Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA
GRADUAÇÃO
TEOLOGIA
MARINGÁ-PR
2013
Reitor: Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de Administração: Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de EAD: Willian Victor Kendrick de Matos Silva
Presidente da Mantenedora: Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Diretor Comercial, de Expansão e Novos Negócios: Marcos Gois
Diretor de Operações: Chrystiano Mincoff
Coordenação de Sistemas: Fabrício Ricardo Lazilha
Coordenação de Polos: Reginaldo Carneiro
Coordenação de Pós-Graduação, Extensão e Produção de Materiais: Renato Dutra
Coordenação de Graduação: Kátia Coelho
Coordenação Administrativa/Serviços Compartilhados: Evandro Bolsoni
Coordenação de Curso: Edrei Daniel Vieira
Gerente de Inteligência de Mercado/Digital: Bruno Jorge
Gerente de Marketing: Harrisson Brait
Supervisora do Núcleo de Produção de Materiais: Nalva Aparecida da Rosa Moura
Design Instrucional: Rossana Costa Giani
Capa e Editoração: Daniel Fuverki Hey, Fernando Henrique Mendes, Humberto Garcia da Silva, Jaime de Marchi Junior,
José Jhonny Coelho, Nara Emi Tanaka Yamashita, Robson Yuiti Saito e Thayla Daiany Guimarães Cripaldi
Supervisão de Materiais: Nádila de Almeida Toledo
Revisão Textual e Normas: Jaquelina Kutsunugi, Keren Pardini, Maria Fernanda Canova Vasconcelos, Nayara Valenciano,
Rhaysa Ricci Correa e Susana Inácio
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - UNICESUMAR
C397
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância:
Temas Atuais em Teologia. Elton Vinicius Sadao Tada.
Maringá- PR., 2013.
101 p..
“Graduação em Teologia – EaD”
1. Teologia. 2. Pós Modernidade. 3. Literatura. 4. Economia. 5. Meio
Ambiente.
6. Culto Cristão. EaD. I. Título.
CDD 22ª Ed. 201
NBR 12899 - AACR/2
“As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir dos sites PHOTOS.COM e SHUTTERSTOCK.COM”.
Av. Guedner, 1610 - Jd. Aclimação - (44) 3027-6360 - CEP 87050-390 - Maringá - Paraná - www.cesumar.br
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
APRESENTAÇÃO DO REITOR
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos.
A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para
liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no
mundo do trabalho.
Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos
nossos fará grande diferença no futuro.
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o
conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros.
No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas
do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento
de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar busca a integração
do ensino-pesquisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma
prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência social e política e,
por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com
a sociedade.
Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja reconhecimento como uma instituição
universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a
distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e
administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o
mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os
egressos, incentivando a educação continuada.
Professor Wilson de Matos Silva
Reitor
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação,
pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos
e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De
que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de
alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo
contemporâneo.
O Centro Universitário Cesumar, mediante o Núcleo de Educação a Distância,
o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996):
“Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à
proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação
profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em
situação de realidade, de maneira a inseri-lo(a) no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais
têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma,
possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a
sua formação pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento
deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro
Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual
de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das
discussões. Além disso, lembre-se de que existe uma equipe de professores e tutores que se
encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem,
possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica.
Então, vamos lá! Desejo bons e proveitosos estudos!
Professora Kátia Solange Coelho
Coordenadora de Graduação do NEAD - Unicesumar
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
APRESENTAÇÃO
Livro: TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Caro(a) aluno(a), é com grande prazer que apresento o material que você deve utilizar para o
estudo da disciplina Temas Atuais em Teologia. Há alguns anos tenho me dedicado ao estudo
das atualidades teológicas e faço questão de dividir com você aquilo que há de mais atual e
academicamente relevante sobre tal disciplina. Minhas pesquisas se dão no âmbito do diálogo
entre teologia e literatura, um novo campo de pesquisa que ainda está se consolidando, mas
que já conta com contribuições de acadêmicos renomados e a produção de materiais muito
interessantes. O diálogo entre teologia e literatura em particular, e entre religião e artes em
geral, será um dos pontos abordados na presente disciplina.
Outros temas igualmente interessantes serão tratados. A relação entre teologia e meio ambiente, por exemplo, é algo que todo teólogo da atualidade precisa saber tratar. Vivemos em
um mundo no qual os rumos do nosso planeta são bastante questionados, os recursos para a
manutenção da vida humana estão sendo perigosamente degradados e o posicionamento da
teologia clássica muitas vezes não responde às questões que são igualmente atuais e iminentes. Nesse sentido, vários pesquisadores e pensadores da teologia têm voltado seu olhar para
tentar responder com pertinência a uma demanda social urgente.
A disciplina que trata sobre as temáticas atuais da teologia não pode ser vista como nada menos do que o âmbito do curso de teologia que prepara seus estudantes para sair do ambiente
acadêmico sabendo lidar com os problemas reais da sociedade atual. Sem essa preparação,
muitos teólogos e teólogas não conseguem dialogar com o mundo ao seu redor, e têm seus
trabalhos limitados ao âmbito de revisão de questões já trabalhadas por teologias de outros
séculos. Mais importante do que dividir com você o conteúdo sobre as temáticas que serão
abordadas no presente texto, é mostrar que a teologia pode e deve dialogar com o ambiente
ao seu redor, ou seja, que nós, teólogos e teólogas, temos capacidade e liberdade de dialogar
com demais profissionais das mais diversas áreas sobre os assuntos que pedem atenção.
A divisão do presente material é bastante simples e parte do princípio de que você, aluno(a),
deva ter liberdade para conhecer camadas diversas sobre uma mesma temática, incentivando
acima de tudo a curiosidade para que determinados temas se tornem seus objetos de pesTEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
7
quisa. Trataremos primeiramente o que diz respeito ao local da teologia na pós-modernidade.
Desse modo, se apresentará um panorama geral sobre qual a situação do pensamento do
ser humano contemporâneo. Em segundo lugar será tratada a relação entre teologia e literatura, que pretende exemplificar como os horizontes que podem ser tocados pela teologia
contemporânea são amplos. A terceira unidade discutirá as polêmicas relações entre teologia
e economia. Nesse sentido, é muito importante que se entenda a diversidade de contextos
econômicos que vivemos no Brasil em nossos dias. Em quarto lugar trataremos de perguntas
que têm sido levantadas sobre como a teologia deve lidar com os problemas ambientais. Por
último, e mais voltados para a prática do cristianismo, debateremos alguns posicionamentos
sobre a teologia do culto, ou seja, pensaremos sobre as especificidades das manifestações
cúlticas e litúrgicas contemporâneas.
Não existe uma forma de escrever que seja totalmente neutra, isto é, por mais que eu não
queira imprimir minha opinião nas páginas que se seguem, há ainda o peso da forma como
penso tais assuntos. Por isso, prefiro deixar o aviso de que este material, assim como qualquer
outro que você se depare, deve ser utilizado como um princípio de diálogo, ou seja, uma voz
específica dizendo coisas específicas a respeito de determinada temática. A sua opinião e
pesquisa é que determinarão a forma como deverá conduzir os trabalhos teológicos que irá
fazer na prática da profissão.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
SUMÁRIO
UNIDADE I
TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE
O QUE É PÓS-MODERNIDADE.............................................................................................13
POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE.................................18
A DIFERENÇA ENTRE A TEOLOGIA FEITA SOBRE A PÓS-MODERNIDADE E A TEOLOGIA
PÓS-MODERNA......................................................................................................................21
UNIDADE II
TEOLOGIA E LITERATURA
UM NOVO CAMPO DE ESTUDO............................................................................................35
A QUESTÃO DO MÉTODO......................................................................................................41
UNIDADE III
TEOLOGIA E ECONOMIA
TEOLOGIA E ECONOMIA NA AMÉRICA LATINA..................................................................53
O PROBLEMA DO CAPITAL VERSUS SOCIAL: A QUESTÃO DO CONSUMO.....................56
ABORDAGENS ATUAIS DA RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E ECONOMIA..........................57
UNIDADE IV
TEOLOGIA E MEIO AMBIENTE
SITUAÇÃO ACADÊMICA DA QUESTÃO ................................................................................63
LEITURAS BÍBLICAS...............................................................................................................65
TEOLOGIA DA CRIAÇÃO........................................................................................................67
UNIDADE V
TEOLOGIA DO CULTO CRISTÃO
TEOLOGIA LITÚRGICA...........................................................................................................73
TEOLOGIA E MÚSICA.............................................................................................................75
TEOLOGIA E ARQUITETURA.................................................................................................76
CONCLUSÃO...........................................................................................................................80
REFERÊNCIAS........................................................................................................................81
ANEXO I...................................................................................................................................88
ANEXO II..................................................................................................................................94
UNIDADE I
TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Objetivos de Aprendizagem
• Entender a mudança de pensamento e comportamento da modernidade para a
pós-modernidade.
• Visualizar as possíveis relações entre religião e pós-modernidade.
• Entender as diferenças entre o estudo da pós-modernidade e o engenho pós-moderno.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• O que é pós-modernidade
• Possíveis relações entre teologia e pós-modernidade
• A diferença entre a teologia feita sobre a pós-modernidade e a teologia pós-moderna
INTRODUÇÃO
Quando assistimos aos noticiários ou lemos matérias em revistas de grande circulação,
podemos notar com frequência a presença da temática da pós-modernidade. Uma dica que
dou a você é sempre desconfiar de um assunto complexo tratado de maneira muito simplista.
Não se deixe cair no erro de trazer para o ambiente acadêmico noções restritas de temáticas
que precisam ser bem elaboradas.
A questão da pós-modernidade é hoje um dos assuntos mais mal compreendidos em nossa
sociedade. O mais comum é confundir a pós-modernidade com um tipo de liberalismo
amplo que quer se impor na sociedade em detrimento dos valores fortes de outrora. A pósmodernidade – sobretudo para nós que estudamos teologia – nada tem a ver com tal ponto e
deve ser compreendida como uma cadeia de eventos bastante complexos que precisam ser
entendidos de maneira minuciosa.
O QUE É PÓS-MODERNIDADE
A pós-modernidade é algo que nós só poderemos entender quando nos certificarmos
que entendemos bem a noção de modernidade. Por isso pergunto você: quais são seus
conhecimentos sobre a modernidade, e especialmente sobre a teologia moderna?
Outro aviso que preciso dar a você é que pós-modernidade não é entendida da mesma forma
em âmbitos diferentes do pensamento. Por exemplo, as artes em geral conseguem lidar de
maneira muito mais profícua com tal conceito do que qualquer outra ciência. A arquitetura traz
consigo uma ideia de superação da modernidade que envolve fatores sociais e antropológicos
muito importantes. A filosofia e a teologia, por outro lado, ainda estão construindo maneiras de
dialogar com tal conceito, e podemos ter certeza de que qualquer autor que ouse propor um
fim ou uma finalidade específica a tal questão está se precipitando grandemente.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
13
A modernidade é uma época marcada pelo reinado da racionalidade. Esse reinado não
pode ser considerado algo ultrapassado, pelo contrário, é algo ainda bastante vigente. Um
exemplo simples que posso dar a você é que em qualquer curso de graduação precisamos
ter as disciplinas muito bem divididas e independentes, com uma carga horária específica e
um conteúdo a ser estudado predeterminado, sobre o qual precisamos ser avaliados. Essa
postura é o entendimento de que é necessário que se verifique racionalmente a aptidão do
aluno e da aluna em relação ao aprendizado de determinados conteúdos.
Costumo brincar que em cada sala de aula das universidades existe um René Descartes
escondido atrás de uma porta ou embaixo de uma mesa. Descartes é o filósofo que marca o
início da modernidade. Vou explicar rapidamente como se entende o pensamento cartesiano.
Descartes tem duas obras que são fundamentais para o entendimento de seu pensamento.
A primeira se chama Meditações Sobre Filosofia Primeira e a segunda é conhecida como
Discurso do Método. Essas obras são do século XVII e devem ser entendidas como o princípio
de superação do pensamento medieval. Nas meditações o que Descartes faz é se propor a
tentar responder a seguinte questão: como eu posso saber que eu existo? Na tentativa de
responder a tal dilema, ele afirma que sabe que existe porque pensa. Daí se deriva a célebre
máxima cartesiana: “penso, logo existo”. O interessante é notarmos que o filósofo faz um longo
percurso antes de chegar a tal afirmação. Ele pergunta, por exemplo, como pode ter certeza
de que está acordado e não sonhando? A essa questão e a tantas outras ele só consegue
responder que tem certeza que existe pelo fato de estar pensando na existência.
O pensamento tem função central no entendimento do ser humano moderno. Tudo que se
considera correto durante a modernidade deriva de uma explicação racional. Acredito que
você já tenha ouvido falar de um movimento chamado Iluminismo. Tal movimento é um exemplo
bastante sincero de como se dá o pensamento moderno. Imannuel Kant, um representante
de tal movimento, nos explica que se temos uma opinião sobre determinado assunto e tal
opinião é divergente, devemos repensar a questão, pois necessariamente um de nós está
recaindo sobre algum erro ou engano intelectual. Ele afirma isso partindo do pressuposto de
14
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
que tanto eu quanto você somos dotados de racionalidade, e a racionalidade é igual em todos
os seres humanos. Assim sendo, se eu utilizar corretamente minha racionalidade e você usar
corretamente a sua, sempre chegaremos a uma mesma opinião, pois a racionalidade que rege
meu modo de pensar rege também o seu.
A ciência que se desenvolve durante a modernidade é também muito racionalista. Pensadores
como Francis Bacon e David Hume nos ensinam que a ciência deve ser feita de modo
experimental que comprove suas teorias. As teorias, quando comprovadas, acabam se
tornando leis. A lei da inércia de Newton, por exemplo, nos diz que todo corpo em repouso
tende a manter-se em repouso assim como todo corpo em movimento tende a manter-se em
movimento. O movimento só cessará por uma força exterior e um corpo só sairá do repouso
quando sofrer a ação de alguma força alheia. Afirmar tal teoria não é suficiente. Para a
mentalidade moderna é necessário que se prove. Nós, entretanto, não precisamos refazer
os testes e experimentos que comprovam a lei da inércia, confiamos que a racionalidade dos
cientistas de outra época é tão confiável quanto a nossa.
O advento do Iluminismo fez com que o ser humano se elevasse na relação com o conhecimento.
A ciência enquanto método que não havia sido expressivo durante idade média começara a
se desenvolver. Nas artes, na filosofia, na teologia, nas ciências naturais e em outros diversos
âmbitos houve um grande aumento da produção técnico-metodológica.
Essa produção era necessária para que fossem criadas verdades universais relacionadas
às ciências. Não que de fato alguém tenha alcançado uma verdade aplicável totalmente a
determinado conhecimento, mas com certeza foram desenvolvidos vários “sistemas” de
pensamento.
Esses sistemas são regras desencadeantes, formulados sobre pressupostos que implicam
necessariamente num determinado fim. Assim, o método da ciência era baseado num sistema
demonstrável logicamente.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
15
As universidades na modernidade foram nichos nos quais essas produções eram
incansavelmente efetuadas. Nesses ambientes, a história que hoje se estuda foi produzida.
As diferentes correntes de pensamento foram construídas nesse momento, idealismo,
naturalismo, racionalismo, empirismo e várias outras correntes e rótulos foram desenvolvidos
na necessidade de afirmação ou objeção de paradigmas de tal sociedade.
A produção do conhecimento nesse momento histórico ficou um tanto quanto restrito ao
ambiente acadêmico, principalmente pela falta de acesso da sociedade em geral aos textos
básicos estudados e aos estudos.
O estudo que outrora, na idade média, se restringia a alguns clérigos de maior prestígio, agora
tinha um alcance um pouco maior. As obras de difícil acesso como as clássicas começaram a
ser reproduzidas com o advento da imprensa. A reprodução gráfica eliminou a necessidade da
cópia manual de quaisquer livros, o que aumentou a oferta e baixou o preço dos livros.
Chegando a modernidade, os livros não eram um bem comum a toda sociedade, mas eram
possuídos pelas grandes universidades históricas. Justamente por isso o ambiente acadêmico
tornou-se o berço da produção científica e filosófica.
Outro grupo de pessoas que tinham acesso a grandes obras eram as famílias tradicionais
muito ricas. Isso não implica necessariamente que o material por elas possuído era utilizado
positivamente ou estudado exaustivamente. Muitas dessas famílias possuíam uma vasta
biblioteca pelo simples fato de que tal atitude ostentava uma determinada “imagem” socialmente
prestigiada. Em outras palavras, era “chique” possuir uma grande biblioteca.
Todavia, há muitos relatos de estudiosos que serviam como tutores dos filhos de famílias
abastadas e que consequentemente tinham acesso a essas bibliotecas e faziam suas
pesquisas nesse ambiente. Isso não exclui a passagem anteriormente dessas pessoas pela
academia ou o retorno constante a ela.
Isso demonstra como era o ambiente acadêmico da modernidade. Mais uma vez, é pertinente
16
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
citar a universalidade da educação universitária moderna.
O pensador moderno tinha preocupações políticas, sociais, filosóficas, físicas, matemáticas,
biológicas etc. A obra de um único indivíduo era recheada por produções em todos esses
sentidos. Para tanto, era necessário que ele tivesse uma educação básica que compreendesse
as línguas clássicas, o ensino cristão em grande parte dos casos e, também, a literatura.
A noção atual de pós-modernidade que faz mais sentido para a análise acadêmica é aquela
herdeira da noção arquitetônica de pós-modernismo. Nesse sentido, modernismo diz respeito
a um tipo específico de construções, enquanto o pós-modernismo é a superação de tal
estilo. O mesmo é válido para as artes visuais no sentido mais amplo. É essencial que você
perceba que a noção artística e acadêmica de pós-modernidade se diferencia de uma noção
antropológica ou sociológica. Socialmente, não há uma afirmação conjunta de repúdio ao
estilo social da modernidade. Uma das áreas mais marcantes e de mais fácil compreensão da
estrutura moderna da sociedade é o modo de produção industrial, bem como a forma como
a sociedade se articula financeiramente a partir das formas de trabalho. Por mais que hoje
vivamos com algumas brechas sobre o modo de trabalho, os arranjos e posições de cada
profissão, ainda lidamos com a lógica simples do lucro empresarial com bases no emprego
Fonte: SHUTTERSTOCK.com
formal e fixo do trabalhador dotado de competência limitada e uniforme.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE
O século XX trouxe diversas inovações no âmbito do pensamento, especialmente aquele
que reivindicava papel de preponderância ante a situação política que se instaurou em um
mundo atormentado por grandes guerras. Desse ambiente se sobressaem os pensadores
que apontam para as dificuldades sociais, fazendo com que o mundo se estreite, ou seja, que
a já questionada metafísica perca ainda mais seu sentido. Parecia ser altamente incoerente
pensar as coisas que se esquivam da physis quando o mundo tangível clamava por reflexões
que atendessem às suas demandas.
Filósofos em busca de sentido para seus engenhos se tornaram pensadores sociais. A escola
de pensamento social de Frankfurt é o mais óbvio exemplo disso. Enquanto Heidegger em
Marburg relia Nietzsche e se preocupava com o franco declínio da validade da ideia de
progresso, os frankfurtianos ensaiavam suas válidas contribuições sobre o consumo dos
produtos artístico-culturais.
Nas fronteiras e nomadismos do pensamento encontramos figuras que desenvolvem suas
teorias por vias inéditas. Deve-se citar como exemplo desses profetas periféricos que
frequentavam as festas dos palácios intelectuais pessoas como Erich Fromm e Emannuel
Levinas. Erich Fromm, que chegou a ser partícipe da escola de Frankfurt, passou toda sua
vida no linear entre suas interpretações dos pensamentos de Karl Marx e Sigmund Freud,
considerando o segundo mais importante que o primeiro. Levinas era intérprete do pensamento
judaico clássico, mas não resistiu às tentações de pensar a metafísica e a ontologia desde
os pressupostos gregos. Esse é o tipo de pensamento mais pertinente a ser aqui analisado.
Vejamos por que o pensador Lituão propõe um desencantamento da metafísica.
O diálogo entre Tillich e Levinas é deveras fértil1. Um primeiro olhar pode imaginar que eles se
Outro diálogo que seria muito pertinente é sobre a obra de arte entre Tillich e Levinas. Tillich teve uma
produção, ainda que relativamente curta, bastante expressiva sobre a arte. Bem como Levinas também tece
seus comentários: “Para Levinas a arte traz sempre a possibilidade de uma renovação essencial, pois as cores,
os sons, as palavras, e tudo o mais que é apto a tornar-se um substantivo portador de adjetivos, remetem-se ao
1
18
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
apresentam como antagonistas. Entretanto, mostrar-se-á aqui tanto as principais diferenças
quanto semelhanças dos autores em questão.
Deve-se questionar: o que é a pós-modernidade e por que relacionar o diálogo desses dois
autores com a mesma? Para responder a primeira questão, talvez não haja local melhor no
contexto da teologia brasileira para se recorrer do que a obra de Jaci Maraschin. Valhe-monos, pois, dela:
Quando se pensa na superação da metafísica e da Teologia e se relaciona essa
possibilidade com a condição pós-moderna, muita gente sente medo de que a
alternativa seja a irracionalidade. Na verdade, o que se busca é uma nova forma de
pensar que não se circunscreva aos métodos estabelecidos pela filosofia tradicional
nem pela lógica formal (MARASCHIN, 2004, p. 130).
E acrescenta a importante informação:
Heidegger, por exemplo, demonstrou o que já estava em germe principalmente em Hegel
depois em Nietzsche, Marx e Freud e, finalmente, na pós-modernidade. Demonstrou
que esse tipo de pensamento se esgotara nesses movimentos de experiência e da
razão, anunciando tanto a morte da metafísica como também da teologia (MARASCHIN,
2004, p. 122).
Indubitavelmente, a questão da pós-modernidade torna essa discussão ainda mais interessante.
A questão da metafísica é chave para a pós-modernidade. Por isso ela se torna um link
importante da presente discussão. Na verdade, nem Tillich nem Levinas parecem estar muito
preocupados com questão da pós-modernidade. Tillich não chegou a dialogar com as teorias
pós-modernas como se apresentam hoje. O que ele vivenciou foi o declínio da credibilidade da
metafísica enquanto filosofia primeira, o que de fato não chegou a considerar como um evento
muito válido. Levinas não se preocupou em defender uma condição pós-moderna ou militar
por essa causa. Ele simplesmente quis apregoar a importância da alteridade em suas últimas
consequências, ou seja, para seu engenho, ele superaria a metafísica ou qualquer outra coisa
que se pusesse em seu caminho. Ele critica os modismos de sua época:
ser” (FABRI, 1997, p.127). Sobre a arte em Tillich, conferir: MARASCHIN, J. A impossibilidade da expressão
do Sagrado. São Paulo: Emblema, 2004; especialmente p. 25 e seguintes.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
19
Fim do humanismo, fim da metafísica – a morte do homem, morte de Deus (ou morte
a Deus) -, idéias apocalípticas ou slogans da alta sociedade intelectual. Como todas
as manifestações do gosto – e dos maus gostos – parisienses estas proposições se
impõem com a tirania da última moda, mas se colocam ao alcance de todos os bolsos
e se degradam (LEVINAS, 1993, p. 91).
Mesmo assim, ele acaba se aliando bastante com alguns princípios pós-modernos:
Pensar, após o fim da metafísica, é responder à linguagem silenciosa do convite;
é responder, do fundo de um escutar, à paz que é a linguagem original; pensar é
maravilhar-se deste silêncio e desta paz (LEVINAS, 1993, p. 96).
Nesse ponto ele se difere de Tillich. Para Tillich, existe a inquietude da pergunta pelo ser-emsi, existe a preocupação última (ultimate concern), não a paz.
Outro ponto importante na relação entre Tillich e Levinas é a presença do sujeito. Tillich
afirma categoricamente o “eu”, enquanto Levinas o nega constantemente. Para Tillich: “o eu,
ao ter um mundo ao qual pertence – esta estrutura altamente dialética – precede lógica e
experimentalmente todas as outras estruturas” (TIILICH, 2005, 174). Já no pensamento de
Levinas:
A condição da subjetividade é a condição de refém, explicada pela passividade para
além da identidade do Mesmo. Dizer eu é confirmar uma unicidade de único, é dizer
eis-me aqui. Por conseqüência, a substituição é uma inversão da própria identidade
(FABRI, 1997, p. 162).
Agora, vejamos uma aproximação final de Tillich e Levinas, a partir da teologia pós-moderna
de Jean-Luc Marion, apresentada aqui por Fabri:
Vamos aprofundar o tema da idolatria utilizando as contribuições de Jean-Luc Marion,
autor que se aproxima de Levinas na medida em que pergunta sobre a possibilidade
de se compreender o problema de Deus independentemente da ontologia ou do Ser.
Segundo Levinas, trata-se de uma tentativa profunda e sutil de pensar o problema de
Deus à distância da diferença ontológica (FABRI, 1997, p. 149).
Se Levinas procura um Deus que não se dá na diferença ontológica, talvez o Deus de Tillich
lhe seria uma opção, pois é um Deus que se mostra no “mistério” do ser. E esse mistério, como
já foi desenvolvido, trata-se da pergunta pelo ser-em-si, que é um ser que possui um não ser,
20
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
e que não pode ser categorizado na “diferença ontológica”2:
Fundamentado nas críticas heideggerianas à onto-teo-logia, Jean-Luc Marion refere-se
ao fato de que a metafísica, na medida em que busca uma certa apreensão de Deus, só
pode fazê-lo mediante as figuras da eficiência, da causa e do fundamento. Isso significa
que, ao demonstrar Deus como causa sui, o discurso metafísico o mostra como ídolo,
dizendo muito pouco do ‘Deus divino’ (FABRI, 1997, p. 151).
O engenho da metafísica de apreender Deus não é algo assumido por Tillich. Ele sempre
expõe a debilidade da ontologia na busca do Deus divino. O Deus além de Deus de Tillich
não se demonstra a priori como um Deus idolátrico, como um ser enaltecido em meio a outros
seres, mas, pelo contrário, em muitos momentos parece estar apontando para o mesmo infinito
para o qual a ética levinasiana aponta3:
A análise levou à percepção de que, se Deus é experienciado como Deus vivo e não
como uma identidade morta, deve haver um elemento de não-ser no ser de Deus, isto é,
o estabelecimento da alteridade. A vida divina seria então a reunião da alteridade com
a identidade num ‘processo’ eterno. Esta consideração nos levou à discussão de Deus
como fundamento, Deus como forma e Deus como ato, uma fórmula pré-trinitária que
conferia sentido ao pensamento trinitário. Certamente, os símbolos trinitários exprimem
os mistérios divinos assim como todos os outros símbolos que afirmam algo sobre
Deus. Este mistério, que é o mistério do ser, permanece inacessível e impenetrável; ele
é idêntico à divindade do divino (TILLICH, 2005, p. 722).
A DIFERENÇA ENTRE A TEOLOGIA FEITA SOBRE A PÓS-MODERNIDADE
E A TEOLOGIA PÓS-MODERNA
Um erro grosseiro que se costuma cometer em relação ao entendimento da relação entre
teologia e pós-modernidade é confundir a teologia que se faz sobre o pós-moderno com uma
Nilo Júnior transpõe a questão de maneira mais simples: “Nesse sentido o Deus que se diz na palavra já não
cabe na ontologia. Deus como bem é Palavra e, portanto, é o Bem melhor que o ser. Esta palavra ordena fazer
o bem ao outro e a cuidar de sua sorte e de sua morte. Apesar da aproximação sempre maior entre o Bem e o
bem do outro, isto é, do mandamento do rosto e da palavra de Deus, a filosofia da alteridade insiste em que não é
possível dizer ainda que a palavra ‘Deus’ seja Deus mesmo se dizendo” (RIBEIRO JUNIOR, 2008, p.449).
2
3
Cf. Levinas, E. Ética e infinito.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
21
teologia que seja pós-modernista. Por trás de toda questão há ainda quem julgue ruim ou
inapropriado qualquer estudo voltado para a pós-modernidade, uma vez que a mesma tende a
suspender os juízos morais modernos.
Não há motivos para temer a pós-modernidade acreditando que a mesma irá suspender valores
correspondentes ao cristianismo. Não há um conteúdo autoritário na pós-modernidade, mas
sim o apontamento de uma diferenciação estilística quando comparada ao período moderno.
Também não existe um “alguém” que seja responsável pelo pós-moderno, que o tenha
idealizado e que tire vantagens de sua propagação. Na história da humanidade, é comum que
se entenda as mudanças naturais que as diversas sociedades sofrem pelo curso natural dos
fatos, bem como por sua necessidade de manutenção ou anseio de desenvolvimento. De fato,
o que é considerado pós-moderno só incide necessariamente nas sociedades que viveram
uma modernidade linear, norteada pela lógica cartesiana. Qualquer comentário que supere
tal perspectiva se trata de uma leitura equivocada do movimento histórico ou de uma tentativa
sensacionalista de promover uma escatologia mentirosa.
O pós-modernista é aquele que defende a mudança de posicionamento estilístico, seja na
arte, economia, relações pessoais ou estruturas sociais. Uma teologia pós-moderna seria
um estudo promotor de um advento de mudança estrutural na forma de se pensar criação,
redenção, graça e salvação. Nesse sentido, você pode se ater à procura de uma teologia que
se volte para tal proposta nas mais diversas tradições e línguas, e dificilmente a encontrará.
O que se pode encontrar com certa facilidade é uma teologia que questiona seu método de
trabalho no ambiente da filosofia pós-metafísica. Ou seja, levando em conta que a metafísica é
algo que pode ser superado filosoficamente, como seria possível fazer uma teologia relevante
partindo do pressuposto que muitos assuntos da teologia são fundamentalmente metafísicos?
Existe uma diferença relevante entre a teologia que é feita em prol da disseminação de uma
estrutura pós-moderna de pensamento e uma teologia que quer entender e dialogar com os
âmbitos pós-modernos da cultura contemporânea.
22
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Existem diversas correntes, interpretações e estudos sobre o pós-moderno, entretanto, não
há um estatuto pós-moderno. A pós-modernidade não é algo ainda bem definido, e se dá de
maneira correspondente com seu recente surgimento. Talvez as áreas que melhor expressam
esse recente fluxo pós-moderno sejam as artes e a filosofia. A teologia não se dá como
pioneira nesse assunto, mas discorre sobre o tema a partir da necessidade de entender e
responder as demandas da contemporaneidade.
Começo com o que parece ser o fato mais espantoso sobre o pós-modernismo: sua
total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico que formavam
uma metade do conceito baudelairiano de modernidade. Mas o pós-modernismo
responde a isso de maneira bem particular; ele não tenta transcendê-lo, opor-se a ele
e sequer definir os elementos “eternos e imutáveis” que poderiam estar contidos nele.
O pós-modernismo nada, e até se espoja, nas fragmentárias e caóticas correntes da
mudança, como se isso fosse tudo o que existisse (HARVEY, 2004, p. 49).
Em primeiro lugar a própria estrutura capitalista de nosso Estado tende para uma educação
superficial que está muito ligada com o movimento de neomodernidade (pós-modernidade)
que apresenta a efemeridade desvairadamente, a qual não demonstra tempo nem interesse
em valores educacionais concretos e profundos. Aliás, é importante continuar aqui algumas
reflexões sobre a pós-modernidade.
O pós-modernismo, por exemplo, representa uma ruptura radical com o modernismo ou
é apenas uma revolta no interior deste último contra certa forma de “alto modernismo”
representada, digamos, na arquitetura de Mies van der Rohe e nas superfícies vazias
da pintura expressionista abstrata minimalista? Será o pós-modernismo um estilo ou
devemos vê-lo estritamente como um conceito periodizador (caso no qual debatemos
se ele surgiu nos anos 50, 60 ou 70)? (HARVEY, 2004, p. 47).
Harvey faz essas questões já tendo em mente a hipótese que pretende defender. Fato é que
em momento algum da história pode-se dizer que um período segue o outro imediatamente.
Não há uma definição exata de períodos. Não houve, na passagem do medievalismo para a
modernidade, um acordo mundial no qual todos os feudos deixaram de funcionar de um dia
para o outro e as cidades se formaram imediatamente. Há um processo. Uma ruína e um
triunfo. Nesse sentido, como a pós-modernidade é algo estritamente recente, Harvey prefere
entender o estilo pós-moderno, aquilo que o marca e delimita suas fronteiras. Não há como
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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dizer que o pós-moderno foi imposto ou que passou a funcionar a partir de uma data. Pode-se
dizer que há um estilo pós-moderno, que pode vir a substituir a modernidade, complementá-la
ou conviver com a mesma.
Harvey cita ainda um evento importante:
No tocante à arquitetura, por exemplo, Charles Jencks data o final simbólico do
modernismo e a passagem para o pós-moderno de 15h32m de 15 de Julho de 1972,
quando o projeto de desenvolvimento de habitação Pruitt-Igoe, de StLousi (uma versão
premiada da “máquina para a vida moderna” de Le Corbusier), foi dinamitado como um
ambiente inabitável para as pessoas de baixa renda que abrigava (HARVEY, 2004, p.
45).
O projeto de desenvolvimento de habitação Pruitt-Igoe era como que um troféu da modernidade.
Ele expressava arquitetonicamente as características mais marcantes da modernidade. A
funcionalidade, a mecanicidade, a ausência estética, a reprodutividade funcionava como um
altar ao fordismo. Entretanto, precocemente foi dinamitada. Não resistiu, não subsistiu às
demandas do mundo atual. E isso simbolizou, de algum modo, a insuficiência do sistema e
estilo moderno. A modernidade é marcada pela tecnicidade e funcionalidade. Assim como a
forte expressão dialética e idealista. Desse modo, os frankfurtianos, por exemplo, fazem uma
crítica bela e ferrenha das atividades culturais e artísticas sempre levando em conta o pano de
fundo do ideário neomarxista.
Fonte: <http://www.arquitetonico.ufsc.br/pruitt-igoe>
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Outro ponto marcante da passagem do moderno ao pós-moderno é a tribalização globalizada.
Esse é um dado bastante interessante para a educação em geral. A fragmentariedade
pós-moderna irrompeu nas camadas mais populares da sociedade sem necessidade de
conceituação ou consciência desse ato:
As neotribos são indubitavelmente erupções da socialidade – expedições em geral
não-planejadas ao mundo além do alcance moral, agora não mais apertadamente
“estruturadas” nem pelas comunidades hereditárias nem pelos órgãos legislativos do
estado político; breves invasões de reconhecimento impulsionadas por uma esperança
(embora não por perspectivas realistas) de mais colonização protraída, sempre
duradoura (BAUMAN, 1997, p. 163).
Nós, caro(a) aluno(a), que queremos pensar sobre a teologia atual devemos nos voltar para
a reflexão sobre os dados sociais contemporâneos. Entre esses, um dos mais importantes é
essa irrupção espontânea de neotribos, de identidades confusas e não estruturadas na lógica
moderna, que se confrontam com setores mais conservadores da sociedade. Não entender
as neotribos e sua nova forma de “organização não lógica” é abster-se de pensar a educação,
cultura e religião em seus próprios condicionamentos, é como julgar o cidadão de um país
como estrangeiro.
Essas neotribos, novas redes de organização social, se dão como exemplo de um dado maior,
que é a queda das grandes narrativas, dos sistemas fortes e estabelecidos de linguagem que
não implicam na queda da teologia ou das religiões, mas sim no formato moderno sobre o qual
elas se estruturam:
A “atomização do social em redes flexíveis de jogos de linguagem” sugere que cada
um pode recorrer a um conjunto bem distinto de códigos, a depender da situação em
que se encontrar (em casa, no trabalho, na igreja, na rua ou no bar, num enterro, etc.)
na medida em que Lyotard (tal como Foucault) aceita que o “conhecimento é a principal
força de produção” nesses dias, o problema é definir o lugar desse poder quando ele
está evidentemente “disperso em nuvens de elementos narrativos” dentro de uma
heterogeneidade de jogos da linguagem (HARVEY, 2004, p. 51).
Há agora uma mistura de pequenas narrativas, pequenas leis que funcionam dentro de um
tempo-espaço indefinidos, e que não pretende se definir. Assim, o que se diria, por exemplo, no
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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escrito da bandeira brasileira, se torna questionado por uma gama de fatores e grupos: “ordem
e progresso”. Pergunta-se, bastante pertinentemente, o que é ordem e o que é progresso.
Quem deve estabelecer a ordem e por que a ordem deve ser estabelecida de acordo com tais
ou quais parâmetros? Quem deve progredir? Por que é necessário o progresso? Não é mais
importante a realização pessoal do que a coletiva? Essas questões representam a queda do
estilo moderno de estabelecimento de narrativas fortes e sistemas fixos. Representam que o
ser humano pós-moderno não pensa em grandes adequações a sistemas estabelecidos, mas
vive de acordo com a possibilidade de autoentendimento e aceitação dentro das perspectivas
que a sociedade assim lhe permite. Nossas igrejas, cientes ou não de seus atos, têm repensado
suas práticas a partir de tais realidades.
As políticas econômicas dos grandes detentores de poder como o Banco Mundial também
são fatores realmente fortes para tal situação. Essas estruturas se ligam mutuamente, pois
uma dá subsídios à outra diametralmente. O estilo pós-moderno não parte do exterior da
sociedade, mas irrompe da mesma. Assim, tanto órgãos governamentais quanto privados
acabam formando um nicho possível para esse redirecionamento.
Bauman mostra de maneira bastante clara como se dá a consciência pós-moderna:
Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para
ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão
fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois seus exemplos, absolvendo-me por
não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros fariam, e gozar de consciência limpa
no fim do dia (1997, p. 65).
A consciência limpa no fim do dia não é resposta ou obediência aos padrões. Sabe-se que não
há erro pelo qual se culpar, mas não porque se obedeceu a determinada lei moral, mas porque
não importa em termos absolutos, e sim apenas dentro de nichos ou tribos específicas. Isso
não implica na barbárie como alguns profetas desavisados da pós-modernidade indicam. Isso
implica que a lógica moderna caiu. O cogito cartesiano caiu. A razão pura kantiana caiu. O
bom selvagem rousseauniano ruiu. Agora há uma “lógica” pós-moderna, não linear e nem um
pouco preocupada com a linearidade.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Esses são dados marcantes para a teologia ainda é um dos setores que resistem fortemente ao
estilo pós-moderno. Quando se faz um trabalho na universidade, um artigo ou uma monografia,
alguns pontos básicos são exigidos: sujeito, objeto, hipótese, método e conclusão. Um trabalho
que falhe em algum desses pilares é considerado academicamente fraco. Entretanto, o estilo
pós-moderno não há de aceitar esses fatores. A lógica não linear não o aceita. Por que é
necessário uma conclusão de toda pesquisa se minha pesquisa pode estar lidando com dados
religiosos extremamente subjetivos? Por que devo ter uma hipótese? Por que meu objeto
precisa ser definido, se muitas vezes ele é indefinível e multifacetado? O método acadêmico
também tende a falir, pois é uma apreciação das ciências empírico-naturais modernas:
A experiência do tempo e do espaço se transformou, a confiança na associação entre
juízos científicos e morais ruiu, a estética triunfou sobre a ética como foco primário de
preocupação intelectual e social, as imagens dominaram as narrativas, a efemeridade
e a fragmentação assumiram precedência sobre verdades eternas e sobre a política
unificada e as explicações deixaram o âmbito dos fundamentos materiais e políticoeconômicos e passaram para a consideração de práticas políticas e culturais autônomas
(HARVEY, 2004, p. 203).
Teorias diferenciadas que suspendem o valor e os juízos morais em vários âmbitos, tal qual a
de Nietzsche e Foulcaut são também muito utilizadas sobre diversos fatores e inúmeros pontos
de vista para sustentação de atitudes tanto na “macroeducação cultural” quanto nas atitudes
e projetos religiosos, como também na própria estrutura da sociedade e seu comportamento
ante a ação teológica:
O eu moral é a mais evidente e a mais importante das vítimas das tecnologias. O próprio
eu moral não pode sobreviver e não sobrevive à fragmentação. No mundo mapeado por
anseios e deformado por obstáculos à sua rápida gratificação, deixa-se amplo espaço
ao homo ludens, ao homo oeconomicus e ao homo sentimentalis; para o jogador, o
empreendedor, ou o hedonista, mas nenhum espaço para o sujeito moral (BAUMAN,
1997, p. 226).
A teologia na pós-modernidade tem se mostrado cada vez mais preocupada com a
especialização e a especificação de sua área de atuação. Outrora, desde a antiguidade,
pessoas letradas normalmente sabiam sobre várias ciências. Descartes, por exemplo, enquanto
matemático que era por formação, foi consagrado enquanto filósofo com importantes noções
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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teológicas.
Hoje em dia a teologia é canalizada o máximo possível. Há de se dizer que isso seja como
uma gigante produção sob o modelo fordista. Tal analogia funciona da seguinte forma:
toda a sociedade seria uma única linha de produção que teria como o objetivo manter uma
determinada produção. Para tanto, cada indivíduo se encarregaria de uma parte do processo,
e somente dessa parte. Há quem faça apenas teologia bíblica, há quem faça apenas teologia
sistemática. Há ainda quem trabalhe apenas com teologia sistemática a partir de Calvino ou
Lutero, pouco se importando com a totalidade do labor teológico.
Kant, Rousseau e Bacon, por exemplo, tinham um vasto domínio em suas obras. Mesmo
sendo os três filósofos, todos trabalhavam igualmente em diversas áreas, inclusive na teologia,
conforme a necessidade e o anseio de cada um. Kant essencial para a ética e moral. Bacon
fazia ele mesmo vários experimentos com animais e foi um dos grandes representantes do
empirismo.
É quanto a essa liberdade de ação na sociedade que se difere a pós-modernidade. Na pósmodernidade, cada indivíduo possui um campo de atuação bem claro e definido. Sendo assim,
não há espaço para que uma pessoa de determinada área opine sobre outra questão.
Desse modo, é defendido o valor de compra do conhecimento na pós-modernidade. Entretanto,
o que se pode comprar é um conhecimento específico, mas não a liberdade de pensamento,
especialmente no campo teológico.
Nas artes – e por artes, entenda-se algo bastante abrangente, que vai desde a arquitetura,
música, poesia, literatura, artes cênicas e pintura – a mudança de paradigma se expressa
a partir da subversão do valor artístico pré-definido. As artes, mesmo sendo uma das
expressões humanas mais livres da modernidade, especialmente por não se tratar de ciência,
ainda respondem a paradigmas de conceituação artísticas bastante obsoletos. Quando surge
a tentativa de uma arte pós-moderna, está se falando da queda desses antigos pressupostos
28
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
em prol da possibilidade de uma expressão diferenciada. A teologia é uma espécie de arte,
que pode manter seu caráter de ciência hermenêutica, mas jamais deve deixar de lado seu
compromisso com a fé do ser humano. Nesse sentido, caro(a) aluno(a), tanto eu quanto você
podemos nos voltar para o estudo da cultura na pós-modernidade sem enfrentar grandes
problemas teológicos. Entretanto, não se deixe cair na fragmentação, sendo um teólogo ou
uma teóloga que só sabe lidar com uma temática específica e que fecha seus olhos para
as realidades ao seu redor, focando-se apenas na literatura que lhe interessa de maneira
particular.
O engenho teológico atual lida com realidades específicas de nosso tempo, mas não precisa
e nem deve se render à tentação de falar a uma tribo específica. O grande problema da
teologia de nossos dias é a dificuldade de uma construção teológica com linguagens que
saltem barreiras tribais que possam assim expor suas reflexões para além de sua própria casa,
seu ambiente de conforto matriarcal.
Desafio o leitor e a leitora a fazer seu trabalho teológico sempre levando em conta a realidade
estilística de nossos dias. Não há nada de especial em conseguir se comunicar teologicamente
com os seus. A dedicação da teologia atual está em não deixar que seu trabalho seja
demasiadamente diminuído, fragmentado e especificado, mas que consiga falar e pensar para
Fonte: SHUTTERSTOCK.com
com o outro e os outros possíveis.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) aluno(a), o maior desafio que aqui se põe é entendermos qual o sentido do conceito
de pós-modernidade para nossa realidade e quais são as interferências da mesma em nosso
modo de fazer teologia.
Note que existem vários detalhes a serem compreendidos e que nossa reflexão serve
basicamente como uma provocação inicial de algo que pode ser muito mais desenvolvido. A
história do pensamento humano pode nos revelar muito mais e nos ajudar a compreender as
relações entre teologia e pós-modernidade. Que não nos furtemos de tal engenho.
ATIVIDADES DE AUTOESTUDO
1. Quais as principais diferenças da modernidade para a pós-modernidade?
2. Qual o papel da teologia na pós-modernidade?
3. A teologia pós-moderna implica no cristianismo pós-moderno? Explique.
“[...] o que a mente pós-moderna está consciente é de que há problemas na vida humana e social sem
nenhuma solução boa, há trajetórias torcidas que não se podem endireitar, há ambivalências que são
mais que erros lingüísticos bradando por correção, há dúvidas que não se podem banir da existência,
há angústias que nenhuma receita ditada pela razão pode suavizar, nem se fale curar” (BAUMAN,
1997, p. 279).
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Maraschin deixou como parte de seu legado uma obra ampla e inovadora sobre temas atuais e representativos da teologia. Além disso, fez escola, deixando alunos como Frederico Pires e Carlos Eduardo Calvani. A obra em questão marca o princípio da democratização das questões sobre teologia e
pós-modernidade no ambiente acadêmico brasileiro.
MARASCHIN, J.; PIRES, F. P. Teologia e pós-modernidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2008.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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UNIDADE II
TEOLOGIA E LITERATURA
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Objetivos de Aprendizagem
• Entender em que consiste o campo de estudo relacional de teologia e literatura a
partir da teologia.
• Apresentar e entender as diferenças metodológicas possíveis no estudo teológico
da literatura.
• Vislumbrar leituras teológicas possíveis da literatura.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• Um novo campo de estudo
• A questão do método
INTRODUÇÃO
Caro(a) aluno(a), nesta unidade veremos um pouco sobre a teoria do desenvolvimento da
pesquisa em teologia e literatura. Esse é um novo campo da teologia que tem ocupado papel
de destaque nos estudos de religião. Existem possibilidades de estudo tanto na literatura
sagrada quanto na literatura secular. No texto que por hora apresento a você, pretendo me
deter mais no que diz respeito ao estudo da literatura secular, pois é nesse campo que estão
surgindo pesquisas que mais têm se destacado.
Muitos teólogos e teólogas, ao lerem um texto qualquer da literatura mundial, sentem que o
mesmo poderia ser o ponto de partida para um diálogo no âmbito das religiões ou fruto de uma
análise teológica. Entretanto, como esse tipo de trabalho não faz parte da teologia clássica,
por vezes ele é omitido. A partir dos novos rumos que a teologia tem tomado, o diálogo com
a cultura em geral e as artes em particular tem se tornado cada vez mais válido e necessário.
Desejo a você uma boa leitura da unidade e bom proveito para a prática de seu fazer teológico.
UM NOVO CAMPO DE ESTUDO
Quando se trata da relação entre Teologia e Literatura, a maioria das opiniões sugere que
a relação entre as duas áreas deve se dar a partir de um diálogo. Isso se dá por motivos
que não se apresentam em convergência. E esse é um grande problema, pois, apesar de
transmitir a imagem de ser uma linha de pesquisa, uma ciência, ou ainda uma temática, a
relação entre Teologia e Literatura pode se tornar apenas um amontoado de informações
independentes, diversificadas e fluidas: “poucos são os textos que se ocupam das questões
teórico-metodológicas envolvidas nessas múltiplas e diversificadas tentativas de aproximação
entre a literatura e a teologia” (BARCELLOS, 2000, p. 11).
Uma consideração importante é a partir da revolução científica, como apontado por Yunes:
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
35
Acrescente-se a isso o fato de que a relação sujeito/objeto consagrada por séculos
caiu por terra com a visão da psicanálise e da filosofia sobre o próprio homem. Se o
conhecimento se produz em ‘um lugar entre’, se a experiência transtorna o experimento,
as variáveis e nossas circunstâncias compõem os resultados a que chegamos (YUNES,
2004, p. 8).
Yunes expõe sua opinião de que a teologia e literatura devem se relacionar a partir de uma
igualdade porque o conhecimento se dá em um “lugar entre”. Nesse não específico “lugar
entre”, o conhecimento é produzido basicamente a partir de interseções, como é demonstrado
na citação abaixo:
A balança ainda pende mais para os amantes da literatura que ousam tratar dessas
interseções sem o anátema da excomunhão... Mas nos cursos de ciência das religiões
e teologia começam a despontar estudiosos que, com rigor e amor, investem nesta
pesquisa interdisciplinar (YUNES, 2004, p. 9).
Esta pesquisa interdisciplinar é, de fato, o modo como a relação entre Teologia e Literatura
mais tem sido feita. Entretanto, algumas críticas devem ser aqui postas. As inovações no
método científico geradas tanto pela psicanálise, quanto pela filosofia do século XX, bem
como a elaboração da física quântica e as teorias de sistemas complexos são avanços
epistemológicos bastante importantes na atualidade. Todavia, não são realidades eminentes
do cotidiano acadêmico. O que se deve fazer academicamente ainda está ligado com o
esquema de sujeito, objeto, método, fundamentação teórica etc.
Outro ponto é que se pretende um engenho interdisciplinar. No entanto, a relação que há entre
áreas precisa ser melhor especificada. A “correspondência” que Magalhães diz haver entre a
teologia e a literatura parece ser na verdade muito mais válida se relacionarmos a teologia com
a crítica literária, e a literatura com a religião. Ou seja, engenhos mais científicos entre si e os
mais subjetivos entre si. Caso contrário, teremos a relação de uma ciência com uma arte e
vice-versa. Nesse caso, os parâmetros de correspondência se tornam demasiados maleáveis
de acordo com o interesse do sujeito hermenêutico.
Podemos ver aqui um exemplo:
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Hoje, ao observarmos a aproximação entre as fronteiras dos saberes e as interlocuções
entre o diálogo das ciências, o diálogo entre a literatura e a teologia marca sua presença.
Teologia e literatura voltam a se encontrar no cenário acadêmico contemporâneo na
condição de interlocutores (CONCEIÇÃO, 2004, p. 26).
Conceição (2004) aponta que há hoje um diálogo de ciências. Após dizer isso, afirma que
nesse contexto o diálogo da teologia com a literatura marca sua presença. Todavia se esquece
de que, em geral, os engenhos de Teologia e Literatura frisam referenciais teóricos de um ou
de outro lado, não sendo necessariamente um diálogo de ciências e sim uma intersecção de
temas de interesse. Além disso, o caráter científico tanto da teologia quanto da literatura pode
ser facilmente questionado. Há uma marcante confusão entre inter e transdisciplinaridade
com diálogo de ciências. O diálogo de ciências deve ser proposto a partir de uma análise de
teoria do conhecimento, enquanto a inter e transdisciplinaridade é muito mais uma proposta
pedagógica.
Enquanto proposta pedagógica e linha de pesquisa, a Teologia e Literatura funcionam facilmente,
sem muitos empecilhos. Elas podem dialogar e ser correlacionadas de diversos modos válidos.
Entretanto, se considerarmos a “teologia e literatura” como um diálogo de ciências herdeiro do
movimento de revolução científica desde Tomas Kuhn, então especificações diversas devem
ser feitas.
Pode-se aqui ver um exemplo do problema em questão:
Tudo que é humano interessa à literatura, o mesmo acontece com o domínio religioso
do homem. Deus, fé, Igreja, relações entre o homem e Deus, que são objetos de análise
teológica, também estão presentes nos textos literários. Portanto, se há uma tensão
histórica cultivada diante da possibilidade de diálogo entre elas, as afinidades temáticas
reavivam, a priori, uma possível aproximação (CONCEIÇÃO, 2004, p. 29).
Conceição (2004) fala que a tensão histórica entre teologia e literatura pode ser superada por
meio de “temas” em comum. Como foi dito acima, temas em comum são suficientes para a
relação de disciplinas, mas não necessariamente de ciências. Nessa citação de Conceição
(2004), pôde-se notar como essa relação pode ser enganosa. É válido ressaltar que isso não
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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implica em um trabalho com menor qualidade. Pelo contrário, o trabalho de Conceição (2004)
é deveras interessante. Entretanto, não conta com essa definição de engenho que é pertinente
a todo trabalho com rigor acadêmico. Seria muito mais válido se fosse considerado um diálogo
apenas de disciplinas, mas não de ciências.
Barcellos apresenta a situação de modo bastante geral, não especificando muito bem as
consequências de seu dito:
A produção científica contemporânea que, de algum modo, se reporta à relação entre
literatura e teologia, já é propriamente inabarcável. Chama atenção não apenas o grande
número de obras recentemente publicadas, nos mais diferentes quadrantes, acerca
dessa problemática, mas, sobretudo, à extrema diversidade de objetivos, fundamentos
teóricos e procedimentos metodológicos por elas adotados (BARCELLOS, 2000, p. 10).
Mesmo não apontando questões como quais são essas produções científicas contemporâneas;
qual é o número aproximado desse “grande número” de obras publicadas e onde estão elas
sendo desenvolvidas, ele diz o que é de fato muito pertinente. Ele escreve como quem tem
conhecimento de causa, e o tem.
Barcellos não se engana ao afirmar que os fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos
adotados são os mais diversos possíveis. Diversos teóricos têm sido utilizados em engenhos
dessa área, os mais diversos e contraditórios. Todavia, Barcellos (2000), bem como a maioria
dos pesquisadores de tal área, não se questiona sobre a pertinência de tais utilizações. E
muitas vezes isso não é feito por meio das escusas de uma “necessidade dialógica científica”.
De fato, as ciências têm que se abrir para o diálogo. Assim, a liberdade e o caráter dialógico
da pesquisa sobre a relação entre Teologia e Literatura são válidos. Entretanto, estaremos
corroendo a credibilidade acadêmico-científica dessa área se não nos policiarmos em tom de
constante autocrítica quanto àquilo que tem sido usado como método e fundamental teórico
dessa área.
Por exemplo, se em determinada pesquisa eu possuo dois referenciais teóricos possíveis de
aplicação, sendo que cada qual direcionaria a pesquisa para pontos distintos, sendo ambos
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
academicamente aceitáveis, é no mínimo necessário que ao escolher o teórico “x” se explique
por que não foi escolhido o teórico “y”. Assim, evita-se o risco de leituras que impõem sentido
ao texto, as quais podem, sem muita dificuldade, serem encontradas nos trabalhos da área de
teologia e literatura. Portanto, projetos em teologia e literatura devem focar muito fortemente
o tópico justificativa.
Barcellos (2000) afirma, ao fim de sua análise sobre o problema do método na pesquisa sobre
a relação de Teologia e Literatura no contexto católico, que existem as seguintes vertentes:
Portanto, poderíamos concluir que no pensamento católico contemporâneo – à parte a
estética teológica de Hans Urs Von Balthasar, na qual não nos detivemos neste artigo
– encontram-se três grandes paradigmas de articulação entre literatura e a teologia: um
paradigma hermenêutico (a literatura como forma não-teórica de teologia: prioridade
à metodologia dos estudos literários); um paradigma heurístico (a literatura como
“lugar teológico”: prioridade à metodologia teológica) e um paradigma interdisciplinar
(a literatura e a teologia como pólos de um diálogo intercultural: método da analogia
estrutural) (BARCELLOS, 2000, p. 27).
Essa separação demonstrada por Barcellos (2000) pode ser estendida ao contexto todo
da pesquisa em “teologia e literatura”. Todavia, os paradigmas hermenêuticos, heurístico e
interdisciplinar devem ser considerados como grandes grupos de tentativa de sistematização
da área. Eles são muito mais presentes na análise retrospectiva, ou seja, no estudo sobre o que
se tem feito, do que nas escolhas metodológicas dos trabalhos da disciplina em questão. Tais
trabalhos parecem que são ainda simplesmente feitos guiados por algum princípio teológico,
ou pela riqueza estética de um texto literário.
Quando se fala em teologia da literatura, pode-se pressupor dois tipos de engenho. O primeiro
seria de fundação de uma teologia a partir da literatura, ou seja, buscar na literatura a base para
uma possível teologia. O segundo caso seria o de uma teologia que se aplica na literatura, que
se volta hermeneuticamente para a mesma, se servindo da mesma como objeto de pesquisa,
do mesmo modo como inúmeros assuntos e expressões humanas são passíveis de análise
teológica.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
39
É preciso um posicionamento científico mais rígido para tal intento, e isso se faz admitindo a
teologia como ciência fundamental do trabalho.
Um problema possível de compreensão dessa proposta é confundi-la com dogmática
exemplificada em textos literários. Outro problema é considerar que não há diálogo entre
teologia e literatura quando isso é feito com rigor científico e validando a relação sujeito/objeto.
Como é dito, sujeito e objeto se põem em relação na pesquisa científica e se entrelaçam
na medida em que tal engenho é feito com a liberdade que nos é permitida no discurso das
ciências humanas e hermenêuticas.
Agora que a discussão sobre a validade de engenhos que relacionam a teologia e literatura foi
iniciada, deve-se dar atenção para o problema do método. Esse ponto apresenta-se importante
no presente trabalho para que não se caia nos erros que aqui são alvos de críticas, a saber:
a ausência de especificação sobre os procedimentos epistemológicos e metodológicos do
Fonte: SHUTTERSTOCK.com
trabalho na área da relação entre Teologia e Literatura.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
A QUESTÃO DO MÉTODO
Primeiramente, é importante descrever um pouco sobre como têm se desenvolvido as pesquisas
em Teologia e Literatura no contexto da academia brasileira. Não há uma especificação que
serve como estatuto dessa área. Ou seja, não há uma ordem homogênea nos trabalhos que se
intitulam por “Teologia e Literatura”. Pelo contrário, há sim uma grande diversidade, que hora
funciona bem como frutífera difusora da possibilidade de engenho acadêmico, e hora acaba
confundindo os princípios epistêmicos de algumas ciências correlatas.
Dois trabalhos que não podem ser omitidos da presente discussão são os de Antonio Manzatto
e Antonio Carlos Magalhães. A contribuição que eles apresentam é, sem dúvida, pioneira.
Entretanto, vale frisar que ambos serão aqui criticados em prol de uma revisão no método de
trabalho em tal perspectiva.
Manzatto (1994) fez um estudo a partir da antropologia. Sua obra maior se chama “Teologia e
Literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado”.
Nessa obra ele faz comentários teológicos a partir de relatos antropológicos nas obras de
Jorge Amado, que servem basicamente como exemplo da potencialidade religiosa humana:
Sabemos que a literatura não é uma apresentação do mundo, mas sim sua
representação. Se ela interessa à teologia como mediação do real vivido, isso acontece
enquanto ela se esforça por abordar a problemática humana de uma forma que lhe é
particular (MANZATTO, 1994, p. 68).
Dentro dessa abordagem particular do ser humano por meio da literatura estão os temas
considerados por Manzatto (1994) como teológicos:
Se tudo o que é humano interessa à literatura, o mesmo acontece com relação ao
domínio religioso do homem. A teologia, o crente e a religião, enquanto realidades
humanas, interessam ao escritor e figuram assim em obras literárias. Mas mesmo
conceitos mais especificamente teológicos como pecado, sacramento, graça, mística,
e outros ainda, também são encontrados em romances ou em poesias [...] o que a
teologia mais oferece à literatura são temas teológicos, tais como fé, Igreja, relações
entre o homem e Deus, que são também as questões fundamentais da teologia. O
escritor pode tratar esses temas positiva ou negativamente, ou ainda como um absurdo,
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
41
mas eles estarão presentes em sua obra (p. 65).
Para Manzatto (2004) o importante é a explicitação de aspectos religiosos, sejam eles quais
forem, dentro do contexto da humanidade demonstrada, ou melhor, retratada na literatura4.
Barcellos (2000) comenta que:
Na perspectiva de Manzatto, a teologia pode e deve recorrer à literatura como mediação
para a leitura da realidade, complementando ou até eventualmente substituindo a
mediação das ciências humanas e sociais (p. 16).
Sobre o método que ele utiliza para tais fins está, acima de tudo, uma análise teológica final.
Como diz no título de seu livro, o que se faz é uma “reflexão teológica” a partir da literatura,
no caso a de Jorge Amado. Ou seja, por mais que ele queira fazer um diálogo entre teologia e
literatura, há um locus para o princípio de tal diálogo, a reflexão teológica.
Aqui, por mais que Manzatto (2004) negue isso enfaticamente, parece que a literatura é posta
com subserviência em relação à teologia. Isso se diz porque o que importa para Manzatto
(2004) é o que a literatura pode mostrar sobre a realidade do ser humano. A partir de tal
antropologia é empreitada uma análise antropológica-teológica por parte do autor. Isso não
diminui em nada a obra do autor, pois essa é uma leitura válida. Entretanto, a literatura é
apenas um meio pelo qual se olha o ser humano. Ou seja, é um elemento descartável da
análise teológica. Isso faz com que a obra de arte não seja diametralmente considerada uma
forma de produção distinta daquelas das ciências humanas e sociais em geral.
4
Com relação ao conteúdo dos textos analisados teologicamente, Manzatto (1994) faz uma ressalva digna de
nota: “porque vivem em um contexto fortemente marcado pela teologia, escritores podem trabalhar com conceitos
teológicos; outros podem mesmo inspirar-se na teologia para comporem seus romances. Nesse caso, para fazer
teologia a partir da literatura, é preciso estar atento a essa situação, para que não se corra o risco de cair em um
círculo vicioso” (MANZATTO, 1994, p.66). Esse círculo vicioso constatado por Manzatto (1994) pode parecer à
primeira vista algo bastante óbvio. Entretanto, é importantíssimo que não se caia em tal vício. O nível de engano
metodológico de tal tarefa pode ser comparado ao de um pleonasmo vicioso, que reafirma o afirmado e afirma o
reafirmado. No caso do círculo vicioso constatado por Manzatto (1994), a situação é ainda pior, pois pode tender
ao infinito: um autor escreve literatura por ter conhecimentos teológicos; um teólogo lê tal literatura e evidencia os
aspectos teológicos, e assim sucessivamente pode-se fazer teologia da teologia disfarçada em linhas literárias.
42
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
A obra de arte, bem como sua apresentação em forma de literatura, não é e nem deve ser
considerada superior a outros tipos de produção humana. Mas há uma especificidade, uma
peculiaridade. Tal âmbito deve ser levado em conta e assim a obra de arte pode ser analisada
“como obra de arte”, e não como um locus de leitura teológica escolhido por algum elemento
subjetivo qualquer do autor e pesquisador em “teologia e literatura”.
Sobre Manzatto, Magalhães afirma:
Manzatto segue um tipo de método que já está estabelecido dentro do horizonte da
teologia católica e também em muitos círculos protestantes: a relação entre natureza
e graça, entre ser humano e Deus e, neste caso específico, entre antropologia (na
literatura) e teologia (na tradição cristã). Teologia, segundo Manzatto, é uma reflexão
rigorosa, científica, inteligível, racional sobre as experiências humanas a partir da
tradição aceita como normativa pela igreja, possuindo métodos específicos que são
fornecidos tanto pelo depósito comum da fé quanto pelas mediações desenvolvidas
pelo ser humano para a compreensão de sua realidade (1997, p. 33).
Aqui se torna evidente que o estudo em “teologia e literatura” pode ser feito a partir de âmbitos
diferentes, principalmente porque o pesquisador nessa área pode possuir modos diversos
de pensar tanto a teologia quanto a literatura. Esse é um fato que se evidenciará inclusive
no presente trabalho, pois se sabe que o posicionamento do autor em relação aos conceitos
de teologia e de literatura pode afetar muito seu engenho em “teologia e literatura” em geral.
Tal ponto, ao mesmo tempo em que pode ser criticado, também necessita ser respeitado,
uma vez que, mesmo sendo o trabalho teológico tão científico quanto qualquer outro, não é
possível – bem como em qualquer ciência – que se exclua completamente tal subjetividade. O
problema básico apontado em relação ao trabalho de Manzatto é a forma como ele dá valor a
determinada tradição e sua forma de interpretação, e aplica a mesma à literatura.
Nesse respeito, a subjetividade do autor, críticas podem ser construídas. Assim como aqui se
criticam os trabalhos no âmbito acadêmico brasileiro na área de “teologia e literatura”, eles
se criticam entre si. Magalhães, que em breve também será exposto e criticado, continua sua
crítica a Manzatto dizendo:
A abordagem de Pagán representa um avanço significativo em relação ao trabalho
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
43
de Manzatto [...] mesmo não menosprezando estes aspectos é importante colocar o
diálogo entre teologia e literatura como uma questão de conteúdo básico e linguagem,
possibilitando assim uma alternativa ao fazer teológico normativo. O grande limite de
Pagán é que ele não diz como isso pode acontecer, não desenvolve uma reflexão
que problematiza a conseqüência desta necessidade para a reelaboração do método
teológico (1997, p. 40).
Magalhães desenvolveu seu próprio método para o engenho de “teologia e literatura”.
Seu método se chama “método da correspondência” e tem sido grandemente adotado por
estudantes da área em dissertações e teses. Basicamente, o que Magalhães aponta em seu
método é que há, de algum modo, um locus potencial para diálogo correspondente em cada
polo.
Tal método implica em vários pontos. Primeiramente, seus pressupostos e interesses são
diversos dos acima comentados com relação à obra de Manzatto. Magalhães prioriza o
diálogo enquanto Manzatto analisa a literatura a parir da antropologia contida na mesma. De
certo modo, Manzatto tende a ter um caráter mais apologético – e isso se diz no sentido de
defesa consciente de seus pressupostos teológicos – do que Magalhães, que em vez de fazer
uma teologia metodologicamente pronta de alguns aspectos literários, pretende fazer teologia
com a literatura, ou seja, junto com ela, em diálogo. Isso se diz teoricamente. É apenas uma
observação da potência metodológica, e de modo algum valoração de princípios.
Magalhães diz de seu método:
No método da correspondência, reconhecem-se as diferentes motivações de textos
religiosos confessionais e textos literários. Se a alteridade é reconhecida no campo
das motivações, ela é relativizada no desdobramento que os textos apresentam
independente de suas motivações. Ao acontecer na vida, o texto é sempre algo a
se cumprir, um projeto a ser realizado, um caminho a ser seguido, independente do
interesse originário do autor ou da autora (2000, p. 206).
Com suas palavras, Magalhães quer ressaltar a importância do texto em relação ao seu leitor.
Ou seja, a análise conteudística é acompanhada pela “realidade” do texto em sua relação com
seu leitor. Ou seja, o teólogo é muito mais tradutor dos lugares teológicos possíveis do que
44
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
criador dos mesmos.
O método de Magalhães é muito interessante em suas propostas. Entretanto, lhe faltam
estruturas que possam suportar a tempestade – por vezes hiperbólica – de questionamentos
possíveis – e por vezes necessários – do caminho metodológico que deve ser seguido nessa
perspectiva. Quando se questiona sobre alguns pontos importantes desse método, muitas
vezes ele não pode apresentar sua resposta por si só, como um bom método deve ser. O fato
é que o universo acadêmico demanda tais fixações. Por exemplo, pode-se perguntar como
surge o conhecimento em um diálogo, sem que em algum momento crucial algum dos polos
seja sujeito e profira a oração mestra: eis o diálogo! Isto é, epistemologicamente, é necessário
que haja um desequilíbrio suficiente para gerar o diálogo.
No método da correlação parece que se tenta fugir das prerrogativas de fazer teologia de
algo, ou literatura de algo, ou seja, de definir em termos gerais a ciência motora de uma ação
epistêmica específica. Faz-se isso porque, para Magalhães, importa que sejam mostrados
os pontos de valor de uma área bem como da outra, ou seja, que os pontos correspondentes
sejam exaltados. De todo modo, a relação sujeito/objeto que a ciência moderna nos ensina a
trabalhar na academia não impede que essa relação seja feita. Desde que sejam apontados
com sinceridade os locais de ação de cada ciência, logo se saberá que o seu ponto correlato
está presente num local “x” que também não pode deixar de ser demonstrado.
Um ponto em que, sem dúvidas, Magalhães merece aplausos, é com relação à abertura que
ele proporciona, ainda que com as limitações metodológicas já comentadas: “finalmente,
queremos admitir que tal método configura uma abertura dentro do universo teológico,
sobretudo, os aspectos que incitam a possibilidade dialógica” (CONCEIÇÃO, 2004, p. 53).
Além dos dois autores acima comentados, existem outros que merecem também atenção
no contexto do desenvolvimento de tal área, especialmente na academia brasileira. Entre
tais, se deve citar: Maria Clara Bingemer, Eli Brandão e José Carlos Barcellos5. No presente
5
Essa lista de autores que têm trabalhado na área de teologia e literatura poderia ser muito maior. Os presentes
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
45
trabalho, uma atenção especial será dada abaixo nas questões epistemológicas a Barcellos,
que desenvolveu um artigo eximiamente pontual sobre a questão do método em teologia e
literatura. É de se queixar que ele o tenha desenvolvido apenas no contexto da produção
católica. Todavia, sabe-se e compreende-se que toda pesquisa deve possuir suas delimitações,
sejam essas por questões metodológicas ou de interesse específico do autor.
Pode-se notar que a falta de discussão dos problemas metodológicos e epistemológicos
da pesquisa em teologia e literatura tem gerado frutos não muito sólidos, ou seja, diversos
trabalhos que apesar de estarem unidos dentro de uma área do conhecimento específica, não
possuem o mesmo caráter, não analisam necessariamente os mesmos objetos, não possuem
as mesmas temáticas e se dispersam grandemente em seus fins.
Como consequência disso, surgem semigrupos de desenvolvimento de pesquisa em teologia e
literatura. Alguns se unem pelo objeto, outros por temas comuns, outros ainda por referenciais
teóricos. Entretanto, é sabido que tais propostas não são suficientes para a sustentação de
uma ciência, e nem mesmo são engenhos aplicáveis rigorosamente nos princípios de diálogo
e abertura científica. Subsistem em um locus qualquer, dentro de um logos qualquer.
O ambiente acadêmico atual não sustenta uma área de conhecimento em tais parâmetros. É
preciso ainda muito mais rigorosidade científica. E isso não é uma apologia do cientificismo
newtoniano. As ciências hermenêuticas possuem valor acadêmico, científico e epistêmico
tanto quanto qualquer outro engenho. Todavia, alguns cuidados devem ser tomados.
Os procedimentos metodológicos da pesquisa em teologia e literatura, segundo a proposta
do presente trabalho, devem apenas respeitar os mesmos crivos de qualquer outro engenho
autores em discussão foram eleitos por serem marcos na área, e também por serem em sua maioria voltados ao
trabalho teológico. Além do mais, são os mais pertinentes dentro do contexto da presente pesquisa. Já existem
trabalhos acadêmicos que têm levantado essa lista de autores de modo muito mais exímia. O momento parece
oportuno para uma releitura da situação atual das pesquisas nessa área. Para um quadro geral de tal questão
– estando agora um pouco desatualizado – ver o já comentado: MAGALHÃES, A. C. M. Deus no espelho das
palavras. São Paulo: Paulinas, 2000.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
científico. Para que uma área de pesquisa exista, é necessário que se tenha algumas
interseções entre os trabalhos da mesma. Por isso, é necessário que o pesquisador explicite o
que está fazendo e reflita se o seu trabalho não é um engenho norteado por princípios outros,
não os da “Teologia e Literatura”.
Assim, poder-se-á compreender o que se busca em trabalhos de tal natureza e o afunilamento
dos procedimentos de tal pesquisa se darão na medida em que forem sustentadas quantidades
significativas de trabalhos com os mesmos discursos e pressupostos metodológicos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após a discussão acima feita, devemos refletir alguns fatores que nos são pertinentes. Você,
aluno(a), estudante da teologia, que está se iniciando nessa ciência, precisa compreender
os limites da mesma. Novas disciplinas, como a relação da teologia com a literatura, são
estandartes do amplo horizonte que a teologia pode ocupar em nossos dias.
O diálogo entre as ciências se torna cada vez mais comum. A teologia não pode se furtar do
mesmo. Minha dica é que, quando abrir o próximo livro e se enveredar em sua leitura, não se
esqueça de olhar para ele com olhos teológicos e exercitar a completude que a teologia tem
a nos oferecer.
ATIVIDADES DE AUTOESTUDO
1. Cite um livro da literatura brasileira que você julga ser pertinente para o diálogo entre
teologia e literatura.
2. É importante que o autor do livro seja um bom cristão para que se faça uma teologia de
sua literatura?
3. Quais são as implicações metodológicas para o fato da teologia e literatura possuírem
caráter dialógico?
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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Não existe estilo algum que exclua a expressão artística da preocupação suprema, pois o absoluto
não se restringe a formas particulares das coisas ou experiências. Mostra-se presente ou ausente em
qualquer situação. Brilha numa paisagem, num retrato ou em cenas humanas, dando-lhes a profundidade do sentido (TILLICH, 2009, p. 118).
Essas duas obras são os mais recentes lançamentos no âmbito da pesquisa em teologia e literatura.
Além disso, consolidam uma escola paulistana de diálogo entre teologia e literatura, liderada por professores da Universidade Metodista de São Paulo.
TADA, Elton V. S. A cruz do corpo. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.
RIBEIRO, C.O.; FONSECA JUNIOR, H.A. Teologias e literaturas II. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
UNIDADE III
TEOLOGIA E ECONOMIA
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Objetivos de Aprendizagem
• Entender o histórico de estudo teológico da economia.
• Entender as relações entre religião e economia na América Latina.
• Visualizar as diferenças entre consumo e consumismo e suas implicações para a
teologia cristã.
• Apontar as formas mais atuais de estudo teológico da economia.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• Teologia e economia na América Latina
• O problema do capital versus social: a questão do consumo
• Abordagens atuais da relação entre teologia e economia
INTRODUÇÃO
A relação entre teologia e economia não é algo totalmente novo. O que é atual é uma estrutura
disciplinar específica para tal estudo. Se notarmos com atenção os escritos de João Calvino
e Matinho Lutero, encontraremos neles questões absolutamente econômicas. Entretanto, tais
questões estavam à margem de suas teologias e eram feitas mais de maneira acidental do
que por necessidade teórica. Hoje, os estudos que se dão em tal área levam em conta não
apenas as questões teológicas, como todo o arcabouço teórico decorrente das constantes e
essenciais teorias sociais dos últimos três séculos.
Cada vez mais os teólogos e teólogas ao redor do mundo entendem que não é possível manter
a teologia nos padrões medievais, que se preocupam apenas com as questões dogmáticas
interiores ao ambiente eclesial, pensados somente pelas lideranças intelectuais de tais círculos.
É importante que se volte para a cultura e dialogue com a mesma, mas que o faça sem que se
perca os objetivos primeiros de qualquer teologia.
O que se discute sobre teologia e economia atualmente pode ser resumido em questões que
relacionam a ética religiosa com as injustiças sociais e com a pobreza. No Brasil, de modo
particular, podemos encontrar o debate relacionado com a pobreza como fruto dos diversos
movimentos sociais surgidos nas décadas de 1960 e 1970. Esses estudos se deram de
maneira mais geral em primeira instância e foram ganhando profundidade com o decorrer dos
anos. Atualmente, a situação socioeconômica do brasileiro de classe média se demonstra de
modo relativamente confortável, afastando os diversos círculos de militância e debate social
que foram predominantes em toda a América Latina da segunda metade do século passado.
Entretanto, a ausência do debate social nas classes mais amplas da sociedade não impede
que a teologia se debruce firmemente na tentativa de dialogar com as ciências econômicas e
de entender em tal processo meandros do sistema teológico de maneira mais clara.
Um dos principais questionamentos relacionados com o diálogo entre teologia e economia
foi levantado de maneira bastante específica pelo teólogo católico Jung Mo Sung. Há alguns
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
51
anos, o autor lançou um livro com o seguinte título: Se Deus Existe, Por Que Há Pobreza? Tal
questionamento inaugura uma reflexão bastante ampla sobre a ideia de justiça de Deus, bem
como sobre a participação da ideia de Deus na construção de nossa sociedade.
A pobreza é chave hermenêutica para a leitura da relação entre teologia e economia porque é
nela que se encontram as maiores manifestações de sofrimento humano que se dá na maior
parte dos casos dentro de um contexto religioso específico.
A noção de trabalho e de lucro que nos é tão comum nem sempre foi reinante, e já esteve
subordinada a vários outros fatores na história do cristianismo. Entretanto, na sociedade
industrial e pós-industrial, é notória a ideia de que todo aquele que trabalha deve receber por
isso, e tal recebimento deve ser o suficiente para a manutenção de si próprio e de sua família.
A ideia de capital se aliou à ideia de dignidade, e desde então, tanto bênçãos quanto maldições
são relacionadas à pobreza e riqueza, deixando assim de se entender o peso do contexto
social e do desequilíbrio de posses sobre a vida do indivíduo.
Um pensador brasileiro que soube dialogar com a economia e tem sido muito estudado por seu
brilhantismo foi Paulo Freire. Freire entendia que os processos pedagógicos estavam de muitas
maneiras ligados aos modos de produção, arrecadação, compra, venda e enriquecimento do
povo. Assim, ele propôs que o processo pedagógico do brasileiro fosse condizente com sua
situação sócio-cultural-econômica, tirando assim a ideia de que a educação serviria para a
leitura de palavras e transferindo o foco da educação para a possibilidade de leitura do mundo.
É certo, caro(a) aluno(a), que não podemos acreditar que em um pensamento específico ou
em uma linha teológica específica se resolverão todas as questões relacionadas à miséria e
à riqueza. O que nos cabe fazer em conjunto é entender o que já foi desenvolvido e quais são
os próximos passos a serem dados.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Fonte: SHUTTERSTOCK.com
TEOLOGIA E ECONOMIA NA AMÉRICA LATINA
A América Latina tem um histórico preponderante de militância social. As desigualdades
sociais e os regimes ditatoriais formaram algumas gerações de pensadores voltados à questão
social. Hoje vivemos numa sociedade aparentemente tranquila política e economicamente. O
poder de compra da classe média, bem como sua qualidade de vida, tem crescido nas últimas
décadas.
É necessário que se compreenda o contexto no qual estavam inseridos os pensadores que
realizaram os primeiros diálogos no âmbito da teologia com a economia.
Uma das principais críticas em relação à preocupação econômica da teologia diz respeito à
falta de sucesso das ideologias defendidas pelas militâncias religiosas-sociais.
Reconhecer a impossibilidade da construção histórica de uma sociedade igualitária, sem
exploração, alienação e dominação, não significa refutar esta utopia ou abandonar as
lutas e a opção pelos empobrecidos. Significa somente, por um lado, o reconhecimento
dos limites humanos na realização dos sonhos e, por outro, a capacidade de sonhar
para além das capacidades humanas. Esta perspectiva encontra-se profundamente
arraigada na postura do “servo sofredor” e na experiência de Jesus, em especial na
fragilidade da Cruz, radicalmente diferente do imobilismo – que as atuais perplexidades
e crises poderiam gerar. A tarefa de anúncio do Reino de Deus que reconheça a
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
53
transcendência dele, que fortaleça a fé escatológica de que o próprio Deus realizará
em plenitude os sonhos humanos e que dimensione a ação humana ativa e solidária no
mundo, constitui elemento fundamental para a crítica das pretensões idolátricas que,
por vezes, se achegam às propostas religiosas (RIBEIRO, 2008, p. 122).
A questão da relação entre teologia e economia ganha aqui um ponto que não pode deixar
de ser compreendido, que é a questão da possibilidade de idolatria. Na questão econômica,
a teologia aponta para a possibilidade de idolatria quando um meio se torna um fim, ou seja,
quando há um engano em relação ao objetivo que buscamos por meio da prática de nossa fé.
Por isso, não se pode considerar o fator econômico como secundário no estudo teológico de
nossos dias.
Existem tradições cristãs de nossos dias – e isso você pode notar a partir de visitas a igrejas
ou programas de rádio e televisão – que pregam o acesso aos recursos financeiros de maneira
idolátrica, propondo o individualismo, a superação de outras pessoas em prol de cargos e
posições de prestígio, a identificação da pobreza com o pecado individual, entre muitos outros
fatores. Na verdade, dificilmente se encontra hoje um pregador ou uma pregadora da Palavra
que levam em conta a realidade social na qual estamos inseridos. O que gera a pobreza é a
desigualdade, pois existem muitos recursos de riqueza no mundo, mas estes são dominados
por poucos. A miséria, a fome, a falta de acesso à saúde e educação, são consequências das
formas com que nós mesmos temos manejado o sistema capitalista.
O capitalismo instituído há alguns séculos em nossa sociedade ocidental, e recentemente
adotado por quase todas as sociedades do mundo, ensina que é necessário o acúmulo de
capital, não havendo um limite para tanto. Se não há um limite, há a possibilidade de que
uma pessoa, família ou corporação guarde consigo os recursos que seriam suficientes para
sustentar muitas outras pessoas. Esse é o princípio da desigualdade, que gera a pobreza, a
fome e a miséria.
Como a história nunca cessa, os filhos das pessoas pobres que não têm acesso a boa
alimentação, educação e cultura, tendem a perpetuar tal situação. Alguns por não suportarem
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
sua significativa miséria partem para a criminalidade. Outros geram dívidas com a lei e o
Estado sem nem ao menos terem sido educados quanto a isso.
Por outro lado, as pessoas mais ricas tendem a manter seu capital e multiplicá-lo, fazendo assim
com que cada vez menos pessoas estejam no domínio dos bens materiais. De semelhante
modo, os países de terceiro mundo, que foram colônias e sofreram os processos históricos de
exploração, tendem a perpetuar-se em situações econômicas pouco favorecidas, pois além de
terem seus recursos naturais capitados e utilizados pelos países dominantes, ainda precisam
constantemente de empréstimos financeiros reais ou virtuais no âmbito de títulos econômicos,
para que possam financiar alguma esperança de desenvolvimento em suas terras.
A América Latina toda representa essa realidade de terceiro mundo a qual estamos nos
referindo. Dentre os países latino-americanos existem aqueles que são mais ricos que outros,
ou mais poderosos de acordo com suas coligações de política internacional. Entretanto, a base
de todos os países da América Latina, que são os trabalhadores proletariados, vivenciou nas
últimas décadas situações muito semelhantes, situações que deram origem à teologia latinoamericana da libertação. Esse movimento é visto muitas vezes com certa desconfiança.
Em oposição ao liberalismo econômico que institui o reinado do capital existe a opção
socialista, muitas vezes defendida por regimes de esquerda, e também defendida pela teologia
da libertação.
O liberalismo econômico não leva isso em consideração; ele subordina o próprio
processo da vida à racionalização econômica. O desafio do socialismo, portanto, é
conhecer e afirmar a real dinâmica da economia socialista e os propósitos econômicos
nela contidos. Na concepção socialista, a possibilidade ilimitada de estímulo de novas
necessidades é questionada em função de três aspectos: o planejamento econômico
central de acordo com as reais necessidades da população; a meta de padronização de
renda e de consumo; e o surgimento de uma concepção e de novos valores que visem
adequar a possibilidade e a realização da produção (RIBEIRO, 2010, p. 21).
Se por um lado o liberalismo econômico permite que um indivíduo cresça e alcance grande
sucesso econômico-social, por outro ele manifesta que todo dinheiro que alguém ganha
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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precisa ser retirado de outrem, gerando assim amplos sistemas de pobreza. O que devemos
valorizar, a possibilidade de crescimento de um indivíduo ou a possibilidade de crescimento
de uma nação?
O PROBLEMA DO CAPITAL VERSUS SOCIAL: A QUESTÃO DO CONSUMO
A crítica a essa espiritualidade de consumo (com a apresentação de outro tipo de espiritualidade
realmente humanizadora) não pode significar a crítica ao consumo como tal. Pois consumir faz
parte do viver humano. Não conseguimos viver sem consumir alimentos, bebida, habitação,
vestimentas etc. E para celebrar amizades, precisamos também de boa comida e boa bebida,
em torno das quais nos reunimos. Mais importante é que a nossa luta em favor dos mais
pobres é para que essas pessoas possam consumir melhor e mais. Se confundirmos a crítica à espiritualidade de consumo do sistema capitalista com a crítica
ao consumo como tal, não poderemos nos alegrar quando os pobres usufruírem melhor as
suas vidas também porque conseguem consumir mais e melhor. Uma crítica nascida de boa
intenção (a de criticar a injustiça social e a obsessão pelo consumo) pode gerar em nós uma
atitude negativista frente à vida. Sobre isso, Hugo Assmann, em seu último texto inacabado,
escreveu: “Em vez de alegrar-se com uma certa difusão da renda e do poder aquisitivo, os
negativistas anti-mercado despejam o seu moralismo contra o que me dá enorme alegria, ver
o povo comprando e fruindo do prazer de comprar” (SUNG, 2011, p. 35).
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Fonte: SHUTTERSTOCK.com
Sem uma crítica radical à lógica sacrificial presente no inconsciente coletivo ou no
fundo das nossas culturas, a crítica radical ao sistema de mercado global não será
eficaz. Para isso, é preciso começar com uma afirmação teológica básica: Deus não
quer sacrifícios, mas sim misericórdia e justiça para os pobres e oprimidos! Esta é uma
tarefa que a teologia e o cristianismo de libertação precisam assumir (SUNG, 2011, p.
40).
ABORDAGENS ATUAIS DA RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E ECONOMIA
Quando você se envereda pelos estudos de teologia social, especialmente no ambiente da
produção teológica do terceiro mundo, logo irá notar que a questão majoritariamente discutida
é a pobreza, tendo como pano de fundo quase sempre o arcabouço teórico marxista ou
alguma derivação desse ramo. As novas pesquisas que hoje se apresentam a respeito da
relação entre teologia e economia não vão necessariamente por esse caminho, mas seguem
as mais diversas possibilidades de diálogo com as ciências econômicas.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pudemos notar nessa breve reflexão que as noções de teologia e economia não são restritas
somente ao âmbito das reflexões, mas são construídas em diálogo com a realidade que
experimentamos e visualizamos no cotidiano de nossa sociedade.
Como estamos no ambiente acadêmico, devemos ter o cuidado de não confundir aquilo que
nos é dado pela grande mídia de maneira superficial com as profundas reflexões que podemos
construir sobre tais questões.
As questões econômicas sempre foram importantes para a teologia. Hoje, entretanto, temos
muito a aproveitar, pois todo o ferramental teórico que precisamos está disponível para
entendermos as relações entre essas áreas do conhecimento de maneira mais ampla e
profunda.
ATIVIDADES DE AUTOESTUDO
1. Quais são os princípios da lógica do liberalismo econômico?
2. Quais são as alternativas ao capitalismo propostas na América Latina?
3. É possível a idolatria econômica? Como?
4. Quais são as novas formas de relação entre teologia e economia?
Quando o modo de pensar a fé na perspectiva do pobre e do excluído começa a chamar-se
Teologia da Libertação?
A expressão Teologia da Libertação causou e ainda causa muito estresse, porque nasceu em um
ambiente de conflitividade. Daí surgiram uma série de preconceitos e acusações, a meu ver, nem
sempre justas. Rubem Alves, teólogo evangélico brasileiro, e Gustavo Gutierrez, teólogo católico romano peruano, foram os primeiros a usar o termo ainda nos anos de 1960. O livro conta parte dessa
história que, diga-se de passagem, é fascinante. No entanto, se formos honestos, veremos que desde
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Abraão e Móises já havia pessoas “pensando a fé” ao perceberem que “Deus escuta o clamor do seu
povo” (Êxodo 3).
RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Entrevista com o autor Cláudio de Oliveira Ribeiro que escreveu o
livro: A Teologia da Libertação Morreu? Reino de Deus e Espiritualidade Hoje. Entrevista concedida
à Editora Santuário. Disponível em: <http://editorasantuario.com.br/releases/index/page:9>. Acesso
em: 09 ago. 2013.
NessevídeoofamosoteólogoLeonardoBofffazumabrevereflexãosobrearelaçãoentreteologiae
economia. A opinião de tal autor é relevante principalmente pelo fato de ter passado da geração mais
antiga de teologia latino-americana para a mais atual.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=FQhKJD6V0zg>.
Jung Mo Sung e Claudio de Oliveira Ribeiro representam a mais recente geração de pesquisa em
teologiaeeconomia.Suasreflexõespartemdaanálisedocenáriolatino-americanodofimdoséculo
passado, mas ultrapassam tais perspectivas mostrando itens atuais de tal discussão.
RIBEIRO, C.O. A teologia da libertação morreu? São Paulo: Fonte Editorial, 2012.
SUNG, J. M. Se existe Deus por que há pobreza?SãoPaulo:Reflexão,2011.
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UNIDADE IV
TEOLOGIA E MEIO AMBIENTE
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Objetivos de Aprendizagem
• Entender a importância do estudo teológico das questões socioambientais.
• Mostrar a situação atual de tal área de estudo.
• Mostrar as formas bíblicas de estudo da questão ambiental.
• Entender a relação das questões ambientais com a teologia sistemática.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• Situação acadêmica da questão
• Leituras bíblicas
• Teologia da criação
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, podemos notar o aumento da preocupação social com as questões
ecológicas. Tal aumento é progressivo e parte não apenas de um polo específico, mas de
atitudes de grupos específicos, políticas públicas, sociedade civil organizada, ou da prática
cotidiana dos indivíduos. As grandes empresas cada vez mais se preocupam com o “selo
verde”, ou seja, a garantia de que seus produtos, bem como sua linha de produção, não
agridem diretamente o meio ambiente.
No ápice da prática cotidiana do cuidado com a natureza ainda está a questão do consumo.
Questiona-se muito sobre o que se deve ou não consumir. Um bom exemplo disso são as
constantes restrições de utilização das sacolas plásticas nos mercados. Por outro lado, ainda
é pequena a preocupação com o formato de consumo e a necessidade da construção de uma
cadeia sustentável de consumo.
Talvez a ala da sociedade que mais tenha se empenhado na tentativa de superar os abusos
da humanidade sobre a natureza seja a da construção civil e arquitetura. Formas sustentáveis
de construir prédios para que ali se relacionem com a natureza por décadas são cada vez
mais procuradas. Veículos com combustíveis menos poluentes e fontes de energia renovável
também estão no topo da preocupação social. Uma temática de tal magnitude não poderia
ficar de fora do leque de discussão da teologia contemporânea.
SITUAÇÃO ACADÊMICA DA QUESTÃO
No ambiente acadêmico, a questão da sustentabilidade tem gerado amplas e constantes
discussões. Em geral, várias ciências tomam para si a responsabilidade estatutária sobre o
assunto, desconsiderando a validade e necessidade dos diálogos com outras ciências e áreas
de pesquisa.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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Para um estudo desde o ponto de vista das ciências humanas, duas áreas devem ser citadas:
a economia e a ética. A economia, como já estudamos na unidade anterior, está em diálogo
amplo com as questões teológicas. A ética que hoje é gentilmente cedida à filosofia já foi de
posse quase exclusiva da teologia. Esse é um dos âmbitos que a teologia tem retomado, tanto
em suas vertentes mais bíblicas quanto nas áreas mais sistemáticas.
A ética da responsabilidade é sem dúvidas um dos pressupostos mais comuns para a construção
da argumentação teológica. Em tal ética infere-se qual a responsabilidade do sujeito religioso
em sua práxis religiosa e cotidiana no que se refere às questões socioambientais.
Acima de qualquer outra mudança, o que a ética da responsabilidade proporciona é
uma alteração significante da ideia de sujeito. A forma como nos vemos no mundo e,
consequentemente, a maneira como nos comportamos enquanto parte dele, é repensada e
outros caminhos são apontados.
[...] uma nova consciência ou um novo horizonte de compreensão de nós mesmos
está se delineando desde o século passado muito embora encontramos traços da
mesma em pensadores de séculos anteriores. É essa nova consciência denominada
consciência filosófica ecológica, que nos permite falar de justiça socioambiental,
expressão inexistente, por exemplo, até o início do século XX. É nessa linha que hoje
se fala de planetaridade, de sociedade sustentável, de humanidade sustentável, de
economia sustentável de política sustentável, de consciência planetária, de cidadania
planetária, de civilização planetária como se o planeta irrompesse em nossa maneira
de nos compreendermos a nós mesmos (GEBARA, 2012, p. 96).
É natural que o ser humano atual pense em alternativas para seu modo de vida na terra.
Os recursos naturais estão se esgotando. O planeta responde furiosamente à poluição.
Somos reféns de uma situação que nós mesmos criamos. Por mais que tais condições
sejam consequências de atos feitos a partir da grande reforma industrial, nós as sustentamos
diariamente, perpetuando atos nocivos para a natureza que nos recebe e da qual fazemos
parte.
O que Gebara (2012) afirma na citação acima é que independente de nossa condição
monetária e social, de nossas crenças e hábitos culturais, somos todos iguais ante a natureza
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
e pertencemos a um ambiente comum. Nesse sentido, é necessário encarar a globalidade,
que muito se difere da globalização, pois não é uma questão dependente da informação
compartilhada, e sim do habitat compartido.
LEITURAS BÍBLICAS
Um dos ramos da teologia que tem se dedicado com afinco a entender as questões
socioambientais é o da teologia bíblica. A teologia bíblica em nossos dias, ao contrário do
que muitos possam imaginar, não é mera arqueologia da palavra escrita, mas sim um intenso
diálogo com as realidades sociais. Na leitura bíblica, se estudam questões de economia,
sociedade e cultura, estando ela preparada para dialogar positivamente com qualquer outra
ciência sobre tais assuntos.
Um dos textos bíblicos mais voltados para a questão do meio ambiente e, portanto, objeto de
inúmeras análises, é o poema da criação em Gêneses 1:1-2:4a. Sobre tal poema, o teólogo
Kenner Terra afirma que:
o poema da criação propõe, com linguagem simbólica, novas relações. Ele esvazia
de valor o discurso teológico do explorador e opressor, apoderando exilados para
sonharem com justiça, igualdade e liberdade entre homens, mulheres, animais e
plantas. Assim, o mundo pensado primordialmente é harmonioso, com descanso justo
e utilização responsável dos bens doados pela grande Mãe Terra. No entanto, esse
discurso não os arranca da realidade, como se lhes tirassem o olhar da vida. Pelo
contrário, ajudava-os ler a realidade de maneira crítica para atualização dos desejos
que conseguimos ver brotar do poema. Instaura-se discursivamente a idéia de que
nas antigas origens encontram-se a esperança do novo mundo possível (TERRA apud
SOUZA, 2012, p. 56).
É interessante notarmos ainda que sobre a última parte do poema, que faz referência ao
shabat, o biblista compreende que:
No mito da criação, o símbolo do sábado dá ao cuidado ambiental e social valores
cósmicos e eternos: ‘assim era no princípio’, na anterioridade primordial’. Como dita
a conclusão do poema: ‘este é o nascimento dos céus e da terra...’ (TERRA apud
SOUZA, 2012, p. 56).
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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O descanso, o shabat, talvez tenha sido um dos âmbitos mais esquecidos pela humanidade
moderna. O trabalho é contínuo, a luta é contínua, a construção é contínua. Parece não haver
linha de chegada. Estamos sempre querendo mais e mais.
Outro jovem teólogo, Filipe Maia, contempla o texto de Colossenses 1:13-23 para lembrar da
unidade compulsória que há entre os concidadãos do planeta.
mas, lembre-se: o mundo não está lá e nós aqui. O planeta é um ecossistema vivo e
integrado do qual fazemos parte ou, como aprendemos com a carta de Colossenses, o
planeta é corpo de Cristo unido pelos vínculos do amor (Cl 3:14). Em Cristo a Sabedoria
do mundo, nós somos mundo. Somos terra, Adão, e, em Cristo, nos transformamos em
novo Adão, nova terra. A nova criação é vasta, mas está próxima – ela é a nossa própria
re-criação (MAIA apud SOUZA, 2012, p. 83).
Há, nessa interpretação, uma clara esperança salvífica, ancorada sobre a ideia de recriação,
ou seja, um novo formato de vida a partir de Cristo. Desse modo, o Cristo que nos salva por
meio da cruz não difere do Cristo que é sabedoria do mundo, fazendo-nos redimidos não
apenas no campo espiritual, mas no âmbito factual da vida na terra. É necessário reforçar que
todos temos responsabilidade na construção desse novo mundo, dessa recriação, pois somos
parte do corpo espiritual e socioambiental de Cristo.
O teólogo complementa sua posição afirmando que:
a figura de Cristo foi por muitos séculos interpretada em relação à realidade do mundo
e à dança das estações. Quando a igreja definiu seu calendário litúrgico, ela pensou
na celebração da Páscoa justamente como a celebração da chegada da primavera. A
ressurreição de Cristo foi vista e pensada como a chegada das cores da primavera, da
superação do frio do inverno. Pois chegou então o tempo de celebrarmos a ressurreição
do Cristo lutando pela ressurreição de nossa casa-comum (MAIA apud SOUZA, 2012,
p. 84).
Essa ideia aponta para o fato de que a eucaristia, a participação de cada indivíduo no corpo
e na paixão de Cristo, vai muito além do rito simbólico que realizamos em nossas igrejas. A
participação pascal é também participação na casa-comum a qual não podemos nos omitir
para não sermos, tais quais galhos podres que não mais dão frutos, sermos cortados e
lançados ao fogo.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
TEOLOGIA DA CRIAÇÃO
A teologia da criação é indubitavelmente uma das áreas mais fundamentais da teologia. Sobre
ela se constroem inúmeras teorias teológicas que se relacionam com campos desde a ética
até a soteriologia. Ela é também uma das áreas que vêm emergindo com maior força no
âmbito das discussões socioambientais teológicas.
Dentre as muitas teologias possíveis, a América Latina tem sido pioneira também na produção
de teologias da criação que contemplem a preocupação com o meio ambiente. O teólogo
brasileiro que se destacou há algumas décadas na luta pelos direitos dos pobres, agora
protagoniza a luta pelos direitos da natureza. Leonardo Boff tem produzido muito sobre tal
assunto e com uma sobriedade invejável.
Boff se mostra interessado não apenas na produção acadêmica, mas também na militância,
bem como participação nos meios políticos e midiáticos, garantindo assim que a cada dia
mais pessoas tenham contato com tais preocupações e vivam a práxis dessa nova militância
teológica.
Nas bases da teologia de Boff (2001) estão os princípios de responsabilidade e solidariedade. A
criação como um todo precisa da participação consciente de todos os seus membros para que
não se definhe rumo à morte. Tal teologia propõe que a responsabilidade do sujeito humano
para com todos e tudo que foi criado consigo seja ilimitada. Somente assim, na preocupação
e responsabilidade contínua com toda a criação, é que se pode respeitar o intento do criador
e não pecar contra ele.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todas as ciências estão voltadas para a compreensão e diálogo com as questões
socioambientais. Se nós, teólogos e teólogas, não entrarmos também em tal diálogo,
deixaremos uma lacuna substancial na contribuição das ciências humanas para as questões
ambientais.
Além disso, se a teologia de hoje não se atualizar em tal sentido, corremos grande risco de
nos tornarmos uma ciência obsoleta, que caminha não para o desenvolvimento, mas para o
ostracismo.
ATIVIDADES DE AUTOESTUDO
1. Qual a responsabilidade da teologia para com o meio ambiente?
2. Qual a relação da teologia bíblica com o meio ambiente?
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
“Dopontodevistafilosófico,oexcessodemaldoqualsomosvítimaspodeouaniquilar-nostotalmente
ou levar-nos à busca de caminhos alternativos. E é nessa linha que a destruição ambiental tem nos
provocado a rever nossos hábitos de vida, nossa economia pessoal e coletiva e nossas crenças religiosas sobre a vida humana” (GEBARA, 2012, p. 98).
A relação entre ética e ecologia deve ser repensada de maneira mais ampla. Podemos começar tal
reflexãoapartirdacontribuiçãodoconhecidoteólogoLeonardoBoff.
Disponível em:<http://www.youtube.com/watch?v=6YFTh2yEPlk>.
As veias abertas da América Latina é um clássico que precisa ser lido por todo pesquisador de
ciências humanas no Brasil e na América Latina em geral. Juventude e justiça socioambiental
é uma obra que resulta do diálogo de jovens pensadores da rede ecumênica de juventude com
pensadores renomados.
SOUZA, Daniel (Org). Juventude e justiça socioambiental. São Leopoldo: CEBI/CLAI, 2012.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
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UNIDADE V
TEOLOGIA DO CULTO CRISTÃO
Professor Me. Elton Vinicius Sadao Tada
Objetivos de Aprendizagem
• Entender o que é a teologia do culto.
• Mostrar a proposta litúrgica da teologia do culto.
• Mostrar as particularidades da teologia do culto com a música.
• Entender a relação do culto cristão com a arquitetura cristã.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• Teologia litúrgica
• Teologia e música
• Teologia e arquitetura
INTRODUÇÃO
Nesta unidade, veremos alguns tópicos de teologia do culto. A teologia do culto ainda não é
uma matéria, é mais um ramo de pesquisa que está despontando com algumas produções,
mas que tende a ser muito estudada, pois fala do cotidiano do culto cristão.
O último século nos trouxe muitas novidades em relação ao culto cristão. Tanto a liturgia quanto
a música e a estrutura dos templos têm se modificado. Por isso é interessante que se reflita
sobre os novos rumos do culto e sua preponderante relação com a teologia.
TEOLOGIA LITÚRGICA
A liturgia foi por muito tempo simplesmente uma regra a qual deveria ser fielmente seguida.
Por outro lado, nos últimos anos, podemos ver uma pluralidade de formas litúrgicas nada
tradicionais e por vezes desastrosas. No intuito de superar essa válida discrepância, a liturgia
passa a ser estudada pela teologia para que se contemple a complexidade de tal ato.
A teologia do culto vela pela interlocução entre a teologia do altar e a do mundo, ou seja, quer
conectar as atividades da vida com os ritos sagrados. Nesse sentido, a liturgia pode exercer
função central, renovando o espírito que pretende se ter em meio à cerimônia religiosa.
Cada ato, cada movimento, cada texto lido ou música cantada na liturgia são partes da
sacralidade da vida religiosa que devem ser reveladas. Assim, nada deve ser feito para que o
rito seja meramente cumprido, mas é necessário que o mesmo faça sentido para os partícipes.
A contextualização da liturgia é um elemento que pode inclusive ser copiado da igreja primitiva.
Lá a linguagem falada e os símbolos utilizados estavam de acordo com as verdades vividas
pelo povo e sua fé no Cristo ressurreto.
Em nossos dias, o princípio deve ser o mesmo. Devemos dizer e agir de acordo com aquilo
que faz sentido para nosso povo. É triste notar que muitas vezes a cerimônia da santa ceia,
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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por exemplo, é dotada de tamanho garbo e pompa que chega a intimidar as pessoas pobres e
simples das comunidades. Mais triste ainda é perceber que na América Latina em geral, são
os pobres quem compõem o corpo de Cristo nas diversas comunidades cristãs, e mais do que
isso, no cotidiano da experiência cristã.
O cristianismo possui em toda sua história uma relação direta com as festividades. Algumas
vêm da tradição judaica, outras foram sendo introduzidas de acordo com a ocidentalização da
religião cristã. Entretanto, em nossos dias, por conta da secularização, existem comunidades
que simplesmente repetem seus ritos diariamente durante todo o ano. Não há um calendário
litúrgico. A teologia do culto nos mostra que enquanto cristãos, devemos procurar a melhor
forma de celebrarmos nossas datas especiais, que são de propriedade de nossa identidade
cristã. Não devemos nos distanciar da festa de pentecostes, da celebração pascal ou do natal
cristão. Não nos basta trocarmos o texto básico da mensagem para acompanhar tais datas.
Devemos fazê-las vivas em nossas comunidades.
Decididamente uma das piores experiências litúrgicas que já vivenciei foi uma na qual um
carro de luxo era posto ao lado do altar, para que se pregasse algo sobre prosperidade. Não
podemos nos render ao mundo no sentido paulino, ou seja, a meras tentações consumistas. A
teologia do culto não propõe esse tipo de desvio. O que se propõe é que as obras do espírito
sejam adornadas e propagadas de acordo com toda a beleza que a vida nesse mundo nos
proporciona. Toda a criação louva ao Senhor, e nós devemos louvá-lo de acordo com ela.
Temos cantos, cores, vidas e testemunhos. Não precisamos de roupas de marca ou carros de
luxo. O louvor sincero exprime a mais bela liturgia, pois nele o corpo de Cristo se fortalece. Os
louvores artificiais geram liturgias artificiais e não fortalecem nada além do mundo da moda e
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das marcas.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
TEOLOGIA E MÚSICA
A música e a religião estão lado a lado não apenas no cristianismo, mas em diversas
culturas ao redor do mundo. Sem a música, nossos dias seriam mais tediosos e certamente
encontraríamos dificuldade para expressar nossos anseios de louvor.
Hoje, muitos confundem música com louvor e adoração. A teologia do culto sabe discernir bem
tais elementos. Louvor e adoração estão na vida do cristão. A música é um meio para que se
atinja tal fim, ela por si só nada pode.
O poder da música junto ao ser humano é conhecido. Não é esse poder que se deve trazer
para o culto cristão. A música pode fazer sorrir ou chorar, mas o templo não é um laboratório
de experimento. A música serve para expressar aquilo que já está no coração e na vida da
pessoa.
Por outro lado, não é pelo fato da música ser cantada com sinceridade que ela se torna bonita.
O que a teologia do culto propõe é que a beleza da sinceridade do coração do cristão deve
soar de maneira uníssona com a beleza da canção.
A canção, além de ser de alegria, pode ser de contrição e sofrimento. Os salmos bíblicos são
ótimos exemplos das diversas formas de canção que podem ser entoadas pelo ser humano
em direção a seu Deus.
As letras, as notas, os ritmos e as temáticas das canções podem variar de acordo com a
ocasião e com a comunidade, bem como podem variar de acordo com a geração. A música
entoada no culto cristão não pode ser o portfólio de uma gravadora ou de um cantor religioso.
Ela deve fazer referência à comunidade e ao seu modo de cantar músicas em culto.
Também nos enganamos se acreditarmos que o espaço reservado à música no culto é um
show no qual as celebridades da comunidade mostram seus talentos. Os talentosos são
substituíveis, o bem-estar da comunidade e o agrado a Deus não.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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O cristão em sua relação com a música não precisa ter preconceito. Seguro do caminho que
anda e firme em seu fundamento, pode conhecer vários estilos musicais e transformá-los em
objetos de edificação de sua espiritualidade cristã.
Há ainda a música que não é apenas secular, ou seja, apartada do rito sagrado, mas que é
também profana. Esse é o tipo de música que o cristão deve repelir. No entanto, em todos os
elementos da cultura existem elementos profanos, que proliferam o ódio e a discórdia. O corpo
de Cristo deve se atentar para tais elementos não apenas na música, mas também na política,
na educação, na literatura e no cinema. Contra tais elementos profanos se deve profetizar,
ou seja, é necessário que se denuncie. Segundo o teólogo Paul Tillich (2005), a denúncia
profética dos elementos profanadores da cultura é a base do que ele chama de princípio
protestante, ou seja, a construção da justiça do reino de Deus a partir da denúncia dos males
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que reinam em nossa cultura.
TEOLOGIA E ARQUITETURA
A preocupação da teologia com a arquitetura é antiquíssima. Na origem do cristianismo como
religião estatal, foram herdadas imagens arquitetônicas provindas do império. Todavia, com o
passar dos tempos e o protagonismo no cristianismo em diferentes países e regiões, foram
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
feitas adaptações culturais.
Hoje há uma adaptação suprema a ser feita. Vivemos em um mundo onde todas as pessoas
podem participar de nichos fechados, bastante específicos, mas tendo como pano de fundo
uma secularização crescente.
O protestantismo desde Calvino viveu uma crescente limpeza dos templos. Não há dúvidas
de que tal padrão de estética influenciou inúmeros movimentos evangelicais de origem
estadunidense desde idos do século XIX. Até os dias de hoje igrejas protestantes e evangélicas
ao redor do mundo pouco se utilizam da arquitetura, tendo como princípio ocupar um espaço
no qual muitas pessoas possam assistir ao mesmo culto sentadas.
A teologia do culto traz à tona a estética como parte fundamental do ser humano e mostra que
a esfera na qual a religião é representada ritualmente interage continuamente com o que ali se
pratica. Assim, o cuidado com os locais de cultos podem ser reanimados em nossos dias. A
beleza das construções que acolhem os ritos cristãos deve apontar para a bondade de Deus,
bem como para seu plano redentor. É ruim que se pregue a palavra da esperança em ambiente
inadequado, onde reina a opressão e a liberdade é omitida.
Além da construção do templo propriamente dito, a organização de seu interior, bem como os
arranjos para datas festivas e calendário litúrgico devem ser olhados com atenção, pois todo o
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ambiente pertence a um fim comum.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A teologia do culto propõe que a estética seja otimizada, que façamos belos cultos em louvor
ao Senhor. Todavia, não estamos falando da beleza dos palácios, estamos nos referindo à
beleza da vida e da liberdade que Cristo nos dá por meio do sacrifício pascal. Desse modo, a
ceia do Senhor deve ser adornada com os elementos de vida e liberdade que fazem sentido
para nossas vidas.
Toda a natureza evoca as belezas do amor infinito do Pai por nós. Nela, muitos elementos
sacros podem ser encontrados, e eles podem fazer parte de nossos atos de louvor e adoração.
Esses elementos podem ser adequados à realidade de nosso povo, que os pastores e pastoras
precisam conhecer bem. É diferente a linguagem que se usa para uma comunidade urbana
daquela que se usa para a comunidade rural. Esse cuidado nunca deve deixar de ser tomado.
ATIVIDADES DE AUTOESTUDO
1. Qual a relação entre liturgia e estética?
2. Em que medida a música e a arquitetura podem interferir no culto cristão?
Ocultoéafonteeoápicedamissão.OrelatodeAtos3exemplificaclaramenteoqueestamostentando
mostrar: Pedro e João (que representam a Igreja) iam ao Templo para a oração (que é o culto); mas,
no caminho (no interregno), encontram-se com o homem coxo (que representa o mundo carente do
Evangelho). Nesse contexto, a Igreja interrompe sua caminhada rumo à liturgia para uma ação missionária sensorial e concreta (note-se o destaque dado para a visão, a audição e o tato, na narrativa –
podemosaindainferiroolfato…).Quando,finalmenteaIgrejaeoMundosedãoasmãosepassama
caminhar juntos, aí sim chega a vez do culto: entraram no Templo saltando e louvando a Deus (v. 10).
O Culto é, portanto a fonte e o ápice da missão (culmen et fons, diriam os teólogos clássicos). O culto
aguça os sentidos do Corpo de Cristo para a missão; dá-lhe olhos e ouvidos atentos; olfato e paladar
sensíveis; e tato para o trato amoroso e misericordioso para interagir com aqueles e aquelas a quem
a Igreja haverá de encontrar no caminho.
Fonte: RAMOS, Luiz Carlos. Igreja, culto e missão. Disponível em: <http://www.luizcarlosramos.net/
igreja-culto-e-missao/>. Acesso em: 21 ago. 2013.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Rubem Alves é um dos mais importantes autores da teologia contemporânea. Devemos repensar a
estética e o culto a partir do pensamento dele.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=IX1OO368YJA>.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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CONCLUSÃO
As cinco unidades que tratamos neste livro traçam o horizonte básico do estudo em teologia
que está se desenvolvendo em nossos dias. São temáticas que estão em diálogo com outras
ciências e têm sido bem absorvidas pelo cenário teológico acadêmico atual.
Essas áreas estudadas contribuem não apenas para os temas em que se delimitam, mas
contribuem também para a expansão do alcance das ciências humanas, explorando pontos
que nunca antes foram discutidos e construindo novos métodos que possibilitem tais intentos.
Por finalidades didáticas, foi necessário que optássemos pela divisão completa dos temas
aqui propostos. Entretanto, no cotidiano do trabalho teológico, é comum que esses temas
sejam tratados a partir de uma mesma demanda, promovendo assim um diálogo e uma
complementação.
Caro(a) aluno(a), é essencial que os temas aqui vistos não permaneçam como sementes de
um engenho mais amplo, pois eles devem ser plantados e cuidados, gerando assim raízes,
uma forte estrutura e frutos dos quais poderemos nos alimentar e alimentar futuras gerações
de teólogos e teólogas. Independentemente de sua região, estado e cidade, lembre-se que ao
engendrar os caminhos teológicos, podemos deixar marcas tanto nas pessoas que estão ao
nosso redor e acompanham nossos estudos como para pessoas em qualquer parte do mundo
que tenham o comum interesse pelo estudo teológico. Portanto, façamos de maneira correta
e sincera o sério e responsável engenho teológico, para que tenhamos satisfação em nosso
labor e para que nunca nos culpem por omissão de nosso talento.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
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ANEXO I
OLHANDO A TERRA DE FORA: O DISCURSO DE PAUL TILLICH ACERCA DA INFLUÊNCIA
DOS AVANÇOS ESPACIAIS SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA
Autor: Elton Vinicius Sadao Tada ([email protected])
Mestrando em Ciências da Religião – UMESP - Aluno bolsista da Capes.
Orientador: Claudio de Oliveira Ribeiro
INTRODUÇÃO
Esse artigo pretende contemplar alguns aspectos discutidos por Paul Tillich (1886-
1965) em uma de suas últimas conferências, especificamente no que diz respeito à relevância
dos avanços nas pesquisas espaciais. Tal assunto é apresentado por Tillich já em sua velhice.
Todavia, essa velhice apresentava um novo Tillich, disposto a refletir sobre o futuro da teologia
e especialmente da mesma a partir da análise da história das religiões.
Tillich foi um teólogo reconhecido pela abrangência e solidez de seus pensamentos,
ainda que hoje já sendo deveras colocado em dúvida por perspectivas tanto na teologia quanto
na filosofia, suas duas áreas de concentração, ambas apontando para a cultura.
SOBRE O ESPAÇO, COSMOVISÕES E O SER HUMANO
No texto aqui analisado Tillich propõe a discussão sobre dois temas centrais, os efeitos
da exploração espacial sobre o ser humano a idéia que o homem passa a ter sobre si próprio.
Para a discussão sobre o efeito da exploração espacial no ser humano é necessário a análise
da condição humana. Com relação ao pensamento que o homem tem sobre si pressupõe-se
que o fato de atravessar a fronteira da gravidade eleva a base pensamento das capacidades
humanas. Chegou-se a um novo local. Agora o inalcançável está ainda mais além.
Tillich afirma que a situação do homem em seu tempo é conseqüências de uma
série de eventos iniciados no renascimento. O renascimento não trouxe uma revitalização dos
princípios da antiguidade, mas apresentou o nascimento da modernidade em vários aspectos.
O renascimento proporcionou um apreço especial pelas ciências técnicas e a relação das
ciências puras com as aplicadas.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
Na Grécia, a realização da vida dentro do cosmos pode ser demonstrada por
um círculo. No fim da antiguidade e durante a idade média há um enorme esforço por se
transcender o natural em prol do alcance do além, aquilo que transcende o cosmos, por isso,
tal período pode ser simbolizado por uma linha vertical. A partir do renascimento há uma
horizontalidade nessa linha, pois o cosmos é considerado objeto de transformação do homem
e de Deus.
Essa preocupação de Tillich em situar e ilustrar as diferentes cosmovisões aponta
para uma reinterpretação do cosmos na modernidade. Talvez reinterpretação seja até um
termo equívoco, posto que significa uma interpretação feita novamente, de modo que a
modernidade pode ser considerada como vanguardista em seu estilo de cosmovisão. Todavia,
o termo reinterpretação não seja tão equívoco por se tratar também de uma nova visão o
cosmos.
Seja qual for a melhor nomenclatura, o fato é que com o princípio da modernidade
surge também um pensamento fortemente positivo. Esses pensamentos são reforçados pelo
progresso da técnica principalmente a partir da revolução industrial. As máquinas, a produção,
os inventos, as descobertas físicas, biológicas, e tantas outras, fazem com que se creia na
possibilidade do avanço contínuo, do progresso constante humano, em prol de um telos, um
fim.
Essa carga de crença no progresso, na técnica, na horizontalidade (termo já acima
utilizado) do cosmos chega com duas importantes participações, parecidas, mas divergentes
em suas funções. Por um lado, essa “mente” moderna se deu como fundamento, no sentido
cartesiano de construção do conhecimento, no qual um edifício se faz sobre uma base sólida.
Por outro lado, se dá como pano de fundo, isto é, está sempre presente, ainda que em segundo
plano, nos eventos que aqui possuem caráter de análise central, a saber, as influências da
exploração no ser humano (especialmente na condição humana) e sobre aquilo que o ser
humano passa a crer como sendo seus limites a partir da quebra da barreira terrestre, ou seja,
o que o ser humano pensa de si próprio nessa situação.
É oportuno dar um passo adiante nessa discussão. Que seja questionado o seguinte:
quais foram as reações emocionais ante a exploração espacial? Não apenas a resposta tem
valor como também a discussão que envolve a busca pela mesma.
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
89
Três palavras hão de ser ressaltadas aqui: surpresa, admiração e orgulho. Esses
termos já apresentam os primeiros pontos que deverão ser discutidos para elucidar a
questão das reações emocionais do ser humano. Todavia, há uma ressalva a ser feita. De
forma pertinente Tillich faz um comentário que parece ser tão importante quanto a questão
central, e que acompanha sempre a obra de Tillich. O teólogo faz um comentário que pode
ser considerado político, se levado em conta o contexto do autor na década de sessenta:
“[...] incrementados pela vanglória nacional daqueles que haviam firmado esta façanha, e
diminuídos quando não aniquilados, pelo sentimento de humilhação nacional daqueles que
também poderiam ter feito, mas não o fizeram” (TILLICH, 1976, p.27).
Há aqui uma referência notável quanto a guerra fria, na qual os dois grandes blocos
mundiais batalhavam através da descoberta e avanço em vários aspectos, ou seja, de fatores
que demonstravam a superação de uma ala contra a outra, o que sempre possuía efeitos sérios
e contundentes. Nesse caso o avanço das pesquisas espaciais foi um “prêmio” concorridíssimo,
num contexto repleto de “minas políticas” as quais poderiam explodir a qualquer momento. Aqui
nota-se também que além da influência que a exploração espacial tem sobre o ser humano em
relação com o cosmos também tem significâncias, como na política, no sentimento patriota,
e na segurança baseada na crença de potencialidade de um indivíduo dentro de seu contexto
nacional.
Voltando novamente à questão há de se dizer que além dos sentimentos já citados
existe também um assombro. Esse assombro se dá exatamente no momento em que o indivíduo
percebe que tal acontecimento não se conclui em si, mas possui conseqüências, sendo
algumas mais rasas e outras deveras profundas. Na verdade o assombro está diretamente
relacionado com a reflexão acerca da potencialidade humana. É uma realidade assombrosa
porque o ser humano olha a terra de fora dela. Olhar a terra de fora como é proposto por Tillich
está relacionado não apenas com olhar a terra de longe ou de cima dela. Muito além disso,
Tillich ressalta que o mundo é visto de um plano cósmico diferente.
Há muito a ser dito nesse ponto. Talvez mais do que seja conveniente para essa
pesquisa. No entanto algumas coisas não podem ser omitidas. Por exemplo, a terra é vista de
um plano cósmico diferente, porém essa visão não é alcançada metafisicamente, na verdade
ela é fruto de pesquisas extremamente físicas recheadas com instrumental tecnológico.
90
Não menos importante é a identificação que indivíduos tiveram com os homens que
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
puderam olhar à terra de fora dela. Tornaram-se heróis. Esse é o momento no qual inclusive a
rivalidade nacional é deixada de lado, em prol da admiração com aqueles que participaram da
façanha mais estrondosa para o homem e sua relação com o cosmos:
A imagem do homem que olhando a baixo vê a terra, não do céu, mas de um plano
cósmico situado acima da terra, se converteu em objeto de identificação e de elevação
psicológica de inúmeras pessoas (TILLICH, 1976, p.28).
Hoje, não é difícil de se imaginar como essa notícia pode ter afetado também a
imaginação dos homens na época das primeiras explorações espaciais. Além dos aspectos
já citados, a imaginação humana também teve base para alçar novas perspectivas. A questão
sobre a possibilidade de vida extra-terrestre foi presente quando se parte da descoberta de
que se pode chegar a lugares até então desconhecidos.
A mente humana agora não pode negligenciar o fato de ter saído de sua realidade
terrestre não somente por imaginação, mas fisicamente. Isso pode influir tanto na imaginação,
como na cultura, na arte, literatura, cinema, etc. Todavia, um ponto muito negativo é que, se
o homem pode se livrar da fronteira terrestre também pode estar avançando em potencial de
destruição. Na realidade do pós-guerra todas essas possibilidades servem como aviso e se
apresentam firmemente ante a questão política daquele momento:
A íntima relação entre a exploração espacial e os preparativos para a guerra tem
projetado uma sombra negra sobre a atitude emocional positiva no que diz respeito a
exploração espacial (TILLICH, 1976, p.31).
Agora o problema emocional já está bem discutido dentro da proposta do presente
trabalho. É importante partir para um olhar de nova perspectiva. Tillich propõe que alguns
juízos podem ser feitos no que diz respeito a questões éticas relacionadas com o assunto
(TILLICH, 1976, p.31).
O processo de desmitologização da terra pode chegar a uma alienação nesse
momento da história. Por quê? Porque as funções e atitudes humanas são postas num
patamar o qual deixa de valorizar a realidade natural da terra. Assim, tudo que a terra passa a
ser é objeto, como numa relação sujeito-objeto na qual o homem é sempre sujeito. Esta é uma
realidade alienante.
Aqui se percebe que a mentalidade moderna no sentido de visão do cosmos atinge
seu ápice. Ou seja, enquanto no medievo se buscava a transcendência buscando algo que
estivesse acima, representado por uma linha vertical agora definitivamente deixa de existir em
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
91
prol de uma horizontalidade acentuada. Tillich percebe que o avanço se dá por si próprio, não
buscando um fim, mas apenas pela necessidade de se avançar: “se trata de avançar para não
retroceder, constantemente, e sem contar com um objetivo concreto” (TILLICH, 1976, p.33).
Esse posicionamento extremamente horizontal implica em alguns problemas no
comportamento humano, a saber, “a perda de todo conteúdo significativo e à vacuidade”
(TILLICH, 1976, p.33). Sintomas de tal situação são os posicionamentos de indiferença
cinismo e angústia. Será que a ciência tem culpa sobre isso? Será necessário freiar o
processo de avanço científico? A que ponto pode chegar as influências da ação científica no
comportamento, emoção, espírito e organização social do ser humano? Tais questões são ao
certo imprecisas. O fato é que não se pode para por medo, ou por levar em conta os riscos de
uma atitude. Ao menos não nesses parâmetros.
Não se deve agir com medo, pois é fato que independentemente da visão horizontal
ter se posto fortemente ela não pôde acabar com a verticalidade a qual necessita a
transcendência humana. Por isso, nem a condição nem o alcance humano tem se alterado,
senão o pensamento que o próprio homem pode elaborar com respeito a isso.
Sendo assim pode-se perguntar com relação aos investimentos que são feitos para
a exploração espacial. Certamente não se pode negar que os investimentos nesse âmbito são
altos. Não seria correto deixar de lado as investigações espaciais para se focar em questões
postas como mais importantes, tais quais a cura de doenças ou a igualdade social?
Tillich propõe que esses pontos são realmente importantes, mas afirma que a justiça
e o amor partem da ação cotidiana e devem estar presentes dentro do homem em todas suas
relações. Não é com a parada das investigações espaciais que se resolverão os problemas
epidêmicos ou sociais. Além disso, Tillich afirma que se esta prerrogativa for sempre levada
em conta então nunca se avançará em nível cultural. Todas as ações culturais ficarão restritas
nessa raiz.
92
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É importante agora lembrar que Tillich não faz apenas apontamentos sobre um
assunto inicialmente visto com estranheza. O que o teólogo faz é refletir sobre o ser humano
a partir de uma realidade presente em seu tempo. Julga-se importante trazer essa questão
à tona agora porque hoje já existe uma geração que nasceu após o homem ter saído da
terra. Não apenas isso. Somos parte de uma geração que acorda sempre com descobertas
científicas novas, e muitas delas colossais.
Cabe deixar a questão, apenas norteadora, se conseguimos hoje fazer, ao molde
de Tillich, uma reflexão sobre a condição humana levando em conta todas as bizarrices reais
de nosso tempo. Ainda é importante que se pergunte se são válidas as notas feitas por Tillich
sobre o homem que não evidencia a idéia de progresso, que vai além de uma cosmovisão
moderna.
Levando em conta essas reflexões, cabe agora apenas lembrar que mundos
continuam sendo deixado e vistos de fora, e que a terra que outrora foi vista de uma forma,
hoje já não é mais assim e que os limites nos quais apoiamos nossos pés na reflexão teológica
hoje podem não ser tão concretos quanto pensamos ser, assim como o cosmos não é tão
definido quanto parece.
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TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
93
ANEXO II
A problemática entre teoria da arte e teologia da cultura em Paul Tillich
Elton Sadao Tada*6
Marcia Boroski**7
RESUMO
Este artigo analisa a problemática entre teoria da arte e teologia da cultura no pensamento de
Paul Tillich. Inicialmente, os autores questionam qual arte é possível ser pensada a partir de
Tillich. Passando pela pintura, poesia e Música Popular Brasileira (MPB), os autores sugerem,
para a interpretação da arte visada, a dimensão existencial e seu sentido profundo, tendo
seu auge com a revelação do incondicionado. Ao final, a conclusão aponta questionamentos,
dentre eles, a validade de uma teologia da arte.
Palavras-chave: teoria da arte; teologia da cultura; Paul Tillich.
The problem between the theory of art and the theology of culture of Paul Tillich
ABSTRACT
This article examines the problem between the theory of art and the theology of culture in
Paul Tillich. Initially, the authors propose the question of which art can be thought from Tillich’s
thought. Through the issue of painting, poetry and “Música Popular Brasileira” (MPB), the
authors suggest, for the interpretation of viewed art, the existential dimension and its deeper
meaning, having its highest point with the revelation of the unconditioned. At the end, the
conclusion highlights some questions, including the validity of a theology of art.
Key words: theory of art; theology of culture; Paul Tillich.
Introdução
No cenário acadêmico brasileiro dos dias atuais podemos ver pesquisas interessantes e
6
7
Professor de Teologia do Cesumar – Centro Universitário de Maringá – Paraná. Mestre
e doutorando em Ciências da Religião pela Universidade metodista de São Paulo, sob
orientação do Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro.
Formanda em comunicação social pela UEL – Universidade estadual de Londrina.
94
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
diversas que têm como princípio ou referencial teórico o pensamente de Paul Tillich. A
questão que aqui se põe é sobre a área específica de pesquisas que de algum modo ligam o
pensamento tillichiano com expressões artísticas.
Como Tillich foi o teólogo da cultura, parte de sua obra foi dedicada para o estudo e interpretação
de obras de arte. É notório que esse trabalho de Tillich sobre a arte não foi algo sistematizado.
Tanto é que a obra que mais trata sobre essa temática – ou melhor, o conjunto mais amplo de
escritos nessa linha – é uma coletânea tardia de artigos, chamada “sobre arte e arquitetura”.
No Brasil são conhecidos trabalhos como o do Dr. Calvani, que fala sobre teologia e MPB,
tendo Tillich como base para tal estudo; a dissertação de mestrado sobre Cândido Portinari,
feita por Antonio Almeida Rodrigues da Silva; outro sobre Frida Khalo, feita por Haidi Drebes;
outro trabalho sobre MPB, frisando Gilberto Gil, feito por Clariezer Araújo dos santos; e
também minha dissertação de mestrado sobre Clarice Lispector, entre outros. Esses exemplos
de trabalhos de pós-graduação servem apenas para que possa ser feita a pergunta: o que
temos entendido como arte no âmbito do estudo tillichiano sobre a mesma?
Começo dizendo que, Cândido Portinari e Frida Khalo são hoje objetos de estudo das belas
artes. Não é diferente com relação a Clarice Lispector. Essas afirmações que tenho feito
podem ser facilmente negadas se vistas por outro ângulo, mas se forem apresentadas de
maneira mais nua querem questionar: é possível interpretar realmente qualquer tipo de arte
a partir de Tillich? Pois existe música, literatura, pintura, escultura e arquitetura as quais eu
realmente duvido um dia serem objetos de pesquisa a partir de nosso pressuposto teórico
tillichiano, e que ainda assim são considerados por determinadas pessoas como expressões
artísticas válidas.
Para ilustrar eu gostaria de indagar como seria uma tese sobre a mística dos romances de Paulo
Coelho a partir de Tillich; ou ainda o princípio protestante camponês do Sertanejo Universitário
de Luan Santana; ou seja, o que estamos fazendo e o que deve ser dito e pesquisado sobre
a arte em Tillich?
Desenvolvimento
É necessário que seja feita aqui uma citação do próprio Paul Tillich para continuarmos nosso
raciocínio:
TEMAS ATUAIS EM TEOLOGIA | Educação a Distância
95
Não existe estilo algum que exclua a expressão artística da preocupação suprema, pois o
absoluto não se restringe a formas particulares das coisas ou experiências. Mostra-se presente
ou ausente em qualquer situação. Brilha numa paisagem, num retrato ou em cenas humanas,
dando-lhes a profundidade do sentido (TILLICH, 2009, p.118).
Quando Tillich afirma que o absoluto não se restringe a formas particulares tem-se a sensação
de que uma teologia da arte tillichiana deve ser algo bastante amplo, algo que possa compor
discussões nas mais diversas esferas do que se possa compreender como obra de arte.
Tillich parece hierarquizar as obras de arte de acordo com sua intensidade religiosa e com seu
formato cultural. Disto, sugere-se um entendimento de seu conceito de estilo. No pensamento
do autor, ele não leva em questão o estudo de uma obra de arte por si só, mas valoriza
a possibilidade de influência da mesma no ato de desvelamento da questão existencial em
sentido profundo. Quando esta perspectiva é pequena ou nula em determinada obra de arte,
logo se nota que o interesse pela mesma é menor. Uma obra que não possui uma intensidade
religiosa profunda, não serve de objeto de análise para um teólogo, nem muito menos como
princípio questionador do filósofo, mas sim, como objeto de estudo formal e crítico de um
estudioso da arte (cf. TILLICH, 2009, p. 113 ss.).
A revelação do incondicionado é o ponto mais importante da análise da obra de arte. Tillich
não cria um sistema objetivo de como interpretar as obras de arte. Isso é pertinente na medida
em que se espera dela uma revelação, ou seja, não é o sujeito da análise que consegue retirar
da obra de arte um caráter revelatório, mas é ela mesma, que vista com olhos atentos, pode
apontar para o incondicionado.
Esse entendimento pode gerar a dúvida sobre a pertinência da análise da obra de arte a
partir do pensamento tillichiano, pois se fosse esperado dela uma revelação do incondicionado
então poder-se-ia simplesmente contemplá-la. A validade do discurso sobre a obra de arte se
dá pelo fato da mesma estar contida no conjunto de elementos que gera a cultura. A cultura
aparenta ser nesse sentido o objeto último de análise. E sobre a análise da cultura Tillich
apresenta uma estrutura mais firme.
Entretanto, em 1952, na primeira de três palestras ministradas na escola de arte de Minneapolis,
intitulada “arte e natureza humana” Tillich afirma que:
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“art makes us aware of something of which we could not otherwise
become aware. We realize the quality of things which, without artistic
intuition and creation, would remain covered forever” (On art and architecture, p.16).
Aqui podemos notar o teólogo já com 66 anos, ou seja, na maturidade de seu trabalho,
afirmando como a arte é detentora de um caráter único. Tal caráter pode ser exemplificado,
mas não foi explicado detalhadamente pelo autor. O que pode ser dito, ainda que em caráter
especulativo é que o conceito de coragem de ser normalmente é trazido à tona quando se
trata das análises tillichianas da arte, o que implicaria em dizer que ele não se afasta de uma
proposta ontológica, quiçá existencial, quando elabora suas análises sobre a arte.
Para sair dos sempre citados exemplos da Madonna de Boticceli, e da Guernica de Picasso,
vejamos o que Tillich diz sobre poesia:
“I was most deeply impressed by the later poetry o Rilke. Its profound psychoanalytical
realism, mystical richness, and poetic form charged with metaphysical content made this
poetry a vehicle for insights that I could elaborate only abstractly through the concepts
of my philosophy of religion. For myself and my wife, who introduced me to poetry, the
poems became a book of devotions that I read again and again” (On art and architecture,
p.6)
O trecho citado pertence ao capítulo: “entre realidade e imaginação” da autobiografia, “on the
boundary”. Mais uma vez há uma mescla de experiência existencial e análise crítica. Pois, se o
teólogo afirma que os poemas de Rilke se tornaram para ele um livro de devoção, ou um livro
devocional que é capaz de produzis insights, primeiro são afirmados os caracteres filosóficos,
como o realismo psicanalítico e a carga metafísica, ou seja, é feita uma análise de conteúdos
da arte, que é reconhecida por Tillich como já citamos acima, como uma maneira única de
revelação, sem a qual, determinados conteúdos permaneceriam ocultos.
A discussão que aqui se desenvolve sobre a arte no contexto do pensamento de Paul Tillich
pode ser ilustrado por uma música de Zeca Baleiro e Zé Ramalho, ambos músicos da MPB:
Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta
Meu conceito parece, à primeira vista,
Um barrococó figurativo neo-expressionista
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Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista
calcado da revalorização da natureza morta
Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte desmaterializada no presente contexto
Reciclando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana
Com a graça de Deus e Basquiat
Nova York, me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana
Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina
Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria
A música, que se chama Bienal, trata da problemática sobre o que é ou não uma obra de arte,
e de como a mesma vem ganhando novas perspectivas rompendo padrões. Na verdade os
intérpretes parecem possuir uma certa ironia com relação ao assunto, entretanto, a própria
música é uma desconstrução musical, é uma apresentação diferenciada.
Se voltarmos agora à primeira citação de Tillich de que não há estilo que exclua a preocupação
suprema logo devemos deixar de lado a discussão sobre o que é uma arte válida para ser
analisada tillichianamente e devemos começar a nos preocupar com qual arte vale a pena ser
analisada em geral.
As desconstruções são afirmações do movimento real que a cultura tece na sociedade pela
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história. Seria ingênuo negarmos isso. As bizarrices que hoje nos afligem podem e vão se
tornar clássicos de amanhã.
O medo de lidar com a arte tillichianamente não é mais do que o próprio medo de lidar com
arte, seja ela qual for. O importante parece ser conseguirmos chamá-la de arte.
Justamente essa recusa em lidar com a arte tillichianamente pode ser encontrada dentro do
expressionismo. Esta corrente, querida por Tillich em sua ala germânica, se manifestou não
só na pintura e na literatura, mas também na música, na dança, no cinema e na arquitetura.
Entretanto, foi no campo das artes plásticas que o expressionismo teve mais expoentes.
A conceituação de expressionismo pode ser, ao mesmo tempo, vaga e incisiva. A abrangência
de diversas facetas se faz necessária ao considerar o expressionismo como uma forma
artística, cuja essência é a expressão do mundo exterior manifestado em imagens, e outros
produtos, através de criatividade pura e primitiva, sem a mediação de um interlocutor que
julgue esta essência.
Para Tillich, o expressionismo era visto não apenas como uma corrente, delimitada por um
período. Era uma “atitude existencialista” e poderia aparecer em qualquer época, dada a
propensão do homem em reagir aos fatores que lhe eram propostos.
Ele propôs a categorização do estilo em dois: um positivo e um crítico. O expressionismo
positivo se revelava na arte primitiva, no período bizantino e nos estilos góticos e barrocos. Já
o expressionismo crítico era aquele que revelava os elementos errantes e demoníacos.
Essa possibilidade conferida pelo expressionismo tem ligação direta com a origem do blues.
O estilo musical se fundamenta, também, na experimentação das sensações do homem e, a
partir delas a concepção de um produto natural, experimental e único.
Conclusão
Após a presente discussão algumas questão saltam à minha vista, as quais certamente
carecem de um apreciação mais detalhada.
Primeiramente, a questão mais ampla é se a Teologia da Cultura de Tillich, ou seja, sua
interpretação das formas e dos conteúdos culturais e sua busca por interpretá-los em
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correlação com os problemas existenciais humanos é um princípio que abarca toda tentativa
de se fazer uma teologia da arte tillichiana.
Em segundo lugar, e sendo uma questão a qual tenho lucidez de que não será facilmente
respondida – e talvez nem mesmo deva ser respondida – é o que é ou não uma obra de
arte. Essa questão se põe porque se é pretendido fazer uma teologia da arte tillichiana, logo
seria necessário entender o que é arte. Se a intenção é fazer uma teologia da arte partindo
dos pressupostos tillichianos, acredito poder inferir que não apenas o conceito “teologia”,
mas também o conceito “arte” deveria ser interpretado a partir do pensamento de Paul Tillich.
Caso contrário, faria-se uma teologia da arte na qual o a teologia é tillichiana, mas a arte
é delineada por algum outro conceito, o qual deve ser apresentado pelo teólogo que assim
pretende proceder.
Por último, a questão que talvez seja a mais possível de ser respondida por nós, pesquisadores
do pensamento tillichiano, é sobre a validade de uma teologia da arte. Pois cabe a quem conhece
do pensamento tillichiano responder se há alguma diferença entre fazer uma teologia da arte a
partir de Tillich, ou se simplesmente devemos nos preocupar em fazer correlações possíveis,
procurar expressões existenciais válidas que possam ser aberturas para o entendimento da
condição humana bem como para o encontro com o incondicionado.
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