A Experiência Pioneira do Conselho Municipal de Comunicação de Porto Alegre e suas Dificuldades Iniciais 1 Pedro Luiz da Silveira Osório2 A instalação do Primeiro Conselho Municipal de Comunicação do país, em Porto Alegre, e o exame das suas atividades iniciais revelam limitações apresentadas pelos representantes da sociedade civil e o despreparo das estruturas municipais para apoiar a formulação de Políticas Públicas de Comunicação. Destacam-se as dificuldades para a criação de espaços públicos com essa finalidade. Em Porto Alegre desenvolve-se uma experiência inédita, com propósito de construir um espaço público destinado ao debate da comunicação e a formulação de suas políticas públicas. Trata-se do Conselho Municipal de Comunicação. Tal Conselho objetiva, em síntese, exercer um papel de vigilância cívica em relação ao cumprimento das disposições constitucionais sobre a comunicação no âmbito do Município, debater o impacto cultural político e econômico das novas tecnologias; analisar a qualidade do que é veiculado nos meios de comunicação de 1 Texto apresentado na Intercom/96 - GT Políticas Públicas de Comunicação. 2 Jornalista, Coordenador de Comunicação Social da Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS, Presidente do Conselho Municipal de Comunicação. 1 massa; estimular o debate público sobre as questões suscitadas pelos meios de comunicação de massa. O Conselho Municipal de Comunicação de Porto Alegre foi o primeiro a ser criado no país. Iniciou suas atividades, seis anos depois da sua criação. Criado por Decreto em maio de 1989, foi instalado em agosto de 1995. Sua implantação durou por cerca de um ano, período compreendido entre agosto de 1994 ao já referido agosto de 1995. Explicar a demora entre sua criação, em 89, e sua instalação, em 95, e as suas primeiras iniciativas, permite reunir algumas conclusões quiçá interessantes. Permite, espera-se, o exame de algumas dificuldades que se antepõem à criação de espaços locais para a explicitação dos conflitos e elaboração de políticas públicas de comunicação. A partir dela, quem sabe, possam ser sugeridas algumas ações de utilidade comum. Criado em maio de 89, quando então Olívio Dutra dirigia o Município e Daniel Herz dirigia a Comunicação municipal, o Conselho surgiu como um reconhecimento do governo à importância do tema “comunicação” e da necessidade de criar um espaço para o seu debate. Ocorre que em Porto Alegre o primeiro mandato da Administração Popular enfrentou dificuldades políticas e administrativas extraordinárias, que se somaram a sua inexperiência. Quando, enfim, superou-se o caos financeiro e rompeuse o cerco dos grandes meios de comunicação, os esforços finais daquele primeiro mandato, que encerrou em 92, voltaram-se para a garantia da “continuidade do projeto”. Isto é: enfrentar novamente a avaliação do eleitorado. 2 Isso foi feito, e embora a vitória tenha sido obtida somente no segundo turno, vencer foi relativamente fácil. É de se anotar que o reconhecimento público do primeiro mandato da Administração Popular teve como marco uma iniciativa da sua Comunicação Social, que soube extrair e divulgar corretamente o sentido social das realizações que o governo municipal patrocinava. No caso, tratou-se de uma grande recuperação e mobilização do serviço de limpeza pública, quando foram alcançados patamares de eficiência e apoio público até hoje mantidos. Com essa lembrança pretende-se salientar que a Comunicação tinha, como tem até hoje, muita importância para a Prefeitura de Porto Alegre. Ocupava e ocupa um espaço decisivo nas decisões tomadas. A prova disso é a permanência de uma Coordenação de Comunicação Social com características muito próprias, que centraliza os recursos técnicos, humanos e financeiros da área, dirigindo a comunicação de toda a administração. Relato sobre essa experiência foi feito, aliás, na edição 95 da Intercom, neste GT. Cabe, então, perguntar: como um Poder Público que tanto se vale da Comunicação, e nela reconhece tanta importância, como uma Prefeitura assim move-se com dificuldades em direção à arena pública do debate sobre a comunicação? Como uma Prefeitura reconhecida pelos seus esforços para a constituição da chamada “esfera pública não estatal”, expressa basicamente através do seu “Orçamento Participativo”, como uma Prefeitura com tais preocupações públicas está ainda nos “primeiros passos”, no que se refere à criação de um espaço para o debate da comunicação? 3 Vejamos, rapidamente, quem integra e o que já fez o Conselho, desde o seu período de implantação até os dias de hoje. São 21 os seus integrantes, representando entidades das áreas de comunicação, cultura, artes, organizações sindicais dos trabalhadores. Integram-no também, a Pontifícia Universidade Católica, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Federação das Associações dos Círculos de Pais e Mestres e a Associação dos Jornais de Bairro. Esta Associação, aliás, que ainda funciona provisoriamente, organizou-se a partir das discussões para a criação do Conselho. Basicamente, o Conselho preocupou-se com a qualificação dos interessados em dele participar e, depois de instalado, dos seus membros. Promoveu painel e seminários discutindo os meios de comunicação de massa e a cidadania; a comunicação e o poder, as novas tecnologias, a convergência tecnológica. Traçou um plano de trabalho que incluiu, além da capacitação dos seus integrantes, uma demorada interlocução com os representantes de vários segmentos da sociedade organizada, feita por uma Comissão de Mobilização. Estudou as aplicações no município da lei que regula a TV a cabo. Realizou, no dia 1º de junho deste ano, o “1º Encontro Estadual de Radiodifusão Comunitária”, voltado às rádios comunitárias e, recentemente no dia 1º de agosto, convocou e promoveu reunião entre a NETSUL - operadora local de TV a cabo - e as entidades interessadas em utilizar o canal comunitário, previsto na lei. Desta reunião, surgiu uma Comissão provisória, que passou a tratar regularmente do assunto e vem tomando as providências necessárias para o efetivo funcionamento do Canal Comunitário. No caso das Rádios Comunitárias, está em andamento o processo constitutivo de uma comissão para tratar os assuntos organizativos, visto que o encontro foi tomado pelas questões técnicas e políticas gerais. Além das conhecidas dificuldades enfrentadas para a 4 organização de tais rádios, o Rio Grande do Sul se caracteriza pela incipiência desse movimento. Entretanto, o citado encontro reuniu cerca de 200 interessados e representantes de várias entidades. O mesmo número de entidades estão envolvidas na discussão do Canal Comunitário. O Conselho mantém reuniões semanais para debater tais iniciativas, bem como para delinear políticas de comunicação. Pode-se dizer que, sem dúvida, inaugurou um período de aproximação da sociedade organizada, ou parte dela, com os temas de comunicação. Obviamente, discutir publicamente políticas de comunicação não é algo que suporte iniciativas unilaterais. É indispensável uma contrapartida nascida na sociedade civil. Aqui pode ser localizada a primeira dificuldade anteposta à criação de espaços públicos: a sociedade não se apropriou da discussão sobre a comunicação. A constatação não é nova, mas adquire um significado novo quando a discussão é possibilitada, através de um Conselho criado com tal finalidade. Penso que, a essa dificuldade constatada, se pode aduzir uma característica importante: além de não ter apropriado da discussão, a sociedade civil tende a não se apropriar, mantendo-se distante do debate e da formulação de políticas públicas. É de se notar que, embora participantes, mesmo as universidades não têm municiado seus representantes com propostas significativas. Diferentemente das demais políticas públicas, as políticas necessárias à comunicação costumam não ser identificadas, e às vezes nem mesmo intuídas. O cenário é diverso quando se trata de discutir diretrizes de outras áreas, que emergem não raro com revolucionária clareza, graças a participação popular. Claro que a participação popular não ocorre da noite para o dia. Mesmo o bem sucedido Orçamento Participativo, em Porto 5 Alegre, enfrentou desalentadoras dificuldades iniciais, e vive duras provas no seu cotidiano. No caso da comunicação, porém, não há tradição de lutas propositivas apropriadas à nossa época. Essa constatação - a de que a sociedade civil não dispõe de propostas para a comunicação, ou não apropriou-se das propostas que estão sendo formuladas - leva-nos à localização da segunda dificuldade anteposta à criação de espaços públicos: as lideranças sociais, especialmente as lideranças vinculadas às lutas comunitárias e sindicais, com freqüência apresentam uma inclinação censória, embora repudiem a censura. A ausência de propostas, mais o desespero frente ao poderio dos meios de comunicação, levam a um resultado previsível, que é a manifestação autoritária dos “não pode”, “não deve” ou do “é preciso proibir”. Essas expressões são utilizadas, muitas vezes, pelas lideranças sociais quase sempre desacompanhadas de uma proposição substitutiva ao que se pretende eliminar ou, quando muito, acompanhadas de uma vaga proposição reivindicando a substituição do “errado” pelo “certo”. A tendência que tem se apresentado como predominante, quando se discute comunicação, é, pois, a de impor uma prática diferenciada. Esse fato retardou a implantação do Conselho, especialmente se levarmos em conta que as primeiras mobilizações ocorreram no ano de 94, marcado pela disputa dos governos estaduais. Entre outras razões, os representantes das empresas de comunicação - que foram insistentemente convidados - alegaram, para não participarem do Conselho, que os seus integrantes comportavam-se autoritariamente. No mesmo rastro seguiram os representantes dos demais empresários, de tal sorte que do Conselho de Comunicação não participa o segmento empresarial - à exceção do 6 Sindicato das Empresas de Publicidade e da Associação Riograndense de Imprensa, que congrega também os empresários. Cumpre destacar que, evidentemente, o argumento dos empresários é falacioso, pois são eles, especialmente os de comunicação, os primeiros a imporem suas posições. Mas essa evidência não nos deve impedir de constatar um certo viés autoritário presente também nos segmentos sociais populares, no que diz respeito à comunicação. Esse corte autoritário origina-se, por um lado, das enviesadas organizações de esquerda; de outro - e esse é o que nos interessa - da simplificação atribuída pelos movimentos populares ao “fazer” da comunicação. Essa simplificação leva a idéia segundo a qual basta “trocar” o conteúdo da mensagem, ignorando a sua complexa e especializada elaboração. Localizamos, assim e então, a terceira dificuldade: a sociedade que se rebela frente aos meios de comunicação costuma antepor-lhes ações ingênuas. Provavelmente também por isso tende à censura. Mas voltemos para a ingenuidade citada. Ela se deve, acredito, a duas razões. Primeira razão: com o advento do rádio as organizações populares, especialmente os sindicatos, foram excluídas de uma determinada e importante tecnologia, restando-lhes os meios de comunicação impresso 3. Segunda razão: a televisão, meio que avançou tecnologicamente em relação ao rádio, instalou-se efetivamente no país sob as bênçãos da ditadura. Habituamo-nos, por isso, durante muito tempo, a conjugar “tecnologia” com “repressão”. 3 Devo essa formulação ao Professor Jorge Jardim da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS - São Leopoldo/RS), que tratou do assunto na sua tese de mestrado, denominada “Comunicação e Militância: A Imprensa Operária do RS - 1892 / 1923”. 7 Assim fizemos porque a tecnologia, de fato, estava exclusivamente a serviço do regime opressor mas, igualmente , também não a compreendíamos. Aos movimentos populares restaram o mimeógrafo, o panfleto, o bem conhecido “jornalzinho”. Na melhor das hipóteses, o audiovisual, depois substituído pelo vídeo-tape. E hoje, embora as várias tecnologias de comunicação venham sendo gradativamente incorporadas pelos vários segmentos sociais, persiste a idéia de que o manejo delas é simples, tão simples como denunciar, no jornalzinho do sindicato, a opressão patronal, ou questionar, no microfone da associação comunitária, as intenções dos políticos. Ora, como pode a sociedade organizada propor políticas públicas de comunicação quando suas lideranças não compreendem como se dá a comunicação? Chegamos, assim, a quarta dificuldade: essa incompreensão estendese aos dirigentes - no caso a que me refiro - municipais, abrangendo mesmo os que pretendem retirar da comunicação algo mais do que dividendos eleitorais. A comunicação, mesmo entre os dirigentes bem intencionados, é geralmente vista como simples operadora da divulgação dos atos da Prefeitura. No caso de Porto Alegre - permitam expressar-me como Coordenador da Comunicação do Município - , lutamos para superar a simples divulgação. Buscamos revelar o sentido social do que é feito e fazer com que sejam compreendidas as efetivas razões do que deixa de ser feito. Através da Comunicação, lutamos para que cidadãos se apropriem daquilo que é deles, e por eles decidido, de maneira que a cidade seja compreendida como fruto do esforço coletivo, e não como resultado exclusivo da capacidade dos dirigentes. Todavia, a Coordenação de Comunicação da Prefeitura de Porto Alegre ainda atua predominantemente como órgão de apoio ao governo propriamente dito, embora esse governo 8 predisponha-se a interferir na criação de políticas públicas de comunicação, estimulando e integrando o Conselho Municipal. Assinalando essa limitação da Prefeitura da capital gaúcha, quero assinalar a quinta e última dificuldade que detecto, para a criação de um espaço destinado ao debate da comunicação: as secretarias, coordenadorias ou assessorias de comunicação das prefeituras apresentam uma vocação internista, voltadas basicamente para os assuntos da administração municipal. Essa característica foi constatada no primeiro Encontro Nacional das Assessorias de Comunicação de Prefeituras Municipais, promovido pela Coordenação de Comunicação Social de Porto Alegre, em 1994, com a participação da maioria das capitais e cerca de cem representantes de administrações municipais. A ausência de vocação para traçar políticas públicas de comunicação - e, portanto, ausência de estrutura para implementá-las - torna-se mais grave quando se sabe que o Município ainda é um campo inexplorado, no que se refere às aplicações da legislação de comunicação. Como também se sabe, a participação das prefeituras pode ser vital para a implantação e consolidação de um espaço destinado ao debate da comunicação e a formulação de suas políticas. Encaminhando-me para o final destas observações, com o propósito de facilitar a apreensão das mesmas, volto a enumerar as dificuldades que tenho percebido para a consolidação do Conselho de Comunicação, em Porto Alegre: (1) a sociedade não se apropriou da discussão sobre a comunicação e, devido a sua complexidade, tende a não fazê-lo; (2) despreparadas, as lideranças do campo popular tendem a imposição de suas opiniões sobre o tema; (3) o despreparo leva a construção de alternativas ingênuas, ainda marcadas pela presumida pureza do meio 9 alternativo, como o “jornalzinho”, bem como pela ignorância sobre a tecnologia dos meios de comunicação; (4) os dirigentes municipais, mesmo quando não pretendem fazer da comunicação mero apoio utilitário, também não a compreendem; (5) os municípios não apresentam setores adequados à formulação de políticas públicas. 10