a você, pretendo me deter mais no que diz respeito ao estudo da literatura secular, pois é nesse campo que estão surgindo pesquisas que mais têm se destacado. Muitos teólogos e teólogas, ao lerem um texto qualquer da literatura mundial, sentem que o mesmo poderia ser o ponto de partida para um diálogo no âmbito das religiões ou fruto de uma análise teológica. Entretanto, como esse tipo de trabalho não faz parte da teologia clássica, por vezes ele é omitido. A partir dos novos rumos que a teologia tem tomado, o diálogo com a cultura em geral e as artes em particular tem se tornado cada vez mais válido e necessário. Desejo a você uma boa leitura da unidade e bom proveito para a prática de seu fazer teológico. UM NOVO CAMPO DE ESTUDO Quando se trata da relação entre Teologia e Literatura, a maioria das opiniões sugere que a relação entre as duas áreas deve se dar a partir de um diálogo. Isso se dá por motivos que não se apresentam em convergência. E esse é um grande problema, pois, apesar de transmitir a imagem de ser uma linha de pesquisa, uma ciência, ou ainda uma temática, a relação entre Teologia e Literatura pode se tornar apenas um amontoado de informações independentes, diversificadas e fluidas: “poucos são os textos que se ocupam das questões teórico-metodológicas envolvidas nessas múltiplas e diversificadas tentativas de aproximação entre a literatura e a teologia” (BARCELLOS, 2000, p. 11). Uma consideração importante é a partir da revolução científica, como apontado por Yunes: TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 35 Acrescente-se a isso o fato de que a relação sujeito/objeto consagrada por séculos caiu por terra com a visão da psicanálise e da filosofia sobre o próprio homem. Se o conhecimento se produz em ‘um lugar entre’, se a experiência transtorna o experimento, as variáveis e nossas circunstâncias compõem os resultados a que chegamos (YUNES, 2004, p. 8). Yunes expõe sua opinião de que a teologia e literatura devem se relacionar a partir de uma igualdade porque o conhecimento se dá em um “lugar entre”. Nesse não específico “lugar entre”, o conhecimento é produzido basicamente a partir de interseções, como é demonstrado na citação abaixo: A balança ainda pende mais para os amantes da literatura que ousam tratar dessas interseções sem o anátema da excomunhão... Mas nos cursos de ciência das religiões e teologia começam a despontar estudiosos que, com rigor e amor, investem nesta pesquisa interdisciplinar (YUNES, 2004, p. 9). Esta pesquisa interdisciplinar é, de fato, o modo como a relação entre Teologia e Literatura mais tem sido feita. Entretanto, algumas críticas devem ser aqui postas. As inovações no método científico geradas tanto pela psicanálise, quanto pela filosofia do século XX, bem como a elaboração da física quântica e as teorias de sistemas complexos são avanços epistemológicos bastante importantes na atualidade. Todavia, não são realidades eminentes do cotidiano acadêmico. O que se deve fazer academicamente ainda está ligado com o esquema de sujeito, objeto, método, fundamentação teórica etc. Outro ponto é que se pretende um engenho interdisciplinar. No entanto, a relação que há entre áreas precisa ser melhor especificada. A “correspondência” que Magalhães diz haver entre a teologia e a literatura parece ser na verdade muito mais válida se relacionarmos a teologia com a crítica literária, e a literatura com a religião. Ou seja, engenhos mais científicos entre si e os mais subjetivos entre si. Caso contrário, teremos a relação de uma ciência com uma arte e vice-versa. Nesse caso, os parâmetros de correspondência se tornam demasiados maleáveis de acordo com o interesse do sujeito hermenêutico. Podemos ver aqui um exemplo: 36 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Hoje, ao observarmos a aproximação entre as fronteiras dos saberes e as interlocuções entre o diálogo das ciências, o diálogo entre a literatura e a teologia marca sua presença. Teologia e literatura voltam a se encontrar no cenário acadêmico contemporâneo na condição de interlocutores (CONCEIÇÃO, 2004, p. 26). Conceição (2004) aponta que há hoje um diálogo de ciências. Após dizer isso, afirma que nesse contexto o diálogo da teologia com a literatura marca sua presença. Todavia se esquece de que, em geral, os engenhos de Teologia e Literatura frisam referenciais teóricos de um ou de outro lado, não sendo necessariamente um diálogo de ciências e sim uma intersecção de temas de interesse. Além disso, o caráter científico tanto da teologia quanto da literatura pode ser facilmente questionado. Há uma marcante confusão entre inter e transdisciplinaridade com diálogo de ciências. O diálogo de ciências deve ser proposto a partir de uma análise de teoria do conhecimento, enquanto a inter e transdisciplinaridade é muito mais uma proposta pedagógica. Enquanto proposta pedagógica e linha de pesquisa, a Teologia e Literatura funcionam facilmente, sem muitos empecilhos. Elas podem dialogar e ser correlacionadas de diversos modos válidos. Entretanto, se considerarmos a “teologia e literatura” como um diálogo de ciências herdeiro do movimento de revolução científica desde Tomas Kuhn, então especificações diversas devem ser feitas. Pode-se aqui ver um exemplo do problema em questão: Tudo que é humano interessa à literatura, o mesmo acontece com o domínio religioso do homem. Deus, fé, Igreja, relações entre o homem e Deus, que são objetos de análise teológica, também estão presentes nos textos literários. Portanto, se há uma tensão histórica cultivada diante da possibilidade de diálogo entre elas, as afinidades temáticas reavivam, a priori, uma possível aproximação (CONCEIÇÃO, 2004, p. 29). Conceição (2004) fala que a tensão histórica entre teologia e literatura pode ser superada por meio de “temas” em comum. Como foi dito acima, temas em comum são suficientes para a relação de disciplinas, mas não necessariamente de ciências. Nessa citação de Conceição (2004), pôde-se notar como essa relação pode ser enganosa. É válido ressaltar que isso não TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 37 implica em um trabalho com menor qualidade. Pelo contrário, o trabalho de Conceição (2004) é deveras interessante. Entretanto, não conta com essa definição de engenho que é pertinente a todo trabalho com rigor acadêmico. Seria muito mais válido se fosse considerado um diálogo apenas de disciplinas, mas não de ciências. Barcellos apresenta a situação de modo bastante geral, não especificando muito bem as consequências de seu dito: A produção científica contemporânea que, de algum modo, se reporta à relação entre literatura e teologia, já é propriamente inabarcável. Chama atenção não apenas o grande número de obras recentemente publicadas, nos mais diferentes quadrantes, acerca dessa problemática, mas, sobretudo, à extrema diversidade de objetivos, fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos por elas adotados (BARCELLOS, 2000, p. 10). Mesmo não apontando questões como quais são essas produções científicas contemporâneas; qual é o número aproximado desse “grande número” de obras publicadas e onde estão elas sendo desenvolvidas, ele diz o que é de fato muito pertinente. Ele escreve como quem tem conhecimento de causa, e o tem. Barcellos não se engana ao afirmar que os fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos adotados são os mais diversos possíveis. Diversos teóricos têm sido utilizados em engenhos dessa área, os mais diversos e contraditórios. Todavia, Barcellos (2000), bem como a maioria dos pesquisadores de tal área, não se questiona sobre a pertinência de tais utilizações. E muitas vezes isso não é feito por meio das escusas de uma “necessidade dialógica científica”. De fato, as ciências têm que se abrir para o diálogo. Assim, a liberdade e o caráter dialógico da pesquisa sobre a relação entre Teologia e Literatura são válidos. Entretanto, estaremos corroendo a credibilidade acadêmico-científica dessa área se não nos policiarmos em tom de constante autocrítica quanto àquilo que tem sido usado como método e fundamental teórico dessa área. Por exemplo, se em determinada pesquisa eu possuo dois referenciais teóricos possíveis de aplicação, sendo que cada qual direcionaria a pesquisa para pontos distintos, sendo ambos 38 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância academicamente aceitáveis, é no mínimo necessário que ao escolher o teórico “x” se explique por que não foi escolhido o teórico “y”. Assim, evita-se o risco de leituras que impõem sentido ao texto, as quais podem, sem muita dificuldade, serem encontradas nos trabalhos da área de teologia e literatura. Portanto, projetos em teologia e literatura devem focar muito fortemente o tópico justificativa. Barcellos (2000) afirma, ao fim de sua análise sobre o problema do método na pesquisa sobre a relação de Teologia e Literatura no contexto católico, que existem as seguintes vertentes: Portanto, poderíamos concluir que no pensamento católico contemporâneo – à parte a estética teológica de Hans Urs Von Balthasar, na qual não nos detivemos neste artigo – encontram-se três grandes paradigmas de articulação entre literatura e a teologia: um paradigma hermenêutico (a literatura como forma não-teórica de teologia: prioridade à metodologia dos estudos literários); um paradigma heurístico (a literatura como “lugar teológico”: prioridade à metodologia teológica) e um paradigma interdisciplinar (a literatura e a teologia como pólos de um diálogo intercultural: método da analogia estrutural) (BARCELLOS, 2000, p. 27). Essa separação demonstrada por Barcellos (2000) pode ser estendida ao contexto todo da pesquisa em “teologia e literatura”. Todavia, os paradigmas hermenêuticos, heurístico e interdisciplinar devem ser considerados como grandes grupos de tentativa de sistematização da área. Eles são muito mais presentes na análise retrospectiva, ou seja, no estudo sobre o que se tem feito, do que nas escolhas metodológicas dos trabalhos da disciplina em questão. Tais trabalhos parecem que são ainda simplesmente feitos guiados por algum princípio teológico, ou pela riqueza estética de um texto literário. Quando se fala em teologia da literatura, pode-se pressupor dois tipos de engenho. O primeiro seria de fundação de uma teologia a partir da literatura, ou seja, buscar na literatura a base para uma possível teologia. O segundo caso seria o de uma teologia que se aplica na literatura, que se volta hermeneuticamente para a mesma, se servindo da mesma como objeto de pesquisa, do mesmo modo como inúmeros assuntos e expressões humanas são passíveis de análise teológica. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 39 É preciso um posicionamento científico mais rígido para tal intento, e isso se faz admitindo a teologia como ciência fundamental do trabalho. Um problema possível de compreensão dessa proposta é confundi-la com dogmática exemplificada em textos literários. Outro problema é considerar que não há diálogo entre teologia e literatura quando isso é feito com rigor científico e validando a relação sujeito/objeto. Como é dito, sujeito e objeto se põem em relação na pesquisa científica e se entrelaçam na medida em que tal engenho é feito com a liberdade que nos é permitida no discurso das ciências humanas e hermenêuticas. Agora que a discussão sobre a validade de engenhos que relacionam a teologia e literatura foi iniciada, deve-se dar atenção para o problema do método. Esse ponto apresenta-se importante no presente trabalho para que não se caia nos erros que aqui são alvos de críticas, a saber: a ausência de especificação sobre os procedimentos epistemológicos e metodológicos do Fonte: SHUTTERSTOCK.com trabalho na área da relação entre Teologia e Literatura. 40 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância A QUESTÃO DO MÉTODO Primeiramente, é importante descrever um pouco sobre como têm se desenvolvido as pesquisas em Teologia e Literatura no contexto da academia brasileira. Não há uma especificação que serve como estatuto dessa área. Ou seja, não há uma ordem homogênea nos trabalhos que se intitulam por “Teologia e Literatura”. Pelo contrário, há sim uma grande diversidade, que hora funciona bem como frutífera difusora da possibilidade de engenho acadêmico, e hora acaba confundindo os princípios epistêmicos de algumas ciências correlatas. Dois trabalhos que não podem ser omitidos da presente discussão são os de Antonio Manzatto e Antonio Carlos Magalhães. A contribuição que eles apresentam é, sem dúvida, pioneira. Entretanto, vale frisar que ambos serão aqui criticados em prol de uma revisão no método de trabalho em tal perspectiva. Manzatto (1994) fez um estudo a partir da antropologia. Sua obra maior se chama “Teologia e Literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado”. Nessa obra ele faz comentários teológicos a partir de relatos antropológicos nas obras de Jorge Amado, que servem basicamente como exemplo da potencialidade religiosa humana: Sabemos que a literatura não é uma apresentação do mundo, mas sim sua representação. Se ela interessa à teologia como mediação do real vivido, isso acontece enquanto ela se esforça por abordar a problemática humana de uma forma que lhe é particular (MANZATTO, 1994, p. 68). Dentro dessa abordagem particular do ser humano por meio da literatura estão os temas considerados por Manzatto (1994) como teológicos: Se tudo o que é humano interessa à literatura, o mesmo acontece com relação ao domínio religioso do homem. A teologia, o crente e a religião, enquanto realidades humanas, interessam ao escritor e figuram assim em obras literárias. Mas mesmo conceitos mais especificamente teológicos como pecado, sacramento, graça, mística, e outros ainda, também são encontrados em romances ou em poesias [...] o que a teologia mais oferece à literatura são temas teológicos, tais como fé, Igreja, relações entre o homem e Deus, que são também as questões fundamentais da teologia. O escritor pode tratar esses temas positiva ou negativamente, ou ainda como um absurdo, TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 41 mas eles estarão presentes em sua obra (p. 65). Para Manzatto (2004) o importante é a explicitação de aspectos religiosos, sejam eles quais forem, dentro do contexto da humanidade demonstrada, ou melhor, retratada na literatura4. Barcellos (2000) comenta que: Na perspectiva de Manzatto, a teologia pode e deve recorrer à literatura como mediação para a leitura da realidade, complementando ou até eventualmente substituindo a mediação das ciências humanas e sociais (p. 16). Sobre o método que ele utiliza para tais fins está, acima de tudo, uma análise teológica final. Como diz no título de seu livro, o que se faz é uma “reflexão teológica” a partir da literatura, no caso a de Jorge Amado. Ou seja, por mais que ele queira fazer um diálogo entre teologia e literatura, há um locus para o princípio de tal diálogo, a reflexão teológica. Aqui, por mais que Manzatto (2004) negue isso enfaticamente, parece que a literatura é posta com subserviência em relação à teologia. Isso se diz porque o que importa para Manzatto (2004) é o que a literatura pode mostrar sobre a realidade do ser humano. A partir de tal antropologia é empreitada uma análise antropológica-teológica por parte do autor. Isso não diminui em nada a obra do autor, pois essa é uma leitura válida. Entretanto, a literatura é apenas um meio pelo qual se olha o ser humano. Ou seja, é um elemento descartável da análise teológica. Isso faz com que a obra de arte não seja diametralmente considerada uma forma de produção distinta daquelas das ciências humanas e sociais em geral. 4 Com relação ao conteúdo dos textos analisados teologicamente, Manzatto (1994) faz uma ressalva digna de nota: “porque vivem em um contexto fortemente marcado pela teologia, escritores podem trabalhar com conceitos teológicos; outros podem mesmo inspirar-se na teologia para comporem seus romances. Nesse caso, para fazer teologia a partir da literatura, é preciso estar atento a essa situação, para que não se corra o risco de cair em um círculo vicioso” (MANZATTO, 1994, p.66). Esse círculo vicioso constatado por Manzatto (1994) pode parecer à primeira vista algo bastante óbvio. Entretanto, é importantíssimo que não se caia em tal vício. O nível de engano metodológico de tal tarefa pode ser comparado ao de um pleonasmo vicioso, que reafirma o afirmado e afirma o reafirmado. No caso do círculo vicioso constatado por Manzatto (1994), a situação é ainda pior, pois pode tender ao infinito: um autor escreve literatura por ter conhecimentos teológicos; um teólogo lê tal literatura e evidencia os aspectos teológicos, e assim sucessivamente pode-se fazer teologia da teologia disfarçada em linhas literárias. 42 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância A obra de arte, bem como sua apresentação em forma de literatura, não é e nem deve ser considerada superior a outros tipos de produção humana. Mas há uma especificidade, uma peculiaridade. Tal âmbito deve ser levado em conta e assim a obra de arte pode ser analisada “como obra de arte”, e não como um locus de leitura teológica escolhido por algum elemento subjetivo qualquer do autor e pesquisador em “teologia e literatura”. Sobre Manzatto, Magalhães afirma: Manzatto segue um tipo de método que já está estabelecido dentro do horizonte da teologia católica e também em muitos círculos protestantes: a relação entre natureza e graça, entre ser humano e Deus e, neste caso específico, entre antropologia (na literatura) e teologia (na tradição cristã). Teologia, segundo Manzatto, é uma reflexão rigorosa, científica, inteligível, racional sobre as experiências humanas a partir da tradição aceita como normativa pela igreja, possuindo métodos específicos que são fornecidos tanto pelo depósito comum da fé quanto pelas mediações desenvolvidas pelo ser humano para a compreensão de sua realidade (1997, p. 33). Aqui se torna evidente que o estudo em “teologia e literatura” pode ser feito a partir de âmbitos diferentes, principalmente porque o pesquisador nessa área pode possuir modos diversos de pensar tanto a teologia quanto a literatura. Esse é um fato que se evidenciará inclusive no presente trabalho, pois se sabe que o posicionamento do autor em relação aos conceitos de teologia e de literatura pode afetar muito seu engenho em “teologia e literatura” em geral. Tal ponto, ao mesmo tempo em que pode ser criticado, também necessita ser respeitado, uma vez que, mesmo sendo o trabalho teológico tão científico quanto qualquer outro, não é possível – bem como em qualquer ciência – que se exclua completamente tal subjetividade. O problema básico apontado em relação ao trabalho de Manzatto é a forma como ele dá valor a determinada tradição e sua forma de interpretação, e aplica a mesma à literatura. Nesse respeito, a subjetividade do autor, críticas podem ser construídas. Assim como aqui se criticam os trabalhos no âmbito acadêmico brasileiro na área de “teologia e literatura”, eles se criticam entre si. Magalhães, que em breve também será exposto e criticado, continua sua crítica a Manzatto dizendo: A abordagem de Pagán representa um avanço significativo em relação ao trabalho TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 43 de Manzatto [...] mesmo não menosprezando estes aspectos é importante colocar o diálogo entre teologia e literatura como uma questão de conteúdo básico e linguagem, possibilitando assim uma alternativa ao fazer teológico normativo. O grande limite de Pagán é que ele não diz como isso pode acontecer, não desenvolve uma reflexão que problematiza a conseqüência desta necessidade para a reelaboração do método teológico (1997, p. 40). Magalhães desenvolveu seu próprio método para o engenho de “teologia e literatura”. Seu método se chama “método da correspondência” e tem sido grandemente adotado por estudantes da área em dissertações e teses. Basicamente, o que Magalhães aponta em seu método é que há, de algum modo, um locus potencial para diálogo correspondente em cada polo. Tal método implica em vários pontos. Primeiramente, seus pressupostos e interesses são diversos dos acima comentados com relação à obra de Manzatto. Magalhães prioriza o diálogo enquanto Manzatto analisa a literatura a parir da antropologia contida na mesma. De certo modo, Manzatto tende a ter um caráter mais apologético – e isso se diz no sentido de defesa consciente de seus pressupostos teológicos – do que Magalhães, que em vez de fazer uma teologia metodologicamente pronta de alguns aspectos literários, pretende fazer teologia com a literatura, ou seja, junto com ela, em diálogo. Isso se diz teoricamente. É apenas uma observação da potência metodológica, e de modo algum valoração de princípios. Magalhães diz de seu método: No método da correspondência, reconhecem-se as diferentes motivações de textos religiosos confessionais e textos literários. Se a alteridade é reconhecida no campo das motivações, ela é relativizada no desdobramento que os textos apresentam independente de suas motivações. Ao acontecer na vida, o texto é sempre algo a se cumprir, um projeto a ser realizado, um caminho a ser seguido, independente do interesse originário do autor ou da autora (2000, p. 206). Com suas palavras, Magalhães quer ressaltar a importância do texto em relação ao seu leitor. Ou seja, a análise conteudística é acompanhada pela “realidade” do texto em sua relação com seu leitor. Ou seja, o teólogo é muito mais tradutor dos lugares teológicos possíveis do que 44 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância criador dos mesmos. O método de Magalhães é muito interessante em suas propostas. Entretanto, lhe faltam estruturas que possam suportar a tempestade – por vezes hiperbólica – de questionamentos possíveis – e por vezes necessários – do caminho metodológico que deve ser seguido nessa perspectiva. Quando se questiona sobre alguns pontos importantes desse método, muitas vezes ele não pode apresentar sua resposta por si só, como um bom método deve ser. O fato é que o universo acadêmico demanda tais fixações. Por exemplo, pode-se perguntar como surge o conhecimento em um diálogo, sem que em algum momento crucial algum dos polos seja sujeito e profira a oração mestra: eis o diálogo! Isto é, epistemologicamente, é necessário que haja um desequilíbrio suficiente para gerar o diálogo. No método da correlação parece que se tenta fugir das prerrogativas de fazer teologia de algo, ou literatura de algo, ou seja, de definir em termos gerais a ciência motora de uma ação epistêmica específica. Faz-se isso porque, para Magalhães, importa que sejam mostrados os pontos de valor de uma área bem como da outra, ou seja, que os pontos correspondentes sejam exaltados. De todo modo, a relação sujeito/objeto que a ciência moderna nos ensina a trabalhar na academia não impede que essa relação seja feita. Desde que sejam apontados com sinceridade os locais de ação de cada ciência, logo se saberá que o seu ponto correlato está presente num local “x” que também não pode deixar de ser demonstrado. Um ponto em que, sem dúvidas, Magalhães merece aplausos, é com relação à abertura que ele proporciona, ainda que com as limitações metodológicas já comentadas: “finalmente, queremos admitir que tal método configura uma abertura dentro do universo teológico, sobretudo, os aspectos que incitam a possibilidade dialógica” (CONCEIÇÃO, 2004, p. 53). Além dos dois autores acima comentados, existem outros que merecem também atenção no contexto do desenvolvimento de tal área, especialmente na academia brasileira. Entre tais, se deve citar: Maria Clara Bingemer, Eli Brandão e José Carlos Barcellos5. No presente 5 Essa lista de autores que têm trabalhado na área de teologia e literatura poderia ser muito maior. Os presentes TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 45 trabalho, uma atenção especial será dada abaixo nas questões epistemológicas a Barcellos, que desenvolveu um artigo eximiamente pontual sobre a questão do método em teologia e literatura. É de se queixar que ele o tenha desenvolvido apenas no contexto da produção católica. Todavia, sabe-se e compreende-se que toda pesquisa deve possuir suas delimitações, sejam essas por questões metodológicas ou de interesse específico do autor. Pode-se notar que a falta de discussão dos problemas metodológicos e epistemológicos da pesquisa em teologia e literatura tem gerado frutos não muito sólidos, ou seja, diversos trabalhos que apesar de estarem unidos dentro de uma área do conhecimento específica, não possuem o mesmo caráter, não analisam necessariamente os mesmos objetos, não possuem as mesmas temáticas e se dispersam grandemente em seus fins. Como consequência disso, surgem semigrupos de desenvolvimento de pesquisa em teologia e literatura. Alguns se unem pelo objeto, outros por temas comuns, outros ainda por referenciais teóricos. Entretanto, é sabido que tais propostas não são suficientes para a sustentação de uma ciência, e nem mesmo são engenhos aplicáveis rigorosamente nos princípios de diálogo e abertura científica. Subsistem em um locus qualquer, dentro de um logos qualquer. O ambiente acadêmico atual não sustenta uma área de conhecimento em tais parâmetros. É preciso ainda muito mais rigorosidade científica. E isso não é uma apologia do cientificismo newtoniano. As ciências hermenêuticas possuem valor acadêmico, científico e epistêmico tanto quanto qualquer outro engenho. Todavia, alguns cuidados devem ser tomados. Os procedimentos metodológicos da pesquisa em teologia e literatura, segundo a proposta do presente trabalho, devem apenas respeitar os mesmos crivos de qualquer outro engenho autores em discussão foram eleitos por serem marcos na área, e também por serem em sua maioria voltados ao trabalho teológico. Além do mais, são os mais pertinentes dentro do contexto da presente pesquisa. Já existem trabalhos acadêmicos que têm levantado essa lista de autores de modo muito mais exímia. O momento parece oportuno para uma releitura da situação atual das pesquisas nessa área. Para um quadro geral de tal questão – estando agora um pouco desatualizado – ver o já comentado: MAGALHÃES, A. C. M. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2000. 46 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância científico. Para que uma área de pesquisa exista, é necessário que se tenha algumas interseções entre os trabalhos da mesma. Por isso, é necessário que o pesquisador explicite o que está fazendo e reflita se o seu trabalho não é um engenho norteado por princípios outros, não os da “Teologia e Literatura”. Assim, poder-se-á compreender o que se busca em trabalhos de tal natureza e o afunilamento dos procedimentos de tal pesquisa se darão na medida em que forem sustentadas quantidades significativas de trabalhos com os mesmos discursos e pressupostos metodológicos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a discussão acima feita, devemos refletir alguns fatores que nos são pertinentes. Você, aluno(a), estudante da teologia, que está se iniciando nessa ciência, precisa compreender os limites da mesma. Novas disciplinas, como a relação da teologia com a literatura, são estandartes do amplo horizonte que a teologia pode ocupar em nossos dias. O diálogo entre as ciências se torna cada vez mais comum. A teologia não pode se furtar do mesmo. Minha dica é que, quando abrir o próximo livro e se enveredar em sua leitura, não se esqueça de olhar para ele com olhos teológicos e exercitar a completude que a teologia tem a nos oferecer. ATIVIDADES DE AUTOESTUDO 1. Cite um livro da literatura brasileira que você julga ser pertinente para o diálogo entre teologia e literatura. 2. É importante que o autor do livro seja um bom cristão para que se faça uma teologia de sua literatura? 3. Quais são as implicações metodológicas para o fato da teologia e literatura possuírem caráter dialógico? TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 47 Não existe estilo algum que exclua a expressão artística da preocupação suprema, pois o absoluto não se restringe a formas particulares das coisas ou experiências. Mostra-se presente ou ausente em qualquer situação. Brilha numa paisagem, num retrato ou em cenas humanas, dando-lhes a profundidade do sentido (TILLICH, 2009, p. 118). Essas duas obras são os mais recentes lançamentos no âmbito da pesquisa em teologia e literatura. Além disso, consolidam uma escola paulistana de diálogo entre teologia e literatura, liderada por professores da Universidade Metodista de São Paulo. TADA, Elton V. S. A cruz do corpo. São Paulo: Fonte Editorial, 2013. RIBEIRO, C.O.; FONSECA JUNIOR, H.A. Teologias e literaturas II. São Paulo: Fonte Editorial, 2013. 48 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância UNIDADE III TEOLOGIA E ECONOMIA Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Objetivos de Aprendizagem • Entender o histórico de estudo teológico da economia. • Entender as relações entre religião e economia na América Latina. • Visualizar as diferenças entre consumo e consumismo e suas implicações para a teologia cristã. • Apontar as formas mais atuais de estudo teológico da economia. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Teologia e economia na América Latina • O problema do capital versus social: a questão do consumo • Abordagens atuais da relação entre teologia e economia INTRODUÇÃO A relação entre teologia e economia não é algo totalmente novo. O que é atual é uma estrutura disciplinar específica para tal estudo. Se notarmos com atenção os escritos de João Calvino e Matinho Lutero, encontraremos neles questões absolutamente econômicas. Entretanto, tais questões estavam à margem de suas teologias e eram feitas mais de maneira acidental do que por necessidade teórica. Hoje, os estudos que se dão em tal área levam em conta não apenas as questões teológicas, como todo o arcabouço teórico decorrente das constantes e essenciais teorias sociais dos últimos três séculos. Cada vez mais os teólogos e teólogas ao redor do mundo entendem que não é possível manter a teologia nos padrões medievais, que se preocupam apenas com as questões dogmáticas interiores ao ambiente eclesial, pensados somente pelas lideranças intelectuais de tais círculos. É importante que se volte para a cultura e dialogue com a mesma, mas que o faça sem que se perca os objetivos primeiros de qualquer teologia. O que se discute sobre teologia e economia atualmente pode ser resumido em questões que relacionam a ética religiosa com as injustiças sociais e com a pobreza. No Brasil, de modo particular, podemos encontrar o debate relacionado com a pobreza como fruto dos diversos movimentos sociais surgidos nas décadas de 1960 e 1970. Esses estudos se deram de maneira mais geral em primeira instância e foram ganhando profundidade com o decorrer dos anos. Atualmente, a situação socioeconômica do brasileiro de classe média se demonstra de modo relativamente confortável, afastando os diversos círculos de militância e debate social que foram predominantes em toda a América Latina da segunda metade do século passado. Entretanto, a ausência do debate social nas classes mais amplas da sociedade não impede que a teologia se debruce firmemente na tentativa de dialogar com as ciências econômicas e de entender em tal processo meandros do sistema teológico de maneira mais clara. Um dos principais questionamentos relacionados com o diálogo entre teologia e economia foi levantado de maneira bastante específica pelo teólogo católico Jung Mo Sung. Há alguns TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 51 anos, o autor lançou um livro com o seguinte título: Se Deus Existe, Por Que Há Pobreza? Tal questionamento inaugura uma reflexão bastante ampla sobre a ideia de justiça de Deus, bem como sobre a participação da ideia de Deus na construção de nossa sociedade. A pobreza é chave hermenêutica para a leitura da relação entre teologia e economia porque é nela que se encontram as maiores manifestações de sofrimento humano que se dá na maior parte dos casos dentro de um contexto religioso específico. A noção de trabalho e de lucro que nos é tão comum nem sempre foi reinante, e já esteve subordinada a vários outros fatores na história do cristianismo. Entretanto, na sociedade industrial e pós-industrial, é notória a ideia de que todo aquele que trabalha deve receber por isso, e tal recebimento deve ser o suficiente para a manutenção de si próprio e de sua família. A ideia de capital se aliou à ideia de dignidade, e desde então, tanto bênçãos quanto maldições são relacionadas à pobreza e riqueza, deixando assim de se entender o peso do contexto social e do desequilíbrio de posses sobre a vida do indivíduo. Um pensador brasileiro que soube dialogar com a economia e tem sido muito estudado por seu brilhantismo foi Paulo Freire. Freire entendia que os processos pedagógicos estavam de muitas maneiras ligados aos modos de produção, arrecadação, compra, venda e enriquecimento do povo. Assim, ele propôs que o processo pedagógico do brasileiro fosse condizente com sua situação sócio-cultural-econômica, tirando assim a ideia de que a educação serviria para a leitura de palavras e transferindo o foco da educação para a possibilidade de leitura do mundo. É certo, caro(a) aluno(a), que não podemos acreditar que em um pensamento específico ou em uma linha teológica específica se resolverão todas as questões relacionadas à miséria e à riqueza. O que nos cabe fazer em conjunto é entender o que já foi desenvolvido e quais são os próximos passos a serem dados. 52 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Fonte: SHUTTERSTOCK.com TEOLOGIA E ECONOMIA NA AMÉRICA LATINA A América Latina tem um histórico preponderante de militância social. As desigualdades sociais e os regimes ditatoriais formaram algumas gerações de pensadores voltados à questão social. Hoje vivemos numa sociedade aparentemente tranquila política e economicamente. O poder de compra da classe média, bem como sua qualidade de vida, tem crescido nas últimas décadas. É necessário que se compreenda o contexto no qual estavam inseridos os pensadores que realizaram os primeiros diálogos no âmbito da teologia com a economia. Uma das principais críticas em relação à preocupação econômica da teologia diz respeito à falta de sucesso das ideologias defendidas pelas militâncias religiosas-sociais. Reconhecer a impossibilidade da construção histórica de uma sociedade igualitária, sem exploração, alienação e dominação, não significa refutar esta utopia ou abandonar as lutas e a opção pelos empobrecidos. Significa somente, por um lado, o reconhecimento dos limites humanos na realização dos sonhos e, por outro, a capacidade de sonhar para além das capacidades humanas. Esta perspectiva encontra-se profundamente arraigada na postura do “servo sofredor” e na experiência de Jesus, em especial na fragilidade da Cruz, radicalmente diferente do imobilismo – que as atuais perplexidades e crises poderiam gerar. A tarefa de anúncio do Reino de Deus que reconheça a TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 53 transcendência dele, que fortaleça a fé escatológica de que o próprio Deus realizará em plenitude os sonhos humanos e que dimensione a ação humana ativa e solidária no mundo, constitui elemento fundamental para a crítica das pretensões idolátricas que, por vezes, se achegam às propostas religiosas (RIBEIRO, 2008, p. 122). A questão da relação entre teologia e economia ganha aqui um ponto que não pode deixar de ser compreendido, que é a questão da possibilidade de idolatria. Na questão econômica, a teologia aponta para a possibilidade de idolatria quando um meio se torna um fim, ou seja, quando há um engano em relação ao objetivo que buscamos por meio da prática de nossa fé. Por isso, não se pode considerar o fator econômico como secundário no estudo teológico de nossos dias. Existem tradições cristãs de nossos dias – e isso você pode notar a partir de visitas a igrejas ou programas de rádio e televisão – que pregam o acesso aos recursos financeiros de maneira idolátrica, propondo o individualismo, a superação de outras pessoas em prol de cargos e posições de prestígio, a identificação da pobreza com o pecado individual, entre muitos outros fatores. Na verdade, dificilmente se encontra hoje um pregador ou uma pregadora da Palavra que levam em conta a realidade social na qual estamos inseridos. O que gera a pobreza é a desigualdade, pois existem muitos recursos de riqueza no mundo, mas estes são dominados por poucos. A miséria, a fome, a falta de acesso à saúde e educação, são consequências das formas com que nós mesmos temos manejado o sistema capitalista. O capitalismo instituído há alguns séculos em nossa sociedade ocidental, e recentemente adotado por quase todas as sociedades do mundo, ensina que é necessário o acúmulo de capital, não havendo um limite para tanto. Se não há um limite, há a possibilidade de que uma pessoa, família ou corporação guarde consigo os recursos que seriam suficientes para sustentar muitas outras pessoas. Esse é o princípio da desigualdade, que gera a pobreza, a fome e a miséria. Como a história nunca cessa, os filhos das pessoas pobres que não têm acesso a boa alimentação, educação e cultura, tendem a perpetuar tal situação. Alguns por não suportarem 54 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância sua significativa miséria partem para a criminalidade. Outros geram dívidas com a lei e o Estado sem nem ao menos terem sido educados quanto a isso. Por outro lado, as pessoas mais ricas tendem a manter seu capital e multiplicá-lo, fazendo assim com que cada vez menos pessoas estejam no domínio dos bens materiais. De semelhante modo, os países de terceiro mundo, que foram colônias e sofreram os processos históricos de exploração, tendem a perpetuar-se em situações econômicas pouco favorecidas, pois além de terem seus recursos naturais capitados e utilizados pelos países dominantes, ainda precisam constantemente de empréstimos financeiros reais ou virtuais no âmbito de títulos econômicos, para que possam financiar alguma esperança de desenvolvimento em suas terras. A América Latina toda representa essa realidade de terceiro mundo a qual estamos nos referindo. Dentre os países latino-americanos existem aqueles que são mais ricos que outros, ou mais poderosos de acordo com suas coligações de política internacional. Entretanto, a base de todos os países da América Latina, que são os trabalhadores proletariados, vivenciou nas últimas décadas situações muito semelhantes, situações que deram origem à teologia latinoamericana da libertação. Esse movimento é visto muitas vezes com certa desconfiança. Em oposição ao liberalismo econômico que institui o reinado do capital existe a opção socialista, muitas vezes defendida por regimes de esquerda, e também defendida pela teologia da libertação. O liberalismo econômico não leva isso em consideração; ele subordina o próprio processo da vida à racionalização econômica. O desafio do socialismo, portanto, é conhecer e afirmar a real dinâmica da economia socialista e os propósitos econômicos nela contidos. Na concepção socialista, a possibilidade ilimitada de estímulo de novas necessidades é questionada em função de três aspectos: o planejamento econômico central de acordo com as reais necessidades da população; a meta de padronização de renda e de consumo; e o surgimento de uma concepção e de novos valores que visem adequar a possibilidade e a realização da produção (RIBEIRO, 2010, p. 21). Se por um lado o liberalismo econômico permite que um indivíduo cresça e alcance grande sucesso econômico-social, por outro ele manifesta que todo dinheiro que alguém ganha TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 55 precisa ser retirado de outrem, gerando assim amplos sistemas de pobreza. O que devemos valorizar, a possibilidade de crescimento de um indivíduo ou a possibilidade de crescimento de uma nação? O PROBLEMA DO CAPITAL VERSUS SOCIAL: A QUESTÃO DO CONSUMO A crítica a essa espiritualidade de consumo (com a apresentação de outro tipo de espiritualidade realmente humanizadora) não pode significar a crítica ao consumo como tal. Pois consumir faz parte do viver humano. Não conseguimos viver sem consumir alimentos, bebida, habitação, vestimentas etc. E para celebrar amizades, precisamos também de boa comida e boa bebida, em torno das quais nos reunimos. Mais importante é que a nossa luta em favor dos mais pobres é para que essas pessoas possam consumir melhor e mais. Se confundirmos a crítica à espiritualidade de consumo do sistema capitalista com a crítica ao consumo como tal, não poderemos nos alegrar quando os pobres usufruírem melhor as suas vidas também porque conseguem consumir mais e melhor. Uma crítica nascida de boa intenção (a de criticar a injustiça social e a obsessão pelo consumo) pode gerar em nós uma atitude negativista frente à vida. Sobre isso, Hugo Assmann, em seu último texto inacabado, escreveu: “Em vez de alegrar-se com uma certa difusão da renda e do poder aquisitivo, os negativistas anti-mercado despejam o seu moralismo contra o que me dá enorme alegria, ver o povo comprando e fruindo do prazer de comprar” (SUNG, 2011, p. 35). 56 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Fonte: SHUTTERSTOCK.com Sem uma crítica radical à lógica sacrificial presente no inconsciente coletivo ou no fundo das nossas culturas, a crítica radical ao sistema de mercado global não será eficaz. Para isso, é preciso começar com uma afirmação teológica básica: Deus não quer sacrifícios, mas sim misericórdia e justiça para os pobres e oprimidos! Esta é uma tarefa que a teologia e o cristianismo de libertação precisam assumir (SUNG, 2011, p. 40). ABORDAGENS ATUAIS DA RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E ECONOMIA Quando você se envereda pelos estudos de teologia social, especialmente no ambiente da produção teológica do terceiro mundo, logo irá notar que a questão majoritariamente discutida é a pobreza, tendo como pano de fundo quase sempre o arcabouço teórico marxista ou alguma derivação desse ramo. As novas pesquisas que hoje se apresentam a respeito da relação entre teologia e economia não vão necessariamente por esse caminho, mas seguem as mais diversas possibilidades de diálogo com as ciências econômicas. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pudemos notar nessa breve reflexão que as noções de teologia e economia não são restritas somente ao âmbito das reflexões, mas são construídas em diálogo com a realidade que experimentamos e visualizamos no cotidiano de nossa sociedade. Como estamos no ambiente acadêmico, devemos ter o cuidado de não confundir aquilo que nos é dado pela grande mídia de maneira superficial com as profundas reflexões que podemos construir sobre tais questões. As questões econômicas sempre foram importantes para a teologia. Hoje, entretanto, temos muito a aproveitar, pois todo o ferramental teórico que precisamos está disponível para entendermos as relações entre essas áreas do conhecimento de maneira mais ampla e profunda. ATIVIDADES DE AUTOESTUDO 1. Quais são os princípios da lógica do liberalismo econômico? 2. Quais são as alternativas ao capitalismo propostas na América Latina? 3. É possível a idolatria econômica? Como? 4. Quais são as novas formas de relação entre teologia e economia? Quando o modo de pensar a fé na perspectiva do pobre e do excluído começa a chamar-se Teologia da Libertação? A expressão Teologia da Libertação causou e ainda causa muito estresse, porque nasceu em um ambiente de conflitividade. Daí surgiram uma série de preconceitos e acusações, a meu ver, nem sempre justas. Rubem Alves, teólogo evangélico brasileiro, e Gustavo Gutierrez, teólogo católico romano peruano, foram os primeiros a usar o termo ainda nos anos de 1960. O livro conta parte dessa história que, diga-se de passagem, é fascinante. No entanto, se formos honestos, veremos que desde 58 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Abraão e Móises já havia pessoas “pensando a fé” ao perceberem que “Deus escuta o clamor do seu povo” (Êxodo 3). RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Entrevista com o autor Cláudio de Oliveira Ribeiro que escreveu o livro: A Teologia da Libertação Morreu? Reino de Deus e Espiritualidade Hoje. Entrevista concedida à Editora Santuário. Disponível em: <http://editorasantuario.com.br/releases/index/page:9>. Acesso em: 09 ago. 2013. NessevídeoofamosoteólogoLeonardoBofffazumabrevereflexãosobrearelaçãoentreteologiae economia. A opinião de tal autor é relevante principalmente pelo fato de ter passado da geração mais antiga de teologia latino-americana para a mais atual. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=FQhKJD6V0zg>. Jung Mo Sung e Claudio de Oliveira Ribeiro representam a mais recente geração de pesquisa em teologiaeeconomia.Suasreflexõespartemdaanálisedocenáriolatino-americanodofimdoséculo passado, mas ultrapassam tais perspectivas mostrando itens atuais de tal discussão. RIBEIRO, C.O. A teologia da libertação morreu? São Paulo: Fonte Editorial, 2012. SUNG, J. M. Se existe Deus por que há pobreza?SãoPaulo:Reflexão,2011. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 59 UNIDADE IV TEOLOGIA E MEIO AMBIENTE Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Objetivos de Aprendizagem • Entender a importância do estudo teológico das questões socioambientais. • Mostrar a situação atual de tal área de estudo. • Mostrar as formas bíblicas de estudo da questão ambiental. • Entender a relação das questões ambientais com a teologia sistemática. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Situação acadêmica da questão • Leituras bíblicas • Teologia da criação INTRODUÇÃO Nos últimos anos, podemos notar o aumento da preocupação social com as questões ecológicas. Tal aumento é progressivo e parte não apenas de um polo específico, mas de atitudes de grupos específicos, políticas públicas, sociedade civil organizada, ou da prática cotidiana dos indivíduos. As grandes empresas cada vez mais se preocupam com o “selo verde”, ou seja, a garantia de que seus produtos, bem como sua linha de produção, não agridem diretamente o meio ambiente. No ápice da prática cotidiana do cuidado com a natureza ainda está a questão do consumo. Questiona-se muito sobre o que se deve ou não consumir. Um bom exemplo disso são as constantes restrições de utilização das sacolas plásticas nos mercados. Por outro lado, ainda é pequena a preocupação com o formato de consumo e a necessidade da construção de uma cadeia sustentável de consumo. Talvez a ala da sociedade que mais tenha se empenhado na tentativa de superar os abusos da humanidade sobre a natureza seja a da construção civil e arquitetura. Formas sustentáveis de construir prédios para que ali se relacionem com a natureza por décadas são cada vez mais procuradas. Veículos com combustíveis menos poluentes e fontes de energia renovável também estão no topo da preocupação social. Uma temática de tal magnitude não poderia ficar de fora do leque de discussão da teologia contemporânea. SITUAÇÃO ACADÊMICA DA QUESTÃO No ambiente acadêmico, a questão da sustentabilidade tem gerado amplas e constantes discussões. Em geral, várias ciências tomam para si a responsabilidade estatutária sobre o assunto, desconsiderando a validade e necessidade dos diálogos com outras ciências e áreas de pesquisa. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 63 Para um estudo desde o ponto de vista das ciências humanas, duas áreas devem ser citadas: a economia e a ética. A economia, como já estudamos na unidade anterior, está em diálogo amplo com as questões teológicas. A ética que hoje é gentilmente cedida à filosofia já foi de posse quase exclusiva da teologia. Esse é um dos âmbitos que a teologia tem retomado, tanto em suas vertentes mais bíblicas quanto nas áreas mais sistemáticas. A ética da responsabilidade é sem dúvidas um dos pressupostos mais comuns para a construção da argumentação teológica. Em tal ética infere-se qual a responsabilidade do sujeito religioso em sua práxis religiosa e cotidiana no que se refere às questões socioambientais. Acima de qualquer outra mudança, o que a ética da responsabilidade proporciona é uma alteração significante da ideia de sujeito. A forma como nos vemos no mundo e, consequentemente, a maneira como nos comportamos enquanto parte dele, é repensada e outros caminhos são apontados. [...] uma nova consciência ou um novo horizonte de compreensão de nós mesmos está se delineando desde o século passado muito embora encontramos traços da mesma em pensadores de séculos anteriores. É essa nova consciência denominada consciência filosófica ecológica, que nos permite falar de justiça socioambiental, expressão inexistente, por exemplo, até o início do século XX. É nessa linha que hoje se fala de planetaridade, de sociedade sustentável, de humanidade sustentável, de economia sustentável de política sustentável, de consciência planetária, de cidadania planetária, de civilização planetária como se o planeta irrompesse em nossa maneira de nos compreendermos a nós mesmos (GEBARA, 2012, p. 96). É natural que o ser humano atual pense em alternativas para seu modo de vida na terra. Os recursos naturais estão se esgotando. O planeta responde furiosamente à poluição. Somos reféns de uma situação que nós mesmos criamos. Por mais que tais condições sejam consequências de atos feitos a partir da grande reforma industrial, nós as sustentamos diariamente, perpetuando atos nocivos para a natureza que nos recebe e da qual fazemos parte. O que Gebara (2012) afirma na citação acima é que independente de nossa condição monetária e social, de nossas crenças e hábitos culturais, somos todos iguais ante a natureza 64 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância e pertencemos a um ambiente comum. Nesse sentido, é necessário encarar a globalidade, que muito se difere da globalização, pois não é uma questão dependente da informação compartilhada, e sim do habitat compartido. LEITURAS BÍBLICAS Um dos ramos da teologia que tem se dedicado com afinco a entender as questões socioambientais é o da teologia bíblica. A teologia bíblica em nossos dias, ao contrário do que muitos possam imaginar, não é mera arqueologia da palavra escrita, mas sim um intenso diálogo com as realidades sociais. Na leitura bíblica, se estudam questões de economia, sociedade e cultura, estando ela preparada para dialogar positivamente com qualquer outra ciência sobre tais assuntos. Um dos textos bíblicos mais voltados para a questão do meio ambiente e, portanto, objeto de inúmeras análises, é o poema da criação em Gêneses 1:1-2:4a. Sobre tal poema, o teólogo Kenner Terra afirma que: o poema da criação propõe, com linguagem simbólica, novas relações. Ele esvazia de valor o discurso teológico do explorador e opressor, apoderando exilados para sonharem com justiça, igualdade e liberdade entre homens, mulheres, animais e plantas. Assim, o mundo pensado primordialmente é harmonioso, com descanso justo e utilização responsável dos bens doados pela grande Mãe Terra. No entanto, esse discurso não os arranca da realidade, como se lhes tirassem o olhar da vida. Pelo contrário, ajudava-os ler a realidade de maneira crítica para atualização dos desejos que conseguimos ver brotar do poema. Instaura-se discursivamente a idéia de que nas antigas origens encontram-se a esperança do novo mundo possível (TERRA apud SOUZA, 2012, p. 56). É interessante notarmos ainda que sobre a última parte do poema, que faz referência ao shabat, o biblista compreende que: No mito da criação, o símbolo do sábado dá ao cuidado ambiental e social valores cósmicos e eternos: ‘assim era no princípio’, na anterioridade primordial’. Como dita a conclusão do poema: ‘este é o nascimento dos céus e da terra...’ (TERRA apud SOUZA, 2012, p. 56). TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 65 O descanso, o shabat, talvez tenha sido um dos âmbitos mais esquecidos pela humanidade moderna. O trabalho é contínuo, a luta é contínua, a construção é contínua. Parece não haver linha de chegada. Estamos sempre querendo mais e mais. Outro jovem teólogo, Filipe Maia, contempla o texto de Colossenses 1:13-23 para lembrar da unidade compulsória que há entre os concidadãos do planeta. mas, lembre-se: o mundo não está lá e nós aqui. O planeta é um ecossistema vivo e integrado do qual fazemos parte ou, como aprendemos com a carta de Colossenses, o planeta é corpo de Cristo unido pelos vínculos do amor (Cl 3:14). Em Cristo a Sabedoria do mundo, nós somos mundo. Somos terra, Adão, e, em Cristo, nos transformamos em novo Adão, nova terra. A nova criação é vasta, mas está próxima – ela é a nossa própria re-criação (MAIA apud SOUZA, 2012, p. 83). Há, nessa interpretação, uma clara esperança salvífica, ancorada sobre a ideia de recriação, ou seja, um novo formato de vida a partir de Cristo. Desse modo, o Cristo que nos salva por meio da cruz não difere do Cristo que é sabedoria do mundo, fazendo-nos redimidos não apenas no campo espiritual, mas no âmbito factual da vida na terra. É necessário reforçar que todos temos responsabilidade na construção desse novo mundo, dessa recriação, pois somos parte do corpo espiritual e socioambiental de Cristo. O teólogo complementa sua posição afirmando que: a figura de Cristo foi por muitos séculos interpretada em relação à realidade do mundo e à dança das estações. Quando a igreja definiu seu calendário litúrgico, ela pensou na celebração da Páscoa justamente como a celebração da chegada da primavera. A ressurreição de Cristo foi vista e pensada como a chegada das cores da primavera, da superação do frio do inverno. Pois chegou então o tempo de celebrarmos a ressurreição do Cristo lutando pela ressurreição de nossa casa-comum (MAIA apud SOUZA, 2012, p. 84). Essa ideia aponta para o fato de que a eucaristia, a participação de cada indivíduo no corpo e na paixão de Cristo, vai muito além do rito simbólico que realizamos em nossas igrejas. A participação pascal é também participação na casa-comum a qual não podemos nos omitir para não sermos, tais quais galhos podres que não mais dão frutos, sermos cortados e lançados ao fogo. 66 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância TEOLOGIA DA CRIAÇÃO A teologia da criação é indubitavelmente uma das áreas mais fundamentais da teologia. Sobre ela se constroem inúmeras teorias teológicas que se relacionam com campos desde a ética até a soteriologia. Ela é também uma das áreas que vêm emergindo com maior força no âmbito das discussões socioambientais teológicas. Dentre as muitas teologias possíveis, a América Latina tem sido pioneira também na produção de teologias da criação que contemplem a preocupação com o meio ambiente. O teólogo brasileiro que se destacou há algumas décadas na luta pelos direitos dos pobres, agora protagoniza a luta pelos direitos da natureza. Leonardo Boff tem produzido muito sobre tal assunto e com uma sobriedade invejável. Boff se mostra interessado não apenas na produção acadêmica, mas também na militância, bem como participação nos meios políticos e midiáticos, garantindo assim que a cada dia mais pessoas tenham contato com tais preocupações e vivam a práxis dessa nova militância teológica. Nas bases da teologia de Boff (2001) estão os princípios de responsabilidade e solidariedade. A criação como um todo precisa da participação consciente de todos os seus membros para que não se definhe rumo à morte. Tal teologia propõe que a responsabilidade do sujeito humano para com todos e tudo que foi criado consigo seja ilimitada. Somente assim, na preocupação e responsabilidade contínua com toda a criação, é que se pode respeitar o intento do criador e não pecar contra ele. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 67 Fonte: SHUTTERSTOCK.com CONSIDERAÇÕES FINAIS Todas as ciências estão voltadas para a compreensão e diálogo com as questões socioambientais. Se nós, teólogos e teólogas, não entrarmos também em tal diálogo, deixaremos uma lacuna substancial na contribuição das ciências humanas para as questões ambientais. Além disso, se a teologia de hoje não se atualizar em tal sentido, corremos grande risco de nos tornarmos uma ciência obsoleta, que caminha não para o desenvolvimento, mas para o ostracismo. ATIVIDADES DE AUTOESTUDO 1. Qual a responsabilidade da teologia para com o meio ambiente? 2. Qual a relação da teologia bíblica com o meio ambiente? 68 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância “Dopontodevistafilosófico,oexcessodemaldoqualsomosvítimaspodeouaniquilar-nostotalmente ou levar-nos à busca de caminhos alternativos. E é nessa linha que a destruição ambiental tem nos provocado a rever nossos hábitos de vida, nossa economia pessoal e coletiva e nossas crenças religiosas sobre a vida humana” (GEBARA, 2012, p. 98). A relação entre ética e ecologia deve ser repensada de maneira mais ampla. Podemos começar tal reflexãoapartirdacontribuiçãodoconhecidoteólogoLeonardoBoff. Disponível em:<http://www.youtube.com/watch?v=6YFTh2yEPlk>. As veias abertas da América Latina é um clássico que precisa ser lido por todo pesquisador de ciências humanas no Brasil e na América Latina em geral. Juventude e justiça socioambiental é uma obra que resulta do diálogo de jovens pensadores da rede ecumênica de juventude com pensadores renomados. SOUZA, Daniel (Org). Juventude e justiça socioambiental. São Leopoldo: CEBI/CLAI, 2012. GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 69 UNIDADE V TEOLOGIA DO CULTO CRISTÃO Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada Objetivos de Aprendizagem • Entender o que é a teologia do culto. • Mostrar a proposta litúrgica da teologia do culto. • Mostrar as particularidades da teologia do culto com a música. • Entender a relação do culto cristão com a arquitetura cristã. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Teologia litúrgica • Teologia e música • Teologia e arquitetura INTRODUÇÃO Nesta unidade, veremos alguns tópicos de teologia do culto. A teologia do culto ainda não é uma matéria, é mais um ramo de pesquisa que está despontando com algumas produções, mas que tende a ser muito estudada, pois fala do cotidiano do culto cristão. O último século nos trouxe muitas novidades em relação ao culto cristão. Tanto a liturgia quanto a música e a estrutura dos templos têm se modificado. Por isso é interessante que se reflita sobre os novos rumos do culto e sua preponderante relação com a teologia. TEOLOGIA LITÚRGICA A liturgia foi por muito tempo simplesmente uma regra a qual deveria ser fielmente seguida. Por outro lado, nos últimos anos, podemos ver uma pluralidade de formas litúrgicas nada tradicionais e por vezes desastrosas. No intuito de superar essa válida discrepância, a liturgia passa a ser estudada pela teologia para que se contemple a complexidade de tal ato. A teologia do culto vela pela interlocução entre a teologia do altar e a do mundo, ou seja, quer conectar as atividades da vida com os ritos sagrados. Nesse sentido, a liturgia pode exercer função central, renovando o espírito que pretende se ter em meio à cerimônia religiosa. Cada ato, cada movimento, cada texto lido ou música cantada na liturgia são partes da sacralidade da vida religiosa que devem ser reveladas. Assim, nada deve ser feito para que o rito seja meramente cumprido, mas é necessário que o mesmo faça sentido para os partícipes. A contextualização da liturgia é um elemento que pode inclusive ser copiado da igreja primitiva. Lá a linguagem falada e os símbolos utilizados estavam de acordo com as verdades vividas pelo povo e sua fé no Cristo ressurreto. Em nossos dias, o princípio deve ser o mesmo. Devemos dizer e agir de acordo com aquilo que faz sentido para nosso povo. É triste notar que muitas vezes a cerimônia da santa ceia, TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 73 por exemplo, é dotada de tamanho garbo e pompa que chega a intimidar as pessoas pobres e simples das comunidades. Mais triste ainda é perceber que na América Latina em geral, são os pobres quem compõem o corpo de Cristo nas diversas comunidades cristãs, e mais do que isso, no cotidiano da experiência cristã. O cristianismo possui em toda sua história uma relação direta com as festividades. Algumas vêm da tradição judaica, outras foram sendo introduzidas de acordo com a ocidentalização da religião cristã. Entretanto, em nossos dias, por conta da secularização, existem comunidades que simplesmente repetem seus ritos diariamente durante todo o ano. Não há um calendário litúrgico. A teologia do culto nos mostra que enquanto cristãos, devemos procurar a melhor forma de celebrarmos nossas datas especiais, que são de propriedade de nossa identidade cristã. Não devemos nos distanciar da festa de pentecostes, da celebração pascal ou do natal cristão. Não nos basta trocarmos o texto básico da mensagem para acompanhar tais datas. Devemos fazê-las vivas em nossas comunidades. Decididamente uma das piores experiências litúrgicas que já vivenciei foi uma na qual um carro de luxo era posto ao lado do altar, para que se pregasse algo sobre prosperidade. Não podemos nos render ao mundo no sentido paulino, ou seja, a meras tentações consumistas. A teologia do culto não propõe esse tipo de desvio. O que se propõe é que as obras do espírito sejam adornadas e propagadas de acordo com toda a beleza que a vida nesse mundo nos proporciona. Toda a criação louva ao Senhor, e nós devemos louvá-lo de acordo com ela. Temos cantos, cores, vidas e testemunhos. Não precisamos de roupas de marca ou carros de luxo. O louvor sincero exprime a mais bela liturgia, pois nele o corpo de Cristo se fortalece. Os louvores artificiais geram liturgias artificiais e não fortalecem nada além do mundo da moda e Fonte: SHUTTERSTOCK.com das marcas. 74 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância TEOLOGIA E MÚSICA A música e a religião estão lado a lado não apenas no cristianismo, mas em diversas culturas ao redor do mundo. Sem a música, nossos dias seriam mais tediosos e certamente encontraríamos dificuldade para expressar nossos anseios de louvor. Hoje, muitos confundem música com louvor e adoração. A teologia do culto sabe discernir bem tais elementos. Louvor e adoração estão na vida do cristão. A música é um meio para que se atinja tal fim, ela por si só nada pode. O poder da música junto ao ser humano é conhecido. Não é esse poder que se deve trazer para o culto cristão. A música pode fazer sorrir ou chorar, mas o templo não é um laboratório de experimento. A música serve para expressar aquilo que já está no coração e na vida da pessoa. Por outro lado, não é pelo fato da música ser cantada com sinceridade que ela se torna bonita. O que a teologia do culto propõe é que a beleza da sinceridade do coração do cristão deve soar de maneira uníssona com a beleza da canção. A canção, além de ser de alegria, pode ser de contrição e sofrimento. Os salmos bíblicos são ótimos exemplos das diversas formas de canção que podem ser entoadas pelo ser humano em direção a seu Deus. As letras, as notas, os ritmos e as temáticas das canções podem variar de acordo com a ocasião e com a comunidade, bem como podem variar de acordo com a geração. A música entoada no culto cristão não pode ser o portfólio de uma gravadora ou de um cantor religioso. Ela deve fazer referência à comunidade e ao seu modo de cantar músicas em culto. Também nos enganamos se acreditarmos que o espaço reservado à música no culto é um show no qual as celebridades da comunidade mostram seus talentos. Os talentosos são substituíveis, o bem-estar da comunidade e o agrado a Deus não. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 75 O cristão em sua relação com a música não precisa ter preconceito. Seguro do caminho que anda e firme em seu fundamento, pode conhecer vários estilos musicais e transformá-los em objetos de edificação de sua espiritualidade cristã. Há ainda a música que não é apenas secular, ou seja, apartada do rito sagrado, mas que é também profana. Esse é o tipo de música que o cristão deve repelir. No entanto, em todos os elementos da cultura existem elementos profanos, que proliferam o ódio e a discórdia. O corpo de Cristo deve se atentar para tais elementos não apenas na música, mas também na política, na educação, na literatura e no cinema. Contra tais elementos profanos se deve profetizar, ou seja, é necessário que se denuncie. Segundo o teólogo Paul Tillich (2005), a denúncia profética dos elementos profanadores da cultura é a base do que ele chama de princípio protestante, ou seja, a construção da justiça do reino de Deus a partir da denúncia dos males Fonte: SHUTTERSTOCK.com que reinam em nossa cultura. TEOLOGIA E ARQUITETURA A preocupação da teologia com a arquitetura é antiquíssima. Na origem do cristianismo como religião estatal, foram herdadas imagens arquitetônicas provindas do império. Todavia, com o passar dos tempos e o protagonismo no cristianismo em diferentes países e regiões, foram 76 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância feitas adaptações culturais. Hoje há uma adaptação suprema a ser feita. Vivemos em um mundo onde todas as pessoas podem participar de nichos fechados, bastante específicos, mas tendo como pano de fundo uma secularização crescente. O protestantismo desde Calvino viveu uma crescente limpeza dos templos. Não há dúvidas de que tal padrão de estética influenciou inúmeros movimentos evangelicais de origem estadunidense desde idos do século XIX. Até os dias de hoje igrejas protestantes e evangélicas ao redor do mundo pouco se utilizam da arquitetura, tendo como princípio ocupar um espaço no qual muitas pessoas possam assistir ao mesmo culto sentadas. A teologia do culto traz à tona a estética como parte fundamental do ser humano e mostra que a esfera na qual a religião é representada ritualmente interage continuamente com o que ali se pratica. Assim, o cuidado com os locais de cultos podem ser reanimados em nossos dias. A beleza das construções que acolhem os ritos cristãos deve apontar para a bondade de Deus, bem como para seu plano redentor. É ruim que se pregue a palavra da esperança em ambiente inadequado, onde reina a opressão e a liberdade é omitida. Além da construção do templo propriamente dito, a organização de seu interior, bem como os arranjos para datas festivas e calendário litúrgico devem ser olhados com atenção, pois todo o Fonte: SHUTTERSTOCK.com ambiente pertence a um fim comum. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 77 CONSIDERAÇÕES FINAIS A teologia do culto propõe que a estética seja otimizada, que façamos belos cultos em louvor ao Senhor. Todavia, não estamos falando da beleza dos palácios, estamos nos referindo à beleza da vida e da liberdade que Cristo nos dá por meio do sacrifício pascal. Desse modo, a ceia do Senhor deve ser adornada com os elementos de vida e liberdade que fazem sentido para nossas vidas. Toda a natureza evoca as belezas do amor infinito do Pai por nós. Nela, muitos elementos sacros podem ser encontrados, e eles podem fazer parte de nossos atos de louvor e adoração. Esses elementos podem ser adequados à realidade de nosso povo, que os pastores e pastoras precisam conhecer bem. É diferente a linguagem que se usa para uma comunidade urbana daquela que se usa para a comunidade rural. Esse cuidado nunca deve deixar de ser tomado. ATIVIDADES DE AUTOESTUDO 1. Qual a relação entre liturgia e estética? 2. Em que medida a música e a arquitetura podem interferir no culto cristão? Ocultoéafonteeoápicedamissão.OrelatodeAtos3exemplificaclaramenteoqueestamostentando mostrar: Pedro e João (que representam a Igreja) iam ao Templo para a oração (que é o culto); mas, no caminho (no interregno), encontram-se com o homem coxo (que representa o mundo carente do Evangelho). Nesse contexto, a Igreja interrompe sua caminhada rumo à liturgia para uma ação missionária sensorial e concreta (note-se o destaque dado para a visão, a audição e o tato, na narrativa – podemosaindainferiroolfato…).Quando,finalmenteaIgrejaeoMundosedãoasmãosepassama caminhar juntos, aí sim chega a vez do culto: entraram no Templo saltando e louvando a Deus (v. 10). O Culto é, portanto a fonte e o ápice da missão (culmen et fons, diriam os teólogos clássicos). O culto aguça os sentidos do Corpo de Cristo para a missão; dá-lhe olhos e ouvidos atentos; olfato e paladar sensíveis; e tato para o trato amoroso e misericordioso para interagir com aqueles e aquelas a quem a Igreja haverá de encontrar no caminho. Fonte: RAMOS, Luiz Carlos. Igreja, culto e missão. Disponível em: <http://www.luizcarlosramos.net/ igreja-culto-e-missao/>. Acesso em: 21 ago. 2013. 78 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Rubem Alves é um dos mais importantes autores da teologia contemporânea. Devemos repensar a estética e o culto a partir do pensamento dele. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=IX1OO368YJA>. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 79 CONCLUSÃO As cinco unidades que tratamos neste livro traçam o horizonte básico do estudo em teologia que está se desenvolvendo em nossos dias. São temáticas que estão em diálogo com outras ciências e têm sido bem absorvidas pelo cenário teológico acadêmico atual. Essas áreas estudadas contribuem não apenas para os temas em que se delimitam, mas contribuem também para a expansão do alcance das ciências humanas, explorando pontos que nunca antes foram discutidos e construindo novos métodos que possibilitem tais intentos. Por finalidades didáticas, foi necessário que optássemos pela divisão completa dos temas aqui propostos. Entretanto, no cotidiano do trabalho teológico, é comum que esses temas sejam tratados a partir de uma mesma demanda, promovendo assim um diálogo e uma complementação. Caro(a) aluno(a), é essencial que os temas aqui vistos não permaneçam como sementes de um engenho mais amplo, pois eles devem ser plantados e cuidados, gerando assim raízes, uma forte estrutura e frutos dos quais poderemos nos alimentar e alimentar futuras gerações de teólogos e teólogas. Independentemente de sua região, estado e cidade, lembre-se que ao engendrar os caminhos teológicos, podemos deixar marcas tanto nas pessoas que estão ao nosso redor e acompanham nossos estudos como para pessoas em qualquer parte do mundo que tenham o comum interesse pelo estudo teológico. Portanto, façamos de maneira correta e sincera o sério e responsável engenho teológico, para que tenhamos satisfação em nosso labor e para que nunca nos culpem por omissão de nosso talento. 80 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância REFERÊNCIAS ADAMS, James Luther. Paul Tillich’s philosophy of culture, science, and religion. New York: Schocken, 1965. ALVES, Rubem. O que é Religião? 9ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008. 131 p. AUERBACH, Erich. Figura. Trad. Duda Machado. São Paulo: Editora Ática, 1997. 86 p. Série Temas: Literatura e Filologia, v. 62. BARCELLOS, José Carlos. Literatura e Espiritualidade: Uma leitura de Jeunes Années, de Julien Green. Bauru: EDUSC, 2001. 134 p. BARCELLOS, José Carlos. Literatura e teologia: Perspectivas teórico-metodológicas no pensamento católico contemporâneo. In: NUMEM - revista de estudos e pesquisa da religião. V. 3, n. 2. Juiz de Fora: NEPREL/UFJF, 2000. pp. 9-30. BAUMAN, Z. Ética Pós-Moderna. São Paulo: Paulus, 1997. BINGEMER, Maria Clara. A argila e o espírito: ensaios sobre ética, mística e poética. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. pp. 85-163. Coleção Pensamento Vivo. BLOOM, Harold. Jesus e Javé: Os nomes Divinos. Trad. José R. O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. 274 p. . O cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 552 p. BOFF, L. Casamento Entre o Céu e a Terra. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. “O sertão é dele”: Algumas imagens de Deus e outros em João Guimarães Rosa. In: Tempo e Presença. São Paulo, 1994, Ano XVI, n. 275. Centro Ecumênico de Documentação e Informação. BUCKS, René. A Bíblia e a Ética: a relação entre a filosofia e a Sagrada Escritura na obra de Emmanuel Levinas. São Paulo: Loyola, 1997. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 81 CALASSO, Roberto. A literatura e os deuses. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 153 p. CALVANI, Carlos E. Teologia e Literatura: princípio profético, busca de sentido e ambigüidades na vida Religiosa. Theology and Literature: Prophetic Principle, Search for Meaning and Ambiguities in religious Life. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, 2008, n.14. ISSN 1677-2644. Disponível em: <http://www.metodista.br/ppc/correlatio/correlatio14/ correlatio14/teologia-e-literatura-principio-profetico-busca-de-sentido-e-ambiguidades-navida-religiosa/>. Acesso em: ago. 2009. . Paul Tillich - aspectos biográficos, referenciais teóricos e desafios teológicos. In: Paul Tillich trinta anos depois. Revista semestral de Estudos e Pesquisas em Religião. São Bernardo do Campo, Ano X, n.10. Umesp, 1995. . Teologia e MPB: um estudo a partir da teologia. São Bernardo do Campo, 1998. Tese de Doutorado – Universidade Metodista de São Paulo. CANDIDO, Antonio. Tese e Antítese. 4a edição. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000. 121-139 pp. Biblioteca de Letras e Ciências Humanas – Série 2a., vol. 8.: Textos. Conceição, Douglas R. da. Fuga da promessa e nostalgia do divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo teologia e literatura. Belém: UEPA; Campina Grande: EDUEPB, 2008. CRUZ, Eduardo Rodrigues da. A dupla face: Paul Tillich e a Ciência Moderna – Ambivalência e Salvação. Trad. Eduardo R. Da Cruz e Joshuah Soares. São Paulo: Edições Loyola, 2008. 302 p. DEBRES, Haidi. A expressão da espiritualidade na obra pictórica de Frida Kahlo no horizonte da teologia da cultura de Paul Tillich. São Leopoldo, 2005. Tese de Doutorado – Escola Superior de Teologia. ESTRADA, Juan Antonio. Imagens de Deus: A filosofia ante a linguagem religiosa. Trad. José A. Beraldin. São Paulo: Paulinas, 2007. 288 p. Coleção Espaço Filosófico. FABRI, Marcelo. Desencantando a ontologia: subjetividade e sentido ético em Levinas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997. 82 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância FRYE, Northrop. O código dos códigos: A bíblia e a literatura. Trad. Flávio Aguiar. São Paulo: Boitempo, 2004. 293 p. GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. GIBELLINI, Rosino. A Teologia do Século XX. Trad. João Paixão Netto. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 591 p. GILKEY, Langdon. Gilkey on Tillich. Wipf and Stock, 2000. GROSS, Eduardo. “A paixão segundo G. H.” de Clarice Lispector em diálogo com o pensamento de Paul Tillich. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n.08., 2005. ISSN 1677-2644. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/COR/ article/view/1739/1730>. Acesso em: ago. 2009. HARVEY, D. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 2004. HIGUET, E.; MARASCHIN, J. (org). A forma da religião: leituras de Paul Tillich no Brasil. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2006. HIGUET, Etienne. As relações entre Religião e cultura no pensamento de Paul Tillich. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n.14, 2008. ISSN 1677-2644. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/COR/article/view/1155/1165>. Acesso em: ago. 2009. HUMMEL, Gert (Ed.). God and Being: the problem of ontology in the philosophical theology of Paul Tillich; contributions made to the II International Paul Tillich symposium held in Frankfurt 1988. Berlin/New York: de Gruyer, 1989. IRWIN, Alexander C. Eros toward the world: Paul Tillich and the theology of the erotic. Wipf & Stock Publishers: 2004. JOSSUA, Jean-Pierre; METZ, Johann Batist et al. Teologia e Literatura. Revista Concílium/115: Teologia Fundamental. Petrópolis, 1976/5. Editora Vozes. 109 p. KEGLEY, Charles W. The Theology of Paul Tillich. New York: Pilgrim Press, 1982. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 83 KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras: Retratos Teológico-literários. Trad. Paulo Astor Soethe et al. São Paulo: Edições Loyola, 1999. 230 p. LEIBRECHT, Walter. Religion and culture: essays in honor of Paul Tillich. New York: Ayer, 1972. LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à idéia. Petrópoles: Vozes, 2002. MAGALHÃES, Antonio. Deus no Espelho das Palavras: Teologia e Literatura em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000. 216 p. Série: Literatura e Religião. MAGALHÃES, Antonio. Representações do bem e do mal em perspectiva teológico-literária: Reflexões a partir de diálogo com Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. In: V.V.A.A. Estudos da Religião. São Bernardo do Campo, Ano XVII, nº 24. UMESP, 2003. 81-96 p. MAGALHÃES, Antonio et al. Teologia e Literatura. In: Cadernos de Pós-Graduação/Ciências da Religião 9. São Bernardo do Campo: UMESP, 1997. 160 p. MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Edições Loyola, 1994. 387 p. MARASCHIN, Jaci. A (im)possibilidade da expressão do Sagrado. São Paulo: Emblema, 2004. . Teologia sob limite: Sete ensaios e um prefácio. São Paulo: Aste, 1992. 191 p. . Teologia e pós-modernidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. . A face sagrada do Eros: religião e corpo. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n.02., 2002. ISSN 1677-2644. Disponível em: <https://www.metodista.br/ revistas/revistas-ims/index.php/COR/article/view/1813/1797>. Acesso em: ago. 2009. . Relações entre arte e corpo no Brasil. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n.03., 2003. ISSN 1677-2644. Disponível em: < https://www.metodista.br/revistas/ revistas-ims/index.php/COR/article/view/1803/1788>. Acesso em: ago. 2009. 84 . É no corpo que somos espírito. In: Revista Estudos de Religião. São Bernardo do TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Campo, n.24. Ano XVII, jun. de 2003. UMESP. ISSN: 0103-801x. MARTIN, Bernard. The existentialist theology of Paul Tillich. Michigan: Bookman Associates, 1963. MAY, Rollo. Paulus. New York: Harper and Row, 1973. MUELLER, Enio R.; BEIMS, Robert W. (Orgs.) Fronteiras e Interfaces: O pensamento Paul Tillich em perspectiva interdisciplinar. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2005. 196 p. NUNES, Benedito. O dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969. Coleção Debates. PARRELA, F. Paul Tillich e o corpo. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n. 06, 2004. ISSN 1677-2644. Disponível em: <http://www.metodista.br/ppc/correlatio/ correlatio06/paul-tillich-e-o-corpo/>. Acesso em: ago. 2009. PAUCK, Wilhelm. Paul Tillich: his life & thought. New York: Harper and Row, 1976. PESSOA, Patrick. A segunda vida de Brás Cubas: a filosofia da arte de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. RAMOS, Luiz Carlos. Igreja, culto e missão. Disponível em: <http://www.luizcarlosramos.net/ igreja-culto-e-missao/>. Acesso em: 21 ago. 2013. RIBEIRO, C.O. A teologia da libertação morreu? São Paulo: Fonte Editorial, 2012. RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Entrevista com o autor Cláudio de Oliveira Ribeiro que escreveu o livro: A Teologia da Libertação Morreu? Reino de Deus e Espiritualidade Hoje. Entrevista concedida à Editora Santuário. Disponível em: <http://editorasantuario.com.br/releases/ index/page:9>. Acesso em: 09 ago. 2013. RIBEIRO JUNIOR, Nilo. Sabedoria da paz: Ética e Teo-lógica em Emmanuel Levinas. São Paulo: Loyola, 2008. SANTOS, Joe M. A teologia da cultura. In: MUELLER, Enio; BEIMS, Robert W. (Orgs.) Fronteiras e interfaces: o pensamento de Paul Tillich em perspectiva interdisciplinar. São Leopoldo: Sinodal, 2005. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 85 SILVA, Antonio Almeida da. Experiência estética versus experiência religiosa: anotações a partir dos estudos tillichianos sobre as artes plásticas. Correlatio (revista eletrônica). São Bernardo do Campo, n.13, 2008. ISSN 1677-2644. Disponível em: <https://www.metodista.br/ revistas/revistas-ims/index.php/COR/article/view/1671/1657>. Acesso em: ago. 2009. SILVA, Clademilson F. Paulino da. Liberdade e Sofrimento: O Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa em diálogo com a teologia de Juan Luis Segundo. São Bernardo do Campo, 2005. 133 p. Dissertação de Mestrado – Universidade Metodista de São Paulo. SILVA, Eli Brandão. O Nascimento de Jesus-Severino no Auto de Natal Pernambucano como Revelação Poético-Teológica da Esperança: Hermenêutica transtexto-discursiva na ponte entre Teologia e Literatura. São Bernardo do Campo, 2001. 294 p. Tese de Doutorado – Universidade Metodista de São Paulo. SILVA, Evandro Cesar Cantária da. O judaísmo encalacrado: mística e religião em “A hora da estrela” de Clarice Lispector. São Bernardo do Campo, 2006. Dissertação de Mestrado – Universidade Metodista de São Paulo. SMITH, Steven G. The argument of the other: reason beyond reason in the thought of Karl Barth and Emmanuel Levinas. California: Scholar Press, 1983. SOUZA, Daniel (Org.) Juventude e justiça socioambiental: perspectivas ecumênicas. São Leopoldo: CEBI/CLAI, 2012. SPERBER, Suzi Frankl. Identidade e alteridade: conceitos, relações e prática literária. Campinas: Unicamp/IEL, 2008. SUNG, J. M. Se existe Deus por que há pobreza? São Paulo: Reflexão, 2011. Tillich, Hannah. From time to time. New York: Stein and Day, 1973. TILLICH, P. A coragem de ser. 6 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. . Amor, poder e justiça. São Paulo: Fonte Editorial, 2004. . Christianity and the Encounter of the World Religions. New York & London: Columbia University Press, 1963. 86 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância . Dinâmica da Fé. Trad. Walter O. Schlupp. 6 ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2001. 87 p. . Dynamics of faith. New York: Perennial, 2001. . Filosofia de la religion. Buenos Aires: La Aurora, 1973. . On art and architecture. Michigan: Crossroad, 1987. . Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX. 2 ed. São Paulo: ASTE, 1999, p. 255. . Teologia da cultura. Trad. Jaci Maraschin. São Paulo: Fonte Editorial, 2009. . Teologia da cultura. Trad. Jaci Maraschin. São Paulo: Fonte Editorial, 2009. . Teologia Sistemática. Trad. Getúlio Bartelli. 5 ed. revista (três volumes em um). São Paulo: Paulinas/São Leopoldo: Sinodal, 2005. 735 p. . The Future of Religions. New York: Harper & Row Publishers, 1966. . The religious situation. Michigan: Meridian books, 1956. . Theology of Culture. Oxford-England: Oxford University Press, 1959. . What is religion. New York: Harper & Row, 1973. . On art and architecture. Michigan: Crossroad, 1987. TREVISAN, Armindo. A sombra luminosa: ensaios de estética cristã. Petrópolis: Editora Vozes, 1994. 138 p. TROCH, Live (Org.) Passos com paixão: Uma Teologia do dia-a-dia. Trad. Monika Orttemman. São Bernardo do Campo: NHANDUTI, 2007. 95 p. YUNES, E. Murilo, Cecília e Drummond. São Paulo: Loyola, 2004. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 87 ANEXO I OLHANDO A TERRA DE FORA: O DISCURSO DE PAUL TILLICH ACERCA DA INFLUÊNCIA DOS AVANÇOS ESPACIAIS SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA Autor: Elton Vinicius Sadao Tada ([email protected]) Mestrando em Ciências da Religião – UMESP - Aluno bolsista da Capes. Orientador: Claudio de Oliveira Ribeiro INTRODUÇÃO Esse artigo pretende contemplar alguns aspectos discutidos por Paul Tillich (1886- 1965) em uma de suas últimas conferências, especificamente no que diz respeito à relevância dos avanços nas pesquisas espaciais. Tal assunto é apresentado por Tillich já em sua velhice. Todavia, essa velhice apresentava um novo Tillich, disposto a refletir sobre o futuro da teologia e especialmente da mesma a partir da análise da história das religiões. Tillich foi um teólogo reconhecido pela abrangência e solidez de seus pensamentos, ainda que hoje já sendo deveras colocado em dúvida por perspectivas tanto na teologia quanto na filosofia, suas duas áreas de concentração, ambas apontando para a cultura. SOBRE O ESPAÇO, COSMOVISÕES E O SER HUMANO No texto aqui analisado Tillich propõe a discussão sobre dois temas centrais, os efeitos da exploração espacial sobre o ser humano a idéia que o homem passa a ter sobre si próprio. Para a discussão sobre o efeito da exploração espacial no ser humano é necessário a análise da condição humana. Com relação ao pensamento que o homem tem sobre si pressupõe-se que o fato de atravessar a fronteira da gravidade eleva a base pensamento das capacidades humanas. Chegou-se a um novo local. Agora o inalcançável está ainda mais além. Tillich afirma que a situação do homem em seu tempo é conseqüências de uma série de eventos iniciados no renascimento. O renascimento não trouxe uma revitalização dos princípios da antiguidade, mas apresentou o nascimento da modernidade em vários aspectos. O renascimento proporcionou um apreço especial pelas ciências técnicas e a relação das ciências puras com as aplicadas. 88 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância Na Grécia, a realização da vida dentro do cosmos pode ser demonstrada por um círculo. No fim da antiguidade e durante a idade média há um enorme esforço por se transcender o natural em prol do alcance do além, aquilo que transcende o cosmos, por isso, tal período pode ser simbolizado por uma linha vertical. A partir do renascimento há uma horizontalidade nessa linha, pois o cosmos é considerado objeto de transformação do homem e de Deus. Essa preocupação de Tillich em situar e ilustrar as diferentes cosmovisões aponta para uma reinterpretação do cosmos na modernidade. Talvez reinterpretação seja até um termo equívoco, posto que significa uma interpretação feita novamente, de modo que a modernidade pode ser considerada como vanguardista em seu estilo de cosmovisão. Todavia, o termo reinterpretação não seja tão equívoco por se tratar também de uma nova visão o cosmos. Seja qual for a melhor nomenclatura, o fato é que com o princípio da modernidade surge também um pensamento fortemente positivo. Esses pensamentos são reforçados pelo progresso da técnica principalmente a partir da revolução industrial. As máquinas, a produção, os inventos, as descobertas físicas, biológicas, e tantas outras, fazem com que se creia na possibilidade do avanço contínuo, do progresso constante humano, em prol de um telos, um fim. Essa carga de crença no progresso, na técnica, na horizontalidade (termo já acima utilizado) do cosmos chega com duas importantes participações, parecidas, mas divergentes em suas funções. Por um lado, essa “mente” moderna se deu como fundamento, no sentido cartesiano de construção do conhecimento, no qual um edifício se faz sobre uma base sólida. Por outro lado, se dá como pano de fundo, isto é, está sempre presente, ainda que em segundo plano, nos eventos que aqui possuem caráter de análise central, a saber, as influências da exploração no ser humano (especialmente na condição humana) e sobre aquilo que o ser humano passa a crer como sendo seus limites a partir da quebra da barreira terrestre, ou seja, o que o ser humano pensa de si próprio nessa situação. É oportuno dar um passo adiante nessa discussão. Que seja questionado o seguinte: quais foram as reações emocionais ante a exploração espacial? Não apenas a resposta tem valor como também a discussão que envolve a busca pela mesma. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 89 Três palavras hão de ser ressaltadas aqui: surpresa, admiração e orgulho. Esses termos já apresentam os primeiros pontos que deverão ser discutidos para elucidar a questão das reações emocionais do ser humano. Todavia, há uma ressalva a ser feita. De forma pertinente Tillich faz um comentário que parece ser tão importante quanto a questão central, e que acompanha sempre a obra de Tillich. O teólogo faz um comentário que pode ser considerado político, se levado em conta o contexto do autor na década de sessenta: “[...] incrementados pela vanglória nacional daqueles que haviam firmado esta façanha, e diminuídos quando não aniquilados, pelo sentimento de humilhação nacional daqueles que também poderiam ter feito, mas não o fizeram” (TILLICH, 1976, p.27). Há aqui uma referência notável quanto a guerra fria, na qual os dois grandes blocos mundiais batalhavam através da descoberta e avanço em vários aspectos, ou seja, de fatores que demonstravam a superação de uma ala contra a outra, o que sempre possuía efeitos sérios e contundentes. Nesse caso o avanço das pesquisas espaciais foi um “prêmio” concorridíssimo, num contexto repleto de “minas políticas” as quais poderiam explodir a qualquer momento. Aqui nota-se também que além da influência que a exploração espacial tem sobre o ser humano em relação com o cosmos também tem significâncias, como na política, no sentimento patriota, e na segurança baseada na crença de potencialidade de um indivíduo dentro de seu contexto nacional. Voltando novamente à questão há de se dizer que além dos sentimentos já citados existe também um assombro. Esse assombro se dá exatamente no momento em que o indivíduo percebe que tal acontecimento não se conclui em si, mas possui conseqüências, sendo algumas mais rasas e outras deveras profundas. Na verdade o assombro está diretamente relacionado com a reflexão acerca da potencialidade humana. É uma realidade assombrosa porque o ser humano olha a terra de fora dela. Olhar a terra de fora como é proposto por Tillich está relacionado não apenas com olhar a terra de longe ou de cima dela. Muito além disso, Tillich ressalta que o mundo é visto de um plano cósmico diferente. Há muito a ser dito nesse ponto. Talvez mais do que seja conveniente para essa pesquisa. No entanto algumas coisas não podem ser omitidas. Por exemplo, a terra é vista de um plano cósmico diferente, porém essa visão não é alcançada metafisicamente, na verdade ela é fruto de pesquisas extremamente físicas recheadas com instrumental tecnológico. 90 Não menos importante é a identificação que indivíduos tiveram com os homens que TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância puderam olhar à terra de fora dela. Tornaram-se heróis. Esse é o momento no qual inclusive a rivalidade nacional é deixada de lado, em prol da admiração com aqueles que participaram da façanha mais estrondosa para o homem e sua relação com o cosmos: A imagem do homem que olhando a baixo vê a terra, não do céu, mas de um plano cósmico situado acima da terra, se converteu em objeto de identificação e de elevação psicológica de inúmeras pessoas (TILLICH, 1976, p.28). Hoje, não é difícil de se imaginar como essa notícia pode ter afetado também a imaginação dos homens na época das primeiras explorações espaciais. Além dos aspectos já citados, a imaginação humana também teve base para alçar novas perspectivas. A questão sobre a possibilidade de vida extra-terrestre foi presente quando se parte da descoberta de que se pode chegar a lugares até então desconhecidos. A mente humana agora não pode negligenciar o fato de ter saído de sua realidade terrestre não somente por imaginação, mas fisicamente. Isso pode influir tanto na imaginação, como na cultura, na arte, literatura, cinema, etc. Todavia, um ponto muito negativo é que, se o homem pode se livrar da fronteira terrestre também pode estar avançando em potencial de destruição. Na realidade do pós-guerra todas essas possibilidades servem como aviso e se apresentam firmemente ante a questão política daquele momento: A íntima relação entre a exploração espacial e os preparativos para a guerra tem projetado uma sombra negra sobre a atitude emocional positiva no que diz respeito a exploração espacial (TILLICH, 1976, p.31). Agora o problema emocional já está bem discutido dentro da proposta do presente trabalho. É importante partir para um olhar de nova perspectiva. Tillich propõe que alguns juízos podem ser feitos no que diz respeito a questões éticas relacionadas com o assunto (TILLICH, 1976, p.31). O processo de desmitologização da terra pode chegar a uma alienação nesse momento da história. Por quê? Porque as funções e atitudes humanas são postas num patamar o qual deixa de valorizar a realidade natural da terra. Assim, tudo que a terra passa a ser é objeto, como numa relação sujeito-objeto na qual o homem é sempre sujeito. Esta é uma realidade alienante. Aqui se percebe que a mentalidade moderna no sentido de visão do cosmos atinge seu ápice. Ou seja, enquanto no medievo se buscava a transcendência buscando algo que estivesse acima, representado por uma linha vertical agora definitivamente deixa de existir em TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 91 prol de uma horizontalidade acentuada. Tillich percebe que o avanço se dá por si próprio, não buscando um fim, mas apenas pela necessidade de se avançar: “se trata de avançar para não retroceder, constantemente, e sem contar com um objetivo concreto” (TILLICH, 1976, p.33). Esse posicionamento extremamente horizontal implica em alguns problemas no comportamento humano, a saber, “a perda de todo conteúdo significativo e à vacuidade” (TILLICH, 1976, p.33). Sintomas de tal situação são os posicionamentos de indiferença cinismo e angústia. Será que a ciência tem culpa sobre isso? Será necessário freiar o processo de avanço científico? A que ponto pode chegar as influências da ação científica no comportamento, emoção, espírito e organização social do ser humano? Tais questões são ao certo imprecisas. O fato é que não se pode para por medo, ou por levar em conta os riscos de uma atitude. Ao menos não nesses parâmetros. Não se deve agir com medo, pois é fato que independentemente da visão horizontal ter se posto fortemente ela não pôde acabar com a verticalidade a qual necessita a transcendência humana. Por isso, nem a condição nem o alcance humano tem se alterado, senão o pensamento que o próprio homem pode elaborar com respeito a isso. Sendo assim pode-se perguntar com relação aos investimentos que são feitos para a exploração espacial. Certamente não se pode negar que os investimentos nesse âmbito são altos. Não seria correto deixar de lado as investigações espaciais para se focar em questões postas como mais importantes, tais quais a cura de doenças ou a igualdade social? Tillich propõe que esses pontos são realmente importantes, mas afirma que a justiça e o amor partem da ação cotidiana e devem estar presentes dentro do homem em todas suas relações. Não é com a parada das investigações espaciais que se resolverão os problemas epidêmicos ou sociais. Além disso, Tillich afirma que se esta prerrogativa for sempre levada em conta então nunca se avançará em nível cultural. Todas as ações culturais ficarão restritas nessa raiz. 92 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância CONSIDERAÇÕES FINAIS É importante agora lembrar que Tillich não faz apenas apontamentos sobre um assunto inicialmente visto com estranheza. O que o teólogo faz é refletir sobre o ser humano a partir de uma realidade presente em seu tempo. Julga-se importante trazer essa questão à tona agora porque hoje já existe uma geração que nasceu após o homem ter saído da terra. Não apenas isso. Somos parte de uma geração que acorda sempre com descobertas científicas novas, e muitas delas colossais. Cabe deixar a questão, apenas norteadora, se conseguimos hoje fazer, ao molde de Tillich, uma reflexão sobre a condição humana levando em conta todas as bizarrices reais de nosso tempo. Ainda é importante que se pergunte se são válidas as notas feitas por Tillich sobre o homem que não evidencia a idéia de progresso, que vai além de uma cosmovisão moderna. Levando em conta essas reflexões, cabe agora apenas lembrar que mundos continuam sendo deixado e vistos de fora, e que a terra que outrora foi vista de uma forma, hoje já não é mais assim e que os limites nos quais apoiamos nossos pés na reflexão teológica hoje podem não ser tão concretos quanto pensamos ser, assim como o cosmos não é tão definido quanto parece. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DUMAS, A.; BOSC, J.; CARREZ, M.; Novas fronteiras da teologia. São Paulo: Duas cidades, 1969. HIGUET, E.; MARASCHIN, J;(org). A forma da religião: leituras de Paul Tillich no Brasil. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2006. MONDIM, B.; Grandes teólogos do séc. XX. São Paulo: Teológica, 2003. RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Religiões e salvação: indicações para o diálogo inter-religioso na teologia de Paul Tillich. Numen – Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Vol. 3, n.2, jul/dez 2000. pp. 31-46. TILLICH, Paul; El futuro de las religiones. Buenos Aires: Megápoles, 1976. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 93 ANEXO II A problemática entre teoria da arte e teologia da cultura em Paul Tillich Elton Sadao Tada*6 Marcia Boroski**7 RESUMO Este artigo analisa a problemática entre teoria da arte e teologia da cultura no pensamento de Paul Tillich. Inicialmente, os autores questionam qual arte é possível ser pensada a partir de Tillich. Passando pela pintura, poesia e Música Popular Brasileira (MPB), os autores sugerem, para a interpretação da arte visada, a dimensão existencial e seu sentido profundo, tendo seu auge com a revelação do incondicionado. Ao final, a conclusão aponta questionamentos, dentre eles, a validade de uma teologia da arte. Palavras-chave: teoria da arte; teologia da cultura; Paul Tillich. The problem between the theory of art and the theology of culture of Paul Tillich ABSTRACT This article examines the problem between the theory of art and the theology of culture in Paul Tillich. Initially, the authors propose the question of which art can be thought from Tillich’s thought. Through the issue of painting, poetry and “Música Popular Brasileira” (MPB), the authors suggest, for the interpretation of viewed art, the existential dimension and its deeper meaning, having its highest point with the revelation of the unconditioned. At the end, the conclusion highlights some questions, including the validity of a theology of art. Key words: theory of art; theology of culture; Paul Tillich. Introdução No cenário acadêmico brasileiro dos dias atuais podemos ver pesquisas interessantes e 6 7 Professor de Teologia do Cesumar – Centro Universitário de Maringá – Paraná. Mestre e doutorando em Ciências da Religião pela Universidade metodista de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro. Formanda em comunicação social pela UEL – Universidade estadual de Londrina. 94 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância diversas que têm como princípio ou referencial teórico o pensamente de Paul Tillich. A questão que aqui se põe é sobre a área específica de pesquisas que de algum modo ligam o pensamento tillichiano com expressões artísticas. Como Tillich foi o teólogo da cultura, parte de sua obra foi dedicada para o estudo e interpretação de obras de arte. É notório que esse trabalho de Tillich sobre a arte não foi algo sistematizado. Tanto é que a obra que mais trata sobre essa temática – ou melhor, o conjunto mais amplo de escritos nessa linha – é uma coletânea tardia de artigos, chamada “sobre arte e arquitetura”. No Brasil são conhecidos trabalhos como o do Dr. Calvani, que fala sobre teologia e MPB, tendo Tillich como base para tal estudo; a dissertação de mestrado sobre Cândido Portinari, feita por Antonio Almeida Rodrigues da Silva; outro sobre Frida Khalo, feita por Haidi Drebes; outro trabalho sobre MPB, frisando Gilberto Gil, feito por Clariezer Araújo dos santos; e também minha dissertação de mestrado sobre Clarice Lispector, entre outros. Esses exemplos de trabalhos de pós-graduação servem apenas para que possa ser feita a pergunta: o que temos entendido como arte no âmbito do estudo tillichiano sobre a mesma? Começo dizendo que, Cândido Portinari e Frida Khalo são hoje objetos de estudo das belas artes. Não é diferente com relação a Clarice Lispector. Essas afirmações que tenho feito podem ser facilmente negadas se vistas por outro ângulo, mas se forem apresentadas de maneira mais nua querem questionar: é possível interpretar realmente qualquer tipo de arte a partir de Tillich? Pois existe música, literatura, pintura, escultura e arquitetura as quais eu realmente duvido um dia serem objetos de pesquisa a partir de nosso pressuposto teórico tillichiano, e que ainda assim são considerados por determinadas pessoas como expressões artísticas válidas. Para ilustrar eu gostaria de indagar como seria uma tese sobre a mística dos romances de Paulo Coelho a partir de Tillich; ou ainda o princípio protestante camponês do Sertanejo Universitário de Luan Santana; ou seja, o que estamos fazendo e o que deve ser dito e pesquisado sobre a arte em Tillich? Desenvolvimento É necessário que seja feita aqui uma citação do próprio Paul Tillich para continuarmos nosso raciocínio: TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 95 Não existe estilo algum que exclua a expressão artística da preocupação suprema, pois o absoluto não se restringe a formas particulares das coisas ou experiências. Mostra-se presente ou ausente em qualquer situação. Brilha numa paisagem, num retrato ou em cenas humanas, dando-lhes a profundidade do sentido (TILLICH, 2009, p.118). Quando Tillich afirma que o absoluto não se restringe a formas particulares tem-se a sensação de que uma teologia da arte tillichiana deve ser algo bastante amplo, algo que possa compor discussões nas mais diversas esferas do que se possa compreender como obra de arte. Tillich parece hierarquizar as obras de arte de acordo com sua intensidade religiosa e com seu formato cultural. Disto, sugere-se um entendimento de seu conceito de estilo. No pensamento do autor, ele não leva em questão o estudo de uma obra de arte por si só, mas valoriza a possibilidade de influência da mesma no ato de desvelamento da questão existencial em sentido profundo. Quando esta perspectiva é pequena ou nula em determinada obra de arte, logo se nota que o interesse pela mesma é menor. Uma obra que não possui uma intensidade religiosa profunda, não serve de objeto de análise para um teólogo, nem muito menos como princípio questionador do filósofo, mas sim, como objeto de estudo formal e crítico de um estudioso da arte (cf. TILLICH, 2009, p. 113 ss.). A revelação do incondicionado é o ponto mais importante da análise da obra de arte. Tillich não cria um sistema objetivo de como interpretar as obras de arte. Isso é pertinente na medida em que se espera dela uma revelação, ou seja, não é o sujeito da análise que consegue retirar da obra de arte um caráter revelatório, mas é ela mesma, que vista com olhos atentos, pode apontar para o incondicionado. Esse entendimento pode gerar a dúvida sobre a pertinência da análise da obra de arte a partir do pensamento tillichiano, pois se fosse esperado dela uma revelação do incondicionado então poder-se-ia simplesmente contemplá-la. A validade do discurso sobre a obra de arte se dá pelo fato da mesma estar contida no conjunto de elementos que gera a cultura. A cultura aparenta ser nesse sentido o objeto último de análise. E sobre a análise da cultura Tillich apresenta uma estrutura mais firme. Entretanto, em 1952, na primeira de três palestras ministradas na escola de arte de Minneapolis, intitulada “arte e natureza humana” Tillich afirma que: 96 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância “art makes us aware of something of which we could not otherwise become aware. We realize the quality of things which, without artistic intuition and creation, would remain covered forever” (On art and architecture, p.16). Aqui podemos notar o teólogo já com 66 anos, ou seja, na maturidade de seu trabalho, afirmando como a arte é detentora de um caráter único. Tal caráter pode ser exemplificado, mas não foi explicado detalhadamente pelo autor. O que pode ser dito, ainda que em caráter especulativo é que o conceito de coragem de ser normalmente é trazido à tona quando se trata das análises tillichianas da arte, o que implicaria em dizer que ele não se afasta de uma proposta ontológica, quiçá existencial, quando elabora suas análises sobre a arte. Para sair dos sempre citados exemplos da Madonna de Boticceli, e da Guernica de Picasso, vejamos o que Tillich diz sobre poesia: “I was most deeply impressed by the later poetry o Rilke. Its profound psychoanalytical realism, mystical richness, and poetic form charged with metaphysical content made this poetry a vehicle for insights that I could elaborate only abstractly through the concepts of my philosophy of religion. For myself and my wife, who introduced me to poetry, the poems became a book of devotions that I read again and again” (On art and architecture, p.6) O trecho citado pertence ao capítulo: “entre realidade e imaginação” da autobiografia, “on the boundary”. Mais uma vez há uma mescla de experiência existencial e análise crítica. Pois, se o teólogo afirma que os poemas de Rilke se tornaram para ele um livro de devoção, ou um livro devocional que é capaz de produzis insights, primeiro são afirmados os caracteres filosóficos, como o realismo psicanalítico e a carga metafísica, ou seja, é feita uma análise de conteúdos da arte, que é reconhecida por Tillich como já citamos acima, como uma maneira única de revelação, sem a qual, determinados conteúdos permaneceriam ocultos. A discussão que aqui se desenvolve sobre a arte no contexto do pensamento de Paul Tillich pode ser ilustrado por uma música de Zeca Baleiro e Zé Ramalho, ambos músicos da MPB: Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio Faço um quadro com moléculas de hidrogênio Fios de pentelho de um velho armênio Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta Meu conceito parece, à primeira vista, Um barrococó figurativo neo-expressionista TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 97 Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista calcado da revalorização da natureza morta Minha mãe não entendeu o subtexto Da arte desmaterializada no presente contexto Reciclando o lixo lá do cesto Chego a um resultado estético bacana Com a graça de Deus e Basquiat Nova York, me espere que eu vou já Picharei com dendê de vatapá Uma psicodélica baiana Misturarei anáguas de viúva Com tampinhas de pepsi e fanta uva Um penico com água da última chuva, Ampolas de injeção de penicilina Desmaterializando a matéria Com a arte pulsando na artéria Boto fogo no gelo da Sibéria Faço até cair neve em Teresina Com o clarão do raio da silibrina Desintegro o poder da bactéria Com o clarão do raio da silibrina Desintegro o poder da bactéria A música, que se chama Bienal, trata da problemática sobre o que é ou não uma obra de arte, e de como a mesma vem ganhando novas perspectivas rompendo padrões. Na verdade os intérpretes parecem possuir uma certa ironia com relação ao assunto, entretanto, a própria música é uma desconstrução musical, é uma apresentação diferenciada. Se voltarmos agora à primeira citação de Tillich de que não há estilo que exclua a preocupação suprema logo devemos deixar de lado a discussão sobre o que é uma arte válida para ser analisada tillichianamente e devemos começar a nos preocupar com qual arte vale a pena ser analisada em geral. As desconstruções são afirmações do movimento real que a cultura tece na sociedade pela 98 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância história. Seria ingênuo negarmos isso. As bizarrices que hoje nos afligem podem e vão se tornar clássicos de amanhã. O medo de lidar com a arte tillichianamente não é mais do que o próprio medo de lidar com arte, seja ela qual for. O importante parece ser conseguirmos chamá-la de arte. Justamente essa recusa em lidar com a arte tillichianamente pode ser encontrada dentro do expressionismo. Esta corrente, querida por Tillich em sua ala germânica, se manifestou não só na pintura e na literatura, mas também na música, na dança, no cinema e na arquitetura. Entretanto, foi no campo das artes plásticas que o expressionismo teve mais expoentes. A conceituação de expressionismo pode ser, ao mesmo tempo, vaga e incisiva. A abrangência de diversas facetas se faz necessária ao considerar o expressionismo como uma forma artística, cuja essência é a expressão do mundo exterior manifestado em imagens, e outros produtos, através de criatividade pura e primitiva, sem a mediação de um interlocutor que julgue esta essência. Para Tillich, o expressionismo era visto não apenas como uma corrente, delimitada por um período. Era uma “atitude existencialista” e poderia aparecer em qualquer época, dada a propensão do homem em reagir aos fatores que lhe eram propostos. Ele propôs a categorização do estilo em dois: um positivo e um crítico. O expressionismo positivo se revelava na arte primitiva, no período bizantino e nos estilos góticos e barrocos. Já o expressionismo crítico era aquele que revelava os elementos errantes e demoníacos. Essa possibilidade conferida pelo expressionismo tem ligação direta com a origem do blues. O estilo musical se fundamenta, também, na experimentação das sensações do homem e, a partir delas a concepção de um produto natural, experimental e único. Conclusão Após a presente discussão algumas questão saltam à minha vista, as quais certamente carecem de um apreciação mais detalhada. Primeiramente, a questão mais ampla é se a Teologia da Cultura de Tillich, ou seja, sua interpretação das formas e dos conteúdos culturais e sua busca por interpretá-los em TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 99 correlação com os problemas existenciais humanos é um princípio que abarca toda tentativa de se fazer uma teologia da arte tillichiana. Em segundo lugar, e sendo uma questão a qual tenho lucidez de que não será facilmente respondida – e talvez nem mesmo deva ser respondida – é o que é ou não uma obra de arte. Essa questão se põe porque se é pretendido fazer uma teologia da arte tillichiana, logo seria necessário entender o que é arte. Se a intenção é fazer uma teologia da arte partindo dos pressupostos tillichianos, acredito poder inferir que não apenas o conceito “teologia”, mas também o conceito “arte” deveria ser interpretado a partir do pensamento de Paul Tillich. Caso contrário, faria-se uma teologia da arte na qual o a teologia é tillichiana, mas a arte é delineada por algum outro conceito, o qual deve ser apresentado pelo teólogo que assim pretende proceder. Por último, a questão que talvez seja a mais possível de ser respondida por nós, pesquisadores do pensamento tillichiano, é sobre a validade de uma teologia da arte. Pois cabe a quem conhece do pensamento tillichiano responder se há alguma diferença entre fazer uma teologia da arte a partir de Tillich, ou se simplesmente devemos nos preocupar em fazer correlações possíveis, procurar expressões existenciais válidas que possam ser aberturas para o entendimento da condição humana bem como para o encontro com o incondicionado. Referências bibliográficas CALVANI, Carlos E. Teologia e Literatura: princípio profético, busca de sentido e ambigüidades na vida Religiosa. Theology and Literature: Prophetic Principle, Search for Meaning and Ambiguities in religious Life. Revista eletrônica Correlatio N.14. São Bernardo do Campo: 2008. Consultada em Agosto de 2009. Disponível em <www.metodista.br/correlatio> ISSN 1677-2644. CONCEIÇÃO, Douglas R. da. Fuga da promessa e nostalgia do divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo teologia e literatura. HIGUET, Etienne. As relações entre Religião e cultura no pensamento de Paul Tillich. Revista eletrônica Correlatio N.14. São Bernardo do Campo: 2008. Consultada em Agosto de 2009. Disponível em <www.metodista.br/correlati o> ISSN 1677-2644. 100 TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância LEIBRECHT, Walter. Religion and culture: essays in honor of Paul Tillich. New York: Ayer, 1972. MARASCHIN, Jaci.Relações entre arte e corpo no Brasil. Revista eletrônica Correlatio N.03. São Bernardo do Campo: 2003. Consultada em Agosto de 2009. Disponível em <www. metodista.br/correlatio> ISSN 1677-2644. PAUCK, Wilhelm. Paul Tillich: his life & thought. New York: Harper and Row, 1976. SILVA, Antonio Almeida da. Experiência estética versus experiência religiosa: anotações a partir dos estudos tillichianos sobre as artes plásticas. Revista eletrônica Correlatio N.13. São Bernardo do Campo: 2008. Consultada em Agosto de 2009. Disponível em <www.metodista. br/correlatio> ISSN 1677-2644. TILLICH, PAUL. On art and architecture. Michigan: Crossroad, 1987. . Teologia da cultura. Trad. Jaci Maraschin. São Paulo: Fonte editorial, 2009. . Theology of Culture. Oxford-England: Oxford University Press, 1959. . Filosofia de la religion. Buenos Aires: La Aurora, 1973. TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância 101