Anais do XIV Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 29 e 30 de setembro de 2009 ISSN 1982-0178 A CENTRALIDADE ANTROPOLÓGICA NA TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA À LUZ DA ONTOLOGIA HERMENÊUTICA Alexandre Lucente Paulo Sérgio Lopes Gonçalves Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas [email protected] Teologia Contemporânea Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas [email protected] Resumo: Uma das maiores contribuições do método antropológico transcendental da teologia de Karl Rahner foi a afirmação de que o ser humano precisa ser compreendido em seu contexto histórico. E para que a teologia possa realizar essa compreensão com o devido caráter científico e para que o discurso da fé não seja vazio de sentido histórico e, por conseqüência, isento de sentido antropológico, tornase necessário que se utilize da mediação das ciências humanas. Nesse sentido, a mediação das ciências sociais para compreender a sociedade que o ser humano está situado, em sua constituição estrutural, política e cultural, é relevante, pertinente e imprescindível à teologia. Objetiva-se, então, explicitar a maneira como as ciências sociais contribuem na elaboração do complexo teológico em sua condição de mediação sócio-analítica que fundamenta teoricamente o auditus fidei (escutar a fé) próprio do método teológico, a fim de que o momento do intellectus fidei seja epistemologicamente consistente. Para atingir esse objetivo, o teólogo John Milbank em sua obra Teologia e teoria social. (1995), desenvolveu a relação entre ciências sociais e teologia, possibilitando visualizar a maneira como essa mediação se realiza na elaboração de um complexo teológico consistente e pertinente e que efetivamente se apresenta como teoria social. Gonçalves. Considerando a intuição de que a Palavras-chave: Ciências sociais, Teologia, Hermenêutica. anglicana, é de fundamental importância para Área do Conhecimento: Ciências Humanas – Teologia Esse autor realizou um exaustivo trabalho de Resumo do Trabalho 1. Introdução das ciências sociais e da filosofia social, assumiu a teologia contemporânea não pode prescindir da antropologia, pois o falar sobre Deus requer o reconhecimento da realidade humana, e reconhecendo que ao longo de sua história a teologia utilizou-se da filosofia em suas diversas vertentes e, na era contemporânea, abriu-se também ao diálogo com outras ciências, objetiva-se apresentar como resultado da investigação que não há mais possibilidade de se pretender produzir uma teologia pura isenta do diálogo científico. Além disso, apresentar as ciências sociais como elemento de mediação necessária à teologia é também outro objetivo. No entanto, verificar-se-á que a idéia de mediação é insuficiente para tornar a teologia uma ciência eficaz à contemporaneidade, especialmente se considerar o clima pós-moderno da cultura atual. Por isso, a utilização da referência de John Milbank, teólogo da Universidade de Cambridge, de tradição entender a aproximação entre teologia e teoria social. investigação que, após analisar as diferentes escolas teologia como uma teoria social. Eis então mais um Este trabalho é fruto de um processo de objetivo do trabalho: apresentar a teologia não iniciação científica que se insere no projeto de apenas como constituída de mediações científicas pesquisa intitulado “A centralidade antropológica na sociais, mas também como uma teoria social que teologia apresenta nova possibilidade de desenvolver e contemporânea à luz da ontologia hermenêutica” do professor Dr. Paulo Sérgio Lopes explicitar seu objeto ôntico: Deus. Anais do XIV Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 29 e 30 de setembro de 2009 ISSN 1982-0178 Para atingir esse objetivo, partiu-se da theologia mundi do concílio Vaticano II que na unidade das religiões, na unidade dos cristãos. Por isso, o porvir dessa unidade necessitava de recepcionou o processo de renovação teológica do melhor compreensão século XX e estimulou novas possibilidades de antropológica produção teológica até os dias atuais. A partir dessa necessidade de se compreender a teologia não pode teologia, tem-se a apropriação das ciências sociais ser feita sem a utilização de mediações científicas, como mediação que, por sua vez traz à tona uma além da filosofia, principalmente em sua vertente questão importante: as ciências sociais, utilizadas hermenêutica. e até da realidade mesmo histórica, cósmica. Daí a como mediação fazem parte do complexo teológico O surgimento das teologias contextuais – ou se constituem em elementos de um momentos teologia da libertação latino-americana, teologias pré-teológico? No entanto, tomou-se também a obra africanas e teologia asiática –, das teologias das de Milbank como elemento central da investigação, culturas – negra e indígena –, das teologias cuja posição está profundamente fundamentada em produzidas em gênero – teologia na ótica da mulher uma interpretação assaz original apresenta a teologia e teologia feminista – e da teologia das religiões como teoria social à medida que realiza o diálogo explicitaram com a filosofia social, com as ciências sociais e com mediações científicas na produção teológica. outras que atingem as questões sociais. Assume-se então a teologia como teoria social que desenvolve no seu bojo uma ontologia da diferença e que pretende ser uma teologia eficaz na era contemporânea, cumprindo a sua função de ser uma verdadeira prática teórica histórica. ainda melhor a necessidade das Um significativo exemplo de uso da mediação das ciências sociais na elaboração de um complexo teológico é a teologia da libertação latino-americana que tem em Hugo Assmann e Clodovis, os principais teóricos para esse assunto. No entanto, ainda que o complexo teológico libertador seja denotativo de significativa consistência epistemológica permanece 2. A problemática lançada a questão se as ciências sociais não se constituem Após a realização do concílio Vaticano II, oficializou-se uma theologia mundi que se apenas em mediação ou se propiciam à teologia ser uma teoria social. apresentava não apenas nas produções teológicas 3. A teologia como teoria social cristãs católicas, mas também nas protestantes. Uma John Milbank em sua obra “Teologia e Teoria teologia produzida em diálogo com o mundo Social”, faz um estudo aprofundado da questão, contemporâneo próprio estruturando a sua obra em quatro partes e doze entusiasmo demonstrado pelos participantes do capítulos: a) “Introdução”; b) “Parte I: Teologia e referido Concílio e da população cristã em geral. liberalismo” com dois capítulos (um e dois): “Teologia Tratava-se de ver na teologia uma ciência que política e a nova ciência da política” e “Economia explicitasse a presença de Deus na história e seu política como teodicéia e agonística”; c) “Parte II: relacionamento amoroso com os seres humanos. E Teologia e positivismo”, com três capítulos (três, isso só seria possível na unidade de todos os povos, quatro e cinco): “Sociologia I: de Malebranche a se apresentava no Anais do XIV Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 29 e 30 de setembro de 2009 ISSN 1982-0178 Durkheim”, “Sociologia II: de Kant a Weber”, “Policiar diferença, o sublime: uma crítica da sociologia da religião”; d) importantes, tais como o acolhimento ao pluralismo e “Parte III: Teologia e dialética”, com três capítulos ao respeito, a superação da violência e do sacrifício (seis, sete e oito): “Pró- e contra Hegel”, “Pró e mimético, o real sentido da paz e da harmonia e um contra Marx”, “Fundar o sobrenatural: teologia política novo conceito de teologia que, enquanto teoria social e da libertação no contexto do moderno pensamento traz à tona um realismo metanarrativo e uma católico”; e) “Parte IV: Teologia e diferença” com pragmática transcendental, cuja preocupação maior quatro capítulos (nove, dez, onze e doze): “Ciência, não é definir Deus, mas mediante uma consistente poder e realidade”, “Violência ontológica ou a prática teórica torna-lo visível, na história e na problemática pós-moderna”, “Diferença da virtude, existência dos seres humanos. recuperar-se-á questões sociais virtude da diferença”, “A outra cidade: a teologia AGRADECIMENTOS como ciência social”. Agradeço ao conselho Nacional de Pesquisa O autor utiliza de uma cuidadosa metodologia que lhe proporciona analisar cada parte, penetrando seus autores fundamentais, explicitando seus limites e suas potencialidades em relação à teologia. Após clarificar o liberalismo, o positivismo e a filosofia dialética, o autor não apenas expõe, mas pela bolsa PIBIC, à PUC-Campinas pela oportunidade, ao orientador deste plano de iniciação científica, aos membros do grupo de pesquisa “Teologia Contemporânea” que tanto me apoiaram, principalmente nas exposições feitas durante o período da investigação. assume a filosofia social da diferença para ser um substrato de uma teologia compreendida como teoria social. Isso significa afirmar que ao usar as ciências sociais e a filosofia social na compreensão da realidade, a teologia não estará firmando um momento pré-teológico, mas estará criando novos elementos no seu próprio sistema teológico e se constituirá como uma teoria social. Mas para afirmarse como teoria social, seu caminho deverá apreender o de a diferença na sua relação com a identidade, a fim de que não se crie novamente complexos teológicos marcados por conceitos abstratos e isentos de historicidade. A partir da REFERÊNCIAS [1] BOFF, Clodovis. Teologia e Prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1978. [2] GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes. “O contexto teológico do Concílio Vaticano II e suas conseqüências históricas”, in Notícia Bibliográfica e Histórica 201 (2006), pp. 129-148. [3] MILBANK, John. Theology and Social Theory. Beyond Secular Reason. Blacwell Publishers: oxford, 1990 (tradução brasileira: Teologia e Teoria social. Para além da razão secular. São Paulo: Loyola, 1995. [4] ROBERTS, Richard. “Teologia e ciências sociais”, in Concilium 315 (2006/2), pp. 123-132.