Contaminação por Zn, Cr e Co nas nascentes da bacia do rio Piracicaba, SP P. C. Favaro(*) e E. S. B. Ferraz(**) Universidade de São Paulo Centro de Energia Nuclear na Agricultura Caixa Postal 96 13416-000, Piracicaba - SP – Brasil (*) Mestrando em Energia Nuclear na Agricultura (**) Pesquisador do CENA?USP, bolsista do CNPq Resumo O crescimento da industrialização, urbanização e modernização das práticas agrícolas nas últimas décadas, tem causado grande impacto na bacia do rio Piracicaba, o segundo polo econômico do país, região que abriga importantes centros urbanos como Campinas e Piracicaba. São 45 sedes de municípios numa área de 12.400 km2 onde vivem mais de 3,5 milhões de habitantes. O presente trabalho estuda uma das cabeceiras da bacia, a sub-bacia do alto rio Atibaia, um dos formadores do rio Piracicaba, numa região pouco impactada devido a baixa densidade populacional, ausência de indústrias de porte e agricultura não significativa. O objetivo é estabelecer parâmetros para comparação com as demais regiões da bacia, intensamente modificadas. Amostras de sedimentos de fundo dos rios formadores e de solos da região foram analisadas por ativação neutrônica para a identificação de cerca de 20 elementos traço. Os resultados mostraram que a região já apresenta sinais de preocupante poluição antrópica pois já são significativas as contaminações com Zn, Cr e Co, provavelmente devido à atividade agrícola e ao esgoto urbano. Palavras-chave: Ativação Neutrônica, Metais, Sedimento I. INTRODUÇÃO O Piracicaba é um rio de porte médio, formado pelos rios Jaguari e Atibaia, situados em uma região sub-tropical, constituindo-se num verdadeiro modelo de bacia desenvolvida com seus problemas ambientais típicos, ou seja, escassez de água em um futuro próximo, com sério comprometimento em sua qualidade. É uma região muito importante para o Estado de São Paulo e para o Brasil sendo o segundo polo econômico do país, destacando-se tanto no ramo agrícola como no industrial e envolvendo cidades de grande expressão como Campinas, Piracicaba, Limeira, Americana, Rio Claro, dentre outras, onde vivem mais de 3.500.000 habitantes. Com o desenvolvimento das últimas décadas, a região passou a ser um polo de atração de diversas atividades altamente consumidoras e degradadoras dos recursos hídricos. Tal fato, agravado ainda pela limitada disponibilidade de água na bacia e pela reversão de aproximadamente 30m3/s destinados ao abastecimento da região metropolitana de São Paulo, provocou intensa disputa pela utilização de seus recursos hídricos, pondo em risco o desenvolvimento da região. Paralelamente ao aumento da demanda hídrica, houve um aumento da carga poluidora orgânica por esgotos domésticos e industriais. Portanto, nas próximas décadas, mantendose a mesma tendência, os mananciais da bacia terão menos água e de pior qualidade. A Universidade de São Paulo, através do CENA - Centro de Energia Nuclear na Agricultura vem desenvolvendo um projeto multidisciplinar e interinstitucional, com o apoio do CNPq, FAPESP e ESSO Brasileira de Petróleo, para estudar a estrutura e os processos biogeoquímicos que ocorrem na bacia do rio Piracicaba, denominado Projeto PiraCena. Uma das metas desse projeto é conhecer os níveis de metais pesados, outros elementos tóxicos e elementos traço em geral, que normalmente não são monitorados pelos órgãos governamentais e mesmo pelos institutos de pesquisa. Para melhor avaliar os níveis da poluição antrópica na zona industrializada, parte baixa da bacia, seria importante que se soubesse quais eram as concentrações naturais dos diversos elementos naquele ambiente, antes da chegada do homem. Tendo em vista essa impossibilidade, optou-se por estimar esse background, pesquisando uma região da bacia que ainda conserve grande parte das características originais e que assim, possa servir de referencial para os outros estudos que vem sendo desenvolvidos em áreas intensamente impactadas da bacia do Piracicaba. Na serra da Mantiqueira nascem os rios Atibainha e Cachoeira, numa zona montanhosa com razoável cobertura florestal sobre um substrato geológico conhecido como formação Cristalino, do PréCambriano. Ali se situam os grandes mananciais dessa sub-bacia, drenada por aqueles dois canais que se juntam, na cidade de Bom Jesus dos Perdões, às margens da rodovia Dom Pedro I, para formar o rio Atibaia. A região montanhosa não possui indústrias de porte, tem baixa densidade demográfica e se caracteriza por atividades agrícolas não extensivas, pastagens e boas áreas de florestas nativas e de reflorestamento. Na parte mais baixa, onde são formados pequenos vales, predomina uma agricultura de alto valor, como frutas finas, flores e hortaliças e que exigem quantidades muito grandes de insumos agrícolas que são, potencialmente, fontes de poluição difusa de metais e elementos tóxicos. Além da poluição agrícola, suspeita-se que a região esteja recebendo uma carga de poluição atmosférica devido a sua proximidade com duas grandes fontes importantes que são a região metropolitana de São Paulo e o polo petroquímico de Cubatão. O mapa da Figura 1 ilustra a posição geográfica da área de estudos. II. METODOLOGIA Para esse levantamento foram coletadas amostras de sedimento de fundo dos rios em 14 pontos previamente escolhidos, sendo: 4 no rio Cachoeira, 6 no rio Atibainha e 4 no primeiro trecho do rio Atibaia, em duas épocas do ano: a das chuvas (março) e da seca (agosto). Próximos aos pontos de coleta do sedimento também foram retiradas amostras de solos de encostas, a 20-40 cm de profundidade. Com uma draga amostradora de Ekman foram coletados cerca de 700 g de material superficial de sedimento de fundo que são embalados em sacos de polietileno [1 e 2] e levados para o laboratório. As amostras sofreram uma primeira secagem em estufa ventilada à 60ºC, até a secagem [3]. A seguir foram feitos o destorroamento para a quebra dos aglomerados formados, a homogeneização e a peneiração em malha de teflon com 1 mm. Sub-amostras foram separadas para as diversas análises e o restante foi armazenado em recipientes de polietileno apropriados. Uma sub-amostra foi seca em estufa ventilada a 110ºC e cerca de 100 mg do material colocado em cápsulas especiais de polietileno para irradiação. Procedimento idêntico foi feito com os materiais de referência Soil-7, S-DN-½ e SL-1, certificados pela Agência Internacional de Energia Atômica - IAEA. As cápsulas contendo as amostras e os padrões foram irradiadas em fluxo de 1013 nêutrons térmicos por centímetro quadrado, por segundo, no reator nuclear do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN) em São Paulo, juntamente com monitores individuais de fluxo. Em Piracicaba, nos laboratórios do CENA, a radioatividade induzida foi qualificada e quantificada por espectrometria gama com um detector de germânio hiperpuro. Foram feitas 4 leituras no intervalo entre 2 e 90 dias após a data de irradiação, para otimizar a determinação dos vários elementos presentes, tendo em vista as diferentes meias-vida dos radionuclídeos [4,5 e 6]. Paralelamente às análises por Ativação Neutrônica Instrumental, foi feita uma análise granulométrica das amostras usando-se o método densimétrico, separando-se as frações areia grossa (> que 0,2 mm), areia fina (de 0,053 mm a 0,2 mm) e silte mais argila, conforme metodologia recomendada [1, 7 e 8). As frações silte e argila foram separadas utilizando-se o densímetro ASTM 15H. III. RESULTADOS E DISCUSSÃO A primeira fase da análise dos dados foi verificar as correlações entre a concentração de escândio e as frações mais finas do sedimento, bem como a correlação entre háfnio e zircônio. Sendo característico dos solos provenientes de rochas ígneas, juntamente com o ferro, cobalto, cromo e terras raras, o escândio é um elemento que pode ser usado para padronização, em substituição ou complementando a análise textural. Já o zircônio e o háfnio são elementos característicos das rochas graníticas da formação précambriana e por isso mostram boa correlação entre si e Figura 1. Mapa da região estudada mostrando os pontos de coleta de sedimento e de solo marginal. nenhuma com os elementos do outro grupo, como escândio. Ambas regressões deram significativas a 99%, com valores de r de 0.9472 para Sc x Silte + Argila, e 0.9178 para Zr x Hf. A correlação entre o teor de escândio nas amostras de sedimento e a quantidade de silte mais argila, é mostrada no gráfico da Figura 2. 100 ARG+SILT = -9.260 + 4.4845 * Sc Correlação: r = .94716 ARG+SILT (%) 80 60 40 20 0 4 8 12 16 20 24 Sc (ug/g) Figura 2. Resultado da análise de regressão linear entre a concentração de escândio e a fração fina da amostra (<53µm), soma das frações silte e argila Na segunda parte procurou-se analisar a variação espacial da concentração de alguns metais usando-se como referencial o escândio, uma vez que ficou comprovada a sua confiabilidade. As incertezas da análise granolumétrica são maiores que aquelas na determinação do Sc. Quatro metais, Co, Cr, Fe e Zn, foram correlacionados com o Sc e os resultados são mostrados nos gráficos a, b, c e d da Figura 3. Segundo [9] existem correlações muito significativas entre os elementos Fe, Co, Cr, Zn, Sc e lantanídeos em sedimento de várzea da Amazônia, material esse de origem andina, carreado para a planície por processo erosivo, onde se sedimenta. Particularmente o Sc se relaciona muito bem com todos esses elementos e daí, uma das razões para usa-lo como padrão. Segundo aqueles autores, os valores de r encontrados foram: para o Co r = 0.891, para o Cr r = 0.960 e para o Fe r = 0.946. No presente trabalho, os valores da correlação também foram altos, embora como pode ser observado nos gráficos, alguns pontos fugissem muito dos limites estabelecidos pelo intervalo de confiança de 99%. Identificando os pontos discordantes e procurando as explicações tendo em vista a situação geográfica (Vide mapa da Figura 1) e o uso e ocupação do solo, algumas suposições podem ser feitas. Zinco. Os pontos discordantes, TN6a, TN6d, AT1, AT2 e AT3 (os dois primeiros do rio Atibainha e os outros do rio Atibaia, recém formado) estão nas margens da rodovia D. Pedro I e recebem as cargas das cidades de Nazaré Paulista (15.000 hab.), Bom Jesus dos Perdões (12.000 hab.) e Piracaia (15.000 hab.). O excesso de Zn pode ser carreado pelo esgoto doméstico 100 Cr= 6.1571 + 3.7179 * Sc Correlação: r = .88708 90 80 Cr (ug/g) 70 60 50 40 30 20 4 a 8 12 16 20 24 16 20 24 16 20 24 Sc (ug/g) 18 Co = 3.2716 + .58232 * Sc 16 Correlação: r = .77542 14 Co (ug/g) 12 10 8 6 4 4 b 8 12 Sc (ug/g) 7 Fe = .15327 + .29179 * Sc Correlação: r = .94895 6 Fe (%) 5 4 3 2 1 4 c 8 12 ou pela atividade agrícola, pois a região é grande produtora de frutas finas e produtos hortícolas que usam grandes quantidades de defensivos cujo princípio ativo é o Zn. Cobalto. O excesso de Co aparece praticamente na mesma região, isto é, na baixada onde os rios Atibainha (ponto TN5) e Cachoeira (ponto CA1) se juntam para formar o Atibaia (ponto AT2). Ferro. A análise também mostrou excesso de Fe nessa região (pontos CA3, TN5) e um pouco mais para frente no rio Atibaia (ponto AT4), após receber a carga poluidora dessa cidade de 120.000 habitantes. Cromo. Surpreendentemente, o Cr aparece nas cabeceiras do rio Atibainha (pontos TN1, 2 e 3), região serrana com altitudes acima de 1200m onde predominam as pastagens e o reflorestamento com eucaliptos. Confirmando os dados do sedimento, uma amostra de solo da região (próximo ao ponto TN2) também acusou excesso de Cr. A causa mais provável dessa contaminação parece ser os pequenos cortumes ali existentes. Quase todas essas anomalias apresentadas foram detectadas nas amostras de sedimento retiradas na época da seca (agôsto), o que evidência o efeito de diluição quando o volume de água dos rios é muito maior. Como conclusão desse trabalho pode-se dizer que essa metodologia se mostrou adequada para localização de fontes de poluição difusa, como aquela devido a intensa atividade agrícola, e que o escândio pode ser usado como normalizador para outros estudos. Sc (ug/g) Agradecimentos 220 Zn = -3.900 + 7.6686 * Sc Os autores agradecem ao Projeto PiraCena e em especial, ao CNPq, Fapesp e Esso Brasileira de Petróleo, financiadores do projeto. Correlação: r = .88575 Zn (ug/g) 180 140 IV. BIBLIOGRAFIA 100 [1]TWENHOFEL, W. H. & TYLER, S. A., Methods of study of sediments. New York. McGraw-Hill, 1941 60 20 4 D 8 12 16 20 Sc (ug/g) Figura 3. Resultado da análise de regressão linear (limite de confiança de 99%) entre o escândio e os metais estudados. 24 [2] MALANCA, A.; GAIDOLFI, L.; PESSINA, V.; DALLARA, G. Distribution of 226-Ra, 232-Th and 40K in soils of Rio Grande do Norte (Brazil). Journal of Environmental Radioactivity. v. 30, n. 1, p. 55-67, 1996. [3] SUGUIO, K. 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The present work studies one of the source of the basin, the sub-basin of the high Atibaia river, one of the former of the river Piracicaba, in low impacted area due to low demographic density, absence of load industries and non significant agriculture. The objective is to establish parameters for comparison with other areas of the basin, intensely modified. Samples of bottom sediments on the former rivers’ and of soils of the area they were analyzed by neutronic activation for the identification of about 20 elements line. The results showed that the area already presents signs of preoccupying anthropic pollution because the contaminations with Zn, Cr and Co are already significant, probably due to the agricultural activity and to the urban sewer.