ARTIGO Ana Paula Corti e Raquel Souza* E agora, José? Jovens e demandas por políticas públicas De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 26 milhões de jovens, com idade entre 16 e 24 anos, podem comparecer às urnas para votar em seus ou suas representantes no poder executivo e legislativo. Esse número representa 21,04% do total de eleitores e eleitoras. Se incluirmos os(as) que têm entre 25 e 34 anos (portanto, um grupo que aglutina jovens com até 29 anos), são mais 30 milhões. Trata-se de uma parcela bastante expressiva da população que é capaz de decidir sozinha os rumos do processo eleitoral de 2006 no Brasil. JUL / SET 2006 3 A R T I G O Os(as) jovens brasileiros(as), com idade entre 15 e 29 anos, representam 28,2% da população, ou seja, 49 milhões de pessoas. Nos últimos quatro anos, esse grupo tem ganho visibilidade pública em decorrência de uma série de processos que explicitaram a necessidade de ações, programas e projetos que incidam especificamente sobre suas vidas. Essa movimentação certamente terá impacto no pleito. É bastante provável que os atuais candidatos e a candidata à Presidência, assim como aqueles(as) que disputam as gestões estaduais, estrategicamente incorporem em seus discursos – e quiçá em seus planos de governo – propostas específicas para esse segmento da população. To m a n d o como exemplo os dois candidatos à Presidência que lideram a pesquisa de opinião nas intenções de votos, podese afirmar que já começou a corrida pelo eleitorado jovem. O Partido dos Trabalhadores (PT), do candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva, mobilizou, até maio, uma campanha do voto aos 16 anos – tentando convencer aqueles e aquelas que podem optar por não votar. Agora, o setorial Juventude do PT organiza uma campanha dirigida especificamente para a juventude: com o mote “Queremos mais”, são destacados os ganhos, a partir de iniciativas da atual gestão, nos campos da educação, do trabalho, da cultura e da participação desse grupo. Além disso, tentam formular uma proposta que influa sobre o plano de governo de Lula. A questão é como fazer para que essa preocupação com a juventude não se converta em pura estratégia eleitoral. Como fazer com que as promessas desse período tornem-se ações, e não programas superficiais 1 Executado em parceria com as prefeituras, é um programa de aceleração dos estudos de jovens que não concluíram ainda o ensino fundamental. Os(as) participantes recebem qualificação profissional de 1.200 horas/aula e participam também do programa de inclusão digital. Recebem uma bolsa mensal de R$ 100 e, em contrapartida, prestam serviços comunitários. 4 DEMOCRACIA VIVA Nº 32 Processo similar ocorre no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do candidato Geraldo Alckmin. A juventude do partido entregou um documento pautado por teses elaboradas pelos(as) jovens, e, segundo Fernando Guimarães (vice-presidente da Juventude PSDB), os preparativos para a elaboração do plano de governo já começaram com um tópico específico sobre políticas para os(as) jovens. A questão, entretanto, é como fazer para que essa preocupação com a juventude não se converta em pura estratégia eleitoral. Como fazer com que as promessas desse período tornem-se ações, e não programas superficiais. Novas institucionalidades Há hoje duas novas institucionalidades, no âmbito federal, responsáveis por pensar, formular e dar coordenadas para a implementação de políticas públicas voltadas para a juventude. Em 2005 começou a funcionar a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), comandada por Beto Cury e Regina Novaes, e o Conselho Nacional de Juventude (CNJ). O primeiro organismo tem como responsabilidade integrar programas e ações do governo federal, sendo referência na formulação de políticas e ações do governo. Atualmente, a secretaria também é responsável pela execução do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, o ProJovem.1 Já o CNJ atua como interlocutor entre o governo e a sociedade civil no debate de políticas públicas para a juventude. Sua missão, entre outras atribuições, é acompanhar e avaliar as ações governamentais dirigidas a jovens e assessorar a SNJ na formulação de diretrizes. Integram o conselho 60 membros, sendo 40 representantes de diversos setores da sociedade e 20 de ministérios, secretarias especiais que têm programas para juventude, órgãos públicos e entidades municipais. A tarefa dessa nova institucionalidade não é nada simples. Trabalho de Marilia Sposito e Paulo Cesar Carrano (2003) – sobre a presença de programas, projetos e políticas destinadas a jovens – dava conta da existência de inúmeras iniciativas que tinham como público prioritário o segmento juvenil. No estudo, identificaram que as políticas destinadas à juventude eram fragmentadas, dispersas e superpostas. Constatação similar foi feita pelo Grupo Interministerial, criado pelo governo pouco antes do lançamento da SNJ e do CNJ. As E AGORA, JOSÉ? JOVENS E DEMANDAS POR POLÍTICAS PÚBLICAS políticas dirigidas à juventude encontram-se em diferentes ministérios, muitas vezes com diretrizes sem convergência de objetivos, público-alvo e percepção sobre quem são e o que demandam os(as) jovens. Nesse sentido, a tarefa de articular as políticas governamentais, a partir de diretrizes comuns, é uma missão que exige força e disposição política para romper o isolamento das iniciativas. É predominante a existência de feudos e a falta de diálogo entre programas e projetos focais, como o ProJovem, e políticas estruturais, como as desenvolvidas pelo Ministério da Educação no âmbito do ensino médio e da educação superior, mais consolidadas e contínuas. Um bom exemplo para ilustrar o tamanho desse desafio pode ser obtido se observarmos as experiências de âmbito local, que possuem uma história (ainda que pequena) de maior longevidade. Desde a década de 1990, é emergente em municípios e alguns estados a presença de coordenadorias e secretarias de juventude. Essas organizações encontram grande dificuldade para influir sobre as iniciativas do conjunto da gestão, reduzindo suas iniciativas a projetos episódicos ou de pequeno raio de ação, pois não dispõem de recursos expressivos como as secretarias mais consolidadas (Educação, Saúde, Assistência Social etc.). Reitera-se a ausência de organicidade e coerência nas políticas, muitas vezes conflitantes, no interior de uma mesma gestão. A SNJ e o CNJ preparam, para novembro, o lançamento de uma publicação contendo os principais itens para a construção de diretrizes que devem nortear as ações governamentais. O documento inclui ainda a apresentação de diferentes visões sobre juventude e de como as políticas, prioritariamente, devem ver e atuar sobre a vida desse grupo. Visões que norteiam as políticas A emergência de ações federais destinadas a jovens no Brasil se deu na segunda gestão do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), sobretudo a partir de 1997. Naquele momento, foi intensa a repercussão pública do assassinato do índio Galdino por jovens de classe média. A associação entre juventude e violência se fez mais forte. Também é preciso considerar o clima decorrente das rebeliões de jovens em conflito com a lei nas dependências de várias unidades da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), largamente retratado pela imprensa a partir de meados da década de 1990, que induziu vários segmentos da sociedade a uma visão perversa de adolescentes pobres. Outro evento, com repercussão nacional, também projetou o tema da juventude. Trata-se do seqüestro, no Rio de Janeiro, do ônibus da linha 174, que ocorreu em junho de 2000. Esses dez anos de associação entre juventude e violência influenciaram a maioria das ações destinadas a atendê-la. A conseqüência prática foi a sobreposição direta entre políticas de juventude e propostas de ocupação do tempo ocioso para superação da violência. Helena Abramo (2005) identifica essa perspectiva sobre jovens como aquela que toma a juventude como uma etapa problemática. Nela, o sujeito jovem aparece a partir dos problemas que ameaçam a ordem social ou a partir do déficit nas manifestações de seu desenvolvimento. As questões que emergem são aquelas relativas a comportamentos de risco e transgressão. E m d e c o rrência dessa visão, são comuns políticas de caráter compensatório, focalizadas em setores que apresentam as características de vulnerabilidade, risco ou transgressão (normalmente, os grupos visados se encontram na juventude urbana, pobre e negra). Numa pesquisa inédita, realizada em 74 municípios brasileiros, Marilia Sposito (2006) identificou a emergência de políticas que reconhecem os(as) jovens como sujeitos de direitos e que admitem a existência de A tarefa de articular as políticas governamentais, a partir de diretrizes comuns, é uma missão que exige força e disposição política para romper o isolamento das iniciativas. É predominante a falta de diálogo entre programas e projetos focais JUL / SET 2006 5 A R T I G O demandas específicas de participação, trabalho, cultura e educação (como direitos!). Segundo a pesquisadora, isso revela uma disputa existente em torno da visão de juventude que deve nortear as políticas. No entanto, a maioria das políticas, segundo o levantamento da autora, continua reiterando uma visão negativa sobre jovens, sobretudo quando são dirigidas para grupos reconhecidos como “vulneráveis ou em situação de risco” e assumem um caráter reparador e preventivo da provável delinqüência desses grupos. Nessas políticas, práticas esportivas, culturais e educativas apresentam caráter instrumental, visando ao “fortalecimento da auto-estima” e à contenção da violência, da agressividade e de comportamentos ameaçadores. Ou seja, a prática cultural, esportiva ou educativa não é vista como um bem em si ou como um direito. Considerando o atual momento político, quando surgem com força as deficiências das políticas de segurança pública, podese supor que a tendência de concepção sobre quem são os(as) jovens e quais são os objetivos das políticas dirigidas a eles(as) deve tomar força e fôlego no cenário político e eleitoral. Recentemente, em cadeia nacional, um jornalista e grande formador de opinião pública afirmou que a associação de crianças e jovens com Mesmo que superada a visão mais negativa sobre a juventude, não há consenso sobre o que deve orientar as políticas destinadas às 49 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Talvez seja importante se ater às demandas dos(as) próprios(as) jovens 6 DEMOCRACIA VIVA Nº 32 o crime organizado, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC), seria remediado se existissem políticas de cultura e esporte que ocupassem o tempo ocioso dos(as) jovens. É preciso ficar atento e estar preparado para contestar esse tipo de visão – que vem se tornando hegemônica –, já que ela nem expõe a ausência de operadores e executores de direito, nem defende a existência desses. Ao contrário, apresenta os sujeitos jovens como responsáveis – e, por isso, passíveis de controle – pelas mazelas sociais e pelos problemas urbanos. Entretanto, mesmo que superada essa visão mais negativa sobre a juventude, não há consenso sobre o que deve orientar as políticas destinadas às 49 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Há quem diga que as políticas destinadas a essa parte da população devem ter foco em sua preparação para a vida adulta, enquanto outros(as) as vêem como estratégicas para a superação de mazelas nacionais, e outros(as) afirmam que os direitos juvenis superam aquelas de caráter formativo. Para solucionar o problema, mais do que fazer um debate conceitual sobre a questão, talvez seja importante se ater às demandas dos(as) próprios(as) jovens. Afinal, o que eles e elas dizem sobre suas vidas, suas necessidades e sobre cidadania? Demandas por políticas Nos últimos três anos, em diversas ocasiões e com diferentes alcances – nacionais ou locais –, ocorreram iniciativas que levantaram demandas de grupos, movimentos e organizações juvenis. Também foram feitas pelo menos três grandes pesquisas nacionais, nas quais jovens brasileiros(as) puderam manifestar seus anseios por políticas públicas. O documento mais recente a apontar essas demandas é o Plano Nacional de Juventude (PNJ). Fruto de um processo organizado pela Comissão de Juventude da Câmara dos Deputados, presidida por Lobbe Neto (PSDB) e tendo como relator Reginaldo Lopes (PT), o documento é bastante extenso e apresenta uma lista enorme de propostas em diferentes campos das políticas de educação, trabalho, cultura, esporte e lazer. O documento também aponta ações para grupos específicos como mulheres, negros e negras, jovens rurais, homossexuais, indígenas, entre outros. Longe de ser um consenso, visto que o processo foi bastante conturbado, o documento expressa uma multiplicidade de E AGORA, JOSÉ? JOVENS E DEMANDAS POR POLÍTICAS PÚBLICAS iniciativas que os movimentos e as organizações de juventude gostariam de ver expressas em políticas e iniciativas públicas. Na última versão, só o documento preliminar no campo da educação continha uma lista de 117 propostas. Mais bem organizado é o documento de conclusão do Projeto Juventude, do Instituto Cidadania. Nele, também estão expressas as sínteses de discussões e demandas da sociedade civil acerca das políticas públicas dirigidas a jovens. Além de uma multiplicidade de propostas, também há capítulos específicos sobre o diálogo com a sociedade civil e sobre mecanismos e diretrizes que favoreçam a participação de jovens na concepção, no monitoramento e na implementação das iniciativas dirigidas a eles(as). Outra forma de perceber as demandas da juventude é verificar quais são suas preocupações sobre a situação brasileira e sobre suas próprias vidas. Para isso, existem duas pesquisas bastante ilustrativas a apontar quais são as questões que povoam o universo juvenil. No Perfil da Juventude Brasileira, pesquisa também realizada pelo Instituto Cidadania, desemprego e segurança são os temas que causam maior preocupação. Ao mesmo tempo, os(as) jovens apontam uma grande disposição para pensar e refletir sobre sua formação e reclamam do tipo de educação que recebem na escola pública. Com uma metodologia diferenciada, Ibase e Instituto Pólis produziram a pesquisa Juventude Brasileira e Democracia. A pesquisa foi desenvolvida em dois momentos distintos: na fase quantitativa, buscou-se perceber o perfil de jovens das principais regiões metropolitanas do Brasil; na fase qualitativa, jovens foram chamados(as) para rodas de diálogo em que falaram sobre as principais mudanças que gostariam de ver no Brasil e sobre os mecanismos de participação que estariam dispostos(as) a lançar mão para que essas mudanças acontecessem. Miséria, pobreza e desigualdade lideraram o ranking de preocupações, seguidas pela violência e, mais uma vez, pelo desemprego. Além disso, os(as) participantes apresentaram uma lista extensa do que precisa mudar nas escolas públicas, nas quais a maioria estudou ou estudava: estrutura física, formação e remuneração dos professores e das professoras, aulas mais dinâmicas, laboratórios de informática que funcionem, currículo mais interessante e que dialogue com a realidade, materiais diferenciados (que superem o giz e o apagador) etc. No que diz respeito à participação, os(as) jovens posicionaram-se a respeito das diferentes formas de atuarem na vida pública. Nesse debate, veio à tona a desconfiança pela política institucionalizada em forma de partidos e estruturas governamentais. Para os(as) jovens, trata-se de um lugar bastante passível de corrupção e que precisa ser fiscalizado, controlado, monitorado. Por outro lado, reconhecem que é o espaço no qual as mudanças mais expressivas ocorrem. Ou seja, há a desconfiança da política por um lado, mas o reconhecimento de sua importância por outro. A pesquisa mostrou que há jovens dispostos(as) a se engajarem em ações políticas e sociais, e mesmo os(as) que não estão dispostos(as) são capazes de discutir quais são as políticas mais adequadas a sua realidade. Torcemos para que a juventude não apareça nesse pleito apenas como moeda eleitoral, mas como um conjunto da população que possui demandas sociais e políticas que devem ser alvo estratégico de governantes. Talvez, o processo eleitoral possa discutir politicamente o significado da juventude brasileira. * Ana Paula Corti Assessora da ONG Ação Educativa e doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) * Raquel Souza Assessora da ONG Ação Educativa e mestranda da Faculdade de Educação da USP REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, Helena Wendel; BRANCO, Pedro Paulo Martoni. Retratos da Juventude Brasileira – Análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Instituto Cidadania, 2005. ABRAMO, Helena Wendel. O uso das noções de adolescência e juventude no contexto brasileiro. In: FREITAS, Maria Virgínia (Org.). Juventude e adolescência no Brasil: referências conceituais. São Paulo: Ação Educativa, 2005. IBASE, INSTITUTO PÓLIS. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Relatório final. Rio de Janeiro, 2005. SPOSITO, Marilia Pontes; CARRANO, Paulo Cesar. Juventude e políticas públicas no Brasil. Revista Brasileira de Educação. São Paulo, n. 24, p. 16-39, set./dez. 2003. SPOSITO, Marilia Pontes. Um balanço preliminar de iniciativas públicas voltadas para jovens em municípios de regiões metropolitanas. Disponível em: <www.acaoeducativa.org.br>. Acesso em: 10 jul. 2006. JUL / SET 2006 7