Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 2
ISBN 92-9223-032-8
© UNESCO 2004
http://www.unicef.org/teachers
UNESCO Asia and Pacific Regional Bureau for Education
920 Sukhumvit Rd., Prakanong
Bangkok 10110, Thailand
Impresso na Tailândia
As designações utilizadas e a apresentação do material ao longo da publicação não implicam, de modo
algum, a expressão de qualquer opinião por parte da UNESCO sobre o estatuto jurídico de qualquer
país, território, cidade ou área ou das suas autoridades ou sobre as suas fronteiras ou limites.
Texto traduzido do Inglês pela aluna Sophie Bento
([email protected]) do Curso de Tradução e Interpretação Multimédia – Universidade do
Algarve
Revisão da tradução de Ana Maria Benard da Costa, Dinah Mendonça e José Vaz Pinto
Capa de Valdemar Lopes
Arranjo gráfico de José Vaz Pinto
Associação Cidadãos do Mundo - Portugal
Ano de 2009 e 2010
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 3
GUIA DE FERRAMENTAS
O Manual de Apoio 3 ajudá-lo-á, assim como aos seus colegas, a perceber algumas das
barreiras que impedem as crianças de frequentar a escola e o que podemos fazer para que
isso não aconteça. As Ferramentas estão organizadas por unidades (passo a passo) e
apresentam formas de inclusão de crianças tradicionalmente excluídas, formas ampla e
eficazmente usadas por professores em todo o mundo. Depois de trabalhar com estas
Ferramentas, estará em condições de falar com outros professores, famílias, membros da
comunidade e alunos sobre as condições que afastam as crianças da aprendizagem.
Estará também em condições de identificar a morada das crianças, de saber por que não
frequentam a escola e que medidas pode tomar para as receber na escola.
ÍNDICE
QUEM É QUE NÃO ESTARÁ A BENEFICIAR DA APRENDIZAGEM? ...................................... 4
Descobrir as barreiras que impedem a aprendizagem inclusiva ................................................ 4
Auto-avaliação para a aprendizagem inclusiva ............................................................................. 11
ENCONTRAR AS CRIANÇAS QUE NÃO FREQUENTAM A ESCOLA E DESCOBRIR
PORQUÊ ...................................................................................................................................................13
Cartografia da escola e da comunidade .........................................................................................13
Descobrir por que as crianças não frequentam a escola ...........................................................18
ACÇÕES PARA CONSEGUIR QUE AS CRIANÇAS VÃO À ESCOLA ....................................... 27
Planear acções .................................................................................................................................... 27
Ideias para agir ................................................................................................................................. 29
O QUE APRENDEMOS ? ..................................................................................................................... 38
Como podem aprender mais? ........................................................................................................... 39
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 4
Ferramenta 3.1
QUEM É QUE NÃO ESTARÁ A BENEFICIAR DA
APRENDIZAGEM?
Um dos passos mais importantes para criar um AIAA é interessar as famílias e as
comunidades neste processo e identificar as crianças que não frequentam a escola. Alguma
vez parou para pensar se um dos seus alunos tem um irmão, uma irmã ou um amigo que não
pode ou não quer ir à escola? Se nos esforçarmos por conseguir que estas crianças
frequentem e se mantenham nas nossas salas de aula e escolas inclusivas, e se quisermos
ajudá-las a adquirir o conhecimento e as competências necessárias para a vida, então temos
de perceber por que razão não frequentam a escola!
Descobrir as barreiras que impedem a aprendizagem inclusiva
Leia o seguinte estudo de caso sozinho ou com os seus colegas.
A “Tip” tem doze anos. Todas as manhãs, seja Verão ou Inverno, vagueia pela comunidade
tentando ganhar a vida e juntar um pouco de dinheiro. Lava os pratos do posto de vendas de
massas. Se não há mais nada para fazer, recolhe garrafas e latas para vender no centro de
reciclagem que se encontra ao fim da rua. Quando não há mesmo trabalho, a Tip pede
esmola às pessoas que vão à igreja da comunidade. Num dia bom, consegue ganhar de 0,75€
a 1€; num dia menos bom, menos de 0,40€. À procura de ganhar dinheiro, a Tip diz sempre:
“Se me derem dinheiro, o que quiserem que eu faça, eu faço.” A Tip andava na escola, mas
hoje em dia, prefere ganhar dinheiro a estudar.
Actividade Prática: Identificar as Barreiras à Inclusão
Se está a trabalhar com os seus colegas, organizem-se em dois ou quatro grupos. Se está a
trabalhar sozinho, tente fazer esta actividade por si próprio.
•
Primeiro, todos têm de pensar calmamente sobre algumas das razões pelas quais a
Tip não pode ir à escola. Se ajudar, podem tomar notas. Isto deverá levar cerca de
5 minutos.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 5
•
O ambiente de aprendizagem duma criança inclui escola, família e comunidade.
Inclui também o “ego”, ou seja, se ela própria quer ir à escola. Depois, designe um
ambiente de aprendizagem para cada grupo. Um grupo é a ESCOLA. Outro grupo é a
FAMÍLIA. Outro grupo é a COMUNIDADE. E o quarto grupo é a CRIANÇA. Se está
a trabalhar com dois grupos, cada grupo pode ficar com dois ambientes de
aprendizagem. Se está a trabalhar sozinho, tente fazer os quatro.
•
Dê a cada grupo uma grande folha de papel (poster) e peça-lhes então que
escrevam, no topo do poster, o ambiente que estão a trabalhar. Deve haver uma
folha por cada ambiente de aprendizagem.
•
Discuta no seu grupo quais as barreiras existentes no seu ambiente de
aprendizagem que podem fazer com que a Tip não frequente a escola. Faça uma
lista dessas barreiras no poster para o seu ambiente de aprendizagem e leia então a
secção seguinte.
Algumas Razões que Levam as Crianças a NÃO frequentar a Escola
Tip (Criança)
Se uma criança pode frequentar a escola, ou quer frequentá-la, é parcialmente afectada
pelas suas características ou pela situação em que se encontra. Por exemplo, a esperança
de ganhar dinheiro pode incentivar uma criança a sair de casa e a mudar-se para uma cidade
maior em vez de ficar na escola. Verá abaixo alguns dos principais motivos associados à
CRIANÇA que podem afectar o facto de frequentar ou não a escola. Existem outros
factores centrados na criança na comunidade, país ou cultura em que este inserida que
possam levá-la a não frequentar a escola?
Sem abrigo e a necessidade de trabalhar. Vemos estas crianças todos os dias,
especialmente se vivemos em cidades, mas dificilmente reparamos nelas a não ser que
estejam a pedir esmola ou a arranjar dinheiro de qualquer outra forma. “A rua” é a casa e a
fonte de subsistência destas crianças. Há cerca de 100 milhões de crianças de rua no
mundo. Uma criança de rua pode ser uma criança que trabalha, que tenha desistido da
escola ou simplesmente um sem-abrigo, rapaz ou menina. As crianças de rua são mais
propensas à exploração uma vez que já não estão ligadas às famílias, comunidades e escolas.
No entanto, nem todas as crianças de rua vivem sem as famílias. Algumas, como a Tip,
trabalham na rua para ganhar dinheiro e regressam então para as famílias ao fim do dia.
Isto pode ser o caso das crianças que não vêem nenhuma vantagem na educação, que não
estão interessadas na escola, que têm idade a mais para entrar no sistema escolar ou são
afectadas pelos conflitos políticos onde a sobrevivência é mais importante do que a
aprendizagem. No entanto, muitas crianças de rua não têm ou têm pouco contacto com as
famílias e não são supervisionadas por um adulto. Além disso, podem ter sido abusadas
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 6
fisicamente ou sexualmente em casa, fazendo com que fujam de casa e acabem na rua onde
enfrentam o mesmo tipo de violência.
Doença e Fome. As crianças não aprendem adequadamente se estão doentes, com
fome ou subnutridas. Muitas vezes, estão ausentes e são classificadas de “alunos lentos”.
Se não tiverem a atenção requerida, podem sentir que não fazem parte da turma e desistir
da escola. Os efeitos da doença ou da subnutrição podem também ter consequências a longo
prazo porque podem causar deficiências intelectuais ou físicas.
Registo de Nascimento. Em certos países, se uma criança como a Tip não tem
qualquer prova do registo de nascimento, não lhe é permitido frequentar a escola ou pode
apenas ser aceite durante um determinado número de anos na escola. Isto afecta
especialmente as meninas cujo nascimento não foi registado e não são elegíveis para
admissão escolar ou para fazer exames. Também afecta os imigrantes, pessoas oriundas de
grupos culturais minoritários e refugiados.
Medo da Violência. O medo da violência a caminho da escola, na escola e a caminho
de casa pode amedrontar as crianças. Enquanto os rapazes são vítimas de maus-tratos ou
de bullying, as meninas estão em risco de abusos sexuais ou outras formas de assédios.
Para as vítimas, isto pode afectar grande parte da sua auto-estima. Talvez a Tip fosse uma
vítima e não quisesse ir mais à escola.
Deficiências e Necessidades Especiais. A maioria das crianças com deficiências ou
necessidades especiais não frequenta a escola, especialmente quando as escolas e os
sistemas educativos não têm políticas ou programas para incluir as crianças com
deficiências físicas, emocionais ou educativas. Estas são as crianças em quem costumamos
pensar quando falamos de “educação inclusiva”. São as crianças que nunca frequentaram a
escola por causa das atitudes negativas ou por se acreditar que não são capazes de
aprender. Os pais ou os membros da comunidade podem também não estar conscientes de
que estas crianças têm o direito à educação e deveriam frequentar a escola. As instalações
da escola (como as escadas) podem bloquear a entrada destas crianças. São também elas
que costumam desistir porque as salas de aula são muito grandes e não podemos dedicar
tempo suficiente às necessidades especiais. Além disso, o conteúdo do currículo, os nossos
métodos educativos e até mesmo a “língua” de ensino (falada, visual) podem não ser
apropriados para as crianças com deficiências ou outras necessidades especiais.
Gravidez. Em certos países e comunidades, as jovens que engravidam são excluídas
da escola por medo da “promiscuidade” que pode incentivar outros a serem sexualmente
activos. Mesmo no caso de uma rapariga vítima de violação, a gravidez pode ser vergonhosa
para a família. Consequentemente, os membros da família não querem ser associados a ela e
não vêem razões para que ela frequente a escola.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 7
Ambiente Familiar
As famílias e as comunidades deveriam ser a primeira linha de protecção e de cuidados
para as crianças, para perceber os problemas que elas enfrentam e para agir contra estes
problemas de maneira sustentável. Em vários países, e de acordo com as pessoas que
trabalham com crianças que desistiram, a melhor forma de impedir o abandono escolar é
ter famílias e comunidades fortes, solidárias e produtivas. Abaixo encontram-se algumas
das principais razões associados à FAMÍLIA e à COMUNIDADE que podem afectar a
assiduidade escolar das crianças. Existem outros factores familiares ou comunitários na
comunidade, país ou cultura que afectem a assiduidade das crianças?
Pobreza e Valor Prático da Educação. A pobreza costuma afectar a assiduidade
escolar de uma criança. Da mesma maneira, se uma criança não frequenta a escola, ela
poderá não ter uma vida adequada e tornar-se indigente. Por causa da carga financeira, os
pais pobres são, muitas vezes, pressionados a proporcionar as necessidades básicas para
viver. Daí, as crianças como a Tip terem de ajudar a ganhar o rendimento familiar em
detrimento da educação e da sua vida futura. Isto acontece especialmente quando a
educação não faz sentido para as famílias no dia-a-dia; desta forma, não percebem a
importância da escolaridade. Os pais podem também pensar que as crianças terão uma
educação pobre e que as competências que vão adquirir em certos trabalhos são mais
valiosas do que as que aprenderão numa sala de aula
Conflitos. Alguns pais, apanhados numa discussão sobre dinheiro ou outros
problemas, descarregam nos filhos, o que dá azo à violência e ao abuso. Isto pode levar a
uma assiduidade irregular das crianças ou até incentivá-las, como provavelmente aconteceu
com a Tip, a fugir de casa e da escola.
Cuidados Inadequados. Por causa da necessidade de ter dinheiro, os pais são, por
vezes, forçados a emigrar temporariamente ou por grandes períodos de tempo. Em
consequência disso, deixam os filhos ao cuidado dos avós ou de outras pessoas. Estas
pessoas nem sempre têm conhecimento, experiência ou recursos necessários para prestar
cuidados adequados às crianças. Podem também não valorizar a educação quando precisam
muito de dinheiro.
Discriminação e Estigmatização devido ao HIV/SIDA. As crianças cujos pais
morreram de SIDA são menos propensas a frequentar a escola do que as que não perderam
os pais. Em certos países, as crianças – especialmente meninas – são tiradas da escola para
cuidar dos irmãos ou dos que estão doentes ou para ganhar dinheiro a fim de sustentar a
família. Noutros casos, estas crianças podem ser vistas como “contagiosas”, por isso os
membros da comunidade e até os professores as excluem veementemente da escola. Talvez
a Tip, ou um membro da família da Tip, seja seropositivo.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 8
Ambiente da comunidade
Discriminação de género. As crenças tradicionais sobre o estatuto e os papéis dos homens
e das mulheres podem restringir o acesso à escolarização para as meninas. Em comunidades
onde as mulheres são vistas como inferiores aos homens, as meninas ficam a maior parte do
tempo em casa e longe da escola para cumprir as tarefas domésticas. Isto é reforçado
pelas práticas tradicionais onde as meninas casam muito novas e deixam a casa dos pais;
desta maneira, as contribuições para com as famílias perdem-se e os pais não vêem
nenhuma razão em gastar dinheiro para educar as filhas. A Tip pode ter fugido desta
situação.
Diferenças Culturais e Tradição Local. O acesso à escola pode ser recusado a
crianças oriundas de famílias diferentes na comunidade, em geral, em termos de língua,
religião, classe social ou outras características culturais. Por vezes, é-lhes dado acesso às
instalações educativas precárias, a um ensino de qualidade mais pobre e um acesso restrito
aos materiais educativos. Também têm menos oportunidades de frequentar o ensino
superior do que as outras. Além disso, em certas comunidades, há uma tradição local na qual
as crianças começam a trabalhar durante a infância, sem os benefícios da escolarização de
qualidade. Esta tradição passa de geração em geração, perpetuando o ciclo de pobreza e
analfabetismo. A Tip pode ser um membro de uma destas comunidades.
Atitudes Negativas. As atitudes negativas para com as crianças de origens e
capacidades diferentes são talvez o maior obstáculo para incluir estas crianças na escola.
Podemos encontrar atitudes negativas a todos os níveis: pais, membros da comunidade,
escolas e professores, funcionários e entre as próprias crianças marginalizadas. O medo, o
tabu, a vergonha, a ignorância e a má informação, entre outros, tudo isto incentiva as
atitudes negativas para com este tipo de crianças e as situações em que se encontram.
Estas crianças – até mesmo as famílias – por vezes desenvolvem uma baixa auto-estima,
escondendo-se e evitando as interacções sociais e tornando-se membros invisíveis da
comunidade. Isto pode levar directamente à sua exclusão da escola, apesar de terem os
mesmos direitos e necessidades das outras crianças. A Tip pode também ser vítima de
atitudes negativas.
Ambiente escolar
A missão das nossas escolas é educar eficientemente TODAS as crianças ensinando-lhes
competências que precisarão para a vida e para a aprendizagem a longo prazo.
Historicamente, as nossas escolas não têm sido equipadas de maneira adequada para educar
meninas e rapazes de origens e capacidades diferentes. Enquanto as circunstâncias
familiares e comunitárias podem contribuir para a exclusão escolar das crianças, melhorar
as nossas escolas só nestas condições não as torna necessariamente inclusivas. Os factores
podem existir dentro das nossas escolas, o que pode de facto dissuadir algumas crianças de
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 9
frequentar a escola, assim como contribuir para uma fraca assiduidade e para a desistência
antecipada, como aconteceu com a Tip. Você e os seus colegas têm um papel importante a
desempenhar. Podem transformar a escola num sítio onde todas as crianças tenham
oportunidade de vir a aprender. Abaixo encontram-se algumas das razões que levam
algumas crianças a não frequentar a escola. Existem outros factores escolares que podem
também afectar a assiduidade das crianças?
Custos (directos e ocultos). Para muitas famílias pobres, as propinas, as taxas dos
exames, as contribuições para a escola ou para as associações de pais, até mesmo o custo
de um livro, de uma caneta, de um uniforme escolar ou dos transportes podem afastar as
crianças, como a Tip, da escola.
Localização. Especialmente em áreas rurais, se a escola está situada longe da
comunidade, as crianças como a Tip podem ficar em casa onde estão seguras.
Particularmente para as meninas, a distância da casa até à escola pode dissuadir os pais de
mandá-las à escola por medo e para estarem seguras. As crianças com deficiências podem
também não frequentar a escola se não houver transportes adequados para levá-las.
Horários. A Tip pode querer estudar, mas não ter possibilidade de aprender
durante o horário escolar habitual. Os horários e as agendas escolares não se ajustam ao
horário de trabalho da Tip, por isso ela não pode “aprender e ganhar dinheiro”. Além disso,
as meninas podem desistir da escola quando não combina com as suas responsabilidades
familiares, como por exemplo as tarefas domésticas ou cuidar dos mais novos.
Instalações. Uma das razões que levam algumas crianças a não frequentar a escola
é o facto desta última não ter instalações adequadas.
Por exemplo, a falta de casas de banho separadas para as meninas adolescentes
quando estão menstruadas pode dissuadi-las de frequentar a escola. Além disso, as
instalações inadequadas afectam especialmente as crianças com deficiências. Talvez a Tip
tenha alguma deficiência física ou outra, quem sabe.
Preparação. Uma das razões mais comuns pelas quais as crianças de origens e
capacidades diferentes são excluídas da escola é que a escola e os professores não estão
preparados para lhes proporcionar ensino. Não sabem como lhes dar aulas porque não
tiveram formação, ideias ou a informação necessária para ajudar estas crianças a aprender.
Consequentemente, mesmo que estas crianças frequentem a escola, podem receber menos
atenção e uma educação de qualidade mais pobre comparada com as outras crianças.
Tamanho das Turmas, Recursos e Carga de Trabalho. As turmas grandes são
comuns em todos os países e podem ser um obstáculo à inclusão de crianças de origens e
capacidades diferentes. Nos países mais ricos, as turmas de 30 alunos são consideradas
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 10
muito grandes, enquanto nos países com recursos limitados, as turmas de 60-100 alunos
podem ser comuns. Desta forma, os professores têm demasiado trabalho e sentem-se,
muitas vezes, infelizes. É evidente que as turmas pequenas e bem organizadas são mais
desejáveis do que as turmas com recursos inadequados, incluindo os materiais e o tempo
dos professores. No entanto, o tamanho da turma não é um factor necessariamente
importante no que diz respeito ao sucesso da inclusão, se as atitudes forem positivas e
acolhedoras. Existem vários exemplos de crianças de origens e capacidades diferentes que
são bem aceites nas turmas grandes. Como poderá ver adiante, as barreiras relativas às
atitudes para a inclusão costumam ser maiores do que as barreiras colocadas pelo recurso a
materiais inadequados.
Inclusão… apesar de turmas de 115 alunos ou mais
Em 1994, foi realizado um estudo em duas escolas em Lesoto como parte do programa
piloto sobre educação inclusiva do Ministério da Educação. Uma escola, situada
relativamente perto da capital de Maseru, tinha turmas com uma média de 50 alunos e
tinha apenas um histórico de integração de crianças com deficiências físicas. A outra
escola situava-se nas montanhas, a 8 horas de carro da capital. Tinha turmas de mais de
115 raparigas e rapazes.
Na primeira escola, os professores não concordavam com o programa de educação
inclusiva desde o início. A escola tinha uma boa reputação académica e receava perdê-la
passando tempo com os “alunos lentos”. Encararam a má vontade que tinham em relação às
crianças com deficiências como responsabilidade da missão e consideraram que esta
situação lhes tinha sido imposta.
No entanto, na escola das montanhas, os professores estavam tão motivados que
usavam os tempos livres à hora de almoço, aos fins-de-semana e ao fim da tarde para dar
uma ajuda extra às crianças que precisassem, visitavam famílias e até levavam as crianças
às consultas médicas. O facto de terem turmas grandes não era um obstáculo à educação
inclusiva. Os professores lidavam com as turmas grandes de uma forma aceitável mas,
quando perguntávamos, diziam que era evidente que preferiam turmas de 50-55 alunos.
Schools For All. Save the Children.
www.eenet.org.uk/bibliog/scuk/schools_for_all.shtml
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 11
Auto-avaliação para a aprendizagem inclusiva
Resumo das barreiras à Aprendizagem Inclusiva
•
Criança: sem-abrigo e a necessidade de trabalhar; doença e fome; sem registo de
nascimento; violência; gravidez
•
Comunidade: discriminação de géneros; diferenças culturais e tradição local;
atitudes negativas
•
Escola: custos; localização; horários; instalações; preparação; tamanho de turmas,
recursos e carga de trabalho
Que outras barreiras colocou na sua lista da actividade anterior ou discutiu com os
outros?
Faça uma “Lista Principal” de todas as barreiras que viu ou em que pensou a partir de
leituras e debates sobre as informações acima mencionadas.
Actividade Prática: Barreiras e oportunidades
•
Todos devem fechar os olhos e imaginar que são a Tip ou outra criança que
normalmente é excluída da escola. Escolha o seu nome, a idade, o sexo; onde mora e
com quem; qual a situação de vida em que se encontra (como por exemplo a Tip).
•
Pense nas oportunidades que pode ter ao inscrever-se na escola (por exemplo, a
escola tem de estar perto da sua casa) e nas barreiras que pode encontrar. Pode
referir-se à lista acima, à sua lista principal e às suas folhas a partir da primeira
Ferramenta deste Manual de Apoio sobre a identificação das barreiras à inclusão.
•
Numa grande folha de papel ou em qualquer outra superfície, desenhe quatro
círculos uns dentro dos outros. O círculo mais pequeno ao meio é a criança, o círculo
a seguir representa a família, o outro círculo representa a comunidade e o último
representa a escola. Coloque os nomes nos círculos.
•
Use canetas de várias cores ou formas de escrita diferentes para mostrar as
barreiras e as oportunidades. Todos têm de colocar os seus pensamentos na tabela
para cada nível (criança, família, comunidade, escola). Faça isso em grupo, não
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 12
individualmente. Mesmo que uma pessoa já tenha escrito uma oportunidade ou uma
barreira num nível, escreva de novo se também se identifica com elas.
•
Quando todos acabarem, olhe para a tabela que fez. Vê mais barreiras do que
oportunidades? Vê mais barreiras do que esperava? Estas barreiras representam
os desafios que têm de ser superados para que as crianças, como a Tip, possam
frequentar a escola e que podem ser ultrapassados com a sua ajuda.
•
Quais as oportunidades mais comuns para cada nível e entre níveis (que
oportunidades se encontram mais nas listas)? São oportunidades “reais”? Elas
existem hoje para as crianças de origens e capacidades diferentes na sua
comunidade ou são as que pensamos que deveriam lá estar? Se forem as que
pensamos que deveriam lá estar, são oportunidades que pode procurar alcançar
através de programas de acção. Representam a visão daquilo que quer conseguir
removendo as barreiras e aumentando as oportunidades para a inclusão.
•
As
oportunidades
e
as
barreiras
estão
distribuídas
equilibradamente
ou
concentram-se mais num nível do que noutros? Isto ajuda-o a identificar que nível
ou níveis requerem uma atenção especial para aumentar as intervenções e
ultrapassar os obstáculos.
•
As oportunidades e as barreiras que se repetem muitas vezes estão dentro e entre
os níveis? Podem ser um bom começo para agir.
•
As barreiras encontram-se em mais do que um nível, como por exemplo as atitudes
negativas (professores, membros da comunidade)? Podem precisar de esforços
coordenados para vencer!
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 13
Ferramenta 3.2
ENCONTRAR AS CRIANÇAS QUE NÃO FREQUENTAM A
ESCOLA E DESCOBRIR PORQUÊ
A ferramenta anterior ajudou-nos a descobrir as razões que levavam algumas crianças a
não frequentar a escola. A pergunta a que se tem que dar resposta: “Quais destas
barreiras, ou talvez outras, existem na escola ou na comunidade?” Para responder a esta
pergunta, temos de ver primeiro que crianças na comunidade não frequentam a escola e
investigar então algumas das razões pelas quais isto está a acontecer. Depois de obter esta
informação, podemos começar a planear e a implementar actividades para receber estas
crianças na escola.
Cartografia da escola e da comunidade
Uma ferramenta útil que é muito usada para identificar as crianças que não frequentam a
escola é a cartografia da escola e da comunidade, que também é chamada de cartografia
escolar ou cartografia baseada na comunidade. Como os mapas tradicionais, mostra os
principais pontos de referência da comunidade. No entanto, o que é ainda mais importante,
apresenta também cada casa da comunidade, o número de crianças e as respectivas idades
em cada casa e indica se as crianças em idade escolar ou pré-escolar frequentam a escola.
Pode criar estes mapas seguindo os passos abaixo mencionados.
1.
Consiga ajudas de grupos comunitários, ou até dos voluntários dedicados, assim
como de outros professores na sua escola. Trata-se de uma boa actividade para
desenvolver uma abordagem de “toda a escola” onde os funcionários (todos os
professores, assistentes, porteiros, etc.) contribuem. Mas não se esqueça de que
existem muitos outros membros da comunidade que podem ajudar a obter a
informação de que precisa e a criar os mapas, como por exemplo os voluntários de
desenvolvimento local, os idosos da comunidade, os representantes religiosos, os
membros de AP e as próprias crianças (falaremos posteriormente sobre a
contribuição das crianças). Este passo irá de facto ajudar a reforçar os laços entre
a escola e a comunidade. Também ajudará a sua escola a obter alguns recursos da
comunidade para os programas de acção (muito importante para as escolas com
poucos recursos), assim como a promover a propriedade comunitária dos mapas e os
programas de aprendizagem inclusiva que surgem na cartografia e nos processos de
planeamento.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 14
2. Organize uma sessão de orientação para as pessoas que se ofereceram
voluntariamente para ajudar na recolha de informação e na criação dos mapas. Fale
com elas sobre os benefícios da escolarização, sobre ter uma variedade de alunos
com capacidades diferentes e a importância dos mapas para encontrar as crianças
que não frequentam a escola e incentivá-las a lá ir e a apreciar a aprendizagem.
3. Na sessão de orientação ou durante uma sessão de acompanhamento, prepare um
rascunho do mapa da comunidade. Algumas comunidades podem ter mapas já feitos,
enquanto outras não. Inclua os principais pontos de referência (estradas, fontes de
água, locais principais como o centro de saúde da aldeia, locais de culto, etc.) e
todas as casas nesta comunidade.
4. Depois, realize um inquérito ao domicílio para determinar quantos pessoas há em
cada casa, as idades e os níveis de educação. As informações sobre os níveis de
educação das crianças ajudá-lo-ão a orientar as que não frequentam a escola,
enquanto as informações sobre os adultos podem indicar-lhe que pais podem
beneficiar de actividades, como por exemplo, os programas de alfabetização. Na
Índia e em Benim (África Ocidental), estes programas são importantes porque
ajudam estes pais a perceber o valor da aprendizagem para eles e para os filhos
(especialmente meninas). O inquérito ao domicílio pode ser realizado de várias
maneiras, como por exemplo, através de visitas domiciliárias (que também podem
ser usadas para incentivar os pais a mandar os filhos à escola), entrevistas com
pessoas bem informadas (até crianças) ou usando registos existentes. Na Tailândia,
por exemplo, a informação de recenseamento de aldeias é usada para identificar o
número de pessoas em casa e as respectivas idades. Esta informação é então
comparada com os registos de inscrições na escola para ver as crianças que não a
frequenta.
5. Uma vez as informações recolhidas, prepare um mapa final da comunidade
apresentando as casas, as pessoas, as idades e os níveis de educação. Depois,
partilhe o mapa com os representantes da comunidade para identificar que crianças
não frequentam a escola e refira algumas razões que estas famílias podem ter para
não mandar os filhos à escola. Com estas informações, podemos começar a fazer
planos de acção.
Cartografia da escola no Projecto Lok Jumbish (LJ), Rajastão, Índia
O projecto LJ mobilizou um núcleo de homens e mulheres empenhados que foram
escolhidos pela comunidade. Depois de receber formação, realizaram um inquérito
registando a formação académica de cada pessoa. O mapa da aldeia foi então preparado
para mostrar o nível de educação de toda a família em cada casa. A aldeia inteira analisou
então as razões pelas quais as crianças não frequentavam a escola. Na maioria dos sítios,
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 15
mesmo onde havia uma escola, esta não estava a funcionar adequadamente devido à falta de
professores ou de um mínimo de instalações. As meninas não iam porque os pais não as
deixavam andar longas distâncias até à escola e só uma maioria de rapazes estudava nas
escolas. Em resposta a esta situação, a equipa da aldeia, constituída por grupos de mulheres
e professores locais implantou uma vasta gama de actividades como por exemplo seguir de
perto as inscrições escolares e o número de alunos que transitavam de um ano para o outro,
a abertura de centros não formais, a renovação ou a construção de escolas, os programas
de saúde escolares e os fóruns para meninas. Outras melhorias incluíram a formação de
professores baseada no currículo e na motivação, a produção de manuais adequados e o
fornecimento de equipamentos de boa qualidade e de materiais de aprendizagem e de
ensino para todas as escolas na área do projecto. LJ também criou uma rede de centros de
educação informal com jovens que tenham recebido formação para instrutores.
Mathur R. (2000) Taking Flight. Education for All Innovation Series No. 14.
UNESCO Principal Regional Office for Asia and the Pacific, Bangkok.
Participação das crianças na cartografia
O processo de cartografia da escola e da comunidade é uma actividade “da comunidade
para a criança”. Por outras palavras, mostra como podemos envolver a comunidade na
identificação de todas as crianças e na sua inserção na escola. Porém, a actividade de
cartografia pode ser uma abordagem de “criança para criança”, que pode ser incorporada
nos planos das aulas. As crianças de todas as idades podem criar mapas sendo essa uma
actividade importante para a sua aprendizagem.1
A actividade de cartografia de criança para criança é uma maneira muito eficaz de
mobilizar a participação dos alunos. Tomam as rédeas para identificar as crianças que não
frequentam a escola e convencer os pais e os membros da comunidade a deixá-las ir. Por
exemplo, no projecto CHILD na Tailândia, meninas e rapazes do 4º ao 6º ano trabalharam
juntos para desenhar um mapa das comunidades e das casas à volta da escola.
Identificaram as crianças que viviam em cada casa e no mapa marcaram se estas crianças
frequentavam a escola ou não. Como um membro do projecto notou: “Se três crianças
1
Esta secção e o processo de criação de mapas foram adaptados de “Children as
Community Researchers”. Website da UNICEF: Teachers Talking about Learning:
www.unicef.org/teachers/researchers/basemap.htm. Os leitores são fortemente
incentivados a aceder a este website, ver exemplos de mapas feitos por crianças e
aprender mais!
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 16
concordam em que há uma criança a viver nesta casa, então é verdade.” As crianças podem
assim dirigir a realização dos mapas da escola e da comunidade. Podem mesmo cartografar
dados valiosos sobre a comunidade em que ninguém tenha pensado antes.
Uma maneira muito útil de começar é reunir as crianças para criar o mapa da
comunidade onde se encontram, o que ajudará a decidir o que tem de aparecer no mapa da
escola e da comunidade. A habilidade das crianças para desenhar mapas precisos varia
muito de acordo com a sua idade. Mas se os diferentes estilos e habilidades forem aceites,
as crianças de todas as idades gostarão de produzir dados úteis para o mapa colectivo da
escola e da comunidade.
Se uma comunidade ainda não tem mapa, pode criar um simples a partir de um
rascunho. Idealmente, os mapas da escola e da comunidade têm de ser suficientemente
grandes para que as crianças possam localizar as suas casas e as dos seus amigos. Estes
mapas são uma forma de contribuição valiosa para a comunidade. Para criar um mapa, faz-se
o seguinte:
1.
Comece por reunir os alunos e fazer uma lista de todos os locais importantes na
comunidade (como por exemplo a escola, os templos, as casas, o centro de saúde, as
lojas, etc.) qualquer sítio com características físicas (como estradas, rios,
montanhas, etc.) e qualquer outro local importante onde os membros da comunidade
costumem encontrar-se (como os campos ou até os poços onde costumam ir buscar
água).
2. Corte vários pedaços de cartolina e desenhe estes locais importantes, as
respectivas características físicas e a sua localização. Se não tiver cartolina ou
outros materiais, use pedras, pedaços de madeira, corda ou paus. Também pode
querer usar uma variedade de itens, como quadrados em cartolina ou pedras para
representar as casas e paus para representar os rios. Mas assegure-se de que
está a ajudar as crianças a lembrar-se do que representa cada símbolo.
3. Peça às crianças que decidam qual a característica mais importante da comunidade,
como a escola, por exemplo. Peça-lhes que façam um símbolo especial para essa
característica fora da cartolina. Tem de ser diferente de todas as outras peças
para que se destaque. Servirá de “ponto de referência” do mapa (o local de que
todos se lembrem e em que se baseiem ao tentar situar os locais importantes e as
características na comunidade).
4. Coloque um grande pedaço de tecido, papel, ou outro material adequado para
escrever no chão; reúna as crianças à volta dele e peça-lhes que decidam onde pôr o
“ponto de referência” (como a escola) para que todas as casas se possam colocar
à volta. Por exemplo, se a escola estiver localizada perto das casas ou no centro da
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 17
comunidade, coloque-a no centro do mapa. Se estiver localizada longe das casas e
doutros sítios que costumam visitar, coloque-a ao lado do mapa.
5. Pergunte às crianças que outros locais importantes se encontram perto da
comunidade. Coloque os símbolos para estes locais no mapa para estabelecer os
limites.
6. Em grupo, decida quais as principais características físicas da comunidade (como as
estradas, os campos, as montanhas, os rios) e adicione-as ao mapa. Assegure-se de
que todas as crianças concordam com a colocação das características locais. Pode
querer deixar as crianças andar cuidadosamente à volta do mapa para verificar. Se
elas já criaram “mapas pessoais”, peça-lhes que olhem de novo para o mapa para
garantir que todas as características se encontram no mapa grande.
7. Quando todos concordarem sobre os locais importantes, as características físicas e
outras localizações no mapa, as crianças podem então desenhá-las com tinta,
canetas de feltro para torná-las permanentes no mapa, em vez de usar cartolina ou
símbolos que não ficarão permanentemente.
8. O mapa pertence à turma por isso tem de ser dinâmico, novas características
importantes serão acrescentadas à medida que as crianças vão pensando nelas. Para
começar a preencher o mapa e a identificar as crianças que não frequentam a
escola, as crianças têm de decidir quais os temas específicos e afixar símbolos de
papel no mapa para representá-los. Alguns dos temas mais evidentes para começar
são:
•
as casas de TODAS as crianças da comunidade, as idades das crianças e se
frequentam ou não a escola;
•
casas de pessoas importantes para o dia-a-dia das crianças;
•
sítios onde as crianças brincam ou trabalham;
•
sítios a evitar pelas crianças, como por exemplo os sítios perigosos (violência);
•
sítios de que as crianças gostam ou não gostam;
•
sítios onde as crianças vão sozinhas, com os pais, com familiares, com amigos,
com outros adultos; e
•
transportes (especialmente os que usam para ir e voltar da escola) e os meios
pelos quais andam (a pé, de bicicleta, de mota, de carro, etc.).
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 18
9
Depois da conclusão dos mapas, os alunos podem identificar as crianças da
comunidade que não estão a frequentar a escola e localizar as famílias destas
crianças. Os alunos, ao trabalhar com professores, pais e representantes da
comunidade, podem ajudar a motivar os pais a enviar os filhos para a escola. No
Nepal, no âmbito do projecto Community-Education Management Information
System (C-EMIS) apoiado por Save the Children (UK), as próprias crianças visitam
os pais das crianças que não frequentam a escola. Falam com os pais sobre as
razões pelas quais não mandam os filhos para a escola e o que pode ser feito para
mudar
Os mapas da escola e da comunidade têm de estar sempre actualizados e deverão
ser usados para identificar as crianças que podem não estar a frequentar a escola.
Consequentemente, a realização dos mapas pode tornar-se uma actividade permanente no
currículo e na aprendizagem das crianças. Além disso, a comunidade deve ter acesso fácil
ao mapa.
Talvez possa ser colocado num centro de informações da comunidade ou num sítio
comum de encontros para que os membros da comunidade possam comentá-lo. O mapa pode
também ser o começo do processo de desenvolvimento da comunidade para receber todas
as crianças na escola. Numa favela do nordeste da Tailândia, por exemplo, os
representantes da aldeia usaram inquéritos e mapas para encontrar estas crianças que não
frequentavam a escola, cujos nascimentos não tinham sido registados. Visitaram então os
pais das crianças, por vezes indo até distritos e províncias vizinhas para obterem os
documentos necessários para registar as crianças e inscrevê-las na escola. Hoje, todas as
crianças desta favela frequentam a escola!
Descobrir por que as crianças não frequentam a escola
Ao trabalhar com colegas e alunos conseguiu identificar quais as crianças que não
frequentam a escola na comunidade e talvez tenha pensado nalgumas das razões pelas quais
isso está a acontecer. A grande questão à qual tem de se responder agora é: “Quais os
principais factores que caracterizam as crianças que estão a ser excluídas da escola e
especialmente em comparação com as que estão em vias de frequentar a escola?”
Como vimos anteriormente, alguns factores podem ser visíveis, como por exemplo as
deficiências físicas, sensoriais ou intelectuais; menos visíveis como os cuidados inadequados
ou a subnutrição; ou mesmo factores considerados praticamente imperceptíveis como os
papéis sociais ou responsabilidades de crianças nas famílias.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 19
Actividade Prática: Criar Perfis infantis
O Perfil Infantil é uma ferramenta para promover a educação inclusiva e a equidade na
turma. É usada em vários países de África, América Central, assim como no Centro, Sul e
Sudeste da Ásia. Um perfil infantil:
•
ajuda os membros da comunidade e os professores a identificar as crianças que não
frequentam a escola e porquê, assim como as que têm mais tendência para a
abandonar.
•
mostra a diversidade das crianças na comunidade em termos de características
individuais e das famílias; e
•
ajuda no planeamento de programas a fim de ultrapassar os factores que excluem
as crianças da escola.
Os perfis infantis são usados na Tailândia como parte do Sistema de Informação de
Gestão Escolar (SIGE) assim como nas Filipinas para o Sistema de Seguimento de Alunos
(SSA), ambos desenvolvendo Sistemas Escolares Amigos da Criança. No Bangladesh e
noutros países da Ásia Central e do Sul, os perfis infantis são usados tendo por base a
comunidade como parte do Sistema de Informação de Gestão de Educação centrado na
Criança/Comunidade (SIGEC). Os representantes da comunidade recolhem as informações
de todas as crianças em todas as casas da comunidade. Identificam aquelas crianças que
deveriam frequentar (ou frequentarão em breve) a escola e recebem-nas. No entanto, este
sistema, assim como o SIGE e o SSA, quando são usados ao nível da comunidade (não
apenas na escola) pode identificar as crianças fora da escola assim como as que a
frequentam mas que não estão a aprender o suficiente. Para criar um perfil infantil, siga os
passos abaixo indicados.
1.
Com base no mapa da escola e da comunidade ou nos registos de recenseamento da
comunidade, faça uma lista de todas as crianças que não frequentam a escola.
2. Com os seus colegas e as pessoas que ajudaram a criar o mapa da escola e da
comunidade, faça um “brainstorm” sobre os factores (obstáculos) que podem levar
as crianças a não frequentar a escola. Pode usar como referência as listas que
produziu na primeira Ferramenta deste Manual de Apoio e categorizar os factores
com base nos que estão associados à escola, à comunidade, à família e à criança;
mas lembre-se de que alguns factores podem encontrar-se em mais do que uma
categoria. Estes factores não são necessariamente as causas reais, mas os que têm
de ser investigados para cada criança.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 20
3. A seguir, usando estes factores, crie uma lista de perguntas que, quando
respondidas, podem dar-lhe algumas ideias sobre o porquê de uma criança não
frequentar a escola. Abaixo encontrará um exemplo de uma lista de perguntas
usada nas Escolas Amigas das Crianças nas Filipinas e na Tailândia para perceber a
situação das crianças de origens e capacidades diferentes que não aprendem
adequadamente.2
As perguntas foram elaboradas de forma a descobrir a que ponto os obstáculos acima
referidos afectam a aprendizagem e a desistência escolar das crianças. Poderá desenvolver
a sua própria lista de perguntas baseada nas barreiras que lhe parecem frequentes na sua
comunidade. Assegure-se de que inclui os representantes da comunidade neste processo.
Podem ajudar a identificar TODAS as crianças que não frequentam a escola.
Barreira: Diferenças Culturais e Tradição Local
•
Qual a nacionalidade ou a origem étnica da criança?
•
Qual a religião da criança?
Barreira: Discriminação de Género
•
Qual o sexo da criança?
•
Qual a idade da criança?
Barreira: Registo de Nascimento
•
O nascimento da criança estará registado?
Barreiras: Horários de Trabalho e a Escola: a Necessidade de Trabalhar
•
Será que a criança trabalha dentro ou fora de casa para ganhar dinheiro?
Barreiras: Atitudes Negativas; Medo da Violência
2
Pode encontrar exemplos de Perfis Infantis de outros países, como El Salvador e Uganda,
em: Toolkit for Assessing and Promoting Equity in the Classroom, produzido por Wendy
Rimer et al. Editado por Marta S. Maldonado e Angela Aldave. Creative Associates
International Inc., USAID/EGAT/WID, Washington DC. 2003.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 21
•
Se a criança já estiver a frequentar a escola, qual o seu estatuto de aprendizagem?
•
Se a criança já estiver a frequentar a escola, qual a sua assiduidade?
•
Se a criança já estiver a frequentar a escola, costuma abandonar as aulas?
Barreiras: Doença e Fome; HIV/SIDA; Gravidez
•
Qual o estado de saúde e nutricional da criança?
Barreiras: Instalações da Escola e Localização
•
Será que a criança tem alguma deficiência que afecta o seu acesso às instalações da
escola?
•
Onde se situa a casa da criança em relação à escola (distância, duração do
trajecto)?
Barreiras: Cuidados; Conflitos
•
Que idade têm os pais da criança?
•
Ambos os pais ainda estão vivos? Se não for o caso, qual dos pais é que faleceu?
•
Que nível de educação tem cada um dos pais?
•
Algum familiar já abandonou a escola? Porquê?
•
Os pais da criança ainda estão casados?
•
Com quem mora a criança?
•
Quantas crianças em idade pré-escolar há em casa?
•
Quem cuida principalmente das crianças em idade pré-escolar?
•
Algum dos pais já emigrou para trabalhar?
Barreiras: Pobreza e Valor Prático da Educação; Custos Escolares
•
Qual a principal ocupação de cada um dos pais da criança?
•
Qual a segunda ocupação de cada um dos pais da criança (se houver)
•
A família possui terras para gerar rendimentos; se for caso disso, quantas terras?
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 22
•
A família arrenda terras para rendimento; nesse caso, quantas terras?
•
Qual o rendimento médio da casa por mês?
•
A família pede dinheiro emprestado para gerar rendimentos? Se assim for, quanto
e quantas vezes ao longo do ano?
•
Quantas pessoas residem na casa?
•
A família é membro de algum grupo de desenvolvimento da comunidade?
4
Elabore um questionário para recolher as respostas a estas perguntas. Este
questionário pode ser a lista de perguntas acima mencionada para as quais as
respostas são distintas ou pode ser um tipo de Perfil Infantil mais formal, como o
exemplo dado no fim desta Ferramenta. Depois de terminado, o questionário pode
ser então: (a) enviado para as casas das crianças para ser preenchido e reenviado
para a escola ou para o representante da comunidade; (b) preenchido por um
professor durante as visitas domiciliárias; ou (c) preenchido com base em
entrevistas com as próprias crianças ou com os pais quando vão buscar os filhos à
escola.
5
Depois de preenchido e reenviado o questionário, crie um estudo de caso descritivo
para cada criança que incorpore as respostas às perguntas acima mencionadas. A
seguir, encontrará um exemplo de estudo de caso. Este estudo de caso ajudá-lo-á a
identificar, relacionar e analisar os factores que podem afectar a aprendizagem
das crianças.
A AYE pertence ao grupo étnico Hming que vive no nordeste da Tailândia. Calcula-se que
ela tenha 9 anos, mas não tem certidão de nascimento. O pai faleceu. A mãe tem 30 anos e
não voltou a casar. A mãe da Aye é analfabeta. A sua ocupação principal é cultivar arroz
num pequeno pedaço de terreno. A avó cuida da Aye e do irmão de cinco anos que não
frequenta a pré-escola. A família é pobre. Ganha menos de 500 baht por mês. Durante a
temporada em que não se cultiva, a mãe migra para Banguecoque para trabalhar como
operária. A família da Aye não pertence a nenhum grupo de desenvolvimento da aldeia e não
tem acesso aos recursos da comunidade. A Aye andou no 1º e 2º anos, mas abandonou a
escola assim que passou para 3º ano. A mãe (dela) não conseguia pagar o uniforme escolar
da filha e suportar os custos de transporte para a escola, que se encontra a 25 quilómetros
de casa. Quando a Aye andava na escola, metade das faltas eram desculpas enquanto a
outra metade se devia-se a doença. É frequentemente afectada por infecções respiratórias
agudas (IRA) e tem carência leve de iodo.
6
Depois de completar estudo de casos, observe-os cuidadosamente para ver que
factores podem estar a afectar a capacidade de cada criança frequentar a escola e
aprender. Sublinhe-os de forma a ficarem mais destacados e a relacioná-los. Para a
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 23
Aye, podem ser as diferenças culturais, a falta do registo de nascimento, a
pobreza, os cuidados desadequados, a falta de acesso aos recursos fora da família,
assim como o fraco estado de saúde e nutricional.
7
Posteriormente, compare as listas de factores entre as crianças. Que factores são
mais frequentes? Use estes factores como pontos de partida para desenvolver
planos de acção e falar das causas pelas quais as crianças não andam na escola. A
próxima Ferramenta deste Manual de Apoio mostra-lhe como criar esses planos.
Exemplo de um Questionário de Perfil Infantil
1.
Nome da criança______________________ Sexo_____ Idade_____________
Morada________________________________________________________
Nacionalidade__________ Origem étnica_________Religião________________
Data de Nascimento____ Naturalidade____ Nascimento registado: Sim__ Não__
(verifique)
2. Nome do pai___________________ Idade ______ Vivo_____ Falecido_______
3. Nome da mãe__________________ Idade ______ Viva _____ Falecida_______
4. Estado civil dos pais (círculo): Juntos
Viúvo(a)
Divorciados
Separados
5. Com quem mora a criança? (círculo): Ambos os pais Mãe Pai Outro (especificar)
6. Faça uma lista de todos os familiares que vivem na mesma casa da criança.
(Preencha a informação necessária na tabela abaixo.)
Membros da
Nível de Educação (especificar o nível mais alto atingido para Relação com a
família
Sexo Idade
cada categoria relevante)
criança
Nome
MF
Sem EF*
E. não F.
* EF = Educação Formal
*E-Não-F = Educação não formal
PréEsc.
Elem,
Sec.
Facul.
Ocupação
(especificar)
Prim.
Sec.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 24
7. Os pais ou a família já emigraram? (Escolha sim ou não e preencha as informações
apropriadas)
Pai.
Quando_____________ (especificar o mês e o ano)
Sim
Para: Cidade_________; Região________; País ___________
Por quanto tempo ______ (especificar mês e ano)
Não
Mãe
Quando _____________ (especificar o mês e o ano)
Sim
Para: Cidade __________; Região ________; País __________
Por quanto tempo _______ (especificar mês e ano)
Não
Toda a família
Sim
Quando _____________ (especificar o mês e o ano)
Para: Cidade _________; Região _________; País __________
Por quanto tempo ______ (especificar mês e ano)
Não
8. Rendimento familiar mensal (escolher)
Menos de 1000 baht Entre 5001-8000 baht
Entre 1000-2500 baht Entre 8001-10000 baht
Entre 2501-5000 baht Mais de 10000 baht
9. Prestação de cuidados a crianças em idade pré-escolar
Quantas crianças em idade pré-escolar na família não frequentam a escola?
Quem cuida delas durante o dia?
Pais _______ Outros familiares (especificar)
Creche da comunidade_________ Educador pago _____________
Outros (especificar) ____________________
10. Propriedade de Terras/Casa
A família do aluno tem acesso à terra para gerar rendimentos?
(Não incluir a terra onde a casa se encontra)
Se Sim: Proprietário ______________ hectares (área da terra)
Arrendado _______________ hectares
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 25
Propriedade familiar ________ hectares
Não: ___________
Outros (especificar):
____________________________________________
A família do aluno tem casa?
Sim _________ Não ____________
Se sim: Proprietária _________ Arrendada __________
Tipo de Moradia/Habitação (especificar) ___________________
11. Distância de casa à escola e meios de transporte.
Qual a distância da escola à casa/residência da criança? _______ (especificar
distância)
Qual a duração do trajecto da casa/residência da criança à escola?
____________ (especificar)
Que meios de transporte usa a criança para ir à escola? (escolher)
A pé De carro De mota
De Bicicleta De Táxi Bicicleta Autocarro público
Outros (especificar) _________
12. Algum familiar já abandonou a escola? ____ Sim ____ Não
Se sim, por que razões
__________________________________________________
13. O aluno já andou na escola? ___ Sim ___ Não; se sim, quanto tempo _________:
14. A criança já abandonou a escola? ____ Sim ____ Não;
se sim, quanto tempo __________________;
se sim, por que razões ________________________________________
15. A família faz parte de alguma organização de desenvolvimento da comunidade?
____ Sim ____ Não
Se sim, especifique a organização _________________________________
16. A criança tem acesso a algum tipo de ajuda financeira para andar na escola?
____ Sim ____ Não
Se sim, de que fonte(s) (especificar) ________________________________
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 26
17. Se a criança já andou na escola, ela faltava muito às aulas? ____ Sim ____ Não
Se sim, porquê _______________________________________________
18. Se a criança já andou na escola, quantas negativas tinha?
Nenhuma_____________
Até 25% _____________
26 – 50% _____________
Mais de 50% __________
19 A criança é subnutrida (demasiado magra ou pequena para a idade)? __ Sim __ Não
20 A criança tem possibilidades de almoçar? Sim_____ Não______
A criança costuma almoçar regularmente?
Sim Não
Se sim, especifique __________________________________,
21. A criança tem alguma deficiência? Se sim, especifique _____________________
22. A criança tem alguma infecção crónica?
Se sim, especifique __________________________________, OU
A informação é confidencial? ____________________________ Sim
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 27
Ferramenta 3.3
ACÇÕES PARA CONSEGUIR QUE AS CRIANÇAS VÃO À
ESCOLA
Agora que identificámos as crianças que não frequentam a escola e algumas das razões
pelas quais isto pode acontecer, podemos começar a planear como fazer para que vão à
escola. Esta secção começa por descrever o processo de planeamento de acções (também
chamado de micro-planeamento), seguido de algumas ideias de acções que pode
experimentar ou adaptar à sua escola e comunidade.
Planear acções
Na Ferramenta anterior, utilizámos o mapa da escola e da comunidade para localizar as
crianças que não andavam na escola. Criámos um mapa com a ajuda dos membros da
comunidade ou dos alunos e partilhámos a nossa informação com outros. Também
recolhemos informações sobre cada criança que não frequenta a escola, criámos perfis
infantis e identificámos algumas das barreiras que afastam as crianças da escola. Agora,
temos de começar a agir para remover estas barreiras. Para isso, pode seguir os passos
abaixo mencionados e criar um plano de acção eficiente.3 Este processo assemelha-se ao
que se encontra descrito no Manual de Apoio 1 deste Guia de Ferramentas sobre os passos
para planear um ambiente inclusivo e amigo da aprendizagem. No entanto, a ferramenta
seguinte foi adaptada para que possa começar a trabalhar especificamente na remoção das
barreiras à inclusão e conseguir que as crianças vão à escola.
1
Forme uma equipa de pessoas que o possam ajudar a reflectir sobre a informação
recolhida através do mapa da escola e da comunidade e dos perfis infantis, assim
como a planear acções adequadas. Podem ser as mesmas pessoas que faziam parte
do processo de criação de um AIAA descrito no Manual de Apoio 2 ou as que
participaram especificamente no exercício de cartografia. Em alternativa, pode
aumentar a sua equipa incluindo outras pessoas que possam ser muito úteis para
planear e, especialmente, para agir.
3
Adaptado de: Toolkit for Assessing and promoting Equity in the Classroom, produzido por
Wendy Rimer e outros. Editado por Marta S. Maldonado e Angela Aldave. Creative
Associates International Inc., USAID/EGAT/WID, Washington DC. 2003.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 28
2
Divida esta equipa em grupos de acordo com os papéis ou interesses de cada um, por
exemplo,
professores,
membros
de
grupos
de
mulheres
da
comunidade,
representantes da comunidade, alunos, pessoas oriundas de sectores privados, etc.
3. Depois, cada grupo deverá pensar numa lista de acções que podem empreender –
como grupo – para receber todas as crianças na escola e na aprendizagem. Cada
grupo deverá considerar os desafios para a implementação de cada acção. Qual a
probabilidade de êxito? Quais os obstáculos para implementar cada acção? Como
podemos evitar estas barreiras? A fim de evitar a concepção de planos que possam
falhar, é importante ter em conta estas barreiras.
4. Depois de cada grupo ter decidido algumas possíveis acções para conseguir que as
crianças vão à escola, reagrupe todas as equipas para partilhar ideias. Trabalhem
juntos, identifiquem as acções que podem ser realizadas na prática tendo em conta
as seguintes questões e qualquer outra que julgue apropriada.
a.
Que acções podem ter maior impacto nas crianças ou que acções têm de ser
prioritárias em situações particulares? Pode querer começar por dar
prioridade às suas acções.
b. Existem algumas acções parecidas de um grupo para outro que se possam
unir? Trabalhar em conjunto com acções semelhantes pode ajudar a
intensificar os esforços, poupar recursos e aumentar as oportunidades de
êxito.
c.
Que potenciais acções mostram maior probabilidade de êxito e terão de ser
iniciadas em primeiro lugar? A melhor estratégia é começar de forma
simples para ter êxito e depois passar para uma acção mais difícil. Ou seja,
construída no sucesso! Por exemplo, pode ser melhor começar por criar uma
escola mais acessível às crianças com deficiências e depois passar para o
desafio mais complicado de melhorar as atitudes para com estas crianças na
turma.
d. Que acções podem ser realizadas usando os recursos existentes? Quais
requerem uma ajuda exterior? Para conseguir estes recursos exteriores,
muitas vezes, é necessário mostrar aos potenciais doadores com quem
trabalha, ou melhor, os recursos de que já dispõe. Daí, comece pelo que
pode fazer agora, enquanto trabalha para o que é necessário a partir de
outras pessoas para realizar acções posteriores.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 29
5. Depois, é aconselhável trabalharem juntos para desenvolver planos das acções que
foram decididas acima. Estes planos de acção têm de conter os seguintes
elementos:
a.
Os objectivos que quer cumprir; por exemplo, aumentar o acesso à escola
para crianças de origens e capacidades diferentes.
b. As estratégias ou os métodos que são necessários para implementar
actividades; por exemplo, reuniões com os pais das crianças de origens e
capacidades diferentes a fim de descobrir as necessidades destas últimas;
seguem-se reuniões com os directores e professores para avaliação das
instalações da escola e as actividades que têm de ser realizadas para as
tornar mais acessíveis e amigas.
c.
As actividades específicas e a duração de cada uma, como as que foram
acima mencionadas.
d. As pessoas específicas que vai tentar alcançar (por exemplo, pais de
crianças de origens e capacidades diferentes, as próprias crianças) e as que
participaram nas actividades (directores, professores, membros da AP,
alunos, etc.)
e.
Que recursos precisará e como pode consegui-los?
f.
Que critérios serão usados para avaliar o êxito do seu plano de acção (por
exemplo, todas as crianças na escola)
6. Especialmente se várias equipas estiverem a trabalhar com acções diferentes,
assegure-se de que tenham várias oportunidades para partilhar as experiências
vividas. As oportunidades podem surgir para relacionar as acções entre as equipas.
7. Proporcionar oportunidades para que todas as equipas possam rever e observar o
que estão a fazer; para reflectir no que se está a ser, ou já foi feito; avaliar o nível
de sucesso (o que funciona e o que não funciona). Use as informações para decidir
se quer continuar com a actividade como planeado ou se a vai alterar e aplicar então
esta decisão (faça-o!).
Ideias para agir
Esta secção é um “gerador de ideias”. Olhe brevemente para as principais barreiras à
aprendizagem inclusiva de que falámos anteriormente e apresente ideias sobre como podem
ser ultrapassadas baseando-se nas experiências das escolas e das comunidades onde estão
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 30
a trabalhar no desenvolvimento da aprendizagem inclusiva. São ideias que têm de ser em
consideradas e expandidas, tendo por base a sua situação. Podem ser também usadas como
ponto de partida para os planos de acção.
Ambiente da Criança
Registo de Nascimento. As crianças sem certidão de nascimento podem não andar na
escola ou pode ser-lhes apenas permitido frequentar a escola durante uns anos. O que
podemos fazer para ajudar estas crianças?
•
Trabalhar com as comunidades e entidades governamentais locais para organizar?
Fazer “campanhas de registo de nascimento” anuais para as crianças terem
certidões de nascimento.
•
Contactar com os centros de saúde e os hospitais da comunidade e trabalhar com
eles para desenvolver estratégias para incentivar os novos pais a registar os filhos
assim que nascem.
Discriminação e estigmatização do HIV/SIDA. As crianças afectadas pelo HIV/SIDA
são menos propensas a frequentar a escola. Podem necessitar de cuidados de um familiar ou
até serem activamente excluídas da escola por medo. O que podemos fazer para ajudar?
•
Colaborar com organizações locais de SIDA para organizar workshops de
sensibilização sobre HIV/SIDA na sua escola e comunidade e aumentar o
conhecimento sobre o assunto.
•
Falar sobre as necessidades e as preocupações dos pais cujas crianças não estão
afectadas pelo HIV (também têm direitos!) e como podem ser inseridas quando as
crianças afectadas pelo HIV vêm à escola.
•
Desenvolver e reforçar as políticas de saúde das escolas que acolhem as crianças
afectadas pelo HIV na escola, que têm em conta as suas necessidades e as
protegem da discriminação e da violência.
•
Estabelecer clubes de aconselhamento de grupos como no caso de estudo que se
segue.
Aprender com a Experiência: o Projecto HIV/SIDA de Thika
O FAWE Quénia (FAWEK) optou por trabalhar com o Distrito de Thika porque 17% das
crianças da escola primária e 22% dos alunos da secundária estavam infectadas pelo HIV.
O FAWEK orientou as crianças da escola primária nos primeiros anos da adolescência (1013 anos) com o objectivo de estabelecer clubes de aconselhamento de grupo. Estes clubes
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 31
proporcionariam um caminho para os rapazes e para as raparigas adquirirem conhecimentos
básicos, competências e atitudes sobre a sexualidade na adolescência, questões de saúde
reprodutiva e doenças sexualmente transmissíveis, incluindo HIV/SIDA. O projecto
orientou as classes primárias superiores a fim de enfatizar a abstinência e aprender a
dizer Não ao sexo, que é o caminho principal para a transmissão do HIV/SIDA.
Foi organizado um workshop para 62 professores de 32 escolas primárias. Os
professores serviram, subsequentemente, de padrinhos dos clubes de aconselhamento de
grupo nas escolas e forneceram serviços de orientação e aconselhamento. Num workshop
muito participativo, os professores tinham conhecimento, competência e atitudes
adequadas para aconselhar sobre o HIV/SIDA e foi-lhes fornecido material de recurso
para usar nas escolas.
Sessenta e quatro alunos, um rapaz e uma menina de cada uma das 32 escolas,
acompanhados por um professor, participaram num workshop de dois dias. O professor
serviu, mais tarde, como padrinho principal dos clubes de aconselhamento de grupo e os
alunos como representantes dos clubes. Uma exibição sobre o HIV/SIDA, um filme “Bush
Fire” e as apresentações de poemas e paródias dos alunos com mensagens sobre o
HIV/SIDA completaram a formação. Os 64 rapazes e meninas, treinados como
conselheiros juntamente com os professores, estão agora a consciencializar os colegas
sobre o HIV/SIDA numa grande escala, começando na escola onde andam.
Usam músicas, poemas, dramas, debates e talk shows, assim como apoios. Cada uma
das 32 escolas tem uma média de 250 meninas. O projecto alcançou cerca de 8000 meninas
e 800 professores. Os apoios entre pares são os momentos disponíveis durante as
assembleias e reuniões de pais para fazer apresentações. Sente-se o impacto para além das
escolas e as mensagens estão a ser transmitidas nas igrejas, nos mercados e nas
comunidades.
HIV/AIDS and Girls’ Education: The FAWE Kenya Experience.
Forum for African Women Educationalists. Nairobi, Kenya. www.fawe.org
Medo da Violência. As crianças podem não querer ir à escola se estão com medo da
violência. O que podemos fazer para mostrar que a situação da escola está melhor?
•
Trabalhar com crianças e membros da comunidade para cartografar os locais onde a
violência ocorre nas escolas, assim como na ida ou na vinda para casa. Encontrará
mais pormenores a esse respeito no Manual de Apoio 6 sobre a criação de um AIAA
saudável e protector).
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 32
•
Colaborar com os representantes da comunidade e pais para organizar actividades
de “supervisionamento de crianças”, onde os directores, pais ou outros membros da
comunidade estão atentos a áreas de potencial ou grande violência dentro e fora da
escola. Podem levar as crianças para sítios seguros quando necessário.
Doença e Fome. As crianças com fome ou doentes não aprendem correctamente. O que
é que podemos fazer para ajudar estas crianças? (NOTA: no Manual de Apoio 6 encontrará
mais acções que foram discutidas).
•
Estabelecer uma alimentação escolar para os programas educativos que fornecem
almoços ou lanches frequentes e nutritivos. Isto pode beneficiar mais as meninas.
•
Trabalhar com os prestadores de serviços de saúde locais a fim de estabelecer
rastreios frequentes de saúde, dentários e nutricionais.
Gravidez. Nalguns países e comunidades, as jovens que engravidam não são aceites nas
escolas, embora tenham direito à educação. O primeiro passo no cumprimento deste direito
é estabelecer políticas de saúde escolares que garantam uma formação escolar
complementar a alunas grávidas e mães jovens. Falamos dos passos do processo de criação
de políticas no Manual de Apoio 6.
Ambiente Familiar
Pobreza. Enquanto a educação pode contribuir para a redução da pobreza, a pobreza
bloqueia de facto a educação de muitas crianças. Como a causa da pobreza é económica, as
estratégias eficientes para alcançar as crianças pobres e levá-las à escola têm de ser,
muitas vezes, baseadas nos incentivos económicos a curto ou a longo prazo para as crianças
e a família.
Na Tailândia, as escolas amigas das crianças usam informações sobre as conclusões
educativas e as origens familiares para identificar as crianças que aprendem pouco e são
mais propensas a abandonar a escola, muitas vezes porque as famílias têm pouco dinheiro e
valorizam mais o trabalho das crianças do que a educação. A estas crianças são dadas
prioridades de formação com capacidade de sustento em áreas como a tecelagem de seda e
de algodão, a costura, a carpintaria, a produção agrícola, a digitação, a formação em
computadores e áreas semelhantes. Esta formação aumenta o rendimento da família
enquanto as crianças estão na escola e proporciona às crianças aptidões que podem usar ao
longo da vida. Algumas destas crianças até receberam prémios regionais e nacionais pelo
trabalho
efectuado.
Nalgumas
escolas,
familiares
destas
crianças
servem
de
“professores” para ensinar às crianças artes consagradas, como por exemplo tingir fios de
seda e tecê-la nos padrões tradicionais. Uma participação deste tipo aumenta o valor da
escola aos olhos dos pais através da melhoria dos meios de subsistência e sublinhando o
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 33
valor de manter tradições culturais importantes. Também aumenta a comunicação entre os
pais e as crianças sobre o que o futuro – e a educação dos filhos – pode trazer à família.
Será que uma estratégia deste tipo pode fazer parte do seu currículo escolar?
Valor da Educação. Muitas vezes, os pais pobres não conseguem proporcionar as
necessidades básicas para viver. Daí, as crianças poderem tornar-se fontes imediatas de
rendimento familiar à custa da educação. Isto acontece especialmente quando as famílias,
ou até as próprias crianças, não acham que a educação preenche as necessidades do dia-adia. Daí, não valorizarem a educação e não entenderem por que razão as crianças devem ir
à escola. O que se pode fazer para ajudar estas crianças?
•
Incorporar “caminhadas na comunidade” nos planos de aulas, onde as crianças
visitam a comunidade para ver a importância das actividades do dia-a-dia.
•
Incentivar os pais e outros membros da comunidade a tornarem-se “assistentes dos
professores” na turma partilhando assim os seus conhecimentos locais, explicando a
importância da vida e falando sobre a relevância do que se aprende nas aulas.
Cuidados inadequados. O melhor cuidado que recebe uma criança é o dos pais, o que por
vezes não é possível, principalmente se os pais deixam a casa para ir trabalhar. Em tais
casos, as crianças podem estar ao cuidado de outras pessoas cujos conhecimentos,
recursos limitados e atenção podem não ser suficientes para fornecer cuidados adequados.
O que podemos fazer para ajudar estas crianças?
•
Em dias excepcionais, convidar os prestadores de cuidados a visitar a escola.
Mostrar-lhes o trabalho das crianças e fazer discursos informais ou sessões
educativas participativas sobre a melhoria da saúde e do bem-estar das crianças
através de cuidados mais adequados.
•
Incentivar conferências frequentes entre professores e prestadores de cuidados
para falar sobre o progresso da aprendizagem das crianças e mostrar como
cuidados adequados podem melhorá-la.
•
Obter materiais de assistência infantil de entidades governamentais e organizações
não-governamentais. Usá-los nos programas educativos de saúde escolar e sobre a
vida da família com as crianças e mandá-los, frequentemente, para casa pelas
crianças para que elas os possam ler aos familiares.
Ambiente da comunidade
Discriminação de géneros. Nalgumas sociedades, se têm de escolher entre mandar uma
menina ou rapaz para escola, costumam mandar o rapaz. As meninas são mais propensas a
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 34
cuidar da família e a trabalhar. O que podemos fazer para incentivar o acesso à escola
destas meninas?
•
Acompanhar a assiduidade e recolher informações sobre meninas que não andam na
escola (por exemplo, através de perfis infantis).
•
Mobilizar os representantes da comunidade (e especialmente religiosos) para
incentivar as meninas a frequentar a escola, talvez como parte da criação de grupos
educativos da comunidade ou como actividade da AP. Forneça-lhes materiais
informativos para serem distribuídos nas casas e mostrar o valor da educação das
meninas.
•
Contar o que se ensina nas turmas no dia-a-dia das meninas e das famílias para
incentivar os pais a mandar as filhas à escola.
•
Defender junto dos pais a necessidade de proteger e cuidar das crianças de forma
igual.
•
Falar com os pais para ver se as tarefas domésticas podem ser reorganizadas e
permitir que as meninas vão à escola frequentemente.
•
Ver se é possível obter um horário flexível para meninas que têm outras
responsabilidades. Colabore com organizações locais para organizar actividades da
comunidade que dêem tempo às meninas para frequentar a escola, como os
programas de cuidados de crianças.
•
Identificar e apoiar as soluções locais, como por exemplo a organização da
escolaridade alternativa de boa qualidade, como a escolaridade em casa, em locais
onde as meninas não podem frequentar escolas formais.
•
Incentivar a criação de programas de incentivos para raparigas, como pequenas
bolsas de estudo, subsídios, programas de alimentação escolar e doações de
materiais escolares e uniformes.
Diferenças culturais e tradição local. As escolas inclusivas abraçam a diversidade e
valorizam as diferenças. Para as crianças que não falam outra língua ou oriundas de culturas
diferentes, temos de realçar o seguinte:
•
Colabore com os pais e os membros da comunidade para modificar as aulas e os
materiais de modo a representar as diferentes culturas e línguas da comunidade.
Isto ajudará a garantir que a comunidade encontra materiais úteis e autênticos e a
incentivar os pais a mandar os filhos para a escola. Encontrará formas de o fazer no
Manual de Apoio 4 deste Guia de Ferramentas.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 35
•
Use histórias locais, contos, lendas, músicas e poemas no desenvolvimento das
aulas.
•
Para as crianças que não falam a língua de instrução na sua turma, trabalhe com
professores bilingues ou outros que falem a língua da criança (pode ser a família ou
membros da comunidade) para desenvolver um curso de formação de língua
adequado para a turma.
Ambiente escolar
Custos. Para muitas famílias pobres, os custos directos e indirectos de mandar os filhos à
escola podem ser ultrapassados. O que podemos fazer para ajudar estas crianças?
•
Fale com directores, pais e membros da comunidade sobre que custos directos e
indirectos podem manter as crianças afastadas da escola.
•
Identifique maneiras de reduzir (ou cancelar) estes custos; por exemplo, através
de programas de incentivos – como pequenas bolsas escolares, subsídios, comida,
material escolar e uniformes – possivelmente coordenados através de organizações
locais de caridade.
Localização. Especialmente em espaços rurais, se a escola se situa longe da
comunidade, as famílias podem não querer mandar os filhos para a escola. O que podemos
fazer para ajudar estas crianças?
•
Saiba quais as crianças se encontram mais longe da escola, por exemplo através dos
mapas da escola e da comunidade e perfis infantis.
•
Colabore com os pais e os membros da comunidade para saber como levar estas
crianças à escola e depois para casa em segurança.
Horários. Algumas crianças podem querer estudar. Mas porque os horários e os
calendários não coincidem com os seus horários de trabalho, estas crianças não podem
aprender durante as horas normais de escola. Além disso, as meninas assim como os
rapazes podem desistir quando a escola interfere nos deveres familiares. O que podemos
fazer para ajudar estas crianças?
•
Veja se é possível ter um horário escolar flexível para as crianças que precisam de
trabalhar.
•
Fale com os serviços sociais locais ou com as organizações de caridade para ver se
já existem programas educativos para crianças que têm de trabalhar ou vivem nas
ruas, ou se podemos criar estes programas; por exemplo, programas pós-escola ou
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 36
ao fim-de-semana onde as crianças “ensinam” os seus colegas fora da escola no local
da criança ou em centros de juventude.
Instalações. Se as nossas escolas não têm instalações adequadas, essa circunstância
pode ser uma das razões pelas quais as crianças não andam na escola. Consequentemente,
temos de perceber como é que os ambientes sociais e físicos das nossas escolas podem
mudar para incluir todas as crianças. Por exemplo, se uma criança com deficiência não pode
ir a uma aula no segundo andar da escola, a solução é simplesmente mudar a aula do segundo
para o primeiro andar. O que podemos fazer para ajudar estas crianças?
•
Colabore com as famílias e os representantes da comunidade para construir
instalações sanitárias seguras e casas de banho separadas para rapazes e meninas
(ver Manual de Apoio 5).
•
Determine as necessidades físicas e emocionais das crianças de origens e
capacidades diferentes. Identifique como a escola pode ser trabalhada para se
adaptar às necessidades educativas.
Preparação. Muitas vezes, as escolas estão reticentes em incluir completamente as
crianças de origens e capacidades diferentes nas turmas porque os professores podem não
saber como ensinar estas crianças. O que podemos fazer para ajudar estes professores e
estas crianças?
•
Descubra quais as crianças que não estão a frequentar a escola e porquê. Quais as
suas origens e as suas capacidades? Quais as necessidades especiais de
aprendizagem?
•
Contacte
com
as
entidades
educativas
governamentais,
organizações
não-
governamentais locais, instituições de formação para professores, instituições de
caridade locais, fundações ou até mesmo agências internacionais que trabalhem em
prol da melhoria da educação das crianças no seu país. Pergunte-lhes se conhecem
algum professor ou outros profissionais que já tenham dado aulas a crianças de
origens e capacidades diferentes como as suas.
•
Contacte estes professores e pergunte-lhes se você ou algum dos seus colegas
podem visitar a escola onde trabalham para ver como dão aulas a crianças com
necessidades especiais. Se não conseguir visitar estas escolas por ser muito caro,
pergunte-lhes se podem mandar-lhe alguns recursos que possa usar numa das suas
aulas, como exemplos de planos de aulas, descrições de métodos de ensino ou
exemplos de materiais pedagógicos que se possam reproduzir facilmente.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 37
•
Se os recursos estiverem disponíveis, peça-lhes também que visitem a sua escola
para dar uma opinião, assim como para falar com os directores e outros professores
sobre a importância do ensino a crianças de origens e capacidades diferentes.
•
Acima de tudo, não perca a motivação. Crie uma rede e um bom relacionamento com
as pessoas que sabem como proporcionar ensino a crianças de origens e capacidades
diferentes e mantenha contacto com elas.
O que é que um professor pode fazer para que as crianças com deficiências
tenham mais acesso à escola e a uma possível aprendizagem
1.
Por vezes, as crianças com deficiências acham difícil ir à escola. Tente organizar
transportes para a escola e tornar a escola acessível com a colocação de rampas e
outros recursos que respondam às necessidades especiais.
2. Quando uma criança com deficiência vai pela primeira vez à escola, fale com o
familiar que a acompanha. Descubra quais as deficiências da criança e o que ela
consegue fazer apesar da deficiência. Pergunte se ela tem alguns problemas ou
dificuldades para fazer certas coisas.
3. Quando uma criança começa as aulas, visite os pais de vez em quando para falar com
eles sobre o que está a fazer para facilitar a aprendizagem da criança.
4. Pergunte se a criança tem de tomar alguma medicação durante as aulas.
5. Se não tem tempo suficiente para dar muita atenção à criança, peça à escola ou
à comunidade para encontrar alguém que o ajude. Esta pessoa pode dar à criança
uma ajuda extra durante as horas de aulas.
6. Assegure-se de que as crianças conseguem vê-lo e entendê-lo nas aulas. Escreva
cuidadosamente para que possam ler e perceber. Deixe também uma criança com
deficiência sentar-se à frente da sala para ver e ouvir melhor.
7. Descubra se
a criança
e os
pais
têm
problemas com
a
escolarização.
Pergunte à família se acham que os outros alunos ajudam a criança e se ela se
dá bem na escola.
UNICEF. http://www.unicef.org/teachers/protection/access.htm
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 38
Ferramenta 3.4
O QUE APRENDEMOS ?
As barreiras à aprendizagem inclusiva podem ser visíveis, como por exemplo as deficiências
físicas; menos visíveis, como os cuidados inadequados ou a subnutrição que afectam a
aprendizagem e a assiduidade; ou geralmente aceites e não reconhecidas, como as atitudes
tradicionais, papéis dos géneros ou papéis habituais e as responsabilidades das crianças nas
famílias.
As crianças podem ser excluídas da escola por várias razões inter-relacionadas que
nunca pensámos pudessem existir. Por exemplo, as tradições culturais podem impor que as
crianças que vivem nas comunidades rurais tenham de começar a trabalhar cedo na infância
e não ir à escola. Isto pode ser especialmente o caso das famílias pobres que não
conseguem pagar os custos escolares e não valorizam a educação para o futuro dos filhos.
As barreiras à inclusão podem existir a vários níveis e devem ser abordadas a
vários níveis. Por exemplo, quando as nossas escolas não proporcionam uma educação
gratificante e de qualidade que vá ao encontro das necessidades da criança e da sua
família, a criança pode abandonar a escola, especialmente se é oriunda de uma cultura
minoritária e os professores e os membros da comunidade não querem perder tempo com
ela.
Existem crianças que são afectadas por vários factores inter-relacionados, e isto
reduz ainda mais as suas hipóteses de frequentar a escola. Por exemplo, foi escrito um
tratado sobre “discriminação dupla” ou “discriminação múltipla” enfrentada por meninas
com deficiências ou por meninas que têm de cuidar de familiares afectados pelo
HIV/SIDA. Nalgumas culturas, as meninas são vítimas de discriminação logo à nascença,
têm menos esperança de vida e recebem menos cuidados, especialmente se têm
deficiências. Podem ser consideradas um fardo ou uma causa de desespero e os seus
direitos são menos defendidos. Estes problemas agravam-se se são crianças de rua,
crianças trabalhadoras e de grupos étnicos minoritários.
Em todos estes casos, são precisos esforços especiais para identificar estas
crianças e temos de agir em conjunto para ajudá-las na escola.
O primeiro passo a dar para tornar as nossas escolas mais inclusivas é encontrar as
crianças que não frequentam a escola. O mapa da escola e da comunidade é uma ferramenta
valiosa para encontrar estas crianças e pode ser realizado como parte de uma actividade
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 39
escolar e da comunidade (comunidade para criança) ou como parte de uma actividade de
turma (criança para criança).
Para perceber a razão pela qual as crianças não frequentam a escola, temos de
seguir uma abordagem centrada na criança. Precisamos de saber que indivíduo (criança),
família, comunidade e que factores escolares podem bloquear o acesso das crianças
à escola. Estes factores são o ponto de partida para a mudança e para criar escolas
inclusivas.
As ferramentas deste Manual de Apoio também o levarão ao ponto de elaborar um
plano de acção para reduzir as barreiras à aprendizagem inclusiva na sua escola e na sua
comunidade. Para começar este processo, tenha em conta as seguintes perguntas e adopte
acções práticas que você e os seus colegas podem fazer no seu contexto.
•
O que é que aprendeu com estas ferramentas até agora?
•
Quais as aulas chave para o seu contexto?
•
Quais podem ser as principais barreiras à aprendizagem inclusiva e para receber
todas as crianças na escola no seu contexto?
•
Quais os principais desafios para si e para a sua equipa?
•
Que passos é que vai seguir?
•
Quais serão os seus sinais de desempenho ou êxito?
•
Que actividades específicas pode planear para o próximo ano (lectivo)?
•
Quando e como vai avaliar o progresso que foi feito?
•
Estes planos e acções também podem ajudá-lo a tornar as suas turmas mais
inclusivas, um tema discutido nos Manuais de Apoio 4 e 5.
Como podem aprender mais?
As seguintes publicações e websites são valiosos recursos para receber todas as crianças
na escola.
Publicações
Govinda R. (1999) Reaching the Unreached through Participatory Planning: School Mapping
in Lok Jumbish, India. Paris: International Institute for Educational Planning/UNESCO.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 40
Hart R. (1997) Children’s Participation: The Theory and Practice of Involving Young
Citizens in Community Development and Environmental Care. New York: UNICEF and
London: Earthscan.
Mathur R. (2000) Taking Flight. Education for All Innovation Series No. 14. Bangkok:
UNESCO Principal Regional Office for Asia and the Pacific.
Rimer W et al. (2003) Toolkit for Assessing and Promoting Equity in the Classroom, Edited
by Marta S. Maldonado and Angela Aldave. Washington DC: Creative Associates
International Inc., USAID/EGAT/WID.
Staff Development Division, Bureau of Elementary Education, Department of Education,
Philippines, and UNICEF. (2002) Student Tracking System Facilitator’s Manual. (Um bom
recurso para saber como desenvolver perfis infantis)
UNESCO (2003) Sharing a World of Difference: The Earth’s Linguistic, Cultural and
Biological Diversity. Paris.
Volpi E. (2002) Street Children: Promising Practices and Approaches. WBI Working Papers.
Washington, DC: The International Bank for Reconstruction and Development/The World
Bank.
Websites
Barriers to Girls’ Education: Strategies and Interventions.
UNICEF Teachers Talking About Learning.
http://www.unicef.org/teachers/girls_ed/barriers_02.htm
Child Protection. UNICEF.
http://www.unicef.org/protection/index_bigpicture.html
Children as Community Researchers: Creating a Community Base Map.
UNICEF. http://www.unicef.org/teachers/researchers/index.html ou
http://www.unicef.org/teachers/researchers/childresearch.pdf
Equity in the Classroom, A Semi-Annual Newsletter, August 2000.
Creative Associates International, Inc.
Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 41
Este boletim informativo proporciona-lhe valiosos conhecimentos e estudos de casos sobre
os desafios da educação bilingue e sobre as estratégias para ensinar linguisticamente
alunos diversos. Pode aceder em:
http://www.caii.net/EIC/Resources/eicnewsJuneweb.pdf
Gender in Education: Promoting Gender Equality in Education. UNESCO Asia and Pacific
Regional Bureau for Education, Bangkok, Thailand.
http://www.unescobkk.org/gender
HIV/AIDS and Policies Affecting Children.
http://www.hri.ca/children/aids/factsheet_detail.htm
Leslie J and Jamison DT. Health and nutrition considerations in education planning. 1.
Educational consequences of health problems among school-age children.
http://www.unu.edu/Unupress/food/8F123e/8F123E03.htm
Save the Children (UK). Schools for All.
www.eenet.org.uk/bibliog/scuk/schools_for_all.shtml
UNICEF Teachers Talking About Learning.
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