-Há quanto tempo...-diz o rapaz sorridente. -Sim, quanto tempo...-diz a moça cabisbaixa e com um sorriso triste, ambos sentados numa mesa de restaurante. -Fico feliz que tenha me telefonado. -Eu precisava ver alguém... -Ainda fico feliz que tenha sido eu. -Você sempre pareceu se importar comigo e cuidar de mim. -Eu gosto de você,e muito... -Eu também. Estavam em um restaurante, não muito caro e chique,mas não era um bar, era um bom restaurante, era fim de tarde ou início da noite,pareciam prontos para um lindo encontro, ela estava linda em um vestido e maquiada, e ele de terno, simplesmente impecável. (Narrador lê isso). -Gostariam de pedir?- diz o garçom. -Não sei, você já sabe o que vai tomar Bia? -Um porre Felipe, um porre.- ambos riem, o garçom sorri e diz: -Quando decidirem podem me chamar. -Espera...acho que sei...-diz Felipe sorrindo para Bia. -Sabe?-diz Beatriz sorrindo, Felipe sorri e continua. -Para mim um uísque, simples e puro, talvez com uma ou duas pedras de gelo. E para ela... -Vai pedir por mim? -Bem, se você não mudou nestes últimos tempos sem me ver...-diz Felipe esperando reação de Beatriz,que apenas sorri e diz: -Vamos lá Fe, estava tão corajoso e confiante, surpreenda-me... -Vocês têm suco de cranberry? -Sim.-Beatriz fica tentando ficar sem expressão mas sorri, Felipe olha para ela,volta ao garçom e diz: -Então não tem erro, 2 doses de vodka,1 dose de suco de cranberry,1 dose de suco de abacaxi, umas 3 ou 4 pedras de gelo, e uma fatia de abacaxi na boca do copo, só para ficar bonitinho. Por favor. -Sim, o Baybreeze... -Este é o nome?-diz Felipe realmente curioso, Beatriz ri e diz: -Você vai dizer que não sabia? -Sabia fazer mas não sabia o nome. -Aonde você aprendeu isso? -Bem, depois volto com as bebidas então,com licença.- o Garçom se retira. -Então,aonde você aprendeu a fazer tal bebida Fe? -Um amigo meu me ensinou. -Sério? -Sim,quando falei que tinha te convencido a ir pra casa finalmente... -Pediu ajuda de como me embebedar? Coisa feia...-ambos riem. -Pior que deu certo...mas foi ideia dele, só aceitei.-ambos riem novamente. -Não precisava disso, já queria.- Felipe fica sem graça e Beatriz continua- mas obrigada pelo trabalho, me mostrou uma bebida que até hoje gosto. -De nada. -Mas o que aconteceu com a sua dose de laranja e casca dentro do uísque? -Achei que ia ficar afeminado e quis parecer machão. -Você não precisava disso, já sei que você é machão.-diz ela sorrindo,e ele sorrindo: -Mas ele não.- apontou pro garçom que vinha com as bebidas,ambos sorriem,na verdade riram. -Aqui está seu uísque e seu Baybreeze. -Poxa,rápido.-diz Felipe. -Ele tem alguma prática o barman né?- diz Beatriz,o garçom sorri e diz: -Alguma somente, alguma...- todos sorriem- desculpem-me mas outra mesa me chama,com licença. -Quando foi que você aprendeu o nome da bebida? -Sai com as amigas, pedi e o garçom falou “E um Baybreeze pra senhora.” -Que nem eu então. -Exatamente. -Um brinde ao reencontro. -E que o próximo não demore dois ou mais anos. -Que não demore. Na mesa, três copos em cada lado, um prato com petiscos, ambos estão rindo, naquele momento o tempo parou para eles, e riam como não riam há tempos, tinham esquecido como era gostoso sorrir,rir à toa, ou tinham esquecido como a vida não nos dá tempo de sorrir e rir à toa.(Narrador lê isso) -Lembra daqueles jogos inter-faculdades Fe. -Não muito, não estava em condição de lembrar muito né Bia? -Também não,tenho flashes do que ocorreu somente.-riem escandalosamente, Bia faz sinal para que diminuam e pede desculpas a todos.-Então, lembra aquela vez que ficamos no hotel? -Seu pai pagou,foi a única vez também que dormimos num hotel. -Sim, era a nossa primeira vez indo nesses jogos,ele se preocupou poxa. -Falei nada.-ela sorri e Felipe também,mas um sorriso como se apreciando a alegria dela. -Mas lembra a ressaca no terceiro dia,em que a gente acordou umas onze, no finalzinho do café-da manhã e... -Não acredito que você vai lembrar esta história. -E descemos para tomar café, estava todo mundo lá embaixo, seu prato lotado de presunto e queijo, você fazendo enroladinhos com a mão, pessoal já olhando torto... -Hotel fresco da porra... -E eu tava de boa... -De boa? -Ressaca tava,de boa da educação. -Você realmente não lembra de tudo né? -Por que? -Você comia melancia e melão com a mão,e escorria pelo braço,fora quando se babou comendo a manga.- ela ri, Felipe só sorri. -Verdade, mas não é isso que quero lembrar. -Vixi,acho que já sei o que é... -Começa o jornal da cidade, e a notícia “Jogos trazem lucro para a cidade mas infelizmente com ele muitas brigas”... -Hum... -E daí a cena que aparece na televisão é você cuspindo num cara e dando um soco na cara dele, o amigo do cara te dá um soco,e começa a maior briga. -Todos no hotel lá começaram a olhar para a gente. -Você de olho roxo ainda continua comendo de boa e oferece um rolinho de presunto e queijo para uma velha lá que tava olhando cheia de reprovação e você oferecendo o enroladinho com a maior naturalidade. -Morrendo de vergonha.-ambos riem, chega o garçom com mais bebida. -Por favor Henrique... -Sim... -Já com intimidade Bia? -Henrique é dos nossos.- o garçom sorri e diz: -Sim, lógico que sou mas aqui a gente disfarça né?-todos riem. -Então Henrique, henri... -Vixi,deu liberdade Henrique,agora ela abusa. -Fica quieto aí, então,ele curte um drink mas tem vergonha porque você vai achá-lo mulherzinha, tem este perigo? -Traidora.-o garçom sorri e diz: -Não senhora. -Traz o mesmo pra mim e pra ele,uísque com uma dose de laranja,casca da laranja dentro e três pedras de gelo. -Qual o nome desta bebida?-Felipe pergunta. -Chamamos de uísque com laranja.- diz o garçom sorrindo. -Traz a bebida de menina dele.- Felipe finge uma revolta e logo sorri também e o garçom diz: -Pedem muito isso aqui, sabia? -Vem muita mulher aqui então?- diz Beatriz,Felipe finge uma revolta mais forçada,o garçom sorri,logo Felipe e Bia se entregam ao riso . -Não,homens pedem.-diz o garçom sorrindo. -Legal...viu,sou machão ainda.-todos riem. -Com licença. -Como você soube desta mistura? -Bem...quando fui pra Escócia... -Você já foi pra Escócia? -Sim...uma vez,mas tá bom né? -Ótimo...aonde? -Está duvidando né? -Talvez. -Glascow e Aberdeen. -Foi mesmo? -Sim... -Então... -Posso continuar a história?-fingindo estar nervoso,e Bia finge assustada e diz: -Por favor...- ambos riem. -Como eu ia dizendo, eu estava na Escócia, em Aberdeen, eram umas duas da tarde, estava no bar com um amigo Russo que fiz lá, fui lá para tirar minha fluência no inglês,fiz curso... -Não perguntei nada...-ambos sorriem. -Então, vimos um escocês, barbão ruivo, cabelo curto de boa, mas barbudão mesmo, devia ter uns dois metros, sem brincadeira,ele senta e diz: “Me vê um uísque com uma dose de laranja favor.” Nós não acreditamos, um escocês daquele tamanho pedindo uísque com laranja? Meu amigo Russo, Sergey, falo com ele até hoje... -Acredito...-ambos riem. -Então, Sergey chegou pra ele e disse:”Meu,um escocês estragando o uísque daqui com laranja, o melhor do mundo, um escocês?” E o escocês diz meio sorrindo: “ Então, acontece que acordei tarde por causa da farra de ontem,nem tomei café-da-manhã ainda mas suco de laranja puro é foda, não dá.”- Eles riem, e Bia diz: -Não creio, que legal. -Não creia,é mentira...mas uma boa piada,não? -Que maldoso,mas ótima... você nunca foi pra Escócia né? -Fui, e foi em Aberdeen com Sergey que aprendi a curtir, era de noite antes de uma balada e ele pediu, experimentei e gostei. -Sem graça, muito melhor a história da piadinha. -Eu sei,por isso contei ela. Quatro copos vazios e o quinto esvaziando. Felipe olhava para Bia sorrindo e não conseguia parar de perceber,como ela continuava linda apesar do tempo, na verdade a idade tinha feito muito bem à Beatriz. (Narrador lê isso). -Então, desculpe,mas você não me chamou para falar das lembranças. -Como? -Sei que sente saudades e eu também morro de saudades, mas você disse que precisava ver alguém, e até agora nada falou, e te conheço,quando você foge do assunto é porque é pior ainda do que se imagina. -Você me conhece mesmo...por que a gente terminou? -Você me traiu. -E como continuamos amigos? -Eu te perdoei... -E por que então não continuamos juntos? -Eu não te perdoei tanto...-ambos riem. -Você ainda coleciona DVDs? -Sim... -Quantos filmes você tem? -Uns 1028.-Bia ri,Felipe sorri confuso. -Quem chuta este número? -É exato, não é chute não,mas comprei 3 pela internet, se chegaram aumentou para 1031.- Ambos riem. -Você viu todos? -Sim...você surpreenderia o que a vida de solteiro te proporciona de tempo livre. -Isso deve ser bom. -Mas tem a solidão. -Isso também deve ser bom, pelo menos às vezes... -Sim, às vezes é... -Você tem Doutor Jivago? -Sim... -Nunca vi,queria ver... -Podemos ver se quiser... -Sim, vamos só pedir a conta, e continuamos conversando lá. -Em casa? -Sim,algum problema? -Nenhum. -Combinado então. -Vai avisar o Roberto? -O Roberto está mais ocupado com outras coisas. Felipe então vê que poderia ter uma noite a mais com a sua amada, o amor de sua vida, mas também viu que sua amiga está triste, precisando de alguém que se preocupe e cuide dela direito, um alguém leal e fiel, um amigo. Ele respira fundo, abaixa a cabeça, coça a nuca, uma dúvida paira em sua mente, o infinito segundo entre o pensar e o agir, fazer o certo às vezes é difícil, e às vezes nem é tão certo assim, o que parecer ser o correto pode não o ser. Ela sorri linda, ele coça a barba, olha o olhar triste escondido por detrás do sorriso de Beatriz, abaixa a cabeça, coça a nuca e então respira fundo uma última vez, e chama o garçom.(Narrador lê isso). -Chamaram? -Sim, Henrique...me vê mais uma bebida de mulherzinha.- o garçom sorri. -Eu não aguento mais. -Tudo bem. -Vai me fazer esperar você beber? -Não... -Devo trazer?-pergunta um confuso garçom. -Sim...- o Garçom se retira. -Que foi isso Fe? -Bia...que está acontecendo? -O que está acontecendo é que meu amigo vai me fazer esperar ele beber mais um copo de uísque. -Bia... -E me deixar morrendo de ansiedade para finalmente ver um filme difícil de achar e quero muito ver... -Bia...você sabe do que estou falando.-Bia fica cabisbaixa. -Sei. -Então...o que está acontecendo?- Bia respira fundo. -O Beto, ele está com o doutorado dele e o trabalho, a mente dele está toda ocupada com o lado profissional dele. -Beto sempre foi assim. -Eu sei. -Ele faz isso pro bem de vocês,para não passar necessidade. -Sim,mas não precisa de tudo isso,você não é feliz? -Obrigado, me chamou de merda... -Não...-Bia se desespera, Felipe sorri. -Relaxa Bia,estou brincando,perto do Beto que é mestre já e ainda vai atrás do doutorado, e ganha barris da dinheiro,sou um merda, mas me sinto feliz com a minha pós-graduação e minhas aulas, não sou rico mas não passo necessidade. -Sim,e tem tempo para você. -Sim... -Não fique assim, não quis insultar,isso é bom. -Sim,eu sei, não me senti insultado. -É que faz tanto tempo que não saio assim e me divirto com ele, que me sinto amada, que me sinto desejada. -Desculpe. -Tudo bem,é bom, e também sinto vontade de ter você algumas vezes. -É gostoso quando estamos juntos. -Sim. -Fazia tanto tempo que a gente não se via. -Verdade. Então Bia põem a cadeira ao lado de Felipe, segura sua mão, apoia a cabeça em seu ombro, respira fundo, Felipe acaricia ela, ela levanta a cabeça e as duas cabeças se inclinam, entre suas bocas uma infinidade de sonhos e desejos, saudades,lembranças e esperanças do que não foi,do que poderia ser. Felipe a beija na testa e respira fundo,Beatriz fica confusa.(Narrador lê isso). -Bia, fala comigo,que foi?Conta tudo... -É isso, sei que ele tem os problemas, o amigo dele se suicidou,isso é duro, mas o problema que isso já ocorreu um ano atrás, ele nem chora mais pelo amigo,esta época entendi de boa, até porque não sou idiota; também sei que desde que estamos juntos ele foi trabalhador, mas ultimamente ele está frio, distante. Quando saímos,ele até ri, mas um riso tímido,parece forçado, e quando fazemos amor não é mais a mesma coisa. Sei lá,ele parece triste,ele se esforça e finge estar bem e que sou a prioridade em sua vida,finge que ainda me ama, não sei se ele ainda se importa. Não sei nem se ainda me importo. -Você está aqui... -Sim...precisava de um amigo... -Isso quer dizer que se importa ainda... -Sim...mas não adianta eu me importar sozinha. -O amigo dele que morreu, trabalhava com ele? -Sim,e se ajudavam no doutorado. -Então todo dia ele vive com a sombra do amigo? -Sim. -E ainda se esforça... -Como? -Ele sai contigo,tenta sorrir e faz amor contigo, talvez o amor não é a mesma coisa porque ele não está bem, não? -Sim. -E apesar da tristeza, e da correria ele ainda acha tempo para estar contigo? -Sim, mas somos casados e... -Entendo,mas ele acha tempo para vocês saírem e tudo, não estar contigo só em casa. -Sim... -Então... -Mas sinto que ele não me ama, não se importa mais... vejo nos olhos dele que... -Ele finge estar bem,e se esforça para manter a rotina de vocês? -Sim,está tentando até quebrar indo para lugares novos... -Se ele se esforça tanto é porque ainda se importa, ainda te ama... Ela abaixa a cabeça, Felipe faz carinhos nela,ela se apoia em seu ombro, Bia então se levanta, tira da sua bolsa o cartão e diz: -Tenho que ir, Beto logo chega em casa, deixa eu pagar... -Fica tranquila, esta pago eu, quem sabe a próxima você paga? -Não... -Assim você não demora dois anos para me ver. -Fe... deixa eu pagar minha parte pelo menos e... -Por favor Bia, só vá... -Obrigada... você é o único amigo que tenho,que realmente me conhece. Eles vêem o garçom vindo com o uísque, Bia olha o copo solitário na bandeja,olha para o Felipe e diz: -Se quiser eu espero você... -Pode ir...- Ela então se inclina, lhe dá um beijo na boca,e numa preocupação ímpar diz: -Fique bem...-Felipe só sorri. Ela se retira, o garçom chega com o copo e diz: -O senhor quer algo? -Não,obrigado. Felipe olha ela indo embora, ela olha para trás ele sorri, ela sorri de volta e some pela porta, então ele abaixa a cabeça, toma um gole de seu uísque e olha pensativo para a porta vazia, pensando talvez nas mulheres que passaram em sua vida e seu amor eterno que nunca será realizado, um carinho recíproco mas desigual, o amigo e a amada; ou talvez tivesse pensando que deveria ter aproveitado e ter mais uma noite com ela; ou quem sabe pensou se a veria novamente e quanto tempo levaria;ou quem sabe simplesmente pensou como estava gostoso aquele uísque? (narrador lê isso).