A ENTREVISTA IMPRESSA: POSIÇÕES INTERMEDIÁRIAS ENTRE FALA E
ESCRITA
Rebeca Louzada Macedo (PG-UEL)
Orientadora: Drª. Joyce Elaine de Almeida Baronas (UEL)
Resumo
Partindo de uma abordagem textual-interativa, o presente trabalho tem o objetivo de buscar
marcas da entrevista impressa como um texto de posição intermediária entre a escrita e a fala.
A partir da interação com o outro, os homens e mulheres conhecem e reconhecem a si, essa
interação por meio da língua ocorre de diversas maneiras, nuances da escrita e da fala. Este
trabalho não se ocupa apenas das diferenças entre escrita e fala, mas da influência de uma
sobre a outra e na participação de ambas em posições intermediárias representadas, neste
trabalho, pela entrevista impressa. Trata-se de um estudo de caso, em que uma entrevista será
analisada de acordo com os estudos sobre a fala e a escrita e as posições intermediárias de
ambas as modalidades. A entrevista estudada foi realizada com a Presidente Dilma Roussef,
publicada pelo Jornal Folha de São Paulo no dia 28 de julho de 2013.
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1 Introdução
A premissa do presente trabalho é que a função da língua consiste na
interação entre os seres humanos, pois o ser humano só reconhece sua identidade diante de
seu diferente, do outro. A partir da interação com o outro, os homens e mulheres conhecem e
reconhecem a si, essa interação por meio da língua ocorre de diversas maneiras, nuances da
escrita e da fala.
Esse trabalho não se ocupa apenas das diferenças entre escrita e fala, mas da
influência de uma sobre a outra e na participação de ambas em posições intermediárias
representadas, nesse trabalho, pela entrevista impressa.
Estou convencida de que textos falados e escritos têm papéis diferentes nas
sociedades que se servem tanto da fala quanto da escrita e de que constroem sentidos de
modos diversos, com estratégias e procedimentos diferentes, ou preferenciais, e de que as
posições intermediárias entre fala e escrita são outras tantas formas de produzir os sentidos do
mundo, mais próximas ou mais distantes dos da fala e da escrita. (BARROS, 2006, p. 58)
No decorrer desse trabalho, a entrevista impressa será analisada como uma
posição intermediária, intentando descobrir as marcas da fala sobre essa modalidade “escrita”,
visto que, inicialmente o texto é falado e é editado para passar da fala à escrita, deixando
pistas de sua origem na oralidade. O objetivo é verificar as marcas da oralidade que são
deixadas no texto escrito depois da edição e buscar compreender os motivos dessas marcas
terem permanecido.
O corpus desse artigo consiste em uma entrevista concedida pela Presidente
Dilma Roussef ao jornal impresso Folha de São Paulo publicada no dia 28 de julho de 2013,
nesse material serão analisados os traços que definem a entrevista como um texto que ocupa
posição intermediária entre a fala e a escrita.
2 A entrevista jornalística
É impossível tratar sobre gêneros textuais sem mencionar Bakhtin e suas
importantes contribuições para esses estudos, especialmente a seção intitulada “Os gêneros do
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discurso” em Estética da Criação Verbal, em que é discutida a problemática dos gêneros
textuais em suas formas de interação nas diversas esferas das atividades sociais. De acordo
com Bakhtin, “o enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma
dessas esferas, não só por seu conteúdo temático e por seu estilo verbal, [...] mas também, e,
sobretudo, por seu conteúdo composicional” (2000, p. 279).
Desde o fim do século XX, é possível observar a emergência de muitas
pesquisas analisam os gêneros textuais de circulação mais ampla que caracterizem usos
públicos da linguagem como as esferas artísticas, jornalísticas e publicitárias.
Nesse trabalho, foi selecionado como objeto de estudo o gênero entrevista,
pois, na sociedade brasileira os meios de comunicação exercem grande influência sobre a
opinião pública, por isso é fundamental compreender o papel da mídia é.
A escolha pela entrevista no jornal impresso se deu devido a sua função de
informar o público e à verificação de que a entrevista aparece como instrumento de trabalho,
tanto na linguagem escrita e oral dos gêneros privilegiados para a prática de escrita e leitura
de textos quanto na oralidade e escrita dos gêneros sugeridos para a prática de produção de
textos orais e escritos.
Para Medina (1995), no contexto dos estudos jornalísticos, a entrevista
funciona como interação social e quebra de isolamentos grupais, individuais e sociais. Tem a
função também de pluralizadora de vozes e como uma distribuição democrática da
informação, seu fim é o inter-relacionamento humano. Uma boa entrevista tem o poder de dar
vida a qualquer matéria e pode nos ajudar a formar visões e concepções plurais da realidade
que nos cerca. A entrevista parece basear-se num espaço de neutralidade comunicacional, na
qual os termos possíveis de serem cambiados e os sujeitos que os cabiam encontram-se muito
bem delimitados, e, devido a esse traço oral da simultaneidade de interlocutores, pode
consistir também num espaço de oportunidade especulativa, esclarecimento requerido a
alguma autoridade ou testemunha.
Marcuschi (2003), é possível afirmar que que esse gênero possui itens gerais
comuns a todos os subgêneros, a saber:
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1) sua estrutura será sempre caracterizada por perguntas e respostas, envolvendo pelo
menos dois indivíduos – o entrevistador e o entrevistado;
2) o papel desempenhado pelo entrevistador caracteriza-se por abrir e fechar a
entrevista, fazer perguntas, suscitar a palavra ao outro, incitar a transmissão de informações,
introduzir novos assuntos, orientar e reorientar a interação;
3) já o entrevistado responde e fornece as informações pedidas;
4) gênero primordialmente oral, podendo ser transcrito para ser publicado em revistas,
jornais, sites da Internet (apud HOFFNAGEL, 2005 p. 182).
Os itens que diferenciam um subgênero de outro estão relacionados com o
objetivo, a natureza, o público-alvo, a apresentação, o fechamento, a abertura, o tom de
formalidade, entre outros. As entrevistas orais (no radio e na TV) mantêm explicitamente as
marcas da oralidade como hesitações, falsos começos, repetições, paráfrases, etc. Por outro
lado, as entrevistas escritas acabam sendo despidas de algumas dessas marcas uma vez que é
passível de inúmeras revisões. Existem três momentos distintos na produção da entrevista: o
da preparação da pauta, o da entrevista propriamente dita e o da edição.
Com relação ao momento da edição, Fávero e Andrade (1999, p.164)
afirmam que “[...] a edição da entrevista traz à tona um outro interlocutor que também
participa da produção final do texto e cuja marca se faz notar juntamente com as dos demais
participantes (entrevistador, entrevistado, audiência). No momento da edição, a entrevista
pode passar da linguagem oral para a escrita, como ocorre em jornais e revistas, ou manter-se
oral, como na televisão ou rádio.”
No momento em que a entrevista passa da “fala” à “escrita”, devido ao
maior tempo de planejamento, ainda que conserve a forma dialogada, às vezes perde
características da fala, pois o produto final oculta os apagamentos na materialidade textual; às
vezes as conserva, porque apresenta marcas relacionadas à situação de interação.
Barros (2000) considera que, nas entrevistas midiáticas, é possível
identificar três instâncias dialógicas:
a) entrevistador e entrevistado;
b) entrevistado e público;
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c) entrevistador e público.
Consideramos ainda que a entrevista constitui-se de um discurso de
interação assimétrica, pois os papéis sociais de cada um dos interlocutores são claramente
definidos. Na entrevista, cada interlocutor possui uma função distinta: o entrevistador
seleciona o tópico1 discursivo e direciona a conversação, enquanto o entrevistado mantém o
turno2.
3 Posições intermediárias entre a fala e a escrita
Para estabelecer as posições intermediárias é preciso estabelecer as
diferenças entre fala e escrita, suas diferenças são delineadas a partir de características
temporais, espaciais e atoriais, de acordo com Barros (2006) é impossível realizar uma
separação absoluta da fala e da escrita.
3.1 Fala, escrita e posições intermediárias em relação ao tempo
No campo temporal, as diferenças acontecem principalmente quanto ao
planejamento, às marcas de formulação e reformulação e à continuidade e descontinuidade.
O texto escrito é planejado antes de ser realizado, os temas tratados no texto
são pensados antes de sua elaboração e os aspectos linguísticos-discursivos também. Quanto
ao planejamento, Urbano (2006) afirma que no texto falado, a tarefa cognitiva e verbal
ocorrem quase em conjunto, a verbalização praticamente se sobrepõe à ativação de ideias, já
no texto escrito há dois tempos, a geração de ideias e a realização linguística efetiva dessas
ideias.
Quanto às marcas de formulação e reformulação, o texto escrito além de
poder ser planejado também pode ser editado posteriormente, assim as marcas de formulação
e reformulação podem ser retiradas antes de o texto ser lido, já no texto falado, não há tempo
de edição posterior, assim marcas de reformulação são deixadas, demonstrando a presença da
revisão por meio de paráfrases, correções, hesitações e etc. Gülich e Kotschi (1987)
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denominam essas atividades de “refrasagens”, quando há repetição de estruturas, e
“paráfrases”.
Quanto ao fator continuidade, a fala se apresenta descontínua, pois de
acordo com Chafe (1982), ocorre em jatos, como unidades de ideias delimitadas por pausas,
enquanto a escrita é caracterizada por unidades contínuas, cada unidade estabelecendo contato
com a seguinte e com a anterior. Assim o tempo da escrita é caracterizado pela duração e o da
fala pela pontualidade.
Essas características não se aplicam completamente a todos os textos
escritos e falados, os que não se encaixam nesses aspectos condicionados pelo fator “tempo”
são considerados textos em posições intermediárias, haja vista as notícias dos jornais de
televisão, que são planejadas antecipadamente, escritas e depois, praticamente lidas,
apresentando, de acordo com Barros (2006), descompasso entre a realização escrita e a falada.
Outra posição intermediária são os bate-papos da internet, como por
exemplo o “MSN”, em que o destinatário lê o texto assim que ele é digitado, sendo aparentes
as marcas de formulação e reformulação, mesmo que sua prática seja escrita.
Quanto ao corpus desse trabalho, a entrevista, de acordo com Barros (2006),
toda entrevista tem certo grau de planejamento, principalmente por parte do entrevistador, que
formula suas perguntas antes da realização da entrevista. Há também a edição, principalmente
nas entrevistas que passam da fala para a escrita, essa edição apaga boa parte das marcas de
reformulação, de repetição e de hesitação.
3.2 Fala, escrita e posições intermediárias em relação ao espaço
Quanto ao espaço são consideradas principalmente a ausência e a presença
dos interlocutores e do contexto situacional na realização textual.
A fala ideal prevê a presença dos interlocutores no mesmo contexto
situacional, enquanto a escrita ideal não tem o seu destinador e seu destinatário no mesmo
espaço, assim na fala há a expressão facial como participante da interação, bem como os
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gestos, o uso dos dêiticos, enquanto que na escrita são utilizados outros recursos em lugar
destes, como por exemplo, perífrases.
Ainda de acordo com Barros (2006), na comunicação pela internet, textos de
posição intermediária são utilizados figuras de rostos, desenhos, entre outros (emoticons,
memes, etc.) para expressar sentimentos e sensações que seriam expressos por meio de gestos
e expressões faciais na fala.
Na entrevista, é preciso considerar que há a presença de dois interlocutores,
mas não do destinatário do texto, assim quando há necessidade são utilizadas descrições como
“risos”, ou “falou fulana, em tom de brincadeira”. O destinatário do texto não está presente,
mas tem função importante em sua realização, de acordo com Fávero (2006), é preciso
considerar as relações entrevistado-entrevistador-audiência, pois entrevistado e entrevistador
têm o papel de convencer o público.
3.3 Fala, escrita e posições intermediárias em relação aos atores
Toma-se nessa seção a denominação de atores emprestada da semiótica por
Barros (2006), nesse aspecto serão considerados a construção do texto e a alternância de
papéis; a aproximação ou distanciamento da enunciação; descontração e formalidade; simetria
e assimetria nos papéis.
Quanto à construção do texto, na fala acontece a duas vozes, os papéis se
alternam entre os interlocutores, ora um é falante, ora é ouvinte e vice e versa, enquanto na
escrita, são utilizados outros procedimentos linguísticos e discursivos para a construção de
relações intersubjetivas, consistindo o jogo dialógico em projeções de pessoas no discurso,
como afirma Fiorin (1996).
Na escrita, o efeito de distanciamento é maior, já que o texto visa passar a
impressão de objetividade, com o emprego de terceira pessoa, ou mesmo alternância de
pessoas e outros recursos como discursos indiretos, diretos ou indiretos livres, enquanto que a
fala possui caráter mais intimista, produzindo efeito de aproximação da enunciação e de
subjetividade.
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Os aspectos formalidade e descontração, atribuídos respectivamente à
escrita e à fala, são consequências da alternância ou não dos papéis dos atores e dos efeitos de
objetividade e subjetividade discursivas.
Quanto à simetria e assimetria dos papéis, a fala usualmente é simétrica,
pois os papéis se alternam, um fala, outro ouve, outro fala e um ouve, enquanto a escrita é
assimétrica, pois os papéis conversacionais não se alternam. Nesse caso, foram considerados
os papéis conversacionais apenas, mas de acordo com Barros (1997), há também papéis
sociais e papéis pessoais.
Na fala os papéis conversacionais podem estar equilibrados, mas os papéis
sociais podem não estar, no caso de uma conversa entre um professor e um aluno, ou então
em uma entrevista, posição intermediária, em que os papéis conversacionais podem estar
equilibrados, os papéis sociais também, mas os papéis pessoais são assimétricos. Tais
assimetrias acontecem em textos de posições intermediárias, influenciando na alternância de
papeis, como por exemplo, em uma conversa de corredor entre professor aluno.
4 Análise do corpus
A entrevista analisada nesse trabalho foi concedida pela presidente do Brasil
no ano de 2013, Dilma Roussef, à colunista Mônica Bergamo do jornal Folha de São Paulo, e
foi publicada no domingo, 28 de julho.
De acordo com Fávero (2006, p. 79), o objetivo da entrevista é “sempre o
inter-relacionamento humano, mas os direitos dos participantes não são os mesmos, pois o
entrevistador faz as perguntas e oferece, em seguida, o turno ao entrevistado”. É possível
notar nesse trecho a assimetria dos papéis pessoais na entrevista.
Na entrevista, os papéis pessoais são assimétricos, pois o entrevistado ocupa
papel mais passivo, enquanto o poder está nas mãos do entrevistador, esse fator é uma das
características de um texto de posição intermediária.
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Na entrevista com a Presidente, é possível observar que os papéis sociais
são assimétricos também, sendo que socialmente a posição da Presidente possui maior poder
que a posição da repórter, portanto em algumas partes das entrevistas percebe-se o incômodo
gerado pela discrepância entre os papéis sociais e pessoais, como é possível observar nos
seguintes trechos, em que a Presidente Dilma se desvia da pergunta da jornalista:
(1)
Folha - As manifestações deixaram jornalistas, sociólogos e governantes perplexos. E a
senhora, ficou espantada?
Dilma Rousseff - No discurso que fiz na comemoração dos dez anos do PT, em SP [em
maio], eu já dizia que ninguém, ninguém, quando conquista direitos, quer voltar para trás.
Democracia gera desejo de mais democracia. Inclusão social exige mais inclusão. Quando a
gente, nesses dez anos [de governo do PT], cria condições para milhões de brasileiros
ascenderem, eles vão exigir mais. Tivemos uma inclusão quantitativa. Esta aceleração não se
deu na qualidade dos serviços públicos. Agora temos de responder também aceleradamente a
essas questões.
Já no próximo trecho, Mônica Bergamo retoma a pergunta e redireciona o
tópico:
(2)
Mas a senhora não ficou assustada com os protestos?
Não. Como as coisas aconteceram de forma muito rápida, eu acho que todo mundo teve
inicialmente uma reação emocional muito forte com a violência [policial], principalmente
com a imagem daquela jornalista da Folha [Giuliana Vallone] com o olho furado [por uma
bala de borracha]. Foi chocante. Eu tenho neurose com olho. Já aguentei várias coisas na vida.
Não sei se aguentaria a cegueira.
A ausência do destinatário no espaço de interlocução no texto escrito é uma
das grandes diferenças entre a fala e a escrita, quanto a esse aspecto, o texto traz indicações
em colchetes sobre o que não pode ser expresso apenas pelas perguntas e respostas:
(3)
Se não fosse presidente, teria ido numa passeata?
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Com 65 anos, eu não iria [risos]. Fui a muita passeata, até os 30, 40 anos. Depois disso, você
olha o mundo de outro jeito. Sabe que manifestações são muito importantes, mas cada um dá
a sua contribuição onde é mais capaz.
(4)
A senhora teve uma queda grande nas pesquisas.
Não comento pesquisa. Nem quando sobe nem quando desce [puxa a pálpebra inferior com o
dedo]. Eu presto atenção. E sei perfeitamente que tudo o que sobe desce, e tudo o que desce
sobe.
(5)
O desemprego em junho subiu pela primeira vez em quatro anos, na comparação com o
mesmo mês do ano anterior.
Querida, o desemprego... [Consulta papéis.] Olha aqui, ó. É fantástico. Tem dó de mim, né?
Como não podem falar de inflação, porque o IPCA-15 [prévia do índice oficial] deu 0,07%
neste mês... E nós temos acompanhamento diário da inflação, tá? Hoje deu menos 0,02%. Tá?
Ela [inflação] é cadente, assim, ó [aponta o braço para baixo].
A presença de explicação sobre o que se tratam os dêiticos na entrevista
também é uma marca da posição intermediária que a entrevista ocupa:
(6)
E o emprego?
Houve uma variação. Foi de 5,9% para 6%. É a margem da margem da margem. Foram
gerados 123.836 empregos celetistas. Em todo o primeiro mandato do Fernando Henrique
Cardoso foram gerados 824.394 empregos. Eu, em 30 meses, gerei 4,4 milhões. Você vai me
desculpar. Com a inflação, também... Alguém já disse quanto é que caiu o preço do tomate?
Ou só comentaram quando o tomate aumentou? [Pede para uma assessora checar os números.
Ela informa que o tomate está custando R$ 4,50 o quilo.] Eu não sou dona de casa, não posso
mais ir no supermercado e não sei o preço do tomate hoje. Mas sei a estatística do tomate.
Teve uma queda, se não me engano, de 16%. Eu ia naquele supermercado ali, ó [aponta a
janela]. Não posso mais.
501
A ausência física do destinatário e a consciência e preocupação com sua
presença enquanto leitor da entrevista são marcadas claramente em diversas entrevistas, pois
entrevistado e entrevistador se comportam ora como cúmplices, ora como oponentes na
conquista da atenção do público, pois como afirma Kerbrat-Orecchioni (1990, p. 89), “todos
os destinatários de uma mensagem, mesmo aqueles que o são indiretamente, desempenham
um papel importante no desenvolvimento da interação”.
No trecho a seguir, é possível observar que a repórter se porta como uma
porta-voz das reclamações do povo:
(7)
A crítica é que a senhora relaxou no controle da inflação para manter o crescimento.
Ah, é? Tá bom. E como é que ela tá negativa agora?
No próximo trecho, a Presidente demonstra a consciência do público por
não revelar informações que não deseja que se tornem públicas:
(8)
Ia perguntar sobre seus prováveis adversários em 2014, Aécio Neves e Marina Silva.
[Em tom de brincadeira] Não fica triste, mas sobre isso eu não ia responder, não.
Outra marca que demonstra a posição intermediária da entrevista é o uso de
gírias e palavras que usualmente não são utilizadas em um texto escrito, demonstrando o
aspecto de descontração da fala:
(9)
O prefeito Fernando Haddad diz que, conhecendo o perfil conservador do Brasil, muitos
se preocupam com o rumo que tudo pode tomar.
Eu não acho que o Brasil tem perfil conservador. O povo é lúcido e faz as mudanças de forma
constante e cautelosa. Tem um lado de avanço e um lado de conservação. Já me deram o
seguinte exemplo: é como um elefante, que vai levantando uma perna de cada vez [risos].
Mas é uma pernona que vai e "poing", coloca lá na frente. Aí levanta a outra. Não galopa
como um cavalo. Aí uma pessoa disse: "É, mas tem hora em que ele vira um urso bailarino".
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Você pode achar que contém a mudança em limites conservadores. Não é verdade. Tem hora
em que o povo brasileiro aposta. E aposta pesado.
(10)
A senhora já fez ministros chorarem com suas broncas?
Ah, que ministros choram o quê! Aquela história do [ex-presidente da Petrobras José Sergio]
Gabrielli? Um dia escreveram que ele era pretensioso e autoritário. No dia seguinte, que eu
tinha brigado e que ele chorou no banheiro. A gente ligava pra ele: "Eu queria falar com o
autoritário chorão". Ô, querida, você conhece o Gabrielli? Ah, pelo amor de Deus.
(11)
Mas o Lula lançou a senhora.
Ele pode lançar, uai.
5 Considerações
Com esse estudo é possível considerar que a entrevista, de acordo com os
fatores apontados no decorrer do trabalho, apresenta características de um texto de posição
intermediária entre a escrita e a fala, pois apresenta ora as características apenas da escrita, ora
características da língua falada.
Assim a linha de separação entre a fala e a escrita se torna mais tênue,
demonstrando que a separação absoluta acontece apenas em situações de fala e escrita ideais.
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