Escavações eem m três abrigos DDaa serra branca Nota prévia N. Guidon¹; C. Buco²; E. Ignácio³ FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 52 No ano de 2005, foram realizadas escavações na região da Serra Branca, um grande vale fóssil que corre no sentido sul-norte, na região oeste do Parque Nacional. Essas escavações visavam obter dados sobre a evolução do clima e sua influência sobre a paisagem local, bem como sobre o padrão de ocupação do espaço pelos homens pré-históricos. A rede de drenagem é complexa, compreendendo um largo vale central e afluentes, alguns importantes, outros pequenos, alguns correndo dentro de canyons profundos. Quedas d’água que alimentavam os afluentes voltam a correr quando as chuvas são muito fortes. Esta situação permite, graças aos dados obtidos pelas escavações, retraçar os níveis do sistema de drenagem nos últimos 10.000 anos. (Fig. 1) 5 1 0 1 0 5 10 km 2 km Sítio arqueológico Guarita Base de Apoio Rodovia Trilhas Estrada carroçável fora do Parque Estrada carroçável dentro do Parque Limite do Parque Fig.1 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 53 Toca da Gamela A Toca da Gamela é um abrigo com pinturas, situado a UTML 750268 e UTMN 9042233 (Fig. 2 e Fig. 3) na margem esquerda do rio fóssil da Serra Branca. A altitude é de 423 m. A 100m para leste havia um outro sítio com pinturas, conhecido como Toca da Canafístula, que havia servido de residência para os coletores do látex da maniçoba, os maniçobeiros. No local ainda existe um forno para torrar a farinha de mandioca e sua fumaça estragou parte das pinturas. Entre os dois sítios, no alto da serra, existe um outro sítio no qual encontramos legas intactas, ferramentas utilizadas pelos coletores de maniçoba. Este sítio foi chamado Toca das Legas e suas coordenadas são UTML 0750259 e UTMN 9042223, numa altitude de 429 m. É um abrigo com 120 cm de altura, 500 cm de largura e 300 cm de profundidade. O acesso ao sítio é difícil, por uma rampa íngreme, sendo necessário uma corda para poder subir. Fig. 2 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 54 0 1 2 3m Limite da parede rochosa Ponto de referência Curva de nível Fig.3 Toca da Gamela (802) Plano Inicial FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 55 A Toca da Gamela foi também utilizada, em períodos históricos, pelos maniçobeiros que nela acampavam e faziam fogo. Deste modo, as pinturas estavam cobertas por muita fuligem. Além do estado de desagregação do suporte pictórico estar avançado, havia muitas galerias de cupim, ninhos de vespas, depósitos de sais, grafitismo e manchas, provocadas pelo escorrimento de água sobre as pinturas. Após a limpeza efetuada pela equipe de conservação4 da arte rupestre, algumas figuras apareceram. Elas estão, de qualquer maneira, muito estragadas, pálidas e dificilmente visíveis. Foi possível identificar grafismos das Tradições Nordeste e Agreste, nas cores vermelha, branca e amarela, dispersos entre 80cm e 200cm do solo atual. Uma das figuras é a de um antropomorfo, com 40cm de altura, com cocar e o corpo ornado por um traçado geométrico, sem braços, bicolor(vermelho e amarelo) com traços grossos (5mm). Apesar de possuir características, forma e preenchimento, que permitem classificá-lo como da Tradição Nordeste, sub-tradição Várzea Grande, estilo Serra Branca, possui outras, como o de ser uma figura estática, com uma técnica pictural que utilizou traços grossos, características típicas da Tradição Agreste. Optamos em não classificá-lo estilisticamente, pois ele é o único na região do Parque Nacional Serra da Capivara, ou seja, não há nada parecido com ele nos outros 500 sítios de arte rupestre, Fig.4 cadastrados (Fig. 4). A parede do fundo do abrigo é retilínea, inclinada cerca de 30 graus o que forma o teto, seguindo o alinhamento oeste-leste, abrindo-se para o sul. Na superfície do sítio havia duas gamelas, razão pela qual o mesmo recebeu esse nome (Fig. 5). FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 56 Fig.5 No solo atual, eram também, visíveis as bordas de um pote de cerâmica. A escavação teve início neste local, mas verificamos que se tratava unicamente da borda, quebrada, de um pote de cerâmica histórica. A escavação permitiu que fossem encontrados os seguintes vestígios arqueológicos: 796 peças líticas sendo 38 estilhas, 24 peças retocadas, 198 fragmentos, 286 lascas corticais, 164 lascas sem córtex, 13 núcleos, 9 seixos com 1 lascamento, 7 seixos com 2 lascamentos, 6 seixos com 3 lascamentos, 6 seixos com mais de 3 lascamentos e 45 seixos naturais (9 com marcas de uso); 35 fragmentos de paredes caídos, alguns com pintura; 35 blocos de fogueira sendo que 18 blocos formavam a fogueira 1 e 17 blocos formavam a fogueira 2; 43 fragmentos de cerâmica sendo que 24 não tem decoração, 18 são escovados e 1 fragmento é roletado; peças atuais como pedaços de plástico, fragmentos de louça, cartuchos de espingarda, bico de bule, tecidos e gamelas de madeira. Também foram encontrados carapaças de tatu, caramujos, fragmentos de ossos de animais e fezes. Foram coletadas 70 amostras de carvão e 23 amostras de sedimento. FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 57 Ficou evidente que, durante as épocas pré-históricas as chuvas eram violentas e havia no local uma queda de água, ao lado da qual foram pintadas as figuras na parede rochosa. O material arqueológico parece ter vindo do alto, de oeste para leste, arrastado para o sitio, pelas enxurradas. Os sedimentos começaram a ser depositados somente depois que o regime das chuvas mudou e as mesmas se tornaram mais escassas. Muitos carvões encontrados estavam misturados aos sedimentos, formando um total de nove manchas dispersas pelo pacote sedimentar, a análise desses sedimentos está em curso. Foram evidenciadas três fogueiras estruturadas, uma estava na superfície, e as outras duas, na única camada de ocupação, claramente visível no corte estratigráfico, localizadas, uma no setor 3 e a outra na sondagem 1. Obtivemos a datação 2850+- 40BP (Cal BP 3060 to 2850) Beta Analitic 213100, para carvões retirados do interior da fogueira da sondagem 1 para essa camada de ocupação (decapagem 7) - (Fig. 6). 0 1 2 3 cm Limite da parede rochosa Limite da escavação Ponto de referência Seixo Bloco com pintura Carvão datado - etiqueta 115384 Lítico Ponto para triangulação Mancha de carvão Toca da Gamela (802) Fig.6 Plano de distribuição de vestígios Dec.7 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 58 Toca do Pica-pau A Toca do Pica-pau se encontra às margens de um afluente da margem direita do rio fóssil da Serra Branca, UTML 751897 e UTMN 9047090, altitude de 401m (Fig.7). O abrigo tem forma côncava, com 3 metros de profundidade em relação à linha de chuva, seu alinhamento é sudeste/noroeste e ele se abre para o sudoeste. Forma uma quilha entre dois canyons que vão desembocar no afluente. Quando ocorrem chuvas pesadas a torrente é forte e a água desce, em quantidade, pelo teto do abrigo (Fig. 8). Fig.7 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 59 Fig.8 Decidimos escavar este sítio porque o mesmo apresentava figuras ao nível do solo atual, o que indica que as mesmas foram feitas quando as camadas sedimentares ainda não haviam sido depositadas. A escavação permitiu definir uma idade mínima para as pinturas (Fig.9). Fig.9 Fig.9 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 60 Foram evidenciados dois níveis de ocupação, um a 250 cm e o outro a 320 cm abaixo da superfície atual. A parede do fundo desce formando um plano inclinado, o que facilitava o trabalho dos autores das pinturas. A base rochosa do abrigo é formada por marmitas de erosão o que demonstra a potência da torrente que por ali passava durante épocas pré-históricas anteriores a 10.000/9.000 anos. Foram evidenciadas 29 manchas de carvão e 21 fogueiras dispersas entre blocos caídos e seixos que caracterizamos dois níveis de ocupação, um primeiro onde a presença dos seixos é notável e um mais antigo, em torno de 7.000 anos, onde há a presença, em maior quantidade, de blocos caídos. Foram encontradas 5021 peças líticas, distribuídas nas diversas decapagens, inclusive naquelas não identificadas como camada de ocupação, podendo ter sido levadas ao sítio pela força da água nos períodos de chuva. A classificação preliminar permitiu identificar 1413 estilhas, 79 ferramentas, 671 fragmentos, 8 lâminas, 1250 lascas corticais, 883 lascas sem córtex, 25 núcleos, 664 seixos sendo 168 lascados e 496 naturais. Também foram coletadas 63 amostras de carvão e 118 amostras de sedimento. Na decapagem 11, a uma profundidade de 249 cm abaixo do solo atual, foi encontrado um fragmento de cerâmica com uma decoração particular, único exemplo na região. Carvões encontrados na mesma decapagem, a uma distância de 2 m foram datados em 3.800 +/- 40 BP (idade radiocarbono convencional) sendo o resultado calibrado (2 sigma) de 4.290 a 4.080 BP (Beta-207865) (Fig. 10). 0 1 2 3m Limite da parede rochosa Ponto de referência Lítico Mancha de carvão Carvão datado Etiqueta 114588 Carvão Cerâmica- etiqueta 114587 1 0 1 6 cm Cerâmica - Etiqueta 114587 Toca do Pica-Páu (570) Plano de distribuição de vestígios Dec.11 Fig.10 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 61 Na decapagem 25, a uma profundidade de 317cm abaixo do solo atual do sítio, foram analisados carvões que datam placas rochosas com restos de pintura, são 10 fragmentos de parede com traços retilíneos e curvos nas cores vermelha e preta. O resultado (Beta-207267) é 7.410 +/- 60 BP (idade radiocarbono Limite da parede rochosa Limite da escavação Ponto de referência Limite de blocos Mancha de carvão Toca do Pica-Pau (570) Plano de distribuição de vestígios Dec.25 Fogueira Placa com pintura - etiqueta 116787 Carvão datado - etiqueta 116788 Amostra de sedimento Lítico Concentração de seixos Fig.11 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 62 convencional) sendo o resultado calibrado (2 sigma) de 8.360 a 8.110 BP e 8090 a 8060 BP. Em um dos fragmentos há uma pata de um cervídeo, que encaixa em um dos painéis enterrados (Fig.11) Na decapagem 27, a uma profundidade de 350cm abaixo do solo atual, foram datados carvões encontrados junto a uma ponta de projétil tipo rabo de peixe, de quartzo hialino dando o resultado de 7.920 +/- 60 BP m 0 Limite da parede rochosa Limite da escavação Ponto de referência Concentração de blocos Limite de bloco Mancha de carvão Carvão datado - etiqueta 117181 Carvão Amostra de sedimento Lítico Ponta de projétil - Etiqueta 117180 Ocre 1 2 3m 3 0 1 2 Ponta de projetil 4 cm Toca do Pica-Páu (570) Plano de distribuição de vestígios Dec.27 Fig.12 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 63 (idade radiocarbono convencional) sendo o resultado calibrado (2 sigma) de 9.000 a 8.580 BP (Beta207268). Também nessa decapagem foi encontrado um bastão de ocre, com marcas de uso (Fig. 12). O carvão encontrado na parte mais profunda do abrigo, decapagem 32, numa profundidade de 427cm da superfície atual, será datado para confirmar o período em que se formou a camada sedimentar mais profunda. Amostras de sedimento foram coletadas e enviadas para o Prof. Shigueo Watanabe da USP, o que nos permitirá definir até que momento a torrente lavava a base rochosa do abrigo. A escavação permitiu a descoberta de figuras que estavam cobertas pelos sedimentos, as mesmas sofreram por estarem enterradas, pois foram sujeitas à alternência de umidade e seca segundo as estações. Pinturas Rupestres Em uma área da parede rochosa, de 12m2, após a escavação e limpeza do suporte rochoso, foram evidenciados grafismos das Tradições Nordeste e Agreste. Fig.13 Por ocasião do início da escavação observavam-se apenas três grafismos, junto à superfície atual, dois antropomorfos e um grafismo puro. Os grafismos enterrados foram separados em 5 painéis, segundo os critérios de proximidade entre eles e diferenças no suporte rochoso (Fig. 13). O painel um, ocupa uma área de 2,5m de comprimento, por 70cm de altura, em péssimo estado de conservação. Identificamos manchas vermelhas espalhadas pela área, um crustáceo pintado na cor Fig.14 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 64 vermelho-escuro, com pouca nitidez (Fig.14) e um grafismo com 30cm de largura que parece um antropomorfo, na cor vermelha. Numa área ocupando 70cm de comprimento por 40cm de altura, há dois grafismos da Tradição Agreste; um com 30cm de altura que parece um antropomorfo, com 20 cm de altura, com um objeto em uma das mãos. Fig.15 Ambos têm o corpo preenchido. Ao lado há quatro linhas paralelas. Este conjunto foi denominado como painel dois, localizado a 50cm acima do painel três (Fig. 15) No painel três, com 2,5m de comprimento e 40cm de altura, da esquerda para a direita, temos dois cervídeos, em miniatura, com o corpo preenchido internamente, um completo e o outro incompleto, por falta de um pedaço do suporte rochoso (Fig. 16). Como citado anteriormente, encontrou-se, durante a escavação, um fragmento rochoso com um resto de pintura que se encaixa perfeitamente neste cervídeo. Um felino preto, com 20cm de comprimento, realizado com a técnica do riscado, em uma posição diferente dos demais encontrados nesta região, foi representado sentado. Há uma mancha pictórica preta por detrás de uma seqüência de cinco emas brancas, com 20 cm de altura preenchidas com linhas curvas e retas, característica da Tradição Nordeste, sub-tradição Várzea Branca, estilo Serra Branca. Dando continuidade temos cinco figuras humanas com os corpos preenchidos e mãos dadas, uma ao lado da outra, cena muito comum nesta região, um zoomorfo de 13 cm, espécie não identificada, na cor preta, Fig.16 Fig.17 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 65 com o corpo preenchido e manchas vermelhas ao lado de um antropomorfo em miniatura com o corpo totalmente preenchido (Fig. 17). Este é o painel mais baixo dos cinco descobertos. No painel quatro há sete grafismos, dispersos em dois conjuntos. No primeiro, há uma ema pequena e um grafismo, de 20cm, composto por linhas curvas usando a técnica do riscado, na cor vermelha (Fig. 18). No segundo conjunto há duas emas, uma em miniatura com o corpo totalmente preenchido e outra ema, com 18 cm, com o corpo preenchido geometricamente na cor vermelha, característica da Tradição Nordeste, sub-tradição Várzea Branca, estilo Serra Branca, um cervídeo vermelho, em miniatura, Fig.18 Fig.19 FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 66 representado somente pelo contorno, com o corpo vazado e dois cervídeos amarelos, um com mais de 30 cm e o outro com 20 cm, ambos com o corpo preenchido geometricamente e pouco nítidos ( Fig. 19). Fig. 20 Com um metro de largura e 60cm de altura, temos o quinto painel (Fig. 20). Este era o único painel que se encontrava fora da área enterrada. Pela inclinação côncava do abrigo, só foi possível ver com nitidez esses grafismos após a escavação. Hoje é possível identificar dois antropomorfos, um grafismo puro que parece uma tentativa de desenhar e pintar uma mão, e uma mão realizada pela técnica do carimbo. Fig.21 Esse conjunto pictórico é importante por duas questões. A primeira, porque com a datação do fragmento, que se encaixa no painel três, o estilo Serra Branca da Tradição Nordeste, em destaque a fileira de emas brancas, (Fig. 21) alcançou a idade de 8 mil anos. A segunda é a demonstração de que há um conjunto de técnicas, corpo pintado preenchido totalmente, ou vazado, ou com preenchimento FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 67 geométrico e traços riscados e pintados nas cores pretas e vermelha que podem indicar que um mesmo grupo pode ter técnicas diferentes e as mesmas podem acontecer ao mesmo tempo, utilizadas por artistas distintos em um mesmo lugar, não indicando, obrigatoriamente, diferenças estilísticas associadas a grupos distintos. Toca Nova do Inharé As escavações neste sítio tiveram início em razão do mesmo apresentar pinturas na altura do solo atual. O abrigo tem a forma retilínea, alinha-se de norte a sul com abertura para oeste. Está situado às margens da desembocadura de um canyon estreito, a 100m de distância da Toca do Pica-pau, em posição mais alta. Suas coordenadas são UTML 0751941e UTMN 9047146, altitude de 408 m (Fig. 7). Na superfície foi encontrada uma lega, o que demonstra que este sítio também foi utilizado pelos maniçobeiros. As escavações (Fig. 22 e 23) resultaram na coleta de 890 peças líticas, sendo 40 estilhas, 182 fragmentos, 46 ferramentas, 321 lascas corticais, 63 lascas sem córtex, 15 núcleos, 59 seixos lascados e 154 seixos naturais; 87 amostras de sedimentos e 112 amostras de carvões, retirados das 10 manchas e 17 fogueiras estruturadas, como também o restante de um tronco de árvore de 40 cm de diâmetro, carbonizado. O tronco foi datado pela técnica do Carbono 14 e obtivemos a idade convencional de 7.330+-50 BP, sendo o resultado calibrado (2 sigma) 8.200 to 8.010 BP (Beta 213556). Na decapagem 47, datamos carvão pelo Carbono 14 e obtivemos a idade de 10.100+-60 BP, resultado calibrado (2 sigma) 12.270 to 12.230 BP e 12.120 to 11.320 BP (Beta 213555). Esta datação é a mais antiga para uma camada de ocupação na região da Serra Branca, até o momento. DECAPAGEM - 47 572-109734 Ilustração A 0 5 cm FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 68 Ilustração B DECAPAGEM - 50 572-109760 0 5 cm Ilustração C DECAPAGEM - 37 572-117001 0 5 cm FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 69 Fig. 23 - Vista da escavação Limite de chuva Ponto de Referância Limite da parede rochosa Curvas de nível Limite escavação 0 4m Fig. 22 - Plano Inicial em curvas de nível do sitio arqueológico e entorno FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 70 Neste sítio, observamos três camadas de ocupação, uma mais recente, de cerca de 3.000 anos, outra entre 7.000 e 8.000 anos e a mais antiga entre 10.000 e 12.000 anos atrás. Selecionamos peças líticas, que demonstram uma variedade tecno-tipológica e de matéria prima, comprovando a habilidade técnica do homem que ocupava esse sítio (Ilustrações A, B e C). Neste abrigo encontramos quedas d’água de leste para oeste; passando pela lateral sul do abrigo, essas águas correm em direção à margem direita do antigo vale da Serra Branca. Fig. 24 -Vista geral do painel Fig. 25 -Detalhe dos grafismos após limpeza FUMDHAMENTOS VI .Escavações em Três abrigos da Serra Branca-Nota Prévia . N. Guidon; C. Buco; E. Ignácio 71 Quanto à pintura rupestre podemos dizer que, no início da escavação se viam dois antropomorfos em movimento encostados ao solo e com a retirada do sedimento e a limpeza da superfície pictórica, identificamos uma cena com mais de 5 antropomorfos em diferentes posições gestuais e objetos nas mãos. O estado de conservação é péssimo, não sendo possível identificar detalhes dos grafismos (Fig. 24 e 25). Notas 1 École des Hautes Études en Sciences Sociales - Fundação Museu do Homem Americano. -Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Fundação Museu do Homem Americano. 2 3- Universidade Federal do Vale do São Francisco - Fundação Museu do Homem Americano. A equipe técnica responsável pela análise preliminar dos vestígios foi integrada por Maria Aparecida Pereira, Simone Silva Santana, Leandro Santos Paes Landim, Zenair Martins de Negreiros,Valdeci da Silva Paes, Artenice dos Santos Miranda e Gislània de Santana Lopes. A equipe técnica de prospecção e conservação de arte rupestre é composta por Jorlan da Silva Oliveira, Carlos Gadelha Negreiros Mendes, Décio de Sousa Mata, Elizangela Ferreira dos Santos, Rogério de Oliveira Paes, Adelson dos Santos Miranda, Raimundo de Lima Miranda Junior. A equipe técnica de escavação é composta por Raimundo de Lima Miranda, Aurélio Ferreira Paes Landim, Arnor Paes Landim Pereira, Hélio Paes Landim, José Paes Landim, Afonso Ferreira Paes Landim, Gilberto Ferreira Paes Landim, Lourenço Barbosa da Silva. A equipe técnica da informática e do desenho é composta por Iranilde Rodrigues Alves, Lucas Braga da Silva, Evandro Macêdo Santana, Dalmir de Negreiros Paes, Thalison dos Santos, Ariclenes da Costa Santo e Iderlan de Souza. 4- Referências Bibliográficas BASTOS, R.L.,SOUZA,M.C.,GALLO,H. , 2005. Normas e Gerenciamento do Patrimônio Arqueológico. São Paulo, 9ª SR- IPHAN, 201p BLASCHKE,T.,KUX,H., 2005 . Sensoriamento Remoto e SIG Avançados. São Paulo, Oficina de textos, 286p GARLAKE.P. 1995. The Hunterìs Vision. University of Washington Press, Seattle, 176p GUIDON, N.,1986. A seqüência cultural da área de São Raimundo Nonato, Piauí. In CLIO, Recife, UFPE, Série arqueológica, n.8, pp.137-143 1991. Peintures préhistoriques du Brasil; L’art rupestre du Piauí. Paris: Editions Recherches sur les Civilisations, 109 p 2002. Contribuição ao estudo da paleogeografia da área do Parque Nacional Serra da Capivara. In CLIO, Recife, UFPE, v. 1, n. 13, pp.187-198 GUIDON, N., PESSIS, A.M., 2000. 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