AS MULHERES E O AMOR o que nos ensina Ricardo III, de Shakespeare Maria Anita Carneiro Ribeiro Um pouco de história Até a batalha de Bosworth, em 1485, os reis da Inglaterra se orgulhavam em descender em linha direta de Guilherme, o Conquistador. Mesmo o golpe de estado que derrubou o corrupto rei Ricardo II, colocou no trono seu primo Henrique Bolinbroke, de sangue tão real quanto o do infortunado rei. Este golpe, aliás, foi a origem da futura guerra das Duas Rosas, guerra fratricida que dividiu a Inglaterra entre a casa de Lancaster (rosa vermelha) e a casa de York (rosa branca). É importante entretanto salientar que os príncipes das duas casas eram descendentes do rei Eduardo III, ou seja, todos de sangue real. Eduardo IV, irmão mais velho de Ricardo III, da casa de York, tomou o trono de Henrique VI, da casa de Lancaster, após um reinado infeliz de um rei louco, dominado por uma rainha inescrupulosa. Eduardo fez um grande reinado, recuperou as finanças e o brilho da corte. Ao morrer, deixou dois filhos pequenos, conhecidos na história como os príncipes da Torre. Sem dúvida, Eduardo foi um grande rei, mas era também um homem voluptuoso e debochado, de inúmeras aventuras sexuais. Foi tomado pelo desejo que se casou com uma viúva pobre mas belíssima, Elisabeth Wydwille para desespero de seus ministros que desejavam um casamento político para o rei. A família da rainha, os Wydvilles, com o ímpeto próprio dos novos ricos, lançou-se em busca de riquezas e poder. Com a morte do rei Eduardo, eis o panorama: seu irmão Ricardo de Glaucester foi nomeado regente, segundo o desejo do falecido rei. No entanto, os dois príncipes herdeiros estavam a mercê da influência dos Wydvilles, seus parentes próximos. Ricardo, como bom estadista, isolou as crianças nos aposentos reais da torre de Londres, que na época não era uma prisão. Prosseguiu a uma investigação para provar que por ocasião de seu casamento com Elisabeth Wydville o rei Eduardo estava prometido em casamento a outra mulher. Como na época uma promessa verbal de casamento diante de testemunhas tinha o valor de um contrato irrevogável, declarou seus sobrinhos ilegítimos e assumiu o trono como Ricardo III. Algum tempo depois, as crianças desapareceram na Torre. Ricardo era o último varão York. O último Lancaster, filho de Henrique VI, havia morrido no campo de batalha. Ricardo de Shakespeare Os documentos históricos que poderiam nos elucidar sobre a verdade dos fatos da época foram profundamente adulterados por motivos políticos. Ricardo III foi derrotado na batalha de Bosworth por Henrique Tudor, o campeão da casa de Lancaster, que não tinha nem uma gota de sangue real inglês. Os Tudors eram frutos do casamento desigual da viúva de Henrique V, uma princesa francesa, com um cavalariçogalês, sem nenhum título de nobreza. Com a vitória, Henrique Tudor casa-se com Elizabeth de York, filha e herdeira legítima de Eduardo IV, encerrando a guerra fratricida e iniciando uma nova dinastia. Os Tudors trouxeram riqueza e prosperidade à Inglaterra, porém sua origem vassala não seria facilmente esquecida. Assim sendo, era necessário denegrir ao máximo, no imaginário popular, a figura do último rei Plantageneta. Shakespeare viveu sob o reinado de Elisabeth I, neta do Henrique Tudor que venceu Ricardo no campo de batalha. Foi certamente para agradála que Shakespeare transformou Ricardo no corcunda assassino, porém seu gênio superou qualquer outro desígnio, e o que temos em Ricardo III é uma magistral composição sobre o lado mais escuro da alma humana, mas também sobre as mulheres e o amor. É duvidoso que o verdadeiro Ricardo fosse corcunda e alguns autores modernos chegam mesmo a questionar a veracidade do assassinato dos príncipes na Torre. Porém este, se confirmado, teria sido um crime político, guiado pela prudência e não um puro exercício de sadismo. Certamente as duas cenas que comentaremos neste trabalho são historicamente falsas, o que não lhes retira o poder de verdade, como veremos adiante. Ricardo passou parte de sua infância e adolescência junto à corte de Lord Warwick, conhecido como “o fazedor de reis”, pai da Rainha Ana. Assim sendo, o futuro casal de monarcas, Ricardo e Ana, se conhecia muito bem, podendo até ter sido namorados de infância. Lord Warwick ganhou seu codinome de “fazedor de reis” porque ora apoiava os York, ora apoiava os Lancaster e, numa destas reviravoltas contratou o casamento de sua filha com o filho de Henrique VI sem que este casamento jamais tenha sido consumado. A rainha Ana morreu em 1484 de câncer ou de tuberculose. Os Tudors divulgaram a hipótese de que ela havia sido envenenada por Ricardo. Não há nenhuma evidência desta calúnia, porem é certo que em 1484 Ricardo foi tomado por uma paixão incestuosa por sua sobrinha Elisabeth de York, que então contava 18 anos. A Biblioteca Britânica guarda uma cópia do Romance de Tristão, com a assinatura de Ricardo, e o lema e a assinatura de solteira de Elisabeth (Weir, 1999, p. 193). O Conselho real, entretanto, não aprovou o enlace e o projeto, que garantiria a legitimidade do trono a Ricardo, foi abandonado. Lembremo-nos que com a morte dos príncipes na Torre, Elisabeth era a herdeira imediata de Eduardo IV. Não há registro histórico de protestos feitos sobre o assassinato dos príncipes em todo o episódio do “affair” entre Elisabeth e Ricardo. As mulheres e o amor Sabemos que, para Freud, tornar-se mulher implica no mínimo em duas tarefas complexas: a mudança de zona erógena (do clitóris para a vagina) e a mudança de objeto de amor (da mãe para o pai e seus substitutos) [Freud, 1933 (1993) pp. 108-121]. Porém é um aspecto bem particular do vir-a-ser feminino que nos interessa abordar: a relação particular das mulheres à angústia e, conseqüentemente, sua insaciável demanda de amor. Freud nos diz que, embora as mulheres estejam referidas ao complexo de castração, não podemos, no caso delas, falar de angústia de castração [Freud, 1926 (1993) p. 117]. Em outras palavras, as mulheres permanecem presas à forma mais primitiva de angústia, o desamparo. A angústia de castração do homem o remete à lógica fálica, à lógica do ter ou não ter, que lhe permite nomear sua angústia como angústia diante da perda de um objeto de valor fálico. No caso das mulheres, é a angústia diante da ameaça de sua própria perda que está em questão. Diante disto, nos diz Freud (ibid, p.135), na angústia as mulheres não temem perder seu objeto, mas temem perder o amor do objeto amado. O amor é então para as mulheres o refúgio frente ao desamparo, a pouca garantia de sobrevivência, o antídoto de sua própria perda. É o que leva Lacan a dizer que “não há limites às concessões que cada uma faz para um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens” [Lacan, 1973 (1993) p.70]. Aparentemente, esta desesperada demanda de amor estaria em contradição com o que próprio Freud define como a típica posição feminina diante do amor: o narcisismo [Freud, 1914 (1995) p.85]. Lacan elucida esta aparente contradição ao nos falar da duplicidade do gozo feminino, que permite com que uma mulher, para além do gozo fálico que obtém do parceiro, goze de um gozo fora da linguagem, fora da referênciaedípica. Freud (op.cit.1933, p.111) chamou de ligação-mãe pré-edípica a este gozo devastador, feito de angústia e pulsão de morte. Diz-nos Lacan: “De fato, por que não admitir que, se não há virilidade que a castração não consagre, é um amante castrado ou um homem morto (ou os dois em um) que, para a mulher, oculta-se por trás do véu para ali invocar sua adoração – ou seja, no mesmo lugar, para-além do semelhante materno, de onde lhe veio ameaça de uma castração que realmente não lhe diz respeito?“ [Lacan, 1960 (1998) p.742]. De fato, em seu segundo texto sobre a psicologia do amor, Freud já havia enfatizado que, do lado das mulheres, não se encontra a supervalorização do objeto de amor, tão típica da forma de amor masculina. Pelo contrário, diz ele, “na mulher se nota apenas uma necessidade de degradar o objeto sexual” [Freud, 1912 (1994) p.180]. É a própria castração do homem, seu furo, sua falta que a mulher busca para ali invocar sua adoração. É o que vemos no cotidiano da clínica quando encontramos mulheres apaixonadas por bandidos, marginais, homens desqualificados. O amor feminino, ao contrário do masculino, não visa salvar o objeto amado da degradação, mas sim adorar nele a própria falta, a marca da castração. É assim dividida em sua própria posição de gozo que a mulher se prende ao narcisismo. Segundo Lacan: “Na posição de ou-isto-ou-aquilo em que se vê preso o sujeito, entre uma pura ausência e uma pura sensibilidade, não é de surpreender que o narcisismo do desejo se agarre imediatamente ao narcisismo doego que é seu protótipo” (Lacan; ibid, ibid). Sim, não há limites às concessões que uma mulher pode fazer a um homem, mas a um preço: o de supor que é amada! Shakespeare sabe disto muito bem e em duas cenas magistrais de Ricardo III nos mostra mulheres diante do amor. Na cena II do primeiro ato, Ana segue pelas ruas de Londres o cortejo fúnebre de seu marido e seu sogro, mortos nos campos de batalha por Ricardo. Este aparece e faz parar o cortejo. Dá-se então um diálogo afiado: de um lado, a viúva enlouquecida de ódio e dor, e do outro o monstro que foi “oceifador da dourada primavera daquele amável príncipe” (Shakespeare, 1995, p. 588). Ana vitupera: “Fora daqui, repugnante ministro do inferno”, “Permite, monstro infecto de homem, que agora te maldiga por tantos crimes conhecidos!”, “Infame assassino”...; enquanto que Ricardo a lisonjeia: “Doce santa, por caridade, menos maldição!”, “Divina perfeição de mulher”, “Mulher belíssima, cuja formosura não é possível expressar...”. É interessante observar que Ricardo não nega seus crimes e admite não sentir piedade dos mortos, mas atribui tudo a Ana: “Foi vossa beleza a causa desse efeito! Vossa beleza que me incitou...”. Lança-se aos pés de Ana e, desembainhando a espada, oferece para se matar se ela assim o desejar: “Matei o rei Henrique! Mas foi vossa beleza que me provocou!... Apunhalei o jovem Eduardo! Mas foi vosso rosto celestial que me guiou!” (ibid, pp. 583586). A jovem termina por concordar em entregar os corpos ao vilão, e certamente não é seu falso arrependimento que a convence a aceitar o anel do assassino diante dos corpos de suas vítimas. Após a saída de Ana, Ricardo zomba: “E entretanto consente ela em fixar em mim os seus olhos... Em mim, coxo e tão disforme... Por minha vida, embora eu não concorde com isso, ela me acha maravilhosamente encantador... Vou encomendar um espelho...” (ibid, p. 588). Na cena IV do quarto ato, Ricardo, já coroado rei e casado com Ana, aborda a Rainha Elisabeth, viúva de seu irmão Eduardo IV e mãe dos príncipes mortos na Torre. A rainha pede que Ricardo seja breve e ele retruca: “Fica, então, sabendo que amo tua filha com um afeto do fundo de minha alma”. Ao que Elisabeth retruca irônica: “Que amas minha filha do fundo de tua alma, como do fundo de tua alma amaste os irmãos dela”. (ibid, p. 640). Segue-se novamente um diálogo afiado, de tiradas rápidas, em que Ricardo busca a cumplicidade da cunhada para seduzir a sobrinha. Seus argumentos exploram o narcisismo da rainha. Diz que os futuros filhos, dele Ricardo com a sobrinha, serão filhos da têmpera da rainha: “Vossos filhos foram o tormento de vossa juventude; os meus serão o consolo de vossa velhice... Vós sereis novamente mãe de um rei, e todas as ruínas dos tempos de desgraça serão reparadas com o tesouro de uma dupla felicidade” (ibid, p. 641) Aos poucos a rainha cede: Elisabeth: Estarei assim sendo tentada pelo demônio? Ricardo: Sim, se o demônio vos tenta para o bem. Elisabeth: Esquecer-me-ia eu mesmo de ser eu mesma? Ricardo: Sim, se a lembrança de vós mesma prejudica a vós mesma. Elisabeth: Mas tu mataste meus filhos! Ricardo: Mas sepultá-los-ei no seio de vossa filha, em cujo perfumado ninho renascerão por si mesmos para vosso reconforto. Elisabeth: Irei conquistar minha filha para teus desejos? Ricardo: E feliz mãe, sereis assim! Elisabeth:Irei... Escreve-me logo e por meu intermédio conhecerás os sentimentos dela. Ricardo: Levai-lhe o beijo do meu sincero amor! E com isto, adeus! (sai a rainha) Frágil louca, mulher fútil e inconstante! Mas Elisabeth não é louca de todo. Amparada pelas palavras de amor, se vê narcisicamente na filha, tão bela como ela o fora quando conquistara o seu rei. As mulheres não são todas loucas, elas são não-todas e para sustentar seu ser não-todo preso à palavra, ao significante, precisam da palavra de amor como âncora, proteção e conforto. Ricardo, um homem de nosso tempo? Ricardo não ama as mulheres, não as respeita. Usa seu saber sobre o feminino para manipulá-las e humilhá-las. Bloom (2000, p. 109) alega que ao criar Ricardo, Shakespeare na verdade criou um monstro em seu processo de invenção do humano. Porém é este mesmo autor que admite que “somos incapazes de resistir ao terrível fascínio de Ricardo” (ibid, p.107). Não creio que este fascínio seja gerado pela estranheza das platéias diante de um monstro. Levanto aqui a hipótese de que é antes a familiaridade com um certo tipo de funcionamento subjetivo, terrível, porém humano, muito humano, que gera o fascínio pelo rei corcunda, coxo e assassino. Ricardo funciona fora da lei edípica. Honan (2001, p.185) salienta que na peça anterior, Henrique VI, o duque de York elogia-o como “o mais merecedor de todos os meus filhos”, observando que no entretanto em Ricardo III não há referências ao pai. Desde o início o personagem opera como se não tivesse história, nem raízes. Seu irmão Clarence é assassinado sem culpas. Assim também o são os pequenos sobrinhos. É com frieza e uma certa dose de cumplicidade que anuncia a morte da esposa, para a platéia certamente por ele causada. Ricardo, entretanto, não é mórbido: chega a se assemelhar a um ator que encarna qualquer personagem para obter seus desígnios. É isto que ele tem de fascinante: parece acima do bem e do mal, fora da lei, narcísico e triunfante. Em seu triunfo, despreza as mulheres, cujo narcisismo e angústia as leva a depender do amor do Outro. “Ricardo ama Ricardo” (Shakespeare , op cit. p. 651) brada no monólogo próximo ao final da peça, e não há porque duvidarmos. Muito se tem falado sobre novas formas de sintoma na contemporaneidade e até mesmo de novas subjetividades, engendradas a partir da face atual do discurso capitalista. O sujeito de contemporaneidade, se existisse, seria o narcisista, fora da norma fálica, não mais regulado pelo recalque (Helman, 2003). Creio que ainda não temos evidência clínica que aponte para a maior incidência deste tipo de funcionamento subjetivo na atualidade. Porém temos a brilhante criação de Shakespeare, o personagem Ricardo III, para nos ensinar que “o homem sem gravidade” já existia século XVI. A peça foi escrita entre 1592-93 e impressa em 1597. Aliás, Ricardo se assemelha muito ao que Helen Deutch descreve como personalidade “como se”: psicóticos não surtados, com extrema capacidade de adaptação, histriônicos e narcisistas. É daí que provém o fascínio que despertam – sem lei e sem limites, parecem ser tudo e poder tudo. Para a psicanálise uma mulher encarna o Outro sexo, a alteridade radical que funda a diferença sexual, o desejo e a lei. Na lógica do “gozo a qualquer preço” (ibid) de Ricardo III, o escárnio do rei pelo feminino é um dos fundamentos da construção e da força do personagem. Ricardo, o homem contemporâneo de 1592, em sua misoginia, encarna uma das múltiplas manifestações do que chamamos de humano. Referências Bibliográficas BLOOM, H. Shakespeare: a invenção do humano, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2000. FREUD, S. “Sobre la más generalizada degradacion de la vida amorosa” (1912), Obras completas, vol. XI, Buenos Aires, Amorrortu Ed., 1994. ______. “Introducion del Narcisismo” (1914), Obras Completas, vol. XIV, Buenos Aires, Amorrortu Ed. 1995. ______. “Inhibición, síntoma y angustia” (1926), Obras completas, vol. XX, Buenos Aires, Amorrortu Ed. 1993. ______. “33ª conferencia: La feminidad” (1933) Obras completas, vol. XXII, Buenos Aires, Amorrortu Ed. 1993. HELMAN, C. O homem sem gravidade, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2003. HONAN, P. Shakespeare, uma vida, São Paulo, Companhia das Letras, 2001. LACAN, J. “Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina” (1960), Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998. ______. Televisão (1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1993. SHAKESPEARE, W. Obra completa vol. III, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1995. WEIR, A. The princes in the Tower, Londres, The Folio Society, 1999.