UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Cláudia Figueiredo Modesto
A identidade feminina na mídia neopentecostal do Reino de Deus:
narrativas eletrônicas de conversão
Juiz de Fora
Março de 2012
2
Cláudia Figueiredo Modesto
A identidade feminina na mídia neopentecostal do Reino de Deus:
narrativas eletrônicas de conversão
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Comunicação e Sociedade, linha
de pesquisa em Comunicação e Identidades, da
Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal de Juiz de Fora, para a obtenção do título
de Mestre em Comunicação.
Orientador: Prof. Dr. Márcio de Oliveira Guerra
Juiz de Fora
2012
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Modesto, Cláudia Figueiredo.
A identidade feminina na mídia neopentecostal do Reino de Deus:
narrativas eletrônicas de conversão. 2012.
155 f.
Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Universidade Federal de
Juiz de Fora, Juiz de Fora – MG, 2012.
1. Identidade feminina. 2. Neopentecostalismo. 3. Rádio. 4. IURD.
5. narrativas de conversão.
4
Cláudia Figueiredo Modesto
A identidade feminina na mídia neopentecostal do Reino de Deus:
narrativas eletrônicas de conversão
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade, linha
de pesquisa em Comunicação e Identidades, da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal de Juiz de Fora, para a obtenção do título de Mestre em Comunicação.
Orientador: Prof. Dr. Márcio de Oliveira Guerra
Trabalho de dissertação aprovado em 05/03/2012 pela banca composta pelos seguintes
membros:
________________________________________________________________________
Prof. Dr. Márcio de Oliveira Guerra (UFJF) - Orientador
________________________________________________________________________
Profª. Drª. Dra. Maria da Penha Nunes da Rocha (UFMA) – Membro externo
________________________________________________________________________
Profª Drª. Iluska Maria da Silva Coutinho (UFJF) – Membro interno
Conceito obtido: 100 / A (CEM)
Juiz de Fora
Março de 2012
5
Dedicatória
Dedico este trabalho ao Guto Alcântara, um
companheiro incansável na tarefa de dividir
comigo as dúvidas e alegrias de uma pesquisa
acadêmica. Obrigada por me ouvir,
compartilhar e respeitar meu espaço de
concentração ao longo destes dois anos, muitas
vezes sem finais de semana e sem feriado.
6
Agradecimentos
Agradeço aos meus pais Ana e Benedicto, meus filhos Bernardo e Leonardo, meu
companheiro Guto Alcântara e minha família e peço desculpas pela ausência sem medida
enquanto me dedicava a esta pesquisa.
Agradeço, especialmente, o carinho acolhedor, paciência, dedicação e confiança do Prof. Dr.
Márcio de Oliveira Guerra que me orientou com sabedoria e amizade no desenvolvimento
desta dissertação.
Agradeço à toda coordenação do PPGCom UFJF, na pessoa da coordenadora Profª Iluska
Coutinho.
Aos professores que fizeram parte deste caminho e que, de alguma forma, contribuíram para o
enriquecimento do campo teórico deste trabalho, tais como Profª. Drª Iluska Coutinho, Profª.
Drª. Christina Musse, Profª. Drª. Cristina Brandão, Profª. Drª. Cláudia Lahnni, Profª. Drª.
Regina Mota, Prof. Dr. Boanerges Balbino Lopes, Prof. Dr. Weden Alves, Prof. Dr. Paulo
Roberto Figueira Leal, Prof. Dr. Aluísio Trinta, Prof. Dr. Jorge Gonzalez, Prof. Dr. Edson
Dalmonte.
Aos Professores Doutores Marcelo Kischinhevsky e Penha Rocha por terem disponibilizado
suas pesquisas acadêmicas com todo seu conteúdo.
Aos colegas do PPGCom da UFJF pelas discussões de ideais e compartilhamento de
sabedorias.
À Júlia Pessôa, cujo parentesco próximo descobri recentemente, e que foi a tradutora do
resumo deste trabalho para o inglês.
Ao colega mestrando Raphael Paradella pela criação da capa desta dissertação, numa
madrugada de profunda inspiração.
À secretária do PPGCom da UFJF Ana Cristina Brandão pela acolhida sempre carinhosa e
extrema eficiência em suas funções burocráticas, além da amizade construída.
À diretora da Faculdade de Comunicação, Profª. Drª. Marise Mendes que sempre manteve as
portas abertas, além dos demais coordenadores, professores, servidores e funcionários.
À Profª e doutoranda do PPG Ciências Sociais da UFJF, Marina Magalhães, pela amizade,
fonte de conhecimentos e confiança.
Ao Prof. Flávio Galone da Rosa pelo empréstimo de livros que me serviram de pontapé inicial
deste trabalho e, principalmente, por todo o conhecimento sobre a história das mulheres
através dos anos obtidos através deles.
E agradeço também ao PPGCom UFJF e mais recentemente à CAPES pelo incentivo
financeiro sem o qual seria impossível concluir esta pesquisa com alguma dignidade.
7
“Quando educamos um homem,
educamos um indivíduo e
quando educamos uma mulher,
educamos uma nação”.
(Provérbio africano)
8
Saí em busca da identidade
da mulher evangélica
e encontrei algo muito maior:
a fé que transforma.
9
FIGUEIREDO-MODESTO, Cláudia. A identidade feminina na mídia neopentecostal do
Reino de Deus: narrativas eletrônicas de conversão. 2012. 154 f. Dissertação (Mestrado em
Comunicação). Faculdade de Comunicação, UFJF, Juiz de Fora, 2012.
Resumo: Esta dissertação debruçou-se sobre o discurso midiático religioso e sua capacidade
reguladora no cotidiano das mulheres, especialmente sobre a construção da identidade
feminina nas narrativas radiofônicas da Rede Aleluia de rádio, segmento midiático da Igreja
Universal do Reino de Deus (IURD), liderado por Edir Macedo, que cobre 75 por cento do
território nacional. Partimos dos conceitos de identidade dos Estudos Culturais e da interface
entre mídia, religião e gênero para consolidar nosso campo teórico. Como metodologia,
adotamos a Análise da Narrativa baseada nos pensamentos de Gancho (2006), cuja estrutura
se estabelece sobre cinco elementos: enredo, personagens, tempo, espaço e narrador; que
serão confrontados com os pensamentos e técnicas de alguns pesquisadores do rádio enquanto
veículo de comunicação e produtor de sentido. Elegemos como corpus desta pesquisa os
depoimentos femininos gravados e editados, exibidos no horário compreendido entre nove
horas e meio-dia, na Rede Aleluia de rádio, em três fases distintas: de 02 a 06 de maio de
2011 (período que antecedeu o Dia das Mães); de 06 a 10 de junho de 2011 (semana anterior
ao Dia dos Namorados) e de 08 a 12 de agosto de 2011 (intervalo que precedeu o Dia dos
Pais). Verificamos que o discurso massivo iurdiano revela-se ambíguo para as mulheres: ora
as aproxima ao espaço doméstico, ora as incentiva a participarem do setor econômico. Nossa
hipótese supôs que é dada maior ênfase ao papel da mulher como a responsável pela
felicidade de todos os membros da família e pela manutenção dos bons costumes, reservando
às mulheres um discurso que as aproxima do espaço doméstico. No entanto, somente parte
desta hipótese se confirmou. Os resultados apontaram para a construção de outra identidade
feminina, mais próxima da mulher moderna do início do terceiro milênio.
Palavras-chave: Identidade feminina; neopentecostalismo; rádio; IURD; narrativas de
conversão.
10
Abstract: This dissertation focused on the media religious discourse and regulatory capacity
in the daily life of women, especially on the construction of female identity in the narratives
of Rede Aleluia radio stations, media segment that belongs to the Universal Church of the
Kingdom of God (UCKG), led by Edir Macedo, which covers 75 percent of the national
territory. We start from the concepts of identity from Cultural Studies and the interface
between media, religion and gender to consolidate our theoretical field. As methodology, we
adopt the Narrative Analysis based on the thoughts of Gancho (2006), whose structure is
established on five elements: plot, characters, time, space and narrator, who will be
confronted with the thoughts of some researchers and techniques of radio as a mass
communication vehicle and as a producer of meaning. To integrate the corpus of this research,
we chose female testimonials that were recorded and edited, and aired between nine o'clock
and noon, in Rede Aleluia, in three distinct phases: from May 2 to May 6, 2011 (the period
before the Day of mothers), from June 6 to June 10, 2011 (week before Valentine's Day in
Brazil, which is June 12) and August 8 to August 12, 2011 (interval preceding Father's Day).
We found that the massive UCKG speech is ambiguous for women: sometimes it brings them
closer to the domestic space, sometimes it encourages them to participate in the economic
sector. Our hypothesis assumes that there is greater emphasis on the role of women as
responsible for the happiness of every family member and the maintenance of morality,
reserving to them a kind of speech that approximates them to the domestic space. However,
only part of this hypothesis was confirmed. The results point to the construction of another
female identity, closer to the modern woman of the early third millennium.
Keywords: female identity; neo-Pentecostalism; radio; UCKG; conversion narratives.
11
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
12
1 O PODER SIGNIFICANTE DA RELIGIÃO
1.1 TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
1.2 GUERRA ESPIRITUAL
18
22
27
2 RADIOEVANGELISMO NO BRASIL
2.1 HERANÇA ESTADUNIDENSE
2.1.1 Expansão midiática dos evangélicos
2.1.1.1 Evangélicos no rádio
2.1.2 IURD e mídia
2.1.2.1 IURD e rádio
30
30
35
37
40
49
3 PAPEIS DE GÊNERO: QUAIS OS PAPEIS DA MULHER?
3.1 OS PAPEIS DE GÊNERO E OS CONTRATOS CULTURAIS
3.2 MÍDIA E IDENTIDADE FEMININA
3.2.1 A mulher no Rádio
3.3 A MULHER NA IURD
3.3.1 O discurso subordinador
3.3.2 O perfil da mulher de Deus segundo Edir Macedo
55
55
61
65
72
75
76
4 ENUNCIAÇÕES DO FEMININO NO RÁDIO IURDIANO
4.1 TESTEMUNHOS RADIOFÔNICOS
4.1.1 Narrativas femininas
4.1.1.1 Elementos da narrativa
4.2 MÚLTIPLAS IDENTIDADES FEMININAS
80
80
82
87
108
CONSIDERAÇÕES FINAIS
111
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
116
ANEXOS
124
INTRODUÇÃO
As mudanças na organização familiar, ocorridas no mundo moderno,
principalmente através do movimento feminista e da inserção da mulher nas esferas públicas
(mercado de trabalho, política, economia, etc.), têm levado ao questionamento do
patriarcalismo e dos estereótipos atribuídos por muito tempo ao papel da mulher como donade-casa, esposa, mãe e ao homem como o provedor e autoridade maior na família.
Esta transformação pode ser verificada a partir de informações do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que indicam uma realocação das mulheres na
sociedade brasileira, re-significando aquilo que é entendido como o papel delas e dos homens,
conforme veremos nesta pesquisa. Em seu cotidiano, homens e mulheres têm experimentado
situações sociais diferentes daquelas tradicionalmente atribuídas a cada um dos sexos. Este
panorama se reflete em diversas instituições produtoras de sentido na sociedade, como a
ciência, a escola, a religião, a mídia, entre outras; todas com importante poder nas
representações1 dos papeis de gênero.
Na contramão dos avanços femininos na sociedade, impulsionados pelo
movimento feminista a partir da década de 1960, surge na mídia uma tendência de
reafirmação do patriarcalismo reforçado pela tradição religiosa. Nas duas últimas décadas do
século passado e nos primeiros anos do século vinte e um, percebemos uma mudança no
conteúdo midiático, inclusive no dial dos radinhos de pilha. Sintonizados em diferentes
canais, passamos a escutar não mais música, informação e jogos de futebol, mas 24 horas de
programação religiosa, principalmente aquelas dedicadas ao exorcismo. Embora os
evangélicos já ocupem as programações radiofônicas desde os anos de 1940 e os católicos
1
Por representação, adotamos o conceito de Hall (1997). Ele analisa que os significados culturais não estão na cabeça, têm
efeitos reais e regulam práticas sociais. O reconhecimento do significado faz parte do senso de nossa própria identidade,
através da sensação de pertencimento. Os sinais, por sua vez, possuem significado compartilhado – representam nossos
conceitos, ideias e sentimentos de forma que outros decodifiquem ou interpretem mais ou menos do mesmo jeito. Dito de
outra forma, as linguagens funcionam através da representação: elas são sistemas de representação.
13
desde a década de 1950, o boom2 de emissoras religiosas aconteceu com mais intensidade no
final do século vinte. Utilizando-se de técnicas radiofônicas, padres, pastores e missionários
ocuparam os microfones de emissoras, vendidas ou arrendadas a grupos religiosos, alguns
com objetivos políticos, a fim de propagar seus dogmas e arrebanhar fieis. Baseados na
palavra bíblica ajudam a reforçar as diferenças de gênero, estabelecendo papeis masculinos e
femininos segundo a ―vontade de Deus‖.
Uma das representantes deste movimento é a Igreja Universal do Reino de Deus
(IURD), liderada por Edir Macedo. Desde o princípio, Macedo adotou a evangelização
eletrônica como carro-chefe de sua estratégia proselitista. Primeiro adquiriu popularidade
como apresentador de um programa religioso na Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro,
depois passou a alugar e comprar emissoras de rádio e TV em todo o Brasil e até no exterior.
Quando iniciamos esta pesquisa, há dois anos, a Rede Aleluia de rádio - segmento midiático
da Igreja Universal do Reino de Deus -, contava com 62 emissoras no Brasil. Ao terminá-la, a
rede soma hoje 71 emissoras de rádio (AM e FM). A IURD forma um verdadeiro ―império‖
midiático com empresas de jornais, editoras, emissoras de TV, gravadoras e inúmeras
empresas nos mais variados ramos3.
Esta dissertação debruçou-se sobre o discurso midiático religioso e sua capacidade
reguladora no cotidiano das mulheres, especialmente sobre a construção da identidade
feminina nas narrativas radiofônicas da Rede Aleluia. Partimos dos resultados das pesquisas
de Machado (1996, 1999, 2005), Pimentel (2005) e Melo (2007). Machado aponta para o
paradoxo de uma igreja constituída majoritariamente por mulheres excluir a participação
feminina nos cargos mais elevados da hierarquia. De acordo com ela, isso sugere dificuldades
do grupo iurdiano em debater a desigualdade de gêneros quando é o poder religioso que está
2
Explosão.
O crescimento empresarial e enriquecimento de Edir Macedo levaram o Ministério Público Federal de São Paulo a
denunciar, por duas vezes (em 1999 e em 2011), o bispo e outros três dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus, sob a
acusação de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro ofertado pelos fieis. O primeiro processo foi anulado pelo Tribunal
de Justiça que entendeu que se tratava de um caso da esfera federal.
3
14
em questão. Pimentel registra a visão polarizada do feminino adotada pela IURD – com
figuras representantes do Bem, como Maria, e do Mal, como a Pomba-Gira, e que, desta
maneira, recupera a importância da mulher na estrutura familiar como mediadora entre a
família e a igreja. E Melo revela que as atitudes femininas e masculinas já tão marcadas em
outras práticas sociais e produções culturais para representar e produzir o sujeito são
reforçadas pelos modos de enunciar o feminino na igreja.
Os estudos acima citados foram produzidos a partir do discurso midiático dos
líderes da Igreja Universal. Nosso alvo, porém, é diferente. Focamos nossa pesquisa nas
narrativas produzidas pelas mulheres em suas histórias de conversão. O discurso massivo
iurdiano revela-se ambíguo para as mulheres: ora as aproxima ao espaço doméstico, ora as
incentiva a participarem do setor econômico. Portanto, as investigações desta dissertação
giram em torno da análise de narrativa e produção de significados que resultam na construção
da identidade feminina da mulher evangélica. O desafio foi identificar qual ou quais
identidades femininas surgem ou são reforçadas por esta mídia neopentecostal: a restrita ao
ambiente doméstico ou a de prosperidade financeira. Nossa hipótese supôs que é dada maior
ênfase ao papel da mulher como a responsável pela felicidade de todos os membros da família
e pela manutenção dos bons costumes, reservando às mulheres um discurso que as aproxima
do espaço doméstico.
O maior obstáculo enfrentado em nossa caminhada foi a falta de comunicação
com os líderes iurdianos. Apesar de inúmeras tentativas, por telefone, via e-mail e até
pessoalmente, o grupo se manteve fechado. Para poder compreender melhor as doutrinas e
pensamentos de Macedo e, consequentemente, de toda sua congregação de bispos e pastores,
além da escuta dos programas radiofônicos, recorremos ao seu blog na internet, à publicação
―Folha Universal‖, ao portal ―Arca Universal‖, alguns livros publicados como ―O perfil da
mulher de Deus‖ (2002), ―Orixás, caboclos & guias. Deuses ou demônios?‖ (1996), de autoria
15
do líder iurdiano, além do recente lançamento ―A Mulher V‖ (2011), de Cristiane Cardoso,
filha de Macedo, além de teses sobre a mídia iurdiana como a da professora e pesquisadora
Penha Rocha (2006).
Para elaborar esta pesquisa, construímos um roteiro que nos levou primeiro a
introduzir uma aproximação entre o sujeito e a religião como uma instituição produtora de
sentido na sociedade. No primeiro capítulo, recordamos, sem aprofundá-los, os estudos
desenvolvidos por Hegel, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber sobre religião.
Apresentamos brevemente como a identidade religiosa se constitui na sociedade moderna
baseada na mídia e na lógica de mercado, especialmente no Brasil, um país miscigenado e
multicultural. Estabelecemos, ainda, as bases identitárias dos neopentecostais apoiadas na
Teologia da Prosperidade e na guerra espiritual entre o bem e o mal.
O resgate histórico da trajetória do movimento pentecostal até sua introdução no
Brasil é realizado no segundo capítulo. Com origem nos Estados Unidos, o pentecostalismo
chega ao Brasil no início do século vinte, movimentando os campos da religião e da mídia
brasileiras e, em poucas décadas, assume posição de destaque no país. Atualmente, os grupos
pentecostais são detentores de grande parte dos veículos de comunicação no Brasil, com
significativos avanços também no exterior. Com base nos estudos de Mariano (2005), Penha
Rocha (2006), Kischinhevsky (2011), além de outros, relatamos como a Igreja Universal do
Reino de Deus, fundada em 09 de julho de 1977, por Edir Macedo, na cidade do Rio de
Janeiro, é hoje uma das principais denominações religiosas com grande impacto no mercado
de comunicação de massa.
No terceiro capítulo, propositalmente, introduzimos no título um questionamento
que provoca o leitor a refletir quais são os papeis da mulher. Retomamos, historicamente, os
papeis de gênero e os contratos culturais, ainda que de maneira resumida, para entender
através das obras de Hall (2006), Paiva (2008), Bourdieu (2010), Stearns (2010) e Álvares
16
González (2011) como as sociedades patriarcais ganham respaldo nas categorias
androcêntricas, expressas por meio da linguagem, do estilo de vida e de comportamento,
provocando efeitos nos corpos e nas mentes dos indivíduos. No contexto da discussão acerca
das identidades, buscamos aproximações entre os campos teóricos dos estudos culturais
bebendo da fonte de autores como Giddens (1991), Canclini (1995), Silva (2000), Kellner
(2001), Bauman (2005) e Hall (2006), e de gênero à luz das obras de Butler (2003), Tuchman
(2004), Garcia (2007), Bittar e Eufrásio (2008), entre outros. Ainda neste capítulo
discorremos sobre a participação da mulher no rádio brasileiro através de um resgate histórico
ilustrado pelos pensamentos de Mata (1987), Hermosila (1997), Santos (2003), Tesser (2010),
Costa (2011), entre outros, e sobre a mulher dentro da Igreja Universal do Reino de Deus, de
acordo com, principalmente, Edir Macedo (2002), Machado (1996), Pimentel (2005) e Melo
(2007).
Dedicamos nossa análise propriamente dita às investigações que compõem o
quarto capítulo desta dissertação de mestrado. Elegemos como corpus desta pesquisa os
depoimentos femininos gravados e editados, exibidos no horário compreendido entre nove
horas e meio-dia, na Rede Aleluia de rádio, em três fases distintas: de 02 a 06 de maio de
2011 (período que antecedeu o Dia das Mães); de 06 a 10 de junho de 2011 (semana anterior
ao Dia dos Namorados) e de 08 a 12 de agosto de 2011 (intervalo que precedeu o Dia dos
Pais).
Entendemos a abertura desses espaços de narrativas eletrônicas de conversão
como uma estratégia iurdiana para conquistar mais fieis através da produção de significado e
sentimento de pertencimento, através da memória emotiva. Portanto, neste estudo não
avançaremos para o campo da recepção. Aprofundaremos nossos estudos de produção de
sentido, analisando os testemunhos femininos seguindo a metodologia de análise de narrativa
proposta pela professora e pesquisadora Cândida Vilares Gancho (2006). Embora dedicada à
17
área de literatura, a obra de Gancho, ―Como analisar narrativas‖ (2006), dá ênfase a uma
designação mais ampla de gêneros narrativos como os quadrinhos, notícias de jornal, histórias
orais, a Bíblia, novelas, conto, crônica e testemunhos. Segundo a autora, toda narrativa se
estrutura sobre cinco elementos, sem os quais ela não existe. São eles: enredo, personagens,
tempo, espaço e narrador. Examinaremos os cinco elementos propostos em interface com
alguns pesquisadores do rádio, como Nunes (1993), Barbosa Filho (2003), Salomão (2003),
Ortiz e Marchamalo (2005), Meditsch (2007), Ferrareto (2007), Kischinhevsky (2009), só
para citar alguns.
Estudos sobre gênero/identidade/mídia/sociedade são bastante relevantes quando
consideramos que a cultura da mídia pode colaborar, ou não, para a construção de sociedades
mais equânimes. Esta pesquisa pretende contribuir com dados relevantes sobre a sociedade
atual na interface entre religião e mídia.
18
1 – O PODER SIGNIFICANTE DA RELIGIÃO
A identificação do indivíduo como um ser social tornou-se uma compreensão
comum entre os diversos campos de conhecimento das ciências humanas. Se, nas sociedades
tradicionais, a identidade religiosa e cultural era articulada como algo natural, nas sociedades
desenvolvidas, evidencia-se como uma demanda reivindicatória, como objeto de apropriação
dos indivíduos. A identidade religiosa do neopentecostalismo pode ser circunscrita nesse
universo.
Na contemporaneidade, novas instituições religiosas, agora subordinadas às
lógicas midiáticas, substituíram os antigos dispositivos de mediação e passaram a fornecer os
modelos identitários de referência. Berger (1985) explica que esta situação pluralista é, acima
de tudo, uma situação de mercado. Nela, as instituições religiosas tornam-se agências de
relações econômicas e as tradições dogmáticas tornam-se bens de consumo, o que explica que
a atividade de doutrina destes grupos seja dominada pela lógica da economia de mercado.
Num Estado que defende e assegura a liberdade religiosa, abrem-se caminhos
tanto para uma independência individual de escolhas quanto para a autonomia institucional de
formação de novos grupos e movimentos. Embora não seja possível controlar as
consequências, essa conjuntura tornou o ―mercado da fé‖4 mais competitivo e as organizações
religiosas mais ativas e criativas na mobilização de seus fieis, com o objetivo de mantê-los.
Surgem, assim, várias igrejas defendendo sua exclusividade como representantes de Deus.
Neste panorama, percebe-se que a hegemonia católica está sendo ameaçada e
dando espaço para a consolidação de uma sociedade religiosa pluralista, inserida num País
com uma ampla diversidade cultural. Apesar do Censo 2010 ainda não ter divulgado os dados
4
Termo que vem sendo utilizado por sociólogos que estudam o pentecostalismo brasileiro.
19
sobre religião no Brasil, o ―Novo Mapa das Religiões‖ (2011) contribui para analisar este
quadro:
A análise da evolução do conjunto de variáveis sócio-econômicas dos Censos
Demográficos de 1991 e 2000, aí incluindo casamentos, fertilidade, ocupação,
renda, moradia, acesso a bens de consumo, entre muitas outras, revelam que
nenhuma mudou tanto quanto a composição religiosa da população brasileira. O
catolicismo que já vinha caindo desde os primeiros registros censitários brasileiros
de 1872, cai a taxas aceleradas nos anos 90. O Censo é tradicionalmente a base de
dados usada nos estudos acerca da religiosidade do brasileiro, mas as estatísticas
referentes ao Censo 2010 ainda não foram disponibilizadas pelo IBGE. (NERI,
2001, p. 7)
De acordo com o ―Novo Mapa das Religiões‖ (2011, p. 8), os evangélicos,
incluindo-se tanto os ramos tradicionais quanto pentecostais, seguem a sua trajetória de
crescimento, passando de 16,2% para 17,9% nos primeiros anos desta década chegando a
20,2% em 2009.
No caso específico do Brasil, o antropólogo Roberto DaMata (1996) atribui que a
miscigenação de culturas e religiões proporciona um trânsito frequente de pessoas por
diversas religiões. Soma-se a isso a globalização e a hibridização de culturas, próprias da
contemporaneidade, caracterizada, de um lado, pela diferença e pela liberdade de escolha e,
de outro, pela afirmação da identidade. Aos sujeitos5 cabem as escolhas de pertença
institucional e a construção de identidade baseada em critérios bastante subjetivos. A fluidez,
termo utilizado por Bauman6, e a fragmentação do sujeito permitem uma volatilidade
inclusive de seus princípios religiosos, o que explica porque algumas pessoas mudam de
religião várias vezes durante suas vidas. Para conquistá-las e mantê-las fieis, as instituições
religiosas passam a utilizar técnicas do marketing e da comunicação.
Ao propagar seus próprios conteúdos, as organizações religiosas elaboram seus
discursos da maneira que melhor convém para a demonstração de produtos
relevantes, cuidadosamente embalados e, por meio do espetáculo midiático,
transmitem uma ideologia vinculada, em sua essência, aos interesses econômicos
das próprias instituições. A cultura religiosa exposta na mídia, dessa forma, tem o
papel de fornecer produtos religiosos capazes de preencher os ―vazios‖, dando
sentido à vida dos que a ela recorrem. (PATRIOTA, 2007, p. 92)
5
Adotamos o conceito Bakhtiniano de sujeito explicado como ―sendo um eu para si, condição de formação da identidade
subjetiva, e um eu para o outro, condição de inserção desta identidade no plano relacional responsável, que lhe dá sentido‖
(apud SOBRAL, 2005, p.22)
6
Ver Modernidade líquida (2000), Amor líquido (2003), Vida líquida (2005), Medo líquido (2006), Tempos líquidos (2006).
20
Não podemos deixar de considerar que a religião tem relevada importância na
formação de um modelo e uma motivação para a ação humana. Recordamos aqui os estudos
desenvolvidos por Hegel (1770 – 1831), Karl Marx (1818 – 1883), Émile Durkheim (1858 –
1917) e Max Weber (1864 – 1820).
Embora seus pensamentos sejam divergentes no que tange as previsões acerca da
trajetória futura das ideias e instituições religiosas, cada um guardava a convicção de que a
análise da modernidade7 não podia deixar de considerar a importância da religião na produção
de sentido para o sujeito.
Para Hegel (apud PLANT, 2000, p. 35), na religião, há um entrelaçamento do
humano com o sobrenatural. Ele a insere no contexto de uma completa explicação da vida e
da existência humanas, e assim fazendo, transcende a doutrina pela filosofia. Para ele, a
religião é um passo indispensável no caminho para o Conhecimento Absoluto, mas ela tem
que ser sobrepujada pela filosofia, numa forma de explicar racionalmente a ligação humana
com o divino.
Para Marx, a crítica da religião é fundamental à crítica da exploração, pois crê que
as concepções sagradas tendem a desresponsabilizar os homens pelas consequências de seus
atos. Segundo Marx, o culto à Divindade seria a principal forma de falsa consciência, ao
evitar que as classes trabalhadoras de cada período histórico reconhecessem seus próprios
interesses na revolta contra a classe proprietária. A religião constituiria um dos elementos,
talvez o mais importante, da ideologia dominante, fazendo com que a ordem social seja algo
natural e inevitável. Na introdução de sua Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, Marx
apontava que:
Religious suffering is, at one and the same time, the expression of real suffering and
a protest against real suffering. Religion is the sigh of the oppressed creature, the
heart of a heartless world, and the soul of soulless conditions. It is the opium of the
people. (MARX, 1977, p. 45)
7
A modernidade costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo que está relacionada ao projeto de mundo
moderno, empreendido em diversos momentos ao longo da Idade Moderna (séculos XV e XVI) e consolidado com a
Revolução Industrial (século XVIII). Está normalmente relacionada com o desenvolvimento do Capitalismo.
21
Já Durkheim demonstra um interesse especial pela religião porque ela articula
rituais e símbolos que têm o efeito de criar afinidades sentimentais entre indivíduos que
constituem a base de classificações e representações coletivas. Em sua obra As formas
elementares de vida religiosa (DURKHEIM, 2003), ele explica que as cerimônias religiosas
cumprem um papel importante ao colocarem a coletividade em movimento para sua
celebração: elas aproximam os indivíduos, multiplicam os contatos entre eles, torna-os mais
íntimos e por isso mesmo, o conteúdo das consciências muda.
Para Weber, as concepções religiosas eram cruciais e originárias das sociedades
humanas, pois o homem, como tal, sempre esteve à procura de sentido e de significado para a
sua existência; não simplesmente de ajustamento emocional, mas de segurança cognitiva ao
enfrentar problemas de sofrimento e morte (Ó DEA, 1969). Weber mostra que a religião, ao
criar respostas aos problemas existenciais da humanidade, influi de maneira mais íntima nas
atitudes práticas dos homens com relação às várias atividades da vida diária (idem). Desta
forma, ele considerava que, ao problema humano do sentido e significação existencial, a
religião, oferecia uma resposta final de maneira eficaz.
Em A ética protestante e o 'espírito' do capitalismo, Weber mostra a preferência
educacional dos católicos por uma formação humanista, enquanto os protestantes preferiam
formação técnica. Para ele, o processo de racionalização religiosa ou de ―desencantamento do
mundo‖ culminou no calvinismo8 do século XVII e em muitos outros movimentos, chamados
por ele de ―seitas‖. Desse momento em diante, procurou-se assegurar a salvação (temporal e
eterna) não por meio de ritos ou por uma fuga mística do universo, mas acreditando-se no
planeta pelo trabalho, pela profissão, pela inserção social. Weber quis provar que as
8
O Calvinismo pressupõe que o poder de Deus tem um alcance total de atividade e resulta da convicção de que Deus trabalha
em todos os domínios da existência. O Calvinista acredita que Deus escolheu um grupo de pessoas e que as restantes vão para
o Inferno. Sendo um bom cristão, trabalhando muito, seguindo sempre todos os princípios bíblicos, o Calvinista prova a si
mesmo que foi um escolhido. Assim, o sucesso no trabalho e a conseqüente riqueza poderá ser um dos sinais de que está
entre os escolhidos de Deus.
22
concepções religiosas são, efetivamente, um determinante da conduta econômica e, em
consequência, uma das causas das transformações econômicas das sociedades (ARON, 1999).
A prosperidade econômica é um dos pilares da teologia dos neopentecostais,
porém não pode ser considerada como uma reedição do Calvinismo Na Teologia da
Prosperidade admite-se que pelo poder do Espírito Santo, e não somente pelo trabalho, o fiel/a
fiel pode prosperar na vida terrena e alcançar a felicidade ainda neste mundo.
1.1 - Teologia da Prosperidade
Teologia da prosperidade é também conhecida como confissão positiva9, palavra
da fé, movimento da fé e evangelho da saúde e da prosperidade. É um movimento religioso
surgido nas primeiras décadas do século XX nos Estados Unidos da América. Sua doutrina
afirma, a partir da interpretação de alguns textos bíblicos, que os que são verdadeiramente
fieis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira, na saúde, amorosa
e outras áreas pessoais.
Em cima de promessas de enriquecimento, a teologia da prosperidade promoveuse no meio evangélico, atraindo principalmente a população de baixa renda. O pastor E.W.
Kenyon (1867-1948), um dos influenciadores da teologia da prosperidade, chamava a atenção
que o crente poderia reivindicar (exigir) de Deus as bençãos e milagres desejados.
Posteriormente, a ideologia de E.W. Kenyon influenciou diretamente o pregador
Kenneth Hagin (1917 - 2003), que é considerado, enfim, o pai da teologia da prosperidade.
Por este pensamento, basta que o crente tenha confiança incondicional em Jesus e a confissão
positiva do que deseja, além de ser fiel nos dízimos e nas ofertas, que Deus, assim, cumprirá
suas promessas.
9
Trazer à existência o que declaramos com nossa boca, uma vez que a fé é uma confissão.
23
Conforme Freston (1993), a Teologia da Prosperidade nasceu nos Estados Unidos,
na década de 1940, mas somente a partir dos anos de 1970 que se constitui em um movimento
doutrinário, o que é confirmado por Paulo Romeiro, na obra Decepcionados com a graça:
esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal (2005). De acordo com essa teologia, o
desejo de Deus é que todos os seus filhos desfrutem de amplos benefícios para uma vida feliz
na terra. Para provar a própria fé e receber as recompensas decorrentes do exercício dessa
virtude teologal10, os fieis são induzidos a realizar sacrifícios ou desafios financeiros. Como o
tamanho da fé se mede pelo maior ou menor risco que assume no ato de doação, quem deseja
demonstrar elevada fé precisa assumir grandes riscos financeiros ou realizar grandes desafios.
Até porque, promete-se, quanto maior o desafio, maior a retribuição divina.
Essa concepção se alia à crença de que só alcança bênçãos quem tem fé. No caso, ter
fé significa crer piamente no que os pastores pregam e agir conforme os ditames
dessa pregação. Para quem não é obreiro nem desempenha funções eclesiásticas,
exercer tal fé significa fundamentalmente dar dízimos e ofertas à igreja, legítima
representante e fiel cumpridora dos desígnios de Deus na terra. É por meio dessa fé
que o crente se torna, nos termos de Edir Macedo, sócio de Deus e, somente nessa
posição privilegiada, pode passar a desfrutar das bênçãos e promessas divinas. (...)
Na condição de dizimistas e ofertantes, os fiéis almejam adquirir e exercer o direito
de cobrar do próprio Deus o pronto cumprimento de Suas promessas bíblicas: vida
saudável, próspera, feliz e vitoriosa. (MARIANO, 2004)
A Teologia da Prosperidade se difundiu entre os evangélicos, principalmente entre
os grupos chamados de neopentecostais compostos por uma corrente doutrinária que ensina
que uma vida medíocre do cristão indica falta de fé. Assim, a marca do cristão cheio de fé e
bem-sucedido é a plena saúde física, emocional e espiritual, além da prosperidade material.
Além disso, seus ensinamentos são baseados na batalha espiritual (confronto espiritual direto
com os demônios), maldições hereditárias, possessão demoníaca (resultando em doenças ou
fracasso) e glossolalia11. Para Guerra (2011), este discurso pode cativar os que vinham ―sem
resposta‖ de suas religiões de origem.
10
Referente à teologia, que tem Deus por principal objeto.
Fenômeno geralmente ligado a situações de fervor religioso, em que o indivíduo crê expressar-se em uma língua por ele
desconhecida e tida por ele como de origem divina.
11
24
O movimento Neopentecostal impulsionou sobremaneira o crescimento da igreja
evangélica no Brasil, destacando-se a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional
da Graça de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, Igreja Renascer em Cristo, Comunidade
Evangélica Sara Nossa Terra, dentre outras ainda. Essas denominações se norteiam por
promover um intenso evangelismo eletrônico, envolver seus membros na participação
política,
organizar
mega-eventos
religiosos,
além
da
utilização
da
ciência
da
neurolinguística12 nas pregações. O Neopentecostalismo é uma vertente do evangelicalismo
que congrega denominações oriundas do pentecostalismo clássico ou mesmo das igrejas
cristãs tradicionais (batistas, metodistas, etc). Em alguns lugares são chamados de
carismáticos, tendo como exceção o Brasil, onde essa nomenclatura é reservada quase
exclusivamente para um movimento dentro da Igreja Católica chamado Renovação
Carismática Católica.
Analisando possíveis pontos de proximidade entre o calvinismo e o
neopentecostalismo, em específico a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Campos
(2008, p.1) conclui que ―a questão da prosperidade não justifica uma aproximação do
calvinismo com a IURD. Esta é uma Igreja que conseguiu assimilar elementos da
religiosidade popular católica, indígena e africana, mesclando com elementos da pósmodernidade e de sua vertente religiosa‖.
A IURD, diferente do calvinismo, prega o livre arbítrio, condena a predestinação
como uma heresia criada por Santo Agostinho e não atrai fiéis com o espírito de
disciplina próprio dos puritanos ingleses de origem calvinista. O carro-chefe da
pregação iurdiana é uma filosofia também presente em outros movimentos religiosos
não-cristãos, como, por exemplo, em religiões orientais do tipo da Seicho-no-ie, ou
nos que pregam a força da mente sobre a organização da vida financeira das pessoas.
Lair Ribeiro seria um bom exemplo laico de praticante e pregador da filosofia da
prosperidade. (CAMPOS, 2008, p.7)
O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Edir Macedo Bezerra,
é de origem católica, com passagem pela umbanda e havia se convertido à Igreja Nova Vida,
12
Ciência que estuda a elaboração cerebral da linguagem. Ocupa-se com o estudo dos mecanismos do cérebro humano que
suportam a compreensão, produção e conhecimento abstrato da língua, seja ela falada, escrita, ou assinalada.
25
na qual ficou por mais de uma década (FRESTON, 1994, p.131; MARIANO, 2005, p.54).
Dissidente desta igreja fundou, em 1977, juntamente com Romildo Soares 13 e Roberto
Augusto Lopes14, a Igreja Universal do Reino do Deus. Porém, disputas pelo poder
ocasionaram a dissolução do triunvirato, ficando a igreja sob o comando exclusivo de Edir
Macedo. Nas décadas seguintes, aliando uma tática agressiva de proselitismo, investimento na
mídia e acirramento da guerra espiritual contra as denominações rivais, a Universal tornou-se
uma das mais conhecidas e influentes igreja do movimento neopentecostal.
Na fundação de uma nova denominação, a Igreja Universal do Reino de Deus
agrega em seus ritos, em seu discurso e organização, elementos das religiões afro-brasileiras e
do catolicismo, formando uma religião híbrida, mas que passa a negar e atacar as religiões
afro-brasileiras, espíritas e católicas, sinalizando uma diferença não só com estas citadas, mas
também com outras denominações evangélicas. O uso desta estratégia contribuiu para a
construção de um repertório simbólico, de crenças e rituais, de fragmentos de outras religiões,
permitindo, assim, identificação por parte de públicos distintos.
De acordo com Woodward (2000), a identidade é marcada por meio de símbolos e
sua construção é tanto simbólica quanto social, como também é marcada pela diferença. E a
diferença é sustentada pela exclusão. Portanto, constroi-se a identidade pela afirmação e,
também, pela negação do que se é. Ela é o resultado dos embates, ambíguos e heterogêneos,
entre os grupos numa sociedade.
13
Romildo Ribeiro Soares, conhecido como Missionário R. R. Soares (nascido em 6 de dezembro de 1947), é um
televangelista brasileiro, cantor, compositor e fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus.
14
Atualmente é pastor evangélico na Igreja Pentecostal Nova Vida.
26
Pode-se observar, portanto, que a igreja optou por unir conhecimentos e aparatos
tecnológicos de ponta nas áreas de propaganda e comunicação a crenças e práticas
religiosas em profunda tensão com saberes, valores e instituições da modernidade.
De um lado, estão as técnicas de marketing, as redes de rádio e TV, a música, os
jornais, as revistas, a literatura, a internet, de outro, os dízimos, os ritos exorcistas, as
curas divinas, as promessas de milagre e de prosperidade material. Em suma: em
busca de eficácia proselitista, a Universal optou por investir maciçamente em
técnicas avançadas de propaganda e no evangelismo eletrônico e por dilatar e
sistematizar a oferta de magia. (MARIANO, 2004)
A mídia enquanto formadora de identidade teria sido a chave para expansão da
IURD. Para que se forme uma homogeneidade identitária é necessário que o grupo se
diferencie dos outros, deste modo a ação de empreendedores é fundamental. Estes são
indivíduos que, velada ou expressamente, expõem seu ponto de vista para a comunidade a que
pertencem sempre sinalizando como devem se comportar aqueles que a ela integram. O ser e
o fazer do neopentecostal materializam uma visão de mundo própria dos fiéis da IURD. É
nesta a relação com o espaço público que a identidade se constroi a cada dia.
Para Mariano (2005), poderia se afirmar que a extraordinária expansão numérica
e institucional da Igreja Universal resulta do desempenho de sua liderança eclesiástica e
administrativa à frente do governo denominacional, do trabalho religioso em período integral
e da eficiência de seu clero, do ativismo militante dos obreiros, do poder de atração de sua
mensagem, do investimento em redes de comunicação e da acentuada eficácia das técnicas e
estratégias de proselitismo eletrônico, da oferta sistemática de serviços mágicos adaptados
aos interesses materiais e ideais de estratos pobres da população, do sincretismo de crenças e
práticas mágico-religiosas em continuidade com a religiosidade popular.
A constatação de Mariano no que se refere ao sincretismo de crenças vai ao
encontro do pensamento de Roberto DaMatta, na obra O que faz o brasil Brasil (1999), que
identifica a capacidade do brasileiro de misturar o aparentemente "oposto", de não adotar
posições fechadas e fronteiras rígidas ao construir suas identidades raciais, religiosas,
27
políticas. É parte constituinte do Brasil, portanto, a ideia de que o sincretismo é um fenômeno
tipicamente brasileiro.
Não é à toa que a expansão da Igreja Universal veio reforçar ainda mais a
interpretação que percebe certa continuidade entre pentecostalismo e religiosidade
popular. Pois, para tirar proveito evangelístico da mentalidade e do simbolismo
religiosos brasileiros, a Universal sincretiza crenças, ritos e práticas das religiões
concorrentes. (MARIANO, 2004, p. 132)
No entanto, esse sincretismo não é suficiente para apagar diferenças
fundamentais entre as visões teológicas das referidas denominações religiosas, pois o
discurso iurdiano valoriza a ruptura com religiosidades do passado.
Um de seus mais recentes e populares experimentos sincréticos é a ―sessão
espiritual de descarrego‖, criada no limiar do novo milênio. Trata-se de um culto dedicado a
expulsar os demônios dos corpos das pessoas.
1.2 - Guerra Espiritual
Segundo os comentários bíblicos contidos no livro de Macedo, Orixás, caboclos
& guias. Deuses ou demônios? (1996), os demônios existem e são criaturas de Deus que, por
desejarem seu lugar, caíram em desgraça e vivem a disputar desde então o trono celeste.
Como espíritos sem corpo, procuram apoderar-se dos corpos dos homens para causar-lhes
doenças, infortúnios e afastá-los de Deus.
Para Macedo, os diabos se apoderam dos homens especialmente quando estes
frequentam terreiros de candomblé, umbanda e espíritas ou realizam práticas de magia (como
trabalhos e despachos); têm, ou tiveram, pessoas da família ou próximas envolvidas com esta
prática (no caso de pessoas da família, mesmo quando estas já morreram, o demônio pode
28
atacar seus parentes; nessa circunstância, diz-se que é um "demônio hereditário"); ou
comeram comidas ofertadas aos orixás .
Para a Igreja Universal do Reino de Deus existem dez sintomas de possessão
demoníaca: dor de cabeça constante, depressão, insônia, doenças que os médicos não
descobrem as causas, nervosismo, desejo de suicídio, desmaios, vícios, medo e visão de
vultos ou audição de vozes. A IURD prega, inclusive, que as pessoas podem ser vítimas de
maldições hereditárias, ou seja, que passa dos ancestrais para as outras gerações.
Para se livrar destes demônios, as pessoas devem passar pelos rituais na igreja. Os
rituais de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus põem em evidência a figura do
Diabo, que é identificado com as entidades das religiões afro-brasileiras. Os cerimoniais
ganham ares de espetáculo, e o objetivo é dobrar até ao chão as forças que buscam escravizar
a vida humana. O exorcismo pontualmente faz refletir sobre a ideia de uma guerra espiritual
entre Deus e o Diabo pelo domínio do mundo, um universo de batalhas espirituais contra
demônios que estão instalados na vida das pessoas e que, acredita-se, têm a força de promover
verdadeiras destruições nas diversas dimensões da existência humana. Os demônios se
ocupam da vida da pessoa por ela viver de forma contrária às exigências bíblicas, por meio de
―despachos‖ promovidos por adversários ou por laços hereditários. Nesse universo, somente o
poder de Deus pode libertar a vida do fiel. É à liderança religiosa que é conferido ou
outorgado o poder de promover a libertação espiritual na vida daqueles que foram dominados
pelas forças malignas do demônio.
Desta maneira, toda conduta imoral ou anormal é atribuída às fontes maléficas do
demônio e toda a culpa é retirada do sujeito. Assim, filhos que se envolvem com drogas ou
maridos que agridem as esposas o fazem por força de uma ação demoníaca em suas vidas. De
acordo com Oro (1996, p. 164) "a luta contra Satanás desvia a atenção das pessoas para o
29
verdadeiro inimigo‖. Já para Kellner (2001, p. 165), ―a ressurgência do oculto na sociedade
contemporânea é um indício de que as pessoas já não controlam a vida cotidiana‖.
Quando as pessoas percebem que já não exercem controle sobre sua própria vida e
são dominadas por forças poderosas que estão fora delas, sentem-se atraídas pelo
ocultismo. Por conseguinte, durante as fases de crise socioeconômica, quando os
indivíduos têm dificuldade de lidar com a realidade social, o oculto se torna uma
modalidade ideológica eficaz que ajuda a explicar as circunstâncias desagradáveis
ou os acontecimentos incompreensíveis com a ajuda de mitologias religiosas ou
sobrenaturais. (idem)
A violência, a desigualdade social, a fome e a doença são, então, resultados dos
espíritos e não consequências da pós-modernidade ou modernidade tardia, da globalização ou
do capitalismo. As estruturas opressoras do próprio sistema social acabam por ser isentadas de
qualquer participação nos problemas sociais, sendo que a Igreja Universal se torna a grande
agência de solução de males da sociedade.
As pessoas passam, então, a confiar em
instituições religiosas para derrotar o mal, e se entregam a rituais, campanhas, peregrinações.
A luta contra o demônio no mundo contemporâneo tem sociologicamente
características distintivas daquela da Idade Moderna. Atualmente não se pode
argumentar que esta demonização seria, como foi no passado, um instrumento dos
socialmente poderosos justificar seu poder sobre os mais fracos. Predominando entre
os oprimidos, a demonização é agora interpretada como uma reação dos pobres
contra a modernidade que não introjetaram e nem foram nela integrados. Esses
pobres não conseguem se integrar nesta modernidade porque já foram de antemão
excluídos por ela quando por exemplo não tiveram acesso a maior educação que os
instrumentalizasse com as categorias racionais e a forma de pensar moderna.
(MARIZ, 1997, p. 4)
Dos púlpitos, este ataque ao demônio se estende aos programas religiosos
transmitidos pela Rede Aleluia de Rádio.
30
2 - RADIOEVANGELISMO NO BRASIL
Influenciado por pastores americanos, o modelo radiofônico empregado nos
programas de rádio dos pentecostais no Brasil é carregado de testemunhos, pregações, orações
e músicas gospel. As emissoras com maior recurso financeiro, principalmente as
neopentecostais, investem em dramatizações interpretadas por radioatores e radioatrizes de
seus departamentos artísticos para sensibilizar e atrair fieis. Esses grupos perceberam no rádio
o mais poderoso meio para recrutar rapidamente elevado número de adeptos. Não só os
pentecostais, como também os católicos. A Rádio Aparecida, localizada na cidade de
Aparecida, em São Paulo, opera em AM e FM e encabeça a Rede Católica de Rádio desde o
dia 8 de setembro de 1951, data de sua inauguração.
Este capítulo procura explicar como o movimento pentecostal, com origem nos
Estados Unidos, chegou ao Brasil, transformando os campos da religião e da mídia brasileiras.
Hoje, os grupos pentecostais são detentores de grande parte dos veículos de comunicação no
Brasil, com significativos avanços também no exterior.
2.1 HERANÇA ESTADUNIDENSE
Considerado um dos fenômenos religiosos mais importantes do século passado, o
pentecostalismo15 teve sua origem no início do século XX, nos Estados Unidos e vem
15
Movimento religioso, herdeiro do protestantismo, que coloca ênfase especial em uma experiência direta e pessoal de Deus.
Os integrantes do movimento pentecostal creem que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, da mesma
forma que em Pentecostes, na narrativa do Novo Testamento. Nessa passagem, o Espírito Santo manifestou-se aos apóstolos
por meio de línguas de fogo e fez com que eles pudessem falar em outros idiomas para serem entendidos pela multidão
heterogênea que os ouvia. O pentecostalismo distingue-se do protestantismo histórico por pregar a crença na
contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, entre os quais se destacam os dons de línguas (glossolalia), cura e
discernimento de espíritos, e por defender a retomada de crenças e práticas do cristianismo primitivo, como a cura de
enfermos, a expulsão de demônios, a concessão divina de bênçãos e a realização de milagres.
31
crescendo em vários continentes do mundo, sobretudo na América Latina, onde a maior parte
dos protestantes16 é formada por brasileiros17.
A partir das duas últimas décadas do século passado, importantes transformações
foram registradas no campo da religião no Brasil. O fenômeno, batizado de trânsito religioso,
se refere à mutação entre as denominações que tem ocorrido na contemporaneidade, gerando
um novo perfil na seara do sagrado, conforme apontam autores como Mariano (2004), Novaes
(2004), Sanchis (2007), Carreiro (2007) e Campos (2008), com base nos últimos
recenseamentos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
A história e as características do pentecostalismo no Brasil têm sido objeto de
estudo de vários pesquisadores. Paul Freston (1994) observa que a história desse movimento
pode ser dividida em três ―ondas‖ de implantação de igrejas. A primeira onda iniciou-se na
década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã no Brasil (1910) e da Assembléia de
Deus (1911).
A Congregação Cristã foi fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964),
que emigrou para os Estados Unidos, converteu-se ao evangelho, tornou-se um dos
fundadores da Igreja Presbiteriana Italiana, em Chicago, lançando-se mais tarde ao iniciante
movimento pentecostal. Francescon chegou ao Brasil em 1910, atendendo a uma profecia que
16
Basicamente são três as ramificações que se apresenta no meio Protestante: tradicional, pentecostal e neopentecostal. As
tradicionais, também chamadas igrejas históricas tiveram origem no início da Reforma Protestante ou bem próximo dela. São
representadas pelas Igrejas: Luterana (fundada por Martinho Lutero, no século XVI), Presbiteriana (fundada por João
Calvino, no século XVI), Anglicana (fundada pelo rei da Inglaterra Henrique VIII, no século XVI, e que, em 2009, recebe do
Papa Bento XVI um convite para que seus seguidores conservadores possam ser admitidos na Igreja Católica), Batista
(fundada por John Smith e Thomas Helwys, no século XVII) e a Metodista (fundada por John Wesley, no século XVIII). As
principais igrejas pentecostais são: Assembléia de Deus; Congregação Cristã no Brasil; Igreja do Evangelho Quadrangular; O
Brasil para Cristo; Deus é Amor. Os neopentecostais são igrejas oriundas do pentecostalismo original ou mesmo das igrejas
tradicionais. Surgiram 60 anos após o movimento pentecostal. No Brasil as principais igrejas que representam os
neopentecostais são: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça, Sara Nossa Terra, Renascer em Cristo.
17
Levantamento mundial do instituto americano World Christian Database indica que o país reúne 24 milhões de seguidores
de igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Assembléia de Deus e a Renascer em Cristo. Folha de São Paulo, 29 janeiro
2007.
32
afirmava ser preciso levar a obra pentecostal aos seus patrícios. Ele iniciou suas atividades
entre imigrantes italianos residentes em São Paulo e Santo Antônio da Platina, no Paraná.
Já a Assembléia de Deus brasileira resultou dos esforços de dois suecos de origem
batista, Gunnar Vingren (1879-1933) e Daniel Berg (1885-1963), que igualmente emigraram
para os Estados Unidos e tomaram conhecimento do movimento pentecostal na cidade de
Chicago. No Brasil, fixaram residência em Belém do Pará, onde passaram a frequentar a
igreja batista, cujo pastor também era de nacionalidade sueca. Alguns meses mais tarde, a
mensagem pentecostal de Vingren e Berg produziu uma ruptura na igreja, surgindo assim o
primeiro grupo da Assembléia de Deus.
Ainda segundo Freston (idem), essas igrejas dominaram o campo pentecostal
durante 40 anos, pois as suas rivais eram poucas e inexpressivas. Das duas pioneiras, a
Congregação Cristã no Brasil, após um período em que ficou mais limitada à comunidade
italiana, sentiu a necessidade de assegurar a sua sobrevivência por meio do trabalho entre os
brasileiros. Após um rápido crescimento inicial, foi ultrapassada pela Assembléia de Deus no
final dos anos 40. Portanto, a Assembléia de Deus foi a que mais se expandiu numérica e
geograficamente, a ponto de ser praticamente a única expressão do protestantismo em alguns
estados do norte.
A segunda onda pentecostal ocorreu na década de 50 e início dos anos 60, quando
surgiram, entre muitos outros, três grandes grupos ainda ligados ao pentecostalismo clássico:
a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para
Cristo (1955) e a Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962). Tais denominações passaram a
atribuir grande ênfase à cura divina e aos milagres.
A Igreja do Evangelho Quadrangular foi fundada nos Estados Unidos pela
evangelista Aimee Semple McPherson (1890-1944) e chegou ao Brasil através do missionário
Harold Williams, um ex-ator de filmes de faroeste, que fundou a primeira igreja em novembro
33
de 1951, em São João da Boa Vista, São Paulo. Em 1953, deu início à Cruzada Nacional de
Evangelização, com o pastor americano Raymond Boatright, velho amigo de Williams como
o principal evangelista. Desde então a Igreja Quadrangular tem crescido constantemente, com
grande abertura à participação feminina no ministério.
Na história das igrejas pentecostais brasileiras é comum a dissidência de pastores
para fundarem a própria igreja. Um dos primeiros pastores da Igreja Quadrangular brasileira
foi um ex-evangelista da Assembléia de Deus chamado Manoel de Mello. Em 1956, ele
desligou-se da Cruzada Nacional de Evangelização, organizando a campanha ―O Brasil Para
Cristo‖, que resultou na criação de uma igreja com o mesmo nome. Em 1979, a Igreja
Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo inaugurou um gigantesco templo em São Paulo,
sendo orador oficial Philip Potter, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), do
qual foi filiado até 1986.
Outra importante denominação da segunda onda pentecostal, a Igreja Deus é
Amor, foi fundada por David Miranda (nascido em 1936), filho de um agricultor do Paraná.
Mudou-se para São Paulo ainda jovem e converteu-se ao pentecostalismo. Em 1962 iniciou a
sua igreja no bairro de Vila Maria. Pouco depois, a igreja transferiu-se para o centro da cidade
e em 1979 foi adquirida a ―sede mundial‖ da Baixada do Glicério (bairro próximo à Liberdade
e à Sé), um dos maiores templos evangélicos do Brasil, com capacidade para dez mil pessoas.
Em janeiro de 2004 foi inaugurada a nova sede mundial chamada de O Templo da Glória de
Deus, na Avenida do Estado, n° 4.568, região central de São Paulo, comportando
aproximadamente 60 mil pessoas.
A terceira onda histórica do pentecostalismo brasileiro começou no final dos anos
70 e ganhou força na década de 80. A Igreja Universal do Reino de Deus (1977), a Igreja
Internacional da Graça de Deus (1980), Igreja Renascer em Cristo e Comunidade Sara Nossa
Terra representam esta etapa. Para Freston (idem), a onda começou e se firmou no Rio de
34
Janeiro economicamente decadente, com sua violência, máfias de jogo e política populista. O
novo pentecostalismo (neopentecostalismo) adaptou-se facilmente à cultura urbana
influenciada pela mídia. ―Uma das características do movimento é o uso inteligente dos meios
de comunicação de massa, nacionalizando um pentecostalismo bem-sucedido nos Estados
Unidos‖ (CAMPOS, 1996, p. 84)
A renovação carismática norte-americana surgida no início dos anos 1960 teve
uma influência significativa no aparecimento do movimento neopentecostal como um todo.
No Brasil, a chamada ―renovação‖ produziu divisões em quase todas as igrejas históricas,
inclusive na Igreja Católica.
Ao lado das manifestações espirituais extraordinárias como glossolalia , curas,
profecias e exorcismo, os carismáticos e neopentecostais brasileiros caracterizam-se por uma
forte ênfase na ―teologia da prosperidade‖ . O pioneiro desse movimento foi o estadunidense
Essek. M Kenyon, enquanto o maior divulgador foi Kenneth Hagin, que influenciou a muitos
pregadores nos Estados Unidos que ganharam reconhecimento mundial, como Kenneth
Copeland, Benny Hinn, David (Paul) Yonggi Cho, entre outros.
Ao longo dos anos essa doutrina foi abraçada principalmente por igrejas
neopentecostais, entre elas, principalmente, a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por
Edir Macedo; a Igreja Internacional da Graça de Deus, do Missionário R.R. Soares (que é
cunhado de Edir Macedo); a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada pelo Apóstolo
Waldemiro Santiago, também dissidente da Igreja Universal; a Igreja Apostólica Renascer em
Cristo, fundada pelo casal Estevam e Sônia Hernandes, além da Igreja Nacional do Senhor
Jesus Cristo, de Valnice Milhomens.
35
2.1.1 Expansão Midiática dos Evangélicos
A escolha do rádio para fazer a primeira comunicação massiva entre a igreja e a
sociedade não foi aleatória. A comunicação radiofônica, ainda hoje, continua encantando o
público e promovendo encontros entre pessoas que nunca sequer se viram, mas que constroem
laços a partir do processo de comunicação radiofônico. ―A ação à distância, sem contato físico
evidente, a invisibilidade, o poder encantatório da palavra e da música são efeitos que
continuam a desafiar o imaginário social‖ (MEDITSCH, 2007, p. 27)
―Desde o seu início, o veículo serviu de expressão às diferentes manifestações
culturais, principalmente através da música, do esporte e da informação. Mas, possibilitou
também outros usos, como o político, e mais recentemente, o religioso‖ (HAUSSEN, 2004, p.
27). Na mídia eletrônica, há um verdadeiro império evangélico país afora. Existem mais de
300 emissoras de rádio evangélicas no Brasil, segundo pesquisa de Storni e Estima (2010, p.
22).
O verbete ―Rádio‖ do Dicionário do Movimento Pentecostal demonstra que as
experiências dos pentecostais com a radiodifusão tiveram início nos Estados Unidos, quando,
desde 1920 os pastores daquele país transmitiam suas mensagens a partir de estações locais.
No Brasil, apesar dos primeiros registros de programas evangélicos no rádio datarem de 1940
(SANTANA, 2005), somente nas duas últimas décadas do século 20 detectou-se um
crescimento acentuado do evangelismo no Brasil.
O rádio no Brasil, por conta de suas dimensões territoriais, cumpre um importante
papel na área de comunicação, e os grupos evangélicos não tardaram a reconhecer as
potencialidades desse meio de comunicação e a partir de 1940 iniciaram suas primeiras
experiências no rádio.
36
A partir de 1940 surgiram no Brasil os primeiros programas evangélicos no rádio e
as denominações pioneiras foram a Igreja Adventista, a primeira a alcançar o rádio a
nível nacional, e algumas pentecostais como a Assembléia de Deus, a Igreja do
Evangelho Quadrangular, O Brasil Para Cristo e a Igreja Deus é Amor. O modelo
desses programas nos primeiros anos era norte-americano, e posteriormente,
passaram a ser idealizados por brasileiros. (SANTANA, 2005, p. 56)
Conforme Mariano (2008) o evangelismo midiático em rádio e tevê constitui o
mais poderoso meio para atrair e recrutar rapidamente elevado número de adeptos. No
entanto, mesmo com a chegada da televisão no Brasil na década de 1950 o rádio continuou
sendo o veículo preferido dos evangélicos para a propagação de suas mensagens. Para o
sociólogo são pelo menos três as razões para a predileção: ―o menor preço de locação ou de
compra das emissoras, seu baixo custo de manutenção e sua elevada audiência entre os
estratos mais pobres da população.‖ (MARIANO, 2008, p. 76). Alexandre Fonseca (1997, p.
76) lembra que ―a televisão é um meio de comunicação que exige maior investimento
financeiro e ainda assim não tem o mesmo poder de inserção das mensagens proselitista que o
rádio‖. Porém, para além das questões econômicas, Guerra (2004, p. 9) reforça que ―a
narrativa radiofônica desperta o imaginário. (...) O rádio desobriga a vista e obriga o ouvido,
empenha a imaginação‖.
A evangelização nos Estados Unidos é feita por meio de literaturas, programas de
tevê, rádio e internet. A comunicação pentecostal brasileira, em especial a do grupo
neopentecostal, apresenta características semelhantes do chamado Televangelismo e
Radioevangelismo norte-americano. Esses grupos fazem uso do rádio e da TV para espalhar
sua mensagem religiosa com o objetivo de aumentar o número de fieis, ou seja, através dos
programas de rádio e TV invocam os ouvintes/telespectadores para frequentar os cultos de
suas igrejas.
37
2.1.1.1 Evangélicos no rádio
Nos Estados Unidos, a utilização do rádio para transmissão religiosa, acompanha a
própria história do veículo. A primeira estação de rádio americana, a PKDK-A iniciou suas
atividades em dois de novembro de 1920, na cidade de Pittsburgh, Pensilvânia. Nos primeiros
meses, já realizava transmissões religiosas da Calvary Episcopal Church. A National
Presbyterian Church, de Washington, criou a primeira emissora ligada totalmente a uma igreja
no ano de 1923. A fundadora da International Church of the Four-Square (no Brasil, Igreja do
Evangelho Quadrangular), Aimee McPherson, utilizava o rádio para sua mensagem
pentecostal, e em 1924 colocou no ar a KFSG, transmitindo diretamente do grande Angelus
Temple, de Los Angeles. Em 1925, a igreja Assembléia de Deus inaugurou a KGTT, em San
Francisco. No final de 1925 havia 600 emissoras em operação nos Estados Unidos, sendo 63
ligadas diretamente às igrejas.
No Brasil, diferentemente dos protestantes americanos, os evangélicos só passaram
a utilizar o rádio 20 anos depois de seu surgimento. Em 23 de setembro de 1943, entra no ar o
programa ―A Voz da Profecia‖, com meia hora de duração, produzido pela Associação Geral
da Igreja Adventista, com sede nos Estados Unidos e transmitido para 17 cidades brasileiras.
Gravado em Los Angeles, o programa era exportado para o Brasil na voz do pastor brasileiro
Roberto Rabello que morava nos Estados Unidos. Atualmente, a Igreja Adventista tem
registrado em nome de suas fundações, 21 emissoras.
Em 1947, o missionário da Igreja Assembléia de Deus, o americano Lawrence
Olson, iniciava em Lavras, Minas Gerais, o primeiro programa da comunidade pentecostal.
Entretanto, as igrejas pentecostais, até os anos 50, não tinham um espaço significativo no
rádio brasileiro, certamente porque se reconhecia no rádio ―um extraordinário instrumento de
evangelização, mas também seu poder na propagação de mensagens e músicas ‗mundanas‘,
38
além da inclinação à substituição das pregações tradicionais realizadas nos templos pelas
pregações no rádio‖ (FONSECA, 2009, p. 2742 – 2743).
O Bispo Robert McAlister, um missionário canadense de tradição Pentecostal,
fundador da Igreja de Nova Vida, no Rio de Janeiro, iniciou, na década de 60, o programa A
Voz da Nova Vida, que convidava os ouvintes para assistir palestras/pregações que ele
próprio realizava no auditório alugado da sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) 18.
Ele é o responsável por introduzir o modelo de programas radiofônicos adotado pelos
neopentecostais na contemporaneidade. Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino
de Deus (IURD), foi um dos primeiros convertidos.
Na década de 1950 os pentecostais intensificaram as transmissões de suas
mensagens através do rádio. Começaram comprando espaços noturnos em emissoras que
estavam em processo de decadência. Através de seus missionários americanos, a Igreja do
Evangelho Quadrangular deu início às pregações radiofônicas de cura divina em 1951.
Entretanto, nesta época, quem investiu pesadamente em radiodifusão foi Manoel de
Mello que em 1955 iniciou o Programa ―A Voz do Brasil Para Cristo‖, na Rádio
América e logo em seguida passou a fazê-lo na Rádio Tupi de São Paulo. O
programa era levado ao ar das 6h30 às 6h45 da manhã. Foi este um dos casos de um
programa radiofônico que precedeu a criação de uma igreja, pois, em 1956, Manoel
de Mello inaugura a igreja O Brasil Para Cristo. (FAJARDO, 2009, p. 3)
Manoel de Melo se manteve com seu programa na rádio Tupi até a sua falência no
início da década de 80.
Para Fajardo (idem) ―a interação do locutor com o ouvinte era para realizar uma
ligação espiritual capaz de produzir milagres vias ondas do rádio, prática esta considerada
normal pelos pregadores pentecostais de cura divina‖.
Fundada por Davi Miranda, em 1961, a Igreja Pentecostal Deus é Amor, chegou a
empregar as mesmas técnicas de Manoel de Mello.
18
O auditório foi utilizado até 1971, quando foi inaugurada a sede da Igreja de Nova Vida.
39
Atualmente a Igreja Deus é Amor é a que mais investe em rádio, isto se dá pelo fato
de toda a renda da igreja ser investida no rádio, e não em compra de terrenos para
erguer templos próprios. Os cultos são realizados em salões alugados pela igreja. A
programação na TV é abominada pela liderança que proíbe seus membros de
adquirir aparelhos e assistir televisão. Um dos seus poucos templos próprios, é a sua
sede mundial na Avenida do Estado, em São Paulo, uma antiga fábrica que foi
adquirida pela igreja. É de lá, onde está instalado o estúdio C, que é gerada a
programação radiofônica que é liderada por Miranda. O programa A Voz da
Libertação está no ar há quase 50 anos, ecoando em 1991, 581 horas diárias através
de 20 emissoras próprias e centenas de emissoras arrendadas para transmitir a
programação via satélite para o Brasil e a América Latina. A igreja transmite em
testemunhos, orações e pregações em português e espanhol. (FAJARDO, 2009, p. 4)
Os programas da Igreja Deus é Amor seguem um mesmo padrão. O programa
segue o estilo dos próprios cultos, onde a maior parte do tempo é ocupada por testemunhos,
pregações e orações, tendo a música pouco espaço na liturgia dos cultos da Deus é Amor.
Fiscais são mantidos pela igreja para acompanhar cada programação regional que
tem que seguir o padrão central: 40% do programa e voltado para testemunhos de
pessoas que receberam alguma cura, sempre frisando que o milagre aconteceu nos
templos da Igreja Deus é Amor, 30% da programação é realizada com orações e
pregações, e os 30% restantes são completados por músicas da gravadora Reviver,
de propriedade da própria igreja. (idem)
Novos tipos de igrejas pentecostais, surgidas a partir da década de 70 foram as que
utilizaram o rádio de forma mais profissional e com olhar empresarial. O maior representante
deste movimento é a Igreja Universal do Reino de Deus. Desde o princípio, Macedo adotou a
evangelização eletrônica como carro-chefe de sua estratégia proselitista. Primeiro adquiriu
popularidade como apresentador de um programa religioso na Rádio Metropolitana, depois
passou a alugar e comprar emissoras de rádio e TV em todo o Brasil e até no exterior. Hoje, é
dono da nona rede de rádio em FM e quarta rede de TV no Brasil, segundo dados do portal
Donos da Mídia19, que reúne dados sobre a radiodifusão brasileira. No entanto, o site só
contabiliza 40 emissoras da Rede Aleluia transmitindo em FM, desprezando totalmente a
transmissão em AM.
Ainda de acordo com o Donos da Mídia, a Rede Novo Tempo de Rádio, ligada à
Igreja Adventista do Sétimo Dia, conta com 100 frequências em AM e FM em todo o país,
ficando na frente da Rede Católica de Rádio (RCR), com 71 afiliadas em AM e duas em FM.
19
Disponível em < http://donosdamidia.com.br> Acesso em 31 de outubro de 2010.
40
Para não perder fieis e concorrer em condições de igualdade entre as variadas denominações
religiosas, a Igreja Renascer em Cristo também investiu no setor de radiodifusão.
Para não perder espaço na corrida por membros, a Igreja Renascer em Cristo, em
1993, arrendou a Rádio Nacional AM e entrou com uma programação voltada para o
público jovem e com transmissão ao vivo direto da sede da igreja no bairro do
Cambuci. A emissora começou a ser chamada de Nacional Gospel. Os programas da
Renascer são levados ao ar, enfatizando a música. Como na igreja, os ritmos vão
desde pagode, até o rock pesado passando por pop e o reggae. (FAJARDO, 2009, p.
6)
Muito embora, as igrejas pentecostais clássicas (Assembléia de Deus e
Congregação Cristã no Brasil) tenham se oposto ao uso do rádio para fins de evangelização, a
partir da década de 60 novas igrejas pentecostais passam a investir de forma maciça no uso do
rádio com o objetivo de propagar sua fé religiosa. Kischinhevsky (2011, p. 11) chama atenção
para a disparidade das informações que dificulta a análise do mercado de radiodifusão sonora,
―reconfigurado nas últimas duas décadas pela possibilidade de formação de redes via satélite e
pelo avanço de grandes grupos de comunicação e organizações religiosas, muitas vezes de
forma articulada com a política partidária local e regional‖.
A identificação destas redes mostra crescente concentração do mercado de
radiodifusão sonora no país, com a hegemonia de grandes grupos de comunicação ligados à
organizações religiosas, com predomínio de denominações pentecostais.
2.1.2 IURD e Mídia
O avanço dos evangélicos não é expressivo apenas nos planos midiático, religioso
e demográfico. Estende-se pelos campos político-partidário, assistencial, editorial e de
produtos religiosos (MARIANO, 2004). Segundo dados da própria Frente Parlamentar
Evangélica, nas eleições de 2010, a bancada cresceu de 46 deputados (9% do total da Casa)
para 68 deputados (13,2% do total), um crescimento de mais de 50%, se comparado ao
tamanho da bancada no mandato anterior. Com grande expressividade na Câmara dos
41
Deputados, os representantes evangélicos têm interferido em votações contra o projeto de lei
complementar 122/06 que criminaliza os atos de homofobia, a união civil entre casais
homossexuais e têm pressionado a Presidente Dilma Rousseff quanto à nomeação da nova
ministra Eleonora Menicucci20, favorável à descriminização do aborto, além de terem
conseguido a suspensão do "kit anti-homofobia", que estava sendo elaborado pelo Ministério
da Educação para distribuição nas escolas. Dos 68 deputados evangélicos eleitos em 2010,
sete são da Igreja Universal do Reino de Deus e vinte da Assembleia de Deus. Alguns
deputados federais eleitos da Igreja Universal do Reino de Deus não são incluídos na lista de
membros da Frente Parlamentar Evangélica por divergirem em alguns pontos, como o aborto,
por exemplo.
O número de parlamentares evangélicos no Brasil vem aumentando nas últimas
eleições graças ao apoio de suas igrejas de referência e seus fieis. A Irmã do Bispo Macedo,
Edna Bezerra Sampaio Fernandes21, apoiada pela IURD e usando o nome de Edna Macedo,
foi eleita deputada estadual em São Paulo em duas legislaturas seguidas (1995-1999 e 19992003). Ela também manteve um programa na Rádio Jornal São Paulo, 960 AM,
intitulado ―Programa da Edna Macedo‖ e direcionado às mulheres. No Congresso, os
parlamentares evangélicos são fieis defensores dos interesses de suas igrejas, tanto na frente
das crenças religiosas quanto na dos bens materiais. Portanto, a relação dos evangélicos e
mídia recai sobre a ênfase da influência dos veículos de comunicação em relação ao
crescimento deste grupo.
De acordo com Freston (1994, p. 135-136) ―os evangélicos têm por princípio
religioso a divulgação de sua fé e isto deve acontecer por quaisquer meios de comunicação‖.
No entanto, o sociólogo frisa que há um interesse especial pelo rádio, como foi verificado por
nossa pesquisa: o rádio está presente em número superior dentre as outras mídias iurdianas,
20
21
A ministra tomou posse na Secretaria de Políticas para as Mulheres em fevereiro de 2011.
Nascida em Rio das Flores (RJ), em primeiro de abril de 1948.
42
como descrito mais adiante nesta pesquisa.
Nossas investigações vão ao encontro dos
julgamentos de Freston (idem) de que o ―rádio domina a mídia evangélica‖ e de Santana
(2005, p. 59) quando afirma que ―é através do rádio que os evangélicos se inserem na
comunicação de massa do Brasil‖. A própria história do rádio iurdiano, desde o princípio,
reforça a importância do veículo como meio de comunicação eficaz para atingir evangélicos e
não-evangélicos através de mensagens proselitistas. Desde o aparecimento da Igreja Universal
do Reino de Deus havia uma preocupação em abrir novos espaços de culto e ter visibilidade
através do rádio.
As prioridades eram abrir novos pontos de pregação e manter a qualquer custo um
programa diário na Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro em horário alugado. Os
programas relatavam milagres e convidavam as pessoas a comparecer aos cultos.
(MARIANO apud CARREIRO, 2007, p. 248)
Na luta contra todos os males, a IURD investe no evangelismo eletrônico,
combatendo doenças, maldições, depressão, insônia, a violência e o medo, ―em nome de
Jesus‖. Martin-Barbero (1990, p. 216-217) aponta que, principalmente nas grandes cidades,
―o medo tomou conta de seus habitantes, fazendo com que todos procurem se proteger da
violência urbana, se aprisionando no interior dos espaços domésticos‖. A tensão e a violência,
cada vez mais, expulsam seus moradores das ruas. Os habitantes dessas cidades procuram,
cada vez mais, a mídia eletrônica para lhes fazer companhia, para amenizar suas angústias e
solidão.
O crescente evangelismo eletrônico pentecostal tem tido significativo impacto no
mercado de comunicação de massa, sobretudo em função das iniciativas empresariais nessa
área por parte da IURD. Com o passar do tempo, inúmeras empresas22 agregadas à IURD
formaram uma verdadeira holding23. Para Penha Rocha (2006, p. 8), ―a extensão dos negócios
de Edir Macedo talvez faça dele o mais poderoso empresário de comunicação no Brasil, já
22
Listadas mais à frente deste capítulo.
Empresa que possui a maioria das ações de outras empresas e que detém o controle de sua administração e políticas
empresariais
23
43
que seu holding tem mais emissoras de TVs próprias que afiliadas – a Rede Globo conta com
o maior número de afiliadas no território nacional‖.
Fundada em 09 de julho de 1977, por Edir Macedo, na cidade do Rio de Janeiro,
em pouco tempo, ramificações deste segmento de evangélicos se instalaram em todos os
estados do país, inclusive no exterior24.
Inaugurando um templo por dia em média, a Universal constitui o grande fenômeno
atual do pentecostalismo nacional. Seu crescimento, sobretudo a partir dos meados
dos anos 80, quando começa a adquirir as primeiras rádios, tem sido impressionante.
[...] Em duas décadas de existência, conseguiu a proeza de estar entre as maiores
igrejas evangélicas do país. (MARIANO, 2005, p. 53 – 54)
Segundo Serra (2005), a expansão da IURD ocorreu rapidamente. No início de sua
história, a distribuição geográfica da IURD concentrava-se mais nas regiões metropolitanas
do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador (JACOB, 2003, p. 42). A IURD
calcula ter oito milhões de fiéis em dez mil templos no país 25.
De acordo com Mariano (2005), o primeiro templo da Igreja Universal surgiu
numa sala onde antes funcionava uma funerária, no bairro da Abolição, zona norte do Rio de
Janeiro.
As organizações de tipo ‗igreja‘ começam como movimento ou ‗seita‘, quando então
predomina nelas um comportamento de recusa das demais organizações ou da
própria sociedade. Depois, progressivamente, devido ao êxito alcançado, elas se
institucionalizam. (CAMPOS, 2006, p. 107-108)
A IURD teve o seu início na forma de um movimento religioso autônomo, como
uma pequena ―seita‖ pentecostal que, tal como dezenas de outras, diariamente surgem nas
grandes cidades brasileiras. Todavia, a sua transformação em uma organização religiosa tipo
―igreja‖ se deu rapidamente.
24
Atualmente são mais de 4.750 templos em 180 países, segundo a Folha Universal. Disponível em
http://www.arcauniversal.com/iurd/historia/mundo.html. Acesso em 30 de junho de 2011.
25
Ver "TV como arma", copyright IstoÉ.
44
Vários fenômenos têm contribuído, em maior ou menor medida, para o crescimento
pentecostal desde meados do século passado. (...) Nos planos social e econômico, a
enorme desigualdade social, a explosão da violência e da criminalidade urbana, as
altas taxas de pobreza, a elevada proporção de lares monoparentais, chefiados por
mulheres pobres, a precariedade da situação de grande parte dos trabalhadores no
mercado de trabalho, sobretudo no informal, favorecem uma religião que tende a
direcionar sua missão de salvação aos sofredores e desprivilegiados. Não é à toa que
o lema proselitista da Igreja Universal é ―Pare de sofrer: Nós temos a solução‖.
(MARIANO, 2010)
De acordo com Mariano (2005), a maioria dos pentecostais apresenta renda e
escolaridade inferiores à média da população brasileira. Grande parte deles recebe até três
salários mínimos e ocupa empregos domésticos, em geral modestos e precários, numa
proporção bastante acima da média nacional. Com este perfil o fiel da IURD encontra na
igreja a salvação de seus problemas, como exposto por Campos (2006, p. 110)
A Igreja Universal encontrou uma classe média baixa às voltas com os riscos do
desemprego ou do subemprego, que vem desde o início dos anos 80, período esse
conhecido como a ―década perdida‖ da história econômica e social do país. Cura,
exorcismo e prosperidade se tornaram assim uma tríade, que viria alicerçar a
reorganização da vida de milhões de brasileiros sob a bandeira da IURD.
No entanto, nossa pesquisa verificou a participação de pessoas de classes sociais
mais elevadas não só nos programas radiofônicos quanto nos cultos do principal templo da
IURD, na cidade de Juiz de Fora26, o que é concordante com a pesquisa da Professora Penha
Rocha (2006) que constatou o interesse da Igreja Universal do Reino de Deus na conquista de
fieis das classes A e B, principalmente através da corrente dos empresários.
Os cultos das segundas feiras, no Templo Maior da Fé, em Del Castilho, e em outros
da Zona Sul, como em Botafogo e Ipanema e Avenida Atlântica, só para citar alguns
exemplos, mostram que os empresários bem sucedidos do Rio de Janeiro participam
das reuniões e discutem sobre negócio e ascensão financeira. Além de serem pessoas
bem sucedidas economicamente, elas têm uma formação profissional e acadêmica
acima da média da população brasileira. (PENHA ROCHA, 2006, p. 141)
A tese defendida pela professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006)
esclarece a dimensão do ―império multinacional‖ construído por Edir Macedo.
26
Localizado na Av. Francisco Bernardino, n° 273, no centro, e também conhecido como ―Catedral da Fé‖ ou ―Templo
Maior‖.
45
Esse sistema de mídia, usado como estratégia para conquistar mais fiéis, abrange:
uma rede de rádios tanto em AM como em FM; emissoras de TV; a maior gravadora
gospel do país [Line Records]; o jornal Folha Universal com distribuição nacional;
(...) o jornal mineiro Hoje em Dia; um portal na Internet [Arca Universal]; uma
editora de livros e de materiais ―cristãos‖, impressos em parque gráfico próprio e
vendidos em livrarias próprias presentes em todas as capitais brasileiras. (idem, p.
15 – 16)
Em matéria publicada no portal Arca Universal27, em comemoração aos 34 anos
da Igreja Universal do Reino de Deus (completados em 09 de julho de 2011), fica reiterada a
expansão deste ―império‖ através das mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais.
Nossa pesquisa apurou que a IURD possui hoje 71 emissoras de rádio (AM e FM),
23 emissoras de TV, entre elas a TV Record, o jornal mineiro Hoje em Dia, a gravadora Line
Records, a Editora Gráfica Universal (responsável pela edição e publicação em nível nacional
da Revista Plenitude, com tiragem nacional de 322.865 exemplares), a Revista Obreiro de Fé
(tiragem de 300 mil exemplares, dirigida a obreiros e obreiras de igrejas em geral), Revista
Mão Amiga (destinada a divulgar o trabalho de assistência social da Igreja realizado pela
Associação Beneficente Cristã – ABC), o jornal Folha Universal (com tiragem semanal de 1,5
milhão de exemplares); a Uni Line (empresa de processamento de dados), a Frame (produtora
de vídeo), a Line Records, maior gravadora gospel do país e o portal na internet Arca
Universal.
E, de acordo com Mariano (2005), a IURD ainda é proprietária dos jornais Tribuna
Universal (Portugal) e Stop Suffering: a new life awaits you!28 (África do Sul), além do Banco
de Crédito Metropolitano, Unimetro Empreendimentos, Cremo Empreendimentos, New Tour
(agência de viagens), Unitec (construtora), Uni Corretora (seguradora), Investholding Limited
(com sede nas Ilhas Cayman), Editora Gráfica Universal Ltda, Ediminas S/A (BH), uma
fábrica de móveis (que faz os bancos da igreja), e ainda seis emissoras de rádio em Portugal,
duas na França, onde ainda possui uma construtora e duas agências de viagens.
27
28
Disponível em <http://www.arcauniversal.com/iurd/noticias/-6303.html> Acesso em 10 de julho de 2011.
Pare de sofrer: uma nova vida espera por você! (tradução livre da autora)
46
Podemos ainda incluir nesta listagem o portal ―R7‖ ou ―R7.com‖, cujo conteúdo
varia entre notícias e entretenimento, e a IURD TV (TV na internet). O portal, pertencente à
Central Record de Comunicação, estreou em 27 de setembro de 2009 e possui conteúdo e
vídeos da Record News, Rede Record, Record Internacional e suas afiliadas (Correio do Povo
e as rádios Cidade, Record, Sociedade da Bahia e Guaíba). São produzidas em média mais de
mil notícias todos os dias, elaboradas por 150 jornalistas e mais de 350 profissionais ao todo,
divididos por equipes presentes em todo o território nacional. O site é um modelo do
concorrente ―G1‖, das Organizações Globo e do ―eBand‖ do Grupo Bandeirantes de
Comunicação. O custo total de despesas para seu lançamento foi de mais de 100 milhões de
reais,
segundo
reportagem
da
Revista
Veja
(2010).
Já
a
―IURD
TV‖
(www.arcauniversal.com/iurdtv), foi criada em 11 de maio de 2011, e é um canal exclusivo
para transmissão de testemunhos de fé e esclarecimentos de dúvidas. Segundo dados do portal
Arca Universal, a IURD TV tem mais de dois milhões de acessos por mês. Contribuem para
incrementar estes números as constantes chamadas radiofônicas para ouvir e assistir os
programas que, desde maio de 2011, passaram a ser apresentados diretamente de São Paulo 29
para toda Rede Aleluia, via satélite e também pela internet.
Entre os impressos, a Igreja conta com diversos veículos de circulação nacional e
internacional. No Brasil, destacam-se o jornal ―Folha Universal‖, fundado em 1992 e que hoje
também pode ser lido na íntegra através do site www.folhauniversal.com.br.
África do Sul, Moçambique, Argentina e Equador são alguns dos países onde a
IURD também possui periódicos. A revista ―Plenitude‖ é uma publicação mensal utilizada
pela Igreja no Brasil e em Portugal. Ela aborda os mais diversos assuntos, comentando fatos
do cotidiano e analisando as consequências no cenário social, sob a ótica da religião. A
―Plenitude‖ brasileira foi lançada em 1979, dois anos após a fundação da Igreja. Em Portugal
o primeiro número saiu em 1994.
29
E depois passaram a ter transmissões diretas de outras capitais e outros países, conforme tabela posterior.
47
Além da Folha Universal outras publicações da Igreja Universal visa atender ao
grande público como, por exemplo, a revista Plenitude, lançada em 1980, que possui
uma tiragem mensal de 250 mil exemplares e a revista Ester, voltada ao público
feminino, com uma tiragem de 120 mil exemplares; a Universal Produções, no
segmento editorial, é dona de um dos parques gráficos mais modernos do Brasil,
com capacidade para rodar milhões de exemplares em poucas horas. (PEREIRA,
2010, p. 558)
Há quatro anos surgiu a revista ―Visão da Fé‖, criada para os auxiliares do bispo
Macedo. A publicação traz informações acerca das viagens missionárias do bispo e do
crescimento da Rede Aleluia. Já os jovens e as crianças contam com publicações específicas
para suas faixas etárias. Entre elas, ―Força Jovem‖ (jovens e adolescentes), ―Folhinha IURD‖
(infantil) e ―Revista Educador‖ (para os educadores que atendem a faixa etária de 4 a 10
anos).
Na literatura, a Igreja Universal também é responsável por diversos livros com
objetivos religiosos claros. Entre os autores estão bispo Edir Macedo, Cristiane Cardoso (filha
de Edir Macedo) e Ester Bezerra (esposa do líder iurdiano). Todas as revistas e livros da
IURD são publicados pela Unipro Editora, uma das maiores editoras do País. É possível
adquirir qualquer publicação através do endereço eletrônico www.arcacenter.com.br.
Segundo a publicação relativa ao 34° aniversário da IURD, o portal Arca
Universal atinge, mensalmente, mais de 20 milhões de page views (acessos). Somente o blog
do bispo Macedo, hospedado no portal, recebe mensalmente mais de sete milhões de
visualizações e atualmente, pode ser lido em três idiomas: português, inglês e espanhol. Neste
espaço, o bispo Edir Macedo estabelece contato com os internautas que mandam mensagens
por meio do blog. Não só ele como todos os outros bispos-apresentadores respondem, no
programa, à algumas das dúvidas e perguntas, sempre enviadas através do blog de Edir
Macedo. Os assuntos tratados são filtrados por ele, de modo que inúmeros outros
questionamentos não recebem atenção direta do bispo30.
30
Nós também fizemos vários contatos através do blog, mas só uma resposta nos foi dada no ar: ―Uma jornalista nos
pergunta sobre o nome do nosso programa. Estamos há quase um mês no ar e ainda não temos um nome para o programa.
Chama-se ‗Programa Sem Nome‘ (muitas risadas)‖ (EDIR MACEDO, em 10/06/2011)
48
A ―Rede Aleluia‖ também transmite os programas apresentados na ―IURD TV‖
pelos bispos Edir Macedo, Romualdo Panceiro, Guaracy Santos e Darlan Ávila. Trata-se de
uma reconfiguração do modelo de rádio da forma que o conhecemos no século 20. ―A
estrutura das rádios interliga-se ao ciberespaço. A web deixou de ser apenas sinônimo de
navegação em sites e, hoje, reconfigura vários meios de comunicação e o cinema. Ela ajuda a
divulgar as emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas‖ (ABDALLA, 2006, p. 38). Por
meio dos programas, as pessoas têm contato e interação com bispos e pastores 24 horas, pelo
endereço http://www.arcauniversal.com/iurdtv.
Não podemos deixar de lembrar, no entanto, que a transmissão dos programas
através da internet não é um fenômeno massivo como o rádio. Trata-se de uma comunicação
pós-massiva, feita de forma dirigida. Portanto, o rádio continua sendo um veículo ágil, que
leva seus ouvintes a lugares inesperados através do áudio e da imaginação. ―Se, em diferentes
ocasiões, a morte do rádio tenha sido anunciada, o rádio mostrou sua capacidade para transpor
obstáculos e conseguir expandir seus domínios‖, como afirma Guerra (2011).
De acordo com Penha Rocha (2006), a área de abrangência das emissoras de rádio
iurdianas cobre 75 por cento do território nacional, o que consolida a Rede Aleluia de Rádio
como um fenômeno da comunicação de massa no Brasil, presente no dial tanto em AM como
em FM. Recorrendo a alguns pesquisadores de rádio, como Sônia Virgínia Moreira, Penha
Rocha credita ao rádio uma função social que os outros veículos de comunicação não têm.
Num país com a dimensão territorial que tem o Brasil, onde milhões de pessoas que
vivem em regiões e de difícil acesso, o rádio é ainda o principal meio de informação
de milhares de brasileiros — aliás, o custo de um aparelho de rádio é bem menor
que o de uma televisão, o que é relevante neste país de muita pobreza. (idem, p. 98)
Recente
pesquisa
do
Professor
Marcelo
Kischinhevsky
denominada
―Concentração e regulação no mercado brasileiro de radiodifusão sonora‖ (2011) constata a
estabilidade da presença do rádio nos lares brasileiros – 87,9% do total. Dados da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
49
(IBGE), de 200931, revela ainda que a presença do rádio nos lares brasileiros ocorre em
índices superiores aos da televisão. Em alguns casos, 100% superiores. A hegemonia do rádio
impera, principalmente, em regiões de difícil acesso.
No Brasil, o rádio continua constituindo um importante veículo de informação e
cultura, com diferenças marcantes entre regiões e estados. (...) Dentro da realidade
brasileira, o rádio ainda representa o único meio de informação em regiões menos
industrializadas e menos habitadas, como o estado da Amazônia, por exemplo.
(MODESTO, GUERRA, 2011, p. 74 - 75)
Não podemos deixar de citar a tecnologia que possibilita ouvir qualquer emissora
FM convencional através de um aparelho móvel como o celular. Em março de 2011, o Brasil
atingiu a marca de 210,5 milhões de assinantes de telefonia celular, segundo dados da
Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ultrapassando a marca de um celular por
habitante. O número de celulares com acesso à internet móvel também continua crescendo:
até março de 2011, foram 24,3 milhões ou cerca de 800 mil a mais que em fevereiro do
mesmo ano. Desse total, 18,1 milhões dos acessos foram feitos pelo celular; os outros 6,2
milhões via modem. Em âmbito nacional e internacional, a Rede Aleluia também é
transmitida pela internet e via satélite.
2.1.2.1 IURD e rádio
Há um consenso que, ainda, é através do rádio que os evangélicos se inserem na
comunicação de massa do Brasil32. Para inúmeros ouvintes, analfabetos ou não, o rádio se
constitui, muitas vezes, no único canal de informação, de conhecimento e de ligação mais
ampla com universos distanciados de sua realidade social. ―Desde o seu início, o veículo
serviu de expressão às diferentes manifestações culturais, principalmente através da música,
do esporte e da informação. Mas, possibilitou também outros usos, como o político, e mais
31
―Análise do perfil sócio-econômico do setor de radiodifusão no Brasil‖, 23 de setembro de 2008, Ibre/FGV (dados
preliminares).
32
Ver Fonseca (1990), Vattimo (1996), Budke (2005), Santana (2005), Revista Veja (2002).
50
recentemente, o religioso‖ (HAUSSEN, 2004, p. 27). O rádio foi o primeiro meio de
comunicação usado pela Igreja Universal do Reino de Deus, quando Edir Macedo alugava e
depois comprava espaços nas programações radiofônicas no final da década de 70. Hoje,
como já foi dito, a Rede Aleluia cobre 75 por cento do território nacional com 71 afiliadas,
excetuando-se os estados da região norte Acre e Roraima. (VER ANEXO 4)
Acompanhando a programação da rede é possível perceber que existe uma
preocupação com o público feminino quando o apresentador (geralmente um pastor ou bispo
da igreja) se refere em especial à mulher, com expressões como ―minha amiga‖. E não é por
acaso: pesquisa33 aponta que, no Brasil, 53 por cento da audiência radiofônica são femininas.
As mulheres também são maioria no segmento evangélico. Os evangélicos
encontram-se entre os grupos religiosos que apresentam as maiores taxas de fieis do
sexo feminino em suas fileiras, 56%. Na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD),
a desproporção entre homens e mulheres mostra-se maior do que aquela encontrada
no conjunto dos evangélicos, o que acaba por dar um rosto feminino à IURD
(MACHADO, 2005, p. 1).
Um dos principais fatores de atração das igrejas que se multiplicam por todo o
continente seria a ênfase concedida às questões domésticas e de interesse imediato das
mulheres pobres que, constituem a maioria dos seus adeptos (MACHADO, 1999, p. 2).
Machado (2005) aponta que a migração de fieis para o segmento pentecostal seria resultante
de uma tendência a ―flexibilização da moral e dos costumes e em uma incessante revisão das
estratégias de recrutamento dos fieis e das formas de atuação das lideranças religiosas‖ (Ibid.,
p.388). O líder iurdiano fala abertamente sobre sua posição favorável ao aborto e ao uso de
métodos contraceptivos (enaltecendo, inclusive, a vasectomia), rechaçando, com veemência, a
violência de gênero.
O discurso propagado por esta mídia estabelece uma relação direta com a
programação diária da igreja, na seguinte ordem34:
33
Fontes: Elvio Mencarini - Diretor Geral da Rádio2. Roberto Mencarini - Profissional de Marketing da Rádio 2. Alfredo
Nastari - Publicitário do Escritório de Comunicação. Instituto de Pesquisas Mídia Dados. Instituto de Pesquisas Ibope.
34
Disponível em <http://www.arcauniversal.com/iurd/reunioes.html> Acesso em 13 de julho de 2011.
51
Segunda-feira: reunião da prosperidade (para superar desemprego, falência e
instabilidade financeira, através da Nação dos 31835);
Terça-feira: sessão do descarrego (foi criada com o objetivo de lutar contra as
forças espirituais do mal);
Quarta-feira: reunião dos filhos de Deus (para o fortalecimento espiritual e
estabelecer uma vida espiritual completa);
Quinta-feira: reunião da Sagrada Família (para alcançar a paz dentro do lar);
Sexta-feira: corrente da libertação (para se libertar de toda atuação maligna);
Sábado: terapia do amor (para uma vida amorosa bem-sucedida);
Domingo: reunião do Encontro com Deus (para conquistar paz interior).
Os temas das dramatizações são levados ao ar de acordo com o que será tratado na
igreja naquele dia ou no dia seguinte, como forma de levar o/a ouvinte à igreja.
O discurso massivo revela-se ambíguo para as mulheres: ora as aproxima ao
espaço doméstico, ora as incentiva a participarem do setor econômico. Portanto, as
investigações desta dissertação giram em torno da análise de narrativa e produção de
significados que resultam na construção da identidade feminina da mulher evangélica, com o
desafio de revelar qual modelo feminino é construído ou reforçado por esta mídia
neopentecostal: a restrita ao ambiente doméstico ou a de prosperidade financeira. Para a
pesquisadora Penha Rocha (2006, p. 77), os parâmetros ideológicos da IURD admitem ―a
independência financeira da mulher, mas não que ela seja dona de um pensamento próprio —
a palavra final sempre deve ser do homem‖. A professora comenta a programação da Rede
Aleluia:
35
Tem por objetivo mostrar a importância de ter uma vida financeira próspera. Nela, 318 pastores ministram sobre
empreendedorismo, investimentos e dinheiro.
52
Transmitindo notícias e entretenimento, em programação de interesse religioso com
conteúdo que vai desde pregações via dial, passando por debates e dicas de
comportamento (cuja intenção é formar uma cultura evangélica, de quem é chamado
de ―homem de Deus‖), até a programas com direcionamentos dogmáticos/políticos,
a Rede Aleluia é um fenômeno da comunicação de massa, tanto no conceito do
grotesco, defendido pelo pesquisador de comunicação Muniz Sodré, quanto no
conceito de retórica aristotélica, em que a palavra é válida apenas se embasada no
logos — aqui, personificada pela Bíblia, no que o cristão define como a palavra de
Deus. (PENHA ROCHA, 2006, p. 96)
Porém, nestes dois anos de pesquisa, a programação da Rede Aleluia mudou
bastante. Sempre em busca de melhores estratégias de arrebanhamento de fieis, os dirigentes
foram experimentando vários formatos de programa até chegar na programação em rede com
transmissão pela internet.
Quem inaugurou este novo formato foi o próprio bispo Edir Macedo. Consciente
de seu poder para atrair ouvintes, colocou-se à frente da nova programação a fim de garantir
audiência. O aspecto de fidelidade da audiência está enraizada na extrema aproximação que o
ouvinte cria com o locutor (no caso aqui, pastor) e a emissora. Mas, aos poucos, ele foi se
retirando da programação e colocando outros bispos e pastores no comando das atrações.
Consequentemente, as afiliadas também perderam suas transmissões locais. Ouvintes já
habituados com os locutores-pastores das respectivas praças passaram a receber uma
programação homogênea. Penha Rocha (2006, p. 97) lembra que ―uma característica de um
meio de comunicação que trabalha em rede é o fator de padronização‖. Mas se antes, segundo
a pesquisadora, ―na Rede Aleluia a diferença era que cada rádio tinha a sua programação e só
as notícias que eram as mesmas‖ (PENHA ROCHA, 2006, 97), com a nova grade os espaços
para os programas locais ficaram reduzidos a cinco horas diárias: de 5h às 8h e de 20h às 22h,
de acordo com a tabela a seguir:
53
Programação REDE ALELUIA/IURD TV Semana de 24/10/2011 à
28/10/2011 (segunda à sexta)36
00:00
02:00
03:00
04:00
05:00
06:00
08:00
09:00
10:00
11:00
12:00
14:00
15:00
16:00
17:00
18:00
19:00
20:00
22:00
23:00
Força Jovem (Pastor Jean)
Finding Answers (Bp Celso Jr./Inglaterra)
Nuestro Tiempo (Pr Valber/Espanha)
6° Sentido (Bp Júlio C. Freitas/Portugal)
Programação IURD
Programação IURD
Retrato de Família (Pastor Nilson/SP)
Nosso Tempo (Bispo Guaracy/SP)
Nosso Tempo (Bispo Jadson/SP)
Palavra Amiga (Bispo Clodomir e Bispo Macedo/SP)
Nosso Tempo (Bispo Romualdo/SP)
Nosso Tempo (Bispo Darlan/RJ)
Escola do Amor (Bispo Renato Cardoso e Cristiane Cardoso/EUA)
Nosso Tempo (Bispo Odivan/GO)
Nosso Tempo (Bispo Márcio/MG)
Nosso Tempo (Bispo Adilson/PE)
Voz do Brasil*
Programação IURD
Obreiros em Foco (Bispo Sérgio Correia)
Santo culto / Reprise 09h30 (Bispo Macedo/SP)
* Na IURD TV, a programação é Nosso Tempo (Bispo Domingos/DF).
Conforme dito anteriormente, no início da programação em rede com transmissão
pela internet, o bispo Edir Macedo se fez muito mais presente, chegando a permanecer oito
horas no ar, sendo quatro ao vivo, de segunda à sexta-feira, e outras quatro gravadas. O
programa, que até então não tinha nome, era reprisado diariamente a partir do meio-dia, ou
seja, assim que a transmissão ao vivo terminava, entrava a versão gravada, na íntegra, sem
edição. Portanto, somados os programas ao vivo e a reprise, um terço da programação era
preenchida pelo bispo Edir Macedo. Com certeza esta foi a estratégia adotada para que as
pessoas aceitassem, sem reclamações mais contundentes, a mudança. Com o passar do tempo,
Edir Macedo foi diminuindo suas participações e aumentando tanto o número de bispos e
pastores quanto o número de programas na grade da Rede Aleluia.
O programa estreou na Rede Aleluia, com transmissão direta da Rádio 99,3 FM,
em São Paulo (SP) para todas as afiliadas. Depois, foram feitos investimentos em estúdios
36
Disponível em http://www.arcauniversal.com/iurdtv/programacao.php Acesso em 24 de outubro de 2011.
54
para transmissões das principais capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo
Horizonte, Goiânia e Recife, além de outras cidades estrangeiras localizadas nos Estados
Unidos, Inglaterra, Espanha e Portugal. Se por um lado, houve investimento em tecnologia,
por outro lado houve economia com funcionários nas praças, bem aos moldes da globalização
capitalista.
É pertinente lembrar que o processo de globalização trouxe profundas
transformações para as sociedades contemporâneas, como a agilidade e a economia
em função do acelerado desenvolvimento tecnológico e multicultural, sobretudo na
área da comunicação, o que vem caracterizar uma nova etapa do capitalismo, das
relações de trabalho e, principalmente, poder. (PENHA ROCHA, 2006, p. 96)
Para conquistar mais fieis e arrecadar recordes em doações, os pastores trabalham
arduamente, inclusive nas emissoras de rádio. É importante observar que a única participação
feminina no quadro dos comunicadores é de Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo. Mesmo
assim, ela se apresenta ao lado do marido, o Bispo Renato Cardoso, que prega nos Estados
Unidos. No entanto, detectamos uma extrema preocupação em atingir especialmente a mulher
em seus discursos radiofônicos. Os testemunhos, depoimentos e dramatizações são quase em
sua totalidade protagonizados por mulheres, conforme veremos no Capítulo 4.
55
3 - PAPEIS DE GÊNERO: QUAIS OS PAPEIS DA MULHER?
―Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida,
removendo pedras e plantando flores‖.
(Cora Coralina)
As transformações sociais ocorridas através dos tempos desencadearam também
profundas mudanças e redefinição do papel da mulher na sociedade moderna. Hoje, elas estão
cada vez mais independentes, conquistam mais espaço no ambiente profissional e participam
das mudanças ocorridas na contemporaneidade. Embora no cenário atual a mulher ocupe
diferentes funções na sociedade moderna, ela ainda aparece menos em cargo de poder e
prestígio e continua a ser vista apenas como a principal responsável pela casa e pela família.
3.1 - Os papeis de gênero e os contratos culturais
Os papeis de gênero e os contratos culturais são partes vitais da história mundial.
Enquanto a humanidade dependeu da caça, da coleta de frutos e grãos, ambos os sexos,
trabalhando separados, contribuíam com os bens econômicos importantes. No entanto, desde
que a humanidade começou a produzir seus alimentos, os papeis para os homens e para as
mulheres começaram a ser diferenciados. De acordo com Stearns (2010), as sociedades
agrícolas permitiram o desenvolvimento de uma nova economia, possibilitando maiores
suprimentos alimentícios e o aproveitamento do trabalho das crianças. Os homens eram
responsáveis pela plantação, já que a maternidade consumia mais tempo às mulheres. Desta
forma, ficou instalada a divisão sexual do trabalho: a atividade de cuidar foi sendo
desenvolvida como uma tarefa da mulher, embora ela também participasse do trabalho do
cultivo e da criação de animais. Instalou-se, desta forma, a dupla jornada feminina e a
sociedade patriarcal.
56
Por volta do quarto milênio a.C. a maior parte das sociedades agrícolas tinha
desenvolvido novas formas de desigualdades entre homens e mulheres, num sistema
geralmente chamado de patriarcal – com o domínio de maridos e pais. As
civilizações aprofundaram o patriarcado e, ao mesmo tempo, definiram seus detalhes
de formas distintas que combinavam com crenças e instituições mais amplas de cada
civilização em particular. Nesse sentido, pondo um selo próprio no patriarcado, cada
civilização uniu as questões de gênero com aspectos de sua estrutura cultural e
institucional. (STEARNS, 2010, p. 27)
―Nas sociedades patriarcais, os homens eram considerados criaturas superiores.
Tinham direitos legais que as mulheres não possuíam‖ (ibid, p. 32). Ou seja, culturalmente, os
sistemas patriarcais enfatizam a ―fragilidade‖ das mulheres e sua ―inferioridade‖, além de
insistirem nos deveres domésticos e restringirem seus direitos. Civilizações patriarcais
permitiram o poder de governos dominados por homens, que levaram à redução do papel
político exercido pelas mulheres. Assim, de uma forma contínua e progressiva, as
desigualdades entre homens e mulheres foram se acentuando e persistem até hoje.
Apesar disso, um ponto é crucial, e foi bem estabelecido durante o período inicial de
civilização da história mundial: os sistemas patriarcais variaram muito, e os sistemas
nunca foram de fato universais. A mesma ênfase na diversidade das instituições
culturais e políticas globais que as civilizações forjaram em seus períodos de
gestação aplicava-se às ideias sobre homens e mulheres e seus papeis. (STEARNS,
2010, p. 27)
Muitas sociedades agrícolas impediram as mulheres de possuírem propriedade de
forma independente. Stearns (Ibid, p. 32) argumenta que ―dada a importância da propriedade
em sociedades agrícolas, os homens sentiam necessidade de controlar a herança de gerações
futuras, e isso começou regulando a sexualidade das esposas‖. Assim, as mulheres passaram a
ser mais severamente punidas que os homens no caso de ―ofensas sexuais, como, por
exemplo, o adultério‖ (Loc. Cit). Desta forma, a sexualidade da mulher foi sendo cada vez
mais submetida aos interesses do homem, tanto no repasse dos bens materiais, através da
herança, como na reprodução da sua linhagem. O lugar atribuído à mulher foi ficando restrito
ao espaço doméstico. A sujeição feminina instalou-se no momento em que o papel masculino
passou a ditar as regras, ou seja, o desempenho da mulher na sociedade ficou sucumbido às
vontades, necessidade e princípios do mundo masculino.
57
Especificamente sobre a dominação do masculino sobre o feminino, Pierre
Bourdieu, em sua obra ―A Dominação Masculina‖ (2010), demonstra que o fato está presente
no processo evolutivo histórico do ser humano. Para o autor, a dominação do homem sobre a
mulher é exercida por meio de uma violência simbólica, compartilhada inconscientemente
entre dominador e dominado, determinado pelos esquemas práticos do habitus37. Na obra do
sociólogo francês, a construção do habitus relaciona-se à capacidade de uma determinada
estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e
agir e é explicada como:
produto de um trabalho social de nominação e de inculcação ao término do qual uma
identidade social instituída por uma dessas ―linhas de demarcação mística‖,
conhecidas e reconhecidas por todos, que o mundo social desenha, inscreve-se em
uma natureza biológica e se torna um habitus, lei social incorporada. (BOURDIEU,
Ibid. p. 61)
Bourdieu (Ibid, p. 45 - 54) vê na dominação masculina o efeito daquilo a que
chama violência simbólica, ou seja, a dominação opera por meio de um processo de
naturalização que transforma o arbitrário cultural em fato natural. Assim, a dominação
masculina exercida sobre as mulheres é apoiada na violência simbólica e estabelecida a partir
do compartilhamento entre quem domina e quem é dominado. Isto não ocorre a partir de
mecanismos conscientemente elaborados pelos homens para exercer sobre as mulheres, mas a
partir de categorias androcêntricas, expressas por meio da linguagem, do estilo de vida e de
comportamento e que provocam efeitos nos corpos e nas mentes dos indivíduos.
Neste sentido, destaca-se o pensamento congruente do filósofo estadunidense
Richard Rorty (apud PAIVA, 2008, p. 19 – 20) que trabalha o pressuposto do que constitui o
senso comum. Para ele, trata-se de uma ideia fixa que imobiliza novos conceitos e propostas
e, portanto, reforça concepções primárias vigentes hegemonicamente na sociedade. O senso
comum recai sobre um vocabulário a que se está acostumado, a uma forma de organização
37
O conceito de habitus foi desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de pôr fim à antinomia
indivíduo/sociedade dentro da sociologia estruturalista (sistema no qual cada um dos elementos só pode ser definido pelas
relações de equivalência ou de oposição que mantém com os demais elementos).
58
habitual. Qualquer movimento na contramão do senso comum causa certa inquietação nas
estruturas hegemônicas da sociedade: um status quo fundamentado no sexismo.
Ao revisitar as sociedades industriais percebe-se claramente como o mundo do
trabalho se dividiu do mundo doméstico, estribado no sexismo. A revolução industrial
incorporou, embora subalternamente, a mão-de-obra fabril da mulher e separou o serviço
doméstico do trabalho remunerado fora do lar. Homens e mulheres trabalhavam nas fábricas
em fases de ampliação da produção. Porém, nos períodos de crise substituía-se o trabalho
masculino pelo trabalho da mulher, porque a mão-de-obra feminina era mais barata.
O combate ao sistema capitalista de produção sempre foi permeado pela questão
de gênero. Assim, nasceu a luta das mulheres por melhores condições na sociedade e o século
XIX foi marcado por movimentos de mulheres reivindicando direitos trabalhistas, igualdade
de jornada de trabalho para homens e mulheres e o direito de voto. (STEARNS, 2010).
A partir do final do século XIX e no século XX, as mulheres começaram a se
organizar, através do movimento feminista, tendo como metas direitos equânimes e uma
vivência humana liberta de padrões opressores baseados em normas de gênero (ÁLVARES
GONZÁLEZ, 2010). O sociólogo Stuart Hall (2006, p. 44-45) ressalta o impacto causado
pelo feminismo não só no campo teórico, mas especialmente, como movimento social que,
segundo ele, caracterizou-se como um dos principais descentramentos dos conceitos de
sujeito iluminista e sociológico. Além disso, o autor afirma que o feminismo é um dos novos
movimentos sociais que politizou a identidade feminina e contribuiu de forma importante para
a contestação do status quo.
Porém, apesar de tantos avanços, ainda existe no mercado de trabalho uma espécie
de "segregação ocupacional" na qual as mulheres estão em posições de menor prestígio. Elas
trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens. Dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE (2010) revelam que comparando a
59
média anual de rendimentos dos homens e das mulheres, verificou-se que as mulheres
ganham em torno de 72,3% do rendimento recebido pelos homens. A diferença era ainda
maior entre os mais escolarizados: as mulheres com 12 anos ou mais de estudo recebiam, em
média, 58% do rendimento dos homens com esse mesmo nível de instrução. Nas outras faixas
de escolaridade, a razão era um pouco mais alta (61%). Os dados demonstram ainda que
enquanto 61,2% das trabalhadoras tinham 11 anos ou mais de estudo, ou seja, pelo menos o
ensino médio completo, para os homens este percentual era de 53,2%. A parcela de mulheres
ocupadas com nível superior completo era de 19,6%, também superior ao dos homens
(14,2%). O censo 2010 também indicou que o trabalho doméstico é um nicho ocupacional
feminino por excelência, no qual 93% dos trabalhadores são mulheres. Um percentual
expressivo de trabalhadoras domésticas (72,8%) não possuía carteira de trabalho assinada; a
média de anos de estudo era de 6,1, e o rendimento médio ficava na ordem de R$395,20.
Estes resultados indicam um aumento contínuo de participação das mulheres no
mercado de trabalho, porém, elas ainda são minoria. Números de 2010 apontam que elas são
42,6% da força de trabalho, embora sejam maioria no Brasil (51%): 97.342.162 mulheres
contra 93.390.532 homens, ou seja, a relação é de 95,9 homens para cada 100 mulheres.
Os relatórios divulgados pelo IBGE provam que ainda no início do século XXI
existe um rebaixamento de valor do ser feminino. A exclusão social da mulher é secular e
diferenciada e não é provocada unicamente pelo setor econômico, embora se admita que ele
escore esse fenômeno. A exclusão reproduz-se nos atos e discursos econômicos, políticos e
sociais, causando consequentes desdobramentos nos campos da cultura, da educação, do
trabalho, das políticas sociais, da etnia, da identidade e de vários outros setores. Diminui-se a
importância da mulher e nulifica-se, simbolicamente, seu papel nos setores econômicos,
políticos e sociais.
60
Ao pesquisar a representação de mulheres candidatas a cargos políticos na mídia,
a professora Raquel Paiva, em seu livro Política: palavra feminina (2008, p. 22), comenta que
―pouco se tem avançado na melhoria das relações de gênero no Brasil‖. Paiva explica que ―o
cruzamento das notícias veiculadas na grande mídia com as impressões e experiências
relatadas pelas entrevistadas revela um quadro que, ainda hoje, aponta para a inferiorização da
mulher na sociedade‖ (Ibid., p. 23).
Em uma de suas pesquisas, Machado (1999) constatou que as mulheres
evangélicas são prepararas para a disputa eleitoral em torno de uma cadeira nas Câmaras de
vereadores de vários municípios do Brasil, porém, não para requerer os direitos das mulheres,
mas para legislar em favor de suas denominações religiosas.
Tudo indica que a ambição política da IURD e a lei eleitoral que tenta atenuar as
disparidades nas candidaturas masculinas e femininas contribuem para a
participação das mulheres nas disputas em torno do poder político. O
comportamento parlamentar das representantes aqui lembradas segue a lógica
corporativista, com as pentecostais lutando no legislativo pela ampliação das
benesses e direitos de sua comunidade. Enfim, naquele espaço não ameaçam a
autoridade e o domínio religiosos, ao contrário trabalham para sua expansão.
(MACHADO, 1999, p. 185)
Este processo de rebaixamento continua colocando o homem como ―ser superior‖,
aguçando as diferenças e contribuindo para a violência simbólica de gênero. Contudo, é
possível admitir-se que, ao longo da história das mulheres, elas conquistaram maior
visibilidade pública, deixando os espaços estritamente privados para ocupar posições de
destaque na sociedade, inclusive nas esferas políticas. Muitas posicionam-se em melhores
condições, se comparadas a períodos passados. Entretanto, não se pode desprezar dados
estatísticos que apontam para as desigualdades entre homens e mulheres em nossa sociedade,
sobretudo quando elas ainda são vítimas de preconceitos e de representações estereotipadas.
61
3.2 – Mídia e identidade feminina
No contexto da discussão acerca das identidades, o campo comunicacional emerge
como um espaço de luta decisivo. Ainda que entendido como espaço de poder, também
veicula, por outro lado, uma linguagem aparentemente transparente, considerada como neutra
e universal, mas que, no entanto, reflete uma ideologia. Segundo Marx e Engels (1977) a
ideologia se caracteriza como ideias das classes dominantes que prevalecem em períodos
históricos. Para Douglas Kellner, em seu livro A cultura da mídia (2001), é preciso lançar um
olhar agudo para a luta existente entre homens e mulheres, feministas e antifeministas, gays e
anti-gays, racistas e anti-racistas, partindo do pressuposto que a mídia é um campo de batalhas
onde as lutas perpassam por textos e cenários.
A cultura da mídia, assim como os discursos políticos, ajuda a estabelecer a
hegemonia e determinados grupos e projetos políticos. Produz representações que
tentam induzir anuência a certas posições políticas, levando os membros da
sociedade a ver certas ideologias ―o mundo como as coisas são‖ (…) A ideologia,
portanto, diferencia e separa grupos em dominantes/dominados e
superiores/inferiores, produzindo hierarquias e classificações que servem aos
interesses das forças de poder. (KELLNER, 2001, p 81-83)
Bittar e Eufrásio (2008) analisam que a noção de identidade se refere às
características da personalidade do gênero humano, que de modo geral pode ser conceituada
como um conjunto de distintivos de um indivíduo que vão se construindo mediante as
transformações histórico-sociais e culturais no âmbito da sociedade. Compõe esta identidade
os valores subjetivos do sujeito, suas características pessoais, étnicas até sua sexualidade. É
possível haver, ainda, uma identidade individual ou coletiva, falsa ou verdadeira, forjada ou
real, presumida ou ideal, perdida ou resgatada. Neste sentido, a importância dos meios de
comunicação de massa como espaços nos quais as representações do que significa ser homem
e do que significa ser mulher é inegável para a construção das identidades.
Definir o que representa ser o verdadeiro perfil identitário da mulher
contemporânea, na verdade, só pode ser compreendido à luz das representações do ser
62
feminino através dos anos, ou seja, é um processo que perpassa por construções históricas ao
longo do tempo do que significa ser mulher.
Repensar teoricamente a "identidade definida" das mulheres como categoria a ser
defendida e emancipada no movimento feminista parece ter sido a principal tarefa de Butler,
na obra Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2003). Referenciada
como uma das mais importantes filósofas feministas da atualidade, Butler aponta dois
aspectos centrais nas teorias atuais acerca das questões de gênero: a) a instabilidade das
relações de gênero, característica inerente e diretamente condicionada a fatores culturais e
sociais; b) a constante interação do gênero com outros fatores determinantes das relações
sociais, ou seja, uma interseção do gênero com as diferenças de raça, classe, etc.. Ao invés de
se apresentar como uma categoria fixa e preestabelecida, como inicialmente foi concebida,
Butler caracteriza o gênero como algo dinâmico e inter-relacional. Para a filósofa, o trinômio
―gênero, linguagem e identidade‖ estaria intimamente atrelado a questões sociais, históricas e
discursivas e não poderia, consequentemente, ser pensado de maneira isolada.
Sabe-se, através dos autores que trabalham com o conceito de identidade, como
Canclini (1995), Kellner (2001), Castells (2000), Silva (2000), Bauman (2005) e Hall (2006),
que ela é construída a partir de algo que se narra. Esses sentidos estão contidos em histórias,
memórias e imagens que servem de referências. Por isso, a discussão em torno da identidade
acaba influenciada por questões sobre: lugar, gênero, raça, história, nacionalidade, orientação
sexual, crença religiosa e etnia.
Na percepção individual ou coletiva da identidade, a cultura exerce um papel
principal para delimitar as diversas personalidades, os padrões de conduta e ainda as
características próprias de cada grupo humano. No passado, as identidades eram fixas,
conservadas, essenciais e permanentes. Era estabelecido que as pessoas que habitavam certo
espaço teriam uma só cultura homogênea e uma só identidade. A cultura se formaria, de
63
acordo com Canclini (1995), em relação a um território e se organizaria em função de
coleções de objetos, textos e rituais. A identidade era espacialmente delimitada, de modo que
a língua, objetos e costumes diferenciariam uns dos outros de forma nítida.
Porém, as monoidentidades foram dissolvidas dando lugar às múltiplas
identidades. Este processo é uma das consequências da globalização, que vem ganhando
espaço nos estudos contemporâneos e dividindo opiniões. "Para o bem ou para o mal, somos
impelidos rumo a uma nova ordem global que ninguém compreende plenamente, mas cujos
efeitos se fazem sentir sobre todos nós: a globalização" (GIDDENS, 1991, p.5).
Segundo Stuart Hall (2006) uma identidade cultural enfatiza aspectos
relacionados a nossa pertença a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas, regionais e/ou
nacionais. No entanto, a modernidade propicia a fragmentação da identidade. Desta forma, de
acordo com o autor, as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e
nacionalidade não mais fornecem localizações sólidas para os indivíduos. O que existe agora
é descentramento, deslocamentos e ausência de referentes fixos ou sólidos para as
identidades. Canclini (1995, p. 129) afirma que ―hoje, a identidade é poliglota, multiétnica,
migrante e feita com elementos mesclados de várias culturas‖.
Se antes as identidades eram fixas, na modernidade elas são forjadas
principalmente pelos meios de comunicação de massa, ou seja, pela cultura da mídia. ―A
cultura veiculada pela mídia modela a vida cotidiana e fornece material com que as pessoas
forjam suas identidades‖ (KELLNER, 2001, p. 9).
Kellner (2001) explica que a cultura da mídia fornece materiais com os quais
muitas pessoas constroem seu senso de classe, etnia, raça, nacionalidade, sexualidade, de
―nós‖ e ―eles‖. A cultura da mídia define valores de bom e mau, positivo e negativo, moral e
imoral. As narrativas e imagens veiculadas fornecem símbolos e mitos que ajudam a
constituir modelos para a maioria das pessoas em várias regiões do mundo. A cultura
64
veiculada pela mídia ajuda a criar identidades pelas quais os indivíduos se inserem nas
sociedades. A mídia fornece modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem
sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente. Para Garcia (2007), a relação da mulher com
os meios de comunicação de massa é amarga.
Uma situação material de vida marcada pela opressão, marginalidade e violência: um
discurso que consagra o papel subalterno que a mulher deve cumprir na sociedade e a
sua condição de suposta inferioridade congênita; uma mídia controlada por grandes
grupos econômicos, com interesses opostos ao da plena emancipação feminina: eia a
tríade que marca o destino de milhões de mulheres na sociedade brasileira de hoje
(GARCIA, 2007, p. 11)
Tuchman (2004) estabeleceu uma agenda de investigação ligada às representações
em si do feminino, das relações de gênero e da dominação patriarcal nos textos midiáticos. A
autora aponta a mídia como aniquiladora simbólica das mulheres ao condenarem,
trivializarem ou ignorarem o feminino. Existe, para a autora, uma incongruência entre o papel
da mídia enquanto espelho dos valores da sociedade e o seu papel enquanto produtora de
símbolos sociais, símbolos esses que não constituem retratos literais da sociedade. Isso
implica que a alteração de valores de uma sociedade nem sempre é refletida pela mídia. No
domínio simbólico, a mulher aparece ligada ao lar, divorciada da produtividade econômica da
esfera pública, discriminada devido à invisibilidade do seu trabalho. ―Os homens são vistos
como estando fora de casa e as mulheres dentro dela, mas, mesmo aí, é feita a trivialização do
papel das mulheres‖ (TUCHMAN, 2004, p. 149). Neste sentido, os meios de comunicação de
massa empenham-se na aniquilação simbólica das mulheres mediante a desconsideração do
trabalho feminino e a banalização das mulheres por meio de seu espaço limitado ao círculo
familiar e ao lar.
Garcia (2007, p. 11) afirma categoricamente que ―nós mulheres estamos perdendo
a batalha contra a cruzada empreendida pelas mídias brasileira e mundial para nos manter no
‗nosso lugar‘‖.
65
De forma absolutamente autoritária e, ao mesmo tempo, quase imperceptível, a
linguagem da mídia deslizou aos poucos para uma distorção total da mulher como ser
genérico, no sentido de reforçar o papel subalterno que a sociedade lhe reserva. O
referencial passou a ser diretamente o objeto ou o animal. Para enxergar uma mulher
parte-se de um produto – seja um automóvel, uma roupa, um par de sapatos ou um
creme para a pele – ou da sua comparação a um animal. (GARCIA, 2007, p. 12)
Para Tuchman (2004) as representações da mulher nos meios de comunicação de
massa ignoram, excluem, marginalizam ou banalizam as mulheres e seus interesses. Elas são
concebidas para manter e dar continuidade à divisão sexual de trabalho e às concepções
ortodoxas de feminilidade e masculinidade, mostrando que as mulheres devem desempenhar
papeis de mãe e dona-de-casa numa sociedade patriarcal.
Na atual sociedade midiática, as narrativas massivas consolidam o que se entende
pelo senso comum. ―A mídia naturaliza versões e noções definidoras de padrões e estigmas,
funcionando como a mais eficaz estrutura de corroboração de valores e na função de
agenciadora do senso comum‖ (PAIVA, 2008, p. 19). E, desta forma, perpetua manifestações
estereotipadas sobre as mulheres.
3.2.1 - A Mulher no Rádio
Salvo algumas exceções, no rádio esta realidade não é diferente. Revisitando a
história do veículo, percebemos que o meio sempre foi um reduto masculino. Desde seu
surgimento, o rádio no Brasil tem sido um lugar de fala quase que exclusivamente masculino.
Idealizado por Roquette-Pinto ao lado de Henrique Morize, o início das transmissões
radiofônicas no Brasil foi marcado pelo amadorismo e desconhecimento da linguagem deste
novo meio.
Era dia 20 de abril de 1923 quando a primeira38 emissora de rádio entrou no ar no
Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Em sete de setembro do ano anterior, nas
38
Oficialmente, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi a pioneira, porém a Rádio Clube de Pernambuco tem registros de
início de atividades em 1919, no Recife.
66
comemorações do centenário da Independência do Brasil, havia acontecido aquela que ficou
oficialmente reconhecida como a primeira transmissão radiofônica no País, através do
discurso do então presidente Epitácio Pessoa.
Na década de 20, a sociedade conhecia uma tradição de mídia letrada, restrita a
poucos grupos, pois o índice de analfabetismo era alto no país. O novo veículo apresentou
muitos desafios, inclusive com a linguagem oral. As primeiras emissões não seguiam uma
regularidade. Não havia roteiro e ninguém dominava a linguagem radiofônica. Desde a
diretoria até os locutores, todos os envolvidos eram do sexo masculino.
Em termos institucionais, a ordem hierárquica masculina se repete nas
organizações de empresas de radiodifusão, dando continuidade ao modelo machista
predominante na maioria das empresas e repetindo o discurso hegemônico que coloca as
mulheres em condições inferiores em relação aos homens.
Por mais que já tenham ocorrido consideráveis avanços na representação e presença
direta das mulheres, percebe-se em muitas emissoras que o peso das determinações
econômicas e de classe na construção das relações sociais anula ou minimiza o peso
que tem o modelo machista predominante. (MATA, 1987, p.15)
Efetivamente, as mulheres só passaram a ocupar os microfones das emissoras de
rádio, a partir dos anos 30/40, quando surgiram os concursos de calouros, radioteatro e
radionovelas e despontaram as primeiras cantoras e radioatrizes. Mesmo assim, muitas
começaram adotando pseudônimos, pois na época ―mulher direita não trabalhava em rádio‖.
Porém, o número de mulheres nos departamentos de cantores e radioatores foi sempre inferior
ao de homens.
Nos anos 70, a participação da mulher nos quadros das emissoras diminuiu em
grande escala. Elas tiveram melhores chances na época das radionovelas. Na época,
a demanda era grande, por vozes masculinas e femininas. Quando os candidatos
revelavam seus talentos, as rádios não hesitavam em contratar. Mas isso aconteceu
só até 1964, com o surgimento da TV, as radionovelas foram perdendo a força até
desaparecerem. Restaram poucas mulheres que ainda permaneceram trabalhando em
rádio após o fim das radionovelas. (COSTA, 2011)
Para citar algumas mulheres que se destacaram através do rádio, recordamos
Carmem Miranda, ―A pequena notável‖, uma portuguesa de apenas 20 anos, que encantou as
67
Américas. ―Ela, uma das mais completas daquele tempo, pulou do rádio para o cinema e para
o estrelato de Hollywood, fato que não foi repetido por ninguém no Brasil, pelo menos com
tanto sucesso‖. (SANTOS, 2003)
A jornalista e socióloga Fátima Santos nomeia outras mulheres do rádio no
capítulo 10 do seu livro virtual Mulher:
Também encantaram o país, Silvinha Mello, conhecida como a "Bonequinha de
Feltro"; Dalva de Oliveira, a "Voz Deliciosa"; Araci de Almeida, que ficou
conhecida como "A Dama da Central", porque para viajar, ia sempre de trem. Tinha
medo mortal de avião; Marília Batista; Rose Lee; Roxane; Alzirinha Camargo; Hebe
Camargo e Emilinha Borba. Nas rádios, até ópera permitiu a fama de cantoras
clássicas como Bidu Saião e Christina Maristany. Entre os speakers (locutores),
havia também as mulheres procurando seu espaço como Lúcia Helena, que no ano
de 1936, abria na Rádio Nacional, todos os domingos do meio dia às 21 horas, o
programa "Quando os Ponteiros se Encontram ao Meio-Dia". Na programação,
adaptações radiofônicas de textos teatrais, as famosas novelas do rádio, fizeram
atores anônimos famosos como a intérprete Olga Navarro e atraiam o público com a
mesma atenção hoje dispensada as novelas da televisão. (SANTOS, 2003)
As cantoras do rádio fizeram história como Ellen de Lima, Violeta Cavalcante,
Ademilde Fonseca e Carmélia Alves, além de Dalva de Oliveira, Marlene, Eli Coelho,
Heleninha Costa, Ida de Alencar, Zilah Fonseca, Dircinha Batista, Alda Garrido, Zaíra de
Oliveira entre outras. Elas lançavam modas e moldavam comportamentos, conforme a obra da
jornalista e professora Teresa Cristina Tesser, De passagem pelos nossos estúdios - a
presença feminina no início do Rádio no Rio de Janeiro e São Paulo, 1923-1943 (2010).
Portanto, ressaltamos a importância do rádio enquanto veículo de comunicação de
massa como espaço no qual a representação da identidade feminina é construída por meio de
programas de entretenimento, informativos, debates, etc. No entanto, devemos ficar mais
alertas quanto ao discurso predominante neste meio. Ciente da ideologia como parte de um
sistema de dominação, Kellner (2001) chama atenção para a maneira como os discursos
dominantes tendem a naturalizar as coisas para se justificar. ―Por exemplo, diz-se que as
mulheres por natureza são passivas, domésticas, submissas, etc., e que seu domínio é a esfera
privada, o lar, enquanto a esfera pública é reservado aos homens, supostamente mais ativos,
racionais e dominadores.‖(KELLNER, 2001, p.84)
68
De acordo com Garcia (2007, p. 12) a linguagem da mídia, de forma autoritária
e quase imperceptível, reforça o papel subalterno que a sociedade impõe à mulher e a enxerga
como um produto, a partir de um automóvel ou um par de sapatos. Garcia se debruça,
principalmente, sobre as publicidades.
Como veículo de tradição oral, o rádio sempre teve um papel fundamental na
narração da História, transmitindo notícias, ideologias, modelos e valores e de histórias dos
mais diversos personagens: ilustres ou desconhecidos.
Em um país como o Brasil, com dimensões continentais, repleto de regionalidades
e particularidades capazes de identificar vários naipes de brasileiros em toda sua extensão, a
força do rádio é sua rápida capacidade de interagir com o público. O rádio, assim como outras
mídias massivas, tem importante papel na construção das identidades dos sujeitos
contemporâneos. As narrativas radiofônicas utilizadas abastecem as sociedades com símbolos,
mitos e recursos que ajudam a construir uma cultura comum para a maior parte das pessoas,
em diferentes regiões. Tais narrativas facilitam a criação de identidades pelas quais os
indivíduos se inserem nas sociedades, produzindo uma forma de cultura global.
Numa cultura contemporânea dominada pela mídia, os meios dominantes de
informação e entretenimento são fontes profundas e muitas vezes não percebidas de
pedagogia cultural: contribuem para nos ensinar como nos comportar e o que pensar e
sentir, em que acreditar, o que temer e desejar – e o que não. (KELLNER, 2001, p.
10)
Dentro das programações radiofônicas foram destinados às mulheres ocupações
menos ―importantes‖ na grade de programação como programas de culinária, de fofoca,
simpatias, cuidados com o lar e com os filhos, tratamentos de beleza e moda. Neste sentido, a
identidade feminina é construída por meio de programas de entretenimento, enquanto os
homens ocupam o comando de programas de entrevistas, debates, informativos e jornalismo.
Aos homens e mulheres dos programas são atribuídas funções diferentes. A eles cabe a tarefa
de informar através do radiojornalismo; a elas fica a tarefa de entreter, como se as mulheres
tivessem suas vidas ocupadas por assuntos de menos importância, como trocar receitas, falar
69
da vida de artistas ou saber o que diz o horóscopo do dia. Este é só um exemplo do modelo
reproduzido por emissoras de todo o Brasil.
Este discurso criado, recriado e veiculado pelos programas de rádio tende a
minimizar a importância dos papeis femininos contemporâneos. ―Poderíamos afirmar que
uma série de modos de se comunicar próprios das mulheres não são naturais senão
construções culturais que revelam as marcas de gênero: as mulheres são identificadas como
faladeiras, ‗janeleiras‘, fofoqueiras‖ (MATA, 1997, p. 25).
Em uma mídia controlada por grandes grupos econômicos, com interesses opostos
à plena emancipação feminina e a esmagadora presença masculina nas emissoras de rádio, o
discurso reservado às mulheres vem contaminado por preconceito, deboche e machismo.
Os ditos populares machistas, as piadas que achincalham as loiras, obesas ou
idosas, as letras de música e as representações sociais que encontramos nos discursos
radiofônicos colocam a mulher numa situação de opressão, marginalidade e violência.
A ausência de (ou pouca) participação feminina em debates políticos, assuntos
econômico-financeiros, estratégias e objetivos sociais, questões jurídicas ou opinativas
consagra o papel subalterno que a mulher é induzida a cumprir na sociedade, colocando-a
numa condição de suposta inferioridade. O feminino aparece reduzido à sua expressão mais
simples: consumidoras domésticas (eletrodomésticos, produtos de limpeza, móveis),
sedutoras (moda, cosméticos, o mercado do sexo, do romance, do amor) e reprodutoras
(produtos para maternidade/crianças).
Quando a mulher participa de assuntos atribuídos ao mundo masculino, percebe-se
certa condescendência em relação à mulher profissional, cuja atividade seria apenas um
acréscimo às suas tarefas habituais, nunca uma modificação da divisão ―natural‖ do trabalho.
70
A trajetória que faz do lar e do mundo privado o ―reino‖ da mulher, e que vai desde
a antiguidade até a instauração da sociedade capitalista burguesa, é inseparável
daquela que transforma a linguagem feminina em íntima e doméstica, afetiva e
prática, em contraposição com o discurso racional, público e especulativo, que se diz
do próprio homem. Eliminadas as marcas de gênero, este discurso vai ser assumido
socialmente como a língua que garante toda a comunicação entre sujeitos sociais
autônomos. (MATA, 1997, p. 26)
No geral, as emissoras populares de rádio idealizam uma audiência presumida39
tipicamente feminina no período da manhã, considerado horário nobre do rádio. Para
Hermosila et al. (1997), esta idealização poderia ser explicada muito mais pela questão de
gênero, do que pela questão de sexo.
A maioria [mulheres] se inclina pelos horários matinais, os preferidos pelas
emissoras para interpelar as mulheres ―como tais‖, enquanto o consumo masculino é
um pouco mais elevado durante a tarde e a noite. A audição matinal de rádio por
parte das mulheres não é – como às vezes aparece nos informes de pesquisas – uma
questão de sexo, mas é, realmente, uma questão de gênero. Por que dizemos isso?
Porque o que converte as mulheres em ouvintes matinais é seu papel de donas-decasa. As mulheres que desempenham outras atividades, como o estudo ou o trabalho
remunerado, sintonizam as emissoras em outros horários, à tarde ou à noite e,
inclusive, ouvem rádio no carro quando vão trabalhar. Esta sim é outra constatação
que define o modo feminino de escutar rádio: em todos os países as mulheres o
fazem basicamente enquanto trabalham (mesmo em casa), enquanto os homens
escutam mais em seu momento de descanso. (HERMOSILLA et al., 1997, p. 33-34)
Ao longo dos tempos, tem ficado bastante evidenciado o papel da linguagem
sexista também no rádio no reforço dos estereótipos machistas que contribuem sobremaneira
para o desequilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres, caracterizadas pelo
binômio dominação/subordinação.
Um exemplo positivo de resistência ao modelo hegemônico de programação
radiofônica brasileira foi a criação da Rádio Mulher, na década de 1970, pelo empresário
Roberto Montoro. Com o objetivo de alterar o perfil tradicional do rádio, a Rádio Mulher
implementou um departamento de esportes totalmente formado por mulheres.
39
Termo cunhado pelo Prof. Dr. Alfredo Vizeu.
71
Na década de 70, após muitos anos de total domínio masculino nas transmissões
esportivas de rádio, a Rádio Mulher lançou um projeto ousado, inovador e, até certo
ponto, polêmico. Uma equipe esportiva formada exclusivamente por profissionais
do sexo feminino. As meninas do rádio quebraram uma barreira e enfrentaram o
preconceito de muitos colegas da imprensa ao dividir o espaço nos estádios de
futebol, mostrando qualidade e capacidade para narrar, comentar e reportar tudo o
que acontecia durante a partida. A equipe, formada pela locutora Zuleide Ranieri
Dias, as comentaristas Jurema Iara e Leilá Silveira, a comentarista de arbitragem
Léa Campos (Juíza), as repórteres Germana Garili, Claudete Troiano e Branca
Amaral, as locutoras de plantão Liliam Loy, Siomara Nagi e Terezinha Ribeiro,
além de Tereza Leme (motorista) e Regina Helô Aparecida (sonoplasta), durou
cinco anos e conquistou a audiência com uma linguagem diferente e menos formal
do que a usada em outras emissoras. (BARBIERI; ABREU e MOLINA, 2004)
Outra iniciativa positiva, possivelmente inspirada no exemplo na década de 1970
é a Rádio Mulher mantida pela Associação América Artística e Cultural de Uberaba (Minas
Gerais), fundada em 1998 como apoio à defesa e promoção da mulher. Ela pode ser acessada
pela internet no endereço eletrônico http://www.radiomulher.com.
Citamos também o programa ―Rádio Mulher‖, veiculado diariamente para mais de
50 municípios pernambucanos e mais de 200 mil ouvintes. Além de informar a população
sobre os cuidados com a saúde, o ―Rádio Mulher‖ convoca a audiência para o exercício do
controle social das políticas públicas. São recorrentes, na sua linha editorial, assuntos como
participação política feminina, cidadania, direitos reprodutivos e direitos sexuais e o
enfrentamento da violência doméstica e sexual.
Dessa forma, o programa vem refletindo as tramas sociais que permeiam o acesso
das mulheres ao poder, difundindo suas conquistas e os princípios feministas pelas
ondas sonoras. É de dentro dessa caixa de ressonância das lutas femininas e de
mediação social que falam as líderes de um movimento que vem incentivando as
mulheres a ocupar seu lugar no mundo público. (VELOSO; FARIAS, 2008, p. 1)
Outras iniciativas podem ser tomadas como exemplo no país, como o programa da
Rádio Nacional40 ―Viva Maria‖, que, ao longo dos últimos trinta anos abriu os microfones
para o debate em torno das especificidades femininas, evidenciando os direitos iguais entre
homens e mulheres. Desde sua estréia, em 14 de setembro de 1981, tem sido incansável na
denúncia do machismo, da homofobia, do racismo, da lesbofobia e a violência sexista, com
apresentação da jornalista e radialista Mara Régia. Além do programa ―Mulher em Ação‖,
40
A Rádio Nacional integra a Empresa Brasil de Comunicação, um sistema público de comunicação.
72
realizado por mulheres trabalhadoras rurais da região do Brejo Paraibano, na Rádio Rural de
Guarabira, com alcance em mais de 25 cidades e os programas ―Palavra de Mulher‖ e ―Voz
da Mulher‖, da Rádio Educadora e Rádio Difusora de Goiânia, no Estado de Goiás; o ―Vida
de Mulher‖, da Rádio Comunitária Independência, no interior do Ceará; e o ―Sem Frescura‖
da extinta Rádio Panorama FM, em Juiz de Fora, na zona da mata mineira.
A forma como a mulher é narrada, ou seja, representada na mídia é a base para a
construção das identidades. O conceito de representação e construção de significados é
justamente a investigação que mobiliza a análise de Hall (1997). O rádio, assim como outros
meios de comunicação, difunde, de maneira permanente, múltiplos modelos identitários dos
sujeitos sociais. As mulheres, foco deste estudo, recebem em cada programa numerosos
elementos que, a seu modo, falam do que elas são e, desta maneira, contribuem para a autopercepção de si mesmas. O sociólogo lembra que o reconhecimento do significado faz parte
do senso de nossa própria identidade, através da sensação de pertencimento. Muito além de
existirem em si mesmos, os objetos, pessoas e eventos só adquirem significado mediante uma
representação mental que lhes atribui um determinado sentido sociocultural. Hall ressalta que
a representação só pode ser adequadamente analisada em relação às verdadeiras formas
concretas assumidas pelo significado, no exercício concreto da leitura e interpretação; e tal
requer análise das narrativas, palavras e sons – as formas materiais – onde circula o
significado simbólico. Esta análise será aprofundada no próximo capítulo.
3.3 A MULHER NA IURD
A Igreja Universal do Reino de Deus estabelece um discurso subordinador para a
conduta feminina. Além de discretas, boas mães e amorosas, as mulheres devem ser
obedientes aos maridos. Segundo Edir Macedo (2002, p. 70), ―a Bíblia fala que a mulher deve
73
ser submissa ao marido‖. Macedo explica que a palavra "submissão" não deve ser entendida
em seu sentido usual, em que um ser mais forte que exerce poder sobre outro mais fraco. Para
a IURD, submeter-se significa ter prazer em servir pelo amor, ou seja, a mulher de Deus se
submete ao marido ―(...) movida pelo Espírito do amor que há dentro dela, pois esse amor não
é seu, mas vem de Deus para ser transferido aos demais, especialmente ao seu marido, que é
parte do seu corpo" (MACEDO, 2002, p. 40). A esposa deve auxiliar o marido, concebendo-o,
como explica o bispo, como o cabeça.
Prevalece em nosso universo, sim. Mas não se trata de submissão imposta, é algo
natural. O homem não é nada sem a mulher, e a mulher não é nada sem o homem. A
mulher não deve se submeter à vontade do homem. O homem é que deve colocar-se
como líder numa relação conjugal. Esse entendimento nasce à luz da Bíblia. O
homem é a cabeça, e a mulher o corpo. Imagine um corpo sem cabeça ou vice-versa.
Impossível existir relacionamento. Na direção da Igreja Universal, conhecemos
exemplos desse tipo. Quando a mulher manda no marido, o pastor não cresce. Ela
domina e não dá certo. No meu caso, quem manda dentro de casa é a Ester. Na
igreja, sou eu. Um não pode ultrapassar o limite do outro. Em casa, eu só mando no
meu escritório, e até lá ela mexe de vez em quando. (MACEDO, 2011)
Faz-se necessário reconhecer a presença de um discurso unilateral, produzido
apenas por pastores, ou seja, por homens, que se utilizam da interpretação bíblica para
conquistar credibilidade e legitimar suas verdades. ―Desta maneira, a religião passa a ser a
fonte onde elas buscam orientação para sua conduta, alterando os modelos de relacionamento
nos vários níveis de sua atuação, tanto no âmbito da família como nos grupos em que
participam‖ (MELO, 2007, p. 70). Dentro da IURD, a mulher ocupa, no máximo, a posição de
obreira, uma espécie de auxiliar dos pastores. Porém, para ocupá-lo é exigida da candidata
uma série de cuidados. (ANEXO 1)
Para servir como obreira, a mulher não recebe nenhum tipo de salário ou ajuda
financeira. Pelo contrário, é exigido que ela compre seus próprios uniformes (ANEXO 2) e
sapatos (ANEXO 3). Cada uniforme custa, em média, R$ 300,00 (trezentos Reais) e não é
permitido que se contrate costureiras para manufaturá-los. Eles são adquiridos na própria
igreja e sem emissão de nota fiscal. O trabalho da obreira vai desde receber os fieis na porta
74
do templo até o de faxinar a igreja, reforçando a presença da mulher no universo da esfera
doméstica e da subserviência.
A ação pastoral reafirma as diferenças inerentes ao homem e à mulher,
perpetuando a supremacia masculina no âmbito público e a excelência primordial da mulher
no âmbito privado. ―O estabelecimento das regras advém do domínio masculino, sendo
resultante de valores firmados por tradição cultural, mas também por leitura fundamentalista
da Bíblia‖ (idem).
No que tange às esposas de pastores, seu papel principal é auxiliar o marido.
―Dentro da IURD, as esposas de pastores devem auxiliar seus maridos e orientar as obreiras
com problemas em suas vidas íntimas, comportamento com os maridos e problemas
particulares‖ (MACEDO, 2011).
As esposas de pastor devem dedicar algum tempo às obras da igreja (com
crianças, juventude, etc) e estar dispostas a seguir o marido em inúmeras transferências de
cidades dentro ou fora do Brasil, dependendo do desempenho de seus maridos como pastores
e arrecadadores de dízimos. Na IURD, os pastores com maior potencial de convencimento
ganham cargos mais altos e novas igrejas para arrebanhar fieis.
Tanto as obreiras como as esposas de pastor se organizam através das redes
sociais como Orkut e Facebook, como em blogs, onde contam como são suas vidas.
A esposa de pastor é aquele que fica nos bastidores. Ela é quem organiza tudo a fim
de que seu esposo seja uma bênção de Deus para a Sua Igreja. Enquanto ele gasta
todo o seu tempo e esforço em benefício das pessoas na igreja, ela gasta todo o seu
tempo certificando-se de que ele tem toda a ajuda e apoio em oração para
desempenhar o seu papel. Os sacrifícios da esposa do pastor vão além de quaisquer
sacrifícios físicos ou financeiros. Ela sacrifica suas emoções e seus sentimentos para
que o marido esteja preocupado somente com os problemas do povo. Não é nada
fácil para ela, pois tem que enfrentar a solidão. Ela tem que lidar com seus próprios
problemas sozinha e possuir força suficiente para superá-los com a ajuda do Espírito
Santo. Essa é a razão pela qual ela tem um relacionamento com Deus. (Orkut,
Esposa de Pastor IURD, 2011)
75
A relação das esposas com seus maridos pastores é de inteira subserviência. Muito
embora elas saibam e aceitem esta condição, o fazem porque é uma maneira de alcançarem
status e certo empoderamento em relação às outras mulheres iurdianas.
3.3.1 – O discurso subordinador
O discurso dos pastores da IURD indica que a felicidade feminina está
condicionada à sua realização como esposa, mãe e dona-de-casa. Também cabe à ela a tarefa
de cuidar dos filhos e educá-los corretamente. É inviável pensar em realização pessoal da
mulher fora do âmbito da casa, pois sua perspectiva da vida se faz implícita aos deveres
domésticos. Atitudes contrárias a este molde são encaradas como avessas ao ―ser mulher‖. A
mulher é apontada como a principal responsável pela harmonia no lar, pela felicidade de todos
os membros da família e pela manutenção dos bons costumes. Se algo na família vai mal,
cabe à ela consertar.
Apesar da discriminação detectada nos discurso da Igreja, é possível perceber que
muitas falas estão voltadas também para uma ação feminina consideravelmente
ampla e complexa em sua prática. Nesse sentido, destacam a importância das
atividades evangelísticas, de ações sociais, educacionais e beneficentes. As
pregações descrevem a importância de se cultivar os talentos, salientando a
importância feminina nos trabalhos da Igreja. Expõem seu papel na sociedade e a
importância da sua influência como modelo de mulher. (MELO, 2007, p. 72)
O discurso da IURD dirigido às mulheres implica em um enquadramento de
comportamento que vão desde o modo de falar e vestir, até o sucesso ou insucesso vivenciado
pelo conjunto familiar. Desta maneira, o discurso que é dirigido ao gênero feminino determina
o papel de submissão ao homem, independentemente de qualquer outro papel que a mulher
possa ocupar ou mesmo de seu modo de pensar, destacando um modelo de mulher ideal.
Entender como este discurso subordinador atrai tantas mulheres para a IURD é
uma das questões deste trabalho, pois basta entrar em um templo da Igreja Universal do Reino
de Deus (IURD) ou assistir a um de seus programas de TV ou de rádio para perceber que a
76
presença feminina nos cultos é bastante significativa, chegando mesmo a representar dois
terços do total de fiéis, segundo Campos (1997, p. 439).
Questionamentos a cerca dessa expressiva presença feminina dentro de um espaço
onde as mulheres não têm poder e nem referência, onde a submissão à vontade masculina é a
regra geral e onde a mulher é vista como "porta de entrada" do Mal nortearam a curiosidade
da pesquisadora.
Na realidade, a figura da mulher dentro da IURD é cheia de nuances e
particularidades. O Bispo Edir Macedo faz constantes adaptações em sua doutrina e
tem adotado uma postura menos radical em muitas de suas premissas. Mesmo assim,
no tocante à mulher, a ênfase ainda recai sobre a importância de manter a obediência
ao marido e no vínculo do feminino com o Mal. (PIMENTEL, 2005, p. 23)
Embora reconheça a importância da mulher na vida da comunidade e coloque à
sua disposição uma série de publicações, os artigos e reportagens trazem diversas dicas de
cuidados com a casa, com os filhos e trazem também matérias sobre profissão, saúde e beleza,
sempre valorizando a atitude da ―mulher de Deus‖.
3.3.2 O perfil da mulher de Deus segundo Edir Macedo
Escrito pelo líder da IURD, o livro ―O perfil da mulher de Deus‖, traz uma
referência da mulher cristã e como ela deve se comportar em relação a sua família, sua
profissão e principalmente no seu relacionamento com seu esposo. O autor também relata
sobre as mulheres vencedoras da Bíblia, no caso de Ester, Noemi, Rute, entre outras, que
deixaram suas histórias de sucessos no livro da vida, como também as que deixaram uma
referência negativa, tais como Jezabel, Eva, Dalila e outras. Nele, o bispo traça os dez
mandamentos a serem seguidos pela "mulher de Deus" (MACEDO, 2002, p. 67-71):
77
Primeiro: Ela teme ao Senhor, e esse temor faz com que veja o marido como se
fosse o Senhor Jesus, mesmo que ele seja incrédulo;
Segundo: Ela é sábia; por isso fala pouco ou só mesmo quando necessário. Quando a
pessoa fala muito é porque é egoísta, e sempre quer impor aos outros as suas idéias e
pensamentos;
Terceiro: Ela é discreta. Nunca procura chamar a atenção dos outros para si. O seu
comportamento é contrário ao das mulheres do mundo. A sua fala é suave, os seus
vestidos são discretos. O seu rosto pode ser maquiado, mas não mascarado; o seu
cabelo é penteado, mas não de forma exótica;
Quarto: Ela é virtuosa. A mulher virtuosa é aquela que procura cuidar muito mais do
seu coração do que do seu corpo. Tem como fragrância no seu corpo, a plenitude da
presença do Espírito Santo;
Quinto: Ela é forte. Não se abate diante das dificuldades. Pelo contrário, quando os
momentos difíceis acontecem, surge com a determinação de Deus;
Sexto: Ela é de fé. A mulher de fé é aquela que vê nas dificuldades apenas novas
oportunidades. Como a dona-de-casa, sabe fazer do limão uma boa limonada!
Estimula a fé do seu marido com palavras de ânimo e coragem;
Sétimo: Ela é trabalhadeira. A mulher de Deus nunca é preguiçosa, porque tem
prazer em cuidar dos afazeres de casa de tal forma que, quando seu marido chega a
casa, tudo está em ordem. Ela não espera que os outros façam aquilo que é de sua
competência.
Oitavo: Ela é fiel. A mulher de Deus não é fiel apenas ao seu marido, mas também à
sua igreja. Sua fidelidade se faz transparecer no serviço da obra de Deus;
Nono: Ela é sensata. A mulher de Deus sabe ser cuidadosa com suas palavras,
especialmente quando seu marido é incrédulo. Os lamentos e as reclamações nunca
surtem bom efeito nos ouvidos de quem os ouve. Se for sensata, sabe como
contornar uma situação desagradável, em vez de ficar reclamando todo o tempo;
Décimo: Ela tem bons olhos. A mulher de Deus procura ver as demais pessoas como
Deus as vê. É verdade que há pessoas más e que é difícil vê-las com bons olhos, mas
porque ela é de Deus os seus olhos sempre procuram ver o lado bom daquelas
pessoas. É melhor ser prejudicado com bons olhos do que alcançar vantagens com
maus olhos.
Nesta publicação, Macedo coloca que a mulher tem que ser forte e passiva ao
mesmo tempo, que é responsável pelo bem-estar da família, mas que, em última instância,
obedece ao marido. Na contramão do feminismo, o autor afirma que mulheres que vivenciam
plenamente sua sexualidade e que deixam extravasar sua sensualidade por seus atos ou
postura "o fazem porque têm um espírito demoníaco, chamado pomba-gira" (Ibid., p. 38).
Para o líder iurdiano, a mulher que segue fielmente os passos da mulher de Deus trilha o
caminho das pessoas virtuosas, como algumas mulheres citadas na Bíblia.
Este perfil modela uma mulher que fala pouco, tem firmeza para manter a família
na fé, e é submissa ao marido.
Edir Macedo explica que a palavra "submissão" não deve ser entendida em seu
sentido usual, em que um ser mais forte que exerce poder sobre outro mais fraco.
Para a IURD, submeter-se significa ter prazer em servir pelo amor. Em outras
palavras, a mulher de Deus se submete ao marido movida pelo Espírito do amor que
há dentro dela. (PIMENTEL, 2005, p. 27)
78
Para Macedo qualquer ideia que possa ter um cunho feminista é rejeitada, sendo
considerada como uma proposta antinatural, que vai contra a vontade de Deus. Para fortalecer
suas convicções, Macedo faz uso de passagens bíblicas que endossam suas palavras.
Para a IURD, ―o cuidado com a família é essencial, pois a mulher é considerada o
esteio do lar, apesar de ter pouquíssimo poder fora dele. A esfera da mulher é a esfera
doméstica e, mesmo quando há realização profissional, os assuntos familiares continuam
sendo prioridade‖ (PIMENTEL, 2005, p. 28).
As pesquisadoras Cecília Mariz e Maria das Dores Machado (1996) colocam que,
desta maneira, a mulher vai ter a possibilidade de redescobrir e conquistar seu lugar
justamente cuidando dos assuntos domésticos.
O fato de o pentecostalismo fortalecer a auto-estima das mulheres e estimular o
processo de individuação feminina, não o leva a questionar os papéis tradicionais a
serem desempenhados por essas. A função do homem é ser cabeça da família, no
entanto tanto homem como mulher são subordinados a uma ordem divina mais forte.
Ao se desviar desta ordem, o homem está sendo tomado pelo demônio (...) (MARIZ;
MACHADO, 1996, p. 149)
Para Pimentel (Op. Cit) ―o que parece ocorrer dentro da IURD é que as mulheres
simplesmente não querem contestar o poder masculino, mas sim reconhecer seu direito de
receber as graças do Espírito Santo e praticar os rituais e correntes existentes na igreja‖. Já
para Patrícia Birman (1996), uma forma de se compreender a participação da mulher dentro
da igreja seria considerar que a IURD (assim como outras denominações neopentecostais)
trata basicamente das aflições humanas e que esses assuntos, normalmente, pertencem à
esfera doméstica e está intimamente relacionado ao lugar de mediação atribuído às mulheres.
Neste sentido, é preciso reconhecer, que a mulher assume o papel de mediadora de conflitos
domésticos, trazendo para si a responsabilidade de cooptar a família, desviando o foco de si
mesma para ―algo maior‖ e mais importante que é o bem estar familiar.
Como mediadora, a mulher assume a responsabilidade de estar bem para
proporcionar o bem-estar alheio e restaurar o equilíbrio e a paz em suas vidas. É
possível considerar, então, que a conversão à IURD pode ser um caminho que ajuda
algumas mulheres a se afirmarem, tornando-se mais assertivas. (PIMENTEL, 2005,
p. 33)
79
Para uma doutrina religiosa que prega a não-aceitação do sofrimento e a busca por
uma vida com abundância, a submissão feminina é configurada como um servir através do
amor, ou seja, usa-se de um discurso subordinador, que recebe o manto de um dos
sentimentos mais nobres da humanidade, o amor, para a produção de um sentido, do qual as
mulheres se apropriam, com auto-sacrifício ativo, pela vontade e pelo pensamento. Portanto, a
construção da imagem que Macedo faz da mulher remete à subordinação masculina. Ele
apresenta os homens como representantes de Deus para as mulheres. Este mesmo recurso
simbólico é utilizado ao reconhecer os pastores e bispos como ―homens de Deus‖ e
representantes Dele aqui na terra.
O discurso de Edir Macedo é sempre no sentido de, com recorrência à Bíblia,
lembrar o papel das mulheres como auxiliar. Ele se utiliza dos textos bíblicos para endossar a
posição de superioridade masculina. E se o que está na Bíblia é o sagrado; é intocável e
imaculável na visão dos líderes iurdianos.
80
4 - ENUNCIAÇÕES DO FEMININO NO RÁDIO IURDIANO
Uma história é capaz de iluminar nossa relação com os
outros, de fortalecer nossa compaixão, de transformar o
olhar com que contemplamos os nossos semelhantes,
confirmando a crença de que "estamos todos juntos na
tarefa de viver‖. (Ruth Stotter)
Basta ligar o rádio no canal iurdiano para perceber que é dada extrema relevância
à audiência feminina41. Dentro da programação, são exibidos os testemunhos pessoais de
conversão de pessoas que obtiveram sucesso em suas vidas. A produção é feita em São Paulo
e difundida para todo o Brasil, através das 71 emissoras repetidoras, de duas maneiras: em
rede42 ou através dos programas locais. Dos templos religiosos, os dramas individuais ocupam
o dial do rádio e mais recentemente a IURD TV, com transmissão pela internet e através de
todas as emissoras de rádio afiliadas, simultaneamente.
4.1 - TESTEMUNHOS RADIOFÔNICOS
O testemunho é uma prática bastante antiga e largamente conhecida; é aquilo que
se declara a respeito de uma pessoa ou de um fato, com o objetivo de produzir convicção.
Presente no rádio desde seu primórdio por conta de sua tradição oral, o testemunho produz
sentido e um lugar de fala que causa identificação. Religiosamente, ele se limitava aos
púlpitos dentro dos templos, porém, na era da midiatização da religião, o testemunho vem se
consagrando como um importante recurso retórico na tarefa de convencimento de novos fieis.
Os testemunhos apresentados nos programas de rádio iurdianos são concebidos
como partes integrantes de um conjunto de estratégias midiáticas empregadas pela IURD com
41
Nestes dois anos de investigação da Rede Aleluia de Rádio, foi possível confirmar esta afirmação na programação
radiofônica das seguintes cidades: Vitória (ES), Caxias do Sul (RS), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte
(MG), Cabo Frio (RJ), Recife (PE), além de Juiz de Fora (MG) onde esta pesquisa foi realizada.
42
Transmitir em rede significa que todas as afiliadas retransmitem a mesma programação ao mesmo tempo.
81
vistas à sua autopromoção, à sua legitimação junto ao social e, principalmente, à convocação
da audiência para comparecer ao templo religioso, seja ao vivo, gravado e editado ou através
de chamadas43.
As chamadas podem conter: depoimentos de fé e/ou de conversão, temas que serão
trabalhados nos cultos da igreja, campanhas religiosas, ou mesmo dramatizações com base
nos problemas supostamente vivenciados pelo público alvo do programa. São realizadas
montagens com realocamentos de cenas recortadas de filmes, de reportagens, dos cultos, de
clipes musicais de cunho religioso e de dramatizações, sempre acrescidas de musicalidade e
efeitos sonoros.
As chamadas têm função promocional e/ou informativa, ocupam o lugar que seria
destinado à propaganda (caso o programa fosse de cunho comercial). O recurso para manter
as emissoras é feito através de doações de ouvintes e podem ser feitas através de depósito
bancário, boleto ou carnê.
É importante salientar que não há um cuidado em produzir material
exclusivamente radiofônico, portanto, é comum ouvir frases como: ―veja como esta pessoa se
curou‖ ou ―bem aqui em frente deste prédio‖. Ou seja, utiliza-se do material produzido para a
televisão (aberta ou pela internet) para veiculação no rádio.
A captura deste material é feita diretamente dos cultos realizados na IURD através
de câmeras filmadoras e aparelhos de gravação e reprodução de sons e/ou imagens, instaladas
dentro da própria igreja. Nada é feito escondido, pelo contrário, é de conhecimento de todos
que frequentam os cultos, pois podem ser facilmente visualizados.
43
Termo utilizado para representar o anúncio de alguma atração na programação audiovisual.
82
4.1.1 Narrativas femininas
Durante a pesquisa detectamos várias possibilidades para analisar as narrativas
radiofônicas: dramatizações, depoimentos ao vivo e depoimentos gravados. Optamos por
restringir nossa análise entre os testemunhos femininos gravados e posteriormente editados,
primeiro porque eles estão mais presentes nos todos os programas apresentados no rádio
iurdiano, segundo por entendermos que a edição privilegia a angulação pretendida para a
produção de significados ao eleger certos trechos em detrimento de outros. Ortiz e
Marchamalo (2005. p.65), da Universidad Complutense de Madrid, lembram que ―a
montagem radiofônica apresenta, diante do ouvinte, uma série de convenções que permitem
saltos ou omissões no que seria a linha estritamente cronológica da sequência sonora‖. Os
autores consideram que os testemunhos pessoais estão enquadrados como docudramas entre
os formatos de programa radiofônico.
Este formato de programa [o docudrama] encontra-se situado entre o programa
informativo e o programa de ficção. Sua técnica consiste em ambientar fatos reais,
utilizando testemunhos e declarações de pessoas diretamente implicadas e, inclusive,
se possível, a narração do próprio protagonista que reconstrói sua história em
primeira pessoa. (ORTIZ e MARCHAMALO, 2005, p. 123)
Elegemos como corpus desta pesquisa os depoimentos femininos gravados e
editados exibidos no horário compreendido entre nove horas e meio-dia, - considerado horário
nobre44 do rádio -, em três fases distintas: de 02 a 06 de maio de 2011 (período que antecedeu
o Dia das Mães); de 06 a 10 de junho de 2011 (semana anterior ao Dia dos Namorados) e de
08 a 12 de agosto de 2011 (intervalo que precedeu o Dia dos Pais). Na primeira semana de
análise, estava no ar o programa ―Bom dia cidade‖, produzido e irradiado no município
mineiro de Juiz de Fora, de segunda à sexta-feira, com um público predominantemente
feminino45. A apresentação era do pastor regional da IURD, Santos Andrade, transmitido de
44
45
Pesquisas mercadológicas apontam que a audiência do rádio é maior no período matutino (VER Bortolotti, Ceryno, 2008).
Informação disponibilizada pela emissora.
83
dentro da ―Catedral da Fé46‖. Nas outras duas semanas de análise, estava no ar o programa
―Mensagem com o Bispo Macedo‖, produzido e irradiado no município de São Paulo, de
segunda à sexta-feira, com apresentação dos Bispos Macedo e Clodomir. Nas três semanas de
estudo, houve apenas um depoimento masculino gravado e dez femininos (ANEXOS 5 - 14).
O depoimento masculino não integra o corpus desta pesquisa porque nos limitamos aos
testemunhos exclusivamente de mulheres. Entendemos que essas locuções possuem a
propriedade de ―fazer coisas‖ e não apenas de descrever fatos. Em outras palavras, estamos
sugerindo que os testemunhos agem sobre o estado volitivo47 das ouvintes que, dessa forma,
se abrem para experimentar a fórmula de sucesso conforme enunciada nas narrativas
femininas.
É importante destacar que na semana de 02 a 06 de maio de 2011 (período que
antecedeu o Dia das Mães), foi levado ao ar, todos os dias, apenas um depoimento gravado e
editado que relatava o drama de uma mãe e um filho envolvido com drogas. Neste caso,
transcrevemos toda a narração, inclusive a do filho (ANEXO 5). Os testemunhos da semana
de 06 a 10 de junho de 2011 (ANEXOS 6 – 10) e de 08 a 12 de agosto de 2011 (ANEXOS 11
– 15) foram protagonizados por diferentes mulheres.
No rádio iurdiano as mulheres narram suas histórias de conversão, às vezes
antecedidas por apresentações e em outras vezes não. No entanto, as vinhetas de abertura e
encerramento estão sempre presentes, embora não estejam fixadas aos limites comerciais
estabelecidos em trinta ou quinze segundos. Algumas vezes, o fragmento é maior que trinta
segundos, em outras, menor que quinze. Porém, cumprem a função de sinalizar ao ouvinte
que é ―hora de prestar atenção‖.
As técnicas radiofônicas conhecidas para criar um ambiente sonoro são utilizadas
com profissionalismo em quatro elementos-chave: a música, os efeitos sonoros, a palavra e o
46
47
Sede principal da Igreja Universal do Reino de Deus em Juiz de Fora.
Ato pelo qual a vontade toma uma determinação.
84
silêncio. Para Ortiz e Marchamalo (2005, p. 63 – 64) ―música, efeitos e palavra, combinados
de forma correta, são os elementos que contêm os códigos suficientes para que o receptor gere
a imagem concreta que se pretende transmitir‖. E os autores completam afirmando que ―o
silêncio, entendido também como um recurso de montagem ou dramático, marca certos
momentos de tensão‖ (Op. Cit.).
Na realização deste tipo de programa é fundamental o processo de montagem.
Portanto, a gravação original será a base sobre a qual deve ser estruturado o
programa. Convém recordar que a história deve ser apresentada com um tom
coloquial e natural. Isso só se consegue deixando que o protagonista fale,
permitindo-lhe que utilize sua própria linguagem, sem mais restrições que a imposta
pela ordenada narração da história. (...) Finalmente, e por meio da montagem, serão
selecionadas as partes da narração que interessam e lhes será dada uma continuidade
estética e estrutural. (ORTIZ e MARCHAMALO, 2005, p. 124)
Para o professor da Universidade Federal Fluminense, João Batista de Abreu
(2010, p. 1), elementos como palavra, música, efeitos sonoros, silêncio/pausa resumem ―os
mandamentos de um programa radiofônico que deseja estabelecer uma relação mágica de
envolvimento com o ouvinte‖.
Ferrareto (2007) argumenta que, englobando o uso da voz humana, do silêncio, da
música e dos efeitos sonoros, utilizados de maneira isolados ou ajustados entre si de inúmeras
formas, a linguagem radiofônica se especifica das demais. A fala sugere o conteúdo do fato, já
os recursos não verbais remetem o ouvinte a sensorialidade, criando um ambiente, um plano
de fundo sonoro para a informação, essa prática tem a função de transportar o ouvinte ao
cenário da mensagem. Para Meditsch (2007, p. 148) ―a linguagem do rádio vai além da
oralidade e da escrita, absorve características de ambas para as negar‖.
A respeito do caráter expressivo na linguagem radiofônica, a música é a moldura
do programa. Ela cria atmosfera e aumenta o impacto sonoro. Faz com que as palavras soem
verdadeiras ou heroicas, ou urgentes; ajuda a acordar e surpreender o ouvinte. Porém, a
música deve ser usada com parcimônia para não competir com o conteúdo e tirar sua
85
autoridade. Geralmente usa-se de três segundos a quinze segundos de música separando
trechos de voz.
A música utilizada como trilha sonora é empregada para diversas conotações, seja
para situar o ouvinte no ambiente da mensagem, para pontuar ou suscitar um cenário
emocional. Como na linguagem radiofônica há predomínio de uma estrutura linear e contínua,
a música também pode ser aplicada como um fundo sonoro (background), promovendo o
clima necessário para o desenvolvimento da ação.
No caso específico dos programas da Igreja Universal do Reino de Deus, durante
o período analisado, as músicas utilizadas, tanto como trilha quanto para fundo sonoro, são
todas da categoria gospel48, com uma única exceção: a música ―Tente outra vez‖, de Raul
Seixas, interpretada pelo cantor Fábio Júnior (ANEXO 10).
Portanto, as características da linguagem radiofônica, marcada por música, efeitos
sonoros, palavra e silêncio, podem interferir diretamente na efetivação da comunicação.
Segundo Ortiz e Marchamalo (2005, p. 123), ―o realizador pode fazer com que o protagonista
relate seu testemunho como se fosse uma narração normal, ou, então, enriquecer o relato
fazendo com que o protagonista dramatize a história‖. Embora sem aplicar a metodologia da
História Oral49, a captura dos depoimentos valoriza as memórias e recordações das mulheres,
recolhendo informações dos fatos vivenciados por elas.
Huyssen (2000, p. 9) argumenta que ―um dos fenômenos culturais e políticos mais
surpreendentes dos anos recentes é a emergência da memória como uma das preocupações
culturais e políticas centrais das sociedades ocidentais‖. Na obra de Sarlo (2007), Tempo
passado: cultura da memória e guinada subjetiva, a escritora argentina está especialmente
interessada em como se reconstituiu a história através da memória. Beatriz Sarlo analisa a
48
Gospel é uma palavra de origem americana que significa "evangelho" "boa nova". Disponível em
http://www.palavraquefunciona.com/variedades/o-significado-da-palavra-gospel/
49
Metodologia muito usada em pesquisas históricas e sociológicas. Surgida como forma de valorização das memórias e
recordações de indivíduos, é um método de recolhimento de informações através de entrevistas com pessoas que vivenciaram
algum fato ocorrido.
86
profusão de relatos, depoimentos e testemunhos surgidos nos anos de transição democrática,
tanto na Argentina como em outros países latino-americanos, e mostra como o testemunho em
primeira pessoa foi fundamental para a reconstrução do passado. Porém, a autora alerta que
esses atos de memória podem ser apenas uma versão dos fatos.
Nos relatos em primeira pessoa, a memória passa a reivindicar o passado a partir
de lembranças e subjetividades, narrando experiências comuns a mais de uma pessoa e
despertando identificações com o fato narrado. A lembrança torna-se fonte para a restauração
de laços sociais e comunitários. ―Não há testemunho sem experiência, mas tampouco há
experiência sem narração: a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a de
seu imediatismo ou de seu esquecimento a transforma no comunicável, isto é, no comum‖
(SARLO, 2007, p. 25). Sarlo (Op. Cit.) alega que não se pode confiar ingenuamente nos
relatos em primeira pessoa nem na lembrança do vivido, pois o testemunho é sempre
subjetivo, permeado por lembranças dolorosas, ou não, e esquecimentos. Além disso, a
memória é sempre anacrônica. ―Essa discordância dos tempos é inevitável nas narrações
testemunhais. (...) Todo ato de discorrer sobre o passado tem uma dimensão anacrônica‖ (Op.
Cit., p. 57). Não obstante, as narrativas são entremeadas por emoções.
A narração inscreve a experiência numa temporalidade que não é a de seu acontecer
(ameaçado desde seu próprio começo pela passagem do tempo e pelo irrepetível),
mas a de sua lembrança. A narração também funda uma temporalidade, que a cada
repetição e a cada variante torna a se atualizar (SARLO, 2007, p.24).
Para o radialista Cyro César, as narrativas radiofônicas não podem ser dissociadas
da emoção. Para ele, o rádio é a mídia da emoção porque reúne instantaneidade, proximidade
com os ouvintes e porque ―o veículo envolve, seduz e mexe com todos os sentidos‖ (CÉSAR,
2005, p. 9).
87
4.1.1.1 Elementos da narrativa
Gancho (2006, p. 6-7) lembra que ―narrar é uma manifestação que acompanha a
humanidade desde sua origem‖ e que ―muitas são as possibilidades de narrar, oralmente ou
por escrito, em prosa ou em verso, usando imagens ou não‖. Para a professora e pesquisadora
―toda narrativa se estrutura sobre cinco elementos, sem os quais ela não existe‖ (GANCHO,
2006, p. 11). São eles: enredo, personagem, tempo, ambiente e narrador.
Para analisar as narrativas femininas iurdianas, vamos seguir a metodologia
proposta por Cândida Vilares Gancho (Op. Cit.), examinando os cinco elementos propostos
em interface com alguns pesquisadores do rádio.
a) Enredo
Entendemos por enredo ―o conjunto dos fatos de uma história‖, conforme Gancho
(2006, p. 11) nos apresenta. Porém, ―não basta perceber que toda história tem começo, meio e
fim; é preciso compreender o elemento estruturador das partes: o conflito‖ (Op. Cit., p. 12).
Conflito é qualquer componente da história (personagens, fatos, ambiente, idéias,
emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos da história e
prende a atenção de quem a acompanha. Em geral, o conflito se define pela tensão
criada entre o desejo da personagem principal (isto é, sua intenção no enredo) e
alguma força opositora, que pode ser uma outra personagem, o ambiente, ou mesmo
algo do universo psicológico. (GANCHO, 2006, p. 13)
É possível encontrar nas narrativas diversos tipos de conflitos: morais, religiosos,
econômicos, sociais e psicológicos. Em termos de estrutura, segundo Gancho (Op. Cit.), ―o
conflito, geralmente, determina as partes do enredo divididas entre: exposição, complicação,
clímax e desfecho‖ (idem).
A exposição é a introdução ou apresentação. Nela são apresentados os fatos
iniciais, as personagens, às vezes, o tempo e o espaço. A complicação, ou desenvolvimento, é
88
a parte do enredo em que se desenvolve o conflito ou os conflitos, pois, na verdade, é possível
haver mais de um conflito na narrativa. ―Na complicação agem forças auxiliares e opositoras
ao desejo da personagem e que intensificam o conflito‖ (idem). O clímax é o momento
culminante da história, o momento de maior tensão, no qual o conflito chega a seu ponto
máximo. E o desfecho é ―a solução dos conflitos, boa ou má, vale dizer configurando-se num
final feliz ou não‖ (Op. Cit., p. 14).
Nas narrativas iurdianas analisadas, as exposições são uma etapa pouco
trabalhada. Nem sempre as personagens são apresentadas através de seus nomes. É comum
apenas ouvir frases do tipo ―ouça agora o depoimento desta mulher‖ ou ―vamos ouvir a
história de uma mulher que venceu o inimigo e deu a volta por cima‖; e logo após entra a
gravação com a declaração, mas, em momento algum, é dito o nome e a profissão da pessoa
que apresenta seu testemunho. No rádio, conforme vários manuais50 já publicados é
necessário apresentar a pessoa que vai falar, tendo o cuidado de indicar sempre primeiro o
cargo e depois o nome. Em apenas dois, dos dez testemunhos examinados, as mulheres se
apresentavam com seus nomes, Adriana e Fátima, mas os cargos eram omitidos.
O meu nome é Adriana, estou aqui no meu salão de beleza que fica em Osasco e vou
―tá‖ contando pra vocês um pouquinho da minha história. Eu venho de uma família
muito simples, muito humilde. Com 19 anos eu conheci meu esposo. A gente se
casou. (ADRIANA – ANEXO 9)
Meu nome é Fátima. Eu era escravizada pelo medo, pela insegurança, pela
depressão, enfim, minhas filhas sempre viviam doentes. (FÁTIMA – ANEXO 14)
A falta de identificação não era para preservá-las. Poderíamos pensar que, assim,
o discurso serviria a qualquer mulher, porém, entendemos que há uma falta de compreensão
da linguagem técnica do veículo, pois os depoimentos vão ao ar sem o cuidado de apresentar
quem nos fala. A esta altura, o programa também estava sendo transmitido pela IURD TV,
onde as mulheres eram identificadas com nome e profissão através da inserção de caracteres
na tela. Com exceção da mulher tratada como ―Mãe Sofredora‖ (ANEXO 5), - que de acordo
50
VER Chantler; Harris (1998), Barbeiro; Lima (2001), Jung (2004), Prado (2006).
89
com o Pastor Santos Andrade (2011), pediu para não ter seu nome divulgado e cujo
depoimento está presente em todos os programas da semana que antecedeu o Dia das Mães -,
as outras mulheres poderiam ser identificadas com cargo e nome somente através da
transmissão pela IURD TV51.
No que tange a apresentação dos fatos iniciais, as exposições relatam dificuldades,
agonias, desesperança e falta de perspectiva:
Eu não sabia mais o que fazer com meu filho. Eu estava perdendo meu filho. Já
estava desesperada. Não sabia mais o que fazer. (MÃE DESESPERADA – ANEXO
5)
Quando eu me casei, passei muitas dificuldades. (SANDRA CORREIRA – ANEXO
6)
Eu vivia muita luta dentro de casa. Meu pai manifestava de madrugada. Tive uma
infância difícil, de luta, miséria. Na verdade, eu não tive infância. (LUCINEIA –
ANEXO 7)
Eu tinha uma firma. Estava bem nesta firma. Mas da noite pro dia ninguém mais me
pagou, minha empresa foi assaltada, bati o carro. Eu não tinha saída. (FABIANA –
ANEXO 8)
Eu tive uma infância conturbada. (VILMA – ANEXO 10)
Eu tinha uma vida totalmente destruída. (TATIANE MORENO – ANEXO 11)
Eu abri mão das coisas que eu pensava que faziam bem pra mim como jornal,
televisão, novela, revista, pra buscar o Espírito Santo porque eu não agüentava mais
sofrer. (CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Eu tive uma vida muito conturbada, né. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Já desde pequena eu sofria muito. Era uma criança muito carente. E eu queria
atenção e eu não tinha esta atenção, então nada me supria. (VANESSA NEGRÃO –
ANEXO 15)
Os conflitos desenvolvidos na compilação descrevem situações de problemas
sentimentais, familiares, econômicos, vícios, traições, depressão:
Eu já tinha feito de tudo para salvar meu filho das drogas. (MÃE DESESPERADA –
ANEXO 5)
Tive a luz cortada, a água cortada. Fiquei na rua, com filhos no colo, passando frio.
Estava derrotada. (SANDRA CORREIRA – ANEXO 6)
51
Lembramos que nas duas últimas semanas analisadas, de um total de três, os programas tinham transmissão simultânea
através da Rede Aleluia de Rádio e IURD TV (TV na internet). Para poder identificar nominalmente as mulheres depoentes,
tivemos que acompanhar o programa, ao mesmo tempo, pelo rádio e pela internet, onde os nomes e profissões apareciam em
caracteres (textos inseridos nas telas).
90
Meu pai bebia muito, manifestava com demônio, ameaçava, batia. (LUCINEIA –
ANEXO 7)
Fui ao fundo do poço. Tive depressão. Fiquei sem vontade de trabalhar. Meu padrão
de vida era alto! Não tinha mais condições. Foi na noite para o dia. Cheque de
clientes voltaram, clientes não pagaram. Foi muita decepção. (FABIANA – ANEXO
8)
Passamos por um momento muito difícil, a qual [sic] meu filho veio ficar muito
doente. Eu tive que sair do emprego pra ta cuidando dele. Ele precisava usar uma
máscara e eu me lembro que esta máscara custava sessenta reais e eu não tinha pra
comprar. (ADRIANA – ANEXO 9)
Minha mãe morreu aos 56 anos de idade. Um ano e meio depois, meu pai morreu
nas minhas mãos. Minha irmã, 15 anos mais nova que eu, aos 28 anos, teve um
câncer e também morreu. (VILMA – ANEXO 10)
Mas num determinado tempo da vida dele, tudo começou a dar errado. Foi
justamente quando nós nos casamos, quando conseguimos montar nossa casa, fazer
o nosso casamento como era o nosso sonho. Começou a dar tudo errado na vida dele
e, por consequência, a minha também. E naquele momento nós já estávamos
casados, então, tudo o que dava errado pra ele, consequentemente, dava errado pra
mim também. (TATIANE MORENO – ANEXO 11)
E uma coisa que me marcou muito foi quando eles tentaram se separar porque eles
chegaram pra mim e com quem você quer ficar? Comigo? Com o pai ou com a mãe?
Daí eu não sabia ainda decidir. Eu não sabia como falar. Eu cresci com esta mágoa.
(CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Eu fui criada num berço de ouro. E até que chegou o momento que meu pai perdeu
tudo. E eu me vi numa situação... era adolescente e eu queria chamar atenção de
alguma forma. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu era escravizada pelo medo, pela insegurança, pela depressão, enfim, minhas
filhas sempre viviam doentes. Eu tinha uma vida financeira desestabilizada.
(FÁTIMA – ANEXO 14)
Então, como eu tinha muitos problemas dentro da minha casa de convivência
familiar, né, então eu achava que a solução seria eu me casar, que eu me casando eu
seria feliz. Então, assim, eu logo ingressei numa faculdade. Ali eu conheci uma
pessoa e com essa pessoa, eu fui viver. Eu morei junto com essa pessoa e tive um
filho. (VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
O clímax aponta o ponto máximo do conflito como abandono, morte, desemprego,
falência, dívidas, despejo, brigas, tentativa de suicídio:
Eu já tinha feito de tudo para salvar meu filho das drogas. (VOZ DE CHORO) Já
tinha até trancado ele dentro de casa, bati nele, busquei ele na rua, de madrugada,
nada adiantava. (MÃE DESESPERADA – ANEXO 5)
Acabei me separando por causa da vida. Fui ao fundo do poço com duas crianças pra
cuidar. (SANDRA CORREIRA – ANEXO 6)
Tentei me matar. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Por isso, tentei o suicídio. (FABIANA – ANEXO 8)
91
Meu esposo não tinha um serviço fixo. Ele só fazia bico. As contas foram
acumulando. Tivemos que fazer empréstimos. Cartão, cheque voltando. Então, a
gente tava assim com a vida totalmente no fim do poço. Tinha um carro e teve que
desfazer do carro pra estar pagando algumas dívidas. Eu e meu esposo, a gente
brigava muito. A gente não estava mais se entendendo. Tinha fato assim da gente
chegar até a se agredir. (ADRIANA – ANEXO 9)
Estou casada há 31 anos. Minha casa era um inferno. Eu e meu marido éramos duas
pessoas distantes. (VILMA – ANEXO 10)
Só que neste meio tempo a gente já estava com muitas dívidas. Essas dívidas já
estavam em torno de 50, 60 mil Reais. Eu devia pra tudo quanto é lugar, assim, de
todos os cartões que eu tinha, de todas as lojas que pode se imaginar que existem em
São Paulo, eu devia. Eram cobranças todos os dias. Era telefone, assim, de dia e de
noite cobrando (...) nós continuamos com esta situação assim deplorável,
dependendo de familiares, dependendo do meu pai pra levar a feira em casa pra eu
poder dar uma fruta para meu filho. (TATIANE MORENO – ANEXO 11)
Eu não aguentava mais sofrer porque eu queria me matar, eu queria matar meu pai,
tinha vontade de morrer. (CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Então foi quando começou a pior fase da minha vida, que foi a fase de beber, fumar,
usar drogas e a partir daquele momento eu já não era mais feliz na minha vida
sentimental porque eu gostava de um rapaz que não gostava de mim, que nem, posso
praticamente dizer, que nem sabia da minha existência. E eu não era feliz em
nenhum outro relacionamento. Foi quando veio a depressão. Porque foi daí que eu
tomei uma atitude de tentar o suicídio. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu não conseguia conquistar nada na minha vida. (FÁTIMA – ANEXO 14)
Eu morei junto com essa pessoa e tive um filho. Aí foi a desgraça da minha vida
porque ali eu mesmo sendo formada, né, eu tenho formação, eu cursei o curso de
direito, eu sou uma advogada, eu comecei a dever a vários lugares, cartão de crédito,
os cheques começaram a voltar, eu comecei a passar necessidade dentro de casa,
passar muito aperto mesmo. E, inclusive, essa pessoa com quem eu vivia, começou a
me trair e com diversas mulheres. (...) Então eu comecei a perder totalmente a minha
dignidade. E se eu achava, eu passei a desacreditar no casamento, de viver com uma
pessoa, então eu comecei a ter, a voltar aquele desejo de suicídio que eu tinha
quando era pequena. Mas só que foi num grau muito maior, porque eu cheguei a
tentar o suicídio porque ali eu vi a única solução para acabar com meu sofrimento.
Aí quando a criança nasceu, eu mesmo estando grávida, ele me batia muito, eu
grávida, eu tive um filho pequenininho. Ele me batia, eu com filho no colo. Então
foi muito sofrimento mesmo. Então ele entendeu por bem ir morar com a amante
dele, me abandonou. (VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
E o desfecho narra o sucesso alcançado, ou seja, a vitória diante do conflito. Neste
caso, a resolução dos problemas é alcançada através da Igreja Universal do Reino de Deus:
Na Igreja Universal, eu comecei a perseverar. Fazia tudo o que o Homem de Deus
falava, tudo que ele ensinava. Aos poucos, minha vida foi mudando. Meu filho foi
mudando e hoje, graças a Deus, meu filho é liberto. Eu sou liberta. Graças a Igreja
Universal do Reino de Deus vou passar o meu primeiro Dia das Mães feliz. (MÃE
DESESPERADA – ANEXO 5)
92
Aí minha vizinha me convidou para assistir uma palestra na Igreja Universal do
Reino de Deus. Ela me contou que a vida dela tinha mudado. Era uma palestra de
incentivo. Então eu fui freqüentando e a minha vida foi mudando, as portas foram se
abrindo. Cada vez mais fui aprendendo que com força e fé você supera e vence seus
problemas. Fui perseverando nas reuniões. Comecei a vender motos. Comprei dois
carros. Eu era o melhor vendedor [sic]. Então, pensei: por que não trabalhar para
mim mesma? Abri uma loja de motos. Hoje eu vou onde quero, compro o que quero,
viajo. Estou no paraíso. A segunda-feira é importante pra mim. Não perco nenhuma
reunião. Hoje sou uma empresária bem sucedida, realizada e muito feliz. (SANDRA
CORREIRA – ANEXO 6)
Até que um dia, eu assisti um programa em que o ―homem de Deus‖ falava. E eu e
minha mãe fomos pedir ajuda na igreja. Eu chorava a reunião toda. Mas aí o pastor
orientou, fez visita na minha casa, fez oração. E as coisas foram melhorando.
(LUCINEIA – ANEXO 7)
Até que um irmão me convidou pra freqüentar o Congresso Empresarial. Fui. Com
muita luta, fui tendo uma injeção de ânimo. Conquistei um carro, uma casa, mais até
do que tinha antes. Sou da Vigília de Deus. (FABIANA – ANEXO 8)
A minha cunhada me convidou para estar indo num lugar onde ela falou que ali ia
estar mudando esta situação, eu ia estar aprendendo a dar uma virada. E eu fui. (...)
Fui fazendo tudo conforme ensinavam. Fui vendo. Fui tendo força pra lutar, pra
batalhar. Eu vi que tudo não estava perdido. As coisas foram mudando. Foi se
transformando. As portas foram se abrindo. Começou pela saúde do meu filho, que
ele foi curado. Meu marido, ele recebeu uma promoção no serviço. Começamos a
pagar as nossas dívidas. Conseguimos comprar o nosso outro carro. Por sinal melhor
do que o que a gente tinha perdido. Participando, né, eu tive a ideia de estar
montando o meu próprio negócio. Montei meu salão de cabeleireiro, né, e fica numa
avenida bem movimentada. Eu tenho uma clientela até boa. Continuo freqüentando
porque eu quero ir mais além. A minha visão é de ter um salão melhor do que eu
tenho, né, num bairro nobre. Sou uma mulher feliz. Realizada, né. Meus filhos estão
bem. Meu casamento ta bem. É muito importante, né, estar participando desta
palestra das segundas-feiras, né. A gente aprende muito ali. Eu convido você que
está passando por uma situação difícil a estar participando de uma palestra e estar
mudando a história da sua vida, assim como eu mudei a história da minha vida.
(ADRIANA – ANEXO 9)
Eu resisti muito antes de ir na Igreja Universal do Reino de Deus. Mas acabei indo.
Já no primeiro dia, eu senti diferença naquilo que eles falavam. Hoje eu tenho um
esposo, um marido carinhoso. A Igreja Universal do Reino de Deus é um exercício
da fé. Hoje eu sou feliz, concretizada, graças a Deus. (VILMA – ANEXO 10)
E foi nessa situação deplorável que eu cheguei na Igreja Universal à convite de uma
pessoa. E neste momento que eu cheguei tava a campanha da Fogueira Santa no
Monte Sinai. E quando eu cheguei ali, vi todo aquele movimento, aquela fé, aquilo
tocou fundo no meu coração e eu tinha certeza, eu tive a certeza de que se eu me
lançasse naquilo, eu ia ter uma transformação de vida. Eu peguei as únicas coisas
que eu tinha. Eram algumas alianças com pedrinhas que eu tinha ganho quando
ainda namorava, tinha algumas joias que eu ganhei quando eu fiz 15 anos. Eu peguei
tudo aquilo que era a única coisa que eu tinha, vendi e me lancei. Quando eu desci
do altar eu tive a certeza de que a minha vida ia se transformar. E foi assim que a
minha vida se transformou. Hoje, eu e meu esposo conseguimos conquistar a
empresa que ele tanto sonhava. Eu trabalho com ele. A nossa empresa está
crescendo a cada dia. Nós conquistamos os nossos carros. Nós temos hoje
tranquilidade, paz. Nós pagamos toda aquela dívida que a gente devia, mais de 60
mil Reais, cartão de crédito, agiota. Hoje ninguém liga mais na nossa casa cobrando.
Hoje a nossa vida está realmente transformada. (TATIANE MORENO – ANEXO
11)
93
Foi quando chegou o jejum de Daniel e eu vi que foi a hora de mudar a minha vida,
mudar o meu interior, principalmente, pra mim [sic] aprender a ser uma nova
pessoa, a nascer de novo. Aí veio a campanha, eu comecei a buscar a Ele com toda
sede, eu queria, porque eu sabia que Ele era a única chance da minha vida. A
mudança estava ali, naquele momento. Aí eu comecei a buscar por Ele com toda
força até que um dia eu recebi o Espírito Santo. Aí mudou tudo. A raiva que eu
tinha, não tinha mais, o ódio, a tristeza. Eu não desejava mais ver ninguém infeliz.
Hoje eu não tenho mais mágoa, não tenho mais raiva. Eu sei lidar com meu pai. Eu
sei lidar com minha mãe. Por mais que às vezes eles estão bravos, estão irritados, eu
vou até eles e começo a dar o meu carinho que eu não recebi quando eu era criança,
hoje eu sei dar o carinho. Foi a coisa mais gloriosa que a gente pode receber neste
mundo: a paz. E saber controlar tudo. Hoje eu falo para as pessoas que chegam aqui,
que eu vejo que estão sofrendo, eu vou e falo o que mudou a minha vida, o que fez
mudar dentro de mim. Eu só consegui esta paz com a experiência do Espírito Santo
no Jejum de Daniel. (CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Então, ela me fez um convite para ir até o Cenáculo do Espírito Santo que ela já
freqüentava. E eu aceitei. Eu comecei a participar das campanhas, comecei a me
entregar nos propósitos. (...)Foi quando o Espírito Santo me tocou, me mostrou a
oportunidade que foi a Fogueira Santa e que seria no altar a verdadeira mudança da
minha vida. Ali, eu agarrei esta oportunidade, revoltada, porque ali ou era tudo ou
nada. Ou eu mudo ou eu não mudo a minha vida. E eu fui e entreguei o meu sangue
no altar, a minha vida, a minha esperança, tudo ali. Eu desci com a certeza, com a
força de Deus que tudo ia mudar. (...) E hoje eu tenho um casamento muito, muito
feliz. (...)Hoje nós temos cinco empresas nos segmentos que nós trabalhamos. Então
hoje eu posso me dar ao luxo de programar uma viagem pro exterior, a hora que eu
quiser. Posso ir nos melhores shoppings da cidade que eu quiser. Eu posso comprar
os melhores produtos, usar grifes internacionais. Coisas que eu jamais poderia fazer.
De ter carro importado meu. Meu marido ter o carro dele importado. De encomendar
outro carro ainda com dois carros na garagem. O carro está pra chegar. Então, eu
posso me dar ao luxo de coisas que, antigamente, eu não poderia fazer em hipótese
nenhuma. Hoje eu posso ir em restaurantes, nos melhores restaurantes da cidade.
Moro no melhor condomínio da minha cidade. A minha filha estuda num dos
colégios melhores. Mas eu ainda não to satisfeita. Não vou parar por aqui. Eu vou
além. Eu vou mostrar a grandeza deste Deus porque eu sei que Ele tem muito mais
pra me dar. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu fui a Igreja Universal, fiz as correntes e aí veio a Fogueira Santa do Monte Sinai,
da qual eu participei e tudo mudou na minha vida. Eu conquistei o meu próprio
negócio, conquistei imóveis. Tenho a minha família curada. Minhas filhas não ficam
mais doentes. Eu também tenho a minha vida hoje sem nenhum medo, nenhuma
angústia, depressão. Isso acabou. Realmente Deus ouviu o meu clamor. E hoje eu
posso dizer com toda segurança: eu sou uma pessoa feliz. (FÁTIMA – ANEXO 14)
Então, foi nessa situação que eu cheguei à Igreja Universal, com muito sofrimento,
mas também cheia de malícia contra a igreja, né, por aquilo que a mídia me passava.
A mídia me passava assim o terror da igreja, né, que eram ladrões, que queriam o
meu dinheiro; mas dinheiro eu não tinha. Aliás, eu não tinha nada. Nem dignidade
eu não tinha quando cheguei na Igreja Universal. Eu não tinha nem vontade de
viver. Eu não tinha nada. Eu não tinha nada pra ofertar. Mas, a partir do momento
quando eu cheguei, eu comecei a fazer as correntes, houve uma melhora, né. Mas,
assim, a transformação veio quando eu entreguei a minha vida no altar, através do
meu sacrifício. Eu realmente entreguei o meu tudo na Fogueira Santa de Israel.
(VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
94
Assim como em outro gênero radiofônico52, o jornalístico, as narrativas iurdianas
relatam fatos, com princípio, meio e fim, tendo como elemento estruturador das partes o
conflito. A tese de Coutinho (2003) sobre a apropriação da dramaturgia por parte do
jornalismo de TV vai ao encontro de nossa análise visto que nas narrativas de conversão, os
―conflitos externos típicos do drama‖ (PALLOTTINI, 1989, p. 81 apud COUTINHO, MATA,
2008, p. 6) compõem-se os obstáculos encontrados pelo personagem no caminho de sua
vontade ou de seus desígnios.
O radialista Barbosa Filho (2003, p. 134) argumenta que, no rádio, o programa
religioso tem ―um discurso quase sempre emocional e até agressivo‖. Para Nunes (1993, p.
64), ―o aparelho radiofônico é boca aberta em máxima curvatura a expelir a voz que liberta‖.
A voz trabalha no campo da consciência, e os demais elementos (música, efeitos
sonoros e silêncio), no inconsciente do ouvinte (FERRARETO, 2007). Todas as mensagens
devem estar condicionadas a um ritmo. Os editores usam frequentemente separadores
musicais ou ruídos com efeitos equivalentes aos parágrafos. O rádio fala, e, para receber a
mensagem é somente necessário ouvir. No entanto, o ouvinte de rádio precisa ter sua atenção
despertada a todo momento. Por isso, ordenar os fatos de forma cronológica e linear é tão
importante para o fácil entendimento do ouvinte. Todo esse mosaico sonoro permite uma
variedade que corta a monotonia exclusiva da voz e, simultaneamente, retém a atenção do
ouvinte.
52
Para saber mais, consulte BARBOSA FILHO. Gêneros radiofônicos: os formatos e os programas em áudio. São Paulo :
Paulinas, 2003.
95
b) - Personagens
A personagem pertence à história e, segundo Gancho (Op. Cit., p. 18) ―só existe
como tal se participa efetivamente do enredo, isto é, se age ou fala‖. Ou seja, se não interfere
de modo algum no enredo, não se pode considerar personagem.
As personagens podem ser classificadas de acordo com o papel desempenhado no
enredo. Na visão de Gancho (Op. Cit) elas podem ser: protagonistas, antagonistas ou
personagens secundárias. Protagonista é a personagem principal que pode ser heroi / heroína
ou anti-heroi / anti-heroína. Antagonista ―é a personagem que se opõe ao protagonista, seja
por sua ação que atrapalha, seja por suas características diametralmente opostas às do
protagonista. Enfim, geralmente seria o vilão da história‖ (GANCHO, 2006, p. 19). E
personagens secundárias têm menos importância na história, isto é, tem uma participação
menor ou menos freqüente.
Nesta análise, percebemos que o protagonismo feminino de todas as personagens
sugere uma retomada das rédeas da própria vida, ressignificando o papel da mulher como a
responsável por sua vida econômica e também por sua família e filhos.
Estas mensagens religiosas desempenham uma função pragmática, pois pelas
conversões e pela reforma dos papeis de gênero e, por extensão da função marital,
melhoram as condições e a qualidade de vida dentro do núcleo familiar. Mesmo em
núcleos familiares não-convencionais, por exemplo, naqueles que as mulheres são as
―cabeça-de-família‖, o status feminino aparece como um antídoto contra o
machismo culturalmente agressivo. (SILVA, 2006, p. 22)
As mulheres narram suas histórias de vida e conversão. As evidências de uma
nova vida, com prosperidade econômica, felicidade no lar e no relacionamento amoroso
reforçam o sentido de pertencimento e estabelecem redes de apoio mútuo entre mulheres que
também desejam esta mudança em suas vidas.
O falar de si constroi uma rede de significados para outras mulheres que se
identificam com o discurso, além de formar um acordo afetivo que o veículo. A opção de se
96
mostrar ao mundo denota identificações e representações que se estabelecem a partir da
relação entre emissora/religião. Contratos simbólicos são construídos entre as partes de modo
que um possa sempre contar com o outro, quer dizer, o ouvinte responde com fidelidade à
emissora em função do conteúdo que lhe é oferecido.
Dentro da praxis comunicativa, os contratos revelam-se na credibilidade que
determinado veículo alcança, as concessões que são obrigados a fazer em termos de
programação em função de exigências do público, a exigência do estabelecimento de
uma ―identidade estética‖ e explicação das maneiras de abordagem das coisas do
mundo. A busca pela identificação e aproximação com o receptor é uma das maneiras
pelas quais as mídias renovam permanentemente os contratos. (SALOMÃO, 2003, p.
46)
Nas narrativas iurdianas femininas as mulheres são as heroínas de suas próprias
histórias. Os vilões das narrativas são encarnados pelos vícios, desemprego, doença, adultério,
entre outros, como descritos anteriormente. E as personagens secundárias são representadas
pelas pessoas que as convidaram a frequentar os cultos da Igreja Universal do Reino de Deus.
A própria igreja assume um papel importante para a resolução do conflito.
Poderíamos pensar no papel protagonista da IURD dentro dessas narrativas, revezando de
lugar com as mulheres. As narrativas femininas dão sempre destaque ao importante papel da
Igreja Universal em suas histórias de conversão.
Embora não fique claro nos depoimentos, o discurso iurdiano atribui todas as
desgraças humanas à influência maléfica do diabo. No entanto, esta afirmação é feita pelos
pastores que, supostamente, têm o poder de ―ver‖ através do natural, ou seja, são capazes de
perceber e enxergar o sobrenatural. Como ―homens de Deus‖ são capazes de atestar ―através
da autoridade que lhes foi concedida‖ a ―interferência do mal‖ na vida das pessoas.
As narrativas analisadas corroboram com questões centrais para as mulheres de
hoje, como sua conquista profissional, por exemplo. A independência feminina conquistada
nas últimas décadas foi acompanhada por uma revolução de costumes e a mídia religiosa
iurdiana está atenta a este processo. No deslocamento religioso, julgamos que as mulheres
decidem abandonar uma crença em favor de outra mais em linha com a emancipação feminina
97
em curso. Atentos à fluidez típica da modernidade tardia, os líderes iurdianos,
especificamente o Bispo Edir Macedo, investem em certo afrouxamento das rígidas regras
comuns aos evangélicos tradicionais como o não uso de bebidas alcoólicas53, o que é
permitido ou proibido no ato sexual54, além de uma moda feminina mais adaptada aos dias
atuais55. Os programas radiofônicos ainda exploram temas favoráveis ao aborto (assunto da
pauta das feministas) e contrários à violência contra a mulher que, muitas vezes pautam
assuntos no blog de Macedo (http://www.bispomacedo.com.br/). No entanto, enrijecem o
posicionamento de ―a cabeça (homem) não pode dar nem um passo sem o corpo (mulher). Em
contrapartida o corpo não tem vida sem cabeça‖
Portanto, se o discurso subordinador iurdiano reforça as desigualdades entre os
gêneros, conforme vimos no capítulo 3 deste trabalho, as narrativas femininas, cada vez mais
frequentes em toda a programação da rede radiofônica, dialogam com uma posição mais
moderna da mulher na sociedade. Este status conferido às mulheres é muito eficiente como
estratégia de convencimento.
As narrativas femininas e o discurso subordinador dos pastores-comunicadores
estão estribados em pólos opostos: um ancorado na modernidade e o outro na tradição. Estes
dois conceitos são comumente entendidos como pólos antagônicos. Renato Ortiz, em A
moderna tradição brasileira (1988), relaciona a tradição como rural, atrasado, familiar,
afetivo, religioso e lento; e moderno como urbano, adiantado, individual, racional, científico e
rápido. Ortiz (idem) exemplifica que na sociedade tradicional há predomínio do sagrado, da
magia e do mito (sacralização) nas esferas social e política. Já na sociedade moderna há
predomínio da razão (racionalização e secularização – separação entre estado Igreja e Estado).
53
Em uma pregação no dia 30 de janeiro de 2011, o bispo Edir Macedo afirmou que bebe cerveja e vinho. O tema da
pregação era fé e religiosidade e o bispo afirmou que a religião proíbe as pessoas de várias coisas, mas a fé deixa-as livre.
54
Ver
mais
em
http://www.bispomacedo.com.br/2008/11/06/o-que-pode-e-o-que-nao-pode-fazer/
e
http://www.bispomacedo.com.br/tag/sexo/ ou http://www.bispomacedo.com.br/2009/10/28/bendita-camisinha/ reproduzidos
no final deste trabalho. (ANEXO 16)
55
Várias marcas atendem ao público cristão oferecendo modelos mais comportados porém não menos sofisticados como
saias e vestidos na altura dos joelhos ou longos e não há decotes profundos nem ombros à mostra.
98
Talvez o que explique esta dicotomia no rádio iurdiano é que a Igreja Universal do Reino de
Deus nasceu no final do século XX, quando a sociedade brasileira já vivia sob forte processo
de ―destradicionalização‖, especialmente no que diz respeito à estrutura familiar56, porém
fundamentada na Bíblia, um livro religioso de valor sagrado para a tradição judaico-cristã.
Em nossa análise de narrativas, observamos que as personagens são sempre
femininas no papel de heroínas, o que confere à mulher um lugar de prestígio. Nele, elas são
capazes de conduzir suas próprias vidas, contribuir para a felicidade e harmonia da família,
não só através dos laços familiares, mas também financeiramente. As histórias contadas
narram suas lutas pessoais com finais felizes, o que implica em exemplos positivos para
outras mulheres.
c) - Tempo
Ganho (Op. Cit., p. 24) explica que o tempo é ―interno ao texto, entranhado no
enredo‖. A pesquisadora esclarece que os fatos de um enredo estão ligados ao tempo em
vários níveis: época que se passa a história, duração da história, tempo cronológico, tempo
psicológico e espaço.
Nas narrativas iurdianas analisadas, a época que se passa a história não fica nítida,
com indicações de datas ou anos. Os enredos dão conta de tempos localizados em expressões
como: ―quando eu era pequena‖, ―na minha infância‖, ―quando eu me casei‖. Portanto,
podemos dizer que se trata de um ―tempo passado presente‖, ou seja, um passado recente.
O passado, muito mais que significar um tempo decorrido, não fica limitado a
fatos de um tempo ido e finito. Isto porque o passado, pelo menos enquanto construção de
significado, só existe enquanto tal porque há um presente que lhe serve de lugar de produção e
56
Diminuição do número de casamentos formais; aumento da idade com que as pessoas estão se casando; aumento do
número das chamadas ―famílias monoparentais‖ (aquelas onde apenas um dos cônjuges está presente) e das ―famílias
reconstituídas‖ (aquelas que se formam através de segundos casamentos), envolvendo filhos de relações anteriores; aumento
do número de pessoas que vivem sozinhas, especialmente entre os mais jovens.
99
contraste: uma lembrança a qual se recorre, uma comparação entre o que foi e já não é
(SARLO, 2007). O passado, de certa forma continuaria sempre presente e emergente nos
momentos em que menos se espera, fugindo muitas vezes ao controle da própria vontade,
quando ―o retorno do passado nem sempre é um momento libertador da lembrança, mas um
advento, uma captura do presente‖ (SARLO, 2007, p.9). A tomada dos relatos como signos da
verdade é um indicador de que as pessoas viveram aqueles fatos, ou seja, esta história
aconteceu num dada época, mesmo que não explícita.
Quanto a duração das histórias, é possível afirmar que não há limitações
específicas. Algumas narrativas analisadas têm pouco mais de um minuto de duração. Outras,
mais de seis. Na classificação de Gancho (2006, p. 24) em histórias de ―curto período de
tempo‖ e de ―longa duração‖, certificamos que se tratam de relatos de curta duração. Porém,
na linguagem radiofônica as falas com cinco minutos ou mais são consideradas
excessivamente longas podendo cansar o ouvinte. Para efeito de comparação, lembramos que,
geralmente, os radiojornais de hora em hora têm, em média, cinco minutos de duração.
O tempo cronológico é ―o nome que se dá ao tempo que transcorre na ordem
natural dos fatos do enredo, isto é, do começo para o final. Está, portanto, ligado ao enredo
linear‖ (GANCHO, 2006, p. 25). Neste sentido, conforme dito por Kischinhevsky (2009, p.
131), ―a memória nos trai, pois amplifica aspectos de fatos que presenciamos, enquanto
subtrai outros‖. Ela é sempre afetiva e anacrônica, além de seletiva e subjetiva. Ana Paula
Goulart Ribeiro enfatiza que a mídia vem se consolidando como ―o principal lugar de
memória e/ou de história das sociedades contemporâneas‖ (RIBEIRO, 2003, p. 57).
Abreu e Bertolini (2009) lembram que a distância entre o tempo presente (o do
depoimento) e o tempo passado (lembranças) impõe obstáculos à cronologia temporal. A
lembrança traz à tona da consciência um momento único, singular, não repetido, irreversível
da vida. A narrativa acontece permeada por informações que mesclam tempos distintos. Para
100
Abreu e Bertolini (2009, p. 177) ―o tempo no rádio pode corresponder à duração de um
programa, um quadro, uma crônica, uma música ou, simplesmente, a duração do tempo livre
disponível do receptor‖.
Cabe ao editor (ou editora) dar sentido à fala, segundo sua prática e sensibilidade.
Segundo Barbeiro e Lima (2001, p. 71) ―a sonora deve terminar com a entoação ‗para baixo‘.
O depoimento que termina com a entoação ‗para cima‘, além de ser esteticamente horrível, dá
a impressão de que o entrevistado foi cortado antes de completar o pensamento‖.
Já o tempo psicológico, conforme explica Gancho (2006, p. 25), ―é o nome que se
dá ao tempo que transcorre numa ordem determinada pelo desejo ou pela imaginação do
narrador ou das personagens, isto é, altera a ordem natural dos acontecimentos‖.
No recorte analisado, notamos que o trabalho de edição tenta realinhar as
narrações para sugerir uma linearidade temporal segundo uma cronologia. Porém, percebemos
que os testemunhos seguem as falhas inexoráveis à memória, conforme os depoimentos
destacados:
Então logo de pequena eu já via vultos, eu conversava com esses vultos, ouvia
vozes. E isso veio até a adolescência. Então, como eu tinha muitos problemas dentro
da minha casa de convivência familiar, né, então eu achava que a solução seria eu
me casar, que eu me casando eu seria feliz. Então, assim, eu logo ingressei numa
faculdade. Ali eu conheci uma pessoa e com essa pessoa, eu fui viver. Eu morei
junto com essa pessoa e tive um filho. Aí foi a desgraça da minha vida porque ali eu
mesmo sendo formada, né, eu tenho formação, eu cursei o curso de direito, eu sou
uma advogada, eu comecei a dever a vários lugares, cartão de crédito, os cheques
começaram a voltar, eu comecei a passar necessidade dentro de casa, passar muito
aperto mesmo. E, inclusive, essa pessoa com quem eu vivia, começou a me trair e
com diversas mulheres. (VANESSA NEGRÃO - ANEXO 15)
Eu bebia muito, então. Meu pai ele tinha... eu fui criada num berço de ouro.
(BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
No entanto, através de técnicas de edição, promovidas por softwares como Sound
Forge, Adobe Audition, GoldWave, entre outros, é possível cortar e montar arquivos sonoros
de modo a promover a linha cronológica desejável.
101
d) Espaço
Outro elemento a ser examinado, segundo Gancho (2006) é o espaço, que,
segundo definição da autora é ―o lugar onde se passa a ação da narrativa‖ (Op. Cit, p. 27).
Nosso recorte preenche espaços urbanos, ora relatados como o espaço doméstico, ora como o
local de trabalho, algumas vezes como o espaço público (a rua) e também o espaço do templo
religioso (a Igreja Universal do Reino de Deus), conforme os trechos a seguir:
Eu já tinha feito de tudo para salvar meu filho das drogas. Já tinha até trancado ele
dentro de casa, bati nele, busquei ele na rua, de madrugada, nada adiantava. (...)Na
Igreja Universal, eu comecei a perseverar. Fazia tudo o que o Homem de Deus
falava, tudo que ele ensinava. (MÃE SOFREDORA – ANEXO 5)
Fiquei na rua, com filhos no colo, passando frio. (...) Aí minha vizinha me convidou
para assistir uma palestra na Igreja Universal do Reino de Deus. (SANDRA
CORREIA – ANEXO 6)
Eu vivia muita luta dentro de casa. (...) E eu e minha mãe fomos pedir ajuda na
igreja. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Estou aqui no meu salão de beleza que fica em Osasco. (ADRIANA – ANEXO 9)
Minha casa era um inferno. Eu e meu marido éramos duas pessoas distantes. Eu
resisti muito antes de ir na Igreja Universal do Reino de Deus. Mas acabei indo. Já
no primeiro dia, eu senti diferença naquilo que eles falavam. (VILMA – ANEXO
10)
Eu tinha um emprego que era muito bom, trabalhava num banco multinacional. (...)
E foi nessa situação deplorável que eu cheguei na Igreja Universal à convite de uma
pessoa. (TATIANE MORENO – ANEXO 11)
Eu vim de uma família com brigas dentro de casa. (...) Então, ela me fez um convite
para ir até o Cenáculo do Espírito Santo que ela já freqüentava. E eu aceitei.
(...)Hoje nós temos cinco empresas nos segmentos que nós trabalhamos. Então hoje
eu posso me dar ao luxo de programar uma viagem pro exterior, a hora que eu
quiser. Posso ir nos melhores shoppings da cidade que eu quiser. (BÁRBARA
OREM – ANEXO 13)
Eu não conseguia conquistar nada na minha vida até que eu fui a Igreja Universal.
(FÁTIMA VIEIRA – ANEXO 14)
Então, como eu tinha muitos problemas dentro da minha casa de convivência
familiar, né, então eu achava que a solução seria eu me casar, que eu me casando eu
seria feliz. Então, assim, eu logo ingressei numa faculdade. (...) eu comecei a passar
necessidade dentro de casa. (...) antes deste período eu trabalhava num escritório de
advocacia. (...) Então, foi nessa situação que eu cheguei à Igreja Universal. (...) Nós
moramos num condomínio fechado. É uma casa ampla, boa. (VANESSA NEGRÃO
– ANEXO 15)
102
Já o ambiente ―é o espaço carregado de características socioeconômicas, morais e
psicológicas em que vivem as personagens‖ (GANCHO, 2006, p. 27). A pesquisadora explica
que o ambiente tem funções específicas: situar as personagens no tempo, no espaço, no grupo
social, ou seja, nas condições em que vivem e ser a projeção dos conflitos vividos pelas
personagens.
Neste sentido, ambiente é um conceito que aproxima tempo e espaço, pois é a
confluência destes dois referenciais, acrescida de um clima. Clima é o conjunto de
determinantes que cercam as personagens, que poderiam ser resumidas às seguintes
condições: socioeconômicas; morais; religiosas e psicológicas. (GANCHO, 2006, p.
27)
Algumas narrativas analisadas deixam explícitas as condições socioeconômicas
das personagens. Em oito dos dez depoimentos, o enredo aponta para experiências de
dificuldades financeiras e condições sociais desfavoráveis:
Quando eu me casei, passei muitas dificuldades. Para conseguir algum dinheiro, fui
vender gelinhos, fazia faxina, tentava várias coisas. Tive a luz cortada, a água
cortada. Fiquei na rua, com filhos no colo, passando frio. (SANDRA CORREIRA –
ANEXO 6)
Tive uma infância difícil, de luta, miséria. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Eu tinha uma firma. Estava bem nesta firma. Mas da noite pro dia ninguém mais me
pagou, minha empresa foi assaltada, bati o carro. Eu não tinha saída. Fui ao fundo
do poço. (FABIANA – ANEXO 8)
Eu venho de uma família muito simples, muito humilde. (ADRIANA – ANEXO 9)
Eu tinha uma vida totalmente destruída, principalmente no lado financeiro.
(TATIANE MORENO – ANEXO 11)
(...) eu fui criada num berço de ouro. E até que chegou o momento que meu pai
perdeu tudo. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu tinha uma vida financeira desestabilizada. (FÁTIMA VIEIRA – ANEXO 14)
(...) eu comecei a dever a vários lugares, cartão de crédito, os cheques começaram a
voltar, eu comecei a passar necessidade dentro de casa, passar muito aperto mesmo.
(VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
Nosso recorte também aponta características morais bem pontuais presentes nas
histórias de Mãe Desesperada e Vanessa Negrão.
Eu já tinha feito de tudo para salvar meu filho das drogas. (VOZ DE CHORO) Já
tinha até trancado ele dentro de casa, bati nele, busquei ele na rua, de madrugada,
nada adiantava. (MÃE DESESPERADA – ANEXO 5)
103
E, inclusive, essa pessoa com quem eu vivia, começou a me trair e com diversas
mulheres. Era dentro da cidade, fora da cidade. A minha vida virou um inferno
porque essas mulheres não me deixavam em paz. Elas ligavam de meia em meia
hora na minha casa. (...) Então eu comecei a perder totalmente a minha dignidade.
(VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
E características psicológicas que indicam abalos emocionais, muitas vezes
graves:
Já estava desesperada. Não sabia mais o que fazer. (MÃE DESESPERADA –
ANEXO 5)
Estava derrotada. (SANDRA CORREIA – ANEXO 6)
Tentei me matar. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Fui ao fundo do poço. Tive depressão. Fiquei sem vontade de trabalhar. (FABIANA
- ANEXO 8)
(...) eu não aguentava mais sofrer. (CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Foi quando veio a depressão. Porque foi daí que eu tomei uma atitude de tentar o
suicídio. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu era escravizada pelo medo, pela insegurança, pela depressão (...). (FÁTIMA
VIEIRA – ANEXO 14)
Já desde pequena eu sofria muito. Era uma criança muito carente. E eu queria
atenção e eu não tinha esta atenção, então nada me supria. (VANESSA NEGRÃO –
ANEXO 15)
Além das características religiosas, assinaladas por dois tempos bem demarcados,
divididos antagonicamente por: antes da Igreja Universal do Reino de Deus e depois da Igreja
Universal do Reino de Deus. As narrativas assinalam as mudanças pessoais após a frequência
aos cultos da IURD, com ênfase nas conquistas obtidas:
Aos poucos, minha vida foi mudando. Meu filho foi mudando e hoje, graças a Deus,
meu filho é liberto. Eu sou liberta. Graças a Igreja Universal do Reino de Deus vou
passar o meu primeiro Dia das Mães feliz. (MÃE DESESPERADA – ANEXO 5)
Então eu fui freqüentando e a minha vida foi mudando, as portas foram se abrindo.
Cada vez mais fui aprendendo que com força e fé você supera e vence seus
problemas. Fui perseverando nas reuniões. Comecei a vender motos. Comprei dois
carros. (...) Abri uma loja de motos. Hoje eu vou onde quero, compro o que quero,
viajo. Estou no paraíso. (SANDRA CORREIA – ANEXO 6)
Hoje tem 11 anos que estamos na igreja e muito felizes. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Com muita luta, fui tendo uma injeção de ânimo. Conquistei um carro, uma casa,
mais até do que tinha antes. Sou da Vigília de Deus. (FABIANA – ANEXO 8)
104
As coisas foram mudando. Foi se transformando. As portas foram se abrindo.
Começou pela saúde do meu filho, que ele foi curado. Meu marido, ele recebeu uma
promoção no serviço. Começamos a pagar as nossas dívidas. Conseguimos comprar
o nosso outro carro. Por sinal melhor do que o que a gente tinha perdido.
(ADRIANA – ANEXO 9)
Já no primeiro dia, eu senti diferença naquilo que eles falavam. Hoje eu tenho um
esposo, um marido carinhoso. A Igreja Universal do Reino de Deus é um exercício
da fé. Hoje eu sou feliz, concretizada, graças a Deus. (VILMA – ANEXO 10)
Eu peguei as únicas coisas que eu tinha. Eram algumas alianças com pedrinhas que
eu tinha ganho quando ainda namorava, tinha algumas joias que eu ganhei quando
eu fiz 15 anos. Eu peguei tudo aquilo que era a única coisa que eu tinha, vendi e me
lancei. Quando eu desci do altar eu tive a certeza de que a minha vida ia se
transformar. E foi assim que a minha vida se transformou. Hoje, eu e meu esposo
conseguimos conquistar a empresa que ele tanto sonhava. Eu trabalho com ele. A
nossa empresa está crescendo a cada dia. Nós conquistamos os nossos carros. Nós
temos hoje tranquilidade, paz. Nós pagamos toda aquela dívida que a gente devia,
mais de 60 mil Reais, cartão de crédito, agiota. Hoje ninguém liga mais na nossa
casa cobrando. Hoje a nossa vida está realmente transformada. (TATIANE
MORENO – ANEXO 11)
Foi a coisa mais gloriosa que a gente pode receber neste mundo: a paz. E saber
controlar tudo. Hoje eu falo para as pessoas que chegam aqui, que eu vejo que estão
sofrendo, eu vou e falo o que mudou a minha vida, o que fez mudar dentro de mim.
Eu só consegui esta paz com a experiência do Espírito Santo no Jejum de Daniel.
(CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Foi quando o Espírito Santo me tocou, me mostrou a oportunidade que foi a
Fogueira Santa e que seria no altar a verdadeira mudança da minha vida. Ali, eu
agarrei esta oportunidade, revoltada, porque ali ou era tudo ou nada. Ou eu mudo ou
eu não mudo a minha vida. E eu fui e entreguei o meu sangue no altar, a minha vida,
a minha esperança, tudo ali. Eu desci com a certeza, com a força de Deus que tudo ia
mudar. E pouco tempo depois, cerca de seis meses depois eu noivei, casei com esse
rapaz que eu tanto queria, né, que eu tanto amava. E hoje eu tenho um casamento
muito, muito feliz. Casei, mas eu não consegui engravidar. Aí foi quando eu me
lancei de novo. Porque eu já sabia que ali eu teria o resultado. Eu já tinha tido essa
prova. Então, foi quando eu me lancei de novo, fiz, entrei na Fogueira Santa, dei o
meu sangue pra poder engravidar porque eu não conseguia. Eu desci com a mesma
força da primeira. E o resultado não podia ter sido outro. Eu engravidei. Hoje eu
tenho uma filha que tem três aninhos de idade. Aí a partir dali a gente não parou
mais de se lançar nas Fogueiras porque a gente queria mais, né. A gente queria
aumentar o nosso padrão de vida. Hoje nós temos cinco empresas nos segmentos
que nós trabalhamos. Então hoje eu posso me dar ao luxo de programar uma viagem
pro exterior, a hora que eu quiser. Posso ir nos melhores shoppings da cidade que eu
quiser. Eu posso comprar os melhores produtos, usar grifes internacionais. Coisas
que eu jamais poderia fazer. De ter carro importado meu. Meu marido ter o carro
dele importado. De encomendar outro carro ainda com dois carros na garagem. O
carro está pra chegar. Então, eu posso me dar ao luxo de coisas que, antigamente, eu
não poderia fazer em hipótese nenhuma. Hoje eu posso ir em restaurantes, nos
melhores restaurantes da cidade. Moro no melhor condomínio da minha cidade. A
minha filha estuda num dos colégios melhores. Mas eu ainda não to satisfeita. Não
vou parar por aqui. Eu vou além. Eu vou mostrar a grandeza deste Deus porque eu
sei que Ele tem muito mais pra me dar. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
105
(...) até que eu fui a Igreja Universal, fiz as correntes e aí veio a Fogueira Santa do
Monte Sinai, da qual eu participei e tudo mudou na minha vida. Eu conquistei o meu
próprio negócio, conquistei imóveis. Tenho a minha família curada. Minhas filhas
não ficam mais doentes. Eu também tenho a minha vida hoje sem nenhum medo,
nenhuma angústia, depressão. Isso acabou. Realmente Deus ouviu o meu clamor. E
hoje eu posso dizer com toda segurança: eu sou uma pessoa feliz. (FÁTIMA
VIEIRA – ANEXO 14)
Mas, a partir do momento quando eu cheguei [na igreja], eu comecei a fazer as
correntes, houve uma melhora, né. Mas, assim, a transformação veio quando eu
entreguei a minha vida no altar, através do meu sacrifício. Eu realmente entreguei o
meu tudo na Fogueira Santa de Israel. (VANESSA NEGRÃO – ANEXO 15)
Ou seja, os testemunhos das fieis afirmam que as conquistas de todos os tipos de
bençãos (principalmente as materiais) são consequências delas terem se tornado parte da
IURD. São narrativas de conversão e fé que, para além de promover a igreja e suas graças,
colocam a mulher iurdiana no mesmo patamar que a mulher considerada ―moderna‖ em nossa
sociedade: uma mulher preocupada com sua família, com a harmonia em seu lar, mas
economicamente ativa e independente financeiramente. Esta identidade auto-proclamada pode
ser fortemente reconhecida nos seguintes trechos, declarados em primeira pessoa:
Hoje eu vou onde quero, compro o que quero, viajo. (...)Hoje sou uma empresária
bem sucedida, realizada e muito feliz. (SANDRA CORREIA – ANEXO 6)
Conquistei um carro, uma casa, mais até do que tinha antes. (FABIANA – ANEXO
8)
Participando, né, eu tive a ideia de estar montando o meu próprio negócio. Montei
meu salão de cabeleireiro, né, e fica numa avenida bem movimentada. Eu tenho uma
clientela até boa. Continuo freqüentando [a igreja] porque eu quero ir mais além. A
minha visão é de ter um salão melhor do que eu tenho, né, num bairro nobre. Sou
uma mulher feliz. Realizada, né. Meus filhos estão bem. Meu casamento ta bem.
(ADRIANA – ANEXO 9)
Então hoje eu posso me dar ao luxo de programar uma viagem pro exterior, a hora
que eu quiser. Posso ir nos melhores shoppings da cidade que eu quiser. Eu posso
comprar os melhores produtos, usar grifes internacionais. Coisas que eu jamais
poderia fazer. De ter carro importado meu. Meu marido ter o carro dele importado.
De encomendar outro carro ainda com dois carros na garagem. O carro está pra
chegar. Então, eu posso me dar ao luxo de coisas que, antigamente, eu não poderia
fazer em hipótese nenhuma. Hoje eu posso ir em restaurantes, nos melhores
restaurantes da cidade. Moro no melhor condomínio da minha cidade. A minha filha
estuda num dos colégios melhores. (BÁRBARA OREM – ANEXO 13)
Eu não conseguia conquistar nada na minha vida até que eu fui a Igreja Universal,
fiz as correntes e aí veio a Fogueira Santa do Monte Sinai, da qual eu participei e
tudo mudou na minha vida. Eu conquistei o meu próprio negócio, conquistei
imóveis. Tenho a minha família curada. Minhas filhas não ficam mais doentes.
(FÁTIMA VIEIRA – ANEXO 14)
106
Os trechos descritos na primeira pessoa do plural sugerem que também houve
uma participação feminina efetiva na conquista socioeconômica de categoria superior após a
conversão à Igreja Universal do Reino de Deus, como nos dois exemplos a seguir:
Hoje, eu e meu esposo conseguimos conquistar a empresa que ele tanto sonhava. Eu
trabalho com ele. A nossa empresa está crescendo a cada dia. Nós conquistamos os
nossos carros. Nós temos hoje tranquilidade, paz. Nós pagamos toda aquela dívida
que a gente devia, mais de 60 mil Reais, cartão de crédito, agiota. Hoje ninguém liga
mais na nossa casa cobrando. Hoje a nossa vida está realmente transformada.
(TATIANE MORENO – ANEXO 11)
Nós temos carro. Nós moramos num condomínio fechado. É uma casa ampla, boa.
Conquistamos agora. A gente queria construir uma casa com a nossa cara, né. Então
a gente agora comprou um outro terreno num outro condomínio fechado onde nós
vamos fazer uma casa do nosso gosto, do nosso jeito, com a nossa cara e, claro, com
a dignidade de um filho de Deus, né, que o filho de Deus merece. E tudo isso eu
conquistei mesmo entregando a minha vida no altar. Foi a única forma que eu vi
mudança na minha vida, foi entregando a minha vida no altar. (VANESSA
NEGRÃO – ANEXO 15)
As outras conquistas relatadas se referem à aspectos morais e psicológicos como
dignidade e felicidade:
Graças a Igreja Universal do Reino de Deus vou passar o meu primeiro Dia das
Mães feliz. (MÃE DESESPERADA – ANEXO 5)
Hoje tem 11 anos que estamos na igreja e muito felizes. (LUCINEIA – ANEXO 7)
Hoje eu tenho um esposo, um marido carinhoso. A Igreja Universal do Reino de
Deus é um exercício da fé. Hoje eu sou feliz, concretizada, graças a Deus. (VILMA
– ANEXO 10)
Foi a coisa mais gloriosa que a gente pode receber neste mundo: a paz. E saber
controlar tudo. Hoje eu falo para as pessoas que chegam aqui, que eu vejo que estão
sofrendo, eu vou e falo o que mudou a minha vida, o que fez mudar dentro de mim.
Eu só consegui esta paz com a experiência do Espírito Santo no Jejum de Daniel.
(CAROLINA OLIVEIRA – ANEXO 12)
Entendemos que o ambiente descrito pelos enredos analisados fornece índices
para o andamento da história destas mulheres de modo que a conversão religiosa justifique
uma mudança de vida quase que como um milagre. Ou seja, as narrativas apontam que a
Igreja Universal do Reino de Deus é a porta milagrosa para a cura de todos os males da vida
terrena.
107
e) Narrador
Ganho (2006, p. 30) explica que ―não existe narrativa sem narrador‖ e há dois
tipos de narrador ―identificados à primeira vista pelo pronome pessoal usado na narração:
primeira ou terceira pessoa do singular‖ (idem, p. 31). A terceira pessoa é utilizada pelo
narrador que se posiciona fora dos fatos narrados. Ele sabe tudo sobre a história (onisciência)
e está presente em todos os lugares da história (onipresença). Porém, vamos nos ater a
descrever melhor a narração em primeira pessoa, presente no nosso recorte.
De acordo com Gancho (Op. Cit), o narrador em primeira pessoa também pode
ser chamado de ―narrador personagem‖. É quem participa diretamente do enredo como
qualquer personagem e pode ter duas variantes: ―narrador testemunha‖, que narra os
acontecimentos dos quais participou, mas não é a personagem principal; e o ―narrador
protagonista‖, que, além de narrador, também é a personagem central.
Todas as narrativas iurdianas sob esta análise estão incluídas nesta última
variante, de narradoras protagonistas. Todos os acontecimentos giram em torno dessas
personagens, e, por isso, a narrativa é a mais impregnada de subjetividade. A ouvinte / o
ouvinte é induzida(o)57 a compartilhar dos sentimentos de satisfação ou insatisfação vividos
pela personagem.
As narrativas dizem respeito à peculiaridades do mundo das mulheres: filhos,
marido, casa, emprego, trabalho, dinheiro, compras, viagens, carros, doença, pai, mãe, medo,
preocupação, depressão, etc. E, desta forma, criam laços de identificação com outras mulheres
que podem (ou não) estar vivendo algumas daquelas situações descritas. De alguma forma, os
testemunhos tocam as mulheres em questões pertinentes ao seu dia-a-dia.
57
Neste caso utilizamos artigos femininos e/ou masculinos concomitantemente à substantivos femininos e/ou masculinos por
tratarmos de uma audiência presumida exclusivamente feminina.
108
No que diz respeito ao rádio, é relevante destacar que o veículo estabelece
contratos de leitura, propondo um lugar de fala para as mulheres. O poder que o rádio sempre
teve ―de mobilizar as pessoas e levá-las ao exercício da imaginação, da recriação das
mensagens recebidas e, mais ainda, da transformação de uma mera emissão sonora em campo
de produção de emoções e de sentido, de conhecimento e de cultura‖ (SALOMÃO, 2003, p.
29) é o que ainda fascina e atrai um grande número de ouvintes.
Quando o ouvinte sintoniza sua emissora de preferência, o primeiro aspecto
funcional da memória pelo qual a pessoa tem é o sentimento de algo já experimentado ou
conhecido, ou seja, é o reconhecimento. ―O ouvinte se identifica com os atos de fala, a
abordagem das coisas do mundo – ou seja, com o local que é construído para ele pelo
enunciador‖ (SALOMÃO, 2003, p. 52).
4.2 MÚLTIPLAS IDENTIDADES FEMININAS
O conceito de identidade ganhou extrema importância na sociedade moderna.
Muitas vezes contraditórios e excludentes tais posicionamentos correspondem à própria
produção da identidade (HALL, 2006). Entendemos a identidade como uma construção
frequentemente renovada e sempre relacionada a ideia de alteridade, ou seja, é necessário
existir o outro e suas características para definir por comparação e diferença com as
características pelas quais cada um se identifica. No caso da identidade de gênero que pode
sofrer influências étnicas, religiosas e familiares compreendemos que esta construção é
cultural.
As mulheres desta pesquisa se apresentam com identidades múltiplas: são mães,
esposas, filhas, donas-de-casa, profissionais, estudantes. As narrativas demonstram
preocupações com o bem estar da família, com o bom relacionamento conjugal e com o lado
109
financeiro. Este quadro vai ao encontro da mulher moderna que também contribui para a
economia do lar e quando não raramente é a única provedora num lar monoparental.
Apontamos aqui para a redistribuição de papeis que subvertem o discurso iurdiano
de: mulher – mãe - dona de casa. Atribuído pelos líderes da igreja apenas às figuras
masculinas e ao espaço público, o poder aquisitivo, o poder de escolhas e de tomada de
decisão confere à mulher e às relações de gênero uma transitoriedade dos papeis e dos
espaços, ressignificando a identidade da mulher evangélica. Ela deixa de pertencer a um único
espaço, ocupando múltiplas identidades e múltiplos espaços.
As narrativas que remetem ao trabalho da mulher fora de casa, além dos cuidados
e preocupação com os filhos nos dão pistas da mobilidade dos espaços e da possibilidade de
transitar entre eles. Além disso, apontam para a desconstrução do discurso sexista da divisão
do trabalho reforçados pelo discurso religioso. Neste sentido, ser mulher atualmente não
significa mais pertencer exclusivamente ao espaço privado. Porém, não quer dizer que os
líderes iurdianos aceitem este fato sem contestação. ―Estar em vários lugares simultaneamente
desperta o incômodo e a ambiguidade de uma identidade indefinida‖ (Silva, 2000). Dessa
forma, os movimentos de cruzamento de fronteiras (da casa para o trabalho) são considerados
estranhos, pois se distanciam do modelo proposto pela Bíblia e seguido pelos religiosos. Para
eles, o trabalho feminino não é compreendido como valor e fonte de realização pessoal, mas
como uma necessidade imposta pelas condições financeiras.
Trabalhar fora não é algo que uma mulher possa desejar para o bem de sua família,
filhos e marido. Não faz parte da essência da mulher. Ela somente deve trabalhar
quando precisa ajudar o homem dentro de casa, por necessidade financeira. Quando
eu me casei, a Esther teve que trabalhar fora. Eu sozinho não tinha como manter a
casa. Ela me ajudou. Mas assim que eu pude pagar as contas sozinho, ela parou de
trabalhar. Assim que tem que ser. O homem é o cabeça. É ele quem deve prover a
família. A mulher tem que cuidar da casa, dos filhos e do marido. (MACEDO, 2011,
programa de rádio em 06 de junho)
O líder iurdiano julga que, atualmente, os papeis desempenhados na família por
homens e mulheres encontram-se confusos e este seria o principal problema de atrito entre o
casal, além do abuso de bebida. O discurso de Macedo é pensado de forma binária: o homem
110
é o provedor e a mulher, dona-de-casa. No programa de rádio do dia 06 de junho de 2011
Macedo disse que ―a mulher não deve ganhar mais que o homem porque ele foi feito para
levar dinheiro para dentro de casa. E, por isso, não deve aceitar que a mulher ganhe mais‖. A
lógica dos binarismos consiste em estabelecer pares, um em contraponto do outro: céu e
inferno, céu e terra, Deus e Diabo, homem e mulher. No entanto, conforme Butler (2003), o
binarismo reproduz uma série de pressupostos em que o pólo inicial aparece como normal,
superior, compulsório - em oposição ao pólo subordinado, que aparece como antinatural,
inferior, o ―outro.‖ Esse discurso é facilmente encontrado dentro de instituições sociais como
as igrejas e se baseia em alocar os sujeitos de acordo com suas características biológicas e/ou
bíblicas. De fato, a representação universal das identidades de gênero aponta para oposições
binárias perigosas, que ―apagam a complexidade do real em benefício de esquemas simplistas
e restritivos‖ (Woodward, 2000, p.53).
Porém, na contemporaneidade a identidade feminina não é constituída apenas
pelos papeis familiares, mas também no investimento feminino em sua vida profissional. A
entrada no mercado de trabalho proporciona à mulher o direito de ser sujeito de si mesma,
conforme constatamos entre as narrativas analisadas.
111
Considerações finais
Ao longo deste trabalho, propusemo-nos a investigar o modelo identitário
construído ou reforçado pela mídia radiofônica da Igreja Universal do Reino de Deus.
Instigou-nos revelar quais eram os discursos massivos que atraíam mulheres do início do
terceiro milênio para uma denominação religiosa baseada na dicotomia: homem-provedor e
mulher dona-de-casa.
Nossas suspeitas iniciais confirmaram que o discurso iurdiano é ambíguo para as
mulheres: ora as aproxima ao espaço doméstico, ora as incentiva a participarem do setor
econômico. No espaço doméstico fica claro que o modelo construído ou reforçado é da
mulher disposta a fazer qualquer tipo de sacrifício para manter a união e a felicidade familiar,
através de sua sabedoria e da fé em Deus. Este é o discurso predominante nas falas dos
pastores conforme vimos ao longo deste trabalho.
No campo profissional, a análise esclarece que o discurso reforça uma
independência financeira baseada no empreendedorismo, presente com grande força nas
narrativas femininas de conversão. Portanto, são múltiplas essas identidades, num constante
processo de negociação simbólica que as fieis ouvintes estabelecem com as mensagens
disponíveis, dependendo da forma que se apropriam delas.
Embora seja possível perceber uma flexibilização nas questões de gênero em
relação a outras denominações evangélicas, o modelo de mulher presente nas narrativas dos
pastores não revela uma autonomia feminina. Além disso, o discurso reforça a conservação de
valores ligados à família tradicional. Ou seja, à mulher cabe o papel de administrar a casa,
cuidar do marido e dos filhos e evangelizar os familiares. No entanto, percebemos uma
supervalorização deste espaço que acaba por dar à mulher dona-de-casa um status não
percebido na sociedade atual, onde a mulher profissional parece ter mais importância. É
112
atribuído ao espaço privado um valor incalculável para a harmonia familiar e é neste lugar que
a mulher é inserida como soberana. Desta forma, há uma ressignificação da autoridade
feminina neste espaço que faz com que a mulher se sinta confortável nele, além de
prestigiada. Este ―modelo de mulher‖ anda na contramão de todas as conquistas femininas
obtidas nas últimas décadas e reforça a conjectura de uma sociedade androcêntrica, sexista e
machista.
Por outro lado, as narrativas femininas de conversão reforçam um modelo de
mulher bastante presente na sociedade atual: economicamente ativa e/ou independente
financeiramente. E, deste modo, não só atraem atenção para outras mulheres com este perfil
como despertam em muitas delas novas identidades que ainda não tinham experimentado.
No entanto, ressaltamos que por detrás dessas narrativas de libertação,
percebemos um pano de fundo baseado no fundamentalismo religioso, onde o discurso é
semelhante ao pregado nos cultos. Palavras como ―derrotada‖, ―fracassada‖, ―homem de
Deus‖, ―sacrifício‖, ―perseverar‖, ―transformação‖, ―liberta‖, ―conquistar‖, entre outras, estão
presentes tanto nos sermões iurdianos quanto nas narrativas femininas. Podemos então
presumir que os testemunhos sofram determinada influência da linguagem adotada pelos
pastores.
Os líderes iurdianos, familiarizados com a oratória, parecem bastante à vontade
frente aos microfones e dominam com maestria as técnicas de persuasão, eloquência e
comunicação, aliados à emoção construída através da fala, música, efeitos sonoros e silêncio.
A linguagem radiofônica bem explorada é capaz de envolver os ouvintes numa
harmonia entre a consciência e o sentimento, atingindo, assim, o emocional do ouvinte.
Portanto, é preciso reconhecer a competência do discurso em ser absorvido por uma parcela
de ouvintes, principalmente quando associados ao afeto e à sensação de conforto espiritual
que extrapola, inclusive, os dogmas religiosos individuais.
113
Estabelecer um contato com o sagrado, sem ao menos sair de casa ou de dentro do
carro, ficou mais fácil através das radioevangelizações. A salvação se mostra disponível a
qualquer pessoa, 24 horas por dia, de forma democrática. Basta ligar o rádio e sintonizar uma
das 71 emissoras espalhadas pelo país. Reiteramos que, na perspectiva da evangelização
eletrônica, o rádio é um meio eficaz para atingir pessoas e conquistar fieis, pois tem audiência
ampla, pode estar presente em qualquer lugar e é um meio popular.
Não obstante, observamos que ao mesmo tempo em que os líderes da igreja se
ocupam de conquistar cada vez mais canais de rádio, parecem se importar menos com as
técnicas de linguagem do veículo ao se aproveitar de material audiovisual para um meio
exclusivamente sonoro.
Porém, não podemos negar a tentativa de adaptação desta igreja em acompanhar o
intensivo uso da mídia como uma ferramenta eficiente de comunicação, visto que inúmeros
tipos de investimentos estão sendo feitos para incrementar a transmissão das mensagens
religiosas e, assim, convencer ainda mais as pessoas de que a religião pode ser algo pleno. O
uso do rádio em outros suportes de comunicação, como a internet, é um bom exemplo.
Percebemos uma tendência de crescimento do espaço concedido às mulheres: seja
através do uso de seus testemunhos gravados, seja em seus depoimentos ao vivo, incentivados
através de ligações telefônicas. As narrativas reconstituem as histórias das pessoas que se
converteram e também obtiveram sucesso em suas vidas. Fundamentada na Teologia da
Prosperidade, notamos que há um cuidado especial em mostrar depoimentos de sucesso
financeiro ligados à conversão religiosa, como quem oferece um passaporte para a felicidade.
Os testemunhos utilizados em todos os programas radiofônicos indicam a
necessidade de comprovar que a Igreja Universal do Reino de Deus é o portal salvador para
uma mudança de vida pós-conversão, imputando um papel determinante da igreja nesta
trajetória. Por isso, a frequência nos cultos iurdianos é incentivada diariamente através da
114
apresentação do calendário de eventos da igreja nos programas radiofônicos. Variando de
temas, cada dia da semana foi destinado para sanar um tipo de problema: prosperidade, saúde,
amor, etc.. Desta maneira, os ouvintes recebem, de forma sistemática, oferta de serviços que
curam todos os males e respondem acompanhando as correntes sugeridas, frequentando os
cultos e fazendo suas doações financeiras.
A ideia propagada pela IURD e outras denominações neopentecostais de que
―quanto mais se der a Deus, mais Ele retribuirá‖, ou seja, quanto maior for seu sacrifício
financeiro, mais Deus vai lhe compensar, parece estar totalmente baseada em um mercado
capitalista, onde o principal objetivo é atender as necessidades sociais dos seres humanos a
qualquer preço. Os sacrifícios ou desafios financeiros aos quais os fieis são induzidos a
realizar nos reportam a estratégias para ludibriar os fieis e mascarar o enriquecimento
extraordinário de Edir Macedo e todo seu ―império‖. Consciente do poder de decisão das
mulheres junto ao seu grupo familiar, inclusive nas questões financeiras, a mídia da IURD
investe na participação feminina em seus programas.
Todos os testemunhos analisados tinham como personagem principal mulheres
que assumiam o papel de ―narradoras eletrônicas‖ de suas histórias de conversão. A narradora
eletrônica é alguém que relata sua história de vida estabelecendo uma dicotomia entre dois
tempos divididos entre antes e depois da conversão. Neste sentido, os testemunhos são peças
estratégicas de marketing com o objetivo de dar crédito de verdadeiro, de se fazer acreditar na
Igreja Universal. Deste modo, as narrativas analisadas sugerem que o Reino de Deus está ao
alcance de qualquer pessoa que realmente deseja tomar posse dele, desde que siga os passos
estabelecidos pela IURD.
Através das memórias que são levadas ao ar relatando suas experiências de
conversão e seus testemunhos de fé, embalados por músicas celestiais, as narrativas causam
115
aproximações entre narradoras e receptoras, promovendo uma sensação de pertencimento
através da verossimilhança.
Os discursos femininos veiculam conteúdos que superam as dificuldades da vida,
aproximando pessoas, mesmo que distantes, através das mensagens radiofônicas. Para além
dos testemunhos de fé percebidos como elemento fundamental para as transformações
pessoais, refletimos sobre as narrativas e sua relação com os processos de constituição
identitária na contemporaneidade. O que é relevante destacar é que as identidades são cada
vez mais permeadas por mensagens simbólicas, especialmente as transmitidas pela mídia, a
partir das quais as pessoas se reconhecem e atribuem sentido.
Mergulhamos em um universo para nós completamente desconhecido, a Igreja
Universal do Reino de Deus, o que nos motivou a buscar respostas para novas perguntas que
brotaram durante o percurso. Portanto, esta pesquisa não gera um ponto final nem estabelece
verdades absolutas nem definitivas. Ao contrário, pretendemos estabelecer um debate e
propiciar a circulação de ideias.
No entanto, se há uma conclusão categórica que poderíamos destacar, não haveria
de ser outra senão esta: o rádio ainda é um veículo de comunicação importante dentro do
Brasil. É através dele que uma considerável parcela da população recebe informação e
estabelece trocas com o mundo.
116
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124
ANEXO 1 – MANUAL DA BOA OBREIRA (transcrição)
01- Limpeza :
Este é um assunto quase que ignorado pela maioria daqueles que sinceramente
desejam levar à salvação aos que se encontram perdidos. Entretanto, temos visto muitos sem o
mínimo respeito para com seus próprios corpos no que tange ao asseio. Ora a própria Bíblia
afirma: ―Acaso não sabeis que vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o
qual da parte de Deus e que sois de vós mesmo? ( 1º Cor.6:19 ). Então cabe a cada uma de nós
zelar pelo próprio corpo, não somente espiritualmente, mas também fisicamente. E este
cuidado irá refletir também no seu ambiente de trabalho, principalmente no zelo para com a
Igreja onde você dedica parte do seu tempo. O local onde fica e os seus pertences tem que ser
os mais limpos possível, pois irá mostrar o seu cuidado para com você e a obra de Deus. Daí,
a razão porque resolvemos falar um pouco destes conselhos úteis, àqueles que desejam
ministrar VIDA aos que estão mortos.
02- Asseio e discrição:
Assim como o banheiro espelha a limpeza numa casa, também as roupas que a
obreira usa apontam o seu asseio tanto físico como espiritual. Para a pessoa que trabalha
numa oficina mecânica, é natural que suas roupas estejam sempre sujas… Entretanto, para
aqueles que procuram iluminar outras com a luz do Evangelho, é imprescindível que suas
roupas estejam perfeitamente limpas e de acordo. Por exemplo, há obreira que além de se
apresentarem com roupas sujas e amarrotadas, vestem meia calça de cor diferente da cor da
pele (bege), saias apertadíssimas, chamando a atenção de todos, quando deveria ser ao
125
contrário, pois ao estar ensinando a palavra de Deus para alguém, ela está se colocando no
lugar do próprio Senhor Jesus e então ela tem obrigação de ser da mesma maneira que o
Senhor Jesus era quando aqui esteve entre nós!
Então tendo em vista a necessidade, damos um modelo de roupas que devem ser
usadas. É necessário que o comprimento da saia esteja na altura do joelho, o sapato seja azul
marinho, e é indispensável o uso de soutien.
03- Asseio com os dentes
Os dentes dão firmeza às nossas palavras e também apontam a alegria que temos
dentro de nós; portanto, todo cristão deve cuidar dos seus dentes, mantendo-os perfeitamente
limpos. Se por acaso há falta de algum dente da frente, devemos imediatamente ir ao dentista
para que se conserte a falha.
04- Asseio com as unhas:
Tendo em vista muitas pessoas serem feridas pelas unhas das obreiras,
principalmente quando há manifestação de demônios, Toda mulher que se preza deve manter
as unhas bem aparadas e limpas.
05- Asseio com sapatos:
Nem todos podem estar sempre com sapatos novos, entretanto, todos devem
mantê-los perfeitamente, brilhando, a fim de que todos possam glorificar a Deus através de
seus obreiros.
126
06- Asseio com o hálito:
O mau hálito de muitos obreiros tem sido motivo à falta de fé de muitos doentes, e
consequentemente à ineficácia da oração da fé.
O mau hálito pode ter muitas origens: 1º Problemas de estômago. 2º Problemas
com os dentes. Em ambos os casos, há solução ou com um médico de estômago ou com o
dentista.
Se a obreira quer falar de Jesus para as pessoas, ela tem que entender que ninguém
consegue copiar qualquer mensagem quando se sente o mau hálito de quem está falando. Daí,
aconselhamos que se tome a mais rápida providência que for possível, porque, afinal de
contas não estamos tentando empurrar um peixe estragado para um freguês, mas sim levando
pessoas para a vida eterna com o Senhor Jesus Cristo. Por isso, todo o cuidado com nosso ser
é importante, a fim de que haja frutos do nosso sacrifício.
Corpo em Geral
Acontece, muitas vezes, que após o término de uma reunião onde havia muitas
pessoas perturbadas, você depois de ter orado por muitas pessoas, começa a exalar um forte
cheiro debaixo do braço, então precisa fazer alguma coisa para acabar com aquele odor. Se
não houver possibilidade de se tomar um banho; então tenha à mão um desodorante, a fim de
acabar com o mau cheiro. Afora isto, você que se propõe a fazer a obra de Deus deve
transparecer uma pessoa completamente limpa, da cabeça aos pés, não se esquecendo de
manter o seu cabelo penteado.
127
1- Educação
Todas as pessoas tem obrigação de serem educadas, principalmente aquelas que
tratam com o público. A obreira deve ser delicada ao se dirigir a qualquer pessoa. Fica-lhe
bem, dirigir-se às pessoas com todo o respeito, mesmo que elas tenham qualquer demônio no
corpo, pois os demônios não prestam, mas as pessoas são seres de Deus, e merecem toda a
nossa consideração e respeito. Não custa nada tratar as mulheres de ―Senhora‖ e aos homens
―Senhor‖ é muito apreciada a obreira que procura primeiro ouvir, ara depois falar…um
cumprimento com sorriso nos lábios, mostrando simpatia, pode abrandar uma pessoa nervosa.
2- Seriedade
Uma obreira jamais deve conversar ou brincar durante o seu trabalho: antes, pelo
contrário, ela deve estar atenta a tudo o que está acontecendo dentro da reunião; jamais deve,
enquanto no trabalho, fechar os olhos num sentido de oração, pois a sua atividade requer
completa e total atenção. Enquanto o pastor estiver orando ou louvando a Deus com o povo, a
obreira tem que estar atenta aos mínimos movimentos dentro da igreja, observar se tem
alguém passando mal, verificar se existe alguém tentando tumultuar a reunião; enfim,
procurar zelar para o bom andamento da reunião em todos os sentidos. Se existe alguém
passando mal, você deve fazer por onde ninguém perceba e desvie a atenção do Pastor,
levando a pessoa e mais o seu acompanhante para um lugar reservado e ali ministrar a oração
da fé.
128
ANEXO 2 – UNIFORMES DE OBREIRA
129
ANEXO 3 – SAPATOS DE OBREIRA
ANEXO 4 – REDE ALELUIA DE RÁDIO
130
REGIÃO
NORDESTE
NORTE
CENTRO-OESTE
Estado
Alagoas
Cidade
Maceió
Frequência
100,3 FM
Bahia
Salvador
Ilhéus
95,9 FM
97,9 FM
Ceará
Itabuna
Juazeiro do Norte
Fortaleza
96,9 FM
850 AM
99,9 FM
Maranhão
Paraíba
São Luiz
João Pessoa
105,5 FM
99,7 FM
Piauí
Pernambuco
Teresina
Caruaru
Garanhuns
94,1 FM
98,9 FM
550 AM
Recife
91,9 FM
Rio Grande do
Norte
Natal
102,9 FM
Sergipe
Amapá
Amazonas
Aracaju
Macapá
Manaus
98,1 FM
760 AM
1440 AM
Pará
Rondônia
Belém
Porto Velho
98,5 FM
104,5 FM
Tocantins
Distrito Federal
Goiás
Palmas
Brasília
Anápolis
960 AM
99,3 FM
100,3 FM
Inhumas/Goiânia
105,3 FM
Cuiabá
101,9 FM
Mato Grosso
SUDESTE
Mato Grosso do Sul Campo Grande
Espírito Santo
Vitória
930 AM
90,1 FM
Minas Gerais
Belo Horizonte
90,7 FM
Juiz de Fora
Poços de Caldas
93,5 FM
96,7 FM
Uberlândia
Uberaba
99,9 FM
103,7 FM
Rio de Janeiro
Campos dos
Goytacazes
Volta Redonda
105,1 FM
89,1 FM
Macaé
Cabo Frio
103,1 FM
102,1 FM
Rio de Janeiro
101,5 FM
131
São Paulo
SUL
Paraná
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
ANEXO 5
Angra dos Reis
Guarujá/Santos
101,1 FM
94,3 FM
Catanduva
Lins
94,9 FM
103,1 FM
São Carlos
Araraquara
Vinhedo
96,9 FM
104,3 FM
94,1 FM
Araçatuba
104,3 FM
Bauru
103,7 FM
Botucatu
Campinas
Franca
93,1 FM
100,3 FM
98,3 FM
Limeira
95,1 FM
Marília
101,9 FM
Piracicaba
Ribeirão Preto
97,1 FM
103,5 FM
Registro
São José dos
Campos
São José do Rio
Preto
750 AM
Sorocaba
Taubaté
Votuporanga
99,7 FM
106,5 FM
99,1 FM
Jaú
98,5 FM
Foz do Iguaçu
105,7 FM
Maringá
Cascavel
104,3 FM
99,5 FM
Curitiba
88,5 FM
Londrina
Santa Maria
105,5 FM
104,7 FM
Carazinho
Porto Alegre
103,5 FM
100,5 FM
Pelotas
Rio Grande
Caxias do Sul
93,3 FM
92,5 FM
93,5 FM
Criciúma
Florianópolis
96,3 FM
99,3 FM
99,7 FM
97,1 FM
132
TESTEMUNHO SEMANA DE 02 a 06 DE MAIO DE 2011
MÃE SOFREDORA
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
MÃE
Eu não sabia mais o que fazer com meu filho. Eu estava perdendo meu
filho. Já estava desesperada. Não sabia mais o que fazer. Uma amiga minha, uma vizinha, me
contou sobre a Igreja Universal do Reino de Deus e eu, desesperada, sem rumo, sem fazer o
que fazer, pois já tinha tentado de tudo resolvi ir lá. Eu já tinha feito de tudo para salvar meu
filho das drogas. (VOZ DE CHORO) Já tinha até trancado ele dentro de casa, bati nele,
busquei ele na rua, de madrugada, nada adiantava.
TEC SOBE BG
FILHO
Eu tava perdido no mundo das drogas. Eu fugia de casa, ficava
revoltado. Não queria saber de nada, só de andar em más companhias. Nada que minha mãe
fazia adiantava. Ela me batia, me deixava trancado em casa. Eu fugia. Ia para as drogas. Vi
minha mãe chorar várias vezes. Ficava com pena dela, mas eu não conseguia me livrar das
drogas. Aí ela começou a frequentar a Igreja Universal. Ela começou a mudar e, não sei o que
aconteceu, eu comecei a mudar também.
MÃE
Na Igreja Universal, eu comecei a perseverar. Fazia tudo o que o
Homem de Deus falava, tudo que ele ensinava. Aos poucos, minha vida foi mudando. Meu
filho foi mudando e hoje, graças a Deus, meu filho é liberto. Eu sou liberta. Graças a Igreja
Universal do Reino de Deus vou passar o meu primeiro Dia das Mães feliz.
FILHO
Eu fiz minha mãe chorar várias vezes. (VOZ DE CHORO) Eu sofria
vendo ela chorar. Mas agora neste domingo, vou dar um Dia das Mães que ela merece.
TEC SOBE SOM ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
ANEXO 6
133
TESTEMUNHO SANDRA CORREIA – 06 DE JUNHO DE 2011
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA TRISTE EM BG
NAR Vejam como uma atitude pode mudar sua vida.
LOC
Quando eu me casei, passei muitas dificuldades. Para conseguir algum
dinheiro, fui vender gelinhos, fazia faxina, tentava várias coisas. Tive a luz cortada, a água
cortada. Fiquei na rua, com filhos no colo, passando frio. Estava derrotada. Acabei me
separando por causa da vida. Fui ao fundo do poço com duas crianças pra cuidar.
TEC MÚSICA GANHA ARRANJO ARROJADO
LOC Aí minha vizinha me convidou para assistir uma palestra na Igreja Universal
do Reino de Deus. Ela me contou que a vida dela tinha mudado. Era uma palestra de
incentivo. Então eu fui freqüentando e a minha vida foi mudando, as portas foram se abrindo.
Cada vez mais fui aprendendo que com força e fé você supera e vence seus problemas. Fui
perseverando nas reuniões. Comecei a vender motos. Comprei dois carros. Eu era o melhor
vendedor [sic]. Então, pensei: por que não trabalhar para mim mesma? Abri uma loja de
motos. Hoje eu vou onde quero, compro o que quero, viajo. Estou no paraíso. A segunda-feira
é importante pra mim. Não perco nenhuma reunião. Hoje sou uma empresária bem sucedida,
realizada e muito feliz.
TEC ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
134
ANEXO 7
TESTEMUNHO LUCINEIA – 07 DE JUNHO DE 2011
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA TRISTE EM BG
LOC
Eu vivia muita luta dentro de casa. Meu pai manifestava de madrugada.
Tive uma infância difícil, de luta, miséria. Na verdade, eu não tive infância. Meu pai bebia
muito, manifestava com demônio, ameaçava, batia. Tentei me matar. Até que um dia, eu
assisti um programa em que o ―homem de Deus‖ falava. E eu e minha mãe fomos pedir ajuda
na igreja. Eu chorava a reunião toda. Mas aí o pastor orientou, fez visita na minha casa, fez
oração. E as coisas foram melhorando. Conheci meu marido em um shopping. Ele não queria
saber de igreja, muito menos da Igreja Universal do Reino de Deus, não queria saber de Jesus.
O dia que ele me convidou pra sair. Sabe onde eu levei ele? Na igreja. Ele estava com um
maço de Malboro no bolso e depois que ele assistiu a reunião, jogou fora na primeira lata de
lixo que encontrou. Ele era viciado em maconha e cocaína. Ele nunca tinha apreciado Jesus.
Depois de quatro anos na igreja, ele começou a se afastar, a não freqüentar mais e aí veio a
separação. Passamos cinco meses separados porque ele não estava na fé. Ele estava diante do
altar, mas não estava no altar. Mas ele ouviu na programação o ―homem de Deus‖ falando:
você que está fora de casa, largou família, filhos.... parecia que estava falando pra ele. Daí ele
me procurou, arrependido, me contou todas as traições, foi sincero até demais. Mas eu não
tenho nenhuma mancha no meu coração. Eu perdoei. A partir daí ele levou Deus à sério.
Voltou para a igreja. Hoje tem 11 anos que estamos na igreja e muito felizes.
TEC ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
135
ANEXO 8
TESTEMUNHO FABIANA – 08 DE JUNHO DE 2011
TEC VINHETA ABERTURA HISTÓRIA DE VENCEDORES
TEC MÚSICA EM BG
LOC Eu tinha uma firma. Estava bem nesta firma. Mas da noite pro dia ninguém
mais me pagou, minha empresa foi assaltada, bati o carro. Eu não tinha saída. Fui ao fundo do
poço. Tive depressão. Fiquei sem vontade de trabalhar. Meu padrão de vida era alto! Não
tinha mais condições. Foi na noite para o dia. Cheque de clientes voltaram, clientes não
pagaram. Foi muita decepção. Por isso, tentei o suicídio. Até que um irmão me convidou pra
freqüentar o Congresso Empresarial. Fui. Com muita luta, fui tendo uma injeção de ânimo.
Conquistei um carro, uma casa, mais até do que tinha antes. Sou da Vigília de Deus.
TEC VINHETA SOU DA NAÇÃO (convidando endividados e pessoas com
vendas caindo ou dívidas impagáveis para a reunião de prosperidade).
136
ANEXO 9
TESTEMUNHO ADRIANA – 09 DE JUNHO DE 2011 (3’28”)
TEC VINHETA ABERTURA HISTÓRIA DE VENCEDORES
TEC MÚSICA AGITADA EM BG
LOC
O meu nome é Adriana, estou aqui no meu salão de beleza que fica em
Osasco e vou ta contando pra vocês um pouquinho da minha história.
TEC MÚSICA NA BATIDA DO ROCK FICA QUATRO SEGUNDOS
TEC CORTE PARA UMA MÚSICA INSTRUMENTAL LENTA
LOC Eu venho de uma família muito simples, muito humilde. Com 19 anos eu
conheci meu esposo. A gente se casou. Passamos por um momento muito difícil, a qual [sic]
meu filho veio ficar muito doente. Eu tive que sair do emprego pra ta cuidando dele. Ele
precisava usar uma máscara e eu me lembro que esta máscara custava sessenta reais e eu não
tinha pra comprar.
TEC EFEITO SONORO DE TENSÃO
TEC VOLTA BG MÚSICA INSTRUMENTAL LENTA
LOC Não tinha completado nem dez anos de idade ainda e ele já tinha passado
por quatro pneumonias. Meu esposo não tinha um serviço fixo. Ele só fazia bico. As contas
foram acumulando. Tivemos que fazer empréstimos. Cartão, cheque voltando. Então, a gente
tava assim com a vida totalmente no fim do poço. Tinha um carro e teve que desfazer do carro
pra estar pagando algumas dívidas. Eu e meu esposo, a gente brigava muito. A gente não
estava mais se entendendo. Tinha fato assim da gente chegar até a se agredir.
TEC ENTRA MÚSICA ALEGRE
LOC A minha cunhada me convidou para estar indo num lugar onde ela falou que
ali ia estar mudando esta situação, eu ia estar aprendendo a dar uma virada. E eu fui.
TEC SOBE BG
137
LOC Quando eu cheguei, eu tive, assim, uma resistência, dúvida. Eu não tinha
muito o que escolher, na verdade, né. Então eu falei: não, vou ficar pra ver. Fui fazendo tudo
conforme ensinavam. Fui vendo. Fui tendo força pra lutar, pra batalhar. Eu vi que tudo não
estava perdido. O palestrante, ele passa pra gente, assim, garra, né, ter força, lutar, ter
coragem, não desanimar. Fui colocando em prática o que eu estava ouvindo
TEC TROCA DE MÚSICA
LOC
As coisas foram mudando. Foi se transformando. As portas foram se
abrindo. Começou pela saúde do meu filho, que ele foi curado. Meu marido, ele recebeu uma
promoção no serviço. Começamos a pagar as nossas dívidas. Conseguimos comprar o nosso
outro carro. Por sinal melhor do que o que a gente tinha perdido.
TEC TROCA DE MÚSICA
LOC Participando, né, eu tive a ideia de estar montando o meu próprio negócio.
Montei meu salão de cabeleireiro, né, e fica numa avenida bem movimentada. Eu tenho uma
clientela até boa. Continuo freqüentando porque eu quero ir mais além. A minha visão é de ter
um salão melhor do que eu tenho, né, num bairro nobre.
TEC TROCA DE MÚSICA
LOC
Sou uma mulher feliz. Realizada, né. Meus filhos estão bem. Meu
casamento ta bem. É muito importante, né, estar participando desta palestra das segundasfeiras, né. A gente aprende muito ali.
TEC SOBE BG
LOC
Eu convido você que está passando por uma situação difícil a estar
participando de uma palestra e estar mudando a história da sua vida, assim como eu mudei a
história da minha vida
TEC VINHETA DE ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
138
ANEXO 10
TESTEMUNHO VILMA – 10 DE JUNHO DE 2011
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC Eu tive uma infância conturbada. Minha mãe morreu aos 56 anos de idade.
Um ano e meio depois, meu pai morreu nas minhas mãos. Minha irmã, 15 anos mais nova que
eu, aos 28 anos, teve um câncer e também morreu. Estou casada há 31 anos. Minha casa era
um inferno. Eu e meu marido éramos duas pessoas distantes. Eu resisti muito antes de ir na
Igreja Universal do Reino de Deus. Mas acabei indo. Já no primeiro dia, eu senti diferença
naquilo que eles falavam. Hoje eu tenho um esposo, um marido carinhoso. A Igreja Universal
do Reino de Deus é um exercício da fé. Hoje eu sou feliz, concretizada, graças a Deus.
VINHETA BRIGAS DESGASTAM RELACIONAMENTO
TEC MÚSICA ―TENTE OUTRA VEZ‖, DE RAUL SEIXAS NA VOZ DE
FÁBIO JÚNIOR
TEC CONVITE PARA A TERAPIA DO AMOR AOS SÁBADOS
139
ANEXO 11
TESTEMUNHO TATIANE MORENO – 08 DE AGOSTO DE 2011 (6´03”)
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC Eu tinha uma vida totalmente destruída, principalmente no lado financeiro.
Eu tinha um emprego que era muito bom, trabalhava num banco multinacional. Meu esposo já
era um profissional também, há 15 anos no ramo. Ele sempre trabalhou com terceirização de
fabricação de artigos de couro e sintético e ele sempre teve serviço, sempre conseguiu galgar
sua vida. Mas num determinado tempo da vida dele, tudo começou a dar errado. Foi
justamente quando nós nos casamos, quando conseguimos montar nossa casa, fazer o nosso
casamento como era o nosso sonho. Começou a dar tudo errado na vida dele e, por
consequência, a minha também. E naquele momento nós já estávamos casados, então, tudo o
que dava errado pra ele, consequentemente, dava errado pra mim também. E nós chegamos
num ponto de, um mês pro outro, o serviço dele não ter mais. Simplesmente a pessoa que
dava serviço pra ele, que fornecia aquele serviço pra ele desenvolver, cortou. Falou: olha, a
partir de hoje não tenho mais o serviço. Você está desligado. E foi assim que ele ficou:
perdido. Começou a sair pra procurar emprego e esse ramo de trabalho dele é muito difícil, e
não conseguia nada. E eu trabalhando no banco, vivia naquela situação, né, tendo que
sustentar a casa sozinha. Eu tinha um salário bom, mas pra manter aquele padrão que a gente
tinha, não tinha condições eu sozinha, né. Foi aí que numa determinada noite, nós decidimos,
eu e ele, que a melhor solução era eu pedir demissão, pedir pra ser mandada embora. E nós
tínhamos planejado de fazer uma sociedade, eu e ele, no ramo dele, que era abrir uma fábrica
de bolsas e tocar nossa vida. Só que neste meio tempo a gente já estava com muitas dívidas.
Essas dívidas já estavam em torno de 50, 60 mil Reais. Eu devia pra tudo quanto é lugar,
assim, de todos os cartões que eu tinha, de todas as lojas que pode se imaginar que existem
140
em São Paulo, eu devia. Eram cobranças todos os dias. Era telefone, assim, de dia e de noite
cobrando. Na época eu tinha financiado um carro simples, um carro popular, e eu tinha pago
já, acho, que umas doze prestações e um belo dia veio um oficial de justiça com busca e
apreensão, levou esse carro e a nossa vida estava assim, na lama. Meu esposo, muito nervoso,
uma pessoa que já estava se tornando assim agressivo e eu acabei pedindo demissão do banco.
Me mandaram embora. Meu diretor, na época, me ofereceu todas as condições necessárias. Eu
recebi uma boa indenização. Consegui o que eu queria, que era ser mandada embora, mas
infelizmente, eu não sei o que tinha na minha vida e na dele que esse dinheiro foi como se a
gente abrisse uma torneira e a água caísse por entre os dedos. O dinheiro desapareceu. Eu não
paguei dívidas, não paguei os agiotas. Não tirei o meu nome do SERASA, do SPC. Ele não
resolveu os problemas dele, o sonho dele de montar esta fábrica e nós continuamos com esta
situação assim deplorável, dependendo de familiares, dependendo do meu pai pra levar a feira
em casa pra eu poder dar uma fruta para meu filho. E foi nessa situação deplorável que eu
cheguei na Igreja Universal à convite de uma pessoa. E neste momento que eu cheguei tava a
campanha da Fogueira Santa no Monte Sinai. E quando eu cheguei ali, vi todo aquele
movimento, aquela fé, aquilo tocou fundo no meu coração e eu tinha certeza, eu tive a certeza
de que se eu me lançasse naquilo, eu ia ter uma transformação de vida. Eu peguei as únicas
coisas que eu tinha. Eram algumas alianças com pedrinhas que eu tinha ganho quando ainda
namorava, tinha algumas joias que eu ganhei quando eu fiz 15 anos. Eu peguei tudo aquilo
que era a única coisa que eu tinha, vendi e me lancei. Quando eu desci do altar eu tive a
certeza de que a minha vida ia se transformar. E foi assim que a minha vida se transformou.
Hoje, eu e meu esposo conseguimos conquistar a empresa que ele tanto sonhava. Eu trabalho
com ele. A nossa empresa está crescendo a cada dia. Nós conquistamos os nossos carros. Nós
temos hoje tranquilidade, paz. Nós pagamos toda aquela dívida que a gente devia, mais de 60
141
mil Reais, cartão de crédito, agiota. Hoje ninguém liga mais na nossa casa cobrando. Hoje a
nossa vida está realmente transformada.
TEC VINHETA ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
142
ANEXO 12
TESTEMUNHO CAROLINA OLIVEIRA – 09 DE AGOSTO DE 2011 (2´25”)
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC
Eu abri mão das coisas que eu pensava que faziam bem pra mim como
jornal, televisão, novela, revista, pra buscar o Espírito Santo porque eu não aguentava mais
sofrer. E uma coisa que me marcou muito foi quando eles tentaram se separar porque eles
chegaram pra mim e com quem você quer ficar? Comigo? Com o pai ou com a mãe? Daí eu
não sabia ainda decidir. Eu não sabia como falar. Eu cresci com esta mágoa. Eu não
aguentava mais sofrer porque eu queria me matar, eu queria matar meu pai, tinha vontade de
morrer. Foi quando chegou o jejum de Daniel e eu vi que foi a hora de mudar a minha vida,
mudar o meu interior, principalmente, pra mim [sic] aprender a ser uma nova pessoa, a nascer
de novo. Aí veio a campanha, eu comecei a buscar a Ele com toda sede, eu queria, porque eu
sabia que Ele era a única chance da minha vida. A mudança estava ali, naquele momento. Aí
eu comecei a buscar por Ele com toda força até que um dia eu recebi o Espírito Santo. Aí
mudou tudo. A raiva que eu tinha, não tinha mais, o ódio, a tristeza. Eu não desejava mais ver
ninguém infeliz. Hoje eu não tenho mais mágoa, não tenho mais raiva. Eu sei lidar com meu
pai. Eu sei lidar com minha mãe. Por mais que às vezes eles estão bravos, estão irritados, eu
vou até eles e começo a dar o meu carinho que eu não recebi quando eu era criança, hoje eu
sei dar o carinho. Foi a coisa mais gloriosa que a gente pode receber neste mundo: a paz. E
saber controlar tudo. Hoje eu falo para as pessoas que chegam aqui, que eu vejo que estão
sofrendo, eu vou e falo o que mudou a minha vida, o que fez mudar dentro de mim. Eu só
consegui esta paz com a experiência do Espírito Santo no Jejum de Daniel.
TEC ENCERRA MÚSICA EM BG
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
143
ANEXO 13
TESTEMUNHO BÁRBARA OREM – 10 DE AGOSTO DE 2011 (5´05”)
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC Eu tive uma vida muito conturbada, né. Eu vim de uma família com brigas
dentro de casa. Eu bebia muito, então. Meu pai ele tinha... eu fui criada num berço de ouro. E
até que chegou o momento que meu pai perdeu tudo. E eu me vi numa situação... era
adolescente e eu queria chamar atenção de alguma forma. Então foi quando começou a pior
fase da minha vida, que foi a fase de beber, fumar, usar drogas e a partir daquele momento eu
já não era mais feliz na minha vida sentimental porque eu gostava de um rapaz que não
gostava de mim, que nem, posso praticamente dizer, que nem sabia da minha existência. E eu
não era feliz em nenhum outro relacionamento. Foi quando veio a depressão. Porque foi daí
que eu tomei uma atitude de tentar o suicídio. Eu tinha uma vizinha que era tia desse rapaz do
qual eu gostava e ela conhecia todo o meu sofrimento, tudo o que eu passava. Então, ela me
fez um convite para ir até o Cenáculo do Espírito Santo que ela já freqüentava. E eu aceitei.
Eu comecei a participar das campanhas, comecei a me entregar nos propósitos. Só que eu
queria mais. Esse rapaz já freqüentava o Cenáculo do espírito Santo. Foi quando ele passou a
me conhecer. Só que eu não queria um relacionamento. Eu queria casar, eu queria ter a minha
vida, eu queria estar bem. E era tudo que eu ainda não tinha porque a minha vida financeira
ainda estava bem ruim. Eu ainda não tava feliz. Foi quando o Espírito Santo me tocou, me
mostrou a oportunidade que foi a Fogueira Santa e que seria no altar a verdadeira mudança da
minha vida. Ali, eu agarrei esta oportunidade, revoltada, porque ali ou era tudo ou nada. Ou
eu mudo ou eu não mudo a minha vida. E eu fui e entreguei o meu sangue no altar, a minha
vida, a minha esperança, tudo ali. Eu desci com a certeza, com a força de Deus que tudo ia
mudar. E pouco tempo depois, cerca de seis meses depois eu noivei, casei com esse rapaz que
144
eu tanto queria, né, que eu tanto amava. E hoje eu tenho um casamento muito, muito feliz.
Casei, mas eu não consegui engravidar. Aí foi quando eu me lancei de novo. Porque eu já
sabia que ali eu teria o resultado. Eu já tinha tido essa prova. Então, foi quando eu me lancei
de novo, fiz, entrei na Fogueira Santa, dei o meu sangue pra poder engravidar porque eu não
conseguia. Eu desci com a mesma força da primeira. E o resultado não podia ter sido outro.
Eu engravidei. Hoje eu tenho uma filha que tem três aninhos de idade. Aí a partir dali a gente
não parou mais de se lançar nas Fogueiras porque a gente queria mais, né. A gente queria
aumentar o nosso padrão de vida. Hoje nós temos cinco empresas nos segmentos que nós
trabalhamos. Então hoje eu posso me dar ao luxo de programar uma viagem pro exterior, a
hora que eu quiser. Posso ir nos melhores shoppings da cidade que eu quiser. Eu posso
comprar os melhores produtos, usar grifes internacionais. Coisas que eu jamais poderia fazer.
De ter carro importado meu. Meu marido ter o carro dele importado. De encomendar outro
carro ainda com dois carros na garagem. O carro está pra chegar. Então, eu posso me dar ao
luxo de coisas que, antigamente, eu não poderia fazer em hipótese nenhuma. Hoje eu posso ir
em restaurantes, nos melhores restaurantes da cidade. Moro no melhor condomínio da minha
cidade. A minha filha estuda num dos colégios melhores. Mas eu ainda não to satisfeita. Não
vou parar por aqui. Eu vou além. Eu vou mostrar a grandeza deste Deus porque eu sei que Ele
tem muito mais pra me dar.
TEC VINHETA DE ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
145
ANEXO 14
TESTEMUNHO FÁTIMA VIEIRA – 11 DE AGOSTO DE 2011 (1´10”)
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC
Meu nome é Fátima. Eu era escravizada pelo medo, pela insegurança, pela
depressão, enfim, minhas filhas sempre viviam doentes. Eu tinha uma vida financeira
desestabilizada. Eu não conseguia conquistar nada na minha vida até que eu fui a Igreja
Universal, fiz as correntes e aí veio a Fogueira Santa do Monte Sinai, da qual eu participei e
tudo mudou na minha vida. Eu conquistei o meu próprio negócio, conquistei imóveis. Tenho
a minha família curada. Minhas filhas não ficam mais doentes. Eu também tenho a minha vida
hoje sem nenhum medo, nenhuma angústia, depressão. Isso acabou. Realmente Deus ouviu o
meu clamor. E hoje eu posso dizer com toda segurança: eu sou uma pessoa feliz.
TEC VINHETA DE ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
146
ANEXO 15
TESTEMUNHO VANESSA NEGRÃO – 12 DE AGOSTO DE 2011 (6´36”)
TEC VINHETA ABERTURA
TEC MÚSICA EM BG
LOC
Já desde pequena eu sofria muito. Era uma criança muito carente. E eu
queria atenção e eu não tinha esta atenção, então nada me supria. Então logo de pequena eu já
via vultos, eu conversava com esses vultos, ouvia vozes. E isso veio até a adolescência. Então,
como eu tinha muitos problemas dentro da minha casa de convivência familiar, né, então eu
achava que a solução seria eu me casar, que eu me casando eu seria feliz. Então, assim, eu
logo ingressei numa faculdade. Ali eu conheci uma pessoa e com essa pessoa, eu fui viver. Eu
morei junto com essa pessoa e tive um filho. Aí foi a desgraça da minha vida porque ali eu
mesmo sendo formada, né, eu tenho formação, eu cursei o curso de direito, eu sou uma
advogada, eu comecei a dever a vários lugares, cartão de crédito, os cheques começaram a
voltar, eu comecei a passar necessidade dentro de casa, passar muito aperto mesmo. E,
inclusive, essa pessoa com quem eu vivia, começou a me trair e com diversas mulheres. Era
dentro da cidade, fora da cidade. A minha vida virou um inferno porque essas mulheres não
me deixavam em paz. Elas ligavam de meia em meia hora na minha casa. Aí começaram as
agressões físicas por parte dele. Então eu comecei a perder totalmente a minha dignidade. E se
eu achava, eu passei a desacreditar no casamento, de viver com uma pessoa, então eu comecei
a ter, a voltar aquele desejo de suicídio que eu tinha quando era pequena. Mas só que foi num
grau muito maior, porque eu cheguei a tentar o suicídio porque ali eu vi a única solução para
acabar com meu sofrimento. Aí quando a criança nasceu, eu mesmo estando grávida, ele me
batia muito, eu grávida, eu tive um filho pequenininho. Ele me batia, eu com filho no colo.
Então foi muito sofrimento mesmo. Então ele entendeu por bem ir morar com a amante dele,
me abandonou. Aí, em virtude disso porque aí, eu, antes deste período eu trabalhava num
147
escritório de advocacia. E eu era bem paga, era um escritório renomado, então, eu tinha um
nome. Eu tinha uma função lá, eu era chefe, né, daquele escritório. O advogado confiava
demais em mim. E eu acabei perdendo tudo. Eu perdi aquele que seria o pai do meu filho,
perdi o emprego, perdi o carro que eu tinha, fui despejada. Então, eu cheguei ao ponto assim
de ter que ir comprar o resto de feira pra poder comer porque eu não tinha condições, né, de
comprar uma comida digna, né. Isso tudo vivendo de aparência porque minha família não
sabia do que estava acontecendo. Só que isso veio à tona porque eu fui despejada com uma
criança pequena e desempregada. Aí meu filho vivia doente. Chegou ao ponto, assim, que eu
morava na capital e tive que pedir pelo amor de Deus pro meu pai ir pra capital, porque ele
morava no interior, pra comprar um remédio de dois reais pro meu filho pra passar a febre
dele. Então, foi nessa situação que eu cheguei à Igreja Universal, com muito sofrimento, mas
também cheia de malícia contra a igreja, né, por aquilo que a mídia me passava. A mídia me
passava assim o terror da igreja, né, que eram ladrões, que queriam o meu dinheiro; mas
dinheiro eu não tinha. Aliás, eu não tinha nada. Nem dignidade eu não tinha quando cheguei
na Igreja Universal. Eu não tinha nem vontade de viver. Eu não tinha nada. Eu não tinha nada
pra ofertar. Mas, a partir do momento quando eu cheguei, eu comecei a fazer as correntes,
houve uma melhora, né. Mas, assim, a transformação veio quando eu entreguei a minha vida
no altar, através do meu sacrifício. Eu realmente entreguei o meu tudo na Fogueira Santa de
Israel.
TEC ENTRA MÚSICA ―DEUS SOBERANO‖ E FICA 20‖
LOC Eu entreguei toda a minha vida, que aos olhos humanos quem visse ia falar:
olha, como que pode uma pessoa que ta desempregada, que não tem nem o que comer, que
depende dos outros pra poder comer, fazer o sacrifício que eu fiz naquela época. Porque aos
olhos humanos era impossível eu conseguir aquele sacrifício, mas Deus me honrou, pela
minha fé. Aí as coisas foram mudando. Aí eu adquiri o meu escritório. Aí depois em outra
148
Fogueira Santa foi um carro. Aí as coisas foram mudando dia após dia. Em cada Fogueira
Santa havia uma resposta grande. Hoje, para quem foi abandonada, eu sou casada, muito bem
casada com uma pessoa, assim, que me respeita, que me ama, que ama meu filho, que trata
meu filho como se fosse, como se tivesse saído dele. O relacionamento deles é assim, a coisa
mais linda de ver: o meu marido com meu filho. É muito bonito de ver. Acho que nenhum pai
tem o amor que meu marido tem pelo meu filho. Então eu só tenho a agradecer a Deus porque
Ele mudou a minha vida. E pra quem tinha que comer o resto de feira e comprar com
moedinha o restinho de feira, hoje eu tenho um posto de gasolina também. O meu marido é
muito bem empregado. Ele é gerente de uma empresa grande. Então quer dizer: não falta
nada. Nós temos carro. Nós moramos num condomínio fechado. É uma casa ampla, boa.
Conquistamos agora. A gente queria construir uma casa com a nossa cara, né. Então a gente
agora comprou um outro terreno num outro condomínio fechado onde nós vamos fazer uma
casa do nosso gosto, do nosso jeito, com a nossa cara e, claro, com a dignidade de um filho de
Deus, né, que o filho de Deus merece. E tudo isso eu conquistei mesmo entregando a minha
vida no altar. Foi a única forma que eu vi mudança na minha vida, foi entregando a minha
vida no altar.
TEC VINHETA DE ENCERRAMENTO
TEC ENTRA CONVITE PARA FREQUENTAR IGREJA
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ANEXO 16
Para que a fé? Será que sua função é apenas para conquistar as promessas Divinas?
Seu serviço maior é levar as pessoas à salvação eterna por meio do relacionamento vivo com
Deus. Além disso, fazê-las terem firmeza em suas decisões que vão lhes proporcionar
qualidade de vida.
A título de exemplo, temos a ciência que tem oferecido várias opções para
prevenir a concepção. Mas aí surge a pergunta do cristão religioso: ―Onde está escrito na
Bíblia a permissão de usar contraceptivos? Não seria isso um pecado? Podemos ou não fazer
uso disso?‖
No início do meu casamento, a Ester fez uso da pílula anticoncepcional durante
quase um ano. Mas sentiu-se muito mal e teve de interromper. Como não havia a vasectomia,
parti para o sacrifício: comecei a usar camisinha.
Por que fiz isto? Porque não reunia condições econômicas para ter filhos. Foi uma
questão de fé. Não perguntei a ninguém se era ou não pecado. Simplesmente, usei minha
convicção pessoal para decidir o que fazer.
A fé inteligente nos faz decidir, com firmeza e segurança, o que é melhor.
… tudo o que não provém de fé é pecado. (Romanos 14.23)
Faça uso de sua fé e vai em frente.
Deus abençoa os que creem!
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O ato conjugal trata do relacionamento sexual entre o marido e sua mulher. O que
pode ou não nesse ato? A Bíblia não especifica como se deve fazê-lo. Apenas adverte quanto
ao que é contrário à natureza (Romanos 1.26).
A meu ver, contrário à natureza significa tudo que distorce a harmonia entre Deus,
o ser humano e a natureza.
No sexo anal, o reto é agredido com uma introdução estranha à sua natureza. Ele
não está na função de receber, mas de expelir. Expelir o quê? Fezes, excremento ou cocô. As
fezes são o lixo do corpo humano. Usar o ânus como objeto de prazer é o mesmo que degustar
um belo jantar a dois no meio do lixão. Não faz sentido. É questão de higiene, de saúde e,
sobretudo, de inteligência.
Entretanto, cada um é dono de seu próprio corpo e faz dele o que bem entender.
Por isso, nos foi dado o livre arbítrio.
O cristão sabe que seu corpo é templo do Espírito de Deus. E como tal, não aceita
submeter-se a nada contrário à natureza.
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Temos recebido vários e-mails de maridos desapontados com suas respectivas
esposas. Segundo eles, quando elas eram incrédulas, eram muito mais mulheres do que depois
de convertidas. Parece que o novo nascimento as fez ―apagar‖ sexualmente.
Há até quem reclame que o ato conjugal não tem ocorrido com mais frequência
como antigamente. Tenho certeza de que o diabo está adorando esta situação, pois nada é
mais nocivo ao casamento do que os desencontros num leito imaculado.
Por experiência própria posso afirmar que o futuro de um casamento feliz está na
cama. O casal pode ser cheio do Espírito Santo, mas se não tiver uma vida sexualmente ativa,
dificilmente serão fiéis um ao outro.
O ato conjugal dentro do casamento é como o alimento cotidiano do corpo físico.
E não adianta ninguém querer contrariar essa natureza humana porque o apetite sexual é como
o apetite alimentar; ambos fazem parte do corpo humano que Deus mesmo criou. Claro,
existem certas exceções, como o caso dos eunucos. Mas, em regra geral, não há como omitir
ou fingir que não se tem.
Eu sei que no meio evangélico há uma tremenda hipocrisia quanto a esse assunto.
Muitos colegas de outras denominações têm considerado o ato conjugal como algo carnal e
até demoníaco, como se o sexo tivesse sido criado mesmo no inferno. E essa ignorância tem
sido divulgada entre os convertidos, a tal ponto que muitos estão deixando de lado suas
obrigações para com seus respectivos maridos e respectivas esposas.
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Se o ato conjugal é uma carnalidade ou coisa demoníaca, então minha mulher e eu
somos carnais e carecemos de libertação. Além do mais, posso confessar que quanto mais nos
relacionamos sexualmente mais ficamos agarrados e dependentes um do outro.
A verdade é que a falta do uso da fé aliada à inteligência tem feito a maioria dos
cristãos verdadeiros fracassados a partir da sua própria vida familiar.
Ainda outro dia alguém me escreveu, dizendo: ―Sou casado há 23 anos, gosto da
minha esposa e me sinto muito bem com ela em todos os momentos. Ela me é sexualmente
muito atraente e não sinto repulsa ou falta de desejo por ela. Porém, confesso que minha vida
sexual deixa muito a desejar. Enquanto sinto necessidade de 2 a 3 relacionamentos semanais,
minha esposa se dá por satisfeita uma vez por mês. Se a solicito acima disso, ela, após uma
tonelada de desculpas que já conhecemos, até me atende, mas com total desinteresse. Minha
esposa é uma obreira abençoada, cheia de virtudes, que só mesmo uma pessoa muito de Deus
possui… Ela acha que sexo é coisa ruim e suja perante Deus. Isso tem tornado nosso
relacionamento um verdadeiro desastre, pois eu estou sempre insatisfeito e não consigo
esconder... Isso me causa um transtorno muito grande, pois, conforme aprendemos, não
devemos sentir saudades das coisas passadas, quando éramos do mundo, mas eu sinto muita
saudade (muita mesmo) da nossa vida sexual antes da nossa conversão, além de estar sempre
insatisfeito, o que me leva, muitas vezes, a desejar outras mulheres, mesmo sabendo que isto
não é correto.‖
Fico pensando no que essa obreira deve orientar quando uma esposa chega para ela
e conta a mesma situação em relação ao seu marido. Ela quer, mas ele não.
O apóstolo Paulo orienta claramente a esse respeito, quando diz:
“O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a
esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e
também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a
153
mulher. Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum
tempo, para vos aplicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que satanás não vos
tente por causa da incontinência.” (1 Coríntios 7:3-5)
O Senhor, através de Salomão, ensina o seguinte com respeito ao ato conjugal
entre marido e mulher:
Depois de exortar o filho a obedecer Sua Palavra e adverti-lo contra a mulher
adúltera, Ele diz:
“Bebe a água da tua própria cisterna e das correntes do teu poço. Derramar-seiam por fora as tuas fontes, e, pelas praças, os ribeiros de águas? Sejam para ti somente e
não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua
mocidade, corça de amores e gazela graciosa.
Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas
carícias. Por que, filho meu, andarias cego pela estranha e abraçarias o peito de
outra?”(Provérbios 5:15-20)
Note que a água aqui simboliza o ato conjugal; a cisterna e correntes do poço, a
esposa. “Sejam para ti somente e não para os estranhos contigo” significa dizer que se ele
não der atenção para ela, outro dará!
“Seja bendito o teu manancial…Saciem-te os seus seios…embriaga-te sempre com
as suas carícias.” São termos profundamente fortes na expressão do ato sexual entre os
casados. Chama muita atenção o ato de ―embriagar‖ de amor. E o que você, meu caro
evangélico, tem a dizer disso? E você, obreira desalmada, o que tem a dizer dessas palavras da
Bíblia?
Será que o seu leito vai continuar dividido para dar chance ao diabo de tentar seu
marido?
Saiba que se ele cair em tentação, você será conivente.
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Deus abra os olhos de todos. Em o Nome do Senhor Jesus, amém!
Deus abençoe abundantemente.
O que fazer? Pode isso? E aquilo? Alem de a fé servir para a justificação diante de
Deus, também serve para eliminar as dúvidas que surgem ao longo da vida. Esse é o maior
beneficio da fé.
Problemas com o casamento, sexo, vinho e outros tantos são de ordem pessoal.
Quem deve dizer para mim como deve ser o meu relacionamento conjugal?
Quem deve ditar normas de conduta no meu casamento?
Quem deve dizer o que devo ou não beber ou comer?
Obviamente, estas são questões puramente individuais e ninguém tem o direito de
conduzir minha vida, salvo a Palavra de Deus.
Mas, e quando a Palavra não é clara com respeito a assuntos de fórum íntimo?
Ora, o Espírito Santo opera em nós instruindo segundo Sua vontade. E quando Ele
instrui, é pela fé que Ele o faz. Logo, a fé é o caminho a seguir.
O que para alguns é pecado, para outros não é. E vice-versa.
O fato é que a paz do Senhor Jesus tem de ser o árbitro em cada coração. Se o meu
coração está em paz com Deus, quem tem autoridade de me dizer o que devo ou não fazer?
É por isso que a gente tem insistido no novo nascimento. Pois quem é nascido do
Espírito é espírito e vive pelo Espírito. Ou seja, pela fé.
Ademais, tudo o que não provém da fé é pecado.
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FIGUEIREDO, Cláudia. A identidade feminina na mídia