UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SEMIÓTICA E LINGUÍSTICA JOSÉ CARLOS JADON SUCESSO E SALVAÇÃO Estudo semiótico comparativo entre os discursos televisivos das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana no Brasil São Paulo 2009 2 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SEMIÓTICA E LINGUÍSTICA SUCESSO E SALVAÇÃO Estudo semiótico comparativo entre os discursos televisivos das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana no Brasil José carlos Jadon Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador: Profa. Dra. Diana Luz Pessoa de Barros SÃO PAULO 2009 3 Para Deus, para minha esposa Gláucia, luz da minha vida, e para os meus filhos Carlos Eduardo, Marcus Paulo, Juliana e Luís Felipe. 4 AGRADECIMENTOS À Profª Drª Diana Luz Pessoa de Barros, pela competência ímpar, meticulosidade e paciência na orientação desta tese. Este trabalho certamente não teria tomado corpo sem a sua preciosa orientação. À Profª Drª Norma Discini, pelas inesquecíveis aulas e importantes sugestões dadas durante o transcorrer do meu curso de doutorado em Semiótica e Linguística Geral, na USP. A todos os professores do pós-graduação, doutorado em Semiótica e Linguística Geral da USP, a cujas aulas e palestras tive oportunidade de assistir, em especial aos professores José Luiz Fiorin e José Vicente S. Pietroforte. Aos meus amigos professores Fernando Herren Fernandes Aguillar e Jairo Postal, pelo incentivo à continuação das pesquisas, nos meus momentos de cansaço e desânimo frente a tanto trabalho. A meu pai Júlio Jadon (in memorian), professor brilhante, de quem herdei o amor pela arte de ensinar; à minha mãe Laura e à minha irmã Yamara, sempre presentes nos momentos importantes de minha vida. Aos amigos diretores, pró-reitores, reitor e chanceler da Universidade São Judas Tadeu, cujo incentivo colaborou sobremaneira com a realização deste trabalho. 5 RESUMO Esta tese é um estudo, com bases na Semiótica de linha francesa, dos discursos televisivos de duas Igrejas de confissão cristã no Brasil: a neopentecostal Universal do Reino de Deus (IURD) e a Católica Apostólica Romana (IC). Desde a década de 1970, pesquisas têm revelado um considerável êxodo de fiéis católicos para as Igrejas protestantes neopentecostais. O aumento dessa mobilidade religiosa acompanhou a multiplicação do número de programas televisivos de pregação. O novo gênero da pregação religiosa de televisão passou a ser de tal forma utilizado para a divulgação das ideologias religiosas, que ambas as Igrejas tornaram-se proprietárias de redes de emissoras de TV. Hoje, além da Rede Record (IURD) e Rede Vida de Televisão (IC), muitas são as emissoras que transmitem os inúmeros programas de pregação religiosa pelo Brasil e pelo mundo. Diante do fenômeno da disseminação de programas desse gênero e, regidos pelas Semióticas greimasiana tradicional e tensiva, descrevemos, analisamos e comparamos as estratégias persuasivas, as paixões, os aspectos tensivos, as estratégias de manipulação, enfim, os mecanismos de significação desenvolvidos pelos pastores e padres-apresentadores dos programas televisivos dessas duas congregações, para, em uma última etapa, estabelecer os ethé discursivos das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana. Palavras-chave: Semiótica, pregação religiosa de televisão, persuasão, éthos, paixões, tensões, manipulação, Igreja Católica, Igreja Universal do Reino de Deus. 6 ABSTRACT This thesis, based on Semiotics of French orientation, is a study on the discourses used on TV by two Christian churches in Brazil: the Neo-Pentecostal Universal Church of the God’s Kingdom (IURD) and the Roman Apostolic Catholic Church (IC). From the 1970s on, researches have revealed a considerable exodus of Catholics to Neo-Pentecostal Protestant churches. The increase in this religious mobility followed the multiplication of religious preaching on TV. This new genre of religious preaching has been so intensively used in the spreading of religious ideologies that both churches have become owners of TV nets. Nowadays, besides Rede Record (IURD) and Rede Vida de Televisão (IC), many other TV stations present a large number of religious programs to Brazil and the world. Motivated by this phenomenon and based on traditional and tensive Greimasian Semiotics, we describe, analyze and compare persuasive strategies, passions, tensive aspects, and manipulating strategies – in other words, all signification mechanisms developed by pastors and priests presenting television programs for either congregations, in order to finally set forth the discursive ethé of The Universal Church of God’s Kingdom and the Roman Catholic Church. Keywords: Semiotics, religious preaching on TV, persuasion, éthos, passions, tensions, manipulation, Catholic Church, Universal Church of God’s Kingdom. 7 RÉSUMÉ Cette thèse est un étude, avec ses bases dans la Sémiotique d’orientation française, des discours de deux églises chrétiennes au Brésil: la Néo-Pentecostal Universal du Royaume de Dieu (IURD) et l’Église Catolique Apostolique Romaine (IC). À partir des années 1970, des recherches ont révélé un considérable exode de fidèles catholiques vers les églises protestantes néo-pentecostales. L’augmentation de cette mobilité religieuse a suivi la multiplication du numéro de programmes de TV de prédication réligieuse. Ce nouveau genre de prédication réligieuse à la TV a été tellement employé pour la divulgation des idéologies réligieuses que les deux églises ont acquises des stations d’émission de TV. Aujourd’hui, en plus que la Rede Record (IURD) et la Rede Vida de Televisão (IC), il y a beaucoup de stations d’émission de TV qui montrent une infinité de programmes qui prêchent la réligion au Brésil et au monde. Devant cette phénomène de dissemination de programmes de ce genre, et appuyés sur la Sémiotique greimasienne et tensive, nous décrivons, analysons et comparons les stratégies persuasives, les passions, les aspects tensifs, les stratégies de manipulation, enfin, les mécanismes de signification développés par des pasteurs et des prêtres présentant des programmes de télévision de ces deux congrégations, pour finalement établir les ethé du discours des églises Universal du Royaume de Dieu et de l’Église Catholique Apostolique Romaine. Mots-clefs: sémiotique, prédication réligieuse à la TV, persuasion, éthos, passions, tensions, manipulation, Église Catholique, Église Universal du Royaume de Dieu. 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Ilustração 1: Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na Rússia........................19 Ilustração 2: Templo da IURD na Inglaterra............................................................19 Ilustração 3: Templo da IURD no Rio de janeiro, Brasil .........................................21 Ilustração 4: A gênese do gênero pregação religiosa de televisão.........................77 Ilustração 5: O Mal, obstáculo entre o sujeito e o objeto de valor...........................91 Ilustração 6: A IURD “adjuvante”............................................................................92 Ilustração 7: Instauração do sujeito envergonhado no discurso da IURD..............99 Ilustração 8: Do desespero à felicidade................................................................102 Ilustração 9: Transformação do sujeito envergonhado em esperançoso.............132 Ilustração 10: Os 318 pastores da IURD sobre o altar..........................................141 Ilustração 11: Padre Fernando J. C. Cardoso, apresentador do programa O pão nosso de cada dia..................................................................176 Ilustração 12: Imagem inicial do programa Encontro com Cristo..........................198 Ilustração 13: Padre Alberto Luiz Gambarini.........................................................198 Ilustração 14: Padre Gambarini ostentando o Santíssimo Sacramento................200 Ilustração 15: O Santíssimo Sacramento..............................................................202 Ilustração 16: Padre Gambarini abençoa a água..................................................213 Ilustração 17: capa do livro Cura das emoções em Cristo....................................223 Ilustração 18: capa do livro Batalha espiritual.......................................................225 Ilustração 19: Metáfora “Pai espiritual”..................................................................234 Ilustração 20: Inversão da orientação da manipulação na prece..........................235 Ilustração 21: Padre Marcelo Rossi......................................................................238 Ilustração 22: Idem................................................................................................239 Ilustração 23: Telespectador pede orações...........................................................241 Ilustração 24: Pedido do sujeito invejado para afastar-se da inveja.....................253 Ilustração 25: Pedido do sujeito invejoso para afastar-se da inveja.....................253 Ilustração 26: ciclo de assujeitamento fiel / IURD.................................................293 Ilustração 27: A IURD, com seu éthos onisciente e onipresente, coloca-se no mesmo lugar enunciativo Deus.................................296 Ilustração 28: A Igreja Católica e seu papel de intermediadora............................299 Ilustração 29: Incursão ao âmago do telespectador por meio da 9 construção de simulacros negativos................................................301 . Ilustração 30: Pregação religiosa católica tradicional de televisão.........................301 Ilustração 31: A pomba nos símbolos católico e iurdiano.......................................310 LISTA DE ESQUEMAS Esquema 1: Da impossibilidade à realização........................................................104 Esquema 2: Contrato oferecido pelos programas de pregação da IURD..............118 Esquema 3: Algumas paixões do /querer-ser/.......................................................139 Esquema 4: Testemunhos vs. citações bíblicas....................................................203 Esquema 5: Fidúcia...............................................................................................220 10 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: O quadrado semiótico.............................................................................33 Gráfico 2: Tensividade.............................................................................................36 Gráfico 3: Valores de absoluto e de universo no gráfico tensivo.............................37 Gráfico 4: Valores e valências.................................................................................39 Gráfico 5: As quatro áreas da tensividade...............................................................40 Gráfico 6: Comparação das áreas tensivas, segundo Hébert (2006)......................41 Gráfico 7: Correlações conversas e inversas..........................................................42 Gráfico 8: Áreas de correlação................................................................................43 Gráfico 9: Esquema de tensão descendente...........................................................45 Gráfico 10: Esquema de tensão ascendente...........................................................45 Gráfico 11: Esquema de tensão da amplificação....................................................46 Gráfico 12: Esquema de tensão da atenuação.............................................. ........47 Gráfico 13: O quadrado da veridicção.....................................................................54 Gráfico 14: Esquema patêmico canônico................................................................57 Gráfico 15: Relação tensiva medo, vergonha/ perdas materiais.............................92 Gráfico 16: Isotopia das coisas do mal..................................................................105 Gráfico 17: Mudança da orientação tensiva: clímax disfórico e recompensa........111 Gráfico 18: Efeito de individuação do testemunho................................................112 Gráfico 19: Gráfico tensivo da totalidade do discurso iurdiano............................115 Gráfico 20: Relação tensiva entre felicidade / acúmulo dos objetos de valor.......120 Gráfico 21: O jogo dos simulacros.........................................................................126 Gráfico 22: Relação tensiva entre medo/ vergonha/ insatisfação e a perda dos objetos de valor.............................................................................131 Gráfico 23: Redução da vergonha e da insatisfação.............................................133 Gráfico 24: Aumento das tensões devido à isotopia temático-figurativa da guerra.............................................................................................138 Gráfico 25: O Bem e o Mal, no quadrado semiótico..............................................148 Gráfico 26: Instauração das paixões disfóricas.....................................................149 Gráfico 27: Diminuição da tensão. Instauração de paixões eufóricas...................150 Gráfico 28: Diminuição do medo. Instauração da confiança/esperança...............151 Gráfico 29: Mudança de orientação tensiva: do desespero à esperança..............152 11 Gráfico 30: Isotopia temático-figurativa da guerra, no gráfico tensivo...................153 Gráfico 31: Esquema tensivo final dos programas iurdianos quando do convite para comparecer à igreja........................................................154 Gráfico 32: O sobe-e-desce do encadeamento tensivo .......................................155 Gráfico 33: O quadrado semiótico em versão tensiva-fórica.................................155 Gráfico 34: Oposição e percurso entre as categorias perdição vs. salvação no programa católico O pão nosso de cada dia......................................188 Gráfico 35: A obscuridade devida à falta de compreensão e o medo da ira divina..................................................................................................190 Gráfico 36: A tensividade da impotência, no início do programa Encontro com Cristo comparada à tensividade do medo no início do programa SOS espiritual, da IURD.....................................................................211 Gráfico 37: Orientação tensiva dos programas católicos O pão nosso de cada dia e Encontro com Cristo..........................................................219 Gráfico 38: Áreas tensivas da confiança, crença, fé (racional e emotiva) e autoconfiança......................................................................................221 Gráfico 39: Semelhança da duratividade da paixão da inveja e o formato do programa Terço bizantino, representados no gráfico tensivo.............247 Gráfico 40: A tensividade do emocional e do racional no Terço Bizantino............251 Gráfico 41: Gráfico tensivo do discurso iurdiano...................................................286 Gráfico 42: Programas de televisão católicos: do racional ao emocional......287/288 Gráfico 43: Sobreposição da tensividade dos programas católicos......................288 12 SUMÁRIO - INTRODUÇÃO.........................................................................................................15 - As trajetórias das Igrejas Universal do Reino de Deus (IURD) e Católica Apostólica Romana, nos últimos quarenta anos............................... 15 - A metodologia utilizada..................................................................................23 - CAPÍTULO I – Fundamentos teóricos..................................................................27 - Perspectiva teórica. A teoria semiótica de linha francesa..............................27 - O modelo tensivo...........................................................................................33 - Valores e valências........................................................................................38 - Os quatro esquemas da tensão.................................................................... 43 - CAPÍTULO II – A pregação religiosa de televisão. Um novo gênero.................63 - Assimilação do discurso televisivo pelo discurso religioso............................68 - Categorias e gêneros dos programas da TV brasileira..................................69 - A pregação religiosa de televisão: um gênero híbrido...................................76 - CAPÍTULO III – Questões de éthos.......................................................................79 - As três espécies do éthos aristotélico............................................................80 - CAPÍTULO IV – Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)...........................................85 - 1º segmento: Simulacros negativos................................................................86 - O Mal, um antissujeito poderoso.............................................................90 - O medo.............................................................................................95 - A vergonha.......................................................................................97 - O desespero...................................................................................100 - A esperança...................................................................................102 - 2º segmento: Testemunhos: doação de esperança.....................................106 - Clímax disfórico, desfecho feliz...................................... 109/110/111 - Efeitos de individuação..................................................................112 - 3º segmento: Convocação para a guerra contra o Mal................................133 - Variação tensiva. Do medo à felicidade..................................138/139/140 - 4º segmento: Encontro com a Igreja/ Deus. Mais esperança......................141 - Uma voz autoritária, dona da verdade..................................................144 - Encadeamento tensivo geral do discurso iurdiano.......................................148 13 - Estratégias de interação entre os sujeitos...................................................156 - Objetos mágicos, fetichização do dinheiro...................................................162 - Efeitos de sentido das figuras......................................................................163 - Isotopia temático-figurativa da guerra..........................................................170 - Isotopia temático-figurativa do mundo material............................................171 - CAPÍTULO V – Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Católica Apostólica Romana.....................................................173 - Análise do programa O pão nosso de cada dia..........................................176 - Figuras e temas.....................................................................................192 - Análise do programa Encontro com Cristo..................................................198 - 1º segmento: Contrato fiduciário e objetos mágicos.............................199 - Efeitos de realidade vs. argumento de autoridade..........................203 - Preces naturais e não naturais........................................................204 - 2º segmento: Simulacros negativos......................................................209 - 3º segmento: Contrato reforçado..........................................................214 - Fé racional e fé emotiva..................................................................218 - 4º segmento: Os recadinhos.................................................................221 - 5º segmento: Apelo por dinheiro...........................................................227 - Estratégias de interação entre os sujeitos............................................259 - Temas e figuras.....................................................................................232 - Análise do programa Terço bizantino..........................................................238 - Sujeito invejado / sujeito invejoso........................................................242 - O terço: ator adjuvante, doador de poder............................................254 - Estratégias de interação entre os sujeitos...........................................259 - CAPÍTULO VI – Comparação entre os aspectos formadores dos ethé da IURD e da Igreja Católica....................................................262 - CAPÍTULO VII – Os ethé das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana..................................................291 - Formação do ciclo de assujeitamento.........................................................293 - Relações de comunicação entre Deus/ IURD/ telespectador.....................296 - Relações de comunicação entre Deus/ Igreja Católica/ telespectador.......299 - CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................304 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................311 - ANEXOS................................................................................................................318 14 SUCESSO E SALVAÇÃO Estudo semiótico comparativo entre os discursos televisivos das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana no Brasil 15 INTRODUÇÃO As trajetórias das Igrejas Universal do Reino de Deus (IURD) e Católica Apostólica Romana, no Brasil, nos últimos quarenta anos. O aumento do número de programas religiosos na televisão é fato que vem sendo notado nos últimos quarenta anos. Tradicionais emissoras alugam seus horários para as mais variadas Igrejas1, normalmente de confissão evangélica pentecostal ou neopentecostal2. Hoje, ao mudarmos de canal, dificilmente não passamos pela transmissão de algum programa de cunho religioso. Pastores, bispos, padres e até os autodenominados apóstolos desfilam pela tela durante as vinte e quatro horas do dia. Enquanto a Rede Vida de Televisão e a TV Canção Nova transmitem programas católicos, outras emissoras com transmissão aberta ─ Gazeta, Bandeirantes, Record e Rede TV ─ transmitem, diariamente, juntas, mais de vinte horas de programação evangélica não-católica3. Paralelamente a essa difusão das Igrejas evangélicas, assistimos a um aumento do contingente dos fiéis que comparecem aos templos dessas religiões. Segundo Campos (1999: 284), a presença protestante4 na TV brasileira durante os primeiros anos de transmissão foi esporádica e sem criatividade. Para o pesquisador, o regime da ditadura militar 1 Estaremos grafando Igreja, com “I” inicial maiúsculo, quando o lexema referir-se à instituição religiosa; com “i” minúsculo quando o lexema significar localidade. 2 FRESTON (1993: 64-82-95) classifica cronologicamente a expansão evangélica no Brasil em três “ondas”: a “primeira onda” são as primeiras Igrejas pentecostais como a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil; a “segunda onda” é constituída pelas Igrejas O Brasil para Cristo, Deus é Amor e Evangelho Quadrangular e a “terceira onda”, formada pelas Igrejas mais recentes, fundadas a partir da década de 1970 e, por isso, neopentecostais, como a Internacional da Graça de Deus (liderada pelo missionário R. R. Soares), Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Apostólica Renascer em Cristo (casal “bispa” Sônia e “apóstolo” Estevam Hernandes) e Universal do Reino de Deus (bispo Edir Macedo). 3 4 Refere-se a diferentes religiões protestantes, neopentecostais ou não. Idem. 16 brasileira, em busca de fidelidade, valorizou práticas que legitimavam obediência às autoridades estabelecidas, o que impulsionou o estabelecimento de um semnúmero de religiões pentecostais e, na Igreja Católica, favoreceu o surgimento de movimentos ultraconservadores, como a TFP (Tradição, Família e Propriedade) e o Movimento Cursilho de Cristandade. A demanda do regime militar por legitimação e fidelidade valorizou práticas religiosas que enfatizavam a obediência às autoridades. Nesse vazio, cresceram várias seitas pentecostais e movimentos conservadores católicos [...] (Campos, 1999: 284) Ao mesmo tempo em que nasciam esses movimentos conservadores no seio católico, grande parte do clero colocou-se contra o governo militar. Essa postura fez a Igreja Católica amargar, durante a ditadura, a cassação de várias de suas emissoras de rádio, incluindo a então famosa Rádio Nove de Julho. Além dessa forçosa parada no tempo causada por um clima político adverso, os católicos também enfrentavam lutas ideológicas internas quanto à transmissão ou não de suas missas pela televisão. Havia correntes clericais partidárias da ideia de que a missa e a eucaristia seriam dessacralizadas, caso transmitidas pela televisão. Enquanto isso, outras religiões descobriam, nos meios eletrônicos de comunicação, o mapa que as levaria inevitavelmente ao encontro de novos fiéis. Pode-se afirmar que, nos dias de hoje, a Igreja Católica no Brasil está formada por três correntes distintas: a tradicionalista, defensora das práticas ortodoxas e conservadoras; a Teologia da Libertação, considerada uma espécie de esquerda eclesiástica e a Renovação Carismática Católica (RCC) que, recuperando a figura do Espírito Santo, tornou-se o movimento de maior vigor. Orações em voz alta, com os braços elevados para o alto, referências a sensações como experiências místicas, manifestações do chamado dom das línguas e reaprendizagem da oração pessoal por meio de uma aproximação do Espírito 17 Santo, até então pouco enfatizado pela Teologia Católica, são características da Renovação Carismática e estão muito próximas das dos cultos neopentecostais. VALLE (2008) ressalta: O Brasil, que rapidamente absorve qualquer novidade religiosa, não tardou em se tornar uma das maiores nações carismáticas católicas do mundo. É impossível dizer quantos são, hoje, os católicos carismáticos do Brasil. Seguramente são vários milhões. Eles representam, nos dias de hoje, a força provavelmente mais organizada e motivada de que dispõe a Igreja Católica em nosso país. Apesar dos esforços do Vaticano e, em especial, da RCC, a supremacia protestante nos meios televisivos é evidente. A Igreja de Roma, na televisão, procura impor seus programas frente aos programas de dezenas de outras religiões. É uma batalha contra várias estratégias discursivas que, parece, está sendo perdida. De acordo com pesquisa5 do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), apresentada à 44ª CNBB, em 2006, a Igreja Católica perdeu, nas últimas décadas, a despeito do crescimento populacional brasileiro, nada menos do que 15 milhões de adeptos. A referida pesquisa também apontou que de cada dez ex-católicos sete tornaram-se evangélicos. Corroborando o trabalho do CERIS, uma inédita investigação do Centro de Ciências Políticas da Fundação Getúlio Vargas (2007)6, baseada em dados do IBGE e entrevistas com mais de duzentos mil brasileiros, mostrou que o número de evangélicos no Brasil, de 2000 a 2003, passou de 15 para 18% da população. Em números absolutos, isso significa um aumento de seis milhões de indivíduos. Essa pesquisa também mostrou que a perda de fiéis da Igreja Católica foi de 1% ao ano 5 A pesquisa Mobilidade Religiosa no Brasil – 2004 foi coordenada pela doutora em Ciências Sociais Sílvia Regina Alves Fernandes e apresentada à CNBB. O trabalho abrangeu cinquenta municípios brasileiros, sendo 23 capitais, e foi realizado entre agosto e novembro de 2004. 6 NERI, M. C.; CARVALHAES, L.; MONTE, S. dos R. M. Economia das Religiões: Mudanças Recentes. Rio de Janeiro: CPS/IBRE/FGV, 2007. 18 durante a década de 90. Em 1991, havia 83,3% de católicos e 9% de evangélicos na sociedade brasileira. No Censo de 2000, a proporção de católicos caía para 73,9% e os evangélicos totalizavam 15,6%. Surpreendentemente, porém, o número de católicos estabilizou-se a partir do ano 2000 até 20037. Mesmo assim, o número de evangélicos continuou crescendo. Esse aumento, afirma a pesquisa, é originado principalmente pela ampliação do número de pastores, 3.7 vezes maior do que o número de padres, ou seja, a relação do número de pastores por fiel evangélico é 17.9 vezes maior que a relação do número de padres por fiel católico. Outro fator relevante levantado nas pesquisas é o fato de que as Igrejas evangélicas se estabeleceram nas periferias atendendo às necessidades de acolhimento não só espiritual, mas também social (creches, abrigos para idosos, doações de roupas e alimentos) das populações mais pobres e carentes. Não é incomum haver, no interior de favelas, pequenas igrejas de várias denominações não-católicas. Projeções da mesma pesquisa mostram que, apesar da sangria de fiéis católicos ter estacionado, no ano de 2015 a população evangélica deverá corresponder a 20% dos brasileiros, registrando um considerável aumento. O principal motivo da paralisação do êxodo católico foi atribuído a certa melhoria da condição social da população católica mais pobre que, por isso, deixou de procurar novas religiões. A busca do auxílio da religião pela melhoria das condições socioeconômicas é histórica. Grosso modo, no início do século XX, o sociólogo Max Weber, em sua 7 Não há dados fornecidos por pesquisas relativas aos anos seguintes, para que possamos ter uma visão mais próxima da distribuição religiosa no ano de 2009. O último censo do IBGE ocorreu no ano 2000. As pesquisas mais recentes são da Fundação Getúlio Vargas, publicadas em 2007, baseadas, porém, em dados levantados em 2000 e 2003. 19 obra A ética protestante e o espírito do capitalismo (1989) já tentava explicar o maior desenvolvimento do capitalismo e o maior número de empresários e de mãode-obra mais qualificada nos países de confissão protestante, procurando disseminar a impressão de que os católicos optavam por uma vida mais frugal e, por isso, diferenciavam-se dos Ilustração 1- A IURD, Rússia protestantes. Essa impressão era decorrente da pesquisa8 de um estudioso alemão, Martin Offenbacher, que atribuía aos católicos um menor ímpeto aquisitivo somado a uma vida mais conformada com a frugalidade, imagem refletida pelo provérbio “entre bem comer ou bem dormir, há o que escolher”. O católico deveria ser feliz abrindo mão dos bens materiais. Atribuía-se ao protestante a preferência por saciar-se e ao católico a opção por dormir sem ser perturbado. A culpa pregada pela doutrina católica condenava o acúmulo do capital9 ─ Ilustração 2- A IURD, Inglaterra fundamental no Capitalismo ─ e não via com bons olhos a predisposição ao estudo e ao trabalho em função da riqueza, adiando a felicidade para após a vida. O ensino superior católico da época voltava-se exclusivamente à formação humanística enquanto o protestante, em especial o calvinista, procurava dar uma formação mais voltada à manutenção do capital e à mão de obra qualificada para o trabalho nas empresas capitalistas, nas quais, inclusive, era possível atingir o sucesso profissional. 8 Confissão e estratificação social (1901). Para Neri (2007: 31), a tese weberiana original é de que o estilo de vida católico jogava para a outra vida a conquista da felicidade. A culpa católica inibiria a acumulação de capital e lógica da divisão do trabalho, motores fundamentais do desenvolvimento capitalista. 9 20 Considerando os resultados das mais recentes pesquisas brasileiras sobre a mobilidade religiosa10, os quais têm atribuído o aumento do protestantismo no país a fatores socioeconômicos, surpreendeu-nos sobremaneira a não inclusão, em seus questionários, de questões relativas à influência do discurso religioso disseminado pela televisão, fundamental no processo persuasivo que impele o telespectador a procurar uma ou outra religião. A televisão divulga e propaga as ideias das Igrejas, por isso ela é, a nosso ver, decisiva nas questões da adesão e da mobilidade religiosa (mudança de religião). Sem suas transmissões quase não haveria propaganda e o fiel, rico ou pobre, não saberia a quem recorrer. Se hoje, ainda de acordo com as pesquisas do CERIS e da Fundação Getúlio Vargas, as religiões protestantes neopentecostais influenciam muito mais as camadas mais pobres da população, e a Católica as camadas mais bem servidas, interessa-nos sobremaneira conhecer, sob o olhar da semiótica de linha francesa, quais estratégias discursivas a neopentecostal IURD e a Católica têm utilizado em seus programas televisivos para atingir os destinatários, para, então, verificarmos quais os graus de eficiência desses discursos. Têm os discursos católico e iurdiano de TV produzido os efeitos desejados para atrair novos adeptos? Até que ponto as estratégias discursivas dessas Igrejas têm ou não evitado a perda de fiéis para outras religiões? Dentre as religiões neopentecostais, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) chamou a nossa atenção por ser ─ concomitantemente ao aumento de seu espaço na televisão ─ a que mais cresceu no país e no mundo, nos últimos anos. Com suas ideias divulgadas por meio de uma forte mídia mundial (redes de TV, 10 As pesquisas mais recentes e completas sobre a mobilidade religiosa e o aumento da fé pentecostal no Brasil são: Economia das religiões (2007) e Retratos das religiões no Brasil (2007), ambas promovidas pelo Centro de Políticas Sociais da FGV e a Mobilidade religiosa no Brasil (2004), feita pela CERIS-Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, a pedido da CNBB. 21 rádios, jornais, revistas, internet), a Universal conta apenas com pouco mais de trinta anos, desde sua fundação pelo bispo Edir Macedo, no galpão de uma funerária. Essa é, atualmente, a Igreja que mais utiliza a televisão no Brasil, sendo, inclusive, ligada a uma grande rede de comunicação, a Record. São treze mil templos, espalhados por cento e setenta e dois países, centenas deles construídos de forma exuberante, como podemos ver em São Paulo, nos bairros do Brás ou de Santo Amaro. Modernos e confortáveis megatemplos (ilustrações 1, 2 e 3) espalham-se pelo Brasil e pelo mundo às dezenas e normalmente oferecem heliporto, ar-condicionado, telões, restaurantes fast-food franquiados, livraria, além de estacionamento gratuito para mais de quinhentos automóveis. Na contramão dessa ascensão neopentecostal vem a Igreja Católica que, como mostram as citadas pesquisas, perdeu quinze milhões dos seus fiéis apenas nos últimos anos, apesar de contar igualmente com o poder de divulgação da mídia. Interessados pela imensa Ilustração 3- IURD, Rio de Janeiro proliferação e influência dos pela notável programas religiosos de televisão, em particular pelos da Igreja Universal do Reino de Deus, analisamos, em nossa dissertação do Mestrado11, sob a luz da teoria semiótica de linha francesa, alguns programas produzidos pela IURD, apresentados por pastores ou bispos, a partir dos quais estabelecemos as características discursivas dessa Igreja. Nesse trabalho, levantamos quatro hipóteses relevantes para o efeito da mobilidade 11 Sob orientação da Profa. Dra. Diana Luz Pessoa de Barros, apresentamos, em 2005, no programa de mestrado da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a dissertação “A ideologia do Sucesso. Uma análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus”. 22 religiosa no Brasil, particularmente no que se refere ao crescimento da IURD e à retração do número de fiéis católicos: (a) O discurso de televisão de cada uma das Igrejas ─ Católica e Universal ─ tem sido fundamental12 para a decisão do indivíduo de aderir ou não a uma ou a outra religião. Isso justifica uma análise semiótica mais aprofundada, com lentes sobre os dois discursos; (b) O discurso televisivo adotado pela IURD, se comparado ao discurso televisivo católico, apresentaria técnicas persuasivas mais eficazes para levar os fiéis à aceitação e à adesão do contrato proposto pela Igreja; (c) O éthos da IURD parece refletir uma unidade, uma mesma voz repetida em cada programa de TV, independentemente do pastor-apresentador. Esse éthos, gerado pela criação de um poderoso e transcendental inimigo ─ o Mal13, o encosto, o Diabo ─ e concretizado na perda material, parece ser persuasivo bastante para cumprir seu objetivo principal: tirar o telespectador de casa e atraí-lo ao templo. O mesmo provavelmente não ocorre no discurso televisivo da Igreja Católica já que os padres-apresentadores dos programas percorrem percursos narrativos aparentemente diferentes e independentes, resultando em um éthos discursivo fragmentado. (d) Acreditamos que a pregação religiosa de televisão é um gênero híbrido, pois deriva, ao mesmo tempo, de vários discursos (religioso, televisivo, jornalístico, jurídico, teatral). Cremos, também, que esse gênero tende a propagar-se ainda mais, uma vez que as Igrejas vêm aproveitando a modernização da mídia 12 Para se ter uma ideia dessa importância, a interrupção do êxodo de fiéis católicos para as religiões pentecostais, registrada do ano 2000 a 2003, coincidiu com o aumento do número de padresapresentadores e de programas católicos na TV. Mesmo assim, segundo a Fundação Getúlio Vargas – relembramos – o contingente de evangélicos continuou aumentando. 13 Estaremos grafando Mal com “M” maiúsculo quando o lexema representar o antissujeito, a entidade poderosa e difusa disseminada pelo discurso da IURD. 23 televisiva, por meio do aluguel de horários e da aquisição de emissoras ou de redes de TV inteiras. A metodologia utilizada O objetivo precípuo deste trabalho é, pois, o estabelecimento do éthos do enunciador do discurso da pregação religiosa de TV das Igrejas em pauta, relevante no processo de persuasão religiosa, de adesão a outra religião e, portanto, nas mudanças sociais do país. Tomamos, portanto, especial cuidado na escolha do corpus de análise. Para tanto, recorremos a Norma Discini (2003: 3136), com vistas a estabelecer o critério de escolha dos recortes-base da pesquisa. Levamos, então, em consideração, a noção de que o éthos, resultado das diferentes recorrências discursivas, está definitivamente ligado à totalidade dos discursos concretizada a partir de várias partes que, juntas, levam-nos a obter o todo. O efeito de individuação, como chama Discini, base do estilo/éthos, desponta do eixo totus/unus. Ao falar em estilo, falamos em unidade e em totalidade; unidade, porque há um sentido único, ou um efeito de individuação; totalidade, porque há um conjunto de discursos, pressuposto à unidade. Unidade e totalidade são universais quantitativos. (Discini, 2003: 31) Não se pode apreender o éthos do enunciador numa obra individual, porque, nesse caso, estar-se-ia captando uma imagem que seria a do narrador, mas que não se poderia dizer, com segurança, que seria a do autor, uma vez que as representações dessas duas instâncias enunciativas podem diferir radicalmente uma da outra. Só se tem certeza de que se está diante da imagem do enunciador quando ela se reitera na totalidade da obra. (Fiorin, 2008b: 56) Para a constituição do corpus da tese, demos os seguintes passos: -Constituição do omnis (a totalidade numérica dos programas, sem a perspectiva do que eles têm em comum): avaliamos a programação religiosa apresentada na televisão (missas, cultos, programas de oração, programa de 24 música cristã, entrevistas e vários outros), produzida pela Igreja Católica e pela Universal do Reino de Deus. -O totus da pesquisa (a totalidade integral dos programas, considerando o que eles têm em comum) ficou constituído pelos programas do gênero da pregação religiosa, divididos em duas totalidades (ou dois unus) ─ a da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) e a da Igreja Católica ─ já que a análise pretende mostrar a distinção entre os processos de construção dos discursos das duas Igrejas (sob a visão da semiótica de linha francesa). Destarte, procederemos à análise semiótica de trechos de programas religiosos produzidos pela IURD e pela Igreja Católica, transmitidos entre janeiro de 2007 e janeiro de 2008. Nos anexos inserimos, também, textos de programas muito recentes (apresentados durante o ano de 2009) das duas Igrejas, dos quais utilizamos alguns exemplos, com a finalidade de demonstrar que as estratégias discursivas se mantiveram iguais ao longo do tempo de produção deste trabalho. Da Igreja Universal do Reino de Deus, escolhemos programas conduzidos por pastores-destinadores que se propõem a ajudar o destinatário-telespectador na solução de todos os problemas, sejam de ordem financeira, de saúde, familiares, afetivos ou espirituais. Essa programação é gravada nos estúdios de propriedade do bispo Edir Macedo, e transmitida durante as madrugadas ou manhãs, pela TV Record ou Gazeta. São apresentados, de meia em meia hora, programas de formato semelhante: um ou dois pastores, sentados ou em pé, próximos a uma mesa do tipo “executivo” e, quase sempre, diante de uma moderna tela de plasma, tentam 25 convencer o público a sair de casa para ir ao templo da IURD. Com essa intenção, várias vezes o pastor interrompe estrategicamente sua própria fala para delegar a palavra a fiéis que, entrevistados, narram a “virada” ocorrida em suas vidas como o sucesso financeiro, a solução para os desencontros afetivos, a cura de doenças graves, conseguidos somente depois que resolveram frequentar os templos da Universal. São os chamados testemunhos. Várias imagens do templo, sempre lotado, são inseridas durante a fala do agente religioso. Há também, durante todo o transcorrer dos programas, pequenas produções teatrais (de cinco minutos cada uma, aproximadamente) em que artistas encenam a “tragédia iminente” a que está sujeito o destinatário-telespectador (desemprego, doenças graves, traição amorosa), caso este não compareça às reuniões nos templos da Igreja Universal. Os programas da IURD submetidos à análise intitulam-se Ponto de luz, Nosso tempo, A hora dos empresários que, sob a legenda SOS Espiritual, são apresentados por diferentes pastores ou bispos. Por opção metodológica, na abordagem semiótica das estruturas narrativas, esses programas serão analisados separadamente. Entretanto, o conjunto desses segmentos será analisado como um todo durante a abordagem dos níveis fundamental e discursivo. Da Igreja Católica, analisaremos três programas muito conhecidos pelos telespectadores que acompanham a programação da Rede Vida de Televisão (rede de emissoras de propriedade da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil), pois há anos esses programas são apresentados. São eles: O pão nosso de cada dia, com duração aproximada de 4,5 minutos, apresentado pelo padre Fernando J. C. Cardoso, doutor em Ciências da Religião, cujo papel invariavelmente é o de explicar trechos da Bíblia; o Encontro com Cristo, apresentado pelo padre Alberto Luiz Gambarini, vigário da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, de Itapecerica da 26 Serra, e o Terço bizantino, cujo apresentador, padre Marcelo Rossi, praticamente atém-se a repetir as jaculatórias. Todos os programas, como veremos, pertencem ao gênero da pregação religiosa. Este trabalho conta, portanto, com a seguinte estrutura: - Introdução – As trajetórias das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana, no Brasil, nos últimos quarenta anos. - Capítulo I – Fundamentos teóricos; - Capítulo II – A pregação religiosa de televisão, um novo gênero; - Capítulo III – Questões de éthos; - Capítulo IV - Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus; - Capítulo V – Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Católica Apostólica Romana; - Capítulo VI – Comparação entre os aspectos formadores dos ethé discursivos extraídos dos programas de televisão das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana. - Capítulo VII – Os ethé das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana. - Considerações finais; - Referências bibliográficas; - Anexos. 27 CAPÍTULO I – FUNDAMENTOS TEÓRICOS A perspectiva teórica – a teoria semiótica de linha francesa Diferentemente dos estudos linguísticos anteriores à década de 60, que estabeleciam a frase como limite da significação, a semiótica de linha francesa, sob a condução do lituano Algirdas Julien Greimas e do Grupo de Investigações Semiolinguísticas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, preocupa-se com o texto, mais especificamente com o sentido do texto. Em sua obra Semântica estrutural (1966: 30), Greimas afirma: os signos, unidades constitutivas ou monemas, são elementos secundários na pesquisa da significação porque a língua não é um sistema de signos, mas uma reunião [...] de estruturas de significação. A semiótica greimasiana não trabalha, assim, com sistemas de signos, mas com processos de significação. Essa semiótica, base deste trabalho, também conhecida como da Escola de Paris, vê a língua como uma instituição social, pois está fundamentada nos postulados e na concepção de língua de Saussure. A Escola de Paris se diferencia de outra escola tradicional, conhecida como semiótica americana, desenvolvida a partir das obras do filósofo Charles Sanders Pierce (1839 -1914). No dizer de Bertrand (2003:13-14), semioticista francês: [a semiótica de Pierce] atém-se especialmente ao modo de produção do signo (os esquemas inferenciais do raciocínio: dedução, indução, abdução) e à sua relação com a realidade referencial pela mediação do “interpretante” (de onde provém a tipologia dos signos: ícone, índice, símbolo). É uma semiótica lógica e cognitiva, desvinculada de qualquer ancoragem nas formas linguageiras. Um terceiro grupo de semioticistas, dentre os quais se destacam Lotman e Uspenski, é conhecido como Escola de Tartu. Há uma controvérsia relacionada a 28 uma suposta influência dos formalistas sobre essa escola. Alguns afirmam que há uma relação direta de continuidade do formalismo (1914-1930) sobre os semioticistas russos, a partir da década de 60; outros teóricos, ainda, asseveram que o formalismo foi um dos marcos no desenvolvimento da consciência semiótica da Rússia, mas que não houve uma pura e simples continuidade. Já a semiótica de linha francesa, que passaremos, daqui por diante, a chamar apenas de “semiótica”, fundou suas bases metodológicas no Curso de linguística geral, de Saussure e, sobretudo, na visão saussureana de Hjelmslev. O sentido, nesse quadro teórico, constrói-se através das relações de alteridade, da diferença, como afirma Fiorin (2001:15): [...] cabe lembrar ainda uma coisa. O homem, depois da queda, é um ser cindido, a ordem da linguagem passa a ser diferente da ordem do mundo. Essa cisão leva ao fato de que todo discurso se constrói numa relação polêmica, é constitutivamente heterogêneo, trabalha não sobre a realidade mesma, mas sobre outros discursos [...]. Só a Palavra divina e a do homem antes da queda não se constroem na alteridade. Assim, a teoria da Escola de Paris não demarcou seus limites nos domínios do signo nem da frase, mas nos do texto, apresentando-se como uma teoria da significação preocupada em elaborar conceitualmente as condições de apreensão e de construção do sentido. Além de partir da linguística de Saussure e de seu seguidor Hjelmslev, a semiótica agregou em sua evolução a linguística da enunciação, desenvolvida, entre outros, nos trabalhos de Émile Benveniste que, segundo Barros (2001: 3), caracteriza o discurso pelas relações que se estabelecem entre indicadores de pessoa, tempo, espaço do enunciado e a instância de sua enunciação, e a antropologia cultural, investigando, em primeiro lugar, os usos culturais do discurso que regulam a palavra individual. O antropólogo Claude Lévi-Strauss 29 influenciou sobremaneira o estabelecimento do modelo das estruturas fundamentais da teoria semiótica, com as relações lógicas entre contrários e contraditórios, desenvolvidas a partir de seu trabalho sobre sistemas de parentesco nas sociedades indígenas. Outra obra de grande influência sobre a análise estrutural da narrativa foi Morfologia do conto russo, de Vladimir Propp, pois descreve as recorrências narrativas nos contos maravilhosos da Rússia. Essas recorrências ou invariantes narrativas geraram, mais tarde, técnicas e métodos propostos para todos os tipos de textos, ou seja, os figurativos (como, por exemplo, os literários) e os temáticos (como os científicos, entre outros), sejam eles verbais ou não verbais. Finalmente, foi da Filosofia, mais precisamente da fenomenologia, com os estudos de M. Merleau-Ponty sobre a percepção, que a semiótica extraiu, mesmo que levemente, parte importante de sua concepção de significação, especialmente no que tange à figuratividade. Greimas considera a figuratividade, característica central da literatura, como a “tela do parecer”. Bertrand (2003: 21) afirma que a figuratividade faz surgir aos olhos do leitor a ‘aparência’ do mundo sensível. Essa percepção aciona o contrato de veridicção que comanda os jogos de parecer do sentido: verdade, falsidade, segredo e mentira. Aqui encontramos a ascendência da fenomenologia. Deixemos claro que a influência dessas disciplinas serviu apenas como um balizamento na formação da nova ciência, pois a semiótica da Escola de Paris tem, entre as ciências da linguagem, singularidade teórica e metodológica. A semiótica de Greimas, portanto, ao ultrapassar os limites do signo e da frase, tem como objeto de estudo o texto e seus significados. 30 Esse “novo projeto de ciência”, como o chama Tatit (2004: 187), projeta suas teorias sobre o sentido, descrevendo e explicando o que o texto diz e quais as estratégias utilizadas para dizer o que diz. Aprofunda-se, pois, sobremaneira em quatro dimensões: a dimensão narrativa, a figurativa, a enunciativa e a dimensão passional. Para que se possa abordar teoricamente o processo da análise semiótica da Escola de Paris, é de suma importância que se estabeleça o conceito de texto por ser esse o seu objeto. Muitas são as definições, mas adotamos a concepção de Diana Luz Pessoa de Barros, em Teoria semiótica do texto (2002: 7-8), em que o texto só existe quando concebido na dualidade que o define – objeto de significação e objeto de comunicação. É objeto de significação por ser um “todo de sentido”. Para descrever o texto, partindo desse conceito, recorre-se à análise “interna” ou estrutural. É objeto de comunicação por ser um objeto cultural envolvido em um contexto sócio-histórico, inserido em uma determinada sociedade. Requer, por conseguinte, uma análise “externa”. Dessa forma, a semiótica procura analisar os procedimentos de organização textual (análise “interna”) bem como, e simultaneamente, os mecanismos de produção e recepção (análise “externa”). Dessa necessidade de análise dos aspectos de produção, externos ao texto, decorre a grande importância que se dá ao conceito da enunciação. Na sua busca por uma teoria geral, a semiótica analisa o sentido dos textos, examinando o plano do conteúdo, sem, contudo, deixar de reconhecer o plano da expressão como fator de importância para a significação. Destarte, considerando-se as características enunciativas e a organização interna, são textos-objetos da semiótica, dentre outros, produções táteis, olfativas, orais ou escritas (contos, romances, poesias, conversas, artigos de jornal, sermões, aulas), visuais ou 31 gestuais (gravuras, fotografias, danças, aquarelas), sincréticas de mais de uma expressão (filmes, histórias em quadrinhos, programas de TV, propagandas). Na análise do discurso sob o ponto de vista de Greimas, deve-se admitir que o trabalho de construção do sentido tem a imanência como ponto de partida para se chegar à aparência. Na imanência estão as leis que produzem o discurso; na aparência está a sua manifestação. A semiótica encara o discurso como sendo superposições de níveis de profundidade diferentes, articulados de acordo com um percurso que parte do mais simples (e mais abstrato) ao mais complexo (e mais concreto). Barros (2001:15) alerta: a noção de percurso gerativo é fundamental para a teoria semiótica. Prevê-se a apreensão do texto em diferentes instâncias de abstração e, em decorrência, determinam-se etapas entre imanência e aparência. Esse percurso no plano do conteúdo, do nível mais profundo ao mais superficial, apresenta três etapas ou níveis – o das estruturas fundamentais, o das estruturas narrativas e o das estruturas discursivas – podendo ser, cada um deles, explicado por uma gramática autônoma, constituída por sintaxe e semântica. O sentido do texto, porém, depende da relação entre os três níveis. O percurso gerativo do sentido é uma “viagem” que passa por três “estações” (os níveis – ou etapas – das estruturas fundamentais, narrativas e discursivas) para chegar ao “destino” (o significado). É no nível fundamental que estão as categorias semânticas básicas da construção do texto. Assim, é nesse nível que se encontram, segundo uma classificação qualitativa, as categorias eufóricas (atraentes ou positivas) ou disfóricas (repulsivas ou negativas) e intensas ou extensas, segundo uma classificação quantitativa. Da oposição entre essas categorias, característica de todo e qualquer texto, surge o sentido. Por conseguinte, o sentido resulta da oposição, da 32 diferença, da descontinuidade entre categorias semânticas. Por exemplo, nos textos estudados nesta tese, como veremos, opõem-se várias categorias, dentre elas a /pobreza/ vs /riqueza/, respectivamente, disfórica e eufórica. Tem razão Fiorin (2002: 20) quando afirma que os valores eufóricos e disfóricos “não são valores determinados pelo sistema axiológico do leitor, mas estão inscritos no texto”. Em outras palavras, só o texto nos dirá se os termos de uma oposição semântica pertencem a uma ou a outra categoria. “Riqueza”, a princípio, uma categoria eufórica, pode ser disfórica se, na narrativa, for motivo de desavenças e de desgraças. Em algumas religiões, por exemplo, a riqueza é uma categoria disfórica por impedir a entrada dos homens no reino de Deus. Estabelecidas, no nível fundamental, as categorias semânticas opostas que gerarão o sentido, operações lógicas de negação e de asserção determinarão percursos que são condição para que haja narratividade.14 pobreza não-pobreza riqueza Portanto, se considerássemos apenas o percurso acima, os textos em análise, nesta tese, tratariam, dentre outros assuntos, da transformação do estado de pobreza ao de riqueza. Os termos dessas oposições semânticas são, na sintaxe fundamental, visualizados no “quadrado semiótico” (gráfico 1), um modelo lógico de relações: 14 Em Fiorin (2002: 21), encontramos: Na realidade, é preciso fazer uma distinção entre narratividade e narração. Aquela é componente de todos os textos, enquanto esta concerne a uma determinada classe de textos. A narratividade é uma transformação situada entre dois estados sucessivos e diferentes. Isso significa que ocorre uma narrativa mínima, quando se tem um estado inicial, uma transformação e um estado final. 33 relaxamento tensão (euforia) (disforia) riqueza---------------------------------------pobreza ---------- termos contrários ______ termos contraditórios termos complementares operação de negação operação de afirmação não-pobreza------------------------------não-riqueza (não-disforia) (não-euforia) distensão intensão (gráfico 1: quadrado semiótico) O modelo tensivo Os mais recentes estudos semióticos (conhecidos por semiótica tensiva) procuram ampliar ainda mais a visão do arranjo geral do discurso. Essa teoria, com bases construídas na própria semiótica de Greimas, é uma opção eficaz para que se chegue a uma análise mais apurada das questões deixadas em suspenso pela semiótica clássica. A conjugação das duas grandes dimensões da significação ─ o sensível e o inteligível ─ desenvolvida nos estudos da tensividade promete ser deveras útil na análise da pregação religiosa. Abaixo segue um resumo de suas propostas teóricas das quais utilizaremos algumas durante o transcorrer das análises aqui apresentadas. Em publicação recente, Jacques Fontanille (2007: 58) ressalta: A estrutura tensiva é um modelo que procura responder às questões deixadas em suspenso pelos modelos clássicos. Na verdade, ela situa a representação das estruturas elementares na perspectiva de uma semântica do contínuo. Além disso, articulando o espaço tensivo das valências e um espaço categorial dos valores, a estrutura tensiva conjuga as duas grandes dimensões da significação: o sensível (os estados da alma) e o inteligível (os estados das coisas). 34 Registramos que, por ser um desenvolvimento recente de parte da semiótica, ainda há poucas publicações a respeito. Atualmente, são conhecidos os estudos sobre a estrutura tensiva desenvolvidos, principalmente, por Jacques Fontanille e Claude Zilberberg, a partir da década de noventa. Mais recentemente, no Brasil, obras de qualidade que recorrem à teoria da tensividade foram publicadas por Luís Tatit, Ivã Carlos Lopes e António Vicente Pietroforte, dentre outros. Caracterizados por complementar ou aperfeiçoar a semiótica tradicional, especialmente no que se refere ao nível fundamental do percurso gerativo dos sentidos, os estudos da estrutura tensiva dos textos procuram estabelecer uma semântica do contínuo ao desvelar, em termos de grandeza, as paixões e a sua abrangência. É no nível fundamental que são escolhidos os valores pelo enunciador. Nesse plano ─ o mais profundo ─ serão constituídos os valores-matrizes das funções narrativas, das modalidades, da espacialidade e da temporalidade os quais serão devidamente consolidados nos estratos de superfície do percurso gerativo (Tatit, 2002: 18). A semiótica tensiva volta-se, dessa forma, para o nível fundamental, e atribui particular importância à dicotomia intensidade/extensão e às modalidades existenciais (ou modos de existência); a tensividade é o lugar de união entre a intensidade (o sensível, os estados de alma) e a extensão (o inteligível, os estados de coisas). Referindo-se a esse modelo de análise, Pietroforte (2008: 62) destaca: Se o sentido é organizado em uma rede de relações semióticas, cada um dos termos simples que compõem a categoria encontra sua definição em relação ao outro [...]. Essa relação pode ser abordada de, pelo menos, duas maneiras: ou o ponto de vista insiste nos termos simples, enfocando os elementos descontínuos que formam a relação; ou insiste na relação propriamente dita, enfocando a tensão que a constitui. 35 A tensividade é o lugar imaginário da junção entre o sensível e o inteligível. É o lugar que trata da continuidade que se instaura por meio das tensões. Zilberberg (2006: 169) ressalta ser possível qualificar toda grandeza em termos de intensidade e de extensão (ou extensidade)15. Pietroforte (2008: 63), por sua vez, explica essa asserção: Quando uma grandeza é tomada de modo contínuo, em gradações que recebem orientações, ela é chamada de profundidade (Fontanille e Zilberberg, 2001: 20). A liberdade, por exemplo, assim como a opressão, não são grandezas definidas absolutamente; há gradações de diferentes graus em cada uma delas que variam da não-liberdade para a liberdade e da nãoopressão para a opressão, respectivamente. Tais gradações ─ da negação à afirmação de cada termo simples ─ constituem orientações; portanto, há a definição de duas profundidades, uma da liberdade e outra da opressão. Na relação entre duas profundidades, uma define a intensidade e a outra, a extensidade. Desse modo, é da ordem da intensidade a profundidade que recebe a tonicidade sensível, capaz de demarcar, em meio à extensidade, acentuações “tônicas”; e é da ordem da extensidade a profundidade que demarca como o fluxo de atenção está condicionado. Claude Zilberberg (2006: 169) afirma haver uma permanente desigualdade criadora do sensível sobre o inteligível, uma prevalência ou predominância do sentimento (o sensível) sobre a compreensão (o inteligível), uma vez que os estados das coisas estão na dependência dos estados da alma. Sempre enfocando o processo da continuidade provocada pelas tensões, o semioticista ressalta a possibilidade de descrever a estrutura fundamental da significação no espaço tensivo formado entre os eixos da intensidade e da extensidade. A intensidade e a extensão são consideradas dimensões que englobam, respectivamente, as subdimensões andamento/tonicidade e temporalidade/espacialidade. Essa relação pode ser assim representada (Zilberberg, 2006: 175): 15 Referindo-nos à semiótica tensiva, tratamos os termos extensão e extensidade como sinônimos. 36 Tensividade dimensões intensidade extensidade (ou extensão) subdimensões andamento tonicidade temporalidade espacialidade gráfico 2: tensividade Qualquer valor, no modelo tensivo, é resultado da combinação dessas duas valências, a intensidade e a extensão. A intensidade diz respeito à medida; a extensão diz respeito à contagem. Fontanille (2007: 75) afirma, ainda, que Antes de qualquer categorização, uma determinada grandeza é, para o sujeito do discurso, primeiramente uma presença sensível. Essa presença exprime-se, segundo nós mesmos, ao mesmo tempo em termos de intensidade e em termos de extensão e de quantidade. Qual seria, por exemplo, a qualidade de presença dos objetos naturais? Antes de identificar esta ou aquela matéria, este ou aquele elemento, reconhecemos suas propriedades táteis ou visuais: o quente e o frio, o liso e o áspero, o visível e o invisível, o móvel e o imóvel, o sólido e o fluido. São essas qualidades sensíveis que podem ser avaliadas segundo as duas grandes direções que propomos. [...] Portanto, cada efeito da presença associa ― para ser qualificado, de fato, como “presença” ― um certo grau de intensidade e uma certa posição ou quantidade na extensão. A presença conjuga, em suma, forças, de um lado, e posições e quantidades, de outro. Como síntese da teoria, recorremos a Hébert (2006: 36) que, em trabalho de esquematização da tensividade, explica os principais postulados teóricos associados à semiótica tensiva, proposta por Jacques Fontanille e Claude Zilberberg: 37 1- A intensidade e a extensão determinam, respectivamente, o plano do conteúdo (o plano dos significados) e o plano da expressão (o plano dos significantes). Desde que todo signo se origina da junção desses dois planos, qualquer signo é teoricamente descrito em termos tensivos; 2- À intensidade importa a percepção (e/ou os estados da alma, o sensível); à extensão importa o inteligível, o compreensível; 3- A intensidade refere-se aos estados da alma (paixões) e a extensão aos estados das coisas; 4- A intensidade refere-se ao nível de percepção originada por um estímulo interno ao sujeito; a extensão refere-se à percepção de um estímulo de origem externa; 5- Para Pietroforte (2008: 66), a intensidade produz valores de absoluto e a extensidade, de universo. Em termos de organização política, as propostas do socialismo utópico e das comunidades hippies são exemplos de forma extensiva, e as monarquias e as ditaduras, da intensiva. Daí a proposta de Fontanille e Zilberberg (2001: 47) relativa ao esquema abaixo: intensidade valores de absoluto valores de universo extensidade gráfico 3: Intensidade e Extensidade – valores de absoluto e de universo 38 6- O domínio interno e intensivo (ou intenso) impõe uma orientação denominada visada; o domínio externo e extensivo (ou extenso) impõe a orientação denominada apreensão (ver gráfico 4, dos valores e valências, a seguir). No gráfico representativo da tensão, a visada corresponde ao eixo vertical e a apreensão, ao eixo horizontal. Segundo Fontanille (2007: 78), os graus de intensidade e de extensão, sob o controle das operações da visada e da apreensão, tornam-se graus de profundidade perceptiva; 7- A intensidade (representada no eixo vertical ou da visada) corresponde aos sentimentos (paixões), ao afeto; a extensão (representada no eixo horizontal ou da apreensão) ao conhecimento, ao contável, à compreensão; 8- A intensidade está dividida em duas subdimensões: andamento (tempo) e tonicidade; a extensão também está dividida em duas subdimensões: temporalidade e espacialidade; 9- As duas funções básicas da intensidade são o aumento e a diminuição; as funções básicas da extensão são a classificação (a qual aumenta a variedade e/ou o número) e a combinação (que diminui a variedade e/ou o número); 10- O modelo tensivo pertence a uma semiótica da continuidade (é complementar à semiótica tradicional), a uma semiótica de intervalos (complementar a uma semiótica de relação entre os termos) e a uma semiótica de eventos (complementar à semiótica dos estados). Valores e valências No modelo tensivo, qualquer valor dado, como vimos anteriormente, é constituído pela combinação de duas valências (ou dimensões): intensidade e 39 extensão (ou extensidade). A primeira tem a ver com o mensurável (o sentimento, as paixões, a afetividade) e a segunda com o contável (ou o conhecimento, a compreensão). Considerando essas duas valências como dimensões graduais, sua correlação pode ser representada como o conjunto dos pontos de um espaço submetido a dois eixos de controle (Fontanille 2007: 77). Esses eixos são organizados em torno do sujeito da percepção, que, por sua vez, percebe uma grandeza que se estende na apreensão do mundo ─ a extensidade ─ e outra que garante o enfoque tônico ─ a intensidade ─ capaz de sensibilizar a apreensão (Pietroforte, 2008: 63). Exemplo do gráfico dos valores e valências + Gradiente da Intensidade espaço dos pontos de correlação (Visada) _ Gradiente da Extensão (Apreensão) + gráfico 4 Como visto, se colocarmos a intensidade no eixo vertical das ordenadas e a extensão no eixo da abscissa (ver gráfico 4), chegaremos a uma representação visual com dois eixos. Qualquer fenômeno ocupará uma ou mais posições nesse gráfico, dependendo do grau de intensidade exibido e da extensão em que perdura. Ainda de acordo com Hébert (2006: 38), se distinguirmos dois setores de cada valência, um setor baixo (um setor inativo) e um setor alto (um setor dinâmico), 40 obteremos quatro combinações de valências possíveis que definirão quatro áreas (ver gráfico 5, abaixo): Área 1: fraca intensidade e fraca extensão; Área 2: forte intensidade e fraca extensão; Área 3: fraca intensidade e forte extensão; Área 4: forte intensidade e forte extensão. Hébert (2006: 39), sempre embasado nos trabalhos de Fontanille, exemplifica a análise tensiva de um grupo de emoções associadas à atração dos seres, como o amor e a amizade. Atribui, então, ao eixo da intensidade a intensidade da emoção e ao eixo da extensão o número de seres pelos quais um dado sujeito sente essa emoção. Ao dividir o gráfico em quatro áreas, distingue quatro tipos de emoções. Na área 1 (fraca intensidade e fraca extensão) situa-se o amor comum; na área 2 (forte intensidade e fraca extensão) encontra-se o verdadeiro amor por uma pessoa; na área 3, a amizade (fraca intensidade e forte extensão); na área 4 (forte intensidade e forte extensão), o amor universal ou a compaixão. + Área 4 o amor universal Área 2 (ou compaixão) o verdadeiro amor de uma pessoa por outra. intensidade Área 1 amor comum Área 3 a amizade(de uma pessoa por várias outras) 0 extensão gráfico 5: gráfico tensivo de Hébert para a paixão do amor. + 41 O gráfico 5 significa que, em termos de extensão, o amor verdadeiro sentido por alguém geralmente é dedicado a menos pessoas que o amor comum e o amor universal (como o próprio nome já diz) é dedicado a bem mais pessoas que a amizade. Outro exemplo que, segundo o pesquisador, pode ser inserido no gráfico é o da comparação entre a compaixão cristã e a compaixão budista as quais podem ser consideradas iguais em intensidade, mas diferentes em extensão já que a compaixão budista irradia-se também por sobre as criaturas inanimadas (rochas e outros “seres” inanimados). + compaixão cristã compaixão budista int. = / ext. < int. = / ext. > intensidade 0 + extensão gráfico 6: gráfico tensivo de Hébert para as compaixões cristã e budista (para maior clareza, inserimos as setas de orientação) Ao utilizarmos os dois eixos (intensidade e extensão), outros métodos de divisão de área poderão ser utilizados, dependendo das comparações que 42 quisermos fazer. Podemos, por exemplo, distinguir várias áreas em cada eixo: área zero, baixa, média, alta e máxima (até infinito). Há dois tipos de correlação entre a intensidade e a extensão: relação conversa e relação inversa. A relação conversa ocorre quando um aumento de uma valência é acompanhado pelo aumento de outra (+ +) ou a diminuição de uma valência é acompanhada pela diminuição da outra (- -); a relação inversa ocorre quando o aumento de uma das valências é acompanhado pela diminuição de outra ou vice-versa (+ - ou - +). Isso posto, teremos: Correlações conversas + - + correlação conversa + - correlação conversa + Correlações inversas + - + correlação inversa + - correlação inversa gráficos 7: relações conversas e inversas. + 43 Os eixos da intensidade (visada) e da extensão (apreensão) definem as valências da categoria examinada; os pontos do espaço interno correspondem aos valores dessa categoria. Área de correlação Inversa área de correlação conversa Eixo da intensidade VISADA Eixo da extensão APREENSÃO gráfico 8: áreas de correlações conversas e inversas. Os quatro esquemas da tensão Fontanille (2007: 110) afirma que, se recorrermos ao princípio básico da semiótica tensiva no qual os esquemas garantem a relação solidária entre o sensível (a intensidade, o afeto) e o inteligível (o desdobramento da extensão, o mensurável, a compreensão), poderemos visualizar variações no equilíbrio entre esses dois valores que conduzem ao aumento da tensão efetiva ou ao relaxamento. Dessa forma, considerando esses movimentos direcionados a uma maior tensão ou a um maior relaxamento, chegaremos aos quatro esquemas tensivo-discursivos elementares apresentados a seguir: (1) esquema descendente; 44 (2) esquema ascendente; (3) esquema da amplificação e (4) esquema da atenuação. No esquema descendente (ou decadente), a diminuição da intensidade e o aumento da extensão refletem um relaxamento da tensão afetiva. Parte-se da tensão para se chegar ao relaxamento. Essa situação (Fontanille, 2007: 113) parte de um realce da intensidade, de “um choque emocional”, em direção ao relaxamento produzido por uma explicação; nesse caso, o primeiro momento é uma cena explosiva e a sequência é a exploração explicativa desse primeiro momento; um exemplo disso é o que os publicitários chamam de gancho criativo (approach ou abordagem) do anúncio. O gancho criativo é o preâmbulo do texto publicitário, uma proposta condensada, intensa e eficiente, capaz de atrair a atenção para, no decorrer do anúncio, conduzir o destinatário a uma decisão ou outro ato cognitivo por meio da argumentação. O semioticista (2007: 121) exemplifica a asserção acima com as narrativas de busca, estudadas por Propp. Segundo ele, essas narrativas obedecem ao esquema descendente quando o desfecho resulta em uma conjunção (o sujeito une-se ao seu objeto de valor). Isso porque, no momento em que o sujeito consegue se unir ao seu objeto de valor geralmente ocorre uma redução, um relaxamento das tensões. Nesse caso, os objetos de valor eufórico encontram-se no eixo da extensão intensidade, + extensão). 45 + Esquema descendente Intensidade intensidade - / extensão + (ex.: No momento em que o sujeito se une ao(s) seu(s) objeto (s) de valor ocorre uma natural redução das tensões. 0 + extensão Os objetos de valor, agora unidos ao sujeito, aumentam a extensão. gráfico 9: esquema tensivo descendente ou decadente. No esquema ascendente (ou da ascendência), o aumento da intensidade e a redução da extensão, juntos, refletem uma tensão afetiva. Parte-se do relaxamento para conduzir-se o texto a uma tensão final. Podem ser citados, como exemplos, os finais de capítulos de novelas de televisão, a chave de ouro dos sonetos, os gêneros literários que possuem um desfecho inesperado. Fontanille (2006: 114) ainda afirma que esse percurso faz, de alguma forma, a “soma” de tudo o que lhe é anterior. + Esquema ascendente Intensidade intensidade + / extensão As tensões aumentam propositadamente no final dos capítulos das novelas. 0 + extensão Nesse momento, o foco passa a ser apenas um dos problemas. . gráfico 10: esquema tensivo ascendente ou da ascensão. 46 No esquema da amplificação, o aumento da intensidade, simultâneo ao aumento da extensão, reflete uma maior tensão afetiva ao lado de uma maior compreensão ou informação. Na realidade, é uma gradação que parte de um mínimo de intensidade e de fraca extensão para culminar em uma tensão máxima, também desdobrada na extensão. O sensível e o inteligível crescem simultaneamente. Pensa-se aqui, apenas como exemplos, nos sermões de Vieira, nas exclamações dos poemas antiescravagistas de Castro Alves, com o emprego das figuras ditas de amplificação (alta intensidade) simultâneo à extensão de sua dor a todos os escravos (alta extensão) ou em certos esquemas narrativos em que, depois de fraca ou nenhuma tensão, o leitor ou expectador é surpreendido com arranjos em que a intensidade dramática se fortalece sobremaneira em direção a um desfecho. O esquema da amplificação é bem marcado no caso das narrativas de terror ou de suspense (sejam romances, filmes, novelas) que apresentam um clímax intenso para, depois, caminhar para um desfecho. + Esquema da amplificação Intensidade intensidade + / extensão + (em Castro Alves): emprego das figuras como hipérboles, apóstrofes, comparações, metáforas, exclamações etc. 0 + extensão Castro Alves estende sua revolta a todos os escravos e assume a dor de todos eles gráfico 11: esquema tensivo da amplificação. 47 No esquema da atenuação, a diminuição da intensidade associada à diminuição da extensão reflete um relaxamento generalizado. Um exemplo da atenuação (Hébert, 2006: 42) é o final feliz de um drama ou de uma comédia em que a intensidade dos problemas da trama praticamente a acaba e o número de problemas diminuem ou acabam, embora possam não desaparecer totalmente. Os problemas estão localizados no eixo da extensão (- intensidade/ - extensão). + Esquema da atenuação Intensidade intensidade - / extensão Fim das tensões 0 + Fim (redução) dos problemas da trama. extensão gráfico 12: esquema tensivo da atenuação. Tais esquemas combinam-se para formar as sequências discursivas, pois um discurso pode apresentar um ou vários esquemas de tensão. Fontanille (2006: 117) define modelos tensivos canônicos como um arranjo de vários modelos tensivos em uma sequência que é imediatamente reconhecida por uma determinada cultura: [...] como esses esquemas são característicos de um tipo ou de um gênero, eles guiam a priori a compreensão do discurso e têm, por isso, o estatuto de esquemas culturais instaurados de forma convencional ou herdados da tradição, razão pela qual eles são chamados de esquemas canônicos. Como exemplo do esquema tensivo canônico, o semioticista cita uma tragédia clássica “à francesa” que encadeava três cenários tensivos sucessivos: (1) o 48 esquema ascendente quando da configuração do drama: (2) o esquema da atenuação quando os conflitos se apaziguavam e (3) o esquema da amplificação, no qual ocorria uma catástrofe generalizada. Para ilustrar um pouco mais o esquema tensivo canônico, podemos citar o gênero dos romances românticos, A escrava Isaura, por exemplo, em que, no esquema ascendente (intensidade forte e extensão fraca), configura-se praticamente toda a trama, com a definição dos papéis de cada personagem, protagonistas e antagonistas; no esquema da amplificação (intensidade forte, extensão forte: tensão máxima), a captura de Isaura por Leôncio e o quase-casamento da heroína com Belchior, culminando com o suicídio do vilão; no esquema da atenuação (intensidade fraca, extensão fraca), o desfecho que corresponde à quase totalidade das novelas televisivas e a boa parte dos romances do romantismo, ou seja, a vitória do bem sobre o mal com a extirpação de todos os vilões. No nível das estruturas narrativas, parte-se da relação entre dois actantes, sujeito e objeto de valor, e examinam-se suas transformações de estado, seus estabelecimentos e rompimentos de contrato, sua situação final. O objeto, do ponto de vista da semiótica, passará a ser um objeto de valor desejável, temível etc. conforme os investimentos semânticos que lhe são atribuídos durante a narrativa ou, melhor dizendo, o objeto de valor será resultado das relações modal e passional entre sujeito e objeto. As relações de junção (conjunção e disjunção) e de transformação do sujeito para com o objeto de valor são chamadas transitivas e são expressas através de enunciados elementares de fazer e de estado. São as relações de junção que descrevem o estado do sujeito (relativo a um objeto de valor) e sua existência. As relações de transformação são constitutivas dos enunciados de fazer (dão conta do que acontece) e não terão como objeto sintáxico um valor 49 qualquer, mas um enunciado de estado. A sintaxe narrativa, como bem afirma Diana Luz Pessoa de Barros (2002: 16), deve ser pensada como um espetáculo que simula o fazer do homem que transforma o mundo. Esse simulacro do fazer humano e de seus participantes é explicado, na sintaxe narrativa, por uma teoria semiótica geral e rigorosa que mostra a particularidade de cada texto, por meio da proposição de enunciados, programas, percursos e esquemas narrativos, os quais, vistos como elementos operacionais das análises das narrativas, decompõem o discurso e explicam sua narratividade de forma ampla e abrangente. Na sintaxe narrativa, os textos são considerados narrativas complexas, constituídas de um ou de vários programas, cujos enunciados de fazer regem os de ser (esses últimos chamados enunciados de estado). Barros (2002: 20) assim define os programas narrativos: O programa narrativo ou sintagma elementar da sintaxe narrativa define-se como um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado. Integra, portanto, estados e transformações. [...] pode-se representá-los (os textos) como programas narrativos, segundo o modelo abaixo: PN = F[S1 → (S2 ∩ Ov)] , onde F = função → = transformação S1 = sujeito do fazer S2 = sujeito do estado ∩ = conjunção Ov = objeto de valor Quando um enunciado de fazer rege um enunciado de estado (o sujeito do fazer modificando o sujeito do estado) temos um programa narrativo de aquisição (doação e apropriação) ou de privação (espoliação e renúncia). Os programas narrativos de doação, de apropriação, de espoliação e de renúncia, dividem-se em dois grupos fundamentais: 50 (a) a competencialização: a aquisição de valores modais pelo sujeito de estado que o tornará apto para a ação; (b) a performance: a representação semântico-sintática da ação com vistas à apropriação dos objetos de valor desejados Tais programas formam os percursos narrativos. Em uma sequência canônica, os textos compreendem três percursos: o percurso da manipulação (ou do destinador-manipulador), o da ação (ou do sujeito) e o da sanção (ou do destinadorjulgador). Nem sempre o texto apresenta os três percursos. Os textos dos programas de TV com os quais trabalharemos, por exemplo, apresentam, em sua maioria, somente o percurso da manipulação. A semiótica assim descreve o percurso da manipulação (ou do destinadormanipulador) ― um sujeito agindo sobre outro para levá-lo a querer ou dever fazer algo ― por meio de quatro grandes situações ou tipos: a tentação, a intimidação, a sedução e a provocação. Nos dois primeiros, tentação e intimidação, o sujeitomanipulador demonstra “poder” e procura levar o manipulado a fazer algo, em troca de um objeto de valor cultural positivo ou mediante ameaças, respectivamente. Nos dois últimos, sedução e provocação, o sujeito-manipulador demonstra “conhecer” a competência do manipulado, impelindo-o à ação, mediante um juízo positivo ou negativo da competência desse sujeito manipulado. Dotado do querer e/ou deverfazer, o sujeito que vai realizar a principal transformação da narrativa completará sua competência com o saber-fazer/poder-fazer, condições básicas para que proceda à ação. Vê-se, portanto, que esse actante16 pode ter um conjunto variável de papéis, 16 Entidade sintática da narrativa que se define como resultante de uma relação transitiva de junção ou de transformação (Barros, 2002: 84). 51 ora como sujeito do estado, ora como sujeito realizador da ação, sendo, por isso, considerado um actante funcional. Em síntese, o percurso da manipulação parte do estabelecimento de um contrato fiduciário de confiança em que um destinador (o manipulador) procura ganhar a confiança de um destinatário (o manipulado). O destinador exerce um fazer persuasivo, enquanto o destinatário, ao aceitar (ou recusar) o contrato, exerce um fazer interpretativo. Para haver persuasão (a aceitação do contrato), é necessário que os sistemas de valores sejam compartilhados pelo destinador e o destinatário. No percurso da ação (ou do sujeito), o destinatário que aceitou o contrato proposto pelo destinador passa a ser o sujeito da ação, agindo sobre os objetos e realizando a ação definida no acordo. Nessa fase, ocorre a ação decorrente do processo de manipulação. Fontanille (2007) recentemente mostrou que, nas narrativas, um mesmo ator não raro torna-se inquieto ao entrar na fase de transformação do papel de destinatário para o de sujeito da ação. Para o semioticista francês, no percurso da manipulação, o destinatário passa a ser o sujeito da ação, mas é em um segundo percurso - o da competencialização - que o sujeito adquire a identidade necessária para praticar a ação. Durante a negociação do contrato (e durante a sanção), a ênfase é colocada na relação destinador/destinatário e a relação sujeito/objeto passa a ser somente potencial, pois entra em estado de espera. Por outro lado, quando o sujeito executa a ação, o destinador ocupa uma posição marginal ao centro da narrativa. A inquietude, provocada por uma ansiedade ou uma indecisão do destinatário, ocorre durante a fase de transição (competencialização) 52 destinatário/sujeito da ação, e dá origem a outras paixões como o medo, a confiança, a fé. Assim vemos o esquema narrativo da pregação religiosa de televisão: manipulação competencialização ação sanção (contrato) destinador → destinatário destinador →destinatário sujeito da ação (inquietude, esperança, fé etc.) performance destinador → sujeito consequência O percurso do sujeito/objeto equivale à etapa da ação do esquema acima: performance consequência [...] Graças à manipulação, o destinador negocia a passagem do destinatário à ação, isto é, sua conversão em sujeito. Conhecendo os valores, o destinador empenha-se em realizá-los, em fazê-los emergir em um plano de realidade diferente do seu. Ele tenta fazê-los sair do plano transcendente para o plano imanente. Portanto, no horizonte da manipulação, a hierarquia entre os valores permanece sempre presente, e é a tensão entre seu estado virtual e potencial (no domínio do par destinador/destinatário) e seu estatuto atual ou realizado (no domínio do par sujeito/objeto) que dá suporte, então, à intencionalidade (grifo nosso). Em contrapartida, graças à aquisição de competência (as modalidades do querer-fazer, do poder-fazer etc.) o sujeito obtém só a identidade necessária para a performance. Essa competência é exclusivamente dirigida para a conclusão do programa narrativo, e não para a realização de valores. A intencionalidade reside, então, apenas na tensão entre os programas disjuntivos e programas conjuntivos (grifo nosso). (Fontanille, 2007: 122) O terceiro e último percurso é o chamado percurso da sanção (ou do destinador-julgador), no qual o sujeito que efetuou a ação tenta convencer o destinador-julgador de que cumpriu sua parte do contrato e, portanto, merece receber um julgamento positivo. Após julgar se o sujeito cumpriu ou não a ação 53 acordada, o destinador-julgador o sanciona positiva ou negativamente, atribuindo-lhe uma recompensa ou um castigo. No percurso gerativo do sentido, é a semântica narrativa a instância em que ocorrem a atualização dos valores e suas relações com o sujeito. A atualização dos valores é representada, nos enunciados de estado, pela relação de conjunção ou de disjunção do objeto com o sujeito. No momento em que elementos semânticos, inseridos nos objetos, são relacionados ao sujeito, no interior dos enunciados de estado, esses objetos passam a ser considerados objetos de valor. Segundo Barros (2001: 45): A semântica narrativa é, no percurso gerativo, a instância de atualização dos valores. Os termos de nível fundamental, resultantes da articulação de categorias semânticas e, pela projeção da categoria tímico-fórica, axiologizados como valores virtuais, são, na instância narrativa, selecionados e convertidos em valores atuais (ou valores, simplesmente), mediante inscrição em um ou mais objetos em junção com sujeitos. Determinações modais podem modificar as relações entre o sujeito e seus objetos de valor. Tanto o /ser/ como o /fazer/ podem ser modalizados através de quatro modalidades: o querer, o dever, chamados de modalidades virtualizantes; o poder, o saber, chamados de atualizantes. Na modalização do ser (ou modalização de enunciados de estado), um sujeito doador de valores modais, ou destinador, confere ao sujeito do estado sua competência modal; um aspecto relevante na modalização do ser é o da modalização veridictória, relacionada ao fazer interpretativo, que estabelece a relação sujeito/objeto em quatro tipos: verdadeira, falsa, secreta ou mentirosa. Articulada sobre a relação entre o /ser/ e o /parecer/, a modalidade veridictória é (1) verdadeira quando a relação entre o sujeito e o objeto parece e é verdadeira; (2) falsa quando não parece nem é verdadeira; (3) mentirosa quando a relação entre sujeito e objeto parece, mas não é verdadeira e (4) secreta 54 quando não parece, mas é verdadeira. Assim são representadas as relações correspondentes às modalidades veridictórias, no quadrado semiótico: VERDADEIRA (parece e é) ser parecer SECRETA MENTIROSA (não parece,mas é) (parece, mas não é) não-parecer não-ser FALSA (não parece e nem é) gráfico 13: quadrado da veridicção Por construir sua própria verdade, nenhum discurso é, em si mesmo, verdadeiro ou falso. Barros (2002: 64) afirma: (o enunciador) fabrica discursos que criam efeitos de verdade ou de falsidade, que parecem verdadeiros ou falsos e como tais são interpretados. Por isso, emprega-se o termo ‘veridicção’ ou ‘dizerverdadeiro’, já que um discurso será verdadeiro quando for interpretado como verdadeiro, quando for dito verdadeiro. Na modalização dos enunciados do fazer, o destinador dota o sujeito do fazer da competência modal para exercer a ação. Nessa fase de doação de competência modal, pressupõe-se a competência semântica do destinador-manipulador o qual levará o destinatário-manipulado a crer nos valores apresentados, caso contrário não terá ocorrido a manipulação. É, também, na instância da semântica narrativa que a semiótica reserva um importante lugar teórico para as paixões. Do ponto de vista semiótico, a paixão está 55 sempre presente nos textos, pois ela é considerada o elemento que dá origem e movimento à ação do homem. Até 1991, quando da publicação, na França, da obra Semiótica das paixões - Dos estados das coisas aos estados da alma, de A. J. Greimas e J. Fontanille, a teoria narrativa tratava do que se poderia chamar de estados de coisas e não tanto do que chamamos de estados de alma do sujeito. Trabalhavam-se textos nos quais havia várias estruturas de manipulação e de sanção ou a transferência de objetos de valor, sem, no entanto, haver um instrumental teórico mais abrangente para a análise das paixões representativas dos estados de alma do sujeito. Para os antigos, a paixão (vista como da ordem da loucura, da desarmonia e da morte) opunha-se à lógica (vista como da ordem da razão, da harmonia e da vida). Os dicionários de hoje ainda mantêm o sentido de séculos atrás. Vejamos algumas acepções para o lexema paixão, encontradas no dicionário on-line UOL/HOUAISS: Do latim passio, ónis: passividade, sofrimento. - derivação: por extensão de sentido (do Evangelho): grande sofrimento; martírio. - sentimento, gosto ou amor intensos, a ponto de ofuscar a razão; grande entusiasmo por alguma coisa; atividade, hábito ou vício dominador. - furor incontrolável; exaltação, cólera. - ânimo favorável ou contrário a alguma coisa e que supera os limites da razão. Fiorin (2007), entretanto, argumenta que essa concepção dos estados passionais já vem mudando desde o século XVIII, concebendo-se a paixão como o que impele o homem à ação e o que o eleva às grandes coisas. Afirma, ainda, que esses estados de alma, por serem formas de racionalidade discursiva, não se opõem à razão. Essa percepção da existência do componente patêmico que designaria a “paixões de papel” decorrentes de modalizações e sobremodalizações do sujeito, aspectualização e moralização (sobre as quais discorreremos durante este trabalho) 56 ampliou sobremaneira o escopo de análise da semiótica que passou a analisar não só os estados das coisas mas também os estados de alma do sujeito. A semiótica, ao reconhecer que há um componente patêmico a perpassar todas as relações e atividades humanas, que ele é o que move a ação humana e que a enunciação discursiviza a subjetividade, mostra que as paixões estão sempre presentes nos textos (FIORIN, 2007). O conceito semiótico das “paixões de papel”, assim também chamadas por serem representadas, foi construído, então, longe das bases filosóficas ou psicológicas (estas preocupam-se com os “sujeitos reais”) para restringi-lo aos efeitos de sentido inscritos e codificados no discurso, resultantes de qualificações modais, organizadas sob forma de arranjos sintagmáticos, que modificam o sujeito de estado. Bertrand (2003: 374) afirma que a uma semiótica do agir (a narratividade) se integra uma semiótica do sofrer (a dimensão passional). Essa dimensão passional leva também em conta a estrutura aspectual que a sobredetermina. Por exemplo, há paixões que estão relacionadas ao aspecto da escansão, como a cólera, ou da não-escansão, como a avareza; algumas apresentam o aspecto da duratividade, como o amor, o remorso, o ressentimento; outras têm caráter de pontualidade: a ira; o receio diz respeito ao que ainda não começou; o impulso apresenta o aspecto da iteratividade, pois o sujeito impulsivo apresenta essa paixão repetidamente; há paixões voltadas para o futuro, como a esperança; outras - a saudade, o remorso - são voltadas para o passado; há estados patêmicos extensos (a preguiça) e intensos (a cólera), e assim por diante. Os enunciados de fazer (os primeiros abordados pela teoria de Greimas) ou de ser (desses últimos proveio a teoria semiótica das paixões) são modalizados por quatro modalidades fundamentais ─ querer, dever, saber ou poder ─ e pela modalidade epistêmica do crer. Isso posto, um sujeito confiante é modalizado por 57 um /querer-ser (ou crer-ser)/ + /saber-poder-ser/. Já um sujeito insatisfeito é modalizado por um /querer-ser/ + /saber -não poder- ser/. Considerando que a paixão em discurso remete ao sentir, Greimas (2001: 244), ao abordar a paixão do ciúme, afirma que se a paixão é “narrável” ela obedece a uma lógica discursiva, projetada por aspectualização sobre as pressuposições modais e organiza-se em um esquema patêmico canônico, com a seguinte forma: Constituição Sensibilização Disposição Moralização Patemização Emoção (gráfico 14: esquema patêmico canônico) Preferimos, no entanto, o esquema proposto por Bertrand (2003: 374) que, baseado em Greimas, admite quatro sequências assim definidas: disposição sensibilização cf. contrato emoção competência moralização ação sanção A disposição é a caracterização do sujeito, é a fase inicial em que o sujeito se dispõe a acolher este ou aquele efeito de sentido passional. Para Fontanille (2007: 131), a disposição implica, no actante, certa capacidade para a construção de simulacros. O ciumento, por exemplo, deve ter a capacidade de imaginar situações que lhe trarão suspeita, o medroso deve construir simulacros de situações disfóricas diante de uma presença ameaçadora que desvelarão sua fraqueza, o envergonhado, por sua vez, construirá um autossimulacro de reprovação perante si mesmo e perante a sociedade. 58 Na sensibilização, o sujeito, já conhecedor do sentido da paixão que o afeta, pode, por exemplo, tornar-se corajoso diante do medo, caso supere sua apreensão, ou medroso, caso não a supere. O sujeito assume um papel passional definido. À emoção corresponde o prolongamento da crise passional. É o momento da patemização propriamente dita que impele o sujeito à ação ou ao discurso passional. A moralização é cultural e, por esse motivo, depende da sociedade em que o sujeito manifesta a paixão. Essa aspectualização do ator se dá pelo excesso ou pela insuficiência. Há de se considerar, primeiramente, que uma paixão só é concebida como tal se o “excesso” ou a “insuficiência” for resultado de um juízo feito em um espaço comunitário que a sanciona positiva ou negativamente (Postal, 2007: 55). A paixão revela, no final do percurso, os seus valores que, confrontados com os valores da sociedade, serão sancionados positiva ou negativamente. Enfim, a semiótica afasta-se das abordagens psicológica e filosófica das paixões, limitando-se à dimensão discursiva do fenômeno. Conforme Bertrand (2003: 377), ela (a semiótica greimasiana) se interessa pelas formas culturais dos dispositivos passionais que o discurso configurou. Aliás, é nesse limite que ela interessa ao especialista em análise textual. Abordaremos cada paixão de forma mais específica e detalhada, à medida que elas surgirem nos discursos em foco. Quanto às estruturas discursivas, o discurso, estritamente ligado à enunciação17, é a instância em que a enunciação (definida por um eu-aqui-agora) instaura um sujeito que assume a narrativa (enunciador), desenvolvendo temas, enriquecendo-a com figuras, pessoa, tempo e espaço e produzindo efeitos de sentido diversos. 17 Adotamos para “enunciação” o conceito expresso por Barros (2002: 86): enunciação é a instância de mediação entre as estruturas narrativas e discursivas que, pressuposta no discurso, pode ser construída a partir das pistas que nele espalha; é também mediadora entre o discurso e o contexto sócio-histórico e, nesse caso, deixa-se apreender graças às relações intertextuais. 59 “No âmbito da linguagem, o que pertence à ordem da História é o discurso e não o sistema. Ora, como se passa deste àquele? Com a enunciação, ou seja, temporalizando, espacializando e actorializando a linguagem” (Fiorin, 2001:14) Com a finalidade de concretizar, enriquecer e produzir sentido, a enunciação projeta, para fora de si, os atores e as coordenadas de tempo e espaço do discurso, por meio de operações denominadas “debreagens” (ou “desembreagens”). Logo, esses efeitos nada mais são do que projeções de pessoa, tempo e espaço no enunciado-discurso. A semiótica analisa essas projeções partindo do princípio de que o sujeito da enunciação, seu espaço e seu tempo (eu-aqui-agora) são o ponto de referência das relações espaço-temporais, geradoras dos efeitos de aproximação e de afastamento da enunciação. Há, por conseguinte, discursos produzidos por debreagem enunciativa, também chamados de enunciação enunciada, construídos sob a dêixis do eu-aqui-agora, cujo efeito de sentido é o de subjetividade ou de aproximação da enunciação justamente porque o “eu” se instala no interior do discurso; outros discursos são produzidos por debreagem enunciva, também chamados de enunciado enunciado, construídos sob a dêixis do ele-lá-então, nos quais o “eu” se afasta do discurso e provoca o efeito de sentido de objetividade ou de afastamento da enunciação. Para criar parte dos efeitos de realidade ou de referente, o narrador pode ceder a palavra aos interlocutores, de forma que a situação de diálogo pareça “real”. Esse recurso recebe o nome de debreagem de 2o. grau. Teoricamente pode haver debreagens de 3o., 4o. graus e assim por diante, sempre que o interlocutor, dentro da narrativa, passe a exercer o papel de narrador e delegue voz a um actante do 60 enunciado. Isso acontece, por exemplo, quando ocorre um discurso direto (diálogo)18 inserido em outro. Porém é por meio de procedimentos da semântica discursiva que mais frequentemente são criados efeitos de realidade. Um desses procedimentos, nos textos orais ou escritos, crucial no processo da significação, é o emprego das figuras; outro procedimento é o denominado ancoragem. Consiste a ancoragem em “ligar” o discurso a datas, lugares e pessoas que o receptor reconhece como “reais”. Uma fotografia que acompanha uma reportagem ou entrevista tem a mesma função ancoradoura por assegurar uma “cópia do real”. O tradicional “era uma vez”, dos contos infantis, ou a idade do entrevistado, normalmente publicada pelos jornais são, também, bons exemplos de ancoragens. No nível discursivo, o sujeito da enunciação desdobra-se em enunciador e enunciatário (os quais, ao assumirem papéis narrativos, correspondem, respectivamente, ao destinador e ao destinatário). A disseminação dos temas em percursos temáticos, seu revestimento figurativo e os efeitos de realidade e de aproximação ou distanciamento da enunciação são aspectos tratados pela semântica discursiva. Barros (2002: 62) afirma que o enunciador define-se como o destinador-manipulador responsável pelos valores do discurso e capaz de levar o enunciatário a crer e a fazer. A manipulação do enunciador exerce-se como um fazer persuasivo, enquanto ao enunciatário cabe um fazer interpretativo e a ação subsequente. É na instância do discurso que o sujeito da narrativa tem seus valores assumidos disseminados em percursos temáticos que recebem ou não investimentos figurativos. O sujeito da enunciação, ao disseminar os temas e as 18 O discurso direto é um simulacro da enunciação construído por intermédio do discurso do narrador.[...]. O discurso direto, em geral, cria um efeito de sentido de realidade, pois dá a impressão de que o narrador está apenas repetindo o que disse o interlocutor (Fiorin, 2001 : 72-74). 61 figuras que o revestem em percursos temáticos e figurativos, garante a coerência semântica do discurso. A concretização do sentido ocorre com a tematização e a figurativização. Para Fiorin (2002 : 65): A oposição entre tema e figura remete, em princípio, à oposição abstrato/concreto. [...] A figura é o termo que remete a algo do mundo natural: árvore, vaga-lume, sol, correr, brincar, vermelho, quente etc. [...] Tema é um investimento semântico, de natureza puramente conceptual, que não remete ao mundo natural. Temas são categorias que organizam, categorizam, ordenam os elementos do mundo natural: elegância, vergonha, raciocinar, calculista, orgulhoso etc. Dessa forma, a predominância de elementos abstratos (temáticos) ou concretos (figurativos) faz que haja textos predominantemente temáticos, de função interpretativa, que procuram explicar a realidade e textos predominantemente figurativos, de função representativa, que constroem um simulacro da realidade para representar o mundo. Não há textos exclusivamente temáticos ou exclusivamente figurativos, pois geralmente ocorrem algumas figuras nos textos temáticos e, nos figurativos, sempre há pelo menos um tema recoberto pelas figuras, visto que a tematização é o nível de concretização do sentido anterior à figurativização. Assim, do ponto de vista dos procedimentos semânticos, há dois tipos de textos: os temáticos de figurativização esparsa e os figurativos, esses últimos com diferentes graus de figurativização. A coerência semântica dos textos é garantida pelas isotopias19 temáticas e figurativas, ou seja, pela recorrência dos temas e figuras em um mesmo percurso, respectivamente temático e figurativo. O termo isotopia, proposto por Greimas na sua Semântica estrutural (1966), está, em semiótica, ligado à noção de recorrência, 19 Em Teoria semiótica do texto (2002 : 74), Barros afirma: Os temas espalham-se pelo texto e são recobertos pelas figuras. A reiteração dos temas e a recorrência das figuras no discurso denominam-se isotopia. A isotopia assegura, graças à ideia de recorrência, a linha sintagmática do discurso e sua coerência semântica. 62 ou seja, a repetição de mais de um traço semântico é necessária para sua constatação. Como já afirmamos anteriormente, deixamos aqui registrada apenas uma visão geral do que é a semiótica greimasiana, reiterando que as obras de Diana Luz Pessoa de Barros, José Luiz Fiorin e Norma Discini têm fundamental importância para aqueles que tiverem intenção de se aprofundar no estudo dos processos de significação. 63 CAPÍTULO II A pregação religiosa de televisão, um novo gênero. Fala-se e escreve-se por meio de gêneros e, portanto, aprender a falar e a escrever é, antes de mais nada, aprender gêneros (Fiorin, 2006: 69). Desde a antiguidade, mais precisamente desde Platão e Aristóteles, passando pela Filosofia, pela Teoria Literária, pela Linguística e por várias teorias de comunicação, a questão dos gêneros ― grosso modo, tipos de textos com traços comuns ― vem sendo encarada como de vital importância nos processos de comunicação. Os filósofos já distinguiam, pelo critério da voz e da representação da realidade, três gêneros básicos e estáveis, cuja categorização é mantida até hoje por alguns estudiosos da literatura: o lírico, o épico e o dramático. Aristóteles, por exemplo, classificou a poesia de primeira voz como representação da lírica, a de segunda voz como representação da épica e a de terceira voz como representação do drama. Hoje em dia os linguistas, a partir de Bakhtin, atribuem aos gêneros uma “estabilidade relativa”, pois, se na antiguidade eram claramente estabelecidos, hoje caminham ao lado das mudanças exigidas pela sociedade. O professor L. A. Marcuschi (2006: 24) corrobora a teoria das mutações genéricas, assegurando que precisamos da categoria do gênero para trabalhar com a língua em funcionamento com critérios dinâmicos de natureza ao mesmo tempo social e linguística, e define: Os gêneros são atividades discursivas socialmente estabilizadas que se prestam aos mais variados tipos de controle social e até mesmo ao exercício de poder. Pode-se, pois, dizer que os gêneros textuais são nossa forma de inserção, ação e controle social no dia-a-dia (2008: 162). 64 [...] assim como a língua varia, também os gêneros variam, adaptam-se, renovam-se e multiplicam-se. Em suma, hoje, a tendência é observar os gêneros pelo seu lado dinâmico, processual, social, interativo, cognitivo, evitando a classificação e a postura estrutural (2006: 24). Os gêneros não são, por conseguinte, modelos fixos; pelo contrário, modificam-se à medida que são sensíveis às mudanças de seu próprio tempo e estão totalmente envolvidos com as várias formas de comunicação existentes, influenciando sobremaneira a produção textual: [...] é impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, assim como é impossível não se comunicar verbalmente por algum texto. Isso porque toda a manifestação verbal se dá por meio de textos realizados em algum gênero. Em outros termos, a comunicação verbal só é possível por algum gênero textual (Marcuschi, 2008: 154). Os homens trabalham, estudam, relacionam-se socialmente e, por consequência, passam a vida inseridos em diferentes esferas de ação, como a igreja, o trabalho em um banco, a escola, o quartel, o círculo de amizades. Cada uma dessas esferas exige uma linguagem que será expressa na forma de enunciados orais e escritos, moldados sob as finalidades e condições específicas de cada uma delas. Motivados, gerados e dirigidos a partir do cerne dessas esferas de atividade humana, os enunciados adquirem caráter de interação social. Assim surgem os sermões, as cartas de amor, as entrevistas, as dissertações, as reportagens, enfim, os gêneros textuais. Não se produzem enunciados fora das esferas de ação, o que significa que eles são determinados pelas condições específicas e pelas finalidades de cada esfera. Essas esferas de ação ocasionam o aparecimento de certos tipos de enunciados, que se estabilizam precariamente e que mudam em função de alterações nessas esferas de atividades. Só se age na interação, só se diz no agir e o agir motiva certos tipos de enunciados, o que quer dizer que cada esfera de utilização da língua elabora tipos relativamente estáveis de enunciados (Fiorin 2006: 61). Por meio dos gêneros, falamos no interior de cada esfera de atividade e, dessa maneira, estabelecem-se fortes ligações entre a linguagem e a vida social. 65 Cada esfera origina não um gênero em particular, mas vários. Da esfera acadêmica, por exemplo, surgem inúmeros gêneros, tanto na escrita quanto na oralidade, tais como monografias, teses, dissertações, pareceres, memoriais, debates, conferências etc.; da religiosa surgem orações, sermões, cultos, missas, homilias; da publicitária, placas, anúncios, folhetos, cartazes, propagandas e assim por diante. Um mesmo gênero pode estar relacionado a mais de uma esfera de atividades. A influência e as necessidades das esferas são, por conseguinte, o ponto de partida para o nascimento de um gênero cuja organização sempre apresentará uma construção composicional, um conteúdo temático e um estilo. [...] o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais denominamos gêneros do discurso (Bakhtin, 2003: 262). Os gêneros são, pois, tipos de enunciados relativamente estáveis, caracterizados por um conteúdo temático, uma construção composicional e um estilo. Falamos sempre por meio de gêneros no interior de uma dada esfera de atividade (Fiorin, 2006: 61). Fiorin, em sua Introdução ao pensamento de Bakhtin (2006), esclarece que o conteúdo temático não se resume a um assunto. Mais que isso, é um domínio de sentido ao qual o gênero está vinculado. Tomemos como exemplo a homilia que, no discurso religioso, apresenta o conteúdo temático doutrina religiosa, mas cada homilia exibe um assunto diferente, como a salvação, o pecado, a vida familiar, a morte. O estilo é resultado da recorrência de palavras, expressões, jargões e construções sintáticas, empregados em função da imagem dos interlocutores. Onde há estilo há gênero, ressalta Bakhtin (2006: 268). A construção composicional, por fim, corresponde à forma de organização e de estruturação de um texto. Se o texto deve ser ou não em dividido em capítulos, se deve ser datado ou não, se deve ter ou 66 não destinatário explicitado, são alguns aspectos, dentre dezenas de outros, pertinentes à construção composicional. Bakhtin ainda divide os gêneros em primários e secundários. Os primários são predominantemente orais e estão ligados à comunicação corriqueira e cotidiana (e-mails, cartas, piadas); os secundários, predominantemente escritos, apresentam elaboração mais cuidadosa (sermões, memórias, biografias, romances, editoriais) e podem utilizar-se dos primários. Por não serem modelos fixos e apresentarem-se em constante mudança, à medida que são sensíveis às mudanças de seu próprio tempo, os gêneros secundários podem hibridizar-se servindo-se de outro gênero ou mesmo imitando a outro na estrutura composicional, temática e estilo (Fiorin, 2006: 70). Graças a essa dinâmica, a pregação religiosa, cujas bases estavam fincadas apenas no discurso religioso cristão (missas, cultos, rezas, sermões), acompanhando a evolução tecnológica, passou a incorporar também alguns gêneros da mídia televisiva (entrevistas, teledramaturgia, programas de auditório) para dar origem a um novo gênero: o da pregação religiosa de televisão. Um novo gênero é sempre a transformação de um ou de vários gêneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação. (Todorov, 1980: 46) Ao dar foco à gênese e à enorme variedade genérica, o filósofo e linguista búlgaro Todorov (1980) afirma que gêneros antigos não desaparecem, mas são substituídos por outros novos, em virtude dos avanços tecnológicos do mundo contemporâneo. Fiorin (2006: 63), por sua vez, enfatiza que a riqueza e variedades dos gêneros são infinitas, uma vez que as possibilidades da ação humana são inesgotáveis e cada esfera de ação comporta um repertório significativo dos gêneros do discurso. 67 Mesmo considerando essas constantes mudanças e adaptações às quais um gênero está sujeito, grande parte dos textos religiosos-televisivos causa certo impacto por apresentar, como veremos, uma estrutura composicional algumas vezes próxima à dos programas de auditório, outras mais próximas à dos talk shows, outras à das entrevistas (misturam-se as pregações de agentes religiosos com entrevistas, testemunhos, reconstituições de situações da vida dos fiéis representadas por atores profissionais, bate-papos, reportagens curtas com sujeitos felizes e bem-sucedidos porque aderiram ao discurso desta ou daquela Igreja). Essa popularização e consequente propagação do discurso religioso de televisão, como afirmamos em momento anterior desta tese, começou na década de 1970, com a assimilação, pelo discurso das neopentecostais, do estilo “pastores eletrônicos” norteamericanos, os quais já promoviam verdadeiros “shows” de comunicação frente às câmeras. Por outro lado, até pouco tempo atrás, a Igreja Católica Romana não transmitia, via TV, mais do que as Santas Missas, enquanto os protestantes tradicionais atinham-se em explicar os textos bíblicos. Não era ainda um novo gênero. Acreditamos que esse marasmo midiático fez essas Igrejas assistirem a uma significativa parcela de seus fiéis migrar para outras religiões. Consciente dessa situação, a Igreja Católica no Brasil, por força da atualização exigida pela sociedade, mesmo tendo enfrentado resistência de uma parte do clero, também procurou (e tem procurado) adaptar seu discurso à mídia da televisão, tentando aproximá-lo da compreensão e da participação popular. Tornouse uma questão de sobrevivência. Missas-show, festivais da canção religiosa, padres-cantores têm encontrado lugar nas transmissões católicas de TV. Essa estratégia tem sido uma resposta à crescente e ameaçadora popularização do neopentecostalismo que, desde o seu surgimento, com a pregação religiosa de TV, 68 vem atraindo um grande número de fiéis provindos da Igreja milenar. Padresapresentadores incorporaram, nos seus textos, características inerentes a outros discursos. Assim, o que vemos nas telas dos televisores (e mesmo nas igrejas) é um marcado afastamento dos sermões e das missas tradicionais para a adoção de uma estratégia discursiva que dialogue mais diretamente com o público. A sociedade, envolvida pela rápida evolução tecnológica, requer rapidez na solução dos seus problemas. Essa rapidez reflete-se na permanência e mudança, na estabilidade e instabilidade características dos gêneros e, mais especificamente, no aparecimento do gênero pregação religiosa de televisão. Assimilação do discurso da televisão pelo discurso religioso Na esfera de ação midiático-televisiva há inúmeros gêneros. Em estudo sobre os gêneros oriundos dessa esfera de ação, Souza (2004: 92) divide a programação das emissoras brasileiras em cinco grupos, a partir de grandes categorias temáticas: entretenimento, informação, educação, publicidade e outros (nessa última, inseremse os programas de pregação religiosa). Essas categorias temáticas estão constituídas por gêneros com temas mais específicos20, conforme o quadro a seguir: 20 Não nos interessa, neste trabalho, o estudo aprofundado sobre as categorias genéricas, de forma que não discorreremos sobre elas. 69 Categorias e gêneros dos programas na TV brasileira21 CATEGORIA GÊNERO Conteúdo temático Auditório22, colunismo social, culinário, desenho animado, esportivo, filme, game show Entretenimento (competição), interativo, humorístico, musical, novela, quiz infantil, show (perguntas e respostas), reality show (TVrealidade), revista, série, série brasileira, sitcom (comédia de situações), talk show, teledramaturgia (ficção), variedades, western (faroeste). Informação Debate, documentário, comentário, entrevista, telejornal. Educação Educativo, instrutivo. Publicidade Chamada, filme comercial, político, sorteio, telecompra. Outros Especial, eventos, religioso. Souza, 2004: 92 Conforme Pinheiro (2002: 285), a ideia de gênero híbrido resulta de um confronto entre dois ou mais sistemas de gêneros. Essa mistura só se torna perceptível no momento em que se visualiza o antigo com relação ao novo; vista do passado toda evolução é uma degradação, mas tão logo essa mistura se impõe como norma, institui-se um novo gênero (Ducrot & Todorov, 1998: 148). Os estudos de Bakhtin sobre os gêneros e a retomada desses estudos por Fiorin (2006), reiteramos, afirmam serem os gêneros uma organização relativamente estável na temática, na organização composicional e no estilo. Mas é principalmente 21 Antes de se utilizar das transmissões televisivas, o discurso religioso já estava presente nas rádios brasileiras. Até hoje há inúmeras emissoras que transmitem exclusivamente programas religiosos ou que alugam seus horários às Igrejas. Na cidade de São Paulo, podemos citar pelo menos duas emissoras de rádio FM que transmitem programas religiosos: a 99.3 FM, Rádio Aleluia (propriedade da IURD) e a 105.7 FM, Rádio Musical (propriedade da Igreja Comunhão Plena). 22 Estão em negrito os gêneros também utilizados durante as pregações religiosas de televisão. 70 por meio da análise da organização composicional ─ da forma ─ que podemos chegar à gênese da pregação religiosa de televisão, ou seja, o levantamento de traços organizacionais comuns entre a pregação religiosa e os gêneros/formatos da televisão acaba por demonstrar a hibridização na formação do novo gênero. Não nos esqueçamos, porém, de que o fator principal das transmissões televisivas são as imagens as quais, associadas ou não ao som, tratam de manipular os destinatários. As imagens produzem efeitos de realidade e de credibilidade facilitadores do processo da persuasão. Dessa forma, o novo gênero principiou sua instauração com a transmissão de cultos/missas, homilias e rezas para, depois, aproveitar-se mais “agressivamente” de outros gêneros/formatos tanto do discurso religioso quanto dos programas da televisão. Incorporaram-se, então, na pregação religiosa de televisão, entrevistas com pessoas bem sucedidas após participarem dos cultos na igreja, reportagens sobre as tragédias da vida para criar um simulacro das dificuldades, shows de música cujas estrelas são padres ou pastores, miniproduções teatrais com atores profissionais interpretando os benefícios provindos da adesão à religião, cultos com formato de programas de auditório auxiliados por conjuntos musicais e animação, trechos de filmes para ilustrar a fala do agente religioso e desenhos animados com temas religiosos. Conforme Barros, a hibridização (ou cruzamento) dos gêneros ocorre de duas formas: 1ª) - misturam-se gêneros de uma mesma esfera de atividade devido à imprecisão das características e das fronteiras entre eles e por razões históricas e sociais, isto é, a sociedade, naquele momento, não mais necessita da separação de alguns gêneros ou mesmo pede a integração deles; 2ª) - misturam-se gêneros de esferas de atividades diferentes, em decorrência de mudanças históricas e sociais e/ou das necessidades de comunicação e de produção de sentido. 71 A segunda delas é a forma de cruzamento que hoje vemos mais regularmente na pregação religiosa de televisão. Como mostraremos abaixo, na pregação religiosa de televisão misturam-se gêneros de pelo menos duas esferas de atividades diferentes ─ a da mídia televisiva e da igreja ─ devido às mudanças histórico-sociais (surgimento de novas tecnologias, concorrência entre as Igrejas) e às necessidades de comunicação e de produção de sentido, com a finalidade de arregimentar novos fiéis. Traçaremos, então, um paralelo entre algumas características de composição dos gêneros oriundos da esfera de atividade televisiva (discurso da TV- programas de televisão) e esses mesmos gêneros, já assimilados pelo discurso religioso (programas religiosos): PROGRAMAS DE AUDITÓRIO Os DISCURSO DA TV DISCURSO RELIGIOSO Programas de televisão Programas religiosos programas classificados de pelas auditório, emissoras hoje A IURD utiliza-se do altar (como palco) e dos como de fiéis (como plateia) para apresentar durante variedades, apresentam música, entrevistas, seus cultos, sob o comando de eloquentes danças, quadros dramáticos. Souza (2004: pastores, verdadeiros programas de 93) ressalta que são esses programas os auditório, com a apresentação ─ inseridos que mais aproximam o telespectador da em cultos e rezas ─ de músicas, entrevistas, realidade da produção, pois permitem a testemunhos. entrada do público nos estúdios ou nos locais preparados para a gravação. Neles, o A Igreja Católica, na televisão, ainda está público é frequentemente convidado a incipiente nessa técnica, mas já surgem participar. Palco e plateia são os espaços alguns religiosos-cantores, como o Padre destinados às gravações. Uma característica Marcelo Rossi ou, ainda mais recentemente, crucial dos programas de auditório é que o jovem e bem-afeiçoado Padre Fábio de eles estão sempre vinculados eloquente e versátil apresentador. a um Mello, que transformam os encontros e missas em verdadeiros shows. 72 ENTREVISTA As DISCURSO DA TV DISCURSO RELIGIOSO Programas de televisão Programas religiosos entrevistas programas estão relacionadas jornalísticos. Nelas, aos As entrevistas foram assimiladas pelos os programas de pregação religiosa entrevistados propõem-se a responder as (neo)pentecostais, com adaptações para os mais variadas perguntas feitas pelo moldes dos testemunhos (nota-se aqui, entrevistador. Segundo Souza (2004: 148), o também, influência do discurso jurídico) ou entrevistador não tem o compromisso de seja, apresentam-se entrevistas com sujeitos deixar o entrevistado à vontade, como nos cujas respostas confirmam as pregações da talk shows, podendo questioná-lo sobre fatos Igreja. As que não confirmam polêmicos e chegar até a discórdia, o que descartadas. Se o destinador(agente são religioso) denota seriedade e compromisso com a afirma, durante o culto transmitido pela verdade, jornalísticos. atribuição dos programas televisão, que as pessoas são curadas naquele templo, haverá vários testemunhos de cura como suporte dessa asserção; se o agente religioso afirma que o fato de ir à igreja fará do sujeito um homem rico, vários testemunhos serão apresentados como suporte desse argumento. Raras são as entrevistas nos programas católicos de pregação religiosa. Não há entrevistas nos programas católicos em análise, mas há outras estratégias para produzir discurso de autoridade e efeitos de realidade. 73 TELEDRAMATURGIA São DISCURSO DA TV DISCURSO RELIGIOSO Programas de televisão Programas religiosos produções caracterizados mensagem com para qualquer. personagens O discurso religioso, especialmente o da transmitir É a uma IURD, apropriou-se da teledramaturgia para dramaturgia encenar casos que, como os testemunhos, adaptada para a televisão. servem de confirmação ou suporte para os argumentos da encenações, Igreja. com Há atores pequenas interpretando pessoas sancionadas negativamente por não frequentarem a igreja. As sanções partem da pobreza, passando pela loucura e, muitas vezes, chegam até a morte. A Igreja Católica não utiliza esse gênero. FILMES COMERCIAIS / PROPAGANDAS / TELEVENDAS DISCURSO DA TV DISCURSO RELIGIOSO Programas de televisão Programas religiosos Na década de 1950, eram ao vivo e Com padrão de produção não tão sofisticado repetidos várias vezes ao dia; hoje, os quanto os comerciais produzidos por comerciais continuam sendo repetidos, mas grandes empresas, porém com grau de gravados em videoteipe e com produção criatividade que não deixa a desejar, as bem mais apurada. Esse gênero, cuja Igrejas têm incrustado em sua programação duração média é de trinta segundos, religiosa movimenta as agências de publicidade e chamando tornou o Brasil referência em publicidade. comerciais os e propagandas telespectadores para os eventos ou cultos. Ex.: [...] más energias, que amarram caminhos, anulam descontrole relações amorosas, emocional, medo, provocam fracasso profissional, doenças e agonia. Se você sofre com algum desses sintomas, 74 deseja ficar livre de todos esses males, sextafeira, Corrente Forte Contra as Vibrações Negativas, sete horas da noite, na Matriz do Brás, Avenida Celso Garcia, 499; no Templo Maior Avenida João Dias, 1800, Santo Amaro, e em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus. Ultimamente temos presenciado um considerável aumento do gênero televendas durante os programas religiosos. Padres e pastores oferecem CDs, DVDs, Bíblias, livros religiosos diversos, excursões para lugares santos, dentre outros. Ex.: (fala do Padre Alberto Gambarini) [...] e adquirindo os livros do padre Alberto, você está ajudando a nossa obra. Adquira o seu nas melhores livrarias católicas perto de você ou ligue de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353. Repetindo 0XX11-46674353. Agora você pode adquirir os livros, CDs e DVDs do padre Alberto com seu cartão Mastercard, Dinners Club e Visa pelo telefone. Ligue de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353, 0XX11-4667-4353 e faça o seu pedido. Válido somente para Mastercard, Diners Club e Visa. Além dos gêneros expostos acima, que têm servido como base da pregação religiosa de televisão, o discurso religioso ainda assimilou, em menor escala, telejornais, documentários, comentários, televendas, dentre outros. 75 Quanto ao conteúdo temático, podemos afirmar que o grande tema das religiões é a busca do paraíso através da fé. O paraíso é encarado como um lugar no qual se encontrará a felicidade plena, caso o indivíduo assuma e pratique em sua vida os preceitos pregados pela religião. Deixemos claro que a concepção de paraíso pode variar de religião para religião. Na fé católica, de acordo com o dicionário Bíblia católica on line, o paraíso corresponde a um termo grego que traduz o hebraico “jardim do éden” ou de delícias. É o símbolo da alegria ou da felicidade (Gn 2, 15), da morada da divindade (Ez 28, 12-19). No Novo Testamento, é o lugar onde se espera viver a felicidade eterna com Deus (2 Cor 12, 4; Ap 2,7). Para o judaísmo é o lugar onde ficavam os mortos à espera da ressurreição (Lc 16,23; 23,43). O conceito de paraíso é cultural. É fato que as religiões sempre estabelecem normas para os adeptos atingirem a felicidade eterna. As cristãs tradicionais, por exemplo, acatam decididamente a definição de paraíso acima, uma vez que ela provém da própria Bíblia. Algumas neopentecostais, como é o caso da IURD, não refutam esse conceito, porém, acrescentam fortemente, em seus discursos, que o paraíso pode ser instaurado aqui e agora, concretizado por um mundo terreno de fartura e de plenitude material. Assim sendo, no que se refere a conteúdo temático, o gênero pregação religiosa, seja com relação às religiões tradicionais como a católica, seja com relação às neopentecostais como a Universal do Reino de Deus, está constantemente preenchido pelos preceitos – bíblicos ou não – que se propõem a conduzir o fiel ao encontro da felicidade. Em seu estudo sobre os gêneros da televisão, Souza (2004: 38) afirma que a programação televisiva tem os propósitos de entreter e informar, portanto seu conteúdo temático é o entretenimento e a informação. O autor cita o manual de produção de programas da British Broadcasting Corporation (BBC), da GrãBretanha, no qual se encontram motivos que levam à padronização dos temas: 76 Os programas devem: 1- Entreter. 2- Informar. O entretenimento é necessário para toda e qualquer ideia de produção, sem exceções. Todo programa deve entreter, senão não haverá audiência. Entreter não significa somente vamos sorrir e cantar. Pode ser interessar, surpreender, divertir, chocar, estimular ou desafiar a audiência, mas despertando sua vontade de assistir. Isso é entretenimento. Programas com o propósito de informar são necessários em qualquer produção, exceto naquela dirigida inteiramente para o entretenimento (balés, humorísticos, videoclipes etc.). Informar significa possibilitar que a pessoa, no final da exibição, saiba um pouco mais do que sabia no começo do programa a respeito de determinado assunto. . A temática da esfera religiosa [a busca do paraíso (felicidade23) através da fé], ao utilizar programas de auditório, teledramaturgia, entrevistas, propagandas, dentre outros formatos oriundos da esfera de circulação da TV, misturou-se, principalmente, à temática da esfera midiática televisiva (entretenimento e informação) para dar origem ao novo gênero. Os discursos da Igreja Católica Apostólica Romana e da neopentecostal IURD, veiculados por programas de TV, refletem, dessa forma, um gênero híbrido ─ o da pregação religiosa de televisão ─ resultante, principalmente, da mistura entre os gêneros programas de TV e pregação religiosa. Essa hibridização ocorre em maior grau no discurso da IURD do que no da Igreja Católica. Muitas podem ser as causas de os católicos ficarem para trás nessa corrida pela utilização dos recursos tecnológicos de comunicação, mas uma delas está no próprio seio da Igreja: como já afirmamos no início deste trabalho, uma parcela influente e retrógrada do clero católico até há pouco julgava que a transmissão televisiva dessacralizaria a missa. Enquanto isso, a IURD ligava-se a uma das maiores redes de televisão do Brasil, a Record, e, por conseguinte, aprendia rapidamente a utilizar toda a estrutura de produção. 23 A concepção de felicidade varia conforme a religião. Para umas, a felicidade pode ter uma conotação materialista como, por exemplo, o acúmulo de dinheiro ou de bens materiais (o sucesso); para outras, o conceito de felicidade independe dos bens ou da posição social, tendo caráter espiritual (a salvação). 77 Levando em conta todas essas considerações, esquematizamos, abaixo, a gênese da pregação religiosa de televisão, partindo das duas esferas de atividade originárias que, há algum tempo, caminhavam separadas, mas que, hoje, na formação desse novo gênero, acabaram por se fundir: Gênese da pregação religiosa de televisão Esfera de atividade Esfera de atividade da mídia televisiva religiosa Discurso de televisão Discurso religioso entrevistas-testemunhos, missas, rezas, cultos, teledramaturgia, auditório, sermões, exorcismos, músicas, propagandas cantorias, músicas Pregação religiosa de televisão Ilustração 4: gênese da pregação religiosa de televisão. 78 Encontramos, tanto no discurso católico de televisão quanto no iurdiano, uma hibridização, de forma que essa complementaridade do religioso tradicional com o midiático de televisão acabou por gerar um novo gênero discursivo: o da pregação religiosa de televisão. 79 CAPÍTULO III Questões de éthos Ao constituírem o novo gênero da pregação religiosa de televisão, os gêneros provindos de esferas de atividades diferentes (a religiosa e a televisiva) ajudarão a construir um caráter, uma identidade do enunciador, um éthos que não é o mesmo do pregador tradicional nem o mesmo do apresentador de televisão. Por isso, o estabelecimento desse(s) novo(s) éthos (éthe), resultado(s) das marcas deixadas no(s) enunciado(s) pelo(s) enunciador(es), tem particular importância para este trabalho, já que um de nossos objetivos é estabelecer e comparar os éthe discursivos das duas Igrejas em análise. O conceito de éthos, desde a Retórica de Aristóteles ─ em que é concebido como uma representação do caráter do locutor com a finalidade precípua de assegurar a persuasão ─ caminha, até os dias de hoje, pela Pragmática, pela Semiótica e pela Análise do Discurso, recebendo a atenção de diferentes linguistas e semioticistas. Muitas são as definições para o “éthos”, porém todas parecem ser complementares. Aristóteles, na Retórica, assegura que, pela forma como constrói o discurso, o orador tenciona passar ao auditório uma imagem que cause boa impressão e inspire confiança. Considerado esse ponto de vista, o éthos está vinculado à própria enunciação e, em consequência, à imagem do ator da enunciação: Persuade-se pelo caráter (éthos) quando o discurso está organizado de forma que o orador inspire confiança; confiamos prontamente nas pessoas honestas em todas as questões, e nelas depositamos uma confiança absoluta nas questões que dão lugar à dúvida ou a equívocos. É preciso, 80 entretanto, que essa confiança seja resultado da influência do discurso e não de uma previsão favorável sobre o caráter do orador (Aristóteles, 1356a: 5-6). Para explicar melhor a teoria do filósofo grego, tomamos emprestadas as palavras de Eggs (2005: 42): [...] toda pessoa, o homem, é, para Aristóteles, um “animal (→ pathos) político (→ éthos) que tem capacidade de falar e de pensar (→ logos). [...] A maneira de o homem manifestar essas três dimensões de seu ser constitui seu éthos. Poderíamos assim dizer que todo éthos constitui uma “condensação específica” dessas três dimensões. Desse ponto de vista, compreendemos o alcance extraordinário da passagem 1378a 6: só o orador que consegue mostrar em seu discurso os mais elevados graus dessas três dimensões do éthos ─ phrónesis, areté, eúnoia ─ convencerá realmente. Nessa passagem da Retórica, Aristóteles investiga essas três dimensões do éthos, por meio das quais o orador inspira confiança, e assevera: Um orador inspira confiança se seus argumentos e conselhos são sábios, razoáveis e ponderados; se ele argumenta com honestidade e sinceridade e se ele é solidário e amável com os ouvintes. Esquematizando as três espécies de éthe aristotélicos, teremos: Éthe Phrónesis O orador apresenta-se Constrói suas provas sensato, prudente, sábio, com mais recursos do lógos ponderado (racionalidade). (recursos discursivos) do que do páthos ou do éthos. franco, sincero (sinceridade). Areté propriamente dito. Solidário, benevolente Eúnoia com recursos do éthos, (solidariedade). com recursos do páthos. 81 Ao discorrer sobre o éthos estudado por Aristóteles, Fiorin (2004: 121) afirma que o orador, dependendo de seu caráter, pode recorrer a uma ou mais das três dimensões acima. Utilizará a phrónesis caso apresente sensatez, ponderação e sabedoria prática (constrói as provas com mais recursos do lógos do que do páthos ou do éthos); utiliza-se da areté aquele que se apresenta franco, virtuoso (constrói suas provas com recursos do éthos); o que se aproveita da solidariedade e benevolência para com seu enunciatário (provas construídas com recursos do páthos) estará se utilizando da eúnoia. Barthes (1975: 2003) enfatiza que o éthos corresponde aos traços de caráter que o orador mostra ao auditório para causar boa impressão; Discini (2003: 18-31), em uma visão mais abrangente, afirma que o éthos é o modo próprio da presença da pessoa no mundo, o modo particular de ser de alguém, cuja construção da imagem só pode ser detectada numa totalidade: seja a obra completa de um dado autor, seja um todo constituído por seus traços comuns para fins de análise. Isso considerado, analisar o éthos do enunciador significa analisar o caráter discursivo do ator da enunciação, definido pela totalidade de sua obra. Depreendese o éthos das marcas da enunciação deixadas no enunciado. Não interessa, nesse caso, a imagem de um enunciador real, mas de uma instância significante, efeito do discurso. O éthos se mostra; ele não é dito. Fiorin (2004b) explica de forma mais clara essa asserção: Quando um professor diz “eu sou muito competente”, está explicitando uma imagem sua no enunciado. Isso não serve de prova, não leva à construção do éthos. O caráter da pessoa competente constrói-se na maneira como organiza as aulas, como discorre sobre os temas etc. À medida que ele vai falando sobre a matéria, vai dizendo “sou competente”. [...] a enunciação não é da ordem do inefável, por conseguinte, o éthos explicita-se na enunciação enunciada, ou seja, nas marcas da enunciação deixadas no enunciado. [...] O éthos é uma imagem do autor, não do autor real; é um autor discursivo, um autor implícito. 82 Na realidade, a imagem construída pelo enunciador para causar boa impressão (o éthos) é crucial para persuadir o enunciatário ─ nos termos da semiótica de Greimas ─ a aderir ao contrato fiduciário. No contrato, como sabemos, o destinador, por meio de seu fazer persuasivo (fazer-crer/fazer), procura ganhar a adesão do destinatário. Os discursos das Igrejas aqui estudadas são marcados não só por um fazer-crer (o fazer do agente religioso deve ser considerado verdadeiro pelo destinatário(telespectador)) mas também por um fazer-fazer (os destinatários devem tomar certas atitudes que os levarão à felicidade ou à salvação). Além disso, tanto o discurso de pregação religiosa de televisão da IURD quanto o da Igreja Católica são muitas vezes enunciados por sujeitos cuja figura pessoal já predispõe o enunciatário a aderir ao contrato proposto (quase sempre o contrato implica ir ao templo e participar das missas ou das reuniões). São os casos do padre católico Marcelo Rossi, que tem atraído milhares de telespectadores às missas, influenciados pelas canções e filmes nos quais atuou, ou do bispo evangélico e dono da Rede Record, Edir Macedo, não menos conhecido. Maingueneau (in: Amossy, 2005: 71) denomina esse pré-conhecimento da imagem do enunciador de éthos pré-discursivo, termo do qual discordamos a partir do momento em que adotamos o princípio de que o éthos é a imagem do enunciador construída com as marcas deixadas no enunciado, e não de um enunciador do mundo real, de carne e osso. A questão é que, quando se examina a problemática da produção do discurso nas mídias, pensa-se no enunciador real, de carne e osso, e não numa instância significante, efeito do discurso (Fiorin: 2004b: 16). Adotamos, portanto, a visão da semiótica segundo a qual em não havendo o texto, não pode haver o éthos prévio ou pré-discursivo do enunciador. A semiótica não pensa a realidade como algo pré-existente, mas, sim, como algo que provém dos discursos. Admitimos, por conseguinte, nesse caso, não um éthos pré- 83 discursivo, mas uma imagem que resulta da intertextualidade ou da interdiscursividade, à qual chamaremos de imagem interdiscursiva no que se refere aos agentes religiosos-apresentadores dos programas. Lidamos, neste trabalho, com enunciadores provindos de diferentes linhas religiosas: a da Igreja Católica, milenar, tradicional, e a da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada recentemente, e ─ parece ─ bem mais adaptada à evolução tecnológica do mundo de hoje. É nossa opinião, portanto, que o enunciatário, nos casos de pregações de TV efetuadas por padres católicos ou por pastores pentecostais, tenha já em mente, na sua interpretação, uma imagem interdiscursiva imbuída de toda a carga histórica que essa função carrega. Ademais, essa imagem interdiscursiva, pressentida pelo enunciatário antes de inteirar-se com o texto, também pode ser dada pelo gênero, no caso, o da pregação religiosa, pois este já condiciona certos padrões de produção textual. Por conseguinte, podemos afirmar que o público, devido às tradições histórico-culturais constantes no gênero pregação religiosa de televisão, já tem em mente uma imagem do enunciador padre ou pastor antes mesmo de que ele fale. Essa imagem é refletida por um perfil de honestidade e de conhecimento da Palavra de Deus que será confirmado (ou não) pelo discurso à medida que o enunciador deixa suas marcas pessoais no enunciado. Dessa forma, o éthos do enunciador, por estar intimamente ligado ao gênero de seu discurso, acompanha as variações genéricas, sofrendo transformações (atualizações) com a velocidade e a dinâmica que a sociedade exige, devido à interação com sua própria esfera de atividade humana. As marcas da personalidade e do caráter do enunciador depreendidas do enunciado, na pregação religiosa, devem inspirar confiança e, para isso, têm de assimilar as mudanças exigidas pela sociedade. Se a Igreja Católica, 84 por exemplo, mantivesse, hoje, um éthos imutável, mostrado por meio de um discurso de séculos atrás, estaria fadada a desaparecer. Apresentaremos, a partir deste ponto, as análises semióticas dos programas de televisão da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja Católica Apostólica Romana. 85 CAPÍTULO IV Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) Os estúdios das emissoras do Bispo Edir Macedo são, durante a maior parte do tempo, o espaço no qual os programas da pregação religiosa de televisão da Igreja Universal são gravados. O pastor-apresentador tem seu discurso levado ao ar, nas madrugadas, em transmissão direta. Nos programas apresentados na TV Gazeta, que aluga para a IURD (durante a execução desta tese) os horários das 6 às 8 horas da manhã e das 20 às 22 horas, ocorre a reapresentação da programação em videoteipe. A forma adotada é quase sempre a mesma: um ou dois pastores-apresentadores “conversam” com os telespectadores, mostrando-lhes que podem atingir a felicidade desde que procurem a ajuda da IURD. Compõem esses programas entrevistas na forma de testemunhos, inserções de imagens gravadas nos templos superlotados graças à corrente dos “318 pastores”, à corrente dos “70” e outros eventos da Igreja. Há também, durante os programas, pequenas produções dramáticas, encenadas por atores, interpretando as desgraças ocorridas ou que podem advir na vida de quem não recorre à IURD. Mudam-se os títulos e os apresentadores, mas a estrutura dos programas é praticamente igual. Iniciaremos nossa análise pelo programa SOS Espiritual, da Igreja Universal do Reino de Deus. A análise dos programas da IURD focaliza o SOS Espiritual (transmitido na manhã do dia 18 de janeiro de 2008) que engloba um conjunto de programas curtos, de meia hora de duração, aproximadamente, dos quais extraímos os trechos, apresentados por diferentes pastores ou bispos. 86 1º segmento: Simulacros negativos Pastor Denílton: [...] há uma coisa estranha que acompanha o seu marido, que acompanha o seu filho, essa coisa estranha que a senhora diz: ─ Eu não sei o que é, mas ele está diferente, ele não é mais o mesmo, mas eu estou notando, pastor, uma coisa... que o comportamento do meu marido está igual ao do meu sogro, está igual ao do meu pai, eu estou notando que isto, essa coisa estranha que está acompanhando o meu pai, está acompanhando também o meu marido. Eu estou notando que a mesma dor, o mesmo sofrimento que atuava na minha mãe, no casamento da minha mãe, está atuando no meu. Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor, e você não sabe o que fazer? Preste atenção se não é isto que tem acontecido, algo estranho. Mas sabe por que esta coisa estranha entrou aí? Por que de repente aconteceu isso? Olha, preste atenção, olha só... O programa SOS Espiritual tem início com o pastor-apresentador (destinador)24, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), manipulando o destinatário-telespectador por intimidação, ao instaurar um antissujeito de natureza espiritual e, portanto, desconhecido, que pode, a qualquer momento, privar o telespectador de seus objetos de valor ou prejudicar sua família. Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor, e você não sabe o que fazer? A instauração desse poderoso antissujeito25 que acompanha o destinatário, disjungindo-o de toda a sorte de objetos de valor eufórico, é uma estratégia corriqueira no discurso iurdiano, uma vez que o objetivo principal do destinador é incitar o destinatário-telespectador a buscar ajuda pessoalmente no templo, lugar em que sofrerá todo tipo de manipulação. Com essa finalidade, o discurso deverá produzir eleitos de sentido que provoquem, no telespectador, paixões negativas 24 Os pastores-apresentadores alternam-se durante os programas da IURD. O antissujeito instaurado pela IURD, como mostraremos no transcorrer desta tese, é o Mal, concretizado na figura do “encosto”, dos espíritos malignos, da “coisa estranha”, do Diabo e da maldição que vem desde os antepassados. 25 87 como o medo, a vergonha, a insatisfação e o desespero. O antissujeito (o encosto, a coisa estranha, o espírito maligno etc.) é instaurado repetidas vezes na parte inicial de quase todos os programas televisivos da Igreja Universal, como pudemos mostrar em nossa dissertação de Mestrado26, não importando a que público o programa é dirigido. Se o programa é direcionado aos empresários (“A hora dos empresários”), faz-se o simulacro inicial é o de um sujeito cheio de dívidas que, influenciado pelo antissujeito, conduz uma empresa à falência; se voltado aos mais jovens (programa “Em busca do amor”), instaura-se um sujeito mal-resolvido sentimentalmente, problemático no relacionamento com o sexo oposto, muitas vezes traído e insatisfeito; se dirigido ao povo mais humilde (programa “Realidade”), ergue-se a figura de um sujeito humílimo, combalido pelas dificuldades financeiras, na fila do “sopão”, a ponto de passar fome, e envergonhado diante da sociedade. Tais situações são, via-de-regra, causadas pela atuação de uma entidade maligna na vida dos não-adeptos da Igreja. No texto em foco, destinador-pastor utiliza uma estratégia discursiva fundamental no processo de persuasão da IURD: o agente religioso cita, por meio de uma debreagem de segundo grau, as palavras de uma senhora que se diz desnorteada por seu desconhecimento e impotência diante de um mal espiritual, figurativizado como “coisa estranha”, motivo de toda dor e sofrimento, desde os antepassados até os dias de hoje. Vejamos: [...] a senhora diz: ─ Eu não sei o que é, mas ele está diferente, ele não é mais o mesmo, mas eu estou notando, pastor, uma coisa... que o comportamento do meu marido está igual ao do meu sogro, está igual ao do meu pai, eu estou notando que isto, essa coisa estranha que está acompanhando o meu pai, está acompanhando também o meu marido. Eu estou notando que a mesma dor, 26 Jadon, José Carlos. A ideologia do sucesso. Uma análise Semiótica do discurso televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus. Dissertação de mestrado. Orientação da Profa. Dra. Diana Luz Pessoa de Barros. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2005. 88 o mesmo sofrimento que atuava na minha mãe, no casamento da minha mãe, está atuando no meu. A expressão coisa estranha é repetida cinco vezes somente no segmento em análise. Essa iteração reforça o efeito de sentido da presença constante da entidade desconhecida e poderosa contra quem um ser humano mortal ─ sem a ajuda da Igreja ─ não tem competência para lutar. [...] há uma coisa estranha que acompanha o seu marido [...] [...] essa coisa estranha, que a senhora diz: - Eu não sei o que é [...] [...] essa coisa estranha que está acompanhando o meu pai está acompanhando também o meu marido [...] Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor [...] Mas sabe por que essa coisa estranha entrou aí? É importante ressaltar outra forma de citação ─ a interpretação por atores e atrizes (formato de teledramaturgia) ─ empregada nos atuais programas televisivos da IURD e decisiva no processo persuasivo. Misturam-se aqui gêneros provenientes da esfera de atividades da mídia televisiva com a da igreja. A recorrência da teledramaturgia nas pregações televisivas iurdianas decorre de mudanças históricas e sociais, nas quais a sociedade pede a integração de outros gêneros, necessários para a produção do sentido. Assim sendo, para tentar convencer os destinatários-telespectadores de que a “coisa feita” existe e pode prejudicar, a IURD recorre, como já afirmamos, a um gênero da mídia televisiva. Apresenta, pois, durante a programação, pequenas produções27 em cujos enredos se encenam situações que reforçam o discurso da Igreja. No programa em análise, uma dona de casa bem casada e bem situada financeiramente demite sua empregada. A vingativa empregada, inconformada e cheia de ódio, vai a um cemitério e faz um “despacho” com a foto da patroa. A partir daí, a patroa, antes 27 Como já antecipamos no capítulo sobre os gêneros, a IURD, durante sua pregação, recorre constantemente a vários gêneros da mídia televisiva, no caso, o gênero é o da teledramaturgia. É muito comum vermos entrevistas, trechos de filmes produzidos em Hollywood e até desenhos animados como auxiliares da pregação. 89 feliz, começa a sonhar com a morte e a apresentar problemas mentais que vão aumentando até a destruição total de sua vida (problemas familiares, internação em sanatório). O texto mostra que a patroa, por não recorrer à IURD, sofre todas as consequências da maldição lançada pela empregada. O simulacro da imagem inicial do destinatário-sujeito(telespectador) projetada pelo destinador IURD é, portanto, o de um indivíduo vitimado por uma entidade espiritual maligna (o Mal) que lhe causa doenças, falta de dinheiro e desgraças de toda espécie. Esse saber original é marca da onisciência sobre a vida dos telespectadores, que a IURD demonstra desde o início da maioria de seus programas televisivos. Vítima de um Mal desconhecido Impotente contra o Mal Imagem do sujeito (simulacro) Amedrontado Sofredor Preocupado O destinador procura inspirar confiança no destinatário ao demonstrar uma personalidade benevolente e solidária, capaz, inclusive, de resolver todos os problemas dos telespectadores. Esse processo é o início da instauração de um éthos alicerçado na eúnoia (solidariedade), pois o agente religioso mostra-se, do começo ao final do texto, bem-intencionado e solidário para com seu auditório. Essa boa intenção/simpatia para com o outro irá, no transcorrer do discurso, ampliar-se de forma a transformar-se numa disposição ativa para prestar serviços ao outro, caso ele necessite (Eggs, 2005: 33). A opção pelo eúnoia pode ser observada a partir do próprio título do programa (SOS Espiritual) que significa 90 socorro ou ajuda espiritual, uma vez que durante todo o texto o enunciador se coloca à disposição do espectador para solucionar todos os seus problemas: Então, nesta terça feira, nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais [...]. Pode ter certeza...a senhora, o senhor, que chegar nesta corrente carregado, pesado, você vai sair liberto, livre de todo o mal. Tá bom? Se você quer a nossa ajuda, nós estaremos na nossa catedral [...]. O Mal: um antissujeito poderoso O discurso da Universal volta-se às pessoas que têm passado por sérios problemas financeiros, de saúde, afetivos ou profissionais. Esse sujeito que, num primeiro momento, preenche o espaço do lar, deixa sua marca como uma presença caracterizada pela intensidade passional do medo e da vergonha, proporcional à falta dos objetos de valor (bens materiais, saúde, amor, felicidade). Melhor dizendo, na sociedade que prestigia o ter ao ser, movida pelos valores materiais, as pessoas geralmente têm medo da pobreza e sentem vergonha por serem pobres diante do mundo capitalista que as reprova. O Mal, cuja presença se dá como uma entidade poderosa, é instaurado no discurso como um antissujeito que separa o sujeito de seu objeto de valor ou como um obstáculo que se interpõe entre o sujeito/objeto, ou seja, o Mal, concretizado nas figuras do encosto, da maldição, da coisa estranha, do pó-de-sumiço, torna o telespectador infeliz, pois impede a sua aproximação dos bens materiais. O agente religioso manipula o telespectador de forma a dar-lhe a competência necessária para procurar a ajuda da Igreja. Por isso, apela à construção do simulacro negativo. A presença do Mal, instalado no discurso como um antissujeito/obstáculo entre o destinatário-telespectador e seus objetos de valor, é inversamente proporcional à conquista dos objetos de valor. Isso significa que quanto maior a presença desse antissujeito, menor a possibilidade do destinatário 91 realizar suas aspirações; quanto menor a presença, maior a possibilidade de realização. O Mal (Antissujeito) Telespectador o obstáculo Objetos de valor (riqueza, amor, saúde) entre sujeito/obj. Ilustração 5: o Mal, como obstáculo entre o sujeito e o objeto de valor. Em um primeiro momento, o texto caminha orientado pelo esquema tensivo da ascendência (intensidade +/ extensão -). Há um considerável aumento da tensão causado pelas paixões do medo/vergonha/insatisfação, conforme o Mal se manifesta e, por consequência, ocorre uma diminuição ou afastamento dos objetos de valor do sujeito. O agente religioso espera que o telespectador seja dominado por uma intensidade crescente das paixões do medo e da vergonha, de forma que chegue às portas do desespero, para, assim, aderir ao contrato e procurar ajuda da Igreja. Considerando que o estado das coisas provém dos estados da alma, incitar as paixões é uma estratégia para levar o sujeito à ação. Em outras palavras, o sujeito S1 tenso (amedrontado, insatisfeito e envergonhado) porque disjunto de seu objeto de valor (Stenso U Ov) toma conhecimento de que S2 (a Igreja, na figura do agente religioso) se coloca como ajuda imprescindível para eliminar o antissujeito (ilustração a seguir): 92 O Mal S1 Telespectador S2 Objeto de valor (riqueza, amor, saúde) (Antissujeito) IURD (adjuvante) o obstáculo entre fonte e alvo eliminação do antissujeito Ilustração 6: A IURD adjuvante Visualizemos, no gráfico, essa situação tensiva: + Medo, vergonha Intensidade _ Extensão bens materiais + gráfico 15: sujeito tenso e disjunto de seu Objeto de Valor O telespectador é aquele que deve passar da condição de sujeito do estado para a de sujeito da ação. A ação é provocada a partir da manipulação criadora de um determinado estado passional. Como já afirmamos, levar o telespectador a um estado tensivo-passional elevado que o impila a procurar ajuda “da” e “na” Igreja, confiante de que ali encontrará a felicidade, é garantia de sucesso da manipulação. Por esse motivo, torna-se necessária uma descrição, mesmo que breve, das 93 paixões epistêmicas, positivas e negativas, ligadas ao crer e ao saber, pois são as paixões desses dois grupos as que mais têm lugar no discurso religioso de televisão. Provêm do crer paixões epistêmicas positivas como a confiança, a certeza, a crença, a fé, e negativas, como a decepção, a frustração, a desilusão, que deságuam no desespero28, essas últimas nascidas da incompatibilidade abaixo representada: /crer S2 dever fazer/ com o /saber S2 não fazer / (que resulta no) /não crer ser/ decepção, frustração, insatisfação,desespero Ligados ao saber, encontram-se o medo e a vergonha. As paixões do crer são descritas pelo estado inicial de espera, o que se define pelo arranjo modal (Barros, 1990: 62) do /crer-ser/, em que o sujeito da espera (S1) confia, crê que o outro (S2) tem o dever de realizar para ele as suas aspirações. Estabelece-se, então, um contrato, muitas vezes imaginário, entre os dois sujeitos. Os fazeres cognitivos contratuais são denominados simulacros, os quais determinam as relações entre os sujeitos. Sendo assim, dois programas narrativos representativos da espera podem ser formados: S1 crer [S2 dever → (S1 ∩ Ov)] Espera fiduciária: S1 crê que S2 tem o dever de realizar todos os seus desejos. No discurso religioso tradicional, há um terceiro programa narrativo, com a inclusão de um S3, ou seja, o padre/pastor deve exercer o papel de intermediário entre o crente e Deus. Isso significa que, na pregação religiosa tradicional, há dois sujeitos do fazer: (1) o agente religioso, que faz-fazer (faz Deus atender aos 28 Sobre as paixões da confiança mais utilizadas no discurso em análise (autoconfiança, confiança. crença e fé) discorreremos mais adiante, durante a análise do discurso católico. 94 pedidos por meio das preces e súplicas); (2) Deus, que age, atendendo aos pedidos. S1(telespectador) crer [S2 (padre/pastor) dever-fazer (S3 (Deus) fazer→((S1 ∩ Ov))] No discurso da IURD, o agente religioso S2 também deve fazer Deus fazer (restaure os valores perdidos). No entanto, características inerentes ao discurso iurdiano, como, por exemplo, onisciência (a IURD atribui a si o conhecimento da vida de seus fiéis) e as preces naturais29 (o pastor improvisa uma oração/diálogo com Deus) fazem-na ocupar o mesmo lugar enunciativo de Deus, o que significa dizer que o lugar de intermediação fiel/Deus permanece vazio. Com a perda de valores, foco principal do discurso neopentecostal, a IURD incita no sujeito paixões das ordens do crer e do saber, que, juntas, acabam, por levar o sujeito ao desespero. Com relação às paixões da ordem do saber, o discurso deve fazer o sujeito sentir vergonha por não ter os valores positivos desejados, ao mesmo tempo que, se o sujeito não está em situação ruim, ele deve sentir medo de chegar a ela. Quanto às paixões epistêmicas da ordem da crença, o discurso constrói um telespectador decepcionado, porque não encontrou apoio em nenhuma Igreja e em ninguém, além de frustrado e insatisfeito, porque não conseguiu obter os valores desejados. A conjunção da decepção com a frustração/insatisfação, em última análise, desemboca no desespero. Instaurado o desespero, o discurso apela às paixões epistêmicas positivas (confiança, esperança) para levar o telespectador à igreja. 29 O discurso da Igreja Universal, empregado nos programas de TV, é enriquecido com uma ou mais preces naturais (aquelas improvisadas pelo pastor, não conhecidas pelo fiel), sobre as quais discorreremos em momento posterior. Elas são uma forma crucial de mostrar que o sujeito manipulador tem acesso, facilidade, diálogo e até intimidade no relacionamento com Deus. Essa forma de oração ajuda o pastor a conquistar a confiança do destinatário; sem ela o processo persuasivo poderá não lograr efeito. 95 Assim, a partir deste ponto, descreveremos, sob o ponto de vista da semiótica de linha francesa, algumas paixões negativas ─ o medo, a vergonha (da ordem do saber), a insatisfação e o desespero (da ordem do crer, negativas) ─ cruciais no processo de significação dos textos da pregação religiosa de televisão, especialmente nos da IURD. Por razões metodológicas, optamos por discorrer sobre as paixões positivas da confiança e da esperança, igualmente decisivas na análise dos textos em foco, em momento posterior. Iniciando pelo medo, o dicionário Aurélio – Século XXI, define o lexema como “sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; susto, pavor, temor, terror”. Fiorin (1992: 57), por sua vez, esclarece ser o medo uma paixão da ordem do saber, mas, diferentemente do saber que o outro sabe (a vergonha), refere-se ao saber que o outro pode fazer, sendo esse fazer algo disfórico. O medo é também uma paixão da ordem do saber, mas, ao contrário da vergonha que concerne ao saber que outro sabe, ele refere-se ao saber que o outro pode fazer, sendo o fazer uma conjunção com algo disfórico. (Fiorin, 1992: 57) A paixão do medo, complementa o linguista, também surge quando o sujeito sabe que pode estar em conjunção com objetos de valor disfórico (ou perda de valores) e não quer estar. Ainda segundo Fiorin, “há dois tipos de medo: um derivado da possibilidade de uma sanção pragmática negativa (medo dissuasório) e outro de uma performance vista como ameaçadora” (medo não-dissuasório). O medo dissuasório leva o sujeito a agir de acordo com uma dada norma social. Nesse caso, o sujeito amedrontado tem do outro um simulacro de destinador da sanção negativa por ser hierarquicamente superior e dotado de competência para castigar; o outro tipo de medo decorre de uma performance vista como 96 ameaçadora. A instauração desses dois tipos de medo, o não-dissuasório e o dissuasório, é usada como estratégia persuasiva da IURD. Vejamos os exemplos: (1) Instauração do medo não-dissuasório (decorrente de uma performance Ameaçadora e da perda de valores) : [...] essa coisa estranha que está acompanhando o meu pai, está acompanhando também o meu marido. (SOS espiritual, exibido em 18 de janeiro de 2008) O seu sofrimento não é um carma, não é o destino e muito menos é uma provação de Deus. Se a senhora, o senhor, está sofrendo é porque existe uma força do Mal na sua vida, força do Mal esta que pode ter entrado por uma inveja, por uma maldição, por um feitiço e este Mal não vai sair da sua vida por si só. (Programa Nosso tempo, exibido em 6 de fevereiro de 2009) (2) Instauração do medo dissuasório (aquele que leva o sujeito a agir de acordo com uma dada norma social, para não ser sancionado negativamente pela própria sociedade): [...] pessoas que chegam nessa vigília quebradas, endividadas, falidas, pessoas devendo pra agiotas, na iminência de serem despejadas, pessoas com o nome sujo na praça, pessoas que trabalharam anos, lutaram muito tempo pra conquistar alguma coisa e o que conquistou, de uma hora pra outra, de uma forma inexplicável, elas acabaram perdendo. Chegaram à estaca zero [...]. (programa A hora dos empresários, exibido em 13 de fevereiro de 2009) Podemos, pois, afirmar que, no discurso em pauta, a paixão do medo define a existência modal do sujeito-telespectador de duas formas distintas: a primeira delas reflete um sujeito amedrontado diante de um poderosíssimo antissujeito/antidestinador (medo não-dissuasório), figurativizado de forma genérica e difusa (o Mal) ou – de forma mais definida e específica (o pó-de-sumiço, o encosto), que não deixará o telespectador jungir-se ao seu objeto de valor (riqueza, saúde); a segunda existência modal refere-se a um sujeito temeroso de ser sancionado negativamente pela própria sociedade em que vive (medo dissuasório), por causa da não-conjunção com o objeto de valor almejado (riqueza, sucesso, bens materiais). 97 Uma dessas duas possibilidades pode ocorrer com o sujeito coletivo de estado (o público telespectador) quando se estabelece, no texto, a personificação do Mal, instituído como um poder antitético a Deus, à Igreja e aos homens. Tenebroso e desconhecido porque sobrenatural, é potencializado como “uma atuação espiritual que faz perder”, que age nas sombras e contra quem o destinatário, sem a ajuda da Igreja, nada pode fazer. Intimida-se o sujeito, impondose o simulacro de um destinador-sancionador, constituído por um ser superior, plenamente competente para castigar, trazer perigo ou de um antissujeito capaz de privar o telespectador dos bens materiais, do amor, da harmonia que almeja. Por haver, no discurso da IURD, uma tentativa constante de se estabelecer uma relação entre a quantidade de bens materiais e a vergonha, essa paixão caminha ao lado do medo, ou seja, quanto menos bens materiais o sujeito possuir, mais envergonhado sentir-se-á. A vergonha, tanto quanto o medo, é uma paixão da ordem do saber que reflete, porém, um estado de alma exclusivamente humano30, definido pela combinação do /querer ser/ + /não poder não ser/ + /saber não ser/ relacionado a algo moralizado positivamente pela sociedade. Veremos, no 2º segmento, o depoimento de um sujeito que afirma ter perdido a honra, envergonhado perante a sociedade e insatisfeito por não possuir bens materiais. Como afirma de-La-Taille (1999 : 25)31, [esse sujeito] dá valor e torna legítimo o olhar de um outro destinador, a própria sociedade, que o sanciona negativamente por não ter emprego ou estar em dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo e, a partir da aceitação dessa reprovação da sociedade, assume o 30 Os animais sentem medo, mas não sentem vergonha. [o sujeito envergonhado] é desdobrado em dois simulacros existenciais conflitantes: em um, ele tem, ou pensa ter, uma certa competência modal positiva, pensa ser ─ ou melhor, projeta-se ─ de um determinado modo; noutro, ele vê que não possui tal competência, que não é como pensava ser. Tudo isso acrescido do olhar real ou virtual de um espectador legitimado pelo sujeito, supostamente em conjunção com o sistema de valores do destinador-julgador [...] ele (o sujeito) elege o olhar do outro como legítimo para julgar, negativamente, a imagem de si que pretende projetar. 31 98 papel de autodestinador-julgador, reprovando-se a si mesmo, pois não é o que pensou que viria a ser. Envergonha-se porque não realizou sua autoimagem virtual, conjunta e relaxada, mas apresenta, segundo seu próprio julgamento, uma imagem não-conjunta e intensa. O agente religioso-destinador precisa aproveitar-se desse estado e fazer o destinatário acreditar que só conseguirá obter seu objeto de valor indo ao templo. Ali, o sujeito será exaltado e não ficará mais envergonhado perante Deus e os outros. Visando a esclarecer melhor essa tentativa de estabelecer uma relação entre a escassez de bens materiais com a vergonha, esquematizamos a criação do simulacro que projeta a imagem de um sujeito envergonhado. No quadro abaixo, procuramos mostrar que, após ser manipulado, o sujeito, disjunto dos bens materiais, reprova-se a si mesmo, diante da sanção negativa imposta tanto pela sociedade quanto por seu próprio modo de ver o mundo, tornando-se, a partir daí, um sujeito envergonhado. Fiorin (1992: 57) afirma: A vergonha é, assim, um estado de alma da ordem do saber: o sujeito sabe que não possui a competência para um fazer exigido pelo simulacro de membro de um dado grupo ou que fez algo em desacordo com a deontologia grupal. 99 Instauração do sujeito envergonhado no discurso da IURD /querer-ser/ + /não poder não ser/ + /saber não ser/ Destinadoresmanipuladores Destinador-julgador 1: a sociedade Moralização negativa Agente religioso / IURD Repórter Testemunhante (a sociedade reprova o sujeito por este não estar conjunto com os objetos de valor desejados) Destinatário-Sujeito-coletivo Construção de simulacros negativos da imagem do Sujeito não conjunto com Objetos de valor positivo (sucesso financeiro, bens materiais) Sujeito envergonhado (não-conjunto e tenso) (aceita a reprovação socialsanção negativa – e assume uma autoimagem negativa, reprovando-se a si mesmo) Destinador-julgador 2: o próprio Sujeito (o próprio destinatário-sujeito se reprova por sua não-conjunção com os objetos de valor desejados) Ilustração 7: Instauração do sujeito envergonhado A insatisfação é outra paixão disfórica cuja abordagem julgamos necessária. De acordo com o Dicionário UOL/Houaiss da Língua Portuguesa, insatisfação significa descontentamento, desprazer, contrariedade, aborrecimento. Vinculada à perda de valores, essa paixão é, juntamente com o medo e a vergonha, um dos efeitos de sentido estrategicamente produzidos pelo discurso neopentecostal e, algumas vezes, pelo católico. Barros (1990: 66-67), ao retomar Greimas, afirma que a insatisfação é uma paixão intensa, não-eufórica, gerada por um sentimento de falta e definida pela combinação de um /querer-ser/ + /não-crerser/ + /saber-não-poder-ser/. Em Greimas (1981: 6) encontramos: essa paixão é consequência da dificuldade decorrente da ruptura entre o /querer-estar reunido/ 100 sempre presente e o /saber-não-estar reunido/. Afirma, ainda, o semioticista que há uma relação direta entre a intensidade da expectativa não realizada (“vontade”, “querer”, “desejo”, “aspiração”, “esperança”) e a gradação da insatisfação. Existe a possibilidade de esse sentimento dar lugar a um programa de liquidação da falta e será por esse caminho que os destinadores tratarão de conduzir o processo da persuasão. A conjunção dessas três paixões ─ o medo, a vergonha, a insatisfação ─ conduz o sujeito em direção à infelicidade e, finalmente, ao desespero, uma paixão intensa. O discurso da IURD, no entanto, procura atenuar ou anular esse encadeamento passional ao instaurar a esperança, oferecendo-se como adjuvante na guerra contra o antissujeito, o Mal, causador de todos os problemas do telespectador. Aderindo ao contrato, o sujeito, agora esperançoso, caminhará em direção à felicidade. Sobre o desespero, procuramos, a princípio, examinar as origens etimológicas do lexema e encontramos o seguinte: o substantivo desespero é formado por derivação deverbal de desesperar, que, por sua vez, provém, por derivação prefixal, de esperar (do latim spero, as, avi, atum, are). Assim, etimologicamente: -r Esperar + ança + des / - r espera esperança desespero 101 Como o prefixo des- entra na formação de numerosos substantivos, adjetivos e verbos para expressar ideia contrária à do termo original, se considerarmos a etimologia, desespero significa não ter esperança. No Dicionário Houaiss/UOL da Língua Portuguesa, as acepções de desespero confirmam o sentido etimológico: 1. estado de profundo desânimo de uma pessoa que se sente incapaz de qualquer ação; desalento. 2. estado de consciência que julga uma situação sem saída; desesperança. 3. estado de desânimo, de sofrimento a que se sujeita uma pessoa devido a um excesso de dificuldades ou de aflições; aflição, angústia, exasperação. 4. aquilo que, pela sua dificuldade e pela sua exigência de perfeccionismo, causa frustração ou desânimo. 5. irritação profunda; cólera, furor, raiva. O sujeito amedrontado pelos simulacros do Mal construídos pelo destinador, envergonhado diante da sociedade e insatisfeito com a situação em que se encontra, deve ser levado ao desespero para, só então, movido pela esperança de resolver seus problemas, buscar a ajuda salvadora da Igreja. Aliás, é comum ouvirmos as pessoas dizerem que só se voltaram a Deus diante de uma situação desesperadora, sem saída. Para Greimas & Fontanille (1993: 68), o desespero é uma paixão resultante de uma configuração modal conflitual segundo o /querer-ser/, de um lado, e os /saber-não-ser/ e / não-poder-ser/, de outro. Apesar de contrariarem-se, esses dois grupos de modalizações antitéticas não se modificam mutuamente, o que provoca uma ruptura interna do sujeito. Na realidade, ainda segundo os semioticistas, no desespero há universos modais incompatíveis, ou seja, o sujeito desesperado vive uma crise de confiança, imbuído de duas identidades modais independentes: a do fracasso e da frustração, por um lado, e a da confiança e da expectativa, por outro. O sujeito desesperado procurará a Igreja se, mesmo enxergando-se a si mesmo um frustrado/fracassado, tiver esperança de que ela, por meio de seus agentes, pode acionar a onipotência de Deus para resolver todos os seus problemas e levá-lo à felicidade. 102 medo vergonha confiança insatisfação esperança desespero (fé) felicidade Ilustração 8: do desespero à felicidade. A crise de confiança, causada pela presença de uma ou mais paixões negativas da ordem do crer (decepção, frustração, insatisfação, desespero etc.), é imediatamente atenuada no momento em que o destinador(agente religioso) dá esperança ao destinatário de que a Igreja solucionará todos os seus problemas. Por esse motivo, a paixão da esperança é caminho pelo qual o discurso religioso tem de passar. No Dicionário da Houaiss/UOL da Língua Portuguesa, o lexema esperança dispõe das seguintes acepções: (1) sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja; confiança em coisa boa; fé (2) (rubrica: religião) a segunda das três virtudes básicas do cristão, ao lado da fé e da caridade [representa-se por uma âncora] (3) expectativa, espera. No Dicionário de Teologia (2002: 50), encontramos: Esperança: termo bíblico referente à expectativa do crente de que Deus cumprirá as promessas feitas no passado. A esperança bíblica é mais que simples desejo; compreende a certeza baseada na demonstração, na história da salvação, da fidelidade de Deus para com as pessoas, conforme registrado nas Escrituras e na experiência da igreja. Em última análise, a esperança futura do cristão baseia-se na promessa de retorno de Cristo e na expectativa da ressurreição dos mortos. São bastante diferentes as acepções apresentadas pelo dicionário de língua portuguesa e pelo dicionário de Teologia. Isso porque enquanto o Houaiss define a 103 esperança como a visão da realização de um desejo, o Teológico a define como, mais que um desejo, a expectativa de cumprimento de promessas divinas (a salvação, o retorno de Cristo, a ressurreição dos mortos). Podemos afirmar, no entanto, que a primeira definição se identifica com o discurso iurdiano (o paraíso – o sucesso – é aqui e agora) e a segunda, com boa parte do discurso católico e de outras religiões, que postergam a felicidade plena para a vida após a morte. A confiança (paixão intersubjetiva) e a esperança, como apontamos na ilustração 8, andam sempre unidas e são cruciais no discurso religioso, pois é necessário que o sujeito confie no destinador, para, esperançoso, dirigir-se à igreja em busca de ajuda. Confiante, o sujeito de estado pensa poder contar com o sujeito do fazer para a realização de “suas esperanças” e/ou de “seus direitos”. O contrato de confiança é, segundo Greimas (1981), imaginário, e corresponde à construção de simulacros. Sem a confiança no destinador não haverá instauração da esperança de se chegar à felicidade (obtenção dos objetos de valor). Para Tatit (2002: 163), a esperança não deixa de ser uma relação de continuidade extensa entre o sujeito e seu objeto. É uma paixão típica da espera fiduciária já que o sujeito de estado atribui ao sujeito do fazer um /dever-fazer/ que vai levá-lo à felicidade. O grupo de paixões visto até aqui, carrega potencial suficiente para levar o telespectador a aderir ao contrato proposto, pois a confiança no agente religioso e a esperança de uma vida melhor são paixões consideravelmente atenuantes do medo, da vergonha e do desespero. No esquema 1, a seguir, procuramos mostrar o percurso dos estados de alma que, no discurso sujeito(telespectador). em foco, o destinador pretende impingir no 104 (1) Impossibilidade de união com o objeto de valor /não-poder-ser/ Simulacro existencial do sujeito Medo, vergonha, insatisfação, crise de confiança, decepção, desespero intensão – estabelecimento da falta (3) realização previsão da consumação de S ∩ Ov /poder-ser/ novo simulacro do sujeito Felicidade segurança, confiança relaxamento - liquidação da falta (2) possibilidade de união com o objeto de valor /não-poder-não-ser/ Esperança distensão - reconhecimento da falta Esquema 1: da impossibilidade à realização. Alicerçando e fortalecendo a instauração das paixões relacionadas à perda de valores (medo, vergonha, insatisfação), o agente religioso prepara o discurso para apresentar a IURD como um destinador adjuvante salvador, pronto para, ao lado de Deus, eliminar o antissujeito; instala, então, uma isotopia de coisas do mal destinada a intimidar o destinatário, recorrendo a várias figuras que, juntas, aumentam sobremaneira a tensão discursiva (coisa estranha, maldição, trabalho, pó de sumiço, maldição dos antepassados ou dos ancestrais etc.). Se observarmos o alcance do mal a que está sujeito o destinatário, caso não recorra à IURD, perceberemos que a generalização (a isotopia das figuras do mal), além de resultar em um aumento da intensidade (maior tensão) provocará uma diminuição da extensão (distanciamento dos Ov). Vejamos essa situação tensiva graficamente: 105 MEDO maldição pó de sumiço intensidade (coisas do mal) coisa estranha isotopia “trabalho” 0 extensão Sumiço dos objetos de valor (vida, marido, bens etc.) Generalização da diminuição dos objetos de valor. gráfico 16: isotopia das figuras do mal – tensão elevada. Para fortalecer a manipulação, a pregação iurdiana serve-se de mais um gênero, dessa vez não trazido da esfera de atividades da mídia televisiva mas da esfera jurídica: os testemunhos. Eles carregam forte valor persuasivo por serem narrativas menores que, inseridas na totalidade discursiva, apresentam as três fases do esquema narrativo (manipulação, ação, recompensa), já que as narrativas televisivas da Igreja Universal, vistas em sua totalidade, normalmente apresentam apenas a fase da manipulação, isto é, em uma análise do esquema narrativo geral desses programas, trabalhamos somente com o percurso do destinadormanipulador (percurso da manipulação). Entretanto as pequenas histórias auxiliares contadas pelo destinador ou por entrevistados ─ testemunhos ─ apresentam o modelo canônico completo. A ação (performance) corresponde infalivelmente à ida do destinatário(telespectador) ao templo da IURD; a recompensa é a felicidade alcançada, a nova vida, o simulacro positivo do telespectador, depois de comparecer ao templo. Vejamos, no 2º segmento, como se dá esse processo. 106 2º Segmento – TESTEMUNHOS 1 e 2: doação de esperança para uma vida melhor Após examinar vários, inserimos, neste segmento, dois testemunhos que cumprem o mesmo papel no texto, mas apresentam diferentes questões de análise. O primeiro tem como entrevistador o próprio agente religioso, para quem a Srta. Priscila relata a cura de suas inúmeras doenças. No segundo, ao ser entrevistado por uma repórter, o Sr. Alencar relata a sua recuperação dos bens materiais. Percebemos, nos depoimentos que se referem à saúde, que, em nenhum momento, os testemunhantes contam ter ficado envergonhados por terem estado doentes. Por outro lado, nos depoimentos sobre a falta de bens materiais, os depoentes, quase sem exceção, demonstram ter passado vergonha diante de amigos e parentes, por não conseguirem dinheiro para suprir suas necessidades materiais. Concordamos com de-La-Taille (1999) para quem a vergonha começa com a decisão do sujeito envergonhado de dar crédito a uma postura reprovadora da sociedade frente às pessoas mal sucedidas materialmente. O primeiro testemunho aqui estudado, como já apontamos, enfoca a recuperação da saúde de uma jovem. Constituído de imagens (gravadas) a partir de um templo lotado, o agente religioso toma o depoimento de Priscila, uma adepta, cujas respostas são notadamente conduzidas pelo enunciador-entrevistador. Testemunho 1 Sujeito entrevistado: Srta. Priscila. Entrevistador: Bispo Jadson. Assunto: cura das doenças ao frequentar a IURD. Local: altar de um templo IURD. 107 Bispo Jadson: ─ O nome da senhora? Priscila: ─ O meu nome é Priscila. ─ Aconteceu o quê? ─ Eu tive depressão, tive síndrome do pânico, tive, também, reumatismo no sangue e a médica já tinha me desenganado e determinou que eu devia tomar injeção até os vinte e um anos de idade, porque eu não teria cura mais. ─ A senhora veio na sessão e está curada? ─ Vim na sessão e estou curada. ─ Liberta de tudo? ─ Liberta de tudo, não tenho mais nada, não sinto medo, não sinto síndrome de pânico, não sinto dores, não sinto nada. Quem tem reumatismo no sangue, quem teve, sabe como doem as juntas, sabe como é ruim essa dor, sabe que não tem controle nas mãos, controle sobre o corpo, é terrível. Nem fechar o botão da própria camisa a pessoa não consegue. ─ E agora, consegue tudo? ─ Liberta, estou participando da corrente, estou liberta, graças a Deus, consigo tudo, sou feliz, sou realizada, não tenho nenhum tipo de problema, não tenho nenhum tipo de doença, graças a Deus. ─ Deus abençoe a senhora. Os testemunhos são, portanto, formas de entrevista de fundamental importância no processo persuasivo, uma vez que procuram mostrar a experiência vivida pelo fiel para produzir, no discurso da persuasão, efeitos de sentido de realidade. Esse gênero, como dissemos, foi trazido de três esferas de ação diferentes: 1) da esfera de atividade jurídica: como em um tribunal, os sujeitostestemunhantes são escolhidos em função do interesse do inquiridor (no caso, o próprio agente religioso ou o repórter da IURD) por determinadas respostas, estratégia que procura erigir o corpo de uma única voz, a da Igreja Universal. Essa voz se ergue como uma união das vozes dos fiéis testemunhantes, pastores e bispos da Igreja; (2) da esfera de atividade da mídia televisiva ou jornalística: quando não ocorrem no interior dos templos32, testemunhos em formato de entrevista são conduzidos por repórteres profissionais e não por pastores; 32 Esses testemunhos-entrevista, quando fora dos templos, retratam visualmente as condições socioeconômicas dos entrevistados. A maior parte dos entrevistados são pessoas muito bemsucedidas financeiramente, que saíram de uma condição ruim para chegar à riqueza, depois de procurar a IURD. Nesse caso, enquanto os testemunhantes descrevem seus bens, são mostrados os locais das entrevistas, que variam desde o interior de caros automóveis até elegantes residências. 108 (3) da esfera religiosa: a Igreja Católica, por exemplo, utiliza-se de testemunhos nos casamentos e batismos. Em algumas religiões, os fiéis declaramse testemunhas, como ocorre com as testemunhas de Jeová. Sobre o gênero testemunho de televisão, Patrick Charaudeau (2006: 224) afirma: O testemunho [...] é forma de enunciação que revela, ou pelo menos confirma, a existência de uma realidade com a qual o enunciador teve contato. Esse é, pois, levado a dizer o que viu, ouviu ou tocou, sem análise ou julgamento. A palavra do testemunho compromete o sujeito sobre uma verdade que “provém apenas do corpo” (como se diz em Direito), o que lhe confere os traços da pureza e da autenticidade. A palavra de testemunho instaura o imaginário da “verdade verdadeira”. O testemunho pode ser enunciado por um sujeito anônimo ou por um sujeito que tenha certa notoriedade. Se é anônimo (para o telespectador), para que seu dizer participe do acontecimento midiático, o testemunho que der a respeito de si mesmo ou da vida será tido como válido para todos aqueles que pertencem à mesma categoria (com isso, não será confundido com a simples testemunha numa entrevista de rua). Ele se achará instituído em um arquétipo social de um modelo de vida profissional (um relojoeiro, um artesão), de um indivíduo sofredor (vítima de doenças, de acidentes, de extorsões), ou de comportamento extremo (herói por um dia) o que os reality e os talk shows exploram abundantemente. O segmento em análise é um estereótipo, diariamente apresentado às dezenas, sempre intercalado às pregações, cujo efeito de sentido resultante é o de confirmar a realidade apregoada pelo destinador(bispo, pastor) durante o processo da manipulação. Essa forma de enunciação, retomando Charaudeau (2006: 217), confere traços de autenticidade ao discurso, pois instaura o imaginário de verdade verdadeira. É um reforço da persuasão que “funciona” como gênero auxiliar inserido na totalidade da pregação religiosa da IURD. Desacelera momentaneamente o andamento discursivo e instaura o esquema descendente, uma vez que, apresentase sempre com final feliz, refletindo relaxamento. Ao analisar os testemunhos como narrativa auxiliar do discurso iurdiano, devemos levar em conta as formas com que esse gênero interfere no processo da Em um dos programas apresentados no mês de março de 2009, o testemunho sobre a feliz vida de um casal que enriqueceu depois de frequentar a IURD ocorreu durante uma espécie de documentário, gravado em um hotel-cassino de Las Vegas. 109 construção discursiva, tanto considerado individualmente como em relação à totalidade discursiva (o unus em si mesmo e o unus em relação ao totus). Começando com uma visão do unus (o testemunho em si), esse tipo de narrativa, no discurso da Universal, tem uma orientação tensiva bem definida, pois, via de regra, constrói o sujeito disjunto de seus objetos de valor para, depois, com um final sempre feliz, uni-los. Isso significa que há um aumento das tensões desde o início até o clímax tensivo em que, invariavelmente, o sujeito chega ao desespero. A partir desse ponto, as tensões começam a despencar, pois o sujeito narra que, desde o cumprimento do contrato proposto pela IURD (frequentar o templo) sua vida mudou para melhor em todos os sentidos. Exemplificamos, abaixo, como se dá esse processo de instauração do esquema tensivo ascendente desde o início do texto até o clímax disfórico (+ intensidade / - extensão) para a mudança de orientação tensivo-passional por meio do esquema descendente, no qual as tensões desaparecem devido à união com os objetos de valor desejados (- intensidade/ + extensão): Exemplo 1: Clímax disfórico ─ Eu tive depressão, tive síndrome do pânico, tive, também, reumatismo no sangue e a médica já tinha me desenganado e determinou que eu devia tomar injeção até os vinte e um anos de idade, porque eu não teria cura mais. (testemunho de Priscila: tensão elevada e clímax disfórico, com relação ao objeto de valor saúde) Final (desfecho) feliz [...] (hoje) consigo tudo, sou feliz, sou realizada, não tenho nenhum tipo de problema, não tenho nenhum tipo de doença [...]. (desfecho do testemunho de Priscila, sob nova orientação tensiva) 110 Exemplo 2: Clímax disfórico ─ Olha, foram quatrocentos mil de dívidas, isso fora o patrimônio perdido. Na época, eu perdi mais de um milhão de reais de patrimônio... quer dizer... eu fiquei negativo, sem patrimônio nenhum, com todas essas dívidas, e essas dívidas foram contraídas no intuito de resgatar o patrimônio, no intuito de resgatar o prestígio diante da sociedade, diante dos amigos e no intuito, também, de honrar os compromissos. (testemunho do Sr. Alencar: tensão elevada e clímax disfórico, com relação ao objeto de valor dinheiro) Final Feliz [...] (hoje) minha vida mudou da água pro vinho. Sou uma pessoa completamente feliz [...] (mudança da orientação tensiva: recuperação dos bens materiais) Os esquemas a seguir representam um testemunho-padrão, analisado isoladamente: Esquema tensivo de um TESTEMUNHO-PADRÃO, visto isoladamente Reiteramos que, quando isoladamente analisados, os testemunhos, via de regra, atingem um ápice de intensidade tensiva (durante a exposição dos problemas, na 1ª. parte) para, no desfecho (2ª. parte), haver uma diminuição da intensidade e um simultâneo aumento da extensão, graças ao final feliz, com a instauração da esperança gerada pela conquista dos objetos de valor. Isso significa que, nos testemunhos em geral há uma mudança de orientação tensiva do esquema ascendente para o descendente. 111 1ª. parte 2ª. parte CLÍMAX DISFÓRICO FINAL FELIZ (recompensa) Esquema tensivo ASCENDENTE Eu tive depressão [...] reumatismo [...] síndrome do pânico Esquema tensivo DESCENDENTE (hoje) consigo tudo, sou feliz, sou realizada. medo desespero vergonha + medo desespero vergonha + Mudança de orientação INTENSIDADE INTENSIDADE esperança _ esperança EXTENSÃO objetos de valor + _ EXTENSÃO objetos de valor + Gráficos 17: mudança de orientação tensiva, do esquema ascendente para o descendente. Por outro lado, se considerarmos o eixo da extensão correspondente à abrangência ou ao alcance do discurso, ou seja, se lançarmos no eixo da extensão o grupo de destinatários com quem cada testemunho está identificado (grupo de falidos, grupo de doentes etc.), teremos uma visão do efeito de individuação, marcado por uma redução da intensidade e da extensão, simultaneamente. 112 EFEITO DE INDIVIDUAÇÃO DO TESTEMUNHO medo desespero vergonha + ESQUEMA DA INTENSIDADE ATENUAÇÃO esperança _ EXTENSÃO + O universo de sujeitos que se identificam com os relatos diminui (o relato é direcionado só aos doentes, só aos desempregados, só aos falidos, só aos abandonados, só aos desesperados, só aos aflitos, só aos desiludidos etc.) gráfico 18: esquema tensivo do testemunho, visto isoladamente. Caso lancemos um olhar sobre a totalidade discursiva iurdiana na qual se insere o gênero “testemunho”, notaremos que, após o que chamamos de clímax disfórico, o discurso muda sua orientação tensiva e entra em um esquema de atenuação (- intensidade / - extensão), visto que, para atuar como exemplo ou reforço de argumento, esse gênero, em seu desfecho, “corta” propositalmente o continuum da amplificação (intensidade) retórica, normalmente adotado pelo destinador(agente religioso). Como mostramos, os testemunhos em análise são narrativas com clímax disfórico e final feliz. Vistos, porém, como partes de um todo, e, considerando, no eixo da extensão, o público a quem se destinam, diminuem não só a intensidade discursiva como também a extensão, pois cada testemunho identifica-se com um grupo específico de espectadores. Essas “reduções da 113 tensão”33 são o momento em que o telespectador “toma fôlego”, “respira”, frente a um exemplo de vida feliz, com efeitos de sentido de verdade, cujo objetivo precípuo é o de confirmar as promessas dos pastores e bispos da Igreja, que serão retomadas por eles, de forma mais contundente ainda, após a apresentação do testemunho; no eixo da extensão, a seleção repetitiva dos sujeitos que se identificam com a história contada (individuação) acaba por gerar o efeito de sentido de generalização, como já afirmamos anteriormente. Tantos são os testemunhos que o sujeito se identifica com pelo menos um deles. Daí a generalização. Tomando por base o totus (a totalidade do discurso televisivo da IURD), quando o testemunho é enunciado, ocorre: a- a entrada em cena de um novo enunciador. O eloquente agente religioso muitas vezes delega a palavra a outro enunciador, um repórter que, por sua vez passa a palavra a uma dona de casa, um comerciante, um pequeno empresário, um ex-indigente, um ex-toxicômano. Antes do final feliz, há um aumento da intensidade tensiva, já que o sujeito confirma, por experiência própria, todo o simulacro negativo projetado pelo destinador. b- uma breve diminuição da intensidade: um momento de parada da amplificação retórica sob a qual o discurso vinha sendo construído. O próprio telespectador avaliza, então, as promessas de sucesso, saúde e riqueza asseveradas anteriormente pelo enunciador IURD (final feliz). c- uma diminuição da extensão: retomando as palavras de Charaudeau (2006: 224), o testemunho será tido como válido para todos os sujeitos 33 As reduções tensivas às quais nos referimos nesse caso são, de acordo com a semiótica tensiva, estratégicas paradas do aumento da tensividade. A parada da parada, ou seja, a retomada do aumento das tensões ocorrerá com a fala do pastor imediatamente após o testemunho. 114 pertencentes à mesma categoria, ao mesmo arquétipo social (grifo nosso)34. Conclui-se, por conseguinte, que esse gênero não afeta a todos os telespectadores, mas a uma parte específica deles. A IURD, porém, adota uma estratégia persuasiva de inserção de inúmeros testemunhos diferentes, de sujeitos que se uniram a objetos de valor diversos (o dinheiro, a pessoa amada, a saúde etc,). Esse procedimento fará que, na totalidade discursiva, haja um aumento da extensão, ou seja, quanto mais testemunhos diferentes, mais telespectadores se identificarão com as “verdades” apregoadas no discurso. Para melhor esclarecer o valor persuasivo desse tipo de estratégia, representaremos graficamente, abaixo, o discurso iurdiano de televisão. Reiteramos que há uma queda da tensão no momento da enunciação do testemunho, visto que, na totalidade discursiva, esse gênero funciona como uma parada da continuidade, com o intuito de convencer o telespectador cheio de problemas de que existe, sim, uma esperança de solução, caso recorra à Igreja. Ocorre, nos textos, uma notável valorização dos valores intensos e de continuidade pela caracterização constante da relação do telespectador com as perdas materiais e com os sofrimentos (Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor e você não sabe o que fazer...). Essa continuidade é rompida quando do final dos testemunhos. A ruptura interrompe um momento tenso da realização (ocorre uma parada). A continuidade (parada da parada) será retomada no momento em que o agente religioso voltar a falar. Assim representamos os testemunhos, inseridos na totalidade IURD: final feliz, breve queda da tensão: 34 É por esse motivo que os testemunhos, vistos individualmente, diminuem a extensão. Cada testemunho refere-se a um grupo de indivíduos. Há testemunhos voltados para os doentes, para os falidos, para os desempregados, para os abandonados sentimentalmente etc.. Somente a totalidade, formada pela repetição desse gênero, aumentará a extensão do discurso. 115 Gráfico tensivo da totalidade do discurso iurdiano O conjunto dos testemunhos aumenta a extensão (o alcance do discurso) I n T t e e n n s s ã I o final Testemunho d a d e E x t e n s ã o (neste eixo encontram-se os sujeitos destinatários do discurso (telespectadores). . Aumento da intensidade tensiva Aumento da extensão do Mal Retomada Testemunho Fala do agente religioso (pastor) Retomada Testemunho Retomada da fala do pastor Valores intensos e tônicos do Mal, Volta da continuidade pela caracterização constante da (parada da parada). relação do telespectador com as perdas materiais e com os sofrimentos. Testemunho (2ª. parte: final feliz) Redução da intensidade e da extensão (parada): esperança. (ver gráficos nº17) Final do programa: ESPERANÇA O texto invariavelmente Testemunho (1ª. parte) Exposição dos problemas, termina com o agente religioso convidando todos os telespectadores para irem ao templo. aumento das tensões. O telespectador é dotado da esperança de que, (ver gráficos nº17) ali, encontrará solução para todos os problemas. (gráfico 19) 116 Ainda com relação ao emprego do gênero testemunho, destacamos, no trecho abaixo, uma estratégia persuasiva empregada pelos agentes religiosos da IURD: uma declarada condução do pastor-entrevistador sobre as respostas da testemunhante, especialmente no que se refere ao cumprimento do contrato (ir à igreja) pela testemunhante e ao emprego de lexemas-chave na construção da persuasão, como cura, tudo, liberta. Vejamos, por exemplo, como o enunciador(pastor), grosso modo, “insere suas próprias palavras nas respostas da testemunhante”: – A senhora veio na sessão e está curada? (O pastor induz a testemunhante Priscila a dizer que se curou após ter ido à sessão) – Vim na sessão e estou curada. (Resposta de Priscila, com as palavras do pastor) – Liberta de tudo? (Novamente o pastor escolhe as palavras que quer ouvir na resposta, dessa vez com apelo figurativo fortalecido pela metáfora da escravidão) – Liberta de tudo, não tenho mais nada [...] (Resposta induzida, na qual novamente se inserem as palavras do pastor) Sob outro prisma, a testemunhante declara que, enquanto permanecia no estado de espera, sua condição era deplorável, ou seja, desenganada, sofria de doenças graves, até procurar a IURD, participar da “corrente”35 e libertar-se. Liberta, estou participando da corrente, estou liberta [...] O significado do sintagma “estou liberta”, para os adeptos da IURD, é “estou livre de todos os males” (doenças, problemas financeiros, falta de amor), 35 A “Corrente de Libertação” ou “Sessão da Libertação” é o evento programado para acontecer todas as sextas-feiras, nos templos da Universal. Ali ocorrem atos de exorcismo (aos quais os pastores e adeptos iurdianos chamam de oração forte) para quem tem problemas espirituais por possessão demoníaca. A IURD prega que são possuídas por espíritos demoníacos, as pessoas que professam falsas religiões originadas no Espiritismo, as vítimas de trabalhos e despachos, as vítimas das maldades dos demônios, de macumba, inveja e olho grande, os que convivem com pessoas que praticam o Espiritismo, os que se alimentam de pratos preparados pelas tradicionais baianas, os que têm dores de cabeça constantes, os que ouvem vozes, veem vultos, dentre outros (Campos,1999). 117 provocados pelo antissujeito. Isso significa que o destinatário cumpriu o contrato fiduciário proposto pelo destinador(IURD): o destinatário(telespectador) foi ao templo e recebeu todas as recompensas prometidas pelo agente religioso. Esse é um dos mecanismos mais empregados pelas Igrejas neopentecostais nos programas de televisão (e de rádio) com vistas ao aumento do número de fiéis: a Igreja promete eliminar a entidade causadora das mazelas da vida, desde que o fiel aceite a manipulação e abrace a (nova) religião. Nada adianta somente assistir ao programa. O testemunho é recurso persuasivo crucial para o destinador negociar o contrato de forma que o destinatário passe a ser o sujeito da ação, indo à igreja. Retomamos, abaixo, momentos desse testemunho: ─ A senhora veio na sessão e está curada? ─ Vim na sessão e estou curada! ação recompensa para o destinatário/cumprimento do contrato pelo destinador-IURD ─ Liberta de tudo? ─ Liberta de tudo! recompensa para o destinatário/ cumprimento do contrato pelo destinador ─ Liberta, estou participando da corrente, estou liberta, graças a Deus, cumprimento do contrato pelo destinatário (adesão à Igreja) consigo tudo, sou feliz [...] Esquematizando, teremos: 1) Programa religioso na TV Destinador IURD Instaura a figura do Mal. Manipula por intimidação. “coisa estranha”, maldição 2) Telespectador Imbui-se de medo. Sente-se ameaçado pelo Mal. 118 Programa religioso na TV 3) Manipula por tentação. Telespectador Oferece acolhimento e esperança 4) Confia. Procura a IURD. Esquema 2: contrato oferecido pelos programas de pregação religiosa da IURD Também percebemos, em boa parte do segmento acima, uma estratégia de persuasão reforçada pelos lexemas de forte apelo figurativo, escolhidos pelo entrevistador(pastor). O Dicionário Eletrônico Aurélio - Século XXI (1999) registra, para o lexema liberto, as seguintes acepções: 1- Diz-se de escravo que passou à condição de livre. 2- Posto em liberdade; livre, solto. 3- Livre, salvo. 4- Isento de preconceitos, de superstições. 5Escravo que passou à condição de livre. E, para cura: 1- ato ou efeito de curar-se. 2- restabelecimento da saúde. 3- meio de debelar uma doença, tratamento. 4- tratamento preventivo de saúde. Fig. Solução, remédio, regeneração, emenda Resultam dessas figuras duas linhas isotópico-figurativas: a da libertação da escravidão provocada pelos problemas da vida, pela falta de dinheiro etc.; a da cura das doenças resultantes da atuação do Mal. Além das isotopias mencionadas, é comum, no discurso iurdiano, o jogo semântico das antíteses tudo ou nada, ou seja, o interlocutor(pastor) “força”, “implanta” na resposta de sua interlocutária(Priscila) os lexemas tudo e nada para realçar o efeito de sentido de que, na IURD, não há meios-termos. Para o adepto da Igreja, tudo: o fiel torna-se abençoado, rico, saudável, respeitado, bem-sucedido amorosa e financeiramente, enfim, pleno de felicidade. Já, para os outros, nada. 119 Esses são amaldiçoados desde o nascimento (maldição dos antepassados)36, pobres, doentes, mal-sucedidos afetivamente, infelizes, enfim. Para o fiel, promete-se tudo, os bens materiais, a saúde, a felicidade, o paraíso na Terra; para o outro, o nada. O encadeamento das coordenadas assindéticas (parataxe) provoca uma gradação que, associada à repetição de palavras – no caso, do advérbio não e do verbo ter – resulta em uma notável elevação da voz do sujeito do enunciado (Priscila). Essa elevação da voz que exalta as recompensas decorrentes da ação de ir aos templos da IURD tenta e seduz o destinatário (Faça como eu fiz. Aja. Vá ao templo e resolva todos os seus problemas. Você pode!), de forma que o telespectador projete um simulacro positivo de si mesmo, moldado à imagem do testemunhante. Dessa forma, enquanto a tensão decai no eixo da intensidade, em direção à zona átona da felicidade, deixando para trás a zona tônica da infelicidade (desespero, vergonha), há uma progressão da extensão, caso nesse eixo projetemos os objetos de valor. ─ Eu tive depressão, tive síndrome do pânico, tive, também, reumatismo no sangue. [...] não tenho mais nada, não sinto medo, não sinto síndrome de pânico, não sinto dores, não sinto nada [...] consigo tudo, sou feliz, sou realizada, não tenho nenhum tipo de problema, não tenho nenhum tipo de doença, graças a Deus. 36 Segundo Romeiro (1995: 97), os pregadores da maldição afirmam que se alguém tem algum problema relacionado ao alcoolismo, pornografia, depressão, adultério, nerosismo, divórcio, diabetes, câncer e muitos outros, é porque algum antepassado viveu aquela situação ou praticou aquele pecado e transmitiu tal pecado ou maldição a um descendente. 120 Infelicidade + esquema tensivo descendente Intensidade felicidade, liberdade _ Extensão + Objetos de Valor Gráfico 20: esquema tensivo descendente. Relação entre felicidade e acúmulo de OV. A manipulação passa da intimidação (simulacro do antissujeito) para a tentação no momento em que um interlocutário “liberto de tudo” entra em cena. Aqui, como já apontamos, notamos a ação e a recompensa, que não ocorrem durante o esquema narrativo iniciado pelo destinador-manipulador(pastor), no primeiro segmento. Um testemunho em forma de entrevista: reforço do efeito de realidade Para reforçar os efeitos de realidade, os testemunhos repetem-se durante a programação. Mudam-se os valores. Na entrevista analisada a seguir, a restauração não é mais da saúde, mas de bens materiais. A entrevista é efetuada com alguém que “chegou ao fundo do poço”, mas que atingiu o sucesso depois que começou a frequentar as reuniões da Igreja Universal. É importante, para o estudo do processo da persuasão, registrar que, nesse caso, a entrevista não é conduzida por um agente religioso, mas por um repórter profissional, o que potencializa o efeito de realidade devido à “neutralidade” sugerida pela imagem interdiscursiva do repórter-entrevistador. Além disso, há um apelo maior à mistura 121 de um gênero originário da mídia jornalístico-televisiva com o discurso religioso. Enquanto os pastores entrevistam as pessoas que se dirigem voluntariamente ao altar do templo, durante os encontros, para testemunhar o fim das doenças, da desarmonia, da influência dos “encostos” ou das maldições, os repórteres entrevistam as pessoas (sempre muito bem vestidas, aparentando uma boa posição socioeconômica) nos corredores dos templos37, nos automóveis e até mesmo na própria residência do bem-sucedido fiel. Vejamos: Testemunho 2 Sujeito entrevistado: Sr Alencar. Entrevistadora: repórter profissional contratada pela IURD. Assunto: (o empresário relata) a recuperação dos bens materiais e a restauração da honra, depois de começar a frequentar a IURD. Local: estúdios da emissora de televisão. Pastor Márcio: -Bom dia, pastor Denílton e a todos aqueles que estão acompanhando este programa. Nós agora vamos falar a respeito do Congresso Empresarial, que acontece todas as segundas-feiras na nossa catedral de Santo André, na Avenida Perimetral, número 105. O nosso Congresso Empresarial acontece para as pessoas que querem ver Deus na vida financeira. Mas o que Deus tem a ver com a vida financeira? Está escrito que o senhor Jesus, ele veio para dar vida e vida com abundância. E o que o senhor, a senhora entende de vida com abundância? É dívidas, problemas, miséria? Não, mas abundância é você ter realmente como está escrito, para ter ao senhor, a senhora e até emprestar! Isso mesmo! Está escrito que você estenderia as mãos para emprestar a muita gente, não tomaria emprestado. E o senhor, a senhora, está passando por um momento difícil. Se o senhor quiser continuar ligando, você pode continuar ligando, as nossas linhas telefônicas estão à sua inteira disposição, nós temos pessoas que estão dispostas a lhe ajudar, 2199-2625 e 2199-2624. O “seu” Alencar, ele chegou até o congresso empresarial com uma dívida de mais de quatrocentos mil reais. Como pagar uma dívida de mais de quatrocentos mil reais? Sem 37 O local em que essas entrevistas ocorrem colaboram com a potencialização do efeito de sentido de verdade/realidade, pois o destinatário-telespectador percebe que o entrevistado está frequentando a igreja (quando gravadas no templo). Da mesma forma, ao entrevistar um fiel dentro de um moderno carro ou de uma bonita casa, o repórter passa ao telespectador uma ideia da boa condição social em que se encontra o fiel entrevistado, uma vez que um bom carro e uma bela casa são símbolos de sucesso financeiro. Há entrevistas em que o repórter, além de mostrar, tece comentários enaltecendo os bens do entrevistado. 122 perspectiva! Eu gostaria que o senhor, a senhora, acompanhassem o desfecho desta história, uma história verídica de uma pessoa que venceu essa dívida de mais de quatrocentos mil reais. Repórter (cumprimentando o pastor que, em cena, assiste à entrevista): ― Olá, pastor Rogério. O Sr. Alencar, que está aqui ao meu lado, chegou ao Congresso Empresarial com mais de quatrocentos mil reais em dívidas. A repórter pergunta ao entrevistado: ― Como é que o senhor conseguiu adquirir tantas dívidas? Sr. Alencar: ― Olha, foram quatrocentos mil de dívidas, isso fora o patrimônio perdido. Na época, eu perdi mais de um milhão de reais de patrimônio... quer dizer... eu fiquei negativo, sem patrimônio nenhum, com todas essas dívidas, e essas dívidas foram contraídas no intuito de resgatar o patrimônio, no intuito de resgatar o prestígio diante da sociedade, diante dos amigos e no intuito, também, de honrar os compromissos. Mas, uma vez sem direção, não adiantou nada tantos esforços, não adiantou nada dinheiro emprestado de bancos, de agiotas, de amigos, de parentes, porque eu não conseguia, em hipótese alguma, honrar com nenhum desses compromissos. Quando eu comecei a participar do Congresso, Deus me deu a direção, então a coisa começou, de fato, a mudar, assim, numa rapidez muito grande. Deus me deu a direção, então eu comecei a negociar as dívidas. Não estou falando de contas porque, ainda agora, estávamos falando de contas. Contas são coisas do cotidiano que você, dormindo, você está fazendo contas de IPTU, seu condomínio, seguro do carro etc... . São dívidas mesmo, coisas impagáveis e eu comecei a pagar, resgatar um cheque ali, outro cheque aqui e, no final das contas, quando eu percebi, eu já estava com esses duzentos e vinte e dois cheques em mãos, títulos protestados e ações trabalhistas resolvidos e Deus foi me dando outras direções e eu comecei a ampliar os meus horizontes, trabalhando com produtos que ora eu não trabalhava e as coisas começaram a acontecer. Então aconteceu. Hoje eu não mantenho dívidas. Eu tenho compromissos no cotidiano e a minha vida mudou da água pro vinho. Sou uma pessoa completamente feliz, tenho um casamento abençoado, uma família maravilhosa, tenho um apartamento muito bom, tenho... além de ter um apartamento, tenho mais uma casa, tenho três veículos, tenho investimentos imobiliários que ainda estão aí para sair...não dá para mostrar ainda porque são investimentos de longo prazo. Tenho uma empresa na região dos Jardins, na área de decoração de interiores também, que está indo de vento em popa, está cada vez mais crescendo. Eu tenho cada vez mais ampliado os produtos que trabalho e a minha vida, hoje, está completamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. O esquema narrativo da entrevista-testemunho acima reflete a estratégia constantemente utilizada: alguém (nesse caso, um empresário) que esteve com a 123 vida destruída consegue sair dessa situação e chegar à felicidade plena, depois de começar a frequentar a IURD38. Como é de praxe nesse discurso, a imagem do sujeito foi construída, em um primeiro passo, sob os estados passionais da vergonha, do medo e da insatisfação, decorrentes do malogro na conquista ou na posse dos objetos de valor. Os simulacros do sujeito oscilam propositadamente entre a vergonha e a insatisfação. O objeto de valor construído pelo destinador(agente religioso) foge à tradição dos objetos oferecidos pelas igrejas tradicionais (a salvação, o perdão), pois passa a ser material (objetivo, consumível). Outras vezes, o objeto é a recuperação da saúde perdida ou do amor. No exemplo acima, recorre-se inicialmente às figuras do fracasso e do fracassado, moldadas sob o conceito da sociedade materialista, diretamente ligadas ao “não ter”. O sujeito bem sucedido tem; ao mal sucedido falta. Dessa forma, o destinador, no seu fazer persuasivo, apaga os valores subjetivos (harmonia, prazer de viver, estados anímicos etc.), comuns no discurso das igrejas tradicionais e enaltece os valores objetivos. O contrato proposto é a oferta de competência para se conseguir um paraíso objetivo, palpável, material, aqui e agora. Daí a construção proposital de um sujeito fortemente tenso, envergonhado e/ou insatisfeito, cuja imagem, identificada e assumida por uma grande parte da sociedade, reflete o estado de um sem-número de destinatários(espectadores). Produz-se um sujeito que perdeu a honra, envergonhado perante a sociedade e insatisfeito por não possuir ou por ter perdido os bens materiais: 38 Notamos, durante esta pesquisa, que a Igreja Universal tem, mais recentemente, voltado seus programas televisivos à classe média da sociedade e não mais às classes menos favorecidas, deixando de lado, na televisão, rituais, antes muito utilizados, como, por exemplo, os exorcismos. Essa opção pelas pessoas com melhor poder aquisitivo é confirmada não só pelo discurso mas também pela ênfase que a Igreja dá ao culto das segundas-feiras (o Congresso empresarial ou Reunião da nação dos 318 pastores) para o qual são convidados todos os empresários com problemas financeiros. 124 ([...] eu fiquei negativo [...] essas dívidas foram contraídas no intuito de resgatar o prestígio diante da sociedade, diante dos amigos e no intuito, também, de honrar os compromissos). O foco inicial do trecho em análise está projetado sobre o chamado “Congresso Empresarial”. Trata-se de um culto para a restituição das finanças. Aqui, o destinador(pastor) tenciona dotar o destinatário de esperança procura alicerçar sua voz com a voz de Deus, por meio do argumento de autoridade bíblica. Alude, então, à parte do livro do Deuteronônio, 28, versículos 1 – 14, nos quais o autor descreve as recompensas recebidas por quem ouve a voz do Senhor: 1 Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações da Terra; .......................................................................................... 12 O Senhor te abrirá o seu bom tesouro, o céu, para dar à tua terra a chuva no seu tempo, e para abençoar todas as obras das tuas mãos; e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado. 13 E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás por cima, e não por baixo; se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, para os guardar e cumprir, 14 não te desviando de nenhuma das palavras que eu hoje te ordeno, nem para a direita nem para a esquerda, e não andando após outros deuses, para os servires. (Deuteronômio 28, 1-14) Os programas televisivos da IURD normalmente recorrem a alusões de textos bíblicos empregadas como alicerces de argumento de sucesso, prosperidade ou cura. Esse reforço é mais uma estratégia discursiva destinada à instalação da esperança, comum nos programas neopentecostais. As alusões aos textos da bíblia são geralmente empregadas não só para instaurar paixões positivas como a confiança e a esperança mas também para mostrar o bom resultado. Para ganhar a confiança do maior número possível de destinatários, a Igreja Universal do Reino de Deus diversifica as intenções de seus cultos, direcionando- 125 os para a recuperação da saúde (programa Terapia do Amor), dos bens materiais (Reunião da Nação dos 318), da fé (Reunião dos Filhos de Deus), dentre outros. Para se ter uma ideia dessa diversificação, registramos os eventos para os quais os programas de televisão, dia e noite, conclamam os destinatários a comparecer. Transcrevemos, a seguir, a programação diária dos templos da Universal, juntamente com suas respectivas lides, extraída do site da referida Igreja (www.igrejauniversal.org.br), em 10 de fevereiro de 2008: - Domingos - Reunião de Louvor e Adoração O domingo foi instituído como o "Dia do Senhor". É quando todos participam do tratamento espiritual que visa, também, ao fortalecimento e reavivamento da fé. - Segundas-feiras - Reunião da Nação dos 318 Congresso Empresarial que reúne 318 pastores e centenas de obreiros, que, juntos, clamam a Deus pela prosperidade financeira. - Terças-feiras - Sessão Espiritual do Descarrego Os pastores e obreiros trabalham forte contra a inveja, o mau olhado, as opressões espirituais e todo tipo de doenças. - Quartas-feiras - Reunião dos Filhos de Deus Tem o objetivo de fortalecer, reavivar e renovar a fé dos que desejam ter um verdadeiro encontro com Deus. - Quintas-feiras - Corrente da Família Busca libertar nossos familiares de qualquer seta maligna e fazer com que possamos alcançar a paz e a harmonia dentro de nossas casas. - Sextas-feiras - Corrente da Libertação Direcionada para a quebra de maldições e de tudo quanto possa impedir o progresso das pessoas. - Sábados - Terapia do Amor Este dia foi separado não só para os solteiros, mas também para os casados que buscam uma vida conjugal de qualidade. Como dissemos, o segmento em estudo principia convocando o público telespectador, desta vez os empresários (ou quem almeja ser empresário), para comparecer ao templo. O destinador(pastor) convoca os telespectadores que 126 quiserem “ver Deus na vida financeira” e, novamente, reforça o simulacro da imagem do destinatário, dessa vez dando ênfase aos problemas da vida financeira. A instauração de um simulacro disfórico da imagem do destinatário-coletivo como feixe de paixões, ao mesmo tempo em que o destinador constrói um autossimulacro eufórico de poder e de confiabilidade são estratégias fundamentais para o estabelecimento do contrato fiduciário proposto pela Igreja. Esse jogo de simulacros é bem explicitado, no nível da enunciação, por Amossy (2005: 11), quando retoma o princípio de Pêcheux, “para quem A e B, nas duas pontas da cadeia de comunicação, fazem uma imagem um do outro: o emissor A faz uma imagem de si mesmo e de seu interlocutor B; reciprocamente, o receptor B faz uma imagem do emissor A e de si mesmo”. O jogo dos simulacros39 Enunciador E1 Enunciatário E2 o agente religioso o telespectador E1 Imagem 40 1: E1 tem uma autoimagem (reflexiva) Imagem 2: E1 tem uma imagem de E2 E2 Imagem 4: E2 tem uma autoimagem (reflexiva) Imagem 5: E2 faz a imagem de E1 Imagem 3: E1 presume qual imagem E2 faz de E1 Imagem 6: E2 presume qual imagem E1 faz de E2 Gráfico 21 39 Osakabe (2002: 55) acrescenta a essas imagens o que E1 pretende de E2 e o que E1 pretende de si mesmo, falando daquela forma. 40 A Semiótica de linha francesa chama de simulacro ao que Pêcheux chama de imagem. 127 A linguista afirma, ainda, que Kerbrat-Orecchioni, ao retomar esse princípio, “sugere incorporar na competência cultural dos dois parceiros da comunicação [...] a imagem que eles fazem de si mesmos, do outro e a que imaginam que o outro faz deles”. Nesse processo, de maneira geral, o enunciador E1, dotado de um autossimulacro (simulacro reflexivo), faz um simulacro do seu enunciatário E2, ao mesmo tempo em que procura prever o simulacro que E2 faz de E1. Já o enunciatário E2, possuidor de um autossimulacro, faz um simulacro de E1, ao mesmo tempo em que procura prever o simulacro que o enunciador E1 faz de E2 (ver esquema acima). Considerando esse jogo de simulacros, nota-se, no discurso iurdiano, uma assimetria dos lugares enunciativos enunciador/enunciatário. O enunciador(agente religioso IURD) está, no que diz respeito à competência, ao saber e ao poder, degraus acima do seu enunciatário. Não há trocas dos lugares enunciativos entre os sujeitos do discurso iurdiano. Pelo contrário, há fixidez desses lugares devido ao fato de ocorrer sempre, no lugar enunciativo do agente religioso, uma exacerbação do saber e do poder, enquanto do outro lado, no lugar ocupado pelo enunciatário, ocorre um esvaziamento dessas mesmas modalidades. No trecho em pauta, opõem-se as categorias fundamentais /miséria/ x /abundância/, manifestadas, no nível narrativo, por meio de um sujeito em estado de espera, disjunto de seu objeto de valor, mas que pode adquirir competência para suprir a falta, caso compareça ao “Congresso Empresarial” promovido pela IURD. Apela-se ao argumento bíblico (Deuteronômio, 28) para persuadir o espectador a ir ao congresso. O destinador, ao exercer a persuasão, dá a entender que o destinatário terá seus problemas resolvidos caso compareça ao Congresso Empresarial (a reunião dos 318), no templo da Universal. Quando eu comecei a participar do Congresso, Deus me deu a direção, então a coisa começou, de fato, a mudar, assim, numa rapidez muito grande. Deus me deu a direção, então eu comecei a negociar as dívidas [...]. 128 Pequenos testemunhos/entrevistas continuam reforçando a estratégia de manipulação do destinador (IURD), que procura persuadir o sujeito fracassado, envergonhado e insatisfeito (simulacro que representa boa parte da sociedade) a ir ao Congresso Empresarial (ou reunião dos 318 pastores) em busca da solução para os problemas. Os simulacros passionais iniciais da vergonha e da insatisfação são necessários para o destinador-manipulador estabelecer uma sólida relação fiduciária com um destinatário-coletivo tenso, não conjunto com o seu objeto de valor, e persuadi-lo com maior eficiência, tentando-o para que aceite um contrato calcado num programa salvador de esperança e de liquidação da falta. Ação Manipulação Recompensa Diante de vários problemas, o Decisão de A felicidade plena, Sr. Alencar foi persuadido a comparecer ao depois de começar a comparecer às reuniões da Congresso frequentar a igreja: IURD. Empresarial da IURD: [...] foram quatrocentos mil de dívidas, isso fora o patrimônio Quando eu comecei a participar do Congresso, perdido. Na época, eu perdi mais Deus me deu a direção, estámpletamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. de um milhão de reais de então a coisa começou, patrimônio [...] minha vida, hoje, está completamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. de fato, a mudar [...]. Nesses depoimentos de empresários, percebemos, ainda, características persuasivas próprias do discurso empresarial e da sociedade capitalista: ─ Recorrência dos números A recorrência do emprego de números cria o efeito de sentido de realidade, de exatidão e de conhecimento da situação narrada: 129 [...] mais de quatrocentos mil reais de dívidas [...] Na época. Eu perdi mais de um milhão de reais [...] [...] eu já estava com esses duzentos e vinte e dois cheques em mãos [...] ─ Reiteração do “ter” como sinônimo de felicidade. Boa parte do “ser feliz” é, segundo o testemunho, resultado do “ter”. Quanto mais se tem dinheiro e posição social, mais se é feliz: [...] tenho um apartamento muito bom, tenho... além de ter um apartamento, tenho mais uma casa, tenho três veículos, tenho investimentos imobiliários [...] tenho uma empresa na região dos Jardins [...] ─ Manipulações por intimidação e por tentação, na criação do simulacro de um sujeito envergonhado. A Igreja manipula o telespectador ao apresentar testemunhos cujas narrativas sempre caminham da vergonha e da insatisfação (a vida sem a IURD) para a felicidade (a vida depois de frequentar a IURD). O Sr. Alencar, por sua vez, manipula os empresários por intimidação ao relatar que se tornou um sujeito sem prestígio e envergonhado quando sua vida financeira, sem a IURD, foi à bancarrota e, por tentação, quando passa a narrar sua reabilitação a partir do momento em que Deus, por meio da Igreja, lhe deu a direção. Existem pessoas que são humilhadas pelo proprietário do imóvel, tem gente que só está aguentando essas humilhações porque não tem pra onde ir. [...] não adiantou nada dinheiro emprestado de bancos, de agiotas, de amigos, de parentes, porque eu não conseguia, em hipótese alguma, honrar com nenhum desses compromissos. (intimidação) [...] Deus foi me dando outras direções e eu comecei a ampliar meus horizontes [...] [...] minha vida mudou da água pro vinho. Sou uma pessoa completamente feliz. (tentação) Julgamos necessária, no entanto, uma visão melhor do “eu” semiótico que constitui o destinatário(fiel telespectador) dos discursos em análise (tanto da IURD quanto da Igreja Católica). Com esse escopo, levamos em conta, desde o início das 130 análises, a definição desse eu semiótico, dada por Fontanille e Zilberberg (2001: 128): [...] o “eu” semiótico não se reduz ao “eu” linguístico: o “eu” semiótico é um “eu” sensível, afetado, muitas vezes atônito, quer dizer, comovido pelos êxtases que o assaltam, um “eu” mais oscilatório do que identitário. A presença se torna, por isso, uma variável [...] O “eu” semiótico habita um espaço tensivo, ou seja, um espaço em cujo âmago a intensidade e a profundidade estão associadas, enquanto o sujeito se esforça, a exemplo de qualquer vivente, por tornar esse nicho habitável, isto é, por ajustar e regular as tensões, organizando as morfologias que o condicionam. O “eu” semiótico, portanto, normalmente não corresponde a um sujeito inerte e impassível, pois ele sente e faz sentir, comove-se e comove, afeta-se e afeta, impressiona-se e impressiona, de acordo com as paixões que lhe advêm. Esse sujeito tensivo, constantemente relacionado a um objeto, tem sempre sua presença e seu valor definidos pela relação entre a intensidade e a extensão. No segmento em pauta, encontramos, do início até o sintagma “Deus foi me dando outras direções”, um sujeito fortemente dominado pela paixão da vergonha por não estar em conjunção com seus objetos de valor (a riqueza, a prosperidade), ou seja, tanto maior a vergonha quanto menor a conjunção com os objetos de valor. Repetem-se as estratégias tensivas do testemunho analisado anteriormente, pois esse estado tensivo-passional (aumento da intensidade passional proporcional à redução da extensão material) enquadra-se no esquema discursivo da ascendência (Fontanille, 2007: 112) e pode ser assim representado: 131 medo, vergonha, insatisfação + diminuição da riqueza/ aumento da vergonha Intensidade (ascendência) _ + honra, felicidade Extensão Objetos de valor (riqueza) gráfico 22: esquema tensivo do testemunho do empresário – “até Deus foi-me dando outras direções”. A correlação inversa entre a riqueza e a vergonha acaba por determinar a curva tensiva que reflete o sentido do segmento até “Deus foi-me dando outras direções”. A partir desse sintagma, há uma inversão de orientação tensiva em direção a um relaxamento, pois o sujeito deixa os problemas para trás e encontra a felicidade, terminando a narrativa com “eu sou uma pessoa feliz”. Doação de esperança O sujeito envergonhado e não conjunto é, num segundo momento, tentado a ir à reunião dos 318 pastores, pois o discurso do destinador(bispo, IURD) dá acolhimento e esperança ao destinatário(fiel, telespectador). Dessa forma, é construída uma nova espera, ou seja, o telespectador, até então envergonhado e insatisfeito, passa a ter esperança de, indo à igreja, desligar-se de suas mazelas e unir-se ao seu objeto de valor (o sucesso, a felicidade). 132 Podemos visualizar o processo de transformação do simulacro negativo inicial de um sujeito envergonhado (já representado esquematicamente) no simulacro positivo resultante do novo estado de espera (S ∩ Ov (sucesso/esperança)), da seguinte maneira: Destinador-manipulador doador de esperança e fé “...existe o caminho...” Sujeito envergonhado (não conjunto e intenso) recebe a proposta do contrato. Sujeito Esperançoso pode aceitar o contrato: sair de casa e ir ao Congresso Empresarial da IURD. “ Você sabe que existe um caminho certo para a prosperidade, existe o caminho.” Ilustração 9: transformação do sujeito envergonhado em sujeito esperançoso A estratégia persuasiva abandona o esquema da ascendência - esse conduzia a uma tensão final – para aderir à organização do sentido pelo esquema da decadência, o qual parte de um realce da intensidade, de um choque emocional, para o relaxamento produzido pelo desenvolvimento, uma explicação ou, ainda, uma reformulação em extensão (Fontanille, 2007: 113). Dessa forma, o sujeito, antes intenso, envergonhado e insatisfeito, diante de sua não-conjunção com os objetos de valor pode passar a projetar um autossimulacro (imagem-fim) de um sujeito feliz e relaxado, por ter sido plenamente acolhido pelo discurso da IURD 133 e, consequentemente, pela fé, conjunto com os objetos de valor (a riqueza, a solução dos problemas financeiros): medo, vergonha, insatisfação + Intensidade esquema da decadência esperança, fé + Extensão (bens materiais) gráfico 23: redução da vergonha e da insatisfação. 3º segmento: Convocação para a guerra contra o Mal. Surge uma esperança. Pastor Denílton: ─Tá vendo? Essa coisa estranha é alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó de sumiço. Eu me lembro de uma senhora que disse que uma amiga dela viu a outra amiga jogar um pó nas costas dela... ela não viu, uma outra amiga viu e contou para ela e então começou a sumir da vida dela; o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha. Começou a sumir a saúde, começou a sumir tudo. É isso que tem acontecido com muitas pessoas, sem saber explicar o porquê, a razão pela qual vêm sofrendo. É uma maldição. Então, nesta terça feira, nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais, três da tarde, sete da noite, sete e meia, aliás, em Santo André, na Avenida Perimetral, número 105 e em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus. Eu quero mostrar para a senhora, para o senhor, o bloco de depoimentos, com o Bispo Jadson, de pessoas que têm ido, que têm participado desta sessão espiritual e têm visto resultado. Acompanhe, por favor, eu volto já... Interrupção para apresentação dos testemunhos (mesmo padrão dos já estudados) 134 Pastor Denílton : - Olha esses resultados! Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor, então, nesta terça-feira, comece uma luta, uma batalha. Não lute mais na força do seu braço, brigando, discutindo, mas lute de uma forma espiritual, por quê? Porque se o Mal é espiritual, eu tenho que lutar contra ele de uma forma espiritual, aí eu vou nivelar a guerra, eu vou nivelar a batalha. Se eu tô lutando na carne, então o Mal, que é espírito, está aqui (o pastor posiciona a mão direita no alto, na altura dos olhos), e eu, lutando na carne, eu vou lutar aqui embaixo (posicionando a mão esquerda em uma altura inferior à da outra mão). Mas se eu começar a lutar no espírito, vindo fazer a corrente de terça-feira, então eu vou lutar no mesmo nível do Mal. E, aliado ao Bem, então eu vou vencer este Mal. Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família. Estamos começando um trabalho de libertação muito forte. É a quebra da maldição dos ancestrais, aquilo que acompanha seu pai, sua mãe, os seus antepassados; que têm acompanhado a senhora, o senhor. Comece a quebrar este Mal, nesta terça-feira, em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus, especialmente em Santo André... eu faço este convite, três da tarde, sete e meia da noite. O telefone fica aí, à disposição. Para você, que quer ligar, é 2199-2625 e 2199-2624. Agora você vai ficar com o pastor Márcio, falando sobre esta reunião de segunda-feira. Todas as pessoas que estão me assistindo, que estão com problemas financeiros, o pastor Márcio, então, vai falar com a senhora, agora, a respeito desta reunião. Pastor Márcio, bom dia... Já no início do segmento, o destinador(pastor) procura levar o destinatário ao desespero, exacerbando a possibilidade da falta. Para tanto, repete exageradamente o verbo sumir: Sumiram o marido, os bens, os clientes, os fregueses, a saúde, tudo. [...] então começou a sumir da vida dela; o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha. Começou a sumir a saúde, começou a sumir tudo. 135 Estabelece-se uma relação de domínio do desconhecido (o mundo espiritual) sobre o mundo material com a afirmação de que a razão dos sofrimentos é uma maldição. É isso que tem acontecido com muitas pessoas, sem saber explicar o porquê, a razão pela qual vêm sofrendo. É uma maldição. O discurso confirma, dessa forma, a prevalência do plano espiritual sobre o material. O plano espiritual e suas entidades permeiam e interferem no mundo materialsem que o inverso possa ocorrer, a não ser por quem se diz competente para tal, papel assumido pela IURD. Por isso, a sensação de desespero dos telespectadores devido à sujeição ao desconhecido. A intensidade das tensões textuais, antes alta graças ao medo, vergonha e desespero, passa a diminuir com o oferecimento de ajuda pela Igreja (instauração da esperança); o discurso toma, então, nova orientação tensiva, dessa vez em direção a uma tensão menor e extensão maior (decadência). A esperança é instaurada pelo discurso que oferece a Igreja como adjuvante salvadora para que todos cheguem à felicidade. Ao demonstrar sua onisciência sobre o mundo espiritual e colocar suas forças contra o Mal à disposição de todos, a IURD reforça seu éthos eúnoia/phrónesis/areté (solidário, sapiente, sincero), alimentando, no telespectador, a esperança de ver suas mazelas resolvidas. caso busque a ajuda da Igreja. ─Tá vendo? Essa coisa estranha é alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó de sumiço. (manipulação por intimidação) Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida. [...] nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais 136 Após a apresentação de vários testemunhos, o destinador continua a narrativa direcionando-a, como sempre, para persuadir o destinatário a aderir ao contrato. Repetem-se os programas narrativos de uso, doadores de competência modal, para que o destinatário-telespectador saia do estado de espera e vá ao templo. Com esse intuito, o pastor inicia o segmento com o emprego do modo imperativo “Olha esses resultados!”, chamando a atenção do telespectador para as recompensas anteriormente testemunhadas por outros sujeitos. O esquema narrativo apresenta apenas o percurso da manipulação, uma vez que não se sabe qual a reação do espectador manipulado. Dessa forma, no texto acima, resta-nos prever os percursos da ação e da sanção (recompensa). Manipulação Ação proposta Recompensa prevista O sujeito deve ir ao Restauração ou ao templo e unir-se ao instauração da templo, asseverando que o Mal Bem (a IURD) para felicidade, concretizada é espiritual e só pode ser poder vencido com a ajuda da IURD. batalha. O agente atrair o religioso procura telespectador vencer a por meio dos bens materiais e da saúde. No trecho em pauta, o destinador (IURD) demonstra onisciência41 e conhecimento profundo do mundo espiritual ao garantir o propósito de Deus para a vida do destinatário (telespectador): ─ Olha esses resultados! Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor [...] Lexemas de combate, retórica militarista, corroboram a doação da esperança e convocam o destinatário para ingressar em uma guerra cujos soldados são a 41 Uma característica marcante do discurso iurdiano é a onisciência, ou seja, a IURD demonstra ter conhecimento de todas as mazelas que afligem os telespectadores. A Igreja “sabe” o que se passa na vida de cada um e conhece todas as causas dos problemas, oferecendo ajuda eficaz. 137 Igreja. Ao figurativizar a luta espiritual com a guerra contra o Mal42, a IURD se oferece para exercer o papel de sujeito adjuvante, como estratégia para o estabelecimento da esperança. [...] comece uma luta, uma batalha, não lute mais na força do seu braço, brigando, discutindo, mas lute de forma espiritual [...] aí eu vou nivelar a guerra, vou nivelar a batalha [...] Venha se aliar ao Bem [...] O telespectador é instado a “aliar-se ao Bem” ─ a IURD ─ indo ao templo. Aceitando essa condição, basta esperar e confiar que a Igreja, ao destruir o Mal, restitua todos os objetos de valor. Passa o telespectador, portanto, a ser novamente um sujeito da espera, ou seja, acredita ser, no futuro, sancionado positivamente, receber uma recompensa, após a performance do outro. Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família. A intensidade tensiva do discurso reflete o esquema da decadência (intensidade - / extensão +) com a intenção de atingir o maior número de espectadores. Lança mão, de uma isotopia temático-figurativa da guerra (luta, batalha, força, briga, brigar, guerra, aliar) e projeta uma diminuição da tensão discursiva ao direcionar o texto para a paixão da esperança, uma paixão relaxada, em busca da desejada felicidade. 42 O discurso iurdiano demoniza as religiões de origem africana e o espiritismo, atribuindo-lhes responsabilidade pela atuação de várias entidades malignas. Sobre esse assunto, o bispo Edir Macedo recentemente publicou Orixás, caboclos e guias – deuses ou demônios?, obra que gerou muita polêmica e processos na justiça, por ser considerada discriminatória e preconceituosa. 138 medo, vergonha, insatisfação, desespero + batalha luta Intensidade briga força aliança esperança felicidade _ + Extensão bens materiais, saúde gráfico 24: isotopia temático-figurativa da guerra. Sob uma visão geral do texto, tendo instaurado o sujeito da falta, tenso, desesperado com a situação pela qual passa, amedrontado diante de um inimigo transcendental, uma maldição que provoca e mantém as mazelas da família, o destinador procura não deixar o sujeito sair desse estado tenso, tomando o cuidado de, reduzida a tensão, não gerar os estados passionais da resignação ou da conformação. Pelo contrário, o agente religioso trata de aumentar ainda mais a tensão do telespectador com o objetivo de persuadi-lo a transformar-se num sujeito do fazer. Para tanto, agrava-se o simulacro de força do antissujeito, no caso, a maldição que vem desde a época dos antepassados43. O contrato proposto é o da oferta de competência para a libertação. Daí a construção do simulacro de um sujeito tenso porque preso a uma corrente maligna forte, contínua e consistente que transcende o seu tempo. A narrativa desenvolve-se tomando o rumo de liquidação 43 O Mal, antissujeito no discurso iurdiano, concretizava-se até há pouco tempo, nas figuras do encosto, dos espíritos malignos. Mais recentemente porém, novas figuras, ao lado das já existentes, passaram a fazer parte do discurso: o pó-de-sumiço, a “coisa feita” e, empregada mais constantemente, a maldição dos antepassados. 139 da falta para, com a aquisição de bens materiais, o sujeito atingir a felicidade. O destinador(pastor) apresenta-se como poderoso aliado, um sujeito adjuvante para “quebrar a maldição”, a um destinatário que quer-ser, mas que sabe-poder-não-ser. O pastor doa, então, ao telespectador uma esperança, uma paixão relaxada que vem quebrar a tensão do discurso neopentecostal, já que vinculada a uma “guerra” para eliminar a maldição. A esperança surge frente ao simulacro da felicidade (alcançar uma vida plena e feliz), objetivo principal do discurso iurdiano. Para o lexema felicidade, encontramos, no Dicionário Houaiss/UOL, o seguinte: qualidade ou estado de feliz, estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar. 2. boa fortuna; sorte. 3. bom êxito, acerto, sucesso. A felicidade é, como já apontamos, a promessa primeira do discurso da IURD e define-se pela combinação do /querer-ser/ com o saber sobre as possibilidades de ocorrência ou não da conjunção desejada pelo sujeito da espera. O /saber-poder-ser/ sobremodaliza a espera (Barros, 1990: 62-63). Eis algumas paixões que, como a felicidade, são modalizadas pelo querer-ser: felicidade aflição (relaxamento) saber poder ser querer ser alívio (distensão) saber não poder não ser querer ser (tensão) saber poder não ser querer ser infelicidade (intensão) saber não poder ser querer ser Esquema 3: algumas paixões do /querer-ser/. 140 Ainda segundo a semioticista, a diferença entre paixões que pertencem ao mesmo paradigma está essencialmente na tensividade. Por exemplo, o que diferencia o contentamento da satisfação e da alegria, paixões do paradigma da felicidade, é o grau de tensividade. A pesquisadora afirma que a modalização pelo /saber-poder/ assegura a variação passional e revela ao sujeito a verdade ou a falsidade de sua relação com o objeto. É o momento da “tomada de consciência”: Felicidade: saber possível a conjunção desejada. Infelicidade: saber impossível a conjunção desejada. Aflição: saber incerta, evitável, insegura, a conjunção desejada. Alívio: saber certa, inevitável, segura, a conjunção desejada. No discurso iurdiano, o percurso de variação de tensividade entre as paixões é o seguinte: medo/vergonha/insatisfação → desespero → esperança → felicidade O segmento termina com uma convocação dos que estão com problemas financeiros” para comparecerem a uma “reunião” chamada Congresso Empresarial, que acontece todas as segundas-feiras. O esquema narrativo da sequência acima continua formado por programas de aquisição de competência por doação de valores modais (no caso, o querer, o poder e o dever) para que o destinatário torne-se sujeito da ação, entre na guerra, alie-se ao Bem (a Igreja), quebre a força do Mal e chegue, dessa forma, aos valores descritivos desejados. 141 4º segmento: Encontro com a igreja/Deus. Mais esperança. Pastor Márcio: ― Você viu o que “seu” Alencar fez? Ele tomou uma decisão, ele tomou uma atitude diante da situação, porque não adianta ficar se escondendo, ficar se esquivando. Não adianta ficar até mesmo dando desculpas, mas o que fazer então? Você acompanhou, ele usou a fé, ele praticou a fé que ele tem. É isso que 10 - Os 318 pastores sobre o altar acontece no Congresso Empresarial: você recebe uma direção de Deus, pois nós clamamos a Deus para que Deus lhe dê uma direção, para que Deus venha lhe ensinar o caminho. Você sabe que existe um caminho certo para a prosperidade, existe o caminho. De repente, um dia, o senhor, a senhora esteve neste caminho, e agora parece que estão fechados. As portas se abriram. De repente começou o ano e as coisas começaram a se enrolar, as coisas começaram a dar errado pro senhor ou pra senhora. Esteja conosco no Congresso Empresarial nesta segunda-feira, às oito horas da noite. Estaremos clamando a Deus para que ele mude a sua situação, porque se você precisa de uma direção, esta direção ela vem de Deus para sua vida. Você que tem uma religião ou não, não é dia de nós falarmos de religião, não é dia de nós tratarmos de apenas assuntos religiosos, não. Não vamos ali discutir a sua religião A, B ou C, estaremos clamando ao Deus, ao Deus que veio a este mundo para lhe dar uma vida, e uma vida com abundância e, de repente, você diz:- “Está muito longe da minha vida ser esta vida com abundância, ser esta vida com fartura, ser esta vida que eu vou dar o melhor para os meus filhos.” Porque imagine quantos pais de família estão numa situação... De repente, o senhor está desempregado, o senhor não gostaria de ver a situação que você está. Mas isto é uma realidade. Pegue a sua carteira profissional, pegue a sua carteira de trabalho, esteja conosco nesta segunda feira, deixe de dar ouvido a tudo e a todos, porque, de repente você tem dado ouvido a tantas pessoas e estas pessoas não podem te ajudar. Mas eu tenho certeza que Deus pode te ajudar, eu tenho certeza que através da nossa oração que nós estamos pedindo a Deus, pois todos os dias, todos os dias, nós estamos pedindo uma direção a 142 Deus, a fim de abençoar a sua vida financeira, a fim de mudar a vida que você tem vivido, a fim de que toda esta situação ela venha mudar. O segmento em pauta tem início logo após o testemunho do Sr. Alencar, utilizado como uma espécie de argumento de autoridade, na figura de um ex-falido empresário, mas, agora, bem-posicionado e feliz. O percurso narrativo passa da disjunção à conjunção, num programa de aquisição reflexiva do objeto de valor (a riqueza). Nesse pseudoargumento de autoridade, o destinador confere ao entrevistado o status de autoridade no assunto (apenas por relatar um caso pessoal) e lhe dá o papel de adjuvante da narrativa para consolidar, por convergência de vozes, o contrato em vias de ser estabelecido. Esse procedimento, repetitivo e polifônico, potencializa o efeito de verdade da narrativa, pois apela à “autoridade” de sujeitos que, embora desconhecidos, confirmam o sucesso apregoado pelo discurso da IURD, a partir da decisão do destinatário de aderir ao contrato (ir ao templo). Quando nos referimos ao agente religioso da IURD, apresentador dos programas em pauta e, por conseguinte, destinador, acabamos por aceitar a visão de Denis Bertrand (2003: 341), para quem lidamos com um destinador estabelecido, ou seja, “sua posição é tão estável que não se imagina que ele possa escapar às obrigações programadas de seu papel [...] (o destinador estabelecido) situa-se nos dois extremos da cadeia narrativa: é ele que atribui uma missão ao herói no momento do contrato, é ele que reconhece e avalia a ação concluída no momento da sanção [...] é o grande regulador que encarna o pano de fundo axiológico, definindo o desejável, o temível, o odiável, logo de início. [...] É Deus, é o Rei e todas as instâncias delegadas da autoridade que formam tantos papéis típicos e estereotipados (o pai, o policial, o professor etc.). Esse destinador, ao fazer o simulacro de seu destinatário, define os objetos de valor disfórico (com os quais o destinatário sempre está em conjunção inicial) e eufórico (aqueles com que o destinatário deve querer entrar em conjunção). Inicia, então, sua manipulação pelo fazer-crer, para, num segundo passo, fazer-fazer. 143 Ele tomou uma decisão, ele tomou uma atitude diante da situação [...] Ele usou a fé, ele praticou a fé que ele tem [...] No seu fazer persuasivo, o destinador realça a performance com que procura persuadir o telespectador: ir ao templo para assistir ao Congresso Empresarial. Para tanto, exercendo o papel de quem faz-fazer, emprega expressões de forte impacto, mais comuns no discurso da autoajuda (tomar uma atitude, tomar uma decisão, fundo do poço, dar a volta por cima), cujo efeito de sentido é o de provocar no destinatário uma cisão, uma ruptura com o estado atual, para que inicie a performance. É necessário mudar o modo de existência de um telespectador estabilizado no querer, para levá-lo ao fazer. A eficácia do discurso depende da adesão dos sujeitos potenciais e virtuais ao contrato clamado. Com esse objetivo, novos aliados ─ Deus e os 318 pastores ─ entram em cena. É isso que acontece no Congresso Empresarial: você recebe uma direção de Deus, pois nós clamamos a Deus para que Deus lhe dê uma direção, para que Deus venha lhe ensinar o caminho Um segundo destinador, Deus, “mostrará a direção, o caminho certo a ser trilhado em direção à prosperidade” ou em direção à restituição dos objetos de valor perdidos, no Congresso Empresarial. Na IURD, o Congresso Empresarial ocorre, como apontamos anteriormente, no culto das segundas-feiras, também chamado de Reunião da Nação dos 318 (mostraremos posteriormente o significado desse número). Esse esforço pela busca de novos adeptos, provindos ou não de outras religiões, torna-se mais claro quando o destinador(pastor) manipula o telespectador por sedução: Você que tem uma religião ou não, não é dia de nós falarmos de religião, não é dia de nós tratarmos de apenas assuntos religiosos, não. 144 E por tentação, ao asseverar que clamará a Deus em favor de uma vida com abundância, para construir a imagem-fim de um destinatário bem-sucedido e com abundância material: Não vamos ali discutir a sua religião A, B ou C, estaremos clamando ao Deus, ao Deus que veio a este mundo para lhe dar uma vida, e uma vida com abundância [...] Recorre-se ao paralelismo, com o emprego de orações coordenadas assindéticas, destinadas a reforçar consideravelmente o efeito de sentido de realidade. O enunciador encadeia essas orações (parataxe) provocando uma gradação que, associada ao emprego da repetição, implicará a elevação da voz do sujeito da enunciação. Os gradientes da intensidade e da extensão evoluem de maneira conversa, respectivamente em direção às zonas tônicas da fé e do maior número de fiéis, o que faz o texto, sob o olhar da tensão, caminhar no esquema da amplificação. Ele tomou uma decisão / ele tomou uma atitude. [...] não adianta ficar se escondendo / (não adianta) ficar se esquivando / não adianta ficar até mesmo dando desculpas. Ele usou a fé / ele praticou a fé que ele tem. De repente, um dia, o senhor, a senhora esteve neste caminho [...] / De repente começou o ano e as coisas começaram a se enrolar [...] / de repente, o senhor está desempregado [...] / de repente você tem dado ouvido a tantas pessoas Está muito longe da minha vida ser esta vida com abundância/ ser esta vida com fartura/ ser esta vida que eu vou dar [...] Uma voz autoritária, dona da verdade Por meio da voz autoritária da modalização deôntica, o destinador, sujeito do fazer persuasivo, produz efeitos de verdade e tenta levar seu destinatário a crer que o estado em que se encontra parece e é verdadeiro. O telespectador tem de ser 145 convencido de que a IURD, representada por seus agentes religiosos, tem exclusividade e infalibilidade no trato com Deus. A exacerbação da mudança de vida do telespectador (para melhor), como objetivo precípuo do agente religioso, é enfatizada pela recorrência das orações subordinadas adverbiais finais. Vejamos: ─ Certeza de exclusividade no trato com Deus: [...] deixe de dar ouvido a tudo e a todos, porque, de repente você tem dado ouvido a tantas pessoas e estas pessoas não podem te ajudar Mas eu tenho certeza que Deus pode te ajudar, eu tenho certeza que, através da nossa oração, que nós estamos pedindo a Deus, pois todos os dias, todos os dias, nós estamos pedindo uma direção a Deus [...] (exclusividade). ─ Orações adverbiais finais: [...] nós estamos pedindo uma direção a Deus a fim de abençoar a sua vida financeira, a fim de mudar a vida que você tem vivido, a fim de que toda esta situação ela venha mudar. Considerados os seis segmentos em análise como um todo, a oposição entre as categorias do Bem/fartura/vida (concretizadas na saúde, riqueza e na própria IURD) e do Mal/falta/morte (concretizadas na miséria, no desemprego, na doença) impõe, no transcorrer da narrativa, aspectos relacionados à duração. Como diz Tatit (2001: 113), as escolhas dos valores intensos efetuadas pelo enunciador, responsáveis pelas descontinuidades (limites, disjunções, paradas, formas de concentração) ou extensos, responsáveis pelas continuidades (gradações, conjunções, formas de expansão) residem na base dos fenômenos da conjunção ou da disjunção entre sujeito e objeto, da persuasão ou perda de confiança entre destinador e destinatário, das relações opositivas entre sujeito e antissujeito. Em síntese, a programação “SOS Espiritual” tem como destinador principal o pastor/bispo-apresentador, representante da Igreja Universal do Reino de Deus. 146 Esse destinador tenciona fazer seus espectadores não só assistirem aos programas mas também, e principalmente, recorrerem à ajuda salvadora da IURD, tomando a decisão final de ir ao templo para participar das “Reuniões”, sejam elas do Congresso Empresarial, dos 318 Pastores, do Descarrego ou da corrente da Libertação. Para tanto, o destinatário-sujeito é manipulado, num primeiro momento, por intimidação e provocação, pois é colocado pelo destinador-manipulador à mercê de uma grande força transcendental e maligna (intimidação) que o priva ― ou privará ― do sucesso (os bens materiais, a saúde), contra a qual, sozinho, não pode lutar (provocação). Num segundo momento, demonstrados o caos em que se encontra a vida do destinatário-espectador e sua impossibilidade para sair por si mesmo dessa situação, o destinador manipula o sujeito por sedução ao afirmar, no transcorrer de todo o programa, que o destinatário pode (sedução), desde que recorra à IURD, transformar sua vida num paraíso (tentação), concebido como o sucesso financeiro e material. Cria-se, aqui, um novo estado: o destinatário insatisfeito, amedrontado e envergonhado, é instado a ter esperança, a acreditar que a IURD o acolherá e resolverá todos os seus problemas. O sentido do programa “SOS Espiritual” está construído a partir da oposição semântica básica entre o Bem, representado pela IURD, e o Mal, refletidos, respectivamente, nos valores da abundância e da falta que, por sua vez, englobam outras oposições não menos importantes como riqueza vs. pobreza, saúde vs. doença, maldição vs. bênção. Essa oposição é manifestada sob várias formas: Bem (IURD) Venha se aliar ao Bem vs. Mal e quebrar essa força do Mal existente na sua vida [...] 147 Estabelece-se, no nível fundamental, um percurso entre os termos, partindo da falta (pobreza, doença), disfórica, para se chegar à abundância (riqueza, saúde, sucesso), eufórica. A negação do estado disfórico da falta, para culminar, por meio de testemunhos, na restituição dos valores eufóricos, é manifestada diversas vezes: ─ Liberta de tudo, não tenho mais nada, não sinto medo, não sinto síndrome de pânico, não sinto dores, não sinto nada [...] falta não-falta (disforia) (não-disforia) bancarrota Desejo de lutar contra o doenças Mal abundância (euforia) Libertação Mal, restituição da saúde e dos maldição do bens materiais, pagamento das dívidas As categorias Bem (vida, riqueza) vs. Mal (morte, pobreza), pontos de partida para a geração do discurso, sofrem determinação axiológica já nas estruturas fundamentais. O texto caminha, pois, da disforia para a euforia (restituição da falta). O Bem é a Igreja e tudo o que a adesão a ela pode representar: dinheiro, posição social, saúde, fartura. A vida deve ser vivida aqui e agora, com tudo o que ela pode oferecer. A falta, a ausência dos bens materiais ou da saúde são a morte. Não vale a pena viver sem a riqueza. A relação mínima que define o texto pode, então, ser representada pelo seguinte quadrado semiótico: 148 O Bem (abundância) / vida O Mal (a falta) / morte saúde doenças dinheiro dívidas família desavenças - - - - percurso da intimidação ─── percurso da tentação não-Mal (não-morte) não-Bem (não-vida) (não-falta) (não-abundância) gráfico 25: o Bem e o Mal, no quadrado semiótico. Os segmentos discursivos analisados adotam o padrão da maioria dos programas televisivos produzidos pela IURD, ou seja, são do tipo enunciação enunciada pela constante instalação de um eu/nós-você para garantir efeitos de aproximação da enunciação, subjetividade e certa igualdade entre os interlocutores. No aspecto tensivo, repetem-se as estratégias de alternância entre os esquemas ascendente (quando dos simulacros negativos do telespectador) e descendente (com a instauração da confiança/esperança). Encadeamento tensivo geral Segue, abaixo, a sequência de encadeamento tensivo dos textos analisados: esquemas correspondentes ao 149 1º. Segmento: Exacerbação de simulacros negativos do destinatário e criação do antissujeito − esquema tensivo da ascendência − A manipulação por intimidação, como já vimos, é constantemente empregada no início dos programas televisivos iurdianos, com a finalidade de transformar o destinatário em um sujeito tenso, amedrontado, envergonhado diante da sociedade e desesperado frente a problemas para os quais não encontra solução. Essa técnica persuasiva descarta toda e qualquer racionalidade para dar total ênfase à intensidade passional. O medo aumenta diante da perspectiva de disjunção ou de não-conjunção com os objetos de valor, além da presença de um antissujeito espiritual maligno. [...] há uma coisa estranha que acompanha o seu marido, que acompanha o seu filho [...] Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor [...] ─ Eu estou notando que a mesma dor, o mesmo sofrimento que atuava na minha mãe, no casamento da minha mãe, está atuando no meu. (citação do provável discurso do destinatário) + Medo/vergonha/insatisfação/desespero Esquema tensivo da ascendência Intensidade - Extensão + Objetos de valor eufórico gráfico 26: encadeamento tensivo – instauração das paixões disfóricas. 150 2º. Segmento: Testemunhos (redução da intensidade do medo, com a doação de esperança e confiança) – decadência – (desaceleração momentânea do andamento discursivo e instauração do esquema da decadência. O testemunho, no discurso iurdiano, apresenta-se sempre com final feliz) O crescente apelo à emoção, por meio da construção contínua de simulacros negativos do destinatário(telespectador), observado no 1º. segmento, é propositalmente atenuado por uma “quebra” do andamento, à medida que o testemunho é apresentado. Tais testemunhos são narrativas com sujeitos que tiveram todos os tipos de problemas, mas atingiram a felicidade depois de obedecerem aos preceitos ditados pela IURD. O final sempre feliz dos testemunhos quebra a ascensão tensiva do discurso, pois funciona como alívio e doação de esperança ao telespectador. Após o testemunho, a fala do pastor continua a construir simulacros negativos, retomando com força ainda maior a ascensão tensiva. Texto a ─ Liberta, estou participando da corrente, estou liberta, graças a Deus, consigo tudo, sou feliz, sou realizada, não tenho nenhum tipo de problema, não tenho nenhum tipo de doença, graças a Deus. medo vergonha insatisfação, desespero + (esquema tensivo da decadência) Intensidade Confiança, Esperança Extensão Objetos de valor + gráfico 27: encadeamento tensivo – diminuição da tensão: felicidade, paixão relaxada. 151 Texto b Tenho uma empresa na região dos Jardins, na área de decoração de interiores também, que está indo de vento em popa, está cada vez mais crescendo. Eu tenho cada vez mais ampliado os produtos que trabalho e a minha vida, hoje, está completamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. O segundo testemunho é uma continuação e, ao mesmo tempo, confirmação do anterior. Ocorre uma continuidade da redução da paixão do medo em direção às paixões mais relaxadas como a esperança e a fé ([...] e Deus foi me dando outras direções e eu comecei a ampliar os meus horizontes [...]). + Medo, vergonha, insatisfação, desespero (dívidas, problemas, miséria) Intensidade Confiança, esperança (Deus foi-me dando outras direções) - Extensão bens materiais gráfico 28: diminuição do medo, com a instauração da confiança e da esperança. 3º segmento: Convocação para a guerra contra o Mal. Surge uma esperança. ─ ascendência/ decadência ─ Depois dos testemunhos, a retomada dos simulacros negativos. Forte apelo à emoção. Apresenta-se uma produção de aproximadamente cinco minutos em que atores encenam as mazelas da vida de uma mulher bem posicionada socialmente que foi levada ao desespero e, posteriormente, à loucura, vítima de um “pó de sumiço”. O exemplo da vida real é utilizado como argumento para aumentar a tensão passional do medo. 152 (1) [...] e então começou a sumir da vida dela; o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha. Começou a sumir a saúde, começou a sumir tudo. (2) Então, nesta terça feira, nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais. (1) esquema ascendente (2) esquema descendente Desespero sumiço do Desespero + + marido, bens, Mudança de orientação clientes etc. a Igreja se coloca Intensidade Intensidade Esperança Esperança _ Extensão saúde, dinheiro + como adjuvante _ Extensão saúde, dinheiro + gráfico 29: mudança de orientação tensiva: do desespero para a esperança. O destinador apela à retórica militarista, doando esperança ao telespectador de, se aliado ao Bem (a IURD), vencer a batalha contra o Mal (a presença que causa a pobreza, as doenças a falta de amor, o fim do casamento). Aqui, a IURD se coloca como sinônimo do Bem e propõe-se a atuar como adjuvante na extirpação do mal.. [...] comece uma luta, uma batalha, não lute mais na força do seu braço, brigando, discutindo, mas lute de forma espiritual [...] aí eu vou nivelar a guerra, vou nivelar a batalha [...] Venha se aliar ao Bem [...] [...] Olha esses resultados! Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor. 153 Medo, vergonha, insatisfação, desespero + batalha luta Intensidade briga força aliança Esperança Extensão bens materiais, saúde gráfico 30: isotopia temático-figurativa da guerra. 4º. (e último) segmento: Encontro com a Igreja/Deus. Esperança. ─ amplificação ─ [...] Estaremos clamando a Deus para que ele mude a sua situação, [...] estaremos clamando ao Deus, ao Deus que veio a este mundo para lhe dar uma vida, e uma vida com abundância. Ele tomou uma decisão / ele tomou uma atitude. [...] não adianta ficar se escondendo / (não adianta) ficar se esquivando / não adianta ficar até mesmo dando desculpas. Emprego da parataxe provocando uma gradação que implicará a elevação da voz do sujeito da enunciação. Todo o jogo tensivo, o sobe-e-desce das valências tensivas, desde o medo e o desespero até a instauração da esperança, fazem, em uma visão geral do texto, os gradientes da intensidade e da extensão evoluírem de maneira divergente, respectivamente em direção às zonas átonas das paixões relaxadas e do maior número de fiéis, o que faz o texto, sob o olhar da totalidade, depois de caminhar no esquema da ascensão, mudar a orientação tensiva para a decadência. . 154 Medo, vergonha. desespero (decadência) Intensidade _ Esperança + Extensão + fiéis gráfico 31: esquema tensivo final dos programas iurdianos quando do convite para comparecer à igreja. Há uma oscilação, um sobe e desce, entre o esquema tensivo da ascensão predominante no 1º segmento (simulacros negativos), da decadência no 2º segmento (testemunhos), da ascensão no 3º. segmento (convocação para a guerra) e da amplificação, no segmento final. Essa variação de orientação tensiva ocorre porque o destinatário está constantemente sujeito ao medo da falta (disjunção ou não-conjunção com o objeto de valor) imposto pelo antissujeito e à esperança (desejo de ser feliz). A “quebra” dessa oscilação ocorre com a nova e última orientação tensiva em direção à decadência, ou seja, após a exacerbação do medo, vergonha e desespero, o discurso volta-se à doação de esperança, por meio da atuação da IURD. É isso que acontece no Congresso Empresarial: você recebe uma direção de Deus, pois nós clamamos a Deus para que Deus lhe dê uma direção, para que Deus venha lhe ensinar o caminho. Você sabe que existe um caminho certo para a prosperidade, existe o caminho. 155 Abaixo, podemos ter uma visão do encadeamento tensivo, observados alguns momentos decisivos dos segmentos analisados, na estratégia de persuasão. 1º. 2º. Simulacros conjunto dos negativos testemunhos medo 3º. 4º. guerra contra Encontro o Mal com a Igreja. esperança vergonha desespero Intensidade esperança Extensão Objetos de valor gráfico 32: o sobe-e-desce do encadeamento tensivo. Para visualizarmos melhor o percurso narrativo-persuasivo global do texto em análise, adaptamos o quadrado semiótico, em sua versão tensivo-fórica, proposto por Zilberberg (2006: 161): continuidade simulacros negativos do telespectador (o mal: fracassos, doenças, desemprego) parada da parada Atuação do antissujeito (pó de sumiço, encosto) parada ida ao templo da IURD (o bem: sucesso, saúde, amor) parada da continuidade o testemunho gráfico 33: quadrado semiótico, em versão tensivo-fórica. 156 As estratégias de interação entre os sujeitos Tomando como base os estudos de Barros (in Preti, 2002), vejamos, agora, no nível discursivo, as estratégias de interação entre os sujeitos da totalidade iurdiana. Considerando que os processos de comunicação são formas de manipulação em que um destinador sempre exerce um fazer persuasivo enquanto o destinatário exerce um fazer interpretativo, os sujeitos envolvidos na comunicação não são lugares vazios, mas preenchidos de valores, de crenças, de projetos, de aspirações, de sentimentos. Ainda segundo a semioticista, essa relação de interação entre os sujeitos, que pode ser de conflito ou de cooperação, admitindo uma determinação pela objetividade ou subjetividade (sensorial ou afetiva), está intimamente ligada às estratégias de construção dos sentidos. Dessa forma, a abordagem da interação entre os sujeitos é uma necessária contribuição para a análise dos éthe construídos pelos discursos das Igrejas Católica e Universal do Reino de Deus. a- A interação eu/você Os pastores da IURD geralmente preferem discursos do tipo enunciação enunciada, com predomínio da relação eu/você(s), o que caracteriza uma relação dialógica recíproca entre os sujeitos. Essa relação eu/você é fundamental no processo persuasivo desse discurso, que constrói um destinador onisciente e poderoso, expandido para além dos limites do sujeito, pois designa não só o atorpastor mas toda a estrutura persuasiva da IURD (pastores, bispos, 318) conhecedora de todas as mazelas da vida dos telespectadores e, por isso, confiável. Eu me lembro de uma senhora que disse [...] [...] você não sabe o que fazer? 157 b- Emprego da 3ª. pessoa do singular (Ele/Deus) no lugar do eu/nós (a IURD) Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor [...] A interação acima, organizada por meio de uma debreagem enunciativa - a 3ª. pessoa do singular (Deus) no lugar da primeira (eu/nós, representando a IURD) exacerba não só a autoridade e o poder da Igreja, tendo em vista que o próprio Deus fala em nome dela, como também o interesse e o comprometimento com o destinatário. Esse efeito de sentido de um destinador objetivo e diferente do destinatário, que ocupa outro lugar enunciativo, surge em consequência do emprego da terceira pessoa. A inclusão da 3ª. pessoa, concretizada na figura do destinador maior ― Deus ― reforça a imagem da Igreja e de seus pastores, representados sempre pela primeira pessoa eu/nós, já que a IURD se diz conhecedora da vontade divina (Deus quer que aconteça...) e pode, consoante seu discurso, fazê-Lo agir em benefício dos destinatários. c- Emprego da 1ª. pessoa do singular (eu) pela 2ª. pessoa do singular ou do plural (você/vocês). [...] se o Mal é espiritual, eu tenho que lutar contra ele de uma forma espiritual, aí eu vou nivelar a guerra, eu vou nivelar a batalha. Se eu estou lutando na carne, então o Mal, que é espírito, está aqui (o pastor posiciona a mão direita no alto, na altura dos olhos), e eu, lutando na carne, eu vou lutar aqui embaixo (posicionando a mão esquerda em numa altura inferior à da outra mão). Mas se eu começar a lutar no espírito, vindo fazer a corrente de terça-feira, então eu vou lutar no mesmo nível do Mal. E, aliado ao Bem, então eu vou vencer este Mal. Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família. Estamos começando um trabalho de libertação muito forte. Desse emprego do eu pelo você(s) resulta o efeito de sentido de identificação com os telespectadores. Uma espécie de “se eu fosse você” fabrica a ilusão de aproximação da enunciação e cria, no texto, efeitos de sentido de identificação total 158 com o sujeito. Essa estratégia de interação é empregada no momento em que o enunciador se coloca como adjuvante na guerra contra o antissujeito O programa SOS Espiritual constrói, em sua maior parte, uma enunciação enunciada, com diferentes organizações da categoria de pessoa, sendo as principais: Destinador Destinatário a- 1ª. pessoa do singular 2ª.pessoa do singular (você) Efeito de sentido Reciprocidade, -eu expandido relação dialógica -fala do pastor ou do entre os sujeitos. bispo. -marca a autoridade da IURD. b- a 3ª. pessoa do singular 2ª. pessoa do singular (você) Onisciência, (Ele/Deus), no lugar da 1ª. autoridade, pessoa conhecimento do singular ou da plural – eu/nós). vontade de Deus. c- 1ª. pessoa do singular Identificação - embreagem - da Igreja com o (no lugar da 2ª. pessoa do destinatário. total singular ou plural) A Igreja passa a ser adjuvante. É recorrente o recurso do destinatário estar centrado no você (singular). Há que se registrar, porém, que a segunda pessoa do singular (você) é, em regra, empregada no lugar da 2ª. do plural (vocês) para gerar um efeito de maior intimidade. O destinatário, no caso, é o público telespectador, portanto, coletivo. 159 O emprego dos lexemas senhor e senhora, segundo o Aurélio – Século XXI, expressões de tratamento cerimonioso ou respeitoso, juntamente com o pronome você, representa uma passagem da formalidade para a informalidade que pode significar tanto uma aproximação maior do telespectador quanto um consequente alargamento da abrangência do discurso. Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor, e você não sabe o que fazer? Eu quero mostrar para a senhora, para o senhor, o bloco de depoimentos[...] Observamos o plural majestático “nós” (ou “nós” amplificado) utilizado para exprimir uma pessoa amplificada, recurso que lhe permite ao agente religioso colocar-se como “alta autoridade” e opor-se ao “você”. Esse nós exclusivo, é um eu que exclui o destinatário, fabrica a ilusão de aproximação da enunciação e cria, no texto, um efeito de sentido de subjetividade e comprometimento ou cumplicidadenão recíproca, ou seja, o destinador é um sujeito superior (representa uma entidade superior: a IURD), dotado do poder e da sabedoria necessários para resolver os problemas do destinatário. [...] nós temos realizado aqui, no Templo Maior, o ritual contra as energias negativas. Então, nesta terça feira, nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais [...]. Outro efeito para o uso do nós exclusivo, o de um nós cúmplice e comprometido, é dado quando se relaciona com o você, pois coloca o telespectador como finalidade principal das ações da Igreja. Os sujeitos são cúmplices e, como diz Barros (2002: 41), assimétricos (eu/nós e não-você), instalados em níveis diferentes: o agente religioso precisa exprimir-se como uma autoridade (nós), capacitada e poderosa, pronta para “ajudar” um destinatário (você) que acredita precisar dessa ajuda. Sem essa manifestação de poder não é possível instaurar o contrato 160 fiduciário intersubjetivo da confiança. Instaura-se a cumplicidade quando o agente religioso tenta mostrar interesse e comprometimento em dispor de seus poderes para capacitar o destinatário a resolver todos os problemas.. [...] nós temos pessoas que estão dispostas a lhe ajudar. [...] nós estamos pedindo uma direção a Deus, a fim de abençoar a sua vida financeira [...] À interação acima soma-se um nós inclusivo (nóspastor + vocêtelespectador), bem menos utilizado, que também gera um efeito de sentido de subjetividade e fabrica a ilusão de identificação recíproca ou de igualdade. Essa reciprocidade na interação simétrica entre destinador/destinatário ocorre quando o argumento em questão não é o poder, pois esse, o poder, refere-se apenas ao simulacro da imagem do destinador. [...] nós já vamos acompanhar um testemunho, uma pessoa que alcançou a libertação numa corrente forte que é realizada, inclusive, todas as sextasfeiras. Em relação ao tempo discursivo, o enunciado está construído num eixo temporal principal que se define a partir de um agora, realizado pelo presente do indicativo, em torno do qual se organizam todos os outros tempos como o futuro do presente ou o pretérito perfeito do indicativo. Como o programa dá ênfase à maldição que vem dos antepassados e perdura até os dias de hoje, há o emprego do pretérito perfeito composto do indicativo, justamente para indicar esses fatos durativos (começaram no passado e vão se repetindo até o presente). 161 Tempos do Pretérito PRESENTE DO INDICATIVO Ele tomou uma decisão, Tá vendo? Essa coisa estranha é [...] Eu vou lutar aqui embaixo [...] (pretérito perfeito do indicativo) (presente do indicativo) (futuro do presente do indicativo) Ele tomou uma atitude. Ela não sabe o que é [...] Nós vamos começar este trabalho (pretérito perfeito do indicativo) (presente do indicativo) (futuro do presente do indicativo) As coisas começaram a se enrolar [...] Há uma coisa estranha acompanhando a Sra (pretérito perfeito do indicativo) (presente do indicativo) Tempo do futuro É isso que tem acontecido com muitas [...] (pretérito perfeito composto do indicativo) (a maldição) que tem acompanhado o senhor [...] (pretérito perfeito composto do indicativo) A forma nominal do gerúndio, combinado com o auxiliar estar, para indicar uma ação durativa em um momento pontual, também é repetidamente utilizada na fala do pastor para expressar uma ação em curso. Eu estou notando uma coisa [...] [...] (a coisa estranha) está acompanhando também o meu marido. [...] estou participando da corrente [...] [...] estamos começando um trabalho [...] Objetos mágicos Depois de reforçar o simulacro negativo da imagem do destinatário (desempregado, longe da abundância), o agente religioso constrói mais um argumento para levar o telespectador a aderir ao contrato: transformar a carteira profissional em um objeto mágico positivo. De repente, o senhor está desempregado, o senhor não gostaria de ver a situação que você está. Mas isto é uma realidade. Pegue a sua carteira profissional, pegue a sua carteira de trabalho, esteja conosco nesta segunda-feira [...] 162 O documento será abençoado, de forma a adquirir o status de objeto mágico44, com poder suficiente para abrir as portas de um novo emprego. Essa estratégia persuasiva recupera as bases da semiótica e a herança de Propp, pois a carteira profissional remete nossa análise ao objeto mágico dos contos maravilhosos. Possuidor do objeto mágico, o sujeito se torna competente (quer, deve, pode e sabe) para entrar em contato com seu objeto de valor, no caso, suas aspirações, desejos e ideais, exacerbados pela própria instituição Igreja Universal do Reino de Deus. Esse objeto mágico algumas vezes chega a ultrapassar o estatuto do símbolo para atingir o estatuto do fetiche, considerando o fetiche como uma supervalorização ética do objeto, que passa a significar por si só. Essa fetichização é cultural, ocorre no discurso e deságua na fetichização do dinheiro. Todas essas figuras (a carteira e o documento abençoados, o dinheiro) refletem o mundo por meio da estereotipia do poder aquisitivo, do “ter”. “Ter” significa “ser”. No discurso da IURD, é digno de respeito alguém que possua bens materiais. Nesse discurso são apagados a vida após a morte, os dons espirituais, o amor ao próximo. O paraíso são os bens, o poder econômico e nada mais. A IURD atribui aos homens plenos poderes para a instauração de males transcendentes à lógica e à razão, males que podem, a partir de uma palavra, atravessar o tempo lesando várias gerações de seus bens, da saúde e da felicidade. Entretanto, o discurso iurdiano não delega aos mesmos homens condições para libertarem-se dos males por eles mesmos criados sem que recorram, obrigatoriamente, à ajuda da Igreja. O homem pratica o mal, torna-se vítima do mal, mas não tem competência para libertar-se daquilo que, muitas vezes, ele próprio 44 Essa é uma estratégia bastante comum no fazer persuasivo da maioria das Igrejas. Oferecem-se todos os tipos de objetos mágicos. Na Igreja Universal, são toalhinhas, rosas, óleos abençoados, vidrinhos com terra do Sinai e até bengalinhas de Moisés. Algumas vezes, o destinatário é instado a levar algum objeto pessoal que, após uma bênção, assumirá o status de objeto mágico. 163 engenhou. Surge, então, a Igreja, com seus pastores e bispos oniscientes e onipotentes, prontos para dissolver qualquer mazela, inclusive as causadas por pósde-sumiço misteriosos e dotados de poder. O efeitos de sentido das figuras Como um todo, o texto constrói um simulacro de realidade para representar o mundo. Seus programas narrativos básicos (conjunção e disjunção com o dinheiro, a saúde, a posição social, a abundância material) estão subordinados ao tema central “a construção do paraíso na Terra através da fé” que, por sua vez, é formado por vários outros subtemas (quebra das maldições, relacionamento familiar, perdas materiais, a fé recuperadora dos bens, pobreza, guerra espiritual), alguns eufóricos, outros disfóricos, sempre revestidos por figuras que, embora esparsas ao longo do texto, têm considerável importância no mecanismo da significação, pois remetem o destinatário ao mundo da magia, do enigmático e do desconhecido, características que, entre outras, diferenciam o discurso iurdiano dos discursos de outras igrejas. Em Jadon (2005: 134-135), observamos: No discurso da IURD, para o destinatário (espectador) o inimigo (o Mal) é transcendental e desconhecido, portanto, um grande e poderoso mistério. Esse discurso constrói um destinatário dependente da fé e, por conseguinte, da IURD, para destruir o inimigo e pôr fim à falta de dinheiro, às doenças, ao desconforto, ao medo e à vergonha. Quanto maior o mistério, quanto maior a transcendência do inimigo, maior o poder persuasivo gerador da fé, a fé que dá origem à ação e à dependência do fiel com relação à IURD. Assim sendo, várias são as estratégias de figurativização empregadas pelo enunciador IURD com o objetivo de exacerbar o desconhecido. Isotopia temático-figurativa da magia e do extraordinário 164 Desenvolve-se, no transcorrer do discurso, uma isotopia religiosa que opõe as categorias fundamentais do Bem e do Mal. O Mal está concretizado, como já afirmamos anteriormente, na figura de uma poderosa entidade do mundo espiritual, que atua no mundo material, ocasionando inúmeras perdas ao sujeito. Essa entidade maligna e misteriosa é figurativizada de inúmeras formas e pode surgir na narrativa como uma coisa estranha, uma coisa feita, um pó-de-sumiço, uma maldição dos antepassados, um encosto, um trabalho etc. Todos os pontos negativos da vida do destinatário, sejam relativos à falta de saúde, de amor ou de dinheiro, são atribuídos à constante performance dessa força mágica do Mal. A essa força contrapõe-se outra força mágica e poderosa: a do Bem. Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor, e você não sabe o que fazer? Tá vendo? Essa coisa estranha é alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó-de-sumiço. O Bem concretiza-se nas figuras da IURD (pastores, bispos, templos, objetos mágicos) e de Deus, que atuam conjuntamente para restituir as perdas ou reparar a falta provocada pelo “inimigo” na vida do destinatário. Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família. Vejamos algumas figuras que, no discurso em análise, remetem o enunciatário à isotopia da magia e do extraordinário: - coisa estranha [...] há uma coisa estranha que acompanha o seu marido, que acompanha o seu filho [...] mas por que essa coisa estranha entrou ai? [...] há uma coisa estranha que acompanha o seu marido [...] [...] essa coisa estranha, que a senhora diz: - Eu não sei o que é [...] [...] essa coisa estranha que está acompanhando o meu pai está acompanhando também o meu marido [...] Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor [...] Mas sabe por que essa coisa estranha entrou aí? 165 Dentre as acepções constantes do Dicionário Eletrônico Aurélio - Século XXI, encontramos, para o lexema coisa, mistério, enigma e diabo (Bras. Pop.); e para estranho: encontramos: misterioso, enigmático, desconhecido, indivíduo que não conhecemos. Percebemos, por conseguinte, que a figura coisa estranha, constantemente iterada no texto, é formada por dois lexemas que carregam em seu cerne as mesmas bases significativas. Juntos produzem um efeito de sentido de potencialização do mistério e do enigma. Dessa forma, a expressão coisa estranha, representativa do Mal ou da misteriosa e enigmática entidade maligna, tem um efeito de sentido extraordinariamente ampliado, de forma a produzir, no enunciatário, paixões decorrentes da espera tensa: o medo, a aflição, a insegurança frente ao incógnito. Esse recurso leva o telespectador a crer-ser prejudicado por uma poderosa entidade contra a qual não tem forças para lutar porque desconhecida, altamente misteriosa e enigmática. Daí ser denominada “coisa”. Deve ele, portanto, correr para a IURD, a fim de obter ajuda. - maldição dos antepassados É uma maldição [...] nós vamos começar este trabalho de quebra da maldição, a quebra da maldição dos antepassados, dos ancestrais [...] Do latim, maledictione ─ ato ou efeito de amaldiçoar ou de maldizer ─ o lexema maldição tem seu efeito de sentido sensivelmente ampliado pelo adjunto dos antepassados (ou dos ancestrais). O enunciador procura levar o enunciatário a crerser vítima de uma maldição transcendental ao próprio tempo (daí deduz-se sua enorme força), que vem disjungindo sua família dos objetos de valor positivo, desde os antepassados até os dias de hoje. Como a maldição é resultado da maledicência, o discurso em análise dá aos homens a condição de instauradores do Mal, mas não 166 a de restauradores do Bem, atribuição exclusiva da IURD. Essa figura realça novamente o mistério e o enigma, potencializando os efeitos de sentido da magia, do extraordinário, do fora da realidade, característicos do discurso da Igreja Universal. - pó-de-sumiço Discorremos sobre essa figura ao abordarmos os objetos mágicos do texto. Observamos, em acréscimo ao dito, que, mesmo no mundo hodierno, em plena era da tecnologia, o discurso em pauta restaura valores marcantes do início da Idade Moderna. Ao abordar o medo do Diabo que dominava os homens nesse período da História da Europa Ocidental, Oliva (1997: 92) afirma: [...] havia dois tipos de Diabo soltos no Velho Mundo: O Diabo erudito e o Diabo popular. O Diabo dos teólogos, pregadores e inquisidores ─ medonho, terrível, libertino, obsceno, assustador e, sobretudo, poderoso ─ é impiedosamente perseguido pela Santa Inquisição numa infatigável caça às bruxas, feiticeiros e judeus desde fins do século XIII. [...] O Diabo popular são demônios domesticados, familiares, a serviço das bruxas e feiticeiras que os conservam escondidos pelos cantos da casa ou presos em garrafas ou anéis. A História mostra que quanto mais os religiosos perseguiam o Diabo erudito, mais popular o Maligno ficava. A IURD recuperou parte da crença dessa época para unir, no período pós-moderno, a magia ao popular. O pó-de-sumiço remete-nos às velhas bruxas dos contos maravilhosos estudados por Propp. As bruxas, antissujeitos nos contos maravilhosos, portam um objeto com o qual criam sérias barreiras para os heróis cumprirem os contratos e chegarem aos objetos de valor desejados. Na narrativa em foco, o enunciador(agente religioso) muda os interlocutores, mas não muda os papéis dos atores: uma “amiga” (a bruxa) jogou um pó-de-sumiço (o objeto mágico disfórico) nas costas da outra (a vítima) e, a partir 167 daí, tudo começou a sumir: sumiram o marido, os bens, os clientes, os fregueses e a saúde. [...] o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha. Começou a sumir a saúde, começou a sumir tudo. A figura do pó-de-sumiço afirma a condição de fragilidade das pessoas, diante da exposição cotidiana aos mais inusitados perigos; gera, pois, um efeito de sentido que reforça a paixão do medo diante das agruras da vida. Esse reforço é necessário no processo discursivo doador de competência para potencializar, no enunciatário, o desejo de ir ao templo. Além disso, essas figuras (maldição, antepassados, pó-desumiço, coisa estranha, descarrego), como já dissemos, provocam o efeito mágico que norteia o discurso iurdiano. -Sessão espiritual do descarrego A expressão “sessão espiritual” invoca a fé e remete o destinatário a uma instância transcendente, espiritual, irrefutável porque desconhecida e dependente da fé; “descarrego” é um substantivo formado por derivação deverbal de descarregar. O dicionário Aurélio – Século XXI dá, para esse verbo, dentre outras, estas acepções: tranquilizar, desoprimir, sossegar, aliviar, desafogar, desabafar. São significados que, substantivados (tranquilidade, sossego, alívio, desafogo, desabafo), transformam-se nos temas originados pelo lexema. Esses temas serão recobertos pela figura do “descarrego” que nada mais é do que “a ação de tirar de cima”, “tirar a carga”, “tirar o peso”. Essa figura tátil do peso é altamente persuasiva porque concretiza a saída do Mal, deixando o sujeito “leve”, sem pesos sobre as costas ou sobre a vida. Além disso, o lexema em questão apela a toda uma cultura religiosa e popular por ser importado do vocabulário pertinente aos terreiros da 168 umbanda, nos quais os praticantes creem descarregar todos os valores negativos. Utilizar termos e símbolos trazidos de outras culturas religiosas é uma estratégia discursiva muito empregada pela IURD, com a finalidade de atrair para si os adeptos dessas outras religiões. Para Campos (1997: 82) O sucesso da mensagem dessa Igreja (IURD) é maior ou menor na medida em que faz descobrir os símbolos das culturas locais, e estabelece uma conexão com a sua retórica. Uma vez descoberto o veio, rapidamente ali se estabelece um fecundo processo de comunicação, acrescentando-se-lhe também que os símbolos são polissêmicos, intuitivamente captáveis, sugerindo várias leituras simultâneas, e criando condições para pessoas com visões diferenciadas conviverem numa mesma comunidade de culto, afetiva ou de ideias. O discurso da Igreja do bispo Edir Macedo opõe-se ao discurso do espiritismo, porém, paradoxalmente, adota a figura espírita do “encosto” para intimidar seus destinatários; não aceita as imagens católicas, mas utiliza a cruz em seus altares, opõe-se às religiões orientais que reverenciam os ancestrais, mas prega a “maldição dos antepassados” como realidade. A IURD se opõe tematicamente a muitas religiões, mas, ao mesmo tempo, utiliza-se das figuras dessas mesmas religiões, como a cruz, o encosto, o descarrego. Essa é uma estratégia com a função de trazer para si os fiéis de outras religiões. Por isso, usam-se figuras que os outros devem reconhecer. A Igreja Universal vangloria-se por conhecer o mundo espiritual, aparentemente habitado por Deus e um semnúmero de entidades malignas; aos homens, não reserva um paraíso espiritual, pós-vida, pois o paraíso é aqui e agora, já que significa viver bem. Seu discurso se cala diante da morte, no entanto produz efeitos de sentido que mostram ter a força suficiente para combater as causas dos males. - 318 pastores (Congresso Empresarial) 169 Ao lançarmos um olhar mais apurado sobre o Congresso Empresarial, recuperamos a origem do número 318, deveras relevante para o estudo da significação. O apelo aos 318 pastores estabelece o diálogo do discurso iurdiano com a Bíblia. Os 318 pastores A expressão figurativa Reunião dos 318 pastores é substituída algumas vezes por reunião dos 318 justos, vigília dos 318 pastores, Congresso Empresarial, Faculdade da Fé. Todas essas expressões figurativas representam o mesmo evento, porém, utilizadas como sinônimas, criam um efeito de sentido multiplicado: conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “reunião” significa “ato ou efeito de reunir”; para “vigília” encontramos “condição de quem está desperto, acordado, vigilância; “congresso” representa “reunião de especialistas para que deliberem assuntos comuns”; já o lexema “faculdade” significa “capacidade natural de se fazer algo” ou “escola de ensino superior”. A alternância e retomada anafórica dessas figuras constrói um destinador-manipulador com poderes ampliados, que reúne em si, ao mesmo tempo, características como “vigilância”, “especialidade” e “conhecimento”. Repete-se, aqui, a retomada anafórica com efeito argumentativo. Além disso, o número 318, simbólico, traz a ideia da força que faltava para a construção de um sujeito “onipotente”, que não é Deus, porém capaz de trazer bens e riqueza a quem o procurar. Recorre-se, nesse caso, ao discurso de autoridade da Bíblia para reforçar o poder argumentativo implícito no número 318. Compreende-se melhor a origem desse número com a leitura do Gênesis, capítulo 14, versículos 11 a 16, abaixo transcritos: (Jadon, 2005: 63-64) 11 (os reis de Sodoma e Gomorra) Tomaram, pois, todos os bens de Sodoma e de Gomorra e todo o seu mantimento, e se foram. 12 Apossaram-se também de Ló, filho do irmão de Abrão, que morava em Sodoma, e dos seus bens, e partiram. 13 Porém veio um, que escapara, e o contou a Abrão, o hebreu; este habitava junto a carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol e de Aner, os quais eram aliados de Abrão. 14 Ouvindo Abrão que seu sobrinho (Ló) estava preso, fez sair trezentos e dezoito homens dos mais capazes, nascidos em sua casa, e os perseguiu até Dã. 15 E, repartidos contra eles de noite, ele e os seus homens, feriu-os e os perseguiu até Hobá, que fica à esquerda de Damasco. 16 Trouxe de novo todos os bens, e também a Ló, seu sobrinho, os bens dele, e ainda as mulheres, e o povo. 170 O número 318 tem, portanto, fundamento intertextual com o Velho Testamento. É uma alusão ao texto bíblico acima porque recupera o conteúdo em que um poderoso exército, formado pelos mais capazes homens (sic), restaura todos os bens materiais de Ló e das cidades de Sodoma e Gomorra. Reiteramos que os 318 tinham a missão de recuperar os bens materiais espoliados de Ló. É de se notar, em primeiro lugar, que a alusão em pauta é utilizada como argumento de autoridade para todos os destinatários que têm um saber bíblico; no entanto, para o destinatário leigo, a autoridade é construída pela quantidade, além do que o detalhamento por meio do emprego de um número exato, 318, e não aproximado (300, por exemplo), cria a ilusão de verdade e aumenta o poder da persuasão. Isotopia temático-figurativa da guerra A isotopia da guerra é igualmente decisiva na constituição do sentido dos textos em pauta. O uso dos verbos “lutar” e “vencer”, o emprego dos substantivos “batalha”, “guerra”, “luta” e “força” levam à construção de um éthos beligerante. Com relação a essa isotopia, Campos (1999: 312) afirma: [...] o pentecostalismo também tem uma predileção por uma retórica militarista e emprega palavras que funcionam como armas de guerra, convencional ou de guerrilha. No nível da linguagem e da ação, os seus fiéis estão engajados numa guerra contra os demônios, secularismo, cultos mágicos de outras procedências, bruxarias e catolicismo. Nesse sentido, podemos afirmar que a propaganda religiosa iurdiana é a “guerra santa”, levada a cabo por outros meios. Pois, não se trata somente de criar uma identidade em oposição a outra, mas também em mobilizar os fiéis, tarefa mais fácil quando há um inimigo comum contra o qual se pode declarar guerra. Não é raro, pois, defrontarmo-nos com partes do enunciado construídas sob forte retórica militarista: Não lute mais na força do seu braço, brigando, discutindo [...] [...] nesta terça feira, comece uma luta, uma batalha [...] 171 [...] aí eu vou nivelar a guerra, eu vou nivelar a batalha [...] [...] vindo fazer a corrente de terça feira, então eu vou lutar no mesmo nível do Mal [...] Isotopia temático-figurativa do mundo material O discurso iurdiano exalta a tormenta do homem refletida na falta: perda do dinheiro, dos bens materiais, do emprego, do conforto, da saúde. A isotopia temático-figurativa das coisas divinas, disseminada pelos discursos das religiões tradicionais (céu, graça divina, inferno, pecado, morte...) é sobreposta por uma isotopia do mundo material (dinheiro, sucesso, emprego, conforto, saúde) ― o paraíso na Terra ― com o argumento de autoridade colhido dos vários testemunhos espalhados pelos programas de TV. Apagam-se os estados do âmbito passional da culpa pelo pecado e pela ofensa a Deus. Os homens, dessa forma, deixam de ser culpados (antes maculados pelo pecado original) e passam a ser vítimas de entidades espirituais malignas cuja presença regula a relação sujeito/objeto de valor. As paixões do medo e da vergonha não mais procedem da perda da graça divina a nós doada, segundo os discursos religiosos tradicionais, mas da perda dos bens materiais ou da saúde. A programação SOS Espiritual apresenta como destinadores os pastores ou bispos representantes da Igreja Universal do Reino de Deus, cujo objetivo principal é o de dotar os destinatários-telespectadores da competência necessária para saírem do estado de espera em que se encontram e irem a um dos templos (transformação dos destinatários em sujeitos da ação). Ali sofrerão, de forma direta, todos os tipos de manipulação. Com esse fim, o destinador constrói simulacros de um sujeito S1 cheio de problemas das mais variadas espécies, sempre resultantes da atuação de uma poderosa e misteriosa força maligna contra a qual só se pode lutar (e vencer) 172 com a ajuda da IURD. Essa força provém de condições mágicas ou extraordinárias causadas por objetos mágicos (pós-de-sumiço, “trabalhos”, coisas feitas) ou por condições mágicas que fogem da realidade e do tempo (maldição dos antepassados). Os homens podem criar e causar o mal a outrem, mas não têm forças para, sozinhos, sem a ajuda da IURD, livrarem-se dele. Dessa forma, o destinador provoca, tenta, seduz e intimida, reforçando os efeitos de sentido de seu discurso com testemunhos de pessoas que passaram por gravíssimos problemas financeiros, de saúde ou afetivos, contudo conseguiram atingir a felicidade depois que começaram a frequentar e seguir os preceitos da IURD. Os percursos narrativos e temáticos desses textos caminham infalivelmente da disforia da falta para a euforia da abundância. O paraíso está aqui e pode ser vivido agora se houver fé. Fé na IURD. 173 CAPÍTULO V Análise semiótica do discurso televisivo da Igreja Católica Apostólica Romana Como mostramos no início deste trabalho, a Igreja Católica Apostólica Romana, preocupada com a própria sobrevivência no Brasil, tem procurado recuperar os fiéis perdidos para outras religiões, adotando, com mais determinação, os mesmos meios midiáticos há décadas utilizados pela IURD. Com o movimento da Renovação Carismática, a Igreja Católica, influenciada pelos versos bíblicos motivadores das religiões pentecostais, deu seguimento ao seu projeto de recuperação (e manutenção) dos fiéis: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós. Depois dessas palavras, soprou sobre eles, dizendo-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’”. (Jo 20, 21-22) Isso significa que, enquanto as Pentecostais manifestavam os dons da terceira pessoa da Trindade ─ o Espírito Santo ─ na figura de seus pastores, parte da Igreja Romana no Brasil reagiu e passou a cultuar os mesmos dons, estimulando, nas reuniões dos adeptos, a manifestação de “revelações” ou de glossolalia nos próprios fiéis laicos. Enquanto isso ocorria, o rito monologal da missa, em algumas igrejas católicas, passou a contar com cantorias e padres eloquentes, bem mais jovens, que estimulavam uma maior participação dos fiéis. No site da Renovação Carismática Cristã (www.rccbrasil.org.br) encontramos, em fevereiro de 2008, o seguinte: 174 Seu chamado (o do Espírito santo) é claro: vivenciarmos nossa identidade de Renovação Carismática Católica, promovendo Pentecostes na Igreja. Assim, somos convocados a ser apóstolos do Espírito Santo, ou seja, missionários, levando a boa nova no poder do Espírito, aceitando seus dons e permitindo que Ele aja poderosamente. Ainda com a finalidade de refrear a expansão pentecostal, fundaram-se emissoras de televisão, como a Rede Vida, a TV Aparecida e a TV Canção Nova, esta última de orientação totalmente carismática. Ao lado dos programas tradicionais como transmissões de missas, orações do terço, entrevistas e debates sob a visão ortodoxa do catolicismo, surgiram programas de cunho mais popular. Apelou-se ao padre-artista, como o conhecido Padre Marcelo Rossi que, embora pouco eloquente, tem sido, de longe, o campeão de vendas de CDs no Brasil, atingindo, como afirmamos anteriormente, cifras muito acima das de qualquer cantor brasileiro consagrado. Sempre com a preocupação de não perder mais fiéis e trazer de volta os dissidentes, programas televisivos católicos de diversas naturezas (carismáticos ou não) surgiram, dos quais escolhemos três (apresentados na Rede Vida de Televisão) para submetê-los a uma análise semiótica. Os resultados dessa análise serão comparados aos do discurso iurdiano. O primeiro dos programas, denominado O pão nosso de cada dia, é uma produção com quatro e meio minutos de duração, apresentado três vezes por dia, de 2ª a 6ª feira, pelo padre Fernando José Carneiro Cardoso, doutor em Ciências das Sagradas Escrituras. O segundo programa, Encontro com Cristo, é apresentado pelo padre Alberto Gambarini, vigário da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, de Itapecerica da Serra e o terceiro é o Terço Bizantino, apresentado pelo padre Marcelo Rossi, considerado um ícone da Renovação Carismática Católica e fenômeno da mídia. Os dois últimos são de 175 orientação carismática. Nenhum dos programas católicos analisados foi transmitido ao vivo e não havia contato direto com o telespectador. 176 Análise do programa “O pão nosso de cada dia” (Igreja Católica) O programa “O pão nosso de cada dia” é uma produção das Edições Paulinas, editora católica, apresentado (repetido) três vezes por dia, pelo padre Fernando J. C. Cardoso, com duração de, aproximadamente, quatro e meio minutos, diariamente, na emissora Rede Vida de Televisão. As imagens concentram-se na figura do padre, como se flutuando no céu cheio de nuvens, ao lado de mãos que repartem o pão. Os recursos da mídia televisiva, nesse programa resumem-se nas 11 - padre Fernando J. C. Cardoso imagens gravadas nos estúdios. Não há propagandas, auditório ou produções dramáticas. Os dois segmentos abaixo correspondem a um programa inteiro (a divisão do texto em segmentos e sequências foi efetuada com o objetivo de facilitar a análise). 1º. segmento Amigos telespectadores da Rede Vida de Televisão e do programa “O Pão Nosso de Cada Dia”, é interessante nós, hoje, contemplarmos, na primeira leitura, um texto parenético-exortativo da Carta aos Hebreus, Capítulo 3, versículos 7 a 14. “Hoje, se ouvirdes Sua voz, não endureçais os vossos corações como aconteceu na provação no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram colocando-me à prova. Por isso me irritei com essa geração e afirmei: ‘Sempre se enganam no coração e desconhecem os meus caminhos Assim, jurei minha ira, não entrarão no meu repouso’.” 177 2º. segmento Caríssimos irmãos, o autor está se referindo ao que aconteceu com aquela geração da época de Moisés, que saiu da escravidão do Egito, atravessou a pé o Mar dos Juncos e começou a peregrinar pelo deserto em 1ª sequência busca da Terra Prometida. Por causa de inúmeras provocações, por causa de Inúmeras tentações e, sobretudo, quedas nas tentações, o texto afirma que nenhum deles, com exceção de Josué, filho de Nun, entrou na Terra Prometida. Todos eles morreram no deserto. Muito mais tarde, um salmo se aproveitou desses acontecimentos e, a modo de oração, insiste com o orante para que não feche o seu coração diante de uma nova perspectiva aberta por Deus para entrar no seu repouso. E o autor da Carta aos Hebreus, numa exegese mais ou menos rabínica, diz o seguinte: ‘Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus que somos nós, seguidores de Jesus’. Nós também nos encontramos a meio caminho. Ainda não entramos definitivamente naquele grande sábado onde se repousa em Deus e onde se repousa com Deus. Portanto, olhando para o passado e contemplando o que aconteceu com aquela 2ª sequência geração que acabou não entrando no primeiro repouso, a terra de Canaã, a terra onde corria o leite e mel, tomemos cuidado nós também. Para nós não se trata de entrar novamente em Canaã ou em qualquer área geográfica deste planeta. O novo povo de Deus caminha através do deserto da vida rumo ao grande repouso, onde Deus está e onde ele quer repousar com Deus, também num sábado, num sétimo dia que não conhece ocaso, mas para tanto, caríssimos irmãos, agora nós nos fatigamos, agora nós trabalhamos, agora nós perseveramos, agora nós caminhamos e seguimos Jesus. A estrada que Jesus nos aponta no início deste ano e já nô-la apontou conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus. 178 Um dos aspectos mais característicos da estratégia persuasiva do programa O pão nosso de cada dia é o de recorrer aos textos bíblicos, os quais, se considerados como a Palavra Revelada, refletem a voz do próprio Deus. Esse suporte argumentativo substitui e mantém a mesma função dos testemunhos, tanto utilizados na Igreja neopentecostal IURD. Enquanto os testemunhos, como já apontamos, aproveitam-se de traços de pureza e de autenticidade (Charaudeau, 2006: 224), a citação do texto extraído da Bíblia carrega todo argumento de autoridade da voz de Deus. Nesse caso, é como se o próprio Deus falasse como testemunha dos argumentos do destinador. Mantendo nosso foco nos textos bíblicos, concordamos com Orlandi (2006: 243) quando, referindo-se ao discurso religioso, a linguista afirma: Partindo, então, da caracterização do discurso religioso como aquele em que fala a voz de Deus, começaria por dizer que, no discurso religioso, há um desnivelamento fundamental na relação entre locutor e ouvinte: o locutor é do plano espiritual (o sujeito, Deus) e o ouvinte é do plano temporal (os sujeitos, os homens). Isto é, locutor e ouvinte pertencem a duas ordens do mundo totalmente diferentes e afetadas por um valor hierárquico, por uma desigualdade em sua relação: o mundo espiritual domina o temporal. O locutor é Deus, logo, de acordo com a crença, imortal, eterno, infalível, infinito e todo-poderoso; os ouvintes são humanos, logo, mortais, efêmeros, falíveis, finitos, dotados de poder relativo. Na desigualdade, Deus domina os homens. A pregação de televisão do padre Cardoso erige suas bases no gênero texto bíblico para, por meio de citação, utilizá-lo como se fosse um “testemunho” dado pela Palavra divina da Bíblia. Cumpre-nos recordar que há um grande distanciamento entre os planos enunciativos de Deus e dos homens. Daí, a necessidade de um sujeito que assuma o papel de mediador ao que Orlandi (2006) chama de o dito de Deus e o dizer do homem. Esse mediador é o agente religioso que, dentre outras funções, traduz a Palavra divina, de acordo com os preceitos de sua religião. Isso considerado, julgamos relevante a consideração da pesquisadora 179 (2006: 245-246), a respeito do mediador católico (representante), da interpretação e do que ela chama de obscuridade da Palavra Revelada: Há regras restritas no procedimento com que o representante se apropria da voz de Deus: a relação do representante com a voz é regulada pelo texto sagrado, pela Igreja, pelas cerimônias. [...] dada a assimetria fundamental que caracteriza a relação falante/ouvinte no discurso religioso, mantém-se a distância entre o dito de Deus e o dizer do homem, ou seja, há uma separação (diferença?) entre a significação divina e a linguagem humana, separação essa que deriva da assimetria entre os planos. E assim se mostra e se mantém a obscuridade dessa significação inacessível e desejada. Uma vez que há obscuridade, há sempre a possibilidade das diferentes interpretações (leituras) das palavras (do texto), mas essas diferenças observam um regulamento categórico: além de um certo limite, elas são consideradas transgressões, instituem novas seitas, são cismas etc. A interpretação própria da Palavra de Deus é, pois, regulada. Os sentidos não podem ser quaisquer sentidos: o discurso religioso tende fortemente para a monossemia, No cristianismo, enquanto religião institucional, a interpretação própria é a da Igreja, o texto próprio é a Bíblia, que é a revelação da Palavra de Deus, o lugar próprio para a Palavra é determinado segundo as diferentes cerimônias. Para cumprir seu papel de intermediador entre Deus e os homens, o padre Fernando Cardoso desempenha dupla função, uma vez que, depois de exercer seu fazer interpretativo da Palavra, repassa-a ao destinatário de forma que este compreenda. A narrativa inicia-se com um preâmbulo (“[...] é interessante nós, hoje, contemplarmos, na primeira leitura, um texto parenético-exortativo da Carta aos Hebreus[...]” ) que define a natureza do argumento escolhido pelo destinador(padre) ─ uma exortação moral ─ para persuadir o destinatário(telespectador) a aderir ao contrato, ou seja, o telespectador deve crer e pôr em prática os preceitos ditados pela Palavra Revelada para atingir a salvação. A expressão definidora (texto parenéticoexortativo), além de ser tautológica, uma vez que parênese significa exortação45, inicia a instauração de um tom professoral e de sapiência, característica da tentativa de fortalecimento do simulacro de confiabilidade (existente no éthos interdiscursivo 45 Segundo o Dicionário Eletrônico Aurélio – Século XXI, parênese significa discurso moral, exortação. 180 dos padres). O argumento discursivo alicerça-se em três textos bíblicos, um do Novo (Hebreus) e dois do Velho Testamento (Êxodo e Salmos). O primeiro texto bíblico citado ─ Hebreus 3, 7-14 ─ é uma delegação de voz, dada por debreagem, pelo narrador (supostamente Paulo) ao Espírito Santo, que fala, do versículo 8 a 11, em discurso direto: Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvires hoje a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto, 9 Onde vossos pais me tentaram, me provaram e viram, por quarenta anos, as minhas obras. 10 Por isso me indignei contra esta geração e disse: Estes sempre erram em seu coração e não conhecem os meus caminhos. 11 Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso. 12 Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel para se apartar do Deus vivo. 13 Antes exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado; 14 Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio de nossa confiança até o fim. 7 8 O segundo texto bíblico-base ─ Êxodo 17, 1-7 ─ é aludido em Hebreus 3, 714. No Êxodo, o narrador conta o episódio da fuga dos hebreus das terras do Egito, no qual o povo, tomado pela sede e pela incredulidade, indispôs-se com Moisés devido à falta de água para beber. Moisés, orientado por Deus, feriu a rocha, de onde imediatamente jorrou água potável. Graças a essa demonstração de descrença, o povo experimentou a ira de Deus. Seguiu-se um período de quarenta anos, caracterizado pela rebelião e pela desobediência, sem que ninguém daquela geração, a não ser Josué e Caleb, entrasse na Terra Prometida e conseguisse a salvação. Depois toda a congregação dos filhos de Israel partiu do deserto de Sim pelas suas jornadas, segundo o mandamento do Senhor, e acamparam em Refidim; e não havia ali água para o povo beber. 2 Então contendeu o povo com Moisés, e disseram: Dá-nos água para beber. E Moisés lhes disse: Por que contendeis comigo? Por que tentais ao Senhor? 3 Tendo, pois, ali o povo sede d’água, o povo murmurou contra Moisés e disse: Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós e aos nossos filhos e ao nosso gado? 1 181 E clamou Moisés ao Senhor, dizendo: Que farei a este povo? Daqui a pouco me apedrejarão. 5 Então disse o Senhor a Moisés: Passa diante do povo e toma contigo alguns dos anciãos de Israel; e toma na tua mão a tua vara com que feriste o rio; vai. 6 Eis que eu estarei ali, diante de ti, sobre a rocha, em Horebe, e tu ferirás a rocha, e dela sairão águas e o povo beberá. E Moisés assim o fez, diante dos olhos dos anciãos de Israel. 7 E chamou o nome daquele lugar Massa e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao Senhor, dizendo: está o Senhor no meio de nós ou não? ÊXODO 17,1-7 4 Portanto, em Hebreus 3, 7-14, o povo de Israel, após ser libertado da escravidão do Egito, experimentou a ira de Deus devido à incredulidade. A ira é uma paixão pontual, assim definida pelo Dicionário Houaiss/UOL da Língua Portuguesa: intenso sentimento de ódio, de rancor, geralmente dirigido a uma ou mais pessoas em razão de alguma ofensa, insulto etc., ou rancor generalizado em razão de alguma situação injuriante; fúria, cólera, indignação. Tal definição coloca no mesmo grupo da ira as paixões do ódio, rancor, fúria, cólera e indignação. Sob a visão da semiótica, essas são paixões tensas da falta de confiança (falta fiduciária) ou do objeto de valor, relacionadas ao /poder-fazer/, resultantes do conflito entre o /querer-ser/, o /saber poder não ser/ e o /crer não ser/. No texto, o sentimento da falta resulta de uma conjunção entre a insatisfação e a indignação de Deus diante da quebra de confiança do povo de Israel na promessa divina de salvação. Deus esperava que o povo, após ter sido salvo da servidão, retribuísse o Seu amor com a fé e a obediência. Esse era o contrato que não ocorreu. Como sanção pelo não cumprimento do contrato, o povo teve de passar do amor à ira de Deus. Por isso me indignei contra esta geração e disse: Estes sempre erram em seu coração e não conhecem os meus caminhos. Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso. (Hebreus 3, 10-11) 182 Tanto o Dicionário Houaiss/UOL quanto o Aurélio - Século XXI afirmam que a indignação é nascida da cólera: -sentimento de cólera ou de desprezo experimentado diante de indignidade, injustiça, afronta; repulsa, revolta. (Houaiss) -sentimento de cólera despertado por ação indigna; ódio, raiva; desprezo, repulsa, aversão. (Aurélio) De acordo com Marchezan (2007: 75), a indignação, é uma paixão que visa ao outro e decorre de um caráter honesto. Pode indignar-se o sujeito justo, que tem dignidade moral e a medida correta dos valores sociais, frente ao sucesso de quem não merece. Para Aristóteles (2003: 59), a indignação opõe-se à compaixão. Em Hebreus 3, 10-11, Deus demonstra Sua indignação com o povo que, desviado de Seus desígnios e, dessa forma, em falta com Ele, tornou-se indigno de alcançar a salvação. De acordo com Barros (1990), o sentimento de falta dá lugar a um respectivo programa de liquidação dessa falta. Diz a semioticista que a falta resolve-se de três formas diferentes: pelo prolongamento da aflição e insegurança na “paixão” relaxada da resignação e da conformação; pela volta à situação de confiança e, finalmente, pela reparação. No texto, a reparação da falta, engendrada pela ira de Deus, é dada, por conseguinte, pelo castigo ao povo desobediente, consumado pela desorientação no deserto durante quarenta anos. O destinador(padre Fernando) trabalha o conceito da ira divina sobre os cristãos que não cumprirem sua parte no contrato (qual seja, seguir a Palavra para atingir a salvação) para, por meio da intimidação, suscitar nos destinatários(telespectadores) a confiança (fé) nos desígnios de Deus e no próprio destinador. Com essa finalidade e, de acordo com a fé cristã, recorre ao argumento de autoridade da Bíblia ao reproduzir as palavras proferidas pelo Espírito Santo aos Hebreus do primeiro século depois de Cristo. O argumento de autoridade bíblica é sempre a base de raciocínio 183 do padre-destinador para que, por meio da exegese, convença o destinatário da importância da fé na busca da salvação. Quanto maior a fé, maior a proximidade da salvação. Dessa forma, apresenta um texto exortativo no qual está explícito apenas o percurso da manipulação. A narrativa prevê sanção negativa (castigo) para quem não cumprir o contrato, ou seja, para quem “endurecer o coração” (não tiver fé) ao ouvir a voz de Deus. Em contrapartida, oferece-se uma recompensa (a salvação) para quem cumpri-lo satisfatoriamente. O esquema narrativo dessa passagem, considerando-se que pode haver duas sanções distintas, é o seguinte: Percurso da manipulação O Espírito Santo relembra os Não Ação suposta endurecer Sanção possível o Recompensa acontecimentos ocorridos durante a coração ao ouvir a voz fuga dos judeus do Egito em busca de Deus (agir conforme Encontrar a Terra da Terra Prometida. Dá, então, uma as ordens de Deus). Prometida ( a série de conselhos aos hebreus do salvação) século I, alertando-os de que, se Castigo quisessem encontrar a salvação, Endurecer o coração não deveriam cometidos repetir pelos os erros (descrer) ao ouvir a voz Sofrer as seus de Deus e não agir. consequências da antepassados durante a jornada em ira de Deus. direção a Canaã. Com o propósito de ganhar confiança do público telespectador, o agente religioso inicia a exegese com a figura do irmão (“Caríssimos irmãos [...]”), precedida pelo lexema caro no grau superlativo absoluto sintético, forma comumente utilizada nos exórdios ou introduções a textos de cunho católico46. Valendo-se sempre do argumento de autoridade do texto bíblico, cuja função estratégica assemelha-se ao 46 Em 02/11/2008, encontramos, na Internet, 27.300 resultados para textos iniciados com a expressão “Caríssimos irmãos”, a maioria de cunho católico. 184 emprego dos testemunhos, o padre-destinador sustenta o percurso da manipulação e do contrato com uma retomada e uma análise pessoal da Carta aos Hebreus 3, 14-17. Com esse fim, evidencia as palavras atribuídas ao Espírito Santo, utilizando, na sua narrativa, um esquema completo, tal como nos testemunhos da IURD: Manipulação Ação Sanção Durante a peregrinação No percurso, o povo perde Todos os que tinham mais pelo deserto, os hebreus a fé e cai nas tentações, de vinte anos de idade, à devem fazer tudo segundo portanto não cumpre o exceção as ordens de Deus. contrato. de Josué e Caleb, morrem durante a peregrinação, encontrar sem a Terra Prometida. (a salvação). O padre-destinador potencializa seu argumento por meio de uma alusão a um terceiro texto bíblico, o salmo 106, em que o salmista retoma a fuga do Egito pelo povo hebreu: Muito mais tarde, um salmo se aproveitou desses acontecimentos e, a modo de oração, insiste com o orante para que não feche o seu coração diante de uma nova perspectiva aberta por Deus para entrar no seu repouso. Esse recurso visa a reforçar o argumento dos textos anteriores e a demonstrar o vasto conhecimento que o destinador tem dos textos sagrados. Abaixo, transcrevemos parte do Salmo 106: Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que fizera grandes coisas no Egito, 22 Maravilhas na terra de Cão, coisas tremendas no Mar Vermelho. 23 Pelo que disse que os teria destruído, se Moisés, seu escolhido, se não pusera perante Ele, naquele transe, para desviar Sua indignação, a fim de os não destruir. 24 Também desprezaram a terra aprazível; não creram na Sua Palavra. 25 Antes murmuraram em suas tendas, e não deram ouvidos à voz do Senhor. 26 Pelo que levantou a Sua mão contra eles, afirmando que os faria cair no deserto; 27 Que humilharia também a sua descendência entre as nações e os espalharia pelas terras. 21 185 [...] 47 Salva-nos, Senhor, nosso Deus, e congrega-nos dentre as nações, para que louvemos o Teu nome santo e nos gloriemos no Teu louvor. 48 Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade, e todo o povo diga: Amém. Louvai ao Senhor. Essa intertextualidade, lançada como recurso persuasivo pelo destinador, relaciona de forma contratual os três textos bíblicos ora transcritos: o Êxodo, a Carta aos Hebreus e o Salmo 106, com a finalidade de comparar a vida do destinatáriotelespectador com a travessia do deserto. O objeto de valor a ser conquistado é o descanso em Deus, equivalente à salvação, só alcançado depois da travessia do deserto (travessia da vida). Tal sintaxe dá conta das articulações do esquema narrativo, apresentando o povo judeu e o objeto de valor Terra Prometida (a salvação). O sujeito inicia seu percurso disjunto, privado do objeto de valor. Esse é seu estado inicial. Seu programa de aquisição consiste em passar da disjunção à conjunção (passar do deserto da vida à salvação em Deus) O objeto de valor figurativo “repouso em Deus”, construído como valor na narrativa da travessia, está modalizado como “desejável”. O destinador-padre erige um simulacro de erudição resultado do emprego das palavras/expressões da língua culta (“parenético-exortativo”, “exegese rabínica”), da correção gramatical e de um saber (aparenta profundo conhecimento bíblico e ontológico) que pode fazer surgir o percurso do “fazer-crer”, do “fazer-querer”, do “fazer-saber” e do “fazer-fazer ou não fazer”. Dessa forma, o destinador procura colocar o telespectador no estado inicial de espera confiante para, em seguida, modalizando-o em um poder-ser, instaurar a paixão da esperança, fazendo-o ver como possível aquilo que é desejável (“Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus, que somos nós”). 186 Assentado sobre a disforia (a perdição no deserto da vida), o texto caminha para a euforia quando o narrador padre Fernando, por meio do discurso reportado47, reproduz a fala do Espírito Santo (“Hoje, se ouvires Sua voz, não endureçais os vossos corações como aconteceu no dia da tentação no deserto [...]”), introduzindoa como “uma exegese mais ou menos rabínica”. Essa introdução contraria os preceitos da Igreja Católica porque o destinador recorre ao judaísmo ao qualificar de rabínica a exegese, contrariedade confirmada diante do emprego da figura do sábado como dia de guarda, o que não é aceito pelo catolicismo. No site jendela-liwa – janela da alma (jendela-jiwa.blogspot.com), encontramos esta definição sobre o sábado judaico: O Sábado, em hebraico, diz-se sabbat, que quer dizer “descanso”. Este constitui um dos elementos fundamentais da tradição judaica. O Sábado é o sétimo dia, que é o dia de descanso. Esse dia recorda dois grandes momentos da história do povo judaico: o descanso de Jahvé, depois de terminar a sua obra da salvação (Êx 20, 8-11; cf. Gén 2, 2) e a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito (Dt 5, 12-15). De acordo com a tradição judaica, a ordem de um dia de descanso foi dada por Deus e institui um dos mandamentos do Decálogo. Por isso, o Sábado, para alguns, constitui o mandamento mais característico do judaísmo, pois se refere unicamente a Deus e ao povo de Israel, atendendo o que se diz no livro do Êxodo: “Portanto, os filhos de Israel guardarão o sábado, através de todas as suas gerações, como uma aliança perpétua. Entre mim e os filhos de Israel é um sinal externo de que o Senhor fez os céus e a Terra em seis dias, e que no sétimo dia terminou a obra e descansou” (Êx 31, 16-17). Jahvé falou aos filhos de Israel por meio de Moisés para que estes guardassem o sábado, porque este é o sinal perpétuo estabelecido entre Deus e o Seu Povo, de geração em geração. E, por isso, o sábado, para esse, povo é santo (cf. Êx 31, 12-14). O Sábado é o ponto culminante do ciclo semanal. A caminhada diária atinge o seu auge no sétimo dia. Esse dia coroa a semana judaica. Na tradição judaica, o dia começa com o pôr-do-sol e termina, igualmente, com o pôr-dosol do dia seguinte. Assim, o sábado inicia-se na véspera, ou seja, no pôr-dosol da sexta-feira e termina no anoitecer do sábado. A observância do sábado foi estabelecida pelo próprio Deus. Por isso, durante esse período de tempo, nota-se o ambiente festivo e litúrgico nas casas e nas sinagogas, além do descanso exigido nesse dia. Há gestos e atos litúrgicos próprios para celebrar esse dia no círculo familiar e sinagogal. 47 O narrador cede a palavra ao outro que diz “eu”. Esse artifício é, também, muito utilizado nos testemunhos, pois traz para o presente situações enunciativas passadas, produzindo forte efeito de realidade. 187 O destinador, portanto, ao referir-se ao sábado em conformidade com os preceitos religiosos judaicos, tenta reforçar seu éthos phrónesis de sapiência, pois demonstra conhecimento do Velho Testamento e do judaísmo. A partir desse ponto, como estratégia de persuasão, o destinador faz uso de esquemas narrativos paralelos ─ o do êxodo no deserto e o da vida cotidiana ─ o primeiro ancorado no tempo passado e o segundo, no tempo presente, com a intenção de dar ao destinatário a coragem para passar pelas privações da vida e encontrar a Terra Prometida, ou seja, a salvação. Essa é uma característica marcante do discurso religioso católico tradicional: a exacerbação da coragem. Por meio dessa estratégia, vemos construídos historicamente os simulacros dos santos/mártires da Igreja Romana. Outro importante fator que deve ser registrado na análise do texto em pauta é o de que o agente religioso não fala em valores econômicos. Além deste, vimos vários outros textos do programa O pão nosso de cada dia e em nenhum deles há sequer uma alusão a qualquer valor econômico, atendo-se sempre, o destinador, à exegese bíblica voltada à salvação. Nas estruturas mais profundas, a narrativa do êxodo hebreu pelo deserto está consolidada sobre a oposição entre as categorias semânticas perdição vs. salvação, ocultadas sob as tramas narrativa e figurativa. As categorias perdição e salvação são o ponto de partida para a geração do discurso. O destinador não se refere, nesse texto, à Igreja Católica. O cumprimento da Palavra Revelada, e não a Igreja, é citado como o condutor do fiel à salvação. Dessa forma, teremos como categorias opostas principais: 188 perdição vs. salvação (a escravidão no Egito) (a entrada na Terra Prometida) (a vida sobrecarregada de problemas) (o descanso em Deus) Sujeito virtualizado Sujeito realizado não-salvação não-perdição (o morrer perdido no deserto) (a caminhada através do deserto) (o não cumprimento do contrato) (o trabalho, o cansaço, a caminhada da vida) não agiram conforme as ordens de Deus cumprimento da Palavra Revelada Sujeito atualizado Sujeito potencializado gráfico 34: oposição e percurso entre as categorias perdição vs. salvação. Considerando a presença ou modo de existência do destinatário- sujeito(telespectador) nos parágrafos introdutórios, encontramos o simulacro de um telespectador ainda virtualizado, que será potencializado para, por pressuposição, atingir o modo de existência realizado (em conjunção com seu objeto de valor, a salvação). [...] E o autor da Carta aos Hebreus, numa exegese mais ou menos rabínica, diz o seguinte: ‘Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus que somos nós, seguidores de Jesus’. Nós também nos encontramos a meio caminho. Se enfocarmos apenas o primeiro e segundo parágrafos do primeiro segmento, nos quais o agente religioso classifica como interessante a contemplação de um texto parenético-exortativo, citado logo em seguida, registramos uma retórica de sapiência que, já afirmamos, constrói um simulacro de confiabilidade e de 189 erudição próprio do éthos phrónesis (sapiência) para apresentar um tom professoral de bom senso, de sabedoria e de conhecimento profundo das escrituras. A utilização de lexemas incomuns, desconhecidos para o telespectador, estabelece comunicação somente com sujeitos providos de certo grau de cultura. Esse emprego de lexemas eruditos seleciona os destinatários e remete as estratégias discursivas a duas formas distintas, sem que uma exclua a outra: (1) A erudição textual seleciona os destinatários, atraindo os que compreendem o significado e (2) a erudição atrai os destinatários que, por não entenderem o texto, sentem-se atraídos pelo mistério do desconhecido e tendem, por isso, a aderir ao discurso. Como exemplo desse fenômeno, relembramos o grande número de católicos que, há algumas décadas, comparecia às missas, simplesmente por serem rezadas em latim, língua desconhecida por quase todos. A Igreja demonstra seu saber tanto pela erudição quanto pelo conhecimento (domínio) do desconhecido. Aqui, retomamos, por oportuna, a citação de Orlandi (2006: 245), feita em momento anterior deste trabalho, na qual, repetimos, o agente religioso (padre), porta-voz da Palavra Revelada, mantém a distância entre o dito de Deus e o dizer do homem porque, além da dissimetria entre os planos, há uma separação entre a significação divina e a significação humana. O resultado é que se mantém a obscuridade dessa significação inacessível e desejada48 (grifo nosso). Em termos de tensividade, o grau da extensão (apreensão) varia conforme o nível de compreensão do destinatário. O texto, a partir do segundo segmento, é, de acordo com o padre, uma parênese, uma exortação moral, ou seja, uma “aula”. Sendo assim, se representarmos as valências tensivas desse texto católico, 48 Transcrevemos aqui a nota de rodapé concernente ao esoterismo, referente ao texto de Orlandi citado, mas que, a nosso ver, podemos estender a todos os discursos religiosos que mantêm a obscuridade e o mistério: Eis uma importante função do esoterismo: porque não se compreende, deve-se crer e obedecer.(grifo nosso) 190 observaremos que, no eixo da extensão, a valência caminhará no sentido crescente proporcionalmente a uma maior compreensão do destinatário. As tensões, nesse texto, aumentarão de qualquer forma: caso o telespectador não compreenda o texto, elas serão altas devido à obscuridade; caso o destinatário compreenda o texto, ele estará sendo manipulado por intimidação, à medida que está, segundo o destinador, exposto à ira de Deus, caso não ouça a Palavra. Assim representamos, nos gráficos tensivos, essas situações: O destinatário não compreende o texto. Tensões elevadas devido à obscuridade. Obscuridade Intensidade . O destinatário compreende o texto e percebe sua sujeição à ira divina. Medo Intensidade extensão extensão Gráficos 35: (1) a obscuridade devida à falta de compreensão e (2)o medo da ira divina. Na primeira sequência narrativa do segundo segmento, o enunciador instala um “ele” (Moisés, o autor, Josué, povo hebreu), um “lá” (Egito, Mar dos Juncos, Terra Prometida), e um “então” (época de Moisés), criando o efeito de sentido de objetividade e distanciamento da enunciação, para, na segunda sequência, passar à enunciação enunciada, instalando, no texto, um “eu/nós” (os seguidores de Jesus), um “aqui”, e um “agora”. A narrativa ocorre, portanto, em duas sequências interdependentes: (a) a peregrinação dos hebreus pelo deserto ─ com eixo temporal no pretérito perfeito ─ e (b) a peregrinação dos homens contemporâneos pela vida ─ ancorada no presente do indicativo. 191 Quanto às estratégias de relação entre os sujeitos, o programa apresentado pelo padre Fernando está organizado em enunciação enunciada, pois reflete interação dialógica entre o eu-agente religioso e o você-telespectador. Internamente à enunciação enunciada, insere-se a homilia sobre a história do êxodo hebreu através deserto, extraída da Bíblia, em enunciado enunciado, para criar os efeitos de sentido de objetividade (distanciamento da enunciação) do destinador e de verdade, com relação à história contada. Instala-se o seguinte quadro de interação comunicativa entre o destinador e o destinatário: Destinatário incluído (nós inclusivo): nós = eu(padre, Igreja, clero) + você(telespectador) [...] caríssimos irmãos, agora nós nos fatigamos, agora nós trabalhamos, agora nós perseveramos, agora nós caminhamos e seguimos Jesus. E nós, também, quanto mais nos dedicarmos ao silêncio e à oração, mais de lá sairemos cheios de Deus para entregar Deus aos irmãos. Se não fazemos isso, se não entregamos Deus aos irmãos, é porque não temos muito tempo de comunicação pessoal e íntima com o Pai. (Programa O pão nosso de cada dia, exibido em outra data) O nós, aqui, diferentemente do nós empregado pela IURD, representa uma estratégia de identificação entre os sujeitos na qual o destinador se coloca no mesmo nível de seus destinatários, passível das mesmas intempéries que a vida apresenta. Com relação a esse tipo de interação, Barros (2002: 25) afirma: [...] os papéis do eu e do você não se distinguem, mas, ao contrário, se confundem numa “massa amorfa” comum. O efeito é de ausência de interação, substituída pela identificação do destinador e do destinatário (Barros, 2002: 25). Esse emprego do pronome nós inclusivo engendra um efeito de subjetividade, associado a uma declarada presentificação enunciativa, causada pela iteração do advérbio agora. A não distinção entre o eu e o você é um artifício de argumento que, 192 propositadamente, coloca o padre e o telespectador ─ destinador e destinatário ─ em um plano de igualdade entre si (todos estão em busca da salvação) e de inferioridade perante Deus. Destinador Efeito de sentido 1ª. pessoa do plural: nós Igualdade entre destinador (Destinatário incluído) e destinatário. Sujeição às eu(padre) + você(telespectador) mesmas intempéries da vida. O nós inclusivo (eu-padre + você-telespectador) delimita o corpo do sujeito e estabelece um mesmo ponto de vista para o destinador e o destinatário, com relação ao objeto de valor, alcançar a salvação. Nesse caso, a salvação é vista como resultado do conhecimento e da prática da Palavra Revelada, que “funciona” como uma diretriz divina para o alcance da salvação. Considerando a origem divina da Palavra, instaura-se a figura de Deus como salvador, pois Ele, pela maior ou menor vivência da Palavra pelo homem, permitirá ou não a conquista da salvação. Figuras e temas O texto é predominantemente temático, entretanto o agente religioso recorre a textos bíblicos altamente figurativos, com argumentação baseada nas figuras do Êxodo, que apresenta o mundo por meio da escravidão dos hebreus no Egito, da travessia do Mar dos Juncos, da peregrinação pelo deserto, da Terra Prometida, do povo de Deus, do leite e do mel etc. (figuras retomadas pelo enunciador(padre Fernando) na construção do argumento), com o objetivo de concretizar o texto temático da pregação. O tema central ─ “A busca do repouso em Deus” (A busca da salvação) ─ será, como dissemos, preenchido por várias figuras (apresentadas em seguida) e acompanhado por outros subtemas como “a liberdade”, “a solidão”, “a fé em Deus”, 193 “o trabalho exaustivo”, que são concretizações de temas. Torna-se importante registrar que a primeira sequência, considerada isoladamente, encerra uma narrativa resumida que alude à longa caminhada dos hebreus no deserto e às tentações que os levaram à perdição e à morte; se considerada na totalidade do texto, a primeira sequência acaba por dar o suporte argumentativo à segunda sequência e passa a ter o valor de uma grande metáfora, pois o narrador vincula totalmente o êxodo no deserto à caminhada dos homens de hoje pela vida. Isso quer dizer que a figura “Terra Prometida”, por exemplo, durante a primeira sequência, significa apenas a Canaã prometida por Deus aos hebreus; após a leitura da segunda sequência, “Terra Prometida” deixa de ter o sentido original de ”Canaã” para significar “salvação”, “o descanso em Deus para todos os homens de hoje, guiados por Jesus através do deserto da vida”49. Vejamos, pois, as principais figuras que recobrem os temas do texto em análise: ─ fechar o coração [...] não feche o seu coração diante de uma nova perspectiva aberta por Deus para entrar no seu repouso. Por tradição, o coração é o órgão do corpo responsável por guardar as paixões mais marcantes. O Dicionário Eletrônico Aurélio - Século XXI atribui ao lexema coração as seguintes acepções, entre outras: (1) a sede dos sentimentos, das emoções, da consciência; (2) a natureza ou a parte emocional do indivíduo (por oposição à natureza, ou à parte intelectual, à cabeça); (3) caráter, índole, feitio; (4) amor, afeto. 49 No texto em foco, as metáforas não funcionam como simples figuras de palavras, mas, sim, como metáforas entre isotopias, pois ligam e relacionam as duas isotopias básicas: a travessia do deserto e a travessia da vida, ou seja, lidamos, nesse caso, com metáforas de texto inteiro que relacionam e interligam temas e leituras inteiras. 194 Nos textos religiosos e, mais especificamente, na Bíblia, o lexema “coração” refere-se à capacidade humana de pensar, decidir, agir e sentir. Couto (2007) ressalta que, em sentido figurado, pensamos, agimos, decidimos e sentimos com o coração. Na Bíblia, esse lexema é inúmeras vezes empregado metaforicamente, tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Jesus, em seu discurso, referiu-se ao coração como sendo o centro de nossos sentimentos e emoções (“onde estiver seu tesouro, ali estará seu coração”). No texto em análise, a expressão “fechar o coração” (“não feche seu coração diante de uma nova perspectiva aberta por Deus para entrar no seu repouso) é uma metáfora cujo significado é a perda da fé, a perda da perspectiva de encontrar a salvação. ─ povo de Deus A perífrase “povo de Deus” é utilizada desde a época dos primeiros cristãos para designar a Igreja primitiva. Hoje, quase todas as religiões se autoconclamam o povo de Deus. No texto, o enunciador aproveita a expressão para empregá-la como um importante argumento de persuasão (Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus, que somos nós, seguidores de Jesus), utilizando-a como ligação analógica entre os hebreus do Velho Testamento (seguidores de Moisés) e os cristãos de hoje (seguidores de Jesus Cristo). Essa perífrase desencadeia as isotopias figurativas ligadas à vida cotidiana, pois quando denomina os católicos de hoje como “o novo povo de Deus” o enunciador está, ao mesmo tempo, transformando a história da travessia do deserto em uma grande e abrangente metáfora, ou seja, a peregrinação pelo deserto é a metáfora para a jornada da vida daqueles que estão sem rumo e sem fé; as provocações e quedas nas tentações são metáforas para a falta de fé e os pecados. Esses efeitos de sentido são ainda confirmados por asserções como 195 “caminhar através do deserto da vida” ([...] o povo de Deus caminha através do deserto da vida) ou como “nós também nos encontramos no meio do caminho”, ou seja, ainda hoje estamos perdidos no deserto da vida, em busca da Canaã. ─ sábado [...] ele quer repousar com Deus também num sábado, num sétimo dia que não conhece ocaso [...] O sábado, como já apontamos anteriormente, é o sétimo e último dia da semana. Na Bíblia, é o dia de descanso ou, para os judeus, dia de descanso religioso. No mundo cristão, o sábado perdeu essa atribuição para o domingo. Hoje em dia, há algumas religiões que resguardam rigidamente os sábados50 como o dia em que se proíbe qualquer tipo de trabalho e nada se pode fazer. É o dia do descanso. No caso, o enunciador emprega o sábado como metáfora que representa a entrada na Canaã, terra prometida. O último dia da semana, dia de repouso, conforme a tradição judaica, é a figura que produz o efeito de sentido da eternidade, da vida depois da vida. O sábado é personificado como “o sétimo dia que não conhece ocaso”, ou seja, o dia que nunca termina, o descanso eterno no seio de Deus. ─ repouso (ou descanso) em Deus A figura do repouso em Deus é fundamental para o entendimento do texto, uma vez que ela representa a salvação. Com essa figura, o agente religioso procura 50 Do pôr do sol da sexta-feira até o pôr do sol do sábado. 196 demonstrar sua preocupação e, por conseguinte, a preocupação da Igreja Católica, com a salvação de seus fiéis. O texto apregoa o descanso em Deus como a vida eterna, recompensa a todos que, fatigados pelas provações do deserto da vida terrena, mas perseverantes, caminharem pela estrada apontada por Jesus. A estrada representa o caminho do amor, base da doutrina cristã. Essa figura mostra que hoje, a Igreja Católica tradicional opta pela pregação dos valores não materiais. Os lexemas repouso ou descanso, sozinhos, sem complemento, muitas vezes significam morte. Porém, acompanhados pela expressão em Deus, passam a significar vida. No texto em análise, o padre-enunciador, depois de figurativizar a vida humana na metáfora de um grande deserto, apela à figura do repouso como o objetivo primordial dos cristãos: a salvação. Opõem-se, dessa forma, as figuras do deserto e do repouso, concretizadoras dos seguintes temas: Deserto A escassez material, a falta de perspectivas, a tribulação da vida, o cansaço, a perdição. Repouso O descanso, a tranquilidade, a recompensa, a salvação, a vida eterna. ─ deserto da vida A figura mais importante, na qual está baseado o texto inteiro é, sem dúvida, a do deserto da vida, pois ela relaciona o deserto pelo qual os hebreus tentaram ― sem êxito ― atravessar, com a jornada da vida. O destinador tenciona mostrar a semelhança das condições desfavoráveis encontradas no deserto com os percalços da vida humana. Para que a travessia tenha êxito, são necessárias a confiança, a esperança e, principalmente, a fé. Solidão, escassez material, descrença, situações de extrema adversidade, certamente são encontradas não só no deserto como também na vida cotidiana. Destarte, essa figura tem papel crucial no processo da significação, pois opera como um elemento desencadeador de isotopias por 197 relacionar temas e figuras disfóricos do deserto aos da própria vida. O deserto também se contrapõe à estrada apontada por Jesus (A estrada que Jesus nos aponta [...] conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus). Quem segue pela estrada apontada por Jesus está orientado pela fé; sem fé o destinatário seguirá sua jornada pelo deserto. 198 Análise do programa “Encontro com Cristo” – Igreja Católica O programa “Encontro com Cristo”, da mesma forma que “O pão nosso”, é uma produção simples, sem variações de cenário, totalmente gravado em videoteipe e apresentado na emissora católica Rede Vida de 12 - Entrada do Encontro com Cristo Televisão. Com duração aproximada de quinze minutos, não há depoimentos gravados e, portanto, não ocorrem testemunhos ou entrevistas com os destinatários-telespectadores. Durante o programa as câmeras focalizam a imagem do padre-apresentador Alberto Luiz Gambarini. O cenário de fundo é fixo, mas reformulado de vez em quando. Na época em que gravamos o programa, o padre colocava-se à frente de um painel pintado com uma pomba branca (símbolo, para os católicos, do Espírito Santo), uma labareda 13- padre Alberto Gambarini (o fogo do Espírito Santo), uma cruz e um sol em um céu azul (ilustração acima, à direita). Do site www.encontrocomcristo.org.br, retiramos o trecho abaixo, escrito pelo próprio apresentador, que se diz “tomado pelo Fogo de Pentecostes”. Essa declarada influência direta do Espírito Santo insere-se em uma das linhas católicas de maior vigor no Brasil, a da Renovação Carismática Católica (RCC). 199 A verdadeira efusão do Espírito Santo aconteceu comigo em um retiro espiritual no ano de 1980. O "Fogo de Pentecostes" tomou conta de mim e pude perceber que ali estava a "água viva" que deveria ser bebida por todos os filhos e filhas de Deus! Desde então comecei a evangelizar com mais fervor. Sentia em meu coração uma enorme vontade de expandir cada vez mais a "Boa Nova" de Cristo, utilizando-me dos meios de comunicação disponíveis. Padre Alberto L. Gambarini 1º. segmento : contrato fiduciário e objetos mágicos Olá! Que a graça maravilhosa do nosso Deus neste momento possa estar transbordando em sua vida porque você está no lugar certo, o Programa “Encontro com Cristo”. Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você a não faltar no nosso grande encontro no carnaval, dia 18 de fevereiro, no Ginásio Municipal de Itapecerica da Serra, das 8 da manhã às 17 horas. Ao chegar, você receberá uma unção com o óleo bento nas suas mãos, uma medalha milagrosa e, quando o Santíssimo Sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre. Você, com certeza também, já colocou no coração o desejo de estar conosco. Por isso, agora, vamos pedir o Espírito Santo: Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Oremos! Deus, que instruístes os corações de Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da Sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém. Observamos inicialmente que o destinador(padre Alberto) manipula o destinatáriosujeito(telespectador) por tentação ao assumir a figura de um “pai” que acolhe a todos (Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você a não faltar ao nosso grande encontro [...]). Em seguida, o destinador oferece objetos mágicos (a unção com o óleo bento e a medalha milagrosa) para os que 200 comparecerem ao Encontro, com a promessa de que esses objetos doarão as condições para o destinatário-telespectador conseguir sua recompensa: um milagre. "Ao chegar, você receberá uma unção com o óleo bento nas suas mãos, uma medalha milagrosa e quando o Santíssimo Sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre.” O agente religioso manipula novamente por tentação para levar o espectador a aceitar um contrato fiduciário no qual um “pai espiritual” oferece um milagre a quem for ao “Encontro” e receber a unção 14- padre Gambarini e o Santíssimo Sacramento com o óleo e a medalha milagrosa. Com essa estratégia, o destinador, por ser padre, portador de uma imagem interdiscursiva de religiosidade e de conhecimento do mundo espiritual, associada à figura do “pai”, vinculada à segurança e à responsabilidade, busca cristalizar um simulacro de confiabilidade, gerando no destinatário (da mesma forma que nos programas da IURD) um querer-fazer que poderá tirá-lo do estado de espera para colocá-lo na condição de sujeito da ação, para ir ao grande Encontro. A manipulação inicia-se, então, por meio de um programa narrativo de atribuição de competência. Parte-se do princípio de que o espectador tem problemas e deseja resolvê-los. Ao assistir ao programa, o destinatário encontra um padre-destinador que lhe propõe um contrato: ir ao Encontro religioso para receber os objetos mágicos (a unção com o óleo bento e a medalha milagrosa) e “certamente” receber a recompensa: um milagre51, na ocasião da entrada do Santíssimo Sacramento52. Em um primeiro momento, o 51 Ao não especificar o milagre, o destinador-padre promete aos telespectadores a concretização de algo bom e extraordinário, correspondente à realização do desejo de cada um. 52 O Santíssimo Sacramento é um utensílio litúrgico constituído por um opérculo (ver ilustração) onde se coloca a hóstia consagrada, apoiado sobre um pedestal. Deve ser benzido e confeccionado com material nobre. 201 milagre oferecido é genérico, mas irá, no transcorrer do texto, concretizar-se na fartura, na cura das feridas emocionais, no recebimento das graças, na solução dos problemas. [...] e quando o Santíssimo Sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre. No Dicionário Eletrônico Aurélio - Século XXI, encontramos, para o lexema milagre, as seguintes acepções: (1) Feito ou ocorrência extraordinária, que não se explica pelas leis da natureza. (2) Acontecimento admirável, espantoso. (3) Portento, prodígio, maravilha. (4) Ocorrência que produz admiração ou surpresa. (5) Rel. Qualquer manifestação da presença ativa de Deus na história humana. (6) Rel. Sinal dessa presença, caracterizado sobretudo por uma alteração repentina e insólita dos determinismos naturais. O reconhecimento da legitimidade dos milagres na Igreja Católica é, diferentemente das Igrejas (neo)pentecostais, difícil, demorado e complexo. Relativamente ao número de casos ditos milagrosos, é pequeno o número de casos considerados reais pelo Vaticano, portanto, acreditamos ser paradoxal o fato de o padre oferecer milagres aos que comparecerem ao Encontro católico. Por outro lado, algumas Igrejas (neo)pentecostais são conhecidas como “balcões de milagres”, pois basta um depoimento (às vezes acompanhado de exames médicos, fotocópias de documentos etc.) para o agente religioso, em frente ao público, anunciar o relato como sendo o de um milagre. É recorrente, porém, em quase todas as religiões, a promessa da realização de feitos extraordinários, mesmo porque todas elas tratam de religar as criaturas desde o mundo material ao Criador, no mundo espiritual. No texto ora analisado, a promessa do milagre associado ao Santíssimo e à medalhinha assemelha-se à estratégia dos textos iurdianos nos 202 quais são oferecidas toalhinhas dos 318, rosas abençoadas, óleos, terras do Sinai etc.. Outro aspecto da estratégia de manipulação/persuasão que nos chamou a atenção foi que enquanto os programas da IURD e o programa católico O pão nosso de cada dia manipulam, predominantemente, por intimidação (este citando a ira de Deus; aquele, exacerbando a presença do Mal), o programa Encontro com Cristo manipula por tentação, oferecendo o amor de Deus, como veremos a partir do 2º segmento. 15 – O Santíssimo Sacramento Por meio da instauração de relações de ipseidade53 (de sujeito para sujeito) e de alteridade (de sujeito para objeto), o destinador procura incutir no destinatário a confiança e a crença; a confiança do destinatário no destinador é, por conseguinte, reforçada pela crença nos objetos mágicos oferecidos. Embora a instauração da confiança seja própria de toda manipulação, no discurso católico, a crença em certos objetos com caráter simbólico é acentuada. Citemos, como exemplo, as relíquias guardadas a sete chaves como o sudário de Jesus ou o tecido com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, dentre outras, que movimentam milhares de peregrinos diariamente. Esse esquema narrativo, resumido ao percurso da manipulação, é um procedimento de construção da narrativa comum nos programas religiosos de televisão. A inexistência de uma performance efetiva do telespectador como sujeito da ação gera, no destinador, a necessidade de instauração da certeza, com o objetivo precípuo de modalizar o sujeito-destinatário na fé. Nos programas da Igreja 53 Fontanille & Zilberberg (2001: 264), ao comentarem a instalação da tensividade fórica na estrutura profunda, afirmam que a divisão dos actantes obedece a duas opções: a alteridade, que engendra a distinção entre o sujeito e o objeto, ou a ipseidade, que produz a distinção entre o sujeito e o outro. 203 Universal, por meio de debreagens internas, como já vimos, o destinador passa a palavra ao destinatário para que este dê “testemunho” do milagre ocorrido, preenchendo, assim, os percursos da ação e da recompensa. A estratégia persuasiva de utilização do gênero testemunho, por meio de depoimento ao vivo ou em videoteipe, não é utilizado nos programas de televisão católicos em análise, os quais, via de regra, não recorrendo a esse gênero, optam pelas citações dos trechos bíblicos. Dessa maneira, enquanto os testemunhos, nos programas (neo)pentecostais, engendram efeitos de sentido de realidade, as citações de passagens da Bíblia, além de produzirem efeitos de realidade devido à sua forte figuratividade, funcionam como argumento de autoridade. IURD Testemunhos relatos construídos efeitos de realidade pelo homem IGREJA CATÓLICA Citações bíblicas Palavra Revelada autor: Deus argumento de autoridade efeitos de realidade Esquema 4 Retomando Propp, exceção feita aos testemunhos, comuns nos programas das Igrejas (neo)pentecostais, e às citações bíblicas, mais comuns nos da católica, verificamos apenas a prova qualificante (percurso do manipulador). As provas atualizante (percurso do sujeito manipulado) e glorificante (percurso da recompensa) 204 são suposições construídas a partir da manipulação inicial. Não há, nesse tipo de texto, uma sequência narrativa que leve o sujeito de estado à ação e à recompensa. O segmento em análise é um programa de uso, doador de competência, pois o sujeito S1(padre Alberto) procura doar competência para colocar o sujeito S2(o telespectador) em conjunção com o objeto de valor desejado [Ov(poder/dever-fazer)], eufórico. A transformação é a aquisição de competência pelo destinatário para ir ao Encontro. O sujeito de estado, do qual se pretende alterar a situação, é o S2(telespectador). Na realidade, esse é um programa transitivo de aquisição de modalidades em que o S2 adquire o poder-fazer, recebendo a competência para ir ao Encontro e obter a proteção divina. Percurso da Manipulação Contrato: o padre-destinador tenciona demover o destinatário do estado de espera para induzi-lo à ação de ir ao “Encontro”. Manipula-o por tentação, oferecendo-lhe objetos mágicos (óleo bento, medalha), para depois, diante do Santíssimo Sacramento, oferecer-lhe um milagre (correspondente a um objeto de valor positivo, não especificado, dado por Deus), como recompensa pelo cumprimento do contrato. Preces naturais e não naturais. Além do quase não-emprego do gênero testemunhos54 no discurso católico dos programas analisados, outro aspecto crucial que diferencia os dois discursos em 54 Dissemos quase porque constatamos que, em programa religioso de outra emissora católica (não estudado nesta tese), a TV Canção Nova, os padres estão, de forma incipiente, recorrendo a um ou outro testemunho. Mesmo o Padre Gambarini já tem, recentemente, apelado a esse gênero, pedindo e divulgando cartas-testemunho de seus espectadores (no 3º segmento do programa analisado, o padre já pede para os telespectadores “mandarem seus testemunhos para colocá-los junto ao sacrário”). Acreditamos que não se divulgam testemunhos católicos relatando milagres pelo fato de que, para a Igreja Católica reconhecer um fato como milagre, deve haver, no Vaticano, um longo e demorado processo. 205 pauta é a forma de enunciação do gênero preces/orações. Comparando as preces do discurso católico às do discurso iurdiano, percebemos uma diferença básica de efeitos de sentido na estratégia de manipulação. Considerando que, no discurso religioso, a voz do agente (padre/pastor) propõe-se a ser a voz de Deus, ocorrerá, durante a reza, uma aproximação entre dois planos distintos: o plano espiritual (habitado por Deus) e o plano material (habitado pelos homens). O agente religioso demonstra conhecer os dois planos, enquanto o telespectador, apenas o plano material. A prece é o momento da tentativa de incursão do telespectador no plano espiritual. Essa aproximação entre os dois mundos acontece, porém, de formas distintas: nas rezas católicas ─ preces não naturais55 ─ (textos prontos, oraçõeschavão pré-produzidas por autoridades eclesiásticas, por santos ou até pelo próprio Jesus Cristo, como é o caso da Ave-Maria, do Credo, do Pai-Nosso, da Oração ao Divino Espírito Santo), o próprio Deus oferece as orações aos homens. Tais preces mantêm um traço do divino no orante e, repetidas como mantras, valorizam o significante em detrimento do significado, estabelecendo um forte argumento de autoridade. O resultado é um efeito de sentido de aproximação do plano espiritual ao plano material, ou seja, de aproximação do divino ao plano material do homem. Nas orações protestantes ─ preces naturais ─, o efeito de sentido é o de uma maior interação no trato com Deus. Nelas, o orante busca ao Criador por meio de uma aproximação direta / menos formal, utilizando uma forma própria e improvisada de falar. Historicamente, a própria Igreja Católica já se utilizou muito dos significantes para mostrar seu domínio cognitivo do plano espiritual aos fiéis. Lembremo-nos, 55 Por serem pré-produzidas, as preces católicas não naturais autorizam o fiel a orar em conjunto com outros fiéis ou com o padre. Nas missas, o agente religioso conduz a oração que, muitas vezes, “é respondida” pelos fiéis. Nas preces naturais neopentecostais, o pastor se coloca no mesmo patamar de Deus e com Ele “dialoga”. O fiel, nesse caso, é quase um espectador. 206 mais uma vez, das missas em latim e da proibição de traduções da Bíblia, justamente porque era prioridade da Igreja manter em segredo, longe dos leigos, toda a mística do mundo divino. Essa manutenção da ignorância do povo era uma forma de preservar o poder e, por consequência, de manipular por intimidação. Quem domina o conhecimento detém o poder. Na sequência abaixo, o destinador católico evoca, por meio de uma prece não natural, a figura do Divino Espírito Santo, cuja função é a de recompensar todo o sujeito que comparecer ao Encontro. Nessa prece, o padre, apoiado na tradição e empenhado em construir um éthos sincero e confiável (areté), racional (phrónesis) e solidário (eúnoia), emprega a 2ª. pessoa do plural do imperativo afirmativo, causando dois fortes efeitos de sentido: (a) o de erudição e de superioridade do agente religioso com relação ao fiel, já que a 2ª. pessoa verbal (especialmente a do plural) não é utilizada na linguagem coloquial brasileira e (b) o de inferioridade no trato com Deus. Essa interação é um indício de que o agente religioso católico trabalha discursivamente na construção de uma imagem de intercessor, pois se coloca em posição intermediária entre o fiel e Deus. Ao mostrar sua erudição, tenta estabelecer um autossimulacro de superioridade para com ao fiel e de respeito e submissão a Deus. Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Deus que instruístes os corações de Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo 56 o mesmo Espírito e gozemos sempre da Sua consolação . Cabe, neste ponto, um aparte para compararmos a presença do Espírito Santo nos textos dos dois programas católicos até agora analisados. A enciclopédia 56 Oração de invocação ao Divino Espírito Santo (prece não natural). 207 eletrônica Wikipédia afirma que, segundo o apóstolo Paulo, toda a escritura é inspirada por Deus (literalmente, soprada por Deus). Afirma, ainda, que a fé dos leitores religiosos da Bíblia baseia-se na premissa de que "Deus está na Bíblia e Ele não fica em silêncio", como declara repetidamente o renomado teólogo presbiteriano e filósofo, o Pastor Francis Schaeffer, dando a entender que a Bíblia constitui uma carta de Deus para os homens. Para os cristãos, o Espírito Santo de Deus atuou de uma forma única e sobrenatural sobre os escritores. Seguindo este raciocínio, Deus é o verdadeiro autor da Bíblia, e não os seus escritores, por si mesmos. Segundo esse pensamento, Deus usou as suas personalidades e talentos individuais, para registrar por escrito os seus pensamentos e a revelação progressiva dos seus propósitos em suas palavras. Para os crentes, a sua postura diante da Bíblia determinará o seu destino eterno. No primeiro programa, O pão nosso de cada dia, o enunciador(padre Fernando) manipula por intimidação, recorrendo a um texto bíblico cujo narrador é o próprio Espírito Santo, que justifica a ira divina sobre o povo de Israel por este não ter confiado nos desígnios de Deus. No programa Encontro com Cristo, o enunciador(padre Alberto) seduz os fiéis e cumpre seu papel de intermediador / intercessor, pedindo a intervenção do Espírito na vida de cada um, por meio de uma prece não natural. Citações da Bíblia também são utilizadas, mas com o objetivo de reforçar o argumento da provisão que vem de Deus (ver 2º segmento). Enquanto padre Fernando exalta a ira de Deus, padre Alberto prega o amor divino. Essa recorrência da presença do Espírito Santo é, até certo ponto, recente entre os católicos, que, há algumas décadas, voltavam-se muito mais aos outros dois elementos da Trindade (Deus-Pai e Deus-Filho-Jesus), à Virgem Maria e aos santos consagrados. Com o movimento da Renovação Carismática Católica, a figura do Espírito Santo passou a ser mais invocada no catolicismo. Padre Alberto Gambarini, de formação carismática, procura sempre vincular suas pregações à inspiração do Espírito. 208 À construção da imagem de um destinador confiável deverá somar-se a de um destinatário modalizado epistemicamente no crer (na fé), caminhando em direção à certeza absoluta quanto à recompensa que advirá do cumprimento do contrato proposto (acatar a Palavra). Para Barros (1990: 64) a certeza é uma paixão de confiança, modalizada no /crer-ser/, projetada por alguns lexemas que marcam o caráter imaginário do simulacro fiduciário (ilusão, expectativa), por outros que ressaltam a confiança em si mesmo (confiança) e por outros que destacam a confiança no sujeito do fazer. O agente religioso, no caso em análise, procura exacerbar a confiança no sujeito do fazer (ele mesmo) para trazer o telespectador ao Encontro: “certo”, “confirmado”, “certeza” são lexemas utilizados com esse fim. Vejamos, abaixo, retiradas da primeira sequência, expressões que nos levaram a essa asserção: [...] porque você está no lugar certo, o programa Encontro com Cristo [...] Você, com certeza, também já colocou no coração o desejo de estar conosco. [...] e quando o Santíssimo Sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre [...] O dicionário Aurélio - Século XXI atribui ao lexema confirmar as seguintes acepções: (1) Afirmar de modo absoluto a exatidão, a veracidade de; corroborar; (2) Dar certeza a; mostrar a verdade de; demonstrar, comprovar. O Houaiss/Uol acrescenta: entre os católicos, (confirmar significa) administrar ou receber o sacramento da confirmação. Nota-se então que o emprego impróprio do verbo (“você será confirmado em um milagre”) corrobora o efeito de sentido da convicção, estabilidade e segurança, associado ao éthos eúnoia de um destinador protetor e confiável. 209 Na realidade, o destinador procura convencer o destinatário-sujeito da certeza de que será recompensado, caso compareça à igreja. É a modalização do crer. A modalização do telespectador no crer modifica sua relação tanto com objeto de valor (com certeza você será confirmado em um milagre [...]) quanto com o próprio sujeito do fazer persuasivo (Você, com certeza, também já colocou no coração o desejo de estar conosco) e faz o discurso parecer verdadeiro. Portanto, como afirmam Greimas & Courtés (s/d: 152), (super)modaliza-se epistemicamente o discurso para suprir a falta de procedimentos de verificação (não há, no texto em pauta, os percursos da ação e da recompensa). Nesse caso, duas situações modais se configuram: a- a modalidade que modifica a relação entre S e O (caso o sujeito S creia no objeto O, traduz-se essa relação como crer em algo); b- a modalidade que modifica e relação entre S1 e S2 (caso o sujeito S1 creia em S2, traduz-se como confiar em alguém). No discurso religioso televisivo configuram-se permanentemente as duas situações modais acima: o telespectador deve ser levado a crer em milagres / objetos mágicos que lhe são apresentados (a medalha milagrosa, o Santíssimo Sacramento, o óleo milagroso) e no sujeito, lugar preenchido pela figura do agente religioso-padre. 2º. SEGMENTO: simulacros negativos Infelizmente, muitas vezes nós temos a impressão de que os problemas são maiores do que a nossa capacidade para resolvê-los, como aconteceu, por exemplo, com André, quando Jesus queria 210 alimentar a multidão que o estava acompanhando. Naquela ocasião, aqui no Evangelho de São João, no Capítulo VI, versículo 9, disse André: ‘Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isto para tanta gente?’. Reparem como ainda este discípulo não havia entendido quem era, quem é Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Nós temos que acreditar que quando andamos na Palavra de Deus, quando nós queremos viver o Seu plano de amor, Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante, como aconteceu na multiplicação dos pães. Aqui, em João, no Capítulo VI, versículo 13, nós lemos: ‘Eles recolheram dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram e encheram doze cestos’. Reparem: daqueles poucos peixes, daqueles poucos pães, doze cestos ficaram cheios. E esses doze cestos simbolizam as bênçãos que Deus deseja dar a você, a mim e a todos nós. Não deixemos estes cestos ficarem vazios por causa da nossa incredulidade, mas olhemos para Jesus Cristo confiando que Ele é Aquele que está estendendo as mãos sobre a nossa vida, sobre a nossa casa, a nossa família, a nossa saúde, o nosso trabalho, o nosso estudo, para que tudo possa ser para a maior glória do nosso Deus. O segmento inicia-se com o advérbio infelizmente, o que prenuncia uma estratégia discursiva semelhante à utilizada nos programas neopentecostais já analisados, ou seja, o destinador(padre) manipula por intimidação ao construir o simulacro negativo de um destinatário(espectador) impotente, fraco, sem coragem de enfrentar os problemas e dificuldades da vida. Nesse simulacro, o destinatário(espectador) encontra-se disjunto dos bens materiais, mais especificamente da fartura, seu objeto de valor, se considerarmos que o texto bíblico aludido ─ a multiplicação dos pães e dos peixes ─ refere-se à mudança do estado de escassez para o de fartura. O texto parte, portanto, da disforia para caminhar em direção à euforia. Há, no entanto, relevantes diferenças, se compararmos a estratégia com que o padre Alberto constrói o simulacro negativo do destinatário com a estratégia de construção empregada pela IURD. A falta, no texto católico, não é atribuída à 211 presença de uma entidade maligna, mas, sim, ao próprio modo de agir e de ser do destinatário (o homem é pecador e responsável por sua vida). Nos programas iurdianos, porém, o simulacro do destinatário-telespectador é construído com alto grau de tensividade decorrente da instauração do medo (o homem é vítima do Mal) Essas diferenças aparecem em esquemas tensivos diferentes: 1 2 Programa católico Encontro com Cristo Programa iurdiano SOS Espiritual (início, após convite para o Encontro) (início) Infelizmente, nós temos a impressão de que os problemas são maiores do que nossa capacidade para resolvê-los [...] [...] estou notando a mesma dor, o mesmo sofrimento. Há uma coisa estranha acompanhando a senhora [..] Sensação de impotência + Medo + esquema tensivo da amplificação Intensidade esquema tensivo ascendente Intensidade Extensão (genérica: todos temos problemas) Extensão (específica) Gráficos 36: a tensividade da impotência, no início do programa Encontro com Cristo comparada à tensividade do medo no início da programa SOS espiritual, da IURD. O esquema do programa católico (nº 1, acima) segue orientação tensiva da amplificação (o gradiente das tensões tende para a zona tônica) porque a situação se inicia por um realce da intensidade (... nós temos a impressão de que os problemas são maiores do que a nossa capacidade...) para, somente depois, prosseguir em direção ao relaxamento causado por uma explicação/justificativa atenuante (no caso, a citação bíblica sobre a fartura) que já aparece nas primeiras linhas do 2º segmento. No eixo da extensão, a generalização (todos os homens 212 temos problemas, todos somos pecadores); no programa iurdiano (nº 2), a orientação segue o esquema ascendente, uma vez que há um aumento da tensão em direção à paixão do medo frente ao desconhecido e diminuição da extensão, graças à especificidade do caso citado (uma coisa estranha que acompanha o telespectador). O emprego do modo imperativo e de expressões que traduzem uma ordem estabelecem um discurso autoritário e instauram ou preservam a autoridade do agente religioso. Não deixemos (nós) estes cestos ficarem vazios [...] Reparem: daqueles poucos peixes [...] Nós temos que acreditar que [...] Não conjunto com seu objeto de valor (uma vida farta, rica) e induzido a sentir-se dependente do destinador porque incapaz de resolver sozinho seus problemas, o telespectador vê-se na obrigação de aceitar o contrato cuja promessa é a saída da incômoda situação de falta por que passa para avançar em direção à abundância, por meio da atuação de Deus. O estabelecimento de um simulacro passional da incapacidade do destinatário(espectador) diante da solução dos problemas é indispensável para o estabelecimento de uma forte relação fiduciária entre o destinador-agente religioso e o fiel. Nesse jogo de simulacros, agiganta-se o éthos eúnoia do destinador poderoso, à disposição do destinatário, para ajudá-lo a resolver seus problemas. Destinador-padre Destinatário- fiel poderoso protetor convicto fraco sábio incrédulo seguro 213 O destinador(padre Alberto) inicia o 2º segmento com a passagem da multiplicação dos pães. Utilizando uma debreagem interna (João 6, 9), o narrador passará a palavra ao apóstolo André que, mesmo convivendo com Jesus, não creu. [...] disse André: ‘Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isto para tanta gente? A citação do Evangelho57 carrega o argumento de autoridade bíblica. Além disso, o emprego do discurso direto, reproduzindo as palavras incrédulas do apóstolo André, produz um efeito de sentido de realidade. Com essa estratégia, o padre pôde mostrar um Deus de amor, que se preocupa com os homens em toda sua dimensão. Nesse episódio, Jesus percebe que a multidão não quer ir embora, e sente compaixão, movido pela necessidade que o homem tem do alimento biológico. Realiza, então, um grande milagre: o da multiplicação dos pães e dos peixes, 16- Bênção da água – padre Alberto Gambarini em número suficiente para alimentar toda a multidão (João 6, 13, também citado). Além de demonstrar o amor de Deus (... quando nós queremos viver o Seu plano de amor, Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante...), o destinador reforça o seu argumento principal de que o fiel incrédulo é incapaz de solucionar os 57 Registre-se que, da mesma forma que o Padre Fernando Cardoso, do programa anterior, o padre Gambarini faz questão de mostrar o Evangelho aberto, à sua frente, sobre a mesa (ilustração acima). Essa presença visual da Bíblia também constitui forte argumento de autoridade. 214 problemas (Não deixemos estes cestos ficarem vazios por causa da nossa incredulidade, mas olhemos para Jesus Cristo). Os programas narrativos do segmento em pauta são programas de uso, doadores de competência modal, que tencionam levar o destinatário a assumir e cumprir sua parte no contrato, no caso, a de ir ao Encontro, com a esperança de receber a recompensa, ou seja, solucionar os problemas e viver uma vida farta. F(convencer o S2 de [S1(padre) S2(espectador) ∩ Ov (querer ir ao Encontro)] ir ao Encontro) 3º. Segmento: contrato reforçado A dificuldade, não tenhamos medo dela! Os problemas, não fujamos deles! Mas, muito pelo contrário, olhemos tudo tendo a grande certeza que entre eles e nós está Jesus Cristo com a Sua bondade, dizendo: ‘Confiem em mim, confiem no Senhor Jesus Cristo’. Você verá as graças dos céus sendo derramadas em sua vida. É por isso que eu convido você, meu querido e minha querida, a me escrever. Mande-me o seu testemunho, os seus pedidos de oração. Eu irei colocá-los ali, junto ao sacrário do Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres e Divina Misericórdia, que fica no Largo da Matriz, no Centro de Itapecerica da Serra, São Paulo. Mande a sua carta para padre Alberto, Caixa Postal 32, CEP 06850-970, Itapecerica da Serra, São Paulo, ou entre no meu site www.encontrocomcristo.org.br. Prosseguindo o seu fazer persuasivo, o padre passa a reforçar o contrato. Topicaliza aspectos que realçam pontos disfóricos da vida (dificuldades, problemas) e procura ganhar a confiança dos telespectadores, ancorando-se na figura de Jesus Cristo. Intensifica-se o efeito de sentido de exaltação da persona do Cristo quando o narrador, por debreagem de segundo grau, delega a palavra a Jesus que, por sua vez, refere-se a si mesmo não só com a primeira pessoa, mas com a terceira: [...] entre eles (os problemas) e nós está Jesus Cristo com a Sua bondade, dizendo: “Confiem em mim (1ª. pessoa), confiem no Senhor Jesus Cristo” (3ª. pessoa: exaltação da persona). 215 Como estratégia para o estabelecimento da confiança, o padre pede aos telespectadores que enviem testemunhos e pedidos, por escrito. Embora não tenhamos registro da leitura dessas cartas durante os programas, o ato de escrever é parte importante no processo da persuasão porque concretiza o pedido, o milagre ou a graça recebida. Para o destinador, mais importante do que ler as cartas é fazer o destinatário escrever e crer no discurso58. Como promessa de recompensa, em troca da confiança depositada no destinador, o destinatário(telespectador) verá as graças do céu sendo derramadas na vida. De acordo com o Dicionário Houaiss/UOL da Língua Portuguesa, graça, no catolicismo, significa favor ou auxílio gratuito outorgado por Deus a determinados homens que a ele, por si sós, não teriam nenhum direito pessoal, e que os eleva a uma destinação sobrenatural. No site do Universo Católico (www.universocatolico.com.br), encontramos: Diz o Catecismo da Igreja Católica: A nossa justificação vem da graça de Deus. A Graça é um favor, o socorro gratuito que Deus nos dá (grifo nosso), a fim de respondermos ao seu chamamento para nos tomarmos filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina, e da vida eterna. Segundo essas definições, o recebimento da graça divina é ato desinteressado e espontâneo59, ou seja, Deus concede a graça a alguém de forma espontânea. Esse ato desinteressado é confirmado pelo Dicionário de Teologia não católico (2002: 63), quando este se refere à graça comum, a qual diz respeito ao amor de Deus, que se estende a todas as pessoas por meio de cuidado providencial, independentemente de reconhecerem e amarem a Deus. No entanto, 58 Várias Igrejas recorrem a essa estratégia. A IURD, por exemplo, em um ritual chamado de Fogueira Santa de Israel, leva a Israel, mediante doação, os pedidos, por escrito, para que sejam atendidos. 59 Nem sempre a concessão da graça provém de um ato desinteressado e espontâneo, uma vez que a definição católica relativa à graça está bastante próxima da protestante da graça eficaz, ou seja, a graça também será concedida à pessoa que, pela fé, responde ao chamado do Cristo para a vida eterna (a salvação). Isso significa que pode haver uma contrapartida para a concessão desse dom. 216 esse mesmo dicionário define a graça de duas outras formas: a graça preveniente (considerada algumas vezes como sinônimo da graça comum), aquela com a qual Deus capacitou todas as pessoas para corresponder favoravelmente ao Evangelho, se assim desejarem, e a graça eficaz que corresponde à aplicação especial da graça à pessoa que, pela fé, se achega a Cristo para a salvação. É ato especial de Deus que efetua a verdadeira salvação. Porém, de acordo com os católicos, o lexema em si já significa algo que recebemos graciosamente, de graça. No programa Encontro com Cristo, o padre pede a confiança dos telespectadores nele e em Jesus, pois certamente receberão as graças do céu. O destinador utiliza em seu discurso o conceito católico sem mudanças. A graça é um dom que Deus dá a todos os homens. Você verá as graças dos céus sendo derramadas em sua vida. Nós temos que acreditar que quando andamos na Palavra de Deus, quando nós queremos viver o Seu plano de amor, Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante, como aconteceu na multiplicação dos pães. PERCURSO DA MANIPULAÇÃO O destinador(padre Alberto) pede aos telespectadores que enviem a ele cartas contendo pedidos e testemunhos. Ao mesmo tempo, roga que depositem total confiança nele e em Jesus e promete que o destinatário verá as graças do céu sendo derramadas. Essa estratégia narrativa complementa o simulacro do sujeito coletivo(telespectador) da espera, que quer-ser, mas que sabe não-ser e que (sem a ajuda do destinador) não-pode-ser : é uma configuração modal reveladora de um sujeito em conflito, tenso, disjunto de seu objeto de valor(vida plena, abundante), incapaz de resolver por si suas dificuldades. Esse sujeito, porém, é manipulado por tentação de forma que enfrente os problemas mesmo diante dos dissabores pelos quais passa 217 (“A dificuldade, não tenhamos medo dela! Os problemas, não fujamos deles! Mas, muito pelo contrário [...]”). Segundo Greimas & Fontanille (1993: 63), tenciona-se formar aí o simulacro de um sujeito obstinado, disposto a prosseguir por um caminho previamente traçado, sem se deixar desencorajar pelos obstáculos. Ainda segundo os semioticistas, essa disposição põe o sujeito em estado de “fazer apesar de X”, mesmo quando X é uma previsão que recai sobre a impossibilidade do fazer: é um querer-fazer que sobrevive a um não-poder-fazer. Essa competencialização é uma característica do discurso do padre Alberto. No seu papel de intermediador entre o plano terreno e o divino, procura ser o canal pelo qual o sujeito de estado (telespectador) aumentará sua fé em Deus (Jesus). É através da fé que o fiel, sujeito de estado, “imagina poder contar” com o sujeito do fazer (Deus) para a realização de seus desejos. Como o Cristianismo é, por sua natureza, dogmático60, todas as religiões nele alicerçadas têm por base a fé. O dicionário Houaiss/UOL da Língua Portuguesa quase não distingue os lexemas crença e confiança do lexema fé, considerando-os sinônimos. Esse mesmo dicionário, porém, na rubrica Filosofia, atribui à fé falta de fundamento racional ([...] crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais). O Dicionário de Teologia (2002: 57) assim define a fé: Palavra bíblica que se refere tanto à crença intelectual quanto à confiança ou ao comprometimento em um relacionamento. Os autores bíblicos geralmente não fazem distinção entre fé como crença e fé como confiança, mas tendem a considerar que a verdadeira fé consiste tanto no que se crê (e.g., que Deus existe, que Jesus é filho de Deus) quanto no compromisso para com uma pessoa digna de confiança e capaz de salvar (i.e., confiança na pessoa de Cristo como meio de salvação). 60 O Dicionário de Teologia (2002) registra para dogma: Nos círculos protestantes, dogma é quase sinônimo de doutrina, ou seja, ensino teológico. Nos círculos católicos romanos e na ortodoxia oriental, dogmas são ensinos oficialmente aceitos pela Igreja e não meras teorias desse ou daquele teólogo. No texto, utilizamos o adjetivo dogmático portando o significado que o Dicionário Houaiss/UOL dá ao substantivo correspondente: ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar. Exemplo: dogma da Santíssima Trindade. 218 A confiança, a certeza, a crença e a fé fazem parte do grupo de paixões da confiança. As diferentes gradações na tonicidade tensiva marcam as diferenças entre essas paixões. Na fé há um excedente passional epistêmico que foge à racionalidade (um crer que tende para o infinito [crer →∞ = fé]) e pode ser traduzida por uma modalização deôntica de comprometimento com a Palavra Revelada que direcionará o sujeito para a conjunção com seu objeto de valor. A fé, embora infundida pelas religiões tradicionais como um ato individual e racional porque fundamentada em escrituras, ultrapassa as limitações do racional, sem necessidade de confirmação, já que é justamente essa não confirmação que lhe dá o caráter de “fé”. Isso significa que a fé ─ ligada às modalidades epistêmicas do crer/saber ─ será pensada como racional, se proveniente do saber, pois estará fundamentada no conhecimento das escrituras, dos livros sagrados; e como emocional, se proveniente do crer não provindo das escrituras. Nesse caso, a fé dependerá muito mais das emoções. Por conseguinte, essa paixão pode ter duas concepções que andam juntas: (1) a fé racional, que é a do saber, do conhecimento, e (2) a outra fé, a emotiva, a do crer, mais fundamentada nas emoções, que se encontra, por isso, em um grau de extensão bem menor que a fé racional. Assim, o discurso da pregação religiosa de televisão, quando baseado nas escrituras, tende para um alto grau de entendimento e está assentado, portanto, no eixo da extensão. Quanto maior o grau de entendimento, maior profundidade da extensão. Já a fé emotiva não é alicerçada na racionalidade, mas, sim, na emoção, pois não busca a compreensão, assentando-se sobre um baixo grau de extensão. Considerar a própria Palavra bíblica como “revelada” já é uma questão de fé. Os programas em análise podem estimular um ou outro tipo de fé, em maior ou menor grau. Os textos televisivos da IURD, analisados neste trabalho, estimulam a fé 219 emocional (apelam a símbolos e crenças regionais como encostos e descarregos, preferem alusões a citações bíblicas, instigam o destinatário a entrar na guerra contra o Mal, valorizam as emoções); os católicos partem da fé racional (programa O pão nosso de cada dia, do padre Fernando J. C. Cardoso) para chegar, como veremos, à fé emocional, no Terço Bizantino, com o padre Marcelo Rossi. Se compararmos os dois programas católicos analisados até agora (O pão nosso de cada dia e o Encontro com Cristo), perceberemos uma diferença na orientação tensiva de cada um. No Pão nosso, do padre Fernando Cardoso, como vimos, há um forte predomínio do racional sobre o emocional (linguagem professoral, erudição, longa citação de texto bíblico: éthos phrónesis); no programa Encontro com Cristo, do padre Gambarini, ocorre uma tendência de orientação para o emocional (oferecimento de milagres, cura das emoções, o amor de Deus: éthos eúnoia), sem deixar de lado, contudo, as citações bíblicas (o racional). Poderíamos, portanto, representar a orientação tensiva desses programas da seguinte forma: Programa católico 1: O pão nosso de cada dia Programa 2: Encontro com Cristo + + Linguagem professoral, erudição, Milagres, cura das emoções citações bíblicas completas. negativas, citações bíblicas. Intens. Intensidade decadência _ extensão amplificação + Predomínio do conhecimento, da releitura, da consciência e da reflexão (fé racional) _ extensão + Crescimento progressivo da fé (fé emotiva + fé racional) gráficos 37: orientação tensiva dos programas católicos O pão nosso de cada dia e Encontro com Cristo. 220 Lançamos, então, um olhar mais apurado sobre a paixão da confiança, base dos contratos fiduciários propostos pelos destinadores durante os programas em foco. Para Fontanille & Zilberberg (2001: 264), o significado atribuído ao lexema fidúcia “oscila entre a simples opinião e a convicção profunda”. Para esses semioticistas, pode-se admitir que a fidúcia manifesta-se em duas versões: a confiança, quando há uma relação entre sujeitos (relação de ipseidade), e a crença, quando a relação se faz entre o sujeito e o objeto (relação de alteridade). Acrescentamos a essas duas versões a autoconfiança, de alcance subjetivo, que compromete apenas o mesmo ator e a fé (relação imediata, de caráter transubjetivo, que relaciona o sujeito ao infinito61). A fidúcia pode, portanto, ser manifestada das seguintes maneiras: FIDÚCIA Confiança (S1/S2) intersubjetiva Fé (S1/S2Deus ) ∞ transubjetiva Confiança no outro / recíproca Fé em Deus Autoconfiança Crença (S1/S2) (S/O) mesmo ator objetva ou transobjetiva (se ligada ao subjetiva Confiança em si mesmo Crença no objeto mágico ∞) . Esquema 5 61 Adotamos a visão de Friedrich Ernst Daniel Schleiermacher (1768-1834), filósofo e teólogo alemão, considerado o pai da Teologia protestante moderna, cujo sistema ético e religioso tem forte influência de Spinoza, Platão e Kant. 221 A fé, quando baseada no crer (fé emotiva) ou no saber (fé racional), ocupa áreas tensivas diferentes: Área 1: intensidade forte, extensão fraca Área 2: intensidade forte, extensão forte Área 3: intensidade fraca, extensão fraca Área 4: intensidade fraca, extensão forte + Fé emotiva (proveniente do crer, fundamentada nos dogmas) área 1 área 2 intensidade Crença (Crença objetos mágicos) área 3 área 4 Confiança e Fé racional autoconfiança (vinculada ao saber, (Confiança no agente religioso ou em si) 0 extensão ao conhecimento) + gráfico 38: movimentação das paixões de confiança entre áreas tensivas diferentes. 4º. Segmento: os recadinhos Lembre-se, no final do programa eu estarei orando por você, abençoando a água. Mas, agora, por favor, mas por favor mesmo, preste atenção nestes meus recadinhos. Pare de sofrer emocionalmente, deixe Jesus curar as suas feridas interiores lendo o livro que eu escrevi para você: “Cura das emoções em Cristo”. Um livro repleto de orientações práticas de como 222 aprender a renovar a mente e a lidar com os sentimentos de rejeição, a falta de perdão, depressão, medo, ansiedade e solidão. É um livro completo de cura interior. “Cura das emoções em Cristo”. E adquirindo os livros do padre Alberto, você está ajudando a nossa obra. Adquira o seu nas melhores livrarias católicas perto de você ou ligue de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353. Repetindo, 0XX11- 4667-4353. Agora você pode adquirir os livros, CDs e DVDs do padre Alberto com seu cartão Mastercard, Dinners Club e Visa pelo telefone. Ligue de segundafeira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353, 0XX11-4667-4353 e faça o seu pedido. Válido somente para Mastercard, Diners Club e Visa. O parágrafo inicial do segmento acima prenuncia uma propaganda e um apelo que desvelarão, como veremos, uma das intenções do destinador: levar o destinatário a comprar seu livro e a fazê-lo doar dinheiro. A iteração da expressão por favor (Mas, agora, por favor, por favor mesmo, preste atenção nestes meus recadinhos) hiperboliza o efeito de sentido de súplica, de extrema necessidade, reforçado sobremaneira pelos empregos do advérbio enfático mesmo (com sentido de “de fato”, “de verdade“) e da expressão invocativa “preste atenção”. Por outro lado, a escolha do lexema recadinhos, no diminutivo, para designar o objeto da atenção do destinatário, gera em si mesmo um efeito de sentido paradoxal, uma vez que o diminutivo, nesse caso, reduz de forma aparente, mas não real, a importância do objeto para o qual o destinador insistentemente pede a atenção (propaganda de vendas de livros e apelo para doações). O parágrafo seguinte corresponde a um dos recadinhos prenunciados pelo agente religioso. Esse trecho é uma propaganda destinada a vender livros, CDs e DVDs e, em especial, o livro “Cura das emoções em Cristo”; o destinador(padre Alberto) busca estabelecer mais um contrato (concomitante ao de ir ao Encontro) fazendo o sujeito coletivo(telespectadores) comprar e ler o livro. A recompensa precípua decorrente 223 do cumprimento contratual é, por meio da fé, fazer outro sujeito (no caso, Jesus Cristo) realizar a performance de curar as feridas do espectador. Apela-se a uma série de paixões negativas, abordadas no livro de autoria do próprio padre Alberto, como a do sentimento de rejeição, da falta de perdão, medo, depressão, ansiedade e solidão. Adquirimos o livro Cura das emoções em Cristo, que chegou acompanhado da medalhinha de Nossa Senhora dos Prazeres. A obra adota o gênero da autoajuda, vinculando, porém, todos os temas à fé em Jesus / Deus. Dividida em dez capítulos, marcados por títulos-temas da autoajuda adaptados a uma versão católica, utilizam-se de argumentos bíblicos e preces, dessa vez, quase todas naturais. Estes são os títulos dos capítulos: Capítulo 1: Reeducação da mente: somos o que dizemos. Capítulo 2: Aprendendo a amar a si mesmo: importância da autoimagem. Capítulo 3: Enfrentando a rejeição. Capítulo 4: Perdão e cura das emoções. Capítulo 5: Saindo da depressão. Capítulo 6: Libertando-se do medo. Capítulo 7: Ansiedade ou preocupação, Capítulo 8: Como vencer a solidão. 17- Capa do livro Cura das emoções em Cristo Capítulo 9: Desafio dos solteiros. Capítulo 10: Para se manter e crescer na cura das emoções. É importante mencionar que, no livro em pauta, o padre inicia todas as orações com o lexema Pai, apresentando-nos, por conseguinte, como filhos. Deus 224 exerce o papel temático do pai ligado a seus filhos, pois é mostrado com uma “pessoa” e como “Pai de amor”, e não como uma “energia” ou “força cósmica”: Deus é uma pessoa! Quando falamos de Deus logo somos invadidos pela impressão errada de se tratar de algo inatingível. Esta maneira de olhar para Deus não é a visão bíblica. O próprio Deus faz questão de apresentar-se com as características de uma pessoa. Ele se revela deste modo a partir do primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. Uma imagem muito bela é a que encontramos em Gn 3, 8: “E EIS QUE OUVIRAM O BARULHO (dos passos) DO SENHOR QUE PASSEAVA NO JARDIM...”. Aí fica evidente que Deus não é uma força ou uma energia cósmica da qual somos uma parte. Ele é distinto de nós, pois é o Criador de tudo; mas, ao mesmo tempo, Ele está presente, caminhando junto à sua obra para levá-la à perfeição. (Gambarini, 2009: 26) No programa televisivo Encontro com Cristo, o papel temático do pai será assumido pelo destinador quando de sua fala (Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você [...]). Tornamos a afirmar que esse é um importante recurso persuasivo tendo em vista a grande importância que a Igreja Católica dá à família. No transcorrer da obra, surgem orações que enfocam especificamente desde a fase que o padre chama de “primeira infância” (do zero aos seis anos), passando pela adolescência até chegar à fase adulta. Durante a sequência de orações, encontramos: Oração para a afetividade sadia, para o casamento, para o relacionamento dos pais com os filhos, pelo relacionamento com os pais, para a cura dos traumas de doenças e a oração final. A abordagem da cura de paixões como o medo, a rejeição, a falta de perdão e a ansiedade, vinculada principalmente ao perdão e ao amor de Jesus / Deus, mas não sem a vontade e a atitude do próprio sujeito, faz do livro um misto de autoajuda e religião católica. Ainda assim, a obra tem a aprovação eclesiástica para publicação. 225 Outra obra desse padre-apresentador-escritor sobre a qual julgamos importante comentar é a Batalha espiritual. Nela, o religioso assemelha-se à IURD na forma de encarar e de anular o Mal. Sugere então um verdadeiro plano de guerra contra um inimigo demoníaco acionado, segundo o autor, pelos centros espíritas, terreiros, Nova Era, religiões orientais, IURD, dentre outros. Quatro capítulos do livro são dedicados à “guerra” contra o Mal, evidenciando a existência e a atuação de Satanás no dia a dia: - Capítulo I: Desmascarando o inimigo; - Capítulo II: Plano de batalha; - Capítulo III: Treinamento para a batalha; - Capítulo IV: Entrando na batalha. Nos capítulos V ao IX e apêndices finais (estes, dedicados ao exorcismo), o padre Gambarini procura “desmascarar” outras religiões que, segundo ele, não seguem os preceitos cristãos tradicionais. Sobre a IURD, escreve (2008: 134-135): Nos primeiros anos, a Universal em nada se diferenciou de outras igrejas evangélicas. Todavia, 18- Capa do livro Batalha espiritual aos poucos, foi revelando para que estava surgindo. Quatro anos depois de sua fundação, Edir Macedo passou a usar o título de “bispo”. A finalidade de tal decisão tinha um objetivo mal 62 intencionado, revelado por Roberto Augusto Alves , em depoimento ao Jornal da Tarde, em 2 de abril de 1991, p. 16: “Esse negócio de bispo é só um título para envolver os católicos”. O terreno estava sendo preparado com toda a estratégia do lançamento de um produto feito para agradar ao público, e não para realmente pregar o Evangelho. Quem faz um estudo mais apurado dos cultos realizados por esta seita observa o cuidado de estar atento ao gosto da plateia. Para alcançar mais facilmente as massas, usam-se artifícios que recordam e reforçam as crendices e superstições do lugar onde a seita Universal se instala. 62 Roberto Augusto Alves é um dos pastores que, ao lado de Edir Macedo e R. R. Soares, fundaram a Igreja Universal do Reino de Deus. 226 No programa televisivo Encontro com Cristo, a narrativa origina um encadeamento de contratos fundados, como diz Tatit (2001: 37), na fé e na confiança, com vistas a fazer o destinatário(espectador) realizar as performances (ir ao Encontro / comprar o livro), para envolvê-lo na crença de que um outro sujeito, Jesus Cristo, realizará a performance de curá-lo ou de trazer-lhe fartura. Criam-se, dessa forma, esquemas narrativos paralelos. Do primeiro segmento até aqui, teremos o seguinte: Manipulação Ação Recompensa (por tentação) Esquema 1 (promessa) quem for Ir ao Encontro, no ginásio ao encontro terá os de Itapecerica da Serra, problemas para receber os objetos Receber mágicos (unção com o óleo milagre. resolvidos (receberá o milagre). bento e a um medalha milagrosa) e presenciar a passagem do Santíssimo Sacramento. Esquema 2 Quem confiar em Jesus Mandar e mandar pedidos de oração. ao padre testemunhos e Alberto testemunhos e Ver as graças do pedidos de oração verá céu na vida as graças do céu na . vida. Esquema 3 Quem comprar o livro, Adquirir os livros, CDs e Resolução os DVDs do padre Alberto. problemas CDs deixará e de DVDs ter problemas emocionais. emocionais libertação dos e das paixões negativas. Em síntese, ergue-se um simulacro de um destinatário-sujeito castigado emocionalmente por paixões figurativizadas como “feridas interiores” para, modalizado pelo não-poder-não-fazer, da obediência regida pela fé, ir ao Encontro, mandar pedidos e testemunhos, comprar os livros e CDs. É um sujeito regido pela fé 227 e pelo amor de Deus. O destinador estimula a compra do seu livro “Cura das emoções em Cristo”, o qual dá grande ênfase ao tratamento de paixões negativas como sentimentos de rejeição, falta de perdão, depressão, medo, ansiedade e solidão (sic). Essa é uma notável diferença dos textos do padre Gambarini, com relação aos textos da IURD (instauram o medo, a vergonha, o desespero) e o do padre Fernando J. C. Cardoso (exalta a ira de Deus contra os que não buscam a salvação). Pare de sofrer emocionalmente, deixe Jesus curar as suas feridas interiores [...] [...] lidar com os sentimentos de rejeição, a falta de perdão, depressão, medo, ansiedade e solidão. É um livro completo de cura interior. (trechos do programa do padre Gambarini) A proposta do contrato é a de que, com a leitura do livro, abram-se as portas para a atuação do grande destinador, Jesus/Deus. A manipulação por tentação é garantida pela atuação do próprio Deus, acionada pela fé. A recompensa é a cura das emoções de quem ler e puser em prática os preceitos do livro. O intermediador, nesse caso, é a obra Cura das emoções em Cristo, cujo autor é o padre Gambarini. O final do parágrafo corresponde a uma exortação para a compra, apoiada por três cartões de crédito (Mastercard, Dinners e Visa) e por uma série de ancoragens espaço-temporais (nas melhores livrarias católicas, de segunda a sextafeira, das 8 às 18 horas, pelo telefone 4667-4353 etc.), facilitadoras da performance solicitada. 5º. Segmento: apelo por dinheiro Nós estamos no mês de janeiro e eu quero fazer uma grande convocação a toda a nossa família “Encontro com Cristo”. Você que acompanha o nosso programa, por favor, ajude-me com quanto você puder. Sim, eu preciso da sua colaboração. Você que tem sido ajudado pelo nosso 228 programa, seja fiel a esta colaboração. Você que recebe a minha carta mensal, destaque o boleto, vá ao banco de sua preferência ou use a comodidade das casas lotéricas. E você que ainda não a recebe, colabore deste modo: dirija-se a qualquer agência do Bradesco e faça o seu depósito para “Programa Encontro com Cristo”, agência 1464, conta 32247-4. Repetindo, Bradesco, agência 1464, conta 32247-4, ou envie um cheque cruzado nominal ao padre Alberto para padre Alberto, Caixa Postal 32, CEP 06850-970, Itapecerica da Serra, São Paulo. O 5º. segmento (acima) é um apelo por doações pecuniárias em nome do programa Encontro com Cristo ou do próprio padre Alberto. O destinador tenta estabelecer mais um contrato, dessa vez com vistas a receber o dinheiro dos fiéis. Com essa finalidade, procura manipular os destinatários, utilizando para tal o argumento da (in)gratidão. Vejamos: Sim, eu preciso da sua colaboração. Você que tem sido ajudado pelo nosso programa, seja fiel a esta colaboração. A gratidão, segundo os dicionários, corresponde ao reconhecimento por um benefício recebido. É uma paixão da ordem do /dever-fazer/. No caso acima, o padre faz uma imagem negativa de um destinatário ingrato que recebe, mas não retribui. “Cobra” gratidão dos telespectadores que receberam ajuda do programa, por meio de uma retribuição pecuniária. Ocorre, então, uma convocação63, não mais para a ida ao Encontro, no ginásio, mas para o comparecimento ao Banco Bradesco, local em que o telespectador deverá depositar dinheiro. O telespectador é manipulado por sedução à medida que o destinador se coloca em situação de necessidade financeira e roga uma ajuda, um favor, e por provocação, no momento em que é instado a ser um colaborador fiel (Você que tem sido ajudado pelo nosso 63 A acepção que nos parece mais adequada, nesse caso, para o verbo convocar, está registrada no dicionário eletrônico Houaiss/UOL como “mandar comparecer”. O agente religioso apela à gratidão (paixão modalizada deonticamente pelo /dever-fazer/) do destinatário para que ele faça o que deve fazer: retribua ao padre a ajuda recebida do programa Encontro com Cristo. 229 programa, seja fiel a esta colaboração). A persuasão à adesão ao contrato é fortalecida com o acréscimo do advérbio de afirmação “sim” ao sintagma eu preciso da sua colaboração (Sim, eu preciso de sua colaboração) e com a iteração retórica de orações adjetivas restritivas, iniciadas por um “você que”, as quais, por repetição, reforçam a provocação e engendram um efeito de sentido de generalização já que cada oração restritiva determina o simulacro de um sujeito diferente: Você que acompanha o nosso programa [...]. Você que tem sido ajudado pelo nosso programa [...]. Você que recebe a minha carta mensal [...]. E você que ainda não a recebe [...]. As categorias semânticas básicas sobre as quais está constituído o programa “Encontro com Cristo” são a falta e a abundância, aquela manifestada, no nível discursivo, não só pela escassez dos bens, mas pela ausência da saúde (principalmente a emocional); esta pela instauração de bens materiais e, em especial, pelo equilíbrio emocional. Há uma parte do programa direcionada à venda do Cura das emoções em Cristo. Falta vs. Abundância poucos peixes pães multiplicados poucos pães cestos cheios problemas não resolvidos resolução dos problemas feridas internas não curadas cura das feridas internas paixões negativas (rejeição, depressão, medo, ansiedade, solidão) cura das paixões negativas A estratégia de interação entre os sujeitos Os discursos católicos de TV são, em maioria, enunciação enunciada, pois refletem a interação entre o eu-agente religioso e o você-telespectador. Algumas vezes, porém, internamente à enunciação enunciada, inserem-se, em maior ou 230 menor número, histórias ilustrativas auxiliares da argumentação, retiradas da Bíblia, em enunciado enunciado, e inseridas no discurso com o intuito de criar o efeito de sentido de objetividade (distanciamento da enunciação), de verdade e de autoridade. No interior dessas pequenas histórias há, com frequência, uma debreagem interna que dá a voz em enunciação enunciada. No programa Encontro com Cristo, instalam-se diferentes relações de interação comunicativa entre o destinador e o destinatário, conforme observamos abaixo: a- Emprego da 3ª pessoa do singular no lugar da 1ª pessoa do singular Como diz Fiorin (2001: 86), quando se faz essa embreagem, é como se o enunciador se esvaziasse de toda e qualquer subjetividade. Quando vende seus produtos, o padre Alberto Gambarini exalta sua persona ao mesmo tempo em que, neutralizando a 1ª pessoa, esconde-se atrás da objetividade. Agora você pode adquirir os livros, CDs e DVDs do padre Alberto com seu cartão [...] E adquirindo os livros do padre Alberto, você está ajudando a nossa obra. b- O agente religioso (eu – destinador) dirige-se ao você (destinatário). O procedimento da interação entre o eu (padre Alberto) e o você (telespectador) é utilizado nos momentos em que o padre solicita a colaboração dos telespectadores no sentido de passarem a sujeitos da ação, mandando cartas, comprando livros ou CDs, indo ao Encontro, dando auxílio pecuniário. Essa é uma estratégia utilizada pelo agente religioso para criar o efeito de sentido de que ele está no mesmo nível do telespectador, além de cumplicidade e de subjetividade. Você que acompanha o nosso programa, por favor, ajude-me com quanto você puder. Você que recebe a minha carta mensal [...] E você que ainda não a recebe, colabore deste modo: [ ] 231 c- Emprego do nós inclusivo (eu + você = nós). Outra estratégia de interação entre os sujeitos é o emprego do nós inclusivo (eu(padre) + você(telespectador)) para produzir efeitos de identificação do agente religioso com o telespectador. O destinador utiliza esse nós, quando se identifica com o destinatário para pedir a proteção de Deus. Nós temos que acreditar que quando (nós) andamos na Palavra de Deus [...] Nós temos que aprender todos os dias a entender [...] d- Emprego do nós exclusivo (eu + Ele(Jesus) – você = nós). Em função conativa ou apelativa, instala-se uma relação interativa com o propósito de reforçar o papel temático da intermediação exercido pelo agente religioso entre Jesus/Deus e o destinatário. Esse reforço é bastante comum no discurso católico. A relação eu + Jesus é uma embreagem (Confiem em mim [eu], confiem no senhor Jesus [Ele] = nós) empregada com a finalidade de reforçar a estratégia persuasiva para o agente religioso ganhar a confiança do telespectador. A exclusão do destinatário cria o efeito de redução da igualdade e da intimidade, aumentando a assimetria das relações entre o destinador(padre Alberto) e o destinatário(telespectador). Esse é um nós de campo fechado, que exclui o destinatário (euagente religioso + Jesus - vocêtelespectador) com o propósito de ressaltar que o poderfazer é atributo exclusivo dos destinadores (Confiem em nós: no padre e em Jesus). Isso mostra um éthos que recorre predominantemente à eúnoia (solidariedade, benevolência), pois constrói o discurso baseado em um páthos pressuposto. O padre coloca-se à disposição para ajudar espiritualmente a todos os que comparecerem ao Encontro/ comprarem seus livros. Quadro-resumo das principais estratégias de interação entre sujeitos: 232 Destinador 3ª pessoa do singular no lugar da 1ª pessoa. Destinatário Você(telespectador) Exaltação da persona do padre Alberto; efeitos de objetividade. Você (telespectador) Cumplicidade e subjetividade. O agente religioso coloca-se no mesmo nível do destinatário. E adquirindo os livros do padre Alberto, você está ajudando a nossa obra. 1ª. pessoa do singular ou plural(eu-agente religioso). Efeitos de sentido Alterna o nós em lugar do eu. Você que acompanha o nosso programa, por favor, ajude-me com quanto você puder. Nós inclusivo (eu padre + você telespectador) Identificação do destinador com o destinatário. Nós temos que acreditar que quando (nós) andamos na Palavra de Deus [...] Nós exclusivo (eu padre + Ele Jesus – vocês telespectadores). Vocês (telespectadores) Confiem em mim, confiem no Senhor Jesus (confiem em nós), Redução da igualdade e da intimidade. Afirmação do papel de intermediador /intercessor exercido pelo agente religioso. Temas e figuras Relacionados ao tema central do programa ─ Os procedimentos para o alcance da graça e das bênçãos divinas ─ disseminam-se vários subtemas eufóricos e disfóricos, que asseguram a coerência semântica do discurso: Tema : Os procedimentos para o alcance da graça e das bênçãos divinas subtemas A crença nos ícones e símbolos católicos A solução dos problemas financeiros e das dificuldades . Cura da saúde emocional 233 Mesmo predominantemente temático, o texto tem o tema central e os subtemas ocasionalmente recobertos por figuras das coisas divinas ou religiosas. O subtema “A crença nos ícones e símbolos católicos” é recoberto com as figuras de “Deus”, “Jesus Cristo”, “Espírito Santo”, “pai espiritual”, “Santíssimo Sacramento”, “unção com o óleo bento”, “Evangelho”, “sacrário”; o subtema “A solução das dificuldades e dos problemas financeiros” é recoberto com “vida abundante”, “multiplicação dos pães e dos peixes”, “doze cestos cheios”; para o subtema “Restituição da saúde emocional” registramos “curar as feridas interiores”, “cura interior”, “aprender a lidar com sentimentos”, o livro Cura das emoções em Cristo. Essa isotopia das coisas religiosas, da cura emocional e da fartura assegura a linha sintagmática e a coerência semântica do discurso. Vejamos duas dessas figuras cujo emprego é crucial no processo de persuasão gerado pelo discurso em análise: ─ Pai espiritual O enunciador inicia o texto realçando seu papel temático de pai (“Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você a não faltar no nosso grande encontro [...]”), uma expressão já consagrada no discurso católico, relevante para o argumento a ser desenvolvido, provinda de uma metaforização (“Deus é pai”). Fiorin (1990: 122) define metáfora64 como sendo “a alteração de sentido de uma palavra ou expressão quando entre o sentido que o termo tem e o que ele adquire existe uma intersecção”. Quando o agente religioso, padre Alberto, afirma ser o pai espiritual dos telespectadores, constrói uma metaforização, pois, entre ele e o pai, identificam-se os semas comuns de /proteção/, /condução/ e 64 Este tipo tradicional de metáfora difere-se das metáforas de texto inteiro, empregadas no programa analisado anteriormente, cuja função era a de vincular uma isotopia à outra, uma leitura à outra. 234 /amor/, sendo isolados respectivamente os semas /divino/ e /humano/. Para melhor visualizarmos essa metaforização, adaptamos o esquema de Postal (2007: 11): DEUS Padre Alberto Pai espiritual (segurança, proteção, amor) Divino Humano Ilustração 19 O papel temático do pai, assumido pelo agente religioso, é um reforço no processo de manipulação por tentação porque traz em si a imagem do protetor, do orientador, e produz efeitos de sentido da segurança, confiabilidade, proteção, amor. A assunção desse papel pelo enunciador instaura sua condição de estabilidade, ou seja, é ele quem atribui a tarefa ao sujeito e, no caso, é ele quem antevê a sanção resultante do cumprimento ou não do contrato. Além disso, há uma retomada do significado latino original, hoje esquecido, do lexema padre (pater → pai), importante para o aumento da confiança do enunciatário, devido ao efeito de sentido causado pela identificação sêmica acima mencionada. O papel temático exercido pelo agente religioso católico é, já a partir do lexema padre, diferente do papel que exerce o pastor protestante tradicional ou neopentecostal. O lexema pastor diz respeito à condução do rebanho (os homens) em direção a um lugar seguro. Já o lexema padre (pai), além de nos remeter à proteção, bondade, amor, acolhimento, traz à tona o conceito de família (o pai é o chefe da família), fortemente resguardado pela 235 Igreja Católica. Esse conceito acaba por se completar com a denominação de Madre (mãe) atribuída às freiras. ─ Espírito Santo Por isso, agora, vamos pedir o Espírito Santo. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Oremos! A presença do Espírito Santo é invocada, nesse segmento, por meio de prece não natural. Considerando que Deus é sempre o grande destinador, adotamos o ponto de vista de Fontanille e Zilberberg (2001: 272) para quem a orientação do dispositivo actancial que parte do destinador para chegar ao destinatário manipulado fica invertida na prece ou súplica por encontrarmos um destinatário empenhado em manipular o destinador. Prece (inversão da orientação) DESTINATÁRIO AGENTE RELIGIOSO DESTINADOR DEUS Durante a prece: Destinador Durante a prece: Destinatário manipulação por sedução Ilustração 20 Fontanille & Zilberberg, em capítulo sobre a fidúcia (2001: 272), afirmam: A súplica direta nada mais é do que a prece, nos próprios termos de 65 Cassirer . Os autores ainda declaram: Com efeito, para este, assim como para Lévi-Strauss: “a prece está destinada a superar o abismo que separa o homem de seu deus”. 65 CASSIRER, E. La philosophie des formes symboliques, tome 2, op. cit., p.268. 236 Com a prece, o agente religioso tenta preencher parte desse abismo e põe em jogo um fazer-crer que pode ser aceito ou não pelo telespectador. A invocação da figura do Espírito Santo é um reforço indispensável do processo de manipulação, tendo em vista que o destinador(agente religioso) oferece ao destinatário(telespectador) um sujeito da ação divino, onipotente e reconhecido por boa parte das religiões cristãs, que executará a performance (curará as feridas emocionais, além de instaurar a saúde e a fartura material). É necessário, porém, que o destinatário(fiel) creia. Essa fase da manipulação é vital para que o processo de persuasão seja bem sucedido, uma vez que o telespectador precisa ser levado a crer que o agente religioso é um intercessor suficientemente competente para fazer o grande destinador-Deus cumprir seu papel, na figura do Espírito Santo, e agir em favor de seus fiéis. De acordo com a enciclopédia eletrônica Wikipedia, os cristãos creem que é o Espírito Santo66 quem conduz as pessoas à fé em Jesus Cristo e aquele que lhes dá a capacidade necessária para viver uma vida cristã. O Espírito Santo figurativamente habita dentro de cada cristão verdadeiro, e se manifesta em ações de graça. Ele é descrito como um "ajudador" (em grego, paraclete), guiando os cristãos no caminho da verdade. Os 'Frutos do Espírito' (isto é, os resultados da sua influência) são "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gálatas 5:22). Ele também concede dons (isto é, 66 Os movimentos Pentecostal e Neopentecostal colocam uma ênfase especial nas obras do Espírito Santo, em especial nos dons acima mencionados, acreditando que estes são ainda hoje concedidos. Os Pentecostais acreditam que o batismo no Espírito Santo é uma obra distinta do novo nascimento. Creem que é Jesus quem batiza com o Espírito Santo, e que tal batismo é evidenciado pelo falar em línguas estranhas. Uma parte minoritária dessas Igrejas afirma que esse batismo é o verdadeiro sinal de Cristianismo numa pessoa, ou seja, uma pessoa não pode estar certa de sua salvação até ter experimentado o batismo do Espírito Santo. 237 habilidades) aos cristãos tais como os dons de profecia, línguas e conhecimento, embora alguns cristãos acreditem que isto apenas aconteceu nos tempos do Novo Testamento. Essa figura do “ajudador”, como define o dicionário, nada mais é do que um sujeito-destinador que praticará a ação no lugar do outro, o telespectador, caso este último cumpra o contrato (creia). 238 Análise do programa Terço bizantino (Igreja Católica) Programa Terço Bizantino, Rede Vida, 21 de setembro de 2007 Primeiro dia da quinzena Padre Marcelo Rossi: ─ Durante quinze dias, sim, uma quinzena, você pediu e nós vamos fazer. Infelizmente ela existe: a inveja. Vamos orar contra todo e qualquer tipo de inveja, por isso, juntos, Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus E, de joelhos, segundo mistério: Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Padre Marcelo Rossi, durante o Terço Bizantino Jesus, tira do meu coração toda inveja. Ilustração 21 239 Terceiro mistério: Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Quarto mistério: Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. E terminamos: Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor 22 - padre Marcelo Rossi 240 Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor E que desça sobre você a bênção do Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, Amém. Jesus, proteja a minha vida, a minha família, de todo tipo de inveja. O programa Terço bizantino é apresentado pela Rede Vida de Televisão, diariamente, pelo Padre Marcelo Rossi. Os recursos do gênero da mídia televisiva concentram-se nas imagens gravadas e transmitidas aos telespectadores. O Terço bizantino não varia. É basicamente a reza do terço, uma espécie de ladainha transmitida pela TV. Por ser bastante curto, durante o programa não há propagandas, produções de dramaturgia ou mesmo testemunhos. O programa em análise é o primeiro de uma quinzena. Isso quer dizer que será apresentado de forma idêntica durante quinze dias. Nada mudará, a não ser quando o destinadorpadre disser ao destinatário-telespectador qual dos programas é aquele (se é o primeiro, o segundo programa e assim por diante). Após a introdução, o padre olha para uma figura ou imagem de Jesus e reza o terço, reduzido de dez para cinco mistérios, se comparado ao tradicional. Inicia a oração pela invocação do nome “Jesus”, dez vezes, e, de joelhos, repete dez vezes outros sintagmas, que se diferenciam para cada mistério. No texto, o padre-destinador inicia a narrativa 241 informando que está atendendo a um pedido67 de seus destinatários- telespectadores: rezar contra a inveja durante uma quinzena Durante quinze dias, sim, uma quinzena, você pediu e nós vamos fazer. Decorrente da construção sintática, o sintagma inicial, acima exposto, apresenta uma ambiguidade, somente dirimida no transcorrer da narrativa. Em uma primeira leitura, supõe-se que o telespectador tenha ─ durante quinze dias ─ solicitado ao padre a realização do terço contra a inveja. Considerando-se, porém, a natureza do programa de TV, constata-se que os quinze dias se referem à duração da quinzena de orações com o terço e não ao número de dias durante os quais os pedidos dos espectadores foram feitos. Nesse segmento inicial, notamos que o destinador-padre Marcelo inverte os papéis e coloca-se como destinatário e sujeito da ação, cumpridor de um contrato fiduciário proposto pelo então destinador, o telespectador ([...] você [telespectador] pediu e nós vamos fazer.). TelespectadorDestinador (pede orações) PadreDestinatário (acata o pedido) e sujeito da ação ilustração 23 Essa inversão dos papéis destinador/destinatário é aparente, levando-se em conta que o padre está, desde o início do programa assumindo o papel de destinador para manipular seu destinatário(telespectador) por sedução (você pede, eu 67 Há, tanto no site do padre Marcelo Rossi quanto no do padre Alberto Gambarini, um ícone destinado a pedidos de oração. Por meio desse ícone, o telespectador pode levar suas solicitações aos religiosos. Nos programas analisados, o tratamento dado a esses pedidos é diferente: Padre Marcelo Rossi, como estamos vendo, atende a um pedido, dirigindo a reza do Terço bizantino para o afastamento da inveja (Durante quinze dias, você pediu e nós vamos fazer...); Padre Gambarini, em Encontro com Cristo, ao solicitar que os telespectadores enviem seus pedidos, não os responde no ar, porém afirma que os colocará no sacrário de Nossa Senhora dos Prazeres e Divina Misericórdia. 242 faço). Cria-se, com essa estratégia de persuasão, um efeito de sentido que confirma o papel temático de autoridade mediadora / intercessora do padre, produzido pela sujeição do destinador ao pedido de orações contra a inveja e pela longa duratividade da performance contratual, quinze dias. A postura discursiva aceita pelo padre (porta-voz dos pedidos dos telespectadores junto a Deus) coloca-o em um patamar intermediário ─ acima do telespectador, mas abaixo de Deus ─ entre o plano material e o plano espiritual. Sem a ajuda do agente religioso não haverá a ligação, a comunicação do fiel com Deus. Eis que a constância desse papel é, como afirma Discini (2008: 43), fator de estabilidade para a construção de um caráter. Conforme a Retórica aristotélica, padre Marcelo apresenta um éthos caracterizado pela eúnoia, pois mostra-se solidário aos pedidos de oração dos telespectadores e assume seu papel de intermediário entre os homens e Deus, ou seja, orando o terço trata de interceder junto a Deus pelos fiéis. Instauram-se, devido a uma segunda ambiguidade (dessa vez, quanto a quem a inveja afeta), dois tipos de destinatários pelos quais o padre-destinador rezará o terço durante uma quinzena. O primeiro deles ─ o invejado ─ é o que supõe ser ele mesmo alvo da inveja de outrem (Jesus, proteja-me de toda a inveja)68; o segundo ─ o invejoso ─ é o sujeito apaixonado, aquele que sente inveja e quer se ver livre dela (Jesus, tira do meu coração toda a inveja). Sujeito invejado / Sujeito invejoso Nesta análise, teremos de tratar dos dois tipos de destinatário (o invejoso e o invejado). Assim, o sujeito invejado S1 sente-se dominado por uma inquietude, uma 68 Os sintagmas Jesus, proteja-me de toda a inveja e Jesus, tira do meu coração toda a inveja são ambíguos, pois não definem com clareza se o sujeito quer proteção contra a inveja que ele mesmo sente ou se quer proteção contra a inveja que o outro sente dele. 243 certa agitação causada por um /não poder-fazer/ contra algo que, acredita, poderá dissociá-lo de seu objeto de valor. Diante desse /não poder-fazer/, busca a ajuda de quem julga ter todas as condições modais (quer, deve, pode e sabe) para realizar seu desejo: o padre. O destinador-padre pode fazer duas imagens de seus destinatários: (1) No caso do telespectador invejado é a de um sujeito realizado, conjunto com seu objetos de valor, mas inquieto, que se vê ameaçado de disjungirse de seu(s) Ov porque acredita estar à mercê da inveja de outrem. O destinador dá à paixão da inveja status de antissujeito com poderes suficientes para influenciar disforicamente ou afastar o sujeito do objeto de valor. Esse antissujeito ─ a inveja ─ adquire quase o mesmo status da figura do Mal, tanto utilizada pela IURD, pois, na Católica, o agente religioso(padre) reza o terço para que não sejamos alvos dessa paixão. Isso significa que o sujeito se torna inquieto diante da possibilidade de ser vítima da atitude resultante da inveja de outrem. (2) No caso de um telespectador invejoso, a imagem é a de um sujeito inquieto porque reconhece sentir inveja e acata o julgamento moral da sociedade, que condena essa paixão. Sobre a inquietude, afirmam Greimas & Fontanille (1993: 238): A inquietude, essa preocupação do sujeito absorto por um apego ameaçado, decorre de uma posição, pelo menos imaginária, de conjunção ─ essa espécie de conjunção simulada que resiste a todas as contingências das junções efetivas. O sujeito inquieto seria, pois, um sujeito que tem algo a perder, um sujeito realizado. 244 Os semioticistas alertam (1993: 194-195) que o inquieto não é ciclotímico69, mas oscila continuamente entre a euforia e a disforia, em um percurso misto que, embora não chegue a posições extremas, prepara o sujeito para outras paixões: A inquietude nada mais é que essa oscilação que instala um simulacro disponível para uma outra paixão, que opera a reembreagem sobre o sujeito tensivo em vista de percursos mais específicos. A inquietude prepara, de algum modo, o terreno para outras paixões: ela define certa constituição do sujeito; ela só se particulariza em função das paixões que vêm, em seguida, investir o simulacro e dar-lhe armadura modal. (Greimas & Fontanille, 1993: 195) A inquietude afeta o apego que o sujeito realizado tem pelos seus objetos de valor. Esse sujeito, que tem algo a perder, crê que a inveja pode fazê-lo vítima (se invejado) ou algoz (se invejoso). Encontramos no Dicionário Houaiss/UOL da Língua Portuguesa a seguinte acepção para inveja: sentimento em que se misturam o ódio e o desgosto, e que é provocado pela felicidade, prosperidade de outrem. Greimas e Fontanille (1993: 176) afirmam que essa paixão também pode ser entendida como o desejo de gozar de uma vantagem, de um prazer igual ao de outrem. Dessa forma, a paixão da inveja traz em si a configuração de uma rivalidade que oscila entre a relação polêmica (um querer-ser o que o outro é) e a relação de objeto (um querer ter o que o outro tem). Trata-se, segundo esses semioticistas, de uma relação entre três actantes: S1, S2 e o objeto de valor O. Aspectualmente, a inveja é uma paixão durativa, voltada para o presente, cuja modulação tensiva reflete um estado patêmico intenso70. Do ponto de vista semiótico, podem ocorrer dois tipos de inveja: 69 A ciclotimia é uma patologia mental também conhecida como psicose maníaco depressiva ou distúrbio bipolar do humor. O ciclotímico apresenta períodos de profunda depressão ou de euforia (hipomania). 70 Apesar de a paixão da inveja poder estar algumas vezes voltada para o passado ou para o futuro, julgamos ser essa uma paixão mais afeita ao tempo presente. Em seu artigo Semiótica das paixões: o ressentimento (2007), Fiorin afirma que, quanto à temporalização, há paixões voltadas para o passado (a culpa) e outras para o futuro (o temor). 245 (a) inveja do tipo S1 O S2 (através do objeto O, S1 visa ao S2). Essa mediação pelo objeto estabelece uma dimensão polêmica e intensifica a rivalidade: o /querer-ser/ implica que o outro não seja. (b) inveja do tipo S1 S2 O (através de S2, S1 visa ao O). A mediação pelo rival intensifica o desejo do objeto: o /querer-ter/ implica que o outro não tenha. O sujeito invejado S2 pode ser deliberadamente prejudicado pela atuação do sujeito invejoso S1 ou, de acordo com a IURD, ser vitimado pela má influência das energias negativas emitidas por S1 (olho gordo, mau olhado etc.). Seja de uma ou de outra forma, no texto católico em estudo, a inveja é personificada e preenche o papel actancial de antissujeito/antidestinador. Ela é encarada como uma força que atua ou pode atuar negativamente na vida do destinatário-telespectador fazendo-o vítima (se invejado) ou vilão (se invejoso). Do mesmo modo que no discurso da Igreja Universal do Reino de Deus (este caracterizado pela atuação de um poderoso e difuso sujeito maligno), esboça-se, no programa do padre Marcelo Rossi, um modelo centrado em um pressuposto antissujeito ─ a própria paixão da inveja ─ pautado por valores inscritos na esfera de um antidestinador, instalando no texto uma dimensão polêmica conflituosa. No Terço bizantino, o telespectador S1 pede oração a um intermediário (o padre) que, supostamente, estabelecerá ligação com Deus. Esse pedido de oração corresponde a um pedido de ajuda ou de socorro espiritual, resultado de um enfraquecimento da competência modal do sujeito S1 (perda do querer, saber e/ou poder), atemorizado e inquieto, devido à falta de compreensão da estrutura daquilo que o ameaça no desenrolar do processo de identificação do mal. A paixão da inveja tem suporte nos textos bíblicos desde a morte de Abel. Na Igreja Católica, a inveja é considerada um dos sete pecados capitais. Moralizada negativamente pela sociedade, a inveja, de acordo com a doutrina católica, pode levar o homem à 246 condenação. Na tentativa de eliminar a paixão da inveja, que tanto pode afastá-lo do objeto de valor desejado (se invejado) quanto induzi-lo à performance contra o outro (se invejoso), o sujeito recorre ao padre cuja competência modal (o querer, o dever, o poder e o saber) e o adjuvante (Terço Bizantino)71 para “acionar” Deus/Jesus lhe parecem plenamente suficientes e confiáveis. O “acionamento” de Jesus é estimulado por um programa de TV que, sob uma visão aspectual, assemelha-se ao aspecto semiótico da própria paixão da inveja, ou seja, no que concerne à temporalidade, o aspecto extenso e durativo da inveja iguala-se ao aspecto extenso e durativo da “quinzena”, o que gerará um efeito de sentido de oposição do programa ao mal virtual ocasionado pelo antissujeito inveja. Além disso, o caráter repetitivo-durativo interno do texto (a repetição de sintagmas) somado à repetição do próprio programa durante uma quinzena geram, juntos, o efeito de sentido de continuidade e de ação prolongada do Terço. Em outras palavras, o efeito de continuidade se dá não só com a repetição interna dos sintagmas (como mantras) mas também com a repetição da reza do terço durante quinze dias. Ocorre, também, devido à repetição, um processo de dessemantização72 textual interna, graças à forma fixa e inalterada com que a oração é feita (da mesma forma que nas Ave-Marias, por exemplo). A repetição mecânica é um procedimento em que se perdem os significados parciais em proveito de um significado geral. Os lexemas e os sintagmas são infalivelmente os mesmos. 71 O terço, mais do que um instrumento, é um adjuvante, pois cumpre uma das modalidades da competência do sujeito (padre). O terço é um ator claramente separado a quem cabe atribuir o poder ao sujeito (padre). No texto, o agente religioso, unido ao terço, adquire o poder. 72 Conforme o Dicionário de Semiótica (Greimas & Courtés, 2008: 131), a dessemantização é a perda de certos conteúdos parciais em benefício do significado global de uma unidade discursiva mais ampla. 247 A repetição de sintagmas do terço leva a um aumento da intensidade que coincide com a alta intensidade da inveja, conforme abaixo: Aspecto da paixão da inveja Temporalidade: Aspecto do programa Terço Bizantino Durativa Durativa (reza-se o terço durante quinze dias) Intensa Intensa (temporalidade): Extensa Extensa Referência temporal: Presente Presente Modalização tensiva: Eixo da intensidade: Eixo da extensão Vejamos, no gráfico das tensões, a semelhança entre a inveja e o formato do programa Terço bizantino: Paixão da Inveja Programa Terço bizantino (intensidade: forte) (intensidade: forte) (extensão [temporalidade]: durativa) (extensão [temporalidade]: durativa) Esquema da amplificação Esquema da amplificação Inveja repetição Intensidade Intensidade Extensão - temporalidade (durativa) Extensão - temporalidade gráficos 39: semelhança da duratividade da paixão da inveja e o formato do programa Terço bizantino, representados no gráfico tensivo. O conteúdo do programa do padre Marcelo Rossi, mesmo algumas vezes inalterado durante dias, varia ao tratar de diversas questões, conforme segue: 248 ─ questões passionais: inveja, angústia, desânimo, mau humor, alegria, amor. ─ questões pragmáticas: família, trabalho, empreendimentos, prosperidade. ─ questões sensoriais-corporais: estresse, esgotamento, descanso, equilíbrio físico, enfermidade. Exemplificamos, abaixo, essa variação, por meio de outros programas do Terço, já apresentados pelo padre Marcelo, os quais transcrevemos literalmente do site católico NPD Brasil (www.npdbrasil.com.br). Sempre com a mesma estrutura textual aqui exposta (o agente religioso inicia a oração invocando dez vezes o nome de Jesus para, depois, repetir dez vezes outros sintagmas, um para cada mistério restante), a oração do Terço é recomendada pelo padre Marcelo Rossi como instrumento de cura física, de renovação, de cura da depressão, da angústia, das enfermidades em geral, do estresse, de realização no trabalho, de salvação da família. O número um (Como instrumento de cura física) é dado apenas como exemplo de como rezar o terço: 1) Como instrumento de CURA FÍSICA Jesus, me ajude; Jesus, me cure; Eu te amo, Jesus; Fica comigo, Jesus; Obrigado, Senhor! Do número dois a oito, sugere-se um para cada dia da semana: 2) RENOVAÇÃO (para a segunda-feira) Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, liberta-me do desânimo e do mau humor; 249 Senhor Jesus Cristo, abençoa-me nesta segunda-feira; Senhor Jesus Cristo, abençoa-me e alegra-me nesta segunda-feira; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 3) DEPRESSÃO (para a terça-feira) Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, nesta terça-feira, liberta-me da depressão; Senhor Jesus Cristo, preencha todas as áreas da minha mente com seu amor; Senhor Jesus Cristo, equilibra a minha mente; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 4) ANGÚSTIA (para a quarta-feira) Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, nesta quarta-feira, liberta-me de toda angústia; Senhor Jesus Cristo, preencha todas as áreas do meu ser com paz; Senhor Jesus Cristo, equilibra-me com seu amor; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 5) ENFERMIDADE (para a quinta-feira) Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, nesta quinta-feira, liberta-me de toda e qualquer enfermidade; Senhor Jesus Cristo, visita o mais íntimo de mim e, no seu amor, cura-me; Senhor Jesus Cristo, equilibra-me fisicamente; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 6) TRABALHO (para a sexta-feira) Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, nesta sexta-feira, abençoa o meu trabalho e empreendimentos; Senhor Jesus Cristo, que eu possa me realizar no meu trabalho; Senhor Jesus Cristo, pelo teu amor, que eu possa prosperar; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 7) ESTRESSE (para o sábado) 250 Senhor Jesus Cristo; Senhor Jesus Cristo, neste sábado, liberta-me do esgotamento e do estresse; Senhor Jesus Cristo, que eu possa descansar neste final de semana; Senhor Jesus Cristo, reanima-me com teu amor; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! 8) FAMÍLIA (para o domingo) Senhor Jesus Cristo: Senhor Jesus Cristo, neste domingo, tem misericórdia de minha família; Senhor Jesus Cristo, salva minha família; Senhor Jesus Cristo, que minha família cresça no teu amor; Obrigado, Senhor Jesus Cristo! Outro ponto que deve ser observado na análise do Terço bizantino são as propostas contratuais, as súplicas, direcionadas a Jesus pelo agente religioso, em nome dos telespectadores. Isso considerado, analisamos, além do texto em pauta, os nove textos do programa expostos acima e pudemos constatar que, embora muitas sejam as súplicas (por cura, salvação, bênção, renovação, equilíbrio), a que mais se repete é pela libertação (em cinco dos nove programas). Conclui-se que, sob o olhar do destinador, os telespectadores desejam livrar-se de seus próprios males (desânimo, mau humor, depressão, angústia, enfermidades, esgotamento, estresse): Senhor Jesus Cristo, liberta-me do desânimo e mau humor. (dez vezes) Senhor Jesus Cristo, nesta terça-feira, liberta-me da depressão. Senhor Jesus Cristo, nesta quarta-feira, liberta-me de toda angústia. Senhor Jesus Cristo, nesta quinta-feira, liberta-me de toda e qualquer enfermidade. Senhor Jesus Cristo, neste sábado, liberta-me do esgotamento e do estresse. 251 Isso quer dizer que o destinador(padre Marcelo) procura promover a libertação dos fiéis, prisioneiros das paixões e dos estados disfóricos, para conduzi-los à salvação, exclusivamente por meio da fé. Além dos pedidos pela libertação, repetem-se, em outros programas do Terço, pedidos de proteção (contra os males), de bênçãos e de equilíbrio (mental). Nesse processo, registramos um notável predomínio da emoção sobre a razão, pois os textos bíblicos não são sequer citados ou aludidos pelo destinador como suporte de argumento. Parte-se da confiança no simulacro do destinador para que se chegue à fé em Deus. Assim, o valor do Terço bizantino comporta um alto grau de intensidade. A fé emocional predomina e se sobrepõe à razão. Do ponto de vista emocional e, considerando o eixo da extensão correspondente ao racional, o programa do padre Marcelo orienta-se pelo esquema tensivo da ascendência73. o emocional (o programa é baseado exclusivamente na fé) Esquema tensivo da Intensidade ascendência o racional Extensão (não há textos bíblicos, explanações, comparações) gráfico 40: a tensividade do emocional e do racional. A característica repetição de sintagmas do terço é também típica das ladainhas e do ritmo de mantra. Nesse caso, a narrativa procura construir ou 73 Caso relacionemos, no gráfico tensivo, o aspecto emocional com a duração da extensão do terço bizantino, a orientação tensiva passará ao esquema da amplificação, com um aumento simultâneo da intensidade emocional e da extensidade durativa. 252 aumentar a fé já existente em um sujeito (o telespectador) que, modalizado no crer e confiante no simulacro de um conhecido destinador(Padre Marcelo), é instado a rezar para afastar-se da inveja e chegar à salvação. O ato da repetição, além de ser ritualizado, uma fórmula dada de antemão para se falar com Deus (Orlandi 2006: 247), nesse caso também acaba por demonstrar as ações da Igreja sobre seus fiéis que são de libertar, salvar (o sujeito dos males), tirar (o mal, as paixões negativas), abençoar e proteger, reafirmando seu papel de mediadora entre Deus e os homens. O próprio padre Marcelo Rossi, em seu site, enfatiza: [...] O fato de repetirmos várias vezes uma mesma jaculatória (oração curta e fervorosa) faz com que nossa mente seja envolvida por aquilo que estamos falando [...]. [...] Apesar de ser leigo no campo da psicologia, pude compreender que Jung, em suas teses, refere-se ao terço e à repetição como forma de acalmar e reequilibrar a pessoa que está repetindo [...]. Quanto ao aspecto propriamente narrativo, recorremos novamente a Propp para invocar as bases do conto maravilhoso: um destinador S1 (o telespectador) incumbe um herói S2 (padre Marcelo) de uma determinada tarefa. Para conseguir realizá-la, o herói deve ter a posse de um objeto mágico (o terço) que, mediante certas palavras (a repetição das jaculatórias), possibilitará a realização da performance [afastar-se da (ou afastar a) inveja] e de sua consequente recompensa para ambos os sujeitos (recompensa para S1(telespectador): não se disjungir de seu Objeto de Valor / não sentir inveja; para S2(padre Marcelo): receber a adesão de mais telespectadores ao seu programa de TV e à sua fé). Esquematizando, teremos o seguinte: (1) - O sujeito S1 sente-se invejado e pede orações para afastar a inveja provinda do outro: 253 Inveja (Antissujeito) Provém do outro. performance esperada de Deus: Afastar a inveja do sujeito invejado. S3 (Deus) S2 (padre) S1 (telespectador invejado) Inquieto, pede para S2 (padre) orar a S3 (Deus). atende ao pedido e ora, com ajuda do Terço, a S3 (Deus). Supõe-se (pela fé) que atenda à oração de S2 (padre) e anule o antissujeito (inveja). Ilustração 24 (2) – O sujeito S1 é invejoso e pede orações para afastar-se da inveja: S1 (telespectador invejoso) S2 (padre) Sente inveja e recorre atende ao pedido e ora, com ajuda do Terço, a S3 (Deus). ao S2 (padre). S3 (Deus) Supõe-se (pela fé) que atenda à oração de S2 (padre) e anule o antissujeito (inveja). performance esperada de Deus: afastar a inveja do sujeito invejoso. INVEJA (Antissujeito) Provém do próprio S1. Ilustração 25 Observamos que o destinador padre Marcelo considera as paixões disfóricas antissujeitos / antidestinadores dos quais o fiel deve ser libertado. No programa terço bizantino, além da inveja, já se tornaram antissujeitos / antidestinadores o desânimo, o mau humor, a depressão e a angústia, dentre outros sentimentos moralizados negativamente pela sociedade. Considerar um sujeito envolvido por uma paixão moralizada negativamente é uma estratégia recorrente no programa em análise. 254 O Terço: ator adjuvante, doador de poder O instrumento de contato com o destinador Maior (Deus) é a ritualização adaptada do Terço bizantino, um dos símbolos da Igreja Católica Apostólica Romana, não conhecido no Brasil. Transcrevemos do site do padre Marcelo Rossi alguns trechos em que, com suas próprias palavras, o religioso procura explicar o que é o referido Terço e o porquê de sua utilização: [...] No desejo de torná-lo (o terço bizantino) mais acessível ao nosso modo ocidental de pensar e rezar, procurarei fazer uma oração adaptada ao terço de Nossa Senhora, embora ele continue sendo um modo de pensar e rezar bizantino [...]. [...] A oração através deste terço é uma forma de chegar à libertação que o nome de Jesus, pronunciado constantemente, traz ao nosso ser em sua totalidade [...]. [...] Esta oração (o terço) nos introduz no amoroso poder de Deus, ao mesmo tempo que passa a ser súplica constante em nossas vidas [...]. Analisando as palavras do padre Marcelo Rossi sobre seu programa de televisão, percebemos alguns pontos que confirmam aspectos já analisados. Um deles é a instauração da fé para que se chegue à libertação dos males e problemas emocionais. Outro aspecto do texto, confirmado pelo religioso, é o de que esse tipo de oração leva aos destinatários o amor e o poder de Deus, ou seja, há uma reafirmação da fé. Constatamos, também, que o destinador(padre) tem consciência de que a prática da repetição envolve a mente, acalma e equilibra a pessoa que está orando. Como já dissemos, o aspecto durativo-repetitivo é a característica mais marcante da prática do terço. Por ser longo demais, o destinador modificou radicalmente o ritual do terço bizantino original para cinco mistérios (em grupos de 255 dez contas), totalizando apenas cinquenta contas74. A sua oração, durante o programa da TV, resume-se à repetição de cinquenta jaculatórias. Essa configuração repetitiva tem por objetivo modalizar o sujeito S1, antes tenso e inquieto, em um /crer-ser/ das paixões da confiança e da fé, características de um sujeito da espera que pede a atuação de um intermediário S2(padre) cujo /dever-fazer/ contratual é o de ─ por meio da súplica ─ fazer o S3(Deus) atender ao desejo de S1(telespectador). Essa espera pode ser representada pelo seguinte esquema narrativo: pedido súplica recompensa S1 (telespectador) O sujeito S2 (padre) S3 (Deus) é o sujeito do fazer de S2 e de S1 que atribui (pede) ao suplica a Deus; é atuará na vida do telespectador, afastando dele sujeito do fazer S2 sujeito do fazer de S1 toda a inveja. (padre) um dever- e, ao mesmo tempo, fazer sujeito da espera de (rezar o Terço Bizantino) S3 Deus Ao abordar os contratos fiduciários, Barros (2002: 64) afirma que, por não se tratar de contratos verdadeiros, mas de pseudocontratos construídos sobre a base da confiança, o sujeito do fazer não se sente obrigado a fazer, já que sua modalização deôntica não passa de produto da imaginação do sujeito de estado. Todavia, o padre-destinador procura produzir o efeito de estar obrigado a cumprir o contrato de confiança, devido não só à própria natureza de sua função eclesiástica (dar assistência religiosa) como também à natureza da narrativa da qual é destinador: promessa em público e ao público da oração do terço ─ uma súplica ─ durante quinze dias. 74 O terço bizantino original (Cikotki, na liturgia bizantina) é constituído de um cordão de lã com nós correspondentes às contas dos rosários ocidentais, com o acréscimo de dez contas para marcar as centenas, o que, segundo o padre, faz desse terço uma prática de mil orações. 256 Configuram-se, dessa forma, duas grandes categorias fiduciárias: a promessa e a prece. Sob a promessa de orar, o destinador-padre manipula por sedução seu destinatário-telespectador; ao orar, no entanto, o padre é um destinador que procura, também por sedução, manipular o destinatário que, durante a oração, é o destinador Maior: Deus. O texto, predominantemente temático, caminha da disforia para chegar à euforia. Opõem-se, no nível fundamental, as categorias /perdição/ vs. /salvação/. O tema central do programa em foco ─ A fé liberta das paixões negativas ─ é recoberto por figuras esparsas como “Jesus”, “tirar a inveja do coração”, “proteção”, “família” e “coração”. Tais figuras remetem a aspectos humanos internos (o coração) e externos (a família). O coração figura no texto em pauta, sempre mencionado como o centro dos sentimentos; a família, na concepção católica, é a base sustentadora do cristão e da sociedade na qual ele se insere. Quanto às estratégias de interação entre os sujeitos, o programa do Padre Marcelo Rossi estrutura-se como enunciação enunciada, pois instala-se um nós inclusivo (eu + você), gerando efeitos de aproximação da enunciação, de subjetividade e de certa igualdade entre os interlocutores. Esse efeito é reforçado pelo lexema juntos (por isso, juntos...), necessário para a instauração imediata do contrato de confiança destinador(padre)/destinatário(telespectador). O eixo temporal está ancorado no presente. O modo imperativo instala o efeito de destaque da intermediação que o destinador(padre) quer demonstrar ter com o mundo espiritual e, mais especificamente, com Deus. O uso do “eu” confirma o lugar enunciativo assumido pelo padre católico. Os vocativos, reiterados do começo ao fim, são seguidos por verbos no tempo presente, eixo sobre o qual está construído o texto 257 inteiro. Concordamos com Orlandi (2006: 247) quando, tratando do discurso religioso católico, a linguista afirma: O eu-cristão pode falar diretamente com Deus, mas isto não modifica o seu poder de dizer, o lugar de onde fala. [...] A própria fala é ritualizada, e dada de antemão. Há fórmulas para se falar com Deus, mesmo quando se caracteriza essa relação de fala pela familiaridade, pela informalidade. Isso porque, quando se fala com Deus, se o faz por orações ou por expressões mais ou menos cristalizadas (como: Ó meu Deus! Faça com que...). Vejamos algumas das principais estratégias de interação entre os sujeitos empregadas pelo agente religioso durante o Terço bizantino: a- Emprego da 1ª pessoa do plural (nós), no lugar da 1ª pessoa do singular (eu) – plural majestático. O nós é amplificado por um sujeito que fala em seu nome e em nome da Igreja. O padre estabelece-se como alguém cuja autoridade provém da Igreja ou até do próprio Deus. [...] você pediu e nós vamos fazer. b- 1ª. pessoa do plural: nós inclusivo (eu + você/vocês): identificação Vamos orar contra todo e qualquer tipo de inveja, por isso, juntos [...] c- uso da primeira pessoa do singular (eu) no lugar da 2ª pessoa do singular ou plural (você ou vocês) Utilizando as palavras de Fiorin (2001: 92), nesse tipo de interação o essencial é descaracterizar a reciprocidade que se revela impossível. É como se o 258 enunciatário assumisse o que diz o enunciador, uma vez que não é preciso responder. No caso em pauta, há ainda um importante fator para o emprego dessa estratégia de interação: o agente religioso deseja que os telespectadores repitam com ele os sintagmas do terço, portanto fala como se fosse um deles, sem, porém identificar-se com os destinatários, já que cumpre sua função de mediador. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Essa é uma estratégia discursiva que engendra um efeito de sentido necessário para o destinador persuadir o destinatário a aderir ou permanecer fiel ao contrato75: - a individualização do coletivo (eu no lugar de vocês) potencializa o efeito de sentido de um destinador com força perante o mundo espiritual legitimando, assim, a posição de intercessor junto a Deus, que o agente religioso procura construir no discurso; o padre deve ser o porta-voz de Deus para os homens e o porta-voz dos homens para Deus. Dessa forma, o agente religioso diferencia-se da coletividade por colocar-se em um patamar superior, como intermediário, representante dos homens diante de Deus. Essa posição enunciativa é certamente um dos fatores que mais contribuem para a acentuada popularidade do Padre Marcelo Rossi. Além disso, instauram-se, nesse discurso, três bases da fidúcia, em profundidades tensivas diversas, ou seja, 75 Nos dias de hoje, dentre os principais motivos de realização dos programas religiosos de televisão, destacam-se o de manter o fiel vinculado àquela religião, aproximando-o de Deus, e também o de atrair o maior número possível de novos adeptos, mesmo oriundos de outras religiões (gerar mobilidade religiosa). 259 a crença na oração (ou no ritual) do terço, a confiança no agente religioso(padre Marcelo) como mediador e a fé em Deus, acionada a partir da crença e da confiança. Quadro-resumo das estratégias de interação entre os sujeitos do Terço bizantino Destinador a- 1ª. pessoa do plural (nós) no lugar da 1ª pessoa do singular (eu): plural majestático Destinatário Você(s)telespectador(ES) Efeito de sentido Pessoa amplificada por um sujeito que fala em nome dele, com autoridade da Igreja e de Deus. b- 1ª. pessoa do plural no lugar da 2ª pessoa do singular ou plural: (nós inclusivo) Identificação do agente religioso com o telespectador c- 1ª pessoa do singular (eu) no lugar da 2ª pessoa do singular ou plural (você ou vocês) Individualização do coletivo. destinador forte, intermediário entre Deus e os homens A análise semiótica dos três programas televisivos católicos envolveu os discursos de duas correntes atuantes dentro da Igreja Romana de hoje: (1) a Renovação Carismática Católica (RCC), em que se enquadram os programas Encontro com Cristo, do padre Alberto Gambarini, e o Terço bizantino, do padre Marcelo Rossi, e (2) a corrente tradicional, do programa O pão nosso de cada dia, apresentado pelo doutor em Ciência da Religião, padre Fernando J. C. Cardoso. Tais programas, a despeito de pertencerem ao seio da mesma Igreja, são marcados por estratégias de persuasão diferenciadas. Demonstrando erudição e em tom professoral, o destinador do primeiro programa católico analisado (O pão nosso de cada dia), de linha tradicional, padre Fernando recorre a citações bíblicas e alusões para pregar o Velho e o Novo Testamentos, destacando a ira de Deus sobre aqueles 260 que não obedecem à Palavra Revelada e a salvação, esta como meta final da caminhada dos homens através do deserto da vida. O segundo programa católico analisado, o Encontro com Cristo, apresentado pelo padre Alberto Gambarini, assemelha-se em vários aspectos aos programas da neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus. Fartura, bens materiais, cura das paixões negativas, milagre e derramamento da graça divina são oferecidos pelo padre aos telespectadores, principalmente àqueles que forem ao grande Encontro, na Igreja Nossa Senhora dos Prazeres e Divina Misericórdia. No Encontro com Cristo, o agente religioso “cobra” a colaboração pecuniária dos que “foram ajudados” pelo programa, oferece livros de sua autoria, CDs e DVDs que auxiliarão na solução dos problemas e na “cura” das feridas emocionais. O destinador valoriza os objetos mágicos (Santíssimo Sacramento, medalhinha milagrosa), prega o amor de Deus, concretizado pela promessa de atuação do Espírito Santo e se mantém, como os outros padres apresentadores católicos, em um patamar enunciativo intermediário entre Deus e os homens. O terceiro e último programa ─ Terço bizantino ─ em que o apresentador, padre Marcelo Rossi, modifica a reza do terço tradicional para adaptá-la a um novo processo que, mesmo ainda repetitivo e com forma fixa, deixa de ser uma oração não natural para transformar-se em uma prece natural, já que muitos são os temas abordados no Terço. A saúde, a proteção, o trabalho, as paixões negativas, o casamento, a situação financeira, enfim, todos os temas da vida cotidiana podem ser o foco do programa. A partir recorrência das diferentes características discursivas de cada um dos programas religiosos analisados nesta tese, procuraremos estabelecer, ao longo 261 páginas seguintes, os éthe televisivos das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana. 262 CAPÍTULO VI Comparação entre os aspectos formadores dos ethé discursivos extraídos dos programas de televisão das Igrejas Universal do Reino de Deus (IURD) e Católica Apostólica Romana (IC) 1- Para a IURD, o homem é vítima; para a Igreja Católica, culpado. 1.a- O discurso da IURD, na televisão, instaura a presença do homem como vítima e não como culpado. No discurso iurdiano, notamos uma constante manipulação por intimidação decorrente da instauração de um antissujeito sobrenatural, onisciente e onipotente – o Mal – figurativizado por um sem-número de nomes como coisa estranha, espíritos malignos, encosto, maldição etc., antissujeitos a quem são atribuídas todas as mazelas da vida do telespectador e que só poderão ser destruídas com a ajuda da Igreja e de seus pastores. O homem é vítima de misteriosas e desconhecidas entidades que habitam os planos espirituais e de maldições herdadas do passado. A construção de simulacros negativos do destinatário(telespectador) instaura todo tipo de dificuldade, desde as de saúde até os problemas financeiros, levando o telespectador ao medo, à vergonha e ao desespero. Envergonhado, amedrontado e desesperado na luta contra o desconhecido, o sujeito sente-se incapaz de resolver sozinho seus problemas. O único meio de sair dessa situação é recorrer à IURD: [...] Há uma coisa estranha que acompanha seu marido, que acompanha o seu filho [...] (pastor Denílton) [...] depressão...pânico...reumatismo no sangue[...] (testemunho de Priscila) [...] o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha [,,,] (pastor Denílton) [...] maldição dos ancestrais, aquilo que acompanha o seu pai, sua mãe, os seus antepassados [...] (pastor Denílton) 263 E o senhor, a senhora está passando por um momento difícil. (pastor Márcio) [...] eu perdi mais de um milhão de reais de patrimônio. (testemunho do Sr Alencar) De repente começou o ano e as coisas começaram a se enrolar, as coisas começaram a dar errado pro senhor ou pra senhora. (pastor Márcio) 1.b- O discurso católico de televisão atribui ao homem a responsabilidade por sua situação. O homem é pecador, culpado pela mazelas da vida. Os programas católicos também constroem simulacros negativos dos fiéis. No entanto, diferem-se dos programas iurdianos analisados porque, no texto católico, as vicissitudes da vida não são atribuídas à presença de entidades malignas, mas, sim, ao próprio modo de agir e de ser do destinatário (o homem é pecador, já nasce pecador e é responsável por sua vida). O sujeito deve procurar a ajuda da Igreja para passar pela vida sem cair nas tentações e nos pecados (discurso tradicional) ou para, além disso, curar-se das próprias feridas emocionais e encontrar uma vida plena (discurso carismático). Por causa de inúmeras provocações, por causa de inúmeras tentações e, sobretudo, quedas nas tentações, o texto afirma que nenhum deles, com exceção de Josué, filho de Nun, entrou na Terra Prometida. (padre Fernando Cardoso) Você diz que ama a Cristo, mas o seu amor a Cristo é capaz de vencer as tentações e o pecado? (padre Fernando Cardoso) [...] pensam e agem da mesma forma aqueles que por um nada que se chama pecado são capazes de romper a amizade e a intimidade com Cristo e com Deus [...] (padre Fernando Cardoso) 2- Medo/vergonha/desespero vs. amor/coragem/fé. 2.a- IURD: instaura paixões negativas como ponto de partida do processo da persuasão. Com o objetivo de suscitar a paixão do medo nos telespectadores, a IURD banaliza a atuação do Mal, atribuindo-lhe a responsabilidade até por fatos 264 corriqueiros da vida, como, por exemplo, dores de cabeça e nervosismo. Esse convívio constante com poderosas entidades espirituais gera, no telespectador, o medo e a sensação de impotência para, sozinho, livrar-se da(s) entidade(s) que o persegue(m). O destinatário, dependente da ajuda da Igreja, deve, então, comparecer ao templo da IURD que, poderosa e conhecedora profunda do mundo espiritual, estará sempre pronta para combater o inimigo. Esta “propaganda de televisão” da IURD, na voz de um locutor desconhecido, é um exemplo dessa característica: Existem dez sintomas que caracterizam a influência dos espíritos do Mal: -nervosismo -dores de cabeça constantes -insônia -medo -desmaio -ataque -desejo de suicídio -doenças que os médicos não descobrem as causas -visão de vultos ou audição de vozes -vícios ou depressão 2.b- Igreja Católica: recorre à coragem, ao amor e à fé. O discurso católico procura transmitir coragem aos telespectadores, eliminando paixões moralizadas negativamente como o medo, a inveja, a ansiedade, a solidão (Terço bizantino) ou incentivando a caminhada pela vida de acordo com os planos de Deus (O pão nosso de cada dia, Encontro com Cristo) [...] caríssimos irmãos, agora nós nos fatigamos, agora nós trabalhamos, agora nós perseveramos, agora nós caminhamos e seguimos Jesus. A estrada que Jesus nos aponta no início deste ano e já nô-la apontou conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus. (Padre Fernando Cardoso O pão nosso de cada dia) Nós temos que acreditar que quando andamos na Palavra de Deus, quando nós queremos viver o Seu plano de amor, Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante, como aconteceu na multiplicação dos pães. (Padre Alberto Gambarini - Encontro com Cristo) Senhor, tira do meu coração toda a inveja.(Padre Marcelo Rossi - Terço bizantino) 265 [...] orientações práticas de como aprender a renovar a mente e a lidar com os sentimentos de rejeição, a falta de perdão, depressão, medo, ansiedade e solidão. (Padre Alberto Gambarini - Encontro com Cristo) 3- Isotopia religiosa do Mal e do Bem. 3.a- A IURD concretiza uma isotopia religiosa do Mal e do Bem em todos os programas televisivos. Durante o transcorrer dos textos, a isotopia maniqueísta do Mal e do Bem é constantemente concretizada por maldições ou por uma entidade do mundo espiritual que atua no mundo material, ocasionando inúmeras perdas ao destinatário. Todos os pontos negativos da vida do destinatário, sejam relativos à falta de saúde, de amor ou de dinheiro, são atribuídos a essa atuação. A duratividade do Mal é extensa, de geração para geração. O Bem é concretizado pela IURD, com seus bispos e pastores. O Mal Há uma coisa estranha acompanhando a senhora, o senhor e você não sabe o que fazer? (pastor Denílton) [...] sabe por que essa coisa estranha entrou aí? (idem) [...] alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó de sumiço [...].(idem) [...] vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais [...] (idem) Por trás desse problema que a senhora enfrenta, por trás desse problema que o senhor enfrenta, existe um causador, existe um Mal. Esse Mal, ele não é vencido com o tempo, ele não é vencido com choro, com lágrimas. (pastor Rogério) O Bem Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família.(pastor Denílton) E, aliado ao Bem, então eu vou vencer este mal.(idem) 3.b- Os programas televisivos católicos não recorrem, com frequência, às isotopias religiosas do Bem e do Mal. 266 Há uma tendência da Igreja Católica, em seus programas de TV mais recentes, de não recorrer com frequência à isotopia religiosa do Bem e do Mal. O discurso católico moderno tem deixado de lado, na televisão, a visão maniqueísta que colocava os homens sob as influências de demônios. A estratégia católica instala paixões moralizadas negativamente (inveja, angústia, depressão) como antissujeitos que “aprisionam” o telespectador (Encontro com Cristo). Da mesma forma, no programa Terço Bizantino, o padre Marcelo Rossi dá às paixões negativas (inveja, depressão, angústia, desânimo etc.) o status de antissujeito76 que pode desviar o fiel da salvação. [...] tira do meu coração toda a inveja.(Padre Marcelo Rossi) [...] proteja-me de toda a inveja.(idem) [...] proteja minha família da inveja.(idem) O sujeito pecador é culpado de suas próprias mazelas e pode ser – dependendo de sua aceitação da Palavra Revelada – digno do amor e da graça divinos ou sofrer a ira de Deus. [...] E esses doze cestos simbolizam as bênçãos que Deus deseja dar a você, a mim e a todos nós. Não deixemos estes cestos ficarem vazios por causa da nossa incredulidade [...] (padre Alberto Gambarini) – fé e obediência à Palavra. [...] o texto afirma que nenhum deles, com exceção de Josué, filho de Nun, entrou na Terra Prometida. Todos eles morreram no deserto.(Padre Fernando Cardoso) – a ira de Deus. 4- Sucesso material vs. salvação espiritual. 4.a- Reflexo da pós-modernidade, o discurso iurdiano promete o sucesso por meio de simulacros de uma vida material abundante. A promessa de felicidade para quem frequenta a igreja é uma técnica persuasiva fundamental e recorrente no discurso iurdiano. Após erigir inúmeros 76 Não é o mesmo antissujeito do discurso iurdiano. No discurso neopentecostal, como vimos, o antissujeito está concretizado em uma entidade espiritual maligna com vida própria (o Diabo, o Mal, o encosto), algumas vezes acionado por paixões negativas, cuja presença afastará o telespectador do sucesso e da felicidade; no discurso carismático dos padres Alberto Gambarini e Marcelo Rossi, por exemplo, o antissujeito está concretizado nas figuras das paixões negativas (inveja, ansiedade, depressão, desânimo). 267 simulacros negativos do telespectador, o destinador(bispo/IURD) doa confiança e esperança, com a promessa de que, caso procurada, a IURD vencerá as entidades causadoras dos males. A partir daí, o sucesso, concretizado por bens materiais, dinheiro, emprego, ascensão social e saúde, instalar-se-á na vida do telespectador. Não há menção, na totalidade iurduana, da salvação espiritual pós- vida terrena. Olha esses resultados! Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor [...] (pastor Denílton) Isso mesmo! Está escrito que você estenderia as mãos para emprestar a muita gente, não tomaria emprestado. (pastor Márcio) Quando eu comecei a participar do Congresso, Deus me deu a direção, então a coisa começou, de fato, a mudar, assim, numa rapidez muito grande. Deus me deu a direção [...] (testemunho do Sr. Alencar) [...] tenho um apartamento muito bom, tenho... além de ter um apartamento, tenho mais uma casa, tenho três veículos, tenho investimentos imobiliários que ainda estão aí para sair...não dá para mostrar ainda porque são investimentos de longo prazo. Tenho uma empresa na região dos Jardins, na área de decoração de interiores também, que está indo de vento em popa, está cada vez mais crescendo. Eu tenho cada vez mais ampliado os produtos que trabalho [...] (idem) Você viu o que “seu” Alencar fez? Ele tomou uma decisão, ele tomou uma atitude diante da situação, porque não adianta ficar se escondendo, ficar se esquivando. (pastor Márcio) Mas eu tenho certeza de que Deus pode te ajudar, eu tenho certeza que através da nossa oração [...] (pastor Márcio) Sim, hoje eu consigo dormir em paz, consigo atender os meus fornecedores, consigo atender os meus clientes tranquilamente. Aquelas coisas desagradáveis não existem mais. (testemunho de Dona Leia) 4.b- Católicos: carismáticos – valorização da fartura e do bem-estar terrenos. tradicionais – valorização da salvação. 268 O discurso católico carismático carrega traços do discurso neopentecostal e da pós-modernidade, como a valorização da fartura, do bem-estar e do homem individual. [...] Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante [...] (padre Alberto Gambarini) Você está precisando de bênção, cura e libertação? Então venha dia 22 de fevereiro, domingo de carnaval, participar do louvor Encontro com Cristo [...] .(padre Alberto Gambarini) 5- O poder vs. o saber. 5.a- O discurso da IURD afirma o domínio do mundo espiritual sobre o material e aponta para o poder da Igreja sobre ambos. O discurso da IURD estabelece uma hierarquia entre o mundo espiritual e o terreno, enfatizando a superioridade do primeiro sobre o segundo. O mundo espiritual influencia o material, o invisível sobrepuja o visível e sua ação, quando maléfica, só pode ser anulada pela única entidade com poder suficiente para tal: a IURD. Os atores do mal são sempre construídos de acordo com a cultura local, como forma de a Igreja ser mais facilmente aceita pelo povo da região em que se instala. Para gerar o medo, o discurso admite que qualquer homem comum pode acionar os planos espirituais malignos por meio de uma praga, maldição ou feitiçaria, mas, desprovido do conhecimento e da força suficientes para contê-los, estará sempre à mercê dessas entidades poderosas, a não ser que recorra à ajuda da Igreja. O plano espiritual é instaurado sob um clima de mistério e poder, de forma que o destinatário esteja sempre sujeito a ele. Esse forte assujeitamento é estratégia crucial para levar o telespectador a procurar a ajuda da IURD. Estamos começando um trabalho de libertação muito forte. É a quebra da maldição dos ancestrais, aquilo que acompanha seu pai, sua mãe, os seus antepassados; que tem acompanhado a senhora, o senhor. Comece a quebrar este mal, nesta terça feira, em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus [...] (pastor Denílton) 269 [...] por trás desse problema que o senhor enfrenta, existe um causador, existe um Mal. Esse Mal, ele não é vencido com o tempo, ele não é vencido com choro, com lágrimas. (pastor Rogério) Este Mal que está na sua vida, enquanto o tempo vai passando, ele vai crescendo, por isso que a cada dia a sua situação está cada vez pior. Você vai nos médicos, os médicos não descobrem o que você tem, você vive com dores, vive doente; o seu casamento, de uma hora pra outra esfriou, nada tem dado certo na sua vida; a sua autoestima está lá embaixo, porque há um Mal na sua vida que tranca, que amarra. Você precisa de uma libertação [...] (pastor Rogério) 5.b- O discurso católico aponta para o saber (o conhecimento das escrituras) e a oração. Os programas católicos em análise destacam a prática dos preceitos das Escrituras e as orações como forma de cura das paixões negativas (Terço bizantino e Encontro com Cristo), da melhoria financeira (Encontro com Cristo) e de busca da salvação (O pão nosso de cada dia). As passagens bíblicas citadas, além de carregarem argumento de autoridade produzem efeitos de realidade. A Igreja Católica, como já afirmamos, mostra-se porta-voz da Palavra Revelada e procura demonstrar seu saber tanto pela erudição quanto pelo conhecimento (domínio) do desconhecido. A obscuridade entre o dito de Deus e o dizer do homem é mantida pelo agente religioso católico porque, como intermediário / intercessor, o padre conhece o abismo que separa a significação divina da significação humana (ver página 189). Melhoria da vida material (padre Alberto Gambarini) [...] Ele é Aquele que está estendendo as mãos sobre a nossa vida, sobre a nossa casa, a nossa família, a nossa saúde, o nosso trabalho, o nosso estudo, para que tudo possa ser para a maior glória do nosso Deus. Você verá as graças dos céus sendo derramadas em sua vida. Cura emocional Pare de sofrer emocionalmente, deixe Jesus curar as suas feridas interiores lendo o livro que eu escrevi para você: “Cura das emoções em Cristo” (padre Gambarini) Vamos orar contra todo e qualquer tipo de inveja. (padre Marcelo Rossi) 270 Salvação A estrada que Jesus nos aponta no início deste ano e já nô-la apontou conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus. (padre Fernando Cardoso) 6- Testemunhos vs. citações bíblicas 6.a- A IURD recorre constantemente a testemunhos, gênero trazido de outras esferas de ação. O discurso iurdiano credencia sua legitimidade por meio de testemunhos que narram histórias de vida. Os testemunhos são estratégia largamente empregada nos programas de rádio e de televisão dessa Igreja. Neles, um sujeito bem-sucedido na cura de uma doença grave, na vida material ou no relacionamento afetivo, relata a “virada” ocorrida em sua vida, sempre depois que começou a frequentar os templos da Universal. Isso significa que cada testemunho é crucial para a estratégia persuasiva porque ele legitima o discurso e provoca uma mudança na orientação tensiva, da intensidade para a extensão (das altas tensões do medo/vergonha/desespero para a esperança). Nos programas exibidos mais recentemente, o apelo aos testemunhos tem sido ainda mais constante. Já há programas de televisão da Universal constituídos quase só por esse gênero. [...] você vai acompanhar vários testemunhos de pessoas que também traziam o Mal com elas, mas essas pessoas, elas alcançaram a libertação através de uma corrente forte de libertação [...] Repórter: Hoje a senhora consegue ter qualidade de vida? Dona Leia: Sim, hoje eu consigo dormir em paz, consigo atender os meus fornecedores, consigo atender os meus clientes tranquilamente. Aquelas coisas desagradáveis não existem mais. [...] A minha dívida, ela está literalmente quitada. 6.b- O discurso católico emprega citações de textos bíblicos que, estrategicamente, substituem os testemunhos utilizados pela IURD. 271 Enquanto os pastores da IURD reforçam os efeitos de realidade ao apresentarem muitas entrevistas-testemunhos, os padres preferem o argumento de autoridade contido nas citações de narrativas da Bíblia. As citações bíblicas carregam todo argumento de autoridade da voz de Deus. É como se o próprio Deus testemunhasse em favor dos argumentos do destinador. E o autor da Carta aos Hebreus [...] diz o seguinte: ‘Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus que somos nós, seguidores de Jesus’ (Hebreus 4) [...] disse André: ‘Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isto para tanta gente?’ (João 6: 9) “Hoje, se ouvirdes Sua voz, não endureçais os vossos corações como aconteceu na provação no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram colocando-me à prova. Por isso me irritei com essa geração e afirmei: ‘Sempre se enganam no coração e desconhecem os meus caminhos. Assim, jurei minha ira, não entrarão no meu repouso.” (Hebreus 3, 7-14) 7- Inferno de quem não vai ao templo vs. inferno de quem não obedece à Palavra. 7.a- O discurso iurdiano provoca efeitos de realidade com figuras disfóricas e eufóricas que representam, respectivamente, a vida dos que frequentam e dos que não frequentam o templo . Os efeitos de realidade, criados pelas figuras (e fetiches) que recobrem os temas, auxiliam definitivamente o processo de persuasão e estão, nos programas, divididos em dois grupos: um grupo disfórico, representativo do inferno que é a vida material do espectador não-fiel (aquele que não vai ao templo) e outro eufórico, representando o paraíso que é a vida do fiel assíduo. Isso nos faz confirmar a intenção principal do discurso iurdiano: fazer os telespectadores participarem dos cultos ou eventos nos próprios templos. Grupo das figuras disfóricas, representativas do inferno da vida dos que não frequentam a IURD: -coisa estranha, dor, sofrimento, depressão, pânico, reumatismo no sangue, injeção, desengano, dor nas juntas, maldição, trabalho de bruxaria, pó-desumiço, falta de saúde, dívidas, problemas, miséria, momentos difíceis, dinheiro emprestado em bancos, agiotas, contas, caminhos fechados, desemprego. 272 Grupo das figuras eufóricas, representativas da vida plena de quem frequenta os templos da IURD: -curas, libertação, felicidade, realização, ausência de problemas, resultados positivos, fim dos problemas financeiros, presença de Deus na vida financeira, abundância, quitação das dívidas, lucros, riquezas, patrimônio, prestígio social, amigos, casas próprias, investimentos, posse de veículos, empresa na região dos Jardins. 7.b.1- A Igreja Católica, em seu discurso tradicional (programa O pão nosso de cada dia), emprega figuras disfóricas e eufóricas para recobrir os temas decorrentes da vida de quem não obedece à Palavra Revelada. No programa do padre Fernando Cardoso, cujo discurso é o tradicional, as figuras não são empregadas para recobrir temas relativos a quem frequenta ou não as igrejas, mas a quem obedece ou não aos preceitos bíblicos. Figuras disfóricas relativas à vida de quem não obedece aos preceitos bíblicos: -escravidão, irritação, atravessar o mar a pé, deserto, peregrinar pelo deserto, morrer no deserto. Figuras eufóricas relativas a quem obedece aos preceitos bíblicos: -novas perspectivas, repouso, repouso de/com Deus, trabalhar, perseverar, entrar no grande sábado, Canaã, novo povo de Deus. 7.b.2- A Igreja Católica, no discurso carismático, emprega as figuras de forma semelhante aos programas iurdianos. O programa Encontro com Cristo emprega figuras eufóricas relativas aos que vão ao templo, têm fé ou leem os livros escritos pelo padre Alberto. Figuras eufóricas relativas a quem vai ao Encontro/igreja/lê os livros escritos pelo padre/anda na Palavra. -unção com óleo bento, medalha milagrosa, Santíssimo Sacramento, milagre, Espírito Santo, Deus, consolação, palavra de Deus, plano de amor, mover os céus, multiplicar bênçãos, vida abundante, feridas interiores curadas. Figuras disfóricas relativas a quem não vai ao Encontro/igreja/não lê os livros escritos pelo padre/não anda na Palavra. -problemas, cestos vazios, dificuldade, feridas interiores, rejeição, falta de perdão, medo, ansiedade, solidão. 8- Sujeito adjuvante vs. sujeito intercessor 8.a- A IURD assume o papel de sujeito adjuvante para resolver os problemas dos fiéis, criando, assim, um ciclo de assujeitamento. 273 A IURD tem o conhecimento e o poder necessários para derrotar o Mal. Em vista disso, instalar-se-á no discurso como o sujeito adjuvante que, ao lado de Deus, libertará os destinatários das forças misteriosas que os prejudicam. Além disso, atuará como reguladora entre o sujeito(fiel) e seus objetos de valor. Forma-se um forte ciclo de assujeitamento decorrente do efeito de sentido causado pela postura de domínio da Igreja frente ao misterioso e desconhecido mundo espiritual: quanto maior a presença da IURD na vida dos telespectadores, maior conjunção com a felicidade. [...] nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais Elas também pensavam assim, mas tomaram a decisão, não ficaram em casa só acompanhando o programa, tomaram a decisão de vir à igreja, de participar dessa reunião dos empresários e se submeter a Deus. Por isso, elas saíram do anonimato e alcançaram essa vida de qualidade [...]. 8.b- O discurso católico exerce o papel de intermediador/ intercessor. O discurso católico (tradicional e carismático) coloca o agente religioso um degrau acima do fiel, mas abaixo de Deus, mantendo a Igreja e seus padres em uma posição enunciativa intermediária entre o profano e o sagrado. A chave de abertura do mundo espiritual são a Bíblia e, principalmente, as orações. A reza do terço pelo padre é um exemplo dessa estratégia. A personalidade católica intercessora está registrada própria teologia da Igreja uma vez que reconhece em Nossa Senhora (existe Nossa Senhora Medianeira) e na figura dos santos o papel de mediação/intercessão entre Deus e os homens. Deus, que instruístes os corações de Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo espírito e gozemos sempre da Sua consolação. (Oração ao Divino Espírito Santo – padre Alberto Gambarini, conduzindo a oração) [...] olhemos para Jesus Cristo confiando que Ele é Aquele que está estendendo as mãos sobre a nossa vida [...] (padre Alberto Gambarini) [...] Nós gostaríamos em primeiro lugar, hoje, de elevar preces e súplicas a Deus por aqueles cristãos que [...] (padre Fernando Cardoso) 274 Jesus, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus...(padre Marcelo Rossi) 9- Preces naturais vs. preces não naturais. 9.a- A IURD utiliza as preces naturais para mostrar intimidade e facilidade no trato com Deus. Os agentes religiosos iurdianos não utilizam orações prontas, preferindo as preces naturais, ou seja, improvisam as orações conforme o tema, “conversam com Deus” para causar o efeito de intimidade / facilidade da Igreja e de seus pastores no trato com o plano divino. Não há mantras nem é uma reza ritualística. Há, sim, o efeito de um “diálogo” com um Deus dito presente e que ouve a Igreja. O fiel ouve atentamente a prece e, quando participa, responde com um “Sim, Senhor Jesus” ou com um “Obrigado, Senhor”. Isso corrobora nossa tese de que a IURD e Deus ocupam o mesmo lugar enunciativo. Ocupar o mesmo lugar enunciativo de Deus é uma característica marcante das Igrejas de confissão neopentecostal. O emprego desse tipo de prece funciona como um complemento ao éthos de onisciência e de conhecimento dos planos espirituais que o agente religioso procura construir no discurso. Abaixo, transcrevemos uma prece não natural transmitida diretamente do templo, pela televisão. Senhor, nosso Deus e nosso Pai, a tua Palavra é infalível, é imutável, e a tua Palavra nos garante que na cabeça do justo há benção e é por isso que nós consagramos agora esse azeite para que quando nós derramarmos sobre a cabeça dos 318 pastores e depois, meu Deus, nós iremos recolher esse óleo nesse recipiente porque, no dia 10, nós estaremos consagrando teu povo, para que eles sejam grandes, para que eles venham a ser cabeça, porque a tua Palavra diz que no lugar da vossa vergonha tereis dupla honra. O senhor mesmo nos garante: 'sereis cabeça e não cauda, estareis por cima e não por baixo, emprestarás a muita gente, porém, tu não tomarás emprestado', e quando esse óleo, meu Deus, for derramado sobre a cabeça do teu povo, que a benção venha a estar com eles, que a vitória, a conquista, que a tua Palavra venha a sair do papel e venha se materializar na vida e no teu povo para a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém e graças a Deus. (Oração durante a Reunião dos 318 pastores) 275 9.b- O discurso católico opta pelas preces não-naturais e pela dessemantização. A improvisação dá lugar à repetição. O emprego das preces não-naturais, orações-base do catolicismo, ensinadas por santos, papas ou pelo próprio Jesus (o Pai Nosso, a Ave Maria, o Credo, a oração ao Divino Espírito Santo, o terço tradicional e até a missa), adotam forma ritualística de mantras, cujo efeito de sentido é o de mistério e de incursão do agente religioso-padre no plano divino, ou seja, o padre exerce o papel de intermediador entre Deus e o homem. Com as palavras que lhe foram ensinadas, ele “sobe” até o plano divino e abre as portas para que a prece seja atendida. O padre é o porta-voz dos pedidos humanos. Essa forma ritualística, com a repetição de vocativos, é uma antiga estratégia da Igreja Católica que carrega em si um forte argumento de autoridade. É uma “forma de se falar com Deus”. A repetição em ritmo de mantra, o vocabulário de nível elevado e até o retorno das missas rezadas em latim77 reforçam o papel de mediador do padre, competente para interceder junto aos planos divinos. O site católico Veritatis Splendor, referindo-se à volta das missas rezadas em latim, afirma que participar da missa é unir-se a Cristo, ao seu sacrifício, não necessariamente entender cada palavra proferida ou responder a cada oração. A repetição de frases prontas constitui boa parte do texto das missas (lembremos, por exemplo, de: “Senhor, escutai a nossa prece” ou “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós” etc.), o que não ocorre nos cultos neopentecostais. Essa declarada opção pela dessemantização significa que o discurso católico, nesse ponto, privilegia o significante em prol de um significado global. Lembremo-nos, aqui, a definição de Greimas & Courtés (2008: 131) em que, na dessemantização, a perda de certos conteúdos parciais beneficiam 77 A partir do mês de julho de 2007, o Papa Bento XVI autorizou oficialmente a celebração (facultativa) das missas em latim. 276 o significado global de uma unidade discursiva mais ampla. A repetição, nesse caso, prestigia o conteúdo. Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Deus que instruístes os corações de Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da Sua consolação. (Prece não natural de invocação do Divino Espírito Santo, programa Encontro com Cristo) 10- Pós-modernidade vs. tradição. 10.a- O discurso iurdiano apresenta forte influência da sociedade pósmoderna ao estabelecer relação de proporção direta entre a felicidade e os bens materiais (consumismo): quanto mais bens, maior a felicidade. Os programas televisivos iurdianos adotam os padrões da sociedade pósmoderna (a felicidade e a satisfação material aqui e agora). O padrão pósmodernista do homem de sucesso financeiro, que vive bem e é invejado pela sociedade, é a meta final para todos os fiéis. Sou uma pessoa completamente feliz, tenho um casamento abençoado, uma família maravilhosa, tenho um apartamento muito bom, tenho... além de ter um apartamento, tenho mais uma casa, tenho três veículos, tenho investimentos imobiliários que ainda estão aí para sair...não dá para mostrar ainda porque são investimentos de longo prazo. Tenho uma empresa na região dos Jardins, na área de decoração de interiores também, que está indo de vento em popa, está cada vez mais crescendo. Eu tenho cada vez mais ampliado os produtos que trabalho e a minha vida, hoje, está completamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. (testemunho do Sr. Alencar sobre o altar de um templo) 10.b- O discurso católico tradicional busca a felicidade na salvação eterna; para o carismático, também herdeiro da pós-modernidade, a felicidade já começa na vida terrena. A salvação é a meta do discurso católico tradicional. O texto do padre Fernando Cardoso aponta para o repouso em Deus, depois da caminhada da vida. 277 Isso significa que a salvação só pode ser alcançada depois da vida terrena, por aqueles que seguirem a Jesus, e corresponde à vida eterna junto a Deus. A estrada que Jesus nos aponta no início deste ano e já nô-la apontou conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus. (padre Fernando Cardoso) O discurso católico carismático, da mesma forma que os neopentecostais, também apresenta características pós-modernas, como a individualização do homem, a divulgação da Teologia da prosperidade, a banalização dos milagres e de objetos mágicos. [...] multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante, como aconteceu na multiplicação dos pães. (padre Alberto Gambarini) 11- Objetos mágicos negativos e positivos vs. objetos mágicos positivos e relíquias. 11.a- A IURD oferece objetos mágicos (água, toalha, terra do Sinai etc.) que ajudarão os destinatários a solucionar os problemas. Enquanto as religiões protestantes tradicionais abominam definitivamente a atribuição de valores a quaisquer objetos, a IURD assemelha-se, em parte, à cultura católica quando eleva ao status de sagrados o vidrinho com a água do Sinai, a rosa abençoada, uma toalha, um documento abençoado. Esses “poderes” dados aos objetos fogem à tradição protestante, mas florescem nas Igrejas neopentecostais. Nicodemus (2008: 31) atribui o uso desses objetos a uma espécie de retorno de práticas medievais católicas, e afirma: Quando vejo o apego de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas ─ de objetos ungidos e consagrados para o culto a Deus, busca por bispos e apóstolos, recurso a práticas supersticiosas ─, perguntome se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neocatolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma católica. O discurso iurdiano atribui poderes não só a objetos mágicos positivos mas também a negativos, como os pós de sumiço, as cordas com nós (amarrações) etc. Eis alguns exemplos dos objetos mágicos nesse discurso: 278 [...] quando essa água tocar no seu corpo, todo o Mal que existe na sua vida, que existe nos seus caminhos, eles serão banidos da sua vida. [...] é alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó de sumiço [...] Pegue sua carteira profissional, pegue sua carteira de trabalho, esteja conosco nesta segunda-feira. Nesta sexta-feira, nós estaremos aspergindo uma água energizada sobre você, uma água consagrada [...] 11.b- A Igreja Católica mantém a tradição milenar tentando os fiéis com objetos mágicos positivos de toda a sorte. Historicamente, o catolicismo vem oferecendo todo tipo de objetos mágicos aos fiéis, desde a cruz até despojos de santos. Quanto à natureza, esses objetos dividem-se em dois grupos: o primeiro grupo é formado pelas relíquias, objetos que a Igreja, historicamente, reconheceu como sagrados. São pedaços da cruz de Cristo, o santo sudário, os cravos da cruz, o santo graal, entre outros. Segundo a enciclopédia eletrônica Wikipédia, a Igreja Católica definiu a seguinte classificação de relíquias: • Primeira Classe: parte do corpo de um santo (ossos, unhas, cabelo etc.) • Segunda Classe: objetos pessoais de um santo (roupa, um cajado, os pregos da cruz etc.) • Terceira Classe: inclui pedaços de tecido que tocaram no corpo do santo ou no relicário onde uma porção do seu corpo está conservada. O segundo grupo é formado pelos objetos que mudam de status, passando a ser mágicos após um ritual ou uma bênção, como é o caso da água benta, das medalhinhas, dos santinhos. Esse grupo não é exclusivo da Igreja Católica. Não só a IURD, como vimos anteriormente, mas as Igrejas neopentecostais em geral têm sido muito criativas com relação a esses objetos e oferecem toalhinhas, bengalinhas 279 de Moisés, vidrinhos com água do Jordão, óleos, terras do Sinai, rosas milagrosas etc. Ao chegar, você receberá uma unção com o óleo bento nas suas mãos, uma medalha milagrosa e quando o santíssimo sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre [...]. (programa católico Encontro com Cristo) No final do programa, eu vou abençoar você e tudo aquilo que estiver diante da televisão, inclusive a água. 12- Medo do Mal vs. medo do Bem (Deus). 12.a- A IURD define a existência modal do sujeito-telespectador, frente ao Mal, de duas formas distintas: (a) A primeira delas reflete um sujeito amedrontado diante do Mal, figurativizado de forma genérica e difusa (a coisa estranha, a maldição, o encosto) ou de forma mais definida e específica (o inimigo, o Diabo) que não deixará o telespectador jungir-se ao seu objeto de valor (riqueza, saúde); b) A segunda existência modal refere-se a um sujeito temeroso diante da vergonha de ser sancionado negativamente pela própria sociedade em que vive (medo dissuasório), por causa da não-conjunção com o objeto de valor almejado (riqueza, sucesso, bens materiais). Exemplo de (a): Se a senhora, o senhor está sofrendo é porque existe uma força do Mal na sua vida, força do Mal esta que pode ter entrado por uma inveja, por uma maldição, por um feitiço e este Mal não vai sair da sua vida por si só. Ele não vai sair com o tempo. É preciso que este Mal...ele seja arrancado [...] Exemplo de (b): [...] essas dívidas foram contraídas no intuito de resgatar o patrimônio, no intuito de resgatar o prestígio diante da sociedade, diante dos amigos e no intuito, também, de honrar os compromissos. [...] uma falta de atitude pode deixar você dependendo dos outros, vivendo uma vida vexatória, vivendo uma vida de humilhação [...]. 12.b- O discurso católico televisivo define a existência modal do sujeito frente à ira de Deus e às paixões negativas. 280 Em um primeiro momento, o agente religioso católico tradicional manipula por intimidação um sujeito-telespectador pecador que deve se amedrontar diante da possibilidade de um Deus irritado, indignado e irado com a conduta humana (discurso da Igreja tradicional). O agente religioso carismático, no entanto, põe Deus a serviço dos homens para curá-los das paixões negativas (rejeição, depressão, ódio, medo, ansiedade, solidão) instauradas pelo discurso como antissujeitos causadores de feridas interiores. - Manipulação por intimidação diante da ira divina (católico tradicional): Por isso me irritei com essa geração e afirmei: ‘Sempre se enganam no coração e desconhecem os meus caminhos. Assim, jurei minha ira, não entrarão no meu repouso’.”(Hebreus 3) - Manipulação por tentação: curar-se das feridas emocionais (carismático) “Cura das emoções em Cristo” [...] orientações práticas de como aprender a renovar a mente e a lidar com os sentimentos de rejeição, a falta de perdão, depressão, medo, ansiedade e solidão.[...] 13Alusões vs. citações 13.a – O discurso da Universal prefere alusões a citações bíblicas. O agente religioso enriquece seus argumentos com alusões a passagens bíblicas, e quase nunca com citações. Essa estratégia traz ao destinador maior facilidade para justificar seus argumentos com a autoridade da Bíblia. A preferência pelas alusões é providencial, pois normalmente são feitas rápida e vagamente, sem explicações mais profundas, servindo, por isso mesmo, para justificar qualquer argumento levantado pelo pastor. A associação, por alusão, dos eventos da Igreja a números ou a acontecimentos bíblicos é bastante comum no discurso iurdiano: Uma reunião nos templos da Universal, para a qual o telespectador é convidado a comparecer, é a Corrente dos 70 pastores. Os números bíblicos (70, 318 etc.) são aludidos de forma que o texto (oral ou visual) produza efeito de sentido 281 de poder pela união numérica. No trecho abaixo, extraído do site da IURD – www.igrejauniversal.org.br -, encontramos um comentário sobre uma dessas reuniões: RIO DE JANEIRO - A situação caótica dos hospitais no Rio de Janeiro tem levado cariocas depositarem ainda mais fé em Deus. Desamparados pela Saúde Pública, eles recorrem à Corrente dos 70 - reunião da Igreja Universal direcionada àqueles que sofrem principalmente com enfermidades e maldições – a fim de receberem cura, libertação e restauração de suas vidas que se encontram destruídas. [...] Entre louvores e clamores a Deus, participantes declararam já ter recebido a resposta para seus desejos, enquanto passavam pelo Corredor dos 70, tocando sobre as muralhas depositadas no local, simbolizando a pedra de escape, citada na passagem bíblica. O número 70 é uma alusão ao texto de Números, 11: 16-17, no qual consta a escolha dos setenta anciãos que carregarão o peso do povo: Disse então o Senhor a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem os anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da revelação, para que estejam ali contigo. Então descerei e ali falarei contigo, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão eles o peso do povo para que tu não o leves só (Números, 11: 16-17). Outro exemplo de associação de evento da Igreja ao evento bíblico, por apelo à alusão numérica, é a Reunião (vigília ou corrente) dos 318 pastores, sobre a qual já discorremos anteriormente, uma alusão a Gênesis, 14: 11-16. Mais recentemente, a IURD tem divulgado a possibilidade de o telespectador trocar seu próprio anjo de guarda por outro, caso não esteja contente com o primeiro (Troque seu anjo da guarda). Tal argumento é justificado por uma alusão a Daniel, 10: 13, onde se leem as palavras do anjo Gabriel (um anjo mensageiro e não guerreiro), dizendo: Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia. 13.b- Os católicos utilizam tanto as citações quanto as alusões. 282 Com exceção padre Marcelo Rossi, no Terço, os outros dois apresentadores, padres Alberto Gambarini e Fernando Cardoso, mantêm, à sua frente, uma Bíblia aberta da qual provêm as citações: [...] aqui no Evangelho de São João, no Capítulo VI, versículo 9, disse André: “Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isto para tanta gente?” (padre Alberto Gambarini) Aqui, em João, no Capítulo VI, versículo 13, nós lemos: “Eles recolheram dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram e encheram doze cestos” [...] (padre Alberto Gambarini) [...] é interessante nós, hoje, contemplarmos, na primeira leitura, um texto parenético-exortativo da Carta aos Hebreus, Capítulo 3, versículos 7 a 14: “Hoje, se ouvirdes Sua voz, não endureçais os vossos corações como aconteceu na provação no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram colocando-me à prova. Por isso me irritei com essa geração e afirmei: ‘Sempre se enganam no coração e desconhecem os meus caminhos Assim, jurei minha ira, não entrarão no meu repouso.” (padre Fernando Cardoso) 14- Retórica militarista do poder vs. retórica professoral do saber. 14.a- Com o emprego de uma isotopia de figuras da guerra, valorizado por uma retórica militarista, o discurso iurdiano afirma o poder da Igreja. Decisiva na construção do sentido, a isotopia da guerra é comum nos textos de origem neopentecostal. Recorrência de substantivos como batalha, luta, vitória, guerra, libertação e do uso dos verbos vencer e aliar levam à construção de uma Igreja poderosa e solidária aos telespectadores, disposta a ajudá-los nas batalhas contra o Mal. Para que possam atingir a felicidade, todos devem ir ao templo em busca das armas para lutar contra o inimigo. Ali, o fiel será manipulado de todas as formas para que passe a frequentar regularmente as reuniões da Igreja. Além das manifestações diabólicas durante vida cotidiana, a Igreja Universal considera inimigos o catolicismo, o espiritismo, as religiões de origem africana ou oriental. [...] nesta terça feira, comece uma luta, uma batalha. [...] mas lute de uma forma espiritual [...]. [...] eu tenho que lutar contra ele de uma forma espiritual, aí eu vou nivelar a guerra, eu vou nivelar a batalha. [...] aliado ao Bem, então eu vou vencer este mal. 283 [...] você precisa de uma libertação [...]. 14.b- Prevalece, no discurso católico, principalmente no tradicional, uma retórica professoral, que afirma a sapiência78; no carismárico, a afirmação da segurança. A instauração de um tom professoral fortalece o simulacro de confiabilidade (existente no éthos interdiscursivo dos padres) e registra uma retórica de sapiência que, já afirmamos, constrói um simulacro de confiabilidade, de erudição e de conhecimento profundo das escrituras. No discurso católico carismático, a figura do padre-pai exacerba a proteção e a segurança. [...] é interessante nós, hoje, contemplarmos, na primeira leitura, um texto parenético-exortativo [...] – retórica professoral. E o autor da Carta aos Hebreus, numa exegese mais ou menos rabínica, diz o seguinte [...] – retórica professoral. Não se esqueçam: existem os mártires efetivos, mas existem também aqueles que, embora não tenham derramado materialmente o seu sangue, simularam a vida inteirinha por Jesus. São os autênticos confessores da fé. [...] – retórica professoral. Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você a não faltar no nosso grande encontro – retórica paternalista. 15- Isotopia temático-figurativa das coisas do mundo vs. isotopia das coisas divinas. 15.a- A IURD inverte os valores e sobrepõe a isotopia temático-figurativa das coisas do mundo à isotopia das coisas divinas. O discurso iurdiano consolida sua pós-modernidade ao exaltar a tormenta do homem refletida na perda do dinheiro, da saúde ou do relacionamento amoroso, enfim, na privação das coisas do mundo. A isotopia temático-figurativa das coisas divinas, disseminada pelos discursos das religiões tradicionais (céu, graça divina, inferno, pecado, morte) é sobreposta por uma isotopia temático-figurativa das coisas do mundo (dinheiro, emprego, lucro, saúde, bom relacionamento amoroso) ― o 78 O Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa dá ao lexema sapiência os seguintes significados: qualidade ou virtude do que é sapiente; grande acervo de conhecimentos; a infinita sabedoria divina. 284 paraíso na Terra ― com o argumento de autoridade colhido de alusões a trechos da Bíblia e dos vários testemunhos espalhados pelos programas de TV (Priscila, Sr. Alencar, D. Leia). O homem deve ser servido por Deus. Apagam-se os estados do âmbito passional da culpa pelo pecado e pela ofensa a Deus. As paixões do medo, da insatisfação e da vergonha não mais procedem da perda da graça divina a nós doada, segundo os discursos religiosos tradicionais, mas da perda da saúde e dos bens materiais. Medo e vergonha são decorrências do saldo bancário vermelho, consequência da influência de entidades malignas. [...] eu perdi mais de um milhão de reais de patrimônio... quer dizer... eu fiquei negativo, sem patrimônio nenhum, com todas essas dívidas [...] (testemunho do Sr. Alencar) [...] não adiantou nada dinheiro emprestado de bancos, de agiotas, de amigos, de parentes, porque eu não conseguia, em hipótese alguma, honrar com nenhum desses compromissos. (idem) [...] quando eu percebi, eu já estava com esses duzentos e vinte e dois cheques em mãos, títulos protestados e ações trabalhistas [...] (idem) Você também quer ter uma nova história pra contar. Aparentemente, nesse emaranhado de dívidas, nesse emaranhado de problemas que você se encontra é até impossível você sair dele. (pastor Rogério) [...] pessoas que chegam nessa vigília quebradas, endividadas, falidas, pessoas devendo pra agiotas, na iminência de serem despejadas, pessoas com o nome sujo na praça, pessoas que trabalharam anos, lutaram muito tempo pra conquistar alguma coisa e o que conquistou, de uma hora pra outra, de uma forma inexplicável, elas acabaram perdendo. Chegaram à estaca zero e, humanamente falando, não tinha saída, não tinha solução [...] (pastor Rogério). 15.b - O discurso tradicional católico procura não inverter os valores e sobrepõe a isotopia temático-figurativa das coisas de Deus sobre as do mundo. Os programas católicos mantêm seus agentes religiosos em posição enunciativa de inferioridade com relação à de Deus. Tanto no Pão nosso como no Encontro com Cristo, os religiosos procuram explicar, auxiliados por citações, os propósitos divinos para os homens para que estes atinjam a salvação. No Terço, o padre exerce seu papel de intermediário, levando (e elevando) ao plano espiritual 285 divino os pedidos e súplicas dos homens. Dessa forma, são desenvolvidas figuras (Canaã, deserto da vida, repouso, salvação, etc.) e temas das coisas de Deus (a obediência aos preceitos divinos, a busca do repouso em Deus), com a finalidade de direcionar a vida dos homens para a salvação. Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus que somos nós [...] (padre Fernando) E o autor da Carta aos Hebreus, numa exegese mais ou menos rabínica [...] (idem) Ainda não entramos definitivamente naquele grande sábado onde se repousa em Deus e onde se repousa com Deus.(idem) [...] quando andamos na Palavra de Deus, quando nós queremos viver o Seu plano de amor [...] (padre Alberto) 16 – Fé emocional (intensa) vs. fé racional (extensa) 16.a- O discurso iurdiano mantém o nível do gradiente da intensidade tensiva elevado durante a preleção, reduzindo-o, porém, quando dos desfechos dos testemunhos (sempre felizes) e da instauração da esperança. Tem base na emoção. Fé emocional. É prática comum, no discurso dos programas televisivos neopentecostais, a manutenção dos níveis de tensão elevados, decorrentes da instauração do medo, da vergonha e do desespero. O medo e os antissujeitos malignos não se instauram com base na Palavra Revelada, mas, sim, nas crenças do local em que a IURD se instala. Tais níveis serão reduzidos com a implantação da esperança de solução dos problemas, por meio dos testemunhos ou com o convite de ida ao templo para buscar, na Igreja, a solução de todos os problemas. (aumento da tensão) [...] existe uma força do Mal na sua vida, força do Mal esta que pode ter entrado por uma inveja, por uma maldição, por um feitiço e este mal não vai sair da sua vida por si só [...]. (relaxamento) Repórter IURD: É uma felicidade que a senhora não conhecia? Testemunhante (D. Leia): Completamente. Só que pra tudo isso existe um segredo e esse segredo é a perseverança. Aqui, sim, você sendo perseverante, você vai obter a sua vitória. 286 Repórter: Essa perseverança, a senhora adquire a cada segunda-feira que a senhora está aqui? D. Leia: A cada segunda-feira. Não é exatamente na primeira segunda-feira que você tem o resultado, não. Você passa uma segunda-feira...aquela ministração que você tem ali, você consegue adquirir algo para você...abastecer aquela semana pra você resolver a situação daquela semana e, aos poucos, você consegue a sua conquista. Assim representamos graficamente as tensões do discurso iurdiano de televisão: + tensões Intensidade Extensão + alcance (a quem o discurso atinge) fala do pastor Convite para ida ao templo (- tensão, + alcance) retomada da fala pelo pastor (+ tensão, + alcance) 1ª. parte do testemunho (+ tensão, - alcance) Final feliz do testemunho (- tensão, - alcance) Gráfico 41: gráfico tensivo do discurso iurdiano 16.b- Lançando as paixões (o emocional) no eixo da intensidade e a compreensão (o racional) no eixo da extensão, os programas televisivos católicos variam da fé emocional à fé racional. O programa O pão nosso de cada dia, mesmo tendo desenvolvido as paixões da ira e da indignação (de Deus), consolida os argumentos 287 sobre as explanações dos textos bíblicos. Essa postura professoral leva esse programa a fincar suas bases na fé racional e, portanto, no eixo da extensão. O programa de linha carismática Encontro com Cristo situa-se, em termos tensivos, entre os eixos da intensidade e da extensão. Nesse programa, há uma mistura de traços neopentecostais com católicos tradicionais, ou seja, o destinador, padre Alberto, promete uma vida abundante por meio da Palavra Revelada (racional), um milagre para quem for ao Encontro (emocional) e a cura das emoções negativas causada pela leitura de um livro de sua autoria (emocional). Essa “mistura” é uma característica do discurso carismático católico. O emocional e o racional caminham lado a lado. O programa do padre Marcelo Rossi é uma oração improvisada, um mantra que nada tem a ver com as escrituras ou com o racional. A reza do terço bizantino, na forma idealizada pelo padre, depende inteiramente da fé. Fé emocional. Assim representamos graficamente a tensividade dos três programas televisivos católicos analisados: 1- O pão nosso de cada dia (racional) 2- Encontro com Cristo (emocional / racional) Padre Fernando J. C. Cardoso Padre Alberto Luiz Gambarini + + Linguagem professoral, erudição, Milagres, cura das emoções citações bíblicas completas. Intens. _ negativas, citações decadência extensão Intensidade + Predomínio do conhecimento, da releitura, da consciência e da reflexão (fé racional) _ amplificação extensão + “Mistura” do emocional e do racional (fé emotiva + fé racional) 288 3 - Terço bizantino (emocional) Padre Marcelo Rossi Intensidade ascendência extensão O programa é baseado exclusivamente na fé. (não há textos bíblicos, explanações, comparações) Gráficos 42: do racional ao emocional Sobrepondo-se no gráfico da tensividade a fé emocional e a fé racional instauradas nos três programas católicos de televisão, visualizaremos o discurso televisivo multifacetado da Igreja Católica: (emocional) Intensidade Encontro com Cristo O pão nosso de cada dia Terço bizantino Extensão (racional) Gráfico 43: esquemas tensivos dos programas católicos. 289 QUADRO-RESUMO COMPARATIVO ENTRE AS ESTRATÉGIAS PERSUASIVAS DOS PROGRAMAS TELEVISIVOS DA IURD E CATÓLICOS A IURD Considera os homens vítimas do Mal, concretizado na figura do encosto, da coisa estranha, do pó-de-sumiço, que exerce o papel de antissujeito, obstáculo entre o sujeito(telespectador) e seu objeto de valor(bens materiais). A concretização do Mal, enquanto entidade, é baseada nas crenças e na cultura dos locais em que a Igreja se instala. Instaura predominantemente paixões negativas ─ medo, vergonha, desespero ─ como ponto de partida do processo da persuasão. Desenvolve uma isotopia maniqueísta do Mal (antissujeito) e do Bem, em todos os programas televisivos. Reflete as características da pósmodernidade, apresentando um discurso que promete o sucesso imediato, por meio de simulacros de uma vida material plena e abundante. A IGREJA CATÓLICA Considera os homens culpados por suas mazelas, as quais decorrem do não-cumprimento da Palavra Revelada. A Igreja Católica leva em conta a mácula deixada nos homens pelo pecado original. O discurso católico tradicional baseia seu argumento nas Escrituras e procura encorajar os fiéis diante dos problemas que a vida apresenta. Há uma tendência dos programas católicos mais recentes de não recorrer à visão maniqueísta que colocava os homens sob a influência de demônios. Dois dos três programas católicos analisados instalam paixões negativas como antissujeitos em lugar do Mal. O discurso católico tradicional busca a salvação espiritual. O carismático não deixa de lado a salvação, mas exacerba características pós-modernas como o imediatismo das curas, a fartura e o bem-estar terrenos Quer ser a igreja do saber. Valoriza o conhecimento das escrituras, da vida, dos homens e de Deus. Pretende ser a igreja do poder. Afirma o domínio do mundo espiritual sobre o material e o poder da Igreja sobre ambos. Utiliza grade número de testemunhos. O argumento de autoridade da voz de Deus, decorrente das citações de textos bíblicos substitui estrategicamente a recorrência dos testemunhos. Intimida quem “não toma uma atitude” Intimida quem não obedece à Palavra (quem não vai ao templo). Seduz quem Revelada (discurso católico tradicional). for ao templo, prometendo a solução dos Seduz quem for à igreja, prometendo problemas, a riqueza e a saúde. objetos mágicos e milagres. Assume o papel do sujeito que resolve Exerce o papel de intermediadora todos os problemas dos telespectadores. /intercessora. Cria, assim, um ciclo de assujeitamento do fiel com a Igreja. Utiliza somente preces naturais. Quase sempre utiliza as preces nãonaturais, já prontas. 290 Linguagem da pós-modernidade Valoriza e exacerba o uso de objetos mágicos (água, pó-de-sumiço, carteira profissional abençoada etc.), tanto eufóricos quanto disfóricos, atribuindolhes poderes. Instaura o medo do domínio das forças malignas e a vergonha do fracasso diante da sociedade. Prefere alusões a citações dos textos bíblicos. Reafirma o poder, empregando uma retórica militarista. Linguagem da tradição e da pósmodernidade (linha católica carismática) Valoriza os objetos mágicos e as relíquias. Atribui poderes a objetos mágicos (água, óleo, Santíssimo, medalhinhas etc.), sempre eufóricos. Instaura o medo diante da ira de Deus pelo não cumprimento da Palavra. Utiliza tanto citações quanto alusões a textos bíblicos. Principalmente no discurso tradicional, recorre a uma retórica professoral em que afirma a sapiência e a confiabilidade da Igreja. Sobrepõe a isotopia temático-figurativa Sobrepõe a isotopia temático-figurativa das coisa do mundo sobre a isotopia das das coisas de Deus sobre as do mundo. coisas divinas. Procura impingir, no telespectador, a fé Impinge, no telespectador, tanto a fé emocional. emocional quanto a fé racional. Incorpora gêneros trazidos de outras Também incorpora gêneros trazidos de esferas de ação, como os testemunhos, outras esferas de ação, se bem que de muito utilizados, atualmente, nos forma incipiente. Enquanto a IURD programas televisivos da IURD. recorre a desenhos animados, filmes, teledramaturgia, programas de auditório, a Igreja Católica, nos programas analisados, ainda se mantém conservadora. No programa Encontro com Cristo, o padre-destinador, por exemplo, pede aos telespectadores que enviem testemunhos por carta, mas não os apresenta. As estratégias discursivas dos pastores e As estratégias discursivas dos padres bispos são idênticas. Os agentes são bastante diferentes entre si. Variam religiosos iurdianos “falam a mesma de programa para programa. Os língua”, portanto, apresentam um éthos destinadores católicos “não falam a uno. mesma língua” e, em consequência, apresentam um éthos fragmentado. 291 CAPÍTULO VII Os ethé das Igrejas Universal do Reino de Deus e Católica Apostólica Romana Pelo modo recorrente de avaliar e interpretar o mundo, é construído o ator da enunciação. (Discini,2003: 205) IURD IGREJA CATÓLICA Destinatário-sujeito: vítima. Destinatário-sujeito: culpado. Medo, vergonha, desespero, esperança >IURD: Medo, coragem, amor de Deus > fé. solução dos problemas. Isotopia maniqueísta Bem/ Mal. Instauração de paixões negativas como antissujeitos. Sucesso material, saúde, fartura. Salvação espiritual / sucesso material. Igreja do poder. Igreja do saber. Discurso de autoridade: testemunhos. Discurso de autoridade: Bíblia. Persuasão do sujeito para que vá templo. Persuasão do sujeito para que obedeça à Palavra/ vá ao templo. IURD: co-destinadora (mesmo lugar enunciativo Igreja Católica: intermediadora/ intercessora de Deus). (lugar enunciativo intermediário entre o fiel e Deus). Preces naturais. Preces não-naturais. Pós-modernidade. Tradição / pós modernidade. Objetos mágicos negativos e positivos. Objetos mágicos positivos e relíquias. Medo do Mal. Medo de Deus. Predomínio das alusões. Predomínio das citações. Retórica militarista. Retórica professoral. Isotopia das coisas do mundo. Isotopia das coisas divinas. Fé emocional. Fé racional. 292 A partir do conjunto dos segmentos analisados e apoiados na recorrência de comportamentos cuja previsibilidade está assegurada pela própria totalidade, podemos afirmar que o discurso de televisão da neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus constrói um “éthos” onisciente porque demonstra tudo saber a respeito da vida de seus telespectadores, do mundo material e do mundo espiritual. Esse éthos se estabelece em função da construção do simulacro de um destinatáriosujeito afastado da felicidade porque constantemente submisso a atuantes forças negativas, influentes no lar, no trabalho, na saúde física e emocional. A felicidade — concebida pela IURD como a conjunção da saúde, com o amor e o dinheiro, aqui e agora — somente será (re)conquistada com a poderosa ajuda da Igreja, de seus bispos e pastores, que ocorrerá, caso o telespectador vá ao templo. Ali, o fiel sofrerá todo tipo de manipulação. Por convergência de vozes, o discurso iurdiano ergue um éthos uno que grita um inimigo espiritual causador de todos os males, um antissujeito / antidestinador criado pela própria Igreja Universal, à imagem da cultura brasileira, contra o qual lutará em uma guerra sem fim. A ação da poderosa entidade maligna é banalizada por uma contínua performance, provocadora de todos os problemas da vida, desde os mais corriqueiros, como dores de cabeça e nervosismo, até os mais graves, como doenças ditas incuráveis. O discurso da neopentecostal procurará atrair o destinatário ao templo. Com esse propósito, iniciará seu processo de persuasão com o simulacro de um telespectador amedrontado diante da ameaça de ser vitimado pela vergonha e pelo desespero causados pela situação de falta por que passa, resultado da influência de um inimigo, somente conhecido pela IURD. O “éthos” onisciente iurdiano não apresenta dúvidas nem contradições, pois conhece tudo o que se passa na vida particular dos 293 telespectadores; onipotente, atribui a si mesmo, e só a si, o poder de melhorar o mundo, o mundo de quem frequenta a IURD. Provocativo e intimidador, sedutor e tentador, consegue levar o destinatário do medo/vergonha/desespero à esperança, do conformismo à ação. Esse discurso constrói um destinatário dependente da fé e, por conseguinte, da IURD, para destruir o inimigo e pôr fim à falta de dinheiro, às doenças, ao desconforto, ao medo e à vergonha. Quanto maior o mistério, quanto maior a transcendência do inimigo, maior o poder persuasivo gerador da fé, a fé que dá origem à ação e à dependência do fiel com relação à Igreja. Define-se, assim, um ciclo de assujeitamento do fiel para com a Igreja, conforme ilustração a seguir. maior fé maior mistério maior inimigo ciclo de assujeitamento maior dependência da igreja Ilustração 26: ciclo de assujeitamento fiel/ IURD. O discurso iurdiano deve boa parte de seu sucesso persuasivo por caminhar lado a lado com o progresso, oferecendo as exigências do mundo pós-moderno. À medida que promete sucesso imediato criando simulacros de uma vida material abundante, estabelece sua identidade dialogando com outros discursos, especialmente com o discurso econômico, o discurso da mídia, da propaganda, da autoajuda, da Bíblia e de outras religiões. 294 Nesse perfil desenham-se os contornos da Igreja pós-moderna: pastores eloquentes e impecavelmente vestidos, cercados por telões e computadores, formam o cenário nos estúdios da emissora de TV. O “éthos” da Universal promete entrar na guerra pela felicidade de seus fiéis, enfrentando quaisquer desafios, curando doenças incuráveis, dando a vida plena, a saúde, o amor, os bens materiais, porque resulta da indubitabilidade. Esse éthos insere-se, assim, de forma perfeita, no contexto da comunicação do mundo moderno, colhendo para si frutos que nada mais são do que sua própria promessa ao outro: o sucesso. Recuperamos, neste ponto, a asseveração de Tatit (2001: 37), para quem Deus é um grande destinador transcendente – sempre o maior de todos, nos sistemas de valores conhecidos – que independe de atributos modais ou de bens materiais para exercer sua influência, já que é um produto da fé dos seus destinatários. Tal afirmação, no entanto, não corresponde ao discurso da IURD, uma vez que nele ocorre uma considerável mudança de lugares actanciais, se comparado ao discurso religioso tradicional. O discurso da IURD, fortemente voltado à atração de novos fiéis oriundos de outras religiões, principalmente da católica, constrói uma ideologia de facilitação no trato com Deus, devido à extrema facilidade com que seus pastores e bispos “se comunicam” com o Criador79. Ao construir simulacros demonstrando conhecer profundamente não só os destinatários, enquanto seres humanos repletos de paixões, mas também seus problemas familiares, emocionais e financeiros, o discurso iurdiano mostra seu éthos onisciente que, somado à adoção de uma retórica militarista, assume sua onipotência no papel de comandante da guerra contra o Mal. Deus cumpre papel de adjuvante no ritual e no discurso. A concretização desse papel se dá no espaço do Templo Maior, durante o Congresso 79 O Bispo Edir Macedo, líder da IURD, em seu programa diário na Rádio Aleluia, FM 99.3, repete diariamente, antes da prece natural, como se Deus estivesse sentado na cadeira a seu lado: Vamos, agora, falar com Deus. 295 Empresarial (Reunião dos 318), durante a Corrente dos 70 ou em meio às sessões do descarrego e de terapia espiritual. Deus deixa de ser considerado uma entidade sobreposta e dominante para ser um elemento participante desses mesmos rituais. Deflagra-se uma igualdade entre os lugares enunciativos do agente religioso(bispo/pastor/IURD) e de Deus(pastor/IURD/Deus); quem precisa de ajuda e é ajudado é sempre o destinatário, quem atua é sempre a Igreja. Não há mudanças de papéis ao longo dos programas analisados. Como afirmamos anteriormente, se há alguma ocasional simetria na relação de comunicação entre destinador / destinatário, no discurso iurdiano, é porque, em alguns (poucos) momentos, o bispo / pastor desce um degrau para criar o efeito de cumplicidade, colocando-se como soldado em uma batalha que só a Igreja pode vencer. O destinatário(fiel/telespectador) é convencido de que, sem a IURD, nada poderá fazer para sair da situação ruim em que se encontra. Essa batalha é continuamente vinculada a uma ideologia beligerante e maniqueísta de busca do sucesso material. Teologia da prosperidade. Exacerba-se a presença do Mal fustigando a vida de todos os telespectadores que não são adeptos da Universal, concretizado nas doenças, no desemprego, nas desilusões, na vergonha causada por uma posição social inferior. O Bem é a Igreja, que, com seus pastores, bispos, objetos mágicos e rituais, pode, quando bem desejar, acionar sua força e a de Deus para acabar com todas as mazelas dos destinatários. A convicção, a intimidade com o mundo espiritual, a exaltação retórica somados aos testemunhos de cura e de sucesso fazem do pastor neopentecostal quase um homem-deus (e não homem de Deus). É o éthos do poder. O sobe-e-desce tensivo do discurso iurdiano alterna momentos de forte intensidade, quando da instauração de paixões negativas nascidas do medo, com momentos de relaxamento, quando da doação da esperança na (re)conquista desses objetos, transformando o destinatário 296 em um feixe de paixões. O poderoso éthos iurdiano faz prevalecer a fé emocional alicerçada na intensidade das paixões, na inconstância dos bens materiais e na efemeridade da vida terrena. Para tanto, sobrepõe uma isotopia temático-figurativa das coisas do mundo sobre a isotopia das coisas de Deus, prefere as alusões às citações bíblicas e assume seu lugar enunciativo ao lado de Deus. Assim vemos os lugares enunciativos e as relações de comunicação entre Deus, a IURD(bispo, pastor) e o fiel (Jadon, 2005: 133): (a) Relação de comunicação simétrica entre Deus e a IURD. (b) Relação de comunicação assimétrica entre Deus/IURD e o fiel. (a) Relação de comunicação simétrica entre Deus e a IURD. Deus Pastor/bispo/IURD Fiel destinatário destinador ocupam o mesmo lugar enunciativo ( igualdade actancial ) lugares enunciativos diferentes (b) relação de comunicação assimétrica entre Deus/agente religioso e o fiel Ilustração 27: A IURD, com seu éthos onisciente e onipresente, coloca-se no mesmo lugar enunciativo de Deus. Sob o olhar aristotélico, o éthos iurdiano convence porque, ao mostrar-se profundamente solidário aos telespectadores e aparentar sinceridade e sabedoria, apresenta, respectivamente, suas três dimensões: eúnoia, areté e phrónesis. Além 297 disso, todas as vozes convergem para a formação de uma só personalidade discursiva. Os agentes religiosos, pastores ou bispos, líderes ou não, utilizam as mesmas estratégias de persuasão e, como já afirmamos, “falam a mesma língua”, sem contradições. Dessa forma, o éthos iurdiano de televisão, além de se fazer onisciente e onipotente, tão poderoso quanto Deus, beligerante e heróico contra a figura do Mal, é, também, uno, sólido e indivisível, fator que dá grande credibilidade ao discurso. O discurso dos programas de televisão católicos, visto de forma geral, reflete tendências ideológicas diferentes, conforme a linha de formação dos padresapresentadores e, por isso, apresenta desde programas produzidos por correntes reacionárias até as mais progressistas. Nesta tese, restringimos o enfoque da análise a textos produzidos pela Igreja Católica tradicional (programa O pão nosso de cada dia, apresentado pelo padre Fernando J. C. Cardoso) e pelo Movimento de Renovação Carismática Católico (programas Encontro com Cristo, do padre Alberto Gambarini, e Terço bizantino, do padre Marcelo Rossi). O nome “Renovação” já demonstra o perfil ideológico desse movimento. Após a análise dos textos dessas duas correntes católicas, pudemos concluir que, em ambas, Deus permanece o destinador onisciente, onipresente e onipotente, inatingível pelo status de qualquer ser humano, seja ele padre, bispo ou papa. O discurso procura erigir um éthos do saber, da mediação e da intercessão. Em tom professoral, o padre, detentor da imagem de homem de Deus (diferente do homem-deus iurdiano), recupera as passagens bíblicas, por meio de citações, para repassá-las aos telespectadores não tão esclarecidos. O agente religioso assume uma posição enunciativa ambígua porque ora ocupa o lugar de destinatário da Palavra Revelada ora ocupa o lugar de destinador com relação ao fiel. O discurso da religião romana apresenta estratégias 298 persuasivas divergentes de enunciador para enunciador, entretanto mantém seus agentes religiosos, de linha tradicional ou carismática, preenchendo o lugar de intermediadores entre o plano material, habitado pelos homens, e o espiritual, habitado por Deus. Construído sobre um discurso que exalta a transcendentalidade do homem e da vida, o éthos católico demonstra sabedoria, ao alertar os telespectadores quanto às consequências espirituais às quais estão sujeitos, caso pequem. O homem é atormentado constantemente pelo pecado, por suas culpas, pelas paixões negativas e, consequentemente, pela possível morte espiritual, com a perda da sua eternidade, em troca da graça divina e da salvação espiritual. Para que os telespectadores atinjam o objetivo maior (a salvação), o discurso católico tradicional repassa aos telespectadores a imagem da erudição professoral em torno Palavra Revelada, da proteção familiar (Deus é o Pai, Maria é a Mãe, Jesus é o Filho) e da coragem diante dos transtornos da vida. O discurso dos padres de linha carismática também constrói seu éthos sobre as bases principais da tradição católica, mantendo a salvação espiritual como meta, mas incorpora características pós-modernas e, por isso, aproxima-se do éthos (neo)pentecostal. A atomização do fiel (o homem visto como um ser individual), a necessidade de respostas imediatas (milagres) para a supressão da falta, as curas emocionais e de doenças, as batalhas contra o Diabo, a busca do bem-estar, o apelo às manifestações do Espírito Santo são incorporados pelo discurso católico carismático como acolhimento aos anseios do homem de hoje. Mesmo assim, o enunciador não deixa vazio seu lugar enunciativo de intermediador / intercessor entre o homem e o divino. Deus sempre é o Pai, o espírito supremo, onisciente, onipresente e onipotente, a quem todo o universo está submisso. 299 Assim representamos a relação assimétrica de comunicação entre Deus, a Igreja Católica e o fiel: Deus o grande destinador Agente Religioso / Igreja (padre, bispo, etc.) Fiel destinatário intermediador / intercessor lugares enunciativos diferentes relação de comunicação assimétrica Ilustração 28: A Igreja Católica e seu papel de intermediadora. A presença de várias correntes ideológicas no seio da Igreja Católica submete o éthos a uma fragmentação. Sob uma visão geral, são várias igrejas em uma só. Nos textos analisados, o éthos fragmentado sujeita os telespectadores não cumpridores da Palavra ora à ira de Deus ora à Sua misericórdia e amor. As estratégias de persuasão não são uniformes, como as da IURD. Se o padre tem formação carismática, apresenta um discurso centralizado diretamente no destinatário, no você80, semelhante ao discurso neopentecostal; se tradicional, prega, algumas vezes, com erudição, como em uma aula, apagando a relação eudestinador / você-destinatário, característica da enunciação enunciada, para valorizar o emprego da 3ª pessoa, no enunciado enunciado,. A pregação em 3ª pessoa não invade o interior do destinatário como o faz a pregação em enunciação enunciada (eu / você). O nível de tensividade, no enunciado enunciado permanece 80 Só no programa Encontro com Cristo aqui analisado, cuja duração não chega a quinze minutos, o padre carismático Alberto Gambarini utiliza dezoito vezes o lexema você. Em programa exibido mais recentemente (anexo), em 2009, o lexema é empregado dezenove vezes. 300 baixo, pois cria o efeito de sentido de objetividade. Nesse caso, o destinatário exerce muito mais o papel de espectador do que de expectador. Por outro lado, a relação dialógica eu/você, predominante nos programas televisivos neopentecostais, autoriza a “incursão” que o agente religioso faz na vida do destinatário, para descortinar as situações e paixões mais íntimas do telespectador. Criam-se simulacros disfóricos, abusa-se do conhecimento genérico, em uma enunciação enunciada que constrói um destinador onisciente e poderoso, expandido para além dos limites do sujeito, representativo de toda estrutura da IURD (pastores, bispos etc.). O efeito de sentido pretendido é o do agente religioso realmente conhecer o que se passa no interior de cada um para, trazendo à tona as mazelas, atrair o destinatário ao templo. Ocorre uma estratégica “invasão” ao interior do sujeito para exacerbar os fatores disfóricos que conduzem à infelicidade. A emoção sobrepõe-se à razão. Esse procedimento implica um aumento do grau de intensidade tensiva no discurso, como pudemos demonstrar no transcorrer das análises. Recordemos os pastores iurdianos iniciando sua fala com simulacros negativos dos estados em que se encontravam os telespectadores (Você, que está aí desesperado, devendo para todo mundo; você, que está com problemas de saúde; você que tem sido vítima de feitiçarias e de trabalhos; você, que tem sido preterido no amor; você, que está sempre desempregado etc.) ou, em menor grau, o padre carismático Alberto Gambarini, preocupado com a cura das emoções interiores de seus fiéis. Já na pregação tradicional, repetimos, o agente religioso procura atrair o telespectador por meio de uma centralização do discurso na Palavra Revelada e não no destinatário. Em enunciado enunciado, parte-se da premissa de que todos os seres humanos, ricos ou pobres, sãos ou doentes, são faltos, falhos e pecadores e só encontrarão a felicidade plena por meio da salvação, no paraíso. 301 Pregação religiosa de televisão neopentecostal “incursão” ao âmago do telespectador por meio de simulacros negativos e apelo à magia ou a símbolos culturais locais.. Pregação IURD Telespectador Ilustração 29: pregação religiosa de televisão da IURD Pregação religiosa católica tradicional O agente religioso busca a adesão do telespectador por meio da Palavra Revelada Pregação católica tradicional Telespectador Ilustração 30: Pregação religiosa de televisão da Igreja Católica. Na realidade, as estratégias discursivas até aqui descritas pretendem trazer novos adeptos à religião e manter os que já o são inserindo-os em uma relação de dependência com relação à Igreja, como afirmamos em momento anterior. A Igreja Católica instaura, na televisão, um éthos discursivo do saber, da erudição, da 302 proteção familiar, da doação de coragem, fragmentado, multifacetado, devido não só à sua dimensão, história e idade, como também às suas correntes políticas internas e às várias ordens religiosas diferentes que, embora subordinadas ao Vaticano, carregam ideologias diversas. Neste trabalho, tivemos oportunidade de abordar uma ínfima parcela do discurso católico de televisão, se considerarmos que analisamos apenas os discursos católicos tradicional (padre Fernando J. C. Cardoso) e carismático (padre Alberto Gambarini e Marcelo Rossi). Deixamos de lado, por exemplo, a pregação religiosa de televisão (se houver) orientada por organizações católicas como o Opus Dei (considerada ultraconservadora) ou como as Comunidades de Base (progressistas). Há, ainda, no seio da Igreja Romana, ordens e movimentos mais progressistas ainda, os quais pretendem apresentar uma Igreja menos dogmática, que se aproxime do povo. Outros há, no entanto, que dão extremo valor à hierarquia, à tradição, aos dogmas, à manutenção do distanciamento profano / divino. Alguns desses movimentos querem parar o tempo no passado, outros pretendem acompanhar o progresso; alguns apoiam ideologias reacionárias, outros seguem linhas de considerável liberalidade. No entanto, nenhum deles assume, no discurso, o lugar enunciativo de Deus, mantendo sempre a característica de intermediação e, com maior ou menor eficiência, o necessário ciclo de assujeitamento. Em outras palavras, podemos afirmar que, no Brasil, a Igreja Católica “fala línguas diferentes”, mas, em cada uma delas, apresenta um éthos do saber que se coloca como passagem entre o mundo material e o espiritual, oferecendo a salvação para um conjunto de destinatários que sofre dos mesmos males: a falta de dinheiro, a falta de saúde, a sensação de incompetência para resolver problemas e, por isso, a insatisfação, o medo. Já na IURD, Igreja recémconstituída (fundada em 1977), seu líder-fundador e idealizador, o Bispo Edir 303 Macedo, tem total domínio ideológico sobre seus pastores e não permite movimentos dentro da Igreja, por isso, “falam a mesma língua”. Mesmo contando com milhares de templos espalhados pelo Brasil e por mais de 100 países, a Universal emprega as mesmas estratégias discursivas. Seus pastores são semelhantes até na forma de falar. Todos seguem à risca as determinações e orientações do Bispo Macedo. Daí a construção de um éthos uno, indivisível, beligerante, onisciente e poderoso, pois tudo pode e tudo consegue solucionar, moldado exatamente na forma exigida pela sociedade pós-moderna. 304 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho nasceu de nosso interesse por dois objetos de estudo: o discurso religioso de televisão e a Semiótica de linha francesa ou greimasiana. Nossa curiosidade sobre essa ciência começou quando, no ano de 2003, após vinte e cinco anos de atuação nos magistérios médio e superior, retornamos aos bancos da Universidade para obter, em 2005, o título de Mestre em Letras. Durante esse curto tempo de retorno aos bancos universitários, tivemos a oportunidade de conhecer professores que ministraram suas aulas apaixonadamente, com o amor refletido pelo dom de ensinar que a vida lhes deu. Pudemos, a partir dali até hoje, “saborear” as aulas de professores considerados “deuses” da Análise do Discurso e da Semiótica, como a Profª Dra. Diana Luz Pessoa de Barros, o Prof. Dr. José Luiz Fiorin, a Profª Dra. Norma Discini, a Profª Dra. Elisa Guimarães, a Profª Dra. Maria Helena de Moura Neves, o Prof. Dr. Antonio Vicente S. Pietroforte, dentre tantos outros que nos incentivaram a desenvolver nossos estudos sobre a instigante pregação religiosa de televisão. Para nós que, com nove anos de idade, por iniciativa própria, já havíamos lido atentamente todo o Evangelho de Jesus Cristo e, talvez, por isso, tivéssemos desenvolvido uma grande atração por “como e o que se prega em cada religião”, abriram-se as portas de uma pesquisa que, embora longa e sem fim, trouxe-nos indescritível satisfação, além do inegável amadurecimento pessoal e profissional. Essa pesquisa, que certamente não terminará aqui, constituiu este estudo sobre cujas conclusões tecemos, agora, algumas considerações finais: Desde a antiguidade, os homens do mundo ocidental e, mais especificamente, os cristãos, acreditam estar sujeitos a toda sorte de influências 305 provindas de planos de existência diversos, cujos nomes variam sobremaneira. Jesus, ao ensinar o povo a rezar, iniciou a principal oração do cristianismo com um “Pai nosso que estais nos céus”, ou seja, mesmo levando em conta que Sua vida foi marcada por um constante diálogo entre os planos espirituais e terrenos, Jesus confirmou, com a expressão nos céus, que Deus-pai se encontra no plano espiritual, um lugar invisível, inacessível para o homem, diferente do nosso. Essa crença em um mundo invisível aos olhos carnais remonta, no entanto, a épocas muito anteriores à de Cristo. Os antigos egípcios (3000 anos a.C.) já embalsamavam os corpos de seus faraós e depositavam enormes tesouros nas tumbas para que o espírito nobre pudesse usufruir, com grande fartura, a nova vida nos planos espirituais. Na realidade, para o cristianismo, o diálogo entre o mundo material e o espiritual, o profano e o divino, existe, segundo as Escrituras (Gênesis), desde a criação da humanidade e do universo, quando, expulso do Éden por desobedecer ao Criador, o homem não perdeu sua condição divina, mas, maculado pelo pecado original, acabou por se expor ao erro, à culpa causada pelo pecado, ao sofrimento, à morte, à tormenta do inferno e ao julgamento final. Desfez-se, na expulsão do paraíso, a aliança original com Deus, recuperada, tempos depois, pelo sacrifício de Jesus, na Cruz (“o sangue derramado pela nova e eterna aliança”). Exilado de seu lar, o homem sempre se sentiu sozinho, desligado do Pai, e, por isso, sem força suficiente para enfrentar, por si só, os grandes problemas que a vida apresenta. Dessa insegurança diante do inexplicável surgiu a necessidade de se acreditar em algo que pudesse, pelo menos, atenuar a inexorável ideia da morte. 306 Assim, grosso modo, surgiram as religiões cristãs81, filosofias dispostas a restaurar a origem divina do homem e, portanto, dispostas a religá-lo a Deus e à eternidade em troca da fé e da obediência à Palavra Revelada. Filósofos e líderes espirituais reuniram seus textos, autenticaram suas verdades, organizaram-se hierarquicamente e divulgaram-nas a todos que, fiéis por meio da fé, passaram a sustentá-las dentro das estruturas de suas igrejas. É fato, porém, que, a partir da segunda metade do Século XX, os adventos da televisão e do computador, a valorização do consumo, da autoimagem e da moral do prazer imediato, promoveram a transformação do homem em um indivíduo mais individualista, desprovido de historicidade, voltado para si mesmo, na busca de referências para o viver diário (Campos, 1997: 46) ─ mudanças asseguradas pelo mundo pós-moderno82 ─ e influenciaram o gênero da pregação religiosa. Esse gênero milenar teve, então, que incorporar outros, em especial, o gênero da mídia televisiva, com o objetivo não só de manter os antigos fiéis como também ─ e principalmente ─ o de atrair novos adeptos. O que se viu no Brasil, país quase 81 No Grande dicionário etimológico-prosódico da Língua Portuguesa, encontramos, para o lexema religião: Lat. religio, religionis, do tema de religare, ligar outra vez, ou melhor: ligar fortemente, onde o prefixo re é intensivo. 82 Não nos propusemos, neste trabalho, a tratar da pós-modernidade, porém as religiões neopentecostais e, em especial, a IURD, carregam os parâmetros desse movimento. Do Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, transcrevemos o comentário de Azevedo (2008) sobre as religiões na pós-modernidade.: [...] podemos destacar algumas marcas dessa manifestação religiosa, enfocando obviamente a religiosidade do catolicismo popular e a que se manifesta no contexto protestante. Uma das marcas desse fenômeno (da pós-modernidade) é o misticismo, a valorização excessiva do emocional e o abandono da razão. Parece contraditório que vivamos hoje quase que um retorno aos períodos mais primitivos da raça humana. Elementos das crendices religiosas mais elementares ganham espaço na religiosidade atual. [...] verifica-se a banalização da fé e a mercantilização da graça. A graça já não é concedida por Deus, ela é conquistada por um baixo preço através da manipulação de jejuns, “correntes de orações,” “cultos de descarrego”, “cultos da conquista” das “novenas” etc. Tem sempre uma “noite” para cada necessidade. O que você quiser é só frequentar o culto certo, e Deus não tem escolha, tem que atender. A igreja já não é o lugar “aonde você vai para servir”, ela se tornou a prateleira onde se vendem bênçãos, milagres, curas, CDs, DVDs, livros de todo tipo, objetos ungidos e sagrados e todo tipo de bugigangas que alimentam a volúpia de alguns que enriquecem enquanto prometem prosperidade para os outros. Campos (1997: 46) afirma que a pós-modernidade tem sido apresentada como uma das causas do surgimento de novos movimentos religiosos no Ocidente e que tanto o movimento neopentecostal protestante como o movimento carismático católico podem ser analisados dentro da linha pós-moderna. 307 totalmente católico, foi, a partir da década de 50, um crescimento das religiões evangélicas pentecostais e das neopentecostais (estas, a partir da década de 70) que recorreram aos recursos da mídia, com ousadia, alugando longos horários ou comprando redes de televisão para transmitir suas pregações. As estratégias persuasivas do discurso religioso passaram, então, a se modificar continuamente, de forma a se adaptar às novas tecnologias. Hoje, ao lado dos cultos nos templos (transmitidos via satélite), há os programas de rádio, as pregações via TV, os blogs dos padres e dos pastores, os sites das Igrejas, a mídia impressa pelas próprias instituições religiosas, enfim, um aparato comunicativo que, se não utilizado, certamente implicará o declínio do número de fiéis ou mesmo o desaparecimento de algumas religiões tradicionais. Cientes disso, a neopentecostal IURD e a tradicional Igreja Católica vêm utilizando a mídia televisiva, como vimos, com formatos de produção e estratégias discursivas diferentes. Construíram, então, o novo gênero da pregação religiosa de televisão, resultado da incorporação de outros gêneros, oriundos de diversas esferas de atividades, e erigiram éthe cujo resultado é uma maior ou menor eficiência no /fazer-crer/ para /fazer-fazer/. Passa a ocorrer, dessa forma, um embate discursivo não só entre duas religiões cristãs, mas entre religiões de características diferentes: a IURD não completou quarenta anos, a Católica é milenar; a IURD aumentou o número de fiéis nos últimos anos, a Católica perdeu parte deles; a IURD responsabiliza o Diabo pelo Espiritismo, pelas religiões de origem africana e pelo catolicismo; a Católica excomunga o médico que, autorizado pela lei e aclamado pela opinião pública, procedeu ao aborto para salvar a vida de uma menina de nove anos, vítima de estupro; a IURD – espelho da pós-modernidade – converge todas as suas vozes para a pregação da felicidade aqui e agora, do homem atomizado, individualista, 308 materialista; a Católica luta para unir suas vozes divergentes que gritam desde a felicidade de uma vida material abundante até a felicidade concretizada na salvação eterna, produto da obediência aos preceitos bíblicos. Ambas, porém, apresentam suas ideologias em programas na televisão. No discurso católico, tivemos a oportunidade de avaliar duas tendências muito presentes na Igreja de hoje: a tradicional, do programa O pão nosso de cada dia, apresentado pelo padre Fernando J. C. Cardoso, doutor em Ciências da Religião, e a progressista ou moderna, representada pelos programas de tendência carismática. Pudemos observar que o agente religioso católico se coloca não só como intermediador entre o plano espiritual (de Deus) e o plano material (dos homens) mas também como intercessor homem / Deus. Por outro lado, se o discurso neopentecostal coloca o agente religioso no mesmo lugar enunciativo de Deus, cabe-nos registrar que o telespectador da IURD também se vê mais próximo do plano espiritual já que não existe o degrau intermediário (normalmente ocupado pelo agente religioso) entre ele e o Criador. A ocupação do mesmo patamar enunciativo de Deus demonstra conhecimento e poder, fator que estimula no outro, em alto grau, a fé na Igreja (e em Deus). No discurso católico, no entanto, a presença do padre preenchendo o degrau da intermediação deixa o fiel em uma posição mais afastada do plano espiritual. O padre exerce um papel ambíguo, pois é um porta-voz de dupla função: leva os anseios dos homens a Deus e traz a Palavra divina para os homens. Essa estratégia também resulta em um ciclo de dependência fiel / Igreja, mais brando que o da IURD, uma vez que o medo, a vergonha e o desespero diante da falta dos valores materiais, paixões constantes no discurso iurdiano, não se instalam de forma tão constante e contundente no discurso católico. 309 Em conclusão, desde a antiguidade, os homens vêm atribuindo ao plano espiritual a responsabilidade pelo curso de boa parte de suas vidas, outorgando-lhe um status superior que o autoriza a influenciar decisivamente nos destinos dos planos materiais. Conscientes disso, os homens têm apelado cada vez mais à ajuda do mundo espiritual, impulsionados pelos problemas e pelas mazelas da vida cotidiana. Dessa forma, as religiões tornaram-se (ou procuraram se tornar) uma porta de entrada para as criaturas buscarem ajuda de Deus ou mesmo de outras entidades que, de acordo com a fé, habitam outro mundo. Por conseguinte, ao longo da História, tais religiões, em especial as cristãs, foram-se proliferando, multiplicando-se cada vez mais, de forma a construir estruturas seculares e milenares cuja “manutenção” exigia (exige) uma constante adequação do discurso. Basta observar a mudança do discurso católico durante a Contrarreforma religiosa promovida pelo Vaticano, em meados do século XVI, para confirmar essa necessidade de contínua transformação. Os tempos mudaram e grande parte das pessoas não está mais disposta a se submeter a preceitos ditados por discursos tão severos, condenatórios e cerceantes como eram os discursos religiosos de séculos atrás. O catolicismo, depois de manter sua hegemonia no universo cristão durante doze séculos (desde sua fundação83 no Concílio de Niceia, século IV d.C, até a Reforma de Luthero, século XVI) viu-se obrigado a disputar lugar com outras religiões cristãs, que também se espalharam pelo mundo. No entanto, no século XX, com o advento da pós-modernidade, surgiram centenas de novas religiões cristãs que, percebendo a necessidade de uma maior divulgação dos seus preceitos aos homens, passaram a realizar suas pregações utilizando o mais moderno meio de 83 Os católicos afirmam que a fundação de sua Igreja deu-se por ocasião da nomeação, por Jesus, do apóstolo Pedro como líder continuador de Sua doutrina, no século I. No entanto, adotamos, nesta tese, o ano 325 d.C, data do Primeiro Concílio de Niceia, como a data oficial de fundação da Igreja Católica Apostólica Romana. 310 comunicação, a televisão. O uso da televisão passou a ser quase uma questão de sobrevivência. Assim ocorreu com a IURD, praticamente desde a sua fundação, em 1977, acompanhada pela milenar Igreja Católica, dentre outras. Assim surgiu o novo gênero da pregação religiosa de televisão que, certamente, perdurará por muitos anos até que outro aparelho de comunicação em massa venha a ser tão popular a ponto de substituir o televisor. O homem pós-moderno quer ser servido por Deus e não servi-Lo. O Deus das religiões surgidas da pós-modernidade existe para servir e não para ser servido. A fidelidade tem de ser um atributo do Criador com relação às suas criaturas e não o contrário, por isso, frente a tantos problemas que a vida apresenta, o homem procurará contar cada vez mais com a servidão do seu próprio Pai, afinal, “Deus é fiel”. Ilustrações 31: Acima, à esquerda, vê-se, sob a cruz, a pomba, símbolo do programa católico carismático, representando o Espírito Santo; o mesmo símbolo, a pomba, é adotado pela IURD (acima, à direita). 311 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. Retórica. Tradução Marcelo Silvano Madeira. São Paulo: Rideel, 2007. ____________. Retórica das Paixões. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. São Paulo: Martins Fontes, 2003 AZEVEDO, Neilton Santos. O fenômeno religioso na pós-modernidade. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência da Religião. Publicação em meio eletrônico pela Universidade Lusófona, 2008, BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 261 – 306. BARROS, Diana L. P. de. Teoria semiótica do texto. 4. ed. São Paulo: Ática, 2002. ___________ e FIORIN, J. L. (orgs.). Dialogismo, polifonia e intertextualidade. São Paulo: EDUSP, 2003. ___________ . Teoria do Discurso: fundamentos semióticos. 3. ed. 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Preste atenção se não é isto que tem acontecido, algo estranho. Mas sabe por que esta coisa estranha entrou aí? Por que de repente aconteceu isso? Olha, preste atenção, olha só... 2º Segmento: esperança e fé Testemunho 1 (Priscila) Bispo Jadson: ─ O nome da senhora? Fiel: ─ O meu nome é Priscila. ─ Aconteceu o quê? ─ Eu tive depressão, tive síndrome do pânico, tive, também, reumatismo no sangue e a médica já tinha me desenganado e determinou que eu devia tomar injeção até os vinte e um anos de idade, porque eu não teria cura mais. ─ A senhora veio na sessão e está curada? ─ Vim na sessão e estou curada. 319 ─ Liberta de tudo? ─ Liberta de tudo, não tenho mais nada, não sinto medo, não sinto síndrome de pânico, não sinto dores, não sinto nada. Quem tem reumatismo no sangue, quem teve, sabe como doem as juntas, sabe como é ruim essa dor, sabe que não tem controle nas mãos, controle sobre o corpo, é terrível. Nem fechar o botão da própria camisa, a pessoa não consegue. ─ E agora, consegue tudo? ─ Liberta, estou participando da corrente, estou liberta, graças a Deus, consigo tudo, sou feliz, sou realizada, não tenho nenhum tipo de problema, não tenho nenhum tipo de doença, graças a Deus. ─ Deus abençoe a senhora. Testemunho 2 (Sr. Alencar) Pastor Márcio: ─ Bom dia, pastor Denílton e a todos aqueles que estão acompanhando este programa. Nós agora vamos falar a respeito do Congresso Empresarial, que acontece todas as segundas-feiras na nossa catedral de Santo André, na Avenida Perimetral, número 105. O nosso Congresso Empresarial acontece para as pessoas que querem ver Deus na vida financeira. Mas o que Deus tem a ver com a vida financeira? Está escrito que o senhor Jesus, ele veio para dar vida e vida com abundância. E o que o senhor, a senhora entende de vida com abundância? É dívidas, problemas, miséria? Não, mas abundância é você ter realmente como está escrito, para ter ao senhor, a senhora e até emprestar! Isso mesmo! Está escrito que você estenderia as mãos para emprestar a muita gente, não tomaria emprestado. E o senhor, a senhora, está passando por um momento difícil. Se o senhor quiser continuar ligando, você pode continuar ligando, as nossas linhas telefônicas estão à sua inteira disposição, nós temos pessoas que estão dispostas a lhe ajudar, 2199-2625 e 2199-2624. O “seu” Alencar, ele chegou até o congresso empresarial com uma dívida de mais de quatrocentos mil reais. Como pagar uma dívida de mais de quatrocentos mil reais? Sem perspectiva! Eu gostaria que o senhor, a senhora, acompanhassem o desfecho desta história, uma história verídica de uma pessoa que venceu essa dívida de mais de quatrocentos mil reais. 320 Repórter: ─ Olá, pastor Rogério. O Sr. Alencar, que está aqui ao meu lado, chegou ao Congresso Empresarial com mais de quatrocentos mil reais em dívidas. Como é que o senhor conseguiu adquirir tantas dívidas? Sr. Alencar: ─ Olha, foram quatrocentos mil de dívidas, isso fora o patrimônio perdido. Na época, eu perdi mais de um milhão de reais de patrimônio... quer dizer... eu fiquei negativo, sem patrimônio nenhum, com todas essas dívidas, e essas dívidas foram contraídas no intuito de resgatar o patrimônio, no intuito de resgatar o prestígio diante da sociedade, diante dos amigos e no intuito, também, de honrar os compromissos. Mas, uma vez sem direção, não adiantou nada tantos esforços, não adiantou nada dinheiro emprestado de bancos, de agiotas, de amigos, de parentes, porque eu não conseguia, em hipótese alguma, honrar com nenhum desses compromissos. Quando eu comecei a participar do Congresso, Deus me deu a direção, então a coisa começou, de fato, a mudar, assim, numa rapidez muito grande. Deus me deu a direção, então eu comecei a negociar as dívidas. Não estou falando de contas porque, ainda agora, estávamos falando de contas. Contas são coisas do cotidiano que você, dormindo, você está fazendo contas de IPTU, seu condomínio, seguro do carro etc... . São dívidas mesmo, coisas impagáveis e eu comecei a pagar, resgatar um cheque ali, outro cheque aqui e, no final das contas, quando eu percebi, eu já estava com esses duzentos e vinte e dois cheques em mãos, títulos protestados e ações trabalhistas resolvidos e Deus foi me dando outras direções e eu comecei a ampliar os meus horizontes, trabalhando com produtos que ora eu não trabalhava e as coisas começaram a acontecer. Então aconteceu. Hoje eu não mantenho dívidas. Eu tenho compromissos no cotidiano e a minha vida mudou da água pro vinho. Sou uma pessoa completamente feliz, tenho um casamento abençoado, uma família maravilhosa, tenho um apartamento muito bom, tenho... além de ter um apartamento, tenho mais uma casa, tenho três veículos, tenho investimentos imobiliários que ainda estão aí para sair...não dá para mostrar ainda porque são investimentos de longo prazo. Tenho uma empresa na região dos Jardins, na área de decoração de interiores também, que está indo de vento em popa, está cada vez mais crescendo. Eu tenho cada vez ais ampliado os produtos que trabalho e a minha vida, hoje, está completamente realizada. Eu sou uma pessoa feliz. 321 3º segmento : Convocação para a guerra contra o Mal. Surge uma esperança. Pastor Denílton: ─Tá vendo? Essa coisa estranha é alguém que jogou uma maldição, um trabalho, um pó de sumiço. Eu me lembro de uma senhora que disse que uma amiga dela viu a outra amiga jogar um pó nas costas dela... ela não viu, uma outra amiga viu e contou para ela e então começou a sumir da vida dela; o marido começou a sumir da vida dela, os bens que ela tinha, os clientes que ela tinha, os fregueses que ela tinha. Começou a sumir a saúde, começou a sumir tudo. É isso que tem acontecido com muitas pessoas, sem saber explicar o porquê, a razão pela qual vêm sofrendo. É uma maldição. Então, nesta terça feira, nós vamos começar este trabalho de quebra de maldição, a quebra de maldição dos antepassados, dos ancestrais, três da tarde, sete da noite, sete e meia, aliás, em Santo André, na Avenida Perimetral, número 105 e em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus. Eu quero mostrar para a senhora, para o senhor, o bloco de depoimentos, com o Bispo Jadson, de pessoas que têm ido, que têm participado desta sessão espiritual e têm visto resultado. Acompanhe, por favor, eu volto já... ... Olha esses resultados! Deus quer que aconteça também na vida da senhora e do senhor, então, nesta terça feira, comece uma luta, uma batalha. Não lute mais na força do seu braço, brigando, discutindo, mas lute de uma forma espiritual, por quê? Porque se o Mal é espiritual, eu tenho que lutar contra ele de uma forma espiritual, aí eu vou nivelar a guerra, eu vou nivelar a batalha. Se eu tô lutando na carne, então o Mal que é espírito está aqui (o pastor posiciona a mão direita no alto, na altura dos olhos), e eu, lutando na carne, eu vou lutar aqui embaixo (posicionando a mão esquerda em numa altura inferior à da outra mão). Mas se eu começar a lutar no espírito, vindo fazer a corrente de terça feira, então eu vou lutar no mesmo nível do Mal. E, aliado ao Bem, então eu vou vencer este Mal. Venha se aliar ao Bem e quebrar esta força do Mal existente na sua vida, na sua família. Estamos começando um trabalho de libertação muito forte. É a quebra da maldição dos ancestrais, aquilo que acompanha seu pai, sua mãe, os seus antepassados; que tem acompanhado a senhora, o senhor. Comece a quebrar este Mal, nesta terça feira, em todas as Igrejas Universal do Reino de Deus, especialmente em Santo André... eu faço este convite, três da tarde, sete e meia da noite. O telefone fica aí, à disposição. Para você, que quer ligar, é, 2199-2625 e 2199-2624. Agora 322 você vai ficar com o pastor Márcio, falando sobre esta reunião de segunda- feira. Todas as pessoas que estão me assistindo, que estão com problemas financeiros, o pastor Márcio, então, vai falar com a senhora, agora, a respeito desta reunião. Pastor Márcio, bom dia... 4º segmento: O encontro com a Igreja/Deus Pastor Márcio: ─ Você viu o que “seu” Alencar fez? Ele tomou uma decisão, ele tomou uma atitude diante da situação, porque não adianta ficar se escondendo, ficar se esquivando. Não adianta ficar até mesmo dando desculpas, mas o que fazer então? Você acompanhou, ele usou a fé, ele praticou a fé que ele tem. É isso que acontece no Congresso Empresarial: você recebe uma direção de Deus, pois nós clamamos a Deus para que Deus lhe dê uma direção, para que Deus venha lhe ensinar o caminho Você sabe que existe um caminho certo para a prosperidade, existe o caminho. De repente, um dia, o senhor, a senhora esteve neste caminho, e agora parece que estão fechados. As portas se abriram. De repente começou o ano e as coisas começaram a se enrolar, as coisas começaram a dar errado pro senhor ou pra senhora. Esteja conosco no congresso empresarial nesta segunda-feira, às oito horas da noite. Estaremos clamando a Deus para que ele mude a sua situação, porque se você precisa de uma direção, esta direção ela vem de Deus para sua vida. Você que tem uma religião ou não, não é dia de nós falarmos de religião, não é dia de nós tratarmos de apenas assuntos religiosos, não. Não vamos ali discutir a sua religião A, B ou C, estaremos clamando ao Deus, ao Deus que veio a este mundo para lhe dar uma vida, e uma vida com abundância e, de repente, você diz:- “Está muito longe da minha vida ser esta vida com abundância, ser esta vida com fartura, ser esta vida que eu vou dar o melhor para os meus filhos.” Porque imagine quantos pais de família estão numa situação... De repente, o senhor está desempregado, o senhor não gostaria de ver a situação que você está. Mas isto é uma realidade. Pegue a sua carteira profissional, pegue a sua carteira de trabalho, esteja conosco nesta segunda feira, deixe de dar ouvido a tudo e a todos, porque, de repente você tem dado ouvido a tantas pessoas e estas pessoas não podem te ajudar. Mas eu tenho certeza que Deus pode te ajudar, eu tenho certeza que através da nossa oração que nós estamos pedindo a Deus, pois todos os dias, todos os dias, nós estamos pedindo uma direção a Deus, a fim de abençoar a sua vida financeira, a fim de mudar a vida que você tem vivido, a fim de que toda esta situação ela venha mudar. Eu gostaria que o senhor 323 acompanhasse esse testemunho do senhor Ednael, que chegou com a empresa cheia de dificuldades e, também, devido aos problemas financeiros, problemas familiares. Acompanhe com atenção, eu volto a seguir... TEXTOS DOS PROGRAMAS DE TELEVISÃO CATÓLICOS Programa O pão nosso de cada dia (Padre Fernando J. C. Cardoso) Amigos telespectadores da Rede Vida de Televisão e do programa “O Pão Nosso de Cada Dia”, é interessante nós, hoje, contemplarmos, na primeira leitura, um texto parenético-exortativo da Carta aos Hebreus, Capítulo 3, versículos 7 a 14. “Hoje, se ouvirdes Sua voz, não endureçais os vossos corações como aconteceu na provação no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram colocando-me à prova. Por isso me irritei com essa geração e afirmei: ‘Sempre se enganam no coração e desconhecem os meus caminhos Assim, jurei minha ira, não entrarão no meu repouso’.” Caríssimos irmãos, o autor está se referindo ao que aconteceu com aquela geração da época de Moisés que saiu da escravidão do Egito, atravessou a pé o Mar dos Juncos e começou a peregrinar pelo deserto em busca da Terra Prometida. Por causa de inúmeras provocações, por causa de inúmeras tentações e, sobretudo, quedas nas tentações, o texto afirma que nenhum deles, com exceção de Josué, filho de Nun, entrou na Terra Prometida. Todos eles morreram no deserto. Muito mais tarde, um salmo se aproveitou desses acontecimentos e, a modo de oração, insiste com o orante para que não feche o seu coração diante de uma nova perspectiva aberta por Deus para entrar no seu repouso. E o autor da Carta aos Hebreus, numa exegese mais ou menos rabínica, diz o seguinte: ‘Ainda existe um repouso para o novo povo de Deus que somos nós, seguidores de Jesus’. Nós também nos encontramos a meio caminho. Ainda não entramos definitivamente naquele grande sábado onde se repousa em Deus e onde se repousa com Deus. Portanto, olhando para o passado e contemplando o que aconteceu com aquela geração que acabou não entrando no primeiro repouso, a terra de Canaã, a terra onde corria o leite e mel, tomemos cuidado nós também. Para nós 324 não se trata de entrar novamente em Canaã ou em qualquer área geográfica deste planeta. O novo povo de Deus caminha através do deserto da vida rumo ao grande repouso, onde Deus está e onde ele quer repousar com Deus, também num sábado, num sétimo dia que não conhece ocaso, mas para tanto, caríssimos irmãos, agora nós nos fatigamos, agora nós trabalhamos, agora nós perseveramos, agora nós caminhamos e seguimos Jesus. A estrada que Jesus nos aponta no início deste ano e já nô-la apontou conduz seriamente, infalivelmente, ao repouso de Deus. Programa Encontro com Cristo (padre Alberto L. Gambarini) 1º. segmento : contrato fiduciário e Objetos mágicos Olá! Que a graça maravilhosa do nosso Deus neste momento possa estar transbordando em sua vida porque você está no lugar certo, o Programa “Encontro com Cristo”. Meu nome é padre Alberto Gambarini e, como seu pai espiritual, convido você a não faltar no nosso grande encontro no carnaval, dia 18 de fevereiro, no Ginásio Municipal de Itapecerica da Serra, das 8 da manhã às 17 horas. Ao chegar, você receberá uma unção com o óleo bento nas suas mãos, uma medalha milagrosa e quando o santíssimo sacramento estiver entrando, com certeza você será confirmado em um milagre. Você, com certeza também, já colocou no coração o desejo de estar conosco. Por isso, agora, vamos pedir o Espírito Santo: Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Oremos! Deus, que instruístes os corações de Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo espírito e gozemos sempre da Sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém. 2º. SEGMENTO: simulacros negativos Infelizmente, muitas vezes, nós temos a impressão de que os problemas são maiores do que a nossa capacidade para resolvê-los, como aconteceu, por exemplo, com André, quando Jesus queria alimentar a multidão que o estava acompanhando. Naquela ocasião, aqui no Evangelho de São João, no Capítulo VI, versículo 9, disse André: ‘Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isto para tanta gente?’. Reparem como ainda este discípulo não havia entendido 325 quem era, quem é, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Nós temos que acreditar que quando andamos na Palavra de Deus, quando nós queremos viver o Seu plano de amor, Ele moverá os céus para multiplicar também em nossa vida todas as bênçãos que forem necessárias para que nós tenhamos uma vida abundante, como aconteceu na multiplicação dos pães. Aqui, em João, no Capítulo VI, versículo 13, nós lemos: ‘Eles recolheram dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram e encheram doze cestos’. Reparem: daqueles poucos peixes, daqueles poucos pães, doze cestos ficaram cheios. E esses doze cestos simbolizam as bênçãos que Deus deseja dar a você, a mim e a todos nós. Não deixemos estes cestos ficarem vazios por causa da nossa incredulidade, mas olhemos para Jesus Cristo confiando que Ele é Aquele que está estendendo as mãos sobre a nossa vida, sobre a nossa casa, a nossa família, a nossa saúde, o nosso trabalho, o nosso estudo, para que tudo possa ser para a maior glória do nosso Deus. 3º. Segmento: contrato reforçado A dificuldade, não tenhamos medo dela! Os problemas, não fujamos deles! Mas, muito pelo contrário, olhemos tudo tendo a grande certeza que entre eles e nós está Jesus Cristo com a Sua bondade, dizendo: ‘Confiem em mim, confiem no Senhor Jesus Cristo’. Você verá as graças dos céus sendo derramadas em sua vida. É por isso que eu convido você, meu querido e minha querida, a me escrever. Mande-me o seu testemunho, os seus pedidos de oração. Eu irei colocá-los ali, junto ao sacrário do Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres e Divina Misericórdia, que fica no Largo da Matriz, no Centro de Itapecerica da Serra, São Paulo. Mande a sua carta para padre Alberto, Caixa Postal 32, CEP 06850-970, Itapecerica da Serra, São Paulo, ou entre no meu site www.encontrocomcristo.org.br. Lembre-se, no final do programa eu estarei orando por você, abençoando a água. Mas, agora, por favor, mas por favor mesmo, preste atenção nestes meus recadinhos. 4º. Segmento: os recadinhos Pare de sofrer emocionalmente, deixe Jesus curar as suas feridas interiores lendo o livro que eu escrevi para você: “Cura das emoções em Cristo”. Um livro repleto de orientações práticas de como aprender a renovar a mente e a lidar com os sentimentos de rejeição, a falta de perdão, 326 depressão, medo, ansiedade e solidão. É um livro completo de cura interior. “Cura das emoções em Cristo”. E adquirindo os livros do padre Alberto, você está ajudando a nossa obra. Adquira o seu nas melhores livrarias católicas perto de você ou ligue de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353. Repetindo 0XX11-4667-4353. Agora você pode adquirir os livros, CDs e DVDs do padre Alberto com seu cartão Mastercard, Dinners Club e Visa pelo telefone. Ligue de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 18 horas, para 0XX11-4667-4353, 0XX11-4667-4353 e faça o seu pedido. Válido somente para Mastercard, Diners Club e Visa. 5º. Segmento: apelo por dinheiro Nós estamos no mês de janeiro e eu quero fazer uma grande convocação a toda a nossa família “Encontro com Cristo”. Você que acompanha o nosso programa, por favor, ajude-me com quanto você puder. Sim, eu preciso da sua colaboração. Você que tem sido ajudado pelo nosso programa, seja fiel a esta colaboração. Você que recebe a minha carta mensal, destaque o boleto, vá ao banco de sua preferência ou use a comodidade das casas lotéricas. E você que ainda não a recebe, colabore deste modo: dirija-se a qualquer agência do Bradesco e faça o seu depósito para “Programa Encontro com Cristo”, agência 1464, conta 32247-4. Repetindo, Bradesco, agência 1464, conta 32247-4, ou envie um cheque cruzado nominal ao padre Alberto para padre Alberto, Caixa Postal 32, CEP 06850-970, Itapecerica da Serra, São Paulo. Programa O terço bizantino (Padre Marcelo Rossi) Padre Marcelo Rossi: ─ Durante quinze dias, sim, uma quinzena, você pediu e nós vamos fazer. Infelizmente ela existe: a inveja. Vamos orar contra todo e qualquer tipo de inveja, por isso, juntos, Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus 327 Jesus Jesus Jesus Jesus E, de joelhos, segundo mistério: Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Jesus, tira do meu coração toda inveja. Terceiro mistério: Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Jesus, proteja-me de toda inveja. Quarto mistério: 328 Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. Jesus, proteja minha família da inveja. E terminamos: Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor Obrigado, Senhor E que desça sobre você a bênção do Deus todo poderoso Pai, Filho e Espírito Santo, Amém. Jesus, proteja a minha vida, a minha família, de todo tipo de inveja. 329 Textos recentes transcritos de programas exibidos pelas Igrejas em estudo durante o mês de fevereiro de 2009 Programa O pão nosso de cada dia, exibido pela Rede Vida de Televisão em 6 de fevereiro de 2009 Amigos telespectadores da Rede Vida de Televisão e do programa O pão nosso de cada dia. Meditação ao alcance de todos no portal católico. Ontem falávamos no espírito despojado dos missionários. Hoje, damos um passo a mais. Aqueles que se propõem a testemunhar Jesus Cristo podem correr sérios riscos de vida. João Batista, aquele que veio para dar testemunho da luz por causa da sua pregação, por causa da sua coragem, por temer mais a Deus que os homens foi posto numa prisão escura e, finalmente, devido à fraqueza de um rei e aos caprichos de uma mulher e sua filha, decapitado. De lá para cá foram muitos os que foram decapitados por causa de Jesus Cristo. Meus caríssimos irmãos, o século XX, que nós deixamos para trás há poucos anos está repleto de santos e santas mártires, de cristãos eminentes que derramaram o sangue por causa do Evangelho de Cristo em diversos países e diversos continentes. O martírio não cessou. Nós gostaríamos em primeiro lugar, hoje, de elevar preces e súplicas a Deus por aqueles cristãos que, por serem corajosos e destemidos, estão atualmente correndo riscos de vida. Alguns se encontram já nas prisões. Em segundo lugar, nós gostaríamos de perguntar até onde vai a nossa autenticidade por Cristo. Certa vez, eu dizia a uma pessoa que, por causa de Cristo, nós devemos derramar o próprio sangue. Esta pessoa ficou escandalizada, esta pessoa não imaginava que por amor a Jesus Cristo se devesse chegar a tanto. Para esta pessoa, a própria vida vale mais do que a amizade com Cristo. Mas, embora não digam isto, pensam e agem da mesma forma aqueles que por um nada que se chama pecado são capazes de romper a amizade e a intimidade com Cristo e com Deus, não sabendo sofrer ou deixar de lado coisa alguma para manter esta mesma amizade, não sabendo recusar a nenhum bem deste mundo por uma finalidade maior: o meu apreço a Cristo. Você diz que ama a Cristo, mas o seu amor a Cristo é capaz de vencer as tentações e o pecado? O seu amor a Cristo é capaz de torná-lo corajoso e destemido e falar em favor de Cristo até mesmo em circunstâncias adversas da vida? Se fosse 330 necessário, você seria capaz de dar a sua vida e derramar o seu sangue por Cristo? Ou mártir ou confessor da fé. Programa O terço Bizantino, com o padre Marcelo Rossi, exibido pela Rede Vida de Televisão em 6 de fevereiro de 2009 Dia seis de fevereiro, Com muito carinho, estamos orando o Terço Bizantino, e, repercussão...misericórdia... é desemprego. Você vê o jornal, você lê o jornal... e a notícia?... firma tal é a que fali (sic)...famílias sem emprego. Por isso, juntos, Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus Jesus E, de joelhos, segundo mistério: Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Jesus, misericórdia dos trabalhadores. 331 Jesus, misericórdia dos trabalhadores. Terceiro mistério: Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Jesus, misericórdia dos desempregados. Quarto mistério: Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. Jesus, misericórdia. E terminamos, agradecendo: Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. 332 Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. E que desça sobre você...esse mês de fevereiro... todos os dias, a bênção de Deus, todo poderoso: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Amém. Jesus, misericórdia no trabalho, no desemprego. Em tuas mãos colocamos a nossa vida. Programa Encontro com Cristo, exibido em 06 de fevereiro de 2009, pela Rede Vida de Televisão (apresentador: padre Alberto Gambarini) Olá. Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo, neste momento, possam estar transbordando em seu coração. Está começando o programa Encontro com Cristo. Eu fico feliz de encontrar mais uma vez com você, meu amigo e minha amiga. Meu nome é padre Alberto Gambarini. Sou pároco da Igreja Nossa Senhora dos Prazeres e Divina Misericórdia, que fica no Largo da Matriz, centro de Itapecerica da Serra, São Paulo. Não deixe que nada impeça você de chegar ao nosso louvor de carnaval. Venha decidido a receber um milagre. O tema Curai os enfermos, dia 22 de fevereiro, no ginásio municipal de Itapecerica da Serra, na Avenida Dona Anila, Rua da Delegacia, das 8 da manhã às 17 horas. Venha com a sua família, forme a sua caravana. Madre Tereza de Calcutá não se cansava de repetir: o melhor caminho para mostrar nossa gratidão a Deus é aceitar todas as coisas com alegria. Peçamos esta graça ao Espírito Santo: Vinde Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra. Oremos: 333 Deus, que instruístes os corações de vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo espírito e gozemos sempre da sua consolação. Por Cristo, senhor nosso, amém. Quantas pessoas que perguntam “onde eu posso encontrar o Cristo ressuscitado? Onde eu posso ouvir as suas palavras? Onde eu posso ver que realmente Ele continua entre nós? Primeiro ponto muito importante: nós temos a certeza que Jesus está vivo porque ele ressuscitou; Ele prometeu estar conosco até o final dos tempos e também disse: onde dois ou mais estiverem reunidos, aí Eu estarei. Porém, de um modo todo especial, na 5ª. feira Santa, Ele celebrou a eucaristia porque ele queria continuar se encontrando de um modo mais forte conosco, Ele queria se tornar presente para que nós pudéssemos receber o alimento que nos fortalece, mas não um alimento qualquer, mas Ele próprio, porque a eucaristia é o Seu corpo e sangue e é aquilo que aconteceu com os discípulos de Emaús, em um domingo porque o domingo passou a ser para os primeiros cristãos o grande dia do culto verdadeiro e completo a Deus. Em um domingo, Nosso Senhor aparece a amigos Seus que estavam tristes, começa a conversar com eles, explica as escrituras. Mas veja o que está escrito aqui, em Lucas, no capítulo 24, versículos 30 e 31: Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiuo e serviu-lho. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram. Reparem: o encontro dominical, na Santa Missa, onde nós celebramos a eucaristia ao encontro vivo com este ressuscitado que deseja se dar a nós para que a nossa semana seja uma semana de vitórias. Quando nós entramos na igreja com a grande certeza que vamos nos encontrar com Jesus, quando nós rezamos, cantamos, ouvimos com atenção a Sagrada Escritura, mergulhamos naquele momento da consagração no altar, junto com o pão e o vinho e depois recebemos o corpo e sangue de Jesus, nós vemos que a missa é a maior fonte de milagres que nos foi deixada por Jesus Cristo. Por isso, meu querido e minha querida, você não pode faltar á santa missa dominical. E se pode ir durante a semana, vá. Se o padre celebra diariamente, participe também durante a semana. Mas a missa que nós não podemos faltar é a missa dominical. Apresente a Jesus a situação que você está vivendo, boa ou má, e você verá: Ele irá te abençoar, Ele irá te curar, Ele irá te libertar porque Ele está vivo, Ele está presente por inteiro, na eucaristia, por amor de nós. Neste final de semana, não falte à santa missa na sua paróquia e veja também o programa Encontro com Cristo, aqui, pela sua Rede Vida de Televisão, neste domingo, ás 17 horas. Eu estarei esperando por você. No final do 334 programa, eu vou abençoar você e tudo aquilo que estiver diante da televisão, inclusive a água. Mas, agora, por favor, preste atenção nestes meus recadinhos: Você está precisando de bênção, cura e libertação? Então venha dia 22 de fevereiro, domingo de carnaval, participar do louvor Encontro com Cristo, com o tema: Curai os enfermos. Começaremos com a procissão e bênção do Santíssimo e o dia inteiro Jesus estará derramando aquela graça que você tanto está necessitando. Dia 22 de fevereiro, ginásio municipal Dona Anila, Rua da Delegacia, das 8 da manhã às 17 horas, encerrando com a Santa Missa. Tome a decisão acertada de ser abençoado e venha. Você já leu o livro de minha autoria Batalha espiritual? Falar deste tema significa entrar na dimensão dos poderes das trevas. Há sempre o perigo de cair no engano de desprezar a presença de Satanás e de seus demônios ou conceder exagerada importância à sua influência na vida dos homens. Este livro Batalha espiritual, do padre Alberto Gambarini, é importante para entender este mundo em chamas e também para não cair nas armadilhas do maligno. Você encontra o livro Batalha espiritual nas melhores livrarias perto de você ou você pode ligar, de 2ª. a 6ª. feira, das 8 da manhã às 17:30 para 0 operadora 11 4667 4353 ou entre na minha loja virtual www.encontrocomcristo. org. br. Estamos no mês de fevereiro, o mês mais curto do ano e que tem também o carnaval. E aí, então, muitas vezes, as pessoas esquecem por causa das viagens, por causa dos encontros, da colaboração para a manutenção da nossa programação. Estamos na semana decisiva e nós precisamos da sua colaboração com quanto você puder. Se você ainda não fez a sua oferta este mês, por favor, ajude-me esta semana porque nós precisamos pagar a nossa programação. Você, que recebe a minha carta mensal, destaque o boleto, vá ao banco de sua preferência ou use a comodidade das casas lotéricas. Você, que ainda não a recebe, ajude-me deste modo: Dirija-se a qualquer agência do Banco Itaú e faça o seu depósito para programa Encontro com Cristo, agência 0570, conta 09484-7 e envie um cheque cruzado, nominal ao padre Alberto, para: Padre Alberto, caixa postal 32, CEP 06850-970, Itapecerica da Serra, São Paulo. O Evangelho de São João, no capítulo 5, nos mostra Jesus indo ao poço de Betesda, onde muito doentes esperavam uma cura. Ali ele encontra um homem que há 38 anos desejava ser curado. Quantas vezes nós também passamos anos e anos sofrendo, imaginando que Deus não quer 335 nos abençoar. É por isso que, hoje, eu quero te convidar a estar junto de Jesus e ouvir as mesmas palavras que Ele disse àquele homem: Você quer ser curado? Eu tenho a certeza que a sua resposta é positiva. Por isso, curve a sua cabeça e receba a oração: Pai querido, pai amado, como aquele homem junto ao poço de Betesda, derrama agora, em nome de Jesus, a tua bênção para trazer a cura que estas pessoas estão necessitando para as suas vidas e também nós queremos pedir a intercessão da doce Virgem Maria entrando no seu santuário de Nossa Senhora dos Prazeres, em Itapecerica da Serra, com a oração das três Ave-Marias: Ave-Maria, cheia de graça... 3x Naquele poço de Betesda, diziam que descia um anjo que movimentava a água e o primeiro que entrasse era curado. Hoje, o anjo são as palavras do nosso programa, hoje o anjo está abençoando esta água que você vai bebê-la com fé e trará a graça, a bênção para a sua vida. Abençoa esta água, santifica-a para que possa trazer a tua bênção, conforme a necessidade de cada pessoa que está acompanhando o nosso programa, em nome do Pai, do Filho e do espírito santo, amém. Que Deus te abençoe, os anjos te protejam e salve Maria. Programa Nosso tempo, exibido em 12 de fevereiro de 2009, na Rede Record de Televisão Pastor Rogério Formigoni: Muito bem. No programa de hoje, nós vamos falar sobre a fé que liberta, a fé que traz à existência aquilo que ainda não existe. É claro que independente da religião, independente da sua crença,os problemas, eles vieram, eles surgiram. Eles só são vencidos por meio dessa fé, por isso que, às sextas-feiras, nós temos realizado aqui, no Templo Maior, o ritual contra as energias negativas. Por trás desse problema que a senhora enfrenta, por trás desse problema que o senhor enfrenta, existe um causador, existe um Mal. Esse Mal, ele não é vencido com o tempo, ele não é vencido com choro, com lágrimas. Ele é vencido por meio de uma fé aplicada em Deus. Nós temos os sintomas que caracterizam a ação de um Mal na vida de uma pessoa. Aí você vai começar a entender o porquê que existem pessoas que mudam de uma forma repentina, têm reações, na sua grande maioria agressivas, de uma hora pra outra. Eu quero que você acompanhe esses sintomas. Se você tem um deles, você precisa de uma libertação. 336 EXISTEM DEZ SINTOMAS QUE CARACTERIZAM A INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS DO MAL: -NERVOSISMO -DORES DE CABEÇA CONSTANTES -INSÔNIA -MEDO -DESMAIO -ATAQUE -DESEJO DE SUICÍDIO -DOENÇAS QUE OS MÉDICOS NÃO DESCOBREM AS CAUSAS -VISÃO DE VULTOS OU AUDIÇÃO DE VOZES -VÍCIOS OU DEPRESSÃO Nesta sexta-feira, nós estaremos aspergindo uma água energizada sobre você, uma água consagrada, e quando essa água tocar no seu corpo, todo o Mal que existe na sua vida, que existe nos seus caminhos, eles serão banidos da sua vida. Nesta sexta-feira, às três horas da tarde, nós vamos estar pessoalmente aqui no Templo Maior [...] Agora eu vou colocar o intervalo que fala mais sobre esse ritual para que você possa entender como que esses encostos, eles agem na vida de uma pessoa; VIBRAÇÕES NEGATIVAS. AS VIBRAÇÕES NEGATIVAS CERCAM O SER HUMANO, BLOQUEIAM A CAPACIDADE DE RACIOCÍNIO E IMPEDEM O CRESCIMENTO E A FELICIDADE. O MEIO EM QUE VIVEMOS E TODAS AS ENERGIAS QUE RECEBEMOS DELE SÃO ABSORVIDAS POR NÓS. OS QUE PENSAM NEGATIVO ATÉ ALMEJAM O SUCESSO, MAS NÃO FAZEM NADA PARA ALCANÇÁ-LO, NÃO CONFIAM EM SI MESMOS E ATRAEM AINDA MAIS DERROTAS. INSÔNIA, DEPRESSÃO E O DESEJO DE SUICÍDIO SURGEM COMO CONSEQUÊNCIA DE TUDO ISSO. VOCÊ SENTE QUE NÃO CONSEGUE DESENVOLVER PORQUE ESTÁ CARREGADO DE ENERGIA NEGATIVA, MAS QUER E PRECISA MUDAR ESSA SITUAÇÃO. VOCÊ PRECISA REAGIR! PARTICIPE NESTA SEXTA-FEIRA DA CORRENTE CONTRA AS VIBRAÇÕES 337 NEGATIVAS E CONQUISTE UMA VIDA DE QUALIDADE. ÀS OITO HORAS DA NOITE, NO TEMPLO MAIOR, AVENIDA JOÃO DIAS, 1800, SANTO AMARO. Programa A hora dos empresários, exibido dia 13 de fevereiro de 2009, na TV Gazeta Pastor Rogério Formigoni: É... tem gente que diz assim: quando vai chegar a minha vez, de desfrutar de uma vida de qualidade? E a gente pergunta o seguinte: quando você quer que chegue a sua vez? Porque uma atitude sua pode mudar a sua história e uma falta de atitude pode deixar você dependendo dos outros, vivendo uma vida vexatória, vivendo uma vida de humilhação. Nós queremos falar, neste programa, sobre a vigília dos 318 pastores, que tem sido a ponte para levar milhares de pessoas de um extremo a outro, pessoas que chegam nessa vigília quebradas, endividadas, falidas, pessoas devendo pra agiotas, na iminência de serem despejadas, pessoas com o nome sujo na praça, pessoas que trabalharam anos, lutaram muito tempo pra conquistar alguma coisa e o que conquistou, de uma hora pra outra, de uma forma inexplicável, elas acabaram perdendo. Chegaram à estaca zero e, humanamente falando, não tinha saída, não tinha solução. Mas aqui, nesta vigília, não aconteceu mágica, não. Elas seguiram e direção. Deus deu a elas uma visão, ideias, Deus, Ele foi à frente abrindo portas, e, hoje, são pessoas bem sucedidas, são pessoas que têm uma história de sucesso pra contar. Você também quer ter uma nova história pra contar. Aparentemente, nesse emaranhado de dívidas, nesse emaranhado de problemas que você se encontra é até impossível você sair dele. Elas também pensavam assim, mas tomaram a decisão, não ficaram em casa só acompanhando o programa, tomaram a decisão de vir à igreja, de participar dessa reunião dos empresários e se submeter a Deus. Por isso, elas saíram do anonimato e alcançaram essa vida de qualidade. Foi o que aconteceu com a Sra. Leia. A nossa repórter Maria Clara falou com ela. Ela chegou com uma dívida de duzentos e cinquenta mil reais. Foi nessa a situação que ela chegou no congresso. Humanamente falando: sem saída. Mas a fé foi-nos dada pra isso, para quando estivéssemos sem saída, colocarmos em prática essa fé e aí alcançarmos a vitória e o sucesso que tanto desejamos. Você não tem a fé pra dizer que tem, você tem a fé pra usá-la e quando você usa, você se beneficia dela. A Dona Leia usou a fé. Você vai acompanhar agora o resultado dessa fé. 338 Repórter Maria Clara: Com uma empresa à beira da falência, a Dona Leia, com quem eu converso agora, contraiu uma dívida de aproximadamente duzentos e cinquenta mil reais. A situação era desesperadora, não é, Dona Leia? Dona Leia: Sim. Eu estava literalmente endividada, eu tinha uma empresa no ramo têxtil, no qual eu fornecia mão-de-obra e com isso eu vim perder os meus fornecedores e os problemas começaram a surgir. Comecei e dever limite de banco, cartão de crédito, meus cheques sendo protestados. Várias situações contribuíram para que, cada vez mais, eu viesse a ficar endividada e, principalmente, chegou num ponto onde eu não conseguia mais fazer a folha de pagamento dos funcionários. Repórter: Leia: Foi nessa situação já sem saída que a senhora encontrou uma última porta. Exatamente. Assistindo à TV, pela madrugada, eu me deparei com pessoas em situações piores que a minha. Se ela conseguiu eu também vou conseguir e comecei a frequentar as reuniões. Repórter: E assim, com esse sentimento de alívio, sua vida realmente se transformou, não é? Leia: Sim, mudou. Eu mudei o ramo de atividade da empresa, de confecção pra vestuário, consegui colocar... na verdade, a gente fala “a casa em ordem”, pois foi através das palestras e das orientações que eu obtive aqui. Repórter: Leia: A minha dívida, ela está literalmente quitada. Repórter: Leia: Sua dívida, hoje, foi completamente quitada. Hoje a senhora consegue ter qualidade de vida? Sim, hoje eu consigo dormir em paz, consigo atender os meus fornecedores, consigo atender os meus clientes tranquilamente. Aquelas coisas desagradáveis não existem mais. 339 Repórter: Leia: É uma felicidade que a senhora não conhecia? Completamente. Só que pra tudo isso existe um segredo e esse segredo é a perseverança. Aqui, sim, você sendo perseverante, você vai obter a sua vitória. Repórter: Leia: Essa perseverança, a senhora adquire a cada segunda-feira que a senhora está aqui? A cada segunda-feira. Não é exatamente na primeira segunda-feira que você tem o resultado, não. Você passa uma segunda-feira...aquela ministração que você tem ali, você consegue adquirir algo para você...abastecer aquela semana pra você resolver a situação daquela semana e, aos poucos, você consegue a sua conquista. Repórter: Tá certo, então. Obrigada pela participação. A Dona Leia teve a vida transformada por meio da vigília das grandezas de Deus e você também pode ter. Basta participar dessa reunião que acontece toda segunda-feira, às dez da noite. No Templo Maior. Programa Nosso tempo, exibido dia 13 de fevereiro de 2009, na TV Gazeta Pastor Renato Lucas: Muito bom dia. Que Deus abençoe a todos abundantemente. O programa Nosso tempo inicia-se a partir deste momento e quantas são as pessoas vítimas de inveja, vítimas de trabalhos de bruxaria e trabalhos de feitiçaria. Saiba que se a senhora, o senhor está sofrendo, não é por acaso. O seu sofrimento não é um carma, não é o destino e muito menos é uma provação de Deus. Se a senhora, o senhor está sofrendo é porque existe uma força do Mal na sua vida, força do Mal esta que pode ter entrado por uma inveja, por uma maldição, por um feitiço e este Mal não vai sair da sua vida por si só. Ele não vai sair com o tempo. É preciso que este Mal...ele seja arrancado e dentro desta nossa programação, você vai acompanhar vários testemunhos de pessoas que também traziam o Mal com elas, mas essas pessoas, elas alcançaram a libertação através de uma corrente forte de libertação, inclusive, nós já vamos acompanhar um testemunho, uma pessoa que alcançou a libertação numa corrente forte que é realizada, inclusive, todas as sextas-feiras. Acompanhe esse testemunho de fé. Já, já voltamos. 340 Testemunho (mesmo padrão dos anteriores, com pessoas felizes depois de frequentarem a IURD) – não transcrito. Pastor Renato: Acompanhou aí essa pessoa que alcançou a libertação? Quantas vezes a senhora, o senhor se perguntam: o que é que falta para ser feliz? O que é que falta para que os meus problemas venham ser resolvidos? Falta a senhora, o senhor se libertar deste Mal que está na sua vida. Às vezes você até diz: mas eu não faço mal pra ninguém, eu até procuro ajudar as pessoas, eu sou uma pessoa boa. Mas as pessoas boas são as mais atingidas pela inveja, são as mais atingidas pelas forças do Mal. Você precisa de uma libertação, amiga e amigo. Este Mal que está na sua vida, enquanto o tempo vai passando, ele vai crescendo, por isso que a cada dia a sua situação está cada vez pior. Você vai nos médicos, os médicos não descobrem o que você tem, você vive com dores, vive doente; o seu casamento, de uma hora pra outra esfriou, nada tem dado certo na sua vida; a sua autoestima está lá embaixo, porque há um Mal na sua vida que tranca, que amarra. Você precisa de uma libertação, inclusive vamos a mais um testemunho de fé. Mais uma pessoa que alcançou a libertação participando desta corrente forte de sexta-feira. Testemunho (mesmo padrão dos anteriores) não transcrito. Pastor Renato: Bom...você deseja também uma libertação na sua vida? Nesta sexta-feira, estaremos realizando um trabalho forte de libertação em todo templo da fé da Igreja Universal do Reino de Deus. Um trabalho forte de libertação pra te libertar da inveja, da praga, da maldição, da bruxaria...pra te libertar de todo o mal. Pode ter certeza...a senhora, o senhor, que chegar nesta corrente carregado, pesado, você vai sair liberto, livre de todo o mal. Tá bom? Se você quer a nossa ajuda, nós estaremos na nossa catedral ali em Santo André, na Avenida Perimetral, número 105, o dia todo. Nós temos ali reuniões oito, dez, meio-dia, três, mas, especialmente, às sete e meia da noite, na grande noite da libertação. Se você quer um atendimento espiritual, uma hora antes, estaremos realizando esse atendimento espiritual, tá bom? Avenida Perimetral, número 105, como em todo templo da fé da Igreja Universal do Reino de Deus. Vamos ao intervalo, já, já voltamos. PROPAGANDA 341 ALGUMA VEZ VOCÊ JÁ ENTROU NUM LUGAR ONDE A VIBRAÇÃO NÃO ESTAVA BOA? JÁ SAIU DE ALGUM LUGAR EM QUE O AMBIENTE ESTAVA PESADO? ESTES SINTOMAS SÃO DE VIBRAÇÕES NEGATIVAS, INVISÍVEIS, MAS TOTALMENTE NOCIVAS AOS QUE ESTÃO DESPROTEGIDOS. PENSAMENTOS DESTRUTIVOS, DESCONTENTAMENTO, ÓDIO, DESILUSÕES, FRUSTRAÇÕES E INVEJA. TUDO ISSO GERA MÁS ENERGIAS QUE AMARRAM CAMINHOS, ANULAM RELAÇÕES AMOROSAS, PROVOCAM DESCONTROLE EMOCIONAL, MEDO, FRACASSO PROFISSIONAL, DOENÇAS E AGONIA. SE VOCÊ SOFRE COM ALGUM DESSES SINTOMAS E DESEJA FICAR LIVRE DE TODOS ESSES MALES, SEXTA-FEIRA, A CORRENTE FORTE CONTRA AS VIBRAÇÕES NEGATIVAS, ÀS SETE HORAS DA NOITE, NA MATRIZ DO BRÁS, AVENIDA CELSO GARCIA, 499, NO TEMPLO MAIOR, AVENIDA JOÃO DIAS, 1800, SANTO AMARO, E EM TODAS AS IGREJAS UNIVERSAL DO REINO DE DEUS. Programa A hora dos empresários, exibido dia 13 de fevereiro de 2009, na TV Gazeta Bispo Jadson: [...] Eu sei que tem gente que está se segurando pra não vender o carro, pastor Edson. Tem gente que tá se segurando pra não vender um bem. Existem pessoas que, ultimamente, a coisa tá apertando pra elas e existem pessoas que não estão conseguindo...sabe...nem manter a casa, nem pagar as despesas do mês. Tem pessoas que a despesa é muito alta e o que entra é muito pouco e ela tá vendo a situação piorando. Se uma atitude não for tomada, a tendência é a pessoa vender tudo e chegar ao ponto de não ter mais o que vender e ficar só com dívidas. Pastor Edson: É verdade. Tem um caso mais extremo que é aquela pessoa que nem pode vender um bem, não pode porque, por exemplo, se a casa dela é própria, se o apartamento, se o imóvel é próprio é uma coisa... se ele está financiado é outra. E se ela não tem fonte de renda, se não está entrando nada e mal a prestação ela está conseguindo pagar, de repente estão prestes a tomar dela o imóvel. Não é nem questão de vender, é de perder mesmo o imóvel e ela vai fazer o quê nessa situação? 342 Bispo Jadson: Existem pessoas que são humilhadas pelo proprietário do imóvel, tem gente que só está aguentando essas humilhações porque não têm pra onde ir. Ela precisa de uma pessoa para ser avalista, ela precisa ter um nome limpo para poder alugar outro lugar e não tem. A pessoa tá com medo de não ter onde morar e tem filhos aí, na responsabilidade. Olha que situação! Existem pessoas que estão precisando de um milagre porque elas estão cercadas de todos os lados. Procura a gente segunda-feira. Sete e meia da manhã, termina oito e vinte, cinquenta minutos. De dez às onze e dez , o pastor Edson [...] PROPAGANDA O QUE VOCÊ FAZ QUANDO O PROBLEMA VEM? EM UM CENÁRIO DE DIFICULDADES FINANCEIRAS ONDE SUA FAMÍLIA ESTÁ DESESTABILIZADA, AS CONTAS ESTÃO CHEGANDO E AS DÍVIDAS CRESCENDO, O MEDO DO FUTURO BATE À PORTA E AS BRIGAS SE TORNAM INEVITÁVEIS. NESTE MOMENTO DE AFLIÇÃO ONDE PARECE NÃO EXISTIR SAÍDA, NÃO DEIXE O MEDO TE DOMINAR. TOME A ATITUDE CERTA. VENHA NESTA SEGUNDA RECEBER A DIREÇÃO PARA VENCER AS ADVERSIDADES E FORTALECER SEUS PASSOS. NAÇÃO DOS 318 PASTORES, UNINDO FORÇAS PARA QUE VOCÊ RECEBA SUA VITÓRIA FINANCEIRA. NO BRÁS, AVENIDA CELSO GARCIA, 499. ----- ////// ------