Evelina Hoisel
Cadeira 34 Patrono: Domingos Guedes
Cabral
Fundador: José Virgílio da Silva Lemos
2o. Titular: Heitor Pragues Fróes. Transferiuse para a Cadeira 33, depois do
desaparecimento de Xavier Marques
3o. Titular: Adalício Coelho Nogueira
4o. Titular: Walfrido Moraes
Titular atual: Evelina de Carvalho Sá Rosa
Posse em 27.10.2005
DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
Evelina Hoisel
No momento em que passo a integrar esta Instituição como um dos seus membros, não
poderia deixar de declarar que, se por um lado sinto um relativo desconforto em estar nesta
cerimônia que me introduz na Academia de Letras da Bahia, por outro, sinto-me
extremamente acolhida, e é esta sensação de acolhimento que me faz estar aqui nesta
solenidade de posse, com a generosa presença das senhoras e dos senhores acadêmicos, das
autoridades que aqui estão, dos amigos e amigas, e dos meus queridos familiares.
Se, neste momento, perpassa uma sensação de perplexidade, ela é decorrente do meu
reconhecimento de que não me sinto detentora de uma obra literária que justifique a minha
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presença numa Academia e, portanto, na Academia de Letras da Bahia. Aqui estão presentes
ilustres personalidades, em sua grande maioria, com uma obra já constituída e sua
contribuição reconhecidamente estampada no cenário literário e cultural da Bahia.
Contudo, vejo que a minha maior construção decorre do meu desempenho como
docente, da minha atuação na sala de aula, na convivência com os meus alunos, no ritual
cotidiano de ensino e aprendizagem. É para isso que me sinto vocacionada. E é para isso que
tenho dirigido o meu trabalho. É, principalmente, na sala de aula de uma Instituição pública, a
Universidade Federal da Bahia, que acredito poder contribuir para a construção de um mundo
mais humano, fraterno, igualitário e amoroso. É no rico espaço da sala de aula que me sinto
plenamente à vontade para colocar o meu pensamento, as minhas reflexões e o meu afeto à
disposição de quem de mim se aproxima na condição de estudante ou de orientando,
tornando-os um bem público, à disposição de todos. Mas ensinar é também uma constante
aprendizagem e eu me sinto cada vez mais enriquecida em cada contato com meus alunos.
É, portanto, na qualidade de professora e de aprendiz que chego hoje a esta Academia.
É esta a condição com a qual me identifico. É ela que me tem constituído durante estes longos
anos de docência, no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, apesar de que, em
muitas ocasiões, o tempo da sala de aula foi compartilhado com as atividades administrativas.
Senhoras e senhores, se manifesto esta perplexidade ou este desconforto, por outro
lado, posso também dizer que sempre me senti bem recebida no espaço desta Casa. Por aqui
transito desde a época em que o Instituto de Letras ainda estava localizado no velho casarão
da antiga Faculdade de Filosofia, bem ali, do outro lado da rua. Há longos anos, a Academia
de Letras da Bahia e o Instituto de Letras se irmanam através da atuação do nosso Emérito
Professor Cláudio Veiga, Mestre de Língua e de Literatura Francesa de tantas gerações, e
também Eminente Presidente da Academia de Letras da Bahia. Do Professor Cláudio Veiga
recebi valiosas lições de língua e literatura francesa e, mais recentemente, em 1999, ele
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presidiu a Banca Examinadora do meu concurso para Professora Titular da Universidade
Federal da Bahia.
Foi graças ao Professor Cláudio Veiga que esta Casa passou a representar para mim
uma espécie de prolongamento do meu querido Instituto. Senhoras e senhores, esta intimidade
com que defino minha relação com esta Venerável Instituição é uma forma de dizer que a
Academia de Letras da Bahia se constitui como um dos territórios em que vivenciei minha
travessia pelos espaços literários. Quando o Instituto de Letras ainda estava localizado
defronte do Palacete Góes Calmon, estas duas Instituições mantinham uma relação de intensa
parceria e não foram poucas as oportunidades que tive de desfrutar desses momentos.
A presença dos estudantes de Letras nesta Casa constituía um roteiro cultural
obrigatório, pois os seus eventos representavam uma possibilidade de ampliação e
sedimentação do saber difundido nas salas do velho casarão da Av. Joana Angélica. Ali me
foram ofertados os conteúdos das diversas disciplinas e, principalmente, as ricas e preciosas
lições de entusiasmo, de criatividade, de rigor ético e de participação política, tendo ainda
como mestres as Eméritas Professoras Judith Grossmann, a saudosa Gina Magnavita Galeffi –
uma lição viva de entusiasmo e de alegria – as professoras Joselice Macedo de Barreiros,
Nadja Andrade, Suzana Alice Marcelino Cardoso – querida professora já no curso de
Admissão – Jacyra Mota, Carlota Ferreira, Vera Rollemberg, Maria Emiliana Passos, Claiz
Passos, Jerusa Pires Ferreira, Zilma Parente de Barros, Celeste Aída Galeão, Teresa Leal
Gonçalves Pereira, Célia Marques Telles, o saudoso Professor Hélio Simões, os também
Eméritos Professores Luiz Angélico da Costa e Nilton Vasco da Gama, e os professores
Nelson Rossi e Antonio Barros.
Nesta Academia, já na condição de Professora, organizei e coordenei diversos
seminários e cursos. O primeiro deles realizou-se em 1987, a Semana Guimarães Rosa, uma
homenagem ao escritor João Guimarães Rosa pelo transcurso dos vinte anos de sua morte e da
publicação de Tutaméia. Dentre outros eventos aqui organizados, ainda destaco a Oficina
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amorosa: seminário Judith Grossmann, em 1991, uma homenagem à escritora, mas também à
Mestra e à Emérita Professora Judith Grossmann, de quem aprendi as indeléveis lições de
Teoria da Literatura, de dedicação à docência e de generosidade intelectual, e que plasmou a
minha formação nos quatro anos do curso de Letras e durante todos os anos de convívio, no
setor de Teoria da Literatura. O chamado de Judith Grossmann para integrar o grupo de
Teoria da Literatura, que já se constituía no ano de 1968, quando eu ainda era estudante do
terceiro ano de Letras, foi um momento de espanto, pois a carreira universitária ainda não se
anunciara para mim como um percurso a ser seguido. Com Judith Grossmann, aprendi a
considerar o ensino como uma atividade prazerosa e amorosa. A ela, Mestra e amiga, é a
quem primeiro direciono a minha gratidão neste momento de celebração, ela, que está em
tantas lições aprendidas e ensinadas.
Foram diversas as ocasiões em que atravessei o pórtico desta Casa. Entre conferências
e palestras, destaco os cursos ministrados anualmente sobre a poesia de Castro Alves. Se por
um lado, diante dos eminentes acadêmicos que ouviam a minha fala, muitos deles, renomados
estudiosos da obra de Castro Alves, sentia-me uma neófita, por outro lado, a abertura para a
interlocução foi sempre muito profícua e, nesta Academia, encontrei constantemente um
espaço de ressonância para a minha voz. Foi graças à minha participação nestes diversos
cursos que pude redescobrir e redimensionar o pathos dramático e a força da escrita de Castro
Alves, poeta que conheci inicialmente através de meu pai, que recitava constantemente os
seus versos, e que, quando eu ainda era estudante, presenteou-me com a sua edição das
poesias completas da Aguilar, gesto preciso e precípuo para que eu pudesse sentir o borbulhar
do gênio do poeta dos escravos e me adentrar na sua monumental obra. A força expressiva
dos versos de Castro Alves tornou-se para mim um território literário e libertário que
atravesso constantemente, para entender a literatura e compreender os mistérios que
constituem os dilaceramentos da vida do “homem humano”.
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Ao invocar a memória de meu pai, trazida neste momento de celebração através da
poesia de Castro Alves, sinto que a sua presença aqui também me espreita e é a ele, João
Gonçalves de Carvalho Sá, que me ensinou o valor da austeridade e do rigor, a quem
carinhosamente dedico este momento. Ele que, ao contrário do poeta que tanto amava,
duvidava constantemente da ameaça da morte! e, tantas vezes, em conversa com os filhos,
ousava dizer: “se algum dia eu morrer...”
Assim, Senhoras e Senhores, quando fui consultada sobre a minha indicação para a
Academia de Letras da Bahia pela Acadêmica Myriam Fraga, ela que, além da amizade, tem
sido uma generosa e entusiástica parceira em tantos acontecimentos importantes do meu
percurso acadêmico, a sensação inicial foi de espanto, pelo sentimento de que iria ocupar um
lugar que não seria meu, e para o qual não estaria destinada. Considerei todavia que, mais do
que um privilégio, estar nesta Casa é principalmente uma forma de trabalho e de construção,
de estabelecimento de relações, de parcerias e de interlocuções no campo das Letras e da
Cultura.
É, portanto, com este propósito que aceitei a convocação e hoje passo a ocupar a
cadeira de número 34 da Academia de Letras da Bahia, uma cadeira que tem como fio a unir a
trajetória dos seus diversos ocupantes o pendor vocacional de todos para o exercício do ensino.
Desde o seu fundador e primeiro ocupante, o ilustre José Virgílio da Silva Lemos, até o meu
antecessor imediato, o Acadêmico Walfrido Moraes, a docência, e mesmo a docência na
Universidade da Bahia, antes dela se constituir como Universidade Federal da Bahia, tem sido
uma das atividades em que os meus ilustres antecessores na cadeira 34 se destacaram. É,
portanto, a partir dessa atuação, que encontro a lógica da minha inserção no filão genealógico
que constitui a cadeira de número 34, que tem como patrono o livre pensador Domingos
Guedes Cabral. Minha inserção significa também o ingresso da primeira mulher nesta cadeira.
Pensar a minha inclusão no filão genealógico que se estabelece entre os diversos
ocupantes é definir a relação que passo a ter, a partir desta solenidade de iniciação, com estas
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personalidades que deixaram marcas no cenário cultural da Bahia. É a memória desses
antepassados que passo agora a invocar, neste ritual de homenagem que integra o discurso de
posse em uma Academia.
O patrono da cadeira 34 é Domingos Guedes Cabral, que teve uma vida muito curta –
nasceu em 1852 e faleceu em 1883 – morrendo aos trinta e um anos de idade. No seu discurso
de posse, o Acadêmico Adalício Nogueira, também ocupante da cadeira 34, destacou a
“tempestuosa passagem” de Domingos Guedes Cabral pelo cenário cultural baiano,
comparando-o ao “fulgor de um meteoro que sulcou repentinamente o espaço intelectual da
Bahia, com o sobressalto de um clarão”. Destacam-se, na sua biografia, a personalidade forte,
a vigorosa fisionomia moral, as idéias revolucionárias e libertárias.
Domingos Guedes Cabral é considerado como um introdutor das idéias de Charles
Darwin no Brasil. Destacou-se na sua época por ter escrito, em 1875, uma tese para seu
Doutoramento na Faculdade de Medicina da Bahia, intitulada Funções do cérebro, onde
defendia a idéia de um desenvolvimento gradual e progressivo da constituição cerebral,
fundamentando-se nas idéias darwinianas de que o cérebro não seria movido por qualquer
motor misterioso ou por uma força transcendente qualquer, mas se constituía como um
aparelho que teria se aperfeiçoado no curso da evolução biológica. A tese de Domingos
Guedes Cabral afirmava a possibilidade do discurso da medicina assumir um teor filosófico,
perspectiva que não era aceita na época, e ainda sugeria o condicionamento das paixões
humanas a um determinismo biológico.
Nesse cenário de então, a tese de Domingos Guedes Cabral representava uma afronta e,
dentre outras repercussões, feria, como as próprias idéias de Darwin, o narcisismo do homem
do século 19, não tendo, por conseguinte, sido aceita, mesmo em um espaço que deveria se
caracterizar como de produção do saber, imune a preconceitos e ideologias. A Faculdade de
Medicina chegou a constituir uma comissão que ficou incumbida de verificar se a tese As
funções do cérebro estava de acordo com as normas do Estatuto que regulamentava o sistema
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de tese. A Comissão considerou o trabalho como um atentado aos seus estatutos, ofensivo à
religião do Estado e, que, nas palavras do relator, deveria ser lançado “ao limbo da
obscuridade.”
Foi graças à reação e à intervenção dos colegas de turma que a tese foi publicada e a
notícia desse veto circulou na imprensa da época como um protesto contra a violência
daqueles que pretendiam silenciar uma voz, reprimir o seu pensamento, baseados em idéias
preconcebidas e aprisionados ao paradigma vigente na época. Ainda que as idéias positivistas
e o darwinismo que fundamentavam as reflexões de Domingos Guedes Cabral tivessem o seu
campo de atuação e de vigência deslocado por outras formas de pensamento, que se
impuseram na ciência a partir do século 19, este episódio de sua biografia intelectual
representa para nós uma lição fecunda e atual, por afirmar a liberdade das idéias.
O Fundador da cadeira número 34 – o seu primeiro ocupante – foi José Virgílio da
Silva Lemos, conhecido por Virgílio de Lemos, que nasceu em Penedo, Alagoas, em 1863 e
faleceu em Salvador, em 1926. Veio para a Bahia aos dezessete anos, estudando no Colégio
Carneiro Ribeiro e, posteriormente, ingressando na Faculdade de Medicina, onde cursou
apenas o primeiro ano, que logo abandonou para dedicar-se ao magistério e ao jornalismo.
Nas suas múltiplas formas de atuação – magistério, jornalismo, política – Virgílio de
Lemos é caracterizado como um espírito inflamado, de temperamento polêmico. Estes traços
de sua personalidade ganharam maior visibilidade na sua atividade como jornalista, uma das
suas paixões, além do magistério. Foi através do jornalismo que seus ideais abolicionistas e
republicanos se propagaram, e polêmicas com importantes jornalistas e figuras do seu tempo
foram travadas. Ocupou cargo de direção em diversos jornais, como o Diário de Notícias, o
Diário do Povo, a gazeta República Federal, A Gazeta do Povo, A Bahia e O Estado.
O magistério foi outra grande paixão desse Ilustre Acadêmico, que a ela se dedicou
durante toda a sua vida, até mesmo ensinando em casas particulares, no início de sua carreira,
como uma forma de suprir as necessidades financeiras. Em 1890, Virgílio de Lemos foi
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nomeado para reger a cadeira de Estética no Instituto Oficial de Ensino Secundário, depois
transformado em Ginásio da Bahia, perdendo o seu posto por questões políticas, mas sendo a
ele reintegrado em 1902, na cadeira de Economia Política e de Direito Pátrio.
Durante o período em que esteve afastado do Ginásio da Bahia, Virgílio de Lemos
cursou a Faculdade Livre de Direito da Bahia. Pouco depois, com a tese O conceito de
Soberania, submeteu-se a um concurso na Faculdade de Direito da Bahia, sendo nomeado
para a cadeira de Direito Internacional, porém, transferiu-se para a cadeira de Filosofia do
Direito, considerando que esta matéria estaria mais identificada com as suas atividades na
imprensa e na política. Como político, Virgílio de Lemos participou da Assembléia
Legislativa Provincial e do Parlamento Nacional.
Sinto-me mais inclinada a falar desse predecessor a partir de suas reflexões sobre a
língua portuguesa, através da sua defesa do dialeto brasileiro. Contestando diversos filólogos
e lingüistas de sua época, que consideravam que a língua portuguesa no Brasil, por maiores
que tenham sido as suas transformações, não chegou a se constituir como um dialeto, Virgílio
de Lemos afirmou que a língua portuguesa no Brasil tomou um rumo especial, próprio e
original, constituindo-se, sim, em um verdadeiro dialeto. Esta polêmica realizada ainda no
final do século 19 pretendia definir o idioma nacional, diferenciando-o do português de
Portugal. Sabemos que ela não se esgotou na contemporaneidade, e com isso, mais uma vez,
este antecessor se destaca, afirmando o seu espaço na história cultural da Bahia como uma
voz cuja ressonância se amplia em diversas áreas, inclusive no que diz respeito à história do
português falado no Brasil.
Adalício Coelho Nogueira sucedeu Virgílio de Lemos e tomou posse em 11 de
novembro de 1944, dando continuidade à tradição de professores e de juristas que ocuparam a
cadeira número 34 desta Academia. Diplomado pela Faculdade de Direito da Universidade da
Bahia, em 1924, onde foi discípulo de Virgílio de Lemos, Adalício Nogueira percorreu todas
as etapas da trajetória jurídica, iniciando-a, em 1925, com a Promotoria Pública, na comarca
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de Ituaçu e, posteriormente, Castro Alves, Canavieiras e Amargosa, chegando ao posto de
Ministro do Supremo Tribunal Federal. É assim que, em 1929, mediante concurso, foi
nomeado Juiz de Direito e, posteriormente, em 1944, promovido por merecimento a
Desembargador do então Tribunal de Apelação da Bahia, tendo sido seu presidente no
período compreendido entre 1962-1963. Ocupou ainda a Presidência do Tribunal Regional
Eleitoral do Estado (1950) e foi Ministro do Supremo Tribunal Federal (1965).
No magistério, como romanista de mérito reconhecido, Adalício Nogueira exerceu a
cátedra de Direito Romano da Faculdade de Direito da Universidade da Bahia – que passaria a
constituir, em 1956, uma das unidades da Universidade Federal da Bahia – cátedra
conquistada após memorável concurso, realizado em 1943. Conhecendo com autoridade as
questões penais, divulgou este conhecimento através de diversas obras publicadas,
destacando-se Aspectos da pessoa física no direito Romano, Introdução ao Direito Romano,
Cursos de Direito Romano.
É, sem dúvida, a crença nos valores de liberdade e justiça, tema que ele tão bem
definiu na aula inaugural proferida na Faculdade de Direito da Universidade da Bahia, em
março de 1944, que faz Adalíco Nogueira dedicar-se à cátedra do Direito Romano, por
encontrar nos romanos a veneração pela liberdade e a rejeição pelo exercício ilimitado e
excessivo do poder. Para este eminente professor da Universidade Federal da Bahia, a maior
contribuição de Roma para o patrimônio liberal da humanidade foi o seu Direito. E esse
Direito só se propagou graças ao irrecusável conteúdo de liberdade que enriquece os seus
códigos, inscrevendo-os nas leis das civilizações modernas. Foram as decisões dos seus
magistrados e dos seus jurisconsultos que vibraram os golpes contra a escravidão existente em
Roma daquela época. Talvez tenha sido esta vocação libertária que impulsionou Adalício
Nogueira para o território da literatura, espaço por excelência de liberdade e de utopia, espaço
através do qual ele também transitou com sua lira amorosa.
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Walfrido Moraes sucedeu Adalício Nogueira na cadeira número 34, tomando posse em
28 de maio de 1991. Destacou-se no panorama intelectual da Bahia como jornalista, professor
e escritor. Diplomou-se pela antiga Faculdade de Filosofia, em Bacharel em Jornalismo e
Bacharel em História e Geografia. Era natural de Lençóis, terra de tantas histórias e tradições,
em que ele viveu intensamente desde menino, embrenhando-se nas suas paisagens e nos seus
conflitos, deixando-nos, por isso mesmo, um legado de relatos que constituem importantes
documentos para se conhecer e revisitar a história das lutas políticas na Chapada Diamantina,
ou mesmo as suas paisagens geográficas, a sua Paisagem mágica.
No discurso pronunciado quando tomou posse nesta Academia, Walfrido Moraes
recordou os momentos de guerra entre os coronéis e o Governo do Estado, que transformou a
capital do diamante em um palco de conflitos e de tensões, onde as lutas nas trincheiras
contagiavam a todos, sobretudo os meninos do seu tempo. É a travessia pelo cenário da guerra,
sitiada pelas tropas do governo e pelos jagunços adversários, tendo o coronel Horácio de
Mattos como chefe, que mobilizou o imaginário do menino de então, levando-o a decidir ser
um jagunço: queria também descer o desfiladeiro do lavrado com um fuzil em punho, ir para
as linhas de frente, onde ocorriam os encontros mais sangrentos, e ver os seus feitos
comentados, admirados e aplaudidos... Tudo isso foi uma fantasia de menino, pois, logo em
seguida, junto com alguns membros da família, foi para longe do palco da guerra.
Quando voltou a Lençóis, após cessar o conflito, novos embates ameaçavam a região,
envolvendo inclusive choques com os pelotões da Coluna de Prestes. Todos esses
acontecimentos que constituem as suas reminiscências, mas são também depoimentos sobre a
memória histórica e cultural da Chapada Diamantina, estão relatados em seus diversos livros,
como Jagunços e heróis, Horácio de Matos: um vulto da civilização Diamantina.
É neste contexto que o Acadêmico Walfrido Moraes cresceu, convivendo com chefes
políticos do sertão baiano, como o coronel Horácio de Mattos, de quem traçou um perfil,
integrando-se, com apenas nove anos de idade, nas atividades da tipografia fundada pelo
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chefe político que criara o semanário O sertão. Assim, quando adveio a Revolução de 1930 e
a supressão do sistema coronelista, que se efetivou por meio de prisões e assassinatos
políticos, o diretor de O sertão, o jornalista Franklin de Queirós, fugiu e o coronel Horácio de
Mattos, depois de ser levado para Salvador, foi assassinado. A partir de então, Walfrido
Moraes viu-se na contingência de assumir a função de redator–chefe do jornal, com apenas
dezessete anos de idade. Foi quando confirmou a sua índole rebelde e fez do jornal um espaço
de discussão política. Tais embates o deslocaram para Salvador, onde deu continuidade à sua
atividade jornalística no Correio Baiano, em O Imparcial e, posteriormente, no jornal A
Tarde.
Não pretendo aqui reconstituir as múltiplas atividades desse antecessor na área pública
e política, nem mesmo as de Docente e Adjunto de Catedrático do Colégio Estadual da Bahia.
Volto novamente ao seu discurso de posse e recorto um fragmento em que ele se define como
um sertanejo, ou melhor, atavicamente como “um jagunço, que desceu das montanhas da
Chapada Diamantina e se perdeu no tempo... Homem telúrico, caldeado de sol e impregnado
do ar, dos ventos, dos cantos, dos aromas e das energias do sertão”. É esse delineamento da
constituição do perfil de homem do sertão que elejo como a face desse antecessor que se
destaca para mim, esse homem para quem o sertão não é apenas um dado essencial da sua
biografia existencial, mas constitui também um dos cernes de sua biografia intelectual.
Pois Jagunços e heróis traça a saga das aventuras e desventuras dos episódios políticos
ocorridos na década de 20, o sistema coronelista e de jagunços, a reação sertaneja, a marcha
do batalhão patriótico, a revolução de 30. O livro é todo permeado de histórias que traduzem a
vivência pelos sertões distantes, terra seca e árida, mas possuidora de um riquíssimo
imaginário que tem alimentado os mais preciosos textos da literatura brasileira: Sertão, de
Coelho Neto, Pelo sertão, de Affonso Arinos, A pedra do reino, de Ariano Suassuna, e,
principalmente, aqueles textos que constituem as matrizes da literatura nacional: Os sertões,
de Euclides da Cunha; Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. A palavra sertão
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está em todos os cronistas e viajantes que visitaram o Brasil do século 16 ao século 18, sendo
um lugar de acepção geográfica e um lugar de acepção poética, constantemente referido como
uma terra longínqua, desconhecida, inculta, terra distante e ignota, palavras que trazem as
marcas do nosso processo colonizador.
É, portanto, através desse viés da biografia pessoal e intelectual do meu antecessor, o
ilustre Walfrido Moraes, que me embrenho na minha travessia pelos sertões, pelas veredas do
grande sertão, eu, também sertaneja, nascida em Salvador, mas criada no sertão de Jeremoabo,
terra da jurema em flor.
De lá vim e aqui estou!
Cheguei a Salvador ainda menina, semi-alfabetizada, mas extremamente nutrida pela
amorosa relação com os avós. O avô, o Cel. João Sá, chefe político da região, e a avó, D. Lulu,
uma nobre sertaneja feita de doçura e delicadeza, que me ninou em berço esplêndido até os
nove anos de idade. Entre mangueiras, umbuzeiros e canaviais, cresci, sorvendo a brisa que
vinha dos campos, o cantar dos pássaros, e o desfilar dos gansos toda tardinha, quando
retornavam dos pastos. Não havia as histórias de Robinson Crusoé nem as histórias em
quadrinho. E eu nem sabia se minha história era mais bonita do que a de Robinson Crusoé...
Havia o contato imediato com os signos do mundo, que eu também nem sabia como decifrálos, pois nem ao menos sabia que eram signos. Havia as histórias de cangaceiros e de
jagunços, de Lampião, de fantasmas, de fim de mundo, de Pedro Batista e de Padre Cícero, de
bolas-de-fogo que saíam dos cemitérios e de vaqueiros que se lançavam em precipícios, em
solidariedade ao boi perdido. Havia as histórias de seca e de flagelo... de retirantes... Histórias
que não acabavam mais... Havia o medo inexplicável da guerra e do fim do mundo. A guerra
sempre foi um fantasma inexplicável – bastava ouvir a expressão “ministério da guerra”,
pronunciada todas as noites pela rádio Nacional, quando meu avô sentava na cadeira de
balanço para ouvir a Voz do Brasil, que tudo estremecia para mim e as cores do mundo se
turvavam.
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Com um imaginário povoado dessas histórias, cheguei a Salvador para me integrar à
minha família, eu, a caçula de cinco filhos de João Gonçalves de Carvalho Sá e Hyldeth Costa
de Carvalho Sá. Todos os irmãos estavam incumbidos de me civilizar. Cada um, juntamente
com as minhas cunhadas, que já se ligavam à família, exerceu um papel importante para
minha formação. A personalidade marcante de todos eles foi sempre para mim um desafio e
uma fonte de inspiração. A eles, hoje aqui presentes – Antônio Carlos Sá, João Sá e
Hannelore Sá, Rosa Sá Santucci e Galdino Santucci – agradeço a paciência com a menina do
interior que desconhecia os rituais da civilização urbana.
Da minha irmã Thereza, Thereza Sá de tantos nomes, pois se chamava também Maria
Francisca, já ausente do nosso convívio, invoco sua exuberância e sua maneira intempestiva
de ser, sua imaginação, que desde pequena me lançou nas fronteiras entre a realidade e a
ficção, não só pelas histórias mirabolantes que criava a respeito dos fantásticos castelos de
Jeremoabo. Mas, principalmente, porque Thereza, ela própria, parecia ser constituída de tinta
e papel. Sua figura irreverente parecia ter se descolado das páginas de um livro, ou de vários.
Thereza era atriz e parecia viver no mundo como em um grande palco. Dentre os múltiplos
personagens que sua vida encarnava, o que mais me aprazia era o de irmã mais velha que
nutria pela caçula um amor incondicional. Amor esse que resultou em grande dedicação e
também em grande expectativa em relação às minhas conquistas.
Foi por isso que recebi de Thereza as primeiras lições de teatro e, com elas, as
primeiras lições de transgressão, que pareciam traçar um caminho particular para o lugar antes
reservado à menina do interior, no seio de uma família tradicional e patriarcal. Muitas dessas
lições me foram dadas na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, no tempo de
Martim Gonçalves e, posteriormente, no Teatro Vila Velha, fundado pelo Grupo de Teatro
dos Novos, que ela integrava e que, por isso mesmo, me deu a oportunidade de acompanhar as
peripécias de sua construção.
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As diversas peças assistidas naquela época, quando eu ainda estava no ginásio, foram
lições preciosas, principalmente pela oportunidade de conviver com um grupo que se destacou
no teatro baiano, o Grupo de Teatro dos Novos, sob a liderança de João Augusto, e que teve
uma atuação revolucionária na vida cultural da Bahia e do Brasil. Naquela época, eu nem
pressentia que a Literatura Dramática seria um dos territórios literários que eu passaria a
habitar, que a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia estaria tão amorosamente
entranhada na minha vida docente, e que o drama seria um dos cernes das minhas constantes
reflexões teórico-críticas. É com extrema alegria que hoje vejo diversos ex-alunos atuando
como renomados professores da Escola de Teatro, eles que me ensinaram a importância de
um convívio menos formal na relação aluno-professor e que, de forma tão instigante,
solicitaram constantemente a superação dos limites de minha timidez.
Senhoras e senhores. Aprendi ao longo desses anos de experiências vividas que a
trama da vida da gente se tece de maneira imponderável. Mas esta lição também me foi
ensinada por Riobaldo Tatarana, personagem de Grande sertão: veredas, de João Guimarães
Rosa. A literatura, para mim, longe de ser apenas um objeto de estudo, é uma fonte
inesgotável de conhecimento sobre a vida. Não estou aqui me referindo a uma possível
erudição, advinda do acúmulo de sucessivas leituras. Refiro-me ao conhecimento da condição
humana, das suas desditas e das suas ditas, das suas desventuras e aventuras, em busca do
conhecimento. Lição magistralmente doada a nós pelo gênio de Sófocles, na sua tragédia
Édipo Rei. Como personagem trágica, Édipo caracteriza-se pelo orgulho, pela desmedida, por
presumir que possui um saber completo, um excesso de saber. No desenrolar da tragédia,
todavia, ele terá que aprender que sabe muito pouco. É esse o grande aprendizado de Édipo,
que, em circunstâncias cada vez mais diferentes, é também o nosso aprendizado.
É por isso que, no Grande sertão, o protagonista Riobaldo, ao contemplar e interpretar
o seu passado, as suas peripécias de jagunço na travessia pelo sertão-mundo,
apaixonadamente amando um outro jagunço, constantemente se indaga: “Por que foi que eu
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conheci aquele Menino? Para que foi que eu tive que atravessar o rio, defronte com o
Menino?” Reinaldo/Diadorim, o menino que ele encontra nas margens do rio São Francisco e
do qual jamais poderá se esquecer. Repetidas vezes, Riobaldo esclarece o seu sentimento na
sua travessia pelo sertão-mundo: “De ser jagunço, eu não gostava”; “Diadorim era um
impossível”. Entretanto, as forças imponderáveis da vida – as ondas da vida, como expressou
anteriormente Hamlet – levaram-no para o encontro trágico com o menino moço ReinaldoDiadorim que, na realidade, era uma mulher travestida de homem, na sua travessia pelo sertão,
para vingar a morte do pai, o chefe político Joca Ramiro. Reinaldo-Diadorim, que na pia
batismal recebeu o nome de Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, que nasceu para o
dever de guerrear sem gozo de amor...
Foi assim, através das histórias e das imagens do Grande sertão: veredas, que pude
perceber o quanto trago do sertão dentro de mim... e quanto o sertão está em mim. As palavras
de Riobaldo, constantemente repetidas, “Sertão: é dentro da gente”, ganharam uma
ressonância particular, vez que não me transportaram apenas para o sertão metafísico, o ser
tão da nossa travessia para o infinito: da nossa faústica caminhada em busca do conhecimento.
As imagens do Grande sertão: veredas transportaram-me em primeira instância para um local,
uma realidade concreta, delimitada nos seus contornos geográficos, que passo a revisitar e,
principalmente, a conhecê-la em suas diversas veredas através da palavra poética. A realidade
reconstruída pelas imagens poéticas proporciona uma visão inusitada das coisas mais
conhecidas e familiares. Cada signo do mundo ganha uma outra tonalidade, outras
reverberações, quando traduzido e captado pelo signo da arte e da literatura. A literatura,
senhoras e senhores, após consagrar uma realidade na sua dimensão ordinária e efêmera,
oferece-nos uma belíssima oportunidade de reencontrá-la redimensionada, com outros
sentidos até então não percebidos e, por essa via, possibilita-nos o re-encantamento do mundo
e do humano.
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O Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, dentre tantas outras lições
literárias e existenciais, foi então uma oportunidade para dar significação a uma realidade
vivida, mas ainda envolta na sua neblina, pela falta do sentido para compreender a trama das
suas histórias, das suas crenças, das suas lutas, dos seus bandos de jagunço. A geografia do
sertão, com sua fauna, sua flora, sua rede fluvial, transborda no Grande sertão – e são tantos
os seus rios... rios simbolicamente representados, todos desaguando no rio São Francisco, do
qual Riobaldo confirma a condição de rio da unidade nacional e que demarca, através de suas
margens direita e esquerda, os acontecimentos mais importantes da vida do jagunço Riobaldo,
ele, que também é um rio baldo, um rio caudaloso e turvo. Através das veredas do Grande
sertão, o rio S. Francisco, o velho Chico, encontra-se eternizado, perenizado no seu curso,
com todos os seus afluentes e com todas as suas margens. Aí está sacralizado o seu estatuto de
rio da unidade nacional, ele que hoje suscita as mais antagônicas e acirradas polêmicas quanto
à transposição do curso de suas águas e o futuro de sua existência.
Entretanto, senhoras e senhores, ao contrário de Riobaldo, nos seus desencontros pelo
sertão, sinto-me uma pessoa privilegiada pela sorte. Nos tantos desencontros que o
imponderável da vida poderia ter trazido, fui afortunadamente sorteada, encontrando-me com
pessoas que têm me doado preciosos tesouros, contribuindo de maneira indelével para o meu
saber, a minha travessia literária e existencial. O encontro com a Professora. Judith
Grossmann, no primeiro ano do curso de Letras, foi uma oportunidade ímpar para o
conhecimento da literatura. Enveredar pela poesia de Manuel Bandeira, Cecília Meireles,
Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, a
narrativa de Lúcio Cardoso, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector,
Kafka, a tragédia grega, o drama de Shakespeare, de Strindberg, de Ibsen. Quantos territórios
percorridos através desses autores... e a decisiva oportunidade do encontro com a obra de João
Guimarães Rosa, principalmente o Grande Sertão: veredas, integralmente lido nas aulas do
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segundo ano do curso de Letras, transformando-se desde logo em uma paixão crítica, em
objeto de estudo constantemente contemplado, pensado e repensado.
A entrada no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia representou a
possibilidade de convívio com pessoas que considero incomuns, pelo vigor da inteligência, a
competência e o entusiasmo. Muitos desses encontros já se efetivaram desde o curso de
graduação, no final da década de 60. Destaco as constantes e instigantes interlocuções teóricocríticas com as Professoras do Setor de Teoria da Literatura, Antonia Torreão Herrera e Lígia
Guimarães Telles, que além de antigas colegas têm sido companheiras sempre presentes em
diferentes espaços da minha vida, Mirella Márcia Longo Vieira Lima e Cássia Lopes. Dos
colegas do Instituto de Letras, tenho recebido as mais nobres manifestações de solidariedade e
de carinho, que são um constante e caloroso estímulo para o exercício da minha carreira. Cada
um tem colaborado com a sua exuberante eloqüência ou com a sua discreta presença.
Faço parte de uma geração marcada pelo regime militar de 1964. Uma geração que
vivenciou os incríveis anos 60 como um momento que se destaca na história cultural
brasileira pelos debates em torno da eficácia revolucionária da palavra poética que, naquele
momento, apresentava-se como poderoso instrumento dos projetos para a tomada do poder,
ainda que a principal produção cultural daquele período se realizasse principalmente em
circuito integrado ao sistema – o cinema, o teatro, o disco.
Se, por um lado, prevalecia a usurpação dos direitos democráticos, a censura, a tortura,
o exílio e a morte de tantos participantes dos movimentos revolucionários de esquerda, por
outro lado, havia uma forte consciência política que – entre tantos desacertos e acertos – não
se deixava capturar ante a repressão e o autoritarismo e ainda inseria o Brasil no contexto das
lutas políticas da América Latina e da América Central.
Os estudantes daquela década, os jovens dos anos rebeldes, transpiravam uma vocação
revolucionária e não se amedrontavam diante das ameaças do regime opressor. Tive a honra
de conviver com colegas e amigos que tiveram uma vigorosa atuação política, a partir da
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convicção de que pode haver uma sociedade mais justa, igualitária e humana. Amigos que
tiveram seus direitos estudantis cassados, outros foram exilados, mas não recuaram ante as
prisões que se sucediam a cada dia. Alguns nem recuaram diante de suas próprias limitações
físicas! Quantas vezes atravessamos a Avenida Sete de Setembro e a Baixa dos Sapateiros sob
a mira das baionetas do exército e das bombas de gás lacrimogêneo, ou tivemos que entrar
apressadamente na Reitoria, por uma das janelas dos fundos, para nos protegermos!
Bradávamos contra o imperialismo americano, o FMI, o Banco Mundial, a privatização da
universidade pública e gratuita, a guerra do Vietnam, os arsenais nucleares. Uma geração,
senhoras e senhores, marcada pelas palavras crise e subversão e que tem no movimento
estudantil de 1968 da França o símbolo de uma derrocada de valores, que se propagou a partir
dos movimentos de contracultura.
No Brasil, chegavam os ecos dos movimentos que explodiam nos Estados Unidos e na
Europa – o movimento hippie, os Beatles, as baladas de Bob Dylan, o festival de Woodstock,
a cultura pop, a eclosão das vozes minoritárias. As preocupações com o corpo, o erotismo, a
subversão de valores e comportamentos apareciam como formas de demonstrar a insatisfação
com os regimes ditatoriais que promoviam a inquietação dos jovens e dos artistas.
Aqui no Brasil, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, os Novos Baianos e todos os
outros tropicalistas que apareciam na cena cultural da época, com cabelos longos, roupas
coloridas, guitarras elétricas, atitudes inesperadas, recusavam os padrões do bom
comportamento, seja ele cênico ou existencial. Com esse gesto, os movimentos de então já
afirmavam a sua descrença em uma revolução marxista-leninista e no discurso militante do
populismo, propondo uma outra forma de atuação política, que apelava para o ritual da festa
como espaço-tempo de transgressão.
Ouvíamos entusiasticamente Alegria alegria, Superbacana, Domingo no parque, É
proibido proibir, Disparada, Pra não dizer que não falei de flores. Vibrávamos com os filmes
de Glauber Rocha e com o teatro de José Celso Martinez. Curtíamos os textos pop de José
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Agrippino de Paula, que abalavam de maneira radical os padrões literários vigentes no
período. Naquele tempo, em Arembepe, acreditávamos poder mudar o mundo, depor todas as
máscaras, construir uma sociedade alternativa, criar uma nova consciência, sob o símbolo da
paz e do amor. Se o sonho acabou, nos seus imensos descompassos, ele plantou sementes que
germinaram, inaugurando outras formas de relações e de estar no mundo.
Esta moça do sertão, diante dessa teia de símbolos e de valores de um mundo que se
globalizava, embrenha-se nessa outra paisagem que passa a ser um dado importante de sua
biografia existencial e intelectual. A régua e o compasso para adentrar o terreno da
contracultura foram adquiridos principalmente pela rica e amorosa convivência com o meu
marido e companheiro de tantos anos, Beto Hoisel. Sua maneira de ser entusiasticamente
transgressora, irrequieta e imprevisível, proporcionou uma relação cheia de surpresas que,
muitas vezes, desaguaram no meu percurso intelectual. Tendo abraçado um vasto campo de
interesses, que vai do cosmos à cultura, da metafísica e da filosofia às ciências naturais e
exatas, sempre compartilhou, generosamente e de forma solidária, seu conhecimento e
acolheu os meus projetos com muito entusiasmo. E sempre lavrou os meus sonhos com
carinho e com amor. O encontro com Beto foi marcado por uma força que impulsionava a
minha carreira acadêmica mesmo nos inevitáveis momentos de incertezas e desânimo. Por
isso, a vida de casada jamais foi um obstáculo para a minha profissão, mas uma soma de
forças, mesmo com três filhos que, desde pequenos, aprenderam o generoso exercício do
compartilhamento. Iris, Hermano e Omar: nomes da alegria.
Do ponto de vista intelectual, as ferramentas para a aventura pelas paisagens urbanas
são oferecidas pelas magistrais lições de um outro Mestre de literatura e de cultura, de
generosidade e de rigor intelectual, o Professor Silviano Santiago, na Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro. Com Silviano Santiago, a possibilidade de poder rever, a partir de
outros pressupostos, o saber assimilado até então aparece como vigorosa oportunidade de
ampliação de meu campo cultural e de meu horizonte teórico. Oportunidade essa que se
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mostra extremamente rentável nas minhas mais recentes leituras de autores contemporâneos,
nas quais é inevitável ouvir o eco das lições de Silviano Santiago. A contemporaneidade de
suas lições se mostra ainda na atividade docente, quando o seu pensamento é evocado, tantas
vezes, por alunos que, mesmo sem se dar conta, trazem para o espaço da sala de aula a
juventude despojada de preconceitos da sua maneira de encarar a literatura e a cultura.
Silviano Santiago atravessa o terreno da literatura não só a partir das suas formas canônicas,
dos seus centros, mas, principalmente, das suas margens e dos valores que delas se propagam.
Foi a partir dessa perspectiva que pude me adentrar na complexa rede de símbolos da
civilização contemporânea e da contracultura, tendo como objeto a obra pop tropicalista de
José Agrippino de Paula.
Senhoras Acadêmicas e Senhores Acadêmicos.
É com esta singela trajetória que chego hoje ao vosso convívio. Não se trata da história
de uma rebelde, ou de um temperamento intempestivo e eloqüente. Trata-se de alguém que,
no fluir da vida, nos seus rioscorrentes, teve a possibilidade de acolher as diversas paisagens
que encontrou, paisagens muitas vezes imponderáveis, díspares, e retecê-las silenciosamente
durante as travessias. Mas acredito, senhoras e senhores, que o silêncio tem também a sua
eloqüência. Chego assim, com muita honra, para me associar aos que aqui já estão e, na
diferença da história de cada um, poder contribuir para dar continuidade à história desta
venerável instituição: a Academia de Letras da Bahia.
A Myriam Fraga, agradeço a indicação, primeiro gesto para eu estar aqui neste
momento. Ao eminente Professor Cláudio Veiga, Presidente desta Casa, às confreiras e aos
confrades – muito obrigada a todos.
Salvador, 27 de outubro de 2005.
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DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA