Frederico Barbosa: “Quanto mais lemos,
mais vivemos”
Nascido em Recife, em 1961, Frederico Tavares Bastos Barbosa
migrou para São Paulo, como a maioria dos nordestinos, passou
pelos Estados Unidos, mas foi na capital paulista que tornou-se
uma referência entre o que se produz de melhor na poesia brasileira
contemporânea hoje. Não poderia ser diferente para o filho do
professor e crítico literário, João Alexandre Barbosa, e da
professora e crítica de arte, Ana Mae Barbosa. Lidar com a
linguagem artística, é algo inerente ao talento de Frederico
Barbosa, que está lançando neste mês de junho “Na Lata” (Editora
Iluminuras), livro que reúne toda sua produção poética espalhada
em oito livros, revistas, jornais e site diversos, desde 1978 até os
dias atuais.
Frederico Barbosa reconhece que sua poesia é recheada de
reminiscências e influências literárias, como afirma a crítica Leyla
Perrone-Moisés. “Eu diria até que a vida não se compõe apenas do
que vivemos, mas também do que lemos. Creio que toda existência
se confunde também com a ficção que a pessoa consumiu. É por
isso que ler é tão importante: quanto mais lemos, mais vivemos”,
filosofa. Barbosa defende que a poesia deve causar o maior
impacto possível no leitor e que só os ingênuos ou mal
intencionados acreditam que criaram algo de novo na
contemporaneidade. Otimista quanto ao futuro, em termos de
qualidade poética, Frederico - que à frente da Casa das Rosas, em
São Paulo, abre espaço para todas as tendências literárias - afirma
que não se pode rasurar ou ignorar tudo o que foi introduzido pela
poesia concreta na poesia brasileira.
REPORTERPB - Depois de 35 anos de poesia, você está
lançando sua obra poética reunida num único livro. O que
realmente cabe em “Na Lata”, obra que está saindo pela
Iluminuras?
Frederico Barbosa: Estão reunidos “Na Lata” todos os poemas que
publiquei em meus oito livros anteriores, acrescidos de poemas
publicados em revistas, jornais e sites diversos. Em suma, toda a
poesia que escrevi entre 1978 e 2013, com exceção de alguns
poemas circunstanciais e satíricos recentes que reservei para um
livro novo que estou escrevendo intitulado “Fábrica de Carapuças”,
que pretendo lançar em breve.
Como está dividida a obra?
Toda “obra completa” que eu conheço apresenta, um a um, os livros
do autor de forma cronológica, mesmo quando invertida, como nas
compilações originais de João Cabral de Melo Neto. Mas como
tenho poemas espalhados por todos os meios, não
necessariamente recolhidos nos meus oito livros, optei por retirar
todos os poemas de seus livros originais, reuni-los “na lata” e
organizá-los de novo, agrupando-os seja por método de
composição, seja por proximidade temática. Assim, reorganizei-os
em nove seções diferentes. Cabe ao leitor descobrir os critérios por
trás de cada uma delas.
Leyla Perrone-Moisés vê dois círculos na sua poesia, o
primeiro traçado nas areias de Boa Viagem e o segundo na
biblioteca paterna. Por essa ótica, seria correto afirmar ser sua
poesia recheada de reminiscências e influências literárias?
Sim, mas qual não é? Eu diria até que a vida não se compõe
apenas do que vivemos, mas também do que lemos. Creio que toda
existência se confunde também com a ficção que a pessoa
consumiu. É por isso que ler é tão importante: quanto mais lemos,
mais vivemos. Na palavra memória cabem tanto “reminiscências”
pessoais quanto “influências literárias”. Acho que qualquer poesia é
resultado do atrito entre memória e desejo. A leitura da Leyla, uma
das maiores críticas literárias que este país já teve, me ensinou
bastante sobre minha própria poesia. Confesso que esta questão
dos círculos foi uma surpresa e tanto. Um belo presente.
Você tem uma poesia carregada de imagens belíssimas, mas
também objetiva em suas mensagens, como em “Poesia e
Porrada”. Na lata seria uma espécie de definição para “sem
meias-palavras” que sua poesia expressa em muitos versos?
Sem dúvida. Creio que a poesia deve causar o maior impacto
possível no leitor. Assim, tudo na poesia tem que ser muito
trabalhado para que este efeito se dê na leitura, na mente do leitor.
Um verso que fica na memória do leitor é uma vitória do poeta.
Como escrevi há mais de vinte anos, “no poema / não há termo
meio, / meio-amor, meia-palavra.”
O erotismo é um ponto muito forte em sua poesia, não é à toa
que poemas sobre o tema abrem o livro. Como fazer poemas
eróticos sem correr o risco de cair na vulgaridade?
Cair ou não na vulgaridade não me preocupa nem um pouco. O
conceito de vulgaridade depende do leitor. Preocupa-me escrever
sobre questões universais e atemporais, como o amor e o sexo com
intensidade e alguma originalidade. Para isto, escrevo sobre estas
questões com bastante atenção ao meu tempo.
Poesia de lugares também, como aponta o segundo capítulo.
Que viagens poéticas esse pernambucano-paulistano se
permitiu? Literariamente, sua poesia está mais para as
vanguardas paulistas ou para o regionalismo pernambucano?
Toda viagem é poética. Minhas viagens, principalmente pelo Brasil,
foram motivo constante de poemas. Acima de tudo, escrevi sobre
as minhas duas cidades, o Recife, onde nasci, e São Paulo, onde
vivo há quase cinquenta anos. Escrever sobre a sua cidade não é
regionalismo. Os escritores ditos regionalistas, como Graciliano
Ramos e José Lins do Rego, ou o grande poeta pernambucano
Ascenso Ferreira, são grandes não por serem regionalistas, mas
por serem universais. Voltar-se para a sua realidade é condição
essencial para qualquer escritor, que só se torna grande se
consegue transcender esta especificidade, transformando o que é
regional em algo universal. Minha poesia está diretamente ligada às
vanguardas paulistas sim, mas não ignora os escritores
fundamentais da minha terra: Ascenso, João Cabral, Carlos Penna
Filho, Jomard Muniz de Britto, Delmo Montenegro, etc.
Particularmente, vejo muito de Oswald de Andrade em sua
poesia, com o gosto pela paródia e pela ironia. Que influências
você incorpora no seu fazer poético?
Todas! Nada se cria, tudo se transforma. Só os ingênuos ou mal
intencionados acreditam que criaram algo de novo na
contemporaneidade. É importante demais conhecer a literatura do
passado, para não repetir ingenuamente. Mas nem sempre nossas
influências são tão conscientes. Leitores inteligentes nos ensinam
muito sobre nossa própria obra. O poeta e crítico Delmo
Montenegro certa feita me disse que, embora eu professe sempre a
maior admiração por João Cabral de Melo Neto, ele via mais
influência na minha poesia de Manuel Bandeira do que do autor de
Museu de Tudo. Fiquei perplexo... e ainda reflito sobre isso. Será?
O poeta escreve para não ser entendido por si mesmo?
Este poema a que você se refere tem mais de trinta anos... e nele,
abstraída a organização gráfica peculiar, lê-se o seguinte: “Escrevo
para não ser entendido por mim: todo poema que se entenda:
mesmo meu: é redução do problema: escrevo para não ser mesmo
meu problema entenda:” Ou seja, em outras palavras, quem tem
que entender é o leitor. Este poema partiu do verso de Fernando
Pessoa: “Sentir? Sinta quem lê!” Além de sentir, transfiro para o
leitor a missão de entender o poema. Fazendo eco, também às
palavras de Mallarmé: “Nomear um objeto equivale a suprimir os
três quartos de prazer da poesia, que é feito de adivinhar pouco a
pouco: sugeri-lo, eis o sonho.”
Em tempos de poesia minimalista, você pratica uma poética
também de versos longos, como em “Certa Biblioteca Pessoal,
1991”. Qual estilo mais lhe provoca: poesia minimalista ou
poemas longos?
O tamanho pouco importa. O que interessa é a densidade. Não digo
“dificuldade”, mas densidade, intensidade, capacidade de provocar
impacto. É claro que isto é mais difícil atingir se o poema é longo...
mas o poema pequeno também pode ser vazio.
Um dos capítulos do livro mostra poemas homenageando
cantores e canções. Como a música toca em sua poesia?
A música toca toda a minha vida. Um dos poemas do livro, “Rua da
Moeda – Tapa na cara dos reaças” é uma defesa do rock n’roll
contra os reacionários puristas do Brasil. A seção a que você se
refere, “Lírica Paralela”, reúne poemas escritos a partir de canções
do jazz. Sou apaixonado pela música de Duke Ellington, Ella
Fitzgerald, Billie Holiday, Charlie Parker, Thelonious Monk, etc. A
partir de canções destes e outros heróis, fiz poemas que deveriam
ser lidos ao som destas canções. Coloquei no meu blog
(http://fredericobarbosa.wordpress.com/category/musica/
)
os
poemas acompanhado das canções que os inspiraram.
Já desistiu de “desexistir”?
Desexistir não é opção, é um hábito. Nada agradável, por sinal.
Como você vê o cenário poético contemporâneo no Brasil,
você que foi um dos organizadores de “Poesia de Invenção”,
coletânea que reuniu poetas inventivos de todo o país?
Este país melhorou muito desde 1989, quando retomamos a
democracia. Assim, milhões de pessoas começam a ter acesso a
aspectos da cultura que lhes eram distantes. A poesia vem, neste
contexto, se popularizando muito. Aparecem poetas em todos os
cantos, de todas as classes sociais, de todas as formações. É claro
que, ao mesmo tempo em que o conhecimento se democratiza,
ocorre também um processo de massificação e um certo
rebaixamento da exigência e mesmo da qualidade. Mas é uma
questão passageira. Vejo com muito otimismo a possibilidade de
termos cada vez mais leitores de poesia no Brasil, que também vão,
aos poucos, se tornando mais sofisticados, complexos e exigentes.
O futuro me parece muito promissor: quantidade e qualidade.
Você acredita que o legado concretista ainda esteja forte no
país?
O termo “legado” me parece muito discutível. A poesia concreta
revolucionou totalmente a poesia brasileira. Não creio que se possa
fazer nada de interessante em poesia, depois de 1956, sem levar
em conta as inovações da poesia concreta. O que não quer dizer
que só se possa fazer poesia concreta, ou mesmo que se deva
fazê-lo. Quer dizer que não se pode rasurar ou ignorar tudo o que
foi introduzido pela poesia concreta na poesia brasileira. Chamo de
Poesia Pós-Concreta aquela em que se percebe que houve a
poesia concreta, embora não seja mais concreta. Ou seja, a poesia
que leva adiante e desenvolve para outros caminhos as propostas
dos poetas concretos. Isso é o que interessa.
A direção da Casa das Rosas, com você à frente, tem
promovido eventos que são referências em todo o país. Como
você vê as políticas culturais existentes no país hoje?
Trabalhar com cultura neste país é muito complicado. Com literatura
mais ainda, com poesia nem se fale. Uma das características
principais da Casa das Rosas é sua abertura e pluralidade.
Ninguém pode dizer que não foi convidado a participar de algo na
Casa das Rosas. Desde poetas como Ferreira Gullar e Augusto de
Campos, Affonso Romano de Santanna e Chico Alvim, aos mais
ilustres desconhecidos, todo mundo já foi convidado a participar.
Este é o grande segredo: a democrática participação de todos.
Mesmo os mais ferozes críticos da Casa das Rosas já lançaram
livros ou participaram de saraus lá ou foram convidados a participar
de eventos e conversar. Alguns, veja só, simplesmente se
recusaram a participar apenas para dizer que a Casa das Rosas
não abriga a todos. Seria cômico se não fosse trágico. E vamos
levando.
TRÊS POEMAS DE FREDERICO BARBOSA
Desexistir
Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.
Desexistir
já era um hábito.
Já disparara
a auto-bala:
cobra cega se comendo
como quem cava
a própria vala.
Já me queimara.
Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.
Quando eu desisti
não tinha volta.
Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata.
Vocação do Recife
para Jomard Muniz de Britto
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife
Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.
Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.
Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.
Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.
Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.
Bandeira
sutil na preterição sim.
Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.
Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.
Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.
Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.
Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.
Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.
Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.
Recife sim
que se revolta
vivo.
Faca clara
que ainda fala
não.
All or Nothing at All
Tudo ou todo nada,
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.
De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.
Nada feito nada,
no poema
não há termo meio,
meio-amor, meia-palavra.
Do sem
sentido intenso
se faz
um tudo atento,
feito a palavra
em
cantada,
nada
feito
nada.
(Entrevista publicada no REPORTERPB, em 04.06.2013)
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