Evolução do emprego formal: uma análise das políticas de geração de empregos na mesorregião de Piracicaba1 José Eduardo França dos Santos Mestrando do Programa de Pós Graduação em Geografia UNESP – Rio Claro [email protected] Resumo O desemprego é um dos mais graves problemas do mundo atual, gerando diversos conflitos sociais, alvos de estudo da Geografia. Tendo esta questão em vista, esse artigo faz uma análise da evolução do emprego formal e dos efeitos que as políticas de geração de empregos na mesorregião de Piracicaba. O Brasil apresenta atualmente uma grande informalidade do emprego, não sendo diferente na mesorregião de Piracicaba. Para avaliar a evolução do emprego formal foram usados dados da RAIS, e a partir destes dados, analisou-se os efeitos das políticas de geração de empregos nacionais e locais para detectar os reais motivos do crescimento do emprego formal na área de estudo e os motivos da informalidade. Palavras-chave: emprego formal, políticas de geração de empregos, Resumen El desempleo es uno de los problemas más serios del mundo actual, mientras generando varios conflictos sociales, los objetivos de estudio de la Geografía. Cuida este asunto en la vista, este artículo hace un análisis de la evolución del empleo formal y de los efectos que la política de generación de empleos en la meso-región de Piracicaba. Brasil presenta una gran ausencia del empleo formal ahora, mientras no siendo diferente en la meso-región de Piracicaba. Para evaluar la evolución de 1 Artigo baseado na pesquisa “O MERCADO DE TRABALHO: Estimativas de Desemprego e de Políticas Locais para Geração de Empregos na meso-região de Piracicaba”, financiada pela FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Este trabalho foi orientado pelo Professor Doutor Élson Luciano Silva Pires, do Departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento da Unesp de Rio Claro los datos del empleos formales de RAIS ellos fueron usados, y empezando de estos datos, se analizó los efectos del usted el politicize de generación de empleosnacional y locales para descubrir las razones Reales del crecimiento del empleo formal en el área del estudio y las razones de la ausencia del empleo formal. Palabras-clave: empleo formal, políticas de generación de empleos, 1 - Introdução O desemprego no estado de São Paulo se encontra uma taxa de 21,17% no estado de São Paulo, de 24,51% na Mesorregião de São Paulo e 16,57% na Mesorregião de Piracicaba segundo estimativas a partir do Censo Demográfico 2000 (SANTOS & PIRES. 2006). O interior paulista apresenta um desempenho econômico bem superior ao da Região Metropolitana de São Paulo (VEIGA, 2003), o que tem resultado em um desemprego menor no interior em relação à capital e seu entorno metropolitano, devido às transformações econômicas mais intensas na indústria que atingem o mercado de trabalho na metrópole, enquanto no interior se desenvolvem estratégias de desenvolvimento que incentivam a produção e o emprego local (SANTOS & PIRES, 2006). A partir destas conclusões iniciais, uma análise da variação do emprego formal se torna interessante ao permitir analisar os efeitos das políticas de geração de empregos e se esse desempenho econômico superior do interior paulista tem gerado empregos com essas novas estratégias. Para fazer esta análise, foi escolhida a mesorregião de Piracicaba, com a utilização de dados da RAIS2. A mesorregião de Piracicaba localiza-se no Estado de São Paulo e é composta por 26 municípios, divididos em três microrregiões: - Microrregião de Piracicaba: esta micro-região é composta pelos municípios de Piracicaba, Águas de São Pedro, Capivari, Charqueada, Mombuca, Rafard, Rio das Pedras, Santa Maria da Serra, São Pedro, Saltinho, Jumirim e Tietê; - Micro-região de Limeira: Composta pelos municípios de Limeira, Araras, Conchal, Cordeirópolis, Iracemápolis, Leme, Santa Cruz da Conceição e Santa Gertrudes; 2 Relação Anual de Informações Sociais - feita a partir de informações prestadas por empresas a cada ano sobre os vínculos de trabalhos realizados no ano anterior. As informações da RAIS referem-se aos assalariados com carteira de trabalho do setor privado e aos assalariados do setor público, permitindo assim uma radiografia anual do mercado formal de trabalho no Brasil. - Micro-região de Rio Claro: Composta pelos municípios de Rio Claro, Brotas, Corumbataí, Ipeúna, Itirapina e Torrinha. A principal atividade desenvolvida nesta mesorregião se dá no setor sulcroalcooleiro, mas temos outras atividades importantes como o pólo de biocombustíveis (Piracicaba), o pólo cerâmico (arranjo produtivo local de Santa Gertrudes), o pólo de jóias folheadas a ouro (arranjo produtivo local de Limeira), além da presença de grandes empresas dos ramos metal-mecânico e alimentos. Juntas com a citricultura (Limeira), essas atividades são as que mais geram empregos nesta mesorregião. Em geral, segundo dados da RAIS, é importante ressaltar que os empregos formais estão surgindo na maioria dos municípios, sendo que apenas Rafard teve queda do número de empregos formais no período analisado. Então, conclui-se que estão surgindo diversos empregos na mesorregião, mas não na velocidade necessária para absorver o excesso de mão-de-obra, os trabalhadores informais e a novas gerações que entram no mercado de trabalho. As prefeituras são as principais intermediárias entre o governo federal e o trabalhador, atuando como agente do governo federal no cadastramento de trabalhadores em seus programas e na distribuição dos recursos. São as prefeituras que têm o conhecimento da realidade local, sabendo assim a melhor maneira de investir estes recursos, além de ter melhor condição de fiscalizar a distribuição de recursos, evitando que as pessoas indevidas façam uso de programas federais aos quais não tenham direito, como em casos já divulgados na imprensa. Embora sejam deficientes, as prefeituras contam com secretarias de desenvolvimento econômico que tem como função estabelecer e implementar a política relacionada com o desenvolvimento da indústria; a expansão do comércio e coordenar o interrelacionamento entre os setores público e privado, de modo tal que as políticas e diretrizes da administração incorporem as legítimas reivindicações das classes produtoras. A principal política para a criação de empregos das prefeituras, entretanto, é a guerra fiscal, com os municípios disputando a atração de empresas pela prática de fornecimento de vantagens fiscais e de infra-estrutura e apoio de atores locais para o desenvolvimento dos municípios. Torna-se importante então ressaltar os condomínios de empresas, incorretamente chamados de distritos industriais3, que áreas muito utilizadas pelas prefeituras como atrativo para a instalação de novas empresas. Estas áreas que as prefeituras oferecem para as indústrias se instalarem contam com toda a infra-estrutura para se exercer a atividade industrial, diminuindo custos de instalação e de compra de áreas para sua instalação, tendocomo conseqüência o aumento da participação da atividade industrial no interior paulista. Vários municípios da mesorregião possuem um distrito industrial, pois investir nestes distritos, além de concentrar as empresas locais e de outras cidades numa única gleba, evita supostos problemas ambientais e até incômodos com a vizinhança dos pontos de produção. O emprego nas atividades industriais tem crescido na mesorregião de Piracicaba, conforme pode ser visto na tabela 1, e este crescimento coincide com a migração das indústrias das grandes metropoles para estes condomínios de empresas. Além disso, a pressão sindical é menor do que nos grandes centros, o que permite um poder de negociação maior das empresas, o que lhes permite manipular o quadro de trabalhadores com maior autonomia. A tabela 1 apresenta a evolução do emprego por grupo de setores da atividade econômica na mesorregião de Piracicaba. Tabela 1: Evolução do emprego formal a partir do número de empregados em 31/12 na mesorregião de Piracicaba segundo grupo de setores do IBGE. Setor/ano 1.999 2.000 2.001 2.002 2.003 2.004 Indústria 82.353 89.386 89.156 94.956 94.956 113.750 Construção Civil 7.933 7.853 8.708 8.462 7.346 7.534 Comércio 37.814 41.109 44.856 47.892 51.461 56.837 Serviços 78.428 82.746 85.491 90.291 94.739 100.156 Agropecuária/extração 14.243 16.193 17.111 16.139 17.297 19.682 vegetal Outros Total 0 220.771 0 237.287 0 245.322 0 257.740 0 270.630 0 297.959 Fonte: RAIS Atualmente, o Brasil sofre um processo de desconcentração de empregos, com o surgimento de diversas vagas em cidades do interior, devido aos agronegócios, a migração de empresas dos grandes centros para o interior e ao surgimento de pólos produtivos que estão em constante crescimento, sendo estes 3 Segundo Benko (2002, p 229), pode-se definir o distrito industrial como a entidade socioterritorial que se caracteriza pela presença ativa de uma comunidade humana e de uma população de empresa num espaço geográfico e histórico no qual empresas tendem a se reunir. conhecidos como arranjos produtivos locais (APLs), enquanto que os grandes centros estão se tornando cidades pós-industrializadas, com a desconcentração das atividades produtivas e o desenvolvimento do setor de serviços. Segundo Dias (2004), muitas empresas estão preferindo se deslocar para cidades do interior que se localizam em um eixo de fácil acesso e deslocamento da produção, reduzindo assim seus custos e aumentando a produtividade do trabalhador. Segundo muitos analistas do mercado de trabalho, o movimento de desconcentração do emprego nas grandes metrópoles brasileiras é um processo irreversível, que tende a aumentar de velocidade em pouco tempo, até o momento em que se chegará a uma estabilidade do emprego entre grandes centros e interior (DIAS, 2004). Sobre a renda do trabalhador, no interior, o custo de vida é menor, dando ao trabalhador um poder aquisitivo maior, que aumenta o consumo e gera empregos no comércio, além de estimular uma produção maior das indústrias para atender a demanda. Quanto a atividade agrícola na mesorregião de Piracicaba, esta absorve grande parte da mão-de-obra desqualificada, principalmente através do corte de cana-de-açúcar. Entretanto, esta atividade está ameaçada com a entrada em vigor da lei estadual que acaba com as queimadas. Esta lei dá para os plantadores de cana um prazo para modernizarem seu corte e acabar com as queimadas, sendo que esta modernização ainda não ocorreu na mesorregião porque as máquinas existentes ainda não se adaptam ao relevo da região. Dados divulgados em 2005 pela imprensa mostram que as colheitadeiras de cana já tiraram o emprego de 26.000 trabalhadores no estado de São Paulo levando os cortadores sem qualificação a se tornarem desempregados crônicos4. A atividade agrícola tem apresentado variações no seu número de empregados, crescendo em alguns momentos e diminuindo em outros devido a safra, com anos de superprodução e anos em que a produção foi menor. O crescimento do emprego no setor de serviços também ocorre na mesorregião de Piracicaba, mostrando que esse é um fenômeno que ocorre em todo o Brasil, e não só das regiões metropolitanas. 4 Segundo Veiga (2003), este tipo de desemprego afeta os trabalhadores sem qualquer tipo de qualificação, que não conseguem um novo emprego depois de terem sido dispensados com a implantação de novas tecnologias. Pode-se considerar também que há uma insuficiência crônica do aparato produtivo em prover empregos na quantidade e qualidade adequadas, havendo assim uma redução na criação de empregos associada a uma piora na remuneração e qualidade do emprego. 2 - A questão da informalidade do trabalho A crescente informalização do emprego foi ampliada com a abertura econômica dos anos 90, que culminou com a quebra de muitas indústrias que não tinham como competir com os produtos importados, mas também com a utilização de novas tecnologias nas indústrias para se tornarem mais competitivas, em detrimento do trabalhador que passou a ser substituído por máquinas. O setor de serviços também apresenta grande parte da informalização observada na população ocupada (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1996), o que se deve grande terceirização dos serviços promovidos pelas empresas. A partir da década de 90 o percentual de pessoas ocupadas absorvidas pela indústria de transformação se reduz e se intensifica a ampliação da importância do setor terciário (JULIANO et. al., 2003). Com a implementação do Plano Real, principalmente em sua primeira fase, gerou uma supervalorização da moeda, ajustes ainda mais profundos em termos da busca de um aumento de produtividade se fizeram necessários, ensejando o prosseguimento da realocação setorial do emprego (RAMOS & FERREIRA, 2005). Segundo Pochmann (1998), o Brasil sofre com o intenso crescimento das ocupações precárias, com baixos rendimentos e forte instabilidade contratual devido à estagnação econômica nos anos 80 e a desindustrialização ocorrida nos anos 90. Segundo Dedecca (1998), a política de abertura econômica e o programa de estabilização com âncora cambial, adotado em 1994, vêm induzindo um rápido processo de racionalização produtiva em que se associam modernização tecnológica, transferências patrimoniais com crescente internacionalização e especialização da base produtiva. Este período também foi acompanhado por um crescente aumento da informalidade do trabalho causada pela pressão competitiva que a abertura da economia causou no setor industrial, com os desempregados migrando para o setor de serviços, como o comércio, onde a informalidade é maior (Jornal Estado de São Paulo, 29/02/2004). As condições adversas da economia do país presentes no inicio da década, aliadas a uma legislação trabalhista rígida, levaram os trabalhadores a aceitar empregos de baixa qualidade, ou a buscar a sua subsistência como autônomos ou assalariados sem carteira (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1996).Segundo Dedecca (1998), há uma insuficiência na geração de empregos, que estaria ampliando a relação inativo/desempregado por empregado e que vem produzindo uma redução da dimensão ocupacional dos mercados de trabalho. Já segundo Gonzaga (1998), o problema do Brasil seria a baixa qualidade do emprego, e não a escassa criação de postos de trabalho. Na realidade, os dois motivos se combinam para agravar o problema do desemprego, com a predominância de um ou outro em determinados períodos. Essa baixa qualidade do emprego deve-se a alta rotatividade da mão-de-obra, que prejudica o investimento em treinamento e conseqüentemente a o aumento da produtividade e da qualidade do emprego. 3 - Políticas de geração de emprego e seus efeitos na mesorregião de Piracicaba 3.1 - As instituições de ensino Na mesorregião encontramos grandes instituições do ensino superior, sendo estas instituições de grande importância para a pesquisa, desenvolvimento tecnológico e a qualificação profissional na mesorregião de Piracicaba. As instituições de ensino superior na mesorregião, pois elas são de grande importância no desenvolvimento econômico regional/local, atuando como agentes de qualificação e como parceiras de prefeituras e empresas, além de gerar inovações tecnológicas importantes para o país. A universidade propicia uma necessidade latente de infra-estrutura, amplia a arrecadação total das prefeituras, e o emprego no setor de serviços (LIMA et.al., 2005). As universidades públicas são também importantes parceiras para a criação das incubadoras de empresas, que nascem muitas vezes como empresas Junior dentro das universidades. Para ganharem seu espaço no mercado capitalista, essas empresas necessitam cada vez mais de aparato e apoio inicial, para se especializarem e conseguirem ganhar um capital necessário para se desenvolverem, gerando assim mais empregos (LIMA et.al., 2005). A Incubadora de Empresas tem como objetivo estimular a criação e o fortalecimento de empresas inovadoras (tanto de base tecnológica como empresas de setores convencionais), oferecendo condições para que as empresas recebam capacitação e assistência técnica e gerencial para que possam superar as barreiras existentes nos primeiros anos de sua constituição, oferecendo infra-estrutura, parceria com instituições de ensino e pesquisa e suporte gerencial, administrativo e mercadológico, além de oferecer condições de acesso à inovação tecnológica e aos mercados. A importância destas parcerias está também em fornecer acesso às micro e pequenas empresas às inovações tecnológicas produzidas pelas universidades. A meso-região apresenta 7 incubadoras, sendo duas em Limeira, uma em Piracicaba, uma em Araras, uma em Leme e duas em Rio Claro, construídas em parcerias do SEBRAE com universidades e prefeituras. Além de estimular a economia, a ciência e a tecnologia no interior do país (no caso do estado de São Paulo), as universidades garantem muitas vezes a renda de muitas famílias. Entre as parcerias com universidades, a ESALQ (localizada no município de Piracicaba) é parceira e sede de um grande projeto do Governo Federal, sediando o Pólo Nacional de Biocombustíveis, que tem como objetivo centralizar as pesquisas feitas no país em relação ao biodiesel e desenvolver outras com cana-de-açúcar e derivados, além de insumos como madeira, milho, amendoim, soja e girassol. Será também papel deste pólo contribuir na definição de estratégias no campo da energia baseada em fontes alternativas. O programa contará com a participação dos ministérios da Agricultura, Ciência e Tecnologia e Minas e Energia. Sendo o tema deste trabalho as políticas de emprego, estas pesquisas têm sido responsáveis pela criação de empregos no meio rural por meio da agricultura familiar e o desenvolvimento da indústria nacional de pesquisa e equipamentos (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2004), inclusive em outras regiões que não a região de Piracicaba. 3.2 - Programa Nacional de Agricultura Familiar Para incentivar o plantio por pequenos produtores, o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) criará uma linha de crédito de cerca de R$ 100 milhões. A meta é envolver, nos próximos dois anos, 38 mil famílias, das quais 30 mil no Nordeste, onde as condições são favoráveis para a produção de mamona. A participação dos agricultores na produção de matéria-prima para o biodiesel permitirá a geração de renda adicional de cerca de R$ 93 milhões por ano e estimase que a produção de biodiesel para atender ao percentual de mistura de 2% ao diesel comum possa gerar mais de 150.000 empregos em 2005, especialmente na agricultura familiar (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2004), sendo que o Ministério da Ciência e Tecnologia já estuda a possibilidade de mistura de 5%. O Brasil também pretende se tornar exportador do produto, visando aproveitar as necessidades de outros países em diminuir a poluição devido a entrada em vigor do Protocolo de Quioto, o que levaria o país a ser pioneiro nesta tecnologia e maior exportador de biocombustíveis, o que ampliaria a produção e o número de empregos no campo. Tendo isso em vista, o governo federal tem planos de investir, no Programa Nacional de Biocombustíveis, US$ 134 milhões (cerca de R$ 402 milhões) entre os anos de 2005 e 2008. Esses recursos serão utilizados na implantação das primeiras 16 usinas de produção de biodiesel (óleo vegetal e álcool). A demanda do álcool, o biocombustível mais comum hoje no Brasil, vem aumentando devido ao fato de todas as grandes montadoras no país oferecerem veículos híbridos, os flex fuel, que representam 33% das vendas de carros novos. Graças à popularidade do motor flex fuel, o consumo doméstico de etanol deverá saltar 50% nos próximos cinco anos, o que fará com que um crescente percentual da safra anual de cana do país seja usado para produzir combustível, gerando mais investimentos no setor e empregos para atender a demanda. A mesorregião de Piracicaba deve ser altamente beneficiada por ser uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar. 3.3 - Politica industrial e APLs Quanto às pequenas e médias empresas, a política industrial prevê o fortalecimento dos Arranjos Produtivos Locais (APLs), com a promoção comercial no mercado interno; inovação tecnológica e a certificação de consórcio e bônus de metrologia. Arranjos produtivos em Limeira (jóias folheadas à ouro) e Santa Gertrudes (cerâmica) prosperam na região, com aumento de suas exportações e com apoio de políticas locais nos respectivos municípios. A Prefeitura Municipal de Limeira, observando o potencial que o setor de folheados apresenta, planeja transformar este APL em um distrito industrial, criando uma área exclusiva para o APL, fornecendo áreas para a expansão das empresas que o compõe, com vantagens fiscais que visam assim o crescimento do setor e a criação de novos postos de trabalho. No município de Santa Gertrudes encontra-se um dos maiores pólos cerâmicos das Américas, a respondendo hoje por um terço (1/3) da produção nacional de pisos e revestimentos cerâmicos (Prefeitura de Santa Gertrudes). Destaca-se também a produção de cerâmica artesanal através de fornos de tijolos à lenha, sendo que a produção dos artesãos do barro tem atraído compradores de diferentes pontos do país e do exterior. A atividade artesanal estende-se a outros tipos de trabalho, com cerca de 16 artesãos locais que produzem peças biscuit, velas e frutas decorativas, sabonetes, arte em jornal, pintura em tecido, tela, cerâmica e madeira, mosaico, peças em gesso, embalagens, doces parafinados, etc (Prefeitura de Santa Gertrudes). A implementação da política industrial deve ser articulada com a nova política regional, contribuindo para uma maior integração nacional e para a redução das disparidades regionais entre estados e sub-regiões, considerando as suas articulações com o território (IPEA, et alii, 2004). Neste contexto, percebe-se que o território é um agente importante para a implementação das políticas, podendo ser de grande colaboração para o seu bom funcionamento ou uma oposição a estas políticas, sendo que isso se deve as situações que este território apresenta em seus aspectos sociais, políticos e econômicos, além dos recursos que este território oferece para a implementação de atividades industriais. Estas novas políticas também estão ligadas a outras políticas, que a complementam, como as políticas de financiamento do BNDES, a atuação do SEBRAE, como poderemos ver a seguir, uma vez que estes órgãos ajudam no financiamento das atividades industriais. Além desses APLs beneficiados pela política industrial, temos o APL de turismo em Brotas, que conta com apoio da Secretaria de Turismo local, do Ministério do Esporte e Turismo, e do CODETUR - Comitê de Desenvolvimento do Turismo da Região Centro Paulista, com uma ampla divulgação da cidade como capital dos esporte de aventura. Em Limeira, há o APL de mudas cítricas, responsável por 65% da produção nacional (Associação dos Viveristas de Limeira e região), tornando Limeira o maior pólo produtor de mudas do País, com aproximadamente 400 viveiristas que empregam direta e indiretamente mais de 20 mil pessoas, com 80% das mudas para exportação 3.4 - Programa de combate ao trabalho escravo Tendo em vista combater o trabalho escravo, que ocorre principalmente no cultivo da cana, o Governo Federal instalou uma Delegacia da Polícia Federal no município de Piracicaba para aumentar e a fiscalização e combater a exploração de trabalho escravo. Segundo dados obtidos nesta delegacia, o trabalho escravo na região se dá através de alojamentos em habitações urbanas precárias e transporte até o local de trabalho de maneira insegura e que expõe os trabalhadores a riscos de acidentes graves, condições estas que são ampliadas muitas vezes pelo não pagamento dos salários, com a desculpa de cobrança de alimentação e alojamento, caracterizando assim o trabalho em condições de escravidão. Segundo cálculos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), existem no Brasil 25 mil pessoas submetidas às condições análogas de trabalho escravo (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2003). 3.5 - Lei do Aprendiz A Lei do Aprendiz, instituída em 2000, visa estimular a contratação de maiores de 14 anos e menores de 18 anos na condição de aprendiz. De acordo com esta lei, o empregador se compromete a assegurar uma formação técnicoprofissional por até dois anos, sendo que a aprendizagem não pode ocorrer em horários e locais que não permitam a freqüência à escola. De acordo com esta lei, os estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem número de aprendizes equivalente a cinco por cento, no mínimo, e quinze por cento, no máximo, dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento, cujas funções demandem formação profissional. Tabela 2: Trabalhadores menores de idade na condição de aprendiz 2000 2001 Araras Conchal 2002 2003 29 25 1 2004 1 Cordeirópolis 2 Jumirim 2 Ipeúna 2 Iracemapolis 1 Leme 1 3 2 11 85 Limeira 4 6 7 72 105 Piracicaba 9 26 51 189 299 Rafard Rio Claro 26 175 382 471 344 Rio das Pedras 5 6 7 Saltinho 2 2 2 Santa Getrudes 200 4 1 Santa Maria da 3 Serra São Pedro 12 Tiete 1 Torrinha 1 Total 189 236 2 2 481 801 14 865 Fonte: RAIS Embora seja um instrumento importante para a geração de empregos, segundo os dados da RAIS, as empresas não empregam os 5% mínimos da lei de menores de idade na condição de aprendiz. Devido à falta de conhecimento das empresas e das pessoas que podem ser beneficiadas com a lei, diversos municípios sequer apresentam trabalhadores na condição de aprendiz (Águas de São Pedro, Brotas, Capivari, Charqueada, Corumbataí, Itirapina e Mombuca). Registra-se um crescimento significativo deste tipo de contratação apenas nos municípios de Limeira, Piracicaba e Rio Claro, município líder neste tipo de contratação, mas ainda distante dos 15% máximo da lei. Faz-se necessário um amplo trabalho de divulgação da lei para as pessoas e empresários que podem ser beneficiados com este tipo de contratação, uma vez que o processo de aprendizagem pode ser considerado um programa de qualificação de trabalhadores. 3.6 - Programas de qualificação Os programas de qualificação na mesorregião são oferecidos pelo SENAI na área industrial, qualificando os trabalhadores para a atividade industrial nas seis unidades na meso-região, nos municípios de Araras, Limeira, Rafard, Rio Claro e Piracicaba, sendo que este último município conta com duas unidades. O SENAI é a instituição mais conhecida para ensino profissionalizante, e foi criada por um grupo de empresários que viram a necessidade de se qualificar o trabalhador do Brasil depois do pós-guerra (anos 50 em diante). O objetivo desta instituição é o preparar e aperfeiçoar a mão-de-obra industrial. O SENAI é atualmente administrado pela CNI – Confederação Nacional da Indústria em âmbito nacional, sendo administrada pelas Federações das Indústrias nos estados, oferecendo mais de 1.000 cursos profissionalizantes, sendo alguns de caráter geral, outros de interesse regional ou local (MOURA, 1998). O SENAC atua nos municípios de Piracicaba, Águas de São Pedro, Rio Claro e Limeira, desenvolvendo atividades e cursos que qualifiquem o trabalhador para exercer atividade comercial e prestação de serviços. O SENAC tem como missão é desenvolver pessoas e organizações para o mundo do trabalho com ações educacionais e disseminando conhecimentos em Comércio de Bens e Serviços, sendo administrado pela Confederação Nacional do Comércio. Além dos cursos oferecidos por essas instituições, há uma forte atuação de sindicatos e associações na qualificação dos trabalhadores, oferecendo cursos, organizando eventos e palestras para qualificar os seus associados. Existem ainda, nos maiores municípios desta mesorregião (Piracicaba, Limeira, Rio Claro e Araras), escolas técnicas e a atuação das principais prefeituras com programas de qualificação, se adequando ao Plano Nacional de Qualificação, principal diretriz para a participação dos órgãos públicos nesta questão. 3.7 - Sistema de emprego Para atender as necessidades de um sistema de emprego que integre as ações de qualificação profissional e de intermediação de mão-de-obra com recebimento do seguro-desemprego, visando diminuir o desemprego decorrente da má informação sobre as oportunidades do mercado de trabalho e ampliar a formação profissional dos trabalhadores, há Postos de Apoio ao Trabalhador (PAT) em sete municípios da meso-região (Araras, Capivari, Iracemápolis, Leme, Limeira, Piracicaba e Rio Claro) atuando no atendimento ao trabalhador com a informação de oportunidades e informações para a participação dos programas existentes para o trabalhador. Considerações finais O potencial industrial da região metropolitana deSão Paulo se esgotou, dando lugar a um novo potencial, que é o fornecimento de serviços, adequando a metrópole ao conceito metrópole global, havendo uma mudança de eixo de atividade industrial para o fornecimento de serviços. Enquanto isso, a mesorregião de Piracicaba apresenta um potencial agrícola aliado a um potencial industrial enorme, que tem causado diferenças nas taxas de desemprego e de geração de empregos formais aliado a um crescimento no setor de serviços. É importante salientar que os dados da RAIS, além de demonstrarem a situação descrita em itens anteriores, mostram também que o número de empregos formais está aumentando, mas não na velocidade necessária para absorver os trabalhadores informais e toda a mão-deobra excedente, que vem aumentando ano a ano com a entrada de jovens no mercado. Ocorre também um processo de transferência geográfica da indústria, que tem se deslocado das regiões metropolitanas para o interior em busca de vantagens obtidas através da guerra fiscal, além da busca em fugir do encarecimento das grandes cidades, gerando o que foi denominado de desemprego regional, e que explica a diferença na geração de empregos nas duas regiões estudadas. O desemprego na região metropolitana é agravado pela migração de pessoas para os grandes centros urbanos, em busca de melhores oportunidades, mas que ao chegarem não conseguem vagas para o mercado de trabalho. Embora este processo ocorra no interior, ele encontra-se restrito à algumas atividades que criam empregos sazonais, como o corte de cana-de-açúcar. Um grave problema encontrado está na agricultura, que com a sua modernização tem provocado uma diminuição de postos de trabalho no setor rural, levando trabalhadores rurais sem qualificação para os centros urbanos, aumentando a quantidade de desempregados que na falta de oportunidades partem para a informalidade e a criminalidade. Devemos considerar também que a modernização tecnológica tem destruído alguns postos de trabalho na indústria. Neste estudo, foi possível ver claramente que a principal e questionável forma de gerar empregos é através da guerra fiscal, com os municípios oferecendo vantagens para as empresas se instalarem, como terrenos e infra-estrutura em áreas apropriadas. As alternativas a estas práticas para a geração de empregos deveriam ser criadas com a participação de instituições de ensino superior, em conjunto com o SEBRAE e outras organizações voltadas para a geração de desenvolvimento local/regional, atuando como parceiras das empresas e no fornecimento de estrutura e tecnologia para que estas possam crescer e gerar empregos. Embora a participação das instituições de ensino superior seja importante, os governos vêm constantemente sucateando as universidades públicas, diminuindo a sua participação no processo de criação de estratégias de desenvolvimento, em pesquisas e na qualificação de profissionais no mercado de trabalho. As políticas nacionais de geração de empregos são de grande importância para a geração de empregos, mas devem estar aliadas com políticas que estimulem as potencialidades locais, que são exclusivas de cada território. Deveria-se adotar, portanto uma política que mobilizasse essas potencialidades para a geração de empregos, identificando-se cada região e sua respectiva potencialidade. A partir desta identificação, deveria-se investir de modo a aproveitar da melhor maneira possível essas potencialidades, investindo em infra-estrutura econômica e social e em atividades produtivas que aproveitassem da melhor maneira possível os recursos oferecidos pelo território, estimulando assim o crescimento econômico regional e expandindo as oportunidades de emprego. Para a aplicação das políticas nacionais de emprego, as prefeituras possuem um papel importante para o cadastramento de pessoas nos programas federais, sendo o elo de ligação entre o governo federal e a população que necessita de seus programas, além de estabelecerem as políticas locais para gerar empregos. Torna-se necessário também a criação de políticas que estimulem os APLs, que se mostraram uma boa alternativa para a geração de empregos, criando a infraestrutura necessária para que possam crescer e gerar empregos. Os APLs se desenvolvem a partir do diálogo entre os diversos atores locais para gerar o desenvolvimento local, sendo necessário apenas políticas que ampliem os horizontes destes APLs, tornando-os mais competitivos e melhor estruturados para que possam criar os empregos necessários. Isto não quer dizer que os APLs são a solução do problema do desemprego, mas sim uma das alternativas para minimizálo, gerando novos empregos formais e desenvolvimento local, que deveriam estar aliadas à outras estratégias de desenvolvimento. Devemos lembrar que a geração de desenvolvimento local depende de diversos fatores, como espírito empreendedor, boa governança, a ausência de corrupção, democracia, promoção dos direitos e da liberdade. O espírito empreendedor existe, mas os outros fatores estão sendo constantemente negligenciados pelos nossos governantes, com diversas denúncias de corrupção sistêmica, a falta de direitos que estão garantidos em lei e péssima governança, além do comportamento muitas vezes anti-democrático e ditatorial da maioria de nossos governantes. BIBLIOGRAFIA BENKO, G. Economia, espaço e globalização na aurora do século XXI. Editora Hucitec, 3a edição, São Paulo, 2002. DEDECCA, C.S. O desemprego e seu diagnóstico hoje no Brasil. Revista de Economia Política, volume 18, número 1 (69), 1998. DIAS, C. O mapa do emprego aponta cada vez mais para o interior do país. 15/07/2004. Disponível em http://www2.uol.com.br/infopessoal/noticias/_HOME_OUTRAS_238663.shtml Acesso em 15/07/2004. Especial A crise do emprego; Caderno de Economia. Jornal Estado de São Paulo, 29/02/2004 GONZAGA, G. Rotatividade e qualidade do emprego no Brasil. . Revista de Economia Política, volume 18, número 1 (69), 1998. 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