LUIGI PIRANDELLO
O FALECIDO MATTIA PASCAL
Tradução
José J. C. Serra
Título original: «Il fu Mattia Pascal»
© Cavalo de Ferro Editores, 2010
para a publicação em língua portuguesa
Revisão: Marta Duarte
Paginação: Finepaper
1.ª Edição, Março de 2010
ISBN: 978-989-623-116-3
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sugerimos que visite o nosso site: www.cavalodeferro.com
Índice
Introdução ........................................................................... 7
Segunda introdução (filosófica)em jeito de desculpa....... 10
A casa e a toupeira .............................................................. 15
Foi assim .............................................................................. 27
Amadurecimento ................................................................ 46
Tac, tac, tac .......................................................................... 65
Mudo de comboio . ............................................................. 85
Adriano Meis........................................................................100
Um pouco de neblina .........................................................117
Pia de água benta e cinzeiro . .............................................130
Olhando o rio ao entardecer .............................................146
O olho e Papiano ................................................................170
A lanternazinha ...................................................................188
As proezas do Max ..............................................................204
Eu e a minha sombra...........................................................217
O retrato de Minerva . .........................................................233
Reencarnação ......................................................................259
O falecido Mattia Pascal .....................................................273
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Introdução
Uma das poucas coisas, aliás, talvez a única, que eu tinha a
certeza de saber era esta: chamava-me Mattia Pascal. E aproveitava-me disso. De todas as vezes que algum dos meus
amigos ou conhecidos demonstrava ter perdido o juízo até
ao ponto de vir visitar-me para obter algum conselho ou
sugestão, eu encolhia os ombros, semicerrava os olhos e
respondia-lhe:
— Eu chamo-me Mattia Pascal.
— Obrigado, meu caro, eu sei isso.
— E parece-te pouco?
Para dizer a verdade, nem a mim parecia grande coisa.
Mas nessa altura eu ignorava o que significava não saber
sequer isto, ou seja, já não poder responder como antigamente, quando necessário:
— Eu chamo-me Mattia Pascal.
Alguém há-de ter dó de mim (custa tão pouco), imaginando o atroz pesar de um desgraçado que, de repente,
descobre que... sim, nada, em suma: nem pai, nem mãe,
nem como foi ou como deixa de ser; e também há-de querer
indignar-se (custa ainda menos) com a corrupção dos costumes, e com os vícios, e com a tristeza dos tempos que correm, e que podem ser motivo do muito mal por que passa
um pobre inocente.
Pois bem, esteja à vontade. Mas é meu dever avisá-lo que
não se trata propriamente disso. Com efeito, poderia aqui
expor, numa árvore genealógica, a origem e a descendência
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da minha família e demonstrar que não só conheci o meu
pai e a minha mãe, mas também, num longo período de
tempo, os meus antepassados e as suas acções, não todas
verdadeiramente louváveis.
E então?
Pois bem, o meu caso é muito mais estranho e diferente;
tão diferente e estranho que me apresto a narrá-lo.
Durante cerca de dois anos, fui não sei bem se mais um
caçador de ratos do que um guarda de livros na biblioteca
que um certo monsenhor Boccamazza, em 1803, quando
morreu, quis deixar à nossa Câmara Municipal. É bem evidente que este monsenhor pouco devia conhecer da índole
e dos hábitos dos seus concidadãos; ou talvez esperasse que
o seu espólio, com o passar do tempo e com a comodidade,
acendesse no seu espírito o amor pelo estudo. Até hoje,
posso testemunhá-lo, ainda não se acendeu: e digo-o em
louvor dos meus concidadãos. Aliás, a Câmara Municipal
demonstrou tão pouca gratidão para com a oferta do Boccamazza que nem sequer lhe quis erguer um meio busto que
fosse, e os livros deixou-os anos e anos amontoados num
vasto e húmido armazém, de onde depois os retirou, imagine-se em que estado, para os arrumar na remota capela
de Santa Maria Liberale, que não sei por que razão está
encerrada ao culto. Aqui, confiou-os sem qualquer discernimento, a título de benefício, e como sinecura, ao mandrião
bem recomendado que, por duas liras ao dia, ficasse ali a
olhar para eles, ou nem isso, e conseguisse suportar durante
algumas horas o cheirete a mofo e a velharia.
Tal sorte também me coube a mim; e desde o primeiro
dia fiquei com tão miserável estima pelos livros, sejam eles
impressos ou manuscritos (como alguns antiquíssimos da
nossa biblioteca), que nunca me poria a escrever se, como
disse, não considerasse realmente singular o meu caso, o qual
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poderia servir de ensinamento a um ou outro curioso leitor,
que porventura, produzindo finalmente efeito a antiga esperança da boa alma do monsenhor Boccamazza, viesse parar a
esta biblioteca, a que deixo este meu manuscrito, com a obrigação, porém, de que ninguém o abra senão passados cinquenta anos sobre a minha terceira, última e definitiva morte.
Uma vez que, até hoje (e Deus sabe o quanto me lamento
disso), eu já morri, sim, duas vezes; a primeira por erro e a
segunda... ouvireis de seguida.
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II
Segunda introdução (filosófica)
em jeito de desculpa
A ideia, ou melhor, o conselho de escrever foi-me sugerido pelo meu reverendo amigo padre Eligio Pellegrinotto,
que, no presente, cuida dos livros do Bocamazza, e a quem
entregarei o manuscrito assim que o terminar, se alguma
vez o terminar.
Escrevo-o aqui, na capela encerrada ao culto, à luz que
me vem do lanternim lá de cima, da cúpula; aqui, na abside
reservada ao bibliotecário e fechada por uma balaustrada
baixa de madeira com pequenas colunas, enquanto o padre
Eligio resfolega sob o encargo que heroicamente assumiu
de pôr um pouco de ordem nesta verdadeira babilónia de
livros. Receio bem que não o consiga levar até ao fim. Mais
ninguém antes dele se tinha preocupado em saber, pelo
menos por alto e numa rápida vistoria às lombadas, que
tipo de livros aquele monsenhor tinha deixado à Câmara
Municipal: considerava-se que todos, ou quase todos, versavam temas religiosos. Ora, o Pellegrinotto descobriu, para
sua maior consolação, uma variedade grandíssima de temas
na biblioteca do monsenhor; mas como os livros foram tirados ao acaso do armazém e aqui amontoados como vinham
à mão, a confusão é indescritível. Devido à proximidade,
estreitaram-se entre estes livros amizades bem mais que
bonitas: o padre Eligio Pellegrinotto disse-me, por exemplo,
que teve bastante dificuldade em separar um tratado muito
licencioso Dell’arte di amar le donne, três livros de Anton
Muzio Porro, do ano de 1571, uma Vita e morte di Faustino
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Materucci, Beneditino di Polirone, che taluni chiamano beato, biografia publicada em Mântua no ano de 1625. Por causa da
humidade, as páginas dos dois volumes tinham ficado fraternalmente coladas. Note-se que no segundo livro do tal
tratado licencioso se discorre demoradamente sobre a vida
e as aventuras dos mosteiros.
Muitos outros livros curiosos e agradabilíssimos foram descobertos nas estantes da biblioteca pelo padre Eligio Pellegrinotto, que passava o dia inteiro no cimo de um escadote
de acendedor de lampiões. Sempre que encontra um, atira-o
lá do alto, com elegância, para cima da grande mesa que está
no meio; a capela ribomba; ergue-se uma nuvem de pó e dois
ou três aranhiços fogem dali assustados: eu venho a correr da
abside, saltando por cima da balaustrada; primeiro, pego no
livro e abro caça aos aranhiços pela mesa coberta de pó fora;
depois, abro o livro e ponho-me a lê-lo aos poucos.
Deste modo, a pouco e pouco, comecei a gostar de tais
leituras. Ora, o padre Eligio diz-me que o meu livro deveria
ser feito tendo por modelo estes que ele vai encontrando na
biblioteca, ou seja, deveria ter um sabor especial. Eu encolho os ombros e respondo-lhe que não é tarefa para mim.
E depois passo a outra coisa.
Todo suado e cheio de pó, o padre Eligio desce do escadote e vai apanhar ar à pequena horta que encontrou
maneira de plantar aqui por detrás da abside e protegeu em
toda a volta com paus e pedras.
— Pois é, meu reverendo amigo — digo-lhe eu, sentado
em cima do muro, com o queixo apoiado no castão da bengala, enquanto ele cuida das suas alfaces. — Não me parece
que seja tempo, este, de escrever livros, nem por brincadeira.
Tendo também em consideração a literatura, como tudo o
resto, tenho de repetir o meu habitual refrão: Maldito seja
Copérnico!
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— Oh, oh, oh, Copérnico nada tem que ver com o caso!
— exclama o padre Eligio, endireitando-se, de rosto corado
por baixo do enorme chapéu de palha.
— Tem que ver, sim, padre Eligio. Porque quando a
Terra não girava…
— Lá está o senhor! Mas se ela sempre girou!
— Não é verdade. O homem não o sabia e, portanto, era
como se não girasse. Foi o que eu disse no outro dia a um
velho camponês e sabe o meu reverendo amigo o que ele
me respondeu? Que era uma boa desculpa para os bêbados.
De resto, também o reverendo, desculpe-me, não pode duvidar que Josué parou o Sol. Mas deixemos este assunto de
lado. Eu digo que quando a Terra não girava, e o homem,
vestido à grego ou à romano, fazia uma bonita figura e se
tinha a si mesmo em tão alta consideração e se comprazia da
própria dignidade, creio que podia ser aceite uma narração
minuciosa e cheia de pormenores ociosos. Lê-se ou não em
Quintiliano, como o padre Eligio me ensinou, que a história devia ser feita para narrar e não para provar?
— Não o nego — responde o padre Eligio. — Mas também é verdade que nunca se escreveram livros tão minuciosos em todos os seus mais secretos pormenores, desde que,
como o senhor diz, a Terra começou a girar.
— Pronto, está bem! O senhor conde levantou-se cedo da cama,
precisamente às oito horas e trinta minutos… A senhora condessa vestiu
um vestido lilás com abundantes rendilhados na gola… A Teresinha
morria de fome… A Lucrécia sofria de amores… Oh, meu Deus! E
que me interessa isso a mim? Vivemos ou não num invisível
pião cujo baraço é um raio de Sol, vivemos ou não num grãozinho de areia endoidecido que gira e gira e gira, sem saber
porquê, sem jamais chegar ao destino, para nos fazer sentir ora
um pouco mais de calor ora um pouco mais de frio, e para nos
fazer morrer — amiúde com a consciência de ter cometido
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uma sequência de pequenas parvoíces — após cinquenta ou
sessenta voltas? Foi Copérnico, foi Copérnico, meu caro padre
Eligio, quem estragou a humanidade, irremediavelmente. Nós
já nos fomos a pouco e pouco habituando à nova concepção
da nossa infinita pequenez, aliás, a considerarmo-nos menos
que nada no Universo, com todas as nossas belas descobertas
e invenções; e, portanto, que valor quer que tenham as notícias, não digo das nossas misérias privadas, mas das calamidades gerais? Teve oportunidade de ler sobre aquele pequeno
desastre das Antilhas? Nada. A Terra, coitadinha, cansada de
tanto andar à roda, como afirma o tal cónego polaco, sem finalidade, teve um pequeno momento de impaciência e expeliu
um pouco de fogo por uma das suas muitas bocas. Sabe-se lá
que coisa lhe provocou aquela espécie de bílis. Talvez a estupidez dos homens, que nunca foram tão enfadonhos como
agora. Basta. Muitos milhares de pequenos vermes morreram
queimados. Mas a vida continua. Quem é que ainda se lembra
disso?
O padre Eligio Pellegrinotto, contudo, observa que por
muitos esforços que façamos com a cruel intenção de arrancar, de destruir as ilusões que, com boa intenção, a providente natureza nos criou, não o conseguimos. Felizmente,
o homem distrai-se com facilidade.
Isso é verdade. A nossa Câmara Municipal, em certas noites já marcadas no calendário, não manda acender os lampiões, e amiúde — se está nublado — deixa-nos às escuras.
O que, no fundo, quer dizer que nós ainda hoje acreditamos que a Lua só está no céu para nos alumiar de noite, e o
Sol de dia, e as estrelas para nos oferecerem um magnífico
espectáculo. Seguramente. E bastas vezes, esquecemo-nos
de que somos átomos infinitesimais e que nos devemos respeitar e apreciar reciprocamente, e somos capazes de andar
à pancada por um talhão de terra ou de ficar magoados
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com certas coisas que, se estivéssemos realmente compenetrados daquilo que somos, deveriam parecer-nos misérias
incalculáveis.
Pois bem, graças a esta distracção providencial, e à estranheza do meu caso, irei falar de mim, mas o mais brevemente que me for possível, isto é, dando apenas aquelas
notícias que considerar necessárias.
Algumas delas, certamente, não me farão grande honra;
mas actualmente encontro-me numa situação de tal maneira
excepcional que já me posso considerar como estando fora
da vida; e, portanto, sem obrigações e sem escrúpulos de
espécie alguma.
Comecemos.
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III
A casa e a toupeira
No início, referi com demasiada pressa que conheci o meu
pai. Não o conheci. Tinha quatro anos e meio quando ele
morreu. Viajara de brigue para a Córsega, por causa de certas negociatas que aí tinha, e nunca mais voltou, pois morreu de uma febre perniciosa, em três dias, aos trinta e oito
anos de idade. Todavia, deixou muito bem a mulher e os
dois filhos: o Mattia (que sou eu, e fui) e o Roberto, dois
anos mais velho do que eu.
Alguns velhotes da terra ainda hoje se comprazem em
dar a entender que a riqueza do meu pai (a qual, de resto, já
não o devia ensombrar, pois passou há bastante tempo para
outras mãos) teria tido origens, digamos assim, misteriosas.
Afirmam que a teria ganho jogando às cartas, em Marselha,
com o capitão de um vapor mercantil inglês, o qual, depois
de ter perdido todo o dinheiro que trazia com ele, e não
devia ser pouco, também apostou uma grande carga de
enxofre que embarcara na longínqua Sicília por conta de
um negociante de Liverpool (Até isto sabem! E o nome?),
que tinha alugado o vapor; de seguida, desesperado, levantara ferro e afogara-se no alto-mar. Deste modo, o vapor
veio a atracar em Liverpool também aligeirado do peso do
capitão. Ainda bem que o meu pai não passava cartão à malvadez dos meus concidadãos.
Possuíamos terras e casas. O meu pai era sagaz e aventuroso e nunca teve sede estável para os seus negócios: sempre
em viagem naquele seu brigue, onde encontrava melhor e
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mais oportunamente comprava e, de imediato, revendia
mercadorias de toda a espécie; e para não ser tentado por
empreendimentos demasiado grandes ou arriscados, investia progressivamente os lucros em terras e casas, aqui, na
sua terrinha, onde em breve, talvez, contasse descansar na
fartura que esforçadamente adquirira, feliz da vida e em paz
juntamente com a mulher e os filhinhos.
E assim, primeiro, comprou a terra das Due Riviere, rica
de oliveiras e amoreiras; depois, a quinta da Stìa, também
ela ricamente beneficiada e com uma bela nascente de
água, que foi logo presa para o moinho; depois, o outeiro
do Sperone, que tinha a melhor vinha da nossa região; e,
por fim, San Rocchino, onde construiu uma deliciosa villa.
Lá na terra, para além da casa onde morávamos, comprou
duas casas e todo aquele quarteirão que agora está reduzido
e adaptado a arsenal.
A sua morte quase repentina foi a nossa ruína. A minha
mãe, incapaz de administrar a herança, teve de a confiar
ao governo de um tipo que, por ter recebido tantos benefícios do meu pai — chegando mesmo a mudar de estatuto
social —, se sentiu na obrigação de, pelo menos, mostrar
um pouco de reconhecimento, o qual, para além do zelo e
da honestidade, não lhe iria custar sacrifícios de qualquer
espécie, já que era lautamente remunerado.
Uma santa mulher, a minha mãe! Era de índole reservada e muito plácida e com escassa experiência da vida e dos
homens! Quando falava parecia uma criança. Falava com
acentuação nasal e também se ria pelo nariz, já que, de todas
as vezes, apertava os lábios como se tivesse vergonha de rir.
De compleição muito grácil, ficou sempre de saúde muito
fraca, depois da morte do pai; mas nunca se queixou dos
seus males nem creio que alguma vez se lamentasse deles,
de si para si, aceitando-os, resignada, como consequência
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natural da sua desventura. Talvez ela esperasse morrer de
pesar e, portanto, agradecia a Deus que a mantinha viva,
apesar de infeliz e atribulada, para bem dos seus filhinhos.
Sentia por nós uma ternura deveras mórbida, cheia de
preocupações e de medo: queria-nos sempre perto dela,
como se receasse perder-nos, e amiúde mandava as criadas
percorrer a vasta casa à nossa procura assim que um de nós
se afastava um pouco.
Como uma cega, abandonara-se à orientação do marido;
tendo ficado sem ele, sentiu-se perdida no mundo. E nunca
mais saiu de casa, a não ser aos domingos, de manhã, bem
cedo, para ir à missa na igreja, ali perto, acompanhada por
duas velhas criadas que ela tratava como parentes. Na mesma
casa, aliás, restringiu-se a viver em apenas três divisões, abandonando as muitas outras aos escassos cuidados das criadas
e às nossas diabruras.
Nessas divisões, emanava dos móveis antigos e das cortinas descoradas aquele fedor especial das coisas antigas,
quase como se fosse a respiração de outro tempo; e lembro-me que olhei em meu redor mais de uma vez com uma
estranha consternação proveniente da imobilidade silenciosa
daqueles objectos velhos, que ali jaziam há anos sem uso,
sem vida.
Quem visitava mais frequentemente a mamã era a irmã
do meu pai, uma solteirona intratável, com um par de olhos
à furão, morena e altiva. Chamava-se Scolastica. Mas de todas
as vezes que vinha, demorava-se pouquíssimo, porque de
repente, enquanto conversava, enfurecia-se, e ia-se embora
sem se despedir de ninguém. Quando eu era rapaz tinha
um grande medo dela. De olhos arregalados, fitava-a, sobretudo quando a via levantar-se, furiosa, e a ouvia a gritar,
dirigindo-se à minha mãe e batendo raivosamente com um
pé no chão:
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— Estás a ouvir o vazio? É a toupeira! É a toupeira!
Referia-se ao Malagna, o administrador que, à socapa, nos
cavava a sepultura debaixo dos nossos olhos.
A tia Scolastica (soube-o mais tarde) queria a todo o custo
que a minha mãe voltasse a casar. Habitualmente, as cunhadas não têm estas ideias nem dão estes conselhos. Mas ela
tinha um sentido severo e rígido da justiça; e mais por isso
do que por amor por nós, não conseguia tolerar que aquele
homem nos roubasse daquela maneira e à descarada. Ora,
dada a absoluta incapacidade e cegueira da minha mãe, não
via outro remédio senão o de um segundo marido. E inclusive designava-o na pessoa de um pobre homem que se chamava Gerolamo Pomino.
Este era viúvo e tinha um filho, que ainda hoje é vivo
e também se chama Gerolamo como o pai: é amicíssimo
meu, aliás, mais do que amigo, como direi a seguir. Desde
pequeno que vinha com o pai a nossa casa, para desespero
meu e do meu irmão Berto.
O pai, quando jovem, desejara longamente a mão da tia
Scolastica, mas esta não aceitou, como de resto não aceitou nenhum outro; e não porque não se sentisse disposta a
amar, mas porque a mais pequena suspeita de que o homem
por ela amado pudesse traí-la, nem que fosse só em pensamento, faria com que cometesse — dizia ela — um delito.
Para ela, os homens eram todos uns fingidos, uns velhacos,
uns traidores. O Pomino também? Não, o Pomino não. Mas
só se apercebeu disso demasiado tarde. De todos os homens
que tinham pedido a sua mão, e que depois se casaram
com outra, ela conseguiu descobrir alguma traição, e tinha
gozado ferozmente com a situação. Mas do Pomino, nada;
aliás, o pobre homem foi um mártir da mulher.
E, então, por que motivo, agora, não se casava ela com
ele? Essa é boa, porque era viúvo! Porque tinha pertencido
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a outra mulher, na qual, porventura, uma ou outra vez, iria
pensar. E também porque... ora bem, via-se a cem quilómetros de distância que, apesar da timidez, o homem estava apaixonado, estava apaixonado... entende-se por quem, aquele
pobre senhor Pomino!
Imagine-se se a minha mãe alguma vez o aceitaria. Parecer-lhe-ia um verdadeiro sacrilégio. Talvez mesmo nem acreditasse, coitada, que a tia Scolastica falava a sério; e ria-se
naquele seu modo especial das fúrias da cunhada, das exclamações do pobre senhor Pomino, que assistia àquelas discussões e de quem a solteirona tecia os mais rasgados elogios.
Imagino quantas vezes ele terá exclamado, agitando-se
em cima da cadeira, como se estivesse em cima de um instrumento de tortura:
— Ó santo nome de Deus bendito!
Era um homenzinho asseado, composto, com olhinhos
cerúleos e mansos. Creio que se polvilhava de pó-de-arroz e
que tinha o hábito de passar carmim, apenas uma pequena
camada, pelas faces. Comprazia-se, certamente, com o facto
de ter conservado até à sua idade os cabelos, que penteava
com enorme cuidado, à borboleta, e ajustava continuamente
com as mãos.
Eu não sei como teriam corrido os nossos negócios se a
minha mãe — não certamente para ela própria, mas tendo
em consideração o futuro dos seus filhinhos — tivesse
seguido o conselho da tia Scolastica e se tivesse casado com
o senhor Pomino. Está fora de dúvida, porém, que pior
do que corriam, entregues ao Malagna (a toupeira!), não
poderiam correr.
Quando o Berto e eu já éramos mais crescidos, grande
parte dos nossos haveres, é verdade, já se tinha desfeito em
fumo; mas podíamos pelo menos salvar das garras daquele
ladrão o resto, que, embora não nos permitisse viver na
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abundância, certamente não nos deixaria passar necessidades. Mas fomos ambos mandriões; não nos quisemos preocupar com coisa alguma e continuámos, já crescidos, a viver
como a nossa mãe nos tinha habituado em pequenos.
Nem sequer nos quis mandar para a escola. O nosso mestre e preceptor foi um tal de Pinzone. O seu nome verdadeiro
era Francesco, ou Giovanni, Del Cinque; mas toda a gente
o tratava por Pinzone, e ele habituou-se de tal maneira ao
nome que também já se referia a si próprio como Pinzone.
Era de uma magreza que incutia repugnância; altíssimo
de estatura; e mais alto seria, meu Deus, se o seu busto —
quase como que cansado de trepar, grácil, para cima —, de
repente, não se curvasse por baixo da nuca numa pequena
corcunda, de onde o pescoço parecia brotar penosamente,
como o de um frango despenado, com uma grande maçã-de-adão protuberante, que subia e descia. O Pinzone esforçava-se amiúde por manter os lábios entre os dentes, como
que para morder, castigar e esconder um risinho cortante,
que lhe era próprio; mas o esforço, em parte, era vão, porque este risinho, ao não poder sair pelos lábios aprisionados, escapava-se-lhe pelos olhos, ainda mais penetrante e
escarninho. Com aqueles seus olhinhos, ele devia ver muita
coisa na nossa casa que nem nós nem a mamã víamos. Mas
não dizia nada, talvez porque julgasse que não era dever
seu dizer coisa alguma, ou porque — como considero mais
provável — gozava em segredo, e venenosamente, com a
situação.
Nós fazíamos dele tudo o que queríamos; ele deixava;
mas depois, quando menos esperávamos, e como se quisesse
ficar em paz com a sua consciência, traía-nos.
Certo dia, por exemplo, a mamã ordenou-lhe que nos
levasse à igreja; aproximava-se a Páscoa e tínhamos de nos
confessar. Depois da confissão faríamos uma breve visita à
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mulher enferma do Malagna e de imediato regressaríamos a casa. Imagine-se o divertimento! Mas assim que
chegámos à rua, nós dois propusemos uma escapadela
ao Pinzone: pagar-lhe-íamos um bom litro de vinho se
ele, em vez de nos levar à igreja e a casa do Malagna,
nos deixasse ir à Stìa à procura de ninhos. O Pinzone
aceitou, felicíssimo, esfregando as mãos e de olhos a brilhar. Bebeu; fomos à quinta; brincou connosco como um
doido durante três horas, ajudando-nos a subir às árvores e trepando ele próprio. Mas à noite, de regresso a
casa, assim que a mamã lhe perguntou se tínhamos feito
a nossa confissão e a visita ao Malagna:
— Devo dizer-lhe que... — respondeu, com o maior descaramento do mundo; e contou-lhe ponto por ponto tudo
o que tínhamos feito.
De nada adiantavam as nossas vinganças a estas suas traições. E, no entanto, recordo que não eram brincadeira.
Uma noite, por exemplo, eu e o Berto, sabendo que ele
costumava dormir sentado em cima de uma arca na salinha da entrada, à espera do jantar, saltámos furtivamente
da cama, em que nos tinham metido por castigo antes da
hora habitual, conseguimos arranjar uma cânula de estanho com dois palmos de comprimento e enchemo-la de
água com sabão no tanque de lavar roupa; e, assim armados, fomos ter com ele cautelosamente, encostámos-lhe a
cânula às suas narinas — e zifff! —. Vimo-lo dar um pulo
até ao tecto.
Não é difícil de imaginar qual o nosso aproveitamento
no estudo com semelhante preceptor. A culpa, porém,
não era toda do Pinzone; ele, aliás, para nos fazer aprender alguma coisa, não olhava a métodos nem a disciplina
e recorria a mil e um expedientes para fixar fosse como
fosse a nossa atenção. Frequentemente, comigo, que era
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de natureza muito impressionável, conseguia obter resultados. Mas ele tinha uma erudição muito própria, muito
curiosa e bizarra. Por exemplo, era doutíssimo no bisticcio 1: conhecia a poesia fidenziana 2 e a macarrónica3, a
burchiellesca 4 e a leporeambica 5, e citava aliterações e anominações, versos interpolados, encadeados e retrógrados
de todos os poetas vadios, e ele próprio compunha não
poucas rimas extravagantes.
Lembro-me que certo dia, em San Rocchino, nos obrigou a repetir em frente ao monte já não sei quantas vezes
este seu Eco:
In cuor di donna quanto dura amore?
— (Ore).
Ed ella non mi amò quant’io l’amai?
— (Mai).
Or chi sei tu che sì ti legni meco?
— (Eco6).
E dava-nos a decifrar todos os Enigmas em oitavas de
Giulio Cesare Croce, e outros em forma de soneto do
Moneti e ainda, também em sonetos, de outro mandrião
1 Artifício literário que consiste em aproximar palavras com som semelhante, mas de
diferente significado. (N. do T.)
2 Do poeta Fidenzio (século xvi), pseudónimo de Camillo Scroffa, que satirizou os costumes e a linguagem dos pedantes do seu tempo, escrevendo versos numa língua fortemente
latinizada. (N. do T.)
3 Poesia que mistura palavras italianas (ou do vulgar) e dialectais latinizadas, mantendo
a estrutura gramatical do latim, e que costumava utilizar-se nas obras burlescas, satíricas e
heróico-cómicas dos séculos xvi e xvii. (N. do T.)
4 Poesia ao estilo bizarro e enigmático do Burchiello, alcunha de Domenico di Giovanni, rimador florentino do século xv. (N. do T.)
5 De Ludovico Lepóreo (séculos xvi-xvii), bizarro versejador barroco, famoso na Roma
dos Papas. (N. do T.)
6 Em coração de mulher quanto dura o amor? / — (Horas) / E ela não me amou quanto eu a amei?/ — (Nunca) / Mas quem és tu que te lamentas comigo? — (Eco). (N. do T.)
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que tinha tido a coragem de se esconder por detrás do
nome de Catão Uticense. Transcrevera-os a tinta castanha
para um velho caderno de páginas amarelecidas.
— Ouçam, ouçam, este do Stigliani. Belo! O que será?
Ouçam:
A un tempo stesso io mi son una, e due,
E fo due ciò ch’era una primamente.
Una mi adopra com le cinque sue
Contra infiniti che in capo ha la gente.
Tutta son bocca dalla cinta in sue,
E più mordo sdentato che com dente.
Ho due bellichi a contrapposti siti,
Gli occhi ho ne’ piedi, e spesso a gli occhi i diti 7.
Parece-me vê-lo ainda no acto de recitar, emanando delícia do rosto, de olhos semicerrados, traçando com os dedos
uma pequena espiral.
A minha mãe estava convencida que para as nossas necessidades era suficiente o que o Pinzone nos ensinava;
e talvez também acreditasse, quando nos ouvia recitar os
enigmas do Croce e do Stigliani, que já estavam mais do
que satisfeitas. Mas a tia Scolastica pensava de maneira
diferente. Como não conseguira impingir o seu predilecto
Pomino à minha mãe, pôs-se a perseguir-nos, ao Berto e a
mim. Mas nós, fortalecidos pela protecção da mamã, não
lhe passávamos cartão, e ela irritava-se com tal ferocidade
que, se pudesse, sem que se visse ou ouvisse, certamente nos
encheria de pancada até nos arrancar a pele. Lembro-me
7 Ao mesmo tempo eu sou uma e duas / E faço duas daquilo que primeiramente era
uma. / Uma utiliza-me com as suas cinco / Contra infinitos que a gente traz na cabeça. /
Sou toda boca da cintura para cima, / E mais mordo desdentada que com dente. / Tenho
dois umbigos e sítios contrapostos, / Os olhos tenho nos pés e amiúde nos olhos tenho
dedos. (N. do T.)
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de que uma vez, ao fugir ao costumeiro ataque de fúria,
me apanhou numa das divisões abandonadas da casa;
pegou-me pelo pescoço, apertou-mo fortemente com os
dedos enquanto me dizia: «Meu lindinho! Meu lindinho!
Meu lindinho!» E enquanto falava ia aproximando o seu
rosto do meu, de olhos nos olhos, até que depois emitiu uma espécie de grunhido e me largou, rugindo entre
dentes:
— Focinho de cão!
Implicava sobretudo comigo, que até prestava mais atenção que o Berto aos extravagantes ensinamentos do Pinzone.
Mas devia ser por causa da minha cara plácida e amuada e
dos grandes óculos redondos que me tinham imposto para
me endireitarem um olho, o qual, não sei por que razão,
olhava por sua conta para outro lado.
Para mim, estes óculos eram um verdadeiro martírio.
A certa altura deitei-os fora e deixei livre o olho de olhar
para onde quisesse. De resto, mesmo que estivesse direito,
não seria este olho que me faria bonito. Estava cheio de
saúde e isso chegava-me.
Aos dezoito anos invadiu-me a cara uma barba ruiva e
espessa, com prejuízo para o nariz bastante pequeno, que
se encontrou como que perdido entre ela e a testa espaçosa
e grave.
Talvez, se o homem tivesse a faculdade de escolher um
nariz adequado ao próprio rosto, ou se nós, ao ver um pobre
homem oprimido por um nariz demasiado grande para o
seu rosto macilento, pudéssemos dizer-lhe: «Esse nariz está
bem em mim, fico com ele»; talvez, dizia, eu tivesse trocado
o meu de boa vontade, e também os olhos e muitas outras
partes da minha pessoa. Mas como sei bem que tal não é
possível, resignado com as minhas feições, não cuidava delas
mais do que o estritamente necessário.
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O Berto, pelo contrário, era bonito de rosto e de corpo
(pelo menos comparando-o comigo), não saía da frente
do espelho, e alisava-se e acariciava-se e esbanjava dinheiro
sem fim com as gravatas da moda, com os perfumes mais
refinados e com a roupa interior e com os fatos. Para o irritar, certo dia, tirei do seu guarda-fatos um fraque pronto a
estrear, um colete elegantíssimo de veludo negro, a cartola,
e fui à caça assim apresentado.
O Batta Malagna, enquanto isso, vinha chorar junto da
minha mãe os maus anos que o obrigavam a contrair dívidas
pesadíssimas para acudir às nossas despesas excessivas e aos
inúmeros trabalhos de reparação de que os nossos campos
tinham contínua necessidade.
— Levámos mais uma valente pancada! — dizia ele todas
as vezes ao entrar.
A geada tinha queimado as oliveiras à nascença, nas Due
Riviere; ou, então, a filoxera destruíra as vinhas do Sperone.
Era necessário plantar vides americanas, que resistiam ao
mal. Ou seja, mais dívidas. Depois, seguiu-se a sugestão de
vender o Sperone, para nos livrarmos dos agiotas, que não
o largavam. E, deste modo, primeiro foi vendido o Sperone,
depois Due Riviere e depois o San Rocchino. Sobraram as
casas e a quinta da Stìa, com o moinho. A minha mãe estava
sempre à espera do dia em que ele nos viesse informar que
a nascente tinha secado.
Nós fomos, é verdade, uns mandriões, e gastávamos sem
medida; mas também é verdade que jamais virá à face da Terra
um ladrão tão ladrão como o Batta Malagna. É o mínimo que
posso dizer da sua pessoa, considerando os laços de parentesco que fui obrigado a contrair com ele.
Teve a arte de nunca nos deixar faltar nada enquanto a
minha mãe foi viva. Mas aquela abundância, aquela liberdade até ao capricho, que ele nos deixava gozar, servia para
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esconder o abismo que depois, morta a minha mãe, me
engoliu a mim apenas; já que o meu irmão teve a sorte de
contrair a seu tempo um casamento vantajoso.
O meu casamento, pelo contrário…
— Também terei de falar sobre o meu casamento, não é
verdade, padre Eligio?
Empoleirado no topo do escadote de acendedor de lampiões, o padre Eligio Pellegrinotto respondeu-me:
— Mas é claro que sim! E com honestidade…
— Mas qual honestidade! O senhor bem sabe que…
O padre Eligio ri, e toda a igrejinha fechada ao culto com
ele. Depois aconselha-me:
— Se eu estivesse no lugar do senhor Pascal, primeiro,
lia umas novelas do Boccaccio ou do Bandello. Por causa do
tom, por causa do tom…
O padre Eligio tem a mania do tom. Ufa! Eu escrevo
como me manda a inspiração.
Por isso, coragem; avante!
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IV
Foi assim
Um dia, tendo ido à caça, detive-me, estranhamente impressionado, perante um palheiro anão e pançudo, que tinha
uma panelinha enfiada no topo da vara.
— Conheço-te — dizia-lhe eu. — Conheço-te…
Depois, de repente, exclamei:
— É isso! O Batta Malagna.
Agarrei numa forquilha que estava ali no chão e espetei-lha na pança com tanto deleite que a panelinha enfiada
no topo da vara por pouco não caiu. E agora é que parecia mesmo o Batta Malagna quando, suado e arquejante, se
fazia ver de chapéu ao lado na cabeça.
Todo ele escorregava: escorregavam-lhe pela carranca
comprida, de um lado e do outro, as sobrancelhas e os
olhos; escorregava-lhe o nariz sobre o bigode ridículo e
sobre a pêra; escorregavam-lhe os ombros sobre o pescoço; escorregava-lhe o bandulho flácido, enorme, quase
até ao chão, porque, dada a proeminência deste sobre as
perninhas atarracadas, o alfaiate, para lhe cobrir aquelas
perninhas, via-se obrigado a cortar-lhe largas as calças;
de modo que, ao longe, parecia, pelo contrário, que trazia um vestido comprido e que a barriga lhe chegava até
ao chão.
Ora, o que eu não sei é como é que, com uma cara e
um corpo daqueles, o Malagna podia ser tão ladrão. Até os
ladrões, imagino eu, devem ter uma certa postura, que ele
não me parecia ter. Caminhava devagar, com aquela sua
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barriga descaída, sempre com as mãos atrás das costas, e
falava com grande esforço com aquela sua voz mole, miada!
Gostaria de saber como é que ele justificava, na sua consciência, os furtos que continuamente perpetrava em nosso
desfavor. Não tendo ele, como já referi, nenhuma necessidade de o fazer, havia de ter uma razão, uma desculpa
qualquer que o justificasse. Talvez, digo eu, roubasse para
se distrair, o coitado do homem.
Com efeito, devia sentir-se, no seu íntimo, tremendamente oprimido por uma daquelas mulheres que se fazem
respeitar.
Havia cometido o erro de escolher uma mulher de condição superior à sua, que era muito baixa. Ora, esta mulher,
casada com um homem de condição igual à sua, talvez não
fosse tão maçadora como era com ele, em relação a quem,
naturalmente, tinha de demonstrar, à mínima oportunidade, que ela era bem-nascida e que na casa dela se fazia
desta e daquela maneira. E eis que o Malagna, obediente,
fazia desta e daquela, como dizia ela, para parecer um
senhor também ele. Mas custava-lhe muito! Suava e suava
continuamente.
Ainda por cima, a senhora Guendalina, pouco depois do
casamento, adoeceu de um mal de que nunca mais ficou
curada, já que, para se curar, teria de fazer um sacrifício
superior às suas forças: privar-se nada mais nada menos do
que de uns bolinhos recheados de trufas, de que ela gostava tanto, e de outras lambarices semelhantes e também
— aliás, sobretudo — do vinho. Não que bebesse muito; era
o que mais faltava: ela era bem-nascida!; só que não devia
beber nem uma gota, eis tudo.
Eu e o Berto, ainda rapazes, éramos por vezes convidados para almoçar em casa do Malagna. Era divertido ouvi-lo
fazer, com o devido respeito, um sermão à mulher sobre a
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moderação no comer, enquanto ele comia, devorava com
tanto deleite os pratos mais suculentos.
— Não admito — dizia ele — que pelo momentâneo prazer que experimenta a goela com a passagem de um pitéu,
por exemplo, como este (e lá ia o pitéu), se esteja depois
doente um dia inteiro. Que molho é que foi feito? Eu tenho
a certeza de que, depois, me sentiria profundamente humilhado. Rosina! (chamava a criada), dá-me mais um pouco.
Está mesmo boa esta maionese!
— És mesmo um glutão! — vociferava a mulher, enfurecida. — Estou farta! O Senhor bem que te devia fazer sentir
o que quer dizer estar mal do estômago. Aprendias logo a
ter consideração pela tua mulher.
— Mas como, Guendalina! Não tenho consideração por
ti?! — exclamava o Malagna, enquanto enchia mais um
copo de vinho.
A mulher, em resposta, levantava-se do seu lugar, tirava-lhe o copo da mão e despejava o vinho pela janela fora.
— Mas porquê? — gemia ele, no seu lugar.
E a mulher:
— Porque para mim é veneno! Se me vires a deitar um
dedo que seja num copo, tira-mo e despeja-o pela janela
como eu acabo de fazer, percebes?
O Malagna, mortificado e sorridente, olhava ora para o
Berto, ora para mim, ora para a janela, ora para o copo;
depois, dizia:
— Ó meu Deus, mas serás ainda uma criança? Eu, ser violento contigo? Não, minha querida: tens de ser tu, mediante
a razão, a impores-te um freio a ti própria…
— Mas como? — gritava a mulher. — Com a tentação em
frente aos olhos? Ao ver-te beber tanto vinho, e a saboreá-lo,
a mirá-lo e a remirá-lo em contraluz, para me irritares? Vá lá,
diz-me! Se fosses outro marido, para não me fazeres sofrer…
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Pois bem, o Malagna chegou a este ponto: deixou de
beber vinho, para dar exemplo de abstenção à mulher, e
para não a fazer sofrer.
Mas depois, roubava… Também não é de admirar! Alguma coisa tinha de fazer.
Contudo, pouco depois, veio a saber que a senhora
Guendalina, ela própria, bebia vinho às escondidas. Como
se, para não lhe fazer mal, pudesse bastar que o marido não
se apercebesse. E então, também o Malagna recomeçou a
beber, mas fora de casa para não mortificar a mulher.
Continuou, porém, a roubar, é verdade. Mas eu sei que
ele desejava de todo o coração que a mulher lhe proporcionasse uma certa compensação das inúmeras aflições que
lhe dava; isto é, desejava que ela um belo dia se resolvesse
a pôr-lhe um filho no mundo. Eis tudo! O furto então teria
um objectivo, uma justificação. O que é que não se faz para
o bem dos filhos?
A mulher, porém, definhava de dia para dia e o Malagna
não ousava sequer exprimir-lhe este seu ardentíssimo desejo.
Talvez ela fosse mesmo estéril. Era preciso ter tanto cuidado
com a doença dela! E se morresse de parto? Deus nos livre…
E, de resto, havia também o perigo de não conseguir levar a
gravidez até ao fim.
E era por isso que se resignava.
Seria sincero? Não o demonstrou suficientemente por
ocasião da morte da senhora Guendalina. Chorou-a, oh, se
a chorou, e sempre se lembrou dela com uma devoção tão
respeitosa que, no lugar dela, não quis pôr outra senhora —
era o que mais faltava! —, e teria podido fazê-lo, rico como
já era nessa altura; mas foi buscar a filha de um caseiro, sã,
viçosa, robusta e alegre; e isso unicamente para que não
houvesse dúvida de que teria a prole desejada. Apressou-se
um pouco de mais, é verdade… mas é preciso ter em conta
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que já não era propriamente um rapaz e que não tinha
tempo a perder.
A Oliva, que era filha de Pietro Salvoni, o nosso caseiro da
quinta das Due Riviere, conhecia-a eu bem desde rapariga.
Por causa dela, quantas esperanças alimentei à mamã!
Esperanças de ganhar juízo e de me afeiçoar ao campo. Não
cabia em si de contente, coitadinha! Mas um dia, a terrível
tia Scolastica abriu-lhe os olhos:
— Não vês, minha tola, que vai sempre para as Due Riviere?
— Sim, para a apanha da azeitona.
— De uma azeitona8, de uma azeitona, de uma só azeitona, minha grande parva!
A mamã, então, deu-me um sermão à maneira: que eu
tivesse cuidado para não cometer o pecado mortal de induzir em tentação e de desonrar para sempre uma pobre rapariga, etc.
Mas não havia perigo. A Oliva era honesta, de uma honestidade inquebrantável, pois estava enraizada na consciência
do mal que faria a si mesma se cedesse. Era precisamente
esta consciência que a libertava daquela timidez insossa
típica do pudor fingido, e a tornava ousada e desenvolta.
Como ria! Os seus lábios eram duas cerejas! E que dentes!
Mas daqueles lábios nem um só beijo; dos dentes, sim,
uma ou outra mordidela, por castigo, quando eu a agarrava
pelos braços e não queria deixá-la se antes não lhe pespegava um beijo, pelo menos, nos cabelos.
Nada mais.
E agora, tão bela, tão jovem e fresca, era mulher do Batta
Malagna?… Quem é que tem a coragem de virar as costas
a certas fortunas? E, no entanto, a Oliva sabia bem como
8 Jogo de palavras: «Oliva», o nome da jovem, e «oliva», azeitona em italiano. (N. do T.)
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enriquecera o Malagna! Ela própria, certo dia, me falou
muito mal disso; mas depois, justamente por causa desta
fortuna, casou-se com ele.
Entretanto, passa-se um ano desde o casamento; passam
dois; e nada de filhos.
O Malagna, convencido que estava há muito de que só
não tinha tido filhos da primeira mulher devido à esterilidade ou à doença prolongada desta, não concebia nem
de longe a suspeita de que dependesse dele. E começou a
mostrar-se agastado com a Oliva.
— Nada?
— Nada.
Esperou mais um ano, o terceiro: mas em vão. Então,
começou a censurá-la abertamente; e, por fim, após mais
um ano, definitivamente desesperado, atingindo o cúmulo
da exasperação, começou a maltratá-la sem qualquer consideração; gritava-lhe na cara que ela, com a sua fisionomia
viçosa, o tinha enganado, enganado!; que só para ter dela
um filho é que a elevara àquela condição, mantida outrora
por uma senhora, por uma verdadeira senhora, a cuja
memória, se não fosse por esse motivo, jamais teria feito
semelhante afronta.
A pobre Oliva não respondia, não sabia que dizer; vinha
frequentemente a nossa casa para desabafar com a minha
mãe, que a encorajava com palavras afectuosas a esperar mais
um pouco, porque, enfim, ainda era jovem, tão jovem:
— Vinte anos?
— Vinte e dois…
Portanto, coragem! Havia casos em que só tinham tido
filhos passados dez anos, ou mesmo quinze, de casamento.
— Quinze? Então, e ele? Ele era já velho; e se…
Desde o primeiro ano de casamento que a Oliva suspeitava que entre ele e ela — como dizer? — a falha pudesse
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ser mais dele do que sua, apesar de ele se obstinar a afirmar que não. Mas seria possível ter prova disso? A Oliva, ao
casar-se, tinha jurado a si mesma que se manteria honesta, e
não queria quebrar o juramento, nem para voltar a ter paz
na vida.
Como é que eu sei estas coisas? Essa é boa, como é que
as sei! Já disse que ela vinha desabafar a nossa casa; disse
que a conhecia desde nova; agora via-a a chorar devido ao
modo indigno de agir e à estúpida e provocadora presunção
daquele velho indecente, e… tenho mesmo de dizer tudo?
De resto, levei um não; e portanto basta.
Depressa me consolei. Trazia então, ou julgava trazer
(o que vai dar ao mesmo) muitas ideias na cabeça. Tinha
igualmente algum dinheiro, que, para além do resto, suscita também certas ideias, as quais sem ele não se teriam.
Porém, quem me ajudava a gastá-lo desalmadamente era o
Gerolamo II Pomino, que nunca tinha dinheiro suficiente
para nada, devido à sábia parcimónia paterna.
O Mino era como que a nossa sombra; por turnos, minha
e do Berto. E alternava com uma maravilhosa faculdade de
imitação símia, consoante a punha em prática comigo ou
com o Berto. Quando se colava ao Berto, tornava-se subitamente um janota; e o pai, então, que também tinha veleidades de elegância, abria um pouco os cordões à bolsa. Mas
com o Berto a coisa durava pouco tempo. Quando se via a
ser imitado inclusive no modo de andar, o meu irmão perdia logo a paciência, talvez com medo do ridículo, e tratava-o com rudeza até se livrar dele. O Mino, então, voltava a
colar-se a mim; e o pai a fechar os cordões à bolsa.
Eu tinha mais paciência para com ele, também porque
gostava de o gozar. Depois, arrependia-me. Reconhecia que
me tinha excedido por causa dele em alguma façanha, ou
esforçado a minha natureza, ou exagerado a demonstração
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dos meus sentimentos, pelo gosto de o fazer pasmar ou de
o pôr em alguma trapalhada, de que eu, naturalmente, também sofria as consequências.
Ora, o Mino, um dia, na caça, a propósito do Malagna,
de quem eu lhe tinha contado as proezas com a mulher,
disse-me que trazia debaixo de olho uma rapariga, mais
exactamente a filha de uma prima do Malagna, pela qual
cometeria de bom grado uma qualquer bestialidade. E era
mesmo capaz disso, tanto mais que a rapariga não parecia
querer fugir-lhe; mas ele ainda não tivera oportunidade de
falar com ela.
— Vá lá, confessa: não tiveste foi coragem! — disse eu a
rir.
O Mino negou; mas corou demasiado ao negar.
— Mas já falei com a criada — apressou-se a acrescentar. — E fiquei a saber cá umas coisas! Disse-me que o teu
Malanno 9 anda sempre lá por casa, e que não tem a certeza, mas parece-lhe que as suas visitas trazem água no bico,
segundo a prima, que é uma velha bruxa.
— Água no bico?
— Bom, diz-se que vai lá chorar a desgraça de não ter
filhos. A velha, severa e carrancuda, responde-lhe que é
bem feito. Parece que ela, aquando da morte da primeira
mulher do Malagna, meteu na cabeça casá-lo com a sua filha
e fez de tudo para o conseguir; mas depois, desiludida, disse
cobras e lagartos daquela besta, inimigo dos parentes, traidor do próprio sangue, etc., etc., e zangou-se com a filha por
não ter sabido atrair as atenções do tio. Agora que o velho
se demonstra arrependido de não ter feito feliz a sobrinha,
sabe-se lá que pérfida ideia congemina aquela bruxa.
Tapei os ouvidos com as mãos, gritando ao Mino:
9 Jogo de palavras entre Malagna e «Malanno», pessoa extremamente aborrecida e enfadonha. (N. do T.)
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o falecido mattia pascal