CONCURSO ARTÍSTICO E LITERÁRIO “PREVENÇÃO E REPRESSÃO À VENDA DE BEBIDAS ALCOÓLICAS A CRIANÇAS E ADOLESCENTES” CATEGORIA: CONTO 1º lugar: CORRIDA CONTRA O TEMPO “ Depois de tudo que passamos, confesso que olhando para trás, vejo que nossas vidas mudaram radicalmente. Lembrome que naquela noite, Ana havia acabado de chegar de uma festa, devia estar acabada como costumava dizer de tanto beber. Eu, como sempre, acordada, mas à espera dela. Recordome ainda das chaves tentando entrar na fechadura e de uma pancada na porta. Após um longo silêncio, ouvi o giro da fechadura e o ranger da pele em contato com o piso da sala foi notavelmente alto. Seguindo orientações médicas continuei onde estava, deixei que as coisas se estabilizassem como era de costume (Ana só parava de beber e voltava para casa quando começavam os vômitos). Ana parecia a mesma adolescente de 16 anos que bebia para ir a bordo de sensações que julgava vantajosas. As duas vezes que fora parar no hospital em coma alcoólico não serviram de lição. Ah! soltara um grito de assombro ao ver minha filha encolhida ao chão, à beira da porta em lamentável estado. Era evidente sua embriaguez e o contraste do mármore da sala com o sangue que escorria de um dos seus braços era apavorante. Desci o resto de escada, acendi a arandela mais próxima da porta e fui ver o que havia acontecido com a minha filha. A blusa com flores havaianas que usava, estava rasgada bem à altura do seio direito e a lembrança das internações me fizera estremecer. O desespero ficava mais intenso a cada segundo, pensava na reação de seu pai, ao saber que a filha bebia por ele ter mudado de país (logo ele, que se sacrificara de tal forma para que Ana e eu tivéssemos uma vida melhor). Corri até o telefone, arranqueio do gancho e tentei discar, mal sabia o que apertava. De qualquer forma, eu chegaria antes ao hospital do que qualquer ambulância ou resgate. Bastava eu tirar o carro da garagem, avançar setenta metros, e entraria na Moacir Avidos, desceria alguns trezentos e cinqüenta metros em direção ao centro, faria o contorno e entraria na Luiz Dalla Bernadina, então seriam mais cento e vinte e cinco metros até a porta do Silvio Avidos. Simples?! Talvez para uma mãe que não tivesse síndrome do pânico, mas qualquer mãe que tivesse essa doença em qualquer situação arriscaria a vida pela filha. Só precisava de coragem. Olhei para Ana, seria talvez uma chance que teria de provar para todos e principalmente para mim, que estava curada (quanto egoísmo o meu, não seria chance de provar nada, minha filha à beira da morte, e eu preocupada comigo mesma, que por sinal estaria quase curada). Tremia, não sabia ao certo por qual dos motivos. Peguei a chave e olhei para ela sobre a minha mão, podia jurar que estava segurando uma brasa e aos poucos parecia entrar em transe. A chave, que era azul, começou a se fundir com o escuro que aos poucos vinha de fora para dentro. Eu iria desmaiar. Não tinha forças, não tinha vontade de lutar. Minhas pernas amoleceram, a última coisa que senti foi meu joelho tocando o piso de mármore frio. Até que algo dentro de mim incansavelmente refutava a inconsciência (sem dúvida era o instinto de mãe, que por muitas vezes se manifestara e fizera nascer em mim apenas a preocupação, mas agora me dava forças e me erguia). Abri os olhos, meu coração acelerado parecia cantar dentro do peito: Vá, levantate mulher, vá! Respirei com todo o egoísmo que me restara, precisava abocanhar todo o ar que pudesse antes de me levantar. Na verdade não sabia se conseguiria essa façanha: levantarme. Erguime com uma única vontade em mente salvar a vida de minha filha. Enquanto corri até a garagem, sentia, às vezes, pancadas contra móveis e arestas de portas, mas não a dor. Com sacrifício alcancei a garagem e pela segunda vez diante de mim estava o Kia Picanto que ganhara de meu marido, um belo presente, mas que fizera despertar em mim a primeira crise (talvez a responsabilidade do carro próprio fosse grande demais para mim). Sem parar com a correria, abri bem a porta de trás do automóvel, voltei à sala, agacheime e nos braços carreguei Ana (fazia tempo que desejava pegar minha filha novamente no colo, mas nunca havia pensado que junto traria tamanha responsabilidade: salvar sua vida). Carregueia até a garagem, chutei um balde que havia pelo caminho e a coloquei no carro. Virei a chave na ignição e continuei com a mão nela por breves segundos, mil e uma coisas se passando pela minha cabeça. Meus olhos focavam o portão abrir, e aos poucos vi a rua surgindo. Pela primeira vez acelerei o carro que ganhara há três anos. Segundos depois estávamos na rua, e o portão fechavase. Girei o volante e segui pelos setenta metros que me colocaria na Moacir Avidos, virei à esquerda, indo em direção ao centro, foram quase 200 metros até começar a ouvir carros tocando músicas altas. Era sinônimo de farra, adolescentes, álcool... Mais 60 metros e não conseguia avançar mais, um bando de adolescentes trajando blusas idênticas a que Ana usava haviam trancado a rua. Alguns com copos de plástico nas mãos estavam reunidos em um círculo olhando para o chão e dando altas gargalhadas com o que viam, casais de jovens e adolescentes esfregavamse uns nos outros como animais (teve um que até insinuou me beijar pelo vidro da janela). Comecei a buzinar, tentava passar, mas quanto mais apertava a buzina, parecia que mais eles entravam na rua para que eu não passasse. O choro foi conseqüência, pensava como vencer os 200 metros que me restavam. Desci do carro, dei três passos e arremessei longe o primeiro que estava ao lado, foi assim com outro e sua namorada. Chorava e gritava, implorava que saíssem do caminho, mas não me ouviam. O jeito seria carregála novamente pelos braços. Voltei ao carro, abri a porta de trás e peguei Ana no colo. Meu coração acelerava segundo a segundo, estava perdendo tempo, precisava me apressar. Tentei andar o mais rápido que pude, e foi aí que começaram os clichês e as piadinhas sem graça sobre o estado de Ana, todos riam. Dei oito longos passos com Ana ao colo e os três passos seguintes foram reduzindo, até que, no último, Ana e eu fomos ao chão. Não agüentava mais, não tinha forças. Onde fora parar o instinto materno? Novamente ele se voltara contra mim, e cabia a mim agora lutar contra ele e o tempo. Tentei levantarme com Ana, mas só consegui fazer com que seu braço direito ensangüentado ficasse à vista, e os c1ichês e piadinhas instantaneamente parassem. Nesse minuto perceberam que a vida de Ana estava em jogo. Eu chorava e rezava (não sabia se Deus me ouviria naquele instante, pois há tempos estava com raiva de mim, estava com raiva do mundo, estava com raiva de Deus). Um grito ecoara da boca de uma garota que saía do meio daquelas pessoas, um grito que aumentou em mim o desespero (se é que era possível): Desgraçado! Foi o Bruno, foi ele... Eu estava com ela, quando ele chegou e puxoua pelo braço. Eu tentei impedir, mas ela disse pra não se preocupar. Ele bateu nela! De novo ele bateu nela. Sua louca, você tinha que ter chamado a polícia! Quando dei por mim já estava sobre aquela garota, rolando ao chão e arrancandolhe os poucos cabelos ensebados de cerveja que tinha. Os bêbados nada faziam. Após algumas tentativas de se soltar, a garota conseguiu voltar minha atenção novamente para Ana, gritando seu nome (quanta tolice a minha, minha filha bêbada, ensangüentada e provavelmente estuprada no meio da rua, correndo risco de vida e eu com aquela briga fútil). Soltei a garota, que recuou instintivamente. Um bêbado que eu não podia enxergar em meio à multidão, gritou: Traz um litro de Bacardi para ela! Imediatamente um bando de bêbados começou a espancá lo. Naquele instante percebi que Deus aceitara as minhas desculpas. Eu lhe pedira que me ajudasse chegar com Ana ao hospital, e Ele fizera melhor, fizera o hospital chegar até mim. Duas enfermeiras e um médico vinham correndo em meio aos bêbados, trazendo uma maca. Um dos bêbados correu cambaleando até uma das enfermeiras e perguntou choramingando: Doutora! Ela vai morrer? Diz que não, doutora, por favor! Diz que não! Não era nada cômica a situação. A enfermeira nada fez, e os três continuaram andando até nós. A enfermeira, interceptada pelo bêbado, veio diretamente a mim, abraçoume pelos ombros e foi me levando ao hospital. A maca em que estava minha filha logo passou por nós. Foram alguns instantes até chegarmos ao hospital (lá pude notar que Ana era uma ingrata, tantos que estavam ali espalhados corredor a fora por conta de problemas sérios, enquanto que Ana, mesmo sabendo das conseqüências, bebia para ir a bordo de sensações que julgava vantajosas). Compreendi que o egoísmo era de Ana, e não meu. Era ela quem bebia, desfrutava de todas as sensações que o álcool lhe proporcionava, mas colocando em risco a própria vida e pior: a vida de outras pessoas, pessoas que dependiam do serviço público de saúde, pessoas com doenças sérias. Além de Ana acabar com a própria vida, de contribuir para o congestionamento do hospital, sempre que passava mal fazia me pensar no carinho e nos cuidados que seu pai e eu a déramos. Jogava fora nossa confiança, e principalmente o amor de quem a rodeava. Quanto egoísmo! Após algumas horas, o médico me encaminhou até o quarto de Ana. Não demorou muito para que eu notasse que desta vez Ana mudara de vida." Meu relato fora comovente, todos naquela sala ficaram comovidos com o que ouviram. Ana, que estava em uma cadeira ao meu lado e focava um ponto qualquer na parede, debulhavase em lágrimas. Todos a aplaudiram e alguns (mais ousados) até vieram abraçála. Após o último se sentar, uma mulher que estava ao lado da porta se apresentou e iniciou mais uma das histórias de superação e força de vontade de pais e filhos que todos ali tinham para contar. Leandro Oliveira Giles V04 CEFETES Unidade de Colatina CONCURSO ARTÍSTICO E LITERÁRIO “PREVENÇÃO E REPRESSÃO À VENDA DE BEBIDAS ALCOÓLICAS A CRIANÇAS E ADOLESCENTES” CATEGORIA: CONTO 2º lugar: NOITE SILENCIOSA O filho de 17 anos chegou em casa alvoroçado. Jogou a mochila no sofá, tirou o par de tênis. Um tênis ele jogou no sofá, outro foi arremessado contra a vidraça da janela, quebrandoa. Ele foi para o quarto e deixou um rastro de bebida pela sala. Horas depois, chegou a mãe. Estressada, ela carregou nas costas o outro filho, de sete anos, que berrava muito. O marido apareceu feliz da vida: "Meu pagamento aumentou, mulher!", diz com orgulho. Os dois se abraçaram e nem se incomodaram com os tênis espalhados ou com os cacos de vidro no chão. O dia passou tão rápido que ninguém naquela casa viu a noite aparecer. Dona Joana, a mãe, chama Luís, seu filho adolescente, para jantar. Ele já estava há horas sozinho no quarto, pensavam os pais. Provavelmente, desde o momento em que chegou da escola. Eles não sabiam que antes o garoto tinha parado no boteco para tomar uma "branquinha", como dizia seu Zé, o pai. Joana, preocupada, foi dar uma olhada no quarto do filho e não encontrou ninguém. Viu apenas fotos de uma adolescente espalhadas pela cama e sentiu um cheiro forte de cachaça. Mal sabia ela que Luiz estava no bar consumindo mais bebida alcoólica. Ele estava triste porque perdera a esperança de conquistar o coração de Luzia, sua colega de escola. Ele precisava beber para esquecer os problemas. Esquecerse da pobreza que o separava daquela em quem ele acreditava que seria a mulher de sua vida. Precisava também de coragem para fazer algo que, sóbrio, não teria coragem de ir adiante. Muitas doses depois, ele foi para casa de Luzia. Totalmente embriagado, ele tentava conquistála. Implorava aos berros pelo amor dela. A garota simplesmente o ignorava, não queria um namorado pobre e bêbado. Sem sucesso, Luiz prometeu voltar. Jurou que ela ainda seria dele. Enquanto isso, Dona Joana, já desesperada, tinha saído em busca do filho que há mais de sete horas havia sumido de casa sem avisar onde estaria. Ela fez uma busca pelo bairro Bela Vista e não o encontrara. Pediu ajuda a uns policiais que encontrara pelo caminho. Minutos depois, eles encontraram o adolescente caído na calçada em uma rua quase deserta. Luiz estava imundo, sentia se de longe o cheiro de vômito e urina. Em casa, depois da ressaca e dos cuidados dos pais, Luiz contou tudo o que aconteceu. Você não precisa de bebida para ter coragem pra falar com uma garota que gosta dela, meu filho. O amor só nasce nas pessoas que o querem com elas. O amor não pode ser forçado a entrar em um coração fechado. O estranho é que era a primeira vez que ela parava para ouvir o filho com paciência. Ela estava sempre ocupada demais com os afazeres domésticos e o marido tinha que dar duro no trabalho. Eles não tinham tempo. Aquela conversa pouco efeito fez. O filho nada respondeu. "Vou dar uma volta", limitouse a dizer. Seu Zé fez sinal para que ela deixasse o garoto em paz. "Todo homem bebe", sentenciou. Em seguida, Luiz saiu pela noite silenciosa. Até os grilos resolveram calarse. Caminhava em direção da casa de Luzia. Parou no mesmo bar e bebeu muito novamente. Fez a mesma cena anterior, implorava o amor da colega de escola. Mas, desta vez, ele tinha uma arma que comprara de um amigo também adolescente. A negativa da garota foi seguida por um tiro que pegou de raspão na perna dela. Ela morava próximo ao DPJ da cidade. Em minutos os policiais estavam ali, vendo Luiz tentando pegar a menina à força. Seu lugar, a partir de hoje, é na cadeia. Disse um dos policiais que socorria a garota. A noite na cadeia foi longa. Luiz tinha acordado com muita dor de cabeça, mas, arrependido, estava disposto a mudar. Outras noites longas aconteceram. Depois de muitas brigas, os pais decidiram apoiar o filho, não importava como. Dona Joana fez inúmeras correntes de oração. Luiz não foi totalmente condenado. Um juiz o obrigou a internarse em uma instituição de tratamento contra drogas. Luzia, para surpresa de todos, resolveu perdoar o rapaz e passou a visitálo na clínica toda semana. Ele, comovido, resolveu lutar contra o vício. A batalha foi árdua e difícil. Alguns anos depois, a tão sonhada mudança aconteceu. Hoje, lá está Luiz diante do altar admirando a beleza de sua noiva. Luiz, o nosso amor não precisa de bebida alcoólica para se consumar, somente as nossas atitudes e pensamentos servem para preencher um amor tão verdadeiro. Dizia Luísa ao rapaz que estava entre lágrimas. A noite estava linda naquele momento. Noite de amor e esperança. Era o dia mais feliz da vida de Luís e o silêncio dele já era suficiente para demonstrar toda a gratidão que ele sentia por todos que ali estavam diante dele. Luís saiu de um pesadelo para viver um sonho. A música da festa e o aplauso aos noivos interromperam o breve silêncio da noite. KEYSER KELLY ROCHA DOS SANTOS CEFETES (UnED Colatina EJ A Educação de J ovens e Adultos) CONCURSO ARTÍSTICO E LITERÁRIO “PREVENÇÃO E REPRESSÃO À VENDA DE BEBIDAS ALCOÓLICAS A CRIANÇAS E ADOLESCENTES” CATEGORIA: CONTO 3º lugar: VIVENDO O MELHOR DA VIDA NATURALMENTE Depois de um acontecimento que me marcou muito, parei para refletir a situação em que vivem milhares de crianças, adolescentes, adultos, enfim, de seres humanos, e cheguei à conclusão de que tantas coisas poderiam ser evitadas, quantas mortes poderiam ter sido deixadas para adiante. Mas, muitas vezes, por nós nos acharmos "adultos" o suficiente para ouvirmos nossos pais, professores, a sociedade, deixamos que aconteçam coisas colocando em xeque a vida de pessoas que tanto amamos, inclusive nós mesmos. Meu nome é Eduardo, tenho 15 anos, moro com meus pais. No ano de 2006 quando eu ia fazer 13 anos de idade, estava cursando a 6ª série numa escola pública, escola essa onde passei a estudar e ser amigo de Ricardo. Ricardo estava repetindo pela 3ª vez a 6ª série, sem falar em algumas repetências que ele fez na 5ª série também. Ele tinha 21 anos e só queria farra, bebedeira, curtir a vida (isso eu só sei hoje, porque antes...). Certo dia, o professor selecionou os grupos de um trabalho de Português, e os integrantes do meu grupo eram Ricardo e Jéferson (outro baladeiro de plantão). A partir daí, nos enturmamos rapidamente, e com o passar dos dias, nos tornávamos mais amigos. No início eu era mais chegado ao Ricardo, aos poucos me acostumei com o jeito de Jéferson. Marcamos então de irmos à casa de Ricardo fazer o trabalho. Chegando lá, assim que entramos na casa, foi logo dizendo que poderíamos ficar à vontade, pois ele morava sozinho. Até aí, estava tudo tranqüilo, mas de repente, Ricardo disse para esquecermos aquele "tal trabalho", e irmos curtir. Nesse momento tirou seis garrafas de cerveja da geladeira e pôs em cima da mesa juntamente com os copos. Então perguntei o que estava acontecendo, e ele me disse para relaxar, porque o Jéferson estava acostumado com suas festas. Insisti que não bebia porque era menor de idade e meus pais proibiam. Eles começaram a dizer que eu era bebê e que obedecia às ordens da mamãe e do papai, e entre seus dizeres, davam altas gargalhadas com deboche, enquanto viravam a garrafa na boca sem usar o copo. Por imaginar que contariam aquilo para outras pessoas, e para mostrarlhes que não era nenhum bebê, virei a garrafa, entornando a cerveja no copo, de repente virei o copo, e depois só fui bebendo cada vez mais. As horas se passaram, quando percebemos, 20 garrafas de cerveja estavam vazias. Despedime e fui embora. Ao chegar em casa, meus pais queriam explicações do horário em que eu chegara e do mau hálito que a cerveja deixou em minha boca. Com tom de autoridade em minhas palavras respondi a eles que a partir daquele dia, não mandavam mais em mim, e fui para meu quarto. Meus pais tentavam de todas as formas conversar comigo, mas naquela madrugada foi impossível. No outro dia, durante o café da manhã, meu pai se sentou em minha frente, olhou em meus olhos e começou a me aconselhar sobre o que havia acontecido. Eu disse que aquilo não aconteceria novamente e saí de casa. Ao chegar à escola, Ricardo e Jéferson foram me encontrar no portão de entrada, convidandome para ir com eles naquela noite em uma Havy que aconteceria em outra cidade. Iríamos de carro e depois eles me levariam para casa. Ao olhar nos olhos de Ricardo não consegui dizer "não", e aceitei. Depois da escola fui em casa, peguei algumas roupas e sem dizer nada aos meus pais, saí. Cheguei à casa de Ricardo e lá estavam ele, Jéferson e uma menina por nome de Aline, que também iria conosco. Entramos no carro e fomos. Chegando lá, Ricardo conseguiu uma maneira de nos deixarem entrar, já que Aline e eu éramos menores de idade. Não demorou muito entramos na Havy, e logo começamos a beber. Ricardo me apresentou outras bebidas: vodka, uísque, cachaça com limão, etc., a cada gole eu delirava. Passaramse várias horas, e às 4h20min da madrugada entramos no carro com destino a nossas casas. Estávamos todos super alcoolizados. No meio do caminho paramos para abastecer, Jéferson me pediu para comprarlhe um litro de vodka. Ao entrar no bar, peguei o litro de vodka, e após passar no caixa, paguei ao homem que ali estava me atendendo, quando de repente, um homem aparece e pergunta meu nome, depois pergunta minha idade. Quando respondi, disseme que teria que acompanhálo, pois ele era comissário de menor. Comecei a sorrir com deboche e saí correndo até o carro onde estavam todos. Ricardo saiu em alta velocidade, enquanto o comissário nos seguia logo atrás com seu carro. Na metade do percurso, Ricardo perdeu a direção e se chocou contra uma moto que vinha em nossa direção, nos lançando contra um poste. Nesse momento, meus olhos se fecharam, e só os abri novamente num quarto de hospital, sem saber o que estava acontecendo comigo. Novamente fiquei sem meus sentidos, e só retomei 24 horas depois. Abri os meus olhos, ao meu lado estavam meus pais, que choravam por me verem naquela situação. Aos poucos fui falando devagar e perguntei o que havia acontecido e eles foram me dizendo tudo. Depois me lembrei de Ricardo e os outros, papai disse que Ricardo havia falecido, Aline estava em coma por ter sido lançada para fora do carro e Jéferson ficaria paralítico. O rapaz da moto também falecera. Naquele momento eu preferiria estar morto. Arrependime por não ter ouvido meus pais. Esse era meu questionamento dias e noites deitado naquela cama. Por misericórdia de Deus, aos poucos me recuperei, mas também perdi os movimentos das pernas e hoje dependo de uma cadeira de rodas. Aline não conseguiu se recuperar e morreu. Mortes poderiam ter sido adiadas. Dores que poderiam ter sido evitadas. Mas por pensarmos somente em nós mesmos, por acharmos que não precisamos de conselhos, sempre nos vemos em situações irreversíveis. Dizem que álcool e direção não combinam. Mas, só hoje vejo como isso é verdadeiro. Só hoje vejo que álcool não combina com nada. O motociclista que faleceu não estava alcoolizado, e mesmo assim morreu por culpa de outros que estavam embriagados. Só hoje vejo o tempo que perdi, coisas lindas que não vivi, lugares que não visitei, coisas importantes que eu deveria ter feito e não fiz. Álcool mata! Álcool destrói... O melhor da vida se vive naturalmente... ELAINE DAS NEVES BARBÁRIO – 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO EEEFM “Rubens Rangel”