ENTREVISTA
Ponto de equilíbrio
Tim Flynn, presidente mundial
da KPMG International
Passados dois anos desde a mais
recente crise financeira, a economia
global encontra-se em melhor forma,
apesar dos diversos desafios que
ainda estão por vir, na Europa mais
especificamente. O acentuado
incremento no crescimento
observado nas nações emergentes
compensa a baixa expansão
dos países desenvolvidos e
acrescenta um componente
positivo no cenário pós-crise:
o equilíbrio. Essa é a visão de
Tim Flynn, presidente mundial
da KPMG International, em
entrevista dada à KPMG
Business Magazine durante
a sua visita ao Brasil no final
de 2010.
Na sua opinião, o crescimento
recorde e as altas taxas de
emprego fizeram do Brasil um
modelo a ser lembrado e cujos
fundamentos estão baseados na
ênfase no mercado interno, expansão
da classe média e aumento no crédito
para estimular os gastos internos.
O presidente da KPMG International
também chamou a atenção para o papel
do G-20 na retomada do crescimento e
na busca de um equilíbrio global. Segue
abaixo a entrevista de Tim Flynn.
Como o senhor avalia a economia
mundial e quais são os principais
desafios que nos aguardam no futuro?
A economia global está em melhor
forma do que há dois anos, com
crescimento consistente na Ásia e
aqui no Brasil também. Os países
desenvolvidos, como os Estados
Unidos, também voltaram à
estabilidade e começaram a expandir
suas economias, bem lentamente,
todavia. A Europa ainda enfrenta alguns
problemas, tal como no caso da Irlanda,
que teve de buscar recursos especiais
para colocar o seu sistema bancário em
ordem. Não obstante, a minha visão
do futuro é bastante otimista. Neste
momento, a coisa mais importante
Entrevista 03
ENTREVISTA
a ser feita é estimular o crescimento
no mundo inteiro, tanto nos países
desenvolvidos como nas nações em
desenvolvimento. O outro grande
desafio é o desemprego: 32 milhões de
pessoas ao redor do mundo perderam
seus empregos entre 2007 e 2009 e
precisamos criar 45 milhões de postos
de trabalho a cada ano, somente para
receber os novos candidatos que
entram no mercado de trabalho.
Diante das incertezas nos países
desenvolvidos, os mercados
emergentes lideram o crescimento
econômico mundial. Será que isso
continuará? Qual é o reflexo dessa
situação na economia global?
Nós devemos olhar para os países em
desenvolvimento e para os emergentes
para retomar a expansão global. Veja
o que acontece no Brasil, onde as
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taxas de emprego crescem há mais
de dois anos. E onde o desemprego
diminui há um tempo considerável. O
mesmo fenômeno ocorre na China, que
também tem reduzido o desemprego,
assim como em outros mercados
emergentes, que crescem a um ritmo
mais acelerado. Temos de encontrar um
equilíbrio. Os países desenvolvidos e as
economias emergentes, como o Brasil
e a China, têm de trabalhar juntos.
Quando trabalharmos unidos, com um
objetivo em comum, nós ganharemos
força. E essa é a verdadeira
oportunidade para fazer progressos.
Como o senhor avalia a economia
brasileira?
O país apresenta recordes de
crescimento e uma expansão
consistente, com altas taxas de criação
de empregos, baixo desemprego e
estabilidade na produção. O Brasil tem
colocado ênfase no mercado doméstico,
visando estimular o desenvolvimento.
Além de adotar políticas para a
eliminação da pobreza, o governo
expandiu o crédito ao consumidor para
a classe média e para as empresas que
atendem a essa faixa da população com
produtos e serviços. Eu acredito que a
capacidade de crescimento brasileira
reside na combinação de aspectos
como infraestrutura, investimentos e
na presença de agências regulatórias
governamentais, em conjunto com a
ascensão econômica de uma grande
parcela da população à classe média.
Esse é um modelo que deveríamos levar
do Brasil para outras partes do mundo.
O sucesso do Brasil começou a
ultrapassar suas fronteiras, na medida
em que grandes grupos nacionais
O cenário pós-crise é positivo: a retomada do crescimento
das economias maduras e a forte expansão dos mercados
emergentes criam uma dinâmica global que propicia um
equilíbrio favorável aos negócios
começam a efetuar aquisições no
exterior, como é o caso de players
do setor de bebidas, que compraram
concorrentes internacionais. E também
não podemos esquecer o fato de que
o país sediará dois megaeventos: a
Copa do Mundo de 2014 e os Jogos
Olímpicos de 2016.
Em sua opinião, quais são os
desafios que o país terá de
enfrentar para ser bem-sucedido na
realização da Copa do Mundo e das
Olimpíadas?
Eu assisti pela TV ao anúncio da
realização desses eventos no Brasil. Eu
me recordo das comemorações, das
pessoas nas ruas, das demonstrações
de orgulho ao ver que o mundo havia
reconhecido a importância do país,
que brevemente será classificado
como a quarta ou quinta maior
economia mundial. A Copa do Mundo
e as Olimpíadas são excelentes
oportunidades para o país mostrar
ao mundo o empreendedorismo e a
criatividade do povo brasileiro. É claro
que também existem desafios. Esses
são dois megaeventos que irão exigir
investimentos consideráveis em obras
de infraestrutura para a construção de
estádios e a expansão da infraestrutura
de transportes e rede hoteleira, entre
outras necessidades. Mas isso tudo
levará a uma aceleração da economia
brasileira.
Qual é sua opinião sobre o G-20?
Acredito que o mundo precisa do
G-20. A existência de somente uma ou
duas superpotências não é a solução.
Como chamei a atenção anteriormente,
precisamos de equilíbrio. Veja as
imensas interconexões dos dias de
hoje, tornadas muito mais evidentes
como resultado da crise financeira. O
G-20 representa a melhor maneira de
juntar as grandes economias em torno
de uma visão para resolver as mais
importantes questões globais, sejam
elas de cunho financeiro, social ou
ambiental. As reuniões do G-20 têm
lidado com o equilíbrio comercial e
monetário, bem como com a retomada
do crescimento econômico. Esses
são aspectos muito importantes que
precisam ser debatidos com olhos
no futuro. Um dos motivos da crise
financeira foi a ausência de regras
para assegurar uma sustentabilidade
econômica futura. Então, é muito
importante realizar discussões, ser
transparente e comunicar-se. E o G-20
é o local correto para isso acontecer.
Qual é a sua opinião sobre a
revisão das regulamentações do
sistema financeiro mundial que se
seguiu à crise?
A crise financeira afetou de maneira
adversa muitas pessoas em 2007 e
2008, fez sumir renda e poupança
e causou desemprego em massa.
Quando isso acontece temos de
revisar todos os aspectos do negócio
com relação às regulamentações,
modelos de negócios, intervenção
governamental e formação de capital.
A revisão das regulamentações é
uma medida fundamental, da mesma
maneira como precisamos de um
gerenciamento de risco mais robusto
nos negócios. A adoção de normas
corretas coloca o negócio em uma
situação melhor. Diversas mudanças
terão de ocorrer e isso é necessário
para que haja um fortalecimento da
economia mundial.
A sustentabilidade é um tema
sempre recorrente, que também
está presente na atual mudança
dos hábitos de consumo. De que
maneira o senhor acha que isso
afetará a vida das pessoas e a
maneira de se fazer negócios?
Antes de entrar no tópico de
sustentabilidade, deixe-me voltar
à questão da crise financeira, que
disparou uma mudança nos hábitos
de consumo. Nos Estados Unidos,
as pessoas estão gastando menos e
começando a poupar muito mais. Em
países em desenvolvimento, como
a China, a classe média tem crédito
a seu dispor, fator que contribui para
o crescimento do consumo interno.
Os chineses estão gastando mais.
Os Estados Unidos poupam mais,
enquanto a China, o Brasil e outros
países emergentes, com uma classe
média crescente, estão gastando mais.
Esse equilíbrio se torna importante para
que avancemos.
Com relação a hábitos de consumo,
tem havido na verdade uma grande
mudança. Os Estados Unidos são um
país que se acostumou a altos níveis de
gastos supérfluos do consumidor. Todo
ano nós costumávamos comprar um
tipo diferente de TV e um carro novo
a cada três anos. Acredito que agora
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ENTREVISTA
as pessoas irão manter seus bens por
mais tempo e irão possuir bem menos
coisas. Há um certo sentimento de
simplicidade surgindo a partir da crise.
A nova geração de consumidores –
como a da minha filha de 27 anos e a
do meu filho de 21 – pensa muito mais
a respeito de produtos sustentáveis,
não apenas no sentido econômico,
mas também baseada num ponto
de vista ambiental. Os jovens estão
preocupados em apagar as luzes,
comprar papel reciclado, usar menos
plástico e consumir menos.
Onde é que os negócios devem focar
para obter sucesso?
Eu gostaria de apontar para dois
componentes. O primeiro é a liderança,
porque existe muita incerteza no
mundo de hoje devido aos prejuízos
e ao desemprego. A incerteza exige
uma forte liderança que tenha atitude,
que ajude o negócio a descobrir aonde
ir e como reagir. A crise também
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afetou a confiança e a credibilidade
dos negócios. Líderes de verdade
enxergam seu papel como sendo o de
reforçar a confiança e a credibilidade
de suas organizações, por meio da
ética no local de trabalho, fazendo a
coisa certa, não importa quão difícil
isso seja. O outro componente reside
nas comunicações. Em tempos de
incerteza as pessoas querem saber
o que podem esperar e o que é que
tem sido feito; onde é que a incerteza
está e como lidar com ela. O que as
pessoas querem é: uma forte liderança,
confiança, integridade e organizações
altamente éticas.
Qual é a mensagem que o
senhor gostaria de deixar para os
nossos leitores?
Sempre que falo com executivos,
investidores e profissionais que
atuam na nossa atividade, a palavra
mais mencionada é “complexidade”.
O mundo está se tornando um
lugar cada vez mais complexo, com
novas regulamentações, novas
conformidades, mercados globais e
novos produtos. A complexidade pode
ser encontrada no mundo como um
todo, nas diferentes interconexões de
mercado ao redor do planeta. A KPMG
terminou recentemente uma pesquisa
global na qual praticamente todos os
executivos que foram entrevistados
disseram que o gerenciamento da
complexidade é um ponto muito
importante para o sucesso de suas
empresas. A questão principal é como
tratar essa complexidade e como
enxergar as coisas de uma maneira
diferente. A minha mensagem se
baseia no seguinte: o mundo precisa
de pessoas arrojadas, que sejam
inovadoras, tenham paixão pelo que
fazem, com uma mentalidade global,
e que estejam aptas a criar soluções
claras para problemas complexos.
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