A Teologia Oriental: sobre a via apofática do conhecimento de Deus à pneumatologia Ortodoxa. Para os teólogos da tradição Oriental, teologia não é somente sistematização racional: antes, é sabedoria. No mundo bizantino, somente o santo é o verdadeiro teólogo, pois só dos santos podemos dizer que é o fluxo transbordante dos ensinamentos do Espírito. São João evangelista, São Gregório de Nazianzo e São Simeão são chamados, na tradição Ortodoxa, de Teólogos. A teologia dos santos é vivificante porque brota da experiência pessoal e viva de Deus. É Também uma teologia existencial, isto é, não é uma ciência se por ciência entendemos a elaboração racional do dogma, o espaço intelectual por construir uma síntese lógica. A teologia Oriental é mística e existencial. Tal teologia é mística no sentido que é uma experiência pneumática e espiritual que a Igreja não deixa de fazer do mistério cristão. É uma teologia experimental, viva e vivificante. Sendo mística é também mistagógica enquanto é conhecimento que inicia o ser humano no mistério trinitário. Quando a teologia fala da Trindade, falará também da comunidade, fala do ser humano e de sua condição, de suas aspirações concretas, enraizadas no mais profundo do coração. Semelhantemente ao homem bíblico, o cristão oriental pensa com o coração e não simplesmente com seus recursos cerebrais. A palavra coração aqui leva o sentido bíblico, o fundo mais secreto do ser humano onde encontra-se a fidelidade – abertura a Deus – ou ao contrário, o endurecimento das atitudes. Desta forma, partindo da espiritualidade cristã oriental, a teologia pede de nós muito mais inteligência e menos intelectualidade. Vivemos em um mundo pós-cristão, dessacralizado e secularizado. Para a sociedade dos nossos dias, ser ateu, não é afirmar ou negar algo, mas deixar-se levar pela multidão para a qual Deus está ausente. Grandes filósofos do século XX declararam abertamente a “morte de Deus”; e o ateísmo passou a ser um tipo de humanismo reforçado, caracterizado pelo pensamento Nietzsche: “Deus está morto; o homem, portanto, nasceu”. Sendo assim, a religião perde seu sentido e relevância Andrey Albuquerque Mendonça é Pastor e Teólogo. Graduado em Comunicação Social, Mestre em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e Mestrando em Ciências da Religião pela PUC-SP, tem desenvolvido estudos num diálogo com a Patrística Oriental e o Cristianismo Ortodoxo em sua vertente Russa. É Professor da Faculdade de Teologia Metodista Livre na área de Teologia Pastoral e Professor Assistente na Faculdade Teológica Batista de São Paulo nas áreas de Teologia Sistemática e Filosofia. 1 para a sociedade contemporânea, necessitando de uma reformulação radical em si mesma e em sua mensagem de maneira à novamente falar de Deus ao mundo. Uma das grandes questões com as quais o cristianismo histórico se depara nos nossos dias, é que a mensagem, em muitos casos tornou-se, nas palavras do teólogo Ortodoxo Paul Evdokimov uma especulação abstrata sobre Deus, deixando de ser pensamento vivo em Deus 2. Isto se observa numa conduta cristã confortável, assentada de maneira tranqüila sobre a cruz, sem nenhuma ressonância sobre a sociedade contemporânea. Diante desse desafio, a Igreja é convidada a uma purificação profunda, um retorno à ascese, a uma espiritualidade viva, repleta do amor que leva ao encontro com o próximo, à união eucarística em torno da mesa do Senhor onde é oferecido aos homens famintos não as pedras ideológicas dos sistemas, nem as pedras teológicas dos catecismos, mas o pão dos anjos e o coração do irmão humano oferecido como alimento puro, conforme nos falou Orígenes. Diversas teorias têm sido apresentadas como tentativas de se falar à sociedade contemporânea sobre Deus. A grande questão é todas essas tentativas partem da dimensão horizontal, de uma “cultura radicalmente imanente” tornando-as ineficientes em sua abordagem. Por isso, é mister voltar à teologia dos Pais da Igreja antiga que nos mostram, através da via apofática, um chamado ao caminho do conhecimento místico do Absoluto. Pela via negativa, os Pais da Igreja ensinam que Deus é incomparável em sentido absoluto; nenhum nome o exprime adequadamente [...] A teologia positiva clássica não é depreciada, mas colocada diante de seus próprios limites. Ela se aplica apenas aos atributos revelados, manifestações de Deus no mundo. Ela os traduz de modo inteligível, mas essas traduções permanecem expressões cifradas, simbólicas, pois a realidade de Deus é absolutamente original, transcendente e irredutível a qualquer sistema de pensamento. Em torno do abismo abissal de Deus, a espada flamejante dos querubins havia traçado um círculo instransponível de silêncio.3 Paul Evdokimov continua a nos chamar a atenção para a relevância do método apofático ao explicar que o problema dos nossos dias não é o reconhecimento da essência ou existência de Deus, mas de sua “Presença” na história humana. Para ele, a via apofática torna-se então vital, pois, quanto mais Deus é incognoscível na transcendência do seu Ser, mais ele é experimentável em sua proximidade enquanto Existente. Isso porque na experiência Patrística quanto mais nos aproximamos do mistério de Deus mais nos sentimos impotentes em 2 3 EVDOKIMOV, Paul. L´amour fou de Dieu. Paris: Éditions de Seuil, 1973, p, 18. EVDOKIMOV, Paul. L´amour fou de Dieu. op. cit., p, 25. 2 defini-lo de maneira catafática. Essa experiência então se torna uma recordação simbólica onde testemunha-se, de forma epifânica, o acontecimento do Transcendente. De igual modo, Vladimir Lossky (considerado um dos maiores teólogos ortodoxos do século XX) explica que a teologia não é um fim em si mesma. Antes, é um instrumento através do qual o ser humano conhecedor ultrapassa todo conhecimento; e ao fazê-lo, chega à união mística com Deus, sua deificação – objetivo por excelência da criação. Portanto, no pensamento Oriental, teologia e espiritualidade não são excludentes, mas se constituem – de modo complementar – como a assimilação dos conteúdos da fé cristã na experiência da Igreja. Mas esta reflexão teológica assume um caráter radicalmente distinto do Ocidente. Ela é em essência, apofática! Deus jamais é objeto do conhecimento humano, pois ele é, na linguagem das Escrituras: insondável em todos os seus caminhos e inescrutável em todos os seus pensamentos. A linguagem apofática, com efeito, encontra-se enraizada especialmente no tocante a doutrina do Espírito Santo. Isto é, tanto nas descrições bíblicas quanto na tradição dos Pais da Igreja, a revelação do Paráclito tem, de per si, um caráter místico, encoberto, kenótico, não aparente em sua própria epifania. Isto quer dizer que mesmo em sua economia trinitária, Deus permanece misterioso, como Lossky nos explica: Eis a realização do apofatismo: a revelação da Santíssima Trindade como fato inicial, encontrada a partir de uma outra verdade, porque não há nada que lhe seja anterior. O pensamento apofático, que renuncia a todo sustento, encontra sustento em Deus, cuja incognoscibilidade aparece como Trindade. O pensamento adquire aqui uma estabilidade inabalável, a teologia encontra o seu fundamento, a ignorância torna-se conhecimento.4 Mas logo surgirá a questão: como a presença de Deus é experimentada? Evdokimov nos diz que é no mistério litúrgico, Por mistério temos aquilo que nos compreende a nós e não aquilo que compreendemos 5. Ela está centrada na descida do Espírito Santo que pela epíklesiv torna viva a presença do Absoluto, operação mistagógica do Espírito reconhecida pelo símbolo niceno que nos diz ser ele adorado e glorificado cumprindo assim a função doxológica na revelação epifânica 4 LOSSKY, Vladimir, La Teologia Mistica della Chiesa d´Oriente p. 39. Apud: MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século vinte. São Paulo: Teológica, 2003, p, 305. 5 EVDOKIMOV, Paul. Las Edades de la vida espiritual: de los padres del desierto a nuestros días. Salamanca, ES: Sígueme, 2003, p, 36. Epiclese: Invocação pronunciada pelos padres e confirmada pelo amém dos fiéis, a fim de que o Espírito Santo desça sobre o pão e o vinho, e também sobre a assembléia, integrante com ele, pela comunhão, no corpo do Cristo glorificado. Essa oração constitui o ponto culminante da liturgia eucarística e se encontra em toda ação sacramental. A palavra, por extensão, designa a ação do Espírito manifestando o Cristo. 3 da eucaristia. Portanto, através da liturgia encontramos um argumento sólido para a existência de Deus – argumento testemunhado pelo sujeito da fé, não o indivíduo em seu isolamento, mas o eu-litúrgico, lugar transcendente da revelação. 6 Na tradição Oriental admite-se o paradoxo (trabalhado por Lutero em sua teologia da cruz7) do Deus absconditus et revelatus, ou seja, da caminhada para o encontro com o Deus que se revela em amor, um amor sofredor, que na renúncia dos atributos da divindade tornando-se invisível – mesmo no advento da encarnação. Por isso, a figura do Espírito Santo que revela Deus aos homens nos fala através dos sopros invisíveis e poderosos do Pentecostes. Desta maneira, a via apofática, o mistério Trinitário confessado no Credo e as energias do Espírito Santo refletidas na liturgia cristã se traduzem no caminho da espiritualidade do Oriente cristão como formas de conhecimento de Deus. O Oriente jamais aceitou o princípio: lumen naturale rationis8. Pois a revelação de Deus não é um complemento da razão natural. Antes, é a ação do Espírito Santo no cerne da humanidade saciando-lhe a sede do Absoluto que, na linguagem Patrística chamamos de núpcias místicas da alma com Deus. 9 6 EVDOKIMOV, Paul. L´amour fou de Dieu. Paris: Éditions de Seuil, 1973, passim. Para maiores informações sobre o assunto consultar o Locus 7 - capítulo 2 da obra: BRAATEN, Carl E.; JENSON, Robert W. (editores) Dogmática Cristã. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1995. (Vol. 2) 8 EVDOKIMOV, Paul. La connaissance de Dieu selon la tradicion orientale: l´enseingnemnt patristique liturgique et iconographique. Paris, FR : Desclée de Brouwer, 1988, p, 84. 9 EVDOKIMOV, Paul. Las Edades de la vida espiritual: de los padres del desierto a nuestros días. Salamanca, ES: Sígueme, 2003, p, 37. 7 4 Referências bibliográficas BRAATEN, Carl E.; JENSON, Robert W. (ed.) Dogmática Cristã. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1995. (Vol. 1). ________________________________. Dogmática Cristã. São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 2002. (Vol. 2). EVDOKIMOV, Paul. La connaissance de Dieu selon la tradition orientale: L´enseingnement patristique, liturgique et iconographique. Paris: Desclée de Brouwer, 1988. _________________. L´amour fou de Dieu. Paris: Éditions de Seuil, 1973. ________________. Las Edades de La vida Espiritual: de los padres del desierto a nuestros días. Salamanca, ES: Ediciones Sígueme, 2003. MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século vinte. São Paulo: Editora Teológica, 2003. Andrey Mendonca 5