Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ENDECOM 2006 – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 11 a 13 de maio de 2006. Título: FORMAÇÃO JORNALÍSTICA: ONDE ESTÁ O PROBLEMA? Autor: Cristiane Hengler Corrêa Bernardo UFMS – FESCG Resumo: O presente estudo se dispôs a fazer uma compilação analítica da área do conhecimento que compõe discussões sobre os preceitos teóricos da formação do jornalista e as relações estabelecidas entre a sua formação acadêmica, o mundo do trabalho e os controles político e econômico que marcam os currículos escolares. Palavras-chave: ensino de jornalismo; controle; formação jornalística Introdução: O jornalista, ao longo da história da profissão, passou por distintas fases de formação que sempre foram marcadas por uma preocupação de controle por parte dos interesses políticos e econômicos. O Decreto Lei de n° 5.840, de 13 de maio de 1947, que instituiu o curso de jornalismo como parte do sistema de ensino superior, trazia em seu artigo 3º a seguinte determinação: “o curso será ministrado na Faculdade Nacional de Filosofia”. Entretanto, muito antes disso já se fazia jornalismo sem uma formação acadêmica, apesar de desde a fundação da Academia Brasileira de Imprensa (ABI), em 1919, se lutar por uma formação profissional específica, o que para muitos não significa o diploma de graduação. Fica nítido, ao longo da história dos cursos de jornalismo no Brasil, as relações entre o rompimento da teoria e prática nas escolas de Jornalismo com os interesses de controle do Estado e políticos. O que de fato pode ser constatado ao se fazer uma relação de como se deu e ainda se dá, em muitos aspectos, a formação desse profissional. LAGE (2001) encontra explicações para essa ruptura na figura do que chama “comunicador polivalente”, figura introduzida no cenário do jornalismo brasileiro pelo CIESPAL, Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo, muito mais por razões de ordem política que científica. Um controle aguçado por políticas implantadas pelo CIESPAL acabou criando um abismo entre a academia e o mercado, o que gerou uma grande crítica entre ambas as extremidades da formação e em 1960, à influência dos EUA, é criado um Centro Internacional de Estudos Superiores de Jornalismo. Em 1961 é traçado um Programa de Modernização dos sistemas educacionais do continente sul-americano que para LAGE (2001) reflete a preocupação por parte dos EUA que com a perda do controle da Revolução Cubana pretende a adoção de uma política mais incisiva de contra-insurgência na América Latina. Com o Golpe de 1964 a Universidade Brasileira incorpora plenamente o modelo do CIESPAL e é imposto um currículo mínimo1 enquadrado num controle rigoroso. Exposição e argumentação: Essa breve e resumida apresentação do cenário de instituição do Curso de Jornalismo no Brasil leva a uma análise de muitos porquês que perduram até os dias 1 Currículo mínimo: para o curso de Comunicação Social com habilitação em jornalismo não é mais utilizado desde 1999 1 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ENDECOM 2006 – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 11 a 13 de maio de 2006. atuais e que tiveram suas causas fortemente instauradas no rígido controle ao qual foi submetida a formação profissional do jornalista. As dualidades do campo específico do jornalismo começam a aparecer nas discussões propostas por MEDITSCH (1999). Crescer para os lados ou crescer para cima: o dilema histórico do campo acadêmico do jornalismo. O estudo busca na história recente da área acadêmica da comunicação social as explicações para a ruptura entre teoria e prática nas escolas de jornalismo. LAGE (2001) faz uma reflexão do ensino e da pesquisa de jornalismo no século XXI e reflete ainda sobre o que ele chama de uma nova “sacanagem” onde faz uma crítica acerca das Diretrizes Curriculares para o curso de jornalismo que segundo ele irão atender os empresários do ensino e que o público será prejudicado. SCHUCH (2005) cobra uma urgência da atualização curricular nos cursos de comunicação social e com severas críticas à Reforma Curricular MARTIN-BARBERO (1985) analisa a reformulação do ensino de comunicação com base nos aspectos ligados à interdisciplinaridade, o consumo de informação, a relação com as ciências sociais e própria reorganização dos princípios comunicacionais. COELHO SOBRINHO (1988) tece apontamentos para uma nova leitura do currículo de jornalismo analisando e propondo um mais adequado às necessidades dos alunos e do mercado. Os desafios do ensino de comunicação no Brasil são propostos por DIMAS FILHO (1987) que descreve e comenta o curso “ensino de comunicação: desafios e métodos”, e FELICIANO, F.A (1988) faz uma análise da Trajetória do CIESPAL e os trinta anos de influências no ensino de jornalismo. LOPES (1984) examina a criação e o desenvolvimento do ensino de comunicação no Brasil com base nos diversos pareceres que regulamentam os currículos mínimos de comunicação e LOPES (1985) analisa criticamente ainda as mudanças curriculares dos cursos de comunicação e discute as principais metas do currículo. MARANHÃO (1988), aborda a formação profissional que se propõe ao jornalista pela legislação vigente no país e sugere o retorno dos cursos específicos de jornalismo, de caráter polivalente, já MELO (1985) atribui ao ensino de jornalismo a responsabilidade pela qualidade do jornalismo. RAMADAN(2000) vê na era digital a principal âncora para se construir a filosofia de ensino do jornalismo e tem como objetivo verificar qual o instrumento pedagógico necessário para o ensino de jornalismo de forma a articular as bases teóricas e práticas. PACHECO (1989) estuda a ECA, Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo analisando as representações sociais dos alunos de comunicação a fim de apreender os discursos sobre a escola e o trabalho e QUEIROZ (1989) procura enfocar o outro lado do ensino de comunicação: uma abordagem específica nas empresas. ORTRIWANO (2000) aborda jornalismo, mercado e tecnologia; OBERG (2000): a mediação sociocultural reguladora: a ficção juvenil brasileira contemporânea entre a educação, a arte e o mercado e MOURA, C. P. (2000): a Comunicação Social na Legislação de Ensino Brasileira: do currículo mínimo às novas diretrizes curriculares. 2 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ENDECOM 2006 – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 11 a 13 de maio de 2006. De forma a inventariar encontra-se a Produção Científica Brasileira em Comunicação (década de 80) de KUNSCH, Margarida M.K. DENCKER, Ada F.M (1987) num apanhado de toda a produção da década de 80, incluindo as análises, tendências e perspectivas. Em MELO, J.M. de; DENCKER, A de F. M. Bibliografia brasileira de comunicação e educação. São Paulo: Port-Com, 1985, cujo resumo versa sobre o inventário da Pesquisa em Comunicação no Brasil de 1883/1983, reúne as produções sobre a utilização dos meios de comunicação na educação. SODRÉ (1999) além da divisão do jornalismo em períodos históricos faz ainda uma reflexão sobre a imprensa e os meios de comunicação de massa nos últimos anos. Já o debate acerca do conhecimento/trabalho: seus paradoxos, é localizado em MACHADO (2002) que ainda é complementado pela relação empresas/escola: mão dupla. Conclusões: O que se torna claro ao longo desse inventário da Formação do jornalista brasileiro em sua história é que o controle do Estado, pelas vias do poder político e, da sociedade através do poder econômico, marcam com características muito fortes essa formação. “Controlar” a formação profissional vai além da tão criticada censura e dos aclamados direitos de liberdade de expressão. Controlar a formação profissional do jornalista através dos conteúdos ministrados nas Escolas de Ensino Superior retrata uma censura ainda maior que não se limita às “edições de conveniência”, sejam quais forem. Não dar ao profissional de jornalismo o direito a uma formação de fato é a mais forte das censuras. Tirar a consciência social e política, esse é o verdadeiro censor aos quais estão submetidos os conteúdos curriculares e que em discursos convenientes procuram atender às necessidades do mercado de trabalho, mas que na entrelinhas pode-se ler os verdadeiros objetivos. Em círculos viciosos alimenta-se uma análise da formação do jornalista que fica discutindo Linguagens para a Novas Tecnologias de Comunicação ou criando um jornalista pseudo-crítico com as eternas discussões sobre a liberdade de imprensa e a ética profissional. Enquanto isso no caminho se perdem as discussões de como esta formação não dá ao profissional nem mesmo a consciência de que não apenas o seu trabalho será controlado, mas sim a forma como ele já adquiriu, ao longo dos quatro anos de Ensino Superior em Jornalismo, “habilidades e competências” minuciosamente controladas por interesses difusos. Aliás, este é outro discurso que nos tira das verdadeiras questões a serem resolvidas: “habilidades e competências” são as formas mais primárias de garantia a sobrevivência e não são estes conceitos, extremamente ultrapassados que irão garantir uma educação que possa resolver esse abismo entre educação e trabalho. 3 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ENDECOM 2006 – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 11 a 13 de maio de 2006. Bibliografia: COELHO SOBRINHO, J. Apontamentos para uma nova leitura do currículo de. jornalismo. Intercom. São Paulo, jul.-dez.,1988. DENCKER, A. F. M. A pesquisa e a interdisciplinaridade no ensino superior: uma experiência no curso de turismo. Campinas: Unicamp, 2000. DIMAS FILHO, N. Desafios do ensino de comunicação no Brasil: métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1987. FELICIANO, F.A. Ciespal: trinta anos de influências. Intercom – Revista Brasileira de Comunicação, v. 11, n° 59, p. 55-64, 1988. KUNSCH, M.M.K.; DENCKER, A.F.M. Produção científica brasileira em comunicação: década de 80. 1987. LAGE, N. Estão preparando uma nova sacanagem. Rio de Janeiro: Comum, v.1, n° 1, 1978. LAGE, N. A formação universitária dos jornalistas. Palestra conferida no II Encontro Latino-Americano de Professores de Jornalismo. Disponível em <http:// www.jornalismo.ufsc.br>. São Paulo, 1999. LOPES, D. F. L. Formação de jornalistas: sete propostas à procura da prática. In: MELO, J. M. Coleções GT's Intercom: transformações do jornalismo brasileiro: ética e técnica. São Paulo: INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação, 1994. MACHADO, N. Cidadania e educação. São Paulo: Escrituras, 2002. MARANHÃO, J. A arte da publicidade: estética, crítica e kitsch. Campinas: Papirus, 1988. MARTÍN-BARBERO, J. La comunicacion desde la cultura, crisis de lo nacional y emergencia de lo popular. In: Comunicação & Sociedade, n.13, p. 37-51. jun., 1985. MEDITSCH, E. O jornalismo é uma forma de conhecimento. Disponível em <http://www.jornalismo.ufsc.br>, 2005. MEDITSCH, E. Crescer para os lados ou crescer para cima: o dilema histórico do campo acadêmico do jornalismo. Disponível em: <http://www.jornalismo.ufsc.br>, 2005. MELO, J.M.; DENCKER, A. F. M. Bibliografia brasileira de comunicação e educação. São Paulo: Port-Com, 1985. MOURA,C.P. A comunicação social na legislação de ensino brasileira: do currículo mínimo às novas diretizes curriculares, 2000. RAMADAM, N. Jornalismo na era digital: construindo uma filosofia de ensino. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2000. OBERG, S. Mediação sociocultural reguladora: a ficção juvenil brasileira contemporânea entre a educação, a arte e o mercado. Dissertação de mestrado. São Paulo: USP, 2002. ORTEGA, D. MOREIRA, P. Sobre a estatização de vagas no ensino superior privado: sala de imprensa. Campinas: Unicamp, 2002. 4 Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ENDECOM 2006 – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 11 a 13 de maio de 2006. ORTRIWANO, G. S. (Des)caminhos do radiojornalismo. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1990. PACHECO, E.D. A ECA por dentro e por fora: escola e trabalho: o poder ser e o poder fazer dos jovens. In: Anuário de inovações em comunicação e artes. São Paulo, p. 16-33, 1989. QUEIROZ, A.M.A. O outro lado do ensino de comunicação: uma abordagem especifica nas empresas. Dissertação de Mestrado. São Paulo: USP/ECA, 1989. SCHUCH, H. O ensino nos cursos de comunicação social e a urgência da atualização curricular. Palestra de abertura da 2ª semana de Comunicação Social. Disponível em <http://www.jornalismo.ufsc.br>, 2001. SODRÉ, N.W. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999. 5