Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 2 ISBN 92-9223-032-8 © UNESCO 2004 http://www.unicef.org/teachers UNESCO Asia and Pacific Regional Bureau for Education 920 Sukhumvit Rd., Prakanong Bangkok 10110, Thailand Impresso na Tailândia As designações utilizadas e a apresentação do material ao longo da publicação não implicam, de modo algum, a expressão de qualquer opinião por parte da UNESCO sobre o estatuto jurídico de qualquer país, território, cidade ou área ou das suas autoridades ou sobre as suas fronteiras ou limites. Texto traduzido do Inglês pela aluna Sophie Bento ([email protected]) do Curso de Tradução e Interpretação Multimédia – Universidade do Algarve Revisão da tradução de Ana Maria Benard da Costa, Dinah Mendonça e José Vaz Pinto Capa de Valdemar Lopes Arranjo gráfico de José Vaz Pinto Associação Cidadãos do Mundo - Portugal Ano de 2009 e 2010 Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 3 GUIA DE FERRAMENTAS O Manual de Apoio 3 ajudá-lo-á, assim como aos seus colegas, a perceber algumas das barreiras que impedem as crianças de frequentar a escola e o que podemos fazer para que isso não aconteça. As Ferramentas estão organizadas por unidades (passo a passo) e apresentam formas de inclusão de crianças tradicionalmente excluídas, formas ampla e eficazmente usadas por professores em todo o mundo. Depois de trabalhar com estas Ferramentas, estará em condições de falar com outros professores, famílias, membros da comunidade e alunos sobre as condições que afastam as crianças da aprendizagem. Estará também em condições de identificar a morada das crianças, de saber por que não frequentam a escola e que medidas pode tomar para as receber na escola. ÍNDICE QUEM É QUE NÃO ESTARÁ A BENEFICIAR DA APRENDIZAGEM? ...................................... 4 Descobrir as barreiras que impedem a aprendizagem inclusiva ................................................ 4 Auto-avaliação para a aprendizagem inclusiva ............................................................................. 11 ENCONTRAR AS CRIANÇAS QUE NÃO FREQUENTAM A ESCOLA E DESCOBRIR PORQUÊ ...................................................................................................................................................13 Cartografia da escola e da comunidade .........................................................................................13 Descobrir por que as crianças não frequentam a escola ...........................................................18 ACÇÕES PARA CONSEGUIR QUE AS CRIANÇAS VÃO À ESCOLA ....................................... 27 Planear acções .................................................................................................................................... 27 Ideias para agir ................................................................................................................................. 29 O QUE APRENDEMOS ? ..................................................................................................................... 38 Como podem aprender mais? ........................................................................................................... 39 Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 4 Ferramenta 3.1 QUEM É QUE NÃO ESTARÁ A BENEFICIAR DA APRENDIZAGEM? Um dos passos mais importantes para criar um AIAA é interessar as famílias e as comunidades neste processo e identificar as crianças que não frequentam a escola. Alguma vez parou para pensar se um dos seus alunos tem um irmão, uma irmã ou um amigo que não pode ou não quer ir à escola? Se nos esforçarmos por conseguir que estas crianças frequentem e se mantenham nas nossas salas de aula e escolas inclusivas, e se quisermos ajudá-las a adquirir o conhecimento e as competências necessárias para a vida, então temos de perceber por que razão não frequentam a escola! Descobrir as barreiras que impedem a aprendizagem inclusiva Leia o seguinte estudo de caso sozinho ou com os seus colegas. A “Tip” tem doze anos. Todas as manhãs, seja Verão ou Inverno, vagueia pela comunidade tentando ganhar a vida e juntar um pouco de dinheiro. Lava os pratos do posto de vendas de massas. Se não há mais nada para fazer, recolhe garrafas e latas para vender no centro de reciclagem que se encontra ao fim da rua. Quando não há mesmo trabalho, a Tip pede esmola às pessoas que vão à igreja da comunidade. Num dia bom, consegue ganhar de 0,75€ a 1€; num dia menos bom, menos de 0,40€. À procura de ganhar dinheiro, a Tip diz sempre: “Se me derem dinheiro, o que quiserem que eu faça, eu faço.” A Tip andava na escola, mas hoje em dia, prefere ganhar dinheiro a estudar. Actividade Prática: Identificar as Barreiras à Inclusão Se está a trabalhar com os seus colegas, organizem-se em dois ou quatro grupos. Se está a trabalhar sozinho, tente fazer esta actividade por si próprio. • Primeiro, todos têm de pensar calmamente sobre algumas das razões pelas quais a Tip não pode ir à escola. Se ajudar, podem tomar notas. Isto deverá levar cerca de 5 minutos. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 5 • O ambiente de aprendizagem duma criança inclui escola, família e comunidade. Inclui também o “ego”, ou seja, se ela própria quer ir à escola. Depois, designe um ambiente de aprendizagem para cada grupo. Um grupo é a ESCOLA. Outro grupo é a FAMÍLIA. Outro grupo é a COMUNIDADE. E o quarto grupo é a CRIANÇA. Se está a trabalhar com dois grupos, cada grupo pode ficar com dois ambientes de aprendizagem. Se está a trabalhar sozinho, tente fazer os quatro. • Dê a cada grupo uma grande folha de papel (poster) e peça-lhes então que escrevam, no topo do poster, o ambiente que estão a trabalhar. Deve haver uma folha por cada ambiente de aprendizagem. • Discuta no seu grupo quais as barreiras existentes no seu ambiente de aprendizagem que podem fazer com que a Tip não frequente a escola. Faça uma lista dessas barreiras no poster para o seu ambiente de aprendizagem e leia então a secção seguinte. Algumas Razões que Levam as Crianças a NÃO frequentar a Escola Tip (Criança) Se uma criança pode frequentar a escola, ou quer frequentá-la, é parcialmente afectada pelas suas características ou pela situação em que se encontra. Por exemplo, a esperança de ganhar dinheiro pode incentivar uma criança a sair de casa e a mudar-se para uma cidade maior em vez de ficar na escola. Verá abaixo alguns dos principais motivos associados à CRIANÇA que podem afectar o facto de frequentar ou não a escola. Existem outros factores centrados na criança na comunidade, país ou cultura em que este inserida que possam levá-la a não frequentar a escola? Sem abrigo e a necessidade de trabalhar. Vemos estas crianças todos os dias, especialmente se vivemos em cidades, mas dificilmente reparamos nelas a não ser que estejam a pedir esmola ou a arranjar dinheiro de qualquer outra forma. “A rua” é a casa e a fonte de subsistência destas crianças. Há cerca de 100 milhões de crianças de rua no mundo. Uma criança de rua pode ser uma criança que trabalha, que tenha desistido da escola ou simplesmente um sem-abrigo, rapaz ou menina. As crianças de rua são mais propensas à exploração uma vez que já não estão ligadas às famílias, comunidades e escolas. No entanto, nem todas as crianças de rua vivem sem as famílias. Algumas, como a Tip, trabalham na rua para ganhar dinheiro e regressam então para as famílias ao fim do dia. Isto pode ser o caso das crianças que não vêem nenhuma vantagem na educação, que não estão interessadas na escola, que têm idade a mais para entrar no sistema escolar ou são afectadas pelos conflitos políticos onde a sobrevivência é mais importante do que a aprendizagem. No entanto, muitas crianças de rua não têm ou têm pouco contacto com as famílias e não são supervisionadas por um adulto. Além disso, podem ter sido abusadas Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 6 fisicamente ou sexualmente em casa, fazendo com que fujam de casa e acabem na rua onde enfrentam o mesmo tipo de violência. Doença e Fome. As crianças não aprendem adequadamente se estão doentes, com fome ou subnutridas. Muitas vezes, estão ausentes e são classificadas de “alunos lentos”. Se não tiverem a atenção requerida, podem sentir que não fazem parte da turma e desistir da escola. Os efeitos da doença ou da subnutrição podem também ter consequências a longo prazo porque podem causar deficiências intelectuais ou físicas. Registo de Nascimento. Em certos países, se uma criança como a Tip não tem qualquer prova do registo de nascimento, não lhe é permitido frequentar a escola ou pode apenas ser aceite durante um determinado número de anos na escola. Isto afecta especialmente as meninas cujo nascimento não foi registado e não são elegíveis para admissão escolar ou para fazer exames. Também afecta os imigrantes, pessoas oriundas de grupos culturais minoritários e refugiados. Medo da Violência. O medo da violência a caminho da escola, na escola e a caminho de casa pode amedrontar as crianças. Enquanto os rapazes são vítimas de maus-tratos ou de bullying, as meninas estão em risco de abusos sexuais ou outras formas de assédios. Para as vítimas, isto pode afectar grande parte da sua auto-estima. Talvez a Tip fosse uma vítima e não quisesse ir mais à escola. Deficiências e Necessidades Especiais. A maioria das crianças com deficiências ou necessidades especiais não frequenta a escola, especialmente quando as escolas e os sistemas educativos não têm políticas ou programas para incluir as crianças com deficiências físicas, emocionais ou educativas. Estas são as crianças em quem costumamos pensar quando falamos de “educação inclusiva”. São as crianças que nunca frequentaram a escola por causa das atitudes negativas ou por se acreditar que não são capazes de aprender. Os pais ou os membros da comunidade podem também não estar conscientes de que estas crianças têm o direito à educação e deveriam frequentar a escola. As instalações da escola (como as escadas) podem bloquear a entrada destas crianças. São também elas que costumam desistir porque as salas de aula são muito grandes e não podemos dedicar tempo suficiente às necessidades especiais. Além disso, o conteúdo do currículo, os nossos métodos educativos e até mesmo a “língua” de ensino (falada, visual) podem não ser apropriados para as crianças com deficiências ou outras necessidades especiais. Gravidez. Em certos países e comunidades, as jovens que engravidam são excluídas da escola por medo da “promiscuidade” que pode incentivar outros a serem sexualmente activos. Mesmo no caso de uma rapariga vítima de violação, a gravidez pode ser vergonhosa para a família. Consequentemente, os membros da família não querem ser associados a ela e não vêem razões para que ela frequente a escola. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 7 Ambiente Familiar As famílias e as comunidades deveriam ser a primeira linha de protecção e de cuidados para as crianças, para perceber os problemas que elas enfrentam e para agir contra estes problemas de maneira sustentável. Em vários países, e de acordo com as pessoas que trabalham com crianças que desistiram, a melhor forma de impedir o abandono escolar é ter famílias e comunidades fortes, solidárias e produtivas. Abaixo encontram-se algumas das principais razões associados à FAMÍLIA e à COMUNIDADE que podem afectar a assiduidade escolar das crianças. Existem outros factores familiares ou comunitários na comunidade, país ou cultura que afectem a assiduidade das crianças? Pobreza e Valor Prático da Educação. A pobreza costuma afectar a assiduidade escolar de uma criança. Da mesma maneira, se uma criança não frequenta a escola, ela poderá não ter uma vida adequada e tornar-se indigente. Por causa da carga financeira, os pais pobres são, muitas vezes, pressionados a proporcionar as necessidades básicas para viver. Daí, as crianças como a Tip terem de ajudar a ganhar o rendimento familiar em detrimento da educação e da sua vida futura. Isto acontece especialmente quando a educação não faz sentido para as famílias no dia-a-dia; desta forma, não percebem a importância da escolaridade. Os pais podem também pensar que as crianças terão uma educação pobre e que as competências que vão adquirir em certos trabalhos são mais valiosas do que as que aprenderão numa sala de aula Conflitos. Alguns pais, apanhados numa discussão sobre dinheiro ou outros problemas, descarregam nos filhos, o que dá azo à violência e ao abuso. Isto pode levar a uma assiduidade irregular das crianças ou até incentivá-las, como provavelmente aconteceu com a Tip, a fugir de casa e da escola. Cuidados Inadequados. Por causa da necessidade de ter dinheiro, os pais são, por vezes, forçados a emigrar temporariamente ou por grandes períodos de tempo. Em consequência disso, deixam os filhos ao cuidado dos avós ou de outras pessoas. Estas pessoas nem sempre têm conhecimento, experiência ou recursos necessários para prestar cuidados adequados às crianças. Podem também não valorizar a educação quando precisam muito de dinheiro. Discriminação e Estigmatização devido ao HIV/SIDA. As crianças cujos pais morreram de SIDA são menos propensas a frequentar a escola do que as que não perderam os pais. Em certos países, as crianças – especialmente meninas – são tiradas da escola para cuidar dos irmãos ou dos que estão doentes ou para ganhar dinheiro a fim de sustentar a família. Noutros casos, estas crianças podem ser vistas como “contagiosas”, por isso os membros da comunidade e até os professores as excluem veementemente da escola. Talvez a Tip, ou um membro da família da Tip, seja seropositivo. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 8 Ambiente da comunidade Discriminação de género. As crenças tradicionais sobre o estatuto e os papéis dos homens e das mulheres podem restringir o acesso à escolarização para as meninas. Em comunidades onde as mulheres são vistas como inferiores aos homens, as meninas ficam a maior parte do tempo em casa e longe da escola para cumprir as tarefas domésticas. Isto é reforçado pelas práticas tradicionais onde as meninas casam muito novas e deixam a casa dos pais; desta maneira, as contribuições para com as famílias perdem-se e os pais não vêem nenhuma razão em gastar dinheiro para educar as filhas. A Tip pode ter fugido desta situação. Diferenças Culturais e Tradição Local. O acesso à escola pode ser recusado a crianças oriundas de famílias diferentes na comunidade, em geral, em termos de língua, religião, classe social ou outras características culturais. Por vezes, é-lhes dado acesso às instalações educativas precárias, a um ensino de qualidade mais pobre e um acesso restrito aos materiais educativos. Também têm menos oportunidades de frequentar o ensino superior do que as outras. Além disso, em certas comunidades, há uma tradição local na qual as crianças começam a trabalhar durante a infância, sem os benefícios da escolarização de qualidade. Esta tradição passa de geração em geração, perpetuando o ciclo de pobreza e analfabetismo. A Tip pode ser um membro de uma destas comunidades. Atitudes Negativas. As atitudes negativas para com as crianças de origens e capacidades diferentes são talvez o maior obstáculo para incluir estas crianças na escola. Podemos encontrar atitudes negativas a todos os níveis: pais, membros da comunidade, escolas e professores, funcionários e entre as próprias crianças marginalizadas. O medo, o tabu, a vergonha, a ignorância e a má informação, entre outros, tudo isto incentiva as atitudes negativas para com este tipo de crianças e as situações em que se encontram. Estas crianças – até mesmo as famílias – por vezes desenvolvem uma baixa auto-estima, escondendo-se e evitando as interacções sociais e tornando-se membros invisíveis da comunidade. Isto pode levar directamente à sua exclusão da escola, apesar de terem os mesmos direitos e necessidades das outras crianças. A Tip pode também ser vítima de atitudes negativas. Ambiente escolar A missão das nossas escolas é educar eficientemente TODAS as crianças ensinando-lhes competências que precisarão para a vida e para a aprendizagem a longo prazo. Historicamente, as nossas escolas não têm sido equipadas de maneira adequada para educar meninas e rapazes de origens e capacidades diferentes. Enquanto as circunstâncias familiares e comunitárias podem contribuir para a exclusão escolar das crianças, melhorar as nossas escolas só nestas condições não as torna necessariamente inclusivas. Os factores podem existir dentro das nossas escolas, o que pode de facto dissuadir algumas crianças de Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 9 frequentar a escola, assim como contribuir para uma fraca assiduidade e para a desistência antecipada, como aconteceu com a Tip. Você e os seus colegas têm um papel importante a desempenhar. Podem transformar a escola num sítio onde todas as crianças tenham oportunidade de vir a aprender. Abaixo encontram-se algumas das razões que levam algumas crianças a não frequentar a escola. Existem outros factores escolares que podem também afectar a assiduidade das crianças? Custos (directos e ocultos). Para muitas famílias pobres, as propinas, as taxas dos exames, as contribuições para a escola ou para as associações de pais, até mesmo o custo de um livro, de uma caneta, de um uniforme escolar ou dos transportes podem afastar as crianças, como a Tip, da escola. Localização. Especialmente em áreas rurais, se a escola está situada longe da comunidade, as crianças como a Tip podem ficar em casa onde estão seguras. Particularmente para as meninas, a distância da casa até à escola pode dissuadir os pais de mandá-las à escola por medo e para estarem seguras. As crianças com deficiências podem também não frequentar a escola se não houver transportes adequados para levá-las. Horários. A Tip pode querer estudar, mas não ter possibilidade de aprender durante o horário escolar habitual. Os horários e as agendas escolares não se ajustam ao horário de trabalho da Tip, por isso ela não pode “aprender e ganhar dinheiro”. Além disso, as meninas podem desistir da escola quando não combina com as suas responsabilidades familiares, como por exemplo as tarefas domésticas ou cuidar dos mais novos. Instalações. Uma das razões que levam algumas crianças a não frequentar a escola é o facto desta última não ter instalações adequadas. Por exemplo, a falta de casas de banho separadas para as meninas adolescentes quando estão menstruadas pode dissuadi-las de frequentar a escola. Além disso, as instalações inadequadas afectam especialmente as crianças com deficiências. Talvez a Tip tenha alguma deficiência física ou outra, quem sabe. Preparação. Uma das razões mais comuns pelas quais as crianças de origens e capacidades diferentes são excluídas da escola é que a escola e os professores não estão preparados para lhes proporcionar ensino. Não sabem como lhes dar aulas porque não tiveram formação, ideias ou a informação necessária para ajudar estas crianças a aprender. Consequentemente, mesmo que estas crianças frequentem a escola, podem receber menos atenção e uma educação de qualidade mais pobre comparada com as outras crianças. Tamanho das Turmas, Recursos e Carga de Trabalho. As turmas grandes são comuns em todos os países e podem ser um obstáculo à inclusão de crianças de origens e capacidades diferentes. Nos países mais ricos, as turmas de 30 alunos são consideradas Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 10 muito grandes, enquanto nos países com recursos limitados, as turmas de 60-100 alunos podem ser comuns. Desta forma, os professores têm demasiado trabalho e sentem-se, muitas vezes, infelizes. É evidente que as turmas pequenas e bem organizadas são mais desejáveis do que as turmas com recursos inadequados, incluindo os materiais e o tempo dos professores. No entanto, o tamanho da turma não é um factor necessariamente importante no que diz respeito ao sucesso da inclusão, se as atitudes forem positivas e acolhedoras. Existem vários exemplos de crianças de origens e capacidades diferentes que são bem aceites nas turmas grandes. Como poderá ver adiante, as barreiras relativas às atitudes para a inclusão costumam ser maiores do que as barreiras colocadas pelo recurso a materiais inadequados. Inclusão… apesar de turmas de 115 alunos ou mais Em 1994, foi realizado um estudo em duas escolas em Lesoto como parte do programa piloto sobre educação inclusiva do Ministério da Educação. Uma escola, situada relativamente perto da capital de Maseru, tinha turmas com uma média de 50 alunos e tinha apenas um histórico de integração de crianças com deficiências físicas. A outra escola situava-se nas montanhas, a 8 horas de carro da capital. Tinha turmas de mais de 115 raparigas e rapazes. Na primeira escola, os professores não concordavam com o programa de educação inclusiva desde o início. A escola tinha uma boa reputação académica e receava perdê-la passando tempo com os “alunos lentos”. Encararam a má vontade que tinham em relação às crianças com deficiências como responsabilidade da missão e consideraram que esta situação lhes tinha sido imposta. No entanto, na escola das montanhas, os professores estavam tão motivados que usavam os tempos livres à hora de almoço, aos fins-de-semana e ao fim da tarde para dar uma ajuda extra às crianças que precisassem, visitavam famílias e até levavam as crianças às consultas médicas. O facto de terem turmas grandes não era um obstáculo à educação inclusiva. Os professores lidavam com as turmas grandes de uma forma aceitável mas, quando perguntávamos, diziam que era evidente que preferiam turmas de 50-55 alunos. Schools For All. Save the Children. www.eenet.org.uk/bibliog/scuk/schools_for_all.shtml Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 11 Auto-avaliação para a aprendizagem inclusiva Resumo das barreiras à Aprendizagem Inclusiva • Criança: sem-abrigo e a necessidade de trabalhar; doença e fome; sem registo de nascimento; violência; gravidez • Comunidade: discriminação de géneros; diferenças culturais e tradição local; atitudes negativas • Escola: custos; localização; horários; instalações; preparação; tamanho de turmas, recursos e carga de trabalho Que outras barreiras colocou na sua lista da actividade anterior ou discutiu com os outros? Faça uma “Lista Principal” de todas as barreiras que viu ou em que pensou a partir de leituras e debates sobre as informações acima mencionadas. Actividade Prática: Barreiras e oportunidades • Todos devem fechar os olhos e imaginar que são a Tip ou outra criança que normalmente é excluída da escola. Escolha o seu nome, a idade, o sexo; onde mora e com quem; qual a situação de vida em que se encontra (como por exemplo a Tip). • Pense nas oportunidades que pode ter ao inscrever-se na escola (por exemplo, a escola tem de estar perto da sua casa) e nas barreiras que pode encontrar. Pode referir-se à lista acima, à sua lista principal e às suas folhas a partir da primeira Ferramenta deste Manual de Apoio sobre a identificação das barreiras à inclusão. • Numa grande folha de papel ou em qualquer outra superfície, desenhe quatro círculos uns dentro dos outros. O círculo mais pequeno ao meio é a criança, o círculo a seguir representa a família, o outro círculo representa a comunidade e o último representa a escola. Coloque os nomes nos círculos. • Use canetas de várias cores ou formas de escrita diferentes para mostrar as barreiras e as oportunidades. Todos têm de colocar os seus pensamentos na tabela para cada nível (criança, família, comunidade, escola). Faça isso em grupo, não Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 12 individualmente. Mesmo que uma pessoa já tenha escrito uma oportunidade ou uma barreira num nível, escreva de novo se também se identifica com elas. • Quando todos acabarem, olhe para a tabela que fez. Vê mais barreiras do que oportunidades? Vê mais barreiras do que esperava? Estas barreiras representam os desafios que têm de ser superados para que as crianças, como a Tip, possam frequentar a escola e que podem ser ultrapassados com a sua ajuda. • Quais as oportunidades mais comuns para cada nível e entre níveis (que oportunidades se encontram mais nas listas)? São oportunidades “reais”? Elas existem hoje para as crianças de origens e capacidades diferentes na sua comunidade ou são as que pensamos que deveriam lá estar? Se forem as que pensamos que deveriam lá estar, são oportunidades que pode procurar alcançar através de programas de acção. Representam a visão daquilo que quer conseguir removendo as barreiras e aumentando as oportunidades para a inclusão. • As oportunidades e as barreiras estão distribuídas equilibradamente ou concentram-se mais num nível do que noutros? Isto ajuda-o a identificar que nível ou níveis requerem uma atenção especial para aumentar as intervenções e ultrapassar os obstáculos. • As oportunidades e as barreiras que se repetem muitas vezes estão dentro e entre os níveis? Podem ser um bom começo para agir. • As barreiras encontram-se em mais do que um nível, como por exemplo as atitudes negativas (professores, membros da comunidade)? Podem precisar de esforços coordenados para vencer! Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 13 Ferramenta 3.2 ENCONTRAR AS CRIANÇAS QUE NÃO FREQUENTAM A ESCOLA E DESCOBRIR PORQUÊ A ferramenta anterior ajudou-nos a descobrir as razões que levavam algumas crianças a não frequentar a escola. A pergunta a que se tem que dar resposta: “Quais destas barreiras, ou talvez outras, existem na escola ou na comunidade?” Para responder a esta pergunta, temos de ver primeiro que crianças na comunidade não frequentam a escola e investigar então algumas das razões pelas quais isto está a acontecer. Depois de obter esta informação, podemos começar a planear e a implementar actividades para receber estas crianças na escola. Cartografia da escola e da comunidade Uma ferramenta útil que é muito usada para identificar as crianças que não frequentam a escola é a cartografia da escola e da comunidade, que também é chamada de cartografia escolar ou cartografia baseada na comunidade. Como os mapas tradicionais, mostra os principais pontos de referência da comunidade. No entanto, o que é ainda mais importante, apresenta também cada casa da comunidade, o número de crianças e as respectivas idades em cada casa e indica se as crianças em idade escolar ou pré-escolar frequentam a escola. Pode criar estes mapas seguindo os passos abaixo mencionados. 1. Consiga ajudas de grupos comunitários, ou até dos voluntários dedicados, assim como de outros professores na sua escola. Trata-se de uma boa actividade para desenvolver uma abordagem de “toda a escola” onde os funcionários (todos os professores, assistentes, porteiros, etc.) contribuem. Mas não se esqueça de que existem muitos outros membros da comunidade que podem ajudar a obter a informação de que precisa e a criar os mapas, como por exemplo os voluntários de desenvolvimento local, os idosos da comunidade, os representantes religiosos, os membros de AP e as próprias crianças (falaremos posteriormente sobre a contribuição das crianças). Este passo irá de facto ajudar a reforçar os laços entre a escola e a comunidade. Também ajudará a sua escola a obter alguns recursos da comunidade para os programas de acção (muito importante para as escolas com poucos recursos), assim como a promover a propriedade comunitária dos mapas e os programas de aprendizagem inclusiva que surgem na cartografia e nos processos de planeamento. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 14 2. Organize uma sessão de orientação para as pessoas que se ofereceram voluntariamente para ajudar na recolha de informação e na criação dos mapas. Fale com elas sobre os benefícios da escolarização, sobre ter uma variedade de alunos com capacidades diferentes e a importância dos mapas para encontrar as crianças que não frequentam a escola e incentivá-las a lá ir e a apreciar a aprendizagem. 3. Na sessão de orientação ou durante uma sessão de acompanhamento, prepare um rascunho do mapa da comunidade. Algumas comunidades podem ter mapas já feitos, enquanto outras não. Inclua os principais pontos de referência (estradas, fontes de água, locais principais como o centro de saúde da aldeia, locais de culto, etc.) e todas as casas nesta comunidade. 4. Depois, realize um inquérito ao domicílio para determinar quantos pessoas há em cada casa, as idades e os níveis de educação. As informações sobre os níveis de educação das crianças ajudá-lo-ão a orientar as que não frequentam a escola, enquanto as informações sobre os adultos podem indicar-lhe que pais podem beneficiar de actividades, como por exemplo, os programas de alfabetização. Na Índia e em Benim (África Ocidental), estes programas são importantes porque ajudam estes pais a perceber o valor da aprendizagem para eles e para os filhos (especialmente meninas). O inquérito ao domicílio pode ser realizado de várias maneiras, como por exemplo, através de visitas domiciliárias (que também podem ser usadas para incentivar os pais a mandar os filhos à escola), entrevistas com pessoas bem informadas (até crianças) ou usando registos existentes. Na Tailândia, por exemplo, a informação de recenseamento de aldeias é usada para identificar o número de pessoas em casa e as respectivas idades. Esta informação é então comparada com os registos de inscrições na escola para ver as crianças que não a frequenta. 5. Uma vez as informações recolhidas, prepare um mapa final da comunidade apresentando as casas, as pessoas, as idades e os níveis de educação. Depois, partilhe o mapa com os representantes da comunidade para identificar que crianças não frequentam a escola e refira algumas razões que estas famílias podem ter para não mandar os filhos à escola. Com estas informações, podemos começar a fazer planos de acção. Cartografia da escola no Projecto Lok Jumbish (LJ), Rajastão, Índia O projecto LJ mobilizou um núcleo de homens e mulheres empenhados que foram escolhidos pela comunidade. Depois de receber formação, realizaram um inquérito registando a formação académica de cada pessoa. O mapa da aldeia foi então preparado para mostrar o nível de educação de toda a família em cada casa. A aldeia inteira analisou então as razões pelas quais as crianças não frequentavam a escola. Na maioria dos sítios, Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 15 mesmo onde havia uma escola, esta não estava a funcionar adequadamente devido à falta de professores ou de um mínimo de instalações. As meninas não iam porque os pais não as deixavam andar longas distâncias até à escola e só uma maioria de rapazes estudava nas escolas. Em resposta a esta situação, a equipa da aldeia, constituída por grupos de mulheres e professores locais implantou uma vasta gama de actividades como por exemplo seguir de perto as inscrições escolares e o número de alunos que transitavam de um ano para o outro, a abertura de centros não formais, a renovação ou a construção de escolas, os programas de saúde escolares e os fóruns para meninas. Outras melhorias incluíram a formação de professores baseada no currículo e na motivação, a produção de manuais adequados e o fornecimento de equipamentos de boa qualidade e de materiais de aprendizagem e de ensino para todas as escolas na área do projecto. LJ também criou uma rede de centros de educação informal com jovens que tenham recebido formação para instrutores. Mathur R. (2000) Taking Flight. Education for All Innovation Series No. 14. UNESCO Principal Regional Office for Asia and the Pacific, Bangkok. Participação das crianças na cartografia O processo de cartografia da escola e da comunidade é uma actividade “da comunidade para a criança”. Por outras palavras, mostra como podemos envolver a comunidade na identificação de todas as crianças e na sua inserção na escola. Porém, a actividade de cartografia pode ser uma abordagem de “criança para criança”, que pode ser incorporada nos planos das aulas. As crianças de todas as idades podem criar mapas sendo essa uma actividade importante para a sua aprendizagem.1 A actividade de cartografia de criança para criança é uma maneira muito eficaz de mobilizar a participação dos alunos. Tomam as rédeas para identificar as crianças que não frequentam a escola e convencer os pais e os membros da comunidade a deixá-las ir. Por exemplo, no projecto CHILD na Tailândia, meninas e rapazes do 4º ao 6º ano trabalharam juntos para desenhar um mapa das comunidades e das casas à volta da escola. Identificaram as crianças que viviam em cada casa e no mapa marcaram se estas crianças frequentavam a escola ou não. Como um membro do projecto notou: “Se três crianças 1 Esta secção e o processo de criação de mapas foram adaptados de “Children as Community Researchers”. Website da UNICEF: Teachers Talking about Learning: www.unicef.org/teachers/researchers/basemap.htm. Os leitores são fortemente incentivados a aceder a este website, ver exemplos de mapas feitos por crianças e aprender mais! Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 16 concordam em que há uma criança a viver nesta casa, então é verdade.” As crianças podem assim dirigir a realização dos mapas da escola e da comunidade. Podem mesmo cartografar dados valiosos sobre a comunidade em que ninguém tenha pensado antes. Uma maneira muito útil de começar é reunir as crianças para criar o mapa da comunidade onde se encontram, o que ajudará a decidir o que tem de aparecer no mapa da escola e da comunidade. A habilidade das crianças para desenhar mapas precisos varia muito de acordo com a sua idade. Mas se os diferentes estilos e habilidades forem aceites, as crianças de todas as idades gostarão de produzir dados úteis para o mapa colectivo da escola e da comunidade. Se uma comunidade ainda não tem mapa, pode criar um simples a partir de um rascunho. Idealmente, os mapas da escola e da comunidade têm de ser suficientemente grandes para que as crianças possam localizar as suas casas e as dos seus amigos. Estes mapas são uma forma de contribuição valiosa para a comunidade. Para criar um mapa, faz-se o seguinte: 1. Comece por reunir os alunos e fazer uma lista de todos os locais importantes na comunidade (como por exemplo a escola, os templos, as casas, o centro de saúde, as lojas, etc.) qualquer sítio com características físicas (como estradas, rios, montanhas, etc.) e qualquer outro local importante onde os membros da comunidade costumem encontrar-se (como os campos ou até os poços onde costumam ir buscar água). 2. Corte vários pedaços de cartolina e desenhe estes locais importantes, as respectivas características físicas e a sua localização. Se não tiver cartolina ou outros materiais, use pedras, pedaços de madeira, corda ou paus. Também pode querer usar uma variedade de itens, como quadrados em cartolina ou pedras para representar as casas e paus para representar os rios. Mas assegure-se de que está a ajudar as crianças a lembrar-se do que representa cada símbolo. 3. Peça às crianças que decidam qual a característica mais importante da comunidade, como a escola, por exemplo. Peça-lhes que façam um símbolo especial para essa característica fora da cartolina. Tem de ser diferente de todas as outras peças para que se destaque. Servirá de “ponto de referência” do mapa (o local de que todos se lembrem e em que se baseiem ao tentar situar os locais importantes e as características na comunidade). 4. Coloque um grande pedaço de tecido, papel, ou outro material adequado para escrever no chão; reúna as crianças à volta dele e peça-lhes que decidam onde pôr o “ponto de referência” (como a escola) para que todas as casas se possam colocar à volta. Por exemplo, se a escola estiver localizada perto das casas ou no centro da Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 17 comunidade, coloque-a no centro do mapa. Se estiver localizada longe das casas e doutros sítios que costumam visitar, coloque-a ao lado do mapa. 5. Pergunte às crianças que outros locais importantes se encontram perto da comunidade. Coloque os símbolos para estes locais no mapa para estabelecer os limites. 6. Em grupo, decida quais as principais características físicas da comunidade (como as estradas, os campos, as montanhas, os rios) e adicione-as ao mapa. Assegure-se de que todas as crianças concordam com a colocação das características locais. Pode querer deixar as crianças andar cuidadosamente à volta do mapa para verificar. Se elas já criaram “mapas pessoais”, peça-lhes que olhem de novo para o mapa para garantir que todas as características se encontram no mapa grande. 7. Quando todos concordarem sobre os locais importantes, as características físicas e outras localizações no mapa, as crianças podem então desenhá-las com tinta, canetas de feltro para torná-las permanentes no mapa, em vez de usar cartolina ou símbolos que não ficarão permanentemente. 8. O mapa pertence à turma por isso tem de ser dinâmico, novas características importantes serão acrescentadas à medida que as crianças vão pensando nelas. Para começar a preencher o mapa e a identificar as crianças que não frequentam a escola, as crianças têm de decidir quais os temas específicos e afixar símbolos de papel no mapa para representá-los. Alguns dos temas mais evidentes para começar são: • as casas de TODAS as crianças da comunidade, as idades das crianças e se frequentam ou não a escola; • casas de pessoas importantes para o dia-a-dia das crianças; • sítios onde as crianças brincam ou trabalham; • sítios a evitar pelas crianças, como por exemplo os sítios perigosos (violência); • sítios de que as crianças gostam ou não gostam; • sítios onde as crianças vão sozinhas, com os pais, com familiares, com amigos, com outros adultos; e • transportes (especialmente os que usam para ir e voltar da escola) e os meios pelos quais andam (a pé, de bicicleta, de mota, de carro, etc.). Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 18 9 Depois da conclusão dos mapas, os alunos podem identificar as crianças da comunidade que não estão a frequentar a escola e localizar as famílias destas crianças. Os alunos, ao trabalhar com professores, pais e representantes da comunidade, podem ajudar a motivar os pais a enviar os filhos para a escola. No Nepal, no âmbito do projecto Community-Education Management Information System (C-EMIS) apoiado por Save the Children (UK), as próprias crianças visitam os pais das crianças que não frequentam a escola. Falam com os pais sobre as razões pelas quais não mandam os filhos para a escola e o que pode ser feito para mudar Os mapas da escola e da comunidade têm de estar sempre actualizados e deverão ser usados para identificar as crianças que podem não estar a frequentar a escola. Consequentemente, a realização dos mapas pode tornar-se uma actividade permanente no currículo e na aprendizagem das crianças. Além disso, a comunidade deve ter acesso fácil ao mapa. Talvez possa ser colocado num centro de informações da comunidade ou num sítio comum de encontros para que os membros da comunidade possam comentá-lo. O mapa pode também ser o começo do processo de desenvolvimento da comunidade para receber todas as crianças na escola. Numa favela do nordeste da Tailândia, por exemplo, os representantes da aldeia usaram inquéritos e mapas para encontrar estas crianças que não frequentavam a escola, cujos nascimentos não tinham sido registados. Visitaram então os pais das crianças, por vezes indo até distritos e províncias vizinhas para obterem os documentos necessários para registar as crianças e inscrevê-las na escola. Hoje, todas as crianças desta favela frequentam a escola! Descobrir por que as crianças não frequentam a escola Ao trabalhar com colegas e alunos conseguiu identificar quais as crianças que não frequentam a escola na comunidade e talvez tenha pensado nalgumas das razões pelas quais isso está a acontecer. A grande questão à qual tem de se responder agora é: “Quais os principais factores que caracterizam as crianças que estão a ser excluídas da escola e especialmente em comparação com as que estão em vias de frequentar a escola?” Como vimos anteriormente, alguns factores podem ser visíveis, como por exemplo as deficiências físicas, sensoriais ou intelectuais; menos visíveis como os cuidados inadequados ou a subnutrição; ou mesmo factores considerados praticamente imperceptíveis como os papéis sociais ou responsabilidades de crianças nas famílias. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 19 Actividade Prática: Criar Perfis infantis O Perfil Infantil é uma ferramenta para promover a educação inclusiva e a equidade na turma. É usada em vários países de África, América Central, assim como no Centro, Sul e Sudeste da Ásia. Um perfil infantil: • ajuda os membros da comunidade e os professores a identificar as crianças que não frequentam a escola e porquê, assim como as que têm mais tendência para a abandonar. • mostra a diversidade das crianças na comunidade em termos de características individuais e das famílias; e • ajuda no planeamento de programas a fim de ultrapassar os factores que excluem as crianças da escola. Os perfis infantis são usados na Tailândia como parte do Sistema de Informação de Gestão Escolar (SIGE) assim como nas Filipinas para o Sistema de Seguimento de Alunos (SSA), ambos desenvolvendo Sistemas Escolares Amigos da Criança. No Bangladesh e noutros países da Ásia Central e do Sul, os perfis infantis são usados tendo por base a comunidade como parte do Sistema de Informação de Gestão de Educação centrado na Criança/Comunidade (SIGEC). Os representantes da comunidade recolhem as informações de todas as crianças em todas as casas da comunidade. Identificam aquelas crianças que deveriam frequentar (ou frequentarão em breve) a escola e recebem-nas. No entanto, este sistema, assim como o SIGE e o SSA, quando são usados ao nível da comunidade (não apenas na escola) pode identificar as crianças fora da escola assim como as que a frequentam mas que não estão a aprender o suficiente. Para criar um perfil infantil, siga os passos abaixo indicados. 1. Com base no mapa da escola e da comunidade ou nos registos de recenseamento da comunidade, faça uma lista de todas as crianças que não frequentam a escola. 2. Com os seus colegas e as pessoas que ajudaram a criar o mapa da escola e da comunidade, faça um “brainstorm” sobre os factores (obstáculos) que podem levar as crianças a não frequentar a escola. Pode usar como referência as listas que produziu na primeira Ferramenta deste Manual de Apoio e categorizar os factores com base nos que estão associados à escola, à comunidade, à família e à criança; mas lembre-se de que alguns factores podem encontrar-se em mais do que uma categoria. Estes factores não são necessariamente as causas reais, mas os que têm de ser investigados para cada criança. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 20 3. A seguir, usando estes factores, crie uma lista de perguntas que, quando respondidas, podem dar-lhe algumas ideias sobre o porquê de uma criança não frequentar a escola. Abaixo encontrará um exemplo de uma lista de perguntas usada nas Escolas Amigas das Crianças nas Filipinas e na Tailândia para perceber a situação das crianças de origens e capacidades diferentes que não aprendem adequadamente.2 As perguntas foram elaboradas de forma a descobrir a que ponto os obstáculos acima referidos afectam a aprendizagem e a desistência escolar das crianças. Poderá desenvolver a sua própria lista de perguntas baseada nas barreiras que lhe parecem frequentes na sua comunidade. Assegure-se de que inclui os representantes da comunidade neste processo. Podem ajudar a identificar TODAS as crianças que não frequentam a escola. Barreira: Diferenças Culturais e Tradição Local • Qual a nacionalidade ou a origem étnica da criança? • Qual a religião da criança? Barreira: Discriminação de Género • Qual o sexo da criança? • Qual a idade da criança? Barreira: Registo de Nascimento • O nascimento da criança estará registado? Barreiras: Horários de Trabalho e a Escola: a Necessidade de Trabalhar • Será que a criança trabalha dentro ou fora de casa para ganhar dinheiro? Barreiras: Atitudes Negativas; Medo da Violência 2 Pode encontrar exemplos de Perfis Infantis de outros países, como El Salvador e Uganda, em: Toolkit for Assessing and Promoting Equity in the Classroom, produzido por Wendy Rimer et al. Editado por Marta S. Maldonado e Angela Aldave. Creative Associates International Inc., USAID/EGAT/WID, Washington DC. 2003. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 21 • Se a criança já estiver a frequentar a escola, qual o seu estatuto de aprendizagem? • Se a criança já estiver a frequentar a escola, qual a sua assiduidade? • Se a criança já estiver a frequentar a escola, costuma abandonar as aulas? Barreiras: Doença e Fome; HIV/SIDA; Gravidez • Qual o estado de saúde e nutricional da criança? Barreiras: Instalações da Escola e Localização • Será que a criança tem alguma deficiência que afecta o seu acesso às instalações da escola? • Onde se situa a casa da criança em relação à escola (distância, duração do trajecto)? Barreiras: Cuidados; Conflitos • Que idade têm os pais da criança? • Ambos os pais ainda estão vivos? Se não for o caso, qual dos pais é que faleceu? • Que nível de educação tem cada um dos pais? • Algum familiar já abandonou a escola? Porquê? • Os pais da criança ainda estão casados? • Com quem mora a criança? • Quantas crianças em idade pré-escolar há em casa? • Quem cuida principalmente das crianças em idade pré-escolar? • Algum dos pais já emigrou para trabalhar? Barreiras: Pobreza e Valor Prático da Educação; Custos Escolares • Qual a principal ocupação de cada um dos pais da criança? • Qual a segunda ocupação de cada um dos pais da criança (se houver) • A família possui terras para gerar rendimentos; se for caso disso, quantas terras? Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 22 • A família arrenda terras para rendimento; nesse caso, quantas terras? • Qual o rendimento médio da casa por mês? • A família pede dinheiro emprestado para gerar rendimentos? Se assim for, quanto e quantas vezes ao longo do ano? • Quantas pessoas residem na casa? • A família é membro de algum grupo de desenvolvimento da comunidade? 4 Elabore um questionário para recolher as respostas a estas perguntas. Este questionário pode ser a lista de perguntas acima mencionada para as quais as respostas são distintas ou pode ser um tipo de Perfil Infantil mais formal, como o exemplo dado no fim desta Ferramenta. Depois de terminado, o questionário pode ser então: (a) enviado para as casas das crianças para ser preenchido e reenviado para a escola ou para o representante da comunidade; (b) preenchido por um professor durante as visitas domiciliárias; ou (c) preenchido com base em entrevistas com as próprias crianças ou com os pais quando vão buscar os filhos à escola. 5 Depois de preenchido e reenviado o questionário, crie um estudo de caso descritivo para cada criança que incorpore as respostas às perguntas acima mencionadas. A seguir, encontrará um exemplo de estudo de caso. Este estudo de caso ajudá-lo-á a identificar, relacionar e analisar os factores que podem afectar a aprendizagem das crianças. A AYE pertence ao grupo étnico Hming que vive no nordeste da Tailândia. Calcula-se que ela tenha 9 anos, mas não tem certidão de nascimento. O pai faleceu. A mãe tem 30 anos e não voltou a casar. A mãe da Aye é analfabeta. A sua ocupação principal é cultivar arroz num pequeno pedaço de terreno. A avó cuida da Aye e do irmão de cinco anos que não frequenta a pré-escola. A família é pobre. Ganha menos de 500 baht por mês. Durante a temporada em que não se cultiva, a mãe migra para Banguecoque para trabalhar como operária. A família da Aye não pertence a nenhum grupo de desenvolvimento da aldeia e não tem acesso aos recursos da comunidade. A Aye andou no 1º e 2º anos, mas abandonou a escola assim que passou para 3º ano. A mãe (dela) não conseguia pagar o uniforme escolar da filha e suportar os custos de transporte para a escola, que se encontra a 25 quilómetros de casa. Quando a Aye andava na escola, metade das faltas eram desculpas enquanto a outra metade se devia-se a doença. É frequentemente afectada por infecções respiratórias agudas (IRA) e tem carência leve de iodo. 6 Depois de completar estudo de casos, observe-os cuidadosamente para ver que factores podem estar a afectar a capacidade de cada criança frequentar a escola e aprender. Sublinhe-os de forma a ficarem mais destacados e a relacioná-los. Para a Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 23 Aye, podem ser as diferenças culturais, a falta do registo de nascimento, a pobreza, os cuidados desadequados, a falta de acesso aos recursos fora da família, assim como o fraco estado de saúde e nutricional. 7 Posteriormente, compare as listas de factores entre as crianças. Que factores são mais frequentes? Use estes factores como pontos de partida para desenvolver planos de acção e falar das causas pelas quais as crianças não andam na escola. A próxima Ferramenta deste Manual de Apoio mostra-lhe como criar esses planos. Exemplo de um Questionário de Perfil Infantil 1. Nome da criança______________________ Sexo_____ Idade_____________ Morada________________________________________________________ Nacionalidade__________ Origem étnica_________Religião________________ Data de Nascimento____ Naturalidade____ Nascimento registado: Sim__ Não__ (verifique) 2. Nome do pai___________________ Idade ______ Vivo_____ Falecido_______ 3. Nome da mãe__________________ Idade ______ Viva _____ Falecida_______ 4. Estado civil dos pais (círculo): Juntos Viúvo(a) Divorciados Separados 5. Com quem mora a criança? (círculo): Ambos os pais Mãe Pai Outro (especificar) 6. Faça uma lista de todos os familiares que vivem na mesma casa da criança. (Preencha a informação necessária na tabela abaixo.) Membros da Nível de Educação (especificar o nível mais alto atingido para Relação com a família Sexo Idade cada categoria relevante) criança Nome MF Sem EF* E. não F. * EF = Educação Formal *E-Não-F = Educação não formal PréEsc. Elem, Sec. Facul. Ocupação (especificar) Prim. Sec. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 24 7. Os pais ou a família já emigraram? (Escolha sim ou não e preencha as informações apropriadas) Pai. Quando_____________ (especificar o mês e o ano) Sim Para: Cidade_________; Região________; País ___________ Por quanto tempo ______ (especificar mês e ano) Não Mãe Quando _____________ (especificar o mês e o ano) Sim Para: Cidade __________; Região ________; País __________ Por quanto tempo _______ (especificar mês e ano) Não Toda a família Sim Quando _____________ (especificar o mês e o ano) Para: Cidade _________; Região _________; País __________ Por quanto tempo ______ (especificar mês e ano) Não 8. Rendimento familiar mensal (escolher) Menos de 1000 baht Entre 5001-8000 baht Entre 1000-2500 baht Entre 8001-10000 baht Entre 2501-5000 baht Mais de 10000 baht 9. Prestação de cuidados a crianças em idade pré-escolar Quantas crianças em idade pré-escolar na família não frequentam a escola? Quem cuida delas durante o dia? Pais _______ Outros familiares (especificar) Creche da comunidade_________ Educador pago _____________ Outros (especificar) ____________________ 10. Propriedade de Terras/Casa A família do aluno tem acesso à terra para gerar rendimentos? (Não incluir a terra onde a casa se encontra) Se Sim: Proprietário ______________ hectares (área da terra) Arrendado _______________ hectares Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 25 Propriedade familiar ________ hectares Não: ___________ Outros (especificar): ____________________________________________ A família do aluno tem casa? Sim _________ Não ____________ Se sim: Proprietária _________ Arrendada __________ Tipo de Moradia/Habitação (especificar) ___________________ 11. Distância de casa à escola e meios de transporte. Qual a distância da escola à casa/residência da criança? _______ (especificar distância) Qual a duração do trajecto da casa/residência da criança à escola? ____________ (especificar) Que meios de transporte usa a criança para ir à escola? (escolher) A pé De carro De mota De Bicicleta De Táxi Bicicleta Autocarro público Outros (especificar) _________ 12. Algum familiar já abandonou a escola? ____ Sim ____ Não Se sim, por que razões __________________________________________________ 13. O aluno já andou na escola? ___ Sim ___ Não; se sim, quanto tempo _________: 14. A criança já abandonou a escola? ____ Sim ____ Não; se sim, quanto tempo __________________; se sim, por que razões ________________________________________ 15. A família faz parte de alguma organização de desenvolvimento da comunidade? ____ Sim ____ Não Se sim, especifique a organização _________________________________ 16. A criança tem acesso a algum tipo de ajuda financeira para andar na escola? ____ Sim ____ Não Se sim, de que fonte(s) (especificar) ________________________________ Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 26 17. Se a criança já andou na escola, ela faltava muito às aulas? ____ Sim ____ Não Se sim, porquê _______________________________________________ 18. Se a criança já andou na escola, quantas negativas tinha? Nenhuma_____________ Até 25% _____________ 26 – 50% _____________ Mais de 50% __________ 19 A criança é subnutrida (demasiado magra ou pequena para a idade)? __ Sim __ Não 20 A criança tem possibilidades de almoçar? Sim_____ Não______ A criança costuma almoçar regularmente? Sim Não Se sim, especifique __________________________________, 21. A criança tem alguma deficiência? Se sim, especifique _____________________ 22. A criança tem alguma infecção crónica? Se sim, especifique __________________________________, OU A informação é confidencial? ____________________________ Sim Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 27 Ferramenta 3.3 ACÇÕES PARA CONSEGUIR QUE AS CRIANÇAS VÃO À ESCOLA Agora que identificámos as crianças que não frequentam a escola e algumas das razões pelas quais isto pode acontecer, podemos começar a planear como fazer para que vão à escola. Esta secção começa por descrever o processo de planeamento de acções (também chamado de micro-planeamento), seguido de algumas ideias de acções que pode experimentar ou adaptar à sua escola e comunidade. Planear acções Na Ferramenta anterior, utilizámos o mapa da escola e da comunidade para localizar as crianças que não andavam na escola. Criámos um mapa com a ajuda dos membros da comunidade ou dos alunos e partilhámos a nossa informação com outros. Também recolhemos informações sobre cada criança que não frequenta a escola, criámos perfis infantis e identificámos algumas das barreiras que afastam as crianças da escola. Agora, temos de começar a agir para remover estas barreiras. Para isso, pode seguir os passos abaixo mencionados e criar um plano de acção eficiente.3 Este processo assemelha-se ao que se encontra descrito no Manual de Apoio 1 deste Guia de Ferramentas sobre os passos para planear um ambiente inclusivo e amigo da aprendizagem. No entanto, a ferramenta seguinte foi adaptada para que possa começar a trabalhar especificamente na remoção das barreiras à inclusão e conseguir que as crianças vão à escola. 1 Forme uma equipa de pessoas que o possam ajudar a reflectir sobre a informação recolhida através do mapa da escola e da comunidade e dos perfis infantis, assim como a planear acções adequadas. Podem ser as mesmas pessoas que faziam parte do processo de criação de um AIAA descrito no Manual de Apoio 2 ou as que participaram especificamente no exercício de cartografia. Em alternativa, pode aumentar a sua equipa incluindo outras pessoas que possam ser muito úteis para planear e, especialmente, para agir. 3 Adaptado de: Toolkit for Assessing and promoting Equity in the Classroom, produzido por Wendy Rimer e outros. Editado por Marta S. Maldonado e Angela Aldave. Creative Associates International Inc., USAID/EGAT/WID, Washington DC. 2003. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 28 2 Divida esta equipa em grupos de acordo com os papéis ou interesses de cada um, por exemplo, professores, membros de grupos de mulheres da comunidade, representantes da comunidade, alunos, pessoas oriundas de sectores privados, etc. 3. Depois, cada grupo deverá pensar numa lista de acções que podem empreender – como grupo – para receber todas as crianças na escola e na aprendizagem. Cada grupo deverá considerar os desafios para a implementação de cada acção. Qual a probabilidade de êxito? Quais os obstáculos para implementar cada acção? Como podemos evitar estas barreiras? A fim de evitar a concepção de planos que possam falhar, é importante ter em conta estas barreiras. 4. Depois de cada grupo ter decidido algumas possíveis acções para conseguir que as crianças vão à escola, reagrupe todas as equipas para partilhar ideias. Trabalhem juntos, identifiquem as acções que podem ser realizadas na prática tendo em conta as seguintes questões e qualquer outra que julgue apropriada. a. Que acções podem ter maior impacto nas crianças ou que acções têm de ser prioritárias em situações particulares? Pode querer começar por dar prioridade às suas acções. b. Existem algumas acções parecidas de um grupo para outro que se possam unir? Trabalhar em conjunto com acções semelhantes pode ajudar a intensificar os esforços, poupar recursos e aumentar as oportunidades de êxito. c. Que potenciais acções mostram maior probabilidade de êxito e terão de ser iniciadas em primeiro lugar? A melhor estratégia é começar de forma simples para ter êxito e depois passar para uma acção mais difícil. Ou seja, construída no sucesso! Por exemplo, pode ser melhor começar por criar uma escola mais acessível às crianças com deficiências e depois passar para o desafio mais complicado de melhorar as atitudes para com estas crianças na turma. d. Que acções podem ser realizadas usando os recursos existentes? Quais requerem uma ajuda exterior? Para conseguir estes recursos exteriores, muitas vezes, é necessário mostrar aos potenciais doadores com quem trabalha, ou melhor, os recursos de que já dispõe. Daí, comece pelo que pode fazer agora, enquanto trabalha para o que é necessário a partir de outras pessoas para realizar acções posteriores. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 29 5. Depois, é aconselhável trabalharem juntos para desenvolver planos das acções que foram decididas acima. Estes planos de acção têm de conter os seguintes elementos: a. Os objectivos que quer cumprir; por exemplo, aumentar o acesso à escola para crianças de origens e capacidades diferentes. b. As estratégias ou os métodos que são necessários para implementar actividades; por exemplo, reuniões com os pais das crianças de origens e capacidades diferentes a fim de descobrir as necessidades destas últimas; seguem-se reuniões com os directores e professores para avaliação das instalações da escola e as actividades que têm de ser realizadas para as tornar mais acessíveis e amigas. c. As actividades específicas e a duração de cada uma, como as que foram acima mencionadas. d. As pessoas específicas que vai tentar alcançar (por exemplo, pais de crianças de origens e capacidades diferentes, as próprias crianças) e as que participaram nas actividades (directores, professores, membros da AP, alunos, etc.) e. Que recursos precisará e como pode consegui-los? f. Que critérios serão usados para avaliar o êxito do seu plano de acção (por exemplo, todas as crianças na escola) 6. Especialmente se várias equipas estiverem a trabalhar com acções diferentes, assegure-se de que tenham várias oportunidades para partilhar as experiências vividas. As oportunidades podem surgir para relacionar as acções entre as equipas. 7. Proporcionar oportunidades para que todas as equipas possam rever e observar o que estão a fazer; para reflectir no que se está a ser, ou já foi feito; avaliar o nível de sucesso (o que funciona e o que não funciona). Use as informações para decidir se quer continuar com a actividade como planeado ou se a vai alterar e aplicar então esta decisão (faça-o!). Ideias para agir Esta secção é um “gerador de ideias”. Olhe brevemente para as principais barreiras à aprendizagem inclusiva de que falámos anteriormente e apresente ideias sobre como podem ser ultrapassadas baseando-se nas experiências das escolas e das comunidades onde estão Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 30 a trabalhar no desenvolvimento da aprendizagem inclusiva. São ideias que têm de ser em consideradas e expandidas, tendo por base a sua situação. Podem ser também usadas como ponto de partida para os planos de acção. Ambiente da Criança Registo de Nascimento. As crianças sem certidão de nascimento podem não andar na escola ou pode ser-lhes apenas permitido frequentar a escola durante uns anos. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Trabalhar com as comunidades e entidades governamentais locais para organizar? Fazer “campanhas de registo de nascimento” anuais para as crianças terem certidões de nascimento. • Contactar com os centros de saúde e os hospitais da comunidade e trabalhar com eles para desenvolver estratégias para incentivar os novos pais a registar os filhos assim que nascem. Discriminação e estigmatização do HIV/SIDA. As crianças afectadas pelo HIV/SIDA são menos propensas a frequentar a escola. Podem necessitar de cuidados de um familiar ou até serem activamente excluídas da escola por medo. O que podemos fazer para ajudar? • Colaborar com organizações locais de SIDA para organizar workshops de sensibilização sobre HIV/SIDA na sua escola e comunidade e aumentar o conhecimento sobre o assunto. • Falar sobre as necessidades e as preocupações dos pais cujas crianças não estão afectadas pelo HIV (também têm direitos!) e como podem ser inseridas quando as crianças afectadas pelo HIV vêm à escola. • Desenvolver e reforçar as políticas de saúde das escolas que acolhem as crianças afectadas pelo HIV na escola, que têm em conta as suas necessidades e as protegem da discriminação e da violência. • Estabelecer clubes de aconselhamento de grupos como no caso de estudo que se segue. Aprender com a Experiência: o Projecto HIV/SIDA de Thika O FAWE Quénia (FAWEK) optou por trabalhar com o Distrito de Thika porque 17% das crianças da escola primária e 22% dos alunos da secundária estavam infectadas pelo HIV. O FAWEK orientou as crianças da escola primária nos primeiros anos da adolescência (1013 anos) com o objectivo de estabelecer clubes de aconselhamento de grupo. Estes clubes Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 31 proporcionariam um caminho para os rapazes e para as raparigas adquirirem conhecimentos básicos, competências e atitudes sobre a sexualidade na adolescência, questões de saúde reprodutiva e doenças sexualmente transmissíveis, incluindo HIV/SIDA. O projecto orientou as classes primárias superiores a fim de enfatizar a abstinência e aprender a dizer Não ao sexo, que é o caminho principal para a transmissão do HIV/SIDA. Foi organizado um workshop para 62 professores de 32 escolas primárias. Os professores serviram, subsequentemente, de padrinhos dos clubes de aconselhamento de grupo nas escolas e forneceram serviços de orientação e aconselhamento. Num workshop muito participativo, os professores tinham conhecimento, competência e atitudes adequadas para aconselhar sobre o HIV/SIDA e foi-lhes fornecido material de recurso para usar nas escolas. Sessenta e quatro alunos, um rapaz e uma menina de cada uma das 32 escolas, acompanhados por um professor, participaram num workshop de dois dias. O professor serviu, mais tarde, como padrinho principal dos clubes de aconselhamento de grupo e os alunos como representantes dos clubes. Uma exibição sobre o HIV/SIDA, um filme “Bush Fire” e as apresentações de poemas e paródias dos alunos com mensagens sobre o HIV/SIDA completaram a formação. Os 64 rapazes e meninas, treinados como conselheiros juntamente com os professores, estão agora a consciencializar os colegas sobre o HIV/SIDA numa grande escala, começando na escola onde andam. Usam músicas, poemas, dramas, debates e talk shows, assim como apoios. Cada uma das 32 escolas tem uma média de 250 meninas. O projecto alcançou cerca de 8000 meninas e 800 professores. Os apoios entre pares são os momentos disponíveis durante as assembleias e reuniões de pais para fazer apresentações. Sente-se o impacto para além das escolas e as mensagens estão a ser transmitidas nas igrejas, nos mercados e nas comunidades. HIV/AIDS and Girls’ Education: The FAWE Kenya Experience. Forum for African Women Educationalists. Nairobi, Kenya. www.fawe.org Medo da Violência. As crianças podem não querer ir à escola se estão com medo da violência. O que podemos fazer para mostrar que a situação da escola está melhor? • Trabalhar com crianças e membros da comunidade para cartografar os locais onde a violência ocorre nas escolas, assim como na ida ou na vinda para casa. Encontrará mais pormenores a esse respeito no Manual de Apoio 6 sobre a criação de um AIAA saudável e protector). Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 32 • Colaborar com os representantes da comunidade e pais para organizar actividades de “supervisionamento de crianças”, onde os directores, pais ou outros membros da comunidade estão atentos a áreas de potencial ou grande violência dentro e fora da escola. Podem levar as crianças para sítios seguros quando necessário. Doença e Fome. As crianças com fome ou doentes não aprendem correctamente. O que é que podemos fazer para ajudar estas crianças? (NOTA: no Manual de Apoio 6 encontrará mais acções que foram discutidas). • Estabelecer uma alimentação escolar para os programas educativos que fornecem almoços ou lanches frequentes e nutritivos. Isto pode beneficiar mais as meninas. • Trabalhar com os prestadores de serviços de saúde locais a fim de estabelecer rastreios frequentes de saúde, dentários e nutricionais. Gravidez. Nalguns países e comunidades, as jovens que engravidam não são aceites nas escolas, embora tenham direito à educação. O primeiro passo no cumprimento deste direito é estabelecer políticas de saúde escolares que garantam uma formação escolar complementar a alunas grávidas e mães jovens. Falamos dos passos do processo de criação de políticas no Manual de Apoio 6. Ambiente Familiar Pobreza. Enquanto a educação pode contribuir para a redução da pobreza, a pobreza bloqueia de facto a educação de muitas crianças. Como a causa da pobreza é económica, as estratégias eficientes para alcançar as crianças pobres e levá-las à escola têm de ser, muitas vezes, baseadas nos incentivos económicos a curto ou a longo prazo para as crianças e a família. Na Tailândia, as escolas amigas das crianças usam informações sobre as conclusões educativas e as origens familiares para identificar as crianças que aprendem pouco e são mais propensas a abandonar a escola, muitas vezes porque as famílias têm pouco dinheiro e valorizam mais o trabalho das crianças do que a educação. A estas crianças são dadas prioridades de formação com capacidade de sustento em áreas como a tecelagem de seda e de algodão, a costura, a carpintaria, a produção agrícola, a digitação, a formação em computadores e áreas semelhantes. Esta formação aumenta o rendimento da família enquanto as crianças estão na escola e proporciona às crianças aptidões que podem usar ao longo da vida. Algumas destas crianças até receberam prémios regionais e nacionais pelo trabalho efectuado. Nalgumas escolas, familiares destas crianças servem de “professores” para ensinar às crianças artes consagradas, como por exemplo tingir fios de seda e tecê-la nos padrões tradicionais. Uma participação deste tipo aumenta o valor da escola aos olhos dos pais através da melhoria dos meios de subsistência e sublinhando o Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 33 valor de manter tradições culturais importantes. Também aumenta a comunicação entre os pais e as crianças sobre o que o futuro – e a educação dos filhos – pode trazer à família. Será que uma estratégia deste tipo pode fazer parte do seu currículo escolar? Valor da Educação. Muitas vezes, os pais pobres não conseguem proporcionar as necessidades básicas para viver. Daí, as crianças poderem tornar-se fontes imediatas de rendimento familiar à custa da educação. Isto acontece especialmente quando as famílias, ou até as próprias crianças, não acham que a educação preenche as necessidades do dia-adia. Daí, não valorizarem a educação e não entenderem por que razão as crianças devem ir à escola. O que se pode fazer para ajudar estas crianças? • Incorporar “caminhadas na comunidade” nos planos de aulas, onde as crianças visitam a comunidade para ver a importância das actividades do dia-a-dia. • Incentivar os pais e outros membros da comunidade a tornarem-se “assistentes dos professores” na turma partilhando assim os seus conhecimentos locais, explicando a importância da vida e falando sobre a relevância do que se aprende nas aulas. Cuidados inadequados. O melhor cuidado que recebe uma criança é o dos pais, o que por vezes não é possível, principalmente se os pais deixam a casa para ir trabalhar. Em tais casos, as crianças podem estar ao cuidado de outras pessoas cujos conhecimentos, recursos limitados e atenção podem não ser suficientes para fornecer cuidados adequados. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Em dias excepcionais, convidar os prestadores de cuidados a visitar a escola. Mostrar-lhes o trabalho das crianças e fazer discursos informais ou sessões educativas participativas sobre a melhoria da saúde e do bem-estar das crianças através de cuidados mais adequados. • Incentivar conferências frequentes entre professores e prestadores de cuidados para falar sobre o progresso da aprendizagem das crianças e mostrar como cuidados adequados podem melhorá-la. • Obter materiais de assistência infantil de entidades governamentais e organizações não-governamentais. Usá-los nos programas educativos de saúde escolar e sobre a vida da família com as crianças e mandá-los, frequentemente, para casa pelas crianças para que elas os possam ler aos familiares. Ambiente da comunidade Discriminação de géneros. Nalgumas sociedades, se têm de escolher entre mandar uma menina ou rapaz para escola, costumam mandar o rapaz. As meninas são mais propensas a Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 34 cuidar da família e a trabalhar. O que podemos fazer para incentivar o acesso à escola destas meninas? • Acompanhar a assiduidade e recolher informações sobre meninas que não andam na escola (por exemplo, através de perfis infantis). • Mobilizar os representantes da comunidade (e especialmente religiosos) para incentivar as meninas a frequentar a escola, talvez como parte da criação de grupos educativos da comunidade ou como actividade da AP. Forneça-lhes materiais informativos para serem distribuídos nas casas e mostrar o valor da educação das meninas. • Contar o que se ensina nas turmas no dia-a-dia das meninas e das famílias para incentivar os pais a mandar as filhas à escola. • Defender junto dos pais a necessidade de proteger e cuidar das crianças de forma igual. • Falar com os pais para ver se as tarefas domésticas podem ser reorganizadas e permitir que as meninas vão à escola frequentemente. • Ver se é possível obter um horário flexível para meninas que têm outras responsabilidades. Colabore com organizações locais para organizar actividades da comunidade que dêem tempo às meninas para frequentar a escola, como os programas de cuidados de crianças. • Identificar e apoiar as soluções locais, como por exemplo a organização da escolaridade alternativa de boa qualidade, como a escolaridade em casa, em locais onde as meninas não podem frequentar escolas formais. • Incentivar a criação de programas de incentivos para raparigas, como pequenas bolsas de estudo, subsídios, programas de alimentação escolar e doações de materiais escolares e uniformes. Diferenças culturais e tradição local. As escolas inclusivas abraçam a diversidade e valorizam as diferenças. Para as crianças que não falam outra língua ou oriundas de culturas diferentes, temos de realçar o seguinte: • Colabore com os pais e os membros da comunidade para modificar as aulas e os materiais de modo a representar as diferentes culturas e línguas da comunidade. Isto ajudará a garantir que a comunidade encontra materiais úteis e autênticos e a incentivar os pais a mandar os filhos para a escola. Encontrará formas de o fazer no Manual de Apoio 4 deste Guia de Ferramentas. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 35 • Use histórias locais, contos, lendas, músicas e poemas no desenvolvimento das aulas. • Para as crianças que não falam a língua de instrução na sua turma, trabalhe com professores bilingues ou outros que falem a língua da criança (pode ser a família ou membros da comunidade) para desenvolver um curso de formação de língua adequado para a turma. Ambiente escolar Custos. Para muitas famílias pobres, os custos directos e indirectos de mandar os filhos à escola podem ser ultrapassados. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Fale com directores, pais e membros da comunidade sobre que custos directos e indirectos podem manter as crianças afastadas da escola. • Identifique maneiras de reduzir (ou cancelar) estes custos; por exemplo, através de programas de incentivos – como pequenas bolsas escolares, subsídios, comida, material escolar e uniformes – possivelmente coordenados através de organizações locais de caridade. Localização. Especialmente em espaços rurais, se a escola se situa longe da comunidade, as famílias podem não querer mandar os filhos para a escola. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Saiba quais as crianças se encontram mais longe da escola, por exemplo através dos mapas da escola e da comunidade e perfis infantis. • Colabore com os pais e os membros da comunidade para saber como levar estas crianças à escola e depois para casa em segurança. Horários. Algumas crianças podem querer estudar. Mas porque os horários e os calendários não coincidem com os seus horários de trabalho, estas crianças não podem aprender durante as horas normais de escola. Além disso, as meninas assim como os rapazes podem desistir quando a escola interfere nos deveres familiares. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Veja se é possível ter um horário escolar flexível para as crianças que precisam de trabalhar. • Fale com os serviços sociais locais ou com as organizações de caridade para ver se já existem programas educativos para crianças que têm de trabalhar ou vivem nas ruas, ou se podemos criar estes programas; por exemplo, programas pós-escola ou Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 36 ao fim-de-semana onde as crianças “ensinam” os seus colegas fora da escola no local da criança ou em centros de juventude. Instalações. Se as nossas escolas não têm instalações adequadas, essa circunstância pode ser uma das razões pelas quais as crianças não andam na escola. Consequentemente, temos de perceber como é que os ambientes sociais e físicos das nossas escolas podem mudar para incluir todas as crianças. Por exemplo, se uma criança com deficiência não pode ir a uma aula no segundo andar da escola, a solução é simplesmente mudar a aula do segundo para o primeiro andar. O que podemos fazer para ajudar estas crianças? • Colabore com as famílias e os representantes da comunidade para construir instalações sanitárias seguras e casas de banho separadas para rapazes e meninas (ver Manual de Apoio 5). • Determine as necessidades físicas e emocionais das crianças de origens e capacidades diferentes. Identifique como a escola pode ser trabalhada para se adaptar às necessidades educativas. Preparação. Muitas vezes, as escolas estão reticentes em incluir completamente as crianças de origens e capacidades diferentes nas turmas porque os professores podem não saber como ensinar estas crianças. O que podemos fazer para ajudar estes professores e estas crianças? • Descubra quais as crianças que não estão a frequentar a escola e porquê. Quais as suas origens e as suas capacidades? Quais as necessidades especiais de aprendizagem? • Contacte com as entidades educativas governamentais, organizações não- governamentais locais, instituições de formação para professores, instituições de caridade locais, fundações ou até mesmo agências internacionais que trabalhem em prol da melhoria da educação das crianças no seu país. Pergunte-lhes se conhecem algum professor ou outros profissionais que já tenham dado aulas a crianças de origens e capacidades diferentes como as suas. • Contacte estes professores e pergunte-lhes se você ou algum dos seus colegas podem visitar a escola onde trabalham para ver como dão aulas a crianças com necessidades especiais. Se não conseguir visitar estas escolas por ser muito caro, pergunte-lhes se podem mandar-lhe alguns recursos que possa usar numa das suas aulas, como exemplos de planos de aulas, descrições de métodos de ensino ou exemplos de materiais pedagógicos que se possam reproduzir facilmente. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 37 • Se os recursos estiverem disponíveis, peça-lhes também que visitem a sua escola para dar uma opinião, assim como para falar com os directores e outros professores sobre a importância do ensino a crianças de origens e capacidades diferentes. • Acima de tudo, não perca a motivação. Crie uma rede e um bom relacionamento com as pessoas que sabem como proporcionar ensino a crianças de origens e capacidades diferentes e mantenha contacto com elas. O que é que um professor pode fazer para que as crianças com deficiências tenham mais acesso à escola e a uma possível aprendizagem 1. Por vezes, as crianças com deficiências acham difícil ir à escola. Tente organizar transportes para a escola e tornar a escola acessível com a colocação de rampas e outros recursos que respondam às necessidades especiais. 2. Quando uma criança com deficiência vai pela primeira vez à escola, fale com o familiar que a acompanha. Descubra quais as deficiências da criança e o que ela consegue fazer apesar da deficiência. Pergunte se ela tem alguns problemas ou dificuldades para fazer certas coisas. 3. Quando uma criança começa as aulas, visite os pais de vez em quando para falar com eles sobre o que está a fazer para facilitar a aprendizagem da criança. 4. Pergunte se a criança tem de tomar alguma medicação durante as aulas. 5. Se não tem tempo suficiente para dar muita atenção à criança, peça à escola ou à comunidade para encontrar alguém que o ajude. Esta pessoa pode dar à criança uma ajuda extra durante as horas de aulas. 6. Assegure-se de que as crianças conseguem vê-lo e entendê-lo nas aulas. Escreva cuidadosamente para que possam ler e perceber. Deixe também uma criança com deficiência sentar-se à frente da sala para ver e ouvir melhor. 7. Descubra se a criança e os pais têm problemas com a escolarização. Pergunte à família se acham que os outros alunos ajudam a criança e se ela se dá bem na escola. UNICEF. http://www.unicef.org/teachers/protection/access.htm Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 38 Ferramenta 3.4 O QUE APRENDEMOS ? As barreiras à aprendizagem inclusiva podem ser visíveis, como por exemplo as deficiências físicas; menos visíveis, como os cuidados inadequados ou a subnutrição que afectam a aprendizagem e a assiduidade; ou geralmente aceites e não reconhecidas, como as atitudes tradicionais, papéis dos géneros ou papéis habituais e as responsabilidades das crianças nas famílias. As crianças podem ser excluídas da escola por várias razões inter-relacionadas que nunca pensámos pudessem existir. Por exemplo, as tradições culturais podem impor que as crianças que vivem nas comunidades rurais tenham de começar a trabalhar cedo na infância e não ir à escola. Isto pode ser especialmente o caso das famílias pobres que não conseguem pagar os custos escolares e não valorizam a educação para o futuro dos filhos. As barreiras à inclusão podem existir a vários níveis e devem ser abordadas a vários níveis. Por exemplo, quando as nossas escolas não proporcionam uma educação gratificante e de qualidade que vá ao encontro das necessidades da criança e da sua família, a criança pode abandonar a escola, especialmente se é oriunda de uma cultura minoritária e os professores e os membros da comunidade não querem perder tempo com ela. Existem crianças que são afectadas por vários factores inter-relacionados, e isto reduz ainda mais as suas hipóteses de frequentar a escola. Por exemplo, foi escrito um tratado sobre “discriminação dupla” ou “discriminação múltipla” enfrentada por meninas com deficiências ou por meninas que têm de cuidar de familiares afectados pelo HIV/SIDA. Nalgumas culturas, as meninas são vítimas de discriminação logo à nascença, têm menos esperança de vida e recebem menos cuidados, especialmente se têm deficiências. Podem ser consideradas um fardo ou uma causa de desespero e os seus direitos são menos defendidos. Estes problemas agravam-se se são crianças de rua, crianças trabalhadoras e de grupos étnicos minoritários. Em todos estes casos, são precisos esforços especiais para identificar estas crianças e temos de agir em conjunto para ajudá-las na escola. O primeiro passo a dar para tornar as nossas escolas mais inclusivas é encontrar as crianças que não frequentam a escola. O mapa da escola e da comunidade é uma ferramenta valiosa para encontrar estas crianças e pode ser realizado como parte de uma actividade Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 39 escolar e da comunidade (comunidade para criança) ou como parte de uma actividade de turma (criança para criança). Para perceber a razão pela qual as crianças não frequentam a escola, temos de seguir uma abordagem centrada na criança. Precisamos de saber que indivíduo (criança), família, comunidade e que factores escolares podem bloquear o acesso das crianças à escola. Estes factores são o ponto de partida para a mudança e para criar escolas inclusivas. As ferramentas deste Manual de Apoio também o levarão ao ponto de elaborar um plano de acção para reduzir as barreiras à aprendizagem inclusiva na sua escola e na sua comunidade. Para começar este processo, tenha em conta as seguintes perguntas e adopte acções práticas que você e os seus colegas podem fazer no seu contexto. • O que é que aprendeu com estas ferramentas até agora? • Quais as aulas chave para o seu contexto? • Quais podem ser as principais barreiras à aprendizagem inclusiva e para receber todas as crianças na escola no seu contexto? • Quais os principais desafios para si e para a sua equipa? • Que passos é que vai seguir? • Quais serão os seus sinais de desempenho ou êxito? • Que actividades específicas pode planear para o próximo ano (lectivo)? • Quando e como vai avaliar o progresso que foi feito? • Estes planos e acções também podem ajudá-lo a tornar as suas turmas mais inclusivas, um tema discutido nos Manuais de Apoio 4 e 5. Como podem aprender mais? As seguintes publicações e websites são valiosos recursos para receber todas as crianças na escola. Publicações Govinda R. (1999) Reaching the Unreached through Participatory Planning: School Mapping in Lok Jumbish, India. Paris: International Institute for Educational Planning/UNESCO. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 40 Hart R. (1997) Children’s Participation: The Theory and Practice of Involving Young Citizens in Community Development and Environmental Care. New York: UNICEF and London: Earthscan. Mathur R. (2000) Taking Flight. Education for All Innovation Series No. 14. Bangkok: UNESCO Principal Regional Office for Asia and the Pacific. Rimer W et al. (2003) Toolkit for Assessing and Promoting Equity in the Classroom, Edited by Marta S. Maldonado and Angela Aldave. Washington DC: Creative Associates International Inc., USAID/EGAT/WID. Staff Development Division, Bureau of Elementary Education, Department of Education, Philippines, and UNICEF. (2002) Student Tracking System Facilitator’s Manual. (Um bom recurso para saber como desenvolver perfis infantis) UNESCO (2003) Sharing a World of Difference: The Earth’s Linguistic, Cultural and Biological Diversity. Paris. Volpi E. (2002) Street Children: Promising Practices and Approaches. WBI Working Papers. Washington, DC: The International Bank for Reconstruction and Development/The World Bank. Websites Barriers to Girls’ Education: Strategies and Interventions. UNICEF Teachers Talking About Learning. http://www.unicef.org/teachers/girls_ed/barriers_02.htm Child Protection. UNICEF. http://www.unicef.org/protection/index_bigpicture.html Children as Community Researchers: Creating a Community Base Map. UNICEF. http://www.unicef.org/teachers/researchers/index.html ou http://www.unicef.org/teachers/researchers/childresearch.pdf Equity in the Classroom, A Semi-Annual Newsletter, August 2000. Creative Associates International, Inc. Conseguir que todas as crianças tenham acesso à escola e à educação - 41 Este boletim informativo proporciona-lhe valiosos conhecimentos e estudos de casos sobre os desafios da educação bilingue e sobre as estratégias para ensinar linguisticamente alunos diversos. Pode aceder em: http://www.caii.net/EIC/Resources/eicnewsJuneweb.pdf Gender in Education: Promoting Gender Equality in Education. UNESCO Asia and Pacific Regional Bureau for Education, Bangkok, Thailand. http://www.unescobkk.org/gender HIV/AIDS and Policies Affecting Children. http://www.hri.ca/children/aids/factsheet_detail.htm Leslie J and Jamison DT. Health and nutrition considerations in education planning. 1. Educational consequences of health problems among school-age children. http://www.unu.edu/Unupress/food/8F123e/8F123E03.htm Save the Children (UK). Schools for All. www.eenet.org.uk/bibliog/scuk/schools_for_all.shtml UNICEF Teachers Talking About Learning.