EVOLUÇÃO NO TEMPO DAS DEFORMAÇÕES INDUZIDAS PELA ESCAVAÇÃO DE UM TÚNEL SUPERFICIAL Paulo Venda de Oliveira1; Mafalda Lopes2 & Jorge Almeida e Sousa3 Resumo - Apresenta-se neste artigo alguns resultados de uma análise paramétrica efectuada com o objectivo de avaliar a forma como o alívio das tensões permitido no contorno da abertura, o tipo de solo (sua resistência e sua história de tensões) e a permeabilidade do suporte afectam a evolução temporal dos deslocamentos induzidos no maciço envolvente de um túnel circular. Nos cálculos utilizou-se um programa plano de elementos finitos que incorpora o modelo elasto-plástico “MIT-E3”, capaz de reproduzir as principais características do comportamento mecânico de argilas normalmente consolidadas ou moderadamente sobreconsolidadas (OCR<8). Abstract - The paper presents some results of a parametric study performed to evaluate the influence of the stress release, the soil type (its strength and stress path) and the permeability of the support on the evolution in time of soil displacements. The construction of a circular tunnel is analysed. The analysis was performed using a two-dimensional finite-element mesh with an elasto-plastic “MIT-E3” reological model. The model is able to accurately simulate the mechanical behaviour of normally consolidated and moderately overconsolidated clays (OCR<8). Palavras-Chave: túneis, MIT-E3, pressões intersticiais INTRODUÇÃO A presença de água num maciço envolvente de um túnel afecta não só as cargas actuantes na estrutura de suporte como também as condições de estabilidade na frente de escavação e a grandeza e a distribuição dos assentamentos induzidos, particularmente à superfície do terreno. Enquanto que nos solos de natureza granular estes efeitos são imediatos, nos solos finos eles são diferidos no tempo, estando associados às variações das pressões de água nos poros. Estas variações da pressão intersticial dependem dos excessos de pressões neutras gerados a curto prazo pela construção do túnel e da permeabilidade do suporte [1]. A grandeza e a distribuição dos excessos de pressões intersticiais gerados a curto prazo pela construção do túnel são em larga medida dependentes do método construtivo empregue. Nas modernas tuneladoras com confinamento líquido ou por contra-pressão de terras são frequentemente gerados excessos positivos de pressão de água nos poros como consequência da aplicação de pressões de suporte na frente superiores ás tensões in situ e (ou) ao emprego de excessivas pressões de injecção de argamassa e de calda de cimento para o preenchimento do vazio que é continuamente criado entre o suporte e a superfície do terreno escavado à medida que o escudo avança [2]. Noutros métodos construtivos em que a escavação da frente se processa sob pressões inferiores às tensões in situ, nomeadamente nos métodos de construção sequencial, resultados de análises teóricas [3] e [4], de ensaios sobre modelos reduzidos [5] e de observação de obras reais [6], evidenciam a dependência da grandeza e da distribuição dos excessos de pressões intersticiais gerados a curto prazo pela construção do alívio das tensões permitido no contorno da abertura e do tipo de solo (sua resistência e sua história de tensões). No caso de argilas sobreconsolidadas, em consequência da dilatância positiva exibida por estes solos, a conjugação do decréscimo da tensão normal média com o aumento das tensões de corte associados ao alívio das tensões (ocasionado pela escavação) são responsáveis pela diminuição das pressões de água nos poros do maciço envolvente. Naturalmente que esta diminuição será tanto mais acentuada quanto maiores forem os graus de sobreconsolidação da argila e o alívio das tensões permitido no contorno. Em argilas normalmente consolidadas ou levemente sobreconsolidadas (solos com dilatância negativa) o problema é mais complexo. Na realidade, o decréscimo da tensão normal média e o aumento das tensões de corte no maciço envolvente do túnel têm efeitos contraditórios sobre os excessos de pressão de água gerados, pelo que estes, de acordo com a importância relativa daquelas variações, podem ser positivos ou negativos. Qualquer que seja os excessos de pressões intersticiais gerados a curto prazo, se a permeabilidade do suporte não for muito inferior a do maciço envolvente, como é frequente no caso de solos argilosos [7], o túnel funciona como um “dreno”. Em tais situações, o estabelecimento de um fluxo de água para dentro da cavidade criada origina uma redução das pressões de agua nos poros em redor do túnel com a consequente consolidação do maciço envolvente [3]. Em caso de impermeabilização do suporte, as pressões de água nos poros no maciço envolvente do túnel evoluem no tempo de acordo com os excessos de pressões intersticiais gerados a curto prazo pela construção, restabelecendo-se a longo prazo as condições correspondentes ao equilíbrio hidrostático. 1 Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, [email protected] Esc. Sup. de Tecnologia e Gestão, Inst. Pol. de Viana do Castelo, [email protected] 3 Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, [email protected] 2 Incluído num estudo, recentemente iniciado, sobre o comportamento de túneis construídos em maciços de natureza argilosa, efectuou-se uma análise comparada dos efeitos que, sobre a evolução no tempo dos deslocamentos induzidos, em particular à superfície do terreno, têm o tipo de solo, o alívio das tensões permitido no contorno da abertura e a permeabilidade do suporte. Para a prossecução de tal objectivo foi utilizado um programa plano de elementos finitos desenvolvido na FCTUC [8], que permite a realização de análises elasto-plásticas com consolidação acoplada, tendo-se considerado o modelo “MIT-E3” para simular o comportamento mecânico dos solos argilosos. Neste artigo apresenta-se alguns dos resultados preliminares daquela análise paramétrica. O MODELO “MIT-E3” Preâmbulo O modelo “MIT-E3”, constituindo uma evolução dos modelos “MIT-E1” e MIT-E1(R2)”, permite simular com algum rigor o comportamento de argilas saturadas normalmente consolidadas ou moderadamente sobreconsolidadas (OCR<8) [9]. Pretendendo incorporar algumas das principais características do comportamento de solos sobreconsolidados, o modelo “MIT-E3” associa o modelo histerético perfeito com a formulação da superfície de plasticidade limite e com um modelo elasto-plástico que descreve as propriedades anisotrópicas de argilas normalmente consolidadas em condições “K0”. Modelação do comportamento normalmente consolidado A descrição do comportamento do solo normalmente consolidado é feita através de um modelo elasto-plástico, com o qual é possível reproduzir o comportamento anisotrópico em condições “K0” e a sua evolução com os carregamentos subsequentes e, ainda, o fenómeno de amolecimento que é observado experimentalmente para certos modos de deformação. Como em qualquer outro modelo elasto-plástico, também neste o incremento total das deformações é composto por uma parcela elástica e outra plástica. A componente elástica é dependente do incremento da tensão efectiva e calculada através da lei de Hooke generalizada. A componente plástica é determinada recorrendo à teoria incremental da plasticidade, o que exige a definição de uma função de cedência, de leis de endurecimento do material, de um critério de rotura e de uma função de potencial plástico. A função de cedência, cuja representação no espaço das tensões definido por seis dimensões tem a forma de um elipsóide inicialmente orientado segundo a direcção de consolidação (Fig. 1), é expressa pela equação: 5 F = −c 2 p' (2α '− p') + ∑ ({si }− p' {bi })2 = 0 (1) i =1 representando: c o coeficiente dos semi-eixos do elipsóide, que é um parâmetro do material; α’ a variável que controla o tamanho da superfície de cedência; p’ a tensão normal média efectiva; {si} o vector das tensões desviatórias, expresso em termos de variáveis transformadas; {bi} o vector que descreve a orientação da superfície de cedência. A evolução da superfície de cedência com o escoamento plástico é controlada por duas leis de endurecimento, expressas em termos de extensões volumétricas plásticas. Uma das leis permite descrever a variação do tamanho e a outra a variação da orientação da superfície de cedência. O critério de rotura subjacente ao modelo, coincidente com o critério do estado crítico, é definido no espaço das tensões generalizadas por uma superfície cónica anisotrópica com o vértice localizado na origem (Fig. 1), cuja expressão matemática é: 5 h = − k 2 p ' 2 + ∑ ({si }− p ' {ξ i })2 (2) i =1 representando k uma constante do material e {ξi} um vector que define a anisotropia do critério de rotura e cuja orientação é estabelecida pelos valores dos ângulos de atrito em compressão e extensão triaxial. O modelo utiliza uma lei de fluxo não associada que permite satisfazer as condições “K0” e as condições do Estado Crítico, segundo as quais, quando o estado de tensão se aproxima do cone de rotura, a energia dissipada é inteiramente consumida pela deformação de corte, sendo nula a deformação volumétrica [10]. R : Estado de tensao corrente (sobreconsolidado) V : Estado de tensão para uma situação normalmente consolidada I : Ponto imagem X Cone do estado crítico {s} s Rc Superfície de cedência limite, f I V(2α' , 2α'{b}) R = {β} } + {I { b} Rx R C C O' O O p' 2α'o 2α' Superfície de cedência interior, fo X' Figura 1 – Superfícies de cedência e de rotura do modelo “MIT-E3” Modelação do comportamento sobreconsolidado λ 1 B Índice de vazios, e Índice de vazios, e Estudos laboratoriais sobre o comportamento de argilas evidenciam que em ciclos de descarga-recarga em corte drenado ou em compressão hidrostática se verifica [9]: i) uma resposta muito mais rígida do que a obtida na curva de carga primária; ii) um comportamento tensão-deformação histerético; iii) a existência de deformações plásticas no fim do ciclo. Para a simulação destas características do comportamento das argilas sobreconsolidadas, o modelo “MITE3” incorpora o modelo histerético perfeito [11] e o modelo da superfície de plasticidade limite [12] Com o primeiro dos modelos simula-se o comportamento não linear (mesmo para pequenos níveis de deformação) de uma argila sobreconsolidada num ciclo de descarga-recarga (Fig. 2 a) através da variação gradual da rigidez entre os pontos reversíveis (A e B). Na formulação do modelo é necessária a identificação do ponto de reversibilidade da carga e o estabelecimento de expressões para o cálculo da rigidez tangencial, cujo valor será função do afastamento do estado de tensão corrente do correspondente ao ponto reversível. LC V A p'B p'A (a) ln p' λ LCV 1 B B' A ∆ε p C p'B p'A p'C ln p' (b) Figura 2 – Modelação de um ciclo de descarga-recarga em compressão hidrostática: a) modelo histerético perfeito; b) modelo “MIT-E3” Com o segundo dos modelos consegue-se simular o desenvolvimento de deformações plásticas em argilas sobreconsolidadas (Fig. 2b), o que possibilita o acoplamento entre o comportamento volumétrico e o distorcional e a existência de uma transição suave entre um estado sobreconsolidado e uma situação normalmente consolidada. Na formulação do modelo, a superfície de plasticidade limite corresponde à superfície de cedência descrita pela Equação 1 e o comportamento plástico para estados de tensão sobreconsolidados, R, é associado ao comportamento plástico de um ponto imagem, I, situado naquela superfície (Fig. 1). Esta situação corresponde à definição de uma superfície de carga f0 que passa pelo ponto representativo do estado de tensão sobreconsolidado, homotética à superfície limite f, com um coeficiente de forma α0’/α’. Parâmetros que caracterizam o modelo O modelo “MIT-E3” necessita de 15 parâmetros para a sua caracterização completa, sendo uns determinados directamente de ensaios e outros ajustados a partir de análises paramétricas. Nas análises numéricas apresentadas neste artigo utilizaram-se os parâmetros da argila de Boston – “Boston nc Blue Clay” : eo = 1,12, λ = 0,184, C = 22,0, n = 1,6, h = 0,2, Ko = 0,48, ν = 0,277, φ 'TC = 33,4º, φ 'TE = 45,9º, c = 0,86, St = 4,5, w = 0,07, γ = 0,5, κo = 0,001, ψo =100,0. ESTUDO PARAMÉTRICO Metodologia e cálculos efectuados O caso de estudo escolhido, propositadamente simples, diz respeito à escavação de um túnel circular de 10m de diâmetro aberto a uma profundidade de 20m (H/D=2,0) num estrato de argila subjacente a uma formação arenosa com uma espessura de 5m. O nível freático admite-se localizado à superfície do terreno. A estrutura de suporte é constituída por um anel contínuo de betão de 0,30m de espessura e admitida em contacto perfeito com o maciço envolvente. A malha de elementos finitos empregue, representada na Figura 3, compreende 961 pontos nodais e 308 elementos quadrangulares “híbridos” (com interpolação quadrática e linear para os deslocamentos e pressões intersticiais, respectivamente). Nas fronteiras laterais da malha, uma coincidente com o eixo de simetria e outra localizada a uma distância deste de 225 metros, foram impedidos os deslocamentos segundo a horizontal. A fronteira inferior da malha, na qual foram impedidos quaisquer deslocamentos, foi situada a uma profundidade de 60m. Figura 3 – Malha de elementos finitos utilizada no estudo paramétrico No que concerne às condições hidráulicas, foram admitidas as seguintes hipóteses: i) a pressão de água nos poros na camada superficial arenosa, definida pelo nível freático, é constante; ii) as fronteiras lateral coincidente com o eixo do túnel e inferior da malha são impermeáveis; iii) a fronteira lateral a 225 metros do eixo do túnel é permeável; iv) a formação argilosa é considerada isotrópica em termos de permeabilidade, sendo caracterizada por k = 5x10-9m/s. O estado de tensão inicial foi admitido como geostático. Para a sua determinação foi adoptado para ambas as formações um valor do peso volúmico de 20kN/m3. Para a formação arenosa foi considerado em todos os cálculos um valor do coeficiente de impulso em repouso de 0,5. Para a formação arenosa (E’ = 40MPa; ν’ = 0,3) e para o suporte (E = 30GPa; ν = 0,2) admitiu-se um comportamento elástico, linear e isotrópico. Na caracterização através do modelo “MIT-E3” do comportamento do solo de natureza argilosa foram adoptados os valores dos parâmetros indicados no ponto anterior. Os efeitos da tridimensionalidade do problema foram simulados em deformação plana recorrendo ao método de convergência-confinamento. A simulação da escavação foi assim feita em duas fases. Na primeira fase, procurando simular as deformações que ocorrem antes da instalação do suporte, libertou-se apenas uma determinada parcela das forças nodais equivalentes ao estado de tensão inicial, α. Na segunda fase, uma vez instalado o suporte, aliviou-se as forças nodais remanescentes. Nestas duas fases foram admitidas condições não drenadas. Nas outras dez fases de cálculo simulou-se o processo de consolidação subsequente à escavação. Foram realizados sete cálculos, com as características que se resumem no Quadro 1. Com os quatro primeiros cálculos procurou-se avaliar a influência do tipo de solo e do alívio de tensões permitido no contorno na resposta diferida do maciço. É de notar que os valores dos factores de alívio nos cálculos C e D foram definidos por forma a que os deslocamentos verticais no coroamento do túnel fossem idênticos aos determinados nos cálculos A e B, respectivamente. Como os três últimos cálculos pretendeu-se avaliar a influência da permeabilidade do suporte. Quadro 1 – Cálculos efectuados OCR K0 α Coef. de permeabilidade do suporte (m/s) A B C D 1,1 1,1 6,0 6,0 0,50 0,50 0,85 0,85 0,28 0,32 0,40 0,63 0,0 0,0 0,0 0,0 E F 6,0 6,0 0,85 0,85 0,40 0,63 5x10-11 5x10-11 G 6,0 0,85 0,40 5x10-10 Cálculos Tipo de solo Factor de alívio Excessos de pressão de água nos poros gerados A influência do tipo de solo e do alívio das tensões permitido no contorno da abertura nos excessos de pressão de água nos poros gerados pela escavação é ilustrada na Figura 4. Figura 4 – Distribuição dos excessos de pressão de água nos poros gerados a curto-prazo pela construção: a) cálculo A; b) cálculo B; c) cálculo C; d) cálculo D Como a observação da figura evidencia, em todos os cálculos verificou-se que no maciço localizado abaixo do túnel foram gerados importantes excessos negativos de pressão de água nos poros. Estas variações de pressão da água intersticial negativas estão, essencialmente, associadas à acentuada diminuição da tensão normal média que aí ocorre quando da instalação do suporte e da libertação das forças nodais remanescentes. Nas zonas junto dos hasteais e do coroamento do túnel a situação é diferente. Como se pode facilmente constatar, nestas zonas os excessos de pressão de água nos poros gerados pela construção dependem significativamente do tipo de solo. Com efeito, nos cálculos A e B, em que a argila envolvente do túnel é, praticamente, normalmente consolidada (OCR=1,1), os excessos de tensão neutra gerados são positivos em consequência da dilatância negativa exibida por aquele solo. Os valores mais elevados ocorrem entre o hasteal e o coroamento por ser aí que são máximas as variações das tensões de corte associadas ao alívio de tensões ocasionado pela escavação. Com o aumento do grau de sobreconsolidação da argila, em consequência da dilatância positiva que esta passa a exibir, as variações das tensões de corte passam a ser responsáveis pela diminuição da pressão de água nos poros, pelo que as zonas de sucção em redor da abertura tendem a aumentar. Os resultados dos cálculos C e D, correspondentes a uma argila com OCR=6,0 ilustram claramente isso. Praticamente, em todo o maciço envolvente do túnel são gerados excessos negativos da pressão de água intersticial. O exame da figura anterior mostra ainda que, para os valores do factor de alívio considerados, não são muito significativas as diferenças nos excessos de tensão neutra gerados nos cálculos A e B. O mesmo não acontece nos cálculos C e D. Nestes casos, uma vez que tanto o decréscimo da tensão normal média como o aumento das tensões de corte associados ao alívio das tensões são responsáveis pela diminuição da pressão de água nos poros, esta será tanto maior quanto maior for o factor de alívio considerado. Deslocamentos induzidos no maciço envolvente Nas Figuras 5 e 6 inclui-se os assentamentos à superfície do terreno e os deslocamentos verticais de pontos situados acima do túnel sobre o eixo de simetria obtidos nos quatro primeiros cálculos numéricos no fim da construção e no fim do processo de consolidação subsequente, em que as pressões de água nos poros tenderam para a condição de equilíbrio inicial. Na Figura 5 compara-se os resultados obtidos nos cálculos A e B, enquanto que na Figura 6 são comparados os resultados decorrentes dos cálculos C e D. 0 -10 0 20 5 Profundidade (m) Assentamento (mm) 2.5 10 30 40 50 7.5 10 60 0 10 20 30 40 50 60 70 x (m) 12.5 Alfa=0,28 ; t = 0 Alfa=0,28 ; t. final Alfa=0,32 ; t = 0 Alfa=0,32 ; t. final 15 0 10 20 30 40 50 60 70 Assentamento (mm) Figura 5 – Deslocamentos induzidos no maciço envolvente - solo normalmente consolidado. 0 -5 2.5 5 5 Profundidade (m) Assentamento (mm) 0 10 15 7.5 10 20 0 10 20 30 40 50 x (m) Alfa=0,40 ; t = 0 Alfa=0,40 ; t. final Alfa=0,63 ; t = 0 Alfa=0,63 ; t. final 60 70 12.5 15 0 10 20 30 40 50 60 70 Assentamento (mm) Figura 6 – Deslocamentos induzidos no maciço envolvente - solo sobreconsolidado e suporte impermeável. A comparação das duas figuras permite avaliar a forma como o tipo de solo influencia os deslocamentos induzidos pela escavação. O aumento da sobreconsolidação é responsável por uma acentuada atenuação dos deslocamentos com a distância à periferia, pelo que, sendo iguais os assentamentos no tecto do túnel, à superfície do terreno os assentamentos máximos são tanto mais pequenos quanto maior é o grau de sobreconsolidação da argila. Também a forma da bacia de subsidência é distinta. Quanto menor é o OCR mais profunda e estreita é a bacia de subsidência. Do exame de Figura 5, pode concluir-se que, para o caso de argilas normalmente consolidadas, o processo de consolidação subsequente à escavação do túnel é responsável por um aumento dos assentamentos à superfície do terreno. Uma vez que os valores máximos dos excessos positivos da pressão de água nos poros ocorrem na lateral e não sobre o túnel, os assentamentos associados à consolidação originam um ligeiro alargamento da bacia de subsidência, pelo que não há variação significativa das distorções angulares induzidas à superfície. No que concerne aos deslocamentos verticais acima do túnel, verifica-se nos pontos mais perto da periferia uma muito ligeira diminuição, consequência da dissipação dos excessos de tensão neutra negativos gerados abaixo do túnel, ao contrário do que acontece nos pontos mais afastados. Esta evolução dos deslocamentos verticais acima do túnel é responsável pelo aumento com o tempo da razão entre o deslocamento à superfície e o deslocamento no tecto. A Figura 6 permite verificar que, ao contrário do que acontece nos cálculos A e B, nos cálculos C e D a dissipação dos excessos de pressão de água nos poros gerados pela construção – negativos, na grande maioria do maciço - provoca a expansão da argila com a subida do terrapleno e a diminuição da grandeza dos assentamentos superficiais inicialmente verificados. Esta diminuição é tanto mais acentuada quanto maior é o alívio das tensões permitido no contorno da abertura. Relativamente aos deslocamentos verticais acima do túnel, verifica-se uma diminuição com o tempo praticamente uniforme em profundidade, pelo que a razão entre o deslocamento à superfície e o deslocamento no tecto tende neste caso a diminuir. Na Figura 7 inclui-se os deslocamentos decorrentes das análises (E e F) em que se admitiu para a permeabilidade do suporte um valor duas ordens de grandeza inferior à do solo. Em dissonância com o constatado nas análises (C e D) em que se admitiu o suporte impermeável, observa-se agora que os assentamentos superficiais aumentam com o tempo. Tal facto está associado aos acréscimos das tensões efectivas no maciço envolvente resultantes do funcionamento do túnel como um dreno. Como os acréscimos das tensões efectivas durante o processo de consolidação são tanto maiores quanto maiores forem as pressões de água nos poros iniciais, verifica-se que são superiores os assentamentos diferidos no cálculo (F) em que se considerou um maior alívio das tensões no contorno da escavação, uma vez que foram maiores os excessos negativos de pressões intersticiais gerados a curto prazo pela construção. A Figura 7 também permite observar que os acréscimos dos deslocamentos verticais são um pouco maiores à superfície do que junto à abertura, pelo que a razão entre o deslocamento à superfície e o deslocamento no tecto do túnel tende a aumentar com o tempo, ao contrário do que acontecia nos cálculos em que se admitiu o suporte impermeável. A influência da permeabilidade do suporte nos assentamentos induzidos no maciço é ilustrada na Figura 8. Os resultados salientam a forte dependência dos assentamentos obtidos a longo prazo em relação às características de permeabilidade dos materiais atravessados, estando o incremento dos assentamentos e da largura da bacia de subsidência associados a uma maior descida das isolinhas das pressões intersticiais, em resultado do aumento da permeabilidade do suporte. 0 5 2.5 10 Profundidade (m) Assentamento (mm) 0 15 20 25 0 10 20 30 40 x (m) 50 60 Alfa=0,40 ; t = 0 (caso E) Alfa=0,40 ; t. final (caso E) Alfa=0,63 ; t = 0 (caso F) Alfa=0,63 ; t. final (caso F) 5 7.5 10 70 12.5 15 0 20 40 60 80 Assentamento (mm) Figura 7 – Deslocamentos induzidos no maciço envolvente - solo sobreconsolidado e suporte permeável (casos E e F). CONCLUSÕES Dos resultados das análises numéricas bidimensionais efectuadas considerando o modelo “MIT-E3” para simular o comportamento mecânico dos solos, confirmou-se que o comportamento diferido no tempo de túneis superficiais abertos em maciços de natureza argilosa, e em que a escavação se processa sob pressões inferiores às tensões in situ, é dependente do tipo de solo, do alívio das tensões permitido no contorno da abertura e da permeabilidade do suporte. Em relação ao tipo de solo, foi possível constatar a sua influência nos excessos de pressão de água intersticial gerados a curto prazo pela construção. No caso de solos sobreconsolidados, em praticamente todo o maciço envolvente aqueles excessos são negativos, sendo tanto maiores quanto maior for o alívio das tensões permitido no contorno. Se o solo é normalmente consolidado, na lateral e acima do túnel podem ser gerados excessos positivos da pressão intersticial. Para os factores de alívio considerados, não se detectou para este caso grande variação nos excessos de pressão gerados. A evolução dos assentamentos com o tempo é grandemente influenciada pela permeabilidade do suporte. No caso deste ser impermeável, as pressões de água nos poros tendem para a condição de equilíbrio inicial, pelo que os assentamentos aumentam ou diminuem de acordo com os excessos de pressão intersticial gerados a curto prazo pela construção: aumentam no caso de serem gerados excessos positivos e diminuem no caso contrário. Se o suporte é permeável, o escoamento de água para o interior da cavidade origina uma redução das pressões de água nos poros, tanto maior quanto mais permeável aquele for, com a consequente consolidação do maciço envolvente e o aumento dos assentamentos. 0 10 2.5 20 Profundidade (m) Assentamento (mm) 0 30 40 50 0 10 20 30 40 x (m) 50 60 Alfa=0,40 ; t = 0 Alfa=0,40 ; t. final ; Caso E Alfa=0,40 ; t. final ; Caso G 5 7.5 10 70 12.5 15 0 20 40 60 Assentamento (mm) Figura 8 – Influência da permeabilidade do suporte nos deslocamentos induzidos no maciço envolvente – - solo sobreconsolidado e suporte permeável (casos E e G). REFERÊNCIAS [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] Almeida e Sousa, J. (1998). Túneis em maciços terrosos – Comportamento e modelação numérica. Tese de Doutoramento em Ciências de Engenharia, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Shirlaw, J.N. (1995). 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