UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
Angelica Ramalho da Silva
OS DESAFIOS DE SER PROUNISTA
São Paulo
2013
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
ANGELICA RAMALHO DA SILVA
OS DESAFIOS DE SER PROUNISTA
Trabalho
apresentado
de
Conclusão
ao
Centro
de
de
Curso
Ciências
Biológicas e da Saúde da Universidade
Presbiteriana Mackenzie como parte dos
requisitos exigidos para conclusão do curso
de Licenciatura em Ciências Biológicas.
Orientadora: Profa. Dra. Rosana dos Santos
Jordão.
São Paulo
2013
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, gostaria de agradecer a Universidade Presbiteriana Mackenzie por
todo o apoio prestado para minha graduação até esse momento. Agradecer,
também, ao Programa Universidade para Todos, inspiração para o meu trabalho e
possibilidade que encontrei para entrar numa universidade de grande porte.
Aos professores que influenciaram positivamente a minha formação acadêmica,
ensinando-me coisas novas e muitos incentivando-me a não desistir. Em especial a
minha orientadora Profa. Dra. Rosana dos Santos Jordão, a quem admiro por fazer
de suas aulas um momento de reflexão necessária sobre a sociedade e a educação
nos dias de hoje.
Aos membros da banca Cássio Másculo e Célia Regina Batista Serrão por aceitarem
o meu convite. Obrigada também a todos os colaboradores dessa pesquisa, meus
entrevistados, que se ofereceram como sujeitos de pesquisa e permitiram que eu
conhecesse um pouco de suas vivências pessoais.
A Berg Euclydes, meu padrinho de formatura, por me levar para fazer o ENEM em
uma faculdade incrivelmente longe da minha casa. Sem sua carona eu
provavelmente teria ido pior na prova e não estaria aqui, concluindo o meu curso de
Licenciatura hoje. Obrigada!
Aos meus amigos da turma 311: Silvia, Renato, Thales, Gustavo, Maísa, Verônica,
Claus, Marcela, Mayra, Maysa, Andréa, Hernando e Caroline pelas piadas, festas,
saídas a campo e manhãs de estudo. Principalmente a Luíse Garcia por todas as
vezes que me fez rir, pelo apoio mútuo e por se tornar uma amiga essencial. E a
Samar Nasser, uma garota admirável, minha primeira amiga na Biologia e sem a
qual eu provavelmente não concluiria o curso.
Agradecer aos meus melhores amigos de sempre Aline Cristina e Judson Barbosa,
que estão anos me ouvindo reclamar e durante a graduação não foi diferente. À
Tamara França, pois desde que somos amigas ela nunca mais me deixou sozinha. À
Felipe Fill por nunca ter me negado ajuda ou perdido a paciência comigo. E
agradecer, também, ao meu velho amigo Eduardo Dias que após ter entrado no
Mackenzie deixou a faculdade muito mais divertida.
Por fim, quero agradecer a minha irmã Amanda Ramalho pelo belo trabalho que fez
me criando. Mesmo que eu não demonstre, você sabe o quanto eu te amo e te
admiro por tudo que passou. Obrigada por fazer parte da minha família.
Obrigada a todos.
RESUMO
O ProUni é um programa do Governo Federal que concede bolsas de estudo
integrais e parciais para estudantes de cursos de graduação em instituições privadas
de Ensino Superior. Esse benefício é concedido, principalmente, aos alunos que
cursaram o Ensino Médio em escolas públicas. Muitas vezes, os prounistas
ingressam em universidades de grande porte e possuem uma certa dificuldade em
se adaptar a um mundo diferente. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi
identificar os problemas enfrentados pelos prounistas, na visão deles mesmos, ao
ingressarem na universidade. Convidamos alunos prounistas, que cursam a 4ª etapa
ou etapas posteriores em cursos variados da universidade a participarem de uma
entrevista semiestruturada sobre suas vivências na Universidade. Realizamos quatro
entrevistas. Cada entrevista foi gravada e transcrita literalmente. Organizamos a
análise em dois tópicos. No primeiro, apresentamos alguns dados sobre a vida
escolar dos atuais bolsistas, comparando as suas visões e experiências no colégio.
No segundo tópico, são apresentadas 10 categorias, derivadas dos dados, sendo
elas: Escolha do curso; Primeiro contato com a Universidade; Primeiro dia de aula;
Dificuldades enfrentadas; Esforço dos prounistas; Relação com colegas; ProUni em
uma palavra; O vestibular; Prounistas sobre o ProUni; e As diferenças de ser
prounista. Com o levantamento feito, observamos que há experiências positivas e
negativas para os prounistas. O primeiro dia de aula de alguns entrevistados foi
bastante conturbado, já que entraram com um atraso de cerca de um mês e meio na
Universidade. As dificuldades relatadas estão envolvidas a questões financeiras e
dificuldades acadêmicas. A relação com os demais colegas na Universidade é
avaliada como boa, assim como suas impressões sobre o programa e suas
vivências. Os alunos do ProUni afirmam não se sentirem diferentes dos demais e
que fizeram bons amigos.
Palavras-chave: ProUni; vivências; bolsistas.
ABSTRACT
ProUni is a Federal Government program that grants full and partial scholarships to
undergraduate students in private higher education institutions. This benefit is mainly
granted to students that attended public institutions during secondary education.
Many times, the prounistas (ProUni scholarship students) become a student at large
universities and have difficulties adapting themselves to a different world. Thus, the
goal of this work was to identify the problems faced by the prounistas, in their own
view, when joining the university. We have invited students that attended at least the
fourth semester in different majors at the University to participate in a semi-structured
interview regarding their experiences in the University. We have performed four
interviews. Each interview was recorded and verbatim transcribed. We have
organized the analysis in two topics. In the first one, we present a few data on the
academic life of the current scholarship students, comparing their views and
experiences during secondary education. In the second topic, we present ten
categories derived from the data: Major choice; First contact with the University; First
day of class; Difficulties faced; Effort of the prounistas; Relationship with the
colleagues; ProUni in a single word; The University entrance exam; ProUni by
prounistas; Differences of being a prounista. With the study done, we could see that
there are positive and negative experiences for these students. The first day of class
of a few interviewed was quite troubled, since their classes began with a month and a
half delay. The difficulties found are related to financial and academic matters. The
relationship with the other colleagues at the University is evaluated as being good, as
well as their feelings regarding the program and their experiences. ProUni students
say they do not feel different from the others and that they have made good friends.
Keywords: ProUni; experiences; scholarship students.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 8
2. RERENCIAL TEÓRICO ...................................................................................... 10
2.1.
A procura pelo Ensino Superior ................................................................... 10
2.2.
O programa .................................................................................................. 11
2.3.
As opiniões sobre o ProUni .......................................................................... 12
2.4.
O ProUni na visão dos prounistas ................................................................ 14
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ........................................................... 18
3.1.
Aspectos Éticos ............................................................................................ 18
3.2.
Os participantes ........................................................................................... 18
3.3.
Instrumento de pesquisa .............................................................................. 18
3.4.
Abordagem dos participantes....................................................................... 18
3.5.
Entrevistas ................................................................................................... 19
3.6.
Análise ......................................................................................................... 20
4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS .............................................. 21
4.1.
A história dos prounistas .............................................................................. 21
4.2.
Vivências na Universidade ........................................................................... 22
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 34
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 38
7. Apêndices ........................................................................................................... 41
8
1. INTRODUÇÃO
Lembro-me do meu primeiro dia na universidade, era uma quinta-feira de
manhã e eu cheguei meia hora antes da aula, preocupada em não me perder. As
aulas já haviam começado há mais de duas semanas. No dia anterior, disseram-me
que a minha turma estaria na sala 201 de determinado prédio. Ao chegar na referida
sala, pude perceber que aquelas pessoas não faziam o meu curso. Estavam todos
muito arrumados, vestidos com roupas sociais. Perguntando para uma das alunas
sobre qual aula teríamos, ela apenas me disse “aqui é a turma III de administração”.
Assim começava a minha saga na universidade.
Cada segurança a quem eu pedia informação, mandava-me para um
prédio diferente, nenhum deles sendo o prédio das aulas de Biologia. O tempo ia
passando, começava a chover e as pessoas foram sumindo. Logo, a praça de
alimentação, os corredores e as escadas estavam todos vazios e um dos
seguranças me deu a informação mais sincera que alguém poderia me dar: “Olha,
eu não sei, por que você não procura na Secretaria Geral?”, e foi o que eu fiz.
Já era tarde e eu não conseguiria mais chegar a tempo para a primeira
aula. Coloquei minha touca e sentei-me em um vãozinho coberto para proteger-me
da chuva, enquanto esperava a secretaria abrir. Na secretaria, ninguém sabia me
dizer onde estava a minha turma. Encaminharam-me a outro prédio, no qual eu
conseguiria a informação que tanto buscava. O prédio era a secretaria do meu
centro acadêmico. Lá, uma moça muito simpática me apresentou um livro com os
horários de todos os cursos. Em uma folhinha, eu anotei para onde deveria ir e pude
perceber que já estava quase atrasada para a próxima aula.
Eu teria aulas práticas. Para encontrar minha turma tive que perder a
vergonha e perguntar: “Oi, você é da B11?”. Perguntei isso umas duas vezes, até
que me responderam que sim e fui acolhida por duas colegas, que me
encaminharam ao laboratório e me apresentaram a todos. A primeira aula foi bem
tranquila. A professora me passou uma lista de materiais necessários e minhas
novas colegas me ofereceram a matéria e ficaram o tempo todo ao meu lado.
Na aula seguinte, a professora me encaixou em um grupo qualquer e
pediu que eu desenhasse uma vértebra. Fiquei fascinada, pois descobri que as
vértebras se encaixavam como em um quebra-cabeça. Lembro-me de ter feito
alguma pergunta e de ter recebido a seguinte resposta: “Olha, você ainda não tem
9
base para me perguntar as coisas. Então, leia os capítulos 1 e 2 desse livro e depois
você poderá me perguntar”. Foi tudo tão estranho, era uma mistura muito grande de
emoções. Só lembro de que fui embora chorando aquele dia.
Meu primeiro contato com a universidade foi terrível. Eu pensava que
nunca me adaptaria. Nunca me sentiria parte daquele lugar. Hoje, finalizando meu
curso de Licenciatura, posso dizer que me sinto parte da universidade e que tive
vivências que me fizeram crescer e acreditar em mim mesma. Analisando a minha
própria história acadêmica, tive a ideia de escrever esse trabalho, pois gostaria de
saber se os demais alunos do ProUni passaram por episódios parecidos com os
meus. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi identificar os problemas
enfrentados pelos prounistas, na visão deles mesmos, ao ingressarem na
universidade.
10
2. RERENCIAL TEÓRICO
2.1. A procura pelo Ensino Superior
No Brasil, o número de ingressantes no ensino superior praticamente
dobrou no período de 20 anos: em 1975 somavam pouco mais de 40 milhões e em
1995 superaram a casa dos 80 milhões de pessoas (PORTO; RÉGNIER, 2013). A
expansão da demanda pelo ensino superior ocorreu devido ao aumento do número
de concluintes do ensino médio e à necessidade de aquisição de competências para
enfrentar o mercado de trabalho. Além disso, destaca-se o interesse pelo ingresso
no ensino superior relacionado às expectativas de melhoria de vida, crescimento da
renda e ascensão social (AMARAL; OLIVEIRA, 2011).
Para suprir essa demanda, houve a necessidade de um investimento
maior nas graduações. A partir dos anos 1990, o Brasil passou por um processo de
reconfiguração do ensino superior, promovendo um incentivo à expansão da
iniciativa privada e a adoção de mecanismos de gestão empresarial nas
universidades públicas (ROCHA, 2011). Fenômeno semelhante já era observado
desde o fim dos anos 60, com o governo militar, que desenvolvia políticas de
incentivos e isenções fiscais como forma de apoiar a atuação privada no projeto de
desenvolvimento nacional (CARVALHO; LOPREATO, 2005 apud CATANI; HEY;
GILIOLI, 2006).
Os incentivos da década de 90 geraram críticas de alguns setores da
sociedade pelo fato de haver uma renúncia fiscal repassada às Instituições de
Ensino Superior (IES) privadas, sendo que era necessários novos investimentos
para se resolver os problemas das IES públicas. No entanto, o governo alegou que
essa era a única maneira de se atingir a meta do Plano Nacional de Educação
(PNE), aprovado em 2001: ter, até 2010, 30% (trinta por cento) da população
nacional entre 18 e 24 anos no nível de ensino superior (PELEIAS et al, 2012).
Entre os anos de 1994 e 2002 houve um aumento de 92,4% do número
de IES. Quanto às matrículas, no mesmo período, houve crescimento total de
109,5%, sendo 52,3% de aumento para as matrículas públicas, contra 150,2% para
as matrículas privadas (SGUISSARDI, 2008 apud AMARAL; OLIVEIRA, 2011).
Mesmo com essa expansão das matrículas, essa oferta ainda não é suficiente para
alterar o fato de que, na realidade, existe uma pirâmide educacional, que só permite
que uma fração muito pequena de estudantes se aproxime efetivamente da
11
educação superior. As camadas de renda mais alta pagam as melhores escolas de
nível médio e, assim, asseguram que seus filhos tenham maiores chances de
admissão nas universidades públicas e gratuitas (NEVES; RAIZER; FACHINETTO,
2007).
De acordo com Neves, Raizer e Fachinetto (2007), desde a publicação da
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em 1996, tem se dado maior
importância
para
organizacionais,
a
como
necessidade
das
de
modalidades
diversificação,
de
educação
tanto
dos
superior
formatos
a
serem
oferecidas. Tal diversificação deveria assegurar condições mais favoráveis para a
incorporação de novos estudantes no ensino superior. A diversificação deveria ser
instrumento de democratização do acesso e de ampliação da igualdade.
2.2. O programa
Em janeiro de 2005, foi instituído o Programa Universidade Para Todos
(ProUni) pela Lei nº. 11.096. O programa concede bolsas de estudo integrais e
parciais de 50% (cinquenta por cento) ou 25% (vinte e cinco por cento) para
estudantes de cursos de graduação em instituições privadas de ensino superior,
com ou sem fins lucrativos (BRASIL, 2005).
A justificativa fornecida pelo Ministério da Educação (MEC) ao Congresso
Nacional para a implantação desse programa era a ampliação do acesso ao Ensino
Superior, sem investimentos adicionais para o Governo Federal (AMARAL;
OLIVEIRA, 2011a). Isso ocorre porque as IES que aderem ao ProUni, ficam isentas
dos impostos de: Renda das Pessoas Jurídicas; Contribuição Social sobre o Lucro
Líquido; Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social e
Contribuição para o Programa de Integração Social (BRASIL, 2005).
Para participar do ProUni, as IES privadas devem assinar o termo de
adesão, comprometendo-se a oferecer, no mínimo, uma bolsa integral a cada 10,7
estudantes regularmente pagantes e devidamente matriculados ao final do período
letivo anterior, excluindo o número correspondente a bolsas integrais concedidas
pelo ProUni ou pela própria instituição (AMARAL; OLIVEIRA, 2011a).
Esses benefícios são concedidos a brasileiros não portadores de diploma
de curso superior. Para as bolsas integrais a renda familiar mensal per capita não
deve ultrapassar o valor de até um salário-mínimo e meio. As bolsas de estudo
12
parciais de (50% ou 25%) são destinadas a alunos com renda familiar mensal per
capita que não exceda a três salários-mínimos. Apenas estudantes que tenham
cursado o ensino médio completo em escola da rede pública ou em instituições
privadas como bolsistas integrais poderão se inscrever no ProUni, utilizando suas
notas e perfil socioeconômico advindos do Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem).
Há condições especiais para os estudantes portadores de deficiência e
professores da rede pública de ensino que estejam interessados em cursos de
licenciatura e pedagogia. Eles podem participar do programa independentemente de
sua renda familiar (AMARAL; OLIVEIRA, 2011a). Segundo o Art. 7º § 1º da lei
11.096 (BRASIL, 2005), o percentual de bolsas oferecidas deverá ser, no mínimo,
igual ao percentual de cidadãos autodeclarados indígenas, pardos ou pretos,
segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE.
O perfil dos beneficiários acima descrito decorre dos objetivos declarados
pelo ProUni, que visa tanto o aumento do número de jovens entre 18 a 24 anos no
ensino superior, quanto a inclusão sócio educacional de afrodescendentes,
indígenas e pessoas com necessidades especiais. Além desses beneficiários, a
inclusão de docentes da educação básica pública que não cursaram o ensino
superior, tem como meta a melhoria da formação de professores, o que justifica o
incentivo aos cursos de licenciatura ou pedagogia (OLIVEIRA; CONTARINE; CURY,
2012).
Alguns cursos exigem dedicação dos alunos por período integral. Assim,
visando garantir a continuidade dos estudos dos bolsistas matriculados em cursos
presenciais com no mínimo seis semestres de duração e cuja carga horária média
seja superior ou igual a seis horas diárias de aula, foi criada a Bolsa Permanência,
um benefício no valor de até R$ 300,00 mensais. No entanto, é preciso frisar que o
pagamento desse benefício está condicionado à disponibilidade orçamentária e
financeira do MEC (AMARAL; OLIVEIRA, 2011b).
2.3. As opiniões sobre o ProUni
O ProUni é um típico programa governamental que gera discussões.
Enquanto alguns defendem a existência dessa política, outros acreditam que ela não
13
é mais do que uma maneira do governo mascarar o fracasso da educação pública
básica. Uma primeira crítica é ao próprio nome do programa, pois o termo
Universidade é colocado de uma maneira simbólica, já que as IES que aderem ao
ProUni não são obrigatoriamente Universidades (AMARAL; OLIVEIRA, 2011a).
Dentre
as
IES
cadastradas,
podemos
encontrar
Universidades,
Faculdades, Centros Universitários, Escolas e Institutos de ensino técnico. Os
cursos superiores oferecidos em algumas IES privadas são considerados de
qualidade questionável e voltados às demandas imediatas do mercado (CATANI;
HEY; GILIOLI, 2006). Sobre isso Rocha (2011), considera que o ProUni é uma
política pseudodemocratizante, que aprofunda as desigualdades sócio-educacionais
para aqueles alunos que não ingressam em Universidades e, desta forma, não tem
garantido o direito a um contexto acadêmico plural, que se apoie no tripé ensino,
pesquisa e extensão.
Na opinião dos gestores de IES que são adeptas ao programa, é
necessária uma preocupação contínua em melhorar a qualidade dos cursos de
graduação. Acredita-se que as políticas públicas devem estar direcionadas à
ampliação quantitativa da oferta dos serviços educacionais, como a geração de
novas vagas e também uma avaliação qualitativa do ensino que está sendo
oferecido (FACEIRA, 2009). Segundo o reitor de uma IES de São Paulo,
apresentado no trabalho de Peleias et al. (2012), o programa possui aspectos que
devem ser corrigidos e melhorados, mas em geral, é bom, porque abre a
possibilidade de alunos “com grande potencial educacional”, com baixos recursos
financeiros, poderem frequentar uma IES.
Dos gestores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRio) entrevistados por Faceira (2009), sessenta por cento também considera que o
ProUni garante o acesso de grupos desprivilegiados ao ensino superior. Já 30%
acreditam que o Programa é positivo no aspecto da garantia do acesso ao ensino
superior, mas que faltam estratégias que garantam a permanência dos bolsistas.
Catani, Hey e Gilioli (2006), consideram o ProUni fraco, visto como
política assistencialista, porque espera que as IES privadas “cuidem” da
permanência do estudante, o que não acontece. O ProUni promove uma política
pública de acesso à educação superior, mas não se preocupa com a permanência
do estudante, considerada elemento fundamental para a democratização da
graduação.
14
Umas das principais discussões sobre o ProUni é se ele representa a
retomada de uma tradição de políticas de renúncia fiscal que mais beneficiam o
setor privado, do que induzem políticas públicas democratizantes (CATANI; HEY;
GILIOLI, 2006). Carvalho (2013), em uma matéria para a Folha de São Paulo
levanta um questionamento sobre a renúncia fiscal oferecida pelo ProUni para as
IES, pois os impostos deveriam estar vinculados à manutenção e desenvolvimento
da educação pública, com impacto na educação superior federal e na educação
básica.
Por outro lado, para os gestores das IES o ProUni não contribui
economicamente. Eles consideram que exista apenas “uma compensação financeira
muito pequena”. O programa supre uma função interna da IES, ou seja, a de
distribuir bolsas de estudo dentro do limite financeiro existente para isso (PELEIAS
et al., 2012).
2.4. O ProUni na visão dos prounistas
As opiniões mais relevantes sobre o ProUni são aquelas pouco ouvidas,
as dos próprios prounistas. A forma como eles vêm suas vidas como universitário e
como isso afeta o seu futuro são abordadas em alguns trabalhos recentes, como os
apresentados a seguir.
Oliveira, Contarine e Cury (2012) fizeram um estudo na Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), no qual foram entrevistados 73
bolsistas para coleta de suas experiências. Os depoimentos demonstraram a
valorização, por parte dos bolsistas, do programa como política pública de ingresso
no ensino superior. Também avaliaram positivamente o Enem, por priorizar questões
de cunho analítico-reflexivo e consideram que isso lhes possibilitou o acesso à
universidade, por ser mais acessível que o vestibular. No trabalho realizado por
Saraiva e Nunes (2011), com onze alunos beneficiados pelo ProUni do Curso de
Administração de uma IES de Minas Gerais, pode-se detectar que os alunos
associam o ProUni à mudança na vida deles, alguns utilizam palavras como: “grande
oportunidade”, “privilégio” ou “vitória”, valorizando o programa.
[...] é uma iniciativa que tomou todo o Brasil e está mudando a
realidade de muita gente, para melhor, e espero que só melhore
daqui para frente e que o governo invista mais, já que não mexe na
15
escola pública, pelo menos dê essa solução. (Entrevistado 9)
(SARAIVA; NUNES, 2011, p. 952).
Sobre a escolha do curso, na PUC-Minas, os bolsistas se encontram
matriculados em diversos cursos, mesmos naqueles considerados como cursos
elitizados (OLIVEIRA; CONTARINE; CURY, 2012). Em outro estudo realizado por
Gonzaga e Oliveira (2012), com 12 bolsistas de uma Universidade do Rio de
Janeiro, podemos encontrar uma fala interessante de um dos entrevistados (2012, p.
222): “Optei por Ciências Contábeis. Porque foi o único para o qual fui selecionada
pelo ProUni.”. O relato sugere que a escolha do curso está ligada às possibilidades e
não aos desejos próprios (GONZAGA E OLIVEIRA, 2012).
Mesmo quando as escolhas de curso estão atreladas ao que é mais
viável para os alunos, os bolsistas se consideram esforçados e disciplinados, sem
isso não se tornariam bons alunos. Na tese de doutorado de Faceira (2009),
podemos observar que 14% dos alunos bolsistas PUC-Rio destacam as dificuldades
pedagógicas e acadêmicas. Isso não se deve somente ao fato dos alunos do
ProUni, frequentemente, serem de escola pública, mas sim de suas experiências
anteriores muitos particulares, como o relato a seguir:
[...] Parei de estudar, no 2º ano do 2º grau. Casei, tive filhos. Voltei.
Fiquei com medo, depois de mais de 20 anos parada, mas tive
sucesso graças a Deus! Ao entrar na faculdade verifiquei que os
colegas estavam bem na frente e foi difícil pegar o ritmo, mas estou
dando conta (Aluna de Pedagogia) (OLIVEIRA; CONTARINE; CURY,
2012, p. 54).
Outro problema encontrado pelos prounistas ao ingressarem na
universidade, exposto por Faceira (2009), é que a dificuldade de adaptação à
universidade em função dela ser frequentada por alunos de classes sociais
consideradas mais privilegiadas. No entanto, esse problema não é constatado em
todas as instituições. Na Universidade Castelo Branco (UCB) apenas 1% dos
prounistas consideram que sofrem discriminações por parte dos outros alunos. Em
geral, os bolsistas relataram manter boas relações com colegas e professores
(OLIVEIRA; CONTARINE; CURY, 2012). Na visão dos bolsistas, as IES tem um
papel fundamental na diminuição das desigualdades e no controle de possíveis
preconceitos com os beneficiários do ProUni (SARAIVA; NUNES, 2011).
16
Quando se o ingresso ao Ensino Superior possibilitou aos bolsistas a
ampliação da sua rede de relacionamentos (networking), todos os entrevistados
responderam que seu networking melhorou, ampliando sua rede de contatos com
colegas, docentes, funcionários da instituição (GONZAGA; OLIVEIRA 2012). Setenta
por cento dos prounistas da PUC-Rio afirmaram que sua entrada na universidade
ampliou seus conhecimentos e visões críticas, além de ter melhorado aspectos da
comunicação oral e escrita. Na UCB 53% relataram que desenvolveram maior
consciência crítica e tiveram mais acesso a programações culturais e ampliaram a
leitura de jornais e revistas (FACEIRA, 2009).
Um problema bem destacado, que pode ser observado durante a
formação acadêmica dos alunos do ProUni, é a questão financeira. É possível notar
que 42% dos prounistas da UCB consideram que a maior dificuldade enfrentada na
Universidade é de cunho financeiro. Já 14% dos alunos da PUC-Rio destacam que a
distância geográfica entre seu local de moradia e a universidade resulta em um
maior desgaste físico e também maior gasto financeiro (FACEIRA, 2009). Essas
dificuldades levam os alunos a procurarem uma forma de renda, tendo que conciliar
trabalho e estudos.
Ter que trabalhar e estudar. Se eu não trabalhar não tenho como vir
para universidade, pois não teria dinheiro para passagem e o
trabalho atrapalha no rendimento acadêmico, não tendo como me
dedicar ao máximo como desejo. (Entrevistado nº 028 da UCB),
(FACEIRA, 2009, p. 203).
Para
ajudar
nas
despesas,
os
alunos
recorrem
a
alternativas
disponibilizadas pelas Universidades, como Iniciação Científica, Monitoria e Projetos
de Extensão. Mesmo a remuneração sendo considerada insatisfatória, os alunos
consideram
que
contribui
para
permanecerem
na
instituição
(OLIVEIRA;
CONTARINE; CURY, 2012).
Há entre os bolsistas a expectativa de que sua formação superior
melhore, por exemplo, as oportunidades de emprego, para as quais poderão
concorrer em igualdade de condições com outros profissionais, representando uma
inclusão social e desenvolvimento pessoal (SARAIVA; NUNES, 2011). No estudo
feito com alunos já formados do ProUni, realizado por Amaral e Oliveira (2011b),
pode-se perceber que a quase totalidade deles está empregada e percebeu
17
ampliação das oportunidades de empregabilidade e melhoria na qualidade e vida e
de renda. Nos dados recolhidos por Gonzaga e Oliveira (2012), concluiu-se que os
alunos ganharam motivação após a conclusão da graduação, isso fica explícito por
expressarem vontade de continuar se especializando.
18
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1. Aspectos Éticos
O presente trabalho foi aprovado pela Comissão de Ética da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, processo CIEP nºL003/08/13.
3.2. Os participantes
Para a realização deste trabalho, convidamos alunos prounistas, que
cursam a 4ª etapa ou etapas posteriores em cursos variados da universidade.
Priorizamos os alunos que já cursaram pelo menos um ano e meio, pois julgamos
que, por terem mais tempo de curso do que os iniciantes, teriam mais vivências a
relatar.
3.3. Instrumento de pesquisa
Para
este
estudo,
foi
escolhido
o
procedimento
de
entrevista
semiestruturada, muito utilizado em pesquisas na área de ciências sociais. As
entrevistas se constituem como técnica muito eficiente para obtenção de dados
referentes ao comportamento humano (PÁDUA, 2008), pois se dá de maneira mais
informal do que os questionários, permitindo que o entrevistador direcione as
perguntas, a fim de obter as informações relevantes. Além das questões
previamente estabelecidas, é possível utilizar questões adicionais no momento da
entrevista, conforme esta se desenvolve (BONI; QUARESMA, 2005).
Como a entrevista semiestruturada é feita de uma maneira informal,
permite maior diálogo entre o entrevistador e o entrevistado, o que favorece a
espontaneidade e algumas respostas mais profundas e até pessoais (BONI;
QUARESMA, 2005). Apresentamos no Apêndice A o roteiro que utilizamos como
base para as entrevistas.
3.4. Abordagem dos participantes
Aproximamo-nos dos alunos bolsistas por meio de um grupo de
prounistas da Universidade presente na rede social Facebook, do qual também
somos membro. Para esta aproximação publicamos um convite aos bolsistas
19
explicando a escolha do tema, o objetivo da pesquisa e o perfil dos possíveis
participantes:
“Oi gente, sou aluna do curso de Ciências Biológicas, cursando a 6ª
etapa e, portanto, fazendo meu TCC de Licenciatura. (Como sou
prounista) Escolhi o ProUni como tema. Quero fazer um
levantamento sobre as vivências dos prounistas na universidade.
Para isso, necessito da colaboração de vocês. Preciso entrevistar
alunos de diversos cursos que estejam pelo menos na 4ª etapa, pois
já tiveram uma grande vivência como alunos. Peço que, os que se
interessarem em me ajudar, que me avisem aqui mesmo, para que
possamos combinar o melhor horário e local para a entrevista.
Ficaria muito agradecida com a colaboração de vocês na minha
pesquisa. Beijos”.
Aguardamos uma semana para o retorno dos componentes de grupo e o
contato foi feito via Facebook para confirmação do interesse. Efetivamente, foi
possível o contato com quatro participantes de dois cursos diferentes, Ciências
Biológicas e Farmácia.
Os beneficiários do ProUni que concordaram em participar desta pesquisa
receberam a Carta de Informação ao Sujeito e a Carta de Consentimento (Apêndice
B), nas quais estão detalhadas as informações sobre a pesquisa, possíveis riscos e
benefícios. Nos mesmos documentos, há o telefone do pesquisador, para que os
participantes possam entrar em contato em caso de dúvidas ou esclarecimentos. As
cartas foram lidas e assinadas.
3.5. Entrevistas
Os horários para a realização das entrevistas foram combinados entre o
pesquisador e os participantes, respeitando a disponibilidade do entrevistado. Foi
reservada uma sala de estudos em um prédio conhecido da Universidade, para que
houvesse maior privacidade entre o entrevistador e entrevistado. No dia da
entrevista, antes de começar, explicamos aos alunos os procedimentos e fizemos
uma breve apresentação de nossos objetivos, reforçando que o sigilo quanto à
identidade do entrevistado será sempre mantido. Todos os entrevistados permitiram
a utilização de um gravador de voz para registro das informações. As dúvidas foram
esclarecidas à medida que surgiram. Frisamos também que o entrevistado poderia
interromper a entrevista e cancelar sua participação na pesquisa a qualquer
momento.
20
Os áudios das entrevistas totalizaram 1 hora 14 minutos e 12 segundo.
Foram transcritos integralmente, sem alteração de seu conteúdo e sentindo e estão
apresentados nos Apêndices C, D, E e F. Para manutenção da privacidade dos
participantes e da Instituição de Ensino, qualquer informação que pudesse
caracterizá-los foi alterada para substantivos genéricos, como por exemplo o nome
de determinados professores ou colegas de classe. Todos os nome de
universidades e faculdades particulares foram substituídos para não facilitar a
identificação da Universidade em questão.
No decorrer do trabalho, quando a palavra ‘universidade’ foi escrita com
letra maiúscula, refere-se à instituição de ensino pesquisada.
3.6. Análise dos resultados
Para a análise dos dados, as entrevistas foram lidas diversas vezes e
decidimos dividi-la em dois tópicos. No primeiro tópico, apresentamos um pouco da
vida escolar dos atuais bolsistas, comparando as suas visões e experiências no
colégio.
No segundo tópico, são apresentadas as categorias em que as entrevistas
foram divididas para melhor organização dos dados, segundo os relatos. Para esse
tópico foram selecionadas as seguintes categorias: Escolha do curso; Primeiro
contato com a Universidade; Primeiro dia de aula; Dificuldades enfrentadas; Esforço
dos prounistas; Relação com colegas; ProUni em uma palavra; O vestibular;
Prounistas sobre o ProUni; e As diferenças de ser prounista. Os critérios para a
criação dessas categorias foram a relevância das informações e se elas tinham
relação entre as vivências dos quatro entrevistados.
21
4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS
4.1. A história dos prounistas
O primeiro entrevistado (E1) sempre estudou em escola pública, mas ao
terminar o Ensino Fundamental entrou em um cursinho pré-vestibular para ingressar
em um colégio técnico, em que a prova era considerada difícil. Atribuiu sua entrada
neste colégio ao cursinho pré-vestibular. Depois de ingressar no colégio, o sujeito se
sentia numa realidade muito diferente daquela vivenciada a escola da prefeitura. O
colégio técnico, embora fosse público, parecia uma escola particular, porque os
alunos tinham que pagar pelos passeios e por vários materiais didáticos, como
alguns livros e cópias, além do uniforme.
Nosso segundo entrevistado (E2) foi o único a afirmar que trabalhava
durante o Ensino Médio. Ele ajudava seu pai na serralheria da família. Ao descrever
suas aulas na escola, afirmou que tinha muitas aulas vagas. Diversos professores
restringiam sua ação docente a passar textos na lousa, que deveriam ser copiados
pelos alunos. Ele concluiu que foram poucas as matérias nas quais teve um bom
aproveitamento, o que também foi pelos terceiro e quarto entrevistados (E3 e E4).
E3 define o que lhe foi apresentado como básico. Para ele, a escola não lhe
forneceu todo o conteúdo que julga necessário, tendo em vista que não teve “nada”
do que cairia no vestibular.
Ele garante que seu sucesso por ter entrado na
Universidade é mérito dos poucos bons professores que teve. E4 nos disse que
achava o máximo não fazer nada na escola, porque naquela época ele só copiava
os textos e recebia pontos positivos. Lembra-se de um bom professor de História
que o fez se interessar muito pela matéria.
Os entrevistados 1, 2 e 3 listaram Biologia como uma de suas matérias
preferidas durante o colégio, sendo que E2 e E3 asseguraram que tinham bons
professores nesta disciplina. O sujeito E1 gostava de ler e afirma que lia bastante no
colégio, o sujeito E3 também afirmou gostar bastante de Literatura. Quando
questionados sobre suas estratégias de estudos na escola todos os entrevistados
afirmaram que não estudavam ou estudavam muito pouco um dia antes das provas.
Recebemos o questionamento de E3: “quem estudava na escola?”.
Ainda no contexto da escola, relações com os colegas de classe eram
bem diversas, mas em geral foram consideradas boas pelos prounistas. O E1 foi
22
representante de classe durante dois anos seguidos e nos relatou que todos na
escola eram amigos, todas as sete turmas para cada ano. Nosso segundo
entrevistado tinha duas amigas muito próximas, assim como E3, que relatou ter um
grupo de amigos fixo e os demais serem divididos em grupos. Já E4 define sua
relação com os colegas como “maravilhosa”, afirmando que fez grandes amigos na
escola.
Os entrevistados E1 e E2 relataram que ao prestarem vestibular, suas
preferências eram pelas universidades públicas, mas, como não conseguiram
passar, decidiram escolher esta Universidade no ProUni. Inclusive, E1 conta que
não iria prestar o ProUni. Fez isso apenas por insistência de sua avó. Já E2 disse
que só prestaria o ProUni apenas para universidades que ele considerava
conceituadas. E4 teve sua escolha de uma maneira diferente. Passou primeiro na
Unesp de Botucatu em Biomedicina e ao permanecer um mês lá e não se sentir
satisfeito voltou para São Paulo e prestou ProUni, escolhendo essa Universidade por
considerá-la uma das melhores. O sujeito E3 escolheu essa Universidade por já
conhecer alunos e considerar que ela oferecia um bom suporte para seu curso.
4.2. Vivências na Universidade
Categoria 1 - Escolha do curso
Para os entrevistados E2 e E3, que cursam Ciências Biológicas, a
escolha do curso sempre esteve clara, pois ambos gostavam dessa área desde
criança. O aluno E4 descobriu seu interesse por Farmácia durante o cursinho prévestibular, já que se interessava pelas aulas de Química e Biologia. Já E1 entrou no
curso de Biologia por acaso:
[...] Eu queria fazer Farmácia na verdade, queria fazer remédio e
tudo mais, e ai foi isso, eu prestei para Farmácia e para Biologia, e ai
passei aqui em bio e pensei “ah, vou ficar por aqui” porque é do lado
da minha casa. (E1: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 6ª
etapa).
Em um levantamento semelhante, feito Gonzaga e Oliveira (2012), os
autores constataram que os alunos do ProUni muitas vezes entram na Universidade
em cursos que lhes são possibilitados, não por seus desejos pessoais. Em nosso
caso, apenas uma pessoa relatou que a escolha pelo curso não era um desejo
23
pessoal. Apesar dessa escolha não ter sido guiada por desejo, E1 relata que não se
arrepende da escola que está feliz em cursar Ciências Biológicas.
Categoria 2 – Primeiro contato com a Universidade
Para o entrevistado E3, este primeiro contato foi feito por meio de uma
amiga que já estudava no curso desejado por ele. O nosso entrevistado E4 relatou
seu primeiro contato em seu primeiro dia de aula, que será discutido na próxima
categoria. E1 e E2 expuseram suas experiências com mais detalhes. Foram
bastantes distintas, como se observa a seguir:
[...] meu primeiro contato de verdade com a faculdade sempre foi um
pouco traumatizante [...] correr atrás de todos os papéis da bolsa e
eles falarem que não ia ser aprovado, porque eu não moro com o
meu pai, mas a renda do meu pai batia com a minha quando jogava
o CPF dele no negócio e tudo mais [...] eles me mandaram lá pra
diretora do setor de bolsas e eu tive que ir lá na última hora, e a
diretora ainda falou com reitor. E o reitor falou: “não, tudo bem, se ele
escrever uma carta, tanto o pai dele, quanto a mãe, dizendo que eles
nunca moraram juntos, que eles não moram juntos, que ele mora
com a avó e tudo mais, se ambos escreverem essa carta, a gente
aceita” [...]. Meus pais escreveram e o mais engraçado dessa carta é
que eles tinham que especificar que eles nunca ficaram juntos. Eu
achei muito engraçado (risos), é tipo, e eu falei “tá né...”, e eles
escreveram e foi aprovado. [...] a burocracia daqui, eu achei até meio
estúpida, não sei, não me senti à vontade mesmo (E1: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa).
É possível perceber que E1 não tem boas lembranças desse primeiro
contato com a Universidade, já que sua palavra foi colocada em dúvida. Para
comprovar que os pais são separados e que a renda familiar não superava o limite
imposto pelo programa, teve que trazer cartas dos pais afirmando sua condição
familiar. Podemos levantar algumas questões: o que aconteceria a esse aluno caso
ele não tivesse como entrar em contato com o pai? E se seu pai tivesse se recusado
a escrever a referida carta? Perderia ele a vaga em decorrência de sua condição
familiar?
Como dito por Catani, Hey e Gilioli (2006), as IES privadas devem garantir
que a privacidade dos bolsistas seja respeitada. Consideramos que essa assistência
deveria ser verificada desde o momento da entrega de documentos, até o fim do
curso. Não estamos questionando a necessidade da entrega de toda documentação
24
oficialmente exigida, mas não nos pareceu que as cartas acima mencionadas façam
parte do rol dos documentos necessários.
A segunda experiência foi relatada pelo entrevistado E2:
[...] trabalhava com meu pai, quando eu estudava no ensino médio e
no cursinho. E ele trabalha na rua, fazendo serviço em vários locais,
que ele é serralheiro. Então, as pessoas ligam, os clientes ligam em
casa e a gente vai oferecer o serviço nosso, quando uma porta
quebra ou uma coisa assim. Então, a gente anda por São Paulo
inteiro. Meu pai anda por São Paulo inteiro e eu, como ajudava ele,
acabava andando por todos os lugares. Sempre que eu passava na
Universidade ficava maravilhado com o campus, com tudo isso e até
me passou pela cabeça: “ah, que legal deve ser estudar numa
Universidade assim, ter essa vida de...”. [...] sempre via os
estudantes, sempre via ah... sabe essa parte mais movimentada?
Mas, nunca tinha entrado no campus. [...] Ai, a primeira vez que eu
entrei em contato com a Universidade foi quando eu entrei na
universidade assim, foi quando eu vim fazer a primeira entrega de
documentos. [...] Eu não tinha certeza que eu ia entrar na
Universidade. Eu não estava acreditando, não acreditava que assim,
serviços do governo [referindo-se ao ProUni], que tinham serviços do
governo gratuitos e que funcionavam, sabe? Eu não acreditava, pra
mim era tudo balela, sabe? Ou nunca ia acontecer comigo. (E2:
Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
Como se pode notar, antes de ingressar na Universidade, E2 já sonhava
com ela, o que fica evidente em suas falas: “Ficava maravilhado com o campus”,
“Ah, que legal deve ser estudar numa universidade assim”. Sua fala de admiração
sobre a vida dos estudantes nos leva a afirmar que ele considerava essa vivência
muito distante de sua realidade. Tais falas exemplificam a pirâmide educacional
brasileira, que permite que uma fração pequena de estudantes se aproximem da
educação superior (NEVES; RAIZER; FACHINETTO, 2007).
Categoria 3 – Primeiro dia de aula
Os entrevistados E3 e E4 tiveram problemas parecidos ao entrarem na
Universidade. Ambos ingressaram após o início das aulas e quando questionados
sobre seu primeiro dia de aula, responderam:
Horrível! [...] Porque foi um mês e meio de atraso, faltava uma
semana para as provas começarem e uma das professoras, que é a
Professora A... a primeira aula, eu sempre confundo qual foi primeira
aula, foi da Professora A... é... não foi da Professora A, foi ou da
25
Professora A ou da Professora B, enfim, tanto uma, quanto a outra
eu sai sem entender nada, fiquei sem saber o que elas estavam
explicando. [...] eu enchia bastante o saco dos professores. Da
Professora A mesmo, eu conversava com ela muito, ela me
acompanhava, me mostrava muita coisa. (E3: Aluno de Ciências
Biológicas cursando a 4ª etapa)
[...] quando eu cheguei na Universidade já tinha um mês e meio de
aula. Então, eu estava totalmente perdido, porque no começo da
universidade... as pessoas novas fazem um passeio pelo campus.
Então eu cheguei bem perdido na Universidade mesmo, mas... [...] A
impressão foi de dificuldade por ter chegado no meio das aulas e ter
pegado o bonde andando, mas impressão da Universidade foi boa.
[...] meu primeiro dia de aula foi terrível. Porque eu estava perdido na
Universidade, conhecia poucas pessoas aqui. E as pessoas que eu
conhecia não faziam o curso que eu ia fazer. Eu não sabia onde era
a biblioteca, não sabia onde era o DA [Diretório Acadêmico]. (E4:
Aluno de Farmácia cursando a 7ª etapa).
O ProUni possui três chamadas regulares, em que os alunos podem se
inscrever. Essas chamadas, muitas vezes acontecem após o início das aulas nas
IES. O intuito do programa é preencher todas as vagas disponíveis. No entanto, tal
atraso dificulta a adaptação dos alunos na Universidade, pois ao entrarem após as
aulas já terem começado, sentem-se perdidos e precisam contar com o apoio de
colegas e professores para adaptar-se. Segundo o site do ProUni, após as
chamadas regulares, que muitas vezes já acontecem tarde, ainda é possível
manifestar interesse pelas vagas remanescentes, caso o curso seja correspondente
a sua primeira opção de escolha. O entrevistado E3 ainda revelou que alguns
professores vêm esse atraso como algo ruim no programa.
Os entrevistados E1 e E2 tiveram experiências positivas com o primeiro
dia de aula, podemos observar a seguir que E1, mesmo tendo chegado com dois
dias de atraso, sentiu-se acolhido por seus colegas:
[...] quando eu entrei na sala eu achei todo mundo... ah, eu não fiquei
assim, eu achei todo mundo meio que normal, e eu sentei do lado de
uma colega [...] que tava grávida e tudo mais [...] foi de boa, tipo, foi
tranquilo [...] ai depois, eu lembro que logo quando teve aula mesmo,
teórica, os moleques me acolheram, assim. [...] quando eu cheguei
nesse dia de aula teórica eles já falaram “não, senta aqui com a
gente e tudo mais...” (E1: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 6ª
etapa).
26
Para E2 as experiências não foram muito diferentes. Ele entrou junto com
os outros alunos e esteve preocupado em passar por uma vivência muito comum
entre os universitários, o trote:
[...] eu queria participar do trote, porque... sei lá, eu queria passar por
essa experiência de entrar numa faculdade, sabe? [...] E quando eu
entrei na faculdade, no primeiro dia, eu já achava que o... eu queria
achar o prédio da biologia, e eu perguntei para os seguranças “onde
é o prédio da biologia?” e eles “ah, não tem um prédio da biologia”
[...] de qualquer forma eu estava procurando as pessoas para fazer o
trote. [...] não achei, porque o trote é só de quarta-feira. [...] Aí, eu
entrei num grupo no Orkut da Universidade (risos) e, aí, eu achei que
eles iam fazer o trote de quarta-feira [...] Fui na aula, na quarta-feira,
e quando cheguei na aula todo mundo: “ah, o trote, o trote, vamos
para o trote...” e eu “não, vou perder aula...” “não, você vai” (risos),
aquela história, vai (risos), “você não vai perder aula, você vai... é
legal o trote, você vai poder compensar depois, não se preocupa...” e
eu fui pro trote, né. Fiquei no trote pedindo dinheiro nas ruas
próximas a Universidade. (E2: Aluno de Ciências Biológicas
cursando a 7ª etapa).
É importante destacar que nem sempre os prounistas são recebidos de
uma forma diferente pela Universidade, pois ao entrarem juntamente com o início
das aulas vão passar pelas mesmas experiências que os demais alunos. Mesmo
assim, seria necessário rever as datas das chamadas, para que estas não
prejudiquem o ingresso dos bolsistas, entretanto, isso não cabe a Universidade.
Categoria 4 – Dificuldades enfrentadas
Os entrevistados relataram dificuldades muito ligadas à questão
financeira:
[...] eu acho que eu enfrento dificuldades como todo mundo, não sei,
né... [...] nos dias que a gente tinha aula de manhã e à tarde [...] eu
voltava pra casa para almoçar e depois vinha para cá. Tipo, nunca
almocei na Universidade, porque aqui os preços são meio absurdos
[...] comecei a trazer marmita, porque eu cansei de voltar para casa.
(E1: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa).
[...] financeiro, porque nesse caso não dá tempo de trabalhar,
transporte, mas ai já é um problema pessoal, né? Por morar longe...
(E3: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 4ª etapa)
27
[...] eu acho que o curso de Farmácia integral da Universidade tem
alguns problemas que é... que eu vejo, por o curso ser integral, você
não consegue trabalhar. Você não consegue trabalhar e você acaba
não tendo a experiência de estágio fora da Universidade. [...] Em
termos de desgaste psicológico pela quantidade de matéria, pela
quantidade de prova, principalmente esse sétimo semestre. (E4:
Aluno de Farmácia cursando a 7ª etapa).
Os dois cursos aqui analisados são considerados semi-integrais, e
segundo os critérios expostos pelo MEC não têm direito à Bolsa Permanência de
trezentos reais. Dificuldades semelhantes já foram relatadas em outros trabalhos,
como o de Faceira (2009), em que 14% dos alunos da PUC-Rio também destacaram
que a distância geográfica entre seu local de moradia e a universidade lhe traz
problemas, sendo que aqui nosso entrevistado considera como uma dificuldade
pessoal, não geral dos prounistas.
O aluno E4 frisou, também, uma dificuldade acadêmica causada pela
pressão psicológica de um semestre considerado pesado. Nosso entrevistado E2
afirmou que sentiu dificuldade em aprender a estudar, já que não fazia isso no
Ensino Médio:
[...] acho também, como eu nunca tive uma rotina de estudos [...] tive
que... que... adquirir essa habilidade na universidade. [...] Foi um
pouco complicado, porque eu não tinha uma rotina de pegar e
estudar para uma prova, sabe? [...] na universidade era outro
universo, sabe? Era uma pressão com provas, com atividades para
entregar e eu tive que adquirir essa habilidade e até agora vem
dando certo. (E2: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
Faceira (2009) acredita que essas dificuldades estão muito atreladas ao
ensino básico defasado das escolas públicas. Mesmo assim, o nosso entrevistado
lembra que adquiriu essa habilidade, havendo a possibilidade de adaptação. O
entrevistado E1, julga que os professores da Universidade acham ruim essa
defasagem e concorda com essa opinião:
[...] alguns [professores] devem pensar, assim, que a gente vem um
pouco defasado, o que realmente acontece. Teve muita coisa que,
logo, por exemplo, quando a gente teve física, química, matemática e
tudo mais... primeiro semestre mesmo, eu lembro que tinha muita
coisa que eu nunca tinha visto. Lembro que a Colega H falava a
mesma coisa para mim, que ela também é prounista, falava “nunca vi
isso na vida” e a gente teve que aprender na hora. (E1: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa).
28
Categoria 5 – Esforço dos prounistas
É possível observar que os prounistas entrevistados veem a si mesmo e
aos demais colegas bolsistas dispostos a enfrentar dificuldades:
[...] muitos deles [os professores] até falam que os alunos ProUni
eles são... muitos deles são mais dedicados, sabe? São mais
dedicados e conseguem se destacar mais do que os alunos que não
são prounistas, por exemplo, não sabem explicar o porquê, nem eu
também, mas eu nunca tive nenhum problema. (E2: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
[...] O aluno prounista, ele estuda mais, pelas pessoas que eu
conheço. O aluno prounista estuda mais por também ter o critério do
ProUni de você poder pegar duas ou três DPs por semestre, você
tem que ter setenta por cento de aprovação. (E4: Aluno de Farmácia
cursando a 7ª etapa).
É importante lembrar que os bolsistas valorizam sua entrada no Ensino
Superior e a associam a uma possível mudança de vida (OLIVEIRA, CONTARINE e
CURY, 2012), e que o Ensino Superior é visto como necessário para a aquisição de
competências para enfrentar o mercado de trabalho (AMARAL; OLIVEIRA, 2011).
Sendo assim, é compreensível que os alunos do ProUni gostem de valorizar o seu
esforço e de seus colegas durante a graduação.
Categoria 6 – Relação com colegas
Em geral, os alunos do ProUni relatam ter uma boa relação com seus
colegas da faculdade, relação que não se diferencia muito do colegial (OLIVEIRA;
CONTARINE; CURY, 2012). Nos nossos resultados isso não foi diferente:
[...] eu sempre me senti muito normal, muito tranquilo, até com todo
mundo [...] a gente sempre divide tudo, ninguém fica esbanjando
assim, não existe ostentação no nosso grupo. (E1: Aluno de Ciências
Biológicas cursando a 6ª etapa).
Minha relação é boa, eu não me sinto diferente dos outros pela
situação financeira. Não me sinto diferente apesar de possuir uma
situação financeira diferente de muitos outros aqui [...]. (E2: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
A mesma coisa, a sala é muito dividida, tem um grupo mais próximo
e os outros grupos por si só. (E3: Aluno de Ciências Biológicas
cursando a 4ª etapa)
29
[...] em relação à amizade fiz bastante amigos, durante o curso de
Farmácia. Por eu ter feito intercâmbio a minha sala original está um
semestre à frente e esta sala que estou é anterior a que eu estava,
me acolheu bem e eu vejo essa melhor que a minha anterior. (E4:
Aluno de Farmácia cursando a 7ª etapa).
Faceira (2009) obteve como resultado que apenas 1% dos prounistas da
UCB consideraram que sofreram discriminações por parte dos outros alunos. Como
se nota, nossos entrevistados também não se sentem discriminados, com exceção
do episódio a seguir, vivenciado por E1:
Eu até já presenciei uma situação meio chata com uma aluna
prounista. Porque ela brigou com um garoto e o garoto falou assim “é
lógico, tinha que ser a pobre da ZL [Zona Leste], mesmo”, e eu fiquei
até meio assim [...]. Ela ficou revoltada, espalhou pra todo mundo o
que o garoto tinha dito. Ela falou que tinha feito uma coisa, que tinha
provocado o garoto e o garoto tinha ficado com muita raiva dela, mas
falar um xingamento assim, né? Meu, muito nada a ver. (E1: Aluno
de Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa).
Mesmo não tendo contato direto com essa aluna, está claro que o
episódio em questão mexeu com ela e com nosso entrevistado. Provavelmente,
esse caso não chegou à coordenadoria da Universidade, mas como evidenciado por
Saraiva e Nunes (2011), os prounistas acreditam que a Universidade deveria se
encarregar pela diminuição das desigualdades e pelo controle de possíveis
preconceitos com os bolsistas.
Categoria 7 – ProUni em uma palavra
Obtivemos um resultado muito semelhante entre os entrevistados E1 e E3
quando questionados se poderiam descrever a suas vivências como prounistas na
Universidade em uma palavra:
[...] aluno [...] porque eu sempre pensei nisso já, de tipo, eu ser de
um outro nível. E eu nunca me senti mal estando na faculdade, na
sala, com os professores... eu senti que as relações eram sempre as
mesmas [...] eu me sinto unido e tudo mais, então, prefiro falar aluno,
porque eu me acho como qualquer outro aluno da faculdade, né?
Independente de quanto de dinheiro cada um tem. (E1: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa).
[...] pode ser universitário, sabe? Eu me vejo completamente como
universitário, a nível de qualquer outro [...] Porque pô, eu tô aqui na
30
faculdade, eu vou encontrar as mesmas dificuldades aqui dentro, que
todo mundo tem quanto à faculdade. E eu posso ter as mesmas
oportunidades que todo mundo pode ter acesso, aqui dentro. Nosso
curso, por exemplo, iniciação científica, estágio, intercâmbio... tudo
que os outros vão ter de acessibilidade pra isso, eu também vou ter,
com as mesmas dificuldades. (E3: Aluno de Ciências Biológicas
cursando a 4ª etapa).
Os demais entrevistados também avaliaram suas vivências de maneira
positiva, E4 garante, inclusive, estar totalmente satisfeito por ser prounista. E o
entrevistado E3 afirma que o ProUni foi a porta de para seu crescimento pessoal e
profissional:
Crescimento [...] Evolução, quer dizer. [...] Não, é que... como... o
ProUni foi uma... uma porta de entrada, sabe? Pra um universo
desconhecido, e com isso eu pude me desenvolver aqui dentro,
evoluir,
sabe?
Tanto
intelectualmente
como...
sabe?
Profissionalmente também, e foi graças ao ProUni, sabe? Com o
ProUni eu consegui muitas coisas. Ele foi a porta de entrada e a
partir disso, sabe com aquilo que eu levava, características que eu fui
construindo, intelectualmente, eu fui aprimorando aqui dentro,
conhecendo outros meios de se fazerem determinadas coisas, de
crescer profissionalmente e acho que é isso, evolução. (E2: Aluno de
Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
Satisfatório. [...] Ah, porque como prounista, eu tive... é que é uma
cadeia, né? Foi uma cadeia. Eu ter entrado nessa Universidade
depois de ter passado por outra universidade, que era pública, e o
ProUni me possibilitou fazer intercâmbio, querendo ou não. Ter tido a
oportunidade de fazer intercâmbio. Então, eu sou totalmente
satisfeito por ter essa bolsa e ser prounista. (E4: Aluno de Farmácia
cursando a 7ª etapa).
Se o ProUni objetiva a integração sócio-educacional dos alunos ao
ingressarem no Ensino Superior, com essas falas é possível afirmar que ele cumpriu
seu papel para estes alunos, pois ambos se sentem parte da Universidade como
qualquer outro aluno.
Categoria 8 – O vestibular
Uma questão que surgiu nas falas dos nossos entrevistados e não era
esperada por nós, tanto por nossas expectativas de resultados, quanto pelo
levantamento bibliográfico que fizemos para este trabalho, foi o vestibular:
31
[...] eu acho que tem [os professores] aquela ideia de que “ai, é um
pouco injusto com os outros alunos...”, eu acho que a questão que
mais pesa com os professores é que eles não fazem vestibular, por
exemplo. [...] Prounistas não prestam vestibular. E isso é um discurso
tanto de... acho que mais de alunos, do que de professores. [...] eles
[os alunos] acham que é um pouco injusto o modo como eles entram
na universidade, sem fazer o vestibular e não passar pelas mesmas
situações que eles, ter vagas reservadas para prounista [...]. (E2:
Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
[...] desaprovam no sentindo... mas ai eu já acho que é algo elitista,
que já vai de faculdade a faculdade, talvez. Numa faculdade mais
elitista, que nem nessa faculdade, é fácil sim encontrar gente que
desaprova o ProUni simplesmente por ser voltado aos alunos mais
pobres. [...] comentário do tipo “ah, e dai que é pobre? Teria que
disputar da mesma maneira”. (E3: Aluno de Ciências Biológicas
cursando a 4ª etapa).
Nas falas de E2 e E3 podemos perceber que os dois observaram que há
um descontentamento na Universidade quanto ao ProUni, por parte de alunos e
professores. Descontentamento este que está muito ligado ao vestibular, já que a
prova que os prounistas prestam não é o vestibular interno da Universidade. Quanto
a isso, o entrevistado E4 não se sente incomodado e garante que o ENEM é
equivalente ao vestibular, que demanda o mesmo esforço para o ingresso em uma
Universidade:
[...] Eu só não gosto quando a pessoa chega pra você e sei lá, você
tá em determinada situação e: “ah, esse aluno ProUni”, como se
fosse diferente do outro. Não, somos todos universitários, estudantes
e eu fiz uma prova de vestibular igual aos outros para passar na
universidade. Se eles fizeram a prova específica da Universidade, eu
fiz a do ENEM. Tive que obter uma pontuação boa para entrar em
uma universidade. E eu acho que os alunos não têm um preconceito
por prounistas, pelo menos eu não vi isso ainda na Universidade.
(E4: Aluno de Farmácia cursando a 7ª etapa).
O problema do vestibular provavelmente não é percebido pela
Universidade e pelo próprio ProUni, talvez seja mesmo um problema elitista, como
cita o entrevistado E3, já que no nosso levantamento bibliográfico não foi encontrado
nenhum relato desse tipo. Se for um problema realmente interno, cabe apenas a
Universidade analisá-lo e resolvê-lo, para isso seria necessário uma menor
valorização do vestibular como prova classificatória.
32
Categoria 9 – Prounistas sobre o ProUni
Todos os quatro entrevistados avaliaram o ProUni de uma maneira
positiva. Os bolsistas E1, E3 e E4 expuseram algumas insatisfações e consideram
necessárias melhorias no programa, já o entrevistado E2 garantiu estar satisfeito
com tudo:
É um programa interessante pela ideia de que o programa tem de
diminuir a desigualdade social, da inclusão de pessoas que não têm
condições de pagar uma universidade terem a oportunidade de
estudar. Se eu não tivesse ProUni, eu não estaria numa universidade
boa como essa e é isso, sabe? Eu acho que ele cumpre o que... o
que... o objetivo, sabe? Que é de inclusão mesmo, inclusão social,
ele cumpre porque ele dá o suporte inteiro para o aluno, inteiro.
Assim, eu não tenho do que reclamar, sabe? Nem a burocracia foi
tão grande para conseguir, eu acho que ele cumpre com o seu dever.
(E2: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
Assim como os resultados encontrados por Saraiva e Nunes (2011), o
entrevistado E2 associa o ProUni a uma mudança na vida dele e valoriza o
programa utilizando a palavra “oportunidade”. Esta palavra também foi usada para
descrever o programa por E4, que faz uma crítica ao processo de seleção feito pelo
Enem, julgando que a prova poderia melhorar:
Ah, eu acho que é um programa muito bom, eu acho que é um
programa ótimo, porque dá a oportunidade para aqueles alunos de
escola pública ter... ter... fazer uma universidade com bolsa cem por
cento. Sendo que, eu acho que o que precisa melhorar é a questão
do vestibular, que é o Enem, que o processo pra você ganhar uma
bolsa no ProUni. Eu acho que aí que tá precisando melhorar, a prova
ser melhor... a prova ser melhor e alguns critérios também, como a
quantidade de bolsas que o ProUni disponibiliza pra algumas
universidades. Que nem, pra Farmácia. Para a Farmácia, se eu não
me engano, abriram quando eu entrei, três ou quatro vagas para
bolsas do ProUni. Eu acho que deveriam abranger mais, mas não sei
se é um critério da Universidade. (E4: Aluno de Farmácia cursando a
7ª etapa).
Diferente dos alunos da PUC-Minas, nosso entrevistado critica o Enem.
Aqueles alunos avaliaram positivamente o Enem por priorizar questões de cunho
analítico-reflexivo e consideraram que isso lhes possibilitou o acesso à universidade,
por ser mais acessível que o vestibular comum (OLIVEIRA; CONTARINE; CURY
2012). Quanto ao número de bolsas oferecidas por curso, a Universidade deve
33
oferecer, no mínimo, uma bolsa integral a cada 10,7 estudantes regularmente
pagantes e devidamente matriculados ao final do período letivo anterior (AMARAL;
OLIVEIRA, 2011a). Certamente nosso entrevistado não tem acesso a essa
informação. Seria interessante que os bolsistas pudessem conhecer um pouco mais
sobre o programa. Como não há a divulgação dessas informações, caso o aluno se
interesse, deve pesquisar.
Para o bolsista E3 o que pesa mais não é o programa em si. Para ele, o
programa é justo, porque os alunos do ensino público precisam de alguma facilidade
para ingressarem numa universidade:
É um programa assim, justo, eu acho. Só que o problema ainda não
é, inteiro ou não, uma via de acesso mais fácil para a universidade e
sim fazer com que a via padrão se torne mais acessível pela própria
educação pública. Foi o que eu te falei. [A gente] Sai do ensino
médio sem noção nenhuma do que vai cair vestibular, quando o
ensino é público, então, seria muito mais fácil que para um vestibular
de escola federal... universidade federal pública... o aluno já saísse
do ensino médio público com a conduta que ele fosse precisar pra
passar no vestibular e isso não acontece. (E3: Aluno de Ciências
Biológicas cursando a 4ª etapa).
Ao descrever possíveis melhorias para o aluno, E1 destaca novamente os
problemas relacionados a questões financeiras. Dessa vez, conta a jornada de uma
colega que mora em outra cidade e vai todos os dias de transporte público para a
Universidade:
[...] ah, eu penso... sei lá, penso que ele podia melhorar. Penso que
do jeito que ele tá, também tá um jeito bom. Eu penso que ele tá
crescendo ainda, eu sei que ele é novo, que ele tá passando por
mudanças e tudo mais, que ele realmente precisa melhorar em
vários aspectos. [...] tem o pessoal que mora longe. Tem a Colega I,
que se não me engano, ela mora em Guarulhos. Meu, ela sai de
Guarulhos, pega ‘bom’ deles lá, aquele bilhete, que é outro tipo de
transporte... [...] pega o ‘bom’, depois vem pra cá e pega metrô, pega
ônibus para chegar aqui [...] E ela teve que parar de trabalhar e tá
tendo que pagar tudo isso de transporte pra vim até aqui, pegar não
sei quantos transportes pra chegar até aqui... (E1: Aluno de Ciências
Biológicas cursando a 6ª etapa).
Por estar matriculada em um curso semi-integral, a colega precisou deixar
o emprego, mesmo precisando arcar com os custos financeiros para ir a
Universidade. É importante lembrar que o ProUni possui uma Bolsa Permanência
34
para alunos com a carga horária média seja superior ou igual a seis horas diárias de
aula. Mesmo o curso em questão tendo condições semelhantes, o MEC não o
considera válido, pois as aulas em período integral não acontecem todos os dias da
semana, de modo que a referida aluna não tem como concorrer a essa bolsa.
Categoria 10 – As diferenças de ser prounista
Perguntamos aos alunos se já haviam presenciado alguma situação em
que ser aluno do ProUni fez diferença. E4 respondeu com certeza que não. E1, E2 e
E3 tiveram experiências distintas.
[...] por exemplo, a licenciatura [...] eu já ouvi muitas outras pessoas
da sala, mesmo, da nossa turminha pequena da licenciatura falando:
“eu nunca vou fazer estágio em colégio público, nunca, tenho medo,
acho que todo mundo é bandido, sei lá, não sei se eu posso ser
roubado...” [...] A primeira vez que eu ouvi, me feriu assim, eu fiquei
mal, fiquei tipo... pode perguntar, eu falei para todo mundo do meu
grupinho. Falei para minha avó “ai, o pessoal acha que quem veio de
escola pública é marginal...”. E foi a única vez que eu fiquei mal
mesmo, mas eu entendo eles, um pouco, né? Eu falo “eles viveram
outra vida...” e você vê, a TV conta vários outros tipos de realidade e
tudo mais, eles devem ter tipo uma ideia e ficar meio assim, nesse
estereótipo de colégio público, mas assim, a gente veio de lá e a
gente sabe. [...] Eu entendo que eu deveria realmente ter tomado
alguma atitude e ter falado: “gente, não é tão assim, a gente tem
vários prounistas da sala e de outros semestres e você não vê
ninguém roubando ninguém, ninguém mal vestido...”, sei lá. Eu
realmente não quis entrar em atrito, em nada... Mas eu fiquei meio
mal, assim, eu guardei para mim isso. (E1: Aluno de Ciências
Biológicas cursando a 6ª etapa).
É possível observar que o entrevistado E1 se sentiu incomodado com a
opinião de seus colegas sobre a escola pública, mesmo assim, não falou nada por
preferir não criar atrito com os colegas.
O entrevistado E2 nos trás uma informação de vantagem que os
prounistas podem ter:
Oportunidade de intercâmbio, no Ciências Sem Fronteiras eles dão
preferências para prounistas. [...] é um caso de vantagem, mas é
assim, também tá dentro daquele, daquilo que... daquele objetivo do
programa que é de inclusão, porque um aluno prounista,
provavelmente não tem condições de pagar um intercâmbio. (E2:
Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa).
35
O Ciências Sem Fronteiras é um programa do Governo Federal que visa
incentivar a pesquisa, desenvolvimento da Ciência e Tecnologia, da inovação e da
competitividade brasileira por meio de intercâmbios internacionais. Mesmo com a
afirmação de nosso entrevistado, não foram encontradas informações que o
Ciências Sem Fronteiras de preferência aos alunos prounistas.
Outra vantagem exposta foi a de que há professores, como a Professora
A descrita por E3, que preferem oferecer maior atenção acadêmica aos alunos do
ProUni:
A Professora A [...] gosta de dar atenção aos alunos prounistas,
porque muitos dos alunos que pagam, entram na faculdade
simplesmente por entrar, assim. [...] E ela acredita que o aluno
prounista que já tem um histórico a mais, de ter ido atrás do curso,
ter ido atrás do vestibular, fazer prova e etc, ela acredita que esse
aluno tem um pouco mais de vontade para seguir em aula. (E3:
Aluno de Ciências Biológicas cursando a 4ª etapa).
36
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho visou identificar as dificuldades dos alunos bolsistas do ProUni
ao entrarem na Universidade. Pelos relatos recolhidos, foi possível perceber que
nossos entrevistados passaram por experiências positivas e negativas. Relataram
ainda um pouco sobre as vivências de outros colegas prounistas.
O primeiro contato com a Universidade, por exemplo, foi descrito pelos
entrevistados, tanto de forma negativa, quanto de uma forma poética. Para o aluno
E1, houve uma burocracia a mais na hora de entregar seus documentos para
avaliação, o que o fez considerar essa experiência “traumatizante”. Isso nos
questionar se essa experiência não poderia ter sido evitada, já que a carta exigida
pela Universidade aparentemente não estava na lista oficial de documentação para
bolsa. O entrevistado E2 demonstrou que a faculdade, como seu primeiro contato,
sempre foi um objeto de desejo, alcançado graças ao ProUni.
Um problema observado na Universidade em questão foi a entrada tardia
dos prounistas. Os bolsistas E3 e E4 relevaram se sentirem perdidos e precisaram
contar com o apoio de colegas e de professores para adaptar-se. Sabemos que o
controle de entrada dos alunos do ProUni não depende da Universidade e sim das
chamadas abertas pelo MEC, mas nessas entradas tardias não entram apenas um
ou dois alunos. Cabe, então, ao nosso ver, à Universidade oferecer aos ingressantes
um apoio maior quando entram após o início das aulas, para que estes não se
sintam desamparados nos seus primeiros dias de aula.
Das dificuldades relatadas, a questão financeira é algo que a
Universidade pode e já auxilia. Muitos prounistas já procuram programas de
Iniciação Científica, Monitorias e Projetos de Extensão que oferecem bolsas pela
Universidade. Talvez seja necessária uma maior divulgação dessas possibilidades,
mas não há dúvidas de que, caso os prounistas se interessem, é possível participar
desses programas. Outra dificuldade apresentada foi a de cunho acadêmico, pois os
bolsistas, em geral, vêm com uma defasagem de conteúdo que os prejudica nos
primeiros semestres. Os prounistas parecem ver essa dificuldade de forma pessoal,
e acreditam que são capazes de superá-las com os seus próprios esforços.
A relação com os demais colegas na Universidade é avaliada como boa,
os alunos do ProUni afirmaram que não se sentiam diferentes dos demais e que
fizeram bons amigos. O episódio trazido por E1, no qual uma aluna do ProUni
37
recebeu ofensas de um aluno pagante provavelmente passou despercebido pela
Coordenadoria da Universidade. Uma solução, nestes casos, seria a possibilidade
de um acompanhamento psicológico para os bolsistas para que se sintam mais
seguros ao lidarem com situações como essas.
Ao definirem as vivências como alunos do ProUni na Universidade, todos
os entrevistados apresentaram palavras positivas: aluno, universitário, evolução e
satisfatório. Palavras que são acompanhadas de falas orgulhosas, nas quais os
prounistas afirmam ser iguais a qualquer outro aluno e demonstram o quanto
cresceram pessoal e profissionalmente. A avaliação positiva também pode ser
percebida quando os alunos explicam o que acham do ProUni, relatando, também, o
que gostariam que mudasse para melhorar o programa.
Consideramos que a contribuição deste trabalho é interna, para
Universidade estudada, pois permite que com este levantamento, ela possa
identificar os problemas encontrados na adaptação dos prounistas, para que estes
sejam resolvidos. Há também contribuições no âmbito da divulgação. Ao
apresentarmos nossos resultados, esperamos que as pessoas que não estão
envolvidas com o programa possam entender e refletir sobre como é a vida dos
bolsistas e sobre as dificuldades por eles enfrentadas ao ingressar em uma
universidade.
38
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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novas trajetórias pessoais e profissionais dos egressos. Ensaio, Rio de Janeiro, v.
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BRASIL. Lei nº 11.096, de 13 de Janeiro de 2005. Institui o Programa Universidade
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macroestruturais, meso-institucionais e microssociais: Pesquisa sobre a sua
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Universidade Para Todos (ProUni): uma análise da política pública em uma
39
instituição de ensino superior do Rio de Janeiro. Meta: Avaliação, Rio de Janeiro, v.
4, n. 11, p.210-227, maio./ago. 2012.
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40
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Pública, Rio de Janeiro, v. 4, n. 45, p.941-964, jul./ago. 2011.
41
7. Apêndices
Apêndice A - Roteiro de entrevista semiestruturada
1)
Vamos começar conversando sobre a escola em que você cursou o Ensino
Médio. Como eram as aulas?
2)
Quais as disciplinas você mais gostava? Por quê?
3)
Quais eram as suas estratégias de estudo?
4)
Como era sua relação com seus colegas de classe?
5)
Como foi o processo de escolha da sua profissão?
6)
Como tomou conhecimento do ProUni?
7)
Por que você escolheu esta universidade?
8)
Você poderia nos relatar como foi o seu primeiro contato com a universidade?
E seu primeiro dia de aula?
9)
Pensando em sua vida como universitário(a), quais dificuldades você enfrenta?
Por quê?
10) Como é a sua relação com seus colegas de turma?
11) Que opinião você acha que os professores tem sobre o ProUni? E os alunos
não prounistas?
12) O que você pensa sobre ProUni? Por quê?
13) Se você pudesse definir as suas vivências como prounista nesta universidade
com uma palavra, qual seria? Por quê?
14) Você já vivenciou algum episódio em que ser prounista fez diferença? Em caso
afirmativo, como foi?
42
Apêndice B – Carta de Apresentação e Termo de Consentimento para o Sujeito
CARTA DE INFORMAÇÃO AO SUJEITO DE PESQUISA
Esta pesquisa tem como intuito identificar os problemas enfrentados pelos alunos Prounistas ao
ingressarem na universidade. Para tanto, realizaremos entrevistas semiestruturadas com alunos
bolsistas do ProUni matriculados nos cursos do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, que tenham cursado pelo menos até a 4ª etapa. Assim,
solicitamos sua autorização para a realização e a gravação da entrevista em áudio. Lembramos que a
realização da entrevista oferece riscos físicos e/ou psicológicos mínimos aos participantes. As
pessoas não serão obrigadas a participar da pesquisa, podendo desistir a qualquer momento. Em
eventual situação de desconforto ou possível prejuízo, os participantes poderão cessar sua
colaboração sem consequências negativas. Todos os assuntos abordados serão utilizados sem a
identificação dos participantes e da instituição envolvida. Quaisquer dúvidas que existirem agora ou a
qualquer momento poderão ser esclarecidas, bastando entrar em contato pelo telefone abaixo
mencionado. Ressaltamos que se trata de pesquisa com finalidade acadêmica, referida à Disciplina
de TCC, que os resultados da mesma serão divulgados em forma de um trabalho acadêmico,
obedecendo ao sigilo, sendo alterados quaisquer dados que possibilitem a identificação de
participantes, instituições ou locais que permitam identificação. De acordo com estes termos, favor
assinar abaixo. Uma cópia deste documento ficará com o participante da pesquisa e outra com o(s)
pesquisador (es).
......................................................................
.............................................................
Assinatura do pesquisador
Assinatura do orientador
Instituição
Telefone para contato: x-xxxx--xxxx
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Pelo presente instrumento que atende às
exigências
legais, o(a) senhor (a)
____________________________________, representante da instituição, após a leitura da Carta de
Informação à Instituição, ciente dos procedimentos propostos, não restando quaisquer dúvidas a
respeito do lido e do explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de
concordância quanto à realização da pesquisa. Fica claro que a instituição, através de seu
representante legal, pode, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E
ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa e fica ciente que todo trabalho
realizado torna-se informação confidencial, guardada por força do sigilo profissional.
Autorizo a entrevista gravada
□ Sim
□ Não
São Paulo,....... de ..............................de 2013.
_________________________________________
Assinatura do sujeito
43
Apêndice C - Transcrição 1: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 6ª etapa.
P: Pesquisadora
E1: Entrevistado 1
P: Vamos começar falando sobre a escola, a escola que você cursou o ensino
médio, como eram essas aulas na escola?
E1: Minhas aulas no ensino médio? Ah, eram legais, deixa eu ver... ah, sei lá, foi
meio diferente, porque eu fiz em colégio técnico. Ai, eu achei que era outra pegada.
Era muito diferente de onde eu tinha vindo, porque eu só estudei em colégio sempre
público e, ai, o do fundamental era colégio municipal e, aí, eu terminei o fundamental
e fiz cursinho pré-vestibular para entrar no colégio técnico (risos). E eu entrei no
colégio...
P: Mas era um pré-vestibular... como assim?
E1: Não, era um pré-vestibular mesmo, é porque tipo...
P: Quantos anos você tinha?
E1: Quinze (risos), e eu fiz pré-vestibular já, mas é porque era concorrido e tudo
mais, tanto que dos meus amigos eu fui o único que passei no colégio. E ai eu
entrei...
P: Era técnico do que?
E1: Não, era colégio técnico, ai tipo, tinham vários técnicos lá e depois você tinha
que fazer outra prova e fazer algum técnico, eu fiz o de nutrição. Ah sei lá, era
diferente, eu me sentia em outro colégio, assim, e em outra realidade, porque ele
parecia meio particular, assim às vezes, porque tinha uniforme, não que o outro não
tivesse, mas a gente tinha que comprar o uniforme, tinha que comprar tudo no
colégio. Todas as xerox, livros... não todos os livros, vários a gente recebia, mas
física, inglês, espanhol... que mais? Tinha outro livro também que a gente teve que
comprar. Todos os passeios eram pagos, é meio assim, mesmo sendo do governo...
mas tudo bem.
P: Tá, e que disciplina você mais gostava?
44
E1: Hm, ah deixa eu ver... eu gostava de biologia, gostava de... deixa eu ver o que
mais... gostava de português, eu gostava de matemática, antes de ficar difícil.
P: Antes de ficar difícil? (risos)
E1: (risos) é... essas são as matérias.
P: Mas, por que essas disciplinas?
E1: Hm... essas disciplinas que eu mais gostava assim, porque português a gente lia
bastante e eu gostava de ler. Matemática sempre foi algo que eu gostei e biologia
também, sempre me fascinou um pouco. Quando eu fiz técnico, então que tinha
mais disciplinas assim relacionadas à saúde e etc, curti mais.
P: E como você fazia para estudar, no colégio?
E1: Ai! Igual eu faço... (risos)
P: Igual você faz agora? (risos)
E1: (muitos risos)... a vida inteira... não, mas é, geralmente, vai ser prova no dia
seguinte e eu começo a estudar tipo um dia antes, se não no próprio dia (risos), de
boas, não?
P: E a relação com seus amigos no colégio?
E1: Ah, como assim?
P: A sua relação com a classe, era boa?
E1: Era, eu fui representante dois anos seguidos (risos)...
P: Você era popular?
E1: (muitos risos)
P: Entendi (risos)
E1: Fui representante dois anos seguidos, e no primeiro ano a gente era de uma
sala, e ai eles revolucionaram lá no colégio e eles trocaram todo mundo de sala, foi
tipo mó separação brutal assim, todo mundo foi para salas diferentes. E depois
45
deixaram a gente juntos, no segundo e no terceiro ano a gente permaneceu na
mesma sala. E por causa disso todo mundo era amigo, as sete, eram sete (...).
P: Sete salas.
E1: Por ano, e todo mundo era amigo, todo mundo se conhecia, tudo mais...
P: E como foi o processo de escolha da sua profissão?
E1: Ai... foi muito por causa do técnico mesmo, porque eu fiz o técnico de nutrição.
Eu já sabia... quando eu entrei no técnico de nutrição, já sabia que não queria entrar
na área mesmo de nutrição, mas eu gostava, assim, gosto de fazer bolo e etc
(risos). Tudo bem, quando eu entrei, tipo, me apaixonei pelo técnico, assim, mas
pelas aulas em si, não pela profissão. A gente tinha bastante visita técnica e tudo
mais, e eu odiava o ambiente de trabalho dos nutricionistas, eu falava “meu, isso
aqui não é para mim”, mas as aulas eu amava. E nas aulas tinham muitas coisas de
biologia e tudo mais e eu sempre falei “mano, tem que ser alguma coisa dessa
área...”, mas ai eu queria fazer um pouco de farmácia. Eu queria fazer farmácia na
verdade, queria fazer remédio e tudo mais, e ai foi isso, eu prestei para farmácia e
para biologia, e ai passei aqui em bio e pensei “ah, vou ficar por aqui” porque é do
lado da minha casa (risos)...
P: (risos) e agora você gosta?
E1: Gosto, então, minha vó sempre pergunta, quer dizer, perguntava... “ah, agora
que você tá lá na Universidade, como tem farmácia, também, você não vai pedir
transferência e tudo mais?”, só que tipo, eu me apaixonei pela bio e falei que não
quero mais farmácia.
P: E como você tomou conhecimento do ProUni?
E1: Nossa, foi muito sem querer, meu, eu sou tipo... os colégios técnicos, eu não
sabia da existência de colégios técnicos... não sabia de muitas coisas, eu
simplesmente vou entrando...
P: É tudo na sorte na sua vida?
E1: É, não é na sorte, mais ou menos, é que tipo, eu tinha uma amiga... é, é na sorte
(risos)... eu tinha uma amiga, que a tia dela tinha feito colégio técnico, o mesmo que
46
eu entrei, e ai minha amiga ficou tipo em cima de mim “ai quando a gente sair daqui,
bora no colégio técnico e tudo mais, lá é super concorrido, ensina melhor,
blábláblá...” e foi por ela que eu fiquei sabendo, e por causa dela que eu acabei
entrando. E pra cá, do ProUni... eu lembro que no ensino médio eu não sabia direito
como funcionava, tipo, eu lembro que já tinha ouvido falar do ProUni e tudo mais. Só
que eu não tinha ideia de como funcionava, e ai quando chegou no terceiro ano para
prestar vestibular, eu me informei um pouco, vi que se você fazia em escola pública,
era de graça... quer dizer, você podia estudar em faculdade particular de graça, etc...
mas mesmo assim eu tinha um certo preconceito com colégio particular, eu queria
entrar em colégio público. E ai, eu prestei... fiz o ENEM, Fuvest, prestei um monte de
coisas e minha vó que encheu o meu saco pra eu prestar o ProUni, tipo me
inscrever no ProUni. Minha vó encheu meu saco (risos) e eu “não quero e não sei o
que lá...”, e ai eu terminei fazendo isso, falei “ah, tá bom...”, não custava nada, ai eu
peguei, me inscrevi lá em três faculdade, me inscrevi aqui, que era minha ultima
opção.
P: Por que era perto da sua casa?
E1: Nem por ser perto da minha casa, mas a Universidade foi a única que eu
coloquei biologia, todo o resto eu coloquei farmácia, coloquei Universidade X e... eu
esqueci o nome do outro, e ai eu passei aqui em bio, ai eu falei “ah, pode ser...”.
(risos)
P: (risos) E como foi o seu primeiro contato com a faculdade depois de ter passado?
E1: Ah sei lá, eu posso contar um pouco, porque o meu primeiro contato de verdade
com a faculdade sempre foi um pouco traumatizante, por cauda do ProUni em sim,
porque...
P: Pode contar...
E1: É que vir aqui, correr atrás de todos os papeis da bolsa e eles falarem que não
ia ser aprovado, porque eu não moro com o meu pai, mas a renda do meu pai batia
com a minha quando jogava o CPF dele no negócio e tudo mais, ai ficou nessa
enrolação e tudo mais, e terminou que eu vim aqui no último dia que era para ser e
eles falaram “você não vai conseguir” porque dava como se meu pai morasse
comigo. E, ai, eles me mandaram lá pra diretora do setor de bolsas, e eu tive que ir
47
lá na última hora e a diretora ainda falou com reitor. E o reitor falou “não, tudo bem,
se ele escrever uma carta, tanto o pai dele, quanto a mãe dizendo que eles nunca
moraram juntos, que eles não moram juntos, que mora com a avó e tudo mais, se
ambos escreverem essa carta a gente aceita.”
P: E seus pais escreveram...
E1: Meus pais escreveram e o mais engraçado dessa carta é que eles tinham que
especificar que eles nunca ficaram juntos, eu achei muito engraçado (risos), é tipo, e
eu falei “tá né...”, e eles escreveram e foi aprovado. Eu entrei aqui no terceiro dia já
de aula, foi no terceiro? Não, acho que eu perdi três dias, eu entrei foi numa quinta,
é, foi numa quinta que eu entrei. E na primeira aula, foi de anatomia prática, e
quando eu entrei na sala eu achei todo mundo... ah, eu não fiquei assim, eu achei
todo mundo meio que normal, e eu sentei do lado de uma colega, não sei se posso
citar nomes (risos), da Colega A, que tava grávida e tudo mais, eu lembro que eu
não tinha visto que ela tava grávida e ela conversou comigo. E, ai, quando ela
levantou que eu vi aquela barriga e eu falei “meu Deus, tipo, você está grávida, que
medo...” (risos), mas foi de boa, tipo, foi tranquilo, eu não... com relação a sala,
assim, ai depois eu lembro que logo quando teve aula mesmo teórica, os moleques
me acolheram, assim. Porque eu lembro que a sala antes tinha um grande grupo de
meninos assim, todos eles sentavam no fundo... que ai era o Colega B, C, o D, o E...
todo mundo junto ali no fundo e ai tipo logo quando eu cheguei nesse dia de aula
teórica eles já falaram “não, senta aqui com a gente e tudo mais...”, tanto que nesse
primeiro contato no primeiro semestre eu fiquei mó tempão sentado com eles
mesmo, tipo, só depois que fui fazendo outras amizades e tudo mais e a gente
acabou realocando os grupos.
P: É... você pensou em desistir quando teve tantos problemas para entrar na
Universidade?
E1: (suspiro) ah, talvez, sabe? Eu tava meio assim já, tava achando que não ia dar
certo, porque eu tava, meu... eu já tinha vindo aqui umas três vezes antes do último
dia que eu fui falar com a diretora e tudo mais, e eles falaram “não vai, não sei o que
lá, tá faltando documento...”, foi realmente... a burocracia daqui, eu achei até meio
estúpida, não sei, não me senti a vontade mesmo...
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P: Se sentiu meio invadido?
E1: É... então, é... eles pediam tantas coisas, queriam tantas declarações e etc, não
me senti legal, isso já realmente me deixou meio assim.
P: E a carta dos seus pais? Sabe como eles se sentiram?
E1: Ah, não, minha mãe não falou nada. Tanto minha mãe quanto o meu pai falaram
“ah, se tá pedindo, né? Tudo bem, a gente cria e tudo mais...”, mas meu pai também
ficou meio revoltado com isso, do CPF dele estar batendo com o meu, tanto que
teve um dia que o meu pai veio comigo antes daquele último dia que eu fui falar com
a diretora. E ele falou lá “mas eu não moro com ele, eu pago pensão, tem aqui todos
os comprovantes, e tudo mais... não tem pra que o meu CPF estar batendo junto
com o dele e não sei o que lá...”, e eles continuaram brigando assim...
P: Mas deu tudo certo...
E1: Deu. (risos)
P: Pensando na sua vida como universitário, quais dificuldades você enfrenta?
E1: Ah, eu acho que eu enfrento dificuldades como todo mundo, não sei, né... Eu
tenho a vantagem de morar do lado da Universidade, demoram 10 minutos para ir
da minha casa daqui. Então, isso é uma coisa, né? Mas por exemplo, nos dias que a
gente tinha aula de manhã e a tarde, mais no primeiro ano e segundo ano que a
gente tinha... eu voltava pra casa para almoçar e depois vinha para cá. Tipo, nunca
almocei na Universidade, porque aqui os preços são meio absurdos (risos). Não tem
uma cantina com preço acessível em nada aqui, e ai eu sempre voltava pra casa. E
quando eu comecei a fazer estágio, tanto no Butantã quanto com Professor B, que
eu também fiz aqui. Eu também comecei a trazer marmita porque eu cansei de voltar
para casa. E ai quando eu ia para o Butantã que eu vinha direto para cá, no Butantã
tem almoço grátis pra gente, mas ai você tinha que ganhar bolsa e tudo mais, para
ser de graça mesmo e eu preferia vir para cá, comia aqui, mas sempre marmita.
P: Você esquenta essa marmita onde?
49
E1: No Diretório Acadêmico (DA), sempre esquentei lá no DA (risos), sempre. O
pessoal dizia que dava para esquentar no Prédio 38, mas eu nunca esquentei lá,
ficava meio assim...
P: De comer marmita na frente das pessoas?
E1: Não, nem isso, mas por ser uma lanchonete, não... como marmita na sala de
aula, às vezes, chegava mais cedo e tinha coisa que eu não esquentava, tipo
lasanha, que eu não ligo de comer meio gelada e chegava e comia na sala mesmo.
E o pessoal chegava e falava “olha o [nome do entrevistado] ali, marmitando...”, mas
tranquilo.
P: Você não se importa com isso.
E1: Não, de maneira nenhuma.
P: Como é a sua relação com seus atuais colegas de turma?
E1: Muito boa, sei lá, eu nunca vi assim muito entrave. Eu até já presenciei uma
situação meio chata com uma aluna prounista,. Porque ela brigou com uma garoto e
o garoto falou assim “é lógico, tinha que ser a pobre da ZL [Zona Leste], mesmo”, e
eu fiquei até meio assim...
P: Sério? Que triste...
E1: Pois é, foi muito assim...
P: E como ela ficou?
E1: Ah, ela ficou revoltada, espalhou pra todo mundo o que o garoto tinha dito. Ela
falou que tinha feito uma coisa que tinha provocado o garoto e o garoto tinha ficado
com muita raiva dela, mas falar um xingamento assim, né? Meu, muito nada a ver.
Eu não sei se é a nossa sala, mas eu sempre me senti muito normal, muito tranquilo,
até com todo mundo. Que nem o Colega F, que é meu amigo, ele tem carro, de vez
em quando, sempre carona e etc, a Colega G tem um sitio, a gente sempre viaja lá
pra o sítio dela, ninguém nunca... a gente sempre divide tudo, ninguém fica
esbanjando assim, não existe ostentação no nosso grupo (risos).
50
P: É... você acha que os... qual você acha que a opinião dos professores sobre o
ProUni?
E1: Eu acho que é uma opinião positiva. Eu não penso que eles achem, assim, que
é algo ruim e tudo mais. Talvez alguns devem pensar, assim, que a gente vem um
pouco defasados, o que realmente acontece. Teve muita coisa que, logo, por
exemplo, quando a gente teve física, química, matemática e tudo mais... primeiro
semestre mesmo, eu lembro que tinha muita coisa que eu nunca tinha visto. Lembro
que a Colega H falava a mesma coisa para mim, que ela também é prounista, falava
“nunca vi isso na vida” e a gente teve que aprender na hora. Talvez eles pensem
isso, mas de resto eu acho que eles curtem, eles devem achar a ideia boa.
P: Nenhum deles falou nada para você?
E1: Não, nunca ouvi... é, não que eu lembre agora...
P: E o que você pensa do ProUni?
E1: (suspiro e risos) ah, eu penso... sei lá, penso que ele podia melhorar. Penso que
do jeito que ele tá, também tá um jeito bom. Eu penso que ele tá crescendo ainda,
eu sei que ele é novo, que ele tá passando por mudanças e tudo mais, que ele
realmente precisa melhorar em vários aspectos.
P: Por quê?
E1: Ah, que nem, tem o pessoal que mora longe. Tem a Colega I, que se não me
engano, ela mora em Guarulhos. Meu, ela sai de Guarulhos, pega o BOM deles lá,
aquele bilhete, que é outro tipo de transporte...
P: É EMTU.
E1: É então, pega o BOM, depois vem pra cá e pega metrô, pega ônibus para
chegar aqui e, sabe, é todo um trampo e antes ela trabalhava. Ela teve que parar o
trabalho pra vir até aqui, né? E o nosso curso demanda um tempo, e tal. E ela teve
que parar de trabalhar e ta tendo que pagar tudo isso de transporte pra vim até aqui,
pegar não sei quantos transportes pra chegar até aqui... e assim...
P: Você acha que deveria ter um pouquinho mais de subsidio...
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E1: É, alimentação também, tipo, pessoal tem que passar aqui o dia inteiro, quem
faz o nosso curso, né? Ou, então, mesmo quando a gente tá fazendo estágio, é
obrigatório que a gente faça estágio, a gente tem que ficar fora de casa todo esse
período de tempo. E, ai, você chega aqui e a comida é absurda, não tem nenhum
bandejão, não precisava nem ser de graça, mas que pelo menos fosse um preço
acessível, né? Que ai você vai comprar um salgado é quatro reais, e o salgado é
pequeno. Uma coxinha é quatro reais, tipo, meu? (risos)
P: Se você pudesse definir a sua vivência como prounista na faculdade em uma
palavra, qual seria?
E1: (...) ah, seria aluno.
P: Aluno?
E1: É.
P: Por quê?
E1: Porque sei lá, porque eu sempre pensei nisso já, de tipo, eu ser de um outro
nível, e eu nunca me senti mal estando na faculdade, na sala, com os professores...
eu senti que as relações eram sempre as mesmas.
P: Você se sente integrado.
E1: É, eu me sinto unido e tudo mais, então, prefiro falar aluno, porque eu me acho
como qualquer outro aluno da faculdade, né? Independente de quanto de dinheiro
cada um tem (risos).
P: E para finalizar, você vivenciou alguma situação em que ser prounista fez
diferença?
E1: Ah, muita coisa...
P: Conta uma.
E1: (risos) por exemplo, a licenciatura, que isso é uma coisas que eu encaro para
mim mesmo, que eu falo “gente, não...” (risos). Tipo a Colega J, a Colega J para
mim é uma pessoa ótima, mas ela é ótima, não vou falar nada mal dela. Outro dia,
semana passada, ela falou uma coisa muito interessante na sala. Ela falou assim:
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“eu sempre estudei em colégio particular, e eu quis fazer estágio em colégio público
para ver a realidade do que era...”. E eu já ouvi muitas outras pessoas da sala
mesmo, da nossa turminha pequena da licenciatura falando: “eu nunca vou fazer
estágio em colégio público, nunca, tenho medo, acho que todo mundo é bandido, sei
lá, não sei se eu posso ser roubado...”, nossa e tipo...
P: Te incomoda como eles pensam da escola pública?
E1: A primeira vez que eu ouvi me feriu assim, eu fiquei mal, fiquei tipo... pode
perguntar, eu falei para todo mundo do meu grupinho. Falei para minha avó “ai, o
pessoal acha que quem veio de escola pública é marginal...”. E foi a única vez que
eu fiquei mal mesmo, mas eu entendo eles um pouco, né? Eu falo “eles viveram
outra vida...” e você vê a TV conta vários outros tipos de realidade e tudo mais, eles
devem ter tipo uma ideia e ficar meio assim, nesse estereotipo de colégio público,
mas assim, a gente veio de lá e a gente sabe.
P: E por que você não fala nada na aula? Aquilo que te incomoda...
E1: (...) talvez, eu não queira tipo... (risos), porque a turminha é tão pequena, eu fico
meio assim...
P: Tem medo de...
E1: É de acabar criando... eu fiquei meio ofendido mesmo com isso e tudo mais,
mas acho que... primeiro que não foi uma ofensa pra mim, elas estavam falando...
tipo....
P: Falando em geral.
E1: É, a conversa não era nem comigo, eu ouvi conversando e tudo mais, não foi
pra mim, eu ia ficar meio assim de eu e entrar e falar “oh gente...”. Eu entendo que
eu deveria realmente ter tomado alguma atitude, e ter falado “gente, não é tão
assim, a gente tem vários prounistas da sala e de outros semestres e você não vê
ninguém roubando ninguém, ninguém mal vestido...”, sei lá. Eu realmente não quis
entrar em atrito, em nada... Mas eu fiquei meio mal assim, eu guardei para mim isso.
53
Apêndice D - Transcrição 2: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 7ª etapa.
P: Pesquisadora
E2: Entrevistado 2
P: Vamos começar conversando sobre como... é em que escola você cursou o
ensino médio, como eram as aulas lá?
E2: Eu estudei no ensino médio em uma escola pública perto da minha casa
chamada Escola Estadual Antoine de Saint Exupery. Estudei todo o meu ensino
médio lá em período noturno, estudei no período noturno porque eu trabalhava de
manhã. Bom, como era lá...
P: As aulas.
E2: As aulas... então, eu tinha muitas aulas vagas, que eu lembro. Tinha muitas
aulas vagas, poucos professores davam uma aula que eu gostava, assim, porque o
resto muitos deles só passavam algum texto na lousa e pediam para a gente copiar,
sabe num...
P: ... ia embora mais cedo...
E2: Ia embora mais cedo muitas vezes. Muitas vezes ia embora mais cedo quando o
professor faltava. E foram poucas as matérias que eu tive um aproveitamento legal,
assim, que eu me lembre.
P: Entendi...
E2: Claro que deve ter havido outras matérias que eu devo ter aprendido muita
coisa, sabe?
P: Dessas matérias, quais disciplinas você mais gostava?
E2: Biologia.
P: Por quê?
E2: Ah, porque eu gostava da professora, me dava bem com ela, e (...) foi meio por
causa dela que eu... por causa dela não, vai, pela matéria que eu me inspirei para
cursar biologia.
54
P: E como é que você fazia para estudar? Suas estratégias de estudo, já que você
trabalhava e estudava a noite.
E2: Eu não ia atrás de nada.
P: Você não estudava?
E2: Não, eu não estudava. Eu lembro, eu não estudava para prova. Não me lembro
muito de situações, nem de prova direito, sabe? No ensino médio, nem disso eu me
lembro. Eu lembro que tinha muito trabalho, fazia muito trabalho e as lições durante
a aula, assim, tanto que eu prestei vestibular e não passei nas Universidades que eu
queria e acabei indo fazer cursinho.
P: Mas no colégio como era a sua relação com os seus colegas de classe?
E2: Meus colegas de classe? Eram... eram boas, eu tinha uns dois amigos, assim,
duas amigas que eu era muito próximo e eu ficava muito grudado nelas.
P: E o processo de escolha para a sua profissão? Foi só a professora de biologia
que te influenciou?
E2: Não, eu acho que para a escolha do curso eu desde de criança tenho esse
interesse pela natureza, desde criança. Eu lembro que minha mãe... tem muitas
plantas em casa e eu lembro que gostava de ficar plantando plantas e fazia
canteiros pequenininhos...
P: (risos) que bonitinho...
E2: E eu fazia tudo isso, chamava amigos para participar de festas no canteiro, eu
fazia isso. E sei lá, eu sempre tive interesse por coisas naturais...
P: Então você não tinha dúvida, era biologia...
E2: Eu lembro que eu tive um pouco de dúvida com psicologia. Eu queria na área de
biológicas e eu lembro que na escola sempre que eu pegava livro na biblioteca era
de assuntos relacionados a corpo humano, astronomia, sabe? Biologia assim no
geral.
P: E como é que você tomou conhecimento sobre o ProUni?
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E2: O ProUni... eu tomei conhecimento a partir do ENEM, do ENEM? Não, pera ai...
Ah foi com... com... não lembro, foi no cursinho? ProUni? Acho que foi pesquisando
mesmo, me inscrevi no ENEM e ai vi que tinha possibilidade de fazer o ProUni, mas
nunca foi meu primeiro objetivo. Tanto que quando eu entrei no cursinho eu queria
pública, eu estava com isso na cabeça “eu quero pública, eu quero pública...” e eu
prestei o ProUni uma vez assim que eu sai do ensino médio, consegui uma bolsa na
Universidade Y de biologia, eu não quis.
P: E por que você escolheu essa universidade então? Essa atual...
E2: Aí eu entrei no cursinho, deixa eu terminar... eu entrei no cursinho, fiz o cursinho
durante um ano, ai, no final eu prestei de novo o ProUni. Também tinha prestado
públicas, não passei nas públicas e ai eu prestei o ProUni de novo. E eu não sei,
não me passava pela cabeça essa Universidade, não me passava pela cabeça. E eu
não entendia muito bem o processo de seleção do ProUni, não sabia que tinha
aquela nota de corte, eu não sabia nada disso. Só fui me dar conta disso nessa
segunda vez que eu tentei o ProUni que ai eu me inscrevi nessa Universidade, mas
eu nem lembro se foi para biologia, mas eu deixei como uma das últimas opções. Eu
não sabia que a primeira era a de sua preferencia. E, aí, eu não fui aprovado, mas
fui aprovado na Faculdade X e eu não quis a Faculdade X e continuei no cursinho
por mais meio ano e com o mesmo resultado do ENEM que eu tinha sido aprovado
Faculdade X, e, ai, como eu não passei em nenhuma pública eu falei “não, agora eu
vou partir para universidades particulares mais conceituadas...”. Que, ai, ficou na
minha cabeça só Universidade Z e essa Universidade, Universidade Z e essa
Universidade, Universidade Z e essa Universidade. E eu prestei ProUni pra essa
Universidade e pra Universidade Z. Essa Universidade como primeira opção e ai eu
consegui a bolsa. Agora, eu fui de segunda chamada...
P: Quantas chamadas tinham? Você sabe?
E2: Acho que teve até a terceira na minha época.
P: Você poderia relatar como foi o seu primeiro contato com a Universidade?
E2: Meu primeiro contato... eu trabalhava com meu pai, quando eu estudava no
ensino médio e no cursinho. E ele trabalha na rua fazendo serviço em vários locais,
que ele é serralheiro, então as pessoas ligam, os clientes ligam em casa e a gente
56
vai oferecer o serviço nosso quando uma porta quebra ou uma coisa assim. Então a
gente anda por São Paulo inteiro, meu pai anda por São Paulo inteiro e eu, como
ajudava ele, acabava andando por todos os lugares. Sempre que eu passava na
Universidade ficava maravilhado com o campus, com tudo isso e até me passou
pela cabeça “ah, que legal deve ser estudar numa Universidade assim, ter essa vida
de...” (...).
P: Desde quando você era pequenininho?
E2: Foi quando eu... ah, sei lá, pode-se dizer que foi quando eu tinha quinze anos, a
gente sempre passava por esse pedacinho, sempre via aquela parte histórica ali
quando a gente vinha para a rua próxima a Universidade. Eu fiz até alguns serviços
aqui no... tem uma padaria aqui depois do hotel, ele é nosso cliente, tem uma loja de
produtos pra quem faz escalada, esportes radicais e a gente também fazia serviços
lá. Eu sempre via os estudantes, sempre via ah... sabe essa parte mais
movimentada? Mas, nunca tinha entrado no campus.
P: Só depois...
E2: Ai, a primeira vez que eu entrei em contato com a universidade foi que eu entrei
na universidade assim, foi quando eu vim fazer a primeira entrega de documentos.
P: Como é que foi essa primeira entrega?
E2: Eu não tinha certeza que eu ia entrar na universidade, eu não estava
acreditando, não acreditava que assim, serviços do governo, que tinham serviços do
governo gratuitos e que funcionavam, sabe? Eu não acreditava, pra mim era tudo
balela, sabe? Ou nunca ia acontecer comigo.
P: E quando aconteceu você ficou como?
E2: Não, quando aconteceu apareceu lá “bolinha verdinha, foi aprovado” no site do
ProUni e ai eu “nossa, que legal né...”. Eu sou uma pessoa assim, que não... que até
o fim eu não acredito, até acontecer. E ai o primeiro contato foi assim, eu entrei e
fiquei maravilhado com a Universidade, com o campus, foi lindo e deixei meus
documentos e fui, continuei a vida.
P: E no seu primeiro dia de aula?
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E2: Meu primeiro dia de aula... ata, eu queria participar do trote, porque... sei lá, eu
queria passar por essa experiência de entrar numa faculdade, sabe? Então no
primeiro dia da faculdade, eu entrei e fui procurar o (...), não, na verdade... ah na
verdade eu tinha um professor no cursinho que ele era... que ele estudou nessa
Universidade, ele tinha falado pra mim que... eu perguntei para ele se essa
Universidade era uma universidade boa em biologia, e ele falou “é sim uma
universidade boa e eu estudei lá, eles tem um curso bem estruturado, bem antigo,
bem tradicional, pode te dar um bom suporte e agora eles compraram uns prédios
da Nestlé que são todos novos e modernos...”. Aí, eu “nossa que legal...”, aí, beleza
e ele até aconselhou de procurar iniciação científica, no cursinho, tudo isso com
esse professor. E quando eu entrei na faculdade, no primeiro dia eu já achava que
o... eu queria achar o prédio da biologia, e eu perguntei para os seguranças “onde é
o prédio da biologia?” e eles “ah, não tem um prédio da biologia” e eu “não, o prédio
que era da Nestlé...” e eles né, x, “que prédio é esse?” e como eu lembrei que era
um prédio espelhado, vi aquele prédio da rua próxima ao campus e fui andando até
lá, mas de qualquer forma eu estava procurando as pessoas para fazer o trote.
P: (risos) você achou?
E2: Não, não achei, porque o trote é só de quarta-feira. Aí, eu vim na manhã aqui,
nada, nem lembro se eu fiz aula nesse dia... deixa eu ver, não lembro se eu fui na
aula, acho que eu só fiquei aqui na manhã e depois fui para casa. Aí, eu entrei num
grupo no Orkut da Universidade (risos) e, aí, eu achei que eles iam fazer o trote de
quarta-feira, mas eu vim na aula normalmente na quarta-feira, não participei de Trote
Solidário. Fui na aula na quarta-feira e quando cheguei na aula todo mundo “ah, o
trote, o trote, vamos para o trote...” e eu “não, vou perder aula...” “não, você vai”
(risos), aquela história vai (risos) , “você não vai perder aula, você vai... é legal o
trote, você vai poder compensar depois, não se preocupa...” e eu fui pro trote, né.
Fiquei no trote pedindo dinheiro nas ruas próximas a Universidade.
P: (risos) (...) é, pensando na sua vida como universitário, qual dificuldade você
enfrenta?
E2: (...) como universitário? Ah, encontrar tempo para trabalhar remuneradamente.
P: Por quê?
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E2: Porque muitos empregos eles querem o horário diurno e... de manhã e de tarde
para trabalhar. Quando eu entrei no curso era integral, então era praticamente
impossível. Por exemplo, no primeiro semestre eu tinha aula segunda, quarta e
sexta à tarde e terça e quinta de manhã, então era difícil achar. Mas assim, nunca foi
um grande empecilho muito grande para mim, porque meu pai me ajuda
financeiramente e eu aproveitava esse tempo pra fazer a iniciação cientifica que eu
estava procurando e, ai, eu tinha essas dificuldade e outra... repete a pergunta.
P: Você como universitário, como... quais sãos as dificuldades que você enfrenta?
E2: Ah, eu acho também como eu nunca tive uma rotina de estudos que sei lá, que
vem comigo desde... que eu não tive essa carga no fundamental nem no médio, eu
tive que... que... adquirir essa habilidade na universidade.
P: Foi complicado aprender a estudar?
E2: Foi um pouco complicado porque eu não tinha uma rotina de pegar e estudar
para uma prova, sabe? Eu sempre fui um bom... não, eu não vou querer me
qualificar, mas sei lá, eu nunca tive nenhum problemas com notas no ensino
fundamental para passar, passei em todos os anos e eu achava que estava tudo
bem. Inclusive, na universidade era outro universo, sabe? Era uma pressão com
provas, com atividades para entregar e eu tive que adquirir essa habilidade e até
agora vem dando certo.
P: E a sua relação com as pessoas? Com os colegas de turma, como é que é?
E2: Minha relação é boa, eu não me sinto diferente dos outros pela situação
financeira. Não me sinto diferente apesar de possuir uma situação financeira
diferente de muitos outros aqui e... mas assim, eu nunca tive nenhum problema, não
sei se é uma característica minha, da minha personalidade, sabe? Eu acho que sou
um pouco comunicativo e não tenho nenhum problema de relação com ninguém e
eu não sei... é isso ai.
P: O que você acha que os professores pensam do ProUni?
E2: (...) pela minha experiência com os professores, eles... muitos deles sabem que
eu sou ProUni e eles nunca foram indiferentes, muitos deles até falam que os alunos
ProUni eles são... muitos deles são mais dedicados, sabe? São mais dedicados e
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conseguem se destacar mais do que os alunos que não são prounistas, por
exemplo, não sabem explicar o porquê, nem eu também, mas eu nunca tive nenhum
problema. A minha relação com os professores é maravilhosa. O que eles pensam
sobre o ProUni é isso ai mesmo, eu acho que eles não diferenciam, um ou outro eu
acho que tem aquela ideia de que “ai, é um pouco injusto com os outros alunos...”,
eu acho que a questão que mais pesa com os professores é que eles não fazem
vestibular, por exemplo.
P: Por quê?
E2: Não sei...
P: Mas por que você comentou isso? Não faz vestibular...
E2: Ah porque é um discurso que eu ouço às vezes de alguns professores, sabe?
P: Como? Você pode me exemplificar...
E2: Assim, assim, por exemplo, numa conversa “os alunos ProUni, não sei o que,
não sei o que...” e ai eles sempre... alguns professores que eu já conversei sobre
isso, eles tocam nesse assunto, né?
P: Ah, de prounistas não prestarem vestibular...
E2: Prounistas não prestam vestibular. E isso é um discurso tanto de... acho que
mais de alunos do que de professores.
P: E o que você acha que os alunos não prounistas pensam do ProUni?
E2: (...) é isso que eu te falei, eles acham que é um pouco injusto o modo como eles
entram na universidade, sem fazer o vestibular e não passar pelas mesmas
situações que eles, ter vagas reservadas para prounista, mas assim... de resto (...)
de resto eu acho que eu nunca tive nenhum problema. Eu acho que não, que não...
que eles não... a única coisa que eu acho que é aquela desvantagem de eles terem
que pagar, pagar esse valor de mensalidade e os prounistas não.
P: E o que você pensa do ProUni?
E2: O que eu penso? Ah, eu penso que é um programa legal que ele tem como
objetivo diminuir a desigualdade.
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P: Por que legal?
E2: É... tá... é um programa interessante, exclui que eu falei legal. É um programa
interessante pela ideia de que o programa tem de diminuir a desigualdade social, da
inclusão de pessoas que não tem condições de pagar uma universidade terem a
oportunidade de estudar. Se eu não tivesse ProUni, eu não estaria numa
universidade boa como essa e é isso, sabe? Eu acho que ele cumpre o que... o
que... o objetivo, sabe? Que é de inclusão mesmo, inclusão social, ele cumpre
porque ele dá o suporte inteiro para o aluno, inteiro. Assim, eu não tenho do que
reclamar, sabe? Nem a burocracia foi tão grande para conseguir, eu acho que ele
cumpre com o seu dever.
P: Se você pudesse definir suas vivências como prounista em uma palavra, qual
seria?
E2: Como que é? Repete.
P: Eu quero que você defina em uma palavra só a sua vivência na universidade
como prounista.
E2: Crescimento.
P: Por quê?
E2: Evolução, quer dizer.
P: Por que evolução?
E2: Não, é que... como... o ProUni foi uma... uma porta de entrada, sabe? Pra um
universo desconhecido, e com isso eu pude me desenvolver aqui dentro, evoluir,
sabe? Tanto intelectualmente como... sabe? Profissionalmente também, e foi graças
ao ProUni, sabe? Com o ProUni eu consegui muitas coisas. Ele foi a porta de
entrada e a partir disso, sabe com aquilo que eu levava, características que eu fui
construindo, intelectualmente, eu fui aprimorando aqui dentro, conhecendo outros
meios de se fazerem determinadas coisas, de crescer profissionalmente e acho que
é isso, evolução.
P: Para finalizar, você já vivenciou algum episódio que fez diferença ser prounista ou
não?
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E2: (...) (suspiro) sou eu, né? (...) fez diferença? (...) não precisa ser comigo?
P: Não.
E2: Oportunidade de intercâmbio, no Ciências Sem Fronteiras eles dão preferencias
para prounistas.
P: Eles dão preferencia para prounistas?
E2: É.
P: Então é um caso de vantagem para prounista?
E2: Mas é um caso de vantagem, mas é assim, também tá dentro daquele, daquilo
que... daquele objetivo do programa que é de inclusão, porque um aluno prounistas,
provavelmente não tem condições de pagar um intercâmbio.
P: Foi assim que você fez intercâmbio?
E2: Foi assim que eu fiz intercâmbio, mas no meu intercâmbio ele tem outro viés,
não é o edital do Ciências Sem Fronteiras. O meu não diz claramente que dá
preferência para prounista, é mais um processo seletivo interno.
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Apêndice E - Transcrição 3: Aluno de Ciências Biológicas cursando a 4ª etapa.
P: Pesquisadora
E3: Entrevistado 3
P: Vamos começar conversando sobre a escola de ensino médio, como é que eram
suas aulas na escola?
E3: Em qual sentido?
P: Como eram... como você via suas aulas...
E3: Ah, era escola pública, então sei lá... era muito básico, básico, básico. Não
tinha... (...) posso comparar com o que eu já tenho noção com hoje?
P: Pode.
E3: Não tinha nada do que ia cair no vestibular, assim, era... se fosse só pela escola
pública, o ensino médio se forma sem conteúdo necessário.
P: Mas você acha que isso é por que é na escola pública ou nas escolas de ensino
médio em geral?
E3: Pode haver outras escolas particulares assim também, as nas públicas eu acho
que é mais universal.
P: E na escola quais disciplinas você mais gostava?
E3: Oi?
P: Na escola, qual disciplina você mais gostava?
E3: Bio e literatura.
P: Por quê?
E3: Porque os professores eram “fodas” (risos). Ah, bio... porque bio, eu sempre
gostei mesmo.
P: Desde pequeno... Como é que você fazia para estudar na escola?
E3: Não estudava.
P: De maneira nenhuma?
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E3: Quem estudava na escola? (risos) Só quando tinha prova, e lá eram coisas
fáceis, então nunca tive problema com nota.
P: O que você considera fácil?
E3: Vai de aptidão da pessoa, né? Eu pegava a matéria um dia antes e estava tudo
de boa, estava tudo ok, tinha gente que não.
P: Como é que era a sua relação com seus colegas de classe?
E3: (...) depende, separado, um grupo mais próximo e ai sala desunida.
P: Por que você achava a sala desunida? Ninguém se falava?
E3: Falava, mas ela dividida, né? Cada um com o grupinho.
P: E como é que foi o processo de escolha para sua profissão?
E3: Desde pequeno eu gostava de alguma coisa com ciências, mas eu comecei a
gostar mais depois do ensino médio, com o professor do ensino médio porque ele
dava aula de verdade, dava algo mais... mais... a sério.
P: O que você considera aula de verdade?
E3: (...) poxa, que pergunta de licenciatura. Ah, ele passava matéria mesmo, não
era... não seguia aquelas apostilas e só... deixava por cima...
P: Você tá dizendo o jeito de explicar dele...
E3: É... não sei se eu posso falar didática, não posso falar didática, né?
P: Se você quiser... você pode falar o que você quiser.
E3: Ele dava aula... os outros professores, é, não.
P: Tá, então como é que era a aula dos outros professores para você considerar que
a aula dele era de verdade?
E3: Supérfluo, basal demais.
P: Os professores explicavam...
E3: Não.
64
P: O que eles faziam? Ficavam sentados?
E3: Abre a apostila, lê e responde os exercícios, a grande maioria das coisas o
aluno, pelo menos para mim, ele não absorve, eu não absorvia.
P: Como é que você tomou conhecimento do ProUni?
E3: No cursinho e com outros amigos que já estudavam no ensino médio e já tinham
conseguido, tinham entrado na universidade pelo ProUni.
P: E por que você escolheu essa Universidade?
E3: Por causa do curso, ah... por conversar com o pessoal, pesquisar e ver que o
porte da Universidade para o curso era bom.
P: E você poderia me relatar como é que foi o seu primeiro contato com a
universidade?
E3: (risos).
P: Seu primeiro contato, como você conheceu...
E3: Com a Universidade? Foi com uma amiga, que estava no primeiro ano de
biologia aqui, enquanto eu estava no cursinho.
P: E seu primeiro dia de aula?
E3: Horrível! (risos)
P: Por quê? Me conta.
E3: Porque foi um mês e meio de atraso, faltava uma semana para as provas
começarem e uma das professoras, que é a Professora A... a primeira aula, eu
sempre confundo qual foi primeira aula, foi da Professora A... é... não foi da
Professora A, foi ou da Professora A ou da Professora B, enfim, tanto uma quanto a
outra eu sai sem entender nada, fiquei sem saber o que elas estavam explicando.
P: E você procurou elas depois?
E3: Procurei, a única coisa que fizeram foi me passar o cronograma e bibliografia...
e rezar (risos).
65
P: Você teve que ir atrás sozinho depois?
E3: Sim, mas eu enchia bastante o saco dos professores. Da Professora A mesmo,
eu conversava com ela muito, ela me acompanhava, me mostrava muita coisa. Não
posso dizer que eu não tive apoio, tive sim... muito, mas direcionado a como
conseguir buscar as coisas e sem contar o contato com a amiga que estava já na
biologia e as amigas da amiga (risos).
P: Pensando na sua vida como universitário, quais dificuldades você enfrenta?
E3: Hoje?
P: É, sua vida geral como universitário.
E3: Qual dificuldade...
P: Alguma dificuldade, não precisa ser a dificuldade, pode ser as dificuldades.
E3: (suspiro) financeiro, porque nesse caso não dá tempo de trabalhar, transporte,
mas ai já é um problema pessoal, né? Por morar longe... é, acho que só, porque
dificuldades no curso em si, eu mesmo enfrento.
P: Como é a sua relação com os seus colegas de turma?
E3: A mesma coisa, a sala é muito dividida, tem um grupo mais próximo e os outros
grupos por si só.
P: E esses seus amigos próximos? Como eles são?
E3: (...) Bonitas (risos).
P: (risos) Além disso.
E3: Ah, nerds? Ah, sei lá...
P: E diferentes de você?
E3: Não.
P: Que opinião você acha que os professores têm sobre o ProUni?
66
E3: Que eu já ouvi falar de alguns, é o que bate com a opinião dos próprios
prounistas, de que entram atrasados, muitas das chamadas... É porque o ProUni
tem bastante concorrência, pouca vaga e muito problema com matricula, então é
muito comum, em todas as chamadas, até o último ainda ter gente entrando. Porque
a gente sendo aprovado tem que trazer a documentação blábláblá, um monte de
coisas. Então sempre acontece de entrar gente muito atrasada, mas quanto ao
programa em si tá bom.
P: E o que você acha que os seus colegas não prounistas pensam do ProUni?
E3: (...) hmm... ai... já vi opiniões tanto de aprovação quanto de desaprovação.
Aprovação tipo, nessa mesma linha de raciocínio, pela oportunidade... é... é que eu
não gosto de falar oportunidade, parece descaso, porque parece que tá dando só
porque é pobre e tal, de escola pública não tem muito dinheiro pra pagar, mas sei lá,
pela acessibilidade, pelo o caminho... pela chance.. enfim, não sei qual a melhor
palavra para isso. E desaprovam no sentindo... mas ai eu já acho que é algo elitista,
que já vai de faculdade a faculdade, talvez. Numa faculdade mais elitista, que nem
nessa faculdade, é fácil sim encontrar gente que desaprova o ProUni simplesmente
por ser voltado aos alunos mais pobres.
P: Você ouviu alguma coisa?
E3: Já.
P: Você pode me relatar?
E3: Desse tipo de comentário? Ah, não lembro nada assim... mas comentário do tipo
“ah, eai que é pobre? Teria que disputar da mesma maneira”.
P: E o que você pensa sobre o ProUni?
E3: É um programa assim, justo, eu acho. Só que o problema ainda não é, inteiro ou
não, uma via de acesso mais fácil para a universidade e sim fazer com que a via
padrão se torne mais acessível pela própria educação pública. Foi o que eu te falei,
sai do ensino médio sem noção nenhuma do que vai cair vestibular, quando o
ensino é público, então seria muito mais fácil que para um vestibular de escola
federal... universidade federal publica... o aluno já saísse do ensino médio público
com a conduta que ele fosse precisar pra passar no vestibular e isso não acontece.
67
É preciso de um cursinho antes, sei lá. E além de que... além de não ter essa base
bem estruturada do ensino médio, também não... pelo menos para mim, eu acho
que você tenha muita... muito encaminhamento. Tipo eu, a minha amiga da biologia
e mais um grupo de amigos que também conseguiram universidades boas, eu acho
é mérito de ótimos professores que a gente teve sorte de encontrar no ensino médio
e isso talvez aconteça em outras escolas também, pública.
P: Se você pudesse definir suas vivências como prounista na universidade com uma
palavra, qual seria?
E3: Nossa gente, eu odeio esse tipo de pergunta... nossa odeio esse tipo de
pergunta (risos)...
P: Nenhuma palavra te vem à mente?
E3: Não... não mesmo... não tem como especificar isso (...). Sei lá, pode ser
universitário, sabe? Eu me vejo completamente como universitário a nível de
qualquer outro.
P: Por quê?
E3: Porque pô, eu to aqui na faculdade, eu vou encontrar as mesmas dificuldades
aqui dentro que todo mundo tem quanto à faculdade. E eu posso ter as mesmas
oportunidades que todo mundo pode ter acesso aqui dentro. Nosso curso, por
exemplo, iniciação científica, estágio, intercâmbio... tudo que os outros vão ter de
acessibilidade pra isso, eu também vou ter, com as mesmas dificuldades.
P: E você já vivenciou algum episódio que ser prounista fez diferença?
E3: (...) hmm, acho que já.
P: Você pode me contar?
E3: Se isso se encaixa, sim... ah não, não sei... já! A Professora A disse uma vez
que ela prefere dar muita atenção, não que prefira, não por ela ser mielista, mas ela
gosta de dar atenção aos alunos prounistas porque muitos dos alunos que pagam
entram na faculdade simplesmente por entrar, assim. Acontece muito que o pai
querer que entre, família querer que entre e às vezes acaba entrando todo mundo
em um curso em que não tá muito interessado, então tipo... foi no sentido de que ela
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prefere gastar o esforço, se esforçar mais para apostar em um aluno que ela sabe
que está com interesse. E ela acredita que o aluno prounista que já tem um histórico
a mais de ter ido atrás do curso, ter ido atrás do vestibular, fazer prova e etc, ela
acredita que esse aluno tem um pouco mais de vontade para seguir em aula. No
meu caso, eu falei da Professora A porque foi na época que eu estava começando
um projeto com ela, e ela me falou isso mesmo, que ela gostaria muito de apostar e
tal, se ela conseguisse abrir de novo a iniciação científica por causa disso.
69
Apêndice F - Transcrição 4: Aluno de Farmácia cursando a 7ª etapa.
P: Pesquisadora
E4: Entrevistado 4
P: Vamos começar conversando sobre a escola que você cursou o ensino médio,
como eram as aulas lá?
E4: Ensino Médio? Bom, deixa eu ver... escola do esino médio, estudei em duas
escolas no ensino médio. A primeira escola... mas o que você quer saber? Como
eram as aulas, como é que era a escola?
P: Como eram as aulas mesmo.
E4: Como eram as aulas...
P: Isso!
E4: Bom, naquela época... é que eu tenho uma noção diferente do que eram as
aulas, do que aquelas aulas...
P: Hoje em dia você tem uma noção diferente.
E4: Do que aquelas aulas representavam. Eram péssimas as aulas no geral.
P: Por quê?
E4: Ah, os professores eram péssimos, pela ideia que eu tenho hoje, to falado pela
ideia que eu tenho hoje. Ah... os professores eram péssimos, a gente só copiava
texto e o professor dava ponto positivo. E eu achava o máximo, naquela época,
porque eu não tinha que fazer nada...
P: Você gostava de ganhar só positivo e já era...
E4: Isso, mas tinham alguns professores bons. Na primeira escola que estudei, que
era Douglas Teixeira Monteiro, que uma escola do... que fica na região do Parque
Ipê, era a é pior. E a partir do segundo ano do ensino médio fui para outra escola,
onde que era melhor, só que ainda com professores ruins mas eu encontrei um
professor bom lá, que era o professor de História, que me fez gostar até gostar mais
de História.
P: Então, além de História, quais disciplinas você mais gostava na escola?
70
E4: No ensino médio?
P: É
E4: História e Geografia.
P: Por quê?
E4: Porque eu sempre tive dificuldade com exatas, essa parte de exatas, por não ter
tido uma base boa mesmo. E eram chatas as aulas de extas. O professor
simplesmente chegava na sala e passava um exercício, a gente fazia o exercício ou
copiava do outro que tinha feito e achava que tava certo. E nunca tive um professor
bom de exatas, que fez eu gostar de exatas. Já História, que no segundo ano eu tive
um professor bom, me fez gostar mais de História.
P: Como é que você fazia para estudar? Quais eram as suas estratégias de estudo?
E4: Na verdade eu acho que nunca estudei no ensino médio, estudar de verdade eu
nunca estudei. Eu prestava atenção nas aulas, prestava atenção no que o professor
ia cobrar, o que ia cair na prova. E quando tinha prova, trabalho ou algo do tipo ou
eu copiava de alguém o trabalho, e quando tinha prova, eu lia algum resumo ou
alguma coisa básica, assim.
P: E a sua relação com seus colegas de classe?
E4: Ah, era maravilhosa. Gostava, fiz grandes amigos no ensino médio, mas hoje
em dia estão dispersos.
P: Estão dispersos?
E4: É, eu vejo pouco.
P: E como foi o processo de escolha da sua profissão?
E4: (suspiro) ah, isso foi difícil, meu. Na verdade, depois que sai do ensino médio eu
fiquei meio perdido “o que eu vou fazer da minha vida agora?”. Então depois que eu
sai do ensino médio eu falei “meu, o que vou fazer agora? Vou fazer uma faculdade?
Vou trabalhar? Mas, pô, eu não tenho nenhuma experiência”, ai que eu comecei a
fazer cursinho, que foi onde eu me encontrei e gostei de estudar. E, aí, no cursinho
gostava muito de química e biologia, me identifiquei com essas matérias. E, aí,
71
resolvi primeiro fazer biomedicina. Foi o que eu prestei na Unesp, e passei na Unesp
em biomedicina, só que eu tinha feito o Enem. E, aí, acabei não gostando de ficar na
Unesp em Botucatu, biomedicina, fiquei um mês lá e acabei voltando. E me inscrevi
no Sisu [Sistema de Seleção Unificada] nessa Universidade, Farmácia.
P: E como é que você tomou conhecimento do ProUni?
E4: Ah, então, o ProUni... quando eu estava no ensino médio não sei se existia
ProUni, não sei qual foi o ano da criação do ProUni. Só que não tinha conhecimento
nenhum, os professores não passavam o que era ProUni. Uma coisa que falta
também no ensino médio, em escola pública no geral, uma maior divulgação do que
é um vestibular, o que é uma universidade, o que é fazer uma graduação. E depois
que eu sai de lá prestei vários vestibulares: Fuvest, Unesp, UFSCar... e, ai, eu sai e
fiquei sabendo que tinha a chance de fazer o ProUni porque estudei em escola
publica e tinha tirado uma nota boa também e tinha o Sistema Sisu, que é a
classificatória.
P: E por que você escolheu essa Universidade?
E4: Ah, porque é uma boa universidade, acima de tudo. Apesar do curso de
farmácia ser novo, aqui, mas comparado as outras universidades que tem em São
Paulo, em termos de Farmácia, essa Universidade uma das melhores. E como eu
não tinha passado na USP, e o curso de Farmácia da USP é muito bom...
P: Você pesquisou antes?
E4: Pesquisei e resolvi fazer Farmácia nessa Universidade e hoje estou satisfeito.
P: Você pode me relatar como foi o seu primeiro contato com a Universidade?
E4: Meu primeiro contato, bom... O primeiro contato, pô, quando eu cheguei na
Universidade, já cheguei com um mês e meio de atraso, devido a ter passado na
Unesp, ter ficado um mês lá e só depois eu ter entrado aqui. Então quando eu
cheguei na Universidade já tinha um mês e meio de aula, então eu estava
totalmente perdido, porque no começo da universidade... as pessoas novas fazem
um passeio pelo campus, então eu cheguei bem perdido na Universidade mesmo,
mas...
72
P: Você não teve isso aqui, de passear pelo campus...
E4: Não, eu não tive um passeio pelo campus, não ganhei minha bíblia, não ganhei
a mochila da Universidade. Fiquei bem perdido, mas as pessoas me ajudaram
bastante. A impressão foi de dificuldade por ter chegado no meio das aulas e ter
pegado o bonde andando, mas impressão da Universidade foi boa.
P: E como foi o seu primeiro dia de aula?
E4: Ah, meu primeiro dia de aula foi terrível. Porque eu estava perdido na
Universidade, conhecia poucas pessoas aqui. E as pessoas que eu conhecia não
faziam o curso que eu ia fazer. Eu não sabia onde era a biblioteca, não sabia onde
era o DA [Diretório Acadêmico]. Eu cheguei numa aula de laboratório de Biologia
Celular, só que eu cheguei na aula e não tinha o jaleco. E, ai, a professora falou
assim “você não pode assistir a aula sem o jaleco” e eu falei “ah, professora, o que
eu tenho que fazer então pra conseguir o jaleco? Tô sem jaleco, não vou comprar
um jaleco agora, né?” então ela falou: “não, então você pede pro técnico” “e onde
que fica o técnico? Onde que tem esse técnico?”. E, aí, eu cheguei no técnico e falei
“ow, você pode me emprestar um jaleco? Eu não posso assistir a aula sem um
jaleco” e ele disse “não, tem que buscar no DA” e eu falei: “meu, no DA?” e ele me
respondeu “é, no DA...” “mas onde é que fica o DA?”. Ele me perguntou que curso
eu fazia, ele me disse que o DA ficava em tal rua, hoje é fácil saber onde fica tal rua,
mas naquela época ele me falou que ficava nessa rua e que eu tinha que buscar um
jaleco lá. Acabei demorando uma hora, uma hora e meia para achar o DA, quando
me emprestaram o jaleco a aula já tinha terminado.
P: (risos) pensando na sua vida como universitário, quais dificuldades você
enfrente?
E4: Como universitário?
P: É.
E4: (suspiro) bom, essa é difícil. Têm vários problemas, eu acho que o curso de
Farmácia é integral da Universidade tem alguns problemas que é... que eu vejo, por
o curso ser integral, você não consegue trabalhar. Você não consegue trabalhar e
você acaba não tendo a experiência de estágio fora da Universidade. Então, é o que
73
o pessoal da noite já acaba tendo, porque só o período da noite, eles acabam
fazendo... o período da tarde trabalhando. E isso é uma coisa que formado é melhor
para o pessoal da noite, porque eles já estão implantados no mercado de trabalho. E
a gente tem que buscar isso ainda, o pessoal do integral. Em termos de desgaste
psicológico pela quantidade de matéria, pela quantidade de prova, principalmente
esse sétimo semestre. Porque eu entrei numa turma... minha turma é do ENADE
[Exame Nacional de Desempenho de Estudantes], então é uma turma que vai ser a
primeira nota da Universidade de Farmácia, vai ser a minha turma. Então, todos os
professores pressionam a turma, cobram do aluno que tem que tirar nota boa. A
gente sabe que tem que tirar nota boa.
P: E o que você acha disso? Dessa cobrança?
E4: Eu acho que a Universidade, esse semestre principalmente, ele não confiou nos
alunos que eles têm. Porque eu acho que é importante você tirar uma nota boa no
ENADE. Pro aluno é importante que a Universidade vá bem no quesito... na
avaliação do ENADE, é bom para o curso, é bom para a universidade. Mas o
exemplo que eu vou te dar, a gente fazia uma prova interdisciplinar no sétimo
semestre que valia dez por cento da nota. Só que, o que aconteceu esse semestre,
aumentaram essa nota para vinte por cento. Para que? Pra que os alunos estudem
mais e acabem tirando uma nota melhor, mas isso foi o que... o que a Universidade
falou é que só aumentou 20%, que não tinha nada a ver com o ENADE, só que os
alunos não são burros. Os 20%, eles fizeram isso para obrigar que o aluno estude
mais e consequentemente possa ir melhor no ENADE. Só que é um erro que eu vejo
na faculdade a PAFE [Prova de Avaliação Final Escrita] vale cinquenta por cento, a
metade da nota do curso, sendo que é uma prova.
P: Você acha que isso influência? Como você é prounista, a PAFE valer 50% muda
alguma coisa em relação aos outros alunos?
E4: Eu acho que... eu acho que muda... eu acho que o aluno prounista, o que eu
percebo do aluno prounista... O aluno prounista, ele estuda mais, pelas pessoas que
eu conheço. O aluno prounista estuda mais por também ter o critério do ProUni de
você poder pegar duas ou três DPs por semestre, você tem que ter setenta por
cento de aprovação. Então eu acho que o aluno do ProUni estuda mais, só que o
critério de avaliação da faculdade pra mim que está errado. Porque você estuda
74
durante um semestre, você tem as matérias durante um semestre, só que nota vale
cinquenta por cento só da sua nota final, o que você fez durante todo o semestre.
Sendo que você tem duas semanas de provas PAFE, que você tem uma prova atrás
da outra, que valem cinquenta por cento da sua nota. Se você não estiver bem
nesse dia, se tirar um dois, um três na PAFE não adiantou nada o que você fez no
semestre. E em relação ao prounista, eu acho que... eu não vejo que vai prejudicar o
prounista, esse 50%, porque o prounista estuda mais e eu não conheço muitas
pessoas prounistas que pegam DP, por exemplo, as pessoas que eu conheço, são
pessoas que sempre mandam bem.
P: Agora mudando de assunto, como é a sua relação com seus atuais colegas de
classe?
E4: Meus atuais colegas de classe? Eu acho que é muito diferente do ensino médio.
P: Por quê?
E4: Eu acho que... eu vejo grupos na faculdade, principalmente, nas... eu posso falar
da Farmácia. Pessoas que não conversam durante o semestre, entre eles, os
grupos não conversam, só que chega durante o período de provas todo mundo vira
amiguinho. E, aí, rola aquela interação durante as provas só que depois muda. Uma
coisa que até não gosto, que eu vejo nas aulas... é... sempre que você vai fazer um
trabalho, faz com o mesmo grupo. Sempre com as mesmas pessoas, professor: “ah,
faz um grupo de cinco pessoas”, sempre as mesmas pessoas. Não existe uma
interação entre a sala, mas em relação à amizade fiz bastante amigos, durante o
curso de Farmácia. Por eu ter feito intercâmbio a minha sala original está um
semestre à frente e esta sala que estou é anterior a que eu estava, me acolheu bem
e eu vejo essa melhor que a minha anterior.
P: Você falou que tem sempre os mesmos grupinhos, como é o seu grupinho?
E4: Então, eu tenho esse grupo por falta de opção. Porque você precisa ter um
grupo formado, porque os outros grupos estarem formados. Uma das melhores
coisas que já aconteceu na Universidade, que eu gostei, foi um professor... é... pediu
para cada um aluno fizesse um grupo da sala. E ele me escolheu para fazer o grupo
da sala. Então, eu peguei uma pessoa...
75
P: Você pegou uma pessoa de um grupo...
E4: Não é querendo criar intriga, mas eu peguei uma pessoa que era de um grupo
coloquei com pessoas de outro grupo e acabou dando um trabalho interessante,
modo de pensar interessante.
P: É... seus amigos são prounistas?
E4: Da minha sala ou da Universidade?
P: Em geral.
E4: Sim... tenho bastante amigos prounistas, tenho... quer ver... acho que uns seis
ou sete amigos na Universidade, prounistas, tem um que eu fiz intercâmbio, que é
Colega A.
P: Mas você não tem só amigos prounistas?
E4: Não, não... tenho diversos amigos.
P: Qual é a sua opinião... é... o que você acha que os professores tem de opinião
sobre o ProUni?
E4: Os professores tem de opinião sobre o ProUni? (...) Ah... não sei. Os
professores tem de opinião sobre o ProUni... Em termos de aluno, você fala?
P: Sim.
E4: Então, eu acho que o professor tem a percepção que o aluno prounista estuda
mais, mas não sei se o aluno prounista devido ele também ter uma, ter tido uma...
dificuldade maior de entrar numa universidade, talvez por ter feito uma escola
pública. Ter uma... não todos, não no geral, mas ter um déficit de educação mesmo.
E ele procurar se esforçar mais, eu acho que alguns professores tem essa
percepção de que o aluno prounista estuda mais e é mais dedicado.
P: E os colegas não prounistas, como você acha que eles vêm o ProUni?
E4: Bom, eu acho que... eu não vi até agora um preconceito na Universidade, de um
aluno ser prounista. Eu só não gosto quando a pessoa chega pra você e sei lá, você
tá em determinada situação e: “ah, esse aluno ProUni”, como se fosse diferente do
76
outro. Não, somos todos universitários, estudantes e eu fiz uma prova de vestibular
igual os outros para passar na universidade. Se eles fizeram a prova especifica da
Universidade, eu fiz a do ENEM. Tive que obter uma pontuação boa para entrar em
uma universidade. E eu acho que os alunos não tem um preconceito por prounistas,
pelo menos eu não vi isso ainda na Universidade.
P: E o que você pensa sobre o ProUni?
E4: Ah, eu acho que é um programa muito bom, eu acho que é um programa ótimo.
Porque dá a oportunidade para aqueles alunos de escola publica ter... ter... fazer
uma universidade com bolsa cem por cento. Sendo que, eu acho que precisa
melhorar é a questão do vestibular, que é o Enem, que o processo pra você ganhar
uma bolsa no ProUni. Eu acho que aí que tá precisando melhorar, a prova ser
melhor... a prova ser melhor e alguns critérios também, como a quantidade de
bolsas que o ProUni disponibiliza pra algumas universidades. Que nem, pra
Farmácia. Para a Farmácia, se eu não me engano, abriram quando eu entrei, três ou
quatro vagas para bolsas do ProUni. Eu acho que deveriam abranger mais, mas não
sei se é um critério da Universidade.
P: Entendi. E se você pudesse definir a suas vivências como prounista em uma
palavra, qual seria?
E4: Em uma palavra?
P: É.
E4: Ah... (...) Satisfatório.
P: Por quê?
E4: Ah, porque como prounista, eu tive... é que é uma cadeia, né? Foi uma cadeia.
Eu ter entrado nessa Universidade depois de ter passado por outra universidade,
que era publica, e o ProUni me possibilitou fazer intercâmbio, querendo ou não. Ter
tido a oportunidade de fazer intercâmbio. Então eu sou totalmente satisfeito por ter
essa bolsa e ser prounista.
P: Você já vivenciou algum episódio em que ser prounista fez diferença?
E4: Não.
77
P: Nenhum?
E4: Nenhum episódio? Episódio que prounista fez diferença...
P: Se você ser prounista fez diferença...
E4: (...) não... não que eu lembre.
Estou ciente do conteúdo do Trabalho de Conclusão de Curso “OS DESAFIOS DE
SER PROUNISTA”
Profa. Dra. Rosana dos Santos Jordão – Universidade Presbiteriana Mackenzie
Angelica Ramalho da Silva – Código de Matrícula: 3118746-3
Trabalho a ser apresentado em Dezembro de 2013.
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Os Desafios De Ser Prounista