INTRODUÇÃO
Os projetos, programas, campanhas e outras propostas para desenvolver ações voltadas à educação no
trânsito no Brasil, surgiram a partir da implementação do primeiro Código de Trânsito Brasileiro (Decreto Lei
n. 3651, de 25 de setembro de 1941).
Desde então, o Brasil – especialmente por meio dos órgãos executivos de trânsito – não parou mais de
produzir materiais educativos na área. De 1950 a 1980, foram elaborados manuais, cartilhas, fitas cassete,
slides e até discos de vinil... O conteúdo? Obediência e reconhecimento ao policial de trânsito, punições para
o descumprimento das leis, regras e mais regras de trânsito. Na verdade, esses materiais não poderiam ser
diferentes, pois refletiam a ideologia política da época.
(...) O homem sofre para conhecer, como a criança é castigada para aprender. Nunca será, com efeito,
mal empregado um puxão de orelhas como corretivo para as travessuras de um menino endiabrado. (...)
Se a criança se submete ao império da força que pune, também o adulto aceita com submissão a ação
repressora do Estado. (...)Tudo isso vem a propósito dos ciclistas, as crianças grandes do tráfego. (...)
Mas de todas as faltas, a mais grave, sem dúvida, é esse hábito inveterado que eles têm de circular nos
passeios. (...) Para acabar com esse abuso só há um remédio: multas elevadas. Não há outro jeito, não;
perder dinheiro é o que dói. Só o temor desses bárbaros pelo prejuízo a que ficassem, assim, sujeitos,
poderia por fim a isso.
PEQUENO, Waldemar. Campanha educativa de trânsito (palestras). Belo Horizonte, 1955.
Dos anos 1990 aos dias atuais, os avanços tecnológicos possibilitaram a elaboração de outros recursos: os
slides foram substituídos pelos vídeos; os discos de vinil, por CDs e CD-Roms. Hoje, é possível encontrar uma
enorme variedade de recursos educativos de trânsito. Os manuais e as cartilhas resistiram ao tempo, mas de
resto: quanto mais moderno, melhor. O conteúdo, por outro lado...
Será que o conteúdo desses materiais reflete os valores democráticos que precisam ser trazidos à luz,
debatidos e ensinados num país em democratização? Atende às expectativas e às necessidades das pessoas?
Educa – realmente – para a construção de um trânsito melhor?
São muitas as perguntas. Porém, não é necessário respondê-las agora. As respostas, provavelmente, virão
no decorrer deste curso.
Conteúdos
• O objetivo da primeira unidade – Ética, Cidadania e Trânsito – é refletir sobre o conceito de trânsito.
Compreender que qualquer ação educativa de trânsito deve ter como caminho obrigatório a construção
da cidadania e que a boa educação no trânsito transcende o mero conhecimento das leis, das regras, da
sinalização.
• A segunda unidade – Educação de Trânsito nas Escolas – trará informações sobre a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil (RCNEI), os
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio (PCN). Estudando a
natureza destes documentos, os participantes terão mais segurança e fundamentação ao propor ações
educativas de trânsito às escolas.
• A terceira unidade – Recursos Educativos de Trânsito – demonstrará como a forma de
apresentar as informações tem influência em sua aceitação. Outras questões fundamentais à
análise e à elaboração de recursos educativos de qualidade também serão discutidas.
• Na quarta unidade – Projetos para a Educação de Trânsito – os participantes aprenderão que
suas idéias podem (e devem) ser transformadas em realidade a partir do esforço conjunto da
equipe de educação de trânsito. E, para que isso aconteça, esta unidade mostrará – passo a passo
– todas as etapas que envolvem um projeto (da concepção ao encerramento), trazendo diversos
exemplos para enriquecer o conhecimento.
Ao final deste curso, os participantes serão capazes de:
• lançar um novo olhar ao tema trânsito;
• reconhecer que a ética e a cidadania devem nortear qualquer ação educativa de trânsito;
• implementar ações educativas de trânsito nas escolas de ensino regular, respeitando a legislação
educacional vigente;
• avaliar a qualidade de recursos educativos de trânsito;
• elaborar recursos educativos de trânsito;
• elaborar projetos capazes de atender às necessidades e às expectativas das pessoas.
É importante estudar as lições na seqüência em que estão apresentadas. Isto porque um assunto puxa
o outro e, talvez, seja difícil compreender o conteúdo de uma unidade se não tiver lido a anterior.
Bom estudo!
ÉTICA, CIDADANIA E TRÂNSITO
1. ÉTICA
O trânsito é um campo fértil para se discutir a vida em sociedade.
Diariamente os espaços urbanos reproduzem cenas que, de tão comuns,
já se tornaram familiares à grande maioria das pessoas. O curioso é que
as cenas se repetem, mas as questões que tais cenas suscitam raramente
são levadas em conta.
Imagine-se, por exemplo, que uma pessoa em seu automóvel,
depois de esperar pacientemente por um lugar em um estacionamento,
contando os minutos no relógio para não chegar atrasada ao seu
compromisso, se depara com uma vaga para estacionar. Cuidadosa e
atenta, sinaliza e faz menção de ocupar a vaga. Então, de uma hora
para outra, eis que surge alguém que corta sua trajetória e ocupa o
lugar.
Este tipo de situação, via de regra, envolve temperamentos
naturalmente tensos ou estressados. As chances de um conflito são
grandes e as conseqüências, bastante previsíveis. Mas considere-se que
este exemplo siga por um caminho mais civilizado. A pessoa cuja vaga
acabou de ser tomada é bem-educada e tranqüila, embora ninguém
possa lhe pedir controle total dos nervos. Ela vai reclamar, buzinar,
fazer todos os gestos possíveis e imagináveis. Inútil. Como se não
tivesse nada a ver com a história, quem ocupou a vaga tranca o carro
e, com toda a tranqüilidade, vai fazer suas compras.
• Quem
está certo?
• Quem
tomou a atitude correta?
• Com
base em quais critérios pode-se chegar a uma conclusão?
• Afinal,
Pauta de julgamento;
modo de apreciar as
coisas.
o que é certo e o que é errado?
Certo ou errado; bom ou mau; bem ou mal; bonito ou feio. Quando
se qualifica um comportamento (seja ele qual for), tem-se em vista um
critério definido no espaço da moralidade.
Originariamente a palavra moral vem do latim mos/mores,
que significa costume. E, em geral, essas três palavras – costume,
norma, lei – se entrecruzam. (...)
Antigamente, quando ainda se trafegava com carros de bois
pelas cidades, alguém iniciou o costume de usar sebo nos eixos
para neutralizar o ruído estridente das rodas. Com o tempo, o
que era costume de um ou mais puxadores de bois passou a
virar norma (não obrigatória) para a maioria. Entendiam, para
o bem da comunidade, a pertinência dessa prática. Ainda com o
passar do tempo, quem não lubrificava os carros para trafegar em
Que é apropriado.
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Conforme a ordem,
graduação.
silêncio pela cidade começou a receber, com certeza, reclamações
dos moradores. Conclusão: Ainda hoje, no Fórum de Bragança
Paulista, está em vigor uma lei que obriga os puxadores de
carros de bois a untar os eixos com sebo, a fim de não perturbar
o silêncio da comunidade. Dessa forma, por várias décadas, o
descumprimento daquilo que foi acordado juridicamente entre
os indivíduos e a comunidade implicava sanções. Uma sanção
é sempre a recompensa ou castigo em face de um pedido, uma
advertência ou uma lei. No caso do descumprimento da lei, ela é
punição (não apenas de “efeito moral”, como o castigo); punição
legalizada. Assim, na ordem hierárquica, um costume pode vir a
ser uma norma e uma norma virar lei.
Mas nem sempre uma norma ou regra precisa virar lei.
Exemplo: “Não pise na grama da praça”. Ou um costume precisa
virar norma.
PEREIRA, Otaviano. O que é moral. São Paulo: Brasiliense, 1998.
É no espaço da moralidade que comportamentos são aprovados
ou reprovados. A grande maioria das pessoas acredita que, ao agir
corretamente (de acordo com as normas impostas pela sociedade) tem
maiores possibilidades de aceitação social.
Numa determinada sociedade, a moral indica o comportamento
que deve ser considerado bom ou mau, por meio de um conjunto de
normas e regras estabelecidas, destinadas a regular as relações entre as
pessoas.
Nesse caso, “o ladrão de vagas” está errado. Mesmo não existindo
uma lei determinando “quem chegar primeiro tem direito a uma vaga”,
a regra social é essa. Mas, como é possível ter tanta certeza ao emitir
esse julgamento?
E se ele, realmente, não viu que alguém esperava pela vaga? E se
estivesse distraído, preocupado, doente? E se fosse surdo e não pudesse
ouvir os gritos do motorista? E se...
Conferindo,
concedendo.
Estes diferentes níveis de entendimento das ações − as diversas
leituras que se pode fazer de uma ação − inauguram um novo e
fascinante campo de debate: o plano da ética. É nesse plano que se
pode refletir sobre os julgamentos e comportamentos − os próprios e
os das outras pessoas − quando a intenção é entender o sentido de um
ato atribuindo-lhe valor. Isso é ética.
A ética se apresenta como uma reflexão crítica sobre a
moralidade, sobre a dimensão moral do comportamento do
homem. Cabe a ela, enquanto investigação que se dá no interior
da filosofia, procurar ver – como afirmei antes – claro, fundo
e largo os valores, problematizá-los, buscar sua consistência.
É nesse sentido que ela não se confunde com a moral. No
terreno desta última, os critérios utilizados para conduzir a
ação são os mesmos que se usam para os juízos sobre a ação, e
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estão indiscutivelmente ligados a interesses específicos de cada
organização social. No plano da ética, estamos numa perspectiva
de um juízo crítico, próprio da filosofia, que quer compreender,
quer buscar o sentido da ação. (...)
A moral, numa determinada sociedade, indica o
comportamento que deve ser considerado bom ou mau. A ética
procura o fundamento do valor que norteia o comportamento,
partindo da historicidade presente nos valores.
Qualidade do que
é histórico.
RIOS, Terezinha Azerêdo. Ética e competência. São Paulo: Cortez, 1995.
Falar sobre ética não é tão fácil quanto parece. Por exemplo: roubar
comida num supermercado para alimentar os filhos que passam fome.
É ético? Nesta situação: deve-se levar em conta o valor “vida” −
alimentar os filhos para que não morram − ou o valor “propriedade
privada” − não roubar?
No espaço da moralidade, roubar é errado. Já no plano da ética...
Meu dilema não significa, em primeiro lugar, que se escolha
entre o bem e o mal; ele designa a escolha pela qual se exclui ou
se escolhe o bem e o mal.
Dúvida, situação
embaraçosa
com duas saídas
difíceis.
Kierkegaard, filósofo dinamarquês (1813-1855).
É possível dizer que a máxima da ética é o bem comum. As pessoas
convivem em sociedade e precisam se perguntar, por mais difícil que
seja a resposta: “como devo agir perante os outros?”. Pensar sobre
nossa conduta e sobre a conduta dos outros a partir de valores e não de
receitas prontas pode ser um bom caminho.
Porque nem tudo na vida é certo ou errado, bom ou mau e ponto
final. Conforme o momento ou as circunstâncias, aquilo que parecia
ser o certo (ou errado) pode mudar.
As coisas têm muitos jeitos de ser.
Depende do jeito da gente ver...
(...)
Curto e comprido.
Bom e ruim.
Vazio e cheio.
Bonito e feio.
São jeitos das coisas ser.
Depende do jeito da gente ver.
Ver de um jeito agora e de outro jeito depois.
Ou melhor ainda ver na mesma hora os dois.
MASUR, Jandira. O frio pode ser quente? São Paulo: 1983.
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Os dez mandamentos da ética
1. Fazer o bem.
2. Agir com moderação.
3. Saber escolher.
4. Praticar as virtudes.
5. Viver a justiça.
6. Valer-se da razão.
7. Valer-se do coração.
8. Ser amigo.
9. Cultivar o amor.
10. Ser feliz.
CHALITA, Gabriel. Os dez mandamentos da ética. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2003
2. DIFERENTES CONTEXTOS, DIFERENTES CONCEITOS
No plano da ética, as verdades podem mudar de acordo com as
circunstâncias. Isso se torna ainda mais importante ao se considerar
que os costumes mudam com o passar do tempo. Afinal, as sociedades
mudam porque as pessoas mudam.
O que é costume hoje, pode não ser amanhã. O que é considerado
errado agora, também pode ser visto como certo daqui a algum
tempo.
Fato histórico
No Brasil, nos anos 1800, era deselegante permanecer com
chapéu no interior dos veículos. A norma: tirar o chapéu,
colocá-lo sobre os joelhos ou junto ao peito, sempre com o forro
de seda virado para dentro.
Se os costumes mudam, as sociedades mudam, as pessoas mudam,
por que alguns conceitos na educação de trânsito perduram por tantos
anos em nosso país?
“Trânsito é a integração entre veículo, via e homem”.
“O acidente de trânsito é conseqüência de um comportamento
inadequado do usuário, produto de algum processo psicológico
que não funciona bem”.
“O objetivo da educação de trânsito é formar motoristas do
futuro”.
“Trânsito é um fenômeno dos grandes centros urbanos”.
Trechos retirados de cartilhas publicadas entre 1970 e 1995.
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É até curioso pensar que, num mundo em que os valores mudam
com tanta velocidade, alguns conceitos tratam o trânsito de forma
extremamente simplista. Parece que, nesta área, as verdades são
eternas e as definições valem para sempre.
Mas no trânsito, como na vida, não existem verdades absolutas.
E, como na vida, é preciso estar preparado para aprender, mudar
conceitos, evoluir.
Esta nova perspectiva permite pensar em trânsito como um
DIREITO. Afinal, trânsito envolve o direito fundamental de ir e vir.
Seja a pé, de automóvel, de barco, de mula, de avião.
A proposta de pensar em trânsito como algo inerente à vida abre
muitas e surpreendentes possibilidades. Locomover-se é tão importante
quanto respirar. O desejo humano de locomoção vem dos tempos mais
remotos. Na tentativa de ampliar seus horizontes, de descobrir novos
lugares, de procurar ambientes favoráveis às suas necessidades de
sobrevivência, as pessoas partiram em busca do desconhecido. Assim,
em cada momento histórico, descobriram formas e criaram meios para
atingir o objetivo de locomover-se; de transitar no espaço. Por isso, o
trânsito é muito mais antigo que qualquer veículo ou qualquer via.
Essencial.
Tem origem nas palavras
loco (lugar) e motione
(movimento). É a ação ou
efeito de andar ou de se
transportar de um lugar
para outro.
Com o passar dos tempos, as cidades cresceram, os veículos
apareceram e as pessoas perceberam que era necessário organizar
o espaço público. Então, criaram um conjunto de sinais capazes de
atender sua necessidade de locomoção: os semáforos, as placas de
sinalização, o apito dos agentes de trânsito.
Os sinais de trânsito classificam-se em:
I – verticais;
II – horizontais;
III – dispositivos de sinalização auxiliar;
IV – luminosos;
V – sonoros;
VI – gestos do agente de trânsito e do condutor.
Artigo 87 do Código de Trânsito Brasileiro (Lei n.9503, de 23/9/1997).
Assim, surgiu a necessidade de comunicação com o espaço público
e com as outras pessoas: enviar, receber e, sobretudo, compreender as
mensagens contidas nos diferentes atos de comunicação que orientam
o trânsito.
E não é só nas cidades que a comunicação é fundamental para
a locomoção. No mar, por exemplo, também existem semáforos que
emitem sinais luminosos para as embarcações.
Fato histórico
A partir da telegrafia ótica (acústica) originaram-se os sinais
sonoros do trânsito: o apito dos trens, as buzinas dos automóveis,
os diferentes sons emitidos pelo apito dos agentes de trânsito.
Capacidade de
emitir e receber
mensagens.
Processo de transmissão
de mensagens a distância,
aproveitando a luz, o
som, a eletricidade, o
movimento rápido de
translação, classificandose – segundo o agente –
em sistemas telegráficos
acústicos, ópticos, de
translação e elétricos.
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É possível pensar em trânsito de forma ainda mais aberta, mais
ampla. Ao se pensar na cidade onde se vive, por exemplo: nas ruas e
avenidas, nas praças, nos parques, nas calçadas. Esse lugar pertence a
cada pessoa, indistintamente, e também a seus pais, a seus filhos, ao
seu marido ou à sua mulher, ao seu vizinho, ao mendigo, ao lixeiro,
ao empresário, ao carroceiro e a todas as pessoas que vivem nele.
Portanto, todas as pessoas têm o direito de usufrui-lo e precisam, para
isso, aprender a conviver.
(...) o fato é que o trânsito está estreita e profundamente
relacionado aos lugares. A presença do trânsito encontra-se
refletida no tempo e no espaço – construídos pelas sociedades
humanas.
Por possuir uma dinâmica ampla, o trânsito intervém
visivelmente na ordenação e na organização dos lugares,
nos estilos arquitetônicos, nas estruturas urbanas, nas vias
de transporte etc. Porém, o que torna o trânsito ainda mais
extraordinário é a sua capacidade de transformar os indivíduos
em seres coletivos que compartilham o mesmo espaço: o espaço
público.
RODRIGUES, Juciara. 500 Anos de trânsito no Brasil: convite a uma
viagem. Brasília: ABDETRAN, 2000.
Apoio, sustentáculo.
Ao utilizar a locomoção, a comunicação e o convívio social
como eixos condutores ao desenvolvimento de um trabalho na área da
educação de trânsito, certamente, é possível ir muito além na questão
e perceber que uma série de conceitos transmitidos, durante tantos
anos, precisam ser questionados e (re)avaliados e que o tema trânsito
requer um novo olhar, especialmente no campo da educação. Não
haverá limites para o trabalho do profissional da educação de trânsito
quando descobrir – de verdade – a dimensão do significado da palavra
trânsito.
ATIVIDADE
Observe as imagens.
Figura 1
Figura 2
Em sua opinião, qual delas reflete a palavra “trânsito”?
Por quê?
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Você respondeu: a figura 2
Então, ainda precisa pensar um pouquinho mais a respeito.
Você, realmente, acredita que trânsito é apenas um fenômeno
dos centros urbanos? Que trânsito está relacionado apenas aos
motoristas? Acredita que as pessoas que vivem nas pequenas
cidades ou no sertão ou nas comunidades ribeirinhas não
transitam? E como ficam as crianças e os trabalhadores que
percorrem, diariamente, quilômetros a pé ou a cavalo para
chegarem em seu destino? Lembre-se: transitar é um direito de
todos.
Você respondeu: a figura 1
Tudo bem. Ela reflete muito bem o trânsito. Afinal, trânsito
não é um fenômeno exclusivo dos centros urbanos. Mas a figura
2 também entra nessa.
Você respondeu: as duas figuras
É isso! Você sabe que falar em trânsito é falar em locomoção.
Sabe que trânsito não é apenas um fenômeno dos centros
urbanos e que todas as pessoas, em todos os lugares, têm o direito
de ir e vir.
3. ÉTICA NO TRÂNSITO
É impossível pensar em qualquer ação educativa de trânsito sem
uma atenção especial ao campo da ética. E essa tarefa não é fácil.
Fácil é produzir uma cartilha ou qualquer outro material com um
amontoado de regras:
• atravesse na faixa de pedestres;
• obedeça as leis do trânsito;
• não dirija falando ao celular;
• use o cinto de segurança;
• quando beber não dirija, quando dirigir, não beba...
Fácil é ensinar o que fazer. Difícil é ensinar como ser. Trabalhar
em favor de uma educação para a vida, que contribua para o
desenvolvimento das pessoas em sua socialização.
Ensinar além do que fazer
É possível ensinar uma criança a atravessar na faixa destinada aos
pedestres, muito embora, em diversas situações, ela não encontre tal
faixa. Mas, além desse ensinamento, pode-se mostrar como é possível
ajudar uma pessoa deficiente visual a atravessar a rua, por exemplo. É
possível e necessário ir muito além de ensinar o que fazer.
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Basear.
Fundamentar a educação de trânsito em valores é um desafio;
um compromisso a ser assumido por todos os profissionais da área.
Não existem fórmulas mágicas para trabalhar nesse sentido. Deve
existir, sim, muita criatividade e força de vontade, além de uma visão
abrangente sobre trânsito. Para isso, é preciso seguir em frente, sem
medo de se arriscar e de experimentar.
Por que cometer erros antigos se há tantos novos a escolher?
Bertrand Russel, matemático inglês (1872-1970).
Valores a ensinar
É preciso pensar e definir quais valores devem ser incentivados em
nossa sociedade quando o assunto é trânsito. Esses valores devem ser
aqueles que regulam nosso sistema de convivência e que envolvem o
pensar e o agir de cada pessoa, respeitando sua liberdade.
ATIVIDADE
Dos valores apresentados a seguir, assinale cinco que você
considere importantes para serem desenvolvidos em um trabalho
educativo de trânsito.
cooperação
respeito
colaboração
tolerância
equilíbrio pessoal
amizade
vida
liberdade
justiça
solidariedade
igualdade
responsabilidade
Independentemente dos valores assinalados, uma coisa é certa: a
maioria já está inscrita em nossas leis há muito tempo. Cabe a você,
profissional do trânsito, fazer com que eles saiam do papel e se tornem
realidade.
Na educação de trânsito podemos seguir por dois caminhos:
• Pelo espaço da moralidade: “assim é certo; assim é errado”.
• Pelo plano da ética: educação em valores, capaz de
desenvolver posturas e atitudes.
Qual é a sua opção?
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4. EDUCAÇÃO DE TRÂNSITO PARA A CIDADANIA
(...) Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que
puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da
tarde, que vai lá fora, que aponta o lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
BARROS, Manoel. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record,
1998.
Neste fragmento de poema, o autor apresenta descontentamento
com a vida. Precisa ser “Outros”; precisa mudar, renovar-se. Não
suporta mais ser a mesma coisa, fazer as mesmas coisas. E tem uma
proposta: usar borboletas para renovar o homem.
Essa linguagem poética tem várias interpretações. Por exemplo: as
borboletas são coloridas, alegres, têm liberdade para voar. Porém, um
dia, foram lagartas. Para que pudessem voar livremente, a natureza
encarregou-se de transformá-las; de libertá-las de seu casulo.
No entanto – assim como acontece com a lagarta – a natureza
transforma as pessoas externamente. A pele, a cor dos cabelos. As
pessoas mudam com o passar dos anos, isso é fato. Mas será que as
pessoas são capazes de...
• mudar seus pensamentos, ideais, sentimentos, seu
comportamento?
• romper com determinadas normas e padrões impostos?
• criar, construir, transformar, agir eticamente?
Objetivo.
Agora, pensando por outro lado: agindo assim, uma pessoa daria o
melhor destino à sua vida? Ela teria valido a pena? Bem, certamente
estaria em concordância com Cecília Meireles, que escreveu: a vida só
é possível reinventada.
Para a borboleta do poeta, a vida reinventou-se no momento em
que deixou o casulo e alçou vôo com suas asas imensas. Mal sabem os
homens que as asas que possuem são muito maiores e, por isso mesmo,
permitem voar muito mais alto: as asas da imaginação.
E para voar é preciso: romper com o “velho”, ousar e querer mais,
aceitar o desafio de mudar.
É muito mais difícil criar a moral da efetiva realização do
homem, de nós mesmos, de nossas entranhadas relações, de
nossas heranças, e nela crescer, do que continuar na conveniência
da moral vigente, instalada. Da moral às vezes grudada na pele
como sujeira, fruto de nossa própria acomodação.
PEREIRA, Otaviano. O que é moral. São Paulo: Brasiliense, 1998.
Permanente, segura.
Penetradas
profundamente.
Estabelecida.
Que está em vigor,
que prevalece.
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Se o profissional da educação de trânsito não for capaz de ser e
de viver como borboleta, jamais poderá exigir o mesmo dos outros.
Ninguém será capaz de transformar nada e ninguém se não for capaz
de transformar a si mesmo.
Será possível elaborar um material educativo ou dar uma palestra
sobre o perigo do uso do celular no trânsito, por exemplo, se a pessoa
dirige e fala ao celular? Falar sobre álcool, se bebe e dirige? Que verdade
esta pessoa transmite aos demais? Como ensinar valores sem praticá-los?
Talvez seja este o aprendizado mais difícil: manter o
movimento permanente, a renovação constante, a vida vivida
como caminho e mudança.
Maria Helena Kuhner, escritora.
Depois dessas considerações, está claro que educação de trânsito
não é uma educação qualquer. Para torná-la realidade, são necessárias
ações educativas comprometidas com informações, mas, sobretudo,
com valores ligados à cidadania.
Relativo à democracia,
popular.
Antigamente, apenas obedecíamos aos mais velhos como
se fossem “superiores” a nós. No mundo democrático, porém,
não há espaço para a obediência cega e nem para a idéia de
superioridade. Ninguém é superior a ninguém! O convívio
entre os cidadãos se faz por meio do diálogo e do respeito entre
as pessoas (homens e mulheres, pais e filhos, professor e alunos
etc.) (...)
Como resultado dessas mudanças todas, a atual geração de
brasileiros e brasileiras é muito mais crítica, atenta e inquieta
do que a de nossos pais e professores. Somos mais democráticos,
portanto, e, am alguma medida, mais cidadãos. E devemos isso,
em grande parte ao processo de democratização (política e
social) do país. Um processo que não se encerrou, e que depende
muito de nós. (...)
Ser cidadão, portanto, é participar o máximo possível da vida
em comunidade, para que seja possível compartilhar com os
semelhantes as coisas boas da vida – as materiais e as culturais.
Ser cidadão é, ainda, opor-se a toda forma de não participação.
Ser cidadão, é enfim, adotar uma postura em favor do bem
comum.
MELLO, Guiomar Namo de. Ofício de Professor: aprender mais para
ensinar melhor. São Paulo: Fundação Victor Civita, 2002. v.8.
Se ser cidadão é adotar uma postura em favor do bem comum, é
possível perceber a razão pela qual ética e cidadania são temas tão
ligados. Certamente, uma não existe sem a outra.
Todavia, alguns questionamentos podem surgir: como educar
para a cidadania, já que vivemos em um mundo repleto de violência,
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desrespeito
injustiças?
ao
espaço
público,
egocentrismo,
desonestidade,
E quando o assunto é trânsito, então, parece que tudo fica ainda
mais complicado. Os profissionais da educação de trânsito, certamente,
podem encontrar dificuldades.
Propensão que uma pessoa
tem para referir tudo a si
própria; personalismo.
A começar pelos órgãos de trânsito (federais, estaduais e
municipais). Alguns não possuem recursos financeiros e recursos
humanos suficientes para a implementação de projetos educacionais
de qualidade. Outra barreira pode ser encontrada nas escolas de
ensino regular. Vários professores resistem muito à idéia da educação
de trânsito. Eles têm seus motivos: ganham pouco, precisam dar conta
do conteúdo das disciplinas obrigatórias, não têm tempo etc.
No entanto, com criatividade, bom senso, estudo permanente e
boa vontade é possível realizar um bom trabalho. E um bom trabalho é
sempre aceito e reconhecido. O que importa é a qualidade. E em tudo
o que se fizer, jamais se pode perder de vista essa tal cidadania.
Portanto, é fundamental propor participação da sociedade
(cidadania ativa) nas questões relativas ao trânsito da cidade: o que
as pessoas pensam, quais os seus anseios, quais as suas necessidades.
Pesquisar é fundamental, investigando e analisando os problemas
antes de dar as soluções. Geralmente, as campanhas educativas de
trânsito, os recursos pedagógicos, os projetos e tantas outras iniciativas
são realizadas sem objetivos concretos. Partem de uma cúpula de
especialistas que acham que aquilo é bom e está certo. Não será por
este motivo que há tantas décadas se faz educação de trânsito sem
resultados visíveis?
Um grupo fechado.
A educação de trânsito deve ser para todos. É importante que o
profissional de trânsito, ao assumir essa responsabilidade, entre em
contato com organizações de bairro, conselhos de educação e de saúde,
grêmios estudantis etc. e ouça o que essas pessoas têm a dizer. Só assim
poderá elaborar projetos que atendam às necessidades e às expectativas
das pessoas. Talvez não consiga resolver todos os problemas levantados,
mas, com certeza, saberá que eles existem e que algo precisa ser feito.
A cidadania ativa é aquela que exige participação efetiva de
todos em favor do bem comum.
Outra coisa importante: o profissional da educação de trânsito
deve participar da elaboração dos recursos educativos produzidos em
seu órgão de atuação, questionando se realmente vale a pena imprimir
milhares de panfletos, cartilhas, manuais e outros recursos que
apenas ensinam o que fazer. Afinal, a educação de trânsito deve estar
fundamentada em valores e o dinheiro público deve ser bem utilizado,
revertendo seus resultados em favor da sociedade.
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5. E PARA FINALIZAR...
Não é difícil encontrar com pessoas que “roubam” uma vaga,
“furam” uma fila. Pessoas que, em pequenas ações do dia-a-dia, não
agem eticamente, pois não aprenderam a pensar de forma coletiva, em
favor do bem comum.
Um retrato antigo do Brasil
Década de 70, cigarros Vila Rica. O talento do meia armador
Gérson era requisitado para apoiar as vendas de um novo cigarro.
As pesquisas revelavam que um dos aspectos da “personalidade”
do brasileiro era a de “sempre querer levar vantagem em tudo”.
E lá foi o querido Gérson afirmar para a população: “... afinal,
eu gosto de levar vantagem em tudo, certo?” Era criada a Lei
de Gérson. Famosíssima e insubstituível até hoje (ou melhor,
ontem...). Meio fora de moda, com cheiro de jovem guarda,
tropicália, calça boca de sino, época em que fumar não era
proibido... Passamos mais de três décadas sob a “áurea” de que
o brasileiro era um “cara” que gostava de levar vantagem em
tudo... Éramos “Gérsons”.
José Luiz Tejon Megido. www.shinyashiki.com.br/roberto/web/destaque_
detalhe.jsp?Cid=255
Já foi visto que, com o passar do tempo, as sociedades mudam como
mudam, também, as pessoas que as compõem. No entanto, ainda hoje,
é fácil esbarrar em muitos “Gérsons” no trânsito: “roubando” vagas,
dirigindo em alta velocidade, despejando lixo pelas janelas de seus
carros, furando o sinal, cometendo todo o tipo de infração.
Atualmente, as mortes no trânsito não acontecem somente
por causa dos acidentes. Muitas pessoas já foram vítimas fatais em
decorrência de brigas, xingamentos e discussões. Estas mortes não são
computadas nos levantamentos estatísticos realizados pelos órgãos do
Sistema Nacional de Trânsito. Não obstante, acontecem...
Brigas de trânsito acabam em morte
Luiz Carlos Ralheonco, 32 anos, morava no balneário de
Praia Grande (82 Km a sul de São Paulo). Ele veio a São Paulo
na manhã de ontem com seu Fiat Uno para levar o carro ao
conserto.
Segundo informações, pouco antes de chegar à ponte Ary
Torres, no Brooklin (zona sul de São Paulo), Ralheonco teria
fechado um táxi Versailles. O taxista o teria alcançado na ponte,
emparelhado com a vítima e atirado.
O motorista perdeu o controle do Uno, que se chocou com
uma carreta Scania. Ralheonco foi levado ao Hospital Santa
Paula, onde morreu. O motorista do táxi fugiu. (...)
Folha de S. Paulo, 17/8/1996. Caderno Cotidiano, p.1.
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É muito importante saber que ninguém nasce ético nem é
completamente cidadão. Se ética e cidadania ainda são estudadas, é
porque as pessoas ainda não são nem éticos nem cidadãs o bastante.
Caso contrário, não haveria violência, desrespeito ao espaço público,
egocentrismo etc. e quem tem a responsabilidade de educar para o
trânsito não precisaria parar para se questionar se o seu trabalho vale
a pena; se é possível.
Talvez não seja possível mudar o mundo. Mas é possível começar a
trilhar o caminho da ética e da cidadania hoje, a partir de agora.
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Unidade 1 - Denatran