Relfexão sobre a Evolução e a Teologia
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UMA REFLEXÃO SOBRE A EVOLUÇÃO E A TEOLOGIA1
POR FILIPE DUNAWAY
AS CIÊNCIAS MODERNAS DESAFIAM A TEOLOGIA2
A época moderna, que aparentemente está chegando ao seu término no final do século XX, está
baseada, em grande parte, nas ciências naturais que surgiram nos séculos XVI e XVII, e no caso da
biologia no século XIX. Grandes avanços foram realizados nesta época nas pesquisas dos cientístas,
filósofos e matemáticos como Francis Bacon, Kepler, Galileo, Descartes, Huyghens, Boyles, Newton,
Leibniz e, posteriormente, Darwin. Entretanto, cada avanço científico causou novas dificuldades para a
crença religiosa ortodoxa.
As Ciências Físicas
A teologia tradicional foi abalada primeiro pelo pensamento do astrónomo Copérnico. Ele defendeu
a teoria heliocêntrica do universo, isto é, a noção de que o sol (hēlios, ἥλιος), ao invês
da terra, é o centro (ao redor do qual a terra gira). Esta teoria desafiou o entendimento
tradicional do lugar central do homem no universo. Por mais de 1.500 anos a Igreja
havia pressuposto e ensinado a teoria geocêntrica, a saber, a idéia de que a terra (gē, γῆ/)
é o centro imóvel do universo ao redor do qual giram todos os corpos celestiais, uma
concepção oriunda, na realidade, dos antigos gregos Ptolomeu e Aristóteles. Mas a “revolução
Esta palestra foi apresentada inicialmente no dia 23 de junho de 1998, num seminário sobre a relação entre a
teoria da evolução e a teologia, no Departamento de Biologia na Universidade de Brasília.
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O material nesta seção vem, em grande parte, da apostila de Filipe Dunaway, "Introdução à Teologia
Contemporçnea," usada na Faculdade Teológica Batista de Brasília.
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copérnica” venceu, tirando a terra e o ser humano do centro das coisas e, desta maneira,
exigindo uma reavaliação das doutrinas eclesiásticas. A segunda crise para a teologia
provocada pelas ciências físicas veio através da nova física de Newton, apesar da crença
ortodoxa do próprio cientista. Se a teoria de Copérnico tirou o homem do centro das
coisas, a de Newton parecia remover Deus por completo do universo. Depois de Newton,
tudo podia, aparentemente, ser explicado em termos das leis naturais recentemente descobertas. Deus
poderia ter sido a Primeira Causa desta máquina cósmica que agora funciona sozinha, mas Ele não
mais poderia ser facilmente visto como a Causa iminente dos eventos neste mundo. Daqui em diante,
torna-se mais difícil explicar como Deus pode agir dentro do mundo, a saber, é mais difícil acreditar em
milagres ou intervenções sobrenaturais.
As Ciências Geológicas
Aos poucos a evidência, oriunda dos fósseis, para a antiguidade da terra fez com que fosse impossível
defender na comunidade acadêmica a interpretação literal de Gênesis 1 sobre a criação do mundo em
seis dias, quatro mil anos antes de Cristo (conforme os cálculos do arcebispo inglês Usher). Além do
mais, em meados do século XVIII o geólogo inglês Charles Lyell defendeu com êxito sua teoria do
uniformitarianismo, segundo a qual as mesmas leis naturais que estão operando agora têm operado do
mesmo modo desde o princípio do mundo. Newton havia afirmado que as leis naturais operam em todo
lugar; agora Lyell declara que elas têm operado em todos os tempos. Consequentemente, a capacidade
humana de explicar naturalmente todos os acontecementos vai aumentando. Parece que Deus fica cada
vez mais remoto como uma mera Primeira Causa de um mundo que tem milhões de anos e que se
desenvolve independentemente d’Ele de acordo com as mesmas leis que têm funcionando desde o
princípio.
As Ciências Biológicas
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A revolução na biologia demorou até a segunda metade do século XIX, quando o
biólogo inglês Darwin publicou A Origem das Espécies (1859) e A Descendência do
Homem (1871). Segundo a teoria da evolução orgânica de Darwin, todas as espécies
vivas se desenvolveram da parte das espécies já existentes. Conforme Darwin, isto
ocorreu por meio de um mecanismo chamado a “seleção natural.” Conforme esta
teoria, a natureza age semelhantemente a um criador de cavalos, por exemplo, que seleciona os cavalos
mais rápidos a fim de cruzá-los e assim criar uma nova espécie de cavalo que é mais veloz do que as
espécies anteriores. A dificuldade principal para a teologia veio à tona quando Darwin mergulhou o
próprio homem nesta ordem emergente natural, ao defender a tese de que o homem evoluiu dos macacos
do velho mundo.
Então, o darwinismo desafiou a teologia traditional da igreja, pelo menos, de duas maneiras:3 (1) Se a
revolução de Copérnico desafiou o lugar do homem no universo e a revolução de Newton colocou em
questão a atuação de Deus no universo físico, o darwinismo desafiou todo o drama cristão da criação
especial do homem, sua queda e a necessidade para sua redenção. A noção de que o homem é o produto
de um longo processo evolucionário, que começou com as espécies mais baixas e eventualmente chegou
às espécies mais altas, parece ser totalmente incompatível com a interpretação tradicional dos textos em
Gênesis 1-3. Pois, segundo os darwinianos, o homem não “foi criado” à imagem de Deus no sexto dia
da criação, mas, pelo contr rio, surgiu lentamente ao longo dos séculos, por acaso, e através de forças
naturais. Além disso, ele não caiu de um estado de perfeição, mas, muito pelo contrário, emergiu de um
animal estúpido para finalmente tornar-se uma criatura intelectual e moralmente muito superior ãos seus
antepassados bestiais.
(2) A teoria de Darwin acabou com o argumento teleológico em prol da existência de Deus, pelo
menos na forma pela qual o argumento foi apresentado nos séculos XVIII e XIX. No seu livro A
Teologia Natural (1802), o teólogo anglicano William Paley argumentou que semelhantemente a um
Seguimos aqui James C. Livingston, Modern Christian Thought: From the Enlightenment to Vatican II (New
York: The Macmillan Co., 1971), pág. 228. Deve ser reconhecido que, a princípio, a maioria dos biólogos
também se opuseram ao darwinismo. Alguns foram motivados por razões científicas ao passo que outros foram
motivados mais por suas convicções morais e religiosas (veja Livingston, pág. 229-230).
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relógio que, com todas as suas partes funcionando juntamente, foi obviamente designado por alguém,
assim também os corpos dos seres humanos e animais, com a combinação impressionante de seus ossos
e músculos, devem ter sido designados por uma inteligência divina. Paley pensou que, antes de mais
nada, o olho, na sua complexidade, exemplificou a adaptação das partes a fim de que o todo pudesse
funcionar teleologicamente, neste caso como um intrumento de visão. Coisas naturais tão complexas e
obviamente (para Paley) planejadas, implicaram na existência de um Desenhador sobrenatural.
Contudo, a teoria da evolução pela seleção natural providenciou uma explicação natural para estas
características impressionantes de nossos corpos. Elas não foram planejadas por Alguém, mas, sim,
surgiram ãos poucos na luta para sobreviver em competição com as outras criaturas. É importante notar
que a teoria de Darwin não elimine a idéia de Deus como tal, mas ela realmente parece remover a
atuação divina da história natural. Em outras palavras, esta teoria procura explicar todas as estruturas
naturais e o desenvolvimento delas, sem apelar a quaisquer causas sobrenaturais. Deste ponto de vista,
se houver um Deus, ele será apenas uma Primeira Causa, que jamais se envolveu no desdobramento do
mundo natural.
[Vale a pena notar aqui que a fé Bíblica se ocupa, antes de mais nada, com o envolvimento de Deus na
história humana e não com Sua relação com a natureza, a qual foi associada mais com as religiões de
fertilidade dos cananeus e outros povos do Oriente Médio. Contudo, eventualmente, os israelitas
também confessaram bem explicitamente sua fé em Javé, não apenas como seu Salvador histórico, mas
também como o Criador e Sustentador do mundo natural. Mencionamos isso só para mostrar que a
derrota aparente do arugmento teleológico de Paley não significa necessariamente que um dos alicerces
da fé Bíblica tem sido destruido]
TRÊS DAS REAÇÕES TEOLÓGICAS INCIAIS AO DARWINISMO4
1. A Reação Moderada. Vários teólogos ortodoxos ingleses do século XIX reconheceram a força dos
argumentos de Darwin. Por exemplo, Aubrey Moore concluiu que a maioria dos cristãos de seu tempo
estava defendendo uma posição mais deísta do que cristã, ao argumentar que um Deus, que é
4
Esta seção está baseada em Livingston, Modern Christian Thought, pág. 231-240.
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normalmente ausente, intervem de vez em quando para criar alguma coisa. Em contraste, disse Moore, a
evolução implica num Deus imanente na natureza, cujo poder criativo é onipresente. Moore afirmou
também que muitos cristãos, por meio de suas reações à noção de Darwin que o homem evoluiu dos
macacos do velho mundo, estavam cometendo a “falácia genética”, a saber, a falácia lógica de julgar o
valor de algo na base de sua origem. Moore concluiu que a evolução pode ser aceita pelo cristão, pois
ela não contradiz nenhuma das duas doutrinas fundamentais nesta discussão: (a) que Deus
originalmente criou o mundo e (b) que a alma humana existe (isto significou para Moore que o homem
tem uma relação consciente com Deus).
2. A Reação Conservadora. Os teólogos mais conservadores consideraram a idéia da evolução de
novas espécies pela seleção natural como uma ameaça séria ao Cristianismo e, consequentemente,
atacaram diretamente o darwinismo. Seu método principal era procurar lacunas e contradições nas
evidênicas apresentadas pelos cientistas de seu tempo. Entretanto, este método apologético é meio
perigoso, pois se baseia na esperança precária que outras evidências para a teoria não seriam
apresentadas futuramente. O representante mais notável desta posição foi o presbiteriano Charles
Hodge (1797-1878), que era professor de teologia no Seminário Teológico Princeton nos EUA. Hodge
teve a convicção de que os conflitos entre a ciência e a teologia eram apenas aparentes e, portanto, ele
defendeu a Bíblia contra o darwinismo colecionando citações de cientistas que pareciam contradizer a
teoria da evolução. Para Hodge, a evolução era uma teoria fantástica sem evidência adequada para
sustená-la. Além disso, Hodge destacou muito o fato de que o próprio Darwin admitiu que suas teorias
eram provisórias. Prof. Hodge disse: “Não há pretenção alguma que a teoria possa ser provada. O Sr.
Darwin não pretende prov -la . . . Ele só alega que a teoria seja possível.”5 No final das contas, o perigo
principal do darwinismo, conforme Hodge, foi sua rejeição de teleologia na natureza: “a negação do
desígnio na natureza é virtualmente a negação de Deus.” A teoria de Darwin “expulsa Deus do
mundo.”6
5
Citado por Livingston, Modern Christian Thought, pág. 234.
6
Estas citações de Hodge vêm também de Livingston, Modern Christian Thought, pág. 236.
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3. A Reação Liberal. Na extremidade oposta, encontraram-se os teólogos liberais que, à luz da nova
teoria de evolução, reduziram severamente a substância da teologia crista.
O defensor mais influente
desta posição foi o pastor norte americano Lyman Abbott (1835-1922). Contudo, Abbott interpretou a
evolução bem mais positivamente do que Darwin, para o qual ela era uma luta para a sobrevivência.
Abbott afirmou: “A obra de Deus . . . é a obra de mudança progressiva, uma mudança de uma condição
mais baixa para uma mais alta, de uma condição mais simples para uma mais complexa . . . o processo
de crescimento é produzido por forças que se encomtram dentro dos próprios fenômenos . . . Deus
habita na natureza modelando-a de acordo com Sua vontade por meio de processos vitais inerentes nela,
não por meio de processos mecânicos de fora.”7
Além disso, Abbott reconheceu que a teoria de evolução era incompatível com a doutrina tradicional
da queda do homem como “um ato histórico de desobediência por parte dos pais de nossa raça . . ., por
meio do qual uma natureza pecaminosa foi transmitida” para nós. Conforme o evolucionista Abbott, a
chamada queda do homem só pode ser concebida como uma recaída para o estado bestial, isto é, “a
descida consciente e deliberada da alma individual de seu ponto de vista de uma vida mais alta para a
vida do animal da qual ela havia sido levantada.” Abbott concebeu a história humana como a evolução
progressiva da divindade já presente no homem. Cristo veio, não somente para revelar a divindade, mas
também para “evoluir a divindade latente que ele havia implantada em nós.” A síntese de Abbott é
superficial e excessivamente otimista, mas mesmo assim, ele conseguiu anticipar algumas das idéias que
seriam abordadas mais profundamente na teologia filosófica posterior, especialmente na teologia de
processo.
MANEIRAS ATUAIS DE RELACIONAR A TEOLOGIA E A CIÊNCIA
A questão da relação entre a teologia e a teoria de evolução é obviamente um aspecto de um problema
maior, o de como relacionar a teologia com a ciência de modo geral. Então, podemos usar o esquema
7
Citado por Livingston, pág. 238.
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desenvolvido por Prof. John Haught (suplimentado por Ted Peters), no qual ele apresenta vários
modelos que estão sendo usados para relacionar a teologia e as ciências naturais.8
1. Conflito. Aqui, a teologia e a ciência são consideradas como mutuamente exclusivas. Por um
lado, os materialistas científicos (naturalistas), como Bertrand Russell e Carl Sagan, adotam esta
postura. Os naturalistas dizem que somente a natureza existe e a ciência providencia o único
conhecimento a nós disponível. A religião apresenta pseudo-conhecimento sobre entidades fictícias.
Por outro lado, os biblicistas do movimento chamado “o criacionismo científico” ou “a ciência
criacionista” também vêem as duas disciplinas em conflito. Semelhantemente a Hodge, eles
argumentam que a ciência evolucionista não é sustentada pela evidência e que a verdadeira teoria
científica sobre as origens se encontra no livro de Gênesis: 6.000 (ou 10.000) anos atrás, Deus
determinou um número definido de espécies e jamais pode uma espécie desenvoler-se de outra.
2. Contraste. Os representantes deste modelo argumentam que a reflexão teológica e as pesquisas
científicas devem ser mantidas totalmente separadas uma da outra, pois elas tratam de domínios
totalmente diferentes e, portanto, usam linguagens completamente distintas. O cientista Albert Einstein
seguiu este modelo, ao afirmar que “a ciência somente pode discernir o que é, mas não o que deveria
ser; a religião, por outro lado, se ocupa somente com as avaliações do pensamento e ação humanos.” O
teólogo neo-ortodoxo Langdon Gilkey também defende esta posição. Para ele, a ciênica pressupõe a
existência da realidade e trata do conhecimento objetivo ou público sobre origens dentro deste contexto,
ao passo que a teologia trata do conhecimento existencial ou pessoal concernente à “minha” origem. A
ciência responde à pergunta “Como?” mas a teologia responde à pergunta “Por que?” Portanto, este
modelo pressupõe que nós possamos viver sem conflito em dois mundos intelectuais. Ele exige que
sejamos seres bilinguais, às vezes falando o linguajar religioso e outras vezes o científico. Entretanto, o
problema com este modelo é que faz impossível a comunicação entre as duas disciplinas e, portanto,
A obra de Prof. Haught da Universidade Georgetown nos EUA é Science & Religion: From Conflict to
Conversation (Paulist Press, 1995). Infelizmente, ao escrever esta palestra, não tivemos acesso direto a este livro,
mas encontramos um resumo de sua tesa principal na Internet. Utilizamos também o aritgo de Prof. Ted Peters,
“Theology and Science: Where are We?” Zygon, Vol. 31/2 (June 1996), o qual também foi encontrado na
Internet.
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pode impedir progresso com respeito às questões que surgem nas fronteiras entre as ciências naturais e a
teologia.
3. Contacto. Conforme este ponto de vista, deve haver respeito mútuo e comunicação entre as duas
disciplinas, a fim de que possamos encontrar soluções mais cõesas e intelectualmente satisfatórias das
questões que convergem nas fronteiras entre a teologia e as ciências. Este modelo, que é chamado
“consonçncia hipotética” por Peters, propõe a procura de áreas comuns em que os cientistas e teólogos
podem, pelo menos, fazer os mesmos tipos de perguntas, com a finalidade eventual de encontrar áreas de
verdadeira harmonia entre as afirmações teológicas sobre a criação e as afirmações científicas sobre o
mundo natural. Isto já está acontecendo na cosmologia científica cujas teorias sobre assuntos como o
Big Bang levam os cientístias a perguntar também sobre uma realidade transcendente divina. Isto abre a
porta para um diálogo em busca de idéias que possam ser afirmadas tanto pelos teólogos quanto pelos
cientistas.
4. Criticismo Ético. Este modelo, sugerido por Ted Peters e Rubem Alves,9 diz que os teólogos
devem desempenhar o papel profético de falar sobre os problemas éticos criados pela cultura científicotecnológico-industiral da modernidade. A ciência não é simplesmente uma procura objetiva e
disciplinada de conhecimento sobre a natureza. Ela é também uma entidade social que produz um certo
tipo de civilização, promove certos valores que são coerentes com sua ideologia coletiva (que, por sua
vez, legitima o que os cientistas fazem), favorece certos grupos sociais (principalmente os que pagam as
despesas dos pesquisadores), faz pesquizas que, às vezes, têm consequências social e eticamente
inaceitáveis, e polui o meio ambiente. As ciências não apenas têm trazido grandes avanços para a vida
humana, elas também têm contribuido muito para a proliferação de bombas atômicas que podem
aniquilar a humanidade, a crise ecológica que eventualmente pode fazer a terra inhabitável para seres
humanos, a desigualdade econômica que oprime os pobres, os dilemas no campo da engenharia
genética, clonagem, etc. Estes não são problemas puramente físicos ou científicos; são também
As idéias do filósofo social brasileiro Ruben Alves são apresentadas concisamente em sua palestra iconoclástica
“On the Eating Habits of Science,” (“Sobre os Hábitos Alimentares da Ciência”) p. 41-43, in Faith and Science in
an Unjust World: Report of the World Council of Churches’ Conference on Faith, Science and the Future. Vol. I:
Plenary Presentaions, editado por Roger L. Shinn. Geneva: World Council of Churches, 1980.
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dificuldades éticas e espirituais. Portanto, cabe ao teólogo, na base da rica tradição bíblico-crista,
levantar perguntas sobre os motivos dos pesqisadores científicos, as maneiras pelas quais suas teorias
são usadas dentro da sociedade, as consequências destrutivas dos desenvolvimentos científicos, e os
procedimentos necessários para criar um futuro melhor para todos os seres humanos e para o mundo
como um todo.
A QUESTÃO FUNDAMENTAL
1. No que diz respeito à relação entre evolução e teologia, creio que o problema fundamental é
cosmológico ou metafísico. A igreja cristã desenvolveu suas tradições teológicas nas épocas patrística e
medieval, quando o mundo ocidental foi dominado por uma cosmovisão estática recebida dos antigos
gregos. A imutabilidade foi supervalorizada e a mudança foi desprezada. Esta visão de um universo
estruturalmente fixado e basicamente inalterável foi relativamente compatível com a física de Newton,
que nos deu um modelo mecânico estático da natureza. Neste contexto intelectual, os pensadores
cristãos facilmente poderiam imaginar que Deus fosse o planejador ou desenhador de todos os detalhes
desta grande máquina côsmica que havia funcionado do mesmo modo desde sua criação divina.
2. Contudo, este casamento alegre entre a antiga cosmovisão estática e a teologia cristã de repente
acabou com a chegada do darwinismo, o qual foi o fator principal no desenvolvimento de uma nova
concepção do universo, um universo dinâmico, mutável, evolutivo e criativo. A realidade agora é
concebida, não como uma máquina, mas, pelo contrário, como um processo. Na nova visão, a realidade
é entendida como sendo composta, não de estruturas, substâncias e espécies inalteráveis, mas, sim, de
entidades sociais (influenciadas pelos eventos de seu passado) e criativas (que são parcialmente autodeterminantes e influenciam todas as outras entidades posteriores). Desde Darwin, então, a natureza não
é mais vista como algo estático que foi criado de repente, em toda a sua complexidade, por Deus. Como
Whitehead disse: “A natureza jamais é completa. Ela sempre está passando além de si mesma.”10 A
natureza é um sistema extremamente ativo e criativo, o qual incansavelmente cria novas formas de vida.
Esta citação vem de Donald W. Sherburne, editor, A Key to Whitehead’s “Process and Reality” (Bloomington:
Indiana University Press, 1966), pág. 34.
10
Relfexão sobre a Evolução e a Teologia
10
As criaturas são, em parte pelo menos, auto-criativas e, portanto, parece que elas mesmas são agentes
parcialmente responsáveis pelo surgimento de novas espécies de criaturas.
3. É a tarefa da teologia agora deixar de lado a antiga cosmovisão estática e repensar sua concepção
de Deus e Sua relação para com mundo, à luz da nova concepção dinâmica do mundo. Isto significa, em
primeiro lugar, uma reavaliação dos conceitos da onipotência, onisciência e eternidade divinas.
Contudo, isto não quer dizer que a teologia cristã deve abandonar suas fontes e raizes fundamentais,
como a revelação de Deus ao homem na história de Israel e na pessoa de Jesus de Nazaré, mas significa
que a teologia deve ser contextualizada, não apenas culturalmente, mas também cosmologicamente.
Felizmente, esta reavaliação da teologia já está sendo feita. Começou no século XIX, mas o progresso
mais impressionante tem ocorrido no século XX. Mencionamos somemente algumas das escolas
teológicas que têm feito contribuições nesta área: as teologias hegelianas, a teologia de processo (ou
teísmo bipolar) de Alfred North Whitehead e Charles Hartshorne, e a obra do teólogo e paleontólogo
Teilhard de Chardin.
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Evolução e a Teologia, Reflexão sobre, F. Dunaway