O teólogo, responsável pelo mundo* Antonio Manzatto* A pergunta sobre “o que esperar do estudo da teologia na área do conhecimento” leva-nos a pensar sobre a questão pragmática do “para que serve a teologia”. Gostaria de abordar este assunto sobre o prisma da “responsabilidade do teólogo”, estabelecendo, então, um diálogo onde apresento meu ponto de vista pessoal e me proponho a ouvir outras opiniões. Pessoalmente, penso que é através do diálogo que se faz avançar a teologia: um diálogo com Deus inicialmente, claro, estabelecido pela oração, pela escuta de sua Palavra e, também, porque isso faz parte da vida de espiritualidade, pela prática cristã em favor dos excluídos; mas também um diálogo estabelecido com os outros, de aqui e de longe, cristãos ou não, para colocar diante de si as idéias, apresentar pontos de vista e fazer, assim, avançar a reflexão. É o debate que torna possível o progresso da ciência e, conseqüentemente, da teologia; é ele que possibilita o avanço da sociedade e da Igreja, que deve “avançar para águas mais profundas”, como o Evangelho convida: “Duc in altuum” é a palavra do Mestre endereçada à comunidade crente. É a reunião da comunidade, irmãos e irmãs que, dialogando sobre os assuntos que interessam ao conjunto da Igreja e levando a sério, em solidariedade, a responsabilidade de sua construção, pode fazer com que, à luz do Evangelho e no Espírito da fé, o avanço eclesial seja possível e efetivo. Não é necessário, pois, temer o debate, expor as idéias, enganar-se às vezes, escutar as idéias dos outros, buscando ver mais claro e estabelecer um certo consenso que, na fidelidade à verdade revelada, possa dar pertinência às palavras e posições da Igreja de hoje. Esse o avanço da teologia, que pode colocarnos em rota para encontrar a pergunta sobre “o que esperar do estudo da teologia”. Por outro lado, pensar a importância do conhecimento teológico significa colocar em relevo sua função e, por conseguinte, a daqueles que a exercem, seja no mundo, seja na Igreja. O que esperar da teologia na área do conhecimento releva, evidentemente, da questão epistemológica, sobretudo em épocas onde o estatuto científico da teologia é questionado. Mas releva também da ação a que conduz esse conhecimento, da tarefa eclesial e social do profissional técnico da teologia. Sob esse prisma é que eu gostaria de enfocar a questão proposta. A teologia Um conceito possível da teologia é o de dizer que ela se constitui como “um saber racional cujo objeto é dado pela revelação, transmitida e interpretada na Igreja sob a autoridade do magistério, e recebida pela fé”.1 Esta compreensão apresenta elementos bastante interessantes para a reflexão. Reconhece-se, em primeiro lugar, que a teologia é um saber, um conhecimento que, pela natureza mesmo do conhecer, pode progredir. É o fundamento das ciências, e ao dizer que a teologia é “saber racional” nós a classificamos como científica ou, ao menos, próxima do saber científico. Em seguida se diz que o objeto desse conhecimento é dado pela revelação. Trata-se da afirmação, estabelecida há séculos, de que a teologia nasce da fé que não é uma simples dedução da razão,2 mas a adesão da pessoa humana à pessoa divina. Com efeito, a fé toca a pessoa toda inteira, todas as suas dimensões, e coloca-a em relação com outra pessoa, Deus, já que a afirmação fundamental da fé é “eu creio em”, e não “eu creio que”. Trata-se de uma relação de duas pessoas que pode originar um conhecimento, o da fé. Mas a fé não é, simplesmente, conhecimento, mas, acima de tudo, ethos, um comportamento vivido exatamente como relação entre o ser humano e Deus, o humano que crê e Deus em quem se crê,3 comportamento traduzido em atitudes do humano com relação a Deus e aos outros seres humanos. Naquela conceituação, fala-se da revelação, noção que afirma a possibilidade de um conhecimento de Deus que se mostrou à humanidade, revelou-se, deu um passo em direção aos seres humanos não para apresentar-se a eles, simplesmente, ou para tornar-se conhecido, mas sim para estabelecer com eles uma relação, ou, para dizer uma palavra teológica, uma aliança. Essa revelação é “recebida e transmitida”, ou Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 67 seja, é histórica. Em primeiro lugar, a revelação é histórica no sentido de que se trata da presença de Deus na história da humanidade. Aliás, a noção de revelação exige essa compreensão, já que o humano não é capaz de subir até Deus, de sair de sua humanidade para atingir o transcendente; é necessário, pois, que Deus, para comunicar-se com a humanidade, tornese, de alguma maneira, histórico, ou seja, que se situe e se manifeste em categorias humanas, em situações humanas para que o humano possa encontrá-lo. Com efeito, a história é o espaço de desenvolvimento da vida humana, como nos mostra a Modernidade: fora da história não há humanidade. Necessário é, então, que Deus se revele à humanidade na história para que essa humanidade possa compreendê-lo. Mas aquela compreensão diz mais: diz que a revelação é “recebida e transmitida”, isto é, que ela passa de geração em geração, que ela segue o ritmo da história, e que isso se dá por decisão livre da comunidade, a decisão de transmitir a fé que, por ser decisão, é livre por definição. Recebemos, então, a fé na revelação, constitutiva da reflexão teológica, das gerações que nos precederam; elas são o meio pelo qual a revelação nos alcança. Essas gerações precedentes viveram na Igreja, constituíram a Igreja de ontem, aquela que nos transmitiu a fé que é, sempre, a fé de nossos pais e mães. Ainda há mais: diz-se que a revelação é interpretada; eis o trabalho da razão, o trabalho próprio da teologia. A revelação de Deus na história, a presença de Deus na nossa história não é evidente. É preciso olhar os acontecimentos históricos e interpretá-los à luz da fé para tentar enxergar, aí, a presença e a ação de Deus. Uma interpretação, mais ainda, compreendida no enquadramento da história, faz com que se afirme a teologia como situada. Isso é muito importante: reconhece-se que a reflexão teológica é, e deve ser, situada, isto é, que ela responde a interrogações de um povo de uma época determinada, que vive em uma área geográfica delimitada, com suas condições econômicas, sociais e culturais específicas. Uma reflexão teológica é sempre situada pois acontece na Igreja encarnada no mundo e na história. Aquela conceituação lembra ainda, muito clara e enfaticamente, que a reflexão teológica é feita “sob a autoridade do magistério” eclesiástico. Nós, teólogos, nos sentimos imediatamente tocados por essas palavras que parecem diminuir a liberdade do estudo e da pesquisa, liberdade, aliás, que já não é muito grande se levarmos em conta o fato de ela acontecer em uma situação de mundo, de história e de igreja determinados, onde desenvolvemos um trabalho ra- cional, com os instrumentos científicos disponíveis e respeitando a fé da comunidade. Tudo isso são condicionantes, de certa forma condições limitadoras do trabalho teológico. E se nos lembrarmos, ainda, que somos seres humanos limitados, frágeis, expostos a uma gama imensa de condicionamentos e que, além de tudo, precisamos viver e ganhar a vida dignamente, veremos que nosso trabalho é, realmente, bastante limitado. Exatamente por isso, com tantas limitações, haveria, ainda, necessidade de ajuntar uma outra limitação, a de obediência ao magistério? Não seria enquadrar demais a teologia? Aqui, é preciso lembrar a tarefa eclesial do magistério e também os seus condicionamentos históricos. Para nós, católicos, o magistério é importante não como afirmação do exercício do poder, mas como a trilha segura que nos leva até o início da Igreja, aos apóstolos que fizeram parte do movimento de Jesus e que são as testemunhas sobre quem baseamos nossa fé. Sim, há de reconhecer um papel e um lugar para o magistério na Igreja, como há um papel e um espaço para o desenvolvimento do trabalho dos teólogos. É preciso respeitar o espaço, o papel e as atribuições de cada um para que a Igreja continue sendo o espaço de todos. Significativamente, a definição não fala de “teologia do magistério”, mas sim da teologia desenvolvida na Igreja “sob a autoridade” do magistério. A teologia continua sendo serviço eclesial desenvolvido pelo teólogo, e é serviço: há espaço, sim, para a reflexão teológica na vida da Igreja, e essa é a atribuição do teólogo. O magistério é também situado na história, como a teologia e os teólogos. Aqui cabe um exercício de humildade: não somos mais que seres históricos, que executam uma função historicamente situada. Nossas conclusões e afirmações teológicas não têm características de eternidade. Eterno é Deus, objeto da teologia, mas não suas conclusões. Nosso pensamento, todo o trabalho que enfrentamos, será ultrapassado, e talvez em pouco tempo. O magistério também é situado; evidentemente, cremos que ele age sob a inspiração do Espírito Santo, mas isso não o torna eterno. Seu trabalho é importante, mas é também situado, e a evolução da história vai mostrar a possibilidade de outros caminhos, vai abrir outras janelas, a Igreja e o mundo vão continuar avançando, apesar ou graças ao trabalho do magistério e dos teólogos. Talvez esta leitura do documento da Congregação para a Doutrina da Fé seja ingênua ou excessivamente otimista. Mas olhar a vida pelo seu lado bom pode ser interessante de tempos em tempos. Entretanto, há um grande e preocupante silêncio Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 68 naquela conceituação de teologia que foi apresentada: ela não fala do mundo. Se admitirmos que se apresenta uma alusão ao comportamento dos fiéis, pois se alude à fé, já estamos indo longe demais. Explicitamente, a afirmação não alude à prática dos cristãos; parece até que a teologia não tem estritamente nada a ver com a sua vida concreta. Ora, não é de hoje que se fala do lado prático da teologia, de sua preocupação com a pastoral e a ação dos cristãos. Poderíamos esperar que se dissesse, então, uma palavra sobre isso, também porque a ação pastoral da igreja tem relação com o conhecimento e, por isso, uma relação com o trabalho da teologia. Mas há esse silêncio sobre o mundo. Parece que a teologia olha apenas para o interior da Igreja e interessa apenas aos seus iniciados, com sua linguagem própria e, às vezes, hermética. Tarefa da teologia é falar apenas aos cristãos? Ela não tem uma palavra a dizer sobre o mundo, ou melhor, uma palavra a dizer ao mundo? A teologia não tem uma dimensão profética, missionária, de anúncio? Talvez seja bastante mais agradável falar entre nós, cristãos, que nos compreendemos bem e entendemos nossos discursos sem dificuldades. Mas os teólogos não têm uma responsabilidade com relação ao mundo?4 Lembrando o Concílio Vaticano II, talvez seja necessário retomar a constituição pastoral Gaudium et spes, que prega um diálogo da Igreja, portanto de sua teologia, com o mundo. A tarefa eclesial do teólogo É evidente que a teologia é um serviço de Igreja. Não é preciso aprofundar, aqui, a responsabilidade eclesial do teólogo, por demais conhecida e refletida por estudantes de teologia. Entretanto, seria interessante lembrar que pertence ao trabalho do teólogo a atualização da compreensão do mistério divino pela humanidade contemporânea. Claro, é preciso guardar fidelidade à tradição da Igreja, ao conteúdo que deve ser anunciado, guardar fidelidade ao Cristo e, portanto, não inventar uma nova fé, um novo Cristo, um novo cristianismo. E nesse sentido o magistério tem um papel importante a desempenhar, e os bispos parecem ter disso uma consciência bastante clara. É obrigação do teólogo guardar fidelidade à Tradição cristã, Tradição com T maiúsculo como costumamos dizer. Mas há também uma outra fidelidade a ser guardada: aquela devida à humanidade que é sempre situada, pois não existe no vazio. Fidelidade à situação é, também e da mesma maneira, obrigação do teólogo, e não pode ser esquecida. A reflexão teológica que se faz hoje deve contemplar as questões da humanidade atual, já que é para iluminar a vida que a ela se faz apelo. É esta a finalidade da Palavra de Deus que nos foi anunciada. E como não vivemos nos séculos passados, mas no hoje da história, então nosso discurso e nosso trabalho teológico não devem, simplesmente, repetir o discurso de ontem, em fórmulas consagradas que, sendo verdadeiras, talvez não sejam compreensíveis em nossa época. Um trabalho de tradução, de atualização é necessário; uma releitura que a teologia não pode furtar-se a fazer. A interpretação atual do dado revelado é, aliás, uma conseqüência da autonomia da razão humana,5 portanto uma necessidade para a teologia, que tem a razão como ferramenta de trabalho. Tarefa eclesial do teólogo é, também, a de esclarecer pela razão os conteúdos da fé a fim de que o que se crê seja “crível”, isto é, que não seja um atentado contra a razão, uma afronta à inteligência ou à humanidade. A fé deve ser esclarecida, pertinente e percutível, não simplesmente narrar fábulas e histórias extraordinárias, exatamente como diz a palavra, “incríveis ou incredíveis”. Os mitos existem e devem guardar suas características míticas de referência para o pensamento humano. A demitização da teologia não precisa ser a anulação de suas referências míticas.6 O serviço do teólogo à Igreja é o do “intellectus fidei”, o trabalho da compreensão racional do conteúdo da fé na fidelidade à Palavra de Deus, ao “auditus fidei”, aquela escuta sem a qual o trabalho do teólogo seria impossível, e isso numa liberdade de pesquisa que seja eclesial. E como se trata de uma atividade de conhecimento e de reflexão racional, é necessário que o teólogo dialogue com as ciências, além do diálogo com a Igreja. Dialogar com as ciências não é importante porque elas comandam a civilização da técnica onde vivemos, mas sim para que o teólogo desenvolva seu trabalho cientificamente. Em certo sentido, as “ferramentas” que ele utilizará para seu trabalho lhe são dadas pelas ciências, do ser humano ou da natureza. O enquadramento de sua reflexão teológica lhe é dado pelo desenvolvimento do mundo científico. As informações e as categorias que se encontram na base do pensamento teológico lhe são dadas pelas ciências. Isso é verificável no estudo da Bíblia se nos lembrarmos dos novos conhecimentos trazidos pela pesquisa arqueológica e literária; também no estudo da história da Igreja, se nos lembrarmos do que a história e a sociologia nos trouxeram como conhecimento; mas também na dogmática, lembrando a evolução da filosofia; e ainda na moral e na pastoral, levando-se em conta as novas referências trazidas pela psicologia ou pelas ciências da comunicação, por exemplo. Escutar o discurso das ciências é necessário para que a teologia cumpra sua função, execute seu trabalho. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 69 Mas porque se trata de um diálogo, a teologia também deve dizer uma palavra às ciências a partir de seu lugar próprio, não para enquadrá-las como no tempo da cristandade, mas para lembrar-lhes suas limitações ou algumas referências éticas e obrigações que vão além da satisfação das fontes de financiamento, para lembrar-lhes a humanidade do humano, já que as ciências não podem desconhecer as questões sobre o conceito de humanidade ou de sociedade que estamos em via de construir. A teologia, a partir do lugar da fé e de seu discurso escatológico, pode colocar questões sobre o sentido da vida humana, o sentido do conhecimento e da técnica em verdadeiro diálogo com as ciências, a ser estabelecido no quadro universitário, já que é aí que se dá a produção do conhecimento científico, para as ciências e para a teologia. Cabe lembrar, ainda que de passagem, a responsabilidade acadêmica e universitária do teólogo, tanto para o ensino da teologia como para a produção de conhecimento baseada nas pesquisas teológicas que ele desenvolve. O teólogo é ser humano de ciência. Ao falar das atividades acadêmicas do teólogo, gostaria de lembrar duas coisas: a formação dos leigos e as expectativas da sociedade com relação ao conhecimento teológico. Durante muito tempo, a teologia permaneceu fechada no quadro da formação do clero. Apenas alguns leigos faziam estudos teológicos mais aprofundados, já que não tinham muito o que fazer com o estudo da teologia. Isso contribuiu para que o poder na Igreja permanecesse em mãos dos ministros ordenados que sabiam o que era o pensamento teológico. Aos leigos era oferecida uma pequena introdução ao conhecimento teológico, apenas algumas palavras sobre as questões teológicas, já que isso não lhes interessava realmente. O Vaticano II, porém, lembra que a Igreja é o Povo de Deus e que todos os cristãos têm nela um ministério, um lugar e um sacerdócio a desenvolver. A partir de então, o papel e a importância dos leigos na Igreja foram sendo cada vez mais afirmados, tanto para as igrejas que vêem diminuir o número de vocações ao presbitério como para as chamadas “jovens igrejas”, onde há pequeno número de padres para uma população cada vez maior. Passou a ser colocada, então, a questão da formação teológica dos leigos que se tornam verdadeiros agentes de Igreja, a quem não é mais suficiente dar apenas uma ligeira introdução bastante geral sobre a teologia, pois, além de seus trabalhos na Igreja, eles têm outras responsabilidades: o trabalho, o mundo da política, da cultura, da economia etc. Lá onde eles atuam, é preciso que sejam capazes de dizer uma palavra teológica pertinente, de tomar decisões e assumir posições segundo sua convicção de fé. Donde a necessidade de abrir os centros de formação teológica aos leigos a fim de que possam conhecer a teologia e praticá-la em sua vida de fé. Uma certa aproximação entre as escolas de teologia e os teólogos e as comunidades eclesiais de base, onde vivem os leigos, é desejável então. Assim sendo, a presença de teólogos nas Cebs também proporciona o encontro da teologia com os leigos que vivem no mundo e suas preocupações. A comunidade é o lugar do teólogo. Ainda que de passagem, citemos o fato, relativamente recente, do reconhecimento civil dos cursos de teologia. Trata-se da questão sobre o lugar social da teologia, ao menos da teologia acadêmica desenvolvida no quadro de uma universidade. A teologia acadêmica, universitária e científica, sabemos todos, é importante para a Igreja e para a sociedade, pois critica os desvios rituais, mostra a influência da religião sobre a cultura e desemboca no engajamento social dos cristãos.7 Mas há aquela questão do reconhecimento civil do curso de teologia, que significa que o diploma obtido tem o mesmo valor social de um outro diploma obtido no curso de qualquer ciência. Aqui, um aspecto importante: o Estado reconhece o valor científico do conhecimento teológico que passa a ter direito de cidadania na sociedade e no conjunto dos conhecimentos científicos. Como o Estado fala em nome da sociedade, isso significa dizer que a sociedade reconhece o valor do discurso teológico e que ela quer escutá-lo. Durante muito tempo a teologia dizia que o mundo deveria escutá-la, pois era portadora de uma palavra importante para o mundo. Agora que o mundo diz estar pronto para ouvir essa palavra, a teologia vai esconder-se e afirmar que seu discurso tem apenas relação com as coisas interiores da Igreja e interessa apenas aos iniciados? A responsabilidade social do teólogo Se o teólogo é pessoa de diálogo, pois trabalha dialogando com a Igreja e com as ciências, porque não dialogaria com o mundo? Para a igreja, esse diálogo pode conduzir a uma melhor compreensão da colegialidade e da co-responsabilidade eclesial; para o estudo científico, pode levar a uma compreensão multidisciplinar do conhecimento teológico; no nível social, pode produzir uma prática mais democrática na sociedade, com um privilégio para os sem-voz. Claro que é preciso não ser ingênuo e reconhecer que há dois processos contra a possibilidade e credibilidade do discurso teológico: um levado a termo no interior da Igreja, que quer sempre fazer valer o interesse eclesial da teologia e a força do magistério; Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 70 o outro vem da sociedade, que, reconhecendo um espaço próprio para o conhecimento teológico, quer enquadrá-lo em certa “regionalização hermenêutica”,8 isto é, fechá-lo nas coisas de Igreja que, se aceitas na vida da sociedade, seriam reservadas apenas aos crentes. Isto é apenas outra maneira de falar da privatização da fé, da teologia e da religião, uma outra maneira de fechar o discurso teológico nas sacristias. A fé não se reduz ao privado, mas tem implicações sociais, e é preciso que o teólogo esteja atento a isso e que sempre olhe para a vida da sociedade. A teologia pode dizer uma palavra sobre a atividade social dos cristãos, pois eles não vivem fora do mundo. A convicção de fé cristã pode conduzir o crente à “manifestação mais contraditória da mística do amor ao próximo: a do amor político”, próprio daquele que “quer andar no seguimento de Jesus em sua pobreza e sofrimento”.9 A teologia deve lembrar ao crente que ele deve assumir as conseqüências sociais e políticas de sua profissão de fé. A pregação da Igreja é muito mais que a pregação de algumas verdades: ela anuncia a chegada do Reino de Deus. A Igreja não anuncia a si mesma, não é um fim em si mesma, mas está a serviço do Reino e, como Jesus já o fazia, deve anunciá-lo e engajar-se em sua construção desde agora. Vemos, aqui, a contribuição da teologia do político e da teologia da libertação. O engajamento social dos cristãos é conseqüência de sua fé, que não se resume ao culto ou à oração, mas, assumindo-os, chega ao engajamento por uma nova sociedade mais humana e solidária. Não se trata de um engajamento por qualquer sociedade. É do Reino de Deus que falamos, e então o projeto é de uma sociedade fraterna, como no anúncio de Jesus. Assim, há uma ortopráxis a ser contemplada, ações concretas para chegar àquele objetivo, visto que não se trata de qualquer ação de cristãos. Evidentemente, no horizonte está a opção preferencial pelos pobres,10 já que uma sociedade fraterna e solidária não pode admitir excluídos. O anúncio do Reino de Deus feito por Jesus, nós o sabemos, é o anúncio de uma boa notícia para os pobres e, por eles, um anúncio a toda a humanidade. Há muita gente que reage diante da opção preferencial pelos pobres, afirmando que Deus é o Deus de todos, que a proposta de Jesus é para toda a humanidade, portanto que aquilo que se diz deve ser dito para todos. Basta lembrar, no entanto, que só é para todos aquilo que é a partir dos pobres, que os inclua e que seja a seu favor. O que é pensado a partir de outros horizontes vai excluir os pobres, os últimos da sociedade. Por isso a opção preferencial pelos pobres é uma noção teológica,11 fala do Deus que escolheu os pobres não porque eles sejam bons,12 mas porque isso corresponde à maneira de Deus ser Deus. Toda a história da revelação confirma essa afirmação, e a compreensão da kénosis13 de Deus vai na mesma direção. “Por sua vontade de realizar as mudanças sociais necessárias é que o ser humano acrescenta realmente sua esperança ao futuro absoluto que é Deus. De outra maneira, a idéia de Deus não é mais que ópio do povo”.14 Ainda são os pobres que denunciam as estruturas injustas da sociedade e a omissão dos cristãos. O mundo da Modernidade, que começou por valorizar o sujeito, acabou por mergulhar a humanidade num individualismo exacerbado; a razão humana não chegou a resolver os problemas da guerra, da fome e das injustiças sociais; a sociedade evoluída de hoje se fecha de uma maneira bárbara no espetáculo da morte, seja na guerra, seja no esquecimento do outro. São os pobres que mostram que essa situação é insustentável, pois eles estão colocados fora dos muros da sociedade, não têm seus direitos respeitados, não desfrutam da igualdade numa sociedade que se quer democrática. A Igreja — e a teologia que assume esta reflexão, falando de seu lugar próprio, um lugar teológico — propõe à prática dos cristãos a defesa dos valores que vêm de Jesus mesmo e sobre os quais não se pode transigir: o valor da vida, da dignidade humana, da solidariedade. A partir daqui a teologia torna-se, para usar a expressão de Jon Sobrino, um “intellectus amoris”,15 o engajamento na defesa da vida dos mais fracos. Nossa sociedade prega um certo “evolucionismo” social e econômico que não reconhece os fracos; é pela força e a promoção do poder que a humanidade de hoje crê poder construir o mundo. Este discurso, evidentemente, interessa apenas aos poderosos, já que se baseia sobre a desigualdade e defende apenas seus próprios interesses. O discurso cristão não é o do poder, pois Deus não é poder. Deus é amor, e o discurso cristão baseia-se na prática de Jesus e sua predileção pelos pobres e fracos. É verdade que há tendências culturais atuais às quais adere-se, às vezes rápido demais, como o racionalismo ou o laicismo exagerados, que não aceitam nenhuma argumentação teológica, menos ainda aquela à qual me refiro. Há também tendências eclesiais, como o conservadorismo, o triunfalismo e um certo espírito que quer guardar a fé no domínio do privado, que, igualmente, rejeitam essa argumentação. E quando a reflexão teológica chega a tal ponto, aparecem os discursos sobre o papel eclesial da teologia, seu caráter confessional e sua tarefa na construção da identidade cristã e, ainda mais, que na sociedade há pessoas que não são cristãs e a quem não se pode impor as convicções religiosas ou saídas da religião. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 71 É interessante notar como um discurso religioso dito conservador liga-se a um discurso social dito “progressista”. Talvez porque a ideologia que domina esses discursos seja a mesma, a de guardar os benefícios da vida social atual para aqueles que já se aproveitam deles e negando a possibilidade de partilha dos bens da sociedade. A teologia, então, deve tornar-se palavra profética, pois é seu papel denunciar os interesses que se escondem atrás de belos e elaborados discursos, já que é sua tarefa denunciar a idolatria. Não pensemos rápido demais na idolatria como religião dos outros. Idolatria é afirmar um falso deus, é tornar Deus um falso, que falsifica o humano. De um lado, é a afirmação que o humano é o que ele não é, pois a humanidade não encontra sua plenitude na violência, no acúmulo de riquezas, no lucro, na fama, no sucesso; dinheiro e força não são os maiores valores da humanidade, e a emoção do momento não é o critério mais importante da verdade ou da ética. De outro lado, a idolatria é a afirmação que Deus é o que ele não é, ou seja, a afirmação de algo que toma o lugar de Deus e que, prometendo a salvação do humano, não é capaz de realizá-la. Na verdade, nosso mundo atual conhece muitos ídolos novos e novos cultos,16 não apenas no fenômeno do aparecimento da Nova Era ou dos novos movimentos religiosos. Aí também há muitos comportamentos religiosos novos que misturam a oração e a ginástica, dietas e energização cósmica, magia e segredo de textos antigos, e mais ainda. Há outros comportamentos, no entanto, que também são religiosos e giram em torno do consumo, do cartão de crédito, dos templos de comércio ou outros bens da sociedade de consumo. É até engraçado perceber como a reflexão racional crítica, tão pronta para criticar certos comportamentos religiosos estabelecidos, não esteja disposta a criticar outros comportamentos igualmente religiosos. A mesma racionalidade que critica a religião e quer proibir, com justiça, que se imponha suas convicções sobre os outros não critica da mesma maneira os novos dogmas culturais e suas manifestações religiosas. A denúncia das injustiças da sociedade, seus fundamentos idolátricos e a crítica à omissão dos cristãos são, sim, tarefas da reflexão teológica. Por isso eu gostaria de afirmar, ainda, como último ponto, o discurso social da Igreja e da teologia endereçado não apenas aos cristãos, mas ao conjunto da sociedade. Não é preciso temer a ideologia de cristandade, pois não queremos a ela voltar. O discurso social da fé não significa imposição, exercício do poder; não se quer impor nosso discurso ou nossa vontade sobre os outros, mas exercer o direito de participação no debate da sociedade. Não podemos esconder-nos atrás de discursos que parecem democráticos, mas que não têm a coragem de colocar as questões diante da sociedade, exatamente para debatê-las. Um discurso teológico fechado unicamente nas realidades intra-eclesiais é apenas fuga do mundo ou omissão. Depois de Gaudium et spes a Igreja e a teologia não têm mais o direito de esconderem-se, mas devem levar a sério suas responsabilidades sobre o mundo, já que, em se falando de fé cristã, é o mundo todo que precisa ser salvo. A especificidade do discurso teológico, repito mais uma vez, é o lugar da fé. O que a teologia deve dizer não precisa ser emprestado do discurso dos outros, e não precisa ser disfarçado de outra coisa. O discurso teológico baseia-se sobre o conhecimento da fé, e não é necessário travesti-lo para que seja aceitável. A sociedade propõe-se a ouvir o discurso teológico porque é teológico. E a teologia não pode dizer uma coisa qualquer, mas sim algo que contribua ao desenvolvimento humano da sociedade a partir de seu lugar próprio, a fé vivida na opção preferencial pelos pobres. O discurso teológico não é apologia da fé, já que não é necessário que estejamos todo o tempo na defesa da teologia diante de seus inimigos. O discurso teológico também não é acusação aos outros, mas uma participação no debate. Não é a única voz a ser ouvida, mas é uma com as outras. É necessário que esse discurso seja digno e de qualidade, mas não de força. Um discurso de atualidade deve ser o da teologia. Às vezes o que dizemos à sociedade não é compreendido, pois está ultrapassado, ou então porque não encontra mais as questões das pessoas de hoje. É necessário, então, uma atualização que não responda simplesmente às necessidades do vocabulário atual, ou que se submeta às manchetes do dia, mas que vá mais longe e afirme o que vem da realidade mais profunda de nossa fé: nós cremos na encarnação e, porque somos Igreja, queremos encarná-la na realidade do mundo de hoje, sobretudo aquela da vida dos pobres e fracos. De um lado, é preciso que a teologia tenha a coragem de propor, de mostrar suas convicções e estabelecer um diálogo com o mundo. É preciso sair para o mundo, para a sociedade, participar de seu debate sobre a verdade, articular de maneira crítica o estatuto científico da teologia e sua referência identitária,17 não como dona da verdade ou senhora do debate, mas como um de seus participantes. A Igreja é especialista em humanidade, lembrava o Concílio, mas ela reconhece que há outras instituições que também o são. Participar do debate é necessário, pois, do contrário, estaríamos dizendo que nossa teologia e nossa Igreja são antidemocráticas, sem lugar no mundo em Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 72 que vivemos. O discurso social do teólogo não é o do proselitismo, da apologia ou da acusação, mas simplesmente uma participação no diálogo sobre a sociedade que estamos em via de construir. Sem querer impor-se aos outros, o teólogo, a partir de seu lugar próprio, deve mostrar suas críticas e propor caminhos possíveis para a humanidade. A proposta cristã é pequena, frágil, vulnerável, mas precisa ser apresentada, pois nesse mesmo sentido ela se afirma humana, já que também o humano é frágil e vulnerável.18 Por outro lado, também é preciso, haja vista tratar-se de um diálogo, ouvir o que o mundo tem a dizer, a sugerir, a fim de que ela possa cumprir seu papel de serviço ao mundo e à humanidade. O diálogo supõe uma capacidade de escuta, assim como a coragem de falar. E é em um diálogo com o mundo que a Igreja engajou-se depois do Vaticano II. Esse diálogo deve ser estabelecido com todos, com os cristãos, com os homens e mulheres que pertencem às mais variadas religiões e com os que não têm religião. O diálogo ecumênico é importante, pois a Igreja deve viver sua “aventura de fidelidade inventiva e dinâmica que se joga em uma comunhão diferenciada”.19 O diálogo com as religiões também é importante, sobretudo visando o engajamento em ações que favoreçam a paz e a solidariedade entre os povos. E o diálogo social é o fundamento mesmo da prática democrática, onde homens e mulheres são convidados a dizer o que pensam e a argumentar para defender seus pontos de vista, sobretudo quando se trata da vida dos pobres e fracos. Isso me leva a dizer que o teólogo, além de sua fidelidade ao Evangelho e à Igreja, deve ser pluralista, ecumênico, atento ao mundo e defensor dos pobres. Aqui está, então, um programa para a vida inteira e uma bela paixão: a teologia. Teologia: um saber racional cujo objeto é dado pela revelação, transmitida e interpretada na Igreja sob a autoridade do magistério, e recebida pela fé. * 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Notas * 1 O presente texto foi apresentado, originalmente, como uma conferência no quadro da Semana Teológica do Instituto Pio XI, em São Paulo, comemorando os 75 anos de sua existência. Por isso o artigo guarda certo tom coloquial, de linguagem falada. O autor, presbítero da Arquidiocese de São Paulo, é doutor em Teologia pela Universidade de Louvain 16 17 18 19 (Bélgica) e, além de suas atividades pastorais, é o atual diretor da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. A vocação eclesial do teólogo (24/05/1990). Documentation Catholique 87 (1990) 695. Cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO. S. Th., q. 1, a 2. Não é estranho pensar que Deus também pode crer no humano, pois nele deposita sua confiança. Não aprofundaremos esta questão aqui, pois isso nos levaria muito longe da reflexão a que nos propomos. Cf. RAHNER, Karl. Le courage du théologien. Paris, Cerf, 1985. pp. 63-72. Cf. THÉOBALD, Christoph. Le caractère confessante de la théologie ôte-t-il toute pertinence scientifique? In: BOUSQUET, F. et al. La responsabilité des théologien. Mélanges offerts à Joseph Doré. Paris, Desclée, 2002. pp. 663-683. Cf. GESCHÉ, Adolphe. Les mots et les livres. Paris, Cerf, 2004. Col. Pensées pour penser II. Cf. THÉOBALD, Christoph Op. cit. pp. 663-683. Cf. Idem, ibidem. METZ, Johann Baptist. Merci à Karl Rahner. In: RAHNER, Karl. Le courage du théologien, cit., p. 16. A expressão opção preferencial pelos pobres aparece, textualmente, em Puebla, e desde então seguiu um longo caminho até tornar-se o consenso teológico que é hoje. Cf. GUTIERREZ, Gustavo.La force historique des pauvres. Paris, Cerf, 1986. Os pobres têm certas qualidades, diz Puebla (solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus: n. 1141), mas não é esta a razão pela qual Deus os ama, e sim o fato de eles serem pobres. Cf. XAVIER, Donizetti José. A teologia da Santíssima Trindade. São Paulo, Palavra e Prece, 2005. GESCHÉ, Adolphe. Dieu. Paris, Cerf, 2001. Col. Dieu pour penser. Ver também: REDING, José. La résistance à l’évangélisation. Sécularisation et mentalités nouvelles. In: PIROTTE, Jean (Dir.). Résistances à l’évangélisation. Paris, Karthala, 2004. pp. 101128. RAHNER, Karl. Le courage du théologien, cit., p. 77. Cf. SOBRINO, Jon. El principio misericórdia. Salvador, UCA, 1993. Cf. RIVIÈRE, Claude & PIETTE, Albert (Dir.). Nouvelles idoles, nouveaux cultes: dérives de la sacralité. Paris, L’Harmattan, 1990. Cf. THÉOBALD, Christoph. Op .cit. SCOLAS, Paul. S’aventurer sur des chemins de crête. In: GESCHÉ, Adolphe & SCOLAS, Paul (Dir). La foi dans le temps du risque. Paris, Cerf, 1997. pp. 155-175. Cf. Idem, ibidem. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10 73