Apendice 3 a los Analaes del: en el Conosur 19 Linguagem, Educação e Tecnologia: Perspectivas Contemporâneas Apendice 3 Ceila Soares - CRB10/926 Conosur (1. : 2011 : Pelotas-Brasil) Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011. – v.1, 2011. - 1 CD-ROM. ISSN 2238-0078 – CDD: 300 600 Endereço ISSN: 2238-0078 www.dialogosenmercosur.org - Publicações. – Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 19 Simposio 19 Linguagem, Educação e Tecnologia: Perspectivas Contemporâneas UNIVERSIDADE ABERTA: AVANÇOS E CRÍTICAS AOS MODELOS LUSITANO E BRASILEIRO – PARTE I Paulo Brasil Dill Soares Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ/ITR. [email protected] Paulo Brasil Dill Soares. Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá/RJ. Professor de Direito no Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, no Instituto Três Rios. Membro do Instituto dos Advogados do Brasil – IAB, nas Comissões de Direito Constitucional e Direito do Consumidor. RESUMO O ensaio traça um paralelo entre o atual estágio de desenvolvimento da educação à distância oferecida pela Universidade Aberta adotada no Brasil e aquele existente no território português, em regime de e-learning, com base em classes virtuais e b-learning com encontros presenciais, examinando o programa Erasmus Mundus no âmbito do Ensino Superior que apóia projetos de cooperação e mobilidade entre a Europa e países terceiros. Palavras-chaves: Universidade aberta;Educação à distância; Brasil; Portugal. INTRODUÇÃO O “Universidade Aberta: avanços e críticas aos modelos lusitano e brasileiro - Parte I” investiga a gênese da universidade desde a sua criação nos séculos XII e XIII, como nos casos da 2925 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Universidade de Bolonha, Oxford e Paris, buscaram autonomia diante do clero. Passando no século XV ao controle do Estado, consoante a Reforma Protestante e a Contra-Reforma a qual teve influência na península ibérica e colônias. Já no século XVIII e início do XIX, registrou-se a manifestação de dois modelos laicos de universidade: o napoleônico adotado pela França e Prússia caracterizado pela formação de administradores do Estado; e a universidade de Berlim, que integrava o ensino à pesquisa. Não se pode olvidar a relevância histórica da herança portuguesa no campo da educação brasileira, o que por si só justificaria o objeto do presente estudo. A concepção perseguida neste projeto baseada no princípio da autonomia dos sujeitos de conhecimento, interromper os efeitos da conservação dosestudantes, na imaturidade, na ignorância e na indiferença, conforme nos aponta Nietzsche1. O desafio contemporâneo está evidenciado na Universidade Aberta e consiste na ruptura da fronteira política delimitada pelo elemento geográfico do conceito de Estado, permitindo que a comunidade internacional usufrua da universalização do ensino superior através da oferta competitiva e de qualidade com outros Estados nacionais, ampliando os contornos da perene luta pela autonomia acadêmica, didática, administrativa e de gestão agora b para os limite F “ b ”2. O mito ocidental de que há antinomia entre saber e poder, de que para saber é preciso renunciar ao poder. Mito este, que segundo Foucault 3 , “ precisa ser demolido, b ” q z v q v “v b ”. 1 NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre educação. Trad.: Noéli Correia de Melo Sobrinho, Rio de Janeiro: PUC – Rio, Loyola, 2004, p. 12. 2 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3. ed., Rio de Janeiro: Nau Editora, 2002, p. 51. O mito ocidental de que há antinomia entre saber e poder, de que para saber é preciso renunciar ao poder. Mito este, que segundo Foucault, precisa ser demolido, pois para ele, o poder políticonão está ausente do saber, ao contrário, eles podem se entrecruzar sem separar a verdade do que é político da verdade do que é científico, sem decompor o verdadeiro saber. 3 FOUCAULT, Michel. op. cit., p.51. 2926 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O sujeito deverá desvendar os saberes do devir e do múltiplo contidos na essência de Dionísio4 v ”q z “ “ v q ” Segundo Canguilhem5: Numa organização social, (...) as regras devem ser representadas, aprendidas, rememoradas, aplicadas. Ao passo que, num organismo vivo, as regras de ajustamento das partes entre si são imanentes, presentes sem ser representadas, atuantes sem deliberação nem cálculo. Não há, neste caso, desvio, distância, nem intervalo de tempo entre a regra e a regulação. A ordem social é um conjunto de regras com quais seus servidores ou seus beneficiários têm que se preocupar. A ordem vital é constituída por um conjunto de regras vividas sem problemas. 1. HISTÓRICO DO SISTEMA DE UNIVERSIDADE ABERTA NO BRASIL O Sistema UAB foi criado pelo Ministério da Educação no ano de 2005, em parceria com a ANDIFES e Empresas Estatais, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação com foco nas Políticas e a Gestão da Educação Superior. Trata-se de uma política pública de articulação entre a Secretaria de Educação a Distância - SEED/MEC e a Diretoria de Educação a Distância - DED/CAPES com vistas à expansão da educação superior, no âmbito do Plano de Desenvolvimento da Educação - PDE. O Sistema UAB sustenta-se em cinco eixos fundamentais: a) expansão pública da educação superior, considerando os processos de democratização e acesso; b) aperfeiçoamento dos processos de gestão das instituições de ensino superior, possibilitando sua expansão em consonância com as propostas educacionais dos estados e municípios; c) avaliação da educação superior a distância tendo por base os processos de flexibilização e regulação implantados pelo MEC; d) estímulo à investigação em educação superior a distância no País; e) financiamento dos processos de implantação, 4 NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. In: Os pensadores. 2. ed., São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. XIV. 5 CANGUILHEM, Georges. Do social ao vital. In: O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 222. 2927 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ execução e formação de recursos humanos em educação superior a distância. Os primeiros cursos executados no âmbito do Sistema UAB resultaram da publicação de editais. O primeiro edital, conhecido como UAB1, publicado em 20 de dezembro de 2005, permitiu a concretização do Sistema UAB, por meio da seleção para integração e articulação das propostas de cursos, apresentadas exclusivamente por instituições federais de ensino superior, e as propostas de polos de apoio presencial, apresentadas por estados e municípios. O segundo edital, publicado em 18 de outubro de 2006, denominado UAB2, diferiu da primeira experiência por permitir a participação de todas as instituições públicas, inclusive as estaduais e municipais. Em 2007, o sistema UAB repassou recursos às instituições de ensino superior para a ampliação do acervo bibliográfico dos polos de apoio presencial. Foram adquiridos livros contemplando as áreas dos cursos ofertados nos polos. A bibliografia básica foi indicada por coordenadores de cursos e corroborada por coordenadores UAB. Em 2008, merece destaque da atuação do Sistema UAB que fomentou a criação de cursos na área de Administração, de Gestão Pública e outras áreas técnicas. Atualmente, 88 instituições integram o Sistema UAB, entre universidades federais, universidades estaduais e Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETs). De 2007 a julho de 2009, foram aprovados e instalados 557 polos de apoio presencial com 187.154 vagas criadas. A UAB, ademais, em agosto de 2009, selecionou mais 163 novos polos, no âmbito do Plano de Ações Articuladas, para equacionar a demanda e a oferta de formação de professores na rede pública da educação básica, ampliando a rede para um total de 720 polos. Para 2010, espera-se a criação de cerca de 200 polos. A UAB continuará a apoiar a formação de professores com a oferta de vagas não-presenciais para o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação. Essas vagas atenderão a demanda levantada pela análise das pré-inscrições realizadas na Plataforma Freire pelos professores brasileiros. 2928 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Além desse apoio, a UAB atenderá a chamada demanda social por vagas de nível superior. No total, aguarda-se a criação de 127.633 vagas para 2010. 2. ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE A UNIVERSIDADE ABERTA EM PORTUGAL E NO BRASIL A solução do problema a ser perseguida consiste em indagar se a garantia constitucional do acesso à educação abrangerá o ensino superior, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado ou esgota-se no ensino fundamental. Representaria ou não grave risco ou existem reais impedimentos para a adoção pela UAB do modelo português abaixo descrito para a oferta de especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado. A Universidade Aberta do Brasil é um sistema integrado por universidades públicas que oferece cursos de nível superior para camadas da população que têm dificuldade de acesso à formação universitária, por meio do uso da metodologia da educação a distância. O público em geral é atendido, mas os professores que atuam na educação básica têm prioridade de formação, seguidos dos dirigentes, gestores e trabalhadores em educação básica dos estados, municípios e do Distrito Federal. A busca da solução da educação passa por uma questão de exercício de poder do Estado brasileiro, e esse tema foi objeto de reflexão pelo Filósofo francês Foucault. 6 O Sistema UAB foi instituído pelo Decreto nº. 5.800, de 8 de junho de 2006 “ v v â 6 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Trad. e Org. Roberto Machado. Rio de janeiro: Editora Graal, p. 100. Considera o autor que não poderíamos “assim opor dois grandes sistemas de análise do poder: um seria o antigo sistema dos filósofos do século XVIII, que se articularia em torno do poder como direito originário que se cede, constitutivo da soberania, tendo o contrato corno matriz do poder político. Poder que corre o risco, quando se excede, quando rompe os termos do contrato, de se tornar opressivo. Poder−contrato, para o qual a opressão seria a ultrapassagem de um limite. O outro sistema, ao contrário, tentaria analisar o poder político não mais segundo o esquema contrato−opressão, mas segundo o esquema guerra−repressão; neste sentido, a repressão não seria mais o que era a opressão com respeito ao contrato, isto é, um abuso, mas, ao contrário, o simples efeito e a simples continuação de uma relação de dominação. A repressão seria a prática, no interior desta pseudo−paz, de uma relação perpétua de força. Portanto, estes são dois esquemas de análise do poder. O esquema contrato−opressão, que é o jurídico, e o esquema dominação repressão ou guerra−repressão, em que a oposição pertinente não é entre legítimo−ilegítimo como no precedente, mas entre luta e submissão. São estas noções que analisarei nos próximos cursos”. 2929 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ a finalidade de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de P ” Fomenta a modalidade de educação a distância nas instituições públicas de ensino superior, bem como apóia pesquisas em metodologias inovadoras de ensino superior respaldadas em tecnologias de informação e comunicação. Além disso, incentiva a colaboração entre a União e os entes federativos e estimula a criação de centros de formação permanentes por meio dos pólos de apoio presencial em localidades estratégicas. Assim, o Sistema UAB propicia a articulação, a interação e a efetivação de iniciativas que estimulam a parceria dos três níveis governamentais (federal, estadual e municipal) com as universidades públicas e demais organizações interessadas, enquanto viabiliza mecanismos alternativos para o fomento, a implantação e a execução de cursos de graduação e pós-graduação de forma consorciada. Ao plantar a semente da universidade pública de qualidade em locais distantes e isolados, incentiva o desenvolvimento de municípios com baixos IDH e IDEB. Desse modo, funciona como um eficaz instrumento para a universalização do acesso ao ensino superior e para a requalificação do professor em outras disciplinas, fortalecendo a escola no interior do Brasil, minimizando a concentração de oferta de cursos de graduação nos grandes centros urbanos e evitando o fluxo migratório para as grandes cidades. O Sistema UAB foi criado pelo Ministério da Educação no ano de 2005, em parceria com a ANDIFES e Empresas Estatais, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação com foco nas Políticas e a Gestão da Educação Superior. Trata-se de uma política pública de articulação entre a Secretaria de Educação a Distância - SEED/MEC e a Diretoria de Educação a Distância - DED/CAPES com vistas à expansão da educação superior, no âmbito do Plano de Desenvolvimento da Educação - PDE. O Sistema UAB sustenta-se em cinco eixos fundamentais: Expansão pública da educação superior, considerando os processos de democratização e acesso; Aperfeiçoamento dos processos de gestão das instituições de ensino superior, possibilitando sua expansão em consonância com as propostas educacionais dos estados e municípios; Avaliação da educação 2930 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ superior a distância tendo por base os processos de flexibilização e regulação implantados pelo MEC; Estímulo à investigação em educação superior a distância no País; Financiamento dos processos de implantação, execução e formação de recursos humanos em educação superior a distância. Os primeiros cursos executados no âmbito do Sistema UAB resultaram da publicação de editais. O primeiro edital conhecido como UAB1, publicado em 20 de dezembro de 2005, permitiu a concretização do Sistema UAB, por meio da seleção para integração e articulação das propostas de cursos, apresentadas exclusivamente por instituições federais de ensino superior, e as propostas de pólos de apoio presencial, apresentadas por estados e municípios. O segundo edital, publicado em 18 de outubro de 2006, denominado UAB2, diferiu da primeira experiência por permitir a participação de todas as instituições públicas, inclusive as estaduais e municipais. Em 2007, o sistema UAB repassou recursos às instituições de ensino superior para a ampliação do acervo bibliográfico dos pólos de apoio presencial. Foram adquiridos livros contemplando as áreas dos cursos ofertados nos pólos. A bibliografia básica foi indicada por coordenadores de cursos e corroborada por coordenadores UAB. Em 2008, merece destaque da atuação do Sistema UAB que fomentou a criação de cursos na área de Administração, de Gestão Pública e outras áreas técnicas. Atualmente, oitenta e oito instituições integram o Sistema UAB, entre universidades federais, universidades estaduais e Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETs). De 2007 a julho de 2009, foram aprovados e instalados quinhentos e cinquenta e sete pólos de apoio presencial com 187.154 vagas criadas. A UAB, ademais, em agosto de 2009, selecionou mais cento e sessenta e três novos pólos, no âmbito do Plano de Ações Articuladas, para equacionar a demanda e a oferta de formação de professores na rede pública da educação básica, ampliando a rede para um total de setecentos e vinte pólos. Para 2010, espera-se a criação de cerca de duzentos pólos. 2931 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A UAB continuará a apoiar a formação de professores com a oferta de vagas não-presenciais para o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação. Essas vagas atenderão a demanda levantada pela análise das pré-inscrições realizadas na Plataforma Freire pelos professores brasileiros. Além desse apoio, a UAB atenderá a chamada demanda social por vagas de nível superior. No total, aguarda-se a criação de 127.633 vagas para 2010. Em Portugal os cursos da Universidade Aberta (UAb) são lecionados em regime de e-learning, de acordo com um Modelo Pedagógico próprio, que funciona com base em Classes Virtuais, sendo todas as atividades desenvolvidas online. O estudante deve aceder regularmente ao Portal da UAb e ao Portal Acadêmico, onde encontra informações relacionadas com o percurso acadêmico. A Lei portuguesa de Bases do Sistema Educativo (Lei nº. 46/86, de 14 de Outubro, posteriormente alterada, em alguns dos seus artigos pelas Leis nº. 115/97, de 19 de Setembro, e n°. 49/2005, de 30 de Agosto, republicada e renumerada em anexo à última), estabelece o quadro geral do sistema educativo. A educação escolar desenvolve-se em três níveis: os ensinos básicos, secundário e superior. A educação pré-escolar é facultativa e destina-se às crianças com idade compreendida entre os três anos e a idade de ingresso no ensino básico. O ensino básico é universal, obrigatório e gratuito e compreende três ciclos sequenciais, sendo o primeiro de quatro anos, o segundo de dois e o terceiro de três. O ensino secundário é facultativo e compreende um ciclo de três anos (10º., 11.º e 12.º anos de escolaridade). O ensino superior português compreende o ensino universitário e o ensino politécnico, sendo o ensino universitário é ministrado em instituições universitárias públicas, particulares ou cooperativas e concordatárias e o ensino politécnico em instituições de ensino superior não universitárias públicas e particulares e cooperativas. Os estabelecimentos de ensino particular e cooperativo obtêm reconhecimento prévio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e as instituições universitárias e politécnicas conferem o grau de licenciado. 2932 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado no ensino politécnico tem uma duração normal de seis semestres curriculares de trabalho dos alunos correspondentes a cento e oitenta créditos, e, excepcionalmente, em casos cobertos por normas jurídicas nacionais ou da União Europeia, uma duração normal de até sete ou oito semestres curriculares de trabalho e uma formação de até duzentos e quarenta créditos. O ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado no ensino universitário tem cento e oitenta ou duzentos e quarenta créditos e uma duração normal compreendida entre seis e oito semestres curriculares de trabalho dos alunos. No primeiro ciclo de estudos das instituições universitárias ou politécnicas o grau de licenciado é conferido aos que, através da aprovação em todas as unidades curriculares que integram o plano de estudos do curso de licenciatura, tenham obtido o número de créditos fixado. As instituições universitárias e politécnicas conferem o grau de mestre. O ciclo de estudos conducente ao grau de mestre tem noventa a cento e vinte créditos e uma duração normal compreendida entre três e quatro semestres curriculares de trabalho dos alunos. No ensino politécnico o ciclo de estudos conducente ao grau de mestre deve assegurar, predominantemente, a aquisição de uma especialização de natureza profissional. No ensino universitário o ciclo de estudos conducente ao grau de mestre deve assegurar, predominantemente, a aquisição de uma especialização de natureza acadêmica com recurso à atividade de investigação ou que aprofunde competências profissionais. No ensino universitário o grau de mestre pode igualmente ser conferido após um ciclo de estudos integrado, com trezentos a trezentos e sessenta créditos e uma duração normal compreendida entre dez e doze semestres curriculares de trabalho nos casos em que a duração para o acesso ao exercício de uma determinada atividade profissional seja fixada por normas legais da União Europeia ou resulte de uma prática estável e consolidada na União Europeia. Neste ciclo de estudos é conferido o grau de licenciado aos que tenham realizado os cento e oitenta créditos correspondentes aos primeiros seis semestres curriculares de trabalho. 2933 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ No segundo ciclo de estudos das instituições universitárias ou politécnicas o grau de mestre é conferido aos que através da aprovação em todas as unidades curriculares que integram o plano de estudos do curso de mestrado e da aprovação no ato público de defesa da dissertação, do trabalho de projeto ou do relatório de estágio, tenham obtido o número de créditos fixado. O grau de doutor é conferido pelas instituições universitárias aos que tenham obtido aprovação nas unidades curriculares do curso de doutoramento quando exista, e no ato público de defesa da tese. 3. MARCO LEGAL BRASILEIRO SOBRE UNIVERSIDADE ABERTA - UAB A primeira norma a tratar de UAB foi o Decreto nº. 5.622, de 19 de dezembro de 2005, de autoria da Presidência da República/Casa Civil. Esse decreto regulamenta o art. 80 da Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. O Decreto nº. 5.622/05 dispôs sobre as características da educação à distância como modalidade educacional, organizada segundo metodologia, gestão e avaliação peculiares. Além de prevê a obrigatoriedade de momentos presenciais e os níveis e modalidades educacionais em que poderá ser ofertada. Fixando regras de avaliação do desempenho do estudante para fins de promoção, conclusão de estudos e obtenção de diplomas e certificados, sendo que estes terão validade nacional. O Decreto nº. 5.622/05 ainda confere ao MEC a competência de organizar a cooperação e integração entre os sistemas de ensino, objetivando a padronização de normas e procedimentos em credenciamentos, autorizações e reconhecimentos de cursos e instituições de ensino a distância. E apresenta instruções para oferta de cursos e programas na modalidade à distância na educação básica, ensino superior e pós-graduação. Outro marco na UAB foi o Decreto nº. 5.800, de 08 de junho de 2006, também de autoria da Presidência da República/ Casa Civil que dispõe sobre 2934 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ o Sistema Universidade Aberta do Brasil – UAB, seus objetivos e finalidades sócio-educacionais. O Decreto nº. 5.800/06 caracterizou o pólo de apoio presencial como unidade operacional para o desenvolvimento descentralizado de atividades pedagógicas e administrativas relativas aos cursos e programas ofertados e regulamentou que os pólos de apoio presencial deverão dispor de infraestrutura e recursos humanos adequados às fases presenciais dos cursos e programas. Também determinou que os convênios e acordos de cooperação com instituições públicas de ensino superior e entes federativos serão firmados pelo MEC. Estabeleceu que a articulação entre os cursos e programas e os pólos será realizada mediante edital publicado pelo MEC, além de definir que o MEC coordenará a implantação, o acompanhamento, a supervisão e a avaliação dos cursos do Sistema UAB. Em 2006 foi editada a Lei nº. 11.273 que autorizava a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa a participante de programas de formação inicial e continuada de professores para a educação básica, apresentando os critérios e beneficiários das respectivas bolsas, além de fixar os valores e período de duração. No ano de 2007 foi promulgada a Lei n°. 11.507 que institui o Auxílio de Avaliação Educacional - AAE para os servidores que participarem de processos de avaliação realizados pelo INEP ou pela Fundação CAPES. A presente lei alterava o art. 3º da Lei nº. 11.273, de 6 de fevereiro de 2006, v “ º b q o art. 2º desta Lei serão concedidas pelo FNDE diretamente ao beneficiário, b ” N L º 0 11 de julho de 2007 que modificava as competências e a estrutura organizacional da CAPES e autoriza a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes do programa de formação inicial e continuada de professores para a educação básica, alterando o art.1º, §1º e §3º e o art. 2º da Lei nº. 11.273, de 6 de fevereiro de 2006. A Portaria Normativa nº. 2, de 10 de janeiro de 2007 de autoria do Ministério da Educação estipulava os procedimentos de regulação e avaliação de educação superior na modalidade a distância. Credenciando as 2935 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ instituições para a oferta de educação na modalidade a distância deverá ser requerido por instituições de educação superior já credenciadas no sistema federal ou nos sistemas estaduais e do Distrito Federal. Definindo que o ato autorizativo de credenciamento considerará como abrangência para atuação da instituição de ensino superior na modalidade de EAD, a sede da instituição acrescida dos endereços dos pólos de apoio presencial. Estabelecendo que a oferta de cursos superiores de EAD sujeita-se a pedido de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento, dispensada a autorização para instituições que gozem de autonomia. Por fim, as instituições e cursos superiores na modalidade a distância sujeitam-se a supervisão, a qualquer tempo. A Portaria Conjunta CAPES/CNPq nº. 01, de 12 de dezembro de 2007 regula a situação dos bolsistas CAPES/CNPq matriculados em programas de pós - graduação no país e que atuam nas Instituições Públicas de Ensino Superior - IPES como tutores da Universidade Aberta do Brasil - UAB. A Portaria estabelece que os bolsistas em questão, terão as respectivas bolsas de estudo preservadas pelas duas agências, pelo prazo da sua duração regular. Além de autorizar a atuação de tutor, sendo que as condições deverão ser formuladas pela coordenação do curso ou programa de pós-graduação em que o bolsista estiver matriculado, com a devida anuência de seu orientador. E determina que a presente autorização não exima o bolsista de cumprir com suas obrigações, inclusive quanto ao prazo de validade da bolsa, junto ao curso de pós-graduação e à agência de fomento concedente da bolsa. No mesmo ano foi editada a Portaria Normativa nº. 40, de 12 de dezembro de 2007 que institui o e-MEC como sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação da educação superior no sistema federal de educação. Resolvendo que a tramitação dos processos regulatórios de instituições e cursos de graduação e seqüenciais do sistema federal de educação superior será feita exclusivamente em meio eletrônico, no sistema e-MEC. Bem como tratava das competências sobre o e-MEC; das disposições comuns aos processos 2936 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ de credenciamento de intituição e autorização de curso e das disposições peculiares aos processos de autorização e reconhecimento de curso. A Portaria Normativa nº. 40 regulamenta o ciclo avaliativo e das disposições peculiares aos processos de reconhecimento de instituições e renovação de reconhecimentos de cursos e estabelece as disposições peculiares aos processos de credenciamento, autorização e reconhecimento para oferta de educação a distância. A Portaria Interministerial nº. 127, de 29 de maio de 2008 de autoria do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, da Fazenda e do Controle e da Transparência estabelece normas para execução do disposto no Decreto nº. 6.170, de 25 de julho de 2007, que dispõe sobre as normas relativas às transferências de recursos da União mediante convênios e contratos de repasse, e dá outras providências. Esta portaria regula os convênios, os contratos de repasse e os termos de cooperação celebrados pelos órgãos e entidades da Administração Pública Federal com órgãos ou para a execução de programas, projetos e atividades de interesse recíproco que envolvam a transferência de recursos financeiros oriundos do Orçamento Fiscal e da Seguridade Social da União. O Ministério da Educação em 02 de abril de 2009 transferiu a operacionalização do Sistema Universidade Aberta do Brasil – UAB para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES através da Portaria n°. 318. Em 5 de junho de 2009 edita também a Resolução CD/FNDE nº. 26 que estabelece orientações e diretrizes para o pagamento de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes da preparação e execução dos cursos dos programas de formação superior, inicial e continuada no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a serem pagas pelo FNDE a partir do exercício de 2009. A Resolução CD/FNDE nº. 26/2009 aprova os critérios e as normas para o pagamento de bolsas de estudo e pesquisa no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), a partir do exercício de 2009. Estabelece o período de duração das bolsas será de até 4 (quatro) anos, 2937 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ podendo ser concedida por tempo inferior ou mesmo sofrer interrupção, desde que justificada. Atribui um novo valor da bolsa para tutor presencial, amplitude nos requisitos para ser tutor da UAB e estabelecimento de um manual de atribuições dos bolsistas e de um termo de compromisso dos bolsistas. São diretrizes de fomento fixadas pela Resolução CD/FNDE nº. 26/2009 através da Diretoria de Educação a Distância da CAPES fomenta a atuação das IPES na oferta de cursos no âmbito da UAB para a realização de: a) produção e distribuição do material didático impresso utilizado nos cursos; b) a aquisição de livros para compor as bibliotecas; c) a utilização de tecnologias de Informação e Comunicação para interação entre os professores, tutores e estudantes; d) a aquisição de laboratórios pedagógicos; e) a infraestrutura dos núcleos de educação a distância nas IPES participantes; f) a capacitação dos profissionais envolvidos; g) o acompanhamento dos polos de apoio presencial; h) os encontros presenciais para o desenvolvimento da EAD. A Lei nº. 11.947, de 16 de junho de 2009 dispôs sobre o atendimento da alimentação escolar e do Programa Dinheiro Direto na Escola aos alunos da educação básica, novamente alterando a Lei n°. 11.273 de 6 de fevereiro de 2006. Cabendo não somente ao FNDE, como também à CAPES conceder bolsas de estudo e bolsas de pesquisa no âmbito dos programas de formação de professores para a educação básica desenvolvidos pelo Ministério da Educação, inclusive na modalidade a distância. As bolsas serão concedidas diretamente ao beneficiário, por meio de crédito bancário, nos termos de normas expedidas pelas respectivas instituições concedentes, e mediante a celebração de termo de compromisso em que constem os correspondentes direitos e obrigações. As despesas com a execução das ações previstas nesta Lei correrão à conta de dotações orçamentárias consignadas anualmente ao FNDE, bem como à Capes, observados os limites de movimentação, empenho e pagamento da programação orçamentária e financeira anual. 2938 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Em 18 de agosto de 2009, o Ministério da Educação promulgou a Portaria nº. 802que implantou os pólos de apoio presencial nos municípios listados no anexo I, referente às ações do Plano de Ações Articuladas (PAR), com a finalidade de compor o conjunto de pólos do Sistema Universidade Aberta do Brasil bem como aprovar as Instituições de Ensino Superior públicas para oferta de cursos em pólos do Sistema UAB. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) por meio da Portaria nº. 75, de 14 de abril de 2010 dispôs sobre a criação do Grupo Assessor do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB). As atribuições do grupo são apoiar a Capes na formulação das diretrizes estratégicas de desenvolvimento do Sistema UAB, além de apoiar os processos de acompanhamento e avaliação de cursos e pólos de apoio presencial do Sistema UAB. Esta portaria também formulou diretrizes para a elaboração de editais que visem a consolidação e o desenvolvimento do Sistema da UAB, auxiliando na formulação de políticas e ações de desenvolvimento do Sistema UAB e apoiando na formulação do Plano de Ação anual para o Sistema UAB. Também de autoria da Capes/MEC a Portaria nº. 79, de 14 de abril de 2010 institui o Fórum Nacional de Coordenadores e Coordenadores Adjuntos do Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB, composto pelos Coordenadores UAB das Instituições Públicas de Ensino Superior (IES) integrantes Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e institui os Fóruns Regionais de Coordenadores do Sistema UAB, composto pelos coordenadores de pólo de apoio presencial da região e pelos Coordenadores e Coordenadores Adjuntos das IES integrantes do Sistema UAB e que ofertam cursos na região. A competência dos Fóruns Nacional e Regionais de Coordenadores do Sistema UAB dentre outras é de apoiar a diretoria de Educação a Distância na formulação de diretrizes, na definição de parâmetros e critérios técnicos e pedagógicos que norteiem as ações do Sistema UAB relacionados à infraestrutura de pólos, oferta de cursos em pólos de apoio presencial, seleção e capacitação de tutores, dentre outros. 2939 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Compete aos fóruns apoiar a diretoria de Educação a Distância da Capes na formulação de parâmetros e diretrizes para o desenvolvimento de ações relacionadas à implantação, oferta, acompanhamento e avaliação dos cursos ofertados no âmbito do Sistema UAB, bem como dos cursos integrados no âmbito do Programa de Ações Articuladas - PAR e dos cursos ofertados pelo Pró-Licenciatura, visando seu aperfeiçoamento e garantia de qualidade. A Portaria n°. 7, de 9 de fevereiro de 2011, cuja autoria é da Secretaria de Educação à Distância (SEED) designou os avaliadores para a realização de visitas de acompanhamento do cumprimento das ações de saneamento de deficiências e os pólos e seus respectivos mantenedores que receberão visitas de acompanhamento. As Portarias n°. 370 e 371, de 29 de março de 2010 implantaram os pólos de apoio presencial em quatro municípios do estado do Rio Grande do Norte (Apodi, Parelhas, São Gonçalo e Touros) e em quatorze municípios do estado do Piauí (Altos, Anísio de Abreu, Barras, Cocal, Itainópolis, Itaueira, Luis Correia, Paes Landim, Palmeirais, Paulistana, Regeneração, Santa Cruz do Piauí, São Raimundo Nonato e Tereseina), referente às ações do Plano de Ações Articuladas (PAR), com a finalidade de compor o conjunto de pólos do Sistema Universidade Aberta do Brasil. 4. OS FÓRUNS ESTADUAIS PERMANENTES DE APOIO À FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL Os Fóruns Estaduais Permanentes de Apoio à Formação Docente são órgãos colegiados criados para dar cumprimento aos objetivos da Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, instituída pelo Ministério da Educação (MEC) por meio do Decreto n°. 6.755, de 29 de janeiro de 2009, com a finalidade de organizar, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério para as redes públicas da educação básica. 2940 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O trabalho desenvolvido pelos Fóruns Estaduais Permanentes de Apoio à Formação Docente tem o objetivo principal de elevar a formação e profissionalização dos quadros do magistério da educação básica das respectivas redes públicas estaduais e municipais, sob a coordenação das Secretarias de Educação dos Estados. Os Fóruns Estaduais têm a atribuição de elaborar e acompanhar os Planos Estratégicos de formação inicial e continuada, articular ações, otimizar recursos e potencializar esforços, em interação com os sistemas de ensino e instituições formadoras sediadas no Estado. A Portaria nº. 883, de 16 de setembro de 2009, estabelece as diretrizes nacionais para o funcionamento dos Fóruns Estaduais e a Portaria nº. 931, de 29 de setembro de 2009, indica os representantes titulares e suplentes do Ministério da Educação – MEC e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES em todas as unidades federativas. A Secretaria de Educação Básica do MEC, juntamente com as Diretorias de Educação Básica Presencial (DEB) e Diretoria de Educação a Distância da CAPES assumem a responsabilidade de apoiar os Fóruns, no que diz respeito à organização e registro dos dados relativos às demandas de formação inicial e continuada e ofertas de cursos e vagas pelas instituições formadoras. 5. REFLEXÕES SOBRE A UNIVERSIDADE ABERTA NO BRASIL E EM PORTUGAL No campo da educação, o controle social7 e político do andamento das mudanças que o mundo vem sofrendo, impõe que as ferramentas tecnológicas, promotoras das mesmas, sejam oportunizadas 7 CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 12. ed., p. 59. Considera a autora que “Na medida em que a razão se torna instrumental, a ciência vai deixando de ser uma forma de acesso aos conhecimentos verdadeiros para tornar-se um instrumento de dominação, poder e exploração (...). A razão possa captar uma certa continuidade temporal e o sentido da história, surgindo em seu lugar a perspectiva do descontínuo, do contingente e do local; a existência de uma estrutura de poder que se materializa através de instituições fundadas, tanto na dominação quanto na liberdade (...)”. 2941 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ democraticamente, compreendidas e incorporadas pelos educadores para aprendizagem dos discentes. E considerando a matriz idiomática comum entre Brasil e Portugal, entendemos ser a destinação natural para os brasileiros física e virtualmente interessados em estudar em uma instituição sediada no exterior. O estudo de caso concreto comparativo entre o modelo brasileiro e o lusitano se justifica por ser a Universidade Aberta de Portugal a mais tradicional daquele país. A qual oferece mais de sessenta cursos de licenciatura, mestrado, doutorado e especialização. O exame de acesso ao Ensino Superior da instituição é dirigido a estudantes com idade a partir de vinte e um anos de idade ou de trabalhadores com no mínimo dezoito anos. Os candidatos também devem ter o nível de ensino obrigatório para o ingresso no curso de interesse, portanto, representa um farto campo de investigação comparativa de fatores qualitativas e quantitativas entre os dois modelos examinados. O ensino superior português compreende o ensino universitário e o ensino politécnico, sendo o ensino universitário ministrado em instituições universitárias públicas, particulares ou cooperativas e concordatárias e o ensino politécnico em instituições de ensino superior não universitárias públicas e particulares e cooperativas, onde os estabelecimentos de ensino particular e cooperativo obtêm reconhecimento prévio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Buscamos confrontar as experiências de educação universitária brasileira que vivenciamos e contrastando com dois programas de formação de superior europeu, em seus diferentes aspectos, da gênese até a implementação destacando os impasses e as perplexidades encontradas. E baseados no princípio da autonomia dos sujeitos de conhecimento será possível interromper os efeitos da conservação dosestudantes, na imaturidade, na ignorância e na indiferença, conforme nos aponta Nietzsche8. Pretendemos elaborar um estudo de caso contemplando em Portugal as condições de acesso do regime geral de acesso ao primeiro ciclo de 8 NIETZSCHE, Friedrich. op. cit., p. 12. 2942 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ estudos, equivalendo à graduação no Brasil. Para se candidatarem ao primeiro ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado através do regime geral, os estudantes nacionais e estrangeiros devem satisfazer as seguintes condições: aprovação num curso de ensino secundário ou habilitação nacional ou estrangeira legalmente equivalente; realização de provas de ingresso exigidas para o curso a que se candidata com a classificação igual ou superior à mínima fixada, havendo instituições de ensino superior que aceitam provas ou exames estrangeiros e satisfação dos pré-requisitos exigidos, se aplicável, para o curso a que se candidata. É oportuno informar que além do regime geral existem regimes especiais de acesso ao ensino superior para atletas de alta competição, cidadãos portugueses em missão oficial no estrangeiro, funcionários nacionais e estrangeiros em missão diplomática, oficiais das forças portuguesas e bolseiros no quadro dos acordos de cooperação firmados pelo Estado Português. Existem também concursos especiais para candidatos que reúnam condições habilitacionais específicas possibilitando o ingresso no ensino superior a novos públicos numa lógica de aprendizagem ao longo da vida, exigindo-se para tanto que sejam adultos maiores de vinte e três anos de idade que tenham obtido aprovação em provas especialmente adequadas destinadas a avaliar a capacidade para a frequência do ensino o superior, titulares de um curso de especialização tecnológica, na modalidade de curso pós-secundário não superior. O ingresso no segundo ciclo de estudos equivalente ao curso de Mestrado no Brasil exige para o candidato que seja titular de grau de licenciado ou equivalente legal, os titulares de um grau acadêmico superior estrangeiro, que seja reconhecido como satisfazendo os objetivos do grau de licenciado pelo órgão científico estatutariamente competente do estabelecimento de ensino superior onde pretendem ser admitidos, os detentores de um currículo escolar, científico ou profissional, que seja reconhecido como atestando capacidade para realização deste ciclo de estudos pelo órgão científico estatutariamente competente do estabelecimento de ensino superior onde pretendem ser admitidos. 2943 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Para cursar o terceiro ciclo equivalente ao curso de Doutorado no Brasil é necessário comprovar que possui o grau de mestre ou equivalente legal, os titulares de grau de licenciado detentores de um currículo escolar ou científico especialmente relevante, que seja reconhecido como atestando capacidade para realização deste ciclo de estudos pelo órgão científico legal e estatutariamente competente da universidade onde pretendem ser admitidos, os detentores de um currículo escolar, científico ou profissional, que seja reconhecido como atestando capacidade para realização deste ciclo de estudos pelo órgão cientifico legal e estatutariamente competente da universidade onde pretendem ser admitidos. Desse modo, o pré-requisito que se evidencia para os brasileiros e povos de língua portuguesa para estudar em Portugal, é o domínio não apenas do idioma, que é uma barreira intelectual transposta facilmente, mas e principalmente do arsenal de recursos da tecnologia da informação. Salientamos que a compreensão citada acima pode ser impedida pela própria complexidade do recurso tecnológico, donde, no caso da informática, a área de interfaces ou ergonomia de software tem um papel político fundamental. Outra questão determinante dessa compreensão está nas próprias relações de dependência que se estabelecem entre os detentores do saber tecnológico e os não iniciados. Essas relações conferem poder e privilégios 9 aos primeiros e estão presentes em todos os espaços de aprendizado. É preciso uma pedagogia da autonomia e da liberdade para suplantá-las. CONSIDERAÇÕES FINAIS As universidades, na visão de Nietzsche10, não deveriam fundamentar as diretrizes educacionais nas estruturas burocráticas, ao contrário, deveriam incentivar uma nova concepção de educação que inspirasse nos currículos uma pedagogia voltada para novos e diferentes objetivos e métodos, 9 FOUCAULT, Michel. op. cit., p. 296. Para Foucault (...) de fato o poder em seu exercício vai muito mais ambíguo, por que cada um de nós é, no fundo, titular de certo poder e, por isso, veicula o poder. 10 NIETZSCHE, op.cit., p.12. 2944 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ conteúdos e formas, o que não conseguimos identificar nos currículos e nem nos Projetos Pedagógicos das duas universidades analisadas. As considerações feitas sobre estas respostas nos levam a refletir sobre as especialidades do conhecimento e a idolatria pela sua propriedade como sinônimo de poder que, através das instituições de ensino, é disseminado. Levam-nos ainda, à reflexão sobre o conformismo e a prevalência do animal de rebanho, harmonizado com o homem comum e utilitário11 no espaço que a ele foi destinado. Quando os estudantes indicam que consideram importantes as disciplinas de filosofia, sociologia e política, mas que não identificam com clareza o papel delas no currículo, eles estão apontando para a ruptura entre a formação superior em Direito e a educação como compromisso social e político. Esta desarticulação se volta para o caráter antinatural da educação, pressuposto que, segundo Nietzsche12, expressa o abandono da cultura e do sentido que os valores filosóficos, sociais e políticos trazem para os estudantes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BÁSICAS AZEVEDO, Israel Belo de. O prazer da produção científica: diretrizes para a elaboração de trabalhos acadêmicos. Piracicaba: UNIMEP, 1998. BRASIL, Diário Oficial da União, Atos do Poder Executivo (2005). Decreto nº. 5.622, de 19 de dezembro de 2005. BRASIL, CONGRESSO NACIONAL (2006). Projeto de lei 7.200/06. Reforma da Educação Superior. COTRIM, Gilberto & PARISI, Mário.Fundamentos da educação: história e filosofia da educação. São Paulo: Saraiva, 1979. DEMO, Pedro. Avaliação qualitativa. São Paulo: Cortez, 1991. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: Aula inaugural no Collège de France, promulgada em 12 de Dezembro de 1970. Trad.: Laura Fraga de Almeida Sampaio, São Paulo: Edições Loyola, 10. ed., 1970. 11 12 NIETZSCHE, op. cit., p. 17. NIETZSCHE, op. cit., p.43. 2945 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ______. Microfísica do poder. Trad. e Org.: Roberto Machado, Rio de janeiro: Editora Graal. ______. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. Trad. e Org.: Raquel Ramalhete, Petrópolis: Vozes, 26. ed., 1987. ______. A verdade e as formas jurídicas. 3. ed. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2002. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991. ______. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na história: lições introdutórias. São Paulo: Max Limonad, 2002. MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e Terra, 1999. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento. São Paulo: Hucitec, 1993. NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre educação. Trad.: Noéli Correia de Melo Sobrinho, Rio de Janeiro: PUC – Rio, Loyola, 2004. ______. Obras incompletas. In: Os pensadores. 2. ed., São Paulo: Abril Cultural, 1978. ______. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Trad.: Mário da Silva. 8. ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da educação: [o que você precisa saber sobre...]. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. ABSTRACT Theessaydrawsparallelsbetween thecurrentstageofdevelopmentof distance educationofferedby theOpen Universityadopted inBrazilandthatexistingin the Portuguese territory, ine-learningsystembasedonvirtual classesandblended learningwithface to face meetings, examiningErasmusMundusinHigher Education, which supports projects for cooperationandmobility betweenEuropeand third countries. Keywords: Open University, Distance Education, Brazil, and Portugal. 2946 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ INVESTIGAÇÃO DA APRENDIZAGEM COOPERATIVA E INTERATIVA EM EAD MEDIADA POR CATEGORIAS DE COMUNICAÇÃO E DAS LINGUAGENS: PRÁTICAS METODOLÓGICAS NA DISCIPLINA DE PSICOLINGUÍSTICA Profa. Ms. Aden Rodrigues Pereira Campus Jaguarão – UNIPAMPA [email protected] RESUMO Nosso projeto investiga a aprendizagem cooperativa e interativa em EAD mediada por categorias da comunicação e das linguagens na disciplina de Psicolinguística, ofertada no Curso de Letras do Campus Jaguarão, UNIPAMPA, visando refletir acerca das relações mente e cérebro através de diversas atividades realizadas no ambiente virtual moodle. Acreditamos que através desse trabalho podemos proporcionar aos futuros professores uma maior relfexão quanto ao processo de aprender a aprender. 2947 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Palavras-chave: EaD; Psicolinguística; interativa; linguagem; moodle aprendizagem cooperativa e MINI-CURRÍCULO: A professora Aden Rodrigues Pereira é graduada em Letras pela UFPel e mestre em Linguística Aplicada pela PUC do Rio Grande do Sul. Atua como professora assistente na UNIPAMPA nas áreas de Psicolinguística e do Português como Língua Estrangeira, bem como desenvolve projetos nas áreas das TICs e da Tradução, atuando também como orientadora de TCCs e de estágios nos cursos de Letras e Pedagogia da UNIPAMPA. 1. Introdução Nosso projeto investiga a aprendizagem cooperativa e interativa em EAD mediada por categorias da comunicação e das linguagens, em especial na disciplina de Psicolinguística, ofertada pelo Curso de Letras que utiliza os 20% de sua carga horária total – normalmente ofertada de modo totalmente presencial – para práticas de aprendizagem linguística, ou seja, abordamos assuntos que tratam da temática mente/cérebro/linguagem e procuramos conciliar tais abordagens com a utilização da plataforma moodle, buscando integrar a área da linguagem e das tecnologias em práticas diversas. Para tanto, primeiramente realizamos um levantamento bibliográfico sobre EAD – especialmente no trato com as linguagens no Ensino Superior -, visto que estamos inseridos em uma sociedade que já não vive mais sem as TICs como meio de comunicação e, ao mesmo tempo em que é também por elas que passa a educação como um todo na busca de uma formação de qualidade do cidadão do século XXI. Ainda vimos a importância de se fazer este estudo mais amiúde, visto que é imprescindível o conhecimento e domínio das TICs por parte dos professores em formação que temos em nosso campus, uma vez que estes logo estarão inseridos em ambientes escolares onde seus alunos já transitam “ w b ” z O preocupação em formar um profissional que saiba lidar com as ferramentas digitais de modo a não ser mero expectador da gama de informações que ali chegam, mas buscando valorizar esta ferramenta de estudo, desenvolvendo 2948 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ um olhar crítico acerca dos conteúdos que ali se apresentam, ou seja, um profissional voltado para o aprender a aprender. Para tanto, durante o levantamento biblio/webliográfico acerca das TICs e sua inserção no meio educacional, verificamos ser a EaD um fenômeno relativamente recente em nosso país – cerca de 10 a 20 anos – e que ainda pouco se tem refletido a respeito do uso qualitativo desses meios com fins de auxiliar os profissionais da educação em suas práticas e buscas teóricas. Depois, Já com certo domínio teórico do assunto em questão, partimos para a aplicação dos pressupostos teóricos da EaD, via moodle que é a plataforma de AVA oferecida em nossa instituição com vistas a desenvolver uma disciplina semi-presencial utilizando-nos das ferramentas ali dispostas para inserir nossos futuros educadores no mundo digital, refletindo acerca da formação cidadã de que podem desfrutar, bem como proporcionando-lhes a diversidade de abordagens metodológicas que podem ser aproveitadas de modo crítico e reflexivo em sala de aula. Este projeto se justifica na medida em que sentimos a necessidade de trazer a luz uma reflexão mais aprofundada a cerca do uso das TICs na Educação, visto ser esta imprescindível na formação de um profissional da educação,em especial na do que vai lidar com as linguagens, mesmo porque, b “ ” parece ser natural um aprofundamento acerca de seu funcionamento até mesmo em virtude da expansão universitária proposta pelo governo federal. Como objetivo geral pretendemos desenvolver um olhar mais crítico quanto ao uso das TICs na formação dos profissionais da Educação, bem como no uso das mesmas nas futuras práticas e buscas teóricas em sala de aula desses sujeitos. Já como específicos pretendemos investigar acerca do uso de qualidade das TICs nas práticas pedagógicas dos futuros profissionais da Educação que estamos formando; verificar como são utilizadas as ferramentas digitais e midiáticas no meio educacional; pesquisar a real importância das TICs como intermediárias de um ensino de qualidade; bem como verificar como têm funcionado os cursos de licenciaturas em modo misto, ou seja, ead e presencial; e por fim, realizamos um estudo 2949 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ experimental de trabalho da disciplina de Psicolinguística através da plataforma moodle. Feita uma triagem deste material, destacando o que há de relevante para este trabalho, então pretendemos partir para o contato com outras IES que já estão inseridas no Programa da Universidade Aberta do Brasil, a fim de contactarmos diretamente com profissionais que já atuam na área a mais tempo, especialmente com aqueles que lidam com as TICs em cursos de licenciaturas que, se uma forma ou de outra tem um envolvimento direto com as linguagens e a comunicação, sempre numa visão sociointeracionista. Espera-se que este projeto seja o início de uma reflexão permanente acerca do uso das TICs na Educação, em especial nos processos de ensinoaprendizagem da língua materna, criando-se, a partir desta pesquisa uma prática de utilização mais efetiva do ambiente moodle em nosso campus, bem como subsidiar o oferecimento de cursos em nível de extensão e graduação, uma vez que nossa instituição já deu entrada a solicitação de participacao no programa da UAB oferecido pelo Governo Federal. 2. Sobre a EaD Para dar início a nossa reflexão sobre a EaD, atestamos que a tentativa de se comunicar a distância não é uma coisa de nossos tempos atuais, pois já desde a Antiga Grécia e Roma as pessoas se comunicavam por meio de redes, correspondendo-se e trocando informações entre si, o que parecia qualificar a comunicação da época de modo a facilitar o entendimento entre os povos. No entanto, foi com a Revolução Científica que a educação a distância veio a se solidificar, quando, de acordo com Lobo Neto (1995)13, um anúncio foi publicado na Gazeta de Boston (20/03/1728) convocando as pessoas a 13 LOBO NETO, Francisco J. da S. Tecnologia Educacional. Revista Tecnologia Educacional, v. 25, n. 130/131, p. 43-45, maio/ago. 1995. 2950 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ aprenderem taquigrafia. Depois, já em 1833, outro anúncio de ensino por correspondência surgia na Suécia. No entanto, foi na segunda metade do século XIX que a educação a distância parece ter seu primeiro destaque como instituição com a fundação da primeira escola por correspondência em Berlim. Logo após, algumas universidades já ofereciam curso de extensão por correspondência para seus alunos, seguida, já no final do século XIX, de cursos de línguas, como foi o caso do Instituto Hermod. Com a 1ª Grande Guerra, ocorreu um aumento significativo de demanda social pelo ensino a distância, tendo em vista o aperfeiçoamento dos serviçoes diponibilizados pelos correios, a crescente modernização dos meios de transporte, um desenvolvimento tecnológico até então se precedentes, incluindo aí o surgimento do rádio, em especial na América Latina. Nas décadas de 60 e 70 surgem então os videocassetes, a televisão e o computador como veículos de melhoramento das comunicações, bem como de intercâmbio de informações entre as nações. Mais adiante, surgem as tecnologias que pretendem combinar texto, som e imagem, abrindo novas portas para a educação cujo maior benefício seria uma aprendizagem realizada quase que em tempo real, dando margem à interação entre os indivíduos. Já na atualidade, a EaD procura atender aos mais diferentes públicos em várias partes do mundo, treinando profissionalmente ou não, bem como formalmente ou não, em meio às diferenças de demanda, às dificuldades de aprendizagem, ou à superação do tempo e do lugar onde se encontram os mais diferentes indivíduos e as mais diversas necessidades de aperfeiçoamento e atualização de conhecimentos. Assim, podemos dividir a EaD em três gerações, a saber: ensino por correspondência (como o Instituto Universal Brasileiro), telecursos (2º grau como o ferecido pela Fundação Roberto Marinho) e ambiente interativos (como os ofertados pela World Wide Web ou internet que possibilita interação através de salas de bate-papo, blogues, sites, fóruns de discussão, correios eletrônicos, plataformas de AVAs). Dessa forma, vimos desenvolver-se o ensino a distância de modo progressivo e em conformidade com a necessidade de o ser humano se 2951 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ comunicar mais e melhor, em especial quando verificamos ser os fundamentos dessa modalidade os quatro pilares da Educação do século XXI conforme documentação veiculada pela UNESCO 14 , ou seja, aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Assim, os participantes, tanto professores como alunos, não precisariam estar presentes em um mesmo ambiente como acontece no ensino presencial, pois as ferramentas virtuais acabam por preencher este espaço, viabilizando um ensino que se dá através de outras possibilidades, mas que pode perfeitamente adaptar-se às necessidades de ensino e aprendizagem já tão preconizadas no ensino presencial. A avaliação, por exemplo, aparece em diversos cursos de graduação na modalidade a distância em nosso país, é realizada de modo presencial já que muitas vezes se faz necessário que o aprendiz comprove o conhecimento adquirido por meio de uma prova ou trabalho. Importante ressaltar que as metodologias não precisam ser necessariamente tão diferentes das do ensino presencial, mas que sim podem ser adaptadas e modificadas na medida em que o professor percebe o desenvolvimento dos alunos e que suas práticas são, naturalmente, voltadas ao aperfeiçoamento de cada participante. Quanto aos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), parecem se apresentar como outra importante ferramenta de importante papel na aprendizagem virtual, uma vez que se constiutem em um softwares que através da web visam facilitar a interação entre o participantes em situações de ensino e aprendizagem. Um dos mais utilizados, por se tratar de um sistema gratuito e de código aberto é o Moodle (Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment) que se torna acessível através da internet ou de uma rede local e é utilizado num contexto de e-learning permitindo a criação de cursos que funcionem no modo on-line. Assim, tanto professor 14 Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors. O Relatório está publicado em forma de livro no Brasil, com o título Educação: Um Tesouro a Descobrir (UNESCO, MEC, Cortez Editora, São Paulo, 1999). 2952 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ quanto aluno podem ali inserir postagens, participar de listas de discussão, grupos de trabalho, salas de bate-papo, dentre outros recursos em um contexto virtual interacionista. Na EaD o principal papel do professor parece ser o de mediador do processo de aprendizagem do aluno, visto que aquele se comunica com este num processo interativo, auxiliando o aluno a construir seu conhecimento através das multimídias oferecidas pelo sistema que pretende ser o intermediário de uma educação a distância. Dentre eles podemos citar a videoconferência através da qual ambos podem interagiur praticamente em tempo real a distâncias diversas, desde que subsidiados por uma boa aparelhagem que dê o suporte adquado para tal interação. Importante também pensar a respeito do gerenciamento do tempo que não pode deixar de ser prioridade para quem pretende trabalhar com a EaD, já que horários para bate-papos, teleconferências e mesmo para as avaliações que geralmente são feitas na modalidade presencial, precisam ser agendadas de modo a facilitar a interação entre aluno e professor, alunos e alunos. Assim, o papel do aluno passa a ser o de sujeito de sua aprendizagem, compartilhando conteúdos, ideias, pesquisas, dúvidas não só com o professor como com os demais colegas. Dessa forma, o sujeito aprende a interagir, estabelecer novas relações, conviver com as diferenças, dentre outros aspectos que deverão ser pensados ao longo do processo de aprendizagem que se dá quando alguém resolve aperfeiçoar-se ou iniciar um estudo por meio da EaD. Outro sujeito que surge como fundamental no processo de aprendizagem desse aluno é o tutor que praticamente é quem agiliza todo o processo, uma vez que em se encontrando nos pólos ou na própria sede do curso oferecido por determinada instituição, é ele quem vai estar constantemente em contato com os aprendizes, intermediando o processo juntamente com o professor que ora pode ser um elaborador de conteúdos, ora pode ministrar uma videoconferência, ora pode exercer o papel do avaliador. 2953 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Por fim, em se tratando de Educação, não poderíamos deixar de mencionar as referências a que o decreto n° 5.622/05 que trata da Educação Básica na modalidade a distância, pois se faz importante observar que: "As instituições credenciadas para a oferta de educação a distância poderão solicitar autorização, junto aos órgãos normativos dos respectivos sistemas de ensino, para oferecer os ensinos fundamental e médio a distância, conforme § 4o do art. 32 da Lei no 9.394, de 1996, exclusivamente para: I a complementação de aprendizagem; ou II - em õ ”15 E ainda que para oferta de cursos a distância dirigidos à educação fundamental de jovens e adultos, ensino médio e educação profissional de nível técnico, o Decreto n.º 5.622/05 delegou competência às autoridades integrantes dos sistemas de ensino de que trata o artigo 8º da LDB, para promover os atos de credenciamento de instituições localizadas no âmbito de suas respectivas atribuições. Desse modo, verificamos que além de todo um histórico que favorece os estudos na modalidade EaD, no Brasil já existe uma legislação vigente que nos incita a esse trabalho inovador com a comunicação em ambiente virtual. 3. Sobre a Psicolinguística A Psicolinguística começou a se destacar como ciência da linguagem na década de 1950 e traça uma interdisciplinaridade entre a Psicologia e a Linguística, pois ainda que procure produzir seus próprios métodos de investigação, parece aproveitar os estudos realizados em ambas as áreas do conhecimento para então tentar explicar os fenômenos linguísticos processados na mente do indivíduo, bem como pela aparelho articulatório da fala de cada um. Assim, de acordo com Slama-Cazacu(19179, p.62) 16 15 Decreto nº 5.622/05 In: http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/dec_5622.pdf, 01/05/2011. 16 SLAMA-CAZACU, T. 1979. Psicolingüística aplicada ao ensino de línguas, São Paulo, Livraria Pioneira. Tradução de L. Scliar-Cabral. Versão original: 1978. 2954 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ v “ situação real da comunicação no contexto relacional e â ( ) ( )” Essa ciência do estudo da linguagem procura analisar qualquer processo que diga respeito à comunicação humana, seja através da linguagem na forma oral, escrita, getual, bem como estuda fatores que possam interferir em nossas estruturas mentais, psicológicas e fisiológicas nos tornando mais ou menos capazes de procesar textos, frases, expressões, palavras ou termos da língua que adotamos para nos comunicar. Dessa forma, ela tem como objeto os processos cognitivos e psicológicos subjacentes à produção e compreensão da linguagem verbal humana. No entanto, a Psicolinguística também pode estudar a origem da linguagem humana, a aquisição da linguagem materna ou estrangeira, bem como as teorias que as explicam tais como o estruturalismo, o funcionalismo, o gertivismo, o interacionismo, dentre outras. Essa ciência tenta, enfim, q “ b ” -ouvinte/escritor-leitor, a fim de tentar explicitar os fenômenos linguísticos seja em indivíduos que processam a linguagem de modo regular ou irregular. Para Chomsky17, o ser humano seria capaz de adquirir a linguagem e desenvolvê-la através de suas competências e habilidades inatas, daí a ideia de inatismo da linguagem, ou seja, teríamos nascido com uma predisposição para falar e nos comunicarmos em uma ou outra língua dependendo do local onde nascemos, desenvolvendo-nos assim a partir de então. Segundo este autor, bem como Saussure18, as dicotomias de língua e fala, competência e performance, parecem ser fundamentais para entendermos os mecanismos de funcionamento da linguagem. Dentre os aspectos da linguagem de suma importância para a Psicolinguística, os processos envolvendo a leitura e a escrita parecem ser dos mais estudados dentre os pesquisadores que buscam nesta área do conhecimento subsídios para entender como funcionam os mecanismos de 17 CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. Brasília: Universidade de Brasília, 1998 SAUSSURE, F. Curso de Lingüística Geral.10.ed.São Paulo: Cultrix & Edusp, 2001. 18 2955 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ produção e processamento da linguagem. Outros aspectos importantes estudados por essa ciência da linguagem seriam os principais distúrbios da linguagem, tais como as afasias, as dislexias, as agrafias e as disortografias, suas causas e consequências, principalmente no que tange às questões que envolve a fisiologia do indivíduo, bem como aspectos psicológicos envolvidos nas situações de aprendizagem tanto da primeira quanto da segunda língua. 4. Nosso estudo experimental de ensino de Psicolinguística semipresencial Nosso estudo pretende assim, aliando conhecimentos de Psicolinguística e EaD, verificar o quanto os alunos poderiam, através da plataforma moodle não só estudar as teorias psicolinguísticas, bem como interagir através de atividades e discussões propostas ao longo da disciplina, tanto em uma sala de aula, no ensino presencial através de seminários, debates e discussões, intermediados por filmes que tratassem da problemática da linguagem, bem como pudessem interagir e, de certa forma, “ ” b ordem linguística, discutindo questões acerca da memória, das habilidades utilizadas pelos alunos ao escrever e ou interpretar um texto, uma imagem ou melodia; enfim, fazer com que o futuro profissional da Educação, em especial o das Letras, não só refletisse, mas colcasse em prática suas próprias habilidades, pois ao lidar com seus futuros alunos, poderia ter aguçados seus sentidos ao deparar-se com as dificuldades por eles enfrentadas toda vez que precisasse interpretar um texto, falar em público, entender seu inerlocutor ou simplesmente apreciar um filme ou um poema. A idéia aqui era por a teste os alunos enquanto futuros professores, fazendo-os questionar o que, o como, o por que estariam elaborando esta ou aquela atividade no sentido de pensar as habilidades e competências que estavam sendo postas a prova em seus próprios estudantes. Assim, foi que preparamos as aulas presenciais de forma a dar-lhes subsídios teóricos para podermos então adentrar aos desafios empreendidos 2956 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ pela memória, pelas capacidades de retenção de informação, pelos mecanismos de aprendizagem que utilizamos em nosso dia-a-dia, isso através de filmes, imagens e sons que lhes foram apresentados ao longo dos encontros presenciais, mesclados com os encontros a distância via plataforma moodle onde todos eram desafiados a postar suas impressões a respeito de cada atividade desenvolvida, bem como participar dos jogos, testes, brincadeiras, atividades que deveriam ser devidamente utilizados para verificar o desempenho de cada um, a fim de que refletissem acerca das competências que entravam em jogo toda vez em que se propunham a participar de tais desafios. 5. Primeiros resultados Verificamos então, ser importante, ao término das atividades do semestre, preparar um tipo de auto-avaliação juntamente com a avaliação da disciplina para que os alunos (futuros professores) pudessem nos dar um retorno de como foram suas experiências tanto na parte presencial da disciplina quanto na parte em que desenvolvemos com eles atividades na plataforma moodle. Para tanto, elaboramos um questionário, cuja pergunta de número 7 transcrevemos abaixo, bem como as respostas dos 20 alunos que cursavam a disciplina no primeiro semestre de 2009. Questão: Quanto à utilização da plataforma moodle, posso dizer que pude fazer uso dela de modo a auxiliar no meu desmpenho acadêmico como um todo, mostrando-se uma ferramneta digital que me deu um bom suporte para o entendimento e acompanhamento da disciplina. Por quê? Explicite. ( )sempre ( ) às vezes ( ) poucas vezes Aluno nº 1 - Poucas vezes, como tenho dificuldade para acessar a Internet, a ferramenta moodle se mostrou difícil para mim. Além disso, seria interessante que os alunos tivéssemos uma aula com algum instrutor para aprender a dominar os procedimentos do moodle. Mas, de qualquer forma, os conteúdos ali postados foram muito positivos no processo como um todo. 2957 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Aluno nº 2 - Sempre. A plataforma moodle tornou-se uma ferramenta muito interessante que contribuiu para acrescentar mais informações e discussões interessantes no nosso grupo. Aluno nº 3 - Às vezes. Não me mostrei muito responsável quanto à plataforma moodle. Entrei poucas vezes. Aluno nº 4 - Sempre. Aluno nº 5 - Sempre. Aluno nº 6 - Sempre. Aluno nº 7 - Poucas vezes. Na maioria das vezes não consegui acessar o moodle e outras vezes, quando acessado, as atividades não aparecem completas. Aluno nº 8 - Sempre. As atividades no moodle foram bem interessantes, um suporte inovador através do qual pudemos exercitar e acompanhar a disciplina.(...) Pudemos descobrir como trabalhar com as dificuldades que poderemos encontrar em sala de aula. Aluno nº 9 - Poucas vezes. Porque não consegui acessar em minha casa. Aluno nº 10 - Às vezes. O único problema encontrado foi em relação à paltaforma moodle porque tive alguns problemas com a utilização da mesma que pode até prejudicar a avaliação. Aluno nº 11 - Sempre. Quanto ao moodle foi e está sendo um pouco complicado porque tem algumas atividades que não abrem. Aluno nº 12 - Às vezes. Quanto ao acompanhamento sim, mas ao entendimento não tanto. Aluno nº 13 - Às vezes. Em algumas oportunidades tive dificuldade na utilização da plataforma, como por exemplo, problemas na postagem de conteúdos. A única crítica em relação ao moodle é a dificuldade em acessar e postar conteúdos. Aluno nº 14 - Às vezes. Porque fica difícil acompanhar os fóruns devido à carga horária que já temos, então em algumas atividades não nos aprofundamos o suficiente para um rendimento satisfatório. Aluno nº 15 - Sempre. Estive sempre que possível me atualizando no moodle com bastante fequência tentando substituir minhas faltas em sala de aula. 2958 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Aluno nº 16 - Sempre realizei as atividades do moodle o que tornou as aulas mais interessantes. Aluno nº 17 - Poucas vezes pelo meu desconhecimento do uso do computador. Aluno nº 18 - Às vezes. A dificuldade de acessar por vezes prejudicou o trabalho. Aluno nº 19 - Poucas vezes. Não consegui acompanhar muito bem os temas. Para mim ajudou pouco, o meu desempenhonmelhorou e pude compreender melhor a matéria estando em sala de aula. Aluno nº 20 - Sempre. Quanto à paltaforma moodle encontrei algumas dificuldades. É um programa complicado. 6. Considerações Finais Ao analisar mais de perto as respostas dos alunos, verificamos um certo desconforto por parte dos mesmos, uma vez que a maioria não se sentiu à vontade no ambiente virtual. No entanto, percebemos ainda que todos tentaram trabalhar bem como interagir não só com a professora, mas com os demais colegas, visto que os fóruns foram todos preenchidos com considerações diversas, até mesmo verfificando que alguns entravam mais de uma vez para deixarem seus comentários, ainda que fosse para expor as dificuldades de postagem e de acesso às atividades oferecidas pela disciplina em ambiente virtual. Não podemos deixar de registar, no entanto, que na época em que a a disciplina foi ministrada, a estrutura EaD de nossa universidade, recentemente havia se instalado, dificultanto assim muitas vezes os acessos, as postagens, bem como uma comunicação mas eficiente no que tange ao andamento do curso. Assim, nos parece relevante ressaltar que no atual semestre (primeiro de 2011), essa disciplina está novamente sendo ofertada e, ao contrário do que fizemos àquela época, em 2009, buscamos primeiramente subsidiar os alunos com os fundamentos teóricos acerca da Psicolinguística, para só 2959 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ então, em maio deste ano de 2011, trabalharmos junto a eles no laboratório de informática do Campus as atividades propostas que os levarão a refletir sobre e praticar o que vimos na modalidade presencial da disciplina. Isso porque percebemos que, apesar de os alunos terem tido outras disciplinas que trabalharam em regime semipresencial no ambiente moodle, percebemos muitas vezes a falta de prática e até uma certa resistência em trabalhar em um ambiente virtual como instrumento de trabalho do professor tão importante quanto os livros didáticos, o quadro, os pincéis, o datashow ou outro mediador da aprendizagem desse aluno. Dessa forma, pretendemos continuar com nosso ensino experimental a fim de ter mais subsídios para dar continuidade a esta pesquisa e podermos, futuramente publicarmos mais resultados alcançados na busca de subsidiar cada vez mais o ensino de línguas como um todo. RESUMEN: Nuestro proyecto investiga el aprendizaje cooperativo en educación a distancia y la comunicación interactiva mediada por categorías e idiomas en la disciplina de la Psicolingüística, se ofrecen en el curso de las Artes del Campus Jaguarão, UNIPAMPA, a reflexionar sobre las relaciones entre la mente y el cerebro a través de diversas actividades realizadas en el entorno virtual moodle. Creemos que a través de este estudio puede proporcionar a los futuros profesores con una importante reflexión sobre el proceso de aprender a aprender. Palabras clave: EAD; Psicolingüística; aprendizaje cooperativo e interactivo; linguage; moodle 2960 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ AS DIFERENTES LINGUAGENS DO CURSO DE LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO A DISTÂNCIA COMO POSSIBILIDADES DE COMPREENSÃO DO MUNDO Vania Grim Thies Profª do Curso de Licenciatura em Educação do Campo/ Cead/ UFPEl Dra nda - PPGE/UFPEL [email protected] Resumo: O presente trabalho tem como objetivo compartilhar a experiência realizada no Curso de Licenciatura em Educação do Campo (Cead/UFPEL) no que “ ” O tem como objetivo levar a formação inicial em nível de graduação para diferentes lugares do estado do Rio Grande do Sul (RS) através de vinte e três pólos de apoio presencial e se utilizando do sistema de ensino a distância. Entendendo a linguagem como uma forma de compreender e de se apropriar do mundo, buscamos através do uso da tecnologia, proporcionar aos acadêmicos uma discussão sobre como fazer tal apropriação, para futuramente atuarem como educadores em contextos não só rurais, mas, também de periferias urbanas e comunidades específicas, partindo da visão de mundo construída ao longo da formação. Palavras-chave: Educação do Campo, linguagens, tecnologias. INTRODUÇÃO: O presente trabalho tem como objetivo principal compartilhar a experiência realizada no Curso de Licenciatura em Educação do Campo à Distância no que diz respeito à linguagem, educação e tecnologias. O curso criado na Universidade Federal de Pelotas, através do programa Universidade Aberta do Brasil, tem como objetivo levar a formação inicial em nível de graduação para diferentes lugares do estado do Rio Grande do Sul (RS) através do ensino à distância ofertado em pólos de apoio presencial. O primeiro ingresso (02/ 2009) abrangeu oito turmas e, o segundo ingresso (01/2011), quinze turmas, totalizando atualmente, vinte e três turmas 19 em diferentes regiões e municípios do estado. 19 Os municípios que abrigam os pólos de apoio presencial são: Arroio dos Ratos, Cacequi, Cachoeira do Sul, Camargo, Cerro Largo, Jacuizinho, Herval, Itaqui, Picada Café, Quarai, Restinga Seca, Rosário do Sul, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Santana do 2961 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ As características dos municípios sedes dos pólos de apoio presencial variam de acordo com as regiões do estado do Rio Grande do Sul. Em geral, são pequenos municípios com baixo número de habitantes e sua economia gira em torno da atividade agrícola apresentando, portanto, características rurais. Cada pólo conta com equipes compostas por professores pesquisadores e professores tutores presenciais (nos polos) e a distância. Os professores pesquisadores são responsáveis pela gestão e acompanhamento de uma turma em um pólo, bem como a produção de material didático. Os pesquisadores são, também, responsáveis pela coordenação de sua equipe de tutores e da turma de alunos do pólo, alimentando discussões com os alunos sobre os conteúdos desenvolvidos. Os professores tutores dos pólos (tutores presenciais) atuam presencialmente junto com o aluno realizando o acompanhamento dos q alunos, ajudando-os a organizar suas dúv õ “ o professor-tutor que o aluno contará quando não conseguir entender algo da matéria, tiver dificuldades para resolver algum exercício ou não conseguir b ” (P P P 009 ) O tutores da sede (tutores a distância) realizam, com a ajuda do professor pesquisador que acompanha o pólo, a leitura e correção dos trabalhos dos alunos, orientando os discentes na realização das tarefas. Para que o contato entre as equipes do pólo e da sede sejam efetuadas, procura-se lançar mão de diferentes recursos tecnológicos, tais como email, MSN, Web Conferências, vídeo aulas, etc., mas, o principal canal de comunicação com os alunos é o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), através da plataforma Moodle. 1- A EDUCAÇÃO DO CAMPO: BREVE PANORAMA A discussão sobre Educação do Campo ainda é nova em nosso país. Trata de uma discussão que tem seu berço nascedouro nos movimentos Livramento, Santo Antônio da Patrulha, São Francisco de Paula, São José do Norte, São Lourenço do Sul, São Sepé, Serafina Corrêa, Três Passos, Vila Flores. 2962 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ sociais a partir da década de 90 com o primeiro ENERA, em 1997 (Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária). Em 1998 é fortalecido, em Goiás, com a I Conferencia Nacional por uma Educação do Campo 20 que caracteriza-se por ser um movimento de luta social e pela qual outras organizações a nível federal, estadual e municipais estão engajados, pois nasce no seio dos movimentos sociais e da educação popular. Algumas organizações envolvidas são: a Confederação dos Trabalhadores Rurais (CONTAG), a Pastoral da Terra, MST, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento das Mulheres Camponesas, entre outras. A Educação do Campo é um movimento de cunho sócio-político e, ao mesmo tempo, de renovação pedagógica que visa valorizar os sujeitos constituídos de identidades próprias e senhores de direito, tanto de direito a igualdade, quanto de direito à diferença, capazes de construir a própria história e, portanto, de definir a educação de que necessitam (CALDART, 2003, MUNARIM, 2008). O objetivo principal deste movimento é discutir novas propostas para os povos do campo21, ou seja, pensar a educação dos povos que estão inseridos em contextos específicos, fortalecendo e criando novas formas de desenvolvimento neste território. Compreende, portanto, uma concepção política e pedagógica dos sujeitos do campo e não para os sujeitos do campo (CALDART, 2003). Isso significa que a tarefa não é só da escola, mas abrange os povos com suas identidades próprias e cuja existência se dá em relação com a natureza, compreendendo os pequenos agricultores familiares, as populações ribeirinhas, populações quilombolas, os assentados de reforma agrária, comunidades pesqueiras entre outras que fazem da sua existência uma relação com o meio ambiente. 20 Em 2004, realizou-se a II Conferência Nacional por uma educação das Escolas do Campo 21 Povos do campo: são considerados povos do campo as populações que pertencem a grupos identitários, cuja produção da existência, se dá fundamentalmente a partir da relação com a natureza, direta ou indiretamente (MUNARIM, 2008). Vivam essas populações nas sedes dos pequenos municípios ou nas florestas, ou nas ribanceiras, ou nas comunidades pesqueiras, ou nas propriedades de agricultura familiar, ou nos assentamentos da reforma agrária, ou nas áreas remanescentes de quilombos, ou em outros espaços sócio-geográficos de igual apelo cultural e de produção de vida (MUNARIM, 2008, p. 2). 2963 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Este ponto nos leva a pensar que a educação do campo tem a missão de assegurar o exercício pleno da cidadania, de justiça social e de solidariedade, o diálogo e as ações coletivas, o campo como espaço público de investigação para que o mundo do trabalho seja de desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável. Podemos afirmar que um ganho significativo para este tema, foram as Diretrizes Operacionais para a Educação nas Escolas do Campo (CNE/CEB – 01/2002), o que demonstra que o estado deve estar ciente de suas atribuições com a educação do campo, sobretudo no que diz respeito às diferenças e a política de igualdade. É, também nas diretrizes operacionais que vamos encontrar, em parágrafo único, a identidade da escola do campo “ b memória coletiva que sinaliza futu ( )” O curso de Licenciatura em Educação do Campo à Distância da UFPEL assume um grande compromisso na sua tarefa de formar professores para atuarem nos contextos específicos dos diferentes municípios do estado do Rio Grande do Sul. O perfil dos alunos do curso pode ser configurado dentro das características rurais e rururbanas: são alunos trabalhadores da rede municipal e estadual de ensino, trabalhadores do comércio, jovens egressos do ensino médio, adultos egressos do EJA, trabalhadores de projetos assistenciais e movimentos sociais, trabalhadores rurais. Formam turmas heterogêneas em nível social quanto no nível de aprendizado. São, portanto, alunos com diferentes idades, expectativas e formas de aprender distantes geograficamente, mas, na busca de um objetivo comum: ser um educador do campo. A partir do exposto, algumas perguntas emergem: como atingir este aluno na sua diversidade? Como se utilizar de diferentes instrumentos para que o discente do curso possa compreender o mundo onde vive e, partindo dele, ensinar seus alunos nestes contextos específicos. Podemos afirmar que os professores do curso se utilizam do uso das diferentes linguagens para que o objetivo possa ser atingido na sua integralidade para com os educandos. 2964 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2 – EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, LINGUAGENS E TECNOLOGIAS: RUMO À FORMAÇÃO DE PROFESSORES A Educação a Distância é a modalidade de ensino-aprendizagem na qual professor e aluno estão separados espaço e temporalmente, mas, mediados por diferentes tecnologias (telefone, internet, fax, etc.) (BELLONI, 2008). Assim, novos conceitos de professor e de alunos estão colocados neste processo diferenciado de ensinar e de aprender. O professor torna-se um orientador do processo ensino-aprendizagem ajudando o aluno a criar a autonomia no desenvolvimento de sua aprendizagem. Segundo o Projeto Político Pedagógico do curso de Licenciatura em D â “ v do aluno, alimentando uma prática de pesquisa nas rotinas de estudo e o trabalho c b v ” (P P P 009 ) Pensando no perfil dos alunos do curso, a autonomia é de extrema importância para a distribuição dos horários para as leituras e da dedicação para o desenvolvimento das tarefas. Neste sentido, os professores tutores são fundamentais para acontece a interação e, através dela, o processo de aprendizagem seja efetuado com sucesso. Segundo Belloni (2008), a interação é caracterizada pela ação entre os sujeitos, direta ou mediada por alguma tecnologia (carta ou telefone, por exemplo). Partindo da interação que os discentes e os tutores do curso realizam diariamente é que se constrói não só a aprendizagem de cada sujeito envolvido, mas também, a autonomia. A modalidade de ensino à distância permite uma flexibilidade nos horários do aluno trabalhador, diferentes da educação presencial na qual é necessário que o professor e aluno estejam junto fisicamente e se encontram sempre em um local determinado. O ensino é tido como um processo sistemático de conhecimento e ocorre através da mediatização pedagógica, na qual o professor passa a ser uma ponte entre o aprendiz e a aprendizagem, facilitando, motivando e incentivando no processo de aprender (MASETO, 2003 apud GOZZI e MIZUKAMI). 2965 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “ A mediatização pedagóg conteúdo ou tema que ajuda o aprendiz a coletar informações, relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discutí-las e debatê-las com seus colegas, professores, e com outras pessoas até chegar a produzir um conhecimento q j v ” (M S O 000 44) N necessário o estabelecimento de uma parceria com responsabilidade, pois a ênfase está posta na auto-aprendizagem do aluno, de modo que este consiga construir seu conhecimento apoiado na mediatização conduzida pelos professores tutores e pesquisadores. Essa construção se dará no processo de interaprendizagem entre professor e aluno, professor - professor, aluno - aluno, através de situações de interação, mediados por tecnologias (computador, internet, etc.). Conforme Gozzi e Misukami (2008) é necessário estabelecer a pedagogia da pergunta e uma nova arquitetura de diálogo para que a mediatização pedagógica ocorra de maneira eficiente. A docência sob a responsabilidade do professor, passando a ter um novo significado que não simplesmente a distribuição de conteúdos digitais, mas sim, possibilitar a construção do conhecimento em equipe, produzindo trabalhos colaborativamente. Passamos a ver a educação sob outro ponto de vista, conforme Moran (2005, s/p): A educação será mais complexa porque cada vez sai mais do espaço físico da sala de aula para ocupar muitos espaços presenciais, virtuais e profissionais; porque sai da figura do professor como centro da informação para incorporar novos papéis como os de mediador, de facilitador, de gestor, de mobilizador. Sai do aluno individual para incorporar o conceito de aprendizagem colaborativa, de que aprendemos também juntos, de que participamos de e contribuímos para uma inteligência cada vez mais coletiva. A educação à distância, portanto, inclui diferentes dimensões: tecnológica, pedagógica e didática. Assim, cada uma destas dimensões diz respeito à um tipo de conhecimento: a dimensão tecnológica tratará da 2966 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ utilização dos meios técnicos disponíveis, seleção de materiais e elaboração de estratégias de uso desses materiais. A dimensão pedagógica está relacionada à atividades de orientação, tutoria e inclui os conhecimentos específicos da pedagogia (processos de aprendizagem e de conhecimentos oriundos da psicologia, ciências humanas, etc.) e, por fim, a dimensão didática diz respeito a formação específica do professor em determinado campo científico e a necessidade de sua atualização quanto à evolução da disciplina. O desenvolvimento coerente destas três dimensões possibilita a qualidade na EAD. Podemos dizer que, neste sentido, a Educação a Distância se configura como uma forma de linguagem no processo de ensinoaprendizagem. Uma linguagem “v z conseqüência, com difere z construída ” (F R várias v z O 009 mãos e, por ” q “ b à â q 8) P amplo de linguagem: a linguagem é o que nos possibilita fazer a mediação entre nossos pensamentos e o mundo que nos cerca, é uma forma de estar e ser em nosso contexto, articulando-o através de uma forma estética de compreensão do mundo. Este conceito está ancorado nos princípios bakhtinianos. Segundo Brait (2005, p. 88), o conceito de linguagem expressa nas obras do Círculo de Bakhtin 22 não está comprometido com uma tendência lingüística ou uma teoria literária: Mas com uma visão de mundo que, justamente na busca das formas de construção e instauração de sentido, resvala pela abordagem lingüístico-discursiva, pela teoria da literatura, pela filosofia, pela teologia, por uma semiótica da cultura, por um conjunto de dimensões entretecidas e ainda não inteiramente decifradas. 22 O russo Mikhail Mikhalovich Bakhtin (1895-1975) foi um dos destaques do Círculo, mas, conforme Brait e Campos (2009, p. 15) “ q pensamento bahktiniano significa percorrer um caminho que envolve não apenas o ví B kh , j , ”q v profundas discussões em torno da filosofia, da arte e da literatura após anos reprimidos pelo contexto político da Rússia. 2967 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Assim, podemos verificar que o conceito de linguagem se situa em diferentes campos que se completam de acordo com o contexto no qual o sujeito está inserido. Mas, alguns questionamentos surgem: como utilizar a tecnologia a serviço da linguagem? Ou, como produzir diferentes linguagens através do uso da tecnologia em um curso de licenciatura à distância? Vamos em direção a algumas experiências práticas. 3– LINGUAGEM, EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS: DESAFIOS PROBLEMÁTICOS Se, em algum dia, você recebesse uma tarefa como a que segue abaixo, qual seria sua reação? Essa é uma tarefa 23 para ser feita em dupla. Após encontrar sua dupla vocês irão lançar mão de todas as tecnologias de pesquisa disponíveis (ancestrais e digitais), somadas a experiência de vida de vocês para responder a seguinte questão: Qual é um modo possível de realizar uma plantação de alface em Marte? Quem seria esse horticultor? Que outro nome poderia se dar no lugar de horticultor? Usem todos os recursos de pesquisa. Podem fazer simulações em maquetes, registros em fotografias, inventos, filmagens do processo nas quais as hipóteses de vocês se sustentam. Atividade: Produzir um relatório até o dia 14 de dezembro. Desafio (optativo): Fazer um vídeo de 3 minutos do resultado da experiência. Plantar alface em Marte? O professor ficou maluco? Como faremos esta atividade? Muitos alunos do curso reagiram desta maneira. Se você, leitor, também teve a mesma reação, não se preocupe, foi a reação do primeiro impacto, antes de começar a formulação de hipóteses. Uma tarefa nada comum na academia. A preocupação dos alunos era de como fazer esta experiência. A tarefa pedida no primeiro semestre do curso causou “ ” q estava sendo pedido era impossível de uma certeza. 23 Tarefa realizada no eixo de Processos Educativos I (turma I), sob a responsabilidade do Professor Doutor José Ricardo Kreutz. 2968 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Primeiramente, foi preciso um conhecimento maior em relação ao “ v ” P pesquisa na internet foi o meio mais usado, com consultas à sites de diferentes assuntos. A compreensão de que era preciso lançar mão de tecnologias diferenciadas é que possibilitou a formulação das diferentes hipóteses, partindo das informações adquiridas: clima, água, tipo de solo, entre outras tantas possibilidades encontradas através das pesquisas. Assim, surgiram nomes diferenciados como o “ ” x pessoa que planta alface em Marte. Outra importante tarefa realizada pelos alunos em um dos primeiros eixos (EAD I) foi a construção de documentos compartilhados, como o “Google Docs” que concentram os princípios do ensino à distância, tais como a interação e a cooperação. A partir destes documentos compartilhados entre alunos colegas, os professores tutores e pesquisadores deram início ao uso de ferramentas para o acompanhamento de seus alunos. Este fato significa que não só os alunos aprenderam uma nova ferramenta de linguagem, mas, também os professores passaram a utilizá-la para ser compartilhada entre a equipe de seu pólo. Da mesma forma que os documentos compartilhados, a criação e o uso dos blogs foram outras formas de instrumentalizar os alunos no eixo de EAD I24 e fazer com que se utilizassem do blog para postar algumas de suas tarefas como, por exemplo, a história de vida e do lugar onde moram. Muitos alunos fizeram o experimento se utilizando de pequenos vídeos gravados com pessoas que contavam a história do lugar. O que estas experiências nos mostram na perspectiva da linguagem e da educação à distância? A sistematização dos conhecimentos adquiridos é incentivada através de diferentes tipos de problematizações e ferramentas. Acreditamos que as diferentes linguagens desenvolvidas nestas atividades fazem com que os alunos do curso de Licenciatura em Educação do Campo possam b z q õ “ ” x 24 Este eixo é o primeiro do curso: Educação à Distância I serve como introdução do aluno e instrumentalização no ambiente virtual de aprendizagem. 2969 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ possibilitando assim, uma compreensão do mundo mediado pelo ensino à distância. Novamente, voltamos aqui, a questão da mediatização, ou seja, não são conteúdos apenas digitais, mas através do professor tutor (presencial e a distância) e do professor pesquisador, os conteúdos disponibilizados são organizados, discutidos e passam a fazer sentido na vida e no contexto de cada aluno. A compreensão do mundo, portanto, não é solitária, se desenvolve em x “v z ” quem os alunos interagem buscando a construção do conhecimento. PALAVRAS FINAIS: O Curso de Licenciatura em Educação do Campo (Cead/UFPEL), partindo do contexto apresentado, procura se utilizar das diferentes formas de linguagem partindo do uso de ferramentas tecnológicas. As experiências apresentadas como desafios problemáticos estão apoiados no tripé: educação, linguagem e tecnologias e procuram dar suporte para que cada aluno compreenda o mundo a partir do contexto no qual se insere. É uma construção através da formulação de hipóteses, não através de conceitos prontos. O objetivo destes desafios é que partindo de diferentes problematizações, o aluno possa problematizar também a sua atuação no lugar em que vive. Esta construção não é solitária, mas, mediada com a ajuda da equipe de cada pólo de apoio presencial (professores tutores e pesquisadores). Portanto, uma nova forma de compreender a formação de professores para contextos específicos, dando a oportunidade dos sujeitos fazerem sua formação no município onde residem. Referências Bibliográficas: BELLONI, Maria Luiza. Educação a Distância. 5 ed. Campinas, SP: Editores Associados, 2008. BRAIT, Beth, CAMPOS, Maria Inês Batista. Da Rússia czarista à web. IN: BRAIT, Beth (org). Bakhtin e o Círculo. São Paulo: Contexto, 2009. P. 15/30. 2970 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ BRAIT, Beth. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. São Paulo: Editora da Unicamp, 2005. p. 87/98. CALDART, Roseli Salete. Movimento Sem Terra: lições de pedagogia. Currículo sem Fronteiras, v.3, n 1, p. 50 – 59, Jan/ Jun 2003. Disponível em www.curriculosem fronteira. Acesso em 1 /05/09. FARACO,Carlos Alberto. Linguagem & Diálogo: as idéias lingüísticas do Círculo de Bakhtin. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. GOZZI, Marcelo Pupim. MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Metodologia para registros de processos virtuais de aprendizagem e de prática. IN: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília. V 89, nº 223. Set./dez. 2008. MASETTO, Marcos Tarciso. Mediação Pedagógica e o uso da tecnologia. IN; MORAN, J. M.; MASETTO, M. T.; BEHRENS, M. A. As novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2000. MEC/CNE. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Operacionais para a educação Básica nas Escolas do Campo: 36/2001. 04/12/2001. Brasília, D.F., 2002 MORAN, José Manoel. Para onde caminhamos na educação? Disponível em: http://www.eca.usp.br/prof/moran/caminhamos.htm. 20/05/2010. MUNARIM, Antônio. Movimento Nacional de Educação do Campo: uma trajetória em construção. 31ª Reunião Anula da Anped. Grupo: Movimentos Sociais e Educação. Caxambu, 2008. Projeto Político Pedagógico do Curso de Licenciatura em Educação do Campo. Cead/UFPel. 2009. P. 86. LOS DIFERENTES LENGUAJES DEL CURSO DE LICENCIATURA EN EDUCACIÓN DEL CAMPO A LA DISTANCIA COMO POSIBILIDADES DE COMPRENSIÓN DEL MUNDO Resumen: El presente trabajo tiene como objetivo compartir la experiencia realizada en el Curso de Licenciatura en Educación del Campo (Cead/UFPEL) en lo que v “ j ” objetivo llevar la formación inicial en nivel de graduación para diferentes lugares del estado de Rio Grande do Sul (RS) a través de veintitrés polos de apoyo presencial y utilizándose del sistema de enseñanza a distancia. Entendiendo el lenguaje como una forma de comprender y de apropiarse del mundo, buscamos a través del uso de la tecnología, proporcionar a los académicos una discusión sobre como hacer tal apropiación, para que futuramente actuen como educadores en contextos no sólo rurales,sino también de periferias urbanas y comunidades específicas, partiendo de la visión de mundo construida a lo largo de la formación. Palavras-clave: Educación del Campo, lenguajes, tecnologías. 2971 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PERCEPÇÕES DA AFETIVIDADE NA EDUCAÇÃO A DISTANCIA Mdo. Mauro Hallal dos Anjos – Orientadora: Profa. Dra. Rosária Ilgenfritz Sperotto Universidade Federal de Pelotas - Faculdade de Educação - PPGE Rua Marcílio Dias, 1608/31 – Pelotas, Brasil/RS – (53)32221604 – [email protected] Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Católica de Pelotas (1984), graduação de Professor da Parte Especial do Currículo Ensino 2ºG pelo Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (1988), Especialização em Informática na Educação PPGE/UFPEL, mestrando em Educação PPGE/UFPEL, professor da área de Design do IFSUL, gestor de design da UAB/IFSUL. RESUMO O presente artigo busca compartilhar algumas percepções de como se manifesta a afetividade na EAD, a partir dos tutores e professores formadores na sua relação com os alunos do curso de TSIaD/IFSUL, através de entrevistas semiestruturadas. O resultado aponta uma relação intensa do tutor com o aluno, ultrapassando a relação presencial, e um lado pragmático da afetividade atravessando relações de poder. PALAVRAS-CHAVE: Educação, Ensino a distancia, Afetividade. INTRODUÇÃO Este trabalho busca inicialmente, investigar comoo professor ou o tutor no ensino a distancia percebe manifestações de afetividade (sensibilidade e emoções) na suas relações com os alunos, a partir dos dados coletados em entrevista com tutores e professores. Esta questão norteou este exercício de pesquisa, como trabalho final da disciplina de Estudos Avançados em Pedagogia da Comunicação, do PPGE/FaE/UFPEL25. Não é o foco de minhas pesquisas com Educação a Distancia [EAD], apenas a busca de algumas pistas que respondam a uma 25 Programa de Pós-Graduação em Educação – Curso de Mestrado em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas 2972 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ inquietação provocada pelas discussões em aula. Portanto não busca verdades absolutas, mas encaminhar algumas interrogações e novas perspectivas para percepções da afetividade na EAD. A metodologia adotada para este trabalho foi a de um estudo qualitativo realizado por meio de entrevistas semiestruturadas com dois tutores 26 a distancia e um professor formador do curso de Tecnólogo em Sistemas para Internet a Distancia, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense, Campus Pelotas. Optou-se por este curso pela facilidade de acesso aos entrevistados, os quais foram escolhidos de maneira aleatória. A pesquisa nos direciona-nos para percepções diferenciadas. Enquanto tutores percebem a afetividade em vários momentos, pois que não têm uma relação hierárquica com os alunos, mesmo quando estes veem nessa proximidade afetiva uma forma de alcançar seus interesses, os professores têm a afetividade como um meio de domínio de turma, como uma estratégia de poder e por isso mesmo enfraquecida em seus laços afetivos se comparada com a relação tutor x aluno. Mesmo assim, as relações de poder têm frestas por onde, sutil e frequentemente se manifesta a afetividade natural no humano. O professor acostumado com o ensino presencial, vê na tecnologia um obstáculo à sua relação com os alunos, com os quais procura se relacionar no conjunto do grupo, diferentemente do tutor que usa a tecnologia para um relacionamento mais individual. Antes de começar a falar sobre afetividade, faz-se necessário esclarecer o que se entende como sendo afetividade, emoções e sentimentos. Esta é uma tarefa bastante difícil e, embora não encontrando um consenso ou uma definição precisa, a seguir citam-se algumas distinções que são consideradas adequadas. Inicia-se com Henri Wallon, educador e médico francês, que viveu de 1879 a 1962, destacando que a afetividade não se restringe ao contato físico: 26 Tutor: é a pessoa na modalidade de ensino a distancia responsável por ajudar e orientar os alunos nas suas dificuldades seja com o conteúdo, seja com as tecnologias, auxiliando igualmente o professor nas suas atividades de orientação aos alunos. É o contato mais rápido e que está mais tempo conectado com os alunos. Além disso os tutores acompanham os alunos no decorrer de todo o curso, enquanto os professores os acompanham somente na disciplina por que estão responsáveis. O tutor não avalia o aluno, não lhe atribui nota, conceito, tarefa esta do professor da disciplina. Alguns cursos trabalham com o tutor sendo igualmente o professor; isto não é uma prática consensual na EAD. 2973 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Na linguagem geral, afeto relaciona-se com sentimentos de ternura, carinho e simpatia. Nas mais variadas literaturas, afetividade está relacionada aos mais diversos termos: emoção, estados de humor, motivação, sentimento, paixão, atenção, personalidade, temperamento e outros tantos. A maior parte das vezes, confundida com emoção [...] Para Wallon, a emoção estaria relacionada ao componente biológico do comportamento humano, referindo-se a uma reação de ordem física. Já a afetividade teria uma significação mais ampla[...] A afetividade também é concebida como o conhecimento construído através da vivência, não se restringindo ao contato físico, mas à interação que se estabelece entre as partes envolvidas, na qual todos os atos comunicativos, por demonstrarem comportamentos, intenções, crenças, valores, sentimentos e desejos, afetam as relações e, conseqüentemente, o processo de aprendizagem. (ALMEIDA, 2001) Segundo Piaget (apud SOUZA, 2010), o afeto não é demonstrado só com manifestações positivas, ou seja, de alegria, de entusiasmo, mas negativas como a tristeza e a depressão; Na teoria de Piaget, o desenvolvimento intelectual é considerado como tendo dois componentes: um cognitivo e outro afetivo. Paralelo ao desenvolvimento cognitivo está o desenvolvimento afetivo. Afeto inclui sentimentos, interesses , desejos, tendências, valores e emoções em geral. Piaget aponta que há aspectos do afeto que se desenvolvem. O afeto apresenta várias dimensões, incluindo os sentimentos subjetivos (amor, raiva, depressão) e aspectos expressivos (sorrisos, gritos, lágrimas). Na sua visão, o afeto se desenvolve no mesmo sentido que a cognição ou inteligência. E é responsável pela ativação da atividade intelectual. (SOUZA, M.R.) Moura refere-se ao respeito à diferença no ambiente escolar; Afetividade no ambiente escolar é se preocupar com os alunos, é reconhecê-los como indivíduos autônomos, com uma experiência de vida diferente da sua, com direito a ter preferências e desejos nem sempre iguais ao do professor. (MOURA) Maturana (apud MORAES, 2004) assinala que a emoção não necessita da linguagem para ocorrer. Já o sentimento necessita, pois surge da reflexão sobre como nos emocionamos, reflexão que precisa da linguagem para se efetivar. As 2974 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ emoções são dinâmicas corporais do instante, enquanto os sentimentos são emoções que se prolongam no tempo e se transformam em estados emocionais. Para Maturana, As emoções não são o que correntemente chamamos de sentimento. Do ponto de vista biológico, o que conotamos quando falamos de emoções são disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos. (MATURANA 1998, p. 15) E finalizando este momento inicial que tem por finalidade expor conceitos, Restrepo se refere à ternura como um modo de conviver que deve atravessar todas as nossas relações, sociais ou não: [...], a ternura é um paradigma da convivência que deve ser adquirido no terreno do amoroso, do produtivo e do político, arrebatando, palmo a palmo, territórios em que dominam há séculos os valores da vingança, da sujeição e da conquista. (RESTREPO, p. 13) Assim tem-se o entendimento de ternura como um aspecto positivo da afetividade, ou seja, no sentido de possibilitar o entendimento, o somar, o criativo, a inovação, a colaboração, o encontro. Acredita-se, assim, que a educação dos sentimentos, a educação do caráter, ou simplesmente a educação, é que pode e deve mudar as nossas relações, transformar a sociedade numa sociedade mais justa, igualitária, solidária. Mas a pergunta é: A escola que temos hoje está capacitada a realizar tão grande empreendimento? Q R b v [ 00 ] z “Q ” v -nos que a escola demonstra uma incapacidade de ajudar as pessoas a educar seus sentimentos. E a história tem mostrado que na maior parte das vezes, a escola mata a criatividade do aluno, normalizando-o, assujeitando-o, sendo uma instituição de sequestro como a prisão e o hospício de que nos fala Foucault [2004]. Em se tratando de afetividade, emoções, sentimentos, como se pode assegurar ou supor que um professor, ao qual não se quer creditar esta tarefa ao professor, tenha que se conduzir de uma maneira perfeita? Não precisamos exagerar, apenas se quer destacar que o professor é uma pessoa comum como todos nós, carregando seus conflitos afetivos, com a 2975 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ possibilidade de descobrir em que se constitui nas relações que estabelece a todo o momento. Deseja-se salientar que nós crescemos nas nossas relações, no convívio, e este convívio é de uma maneira ampla, geral, irrestrita. A vida, zV como v q M “ ” R b v z “ b [ 00 q j 9] v S vv ” Para Maturana [1998, pg.29] o educar é um processo que se dá no conviver e considera a infância e a juventude cruciais para esta educação, pois na infância funda-se uma possibilidade de um modo de convivência e na juventude, experiencia-se este modo. Isso não quer dizer que não mudamos com o passar dos anos, com a experiência adquirida. Não estamos condenados a partir desta idade, a ser o que fomos até então. Então fica a pergunta: Se a criança está mais suscetível às influências de seus professores, colegas e, principalmente, seus familiares, seu meio social, pelo simples fato de passar mais tempo convivendo com eles, o mesmo não acontecendo com o adolescente ou o sujeito adulto, se grande número de professores enfrentam problemas de depressão, sofrem do mal-estar docente, a desvalorização da profissão e atendendo a um número grande de alunos, qual a real possibilidade de influenciarmos positivamente esta relação afetiva com os alunos? Acredita-se, é claro, em que todos podemos melhorar nossas relações com o semelhante, e também em que todos somos pessoas potencialmente boas, com uma carga afetiva grande, tanto de necessidades, mas de possibilidades, de doação. O que esconde isto, muitas vezes, é a competição, a concorrência, num mundo em que precisamos encontrar nosso lugar ao sol. E muitas vezes não bastam algumas horas de sol, queremos o sol o tempo inteiro, mesmo que isto signifique que outros tenham que vir a ficar na sombra, sem aproveitar-se dele. Pergunta-se então: a escola como está estruturada hoje, ajuda a continuar ou não esta competição? Há espaço para a afetividade se manifestar? 2976 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Estamos presos a uma lógica do trabalho, da produção, que nos “ v ” “ ” q vv b vv neste mundo. Cada um tem que contribuir para a sua sobrevivência e, assim, para a sobrevivência da raça humana. O progresso é uma necessidade à q À vv À ô vv “ vv ” [MATURANA, 1998, pg.35]. Ninguém vive só. Cada um de nós deve fazer a sua parte. A vida é atividade, é relação. Nesta relação de tutores e professores com alunos percebemos expressões de afetividade? 1. SENTIMENTOS E LINGUAGEM A afetividade se expressa na EAD, basicamente, através da linguagem escrita. Os sentimentos expressos, ou não, são esta emoção mais trabalhada, ou seja, refletida com a ajuda da linguagem, pois é dessa maneira que pensamos, ou seja, pensamos na linguagem. Maturana (apud MORAES, 2004) assinala que a emoção não necessita da linguagem para ocorrer. Já o sentimento necessita, pois surge da reflexão sobre como nos emocionamos, reflexão que precisa da linguagem para se efetivar. As emoções são dinâmicas corporais do instante, enquanto os sentimentos são emoções que se prolongam no tempo e se transformam em estados emocionais. Para Maturana, As emoções não são o que correntemente chamamos de sentimento. Do ponto de vista biológico, o que conotamos quando falamos de emoções são disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos. (MATURANA 1998, p. 15) Maturana destaca a importância da linguagem quando diz que somos o que conversamos: As conversações, como um entrelaçamento do emocionar e do linguajar em que vivemos, constituem e configuram o mundo em que vivemos como mundo de ações possíveis na concretude de nossa transformação corporal ao viver nelas. Os seres humanos somos o que conversamos, [...] De fato, nossa única possibilidade de viver o mundo que queremos viver é submergirmos nas conversações que o constituem, como uma prática social cotidiana, numa contínua co- 2977 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ inspiraçao ontológica (MATURANA, p. 91) que o traz ao presente. As conversas se dão na EAD através do linguajar em ferramentas como e-mail, redes sociais e até mesmo telefone: percebe pelos e-mails que a gente recebe, muitos emails afetivos, eles sempre mandam um oi! Como é que tu tá? Mandam beijos, mandam abraços no final dos emails, não só um atenciosamente, não é o aguardo resposta, sempre vem um carinho no final desses emails. [...]E o MSN é a mesma coisa, sempre “ q ?” ô j “ b !” b essa, mesmo que seja para tratar de alguma dúvida sempre tem aquele momento de saber como é que a pessoa tá, se a pessoa, ... se tá bem ou se não tá, a questão do ORKUT também, tenho uns quantos alunos adicionados, ali eles mandam beijos, mandam v “ b ” q [ U OR 0 ] As conversações na EAD, em função de ser mediada pelas tecnologias, favorecem uma privacidade, um contato mais intimista, se podemos chamar assim esta relação do aluno com o tutor, porque não se dá de uma pessoa com várias, como é o caso do professor com os alunos, mas de uma pessoa para outra, em privacidade. Além disso, como uma necessidade estabelecida pela distância, sugerem que há uma intensidade maior dessa conversação, uma forma de aproximação. Na EAD tu vês que eles têm mais necessidade de falar contigo do que na aula presencial, porque eles querem tirar a dúvida, eles querem te procurar e conversar. Acho que eles têm essa carência de estarem longe, então eles procuram mais. Porque na aula presencial às vezes ficam quietinhos, ficam com medo de falar na frente dos outros, preferem não participar da aula. Já ali tendo o MSN, principalmente, que é o que eles mais usam, não tem jeito, eles conseguem falar contigo sem que outras pessoas vejam. [TUTOR 02] Os alunos mais tímidos encontram nas ferramentas de mensagens um lugar mais confortável para se expressarem. Uma relação, para se firmar como uma relação, não um mero encontro, necessita dessa troca, e essa troca precisa de tempo para se 2978 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ realizar. E é por essa presença constante que se tem a aproximação afetiva do aluno com o tutor, muito mais intensa do que com o professor. O tutor acompanha o aluno durante o curso todo, o professor somente na disciplina que ocorre em um tempo comprimido: . [...] Ele vê no tutor essa amizade, antes de procurar o professor ele vai sempre ao tutor, porque ele tem mais confiança, até pela troca que tem entre... Os professores são vários, os tutores são sempre os mesmos que acompanham a turma. [TUTOR 02] Além do mais, o professor tem essa relação hierárquica 27 com o aluno, queira ele ou não, mais marcadamente ou não, mas tem. Isso dificulta a afetividade, pois segundo Maturana, não há uma base emocional de aceitação do outro como legítimo outro. Entre os alunos e tutores, isto não acontece, pois que os primeiros não os veem numa posição hierárquica acima deles, mas os enxergam como amigos, colegas talvez. Os alunos veem os facilitadores abrindo espaço para que se deem relações sociais entre eles, possibilitando um domínio de ação que favoreça as trocas afetivas. Isso não chegou a ser investigado neste momento, mas o fato de os alunos procurarem os tutores para conversar, desabafar, falar alguma coisa que aconteceu, seja no ORKUT ou Twitter, comentar fotos sem necessariamente estar ligado ao conteúdo ou a dúvidas das disciplinas, sugere-nos este pensamento. Mas dúvidas direto assim é mais difícil, eles vão lá e conversam mesmo. Até ORKUT, TWITTER, tudo eles usam, vão conversando. Coloca uma foto nova eles vão lá comentar, tem festinha de final de ano em Polo 2 eles convidam a gente. [TUTOR 02] 2. DIFICULDADES À AFETIVIDADE: A TECNOLOGIA E A CULTURA Perceberam-se algumas dificuldades às manifestações afetivas provenientes da mediação tecnológica e outras inerentes à cultura do aluno ou grupo de alunos. Os aspectos culturais, que caracterizam um perfil do aluno ou grupo de alunos, não são dados somente na escola, mas por 27 Para Maturana [1998, pg.69] as relações se dividem em relações sociais e não sociais. Para Maturana toda relação hierárquica não é uma relação social. 2979 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ instituições como a família e outras tantas que formam as comunidades em que nos movimentamos, promovendo as relações que nos constituem. P M [ 998 7 ] “ â õ ú ” fenômeno social tem a ver com a biologia e não com a cultura, é o natural no P M “ delimitação ou restrição da aceitação do outr ” v j aspecto biológico é sermos sociais, precisamos uns dos outros e nos procuramos. E o que possibilita esta aproximação, estes relacionamentos, é estarmos num domínio de ações baseadas no amor. Segundo Maturana, o amor não é algo especial, mas um estado normal, próprio do ser humano. Por isso, as questões culturais geralmente atrapalham, colocando certas barreiras ao domínio de ações de aceitação mútua. Abaixo, citações do Tutor 01 que salientam esta característica de grupo ou individual: Lá em santa vitória eles têm uma característica bem mais afetiva que os outros polos, isto é básico deles lá, é da cultura dessa cidade, mesmo, tem uma diferença em relação aos outros polos. Eu percebo diferente dos outros polos, de a gente comentar, de conversar entre nós, tutores a distancia, essa diferença assim, do carinho do aluno. A cidade em si ela é muito afetuosa, sempre abraça as pessoas. (TUTOR 01, grifos nossos) No Polo 1 onde dominam a competição e a concorrência, não é possível serem estabelecidas relações sociais segundo a lógica proposta por Maturana. No Polo 2, onde o domínio de ação é baseado no amor, onde esta emoção básica do ser humano não é abafada por outras, o tutor mostra que conseguiu estabelecer uma relação social, sem competição, em que a colaboração e a cooperação apareceram claramente: Posso te falar de Polo 1 e Pólo 2 que foi o que eu convivi mais. Em Polo 1 eles têm grupinhos, clube do Bolinha e da Luluzinha, e eles concorrem entre si assim. E tem um grupo que é neutro, que não tem assim tanto conhecimento e que tenta ficar ali no meio dos dois, pede ajuda para um, pede ajuda para outro, 2980 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ mas o grupo das gurias e o grupo dos guris eles não, não se ajudam, é forte esta concorrência entre eles. Já em Pólo 2, todo mundo é amigo de todo mundo, eles têm, estão sempre fazendo festa, todos ajudando todos [...] lá não tem essa divisão e tem essa concorrência. (TUTOR 02) Na EAD, em que a atividade dos professores é aberta aos tutores, em que tudo fica registrado, os tutores percebem as diferenças de atitudes. Não é o que fazer, mas o como fazer! Restrepo [1998, pg.6] fala-nos da “ z q v ” O conteúdo é basicamente o mesmo, assim, o formato dele é basicamente o mesmo, é a forma com que o professor conduziu. No material a principio não, mas a forma que ele está conduzido a disciplina, isto sim, influencia bastante, principalmente as web conferências. (TUTOR 01) A necessidade do afeto, a demonstração de carinho, como fator de aproximação do aluno fazendo com que se sinta parte da comunidade, relatado na fala da tutora a seguir, vai de encontro ao que Restrepo [1998, pg.13] diz sobre a ternura ser um paradigma da convivência que deve ser conquistado palmo a palmo: Eles precisam dessa demonstração de carinho, que a gente gosta deles, que são parte da instituição, eles precisam disso assim, então às vezes tem que mandar email, assim, ah, final de ano mesmo, agora, a gente q “ z !V z FSUL” b isso, e tem tutores que não têm essa característica de fazer isso, e o aluno fica meio perdido assim. [...] Essa afetividade dá para perceber e fazer o aluno se sentir parte da instituição, como é a distancia se tu não manda uma mensagem carinhosa, se tu não fala de um jeito carinhoso no MSN, ele se sente mais distante ainda, além de ter toda a distancia física, tu tá mais distante. (TUTOR 01) Diferente do tutor, que vê na manifestação individual do aluno pontos positivos, pelo momento de proximidade, intimidade, o professor vê como ruim a interação com um único aluno, pois ele deseja a relação com todos ao 2981 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ mesmo tempo. Isso talvez seja a maneira, o hábito que o professor já carrega do ensino presencial, talvez pelo pouco tempo que o professor tem com a turma, diferente do tutor que extrapola os limites dos dias letivos e horários para continuar conectado ao aluno. O professor, referindo-se a sua primeira aula por webconferência com uma turma, demonstra assim a grande dificuldade encontrada para relacionar-se com os alunos: eu interajo com quem está me perguntando. O resto tudo [está vendo...] monólogo, eu fico falando, alguém entendeu pessoal, alguém tem alguma dúvida, eu falo, falo, falo, eu não enxergo eles, eles me enxergam, eu não enxergo eles, eu falo, falo, falo, aí eles perguntam, eu falo, falo, falo. (PROFESSOR) O professor necessita visualizar os alunos, não só ser visto, dificuldade que não acontece na aula presencial. Após o contato concreto com os alunos, as dificuldades se amenizam: [...] eu vou me lembrar deles, eles vão se lembrar de mim, eu vou lembrar do que eu disse, das caretas que um ou outro fez quando tal coisa, que eu já... que aquele ali não pegou bem, aquele lá já pegou mais; então esta web conferência vai ser bem diferente, sem dúvida. [...] eles já conseguiam lembrar do cara, falar do “ j ?” v q dia tu não estava olhando para a frente, nem vê se eles estavam virado para a frente ou não... o cara já me pergunta com mais tranquilidade. (PROFESSOR) O meio tecnológico dificultou o relacionamento do professor, limitando sua forma de expressão. Este relato confirma o que nos diz a pedagogia da comunicação, ao referir que o professor fala por todo o corpo: [o meio, a tecnologia, atrapalhou de alguma maneira, a tua manifestação, a tua liberdade para te expressar para eles?] Isto é incontestável, na aula que eu estou presencial, eu mexo, gesticulo, eu falo bobagem, faço careta, eu tenho essa mania na aula, uma aula que eu estou ali, eu mexo com o cara, faço uma piada com o cara que falou, e tal, então o clima para mim fica muito mais amistoso. (PROFESSOR) Diferentemente dos tutores que têm uma relação mais individual, o professor necessita da relação com o conjunto de alunos: [...] de longe é uma ferramenta que não te permite essa possibilidade de relacionamento mais próximo dos 2982 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ alunos, eu não enxergo os caras [é o primeiro polo], não escuto os caras, só os que estavam conversando comigo especificamente naquela hora. Então é extremamente frio assim, falo os caras escutam, perguntam e eu respondo [...] (PROFESSOR) P essa proximida “ w b b ” 3. RELAÇÕES DE PODER Rodrigues (2009) percebe em sua pesquisa que a afetividade se dá entre alunos e entre alunos e tutores, e não se dá entre alunos e professores. Os exemplos de situações nas quais os alunos identificam o aparecimento de trocas afetivas são semelhantes àqueles produzidos pelos tutores, isto é, nos trabalhos em grupoentre alunos, em situação presencial e a distância, e nas interações entre tutores e alunos – também, tanto presenciais quanto a distância. (RODRIGUES, p. 65] (destaques nossos) A relação entre alunos e entre alunos e tutores não é hierárquica como a relação aluno x professor. O professor é que determina as notas, faz provas, avalia o aluno. Há uma relação de obediência clara, de poder. Com “ j ” aluno. O professor fiscaliza! Julga, determina, tem o comando. Então conforme Maturana, não é uma relação social, a base emocional não é o amor. Uma questão intrigante surgiu em Rodrigues, no relato do aluno A, referente à afetividade ser necessária para que o aluno consiga seus objetivos, levando-se a crer que ela pode não ser natural, espontânea, mas um meio de atingir objetivos, no caso esclarecer as dúvidas, pois se não houver dúvidas não é necessária a afetividade. É o lado pragmático da afetividade? O Aluno A parece equacionar a ajuda do tutor em relação as suas dúvidas, ou de dicas para seu trabalho e a eficácia nas respostas, com as inter-relações afetivas. (RODRIGUES, p. 66) 2983 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Questiona-se esta afetividade! Parece aqui transparecerem resquícios de hierarquia. Percebe-se isso na seguinte fala em Rodrigues, em que o interesse é o móvel das ações afetivas: O Aluno A descreve a importância do bom relacionamento principalmente com o tutor e isso implica em interações afetivas positivas. A partir desse bom relacionamento, diz que percebe que o que o aluno consegue ser melhor atendido em suas dúvidas, dificuldades. (RODRIGUES, p. 70) Se o aluno conseguir se relacionar-se bem com o tutor, a relação vai ser eficaz, ou seja, alcançará o objetivo perseguido, buscado, que é tirar as dúvidas, sem problemas, de forma precisa e imediata. Acontece o mesmo com o professor que exerce o domínio de turma, o controle, a disciplina, mediado por brincadeiras e piadinhas que caem no gosto da turma, disfarçando talvez uma relação de poder e aproximando-o dos alunos, sendo o amigão que conduz os alunos. Para aquele professor, em que o aparato tecnológico não permitiu essas brincadeiras no seu primeiro contato com a turma, fez com que naquele momento o professor realmente ficasse distante da turma, o que inclusive gerou questionamentos desta quanto à capacidade do professor. Esse fato levou o professor a demonstrar sua preocupação com o ser visto como um professor capaz, que domina não só o conteúdo, mas a turma com seu jeito amigo, brincalhão de ser. Após o encontro presencial, sem a dificuldade do meio tecnológico, a relação se deu de maneira diferente, percebendo-se na fala a seguir um exemplo do domínio de turma, quando se refere ao encontro presencial: Aí fala brincadeiras, gesticula, tu te aproxima dos caras, no final da aula todo mundo amigo, os caras nunca mais vão reclamar de mim, tenho certeza absoluta, mesmo se eu chegar aqui na webconferência, fizer uma aula terrível sem explicar nada direito... mudou o clima entre a gente. (PROFESSOR) Nesse caso, a aula presencial propiciou o clima que o professor queria para suas aulas, o da amizade. O professor constrói assim um domínio de ações baseado na aceitação mútua? Nesta outra fala um exemplo do domínio do conteúdo: 2984 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [...] porque agora eles já não acham que eu sou picareta, eles já me veem como professor que sabe, porque fui lá e dei uma aula que todo mundo prestou atenção, que consegui explicar tudo que eles tinham dúvida, e aí um cara perguntou sobre outra coisa nada a ver, uma curiosidade, eu sabia responder, agora eles sabem que eu sei, então agora eles vão me tratar bem[...] [então, fazendo uma relação assim: eles vão se dar bem com o professor se o professor domina aquela matéria...] é o que me pareceu, que a turma é assim. [se não domina, não vai se dar bem com o professor] ...eles queriam que eu demonstrasse conhecimento, para eles ficarem à vontade de me perguntar as coisas, então na web [...] como eles têm essa, me parece que eles têm essa necessidade do cara ser bom para eles interagir, houve esse bloqueio. (PROFESSOR) Fica evidente a preocupação do professor com o demonstrar sua capacidade, seu conhecimento, pois que uma boa relação com os alunos está vinculada ao domínio desse conhecimento. Portanto, fica evidenciado que na sala de aula estão presentes relações de poder e, de interesses, num jogo em que a afetividade é uma estratégia. Essas falas reforçam a ideia de Maturana de que uma relação q S M ( 998 8 ) “O desejo de controle é um desejo de domínio [...] Quando se abandona a noção de controle e se aceita a noção de cooperação ou convivência, aparece o [ x ]” 3.1. TRABALHO COLABORATIVO Sempre que se procura um trabalho colaborativo, diminui-se a competição e o domínio de ação é a solidariedade, a cooperação ou colaboração, propiciando um clima, um ambiente confortável. Mas mesmo assim, quando se impõe uma responsabilidade, quando se impõe um trabalho, um objetivo a ser realizado ou alcançado, desestabilizase esta relação, pois passa a ser uma relação hierárquica, de obediência (pode não ser isto que os alunos queiram), e não se está mais numa relação social, não sendo possível uma base emocional para as relações afetivas. Para Maturana (1998, p. 87), as relações de poder não são relações sociais, e o mesmo autor atribui um novo significado à palavra social. Deleuze [Gallo, 2985 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2008] faz isto com as palavras! Conceitos novos! E isto propicia a quebra de paradigmas, abrindo novas possibilidades quando gera a crise com novos conceitos gerados de novas palavras, novos mundos possíveis. Maturana (1998, p. 89) diz q “ q v querer circunscrever seu uso ao âmbito das relações humanas fundadas no ” 3.2. CAFEZINHO Para ilustrar esta situação, lembramos uma professora substituta, chamada Fernanda, que foi trabalhar no curso onde trabalhamos, éramos colegas e a ajudavámos com as disciplinas as quais já conheciamos há mais tempo, pois era professora nova, estava iniciando sua experiência como docente. Jovem muito alegre, alto astral, quando chegava a hora do intervalo conv v q v z “ ” J imaginam o que era este social? O social era o momento em que os professores, no intervalo das aulas, se reuniam na sala dos servidores para tomar um cafezinho. Mas, acreditamos que o cafezinho era uma mera desculpa para os servidores se reunirem, trocarem palavras, olhares, apertos de mão, saberem do que ocorria nos outros setores da escola, das fofocas mesmo, mostrarem-se para serem lembrados, para descontraírem enfim. Esse é o momento em que se dá um encontro entre iguais, com alguns com uma relação hierárquica ainda existindo, mas a maioria são de iguais. Mesmo aqueles que estão num cargo de direção, numa posição hierárquica acima ou abaixo, naquele momento eram desprovidos daquele cargo, daquela posição, momento em que podíamos conversar como iguais. Vejamos, então, como z z “ z ” “ ” b É profissional. É uma relação hierárquica. Rodrigues relata outra situação semelhante, só que no meio virtual, v z “ ” Tenho ouvido professores de EAD dizer, ao se referirem à “b ”, que elas são importantes para que os alunos possam se conhecer e 2986 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ conhecer os seus professores. Eles dizem isso porque percebem, em suas experiências durante as sessões de “b ” q v z b v conversando sobre outras coisas que não eram o propósito da comunicação que se estabeleceu. O Tutor B relata que, para criar um espaço de conversa e de encontro on-line para os alunos, criou o que chama de “ f z h ”. (RODRIGUES, p. 75) Interessante como este aspecto do cafezinho, se aproxima do princípio da escola mesa, que conforme Babin (1989) possibilita a dimensão v v vv “ ” 4. MOTIVAÇAO PARA ENSINAR E APRENDER. Nesta categoria, procura-se relacionar os dados que revelam a compreensão dos atores de que a afetividade contribui para a motivação dos alunos e a consequente aprendizagem, bem como os dados que demonstram a necessidade de o professor estar motivado, pois que é peça fundamental, única, nesta relação. Percebe-se nesta categoria que, de certa maneira, parece contrariar a categoria anterior, que há momentos em que a sala de aula se torna uma relação social. Será ou não social esta relação, será ou não hierárquica, dependendo da base emocional estabelecida nela. Na maior parte das vezes, acontece que esta base é flutuante, líquida e instável como nós seres humanos. Restrepo parece equacionar bem esta aparente oposição. As percepções e disposições sensíveis são construídas de maneira sutil na interação cotidiana, na dinâmica de aula, nos intercâmbios afetivos e nos exercícios de poder que trespassam tanto a escola como a família, tanto os encontros sexuais como os ambientes de trabalho e sociais. (RESTREPO, p. 59) Rodrigues percebe a ligação entre afetividade e motivação, mas não é a afetividade que leva o aluno a buscar um curso, pois que ele só vai perceber a existência ou não desta afetividade somente depois de as relações se concretizarem, na vivência com seu grupo. Não é a afetividade que motiva o aluno, mas sim sua necessidade, seu objetivo claro. 2987 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Rodrigues (2008) percebe isto ao falar que os alunos tem uma motivação interna: [...] os alunos A, B e C disseram que têm como objetivo chegar ao fim do curso devido a metas que eles próprios estabeleceram interiormente e que não dependem das trocas afetivas que venham a ocorrer nos cursos que freqüentam. (RODRIGUES, p. 76) Embora a afetividade facilite, promova a motivação, mantenha o aluno no curso, não é este o objetivo de quem está estudando, não vamos à escola procurando uma relação afetiva, mas a formação, como relata o Tutor 01; No caso do nosso, que é voltado para a tecnologia, é o gosto pela tecnologia, a motivação deles é conseguir trabalhar com isso, no caso por ser uma cidade distante de outros polos, é conseguir fazer um trabalho legal com informática lá, que não tem profissionais qualificados, então basicamente é isso, assim [...] [TUTOR 01] A afetividade deve sempre ser procurada em todas as nossas relações, é uma atitude de respeito, no mínimo, ultrapassando quando chega à ternura, ao carinho, à atenção quando vai além de uma obrigação, de uma relação de trabalho, quando nos colocamos no mesmo nível do outro, quando aceitamos o outro como um legítimo outro na relação. Parece-nos que para que o professor promova a afetividade, ele deve estar gostando de sua tarefa, de ser professor, de gostar do que faz, ser o primeiro a estar motivado. Isto leva a crer que nem todo o professor esta preparado para tanto, e é a que refirmos quando afirmamos que o professor, às vezes, é quem precisa de ajuda. Como vai ajudar o aluno se ele mesmo necessita deste auxilio? 4.1. APRENDIZADO Entendida como um bom relacionamento com o aluno, o professor não fez uma relação direta da afetividade com o aprendizado, embora valorize este relacionamento. [e se fosse ao contrário, se tu dominasses tudo e não tivesse essa espontaneidade toda que tens, de fazer 2988 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ caretas e gestos, chamar a atenção do aluno, brincar com ele, tu achas que faria alguma diferença?] Isso faz diferença no relacionamento. (PROFESSOR) O professor percebe o relacionamento como importante para o clima da aula, mas não fez uma relação quanto ao aprendizado diretamente, mas deixou transparecer, em outros momentos, que este relacionamento é fundamental para que as perguntas apareçam, sejam realizadas pelo aluno. Consequentemente, então, não garante, mas influencia no aprendizado, embora o professor pareça não se dar conta disso. O professor percebe, também, que um bom relacionamento propicia um clima agradável, importante para uma convivência tranquila, sem embates com o aluno, para ser bem falado pelos alunos, ter sua imagem bem construída. [tu achas que interfere no aprendizado deles com ela?] Não, acho que só interfere no relacionamento, no aprendizado acho que não, a aula dela quanto a do J., quanto a do L., eles aprenderam tanto quanto aprenderam com ela. [...] Mas o cara que tu vê que tem bom relacionamento com a turma, o cara que é ralador, que encara os alunos, e o aluno continua amigo do cara, e acha o cara super legal e tal. (PROFESSOR) Um dos achados da pesquisa, é que o relacionamento dos alunos com o tutor pode ser mais intenso do que o dos alunos com o professor presencial. A fala do Tutor 02 aponta nesta direção. [comparando com o ensino presencial, tu achas que esse relacionamento pode ser maior do que o ensino presencial?] Eu acho que sim, porque tu acabas tendo um contato individual com cada um deles. Porque na aula tu falas com um grupo, e raramente tu vai falar com uma única pessoa, no a distancia tu acabas direcionando e tendo com cada um, pode às vezes não ter com todos, que alguns procuram muito pouco, só quando precisam, mas a maioria te procura aquele contato individual. [pelo que estou entendendo, tu estas dizendo que o contato é maior porque tem contato individual, mas parece também que tu não tens aquele horário certo, especifico de sala de aula, vai para a rede social, ORKUT, alguma coisa assim que é atemporal...] sim, é que se cria a amizade, até o fato de tu conversar individualmente eu acho, tu acaba passando mais confiança, mais [tu costumas conversar com eles no fim de semana...] Agora não mais, não tenho entrado, mas sim, sempre final de semana se conecta, acaba falando 2989 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ com alguém. Muito email recebia no final de semana e respondia no final de semana, normal. Eu acho que tem essa coisa do atemporal mesmo. Quando eles têm alguma coisa para falar eles vão e te enviam, aí, se por acaso tu vai lá e acessa, tu vê, tu já responde. Não é aquela coisa, eu tive aula hoje presencial e vou ter só na semana que vem que de repente eu já até esqueci o que tinha para falar com o professor. Ou eu penso alguma coisa amanha e até a próxima aula eu já esqueci. Então tenho alguma ideia, alguma dúvida, ele já vai lá manda e-mail, quando vê responde. (TUTOR 02) É claro que se tratando de relacionamentos, é difícil afirmar-se alguma coisa, pois se percebe que as relações dependem muito do domínio de ações em que se estabelecem, por isto esta variedade encontrada nesta pesquisa, ou seja, reflete o que acontece na nossa vida cotidiana, somos diferentes. Quando não se respeita esta diferença, ou quando se estabelece uma competição, uma relação baseada em concorrência, poderá haver as brigas, os atritos. Ao contrário, quando o domínio de ação em que se movimentam é a colaboração, ou cooperação, tendo por base o amor de que nos fala Maturana, as relações afetivas ganham espaço para se manifestarem. Por esse motivo, não se pode ser taxativo e dizer que a relação entre alunos e professores, entre alunos e tutores, ou entre alunos é de determinada maneira. Podemos supor como Maturana, que as relações sociais, portanto não hierárquicas, as relações colaborativas e cooperativas, contribuem para as manifestações afetivas. A pesquisa sugere que a aprendizagem é muito favorecida pelo interesse do aluno, pela motivação do aluno. Este interesse e esta motivação podem ser conseguidos, alcançados ou fortalecidos pela afetividade, mas não são somente estas relações que motivam o aluno, visto que as redes que constituem o humano são muito mais complexas, e a afetividade é apenas uma delas. CONCLUSÃO 2990 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Acreditamos numa transformação pessoal, individual, como nos fala Maturana, não como obrigação da escola, mas da sociedade, começando pela família. Esta instituição está em crise, é o que se diz e o que se percebe no nosso tempo, mas acreditamos que nas crises somos mais solidários e, a partir daí, podemos fazer uma reviravolta. Isso não quer dizer que os sentimentos não estejam na escola, devem estar sempre presentes conosco em qualquer lugar, pois somos emocionais antes de sermos racionais. E dentro desta visão, devemos agir com ética [pensarmos, falarmos, pois nossa linguagem é criadora], que é o que todos devemos ter, ou seja, aprender, na nossa vida de relações. Ética que não é moral. Moral também é código cultural, histórico segundo Foucault [2010, pg.211]. Mas uma ética que é estética, porque é uma forma de viver. O ensino a distancia, como o presencial, necessita de interação, é o q “ j v ” b vv trabalhos colaborativos, quebrando o sentimento de solidão, de isolamento. Moraes (2004) vai mais alem, falando em fluídez e flexibilidade para que o sistema se renove, e isto pode ser facilitado quando se permite ao aluno a participação nas decisões do processo de ensino. Assim, devemos cuidar para que a EAD não vire instrucionismo, não esteja morta, dura. As redes sociais são vivas, interativas. Assim, toda rede, para que funcione, necessita de fluidez interna e flexibilidade estrutural. É esta flexibilidade estrutural que permite ou que dá vida ao “ ” q b de novos estados organizacionais do sistema. [...] Se reconheço e assumo a possibilidade da educação incentivar e promover a diferenciação, ao invés da homogeneização, precisamos também assumir a possibilidade de se fazer ajustes reguladores em nossas práticas pedagógicas e em nossas propostas curriculares, o que também implica abertura e flexibilidade em nosso modo de ser e em nossa maneira de fazer e de avaliar as nossas ações. (MORAES 2004, p. 33) Sem dúvida, o professor, nesta onda atual de violência precisa primeiro cativar os alunos, e conforme Penteado, alterar o clima pedagógico 2991 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ reinante, criar a base emocional propicia às manifestações de afetividade, ter autoridade sem ser autoritário: A carência de experiências e de alternativas de ação na direção da educação como um processo de comunicação e o clima pedagógico reinante nas escolas de modo geral dificultam a atuação comunicacional do professor, mobilizando nele, muito frequentemente condutas autoritárias. (PENTEADO, p. 20) Mas isso não significa ficar só na amizade, e não cumprir com o que lhe é esperado, sem o compromisso e consequente dedicação ao aluno. Compreendemos que a afetividade não se resume apenas a manifestações de carinho físico ou mesmo elogios superficiais, com o qual destacamos algumas qualidades do indivíduo. A importância da postura, da dedicação, afetividade e do senso de pertencimento a uma comunidade são fundamentais para o trabalho pedagógico. [BONATTO] Com nossos filhos em família, ou com nossos alunos, criar esta base emocional pode ser difícil, porque não é o que se diz, não é uma racionalidade, mas os atos, os exemplos, o ser, o fazer e não pensar/dizer que a constroem, embora nosso linguajar seja criador. Isto fica claro quando R ( 9) zq “S b B ; b 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa v v [ ]” Abrir-se à singularidade parece difícil, pois o professor tem um conteúdo que precisa ser apreendido, o tempo limitado, grande número de alunos, a diferença de geração, de cultura, criando obstáculos a essa aproximação. Isto não impede a afetividade, embora muitas vezes de forma enviezada, de se manifestar, como vimos nas falas desta investigação, propiciar na sala de aula presencial ou virtual um conversar/viver que contribua para uma domínio de ação baseado no amor. Moraes (2004) não faz diferença entre o ensino presencial ou virtual quando fala na necessidade da afetividade; Neste sentido, cabe a nós, educadores, criar espaços educacionais, presenciais ou virtuais, propícios à ação 2992 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ e à reflexão, espaços acolhedores, amigáveis, amorosos, criativos e não competitivos, ambientes onde se estimule e valorize o fazer em continuo dialogo com o ser que se expande e transcende. (MORAES, 2004, p. 68) Então, como os tutores e professores percebem a afetividade na EAD? Eles não percebem da mesma maneira. Os tutores percebem na linguagem através de emails, das redes sociais como ORKUT e MSN, na disponibilidade de atenção nos mais variados horários, inclusive final de semana, ou mesmo quando já não estão mais no exercício da tutoria, na busca da conversação independente de terem dúvidas, ou seja, na fala de outros assuntos que não o conteúdo do curso ou a ele referente. Também, quando os alunos procuram saber aspectos pessoais dos tutores, da sua singularidade, buscando uma aproximação seja através de comentários de fotos no ORKUT, saber como estão passando, através de convite para festas ou para irem à casa dos alunos. Ainda, percebem manifestações no trabalho em grupo dos alunos, onde há ou não um convívio colaborativo, onde percebem aspectos da personalidade dos alunos, indicando se são tímidos ou mais extrovertidos, conhecendo de uma maneira mais próxima suas dificuldades na singularidade. Já o professor percebe as manifestações afetivas nas reclamações ou comentários dos alunos sobre sua desenvoltura como professor, incluindo “ er ” N b v -se a afetividade como estratégia tanto do aluno como do professor nas relações de poder. O professor parece necessitar do contato presencial para que possa perceber essas manifestações, tem uma interação visual e gestual além da linguagem. Talvez isto se dê devido ao fato de o professor não ficar tempo suficiente com o aluno, para conhecê-lo, ao contrário do que acontece com o tutor, que passa de uma maneira em geral, o curso todo com o aluno em todas as disciplinas. A afetividade como a ternura, segundo Restrepo, necessita de tempo de convivência para ser percebida. 2993 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O professor não vê a afetividade como condição necessária ao aprendizado, embora a considere importante, fazendo diferença na relação com o aluno. Rodrigues reconhece que ela colabora para a aprendizagem, influindo na motivação dos alunos. Mas a motivação dos alunos não é só afetiva, havendo também, necessidades, motivações internas que os fazem continuar o curso e não desistirem. Constatamos que a afetividade se dá de uma maneira mais intensa com os tutores e alunos. Creditamos isso mais uma vez ao tempo de convivência, como se refere Maturana (1998), sobre a necessidade do conviver, de conversar, de criar relações, relações sociais e não hierárquicas. Supomos que o aluno não vê o tutor numa posição hierárquica como o professor, e o enxergando-o mais como um auxiliar, um facilitador para suas tarefas, suas dificuldades, estabelecendo, então, uma relação social. Mesmo assim, percebe-se pela dissertação de Rodrigues, que os alunos ainda buscam, apesar dessa proximidade maior com o tutor, uma maneira de levar certa vantagem no atendimento a dúvidas, na rapidez das respostas; esta é uma percepção do aluno na dissertação de Rodrigues, e não do tutor. Ao finalizar este artigo, vemos que a afetividade está presente no humano, e que atravessa todas as relações de poder, sociais ou não, mas é nas relações sociais é que ela é livre de outros interesses que a tornam uma estratégia de poder. Referencias: ALMEIDA, Ana Rita Silva. O que é afetividade? Reflexões para um conceito. Trabalho apresentado na 24ª Reunião Anual ANPED - Caxambu 7 a 11 de outubro de 2001, GT 20 — Psicologia da Educação. Disponível em: <www.anped.org.br/reunioes/24/T2004446634094.doc>. Acesso em 09 dez. 2010. ALVES, Rubem. Educação dos sentidos. Campinas, SP: Verus Editora, 2005. _______________. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, Papirus Editora, Campinas, SP, 2001. 2994 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ BABIN, Pierre; KOULOUMDJIAN, Marie-France. Os novos modos de compreender – a geração do audiovisual e do computador. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1989. BONATTO, Benedito D.; MARTINS, Ronei X.; RAMOS, Luiz; SANTOS,Gamariel C.; SILVA, Wanise W. E. A Importância da Afetividade nas Interações no Contexto da EaD. Disponível em: <http://200.169.53.89/download/CD%20congressos/2008/V%20ESUD/trabs/t 38647.pdf>. Acesso em 09 dez 2010. FOUCAULT, Michel. Ditos & Escritos V – Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro, RJ: Editora Forense Universitária LTDA, 2010. ___________. Vigiar e Punir. Nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2004 GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 1995. GALLO, Sílvio. Deleuze & a Educação. Belo Horizonte, MG: Ed. Autêntica, 2008. MATURANA, R., Humberto. Cognição, Ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001. ____________. Emoções e linguagens na educação e na política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. MORAES, Maria Cândida. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. MORAES, Roque. 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As relações afetivas na aprendizagem em educação a distância. 2009. 2995 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PORTO, Tânia M. E. As tecnologias de comunicação e informação na escola; relações possíveis... relações construídas. Revista Brasileira de Educação, v.11 n.31 jan/abr 2006. RESTREPO, Luis Carlos. O direito a ternura. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. SOUZA, Maria do Rosário Silva. Afetividade: A questão afetiva se bem atendida ajudará seu filho para que tenha êxito naescola.<http://www.saudevidaonline.com.br/artigo53.htm>. Acesso em 09 dez. 2010. SOUZA, R. K. M.; Costa, K. S. O aspecto sócio-afetivo no processo ensino-aprendizagem na visão de Piaget, Vygotsky e Wallon. Disponível em: <http://www.educacaoonline.pro.br/index.php?option=com_content&view=arti cle&id=299:o-aspecto-socio-afetivo-no-processo-ensino-aprendizagem-navisao-de-piaget-vygotsky-e-wallon&catid=4:educacao&Itemid=15>, 2004. Acesso em 09 dez. 2010. RESUMEN:Este artículo tiene como objetivo compartir algunas ideas sobre la formade manifestar El afecto em la enseñanza a distancia de los tutores y formadores de docentes en su relación con los alumnos de TSIaD/IFSUL a través de entrevistas semi-estructuradas. El resultado muestra una estrecha relación con el tutor del estudiante, superando la proporción de asistencia, y um lado pragmático de afecto a través de relaciones de poder. PALAVRAS CLAVE: educación, afecto, educación a distancia. 2996 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Os usos de recursos didáticos visuais no ensino da Sociologia Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura Instituição: IFSul-Campus Bagé E-mail: [email protected] Mini-Currículo: Lisandro Lucas de Lima Moura é Professor de Sociologia do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul-Campus Bagé). Mestrando em Educação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Participa do Grupo de Pesquisa e Estudos sobre Imaginário, Memória e Educação (GEPIEM) do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPel. 2997 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ OS USOS DE RECURSOS DIDÁTICOS VISUAIS NO ENSINO DA SOCIOLOGIA Lisandro Lucas de Lima Moura* Resumo O trabalho é resultado de uma pesquisa qualitativa realizada com professores(as) de Sociologia de escolas de nível médio do Brasil sobre os usos de recursos didáticos visuais na sala de aula (filmes, vídeos, fotografias etc..) O objetivo é compreender de que forma as linguagens visuais podem contribuir para a compreensão da vida social e enriquecer a prática pedagógica de professores(as) de Sociologia, para além da simples informação sobre temas e conteúdos curriculares. Através de um trabalho pedagógico com imagens, busca-se ampliar as possibilidades de uma prática interdisciplinar, de modo a privilegiar a dimensão do estético, do poético e do imaginário nas Ciências Sociais. A busca por uma metodologia de ensino inovadora no uso de imagens em sala de aula precisa levar em conta o conhecimento produzido pelo campo da Sociologia Visual (ou Sociologia da Imagem) como forma de possibilitar o exercício da imaginação sociológica mediante a educação do olhar, permitindo aos jovens estudantes uma vivência social mais atenta e sensível diante do mundo. Palavras-chave: Ensino de Sociologia. Imagem e conhecimento. Sociologia da imagem. Recursos visuais. Educação do olhar. 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho busca investigar metodologias de ensino para a disciplina de Sociologia no Ensino Médio, pautadas no uso de recursos visuais: fotografias, filmes, vídeos, documentários e pinturas. A relação entre imagem, conhecimento e ensino revelou-se como o principal problema abordado nesta pesquisa, fruto das minhas inquietações como professor de Sociologia, o que me levou a estudar o tema atentamente durante meu Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais pelo Instituto de * Professor de Sociologia do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul-Campus Bagé). Mestrando em Educação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Participa do Grupo de Pesquisa e Estudos sobre Imaginário, Memória e Educação (GEPIEM) do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPel. 2998 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Luiza Helena Pereira.28 A pesquisa buscou identificar os usos da imagem em sala de aula, bem como os problemas de ordem metodológica, teórica e epistemológica encontrados pelos professores e professoras de Sociologia da educação básica quando da utilização destes recursos. Mais do que isso, os artefatos imagéticos revelaram-se de grande importância para a compreensão do mundo social contemporâneo, marcado por uma intensa visualidade que ganha status de algo natural e desprovida de historicidade e disputas ideológicas. Dessa forma, a intenção deste trabalho é indicar a importância das imagens para a construção do conhecimento sociológico, já que estamos trabalhando com uma disciplina que recentemente se tornou obrigatória nos currículos de todas as escolas do Brasil29, e que através dela milhares de jovens terão algum tipo de relação com o modo sociológico de pensar. E com isso, surgem algumas perguntas: é possível conhecer a realidade social a partir de uma simples fotografia? De que forma? E que tipo de conhecimento ela nos propõe? Quais as relações possíveis entre imagem e realidade social? Como utilizar as imagens em sala de aula desde uma perspectiva criativa e sensível para os alunos, e que ao mesmo tempo possibilite um conhecimento crítico e sistêmico do viver social? A partir destes questionamentos, percebemos que existem várias formas de tentar respondê-los, e as Ciências Sociais já há um bom tempo vem tentando fazêlo, trilhando novos caminhos para a maior compreensão das sociedades a partir de referenciais imagéticos. Foi feito um levantamento dos principais recursos didáticos visuais e audiovisuais utilizados pelos(as) professores(as) mediante metodologia 28 MOURA, Lisandro L. L. Imagem e Conhecimento: a educação do olhar no ensino da Sociologia no Ensino Médio. Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, 2010. 29 Parecer CNE/CEB 38/2006. Lei nº 11.684, de 02 de junho de 2008 que altera o Art. 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias nos currículos do ensino médio. 2999 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ qualitativa, com entrevistas semi-estruturadas. Foram entrevistados(as) 10 professores(as) de Sociologia de algumas escolas do País que fazem uso de imagens em suas aulas. Parte das entrevistas foi aplicada durante a realização do I Encontro Nacional sobre o Ensino de Sociologia na Educação Básica, realizado pela SBS (Sociedade Brasileira de Sociologia), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2009, e, portanto, abrange professores e professoras de diferentes localidades do Brasil (São Paulo, Palmas, Abaetetuba, Bento Gonçalves, Santa Maria, Porto Alegre, dentre outras regiões). Além disso, nesse mesmo espaço aconteceu a Oficina Imagem e Ensino de Sociologia, coordenada pela prof. Ana Lucia Lucas Martins (UFRJ) e pelo prof. Amaury César Moraes (USP). A Oficina serviu de campo de observação das discussões conceituais e métodos de utilização de imagens por professores(as) da educação básica. Antes de compreendermos o significado que as imagens adquirem na prática pedagógica dos(as) professores(as) de Sociologia, a fim de responder às indagações feitas nesta pesquisa, é necessário conhecermos algumas tendências recentes das Ciências Sociais que se utilizam dos métodos visuais para análise do conjunto das relações sociais, bem como as dificuldades analíticas decorrentes dessa abordagem. O conhecimento produzido pelo campo da Sociologia Visual é de fundamental importância para qualificarmos as práticas pedagógicas, tanto no Ensino Médio quanto no Ensino Superior. 2. VER PRECEDE AS PALAVRAS: POR UMA EDUCAÇÃO DO OLHAR Olhar é um ato de escolha John Berger Vemos con los ojos. Ao apresentar as peculiaridades do olho sociológico, o espanhol Jesus de Miguel30 afirma que para poder ver não é necessário uma aprendizagem específica, mas que para ver bem, com olhar sociológico, a aprendizagem se torna necessária, e pode ser conquistada mediante o processo de reeducação do olhar, sob responsabilidade dos 30 MIGUEL, Jesus de. “El ojo sociológico”. In: Reis - Revista española de investigaciones sociológicas, nº 101, 2003, p.49-88. 3000 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ cursos de Ciências Sociais das universidades e, também, das escolas onde a disciplina de Sociologia está em processo de consolidação. Cabe ressaltar desde já que não é nenhuma novidade referir-se ao mundo visual como método e conteúdo das pesquisas sociológicas e antropológicas. Silvia Caiuby Novaes31 apresenta fortes indícios da tradição visual das ciências sociais até mesmo no vocabulário que comumente estamos familiarizados, e que contem, segundo ela, uma linguagem visual b “ “ b v ” “ v v ” ” “ “ v ” “ ” ” 32 “v ” . Ulpiano Bezerra de Meneses também se refere à assimilação do conhecimento a partir da visualização, referindo-se ao oculocentrismo epistemológico da visão, cuja hegemonia caracteriz “ v ” 33 Esse autor, valendo-se da expressão ditadura do olho, afirma que, muitas vezes, essa hegemonia da visão acaba por repelir outras dimensões da experiência e do vivido. Ou ainda, a expressão de Jesus de Miguel, la realidad social entra por los ojos, buscando, com ela, justificar a necessidade da utilização da fotografia, da imagem virtual, do cinema, do vídeo para o conhecimento da realidade social, uma vez que, segundo o autor, o século XXI é o século da imagem.34 Mesmo sabendo que grande parte do que conhecemos no mundo se dá pelo visual, pelo olho, mesmo assim, parece que a visualidade do mundo social carece de ser tratada como objeto de estudo que deve ser priorizado, do ponto de vista metodológico, nas ciências sociais. Parece que até o momento os pesquisadores e pesquisadoras em ciências sociais "deram maior importância para a construção social do visível, sem levar em conta 31 ApudHIKIJI, Rose Satiko. “Possibilidades de uma audição da vida social”. In: MARTINS, José de Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.271-294. 32 Idem, p.273. 33 MENESES, Ulpiano Bezerra. “R ‘História visual’”. MAR , J é Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.36 34 MIGUEL, Jesus de. “El ojo sociológico”. In: Reis - Revista española de investigaciones sociológicas, nº 101, 2003, p.50 3001 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ também a construção visível do social” 35 , ou seja, a forma pela qual a sociedade se mostra, a representação imagética de si, enquanto objeto de conhecimento da vida social. Trata-se, portanto, de levar em conta a especificidade da imagem, pois ela requer um modo próprio de análise, conforme nos indica o autor, valendo-se da citação do historiador Arthur Freitas: não é apenas o ambiente sócio-cultural que pode aguçar nossa experiência de uma imagem artística, mas, revertendo a equação, que as próprias formas e v b ‘ ar a percepção que temos da sociedade.36 Ainda que seja possível verificar uma vasta literatura em ciências humanas dedicada ao estudo da imagem por parte de alguns pensadores(as) importantes, dentre eles(as) Howard Becker 37 , Pierre Francastel 38 , Susan Sontag 39 , Jacques Aumont 40 , Roland Barthes 41 , entre outros, mesmo assim, o que tudo indica é que a teoria sociológica da imagem não se desenvolveu plenamente e ainda não ganhou espaço significativo no conjunto da produção intelectual da área. Conforme Mauro Koury, é recente no Brasil a produção científica que leva em consideração a imagem como objeto específico de investigação sociológica42. A pesquisa visual nas Ciências Sociais, de qualquer forma, parece indicar um campo ainda em definição, sem fronteiras delimitadas, onde o pesquisador ainda caminha sem muita clareza: às vezes situando-se em aspectos ligados estritamente à problemática das linguagens em 35 MENESES, Ulpiano Bezerra. “R ‘História visual’”. MAR , J é Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.50 36 FREITAS apud MENSES, 2005, p.42. 37 BECKER, Howard. “Explorando a sociedade fotograficamente”. In: Cadernos de Antropologia e Imagem, n.2, 1996, p. 95-98. 38 FRANCASTEL, Pierre. Imagem, visão e imaginação. Lisboa: Edições 70, 1987. 39 SONTAG, Susan. Sobre a fotografia. Companhia das Letras: São Paulo, 2004. 40 AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas, São Paulo: Papirus, 1993. 41 BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 42 “A A V h , , á f locus das pesquisas em Imagem nas Ciências Sociais em torno do seu nome. É onde se tem, de modo mais avançado, uma discussão - embora ainda tênue, mas que ganha força a cada movimento - sobre a necessidade de delimitação das fronteiras disciplinares teórico”. (KOURY, 1998, .94) 3002 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ imagens, às vezes usando as imagens como simples ilustração de um texto verbal.43 “ Tanto na Sociologia como ” 44 . x Assim, não havia uma preocupação analítica sobre a utilização da imagem. A fotografia, que até então esteve presente em inúmeros trabalhos na área das ciências sociais brasileiras 45 v “ v analisado ou mesmo de prova da presença do autor no local estudado, como q v à z ”46. Na Espanha, temos como referência o já mencionado sociólogo Jesus de Miguel, que se dedica a construir um campo fértil da Sociologia Visual espanhola e latino-americana, atuando como membro do International Visual Sociology Asssociation47. Por isso o seu trabalho foi de extrema importância para esta pesquisa. Segundo o espanhol, Muy pocas tesis doctorales o investigaciones en las ciencias sociales incluyen texto y fotos a un nivel de igualdad. Si lo hacen es a un nivel desequilibrado de importancia. Las fotos, pocas, suelen ser una mera ilustración del texto. No se suele desarrollar una teoría con imágenes.48 Se o próprio campo das ciências sociais visuais é ainda incipiente, como ficam os(as) professores(as) de Sociologia da educação básica, que são levados a todo momento a utilizarem recursos alternativos como métodos de aprendizagens com seus alunos? Como a Sociologia pode contribuir com 43 KOURY, Mauro Guilherme. “Estado das artes nas ciências sociais do visual no Brasil”. Política & Trabalho, João Pessoa, v. 14, 1998, p.91-92. 44 KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. “A imagem nas ciências sociais do Brasil: um balanço crítico”. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 47, 1999, p.50. 45 “ x h R B , Gilberto Freire e de tantos outros que se valiam da fotografia nos seus trabalhos como suporte a mais à análise v .” (KOURY, 1999, .50) 46 Idem, p.50 47 A International Visual Sociology Association é uma associação profissional e acadêmica dedicada ao estudo visual da sociedade, da cultura e das relações sociais. Tem como objetivo potencializar o uso da imagem em pesquisas de diversas áreas do conhecimento: Sociologia, Antropologia, Educação, Pedagogia, Comunicação, Arte, Fotografia, Jornalismo etc. (http://www.visualsociology.org/). 48 MIGUEL, Jesus de; LEÓN, Omar G. Ponce. “Para una sociología de la fotografía”. In: Reis - Revista española de investigaciones sociológicas, nº 84, octubre-diciembre, 1998, p.85. 3003 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ a especificidade do seu olhar para o trabalho com as imagens e os recursos audiovisuais na escola, inclusive servindo de referência para professores(as) de outras áreas do conhecimento? 3. O OLHAR ILUDIDO: A PROPÓSITO DA REALIDADE DA IMAGEM E A IMAGEM DA REALIDADE. A Map is not the Territory, and the Name is not the think named Alfred Korzybski Na literatura produzida pelas Ciências Sociais da Imagem, percebe-se a existência de controvérsias sobre as relações entre realidade e imagem. Em que sentido a imagem pode ser um instrumento de análise da vida social? Será que aquilo que vemos em uma fotografia ou em um filme documental ou ficcional pode dizer muito sobre a realidade social? De que ? q “ ” q “ ”? M indagações foram e ainda estão sendo feitas por diversos pesquisadores e pesquisadoras, que citaremos adiante, e que encontram na imagem uma fonte para se saber como vive o ser humano. A relação entre Sociologia e imagem envolve questões bastante complexas. Dificilmente os pesquisadores que se utilizam dela conseguem dar conta de sua especificidade. Muitas vezes, como nos lembra Ulpiano Bezerra de Meneses, ela é convertida em tema e tratada como fornecedora de informações redutíveis a um conteúdo verbal. Ou então considerada como ponte inerte entre as mentes de seus produtores e os observadores, ou mesmo, no geral, entre práticas e representações. Ou ainda, o que é pior – mas já está suficientemente denunciado – considerada como apta a desempenhar tão somente função ilustrativa.49 O que mais inquieta cientistas sociais e historiadores da imagem é justamente o poder de evidência que a imagem apresenta, ou seja, o poder 49 M , U B z . R “ v ”. MAR , J é Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.40. 3004 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ de confundir-se com o real. Merleau-Ponty dedicou-se ao estudo do cinema e evidenciou o realismo a ele inerente. O cinema falado, com seu diálogo amiúde envolvente, completa nossa ilusão. Daí, concebe-se muitas vezes o filme como sendo a representação visual e sonora, a reprodução mais fiel e possível de um drama, o qual a literatura só poderia sugerir com palavras, enquanto o cinema tem a sorte de poder fotografar. O equívoco se mantém porque existe, deveras, um realismo fundamental pertinente ao cinema.50 O crítico francês André Bazin, além de ser um dos mais conceituados teóricos de cinema, é o mais notável representante da vertente realista. Ele acredita que a objetividade da imagem fotográfica não abre espaço para a imaginação no ato fotográfico. A originalidade da fotografia em relação à pintura reside, pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que substitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano denomina-se “ bj v ” P v z objeto inicial e sua representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. Pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior se forma, automaticamente, sem a intervenção criadora do homem.51 Com isso, Bazin chama a atenção para a crença do espectador na fidelidade da imagem fotográfica, que se constrói a partir das técnicas realistas da fotografia e do cinema. Esse poder de convencimento que têm o cinema e a fotografia, principalmente, mas também as imagens no sentido geral, confunde o espectador e, por que não, o professor-sociólogo ingênuo. Isso torna instigante a análise de imagens. Porque tanto o espectador comum quanto o professor e o cientista social raramente vão ao cinema pensando criticamente na irrealidade das imagens, em distingui-las entre cenas reais e montagens, ou seja, pensando no fato de que elas são apenas uma B “ 50 MERLEAU-PONTY, apudMENEZES, Paulo. “O Cinema Documental como Representificação: verdade e mentiras nas relações (im)possíveis entre representação, documentário, filme etnográfico, filme sociológico e conhecimento”. In: NOVAES, Silvia Caiuby et al. Escrituras da Imagem. São Paulo: FAPESP, 2004, p.32. 51 BAZIN, André. A ontologia da imagem fotográfica. In: André Bazin. O Cinema: ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991, p.22 3005 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ bem verdade que a imagem não é o real, mas é, pelo menos, o seu analogon ” 52 Assim, devemos leva “ v ”53 que a imagem produz no espectador. O conceito de representificação, desenvolvido por Menezes54, ao invés de representação, é importante para dar conta da complexidade da análise sociológica da imagem. O autor atenta para o fato de que o conceito de representação designa algo diferente do real, da coisa em si. A representação de qualquer coisa é a criação de outra coisa. Nesse sentido, se a imagem é representação do real, como explicar o seu poder de evidência, o seu poder de confundir-se com o real, já que representação seria algo diferente do real? Segundo Menezes, o poder de evidência da imagem “ ‘ ’ P ão do real, pois a ” 55 Ou seja, o que a imagem apresenta não é o que é visto, mas isso não está claro para o espectador porque a imagem possui um poder de convencimento. Por isso, “ conforme Menezes, ela não po j q “ q José ” õ ” de Souza Martins também 56 se posiciona contrário ao entendimento de que a fotografia, especialmente, funciona como documento de ilustração e/ou de reprodução do real. Em seu livro recente, Martins fala da responsabilidade dos sociólogos para com as imagens. (...) ao sociólogo da imagem fotográfica põe-se o fato adicional de que a fotografia não é apenas documento para ilustrar nem apenas dado para confirmar. Não é nem mesmo e tão-somente instrumento para pesquisar. Ela é constitutiva da realidade 52 BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p.12 53 MENEZES, Paulo. “O Cinema Documental como Representificação: verdade e mentiras nas relações (im)possíveis entre representação, documentário, filme etnográfico, filme sociológico e conhecimento”. In: NOVAES, Silvia Caiuby et al. Escrituras da Imagem. São Paulo: FAPESP, 2004, p.32. 54 MENEZES, Paulo. “Representificação: as relações (im)possíveis entre cinema documental e conhecimento”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 18, nº 51, fevereiro de 2003. p.87-97. 55 Idem, p.94. 56 Ibidem. 3006 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ contemporânea e, nesse sentido, é, de certo modo, objeto e também sujeito.57 Como exemplo da complexidade que envolve a análise das imagens, Martins cita um trabalho de John Berger, que vale a pena reproduzir aqui, a respeito do estudo comparativo de fotografias de pessoas de condições sociais distintas. John Berger58 debruça-se sobre uma famosa fotografia de August Sander, intitulada Jovens Camponeses, de 1914. Se não fosse pelo nome sugestivo da foto, seríamos iludidos pela imagem de três jovens de trajes aparentemente urbanos, posando para foto numa postura imponente, produzindo, com isso, certa distinção social que os colocaria em determinada condição social que não a de um camponês59. Segundo Martins, valendo-se B b “ v ” entre o traje (e o restante do equipamento de identificação) e o os ternos deformam o corpo dos jovens, além do que, há uma contradição b ( b ) v q “v ” 60 57 MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Paulo; Contexto, 2008, p.23. 58 BERGER, John. About looking. Vintage International, New York, 1991, p.31-40, apud MARTINS, 2008b. 59 Quando mostrei essa fotografia para meus alunos do Ensino Médio, numa atividade que fazemos com fotografias de fotologs, e pedi para eles descreverem o que estavam vendo, uma das alunas apressadamente disse que a imagem mostrava jovens de uma organização mafiosa, portanto, criminosos urbanos... 60 Idem, p.15. 3007 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Jovens Camponeses. August Sander. 1914. A partir da fotografia de August Sander é possível perceber uma característica bastante peculiar da imagem fotográfica, conforme Martins: a de maquiar a realidade social, a de produzir encenações sobre a vida. As pessoas se representam na fotografia não como realmente são, mas como talvez gostariam de ser. Martins nos fala da recusa ao cotidiano através da imagem, e afirma que ela se insere no imaginário da ascensão social. Por exemplo, o fato de muitas pessoas das camadas populares terem a preocupação com o ato fotográfico, levando-as a vestir- “ q ” a posar de determinada forma, revela o quanto as pessoas negam o seu cotidiano, a vida rotineira e repetitiva, mecanizada. Nas palavras do autor: O trajar para ser fotografado, o traje como equipamento de identificação, cria para o fotografado uma identidade domingueira, que tenta escapar do reprodutivo, que nega o trabalho e afirma o ócio de quem vive do trabalho. Portanto, as fotografias (...) não retratam e nem documentam o cotidiano. Elas nos falam de uma ingênua contestação do cotidiano, sua recusa, a recusa do cotidiano como momento do trabalho.61 61 Idem, p.53. 3008 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Silvia Caiuby Novaes chama a atenção para algumas relações que o(a) pesquisador(a) de imagens deve estar atento, principalmente num filme “ q q q ”62. Ou seja, v numa fotografia ou num filme documentário e mesmo etnográfico, por exemplo, em que os personagens não são atores profissionais mas atores sociais que desempenham seus próprios papéis, deve-se levar em conta, N v ( 004) q “ b q divulgando uma imagem para além de seus territórios, procuram elaborar ”63 esta imagem Nesse sentido, de acordo com Paulo Menezes, devemos perceber o ( ) expressão v das “ formas pelas quais uma sociedade concebe-se ” 64 . E essa imagem não é mero reflexo das condições de existência, mas, ao contrário, elas tem sentido verdadeiro somente enquanto verdade fílmica, ou seja a imagem em sua especificidade. É justamente nessas estratégias narrativas de construção da identidade, que só existem na própria imagem, que reside toda análise propriamente sociológica do mundo visual, ou seja, na relação que ele estabelece com o real; muito mais a realidade da imagem do que propriamente a imagem da realidade65. Conforme Martins: É a contradição entre o verossímil e o ilusório, e a sua unidade, que propõe a leitura sociológica possível da fotografia. Sem a referência teórica apropriada, que permita interpretar essa contradição, a fotografia, tanto na Sociologia quanto na Antropologia e na História, não passará de mera e vazia ilustração de texto.66 62 NOVAES, Silvia Caiuby. “Imagem em Foco nas Ciências Sociais”. In: NOVAES, Silvia Caiuby et al. Escrituras da Imagem. São Paulo: FAPESP, 2004. p.13. 63 Ibidem. 64 MENEZES, Paulo. “O Cinema Documental como Representificação: verdade e mentiras nas relações (im)possíveis entre representação, documentário, filme etnográfico, filme sociológico e conhecimento”. In: NOVAES, Silvia Caiuby et al. Escrituras da Imagem. São Paulo: FAPESP, 2004, p.22 65 M , U B z . R “ v ”. MAR , J é Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005. 66 MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Paulo; Contexto, 2008, p.30. 3009 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Ulpiano Meneses (2005) também atenta para o perigo das leituras ingênuas que tentam encontrar fatos e traços do referente em imagens. Também acredito que as ingenuidades das leituras empíricas à cata de fatos e traços do referente (principalmente na fotografia), derivam deste mesmo campo de equívocos: proceder como se acreditasse que seus acervos documentais (principalmente fotográficos) desempenham os mesmos papéis que as coisas e eventos registrados.67 O cineasta e documentarista brasileiro, João Moreira Salles, também critica a ênfase na objetividade das concepções ingênuas. Em um artigo que “ b ” S “ à taminado à realidade, no filme como espelho voltado para o mundo.68 Muitos acreditam que o documentário, diferente do filme ficcional, é mais fiel à realidade do acontecimento, pois o cineasta filma aquilo que de fato ocorreu, sem se utilizar de estratégias de intervenção e comunicação com os personagens, que normalmente são pessoas comuns que desempenham seus próprios papéis. Algo muito semelhante à tradição positivista das ciências sociais, especialmente Durkheim, que acreditava na neutralidade do pesquisador, da sua não-intervenção no objeto pesquisado, como pré-requisito para se entender os fatos sociais. No entanto, Salles destaca duas naturezas do documentário: De um lado, é o registro de algo que aconteceu no mundo; de outro lado, é narrativa, uma retórica construída a partir do que foi registrado. Nenhum filme se contenta em ser apenas registro. Possui também a ambição de ser uma história bem contada.69 É justamente a oscilação entre documento e representação que, segundo o cineasta, constitui o verdadeiro problema do documentário. De um 67 M , U B z . R “ v ”. MAR , J é Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.43. 68 SALLES, João Moreira. “A dificuldade do documentário”. In: MARTINS, José de Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005, p.59. 69 Idem, p.64. 3010 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ lado, portanto, a realidade; de outro, a imaginação autoral construída sobre a realidade, onde determinada cena não acontece naturalmente, mas é, sobretudo, construída, imaginada. Nesse sentido, o(a) professor(a) de Sociologia que trabalha as imagens como recurso didático em suas aulas precisa estar atento para a complexidade que elas demandam e, sobretudo, problematizá-las no que elas têm de propriamente sociológico e não simplesmente tratá-las como ilustração de um determinado conteúdo ou tema trabalhado em aula, como acontece muitas vezes, conforme veremos adiante. 4. AS IMAGENS COMO RECURSOS DIDÁTICOS NAS AULAS DE SOCIOLOGIA Diante do aporte teórico descrito acima, partimos para uma análise mais objetiva dos usos da imagem nas aulas de Sociologia no Ensino Médio. Para isso, tomemos como referência os resultados obtidos com as entrevistas realizadas com professores e professoras de Sociologia de algumas escolas do País. Para compreendermos o significado que as imagens adquirem na prática pedagógico do(a) professor(a) de Sociologia é necessário sabermos o que pensam os(s) docentes sobre a finalidade da Sociologia na escola, pois toda a prática pedagógica requer um objetivo pré-estabelecido. Quando perguntamos qual deveria ser a finalidade da Sociologia no Ensino Médio, automaticamente os professores citam o pensamento crítico, que vai para além do senso comum, uma vez que a sociologia tem a responsabilidade de compreender e explicar a sociedade, atividade esta que exige uma postura reflexiva e crítica. A finalidade da Sociologia é desnaturalizar e historicizar as relações sociais, observar que a realidade social é construída e que deve ser transformada. (Prof. Antonio)70. 70 Preservamos a identidade dos(as) professores(as) entrevistados(as) e utilizamos nomes fictícios para representá-los(as). 3011 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Desenvolver a criticidade no discente, e tratar de temas sociais com uma perspectiva que supere o senso comum, levando o educando a pensar estas questões com outras perspectivas. (Prof. Roberto) O primeiro motivo é desenvolver o pensamento crítico, pois a maioria das outras disciplinas não tem este propósito. O outro motivo é entrar em contato com mais uma disciplina das Humanas, que exige uma maneira de pensar diferente. Exige mais leitura, interpretação... (Professora Carla). Como podemos notar, o discurso dos professores em relação à S finalid P N’ b õ dadas ao Ensino Médio pela LDB, que no seu artigo 35, inciso III, recomenda “ ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico”71 v v “ ” S partir dos recursos visuais utilizados pelos professores? De que forma os b e histor z z “ õ z ” entrevistados? Quais os critérios e as justificativas para a utilização da imagem em sala de aula? O principal critério de escolha de determinado filme (ou imagem em geral) por parte dos(as) docentes é a possibilidade de relacionar os conteúdos da aula ao conteúdo do filme. O primeiro critério é a qualidade do filme, sempre digo a eles que um filme dependendo da qualidade é uma obra de arte e, por isso, também argumento com os alunos sobre a importância de assisti-lo na língua em que foi produzido. Segundo, a abordagem sobre determinado assunto, até que ponto pode contribuir para possíveis relações com os conteúdos desenvolvidos em aula e para despertar outros temas ainda não abordados. (Prof.ª Bruna) 71 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394/1996. Brasília, DF. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/l9394.htm>. Acesso em: 25 abr 2009.Grifo nosso 3012 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Os professores argumentam que é importante relacionar o filme ao conteúdo da aula, pois o filme só é importante na medida em que desenvolve de forma mais envolvente os objetivos propostos pela disciplina. Assim, conforme a professora Carla, O fato de estar relacionado ao conteúdo é uma preocupação que eu tenho. Pra que não pareça que a gente esteja fazendo uma coisa simplesmente diferente, só por fazer, sem nenhum motivo específico. (Prof.ª Carla) Assim também pensa a professora Estela: Primeiro eu penso qual o meu objetivo na aula. Se eu vou falar sobre racismo, eu uso o vídeo Vista a minha pele. Porque esse vídeo constrói, nos primeiros minutos do filme... ele te leva a um pensamento sobre o que vai aparecer, mas o filme surpreende porque ele te faz pensar sobre o preconceito racial. Então pra mim isso é importante. Ou às vezes utilizo filmes que os alunos não têm acesso (filmes clássicos, que não passam na TV, que seja dinâmico, que eles consigam compreender). Então o critério é quando o filme ajuda a elucidar o tema ou até mesmo a surpreender, quando vai contra uma postura de senso comum. (Prof.ª Estela) Este é um aspecto importante do uso da imagem em sala de aula, pois a maioria dos(as) professores(as) entrevistados(as) acredita ser importante vincular o filme ao conteúdo. Isso faz do filme um instrumento de fidelidade ao real. O filme mostra ou ilustra aquilo que está no programa curricular. No entanto, como bem afirma Ana Lucia Lucas Martins x v q ” z “ 72 , ao m vale mais do que mil b z elas fossem destituídas de significados culturais, como se elas pudessem “ ” q q q x “ banalização estaria sustentada por um conjunto de atributos que acredita-se as imagens possuem, o poder do realismo, da precisão, do poder de evocar. 72 MARTINS, Ana Lucia Lucas. “Cinema e Ensino de Sociologia: usos de filmes em sala de aula”. In: XIII Congresso Brasileiro de Sociologia. UFPE, Recife, 2007. 3013 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ‘ v ’ q 73 ” Esta perspectiva fica mais evidente quando os(as) professores(as) responderam à questão sobre a forma de utilização de determinados recursos imagéticos. Foi pedido para relatarem alguma atividade com imagens em sala de aula. A perspectiva ilustrativa aparece com frequência no discurso dos(as) entrevistados(as): Já utilizei em aulas um desenho de um livro de História onde havia a representação de um globo que tinha na parte superior pessoas de terno e gravatas fazendo festas e na inferior, pessoas com roupas humildes com vassouras nas mãos que olham para cima e questionam, trabalhei a questão das desigualdades sociais. Para discutir violência com meus alunos uma vez usei um curta-metragem em coleção sobre Ética q b P “DVD ” O curta mostrava cenas de problemas com violência no cotidiano e depois as mesmas cenas com os problemas sendo resolvidos com diálogo. Neste ano estou planejando usar dois filmes nas aulas: Ao Mestre com carinho e Planeta dos Macacos (a primeira versão), o primeiro para discutir as relações interpessoais em uma instituição e a questão da função social da escola na formação dos alunos; e, o segundo para debater as consequências da política armamentista na geopolítica mundial, e assim por diante... (Prof. José). Geralmente depois de desenvolver algum tema teórico como, por exemplo, o início do pensamento sociológico e o contexto histórico no qual aconteceu, proponho aos alunos assistirem a um filme que retrate esse momento. No desenvolvimento dos diferentes momentos do processo de produção, os filmes são formas de ajudar na compreensão e fixação dos conteúdos. Pequenos documentários sobre temas que estão sendo desenvolvidos em aula também contribuem muito, é uma linguagem que eles gostam muito. (Prof.ª Bruna). A partir desses depoimentos, percebe-se que a forma de utilização da imagem nas aulas de sociologia está vinculada à temática de determinado filme, fotografia ou vídeo. O racismo, as desigualdades sociais, o surgimento 73 Idem, p.04. 3014 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ da sociologia, a violência, podem, segundo os professores entrevistados, ser percebidos e estudados num filme, numa imagem qualquer. O conteúdo do filme é importante porque está vinculado ao conteúdo da aula. Dessa forma, a imagem não difere muito do texto, que tradicionalmente serve para explicitar e elucidar discussões temáticas ou conceituais trabalhadas na disciplina. Esta forma de utilização da imagem em sala de aula foi evidenciada também por Maria Adélia Alves, que afirma em suas pesquisas que os(as) professores(as) parecem agir de forma transformadora ao utilizar o filme em sala de aula, mas em realidade agem da mesma forma como se estivessem usando o livro. Utilizar-se de filmes como sendo meros transmissores de um tema abordado, significa vê“ ” influências, transmissores de uma verdade, que apenas retrata de uma outra forma o conteúdo a ser estudado, visando induzir emoções. Ou seja, o que o filme mostra é considerado uma verdade a ser observada e sentida. A forma de narrar própria do filme, que possui uma linguagem, uma história, que foi produzido dentro de um contexto determinado, retratando as relações de um tempo, não é questionada e sim aceita. O que se considera é apenas a história que o filme conta e as cenas que mostra como sendo algo real, neutro, independentemente de qualquer situação, momento da produção, etc.74 Então qual seria a importância da imagem para as aulas de Sociologia? O que ela tem de diferente? Será que estamos inovando as práticas pedagógicas ao utilizarmos determinados recursos imagéticos em nossas aulas? De acordo com os(as) entrevistados(as), a principal justificativa apresentada para o uso da imagem em sala de aula é a aproximação do “ v ” j q imagens em geral fazem parte da realidade cotidiana dos jovens. 74 ALVES, Maria Adélia. Filmes na Escola: uma abordagem sobre o uso de audiovisuais (vídeo, cinema e programas de TV) nas aulas de Sociologia do Ensino Médio. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Faculdade de Educação. São Paulo, dezembro de 2001, p.109. 3015 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Vivemos em uma sociedade em que as pessoas recebem diariamente uma grande carga de estímulos visuais; então, penso que há uma sensibilidade nas pessoas nesse aspecto. Penso que você conseguirá melhores resultados ao utilizar esses recursos se lembrando disso e associando os conteúdos teóricos, os textos escritos com outros recursos que são também fonte de conhecimento e de ensino, como é o caso do filme, do cinema, por exemplo. O filme aí possibilita um “ ” a a experiência com a Sociologia mais real. (Prof.ª Rita). Acredito que eles deixam as aulas mais dinâmicas e interessantes. Os recursos diferentes do quadro e da aula expositiva simplesmente dão novas conotações ao ensino, pois acompanham o processo de transformação no próprio organismo dos alunos, falo principalmente dos adolescentes, a faixa etária com a qual trabalho. (Prof. José). Nós vivemos numa sociedade visual, em que os adolescentes estão acostumados com a tecnologia, então além de tornar as aulas um pouco mais prazerosas, ela auxilia na apreensão dos conceitos e na construção de relações. (Prof. Roberto) Dessa forma, podemos entender que a principal justificativa para o uso da imagem em sala de aula é a falta de interesse do aluno. Assim, a imagem serve para aproximá-lo do universo da disciplina, especialmente o universo dos conteúdos e dos conceitos próprios da área. De fato, é uma justificativa que condiz com o momento presente e com as características da juventude contemporânea, extremament “ ” mundo visual. Porém está claro na fala dos(as) professores(as) que a utilização de recursos imagéticos em sala de aula pouco tem a ver com o a construção do conhecimento, e sim com a transmissão de determinados conteúdos curriculares. Mais uma vez, a ideia segundo a qual a imagem é equivalente ao real está presente no discurso dos(as) professores(as), que frequentemente se utilizam de um raciocínio que sinaliza o poder de v “ “ x ” “ j ” “ v ” “ ” “ ” “ x ” ” 3016 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Como vimos anteriormente, a imagem não vale mais do que a palavra, ao contrário do que sugere a expressão popular. Pelo contrário, ela ilude. Ela não mostra, mas esconde. Ela não é o real, mas um modo de construir o real. Na fala dos(as) entrevistados(as), o poder de evidência das imagens é resgatado como forma de chamar a atenção dos alunos desinteressados, a “ b “ ” â ” seguir abordar os temas sociológicos. Ao utilizarmos recursos audiovisuais tornamos visíveis e concretos alguns dos objetos de estudo das ciências sociais, levando em consideração as dificuldades de leitura e capacidade de teorização de parte considerável dos alunos. Isto auxilia no processo de compreensão dos temas abordados pela sociologia e do aprendizado. (Prof. João) Neste sentido, estamos de acordo com Alves para quem a inserção do audiovisual no espaço educacional está cumprindo outros propósitos, desvinculados do conhecimento ou da educação no sentido mais amplo. Podemos dizer que a política de inserção do audiovisual no processo de ensino serve a outros propósitos, não representando uma efetiva preocupação com relação a uma pedagogia que auxilie realmente no processo de ensino-aprendizagem do aluno, ou que permita uma maior apreensão do conhecimento por parte deste. Não existe uma proposta pedagógica clara nem por parte dos professores nem por parte da escola e sua coordenação pedagógica. O uso de filmes na escola aparentemente é sem vínculo com o conhecimento ou a educação de uma forma geral, algo descompromissado e sem sentido claro. A única ligação com o saber é a relação com o tema abordado, sendo o filme apenas mais uma atividade que complementa este saber.75 O uso da imagem como atividade simplesmente complementar ou como estratégia para chamar a atenção do aluno acaba por reforçar o caráter tradicional da educação. Assim, 75 Idem, p.96-97. Grifo nosso. 3017 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ a utilização de filmes e programas de TV serviriam “ ” v b uma educação que assim revela-se vazia e sem N “ apenas como dispositivos ou instrumentos utilizados “ v ” 76 O trabalho com imagens nas aulas de Sociologia pode tornar-se muito rico dependendo da abordagem metodológica adotada pelo(a) docente. É possível perceber uma tentativa por parte dos(as) professores(as) entrevistados(as) de trabalhar com estes recursos de forma mais perceptiva e “ ” q b imagens que tem a ver, conforme Ana Lucia Lucas Martins77 “ x acerca da natureza das imagens. A imagem trabalhada cognitivamente – a que resulta do conhecimento, da consciência, do ver e do saber – aumenta a q ” v Sejam as imagens fotográficas, fílmicas, televisivas ou informáticas a idéia é pensar que as imagens fornecem “ v ” reduziv “ ” ( ) É -las na sua dimensão política na medida em que as convenções resultam de disputas no modo de ver as coisas em determinados contextos histórico-sociais.78 S “ v ” justamente na sua especificidade, ou seja, na forma, que reside o conhecimento propriamente sociológico da imagem. Os professores entrevistados até percebem a importância da reflexão sobre a natureza das imagens, percebem que a análise sociológica do filme (e da imagem em geral) pode estar não somente no conteúdo do filme mas no próprio filme, na j “ bj ” que há uma forma sociológica específica de se analisar e se trabalhar imagens e filmes em sala de aula, mas dificilmente isso se traduz em uma 76 Idem, p.100. MARTINS, Ana Lucia Lucas. “Cinema e Ensino de Sociologia: usos de filmes em sala de aula”. In: XIII Congresso Brasileiro de Sociologia. UFPE, Recife, 2007, p.05. 78 Idem, p.04. 77 3018 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ proposta pedagógica objetiva devido a uma reflexão metodológica tênue sobre os usos da imagem em sala de aula. Dificilmente utilizo o filme como objeto de análise, como sugerido pela prof. Ana Lucia, na oficina de ontem 79. Ele é uma ilustração de um tema. Serve para falar de um assunto. Por exemplo, para discutir capitalismo e ecologia, temos o Ilha das Flores. Para discutir trabalho, temos o ABC da Greve ou Eles não usam Black Tié. Dentro da questão de gênero temos Acorda, Raimundo.(Prof.ª Maria) Não tenho muito conhecimento sobre essa dimensão da Sociologia, mas acho que sim, que podemos analisar filme a partir de uma perspectiva sociológica, seria uma leitura de uma leitura de mundo, uma interpretação da interpretação do cineasta. (Prof.ª Bruna). Portanto, como podemos perceber na fala dos(as) entrevistados(as), o uso dos recursos audiovisuais está bastante presente no espaço escolar devido a sua importância para a construção de um processo de ensino e aprendizagem mais significativos. Todavia, estas práticas carecem de uma reflexão mais aprofundada do ponto de vista metodológico e, sobretudo, sociológico, o que demonstra que os professores necessitam de um referencial teórico e prático de trabalho, a fim de possibilitar a construção do conhecimento através das imagens. De acordo com Oliveira Jr., para além do uso instrumental dos recursos visuais, existe uma perspectiva que considera a própria forma de ensinar como parte do conhecimento ensinado, como integrante dele, definindo suas características e imprimindo nele suas marcas, ou seja, em que se pensa a linguagem de um conteúdo como sendo o próprio conteúdo. Ou melhor, nesta disciplina busca-se refletir sobre com que se vai “ forma a darv v z b ” S faremos isto com palavras, números, tabelas, fotografias, músicas, pinturas, filmes livros...80 79 Oficina Imagem e Ensino de Sociologia, ministrado pela Prof.ª Ana Lucia Lucas Martins e Amaury Moraes, no I Encontro Nacional de Ensino de Sociologia na Educação Básica, RJ, 2009. 80 OLIVEIRA Jr. apudALVES, Maria Adélia. Filmes na Escola: uma abordagem sobre o uso de audiovisuais (vídeo, cinema e programas de TV) nas aulas de Sociologia do Ensino Médio. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Faculdade de Educação. São Paulo, dezembro de 2001, p.102 3019 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Os usos das imagens em sala de aula podem contribuir muito para a imaginação sociológica numa perspectiva crítica e desnaturalizadora dos processos sociais na medida em que são utilizados como objetos de conhecimento do mundo social, e não simplesmente como estratégias “ v ” “ v ” ú educação é muito mais do que informação sobre determinado assunto. Ela é uma prática social, ou seja, uma vivência coletiva que possibilita desenvolver a imaginação e o olhar atento para o mundo, de modo a construir no sujeito as disposições sociais para um agir mais sensível, portanto, mais humano. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Acreditamos que o propósito da educação não é simplesmente transmitir uma carga enorme de informações baseadas em conteúdos disciplinares e curriculares, mas sim exercitar as formas de sentir o mundo a partir do olhar reflexivo. Isso traz uma nova dimensão para a educação na medida em que auxilia o sujeito na sua passagem do estado passivo em direção ao estado de alerta e de espanto, ou seja, do sujeito agido para um sujeito agente. Como resultado da pesquisa, evidenciou-se que a imagem pode contribuir muito para o conhecimento do mundo social, no sentido desmistificador e desnaturalizador das relações sociais nas aulas de Sociologia. Mas nem sempre isso poderá se confirmar, pois depende de como o(a) professor(a) orienta teoricamente suas atividades no espaço escolar. Constatamos que os(as) professores(as) não tem essa orientação de forma clara, pois os recursos visuais são tratados como registro e espelho do real, ou seja, como simples ilustração dos conteúdos programáticos. Nesse sentido a imagem só é importante para os(as) professores(as) na medida em que se apresenta como apoio para a compreensão dos conteúdos b “ ” desinteressado, deixando em segundo plano a especificidade e a complexidade da mesma. Por outro lado, foi possível observar também, nas 3020 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ entrevistas, que há necessidade cada vez maior em se trabalhar as imagens para além dessa perspectiva ilustrativa, mas que isso não chega a se concretizar por inúmeras razões e obstáculos, dentre eles, a falta de clareza e consistência para um trabalho mais rico do ponto de vista sociológico. Os(as) professores(as) entrevistados(as) demonstraram dificuldades em desenvolver uma abordagem propriamente sociológica da imagem. Na maioria dos casos entendem que a perspectiva sociológica está unicamente em contextualizar os conteúdos da mensagem imagética do ponto de vista histórico. Eu não se te responder isso [sobre a análise sociológica da imagem], eu nunca parei pra pensar sobre isso. Até agora, a única análise que eu tento fazer é contextualizar do ponto de vista histórico, sempre relacionando com outras coisas.. (Prof.ª Carla) A análise propriamente sociológica dos recursos visuais, que possibilita o pensamento crítico e o processo de estranhamento, a nosso ver, está muito mais na forma, ou seja, na especificidade da imagem, do que no conteúdo que ela transmite. Na definição de Ulpiano Bezerra de Meneses 81, está muito mais na realidade da imagem do que propriamente na imagem da realidade. Forma e conteúdo são inseparáveis. Desse modo podemos conhecer a vida em sociedade partindo da sua interpretação visual, em que a própria imagem é o objeto principal que possibilitará o desenvolvimento do olhar sociológico, sem necessariamente estar vinculada a informações redutíveis a um conteúdo ou tema específicos. Assim, os resultados parciais que esta pesquisa apresenta estão de acordo com a perspectiva de Ana Lúcia Lucas Martins, quando afirma que O uso de filmes em sala de aula não tem como propósito a busca de correspondência entre fatos e representações imagéticas. Deve-se pensar que filmes são um modo pelo qual pessoas, no caso, cineastas, expressam suas idéias, concepções de mundo sobre temas, problemas da realidade, gerando um outro 81 MENESES, Ulpiano Bezerra. “R ‘História visual’”. MAR S, José de Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Silvia Caiuby (orgs.). O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais. São Paulo: Edusc, 2005. 3021 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ modo de conhecer que é dado através da maneira como as sociedades se produzem visualmente.82 Sendo assim, é importante tomar as imagens como método de análise, ou seja, como objeto de conhecimento do mundo social, sem confundi-las com o mundo propriamente dito. A imagem não tem a realidade como ponto de referência, portanto, ela não serve como ilustração ou demonstração de conteúdos nas aulas de Sociologia. Conforme Benjamin (1986), a imagem diz muito pouco sobre o acontecido; ela tem referência na cultura e no imaginário social. Deixar-se levar pelo mundo fantasioso das imagens na cotidianidade contemporânea é o mesmo que aceitá-lo como mundo pretensamente natural, desprovido de historicidade concreta. Em outras palavras, não devemos confundir o real com o virtual, muito menos substituir o real pelo virtual. Cabe ao docente, portanto, problematizar as imagens na sua forma de representar a realidade. Isso tem a ver com a construção do pensamento crítico, uma das finalidades da Sociologia na escola. Acreditamos que este trabalho, pautado nos estudos da Sociologia do Conhecimento Visual, pode oferecer subsídios importantes para a formação pedagógica dos professores e professoras de Sociologia. Para que os recursos visuais não caiam no vazio das práticas pedagógicas irrefletidas, esta pesquisa pode servir como orientação para o processo qualificado de formação de professores para o ensino médio. Resumen LOS USOS DE RECURSOS DIDÁCTICOS VISUALES EN LA ENSEÑANZA DE SOCIOLOGÍA El trabajo es resultado de una investigación cualitativa con profesores(as) de Sociología de escuelas secundarias del Brasil sobre los usos de recursos didácticos visuales (películas, videos, fotos, etc ..). El objetivo es comprender cómo los lenguajes visuales pueden contribuir a la comprensión de la vida social y enriquecer la práctica pedagógica de los profesores(as) de Sociología, más allá de la información sobre los temas y planes de estudio. A través de un trabajo pedagógico con imágenes, se busca ampliar las posibilidades de la práctica interdisciplinar con el fin de centrarse en la dimensión de lo estético, do poético y de lo imaginario en las ciencias 82 MARTINS, Ana Lucia Lucas. “Cinema e Ensino de Sociologia: usos de filmes em sala de aula”. In: XIII Congresso Brasileiro de Sociologia. UFPE, Recife, 2007, p.08. 3022 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ sociales. La búsqueda de una metodología innovadora con imágenes, en clases de Sociología, debe tener en cuenta los conocimientos producidos por el campo de la Sociología de la Imagen como una manera de permitir el ejercicio de la imaginación sociológica a través de la educación de la mirada, que permite a los estudiantes una vida social más atenta y sensible. Palabras-clave: Enseñanza de Sociología. Imagen y conocimiento. Sociología de la Imagen. Recursos didácticos visuales. Educación de la mirada. A TECNOLOGIA NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE ARTE Autor: Alex Cristiano de Sena Garcia(*) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense Praça Vinte de Setembro, 455 - Centro - CEP 96.015-360 - Pelotas/RS Telefone:55 (53) 2123-1000 e-mail: [email protected] RESUMO: Esse trabalho trata do uso das tecnologias no ensino de artes visuais. Objetiva investigar a atualização tecnológica do professor de arte, em como esta atitude permite alcançar uma maior interação com seus alunos. Apresenta uma abordagem quanti-qualitativa, consistindo num estudo desenvolvido no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IF-SUL campus Pelotas). PALAVRAS-CHAVE: Educação. Ensino de Arte. Atualização tecnológica. Alfabetização digital. Formação do professor. INTRODUÇÃO Este trabalho de conclusão de curso apresenta os resultados de uma pesquisa que teve como objetivo geral investigar a importância da atualização tecnológica do professor de arte como forma de alcançar uma maior interação entre o professor e aluno. O uso das tecnologias de informação e multimídia como ferramenta na educação e como esses 3023 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ recursos são capazes de promover maior aproveitamento dos conteúdos apresentados em sala de aula na disciplina de artes nas escolas foram questões fundamentais nessa pesquisa. Para discutir determinadas questões sobre a utilização, pelos professores de arte, de recursos tecnológicos contemporâneos, parto de uma evidência irrefutável: as novas mídias estão mais presentes fora do ambiente educacional do que na sala de aula. Muitas vezes estão fora da escola. No que concerne às tecnologias de produção e reprodução de imagens, esta questão se agrava, se considerarmos que vivemos num tempo em que a visualidade tornou-se um campo do conhecimento. Como considero imprescindível o trabalho com a imagem no campo do ensino da arte, obviamente defendo que o uso dessas tecnologias pode oferecer grandes vantagens tanto para os professores quanto para os alunos. Pensando nisso, procuro levantar questões sobre como os profissionais da educação vem se utilizando dos meios tecnológicos e dos recursos multimídia e pergunto-me por que existe tanta resistência por parte dos professores no processo de incorporação dos novos meios ao trabalho que se desenvolve no âmbito da escola. Para compreender como os professores estão se familiarizando com as novas tecnologias e quais recursos têm sido utilizados hoje em sala de aula, concebi e desenvolvi esta pesquisa. Tomei como base a atuação de professores do ensino médio do Instituto Federal Sul-Riograndense (IFSul) da cidade de Pelotas, RS, que dispõe dos recursos materiais suficientes e necessários para uso de professores e alunos. Esse artigo, portanto, baseiase num estudo de caso e apresenta uma abordagem quanti-qualitativa. Os dados empíricos e informações pessoais utilizados nesse trabalho foram colhidos em entrevistas com dois professores de arte e cento e cinqüenta alunos de uma mesma instituição. Ao longo desse artigo procuro discutir a importância do uso da imagem e das tecnologias multimídia disponíveis para a educação, suas aplicações e contribuições para o ensino de arte. Também enfatizo a necessidade de constante atualização do professor para o uso de multimeios em sala de aula. 3024 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Em termos estruturais, esse artigo encontra-se dividido em quatro partes: 1. Amultiplicação da imagem discute a evolução da imagem reprodutível, desde o surgimento da fotografia até os dias de hoje. 2. A escola ontem e hoje discute como o campo da educação vem se posicionando em relação às novas tecnologias. 3. O aluno plug and playdiscute como as novas gerações vêem a escola de hoje e como lidam com as novas mídias. Nessa parte apresento e analiso os resultados obtidos com um questionário aplicado a 150 alunos. 4. Oprofessor e o in/out discute a necessidade de atualização tecnológica do professor. A MULTIPLICAÇÃO DA IMAGEM Até a metade do século XIX, as obras de arte eram praticamente únicas. Assim, o prazer da apreciação das imagens a elas relacionadas era reservado a um grupo seleto de pessoas que tinham o privilégio de estar presentes em salões, museus ou onde quer que essas obras únicas se encontrassem. Sabe-se que a técnica da gravura foi amplamente utilizada para reprodução e divulgação de obras de arte. Mas também se sabe da existência de alguns artistas que faziam cópias de outras obras consagradas. Essas imitações (muitas vezes praticadas por discípulos de grandes mestres como exercício para o aprimoramento da técnica) eram ainda limitadas, e não garantiam exatidão por falta de conhecimento da técnica aplicada pelo verdadeiro autor ou por não estarem disponíveis os mesmos materiais utilizados na sua produção. E quando essa cópia era feita com alta fidelidade, ainda assim era destinada a um reservado grupo de espectadores, não alcançando o público em geral. A cópia era feita apenas por encomenda, para satisfazer a quem pudesse pagar por ela. A maior parte da população, portanto, era privada de apreciar uma obra de arte. Como observou Walter Benjamin: (...) em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens. Essa imitação era praticada por discípulos, em seus exercícios, pelos mestres, para a difusão das obras, e finalmente por 3025 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ terceiros, meramente interessados (BENJAMIN, 1985, pág. 167) no lucro. O desenho tornou-se reprodutível através da xilogravura. E a litografia, surgida no início do século XIX, ampliou ainda mais a possibilidade de associação entre imagem e palavra escrita. Reproduzidas em grande escala, as obras de arte passaram a integrar o repertório cultural de um maior número de pessoas. O público comum, que sempre esteve fora dos salões e museus de arte, finalmente teve acesso, em larga escala, aos bens culturais (ou pelo menos a suas reproduções). Evidentemente ocorreram importantes transformações na percepção das imagens após o advento da reprodução técnica, como mais uma vez Walter Benjamin nos esclarece: Pela primeira vez no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora cabiam unicamente ao olho. Como o olho apreende mais depressa do que a mão desenha, o processo de reprodução das imagens experimentou tal aceleração que começou a situar-se no mesmo nível da palavra oral. (BENJAMIN, 1985, pág. 167) Com a descoberta da fotografia, a possibilidade de reprodução da imagem torna-se real, instantânea,e desse momento em diante o uso de recursos técnicos e tecnológicos passa a se disseminar internacionalmente. Embora não tenhamos a obra original diante de nossos olhos, podemos ter na nossa frente uma referência visual daquela que está no museu. Essa reprodução pode não ter a autenticidade da obra única, com toda a carga histórica que a acompanha, mas diante dela é possível analisar e apreciar certas características presentes na peça original. Desse momento em diante, outras mudanças ocorreram na percepção da imagem. A partir do surgimento da fotografia a imagem se torna presente no cotidiano das pessoas, trazendo para a pauta do dia novas questões sociais, políticas ou estéticas. A imagem, usada como forma de comunicação, e até mesmo como forma de linguagem, adquire uma função fundamental na disseminação de informações, e passa a competir com a palavra oral. Mesmo assim ela não está livre da manipulação, já que 3026 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ dependendo do ponto de vista de quem captura a imagem, essa transmissão poderá ser distorcida segundo os interesses de seu autor. Após o surgimento da fotografia mecanicamente impressa, as novas aplicações da imagem se tornam mais claras, mais notáveis e perceptíveis. É a reprodutibilidade que permite a introdução de imagens no dia-a-dia dos cidadãos. A imagem impressa, sem fim artístico, veiculada nas inúmeras publicações dos mais diversos segmentos, faz com que a reprodução técnica seja vista como uma nova forma de informar, de vender ideias a um público ainda maior. Então a imagem passa a ser peça fundamental para a comunicação de massa, como uma espécie de linguagem universal, livre de fronteiras, idiomas e regras. De acordo com Cláudio Kubrusly, As mais rápidas mudanças que influenciaram a fotografia da atualidade verificam-se na década de 60. De qualquer coisa que a anterior geração encarara como fora de moda, negócios sem interesse e ocupação pretensamente artística, a fotografia passou a fazer parte integrante do culto da juventude a “ 0” v q fotográficas de precisão para pequeno formato, do tipo de focagem reflexa pela própria objetiva (SLR: Single Lens Reflex), os disparadores de flash eletrônico, os sistemas de revelação automática e os pequenos laboratórios industriais para facilitar e tornar rápidas as rotinas da revelação, tudo isso aliado à explosão da fotografia de moda, teve seu necessário efeito. A fotografia passou a prender a imaginação do público. (KUBRUSLY, 1983, p.32) Com a presença constante de imagens em todas as esferas da vida pública e privada, a fotografia acabou por se integrar nos mais diversos campos da sociedade, aceita como legítima manifestação do homem contemporâneo. Desse momento em diante ela passa a invadir todas as áreas do conhecimento, inclusive a das artes aliando-se à arte moderna. Sobre isso ainda nos diz Cláudio Kubrusly: Embora muito dessa agitação se tivesse inevitavelmente diluído, o ar fresco que varreu a fotografia foi altamente benéfico. Os fotógrafos deixam b “ ” passa a ser aceita como um meio – impondo-se como 3027 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ forma dominante de ilustração por todo lado e, na mão dos artistas, uma crescente forma de arte. A partir do momento que a fotografia se tornou universal no estilo de vida contemporâneo, integrou-se na pintura moderna, na criação de cartazes e até escultura. (KUBRUSLY, 1983, p.33) Ainda assim, as galerias e museus tinham certo receio em abrir salas de exposições para a fotografia como obra de arte. Pouco tempo depois, a fotografia passaria a ser ensinada em escolas e academias de arte, mas é na América do Norte que ela recebe a devida importância por causa da criação de cursos superiores em fotografia que a incluíram em pé de igualdade no campo das artes, do design e nos campos dos estudos sociais e comunicação. A partir dos anos 1970, há uma aceitação maior da fotografia como meio, técnica de produção e poética artística, inclusive nos ambientes acadêmicos. Logo galerias e museus abririam suas portas para mostrar ao público imagens que até então não eram aceitas como obras de arte e inúmeros fotógrafos passariam a ser considerados artistas. Como diz Cláudio Kubrusly, A fotografia começou a ser ensinada em escolas e colégios, em especial colégios de arte, quando até então era considerada apenas um assunto técnico. A América foi pioneira na criação de graus universitários em fotografia, incluindo-a em arte e design, estudos sociais e comunicações... O trabalho criativo começou v “ õ ” pessoas que as compravam como investimento(...)(KUBRUSLY, 1983, p.33) Aos poucos, a imagem em preto e branco cai em desuso. O barateamento dos recursos faz com que jornais e revistas passem a utilizar a imagem colorida em suas publicações. A partir do momento em que a cor é inserida na fotografia, o grande público se sente ainda mais atraído. Os artistas fotógrafos também se deixam seduzir pela cor. Sobre esse processo, diz Suzete Venturelli: Como não poderia deixar de ser, a técnica da fotografia e o processo de obtenção de imagens do real 3028 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ chamaram a atenção de vários profissionais...O processo de manipulação da técnica permitiu que muitos artistas a utilizassem como uma nova matériaprima, que podia ser experimentada de todas as maneiras (rasgada, triturada e mesmo destruída). Meio mecânico que reproduzia a realidade, as experimentações que nos chegaram foram feitas com as técnicas de solarização, de impressões a partir do contato direto com os objetos, de sobreposição, de recortes, de montagens, de assemblages, de colagens etc. (VENTURELLI, 2004, p 17) Hoje estamos imersos num mundo de imagens que nos chegam não só pela fotografia impressa, mas também pelos inúmeros recursos técnicos e tecnológicos que acarretaram numa total transformação das nossas vidas. Temos à nossa disposição TV, informática, tecnologia digital. A fotografia ensina ao mundo que a imagem possui muito mais riqueza de informação e sedução do que a palavra escrita e falada. Segundo Suzete Venturelli, (...) Entre 1940 e 1950 outras invenções mudariam radicalmente a nossa percepção em relação ao tempo e o espaço. Foram elas: a televisão, que permitiu automatizar, com a eletrônica, a gravação, a transmissão instantânea e a recepção da imagem em movimento; e a informática, que possibilitou que se operasse diretamente sobre o menor elemento da informação no sentido cibernético, para que se tratasse os dados de forma numérica. (VENTURELLI, 2004, p 21) A imagem passa a tomar um espaço importante em nossas vidas, apresentando-se a nós com uma fonte rica em informação, capaz de apreender nossa atenção. Como não poderia deixar de acontecer, essa evolução tecnológica da imagem acaba por ser absorvida também pelas artes, que sempre se apropriaram das tecnologias (fossem elas suporte, meio ou linguagem) para produzir suas poéticas. Segundo Lucia Gouvêa Pimentel, O uso de tecnologia em arte não acontece somente em nossos dias. A arte, em todos os tempos, sempre se valeu das inovações tecnológicas para seus propósitos Até mesmo porque seu ideal de transcendência ao comum necessita do que está disponível, para que algo 3029 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ seja criado. Nesse sentido, a gravura, o cinema e a fotografia, por exemplo, levaram algum tempo para serem reconhecidos como Arte; mas, assim que isso aconteceu, outras foram as tecnologias que surgiram e outros questionamentos. Pode-se dizer, mesmo, que, algumas vezes, foi a Arte que impulsionou o aparecimento de tecnologias: não houvesse a preocupação estética com a imagem, como o design, não haveria a diversidade de programas para seu tratamento e aprimoramento. (PIMENTEL, 2008, pag. 114) Com o contínuo surgimento de novas tecnologias, a imagem passa a sofrer transformações irreversíveis, podendo reproduzir-se infinitamente, adquirindo qualidades cinéticas, sonoras e até volumétricas. Imagens podem ser concebidas, geradas e disseminadas simultaneamente numa escala global. Graças aos recursos tecnológicos, essas imagens podem ser capturadas, manipuladas, transformadas e reutilizadas constantemente pelo público em qualquer parte do mundo. A ESCOLA ONTEM E HOJE Quando se fala em tecnologia, logo vem à nossa mente uma série de equipamentos de uso cotidiano (como computador, celular, tv, dvd, mp3, pendrive, cd, e inúmeros outros periféricos) que usamos tanto para nosso lazer como para nos comunicarmos e nos mantermos informados sobre o que está acontecendo em nossa cidade, estado, pais e mundo e até mesmo fora dele. Já a ideia de educação sempre vem associada a recursos tradicionais. Nos anos 1980, a escola ainda era vista como única fonte de conhecimento. Era nela que aprendíamos a ler, escrever, e recebíamos informações sobre história, geografia, língua portuguesa e matemática. Era na escola que tínhamos nossos primeiros contatos com o conhecimento através dos livros didáticos, do quadro negro utilizado pelo professor e pela folha mimeografada que, às vezes, era distribuída entre os alunos. Esses eram os recursos e as tecnologias disponíveis em sala de aula. Apesar da aparente precariedade, tudo era novo, nada daquilo que víamos era já de nosso conhecimento. Sentávamos em nossas classes e 3030 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ aguardávamos passivamente as orientações do professor. Não era possível interagir com as informações apresentadas pelo professor, pois não tínhamos v “ q ” M q prestando atenção no professor, que durante muito tempo nos inteirava sobre v “ ” q v q sem direito ou capacidade a contestar, ou de dar uma opinião. O ensino tinha a finalidade de formar cidadãos capacitados para ocupar algum lugar na sociedade, não de formar cidadãos capacitados a v b v “ ” pelo professor para que no futuro ele soubesse onde aplicar aquele conhecimento que obteve anos atrás. A partir da década de 1990 a Educação, no Brasil, sofre algumas reformulações. O aluno deixava de ser visto apenas como um número, uma nota. A escola passa a preocupar-se mais com qualidade do que quantidade, as bibliotecas receberiam mais livros para pesquisa, a informatização da educação parecia estar assegurada. Os dias de uma educação tecnicista e autoritária estariam com seus dias contados. Sob o ponto de vista do uso dos recursos tecnológicos, houve melhora na educação a partir da década de 1990. Mas a escola ainda ficou para trás em alguns aspectos. Um dos maiores desafios é o da inclusão digital de alunos e professores. Os alunos de hoje, na sua grande maioria, especialmente os jovens, não possuem nenhuma dificuldade em se apoderar desses recursos, seja para sua diversão ou para a aplicação em seus estudos. Já os professores, por falta de conhecimento e familiarização com os equipamentos, tem receio em utilizá-los na preparação de suas aulas. Falando sobre alfabetização Marisa Sampaio diz: (...) Em muitas escolas, a prática alfabetizadora continua se pautando pelas antigas concepções de alfabetização, podendo ser chamada de tradicional. Concepções estas baseadas na visão mais restrita e mecânica do processo de alfabetização, que remontam ao inicio do processo maciço de alfabetização da sociedade, desencadeando, como já vimos, por razões econômicas. E isso continua ocorrendo ainda hoje a 3031 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ discussão a respeito de alfabetização, em termos teóricos, seja unânime em encará-la como um processo mais amplo, muito mais do que simplesmente decodificar a língua, concebendo-a principalmente como um caminho para estar inserido no mundo. Para ler, o leitor interage com o texto, toca com ele informações que possui, forma uma concepção própria do que leu, e com isso vai formando também sua própria concepção de mundo. (SAMPAIO, 1999, pag.55) Embora os alunos recorram vastamente às novas tecnologias para elaborar suas pesquisas e trabalhos escolares, tais recursos ainda hoje permanecem fora da sala de aula, e não são reconhecidos como fonte de conhecimento pela maior parte dos professores. O ALUNO PLUG AND PLAY Convivendo com tecnologias de comunicação e informação (como TV, computador, celular e seus periféricos), em que a interação se dá em tempo real, como exigir de uma geração que vive em um mundo acelerado, que permaneça passiva diante da pluralidade da informação disponível? Os alunos de hoje são bombardeados o tempo todo com novidades na área da tecnologia da informação e comunicação. Um endereço eletrônico seguido de um “ k” b b q v z atrás. O gráfico a seguir demonstra qual a familiaridade dos jovens que foram entrevistados com as tecnologias disponíveis: Pesquisados que possuem familiaridade com os recursos multimídia 3032 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Como podemos observar no gráfico acima, o percentual de alunos que tem acesso aos esses recursos tecnológicos é superior aos que não tem. Também é expressivo o número de alunos que dispõem de algum tipo de dispositivo tecnológico com software de edição de imagens e de sons. A partir desses dados é possível notar que para esses alunos, na sua maioria, o uso de tecnologia no seu cotidiano é algo que acontece naturalmente. Como conseqüência da convivência diária com esses meios, a vida desses alunos sofre uma aceleração que o meio escolar desconhece e, na maioria das vezes, recrimina. O mundo fora da escola oferece uma infinidade de sons e imagens, disponíveis a qualquer momento através do contato com as formas de comunicação e informação da sociedade contemporânea. Ao entrarem na sala de aula são obrigados a desacelerar e, diante de métodos antiquados, sem atrativos, sentem um natural desinteresse. Os métodos de ensino ainda não são capazes de aproveitar essa energia que a era digital desencadeou e que se faz presente na vida das novas gerações. Nesta pesquisa, um dos professores entrevistados observou que os recursos tecnológicos já estão tão inseridos na vida dos alunos, que eles os consideram como dados naturais. Chama mais a atenção a ausência dos recursos, do que propriamente a presença. O professor complementa o raciocínio, dizendo que os alunos utilizam os recursos com muita 3033 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ naturalidade. O fato de o computador estar à disposição para baixarem e ouvir música ou procurarem imagens ou informações na Internet é uma realidade. Acrescentou ainda que talvez eles precisem de umas aulas à “ ” -projetor ou textos com folhas mimeografadas, por exemplo. (PROTOCOLO 01, linhas 26 a 37) O gráfico abaixo aponta qual a freqüência de acesso à internet dos jovens entrevistados durante o tempo que estão fora da escola. Pesquisados que possuem acesso a internet Os jovens entrevistados demonstraram, conforme gráfico acima, que o acesso diário à internet é constante. A rede é usada para se comunicarem e pesquisarem sites de seu interesse. Se esses alunos tiverem uma orientação do professor eles podem entender que, à sua disposição, está um recurso que pode ser usado como fonte de conhecimento. É q “ v ” da como tudo funciona para poder utilizar essa tecnologia a serviço do aprendizado e da P “b ” tudo acontece muito rapidamente. Os jovens simultaneamente conversam ao celular, teclam em softwares de mensagem instantânea, assistem a um clipe 3034 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ de seu ídolo na TV e ainda baixam músicas em seus mp3, mp4, mp5 etc. Fazem tudo ao mesmo tempo, e sem muitas dificuldades. Esses mesmos alunos que utilizam material disponível na rede mundial de computares para realizar suas tarefas escolares aprovam, na sua grande maioria, o uso desses recursos em sala de aula e concordam que dessa forma aprendem mais. Tratando do uso das tecnologias como ferramenta capaz de colaborar para uma educação mais eficaz, o professor de artes do IF-Sul reconhece que: ( ) õ q “b ” mas ela por si só não determinada nada. Aliás, todo e qualquer recurso técnico predispõe a alguma coisa, alguma experiência significativa. Mas nenhuma atividade (...), como um filme, uma proposta de arte, um show musical, um programa de televisão, uma palestra áudio-v “ ”( ) porque dispõe de interfaces e alta tecnologia. Isto não só em termos de sucesso, mas de fracasso também(a presença dastecnologias digitais não colocaria tudo a perder como alguns pensam!). Há outros fatores que estão concorrendo: fatores que individualizam a utilização das tecnologias digitais, fatores que articulam agenciamentos, para que algo alcance seus objetivos, que seja eficaz. (PROTOCOLO 01, linhas 55 a 71) Sobre o mesmo assunto, sua colega, também professora de artes, diz que a tecnologia por si própria não garante uma educação mais eficaz. Isso depende das formas de uso e da atitude pedagógica do professor. (PROTOCOLO 02, linhas 45 a 49) Analisando os comentários dos entrevistados, é importante sublinhar que o professor não deve esquecer de orientar seus alunos no uso correto dessas mídias. Por outro lado, ao trabalhar com atividades artísticas, deve propor ações que desenvolvam sua criatividade, assim como seu senso crítico e estético. Cabe ao professor instrumentalizar o aluno para que ele tenha autonomia para interagir com as mídias contemporâneas. Conforme afirma também J.L.A.Machado. 3035 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “ P w P ” compreender que optar pelas frouxidão que o uso dos recursos tecnológicos pode acarretar é optar pela notoriedade, por aquele estilo existencial em que a pessoa não pensa por ser pensada, não decide por ser decidida e nem age por ser levada de roldão e a reboque dos processos comandados por quem tem imenso interesse em vê-lo como massa de manobra, cordeirinho dos senhores do mundo e serviçal obediente dos aproveitadores de plantão. Ele precisa entender que conhecer e saber só fazem sentido se nos ajudam a ser mais, finalidade para a qual o uso empobrecido do Power Point não pode contribuir. (MACHADO, 14.08.07) Podemos observar também, no gráfico abaixo, de que maneira esse comportamento se manifesta entre os alunos pesquisados: Pesquisados que aprovam o uso desses recursos em sala de aula Conforme o gráfico acima, podemos observar que, na sua grande maioria, os alunos pesquisados aprovam o uso de tecnologia em sala de aula. Acham que entendem e assimilam com maior rapidez o que está sendo apresentado pelo professor. Pode ser um desafio cativar a atenção do aluno da mesma forma como ela é cativada fora da escola por esses inúmeros recursos ao quais eles já estão familiarizados e os fascinam. Mas é preciso que os professores aprendam a lidar com esses recursos que disponibilizam conteúdos tão ricos em som e imagem, além do conteúdo textual já tão explorado por décadas na educação. De acordo com José Manuel Moran, 3036 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Na sociedade atual, em virtude da rapidez com que temos que enfrentar situações diferentes a cada momento, cada vez utilizamos mais os processos multimídicos. Por sua vez, os meios de comunicação principalmente a televisão, utilizam a narrativa com várias linguagens superpostas, que nos acostuma, desde pequenos, a valorizar essa forma de lidar com a informação, atraente, rápida, sintética, o que traz conseqüências para a capacidade de compreender temas abstratos de longa duração e de menos envolvimento sensorial. (MORAN, pag.21) A cada dia novos alunos entram num mundo digital e virtual para se comunicar, divertir ou se informar. Eles recorrem às tecnologias para tirar suas dúvidas ou simplesmente passar o tempo. Essa geração não é mais passiva e submissa diante de seus mestres; os alunos de hoje são ativos, críticos e expõem suas idéias firmadas em informações colhidas nessas diversas fontes de conhecimento que a vida contemporânea disponibilizou. Ainda segundo José Manuel Moran, A construção do conhecimento, a partir do “ v ” rígida, com conexões mais abertas, que passam pelo sensorial, pelo emocional e pela organização do racional; uma organização provisória, que modifica com facilidade, que cria convergências e divergências instantâneas, que precisa de processamento múltiplo instantâneo e de resposta imediata (MORAN, 2000, pag.148) Diferentemente de nós, quando estávamos em sala de aula, esses alunos não querem mais ficar sentados apenas prestando atenção no que um “ ” q x q alguma forma, já tiveram contato com o assunto exposto. Certamente, em algum momento, já viram o que se discute em aula fora da escola (na internet, na TV ou no DVD etc). Eles querem ter voz. Quanto às vantagens e desvantagens do uso de tecnologia em sala de aula, um dos entrevistados declara que o uso da internet, na sala de aula, 3037 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ torna-se imprescindível para pesquisar sobre um determinado assunto, quando surge a necessidade. (PROTOCOLO 01, linhas 38 a 50) O mesmo professor completa: (...) [Eu] não preciso mais carregar tantos livros cada vez que preciso de uma imagem. Pode-se acumular uma infinidade de imagens numa mídia (CPU, CD ou DVD); com o auxilio dos recursos multimídia pode-se preparar material áudio-visual com precisão e praticidade. Já a única desvantagem seria quando o recurso não funciona, estando indisponível. (PROTOCOLO 01, linhas 38 a 50) Então, antes de condenarmos essa agitação, essa energia que esses novos alunos “plug and play” possuem, nós, professores, deveríamos nos atualizar e direcionar toda essa potencialidade para o seu próprio aprendizado, mostrando a eles caminhos para que possam entender que toda essa tecnologia à disposição deles também pode ser aproveitada na sua formação. O PROFESSOR E O IN/OUT Qualquer pessoa, com mais de trinta anos, já se deparou com um monte de fios e periféricos e não soube como interligar tudo. A nova geração sabe conectar tudo sem a menor dificuldade, conhece bem as entradas e saídas de áudio e vídeo, conexões USB, HDMI entre tantas outras existentes e sabe como fazer um aparato tecnológico funcionar. Para muitos professores isso é um verdadeiro quebra-cabeças. Eles olham para aquela parafernália e pedem para algum técnico vir ajudá-los, quando não desistem de utilizá-las por não saberem como funcionam. Uma solução é pedir a um aluno para ligar: ele provavelmente o faça sem o menor problema. Assim, o problema se torna ainda maior, pois se é difícil entender como ligar os equipamentos, imagine também ter que entender como funcionam os softwares e descobrir como cada um deles se comunica com 3038 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ outro para dar continuidade ao trabalho e assim poder gravar e editar um DVD ou CD-Rom. Embora muitos professores sejam de outra geração (a dos livros, cadernos e lápis), também vejo essa dificuldade presente na rotina dos professores recém- formados por faculdades onde a área da tecnologia não é discutida como ferramenta na multiplicação do conhecimento. Como afirma Marisa Sampaio. “ z q j precise estar preparado para realizar seu trabalho com competência, consciente de que vivemos num mundo onde diversos meios podem levar ao raciocínio e ao conhecimento, além da tradicional aula expositiva. O uso crescente dos meios audiovisuais e da tecnologia em geral na sociedade diversificou as estratégias de aprendizagem informal. Além disso, há um grande volume de informação que circula com muita rapidez e através de múltiplos meios. (SAMPAIO, 1999, 10) Nessas faculdades os professores em formação estudam filosofia da educação, psicologia da educação, conhecem várias linhas pedagógicas, aprendem a fazer planos de aula. Mas não aprendem a reconhecer as novas tecnologias como ferramentas para a educação. Será que os professores não devem pensar também nas novas tecnologias como recursos indispensáveis à aprendizagem nas suas aulas? Quando falo na necessidade de o professor fazer uso da tecnologia para trabalhar seus conteúdos em aula, não me refiro apenas ao acesso a hardwares e softwares, ou ainda a recursos audio-visuais (como CD-Rom e DVD) já prontos, com conteúdos previamente preparados. Refiro-me também à importância que deve ser dada à habilidade do professor em preparar suas aulas. Ao utilizar softwares para edição dessas aulas, aplicando hipertextos, links e escolhendo imagens, trilha sonora, ele passa a utilizar também a tecnologia como área de trabalho, como ferramenta real de produção e multiplicação de conhecimento. Mas para isso ele precisa estar ciente de que uma atualização constante é necessária. Segundo um dos entrevistados, que com freqüência se utiliza desses recursos em sala de aula, a importância de uma atualização tecnológica do 3039 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ professor é fundamental, pois acredita que todo professor deve estar acompanhando as transformações do seu tempo. (PROTOCOLO 01, linhas 51 a 54). Outra entrevistada diz que acha importante, no sentido de uma aproximação entre os códigos e linguagens utilizadas pelos alunos e professores. (PROTOCOLO 02, linhas 41 a 46) Essas são minhas idéias básicas quando falo em utilizar multimídia em aula. Não se trata apenas de saber ligar e desligar equipamentos, mas entender como funcionam e quais as vantagens dessas tecnologias tanto para o aproveitamento do conteúdo de forma mais prazerosa e com uma linguagem mais próxima aquela dos alunos, quanto no que se refere à formação dessa geração que vive em constante conexão com o mundo fora da escola. Falo da necessidade que vejo em uma constante atualização dos professores em novas linguagens de informação e suas tecnologias, da importância da visualidade e de sua evolução no contexto humano. Falo da importância de que seja oferecido aos professores em formação, nas universidades, o conhecimento de todas as vantagens do uso desses recursos para sua profissão. Sobre esse assunto diz Marisa Sampaio: A reflexão a respeito da necessidade da inserção crítica de todos nós na sociedade tecnológica e da responsabilidade da escola e do professor para que este processo se concretize vem demonstrar a preocupação com um tipo de formação que capacite o professor a enfrentar os novos desafios que a dinâmica desta sociedade traz. Esta preocupação impulsiona e sustenta este trabalho que apresenta e discute idéias relacionas ao conceito da alfabetização tecnológica do professor dos ensinos fundamental e médio. Este tema é atual e complexo e contribui para a atribuição de significado e amplitude ao processo de preparação do professor no que se refere ao mundo da tecnologia, e poderá servir como base para que cursos de formação de professores orientem a prática pedagógica desde profissional no tocante à sua relação com a sociedade tecnológica. (SAMPAIO, 1999, pag.13) Nesse sentido, minha pesquisa acentua a importância que deve ser dada à atualização tecnológica contínua do professor e quais as vantagens 3040 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ que o uso dessas tecnologias pode promover no ensino de arte e na educação contemporânea. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como resultado da pesquisa, concluo que, de fato, os jovens que estão entrando hoje na sala de aula apresentam grande familiaridade com os meios tecnológicos disponíveis. Indubitavelmente os novos recursos multimeios estão presentes no dia-a-dia desses alunos. Há um abismo entre a forma como o professor de arte está habituado a ministrar suas aulas e a realidade vivenciada pelos alunos fora da escola. Assim, quando o assunto é tecnologia, vejo como necessária uma constante atualização dos professores, para que possam transformar essa energia em potencial em experiência educativa. Não devemos esquecer que a disciplina de artes necessita constantemente do uso da imagem e por esse motivo reafirmo que o uso dessas tecnologias pode, sim, servir como uma ferramenta a mais para promover aulas mais atrativas e assim fazer da escola e da sala de aula um lugar mais agradável para as experiências educativas. Evidentemente, a utilização desses recursos não substitui o professor. Pelo contrário, a tecnologia só será eficaz na medida que o professor saiba utilizá-la. Entendo que existe na tecnologia um grande potencial para ser usado na disciplina de artes, uma vez que os recursos disponíveis podem associar som, imagens e textos, trazendo para a sala de aula os ambientes virtuais vividos por nossos novos alunos. O conhecimento do professor, aliado ao uso desses recursos, deve favorecer o processo de ensinar e aprender, numa troca contínua entre professor e aluno, mediado pelos recursos tecnológicos da sociedade contemporânea. Resumen: El trabajo trata del empleo de las tecnologías en la enseñanza de los artes visuales. Objetiva investigar la actualización tecnológica del profesor de los artes visuales, cuando esa actitud permite alcanzar una mayor interacción con sus alumnos. Propone un abordaje cuantitativo y cualitativo consistiendo en un estudio desarrollado en el Instituto Federal Sul-riograndense (IF Sul, campus Pelotas). 3041 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PALABRAS CLAVE: La educación. La educación artística. Actualización tecnológica. La alfabetización digital. Formación de docentes. REFERÊNCIAS ARANTES, Priscila. Arte e Mídia. São Paulo: SENAC, 2005 BENJAMIM, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985 COSTA, Cristina. Educação, Imagem e Mídia. São Paulo: Cortez, 2005 GALLEGARO, Tânia. BARBOSA. Ana Mae, (org.). Ensino de Arte na Internet - Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte. São Paulo: Cortez, 2008. 5. Edição KUBRUSLY, Claúdio A. O que é fotografia. São Paulo: Brasieliense, 1983. MACHADO, J.L.A. O Fenômeno do Professor Power Point. Jornal do Comércio, 14.08.2007 MORAN, José Manuel. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. Campinas: Papirus, 2000 PIMENTEL, Lucia Gouvêa. BARBOSA, Ana Mae. (Org). Tecnologias Contemporâneas e o Ensino de Arte - Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte. São Paulo: Cortez, 2008. 5. Edição SAMPAIO, Marisa. Alfabetização Tecnológica do Professor. Petropolis: Vozes, 1999 VENTURELLI, Suzete. Arte: Espaço Tempo Imagem. Brasília: UnB, 2004 3042 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Cinema: uma ideia para repensar o currículo atual Cunha-Luna, Cristiane J.83 Treicha, Marília D.84 Resumo: Esse trabalho tem por objetivo propor uma discussão entre o atual currículo, o currículo desejado, a educação e o cinema. Pensamos que a 83 Graduada em Licenciatura Plena em Cieências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel); aluna do Curso Pós-Graduação Latu senso em Educação do IFSul/Pelotas; professora da rede Pública Municipal em Pelotas (séries finais/ciências); ex-bolsista PIBIC UCPel pelo Projeto de Malformação Congênita e Genotoxicidade; Tutora a Distância do Curso Pós-Graduação Latu sensu de Educação Continuada (CPEaD) UAB/IFSul; Pesquisadora voluntária em Educação e Cinema orientada pela Prof. Msc. Regina Zauk Leivas e em EaD. Email: [email protected]; [email protected]. 84 Graduada em Letras - Português e Literaturas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); aluna do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias (CPG-Ling) do IFSul; professora da rede pública Estadual de Ensino (séries finais); tutora a distância do Curso de Educação Continuada (CPEaD) UAB/IFSul; Pesquisadora voluntária no projeto de pesquisa Por que ler os clássicos? e do projeto de pesquisaNarrativas de professores em curso online de formação continuada: refletindo sobre a construção da identidade docente. Email: [email protected]; [email protected]. 3043 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ utilização do cinema no processo de ensino/aprendizagem, nesse mundo de tecnologias, permite que o conteúdo seja proposto com movimento sofrendo e causando alterações a todo o instante. Logo, o cinema pode ser considerado um facilitador no processo de aprendizagem. Palavras-chave: Cinema. Educação. Currículo. Introdução O conhecimento, bem como o currículo, é visto como algo segmentado, paralisado e imutável. Ao passo que as disciplinas são estanques, que a pedagogia é diretiva (decide quando e como as coisas serão trabalhadas), que o conhecimento se dá por transmissão e não por assimilação, são urgentes as medidas que repensem o atual currículo. N v “Cabeça Bem Feita” M saber, logo também, a do currículo. Lembramos que estamos em uma época na qual as situações vividas são complexas, sendo praticamente impossível serem resolvidas por apenas uma área do conhecimento. Assim, esse trabalho tem por objetivo propor uma discussão entre o atual currículo, o currículo desejado, a educação e o cinema. Tentamos entrelaçar esses meios propondo métodos que colaborem para que a aprendizagem não se reduza a abordagens imaturas, através de métodos ultrapassados, que corroboram com o currículo que temos em nossas escolas. Currículo O currículo atual, no Brasil, segundo Regina Cunha (1997), vivencia uma crise de legitimação por não conseguir, na prática, implementar seus princípios teóricos. Discutir o que é o currículo seria uma saída apontada por Cunha, levando em consideração a realidade brasileira, que se apresenta cindida, explorada e danificada. Como podemos perceber, em nossa vivência enquanto docente, é esperado possa transmitir valores e padrões de comportamento sociais próprios da sociedade em se que se vive (Moran, 2006) reprimindo comportamentos fora desse padrão e até repelindo novas formas de 3044 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ assimilação e percepção do saber. Logo, o currículo perde o sentido epistemológico da palavra que se refere ao movimento. Nesse contexto, no currículo atual, o professor é formado para valorizar conteúdos e ensinamentos acima de tudo (Moran, 2006). Algo que temos que atentar é os docentes de hoje são "frutos" do currículo atual. Então repensá-lo, pode por em dúvida a sua própria formação, mas através de cursos de atualização e educação continuada é possível perceber que a escola que temos não atende a demanda que nela chega. Porém, no convívio escolar e para evitar o êxodo, nós docentes temos de estar como todos alunos em sala de aula, logo temos turmas com diversos problemas sociais desde de déficit de aprendizagem até violência familiar. E o currículo passa ser um norteador das aulas, as vezes não tão v “ v ”q v Por isso que urge-se a necessidade de repensar um novo currículo para esses educandos tão diferentes que nem sempre tens os mesmos interesses. Em seu texto, Paraíso (2003) analisou a possibilidade de ter como modelo curricular o currículo-mapa, por inferir que é um modelo abrangente e dinâmico, que possibilita os pontos de entrada e saída e tem características pós-críticas. Traria a as questões de rizoma com sua horizontalidade e certa verticalidade, com pontos fixos, dos quais partem outros ramos em várias direções, em que todos ocorrem ao mesmo tempo e, de certa forma, dependentes. Ao analisar as questões curriculares, um currículo pode possui tantas definições quanto formos capazes de construir, não se preocupando com modos de ensinar, problematizando os modos e formas, possibilitando múltiplos caminhos a seres trilhados, mas, nenhum deles isento de poder, mostrando sua capacidade de expansão e conquista. Pois ele é formado por pontos de entradas, não possuindo uma tendência linear. Então, ao padronizar o currículo (um para todos), padronizando, assim, a diferença, parece-me que tal ato perde a características pós-crítica, pois, segundo o que explana Silva (2001) em seu texto, é a impessoalidade do que 3045 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ perpassa no cotidiano das pessoas que faz essa diferença e que a torna única, um insight. Cabe aqui ilustrar e exemplificar como os fenômenos naturais, que apenas acontecem independente da vontade de cada um. Considerando com a mesma linha de pensamento, da mesma maneira que o sujeito se faz mutável, aquilo que é produto desse sujeito é mutável também e está sujeito ao julgamento de quem faz, produz. Igualmente ocorre com currículo, que é influenciado por quem o faz. Seriam então, estabelecido, aqui, as relações de poder. Dessa forma, o que poderia ser pensado e discutido seria currículos que fossem flexíveis de acordo com a região, com a localidade da escola e perfil dos alunos, assim talvez evitaríamos problemas de abandono escolar ainda nos primeiros anos. O currículo seria significativo e não engessado de certa. Os alunos poderiam opinar temas para serem discutidos ou abordados, a tecnologia seria uma aliada e não a vilã da história. Salas audiovisuais seriam de igual importância aos laboratórios de informática e ciências, pois nesses locais a haveria produção do saber e entendimento da complexidade das relações. Cinema Ao utilizar-se o cinema, nos processos de ensino/aprendizagem, nessa era de tecnologias, nos possibilita observar e compreender conteúdos trabalhados em aula em movimento, sofrendo e causando alterações a todo o instante, demonstrando de alguma forma as relações que vivenciamos em nosso cotidiano. Segundo Guigue (1998), o cinema vai além do belo e agradável, pode afectar um indivíduo tanto (ou mais) quanto um texto, uma aula, música, pois trás a superfície, o cotidiano, a angústia, a própria produção do saber, sem imposição ou limitações. Como afirma Duarte (2002), (...) ver filmes, acabam interagindo na produção de saberes, identidades, crenças e visões de mundo de um grande contingente de atores sociais. Esse é o maior interesse que o cinema tem no campo educacional – sua natureza eminentemente pedagógico. (p.19) 3046 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Acrescendo a tal fato, de acordo com Leivas (2010), nestes tempos em que propostas interdisciplinares assumem grande importância, o filme pode, sem dúvidas, explicitar as relações possíveis para o diálogo entre as disciplinas. Possibilitando, talvez, certa articulação no currículo. Assim, o filme não é só visual, também traz consigo uma carga q “ ” â (GUIGUE, 1998). Logo trabalhamos com diversas áreas cerebrais: a memória que identifica a cena a seguir de acordo com o tom da música. E deste modo podemos explorar os filmes de diversas maneiras. Lembramos que há de se ter um cuidado, pois o cinema não pode ser visto somente de maneira ilustrativa, a exemplificar conteúdos, ele tem de ter um sentido maior com os seus próprios atributos. O filme poderá perder o seu valor de arte e passar a ser exemplo, enquanto podia ser explorado num todo. Propor esses ensinamentos ainda nos bancos acadêmicos, através de cadeiras, disciplinas que possibilitem aos futuros docentes entender sobre o cinema e suas formulações, reverteria em práticas inovadoras e totalmente aplicáveis, sem desprezar o valor que tal arte pode agregar ao aprendizado, e, também, tornando as aulas esclarecedoras e interessantes. Nesse sentido o cinema pode ser um meio de dialogar e repensar o currículo atual, tornando-o flexível, articulado e interligado, já que é uma arte que possibilita diversos olhares, desde o tema principal do filme, os efeitos visuais ou a própria construção do filme. De acordo com Merten (1990) o cinema pode impor conceitos e influenciar as pessoas através de suas imagens inconscientes e dessa maneira influenciar no processo de aprendizagem e educação. O mesmo autor, ainda, adverte que o cinema pode se tornar um interlocutor ditatorial quando coloca o telespectador numa situação passiva, na qual se pode associar à educação bancária, na qual um fala e outro só absorve sem criticidade. Porém cabe a nós, enquanto educadores, advertir nossos estudantes e conhecer de certa forma a história do cinema, para que os alunos que auxiliamos na formação não sejam espectadores passivos, que tenham opinião e que saibam diferenciar a ficção da realidade. Discussões 3047 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ De acordo com Souza (2009) é uma necessidade rever o papel do currículo na contemporaneidade, sua finalidade de ser exclusivamente um local exclusivo de informação, já não mais atende o sujeito e nem a demanda que a mesma atende. O processo escolar sozinho não compreende as complexidades cotidianas, com conteúdos entrelaçados, com a informação z B “F ” 85 para saber o que ocorre nesse exato momento, o obsoleto passa ser nosso estado atual. E a escola que, às vezes, não possuem nem rede de internet disponível aos docentes, como fica? Em contrapartida, também podemos atribuir essa separação do saber a uma forma de controle, pois o mesmo ocorre na divisão do trabalho. Assim, um trabalhador que participa da fabricação de um carro possui apenas o conhecimento da parte do carro que monta, mas não teria hipoteticamente a capacidade de fabricar um carro sozinho. Educandos que não possuem internet ou computador em casa têm acesso aos mesmos em lan houses. Então, a maioria pode ter acesso a esse tipo de ferramenta mediadora ou pelo menos sabe onde buscá-la. Há escolas que possuem laboratório de informática e permitem que os alunos o frequentem no turno inverso para pesquisa. Essa é uma maneira de socializar o saber através do uso consciente da internet, revertendo em conhecimento e trocas de saberes. Dessa forma, atualmente, todas as relações se dão de forma â v “ ” acesso a muitas informações, inclusive aos conteúdos abordados em aula, que se apresentam nesses meios em movimento ou de forma lúdica. Com as diversas transformações tecnológicas as quais estão em processos contínuos, a educação passa a ter os seus espaços ampliados com outros contextos, deixando de ser restrita a sala de aula. Com novos ambientes educativos (AVA – ambientes virtuais de aprendizagem) cabe aos b (“ ”) adequarem a essa situação, compreendendo que nesses lugares também se 85 Tecla de atalho para atualização de páginas na internet. 3048 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ produz conhecimento como também em salas audiovisuais. Conforme Morin (2003), além do desafio global temos o desafio da expansão incontrolada do saber. Aqui fica uma pergunta: Enquanto docentes estamos preparados para tais desafios? Considerando a escola um local de produtividade, de produções científicas e tecnológicas, de multiplicação de tarefas, acumulação quantitativa de informações e confrontos (de raça, sexo, crenças), ela tem de ser entendida como um todo sem divisões, pois o objetivo é único: a produção e/ou instigação do saber. Assim, os pontos negativos em relação ao currículo atual são advento da especialização que dá pela fragmentação do saber ocasionado o processo de disciplinarização e o desmembramento da inteligência e proporcionando os estigmas de dicotomias (certo X errado). Enquanto uns acham que certas questões são específicas para serem abordadas em uma determinada disciplina, outros acham que esse é papel de outra ou então, é tema transversal que pode ser abordado em uma palestra fora do tempo e espaço sala de aula o que proporciona o currículo atual das escolas públicas e/ou particulares que é fragmentado, deixando o conhecimento fixado nessa ou naquela disciplina. Citamos, por exemplo, questões em torno da reciclagem, um tema que pode ser discutido em todas as disciplinas ou por mais de um professor no próprio período de aula. Quando se trabalha um tema em mais de uma disciplina ou oficinas, torna-se uma exceção tal atividade. Sendo esse tipo de evento inconstante em nossa realidade. P x b “b X ” e analisarmos a especialização para, além disso, veremos que ela proporciona um maior aprofundamento do saber em uma determinada área. Pois, com tantas relações simultâneas, tantos conhecimentos sendo produzidos diariamente, que não damos conta, muitas vezes. Por isso, faz-se necessária a especialização, mas não podemos deixar de pensar no todo, que será infinitamente maior do que tantas partes que pode ser dividido. Ressaltando a íntima ligação do todo, o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo, como o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes, ideias abordadas por Morin (2003). Desse 3049 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ modo, filmes que mostram relações complexas entre povos de diferentes raças, ou melhor, origens, que abordam temas como respeito, aceitação, biodiversidade, permitem identificar as partes, o todo e a parte do todo. Na tentativa de encontrar meios e formas de convivo com esses desafios, podemos pensar que a utilização do cinema no processo de ensino/aprendizagem, nesse mundo de tecnologias, possibilita ter conteúdo/matéria em movimento, colorido, falando, sofrendo e causando alterações a todo o instante. Segundo Guigue (2004), o cinema vai além do belo e agradável, pode afectar um indivíduo tanto (ou mais) quanto um texto, uma aula, música, pois traz à superfície, o cotidiano, a angústia, a própria produção do saber, sem imposição ou limitações. O cinema pode ser considerado um mediador no processo de apreender, já que é capaz de mostrar ou simular situações complexas que abrangem mais de uma área do saber, bem como abordagem dos mesmos temas de sala aula com outra roupagem. Sob essa mesma ótica existem filmes, desenhos, vídeos que podem contextualizar o saber e auxiliar na apreensão do mesmo. Segundo Duarte (2002), o cinema auxilia a transitar por diversos campos culturais. De acordo com a mesma autora: “O XX j q tivesse entrado em contato com a imagem em movimento, independente da avaliação estética, política q q ” (DUARTE, 2002, p.18) Então, imagine os nossos alunos, em contato diário com as apelações da mídia, filmes, reportagens, isso somente citando alguns programas da televisão aberta, fora os programas que passam na televisão por assinatura. Como, sabendo dessa situação, que acontece independente da nossa vontade, poderemos, ainda, inseri-los no mesmo contexto escolar de 20 ou 30 anos atrás? Uma das dificuldades encontradas em trabalhar cinema é o fato de tal prática ser encarada como lazer, podendo ser somente assistida pela arte e entretenimento. Quando, ao contrário, uma leitura cinematográfica é rica x z ú “ ” 3050 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ocorre tanto com alunos, professores e pais, que, talvez, não consigam enxergar a riqueza de conteúdos que um filme pode carregar. Assim, percebemos que o ensino está no âmbito da perspectiva da contradição, pois se ensina de forma separada e há a necessidade de preparar o aluno para o todo, para as complexidades contemporâneas. E por não conseguir ter a ideia desse todo, o jovem e o adulto têm sua capacidade de resolver situações mais complexas reduzidas. Quanto mais especialista a pessoa é, menos dá conta do global. Novamente, retornamos à máxima da inter-relação de saberes, não só estudantil, bem como cultural, o qual também nos completa enquanto seres que vivem em sociedade. Considerações Finais Além de discutirmos currículo, cinema e educação, nos propomos um grande desafio que seria tornar o currículo atual flexível com os temas contemporâneos e com a demanda que chega aos bancos escolares. Porém M ( 00 ) “ um ensino e uma educação de qualidade, que integre todas as dimensões ” v educadores, gestores, pais e a sociedade em geral, vemos que desde modo conseguiríamos, através da colaboração de todos, integrar todas as faculdades do ser humano e abranger a todos aqueles que fazem parte dessa massa, chamada sociedade. Depende de cada um e de todos a luta em prol de uma educação de qualidade em que cidadãos não sejam marionetes formadas pela escola, que sejam críticos e que utilizem sua criticidade em favor deles próprios e da sociedade. Tendo em vista que, enquanto docente, é difícil dar conta do todo, pois nossa formação é em áreas (o que nos torna especialista), fazem-se necessários meios que estimulem a relação das temáticas norteadoras do currículo, tais como formação de grupos temáticos que possibilitem a interdisciplinaridade, sem sobrecarregar nenhuma das partes envolvidas. 3051 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Nesse caso, com o cinema, podemos relacionar o novo conhecimento (conteúdo a ser trabalhado) e o já adquirido no decorrer de sua vivência social e estudantil. O que será assimilado poderá ser diferente para cada indivíduo, mas será de igual valia. Logo, tem- bj v “ b ” para essas novas práticas que envolvem cinema, na busca de contextualizar, ressignificar o conhecimento e repensar as práticas pedagógicas adotadas, bem como traçar paralelos multidirecionais entre a construção do saber, através do sujeito como autoridade nessa construção, buscando a desmistificação do mesmo. E entendê-lo em sua amplitude e riqueza de aproveitamentos. Nesse sentido, são urgentes medidas que repensem o atual currículo, q x v v “ b b ” em que haja a possibilidade de se analisar o todo sem desvalorizar as partes, compreendendo a interdependência dessa dicotomia (todo e parte). Pois, na formulação e criação do saber é imprescindível estímulo e meios que proporcionem o desenvolvimento de cidadãos críticos e conscientes. Referencial Bibliográfico CUNHA, R. C. O. A crise de legitimação da concepção crítica de currículo. Tese de doutorado. Faculdade de Educação da UFRJ, 1997. DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. GUIGUE, Arnaud. Cinema e experiência de vida. In: Moran, Edgar. A Religação dos Saberes: o desafio do século XXI. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004. (Jornadas Temáticas Idealizadas e Dirigidas:) LEIVAS, R. Z. Educação e Cineclubismo em trânsito afetivo: "cineclubar para educar" (p. 81 98). IN: ALVES, J. & MACEDO, F. (Orgs.) Cineclube, Cinema & Educação. Londrina: Ed Praxis, 2010. MERTEN, Luis Carlos O Cinema e a Infância In: Zilbermanm, Regina [org.] A Produção Cultural para a Criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. MORAN, José Manuel. Ensino aprendizagem inovadores com tecnologias audiovisuais e telemáticas. In: MORAN, José Manuel; MASETO, Marcos T; BEHRENS, Marilda Aparecida. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. 12 ed. Campinas, SP: Ed. Papirus, 2006 MORIN, Edgar. Cabeça Bem Feita: repensar a reformar, reformar o pensamento. Trad. Eloá Jacobina. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003. 3052 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PARAÍSO, Marlucy Alves.Currículo-mapa: linhas e traçados das pesquisas pós-críticas sobre currículo no Brasil. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 26. Programa e resumos. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, 2003. p.204. SILVA, Tomaz Tadeu da. Dr. Nietzsche, curriculista – com uma pequena ajuda do professor Deleuze. Disponível em http://pt.scribd.com/doc/40450792/Tomas-Tadeu-Dr-Nietzsche-curriculista. 28/04/2011 CADA COISA EM SEU DEVIDO LUGAR: A PEDAGOGIA DO CINEMA ENSINANDO SOBRE POPULAÇÕES EXCEDENTES Dra. Angela Dillmann Nunes Bicca (IFSUL) Graduada em Física e Especialista em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Católica de Pelotas, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como professora de Física nos cursos de técnicos e tecnológicos e com Estudos Culturais em Educação 3053 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ nos cursos de Especialização em Educação e em Linguagens do Instituto Federal Sul-rio-grandense, situado na Praça Vinte de Setembro, 455 · Bairro Centro - Pelotas/RS. Telefone (53) 2123-1000. E-mail: [email protected] Dra. Maria Lúcia Castagna Wortmann (UFRGS/ULBRA) Licenciada em História Natural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre e doutora em Educação também pela UFRGS, tendo realizado Doutorado-sanduíche junto à Université Pierre ET Marie Curie (Paris VI). Professora Adjunta da Universidade Luterana do Brasil e professora convidada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando nos Programas de Pós-gradução em Educação dessas duas universidades, na linha de pesquisa Estudos Culturais em Educação. Resumo Valemo-nos dos filmes de ficção científica Filhos da Esperança (2006) e Distrito 9 (2009) para investigar como neles se configura um mundo altamente tecnológico, no qual há enormes excedentes populacionais, que migram para os antigos centros coloniais em busca de melhores condições de vida. Os Estudos Culturais em Educação, de inspiração pós-moderna e pós-estruturalista, instigaram-nos a associar tal focalização à contemporaneidade. Palavras-chave: Estudos Culturais, Pedagogias Culturais, Cinema, Ficção Científica, Migrações. INTRODUÇÃO A partir dos filmes Filhos da Esperança (2006) e Distrito 9 (2009), abordamos, neste texto, o tema das migrações – mais especialmente a questão dos imigrantes ilegais/indesejados – tão presente no mundo contemporâneo, notadamente nas antigas nações colonizadoras, buscando ver como isso tem sido delineado no chamado cinema de ficção científica. Encontramos, nestes dois filmes selecionados para análise, uma forte alusão 3054 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ à existência, neste início de século XXI, de seres humanos considerados excedentes, que poderiam ser descartados seguindo dinâmica semelhante à processada em relação a mercadorias que perderam o seu valor original. O tema dos seres humanos redundantes/excedentes é um dos abordados pelo sociólogo polonês Zigmunt Bauman86 (2008, 2005, 2001) em discussões que focalizam a época em que vivemos e que o autor refere como “ q v ” q -a o período que a antecedeu, que “ ” autor (idem) argumentou que no começo da modernidade (sólida) ocorreu uma reorganização do espaço e do tempo nos afazeres da vida humana: procedeu-se à construção de veículos que podiam se mover mais rapidamente do que as pernas dos seres humanos e dos animais, tais como as máquinas a vapor e os motores a explosão, que passaram a ser preparadas para movimentarem-se com velocidades cada vez maiores. Ao mesmo tempo, várias outras facetas das práticas humanas também estavam em mudança, estando, muitas delas, associadas à inventividade e à capacidade técnica humanas, as quais vinham conduzindo esse processo de aceleração do movimento como forma de ampliar o espaço e de ensejar a possibilidade de percorrerem–se grandes distâncias em um tempo cada vez menor. Além disso, no período referido pelo autor (idem) como modernidade sólida, o poder estava fortemente associado a noções tais como território e fronteira, não lhe parecendo ser por acaso que, na era moderna, tenha sido possível colocar-se em prática um grande aparato que permitiu a “ b ” v b x õ de grandes contingentes populacionais. A modernidade sólida valorizava o volume, as máquinas pesadas, as fábricas com muros cada vez maiores, abrigando uma produção que deveria crescer sempre, tal como indicou esse mesmo autor (ibidem). Essa foi a era 86 BAUMAN, Zigmunt.Modernidade Líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. ______. VidasDesperdiçadas. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. ______. Vida para Consumo. A transformação das pessoas em mercadoria. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 3055 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ do hardware, outra expressão da qual Bauman (2001) se vale para caracterizar a modernidade sólida, que tinha a conquista do espaço como objetivo supremo e na qual também o território estava entre as urgências mais prementes, pois os impérios se espalhavam, preenchendo todas as fissuras do globo terrestre, enquanto as riquezas tendiam a ser lentas, resistentes e difíceis de serem colocadas em movimento em função de seu volume e peso. Na versão sólida/pesada da modernidade, portanto, o progresso significava tamanho crescente e expansão espacial, predominando a idéia de tamanho como sinônimo de eficiência. Com o advento da era do software, disse Bauman (2001), muita coisa mudou e passamos a ter uma modernidade líquida ou leve, na qual uma nova forma de tomar o espaço emergiu. Essa corresponderia a uma forma de aniquilar o espaço disfarçado de aniquilação do tempo. Isso porque, à velocidade da luz, o espaço pode ser atravessado num tempo tão pequeno que passa a poder ser muitas vezes ignorado, como se fosse tempo nenhum. Assim, quando as distâncias podem ser percorridas na velocidade dos sinais eletrônicos, a instantaneidade aparente acaba denotando a ausência do tempo como elemento de cálculo do valor, fazendo com que o espaço passe a não ter mais tanta importância, quanto anteriormente a ele se atribuía. Se qualquer espaço passou a poder ser alcançado, a qualquer momento, então, não se necessitaria mais ter reocupações relativas à garantia de acesso a qualquer espaço, nem, tampouco, se faria necessário manter sob supervisão e administração permanentes tais espaços. Além disso, todo o globo já teria sido recoberto pelos excessos populacionais do período anterior e, assim, as migrações que anteriormente ocorriam já teriam cessado. Então, a q q “ q condições sob as quais agem os membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação em hábitos e rotinas, das formas ” (B 87 , 2007, p.7). Tratar-se-ia de uma forma de viver que não permitiria a manutenção de sua forma ou de seu curso por muito tempo e, na qual, as capacidades se transformariam em incapacidades, rapidamente, 87 BAUMAN, Zigmunt. Vida Líquida. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 3056 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ enquanto as formas de ação tornar-se-iam obsoletas antes mesmo que houvesse tempo para os atores aprenderem mais sobre elas; além disso, prever o futuro seria uma ação cada vez mais arriscada e, frequentemente, enganosa. Boa parte das tarefas as quais as pessoas se submetem necessitariam, portanto, mudar de rumo, serem reiniciadas, além de se encerrarem parcerias e de produzirem-se ativa e constantemente novas identidades. Disso decorreria a necessidade de desfazer-se de bens que rapidamente se tornariam lixo. Na sociedade líquida moderna, o bem estar “ x v z q v ” (B 007 9) já que o lixo se está tornando o mais abundante produto dessa sociedade. Por conseqüência, pode-se dizer que as preocupações mais freqüentes dos que vivem na contemporaneidade têm-se relacionado ao medo de não conseguirem acompanhar a rapidez dos eventos. Como já indicamos anteriormente, vivemos um momento em que pessoas e produtos têm-se tornado obsoletos em muito pouco tempo, sendo também essa uma época em que não há mais para onde enviar os excessos populacionais. E disso tem resultado uma grande quantidade de pessoas que, na organização do mundo, parecem sobrar por possuírem outros hábitos, por não disporem de bens de consumo valorizados, por emigrarem de regiões nas quais há escassez de bens materiais, incluindo-se entre esses água e comida. Para desenvolver a análise dos filmes referidos, destacando o tema dos migrantes contemporâneos, valemo-nos dos Estudos Culturais de inspiração pós-moderna e pós-estruturalista. Sob esta perspectiva podemos afirmar que obras ficcionais têm representado de muitas formas essas populações consideradas excedentes nas histórias narradas em tais filmes. Registramos que a partir dos Estudos Culturais tem-se procedido à análise de inúmeros artefatos culturais, tais como filmes, livros de ficção, jornais, revistas, brinquedos infantis, músicas, programas de TV, publicidade, entre outros. O foco dessas investigações tem sido, muitas vezes, o modo como diferentes artefatos culturais estão envolvidos nos processos de produção de identidades para os sujeitos contemporâneos. Nessas investigações, a partir de elementos considerados próprios a essas diferentes instâncias, têm 3057 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ apontado como a incorporação de dinâmicas comerciais têm atuado na formação de sujeitos consumidores aptos a viver em um mundo pós-moderno e altamente tecnológico, como vêm mostrando Douglas Kellner88(1995, 2001, 2010), Henry Giroux89 (1995a, 1995b), Henry Giroux e Peter McLaren (1995), Shirley Steinberg 90 (1997). Cabe dizer, também, que estudos conduzidos nessa direção têm buscado promover a ampliação do debate sobre as ações pedagógicas e sobre o que se entende por processo educativo, ao considerar como educativo tanto o que se dá nas escolas, quanto o que se processa em outras instâncias culturais, tais como as citadas acima. Como tem sido constantemente referido, os Estudos Culturais têm colocado em posição de equivalência os conhecimentos acadêmicos e escolares com os conhecimentos da vida cotidiana e os conhecimentos veiculados pela mídia. Além disso, como destacou Silva91 (1999), seus praticantes têm considerado o pedagógico como cultural e o cultural como pedagógico, dimensão que se tem procurado abarcar pelo uso da expressão pedagogias culturais para designar e colocar em destaque o papel pedagógico de todas as produções, artefatos e Instituições culturais. 88 KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia. Estudos Culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Tradução Ivone Benedetti. Baurú: EDUSC, 2001. ______. Lendo imagens criticamente: em direção a uma pedagogia pós-moderna. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em Educação. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 104-131. ______. Discouse and Media Spectacle in the bush Administration: A Cultural Studies Analysis. 2010. Disponível em: <http://www.gseis.ucla.edu/faculty/kellner/essays/2010_kellner_frymeRL_Chap5.pdf> Acesso em: 10 nov. 2009. 89 GIROUX, Henry. Memória e Pedagogia no Maravilhoso Mundo da Disney. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em Educação. Petrópolis: Vozes, 1995a. p. 132-158. ______. A Disneyzação da Cultura Infantil. In: SILVA, Tomaz Tadeu e MOREIRA, Antônio Flávio (orgs). Territórios contestados. O currículo e os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis: Vozes, 1995b. p.49-81. ______ e McLAREN, Peter. Por uma pedagogia crítica da representação. In: SILVA, Tomaz Tadeu e MOREIRA, Antônio Flávio (orgs). Territórios contestados. O currículo e os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis: Vozes, 1995c. p.144-158. 90 STEINBERG, Shirley. Kindercultura: a construção da infância pelas grandes corporações. In: SILVA, Luiz H. da; AZEVEDO, José C. de e SANTOS, Edmilson S. dos (Orgs). Identidade social e a construção do conhecimento. Porto Alegre: SMED, 1997. p.98-145. 91 SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade. Uma introdução às teorias de currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. 3058 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Consideramos, assim, os filmes analisados como artefatos culturais que funcionam como pedagogias culturais e valemo-nos do conceito de representação cultural, tal como foi enunciado por Stuart Hall92 (1997), para conduzir as análises apresentadas neste texto. Lembramos que a noção de à “v representação cultural está fortemente rel ” movimento que assume ser a cultura central nos processos de produção e estabelecimento dos significados para os seres e coisas do mundo. E que a virada cultural, por sua vez, associa- à “v ü ” v q modificou substantivamente a compreensão do papel da linguagem, ao destacar a sua ação constitutiva e não apenas comunicativa. Consideramos, portanto, que cultura tem a ver com produção e circulação de significados que, ao serem partilhados pelos grupos sociais, atuam nos processos de à “ ” b indicou Hall (1997). Destacamos, ainda, que as análises culturais colocam em destaque as lutas que se dão em torno da significação, pois os significados são produzidos e intercambiados nas relações de poder, tal como ressaltou esse mesmo autor (idem). Ou seja, nelas dá-se destaque a como os significados organizam e regulam as práticas sociais tendo, nesse sentido, efeitos práticos. Valendo-se de um aporte foucaultiano acerca das conexões sempre presentes entre poder e saber, operadas discursivamente, Hall (ibidem) também salienta a produtividade de examinarem-se os discursos para proceder a análises culturais, bem como de atentar-se para como os discursos operam na produção de representações culturais. Neste texto, nos voltaremos, então, a discutir como são representadas, nos dois filmes examinados, as relações entre colonizadores/colonizados, bem como as ações de expansão das fronteiras imperiais e de discriminação étnica/racial, quando neles se aborda questões relacionadas a migrações, em um mundo altamente tecnológico. 92 HALL, Stuart. The work of representation. In: HALL, Stuart (org). Representations and signying produces. London: Sage / Open University, 1997b. p. 1-74. 3059 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA NARRA O MUNDO CONTEMPORÂNEO Os filmes analisados neste texto colocam em destaque a ligação entre as tecnologias virtuais e digitais (ou tecnologias da informação e da comunicação) que caracterizam o mundo contemporâneo. É possível dizer que esta temática ganhou destaque a partir dos anos 1990, no cinema de ficção científica hollywoodiana, gênero fílmico que tem ampla circulação no circuito comercial. A respeito de tais produções, também é possível dizer, a partir de autores como Fernando Mascarello 93 (2006), Douglas Kellner (2001), Yvonne Tasker 94 (1998) e Arlindo Machado 95 (1996), serem elas bastante aproximadas dos modos de produção industrial, seja pela forma como os filmes são produzidos - sendo eles próprios entendidos como produtos industriais -, seja pela venda freqüente de outros produtos associados aos filmes, tais como brinquedos e jogos eletrônicos. E é por se configurarem como produtos industriais/comerciais, que o referido gênero cinematográfico tem permitido associar a liberdade, característica atribuída à ficção, ao rigor, atribuído à ciência, na mão oposta dos dualismos modernos que foram constituídos sempre marcando a distinção das categorias evocadas, tal como observou Yeda Tucherman 96 (2005). Cabe registrar que a modernidade, ao separar em dualismos ficção e ciência, homens e animais, homens e máquinas, cultura e natureza, entre 93 MASCARELLO, Fernando. Cinema Hollywoodiano Contemporâneo. In: MASCARELLO, Fernando (org). História do Cinema Mundial. Campinas: Papirus, 2006. p.333-360. 94 TASKER, Yvonne. Aproximación al nuevo Hollywood. In: In: CURRAN, James; MORLEY, David e WALKERDINE, Valerie (org). Estudios culturales y comunicación. Análisis, producción y consumo cultural de las políticas de identidade y el posmodernismo. Barcelona: Paidós, 1998. p.323-346. 95 MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário. O Desafio das Poéticas Tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1996. 96 TUCHERMAN, Ieda. Corpo, fragmentos e ligações: a micro-história de alguns órgãos e de certas promessas. Ecos Revista, Pelotas, v.9, n.1, 2005. p.61-80. Disponível em: <http://www.pos.eco.ufrj.br/docentes/publicaçcoes/itucherman_8.pdf> Acesso em: 03 fev. 2009. 3060 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ outras tantas oposições binárias nela constituídas, tornou difícil pensar b b õ “ ” embora tenha produzido, ao mesmo tempo, narrativas que abordam as dificuldades criadas em torno da manutenção dessas mesmas distinções. Como mostrou Tucherman97 (2003), a ficção científica no cinema desde os seus primórdios focalizou e promoveu a hibridação de tais binarismos. Ou seja, a ficção científica tornou-se um gênero em que as hibridações entre homens, animais e máquinas, assim como a representação de experiências em inusitadas configurações de tempo e de espaço, se processam com grande frequência. Mas, quando a epistemologia moderna localizou homens e máquinas em categorias distintas, colocando-as em oposição, isso favoreceu a identificação da máquina como algo exterior ao humano, dificultando concebê-la como algo que pudesse ser imbricado, de alguma forma ao humano. Assim, a predominância de tal forma de pensamento teria conduzido a que se pensasse a relação homem-máquina, ora como uma relação de opressão, ora como de libertação. Na primeira direção, haveria a desqualificação da humanidade – essa se tornaria escrava das máquinas. Na segunda direção, ocorreria uma importante melhoria da condição humana, que propiciaria o progresso e permitiria aos humanos uma vida mais justa e feliz, tal como argumentou Tucherman (idem) ao buscar caracterizar como a ficção científica abordou a relação entre seres humanos e máquinas. A modernidade teria atribuído à ficção científica a incumbência de pensar sobre os perigos e esperanças propiciados pelos desenvolvimentos das ciências e das tecnologias, como também referiu essa autora (ibid). Porém, esse esforço moderno de evitar a ambivalência, também acentuou, de certo modo, essa ambivalênc x “ ” q logo passaram a ser procedidas entre o que se encontrava separado, o que é bastante revelador da impossibilidade de organizar-se o mundo em um 97 TUCHERMAN, Ieda. O pós-humano e sua narrativa: a ficção científica. Revista Ghreb, PUC-SP, 2003. Disponível em: <http://www.pos.eco.ufrj.br/docentes/publicacoes/itucherman_4.pdf> Acesso em: 03 fev. 2009. 3061 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ arquivo, no qual haja um local inequívoco para cada coisa, como mostrou Bauman98 (1998, 1999). O esforço empreendido para mostrar as diferenças entre os homens e as máquinas na ficção acabou, então, produzindo, também, narrativas nas quais emerge a figura de híbridos, em função das já referidas dificuldades classificatórias. Como salientou Tucherman (2003, 2004 99 , 2005), a ficção científica é uma das importantes narrativas que circulam no mundo contemporâneo, sendo essa uma das instâncias na qual se produzem questionamentos acerca da fragilidade das muitas fronteiras erigidas para orientar os modos de pensar o mundo e a nós mesmos, na modernidade. E isso levou a mesma autora (2004) a configurar a ficção científica como um romance de misturas e hibridações, ou seja, como um gênero híbrido, que reúne a ficção à ciência. Joan Bassa e Ramón Freixas 100 (1993), ao refletirem sobre este gênero cinematográfico, consideram-no como um sub-gênero do chamado Cinema Fantástico 101 , no qual o espectador é levado a admitir como verossímeis, nessa ficção, algumas situações que esse não crê serem reais; disso resulta, então, uma transformação desejável do que pode ser entendido como realidade, a partir da vinculação operada entre ciência e fantasia na ficção científica. Esses autores (ibidem) destacam, assim, que a ficção científica trata de irrupções do imaginário no real utilizando a ciência para justificar tal operação. Assim, no cinema de ficção científica, saberes que no filme recebem o estatuto de científicos se configuram como elementos possibilitadores de verossimilhança. Seria, então, a invo à“ ” não à alguma forma de magia, que funcionaria como um tipo de mito, 98 BAUMAN, Zigmunt. O Mal-estar da Pós-modernidade. Tradução Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. ______. Modernidade e Ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. 99 TUCHERMAN, Ieda. Corpo e narrativa cinematográfica: ficção e tecnologia. Compôs IX, 2004. São Bernardo, 2004. Disponível em: <http://www.compos.org.br/data/biblioteca_591.pdf> Acesso em: 03 fev. 2009. 100 BASSA, Joan; FREIXAS, Ramón. El cine de ciencia ficción. Una aproximación. Barcelona: Paidós, 1993. 101 Bassa e Freixas (1993) usam o termo com a inicial maiúscula quando referem o gênero fílmico de cinema Fantástico. 3062 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ permitindo a aceitação do verossímil sem a necessidade de uma intensa demonstração da sua possibilidade. Os filmes de ficção científica, ao evocarem saberes científicos para conferir coerência interna às histórias narradas acabam, no entanto, por focalizar recorrentemente algumas temáticas. Uma dessas temáticas são as tecnologias virtuais e digitais, como já referimos anteriormente. Aliás, como também já ressaltamos, essas ganharam destaque nas produções cinematográficas nos anos 1990, quando, inclusive, passaram a se tornar dominantes na ficção científica. Recorrente é, por exemplo, a abordagem do tema robôs, que ganhou, no entanto, na contemporaneidade focalizações bem diferenciadas daquelas invocadas no b q “ bô ” quando a associação entre ficção científica e horror, que era bastante freqüente nas produções anteriores aos anos 1970, como comentou John Scalzi102 (2005), perderam força. Aliás, nessa época, também se iniciaram as associações entre os gêneros ficção científica e ação policial. A esse respeito é importante indicar, inclusive, que alguns filmes recentes, que apresentam características típicas do cinema de ficção científica,tenham passado a ser classificados por seus produtores como filmes de ação 103. Mas também é importante salientar que a ocorrência de mesclas se estende a outros gêneros fílmicos, havendo, assim, associações entre ficção científica e romance, bem como com o gênero documentário, com o faroeste, o drama, o épico, entre outros. b “ v j ” configurados como capazes de interagir intimamente com as tecnologias cibernéticas, a tal ponto que, muitas vezes, isso os torna quase indistinguíveis das tecnologias, sobretudo quando os filmes destacam certas possibilidades decorrentes da cibernética, que aproximam humanos e 102 SCALZI, John. The Rough Guide to Sci-fi Movies.London, New York: Rough Guides Ltd, 2005. 103 Exemplos dessa associação entre ficção científica e ação/policial estão registrados nos textos que apresentam, nas caixas dos DVDs ou de fitas de vídeo, filmes como Minority Report – A Nova Lei (2002), do diretor Steven Spielberg, e Eu, Robô (2004), do di A xP .O é “ performance ” ; é z f “á , â ”. 3063 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ computadores, conforme a análise de Scott Bukatman 104 (1993). Então, apesar das tecnologias não serem o foco dessas histórias, por si mesmas, mas em decorrência da complexa relação que é feita nesses filmes entre elas e os seres humanos, essas estão intensamente neles representadas. Estas peculiaridades da ficção científica cinematográfica foram destacadas por Tucherman (2004), quando a autora indica que esse gênero fílmico parece ter preparado terreno para que se tornasse possível abordar e talvez até acreditar nas descrições da vida pautadas em metáforas oriundas da Biologia e da Informática, focalização que se tornou cada vez mais freqüente nesses filmes, ao final do século XX e início de século XXI. Por tudo isso seria possível dizer que essas histórias abordariam questões do tempo presente, até porque essas se passam, muitas vezes, em datas não especificadas, ou em datas futuras, mas que parecem não distar muito dos dias atuais. Assim, é interessante atentar para a forma como o presente e o futuro são configurados nessas histórias. Em geral, não se trata de um esforço de prever o futuro, mas, como mostrou Laymert dos Santos105 (2003), de estabelecer uma outra relação entre o presente e o futuro, que não corresponde a uma sucessão linear, nem tampouco sugere algum esforço de adivinhação, mas muito mais de apropriação, modelamento ou projeção do presente pelo futuro imaginado. Desta forma, projetar o presente no futuro tem sido uma estratégia recorrente nos filmes atualmente vinculados ao gênero ficção científica, para narrar questões desse tempo em que os filmes foram produzidos. Aliás, levar “ x ” v b õ curso, nos dias atuais, parece ser uma forma importante da ficção científica cinematográfica representar o mundo contemporâneo. E isso tem implicado, também, a abordagem do tema migrações processada, no entanto, em uma direção inversa da que ocorria no período colonial imperialista, aspecto que passamos a focalizar na próxima seção. 104 BUKATMAN, Scott. Terminal Identity. The virtual subject in postmodern science fiction.Durham and London: Duke University Press, 1993. 105 SANTOS, Laymert Garcia dos. Potitizar as novas tecnologias. O impacto sóciotécnico da informação digital e genética. São Paulo: Editora 34, 2003 3064 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ CADA COISA NO SEU DEVIDO LUGAR: REPRESENTAÇÕES DE REFUGOS HUMANOS NA FICÇÃO CIENTÍFICA Zigmunt Bauman (2005) relata uma situação que teria sido vivida pelo célebre escultor Michelangelo, para discutir como se processa a produção tanto de mercadorias, quanto de seres humanos excedentes em um mundo altamente tecnológico. Ao ser indagado sobre como se tornara capaz de alcançar tamanha harmonia em suas esculturas, Michelangelo respondeu que isso decorria de ter retirado todos os pedaços supérfluos de cada bloco de mármore por ele utilizado. Sua explicação, ao mesmo tempo tão simples, e tão complexa, para todos aqueles que não são hábeis escultores, foi evocada por Bauman (ibidem) para mostrar que a criação de algo está sempre associada ao processo de remoção do lixo gerado no correspondente processo de produção. No caso do escultor, a excelência da obra implicaria, também, remover com perfeição, e absolutamente tudo, o que não poderia permanecer no produto da arte. Então, generalizando, poder-se-ia dizer que a produção de algo novo, seja uma obra de arte, ou qualquer outra coisa, implicaria sempre remover qualquer envoltório que não faça parte da criação. Como afirmou Bauman (2005), o lixo é a encarnação da ambivalência por fornecer, ao mesmo tempo, condições para toda a criação e se constituir no seu mais formidável obstáculo. É lixo o que sobra de um projeto em construção e, embora seja inevitável produzi-lo, o lixo não tem lugar na nova ordem sócio-econômica. Mas há vários tipos de lixo. Num primeiro momento, é possível pensar nos pedacinhos de material que são aparas do produto que acaba de ficar pronto. Porém, também pode se tornar lixo o produto antigo, por ficar este obsoleto, assim que um novo produto está pronto para ser consumido, mesmo que o antigo, às vezes, não tenha sido sequer utilizado. Assim, a linha divisória que poderia ser usada para marcar o que é ou não lixo é fluida, tal como a que separa homens e mulheres, civilizados e selvagens, brancos e negros, por exemplo. Aliás, pode-se dizer que ocorre 3065 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ um processo constante de policiamento na separação entre o que é útil e o que é descartável e que, cada vez com maior rapidez, se tem procedido, a partir de definições acerca do que é moda, a inclusão na categoria lixo de produtos que, há bem pouco tempo atrás, eram considerados bons e úteis. Assim, então, o que será descartado pode mudar a cada novo projeto, assim como o que era produto útil em uma determinada época pode deixar de sê-lo, a partir de qualquer atributo que um novo projeto estabeleça como prioritário. Tratando do tema da produção e descarte de mercadorias, Bauman (2005) mostrou, também, que a modernidade consolidou a associação entre beleza e perfeição, ao associar beleza à harmonia, simetria, ordenação e proporcionalidade. Enfim, o que é perfeito é belo e não admite mais alterações, pois qualquer mudança pode implicar perda e resultar na feiúra. O que é belo/perfeito, na modernidade sólida, poderia permanecer assim para sempre para não perder seu valor, não se tornar redundante, não se tornar refugo. Porém, no mundo líquido-moderno, a beleza não é mais pensada dessa mesma forma, explica o autor (idem), pois o mau gosto teria passado a ser o ato de rejeitar o que é novo. E, como o que é novo tem ficado velho “ v ” b v x Ou seja, como o autor (idem) indicou, até o significado de beleza passou por uma importante mudança, não sendo mais sinônimo de perfeição, mas sim do que está na moda. De tudo isso resulta uma maior facilidade para descartar-se como lixo objetos que funcionam muito bem, por terem elas perdido valor em função dos desejos de consumo. No mundo líquido-moderno e na ficção científica podemos ver situações em que o volume de lixo sempre aumenta, aumentando, também, o trabalho correlato de remoção e depósito. Aliás, inclusive é possível fazer uma analogia entre o descarte de mercadorias obsoletas e o descarte procedido em relação aos próprios seres humanos. Os filmes Filhos da Esperança (2006) e Distrito 9 (2009) permitem conduzir reflexões acerca de processos que vêm configurado parcelas da população humana como excedentes, sendo essas, inclusive, descritas como possuidoras dos mesmos atributos usados para qualificar os produtos descartáveis, ou seja, lixo. Isso está bastante bem representado no filme Filhos da Esperança (2006), no 3066 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ banimento dos personagens/imigrantes do país em que se ambienta a história desse filme, bem como na impossibilidade dos personagens/extraterrestres do filme Distrito 9 (2009)voltarem ao seu planeta de origem. Esse seria um dos mais cruéis efeitos projetados para as formas de convívio humano, de acordo com os argumentos de Bauman (2005) – a “ b ” v no que diz respeito ao modo como se tem processado algumas relações entre humanos, pois, já no início do processo de modernização, as grandes nações da Europa e da América do Norte enviaram para as suas colônias grandes contingentes de pessoas consideradas excedentes em seus locais ô ” “ v z te desabitadas, mas como locais onde os efeitos da v q v “ b ” cidadãos indesejados das metrópoles de então. O problema premente, nos dias atuais tem sido configurado, no entanto, como a ausência de espaços para onde possam ser enviados os chamados excedentes populacionais. Esses excedentes humanos, inaptos ou indesejáveis, anteriormente exportados para outros locais do planeta considerados como capazes de absorver o excesso populacional das áreas mais desenvolvidas, não teriam mais para onde ir; não haveria mais soluções globais para esses problemas locais, ao mesmo tempo em que se passou a configurar a impossibilidade de estender os efeitos positivos da modernização para todos os recantos do q mundo. Em ” v v 106 Louise Pratt v “ M (2003), está ocorrendo uma inversão dos fluxos de migrações em relação ao passado, por ser cada vez maior o número de pessoas que se submetem a sacrifícios extremos para burlar os sistemas de controle de imigração dos países desenvolvidos, buscando neles entrar para escapar da miséria, da violência e perseguições sofridas nos locais em que vivem. Como 106 PRATT, Mary Louise. ¿ Por qué La virgen de Zapopn fue a Los Angeles ? Reflexiones sobre la movilidad y la globalidad. In: BRAVO, Á; GARRAMUÑO, F e SOSNOWSKI, S. (editores). Sujeitos em tránsito: (in)migración, exilio y diáspora em la cultura latinoamericana. Madrid, Buenos Aires: Alianza Editorial S.A., 2003. 3067 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ a autora (ibid) também indica, se anteriormente as migrações se davam das metrópoles para as chamadas periferias, hoje, ao contrário, são os habitantes das antigas colônias que buscam as metrópoles que os colonizaram. Assim, em quase todas as cidades européias e estadunidenses há comunidades diaspóricas procedentes de muitas partes do globo, especialmente das antigas colônias desses mesmos países. Porém, as metrópoles, ainda que necessitem dessa forma de migração para promover e manter sua supremacia econômica, não têm revelado disposição para acolher tais migrantes. Inúmeros são os relatos de viagem dramáticos – histórias de naufrágios, de sofrimentos e de morte de pessoas que buscam cruzar as fronteiras dos países desenvolvidos, em busca de uma vida melhor. Mas a autora (ibid) registra, também, os casos daqueles que conseguem entrar nas metrópoles, mas que em função de sua condição ilegal, se submetem a trabalhar em troca de comida, reeditando a escravidão. Representações atemorizantes acerca dessas diásporas contemporâneas circulam, ainda, no imaginário popular, como também indicou Pratt (2003). Entre essas, histórias sobre abelhas assassinas, que teriam invadindo os EUA, na década de 1980, justamente o período em que se intensificaram as migrações para este país. Tais histórias podem ser vistas como representações referentes ao rechaço que sofrem esses sujeitos por parte dos habitantes desses locais – eles são vistos como inadequados, usurpadores, refugos, que não são bem-vindos. Mas apesar disso, muitos deles se instalam nos chamados países desenvolvidos, apesar das leis que restringem as suas presenças, ou que afrontam seus hábitos e crenças. Como indicou Bauman (2005), a produção desses sujeitos considerados como refugos humanos não cessa de crescer, pois há locais em que se tornam cada vez mais escassos os meios de sobrevivência. Daí soarem tantos alarmes relativamente à superpopulação do planeta e a centralidade que o problema das migrações tem adquirido nas agendas políticas mundiais, tal como também indicou Bauman (2005). Esses sujeitos não são simples desempregados, que poderiam compor uma reserva de mão-de-obra a ser chamada de volta ao serviço ativo, quando necessário. Como refere o autor (ibid), eles são redundantes, extranumerários, desnecessários, sem uso; são aqueles de quem se fica melhor estando 3068 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ longe, podendo ser eles ainda associados aos rejeitos, aos dejetos, aos restos, ao lixo. Como Bauman (idem) indicou, mesmo que se garantisse a b vv b “ ” j q houvesse a preocupação de impedir que tais sujeitos morressem de inanição, tal disposição não seria suficiente para garantir a sua readmissão na “ q z x refrigerados dificilmente seria suficiente para transformá- ” (Bauman, 2005, p.21). Na sociedade de consumidores, conforme Bauman (2008), as pessoas têm sido estimuladas a promover a si mesmas como mercadorias, usando os seus melhores recursos para tal tarefa individual. Portanto, elas são ao mesmo tempo as promotoras das mercadorias e as próprias mercadorias, sendo essa uma característica proeminente das sociedades neste início do século XXI. Como indicou o mesmo autor (ibid), a sociedade de consumidores veio substituir a sociedade de produtores, que havia se estabelecido na fase sólida da modernidade. Mas a sociedade de produtores era orientada para a segurança - permitia buscar-se o que era confiável, ordenado, duradouro e seguro – e permitia, ainda, a posse de grande volume de bens, que implicavam uma existência segura e livre dos infortúnios da vida, pois esses não se destinavam ao consumo imediato, devendo, portanto, ser protegidos da depreciação. Aliás, nessa sociedade, a felicidade estava frequentemente associada à promessa de segurança de longo prazo, sendo a propriedade de bens duráveis que permitiria o cumprimento de tal promessa. Já na fase líquida da modernidade, o consumismo se estabeleceu, passando a felicidade a ser relacionada não tanto à satisfação das necessidades em si, mas à possibilidade de acompanhar-se o ritmo e o volume dos desejos de consumo sempre crescentes e móveis. Em decorrência disso, há uma mudança importante nos padrões de consumo, que passou a implicar a necessidade de uso imediato e a também imediata substituição dos objetos velhos por novos. Assim, qualquer produto passa a ter uma curta expectativa de duração, passando, inclusive, a durabilidade a ser vista quase como um defeito. 3069 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Em conseqüência disso, há cada vez mais coisas descartadas; ou seja, há, também, mais lixo e redundância, pois novas necessidades e desejos exigem novas mercadorias que, por sua vez, criam outras necessidades e outros desejos para substituírem os antigos. Pois, como B ( 008) ‘ b b “ v ’ ra de b ú x ”( 4 ) É consumidores que as próprias pessoas estão se tornando mercadorias. E elas têm de assim comportar-se, sob pena de redundância no projeto destinado ao convívio humano, pois, nessa sociedade de consumidores, só quem tem a habilidade individual de agir conforme a lógica de mercado é um “v ” x B ( 008) P consumidor válido é condição para ser admitido nessa sociedade que tem por objetivo transformar seus próprios membros em mercadorias. Já para um “ v ” õ b Passar nesse teste implica, no entanto, ter o dever individual e incessante de trabalhar para fazer de si mesmo uma mercadoria vendável. Ou, ainda, “ v õ b bj q ” (B 008 8 ) Inspiradas nessas considerações, analisamos representações que associam sujeitos ao lixo, no filme Filhos da Esperança (2006). O filme, como já indicamos, tem como uma de suas temáticas centrais os imigrantes ilegais que buscam desesperadamente estabelecer-se em uma metrópole que mantém uma certa ordem – nela há energia e outros combustíveis - em um mundo em caos, no qual imperam certezas relativas à proximidade do fim do mundo e da extinção da espécie humana. Apesar disso, no entanto, o que restou de ordem e de bens neste local destinava-se a ser usufruído apenas pelos cidadãos daquele país, ou j “ v ” O personagem do filme, Theo Faron v õ q 107 , observa o tratamento dispensado aos imigrantes - fechamento das fronteiras e a obrigatoriedade de deportação dos imigrantes ilegais, que devem ser denunciados, como os noticiários de TV e 107 O ator Clive Owen. 3070 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ as propagandas nos meios de comunicação, recorrentemente apregoam. Aliás, cabe referir, que tanto o formato, quanto o modo de chamamento dessas propagandas, direcionadas aos personagens deste filme, muito se assemelham às que figuram nos meios de comunicação de algumas cidades “ ” â há, na maior parte das grandes cidades do mundo contemporâneo pelo menos duas categorias principais de sujeitos: os que são nativos da metrópole, condição que parece ser intrínseca à possibilidade de nela viver; e os que são vistos como refugos e que, portanto, são impedidos de nelas permanecerem. Aliás, tais sujeitos acabam sendo representados como aqueles que não se encaixam bem em nenhum lugar do mundo. Neste filme, tal como sucede em outros filmes de ficção científica, foi focalizada uma situação extrema – o caos instaurado por guerras e outros descalabros resultantes de ações humanas que colocaram a humanidade em um beco, aparentemente sem saída. Aliás, restaram muito poucos locais com condições de manterem-se por, talvez, mais alguns anos, sendo esses geridos por governos ditatoriais que estabeleceram um rígido fechamento de suas fronteiras. Então, a principal função dos governos passara a ser a manutenção do que sobrou, função que envolve a captura e expulsão de migrantes, função cumprida por policiais fortemente armados, que circulam pelas ruas de uma Londres cujos prédios estão deteriorados e na qual há uma enorme quantidade de lixo pelas calçadas. Registramos que o tom de desesperança que perpassa o filme é também marcado pela alusão ao fechamento de escolas – configuradas como locais inúteis pela ausência presumida de novas gerações. Aliás, registra-se no filme que outros serviços considerados essenciais, nas sociedades contemporâneas, tais como o recolhimento e a remoção do lixo descartado pelos moradores das cidades, também deixam de ser considerados relevantes: o que importa é a remoção dos sujeitos ilegais, esses são as sobras perigosas, os dejetos excedentes para os habitantes da cidade. Aliás, consideramos como uma das cenas mais chocantes do filme, a que mostra o personagem Theo, passando entre gaiolas nas quais estão presos dezenas de imigrantes vigiados por policiais fortemente armados. Já na cena seguinte, o que é destacado é um ônibus, 3071 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ que mais parece uma jaula móvel, que transporta imigrantes ilegais para um campo de refugiados em uma cidade próxima. Aliás, o personagem Jasper108 tece comentários sobre o modo como são tratados esses sujeitos - os imigrantes ilegais: algo sujo, que precisa ser removido, tal como os insetos cuja proliferação se busca evitar por nos trazerem toda uma gama de õ “ x ” q insetos repugnantes, que ocupa os agentes públicos daquela sociedade. Desta forma, representa-se de forma estereotipada no filme Filhos da Esperança (2006), o tratamento xenofóbico a estrangeiros, a quem se atribui o papel de ameaçar a ordem social vigente, bem como de dilapidar os escassos recursos ainda disponíveis à população desta cidade. Nesse filme, embora todos os humanos tenham sofrido uma mutação que impede a sua reprodução, o que impedirá a ampliação das populações que sobreviveram, o que está na berlinda é a inexistência de recursos de sobrevivência para os que restaram, decorrendo disso a caça, expulsão e até o assassinato desses sujeitos. Argumentamos que, neste filme, é dado destaque a um problema que afeta as sociedades contemporâneas, nas quais, mesmo haja, para alguns, superabundância de comida, recursos financeiros e conforto material de toda ordem, bem como condições de acesso a sistemas de saúde, incluindo-se ainda as possibilidades de acesso às tecnologias de prevenção a doenças, para muitos outros faltam alimentos, água, acesso a tratamentos de saúde e à educação. A situação extrema narrada no filme se configura, assim, entendemos nós, como uma denúncia da proliferação intensa de ações xenofóbicas processada tanto nos países europeus, quanto no continente americano, bem como, também, das imensas desigualdades sociais e de acesso à sobrevivência que ainda imperam no mundo contemporâneo. Cabe referir que analistas como Jacques Baudou (2008)109 e 108 O ator Michael Caine. BAUDOU, Jacques. A Ficção Científica. Portugal: Publicações Europa-América, 2008. O autor cita a coletânea Nightwings, de Robert Silverberg, publicada em 1961; bem como as obras Sands of Mars (1951), Earthlight (1955) e A Fall of Moondust (1961), todas do escritor Arthur Clarke. 109 3072 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Shohat e Stam (2006) 110 , que focalizam, respectivamente, a literatura e o cinema, já atentaram para como as histórias de ficção científica focalizam questões referentes ao colonialismo. Um modo freqüente implica buscar em outros planetas soluções para o superpovoamento da Terra, em histórias que narram, por exemplo, como os cientistas e militares (e essa é uma interessante aliança que se processo em muitos países, tais como os Estados Unidos da América), corajosos e desbravadores, buscam planetas cujas condições sejam compatíveis com a vida humana para viabilizar uma diáspora espacial, em função das precárias condições que o planeta Terra passa a oferecer aos seus habitantes. Um ponto de destaque, nessa história, é o momento do encontro dos terráqueos com os povos extraterrestres, sendo esses últimos representados de forma negativa. Nesses filmes, indicaram esses analistas, transferem-se para o espaço sideral relações estabelecidas nos encontros interculturais processados no apogeu do projeto imperialista, quando as narrativas literárias ou fílmicas continham representações dos povos do Terceiro Mundo como inferiores, ou menos instrumentados do que os povos europeus e norte-americanos (Shohat e Stam, 2006). E isso sucede, por exemplo, no filme Le Voyage Dans La Lune111(1902) que, embora não faça menção direta ao colonialismo, faz uma metáfora da expansão imperialista ao ser estruturado como uma narrativa de captura colonial: criaturas cadavéricas carregando lanças irrompem do simulacro de floresta lunar e capturam os exploradores para, logo depois, serem derrotados pelos guardachuvas dos invasores, semelhantes a armas de fogo, que eliminaram os selvagens de maneira mágica (Shohat e Stam, 2006, p. 160). Então o cinema, cujo surgimento coincidiu com o apogeu do projeto imperialista, foi muitas vezes usado, como mostraram Shohat e Stam (2006), para enaltecer o cidadão imperialista como um observador superior e 110 SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Critica da Imagem Eurocêntrica. Tradução Marcos Soares. São Paulo: Cosac Naify, 2006. 111 D G Mé è , f ê , “ f ” q usava efeitos fotográficos para criar mundos fantásticos (Wikepedia, consulta em 11 de dezembro de 2009). 3073 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ invulnerável desse mesmo projeto, ou como um conquistador, que não necessita sair do seu sofá para ter validados seus sentimentos de poder e benevolência para com os povos das colônias. Aliás, segundo eles (ibid), foi nesse contexto que o desejo de também expandir as fronteiras da ciência se processou, tendo servido o cinema para, através de exibição de filmes, levar a muitos lugares distantes notícias sobre os triunfos obtidos com o progresso industrial e científico pelos ocidentais. Dessa forma, o cinema contribuiu para, ao mesmo tempo, veicular a grandiosidade do império e dissecar outras culturas, organizando os saberes obtidos em relação aos povos colonizados. Tal propósito não deixou de aparecer nos filmes recentes de ficção científica, nos quais a conquista do espaço sideral funciona como uma reconfiguração das narrativas imperialistas, sendo os planetas distantes da Terra representados como subdesenvolvidos e necessitados da presença dos astronautas que, com sua cultura superior e bem intencionada, se ocuparão em melhorar a vida daquele povo. Isso sucede, por exemplo, como indicaram os mesmos autores (idem), no filme O retorno de Jedi112 (1983), no qual os Ewoks, criaturas exóticas e com aparência de bichinhos de pelúcia cuja língua, tal como sucede na maioria dos filmes coloniais, não pode ser compreendida e nem mesmo tem tradução ou legendas, que habitam o planeta visitado, veneram o herói euro-americano detentor de sofisticadas tecnologias e o defendem contra outros habitantes do mesmo planeta que ameaçam o herói do filme. Assim, em tais filmes, tal como indicou Tucherman (1999), além de dar-se destaque ao tema do encontro com outros povos, as narrativas “G N v õ ” onde as dúvidas que existiam a respeito da condição de humanos dos negros e índios, nos séculos XV e XVI, são transferidas para os alienígenas; além disso, tais filmes focalizam as problemáticas que o colonialismo instaurou ao operar a naturalização das desigualdades de oportunidades entre humanos em diferentes partes do mundo. Aliás, alguns desses filmes até legitimam tais posições, tal como discutiram Shohat & Stam (2006); outros, no entanto, colocam em questão tais posições xenofóbicas. Como argumentou Jeffrey 112 Dirigido por Richard Marquando. 3074 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Cohen113 (2000), tais representações de povos nativos de diferentes lugares do mundo como monstruosos e perigosos acabou favorecendo a ocupação de seus territórios e justificando os esforços dos povos europeus em colonizá-los. Cabe assinalar, ainda, que em tais narrativas, os outros étnicos e raciais sempre eram desprovidos, ou perdiam, a condição de humanos. Ao registrar tais comentários, abordamos o filme Distrito 9 (2009)114, no qual é narrada a história de alienígenas que têm problemas em sua nave durante uma de suas viagens. Impossibilitados de voltar ao seu planeta, eles param a nave sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul, onde são forçados a sair da nave e a passar a viver no chamado Distrito 9, dessa cidade, como se fossem refugiados. Nesse local, esses extraterrestres passam a viver sem qualquer tipo de organização social, nem ação governamental de espécie alguma, sem condições de produzir seus alimentos, sem água ou moradia; enfim, eles ficam sujeitos à miséria e à exploração de facções criminosas. É importante registrar que também neste filme, quando é apresentado o encontro de terráqueos e extraterrestres alude-se às imposições que vigoraram naquele país em relação à discriminação racial, que incluía a delimitação de áreas de circulação diferenciadas para negros e brancos, durante o regime de apartheid. E, tal como ocorre em muitas situações de discriminação, também os extraterrestres receberam uma denominação pejorativa – eles passam a “ õ ” ( filme, do termo prawns) N v “ ” b x errestres, que chegam a um território, no qual são humilhados e maltratados. Portanto, não são eles que representam os colonizadores, dos filmes anteriormente citados – b v “v z ” XV XV -, eles são os desvalidos e indesejados. Mais uma vez, no caso deste filme, as representações colocadas em destaque atuam no sentido de inverter a 113 COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Pedagogia dos Monstros - os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 23-60. 114 Dirigido por Neil Blomkamp. Diretor de cinema de origem sul-africana, nascido em 1979, iniciou sua carreira fazendo animação e filmes curtos. Distrito 9 é sua estréias como diretor de longa metragem. http://pt.wikipedia.org/ 3075 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ conotação dada às migrações procedidas durante a expansão colonialista nele registra- “ ” q grantes ocasiona, não importando o lugar de onde venham. Aliás, o lugar que eles podem ocupar é o mesmo a que foram confinados não os migrantes, mas os b z “ v ” Neste filme, a área configurada como o Distrito 9 guarda muitas semelhanças com a Soweto, do período do apartheid. É importante indicar que, seja no Distrito 9, ou em qualquer outro lugar, os extraterrestres do filme estão destinados a viver como refugiados, tal como acontece com certas populações da África e da América, que foram, muitas delas, banidas de seus lares pela ocupação colonial, bem como pelas guerras étnicas, tal como sucede na ficção, no filme Filhos da Esperança (2006), já comentado. Em Distrito 9, a situação narrada no filme, e que se torna cada vez mais insustentável no transcorrer do mesmo, alude aos campos de refugiados existentes em vários locais do mundo, para os quais esses foram encaminhados em uma condição temporária, que se torna, no entanto, permanente sem oferecer perspectivas de melhoria de vida. Neste filme, após vinte anos de existência do Distrito 9, os seres humanos decidem que os extraterrestres devem ser removidos para um local muito afastado da Joanesburgo do filme e iniciam a sua remoção para o Distrito 10, distante cerca de duzentos quilômetros de distância daquela cidade. O filme focaliza, então, a tentativa de transferência dos extraterrestres de um local para o outro, o que o personagem principal do filme Wikus Van De Merwe 115 refere como uma ação de despejo. É nesta situação que o filme Distrito 9 (2009) evoca a questão das miscigenações, pois acidentalmente respinga sobre o rosto do personagem encarregado de promover o despejo dos extraterrestres um líquido que contém o DNA desses extraterrestres. Tal como sucedeu em um filme mais antigo, A Mosca 116 (1986), seu corpo assume progressivamente o aspecto do corpo dos extraterrestres, tornando-se ele, 115 O ator Sharito Copley. A Mosca (1986). Filme dirigido por David Cronenberg que narra a história de um cientista que trabalhava testando uma máquina de teletransporte. Em uma das suas tentativas uma mosca entra com ele na cabine. O resultado é a fusão dos doisa nível molecular, transformando o protagonista do filme em uma mosca gigante. http://pt.wikipedia.org/wiki/golem http://www.adorocinema.com/filmes/mosca 116 3076 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ então, um híbrido, que passa também a ser investigado pelos cientistas da organização que ele mesmo representava117. Aliás, o propósito de estudá-lo direciona-se à busca da descoberta do funcionamento das armas desses extraterrestres que os humanos não tinham conseguido conhecer, apesar de os terem estudado minuciosamente. Seu corpo passa, assim, a ser motivo de disputas por pensarem os cientistas que, ao ter-se ele transformado em um extraterrestre, naturalmente adquiriria a habilidade de valer-se de tais armas. O protagonista passa a viver um dilema que o faz oscilar entre defender os extraterrestres em algumas situações e traí-los em outras. Ele age ora com a dignidade que os extraterrestres sempre demonstram no filme, ora com a crueldade com que os seres humanos são representados. No final da história, sem saída, e já totalmente transformado, ele acaba ficando ao lado dos que o acolheram, refugiando-se entre os extraterrestres até conseguir um meio de reverter a transformação sofrida. E é essa a forma como o personagem passa a entender o que é ser um refugiado e que o faz abandonar os seus antigos preconceitos. Então, assim como artefatos que perderam seu valor comercial, inúmeros personagens dos filmes analisados passam para o outro lado de uma linha tênue e móvel que distingue o que é aceitável do que é considerado repulsivo, sujo, indesejado e, algumas vezes, ambíguo. Esses mesmos termos são aplicados, tanto nos filmes, quanto em situações da vida neste início de século XXI, a contingentes populacionais cada vez maiores para os quais não há mais um lugar em seus países de origem. Isso os leva a submeterem-se a sacrifícios, perigos e humilhações em troca de meios de subsistência. Então se tornam imigrantes ilegais ou refugiados, sobras do estágio atual da modernização que atinge países que antes eram as colônias das grandes metrópoles econômicas. Resumen Partimos de las películas de ficción científica( Hijos de los Hombres) (2006) y Distrito 9 (2009) para investigar las maneras de configurar un mundo altamente tecnológico donde hay grandes poblaciones excedentes que 117 Tal como muitas grandes Companhias multinacionais, esta Instituição explorava os extraterrestres em troca de comida 3077 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ migran para los antiguos centros coloniales. Los Estudios Culturales en Educación, de inspiración postmoderna y postestructuralista, nos permitió z “ ñ z ” direccionadas a los públicos de estas películas. Palabras clave: Estudios Culturales, Pedagogías Culturales, Cine, Ficción Científica, Migrações. FOTOGRAFIAS DIGITAIS E ENSINO DE ARTES VISUAIS: CARTOGRAFIAS ENTRE O DOCUMENTO E A EXPRESSÃO Sandra Corrêa Vieira118 IFSul-Rio-Grandense – Campus Bagé [email protected] RESUMO: O texto faz um breve estudo cartográfico acerca da fotografia, com ênfase na sua utilização nas poéticas da Arte Contemporânea. Tendo como referência os estudos da Filosofia da Diferença busca-se refletir sobre a prática fotográfica dos indivíduos no cotidiano, na tentativa de aproximá-la ao ensino de Artes Visuais. Palavras-Chave: Fotografia; Arte Contemporânea; Ensino de Artes Visuais; Cartografia A fotografia desde o seu surgimento atua ativamente em diversas áreas: comercial, científica, entretenimento, artístico. E ela guarda junto com o seu aparecimento uma tensão na sua utilização. Conforme escreve André Rouillè, em A fotografia: entre documento e arte contemporânea, as pesquisas sobre a fotografia são novas e, ainda existe uma série de questões que precisam ser objeto de estudo para o seu entendimento e produtividade. 118 Mestre em Educação; Especialista em Filosofia; Licenciada em Artes Visuais, todos os títulos obtidos na UFPel. Atualmente é professora de Artes no IFSul-Rio-Grandense Campus Bagé. Desenvolve pesquisas em Arte e Educação, através da perspectiva da Filosofia da Diferença, com ênfase nas seguintes temáticas: Ética e Estética; Mídias Digitais; Currículo. 3078 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Uma vez que, a fotografia surge na sociedade industrial do século XIX como forma de representá-la ou documentá-la. No entanto, segundo o autor nas sociedades ocidentais contemporâneas, as imagens fotográficas perdem o seu objetivo unicamente documental e utilitário, como foram consideradas P “ v x v ” 119 Enquanto a fotografia- documento se apoia na crença da representação do real assumindo o seu caráter direto, a fotografia-expressão assumi um caráter indireto.120 Na arte ela aparece ora como registro ora como meio, ou melhor, com status artístico. No contemporâneo a prática de fotografar é uma constante na vida dos indivíduos, e desta forma, investigar sobre esta prática com a intenção de aproximá-la ao fazer pedagógico é um grande desafio para os professores de Artes Visuais. O presente texto busca fazer um breve estudo cartográfico acerca da fotografia. Entendendo-a como um meio utilizado nas poéticas da arte contemporânea, assim como a utilização deste meio como um potente recurso para a aula de Artes Visuais. Com intuito de apresentar algumas discussões sobre esta temática este artigo está divido em seções. Inicialmente, faço um breve ensaio sobre a cartografia à luz da filosofia da Diferença, em especial de Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em seguida proponho um breve estudo sobre a utilização da fotografia nas poéticas da arte contemporânea através dos estudos de André Rouillé, em especial, logo após apresento ao leitor algumas reflexões sobre a utilização da fotografia como recurso didático na busca de uma cartografia no fazer pedagógico artístico. CARTOGRAFIA: UM PROCEDIMENTO ATRAVÉS DA CRIAÇÃO A cartografia é um termo utilizado pelos geógrafos para definir a arte ou a técnica que visa à elaboração de cartas geográficas ou mapas, a partir 119 ROUILLÉ, André. A fotografia: entre o documento e arte contemporânea; Tradução Constância Egrejas. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, PP. 15-18. 120 Idem, p. 19. 3079 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ dos movimentos de transformação de uma paisagem. Este termo é utilizado por alguns filósofos da filosofia da Diferença para narrar e expor mapas sociais, políticos e existenciais.121 A filosofia da Diferença entende que as ciências estão sempre se transformando e se relacionando, e que por isso tanto o sujeito quanto o objeto do conhecimento são construções ou criações discursivas. Essa forma de pensar surge a partir do perspectivismo de Nietzsche, e os filósofos de maior expressão desta prática filosófica são: Foucault, Deleuze, Guatarri. Eles desenvolvem uma perspectiva filosófica que se interessa pela pluralidade, diversidade e singularidade, ao invés de uma filosofia baseada numa ideia universal e totalitária.122 A cartografia, segundo Deleuze, é o modo de se fazer pesquisa, sendo que ele percebe este modo de pesquisar em Foucault. O estilo de cartógrafo que Foucault tem nos seus procedimentos investigativos, aparece na forma como ele olha para o presente, para os acontecimentos. Deleuze explica que: Foucault deu-lhe certa vez o nome mais exato: é um diagrama. O diagrama não é mais o arquivo auditivo ou visual, é o mapa, a cartografia, co-extensiva a todo campo social. É uma máquina abstrata [...] é uma máquina quase muda e cega, embora seja ela que faça ver e falar.123 Pode-se entender que o diagrama é uma multiplicidade espaço“ q q ”124 Desta maneira, a cartografia de um espaço social visa as descontinuidades, as rupturas de cada momento histórico. Podemos pensar em um fazer cartográfico para a aula de Artes Visuais, buscando nos acontecimentos de cada tempo formas de conhecer, relacionar e pensar na arte. Pois a cartografia parte de uma criação da realidade através de inter-relações que 121 DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução Claudia Martins. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 44. 122 PETERS, Michel. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000 123 DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução Claudia Martins. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 44. 124 Idem, Ibidem. 3080 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ fazemos com diversas áreas do conhecimento: Arte, História, Filosofia, Ecologia, entre outras. O cartógrafo quer se situar, sempre que possível, na adjacência das mutações das paisagens, numa situação que lhe permita admitir o caráter finito e ilimitado de um determinado processo de produção de uma realidade. E por isso, o cartógrafo quer aprender os movimentos que surgem nos terrenos sociais, políticos e existenciais de uma época. Todavia, para isso é necessário um tipo de sensibilidade, uma determinada prática, um modo de ser, uma forma de olhar para os acontecimentos. A cartografia permite que o pesquisador insira-se no contexto das relações que deseja conhecer. O cartógrafo não está separado do objeto que pesquisa. Neste sentido, o exercício cartográfico possui uma linha de sustentação através da criação e da implicação do pesquisador com a sua pesquisa. Entendendo que, conhecer é um processo inseparável dos afetos que permeiam o que queremos conhecer.125 Desta forma, o pesquisador não está fora do processo de pesquisa, pois a produção do conhecimento acontece a partir das percepções, sensações, intuições e dos afetos que vivencia no seu campo de investigação. O pesquisador vai delimitando os pontos, organizando seu estudo através da complexidade que perpassam as relações sociais. Conforme Mairesse o método cartográfico: [...] desencadeia um processo de desterritorializaçãono campo da ciência, para inaugurar uma nova forma de produzir o conhecimento, um modo que envolve criação, a arte, a implicação do autor, artista, pesquisador, cartógrafo.126 O cartógrafo vai desenhando seu mapa, rastreando linhas, pontos, cortes, na medida em que vivencia a sua realidade em sua complexidade, considerando que a realidade é construída através das produções de saberes, das relações de poder existentes em cada período histórico. Nestes termos, no exercício cartográfico, problematizações, surgem na medida em 125 ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo, São Paulo: Estação Liberdade, 1989. 126 MAIRESSE, D. Cartografia: do método à arte de fazer pesquisa.In.: FONSECA, T.M.; KIRST, P. (Orgs.). Cartografias e devires: a construção do presente, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003, p. 259. 3081 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ que se pesquisa. Como assim? Quem faz um mapa, na medida em que olha para um determinado terreno, vai desenhando. Se surge um rio, o cartógrafo desenha o rio, se surge um bosque, ele desenha o bosque, não existindo uma previsibilidade. A realidade está sempre em movimento. Não é por acaso que os satélites de sensoriamento fotografam frequentemente o planeta, assim como os dados obtidos por levantamentos com GPS, entre outras tecnologias, buscam observar e registrar as modificações terrestres, os acidentes, os acontecimentos. Podemos pensar quanto aos mapas sociais, e que as problematizações vão aparecendo no momento que se pesquisa. Entendendo que, as respostas e problematizações de uma pesquisa são provisórias. A prática de um cartógrafo diz respeito, fundamentalmente, às estratégias das formações do desejo no campo social. Talvez pouco importe, no exercício cartográfico, os setores da vida social que se tome como objeto. O que importa é que o cartógrafo esteja atento às estratégias do desejo em qualquer fenômeno da existência humana. Investir em um trabalho pedagógico através da pesquisa, da criação de novas possibilidades educacionais é um grande desafio para o nosso tempo. Visto que, percebemos que a cada momento as coisas estão sendo construídas, reinterpretadas. Desta maneira a cartografia abre um espaço no processo pedagógico, em especial, no ensino de Artes Visuais, para que se busque trazer o conhecimento para a vida do aluno através de uma teia onde os saberes não estão isolados, e separados por hierarquias. Como podemos explorar esta forma de pensar tendo como temática a fotografia? A FOTOGRAFIA NAS POÉTICAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA: ENTRE O DOCUMENTO E A EXPRESSÃO Se o artista sempre se utiliza, para desenvolver a sua obra, de meios e técnicas do seu tempo, as artes midiáticas representam a forma de expressão mais avançada do contemporâneo. Desta forma com o avanço tecnológico do mundo atual, as poéticas artísticas contemporâneas exprimem 3082 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ os saberes e a sensibilidade do artista contemporâneo como fonte de criação. Segundo Arlindo Machado, em Arte e mídia, grande parte da criação artística atual é traçada através das poéticas tecnológicas, e entre as tecnologias de expressão pode-se destacar a fotografia, o cinema, o vídeo, a ú ô q q “ não inteiramente mapeados – como a criação colaborativa baseada em v õ b v v ”127, entre tantos outros meios que envolvam arte e tecnologias. A fotografia é um meio. O meio é o veículo pelo qual a arte se concretiza.128 A prática fotográfica expandiu-se rapidamente, e com o tempo o seu custo passou a ser mais baixo possibilitando que a sua prática chegasse ao alcance da vida cotidiana. A sociedade contemporânea, com o advento desta técnica, passou a entrar em contato com paisagens de lugares distantes, da mesma forma a fotografia serviu para representar a cultura de civilizações exóticas e acontecimentos importantes. Hoje, as pessoas fotografam tudo e vêem fotografias de situações diversas. Sua difusão na arte foi um processo rápido também, sendo que muitos autores comentam que o seu surgimento ocasionou profundas transformações nas artes plásticas. Como meio de expressão a fotografia pode ser figurativa ou abstrata, geométrica, informal, narrativa ou não.129 Cabe destacar que nas vanguardas artísticas a fotografia era muito utilizada como fonte de registro das performances e happenings, em especial, nos movimentos Dadaístas, Cubistas, Futuristas, Surrealista, Minimalista. A fotografia, além de ser uma forma de registro, passou a ser z b b “ fotografia na imprensa foi, por exemplo, um elemento decisivo na colagem cubista. Também é importante resplandecer sobre sua importância no movimento Futurista, pois Giacomo Balla junto com os fotógrafos Anton 127 MACHADO, Arlindo. Arte e mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010, p. 08. COSTA, Cacilda Teixeira da. Arte no Brasil 1950-2000: movimentos e meios. São Paulo: Alameda, 2004, pp. 52-55. 129 Idem 128 3083 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Giulio e Arturo Bragaglia criaram em 1911 o Fotodinamismo, buscando representar o movimento por meio de longas exposições.130 No entanto a fotografia tem seu auge a partir de 1960, em especial, na sua utilização através da Art Pop, visto que esse movimento é marcado pela nova figuração de imagens já captadas pela fotografia, cinema, publicidade. As imagens fotográficas já utilizadas pela mídia, assim como, serigrafias, colagens, passaram a fazer parte das poéticas artísticas. A produção da arte contemporânea a partir do legado do Dadaísmo, e da ênfase da Art Pop foi buscar a junção da vida cotidiana com a arte. As imagens produzidas pelos novos meios, como a fotografia, vinculou-se a arte com o intuito de trazer a linguagem da mídia, a linguagem da cultura de à D “ -se uma interlíngua que, dispondo de todos os meios, é a única capaz de ” 131 A arte confunde-se com qualquer x outro produto da vida cotidiana: sorvete, banana, Elvis Presley, etc. E por meio desse novo modo de se conceber o estético e o artístico a fotografia ganha um espaço como forma de investigação do real nas propostas da arte contemporânea. No Brasil, em especial, foi em 1970 que houve uma grande utilização desta nova mídia tecnológica nas propostas da arte. Entre muitos artistas é expressivo destacar Geraldo Barros, José Oiticica Filho (imagens abstratas e geométricas) Bulcão (fotomontagens de inspiração surrealista).132 Também a fotografia tornou-se suporte para a arte Conceitual. No Brasil merecem destaque os artistas Mario Cravo Neto, Maureen Bisilliat, Claudia Andujar, Miguel Rio Branco, Anna Mariani, Arthur Omar, entre outros. A arte contemporânea mescla-se com diversas áreas da cultura, tentando relacionar a arte com a vida. Desta maneira, as poéticas da arte contemporânea fazem conexões entre o artístico, o científico, o político, o religioso que perpassam o social, o cotidiano e o imaginário. 130 Idem CANONGIA, Lygia. O legado dos anos 60 e 70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 42. 132 Idem, p. 70. 131 3084 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Hoje muitos autores, estudiosos, críticos de arte buscam entender a hibridização das técnicas e ferramentas que servem de suporte e meio para a as poéticas da arte contemporânea, incluindo as novas mídias digitais. A fotografia digital tem sua explosão na atualidade. Muitos artistas contemporâneos se utilizam de narrativas fictícias através das fotografias digitais. Com o avanço tecnológico nunca se produziu tantas imagens. Principalmente, através do grande progresso na construção e manipulação de imagens, com o advento da câmera digital. FOTOGRAFIAS DIGITAIS NA AULA DE ARTES VISUAIS: DO DOCUMENTO À EXPRESSÃO Observa-se que a fotografia é uma prática constante na vida das pessoas. Assim como, a fotografia é uma tecnologia muito aproveitada nas poéticas da arte contemporânea. No entanto, Arlindo Machado salienta que as propostas da arte são de quebrar com a frieza dos materiais e das técnicas utilizados por ela, explorando o sensível que ela pode proporcionar. Roland Barthes, em A câmara clara, escreve que uma prática “ õ ) bj ( õ ”133 Uma prática fotográfica é produtora de z três ações. Ela ativa o olhar. Ela nos faz pensar, suportar, observar e refletir sobre o que estamos olhando. E ela pede uma decisão, uma escolha, que fica definida pelo operador. Quem fotografa, na medida em que olha, pensa e sente, opera quando decide o que vai deixar registrado, conforme escreve B “ operador ”134, e como operador, o órgão do fotógrafo, do olho passa a ser o dedo que decide, escolhe, dispara e marca a experiência do instante. 135 A fotografia pode ser pensada como o instante que fica registrado como imagemj b “ q ”136 133 BARTHES, Roland. A câmara clara. Tradução Júlio Castañon Guimarães.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 20. 134 Idem, Ibidem. 135 Idem, p. 30. 136 Idem, Ibidem. 3085 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A fotografia é repleta de informações. Ela nos revela momentos, lugares e acontecimentos que ficam cristalizados por meio de um simples clique. Através dessa prática, podemos imaginar que paramos um segundo no tempo para registrar o que acontece ao nosso redor. Nesse aspecto “ q b -documento que compreende uma expressão, ”137 A fotografia-expressão não busca uma referência imediata do real. Talvez ela abra caminho para novas visibilidades. A prática fotográfica pode ser uma tentativa de abrir um espaço para uma possível experiência na aula de Artes Visuais. Ensinar arte não diz respeito exclusivamente à arte. Penso que ensinar arte é uma forma de pensar sobre como nos tornamos o que somos e sobre como olhamos para a vida. Desta forma entendo que o aprendizado com a arte é um exercício que nos aproxima da vida, e essa aproximação, esse encontro com a vida pode ser pensado como um encontro ético e estético. O professor deve estar sempre atento e em contato com as práticas produzidas pelos seus alunos, pois através delas ele pode fazer interrelações na busca do que é relevante para a formação do indivíduo. Como a prática de fotografar é uma constante no mundo atual, e expressivo destacar que muitas pessoas possuem câmera digital, ou celular com câmera. Na minha experiência profissional identifico muito a utilização deste recurso tecnológico entre os alunos. Produzir na aula de Artes Visuais uma atividade através deste recurso é bastante desafiador e enriquecedor. O professor pode utilizar este meio com a intenção de despertar nos alunos outras formas de olhar para o seu cotidiano. E desta forma o fazer pedagógico pode se tornar um espaço de experiência, um fazer cartográfico. Em que a investigação parte da própria cultura dos alunos e a partir dela o docente vai criando linhas de pesquisa que operem entre a vida dos estudantes e a utilização da fotografia nas propostas da arte contemporânea. 137 ROUILLÉ, André. A fotografia: entre o documento e arte contemporânea; Tradução Constância Egrejas. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, p. 137. 3086 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ FOTOGRAFÍAS DIGITALES Y ENSEÑANZA DE LAS ARTES VISUALES: CARTOGRAFÍA ENTRE EL DOCUMENTO Y LA EXPRESIÓN RESUMEN: El tema hace un ligero estudio cartográfico acerca de la fotografía con énfasis en su utilización en las poéticas del arte contemporáneo. Tomando como referencia los estudios de la Filosofia de la Diferencia, intentase reflejar sobre la práctica fotográfica de los individuos en el cotidiano, intencionado aproximarla a la enseñanza de las Arte Visuales. Palavras-llave: Fotografia; Arte Contempráneo; Enseñanza de las Artes Visuales; Cartografia Sandra Corrêa Vieira é Mestre em Educação; Especialista em Filosofia; Licenciada em Artes Visuais, todos os títulos obtidos na UFPel. Atualmente é professora de Artes no IFSul-Rio-Grandense - Campus Bagé. Desenvolve pesquisas em Arte e Educação, através da perspectiva da Filosofia da Diferença, com ênfase nas seguintes temáticas: Ética e Estética; Mídias Digitais; Currículo. [email protected] FOTOGRAFIAS DIGITAIS E ENSINO DE ARTES VISUAIS: CARTOGRAFIAS ENTRE O DOCUMENTO E A EXPRESSÃO Sandra Corrêa Vieira138 IFSul-Rio-Grandense – Campus Bagé [email protected] RESUMO: O texto faz um breve estudo cartográfico acerca da fotografia, com ênfase na sua utilização nas poéticas da Arte Contemporânea. Tendo como referência os estudos da Filosofia da Diferença busca-se refletir sobre 138 Mestre em Educação; Especialista em Filosofia; Licenciada em Artes Visuais, todos os títulos obtidos na UFPel. Atualmente é professora de Artes no IFSul-Rio-Grandense Campus Bagé. Desenvolve pesquisas em Arte e Educação, através da perspectiva da Filosofia da Diferença, com ênfase nas seguintes temáticas: Ética e Estética; Mídias Digitais; Currículo. 3087 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ a prática fotográfica dos indivíduos no cotidiano, na tentativa de aproximá-la ao ensino de Artes Visuais. Palavras-Chave: Fotografia; Arte Contemporânea; Ensino de Artes Visuais; Cartografia A fotografia desde o seu surgimento atua ativamente em diversas áreas: comercial, científica, entretenimento, artístico. E ela guarda junto com o seu aparecimento uma tensão na sua utilização. Conforme escreve André Rouillè, em A fotografia: entre documento e arte contemporânea, as pesquisas sobre a fotografia são novas e, ainda existe uma série de questões que precisam ser objeto de estudo para o seu entendimento e produtividade. Uma vez que, a fotografia surge na sociedade industrial do século XIX como forma de representá-la ou documentá-la. No entanto, segundo o autor nas sociedades ocidentais contemporâneas, as imagens fotográficas perdem o seu objetivo unicamente documental e utilitário, como foram consideradas P “ v x v ” 139 Enquanto a fotografia- documento se apoia na crença da representação do real assumindo o seu caráter direto, a fotografia-expressão assumi um caráter indireto.140 Na arte ela aparece ora como registro ora como meio, ou melhor, com status artístico. No contemporâneo a prática de fotografar é uma constante na vida dos indivíduos, e desta forma, investigar sobre esta prática com a intenção de aproximá-la ao fazer pedagógico é um grande desafio para os professores de Artes Visuais. O presente texto busca fazer um breve estudo cartográfico acerca da fotografia. Entendendo-a como um meio utilizado nas poéticas da arte contemporânea, assim como a utilização deste meio como um potente recurso para a aula de Artes Visuais. Com intuito de apresentar algumas discussões sobre esta temática este artigo está divido em seções. 139 ROUILLÉ, André. A fotografia: entre o documento e arte contemporânea; Tradução Constância Egrejas. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, PP. 15-18. 140 Idem, p. 19. 3088 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Inicialmente, faço um breve ensaio sobre a cartografia à luz da filosofia da Diferença, em especial de Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em seguida proponho um breve estudo sobre a utilização da fotografia nas poéticas da arte contemporânea através dos estudos de André Rouillé, em especial, logo após apresento ao leitor algumas reflexões sobre a utilização da fotografia como recurso didático na busca de uma cartografia no fazer pedagógico artístico. CARTOGRAFIA: UM PROCEDIMENTO ATRAVÉS DA CRIAÇÃO A cartografia é um termo utilizado pelos geógrafos para definir a arte ou a técnica que visa à elaboração de cartas geográficas ou mapas, a partir dos movimentos de transformação de uma paisagem. Este termo é utilizado por alguns filósofos da filosofia da Diferença para narrar e expor mapas sociais, políticos e existenciais.141 A filosofia da Diferença entende que as ciências estão sempre se transformando e se relacionando, e que por isso tanto o sujeito quanto o objeto do conhecimento são construções ou criações discursivas. Essa forma de pensar surge a partir do perspectivismo de Nietzsche, e os filósofos de maior expressão desta prática filosófica são: Foucault, Deleuze, Guatarri. Eles desenvolvem uma perspectiva filosófica que se interessa pela pluralidade, diversidade e singularidade, ao invés de uma filosofia baseada numa ideia universal e totalitária.142 A cartografia, segundo Deleuze, é o modo de se fazer pesquisa, sendo que ele percebe este modo de pesquisar em Foucault. O estilo de cartógrafo que Foucault tem nos seus procedimentos investigativos, aparece na forma como ele olha para o presente, para os acontecimentos. Deleuze explica que: Foucault deu-lhe certa vez o nome mais exato: é um diagrama. O diagrama não é mais o arquivo auditivo ou 141 DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução Claudia Martins. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 44. 142 PETERS, Michel. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000 3089 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ visual, é o mapa, a cartografia, co-extensiva a todo campo social. É uma máquina abstrata [...] é uma máquina quase muda e cega, embora seja ela que faça ver e falar.143 Pode-se entender que o diagrama é uma multiplicidade espaço“ q q ” 144 Desta maneira, a cartografia de um espaço social visa as descontinuidades, as rupturas de cada momento histórico. Podemos pensar em um fazer cartográfico para a aula de Artes Visuais, buscando nos acontecimentos de cada tempo formas de conhecer, relacionar e pensar na arte. Pois a cartografia parte de uma criação da realidade através de inter-relações que fazemos com diversas áreas do conhecimento: Arte, História, Filosofia, Ecologia, entre outras. O cartógrafo quer se situar, sempre que possível, na adjacência das mutações das paisagens, numa situação que lhe permita admitir o caráter finito e ilimitado de um determinado processo de produção de uma realidade. E por isso, o cartógrafo quer aprender os movimentos que surgem nos terrenos sociais, políticos e existenciais de uma época. Todavia, para isso é necessário um tipo de sensibilidade, uma determinada prática, um modo de ser, uma forma de olhar para os acontecimentos. A cartografia permite que o pesquisador insira-se no contexto das relações que deseja conhecer. O cartógrafo não está separado do objeto que pesquisa. Neste sentido, o exercício cartográfico possui uma linha de sustentação através da criação e da implicação do pesquisador com a sua pesquisa. Entendendo que, conhecer é um processo inseparável dos afetos que permeiam o que queremos conhecer.145 Desta forma, o pesquisador não está fora do processo de pesquisa, pois a produção do conhecimento acontece a partir das percepções, sensações, intuições e dos afetos que vivencia no seu campo de investigação. O pesquisador vai delimitando os 143 DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução Claudia Martins. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 44. 144 Idem, Ibidem. 145 ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo, São Paulo: Estação Liberdade, 1989. 3090 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ pontos, organizando seu estudo através da complexidade que perpassam as relações sociais. Conforme Mairesse o método cartográfico: [...] desencadeia um processo de desterritorializaçãono campo da ciência, para inaugurar uma nova forma de produzir o conhecimento, um modo que envolve criação, a arte, a implicação do autor, artista, pesquisador, cartógrafo.146 O cartógrafo vai desenhando seu mapa, rastreando linhas, pontos, cortes, na medida em que vivencia a sua realidade em sua complexidade, considerando que a realidade é construída através das produções de saberes, das relações de poder existentes em cada período histórico. Nestes termos, no exercício cartográfico, problematizações, surgem na medida em que se pesquisa. Como assim? Quem faz um mapa, na medida em que olha para um determinado terreno, vai desenhando. Se surge um rio, o cartógrafo desenha o rio, se surge um bosque, ele desenha o bosque, não existindo uma previsibilidade. A realidade está sempre em movimento. Não é por acaso que os satélites de sensoriamento fotografam frequentemente o planeta, assim como os dados obtidos por levantamentos com GPS, entre outras tecnologias, buscam observar e registrar as modificações terrestres, os acidentes, os acontecimentos. Podemos pensar quanto aos mapas sociais, e que as problematizações vão aparecendo no momento que se pesquisa. Entendendo que, as respostas e problematizações de uma pesquisa são provisórias. A prática de um cartógrafo diz respeito, fundamentalmente, às estratégias das formações do desejo no campo social. Talvez pouco importe, no exercício cartográfico, os setores da vida social que se tome como objeto. O que importa é que o cartógrafo esteja atento às estratégias do desejo em qualquer fenômeno da existência humana. Investir em um trabalho pedagógico através da pesquisa, da criação de novas possibilidades educacionais é um grande desafio para o nosso tempo. Visto que, percebemos que a cada momento as coisas estão sendo 146 MAIRESSE, D. Cartografia: do método à arte de fazer pesquisa.In.: FONSECA, T.M.; KIRST, P. (Orgs.). Cartografias e devires: a construção do presente, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003, p. 259. 3091 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ construídas, reinterpretadas. Desta maneira a cartografia abre um espaço no processo pedagógico, em especial, no ensino de Artes Visuais, para que se busque trazer o conhecimento para a vida do aluno através de uma teia onde os saberes não estão isolados, e separados por hierarquias. Como podemos explorar esta forma de pensar tendo como temática a fotografia? A FOTOGRAFIA NAS POÉTICAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA: ENTRE O DOCUMENTO E A EXPRESSÃO Se o artista sempre se utiliza, para desenvolver a sua obra, de meios e técnicas do seu tempo, as artes midiáticas representam a forma de expressão mais avançada do contemporâneo. Desta forma com o avanço tecnológico do mundo atual, as poéticas artísticas contemporâneas exprimem os saberes e a sensibilidade do artista contemporâneo como fonte de criação. Segundo Arlindo Machado, em Arte e mídia, grande parte da criação artística atual é traçada através das poéticas tecnológicas, e entre as tecnologias de expressão pode-se destacar a fotografia, o cinema, o vídeo, a ú ô q q “ não inteiramente mapeados – como a criação colaborativa baseada em redes, as intervenções em ambientes virtuais ou semiv ”147, entre tantos outros meios que envolvam arte e tecnologias. A fotografia é um meio. O meio é o veículo pelo qual a arte se concretiza.148 A prática fotográfica expandiu-se rapidamente, e com o tempo o seu custo passou a ser mais baixo possibilitando que a sua prática chegasse ao alcance da vida cotidiana. A sociedade contemporânea, com o advento desta técnica, passou a entrar em contato com paisagens de lugares distantes, da mesma forma a fotografia serviu para representar a cultura de civilizações exóticas e acontecimentos importantes. Hoje, as pessoas fotografam tudo e vêem fotografias de situações diversas. 147 MACHADO, Arlindo. Arte e mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010, p. 08. COSTA, Cacilda Teixeira da. Arte no Brasil 1950-2000: movimentos e meios. São Paulo: Alameda, 2004, pp. 52-55. 148 3092 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Sua difusão na arte foi um processo rápido também, sendo que muitos autores comentam que o seu surgimento ocasionou profundas transformações nas artes plásticas. Como meio de expressão a fotografia pode ser figurativa ou abstrata, geométrica, informal, narrativa ou não.149 Cabe destacar que nas vanguardas artísticas a fotografia era muito utilizada como fonte de registro das performances e happenings, em especial, nos movimentos Dadaístas, Cubistas, Futuristas, Surrealista, Minimalista. A fotografia, além de ser uma forma de registro, passou a ser z b b “ fotografia na imprensa foi, por exemplo, um elemento decisivo na colagem cubista. Também é importante resplandecer sobre sua importância no movimento Futurista, pois Giacomo Balla junto com os fotógrafos Anton Giulio e Arturo Bragaglia criaram em 1911 o Fotodinamismo, buscando representar o movimento por meio de longas exposições.150 No entanto a fotografia tem seu auge a partir de 1960, em especial, na sua utilização através da Art Pop, visto que esse movimento é marcado pela nova figuração de imagens já captadas pela fotografia, cinema, publicidade. As imagens fotográficas já utilizadas pela mídia, assim como, serigrafias, colagens, passaram a fazer parte das poéticas artísticas. A produção da arte contemporânea a partir do legado do Dadaísmo, e da ênfase da Art Pop foi buscar a junção da vida cotidiana com a arte. As imagens produzidas pelos novos meios, como a fotografia, vinculou-se a arte com o intuito de trazer a linguagem da mídia, a linguagem da cultura de à D “ rma-se uma interlíngua que, dispondo de todos os meios, é a única capaz de x ” 151 A arte confunde-se com qualquer outro produto da vida cotidiana: sorvete, banana, Elvis Presley, etc. E por meio desse novo modo de se conceber o estético e o artístico a fotografia 149 Idem Idem 151 CANONGIA, Lygia. O legado dos anos 60 e 70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 42. 150 3093 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ganha um espaço como forma de investigação do real nas propostas da arte contemporânea. No Brasil, em especial, foi em 1970 que houve uma grande utilização desta nova mídia tecnológica nas propostas da arte. Entre muitos artistas é expressivo destacar Geraldo Barros, José Oiticica Filho (imagens abstratas e geométricas) Bulcão (fotomontagens de inspiração surrealista).152 Também a fotografia tornou-se suporte para a arte Conceitual. No Brasil merecem destaque os artistas Mario Cravo Neto, Maureen Bisilliat, Claudia Andujar, Miguel Rio Branco, Anna Mariani, Arthur Omar, entre outros. A arte contemporânea mescla-se com diversas áreas da cultura, tentando relacionar a arte com a vida. Desta maneira, as poéticas da arte contemporânea fazem conexões entre o artístico, o científico, o político, o religioso que perpassam o social, o cotidiano e o imaginário. Hoje muitos autores, estudiosos, críticos de arte buscam entender a hibridização das técnicas e ferramentas que servem de suporte e meio para a as poéticas da arte contemporânea, incluindo as novas mídias digitais. A fotografia digital tem sua explosão na atualidade. Muitos artistas contemporâneos se utilizam de narrativas fictícias através das fotografias digitais. Com o avanço tecnológico nunca se produziu tantas imagens. Principalmente, através do grande progresso na construção e manipulação de imagens, com o advento da câmera digital. FOTOGRAFIAS DIGITAIS NA AULA DE ARTES VISUAIS: DO DOCUMENTO À EXPRESSÃO Observa-se que a fotografia é uma prática constante na vida das pessoas. Assim como, a fotografia é uma tecnologia muito aproveitada nas poéticas da arte contemporânea. No entanto, Arlindo Machado salienta que as propostas da arte são de quebrar com a frieza dos materiais e das técnicas utilizados por ela, explorando o sensível que ela pode proporcionar. Roland Barthes, em A câmara clara, escreve que uma prática “ 152 bj ( õ Idem, p. 70. 3094 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ õ ) ”153 Uma prática fotográfica é produtora de z três ações. Ela ativa o olhar. Ela nos faz pensar, suportar, observar e refletir sobre o que estamos olhando. E ela pede uma decisão, uma escolha, que fica definida pelo operador. Quem fotografa, na medida em que olha, pensa e sente, opera quando decide o que vai deixar registrado, conforme escreve B ”154, e como operador, o órgão do fotógrafo, “ operador do olho passa a ser o dedo que decide, escolhe, dispara e marca a experiência do instante. 155 A fotografia pode ser pensada como o instante b que fica registrado como imagem- “ q ”156 j A fotografia é repleta de informações. Ela nos revela momentos, lugares e acontecimentos que ficam cristalizados por meio de um simples clique. Através dessa prática, podemos imaginar que paramos um segundo no tempo para registrar o que acontece ao nosso redor. Nesse aspecto “ q b -documento que compreende uma expressão, ”157 A fotografia-expressão não busca uma referência imediata do real. Talvez ela abra caminho para novas visibilidades. A prática fotográfica pode ser uma tentativa de abrir um espaço para uma possível experiência na aula de Artes Visuais. Ensinar arte não diz respeito exclusivamente à arte. Penso que ensinar arte é uma forma de pensar sobre como nos tornamos o que somos e sobre como olhamos para a vida. Desta forma entendo que o aprendizado com a arte é um exercício que nos aproxima da vida, e essa aproximação, esse encontro com a vida pode ser pensado como um encontro ético e estético. O professor deve estar sempre atento e em contato com as práticas produzidas pelos seus alunos, pois através delas ele pode fazer interrelações na busca do que é relevante para a formação do indivíduo. Como a prática de fotografar é uma constante no mundo atual, e expressivo destacar 153 BARTHES, Roland. A câmara clara. Tradução Júlio Castañon Guimarães.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 20. 154 Idem, Ibidem. 155 Idem, p. 30. 156 Idem, Ibidem. 157 ROUILLÉ, André. A fotografia: entre o documento e arte contemporânea; Tradução Constância Egrejas. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, p. 137. 3095 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ que muitas pessoas possuem câmera digital, ou celular com câmera. Na minha experiência profissional identifico muito a utilização deste recurso tecnológico entre os alunos. Produzir na aula de Artes Visuais uma atividade através deste recurso é bastante desafiador e enriquecedor. O professor pode utilizar este meio com a intenção de despertar nos alunos outras formas de olhar para o seu cotidiano. E desta forma o fazer pedagógico pode se tornar um espaço de experiência, um fazer cartográfico. Em que a investigação parte da própria cultura dos alunos e a partir dela o docente vai criando linhas de pesquisa que operem entre a vida dos estudantes e a utilização da fotografia nas propostas da arte contemporânea. FOTOGRAFÍAS DIGITALES Y ENSEÑANZA DE LAS ARTES VISUALES: CARTOGRAFÍA ENTRE EL DOCUMENTO Y LA EXPRESIÓN RESUMEN: El tema hace un ligero estudio cartográfico acerca de la fotografía con énfasis en su utilización en las poéticas del arte contemporáneo. Tomando como referencia los estudios de la Filosofia de la Diferencia, intentase reflejar sobre la práctica fotográfica de los individuos en el cotidiano, intencionado aproximarla a la enseñanza de las Arte Visuales. Palavras-llave: Fotografia; Arte Contempráneo; Enseñanza de las Artes Visuales; Cartografia Sandra Corrêa Vieira é Mestre em Educação; Especialista em Filosofia; Licenciada em Artes Visuais, todos os títulos obtidos na UFPel. Atualmente é professora de Artes no IFSul-Rio-Grandense - Campus Bagé. Desenvolve pesquisas em Arte e Educação, através da perspectiva da Filosofia da Diferença, com ênfase nas seguintes temáticas: Ética e Estética; Mídias Digitais; Currículo. [email protected] 3096 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Aspectos de transición en el segmento portugués del continuo fronterizo Jorge Espiga IFSUL RESUMEN La región sureña de Rio Grande do Sul conoce el contacto con la lengua española por circunstancias geográficas e históricas que se remontan al período colonial. El portugués gaúcho que se habla en las cercanías de la línea limítrofe recibe influencias más o menos antiguas, con mayor o menor intensidad, que afectan a la lengua sincrónica y diacrónicamente. Longitudinal y transversalmente tales influencias pueden ser identificadas y analizadas como efectos del contacto, mediante teorías lingüísticas, y constituyen peculiaridades regionales que se vuelven más evidentes cuanto más cercano al español se ubique un dialecto. Algunas tradiciones lingüísticas de dialectos fronterizos, que saben a un portugués más antiguo, 3097 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ tienen que ver con lo que comprendemos como transición en el continuo de contacto. Keywords: contacto español-portugués; frontera El portugués que se habla en el extremo meridional de Brasil, en la región sureña del estado de Rio Grande do Sul, es un continuo lingüístico permeado, en varias dimensiones, por el español con el que históricamente entabla contacto. Geográficamente, tal continuo lingüístico se distribuye a lo largo de las fronteras políticas de Rio Grande do Sul con los países del Plata, habiendo sido, por eso, denominado, en el ámbito de algunos estudios lingüísticos, PGF – Português Gaúcho da Fronteira. La distribución diatópica de ese portugués de contacto con el español conoce aun las zonas adyacentes a la línea de frontera, tanto del lado brasileño como del uruguayo. En el norte y noreste del Uruguay el conjunto de dialectos de portugués ha recibido varias denominaciones, como Fronterizo (Rona, 1969), DPU – Dialectos Portugueses del Uruguay – (Elizaincín et al., 1987) y PU Portugués del Uruguay (Espiga, 2008). En esa región el portugués llegó antes, a partir del siglo XVII, a través de bandeirantes que incursionaban en la Banda Oriental – denominación del actual territorio uruguayo en la época colonial - en búsqueda de ganado vacuno, a través de colonos que fueron estableciéndose en la Banda como extensión natural del proceso de ocupación de Rio Grande do Sul y aun por medio de las tropas del ejército portugués, que buscaba consolidar las pretensiones lusitanas de dominar el Plata. Por su parte, como explican Bertolotti et. al (2002), el español llegó al norte y al noreste del Uruguay recién en las últimas décadas del siglo XIX. El estudio de ese contacto es importante para comprender la variación sincrónica del portugués gaúcho y del portugués del Uruguay, así como para vislumbrar tendencias y rumbos de cambio lingüístico. 3098 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Proyectos como el BDS Pampa – Banco de Datos Sociolingüísticos de la Frontera Sulriograndense -, desarrollados por investigadores de la Universidad Federal de Pelotas (UFPEL) y de la Universidad Católica de Pelotas (UCPEL), el Proyecto ALERS – Atlas Lingüístico y Etnográfico de la Región Sur de Brasil –, desarrollado por investigadores de la Universidad Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS) y el proyecto VCPF – Variación y Contacto del Portugués Fronterizo -, desarrollado por investigadores de la Universidad de la República del Uruguay (UDELAR), Universidad Católica de Pelotas (UCPEL) e Instituto Federal Sulriograndense (IFSUL), conciben la frontera, del lado brasilero, como una faja territorial o zona lateral, que acompaña longitudinalmente la línea limítrofe. Según tal concepción, la frontera constituye una región heterogénea, sea en el sentido longitudinal, sea en el transversal del límite, debido a factores circunstanciados, en la época colonial, por la disputa territorial entre Portugal y España y, modernamente, por estrategias geopolíticas y económicas adoptadas por los países y estados en las zonas limítrofes. Las circunstancias diversas que configuraron la historia y la formación de las comunidades fronterizas habrían determinado así, en gran parte, la diversidad del grado de contacto entre el portugués y el español en la región. A la heterogeneidad del contacto con el español le corresponde, en buen grado, la heterogeneidad dialectal del PGF y del PU. Y en el sentido transversal de la frontera, donde se proyecta en el tiempo el flujo colonizador y migratorio entre el Brasil y el Plata, se configura diatópicamente el continuo portugués-español en el extremo meridional brasileño. El enfoque diatópico transversal a la línea de frontera permite describir el continuo lingüístico gaúcho del litoral atlántico, en la dirección fronterainterior, como un conjunto de dialectos inherentes a comunidades que se ubican sobre el límite o zonas aledañas, que constituyen un segmento fronterizo propiamente dicho, seguidos por dialectos contiguos propios de comunidades más distantes del límite, que conforman un segmento que llamaremos transicional o medial, a los que le siguen dialectos más interiores, ya bastante distantes de la frontera. 3099 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ De forma general, se puede decir que la influencia del español está de algún modo presente, con mayor o menor intensidad, en todo el portugués gaúcho, según muestran varias investigaciones, entre los propios proyectos ALERS, BDS Pampa y VCPF. Empero las evidencias del contacto, en calidad y cantidad, son directamente proporcionales a la cercanía de la frontera lingüística portugués-español. Aquí conviene subrayar que la frontera lingüística no necesariamente coincide con la política. Al sur de la laguna Merín, por ejemplo, ambas dimensiones de la frontera sí son coincidentes, pero no a su norte. El contacto del portugués con el español se puede observar en toda la faja fronteriza. Al contrario de los DPU, cuyos usuarios son en su mayoría uruguayos bilingües con español, el PGF es utilizado por brasileños fronterizos que, si de edad más avanzada, son en muchos casos bilingües con español, pero entre los de mediana edad y los jóvenes resultan en su grande mayoría monolingües de portugués. Tanto en el habla de fronterizos brasileños monolingües de portugués como en segmentos de portugués del habla alternada de brasileños y uruguayos bilingües, aparecen interferencias del español. Esas interferencias pueden ser analizadas sincrónicamente como rasgos o formas alternantes que disputan el espacio lingüístico en un escenario variacional ampliado y bastante inestable. Tales interferencias y la propia alternancia entre una y otra lengua son los efectos sincrónicos y más evidentes del contacto. Por otro lado, la lexicalización y gramaticalización de contactos más antiguos con el español, que le brinda peculiaridad regional al portugués uruguayo y al gaúcho fronterizo, y la preferencia, en el escenario de variación, por variantes más antiguas del propio portugués, las cuales resultan favorecidas porque compartidas con el español, pueden ser analizadas como efectos quizás menos evidentes del contacto, aunque no menos presentes. Los primeros son efectos directos ya que son rasgos o alternativas del español las que afloran en el segmento portugués del continuo. Los 3100 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ segundos se pueden considerar efectos indirectos ya que se trata de rasgos o alternativas del mismo portugués, comunes a ambas lenguas. Veamos el caso de la variación del /l/ posvocálico en el portugués brasileño, en palabras como mal, sol, brasil. Aunque el sonido vocalizado o glide sea absolutamente predominante en Brasil en esa posición, en la forma ma[w], so[w], brasi[w], se puede percibir en dialectos gaúchos fronterizos las variantes ma[l], so[l], brasi[l], o sea un sonido producido con articulación coronal alveolar tensa, al estilo hispánico, como mostramos en Espiga (2002). Tal articulación es, de hecho, la forma antigua del portugués brasilero, que fue siendo posteriorizada por acción de un cambio interno de la lengua en busca de un menor esfuerzo articulatorio para producir ese sonido lateral, b v “ ” P v z e cambio enfrenta una fuerte resistencia que le ofrece el portugués fronterizo debido, justamente, al contacto con el español. El efecto del contacto se manifiesta allí al prestigiarse una tradición más antigua del portugués brasilero, cuyos resquicios, incluso, aún puede ser detectados en otros dialectos brasileros, no fronterizos ni de contacto con otras etnias, entre hablantes mayores. En la región de Pelotas predomina una variante en la que la articulación coronal alveolar se combina con una articulación vocálica compleja - dorsal y labial -, que representa una forma intermediaria: ma[lw], so[lw], brasi[lw]. Ese alófono, al mismo tiempo coronal, dorsal y labial, constituye en su complejidad articulatoria un carácter transitorio o transicional. Dicho carácter transitorio o transicional se refiere no sólo a la variación sincrónica, una vez que la vocalización, en este caso, constituye un cambio, en el que varias etapas o estadios coexisten, razón por la cual se lo puede considerar telescópico, según describe Quednau (1994). El carácter transicional en el sentido diacrónico de la regla telescópica de este alófono [lw] ya fue postulado en Espiga (2001), cuando detectado en el extremo sur 3101 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ de Brasil, en la región de los Campos Neutrales – Chuí y Santa Vitória do Palmar. Ahora bien: el aspecto transitorio o transicional del dialecto pelotense, en lo que se refiere a este alófono [lw], lateral coronal velarizado y labializado, tiene que ver también con la diatopía, ya que en el mismo se ve representada la tensión entre dos estilos articulatorios distintos, sincrónicamente antagónicos: el del español, por un lado, proveniente del sur y sudoeste, geográficamente bastante cercano y curiosamente coincidente con el de su propio sustrato azoriano, y el del portugués brasilero, por otro lado, que proviene del norte. A este alófono se lo puede considerar una prueba “ ” j ü Según Altenhofen (2002), ese flujo histórico se dio, desde la época de la colonia, en los llamados corredores de tropas, que entre el Plata, la B ü ” “ P q esde temprano, el lugar fue local de pasaje y de parada de troperos, más tarde consolidado como tal durante el ciclo del charque, por la ruta del litoral atlántico de la pampa. Otro ejemplo del aspecto transitorio o transicional diacrónico y diatópico en este dialecto puede aportarse en la variación de las formas de tratamiento de la segunda persona del singular. Mientras el portugués brasilero contemporáneo prefiere, como intimista, la forma você concordante con el tiempo verbal respectivo - você foi, você é -, en Rio Grande do Sul, según mencionan el ALERS y Menon y Lorian-Penkal (2002), la tradición antigua, compartida con el español, ha sido mantenida, en la forma tu foste, tu és, aunque actualmente ya no sea más predominante. En el dialecto pelotense, según se indica en Brisolara y Vandresen (2001) y en los mapas del ALERS, se halla una variante mixta: tu foi, tu é. Esos resultados han sido confirmados en investigaciones más recientes, como la de Corrêa (2009). Como se ve, dos tradiciones lingüísticas están allí en pugna y al mismo tiempo conjugadas: la más antigua, que coincide con el 3102 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “ ú” ñol, y, a través de su forma verbal, el uso intimista que a você se le atribuye, actualmente, en el portugués brasilero. De cierta forma se puede postular que la proximidad de la frontera y el contacto histórico del portugués gaúcho con el español es un factor que refuerza o favorece la preservación del tu. Mientras tanto, la presión maciza del polo portugués del continuo presiona en el sentido de introducir la forma você, como innovadora, lo que ya ha logrado a través del verbo. Ya desde el punto de vista sociolingüístico, focalizando el cambio lingüístico, diríamos que también en este fenómeno se hace evidente la tensión entre lo antiguo y lo nuevo. Diatópica y diacrónicamente, pues, se puede caracterizar aquí claramente el carácter transitorio o transicional al que antes nos referíamos. Quiere decir que diversos aspectos que constituyen peculiaridades de dialectos brasileros fronterizos o más alejados de la frontera, a los que denominábamos antes mediales o transicionales, pueden ejemplificar ese mismo carácter intermediario que se establece en estas zonas o segmentos del continuo lingüístico portugués-español. El dialecto pelotense, como vimos, presenta algunas peculiaridades de ese tipo, no siempre tan evidentes y perceptibles, que se revelan en el flujo o tránsito lingüístico que se da, diacrónica y sincrónicamente, entre el portugués conservador de la frontera y el portugués innovador del interior brasilero, aquél reforzado por la presión del contacto con el español del Plata. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTENHOFEN, C.V. Áreas lingüísticas do português falado no sul do Brasil: um balanço das fotografias geolingüísticas do ALERS. In: VANDRESEN, P. (org) Variação e mudança no português falado da região sul. Pelotas: Educat, 2002. p.115-145. BERTOLOTTI, V.; CAVIGLIA, S.; COLL, M.; FERNÁNDEZ, M. Documentos para la historia del portugués en el Uruguay. Montevideo: Universidad de la República – Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, 2004. BRISOLARA, L.; VANDRESEN, P. “Tu foste” ou “Tu foi”? Um estudo sobre a concordância com o pronome “tu”. Pelotas: UCPEL, 2001. (Comunicação ao III SENALE) CORRÊA, A.R. Variação dos pronomes “tu/você” no tratamento informal do português falado no sul do RS. Pelotas: IFSUL–CPGL, 2009. 3103 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ELIZAINCÍN, A.; BEHARES, L.; BARRIOS, G. Nos falemo brasilero. Dialectos portugueses en el Uruguay. Montevideo, Amesur, 1987. ESPIGA, J. O português dos Campos Neutrais: um estudo sociolingüístico da lateral posvocálica nos dialetos fronteiriços de Chuí e Santa Vitória do Palmar. Porto Alegre: PUC, 2001. (Tese de doutorado) _____. A lateral posvocálica na fronteira dos Campos Neutrais: estudo sociolingüístico da regra telescópica nos dialetos de Chuí e Santa Vitória do Palmar. Letras de Hoje. Porto Alegre. V.37, nro 1, p.49-68, mar 2002. _____. O contínuo português-espanhol: contato e variação lingüística. In: ESPIGA, J.; ELIZAINCÍN, A. (org.) Español y Portugués: um (velho) Novo Mundo de fronteiras e contatos. Pelotas: Educat, 2008. MENON, O.P.S.; LOREGIAN-PENKAL, L. Variação no indivíduo e na comunidade: tu/você no sul do Brasil. In: VANDRESEN, P. (org) Variação e mudança no português falado da região sul. Pelotas: Educat, 2002. p.147188. QUEDNAU, L.R. A lateral pós-vocálica no português gaúcho: análise variacionista e representação não-linear. Porto Alegre: UFRGS, 1993. (Dissertação de mestrado) A INFLUÊNCIA DOS PROCESSOS INTERPSICOLÓGICOS NO DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA E DO CONTROLE SOBRE A ESCRITA Clarice Vaz Peres Alves Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação Faculdade de Educação Universidade Federal de Pelotas/RS [email protected] Magda Floriana Damiani Programa de Pós-graduação em Educação Faculdade de Educação Universidade Federal de Pelotas/RS 3104 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [email protected] Resumo – Estudos sobre a escrita, em diferentes contextos educacionais, demonstram que os estudantes, de uma forma geral, apresentam grande dificuldade em produzir textos coerentes, coesos e informativos. Assim, este trabalho se propõe a discutir a influência dos processos interpsicológicos no desenvolvimento da consciência e do controle sobre a prática de escrita acadêmica, tomando como base a perspectiva Histórico-Cultural e a Linguística Textual. Palavras-chave: escrita acadêmica – processos interpsicológicos consciência e controle - perspectiva Histórico Cultural - Linguística Textual – 1 INTRODUÇÃO Entendemos que a redação de bons textos é uma habilidade intrínseca ao desenvolvimento intelectual do estudante, independente do nível educacional em que se encontra. Entretanto, sabemos por meio de nossa experiência profissional e pelos diversos estudos realizados sobre a prática textual (Oliveira & Santos, 2005; Cunha & Santos, 2006; Marin & Giovanni, 2007; Damiani, 2010.), que a redação de um texto coeso, coerente e com informatividade é algo bastante raro de ser encontrado nos diferentes contextos educativos. Parece-nos que a afirmação apresentada anteriormente sobre a baixa qualidade dos textos redigidos pelos estudantes brasileiros é um fato bastante recorrente, entre os educadores. Essa realidade, além de verbalizada por grande parte dos professores, das mais diversas áreas, é constatada também pelos estudos acerca do tema mencionados acima. Tal situação nos desassossega, pois apesar de haver diversos estudos que abordam o insucesso do ensino e da aprendizagem da escrita em diferentes contextos educacionais, o problema da baixa qualidade dos textos redigidos pelos nossos estudantes ainda persiste, gerando perguntas: será que os professores de língua portuguesa sabem com sanar esse problema? Será que basta ensinar a gramática da língua para produzir bons escritores? Será que esses professores já exercitaram sua escrita suficientemente para entender as dificuldades inerentes ao ato de escrever? Será que já tiveram sua escrita problematizada ou já se questionaram se sabem escrever para ensinar seus alunos a escrever? 3105 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Foi com a intenção de apresentar nossas reflexões sobre a temática da escrita e sua produção que escrevemos este texto. Ele apresenta um possível caminho para a promoção do desenvolvimento de escritores competentes, isto é, escritores capazes de lidar com a micro e com a macro estrutura textual. Dessa forma, o trabalho se propõe a discutir a influência dos processos interpsicológicos no desenvolvimento da consciência e do controle sobre a prática de escrita acadêmica, tomando como base a perspectiva Histórico-Cultural e as teorias linguísticas. 2 REFLEXÕES SOBRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM DA ESCRITA A noção de linguagem que orienta o presente estudo e determina seu direcionamento metodológico é a sócio-histórica, isto é, a linguagem entendida como forma de interlocução e de interação humana; como ação que constitui e modifica o sujeito. (Bakhtin, 2006) Concordamos com Garcez (1998) quando afirma que um estudo sobre escrita, orientado por uma concepção de linguagem em que a organização dos fenômenos linguísticos seja considerada como simples produto dos sistemas cognitivos ou como resultado de uma gramática de base biológica, não consegue dar conta dos elementos que a construção de um bom texto B k exige. Contrapondo- ( 00 8) q “ língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema lingüístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes. (Grifos do autor) Assim, entendemos o texto escrito como um processo que vai se formando gradativamente, por meio de avanços e recuos; como uma rede de relações que estabelece uma unidade linguística e semântica, uma estrutura construída de tal modo que as frases não têm significados independentes, ou seja, o sentido é dado pela correlação que elas estabelecem com as demais. (Alves, 2002). De acordo com Geraldi (1997), o texto é um processo interativo que ocorre entre leitor e escritor. Para que essa interação ocorra de forma satisfatória é preciso que tenhamos nosso texto lido, relido e reescrito várias vezes. Redigir não é resultado de um único esforço, mas de um processo de “v -e-v ” x S b q x z “ v z ” 3106 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ não possibilita a redação de um bom texto, ou seja, um texto coeso e coerente ao objetivo que se propõe. Portanto, podemos perceber que escrever é um processo hercúleo, exigindo do escritor conhecimentos de natureza variada que deve ser construído, nas instituições educacionais, por meio de um ensino orientado, que propicie aos alunos momentos de reflexão e interação com seus escritos. Para Flower & Hayes (1981), redigir um texto é um processo complexo e não uma ação simples e espontânea de aplicação do código escrito. Os autores foram pioneiros, propondo um modelo teórico detalhado que aborda a produção de textos como processo e explica tanto as estratégias que o escritor emprega na redação de um texto como as operações intelectuais que orientam sua composição. Para Flower & Hayes (1981), o processo de escrita envolve ações como planejar, redigir e revisar, geradas pelo escritor por meio da memória de longo prazo. Bereiter & Scardamalia (1987), também argumentam que a construção de um texto exige planejamento, seleção e organização das informações oriundas da memória de longo prazo do escritor. Todo esse processo de escrita necessita ser aprendido pelos estudantes. Koch (2010, p. 31), como os autores recém-citados, afirma que escrever um bom tex x “ z v )” cognitiva, pragmática, sócio- ( v apenas pôr letras no papel, mas elaborar um sentido global e preciso sobre uma determinada situação comunicativa e torná-la compreensível a uma audiência. Essa atividade não é fácil de ser realizada, de forma satisfatória, sem uma prática adequada. Kato (1993, p. 134) defende que a dificuldade q “ x h b ( 999 b 9) x q “[ ] ” x x ideias e a compreensão, costumam produzir-se diferentes operações ” P v x v ve complexos processos mentais, além dos aspectos linguísticos e discursivos. Considerando a dificuldade que grande parte dos indivíduos apresenta para redigir e buscando entender os processos cognitivos que estão 3107 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ presentes na produção de um texto, Flower (1979) propõe uma diferença de significado entre as palavras expressão e comunicação que contribui para o entendimento dos processos cognitivos presentes na escrita. Segundo a autora, o plano da expressão está relacionado com o texto que o escritor redigiu para si, sem se preocupar com a compreensão por parte do leitor. Já no plano da comunicação, o texto deve ser compreensível por si, atendendo às exigências formais da escrita. Partindo da distinção de significado entre expressão e comunicação, Flower (1979) apresenta dois tipos de prosa: a prosa do escritor - Writer-based-prose- e a prosa de leitor - Reader-basedprose. Quando o indivíduo redige um texto observando a imagem do interlocutor, as estruturas micro e macro textuais o escrito torna-se compreensível, independente de seu contexto. Ao escrevê-lo, o redator está empregando a prosa de leitor e, para a autora, o texto está no plano da comunicação. Cassany (1999, p.139) argumenta que sujeitos alfabetizados sabem empregar a prosa de escritor, mas somente os bons escritores sabem q “ b ” v q z b v não é tarefa simples para a maioria dos escritores. Normalmente, eles necessitam de ajuda externa a fim de realizar essa transformação de forma adequada. Na escrita escolar ou acadêmica, o professor ou um colega mais desenvolvido, podem efetivar essa ajuda, servindo como espelhos que refletem os problemas de comunicação dos textos. Tal comportamento é importante porque, muitas vezes, os estudantes nem percebem que seus escritos não estão de acordo com o desejado; outras vezes têm essa percepção, mas não sabem como proceder para adequar suas escritas à situação comunicativa a que se S D ( 0 0 )“ escrever, necessita-se organizar o pensamento, atividade que exige exercício e parece não ser prioritária em nossas escolas e universidades. Flower (1979) diferencia a prosa de escritor e a de leitor de acordo com três aspectos: a função, a estrutura e o estilo. O quadro apresenta as principais diferenças entre os dois tipos de prosa. 3108 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Prosa de escritor Função – do autor Prosa de leitor É a expressão escrita É a intenção de comunicar informação a um leitor. para ele mesmo. Estrutura - Reflete o pensamento do Tem uma estrutura retórica autor, baseada o processo de no propósito do autor. descobrimento do tema. Estilo – significados Utiliza palavras com Utiliza compartilhada pessoais para o autor. O texto depende contexto que uma linguagem com o leitor. do O texto é autônomo. Não é necessário está implícito. o contexto para compreendêlo. Quadro 1 – Esquema das principais diferenças entre as prosas de leitor e as de escritor, apresentado por Linda Flower (1979). Para Flower (1979), ambas as prosas podem desempenhar função importante no processo de redação, entretanto, a prosa de leitor é a que garante uma comunicação bem-sucedida entre escritor e leitor. Para a autora, o melhor processo de composição é aquele que desde o início trabalha com a prosa de leitor, pois demanda que o redator desenvolva o texto de acordo com o seu leitor, em um processo interativo, social. Diante do exposto, podemos entender a complexidade dos processos intelectuais que estão presentes durante a composição de um texto. Assim, acreditamos que é por meio de uma abordagem processual da escrita e de um movimento interpsicológico, que o estudante poderá ser agente em seu processo de aprendizagem, desenvolvendo consciência, e consequente controle, sobre a própria escrita e tornando se um escritor competente. O aluno necessita de um ensino adequado sobre produção de textos a fim de 3109 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ dar conta de todos esses processos intelectuais que estão envolvidos na redação. Calkins (1989) afirma que Os alunos são capazes de escrever esboços após esboços, mas não sabem como aumentar suas capacidades ou como relacionar o que funciona melhor em seus textos. Uma vez que não possuem senso daquilo que faz uma boa escrita, não possuem meios para evoluir enquanto escrevem. Enquanto isso, por “ ” v desesperadamente ensinar. Algumas vezes, secretamente, fazem comentários tímidos, tais como: “S q x q v z x ?” convence os estudantes de que seus professores têm as “ ” que os estudantes tentam, cada vez mais arduamente, obter avaliações e sugestões de seus professores. [...] Não devemos abdicar de nossa identidade como professores. [...] Não precisamos ter medo de ensinar, mas precisamos pensar cuidadosamente sobre os tipos de input dados pelos professores que (sic) serão úteis aos alunos. (1989: 191) Para que o estudante adquira autonomia frente à redação de textos, defendemos que ele deve não só ser orientado durante todo o processo de produção textual, mas também devem ser proporcionados a ele momentos de revisão e reescrita de seu texto. Conforme a literatura da área, o processo de revisão não é visto como uma atividade isolada, mas como uma atividade essencialmente reflexiva, de rever e retrabalhar o texto. A revisão pode ocorrer paralelamente à escrita, não sendo necessariamente uma fase de pós-escrita. Pode também interromper o processo de escritura em qualquer estágio em que este se encontra. De acordo com os estudos de Flower & Hayes (1981), o exercício de revisar não é frequente. Isso ocorre por razões diferenciadas: a) há escritores que acreditam ter dito tudo, e corretamente; b) há os que conseguem perceber os problemas, mas não conseguem resolvê-los; c) há os que não conseguem avaliar a adequação do texto. Acreditamos que aqui poderemos 3110 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ acrescentar outro elemento que dificulta as atividades de revisão: a escola. Os professores, talvez por desconhecerem a eficácia e a importância da revisão, por não saberem como realizá-la, por não terem domínio adequado da escrita, ou por estarem preocupados em vencer o conteúdo programático, não desenvolvem esse tipo de atividade tão importante à formação de alunos– escritores. A retomada do texto cria um espaço para a descoberta de que um texto se forma gradativamente. Assim, o professor deve auxiliar seu aluno, apresentando estratégias significativas à melhoria de seu escrito e incentivando-o a ser leitor de seu próprio texto. Essa relação de “ ” x o propicia ao educando a tomada de consciência e a posterior capacidade de controle sobre sua escrita. É o movimento do social para o individual que propicia o desenvolvimento do indivíduo, gerando aprendizagens relativas ao modo de elaboração de um texto escrito. Segundo Vigotski158 (2001), é por meio de um movimento dialético do social para o individual que o sujeito se constitui, internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais e desenvolvendo suas capacidades intelectuais. O autor explica que todos os processos mentais individuais (intrapsicológicos, isto é, aqueles que ocorrem no interior da mente individual), são derivados de processos sociais (interpsicológicos, isto é, aqueles ocorrem entre duas ou mais mentes). Entende que a constituição das funções psicológicas superiores - capacidade de planejamento, pensamento abstrato, atenção voluntária, comportamento intencional, ações conscientemente controladas - está, assim, alicerçada nas relações sociais entre indivíduos, marcadas pelos aspectos históricos e culturais do contexto no qual esses indivíduos se desenvolvem. As funções psicológicas superiores, são assim qualificadas porque estão relacionadas às ações intencionais e controladas pelo sujeito. Vygotski (1983) esclarece que as funções superiores não são inatas e que seu desenvolvimento depende da intervenção externa. Elas diferem, pois, das funções psicológicas 158 O nome deste autor aparece no texto com diferentes grafias, que obedecem as formas adotadas pelos editores de suas diferentes obras. 3111 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ elementares, que são de origem biológica, caracterizando-se por serem automáticas, reflexas, não exigindo controle consciente e estando presentes nos animas e nas crianças pequenas. Segundo Angel Pino (2005, “ “ “ p.89), as funções z ” ” ” psicológicas õ x “ q z q ” v v funções superiores dependente da existência das elementares. Entretanto, a existência destas não garante o desenvolvimento daquelas, pois o desenvolvimento das funções superiores está fundamentado nas relações sociais e culturais das quais o sujeito participa. As instituições formais de ensino, a partir dos processos interpsicológicos entre professores e estudantes, e entre os próprios estudantes, oportunizados pelas ações pedagógicas, são locais essenciais para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das funções psicológicas superiores dos indivíduos. Em adição a isso, oportunizam a internalização do saber produzido pela Humanidade ao longo de sua existência, o chamado saber científico - organizado, integrado em sistemas de conhecimentos, conscientizado. Vygotsky (2001) propõe a ideia de que os seres humanos interagem e se desenvolvem mediados pelas palavras, que se constituem em conceitos, ou construções culturais, internalizadas ao longo da vida, nas relações sociais. Para o autor, um conceito é uma generalização e há dois tipos de conceitos: os espontâneos (CE) e os científicos (CC). Os primeiros não são conscientes, são construídos sem ensino, por meio da observação, da vivência do ser humano e de suas interações com o meio em que está inserido. Os segundos são conscientes e sistematizados, ligando-se aos objetos por meio de outros conceitos verbais e veiculados principalmente por meio da instrução formal. Segundo Vygotsky (2000), são os conceitos científicos que possibilitam ao estudante desenvolver a consciência e o controle sobre seus processos mentais. Segundo o autor, (2001, p. 243) [...] no campo dos CC ocorrem níveis mais elevados de tomada de consciência do que nos CE. O crescimento 3112 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ desses níveis mais elevados no pensamento científico e o rápido crescimento no pensamento espontâneo mostram que o acúmulo de conhecimento leva invariavelmente ao aumento dos tipos de pensamento científico, o que, por sua vez, se manifesta no desenvolvimento do pensamento espontâneo e redunda na tese do papel prevalente da aprendizagem no desenvolvimento do aluno escolar. Embora esses dois tipos de conceitos apresentem diferenças quanto à constituição, eles estão intimamente imbricados e se influenciam mutuamente, devendo, ambos, serem constantemente vinculados durante o ensino. Vygotsky (2001) argumenta que a construção dos conceitos científicos “ ” v q “ ” ( consciência passa pelos portões dos conce 90) D forma, o processo educativo desempenha função importantíssima, pois quando, na escola, há momentos propícios à aprendizagem dos conceitos científicos, estes superam os espontâneos, e, assim, possibilitam ao indivíduo consciência e controle sobre o conteúdo internalizado. Podemos citar como exemplo, o ensino da gramática, como conteúdo curricular, que é um conhecimento científico necessário ao estudante. Se esse ensino não b “ z ” b do v – e v contextos, em pouco ou nada auxiliará no desenvolvimento da competência comunicativa do estudante. (Neves, 2006, p17). Discutindo a formação do professor de Língua Portugues G ( 00 ) q “O que se dispuser a assumir esta tarefa, em vez de preparar-se para repetir o mesmo e velho discurso a respeito da gramática ou para compor um novo discurso a respeito do que seja, precisa dispor-se a ensinar-se português ” Por meio dessas ideias, podemos compreender que: a) o contexto educacional desempenha um papel fundamental, em nossa sociedade, pois influencia o desenvolvimento das funções psicológicas superiores do indivíduo; e b) esse desenvolvimento se dá por meio de ações conscientemente controladas, mediadas pela linguagem, sendo, assim, um 3113 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ processo socialmente dependente: o ser humano pode somente controlar suas ações, seu comportamento, com ajuda externa (processo interpsicológico). Na escola, essa ajuda se materializa nas ações do professor e dos colegas. Ao analisarmos a escrita, podemos entendê-la como um processo K ( 0 0 ) “ v sociocomunicativo, que ganha existência dentro de um processo interacional. x [ ]”S natureza, a escrita é um processo social, pensamos que a promoção de atividades colaborativas, relativas ao processo redacional (como a revisão orientada e a re-escrita discutida), pode promover melhoras em sua qualidade. Com efeito, a participação do outro - professor ou colega – na construção e na reconstrução de um texto, como já discutido, contribui com o redator para que este adquira consciência e controle sobre sua escrita. Segundo Guedes (2009), a tarefa do outro na qualificação do texto escrito é j “ versão para fazê- b q z ”( q z v 4) Vygotsky (2001) ratifica a importância do processo interpsicológico para o desenvolvimento do indivíduo ao propor, em suas pesquisas, os conceitos de Nível de Desenvolvimento Real (NDR) e de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). O autor entende que a Zona de Desenvolvimento Proximal abriga o conhecimento que está em broto, que “ ” q j competente para ser utilizado, explicitado. Já o Nível de Desenvolvimento Real, delimita o conhecimento sedimentado no aprendiz. Segundo a perspectiva vygotskyana, o professor deve atuar como mediador, intervindo e mediando a relação do aluno como o conhecimento, criando ZDPs para desenvolver a informação que ainda não atingiu o Nível de Desenvolvimento Real. Assim, o contexto educacional e o professor “ ” z v de ensino, de aprendizagem e de desenvolvimento mental do educando. O v ( 99 ) x q “ x 3114 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ interferir na zona de desenvolvimento proximal dos alunos, provocando v q ” A tomada de consciência e a capacidade de controle sobre a escrita podem ser maximizadas por meio de práticas coletivas, mediadas pela linguagem. Bakhtin a q ( 4 00 ) “ consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, q ” entendemos que o papel de educador no aprimoramento da escrita de seus educandos é de vital importância, uma vez que é por meio de uma relação dialógica e processual entre escritor e texto que este vai se constituindo. Bakhtin (2006, p.59) explicita que O indivíduo enquanto detentor dos conteúdos de sua consciência, enquanto autor dos seus pensamentos, enquanto personalidade responsável por seus pensamentos e por seus desejos, apresenta-se como um fenômeno puramente socioidelológico. Esta é a z q ú q ” v ” por natureza, tão social quanto a ideologia e, por sua vez, a própria etapa em que o indivíduo se conscientiza de sua individualidade e dos direitos que lhe pertencem é ideológica, histórica, e internamente condicionada por fatores socioideológicos. De acordo com o que foi exposto, concluímos que o desenvolvimento intelectual do indivíduo está alicerçado nas relações que ele estabelece no contexto educativo. A tarefa do professor deve ser a de mobilizar e orientar o estudante à aprendizagem, para que ele tenha condições de se apropriar do conhecimento científico presente no ensino formal a fim de ampliar suas habilidades de leitura e escrita. Entendemos que um dos caminhos que as intuições educacionais têm “ ” q b -la como processo, propiciando a eles momentos de reflexão, revisão e reescrita de seus textos. A percepção dos problemas no texto constitui-se um elemento fundamental para que a revisão aconteça, já que ela não poderá ocorrer sem que o revisor perceba que o plano ou o texto apresenta algum desajuste. N b “ ” 3115 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ possíveis desajustes presentes em seu texto, por meio de um movimento do inter para o intrapsicológico. 3 REFLEXÕES FINAIS Observamos, ao longo de nossa trajetória profissional, que as falhas de aprendizagem relativas à redação de textos na Educação Básica se revelam, mais tarde, no contexto acadêmico, o que é extremamente sério. Compreendemos que não cabe à universidade resolver as lacunas relacionadas à escrita trazidas pelos egressos da Educação Básica. Não obstante, julgamos importante que as instituições formadoras reflitam sobre o assunto e busquem alternativas, de acordo com suas possibilidades, para que os acadêmicos, em especial os dos cursos de formação de professores, sejam escritores competentes e tenham condições de proporcionar atividades de prática de texto que propiciem aprendizagem a seus alunos. Nossos estudos e práticas vêm mostrando que a perspectiva HistóricoCultural pode, com sucesso, aliar-se à Linguística Textual na busca de embasamento para a intervenção no processo de escrita dos universitários, embora essas práticas necessitem ser estudadas e avaliadas a partir de estudos empíricos amplos. Pensamos que as ideias aqui apresentadas, entretanto, principalmente aquelas relacionadas à importância da interação social nas práticas textuais em sala de aula, podem ser altamente profícuas na promoção de avanços na escrita de nossos estudantes e acreditamos que elas possam ser desenvolvidas em todas as disciplinas acadêmicas. Acreditamos que os processos interpsicológicos gerados por discussões acerca da qualidade da expressão das ideias e da correção linguística dos textos produzidos na universidade, apresentam potencial para que os estudantes desenvolvam consciência acerca dos problemas de sua escrita e, posteriormente, adquiram condições de controle sobre tais problemas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 3116 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ALVES, Clarice. O processo de revisão textual na construção da textualidade através da focalização das Máximas de Grice. Dissertação de Mestrado, 2002. p.163. BAKHTIN, Mikail. Marxismo e Filosofiada Linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006. p.203. BEREITER, Carl, SCARDAMALIA, Marlene. The Psychology of Written Composition. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, 1987, p. 419. CALKINS, Lucy McCormick. A Arte de Ensinar a Escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. p.375. CASSANY, Daniel. Descrever o Escrever: como se aprende a escrever. Itajaí: Ed. Univali, 1999. 212 CUNHA, Neide de Brito & SANTOS, Acácia A. Angeli dos. “Relação entre a compreensão de leitura e a produção escrita em universitários”. Psicologia: reflexão e Crítica, vol.19, no. 2. Porto Alegre, 2006.Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/pdf/188/18819209.pdf. Acesso em: 25/ago. 2009. D M N M “ v ” XV Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino: convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, 2010, Belo Horizonte. Anais...Belo Horizonte: UFMG, 2010. v. 1. p. 1-12. FLOWER, Linda. Writer – Based – Prose: A Cognitive Basis for Problems in Writing. Illinois: College English, 41, 1979, p.19-36 FLOW R W L & Y S J “ v P ocess Theory of ” College Composition and Communication, n.32, p.365-387, 1981. GARCEZ, Lucília Helena do Carmo. A escrita e o outro: os modos de participação na construção do texto. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p.173. GUEDES, Paulo Coimbra. 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Obras Escogidas III.Madrid, Centro de Publicaciones del MEC y Visor Distribuciones, 1983, p. 383 THE INFLUENCE OF INTERPSYCHOLOGICAL PROCESSES ON THE DEVELOPMENT OF CONSCIENCE AND CONTROL OVER WRITING Abstract - Studies on writing in different educational contexts, show that students, in general, have great difficulty in producing coherent, cohesive and informative texts. This study aims to discuss the influence of interpsychological processes on the development of conscience and control over academic writing, based on the Cultural-Historical Perspective and Textual Linguistics. Key-words: academic writing; interpsychological processes; conscience; control MINI-CURRÍCULOS 3118 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ CLARICE VAZ PERES ALVES é doutorandado Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas. È graduada em Letras _- Português e Inglês. Possui mestrado em Letras. Área de concentração Liguística Aplicada. Atua nos seguintes temas: leitura e produção de textos; texto argumentativo e escrita acadêmica. Endereço: Rua Póvoas Júnior, 828. Pelotas, RS CEP 96055680 Telefone: (53) 91634657 e-mail: [email protected] MAGDA FLORIANA DAMIANI é professora associada da Faculdade de Educação, atuando no Curso de Pedagogia e no Programa de Pósgraduação em Educação (Mestrado e Doutorado), na linha de pesquisa Cultura Escrita, Linguagens e Aprendizagem. Tem formação básica em Psicologia (UCPel), Mestrado em Psicologia Educacional e Doutorado em Educação, ambos pela Universidade de Londres (Inglaterra), tendo realizado estágio pós-doutoral na Universidade de Siegen (Alemanha). É bolsista de produtividade do CNPq e líder do grupo de pesquisa Educação e Psicologia Histórico-Cultural. e-mail: [email protected] 3119 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ AS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS DO ESTUDO SOBRE A SEGMENTAÇÃO NÃO CONVENCIONAL NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO DE ALUNOS DE EJA Carmen Regina Gonçalves Ferreira (UFPel) [email protected] RESUMO: As segmentações não-convencionais de palavras são vistas, neste estudo, como estruturas oriundas de hipóteses elaboradas pelos sujeitos em seu processo de aquisição da escrita, as quais se configuram em um valioso material linguístico capaz de fornecer pistas a respeito do conhecimento fonológico de que os aprendizes se utilizam ao produzirem suas escritas, fomentando reflexões capazes de auxiliar alfabetizadores em suas ações pedagógicas em contextos de EJA. PALAVRAS-CHAVE: processo de alfabetização; segmentação convencional; escrita de EJA, hipossegmentação; hipersegmentação. não- INTRODUÇÃO As investigações sobre a aquisição da língua escrita podem trazer significativas contribuições para o trabalho docente por tentar compreender como o aluno aprende. Estudos como o de Ferreiro & Teberosky (1986)159 evidenciam que o processo de escrita inicial é conduzido por sujeitos que são ativos, elaboram e reelaboram constantemente os conhecimentos que estão a construir a respeito do sistema de escrita da sua língua. As pesquisadoras dizem que as escolhas feitas pelas crianças não são aleatórias, mas parecem obedecer a uma lógica possível no universo da língua escrita. Partindo-se dessa premissa as segmentações não-convencionais encontradas na escrita inicial de alfabetizandos são erros que garantem importantes pistas para verificar-se a maneira como se estabelece o processo inicial de aquisição da 159 FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1986. 3120 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ língua escrita. Desta forma, o erro é visto como um importante instrumento capaz de possibilitar hipóteses interpretativas das possíveis relações existentes entre o conhecimento fonológico do aprendiz e as diferentes representações ortográficas por eles utilizadas durante o processo de aquisição da escrita. Os estudos sobre a aquisição da escrita estão em sua grande maioria voltados para as análises das escritas infantis e pouco se sabe sobre esses mesmos processos em adultos em fase de alfabetização. Assim, os dados analisados neste estudo, serão referentes às segmentações não- convencionais de alunos de EJA (Educação de Jovens e Adultos), ou seja, erros produzidos quando, ao escrever palavras, frases ou até mesmo textos inteiros, o adulto não aloca espaços entre palavras ou separa-as de forma inadequada, em se considerando as normas que regem o sistema de escrita. Pretende-se com esse estudo analisar a forma como esses sujeitos concebem a escrita inicial e assim chamar a atenção dos docentes do quanto é complexo o processo de aprendizagem da ortografia, mesmo para os adultos que estão há muito mais tempo imerso num universo letrado, pois a aquisição da escrita envolve além de aspectos relacionados às convenções do sistema ortográfico, aqueles referentes às características fonéticofonológicas das palavras. O SIGNIFICADO DOS ERROS DE SEGMENTAÇÃO O sujeito que chega à escola é, normalmente, proficiente na sua língua, pois possui um sistema linguístico estruturado, que é fruto da sua prédisposição para a linguagem 160 , o qual foi acionado pelo input gerado no contato com sua comunidade linguística. O compromisso do alfabetizador consiste, então, em auxiliar o aprendiz a construir um sistema de representação de algo que ele já tem internalizado e que diz respeito à sua competência linguística. Será, portanto, na escola, através da mediação intencional do professor, que o aluno terá contato com a língua de forma mais sistemática e explícita. 160 Princípio da Gramática Gerativa (GU) proposta por Chomsky (1978). 3121 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Saber analisar as produções iniciais de alfabetizandos durante o processo de aquisição da escrita não consiste em se deter nos aspectos gráficos dessas produções, mas nos aspectos construtivos que são representativos de um processo cognitivo em vias de evolução (cf. FERREIRO, 1991)161. Isso também não quer dizer que o papel do professor seja de um mero espectador de um processo que se estabelece de forma espontânea pelo aluno. É de extrema relevância tentar entender os problemas que os alfabetizandos colocam ao se depararem com a escrita e de que forma parecem resolvê-los para, enfim, de posse desse conhecimento, pensar em possibilidades de intervenção que estejam realmente adequadas ao estágio do processo de aquisição pela qual estão passando. O que não significa também engessar esse conhecimento dentro de um método, mas o importante, como bem coloca Ferreiro (1991), é que as ações pedagógicas estejam alicerçadas em reflexões epistemológicas. Um exemplo é a instabilidade em determinar os limites gráficos das palavras que podem corresponder a um fragmento de um enunciado, a um enunciado completo ou, simplesmente, a letras isoladas. Os erros de segmentação não-convencional têm despertado o interesse de pesquisadores como Abaurre (1991) 162 e Cunha (2004) 163 ao analisarem textos produzidos de maneira espontânea por crianças de séries iniciais. Para Abaurre e Cagliari, (1985)164, quando o aluno tem a possibilidade de escrever livremente, sem que seja uma determinação do professor, o texto se torna um espaço natural e de certa forma privilegiado, para o trabalho reflexivo da criança acerca do sistema de escrita de sua língua. Assim, através de erros como de segmentação não-convencional como ‘efiquei’ (e fiquei) os estudos desenvolvidos pelas autoras interpretam161 FERREIRO, Emilia. Com todas as letras. São Paulo: Cortez, 1991. ABAURRE, M. B. M. “A relevância dos critérios prosódicos e semânticos na elaboração de hipóteses sobre segmentação na escrita inicial.” Boletim da Abralin, 1991. 163 CUNHA, A. P. N. A hipo e a hipersegmentação nos dados de aquisição da escrita: um estudo sobre a influência da prosódia. Pelotas, 2004. 132 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Pelotas. 164 ABAURRE, M. B. M.; CAGLIARI, L. C. (1985) Textos espontâneos na primeira série: evidência da utilização, pela criança, de sua percepção fonética para representar e segmentar a escrita. Cadernos Cedes, v. 14, São Paulo: Cortez. 162 3122 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ no como resultado de hipóteses elaboradas pelas crianças em seu processo de aquisição da escrita, especialmente, no que diz respeito à definição dos limites gráficos de uma palavra. Segundo Abaurre (1991) é muito comum, no período inicial da aquisição, a criança juntar a palavra, normalmente um clítico da língua (preposições, conjunções, artigos), à palavra seguinte como se tudo junto constituísse apenas um vocábulo. No caso do exemplo citado anteriormente, a palavra gramatical ‘e’ como é destituída de acento ela acaba integrando-se à palavra adjacente ‘fiquei’ como se fosse uma de suas sílabas pretônicas, ocasionando assim os processos conhecidos como hipossegmentação que se caracterizam pela ausência do espaço entre fronteiras vocabulares. Segundo Kato (1986)165, a criança pode estar associando a escrita aos atos de fala que não são segmentados em unidades linguísticas e, em decorrência disto, acaba juntando categorias de palavras que deveriam estar separadas. Conforme Cagliari (2002)166, à medida que for intensificando o contato com a escrita institucionalizada, a criança perceberá que se trata de sistemas diferentes e, aos poucos, vai internalizando as segmentações previstas pela norma. Mas é importante que o docente tenha consciência de que nesse momento sua intervenção é necessária para que a criança consiga o quanto antes perceber a grande diferença que há entre o sistema de escrita e a língua falada e assim diminuir a incidência de erros de hipossegmentação. Pode acorrer também outro tipo de segmentação não-convencional, que se caracteriza pelo processo inverso descrito anteriormente. A criança cria espaço entre as letras de uma mesma palavra, ou seja, os chamados processos de hipersegmentação, a alocação não-convencional de espaços v ‘a migo’ ( ) resultando na produção de duas palavras em vez de uma. Neste caso os erros parecem apontar para representações que a criança já possui internalizadas da forma como se constituem algumas categorias gramaticais provenientes do espaço letrado que circunda ou o próprio contato com a 165 166 KATO, Mary. No mundo da escrita. São Paulo: Editora Ática, 2001. CAGLIARE, Luiz Carlos. Alfabetização & Linguística. São Paulo: Scipione, 2002. 3123 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ escrita institucionalizada. Hipoteticamente se diz que a criança reconheceria “ ” em textos escritos e o separa do restante do vocábulo, resultando em duas palavras ou invés de uma. Desta forma, os erros observados, através de processos de segmentação não-convencional, apresentam-se como um espaço orgânico de construção do conhecimento da língua e nos dão pistas sobre a forma como o se dá o processo de aquisição da língua escrita pela ótica do aprendente. Porém, pouco, ou quase nada, se sabe sobre os processos que os adultos em fase de alfabetização passam ao adquirir o sistema de escrita. Com base nessa perspectiva, os erros de segmentação não-convencional encontrados na escrita de alunos de EJA (Educação de Jovens e Adultos) serão descritos e analisados, a fim de que se possa refletir sobre a importância desse tipo de dado para as práticas pedagógicas. METODOLOGIA Este estudo assumiu um caráter qualitativo (cf. BOGDAN & BIKLEN, 1994)167, na medida que procurou descrever alguns dados encontrados na escrita inicial de adultos, dando prioridade ao processo de aprendizagem da língua escrita, que apresentou-se mais importante que o resultado final de sua aquisição. Pode-se dizer que esse tipo abordagem, amplamente usado na área educacional, favorece o conhecimento mais aprofundado sobre a temática em questão, pois permite conhecer o caminho percorrido pelos sujeitos investigados, para verificar o que estaria interferindo ou influenciando na ocorrência de determinado fenômeno, no caso deste estudo, os processos de segmentação não-convencional. Salientamos ainda, que o caráter investigativo da pesquisa qualitativa ajusta-se perfeitamente nesse estudo que procura abordar a aquisição da escrita como um processo que é conduzido por sujeitos que são ativos, pensam, refletem, elaboram e reelaboram constantemente os conhecimentos que estão a construir a respeito do sistema de escrita da sua língua. 167 BOGDAN, Robert e BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto / Portugal: Porto Editora,1994. 3124 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Contribuindo com a idéia de que nenhum conhecimento começa do zero e de que as escolhas dos aprendizes não são aleatórias, mas obedecem a uma lógica impecável, é a que precisa ser cada vez mais aprofundada por pesquisadores e socializada com educadores, que precisam estar atentos para a forma como seus alunos aprendem e, de posse desse conhecimento, possam fazer as intervenções adequadas. Assim, a amostra foi constituída a partir da análise documental de textos produzidos pelos alunos por mostrar-se importante na medida em que propicia identificar hipóteses a partir da própria expressão de escrita dos sujeitos investigados (LÜDKE e ANDRÉ, 1986)168. A escolha da metodologia empregada corresponde, portanto, à ideia mencionada anteriormente, de que a escrita inicial é um espaço de reflexão e, quanto mais espontâneo o texto se constituir, mais enriquecedor será o universo da aquisição da escrita a ser analisado. Visando, portanto, à obtenção de textos criativos e espontâneos, optamos pela realização de oito oficinas de produção textual que foram realizadas de março a dezembro de 2009. Todas as atividades de escrita, nas oficinas, foram precedidas por um aquecimento, por meio de atividades de pré-leitura e de debates que estimularam a criatividade e a espontaneidade nas produções. Esses textos foram coletados numa turma noturna de jovens e adultos em fase de alfabetização pertencentes à 2ª etapa de EJA (Educação de Jovens e Adultos), pertencente a uma escola pública do município de Pelotas/RS Brasil. Essas produções após cada coleta foram scaneadas e digitadas no computador e num segundo momento foram conferidas as transcrições que fazem parte do Banco de Textos de Aquisição da Escrita (FaE UFPel 169). A variável analisada nesses textos foi o tipo de ocorrência de segmentação não-convencional encontrada nos textos dos adultos, as quais foram depois separadas em dois grupos: Hipossegmentação e Hipersegmentação e por fim 168 LÜDKE, Menga, ANDRÉ, Marli Elisa D. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986 169 O Banco está sob a orientação da Prof.ª Drª Ana Ruth Miranda e atualmente é constituído por 2020 textos produzidos por crianças que cursavam de primeira a quarta série do ensino fundamental, está sendo ampliado com textos de adultos, alunos de EJA, e crianças que frequentam a educação infantil. 3125 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ uma análise comparativa com os resultados encontrados nas pesquisas com escrita inicial infantil. OS DADOS DE SEGMENTAÇÕES NÃO-CONVENCIONAIS NA ESCRITA DE JOVENS E ADULTOS O levantamento de dados na escrita dos jovens e adultos estudados resultou em um total de 227 casos de segmentação não-convencional, sendo a maior incidência relativa aos casos de hipossegmentação. O Gráfico apresentado, a seguir, mostra a distribuição dos erros de segmentação encontrados nos 98 textos analisados. Distribuição das segmentações não-convencionais em textos de alunos de EJA Percebe-se que a maior incidência foi de ocorrências de escrita com ausência de espaços entre as palavras segundo as normas ortográficas, ou seja, os processos de hipossegmentação (70%). O tipo de dado mais comum foram os que envolviam artigos, preposições e pronomes que acabaram unindo-se com a palavra seguinte como se fosse apenas uma palavra (1): (1) a. ovinho b. ogarfo c. agazulinha (o vinho ) (o garfo) (a gasolina) d. nucuida (nos cuidar) e. dacarosa (da carroça) 3126 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Essa instabilidade em determinar os limites gráficos entre palavras no período inicial da escrita é previsível na escrita infantil como mencionado anteriormente nas pesquisas de Abaurre (1991) e Cunha (2004), porque a criança está ainda ancorada à língua falada, assim na tentativa de perceber as propriedades do sistema de escrita, tende a confrontá-lo com outro de natureza semelhante, neste caso, a cadeia da fala, cuja característica mais saliente é relativa ao fato de ser produzida como um continuum que tem de ser segmentado pelo ouvinte. Mas, embora o adulto em contato constante com um ambiente letrado, ainda não institucionalizado, parece passar pelos mesmos conflitos no momento em que precisa marcar os limites das palavras, pois se observou que as marcas do continuum da fala sofrem influência direta na escrita inicial dos alunos de EJA. Pode-se observar, nas ocorrências em (01), que a palavra gramatical envolvida nos processos de hipossegmentação corresponde à categoria dos clíticos170. No que se refere às palavras localizadas numa posição adjacente a esses clíticos, formando as ocorrências de hipossegmentação, pode-se observar que a grande maioria é relativa à classe dos substantivos como: vinho, garfo, gasolina e carroça. E, em menor incidência, foram encontrados outros tipos de palavras como os verbos (cuidar, banhar) e pronome pessoal (ela). Clíticos são estruturas átonas que cumprem uma função preponderantemente sintática (cf. BAEZ, 1999)171, que comumente não são representados na escrita infantil como uma unidade linguística independente172, as crianças os escrevem como se fossem uma sílaba integrante da palavra de conteúdo que os sucede (cf. FERREIRO & 170 Os clíticos abordados nesse estudo dizem respeito aos monossílabos átonos, como artigos: a(s), o(s); determinadas preposições: com, de, em, por e as contrações com artigos: de + o(s) = do(s), de + a(s) = da(s); pronomes pessoais do caso oblíquo: me, te, se, lhe(s), nos, vos, o(s) e a(s) e algumas conjunções: e, ou, mas. 171 BAEZ, Mónica. La problemática de segmentar el texto escrito en palabras: uma indagación psicolinguística. In: _____; CÁRDENAS, Viviana I. Segmentacion y escritura. Dos estúdios sobre adquisición. Ed. Homo Sapiens. Rosario,1999 172 Embora os clíticos sejam considerados palavras do ponto de vista morfológico e sintático, do ponto de vista fonológico constituem-se formas dependentes que sozinhas não constituem uma palavra fonológica pela ausência de acento. 3127 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PONTECORVO, 1996)173. É possível também o alfabetizando adulto perceba em alguns momentos, o clítico como uma sílaba pretônica da palavra adjacente (cf. BISOL, 2004)174, assim como tantas palavras presentes no léxico que começam com o mesmo tipo de sílaba: assustou, amarelo e areia, por exemplo. Nesses casos, a percepção rítmica e prosódica que os alfabetizandos já possuem sobre a língua parece influenciar nos processos de segmentação não-convencional da escrita (cf. ABAURRE, 1991). Quanto aos processos de hipersegmentação, observa-se que os clíticos (artigos, pronomes, conjunções,...) novamente desempenham um papel relevante nos processos de segmentação não-convencional, só que agora revelando um movimento inverso e em menor incidência (27%) 175 . Em vez de juntar o clítico à palavra seguinte, o escrevente segmenta parte do vocábulo que possui correspondência com as palavras gramaticais encontradas na língua escrita, conforme mostram os exemplos apresentados em (2). (2) a. em bora (embora) b. a dorei (adorei) c. de pois (depois) d. a tupelou (atropelou) c. em terasote (interessante) Observa-se nos dados em (2) que os erros de hipersegmentação encontrados na escrita de alunos de EJA envolvem o mesmo tipo de elemento presente nos casos de hipossegmentação apresentados em (1), a saber, predominantemente, artigos e preposições. Esse tipo de categoria, os clíticos, são palavras que, via de regra, dependem fonologicamente de outras e comportam-se como se fossem uma de suas sílabas, como se pode observar no funcionamento dos pronomes átonos. Nas pesquisas realizadas com escrita infantil os casos de 173 FERREIRO, E. PONTECORVO, C. Os limites entre as palavras. A segmentação em palavras gráficas. In: FERREIRO, Emilia. PONTECORVO, C. MOREIRA, N. HIDALGO, I. G. Chapeuzinho Vermelho aprende a escrever. São Paulo: Ática, p.38-66, 1996. 174 BISOL, L. Constituintes prosódicos. In: Introdução a estudos de Fonologia do português brasileiro. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996. 175 Os 3% restantes referem-se aos casos em que ocorrem hipo e hipersegmentação simultaneamente, como, por exemplo, em ‘mea pavorei’ (me apavorei), ‘des duma’ (desde uma) e ‘comiu ma’ (comi uma). 3128 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ hipersegmentação são muito similares aos encontrados na escrita de EJA com menor incidência e maior preferência pela separação dos clíticos. Esse tipo de processo começa a surgir, segundo Cunha (2004) nas crianças por volta da 2ª série do ensino fundamental e nos dados de EJA encontrados neste estudo, na 2ª etapa que corresponderia às 2ª e 3ª séries. Ambos os momentos para criança ou para o adulto em fase de alfabetização seria o momento em que já estão mais familiarizados com a escrita institucionalizada, pois já passaram por diversas atividades de escrita e de leitura que proporcionaram um nível de apreensão maior de algumas categorias, principalmente as que comumente aparecem nos textos escritos como os artigos, preposições e pronomes. Assim, quando ao escrever um vocábulo o adulto a soletra e reconhece mesmo dentro da palavra uma categoria por ele já internalizada a separa, pois já a viu em algum contexto que é assim que ela se constitui. Por exemplo, no caso da palavra ‘amigo, pôde-se observar que o adulto antes de grafar a palavra ele a soletra lentamente, o que é possível, supor que no caso v ‘ ’ ‘ ’ - comumente encontrado em situações de letramento, e o separa do restante da palavra, sendo essa a memória gráfica que possui sobre tal palavra, acaba por grafar: ‘a migo’ (amigo). Na escrita infantil há uma tendência desses erros de hipersegmentação diminuírem até o final das séries iniciais, nos dados de adultos não foi possível verificar esse declínio durante o período de acompanhamento de um ano. A problemática da segmentação perdurou até o final da 2ª etapa nos dados de EJA analisados para esse estudo. Atestando a permanência da instabilidade em determinar os limites gráficos entre as palavras. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho apresentou-se o quanto a problemática da segmentação textual, ou seja, o conflito de onde unir ou separar as palavras circunda o universo da escrita no período inicial de alfabetização, tanto para crianças quanto para adultos alunos de EJA. 3129 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A análise dos dados de EJA mostrou o envolvimento predominante do clítico nos dados de hipo e de hipersegmentação; em especial, os artigos seguidos das preposições e as contrações envolvendo artigos definidos e preposições; a possível influência de conhecimentos prévios referentes à forma da palavra advindos do contanto com a escrita no isolamento, à q v v (‘de ’/ devemos). Considera-se que os processos pelos quais passam os aprendizes frente à problemática específica de segmentar a escrita, exige do docente, não classificá-los apenas como erros, mas como um processo que precisa de intervenções adequadas para que esses alunos possam efetivamente, tanto crianças quanto adultos, serem alfabetizados no âmbito maior que essa palavra alcança que é justamente o domínio das regras ortográficas. A ortografia requer um trabalho intelectual de reflexão metalinguística que compete professor no âmbito escolar proporcioná-la. Cabe, portanto, ao docente conhecer os processos pelos quais passam seus alunos durante o período de aquisição da escrita para ter condições de auxiliar o seu aluno no efetivo processo de alfabetização. Fazem-se necessárias múltiplas e profundas pesquisas nessa área para melhor contribuir com novos parâmetros de intervenção pedagógica, mas um dos caminhos poderia ser o contato imediato, mesmo antes da escrita, com situações diversas de leitura. O propósito desse artigo não é o de apontar estratégias de sanar tais conflitos como os de segmentação nãoconvencional, mas de mostrá-los que fazem parte de um processo natural de aquisição da escrita e que não são aleatórias as escolhas de onde segmentar, mas obedecem a uma lógica possível dentro do universo da língua escrita. Mas, isso não despi o docente de seu compromisso enquanto educador, de viabilizar meios que auxiliem o seu aluno a alcançar o domínio da língua escrita, e o espaço da escola, é o lugar propício para isso acontecer. ABSTRACT: In this study, non-conventional segmentations of words are considered structures that arise from the hypotheses which the subjects have 3130 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ formulated in their writing acquisition process. This information is valuable linguistic material since it can give clues regarding the phonological knowledge these learners use when they write. This analysis can lead to reflections that may help teachers with their pedagogical actions to adults who are acquiring the written language. KEY WORDS: literacy process; non-conventional segmentation; EJA ’w ; ; REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: B URR M B M “ vâ â b b ” Boletim da Abralin, 1991. ABAURRE, M. B. M.; CAGLIARI, L. C. (1985) Textos espontâneos na primeira série: evidência da utilização, pela criança, de sua percepção fonética para representar e segmentar a escrita. Cadernos Cedes, v. 14, São Paulo: Cortez. BISOL, L. Constituintes prosódicos. In: Introdução a estudos de Fonologia do português brasileiro. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996. BAEZ, Mónica. La problemática de segmentar el texto escrito en palabras: uma indagación psicolinguística. In: _____; CÁRDENAS, Viviana I. Segmentacion y escritura. Dos estúdios sobre adquisición. Ed. Homo Sapiens. Rosario,1999 BOGDAN, Robert e BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto / Portugal: Porto Editora,1994. CAGLIARE, Luiz Carlos. Alfabetização & Linguística. São Paulo: Scipione, 2002. CAPRISTANO, C.C. Aspectos de segmentação na escrita infantil. São José do Rio Preto: 2003, Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos). Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE), Universidade Estadual Paulista (UNESP) p. 190. ON L “ õ - v ” Anais do VI Encontro Nacional sobre Aquisição da Linguagem. Porto Alegre: PUCRS, 2003; p. 19-20. ON L “ õ ” Estudos Lingüísticos, Campinas, v.34, 2005, pp. 77-86. CHACON, L. Prosódia e letramento em hipersegmentações: reflexões sobre a aquisição da noção de palavra. In: CORRÊA, M.L.G. (org.) Ensino de língua: representação e letramento. Campinas: Mercado de Letras, 2006. CUNHA, A. P. N. A hipo e a hipersegmentação nos dados de aquisição da escrita: um estudo sobre a influência da prosódia. Pelotas, 2004. 132 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Pelotas. 3131 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ FERREIRO, E. PONTECORVO, C. Os limites entre as palavras. A segmentação em palavras gráficas. In: FERREIRO, Emilia. PONTECORVO, C. MOREIRA, N. HIDALGO, I. G. Chapeuzinho Vermelho aprende a escrever. São Paulo: Ática, p.38-66, 1996. FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1986. KATO, Mary. No mundo da escrita. São Paulo: Editora Ática, 2001. LÜDKE, Menga, ANDRÉ, Marli Elisa D. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. APROXIMAÇÃO PRODUTO/CONSUMIDOR/ CONTEXTO SOCIOCULTURAL COMTEMPLADA NAS CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS DOS REFRIGERANTES PEPSI E COCA-COLA Luciana Cozza Rodrigues Instituto Federal Sul-rio-grandense, [email protected] Ana Paula de Araujo Cunha Instituto Federal Sul-rio-grandense,[email protected] Resumo Este trabalho é um estudo preliminar, uma incursão nas áreas cujo escopo abrange tanto a linguagem verbal quanto a linguagem visual, vislumbrando caminhos e possibilidades de investigação. Propõe-se uma reflexão sobre o uso e a influência das imagens atreladas a textos verbais e suas respectivas marcas, presentes nas campanhas publicitárias dos refrigerantes Pepsi e Coca-Cola. Para isso, utiliza-se como referencial teórico alguns autores que tratam de imagem e de propaganda, como Jaques Aumont e Ketler e Koller. Partindo de seus conceitos, realiza-se uma breve análise de propagandas das marcas mencionadas, verificando nessas, por conseguinte, a tentativa de aproximação produto/consumidor/contexto sociocultural, principalmente por meio do uso de imagens. No caso das peças publicitárias selecionadas para a constituição do corpus deste estudo, o eixo de similaridade focaliza-se no fato de as mesmas referendarem a aspectos característicos da brasilidade e da cultura gaúcha, vinculados às marcas supracitadas, supostamente despertando o desejo do público-alvo pela compra do produto. INTRODUÇÃO 3132 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Este artigo trata de um estudo preliminar, uma incursão nas áreas cujo escopo abrange tanto a linguagem verbal quanto a linguagem visual, vislumbrando caminhos e possibilidades de investigação. Proponho uma reflexão sobre o uso e a influência das imagens atreladas a textos verbais e suas respectivas marcas, presentes nas campanhas publicitárias dos refrigerantes Pepsi e Coca-Cola. Desde muito tempo, a imagem, em geral, tem sido objeto de interesse e motivo de estudo das mais diversas áreas do conhecimento, e isso se deve ao fato de que, para onde quer que olhemos, encontramos imagens. Em qualquer parte do mundo – e da história das civilizações – o homem deixou vestígios de seus movimentos e interesses, através de desenhos em pedras, peles e artefatos de todo o tipo. O conjunto dessas imagens e registros, através de diferentes e contínuos estudos, tem permitido às sociedades adquirir um conhecimento significativo sobre a cultura das civilizações anteriores. Mas, se as imagens são objeto de estudo de diferentes áreas, não o são apenas por seu valor histórico e memorial, mas também, porque elas compõem e conformam as realidades dos conjuntos sociais e, consequentemente, interferem nos critérios, crenças e valores e identidades dos grupos sociais. Para cercar essa problemática, apresentarei e destacarei alguns conceitos de imagens propostos por estudiosos, tais como Jacques Aumont e Adilson Citelli e, partindo desses estudiosos, focalizarei o uso da imagem quanto à sua possibilidade de representar discursos e textos, bem como o apelo das campanhas publicitárias na identificação com o consumidor, seja por classe social, local, etnia e/ou crenças. Tratarei, especialmente, de duas marcas de refrigerante: Pepsi e Coca-Cola, por entender que são concorrentes, e que suas propagandas têm sido largamente veiculadas pela mídia, lançando também campanhas publicitárias que apresentam traços de similaridade. No que tange às propagandas selecionadas para a composição do corpus desse estudo, o eixo de similaridade focaliza-se no fato de as mesmas referendarem a 3133 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ aspectos característicos da brasilidade e da cultura gaúcha, vinculados às marcas supracitadas. 1 Sobre imagens e propagandas As imagens são o meio de expressão e comunicação do homem, desde a pré-história e as pinturas nas cavernas. A linguagem visual já faz parte da cultura de qualquer civilização. Sem dúvida, vivemos em uma era de imagens, somos atravessados por uma imensidade delas, seja nas ruas, nos centros urbanos, no interior; por onde quer que olhemos nos deparamos com elas, que são capazes de nos atravessar, nos alucinar e nos seduzir. Influenciados por elas, somos capazes de converter de ideia, opinião, de mudar nosso gosto “ ” v outras. Imagens podem estimular e induzir sentimentos como a dor, o prazer, a beleza, a verdade e/ou satisfação. Da mesma forma que há palavras que machucam, provocam entusiasmo, trazem alívio, há também imagens que causam náuseas, arrepios, fazem estremecer o corpo; que excitam, condenam e levam a tomar decisões, a comprar determinado carro, a votar em um candidato e não em outro. E, o poder das imagens sobre os comportamentos e hábitos pode ser constatado, especialmente, por meio dos modismos absorvidos pelos grupos sociais. Especialmente a imagem publicitária, como uma prática social persuasiva que busca o condicionamento do homem a um determinado fazer, cria atitudes, opiniões e comportamentos, utilizando-se de palavras e outros signos, ou seja, de textos verbais e não-verbais. Muitas vezes, as imagens que são atreladas às marcas (alvo de maciça publicidade) passam a fazer parte do cotidiano da sociedade nas quais são veiculadas. Segundo Citelli, “P ô b certa organização do discurso que o constitui como verdadeiro para o ”( LL 00 ) 3134 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Marcas de lancherias (M’c Donald’s, Habibis), de vestuário (Adidas, Nike), e até de produtos de utilização doméstica (Bombril, Nescafé), tornam-se comuns aos nossos olhos de tal forma, que passam a fazer parte do nosso cotidiano em diversos momentos, e nem sabemos, muitas vezes, o exato nome do produto, como o amido de milho, por exemplo, mais conhecido “M z ” Essas marcas, que apresentam representações imagéticas correspondentes, têm o objetivo de seduzir o leitor a utilizar determinado produto. A arte de influenciar e persuadir o ser humano é tão antiga quanto o ato de a Igreja Católica se utilizar de metáforas para manter e conquistar novos fiéis, além de utilizar desenhos para contar a história de Jesus, para que os fiéis analfabetos pudessem entender e propagar a fé católica. No contexto em que vivemos, onde as imagens não são usadas somente para fins religiosos, mas para fins notoriamente comerciais, o consumo é crescente. A grande demanda de produtos, aliada ao estímulo consumista, acaba por interferir em nossa capacidade de estabelecer prioridades. Os meios de comunicação, por sua vez, têm ditado o que é “ ” q v q úb A verdade é que absorvemos os modismos impingidos pela mídia. Essas milhares de informações diárias nos induzem a comprar determinado produto e não outro. Logo, as imagens são de fundamental importância, porque são utilizadas não só para evocar coisas conhecidas, mas para também inventar, criar e/ou sugerir mundos possíveis, como vemos, por exemplo, nas propagandas de creme dental, em que todas as pessoas são lindas e saudáveis, vivendo em um ambiente de felicidade. Partindo do princípio da comunicação, em que são envolvidos, direta ou indiretamente, o emissor, o meio, a mensagem e o receptor, a comunicação de massa utiliza-se de diferentes tipos de abordagem para atingir seu objetivo, que se coloca na ação da venda. 3135 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Basicamente, são quatro os veículos de comunicação utilizados: a mídia impressa (revistas, jornais e folders), mídia sonora (rádio com comerciais, jingles), mídia visual (televisão, cinema e outdoors), e a mídia eletrônica (internet e sites). Abordarei nesse texto somente as imagens visuais, veiculadas na mídia impressa e/ ou visual e eletrônica, mais precisamente, as campanhas publicitárias das multinacionais Coca-Cola e Pepsi. Embora o estudo e a análise de imagens seja um tema bastante investigado e sistematizado, ainda assim, considera-se necessário sua contínua atualização; uma vez que a sociedade prioriza e se vale do uso da imagem nos sistemas informativos, comunicativos e de entretenimento. Absorvemos as ideologias subjacentes às imagens, bem como as sugestões implicadas, como um processo natural. Cabe ressaltar aqui, que a compreensão mais aprofundada desse fenômeno deve ser buscada por especialistas e estudiosos, que, através de métodos específicos de análise quantitativa e qualitativa, poderão chegar a uma mensuração aproximada do poder de persuasão das imagens sobre indivíduos e grupos sociais. S J q “ j e, desde sempre, as imagens foram fabricadas para determinados usos, v v ” ( UMON 99 78) N propaganda habilmente utiliza imagens com o objetivo de seduzir e as campanhas publicitárias utilizam-se de todos os meios possíveis para que seu produto seja vendido. Entre esses meios, um dos mais antigos é a mídia impressa, como os jornais e revistas de grande circulação; utilizando-se desse meio, a propaganda desenvolve mecanismos próprios, como o jogo de cores, os tipos de letras, a formatação e os signos, o que possibilita uma maior divulgação da marca e o convencimento daquele público específico para a compra do produto. Com o desenvolvimento das sociedades e a criação de diversos meios de comunicação de massa, as propagandas passaram a transitar de um meio 3136 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ para outro, sem necessariamente modificar seu tema principal. Hoje em dia, é primordial que as campanhas publicitárias chamem a atenção do consumidor, seja para enfatizar a marca ou apresentar um novo produto. Com o passar dos anos e a evolução dos meios de comunicação, a propaganda passou a criar uma linguagem própria, na qual se privilegia a persuasão e a sedução e não mais a objetividade de informação. A criatividade, por conseguinte, torna-se o elo entre o consumidor e a propaganda. Como vivemos em um mundo repleto de estímulos, a imagem, importante estímulo visual, é um recurso persuasivo, aliado à propaganda. Como já estamos acostumados a visualizar propagandas contendo imagens, o desafio passou a ser ainda maior, isto é, fazer com que o leitor passe a consumir determinado produto por meio de traços de identificação ou aproximação. Com base nesse pensamento, grandes marcas passaram a fazer suas campanhas publicitárias baseadas no gosto, nos modos e, principalmente, na cultura de determinado local. Isso se aplica às quatro propagandas analisadas neste estudo, todas concernentes ao produto refrigerante (mais especificamente, os refrigerantes Coca-Cola e Pepsi-Cola). Na seção que segue, abordarei aspectos concernentes à propaganda, incluindo sua origem etimológica e alguns de seus atributos. 2 Propaganda: Produção e convencimento A origem da palavra propaganda é latina, do verbo propagare, e significa o ato de tornar público. No entanto, com o passar dos anos e a evolução das civilizações, a propaganda passa a ter outras significações e atribuições. Isso se deve à industrialização e ao elevado índice de consumo. As pessoas podem viver muito bem sem determinado bem de consumo, porém o desejo de compra que a publicidade desperta faz com que esse bem passe a ser considerado fundamental. Dessa forma, a propaganda 3137 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ age no sentido de promover o desejo e a consequente compra, pelo consumidor, do produto anunciado. Tendo como objetivo a incitação do desejo, a propaganda se adapta a diferentes consumidores potenciais, categorizando-os por gênero, classe social, cultura, etc., para poder alcançar diversos públicos, de distintas culturas, nacionalidades e regiões. Para isso, a propaganda, normalmente, utiliza-se de veículos de comunicação de massa. Segundo Kotler e Keller (2006, p.553), a propaganda leva em consideração os seguintes aspectos: Penetração: a propaganda permite que a mensagem seja repetida muitas vezes e que o comprador receba e compare a mensagem de vários concorrentes. Aumento da expressividade: a propaganda oferece oportunidades para colocar em cena a empresa e seus produtos por meio de uso artístico da impressão, do som e da cor. Com o intuito de vender, além de informar, persuadir, lembrar e reforçar informações ao público-alvo, a propaganda fundamenta-se nos três aspectos mencionados, como forma de persuasão do ser humano, que, cada vez mais, encontra nos meios de comunicação de massa a contemplação de j “ ” Nesse sentido, a grande quantidade de produtos/marcas oferecidos diariamente ao consumidor são reflexos das propagandas massivas, que dia a dia penetram mais intensamente em nossas mentes, empregando todos os artifícios possíveis para provocar o nosso desejo de compra. Nas propagandas de refrigerantes não é diferente. As marcas (CocaCola e Pepsi, no caso dessa pesquisa) travam uma batalha na concorrência e, para isso, suas propagandas devem seduzir o consumidor de tal forma que este sinta o desejo/necessidade de consumir o produto. Destacarei nos capítulos seguintes, quatro propagandas das duas marcas de refrigerantes supracitadas e seus artifícios de conquista do público-alvo, o que inclui a consideração do contexto sociocultural no qual se insere. 3138 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 3 O consumo de refrigerantes no Brasil e a propaganda publicitária: aproximação produto/ consumidor/ contexto sociocultural 3.1 Aproximação produto/consumidor/ contexto brasileiro Os primeiros refrigerantes surgiram para fins medicinais, e só foram comercializados por volta de 1900. Com o desenvolvimento de sua fórmula, hoje, o refrigerante é uma das bebidas mais consumidas no Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas (ABIR), o consumo de refrigerantes no Brasil tem crescido significativamente, como podemos observar na tabela seguinte. Ano 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Volume 1986 à 2009 Variação em Litros (em Mil) % 4.895.835 5.305.593 8,37 5.095.788 -3,95 5.800.108 13,82 5.769.264 -0,53 5.978.175 3,62 5.147.758 -13,89 5.615.803 9,09 6.440.397 14,68 9.146.041 42,01 9.861.493 7,82 10.574.528 7,23 11.029.351 4,30 11.052.303 0,21 11.516.598 4,20 11.585.868 0,60 11.968.630 3,30 11.571.945 -3,31 12.208.950 5,50 12.422.058 1,75 13.012.102 4,75 3139 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2007 2008 2009 13.661.293 14.148.363 14.339.322 4,99 3,57 1,35 Média Anual 13.298.681 5,19 Tabela 1: Consumo (volume) de 1986 a 2009. Fonte:http://www.abir.org.br/article.php3?id_article=3854 Acesso em 28 de agosto de 2010. A ABIR é representante dos grandes fabricantes no Brasil, com 39 associados que correspondem a 76% do mercado de refrigerantes, entre eles estão: Coca-Cola, AmBev, Pepsi-Cola e Schincariol. Baseada nos dados apresentados, a indústria da publicidade tem investido fortemente nas propagandas de refrigerantes, potencializando seu consumo. Como exemplo notório desse fato, observam-se as ações das empresas comercializadoras das marcas Coca-Cola e Pepsi, (concorrentes há muitas décadas, e as primeiras nos índices de consumo do marcado), que, de tempos em tempos, lançam novas campanhas, “ ” v z o consumidor, dando maior visualização ao produto. Na tabela abaixo, podemos verificar o percentual referente à participação das marcas Coca-Cola, Ambev, Pepsi-Cola, Schincariol e outras no mercado. Mês Participação Volume 2009 (%) Coca-Cola AmBev Pepsi-Cola Schincariol Outras Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro 56,5 55,2 55,3 55,7 56,0 56,3 56,8 57,2 57,1 57,4 57,7 57,7 3,7 4,1 4,1 4,1 4,0 4,1 4,2 4,0 4,0 4,1 4,0 3,8 21,9 22,6 22,2 22,2 22,3 22,0 21,4 21,3 21,1 20,9 20,8 20,7 11,1 11,0 11,3 11,0 10,9 11,0 11,1 11,1 11,2 11,2 10,0 10,2 6,8 7,1 7,1 7,0 6,8 6,6 6,5 6,4 6,6 6,4 7,5 7,6 3140 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Total Estimativa Mensal 56,6 10,9 6,9 4,0 21,6 Tabela 2: Participação por volume das empresas. Fonte:http://www.abir.org.br/article.php3?id_article=3855 Acesso em 28 de agosto de 2010. Embora existam fábricas desses produtos no Brasil, estes são procedentes de empresas multinacionais que se instalaram em nosso país com o intuito de vender. Contudo, nem sempre podemos observar uma marca identitária explícita ligando a mercadoria à sociedade brasileira. Visando popularizar o consumo de tais produtos, as campanhas publicitárias passaram a se preocupar com o estabelecimento de uma relação mais próxima com o público consumidor em potencial, inserindo traços nacionais e regionais característicos. Exemplo disso é a campanha da Coca-Cola veiculada no final do ano de 2006, que traz como tema central uma eleição feita pelo consumidor, de quem seria o melhor jogador de futebol. Os votos se davam por meio de tampinhas do refrigerante que seriam depositadas em urnas localizadas nos bares de todo o Brasil. O Brasil é considerado o país do futebol e tem como adversário ferrenho e secular a Argentina. A campanha em questão trazia a disputa entre dois jogadores: o argentino, Maradona, considerado um ícone em seu pais, e Biro-Biro, antigo jogador corintiano, pouco conhecido dos gaúchos. A intenção dessa votação era a divulgação da marca, por meio de uma divertida brincadeira, segundo a qual não importaria a qualidade dos jogadores, e sim sua nacionalidade de origem e a suposta identificação do público-alvo com a mesma. Na votação não houve um vencedor, já que a apuração dos votos não foi realizada. Na figura 1 podemos observar a publicidade mencionada. Além disso, temos a seguinte interrogação, como frase de efeito: “Q ?” q aos placares nos estádios de futebol. No caso dessa, propaganda não 3141 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ importa o ganhador da disputa, a representação monárquica é sempre coroada com uma coroa com o símbolo da Coca-Cola. Figura 1: Propaganda da marca Coca-Cola. Fonte:http://www.cocacolabrasil.com.br/release_detalhe.asp?release=143&C ategoria=38 Acesso em 28 de agosto de 2010. Como podemos verificar, as cores tradicionais da marca, o vermelho e o branco, foram mantidas, porém a figura dos jogadores e a representação verbal de seus nomes passaram a conter as respectivas cores de seus países, para criar uma maior identificação do eleitor/consumidor com o jogador, como também com a nacionalidade representada por ele. Ademais, é sugerido que o jogador vencedor ganhará uma coroa, simbolizando um rei. Esse objeto de cor vermelha possui a marca do produto estampada na frente, referenciando a hierarquia desse refrigerante, frente aos demais produtos similares. A campanha publicitária do refresco Pepsi Twist, no ano de 2003, demonstra, também, a preocupação de criar esse vínculo com o país consumidor, contextualizando o uso do produto. 3142 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O brasileiro parece ter adquirido o gosto de consumir refrigerantes acompanhados de uma rodela de limão. Ciente desse fato, a Pepsi lançou b “ q ” . Desse modo, o novo produto, além de atender ao gosto popular, recebeu um novo apelo publicitário contemplando a sua aproximação com aspectos peculiares à identidade do consumidor brasileiro na representação da fruta (limão) personificada dentro de um cenário carnavalesco, contendo confetes e serpentinas, o que é típico do cenário nacional. Esse recurso visual vem ao encontro da época em que foi lançada a campanha, em fevereiro, período de carnaval. Sabemos que o Brasil é conhecido mundialmente por seu carnaval e seu samba. Nesse sentido, a propaganda exibe o limão como figura central, o primeiro simbolizando uma dançarina em cima de uma lata de Pepsi, que representa um carro alegórico, e utiliza o canudo que sai do refresco como a alça de segurança. Pelos cortes realizados na casca do limão, percebemos q z à bq “ É v b “v ” ” (cf.Figura 2). ‘ ’ ligth, demonstrando o conhecimento da indústria da atual preocupação excessiva do público feminino com a questão estética. Assim, levando em consideração o mito de que refrigerante engorda, a versão ligth da nova fórmula criada reforçaria o interesse de seu consumo pelo referido público, por conter menor quantidade de calorias, ideal para as mulheres de nosso tempo. Já o segundo limão, personificado como um típico sambista, é colocado sobre a outra lata de Pepsi tradicional, exaltando a figura feminina, ao seu lado. A relação sexual/afetiva intensifica a preocupação estética feminina; uma vez que a mulher deve manter, ou entrar no padrão de beleza exigido pela sociedade, para concretizar a sedução do público feminino. 3143 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Figura 2: Propaganda da marca Pepsi. Fonte:http://www.portaldapropaganda.com/vitrine/tvportal/2004/02/0008?data =2004/03 Acesso em 28 de agosto de 2010. “P q ” N v z j w j Pepsi com um b q As cores predominantes são o azul, cor da marca, e o verde, representando os limões. Podemos observar que as cascas do limão que representam as serpentinas recebem um tom amarelado. Temos, então, as cores branco, verde, azul e amarelo como marcas reforçadoras da brasilidade, visto que essas são as cores da bandeira brasileira. Parece clara a tentativa das referidas marcas de interferir em nosso cotidiano, participando do mesmo. Com esse intuito, fatores culturais e sociais do brasileiro são considerados na criação das propagandas publicitárias. Em relação a esse propósito, Citelli ressalta: O texto publicitário resulta da conjunção de múltiplos fatores. Alguns estão ancorados nas ordenações sociais, culturais, econômicas e psicológicas dos grupos humanos para os quais as peças estão voltadas. Outros dizem respeito a componentes estéticos e de uso do enorme conjunto de efeitos retóricos 3144 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ necessários para se alcançar o convencimento e os quais não faltam às figuras de linguagem, as técnicas argumentativas e os raciocínios. (CITELLI, 2006, p.56). Nas duas propagandas apresentadas anteriormente, é possível percebermos os diversos fatores abordados pela mídia, que se utiliza do nosso contexto socioeconômico e cultural para propagar suas idéias e conceitos. A publicidade de ambas as marcas reproduzem e se fazem reproduzir em nosso modo de viver . 3.2 Aproximação produto/ consumidor/ contexto regional. Na subseção antecedente, ilustrei, com a apresentação de duas propagandas da Coca-Cola e da Pepsi contendo traços que remetem à brasilidade, a preocupação de considerar fatores sociais, culturais e econômicos no lançamento de campanhas publicitárias dessas marcas. Nesta subseção, tratarei de propagandas que reforçam tal preocupação, porém, em um nível ainda mais específico, contemplando a aproximação do contexto regional, no caso, representado pelo estado Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul é um dos povos conhecido pela força e garra de seu povo, fruto do trabalho originalmente no campo. Além dessa caracterização, há uma forte cultura, baseada nos costumes dos pampas. Essa cultura tem reflexos no comportamento, na vestimenta, na culinária, etc., aspectos que foram habilidosa e criativamente considerados nas propagandas, objeto de análise nesse estudo. As peças publicitárias selecionadas e expostas nas Figuras 3 e 4 visam a uma identificação com o consumidor gaúcho. Estrategicamente, fazem referência a uma importante data para esse Estado: o 20 de Setembro. No dia 20 de setembro, é comemorada a Revolução Farroupilha, que tinha como objetivo propor melhores condições econômicas ao Rio Grande do Sul. Nesse dia, pois, celebram-se os ideais dos gaúchos. A peça publicitária da marca Pepsi, produzida e veiculada no ano de 2005, contém elementos comumente associados à tradição regional. Neste 3145 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ caso, o suporte de cuia e a bomba de chimarrão, porém com a cuia sendo substituída por uma lata de 350 ml do produto. Figura 3: Refrigerante Pepsi Fonte: http://cascavel.cpd.ufsm.br/tede/tde_arquivos/29/TDE-2009-07-28T150845Z2155/Publico/FRAGA,%20PAULINE%20NEUTZLING.pdf . Acesso em 14 de setembro de 2010. As propagandas passaram a investir nesse tipo de imagem, que supostamente criaria um laço de ligação com todos os gaúchos que se orgulham de terem lutado por seus ideais. Na imagem, a lata está posta no suporte na cor prata, com o produto levemente inclinado. Ainda referente à linguagem não-verbal, encontramos 3146 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ dentro da lata uma bomba de chimarrão, a marca Pepsi virada em posição frontal para o leitor, e ainda notamos gotículas de água em volta da lata, sugerindo que o refresco está gelado, pronto para beber. A linguagem visual corrobora com a linguagem verbal, associada ao ú “ P P R v F ” b x je os gaúchos “U ” z à festiva, e sugere ao leitor/ consumidor, ou seja, o público-alvo, um brinde ao referido evento, com a substituição do chimarrão por Pepsi, o que justifica o fato de o refrigerante ocupar o lugar que, até então, era da cuia. Na parte inferior direita, está o slogan ” “ q vv -se de um artifício para incentivar o público-alvo a sentir novas sensações, a tomar novas atitudes, a ousar e viver com intensidade. Isto tudo, obviamente, atrelado ao refrigerante da marca Pepsi. Há uma busca de identificação da peça publicitária com esse gaúcho, muitas vezes mitificado, que preserva as tradições, que toma o chimarrão e que se orgulha de participar dessa data comemorativa. Foi criado em torno da figura do gaúcho um ser mitificado. Essa figura foi baseada na cultura e nas tradições, observável nos hábitos, costumes e vestuário típicos. Levando em consideração o contexto regional, foi criada a peça publicitária da Coca-Cola, do ano de 2002, que traz a imagem de uma garrafa tamanho pequeno do produto com um lenço amarrado próximo ao bico, representando o pescoço do gaúcho. Assim como a peça publicitária da Pepsi, a Coca-Cola sugere a troca do chimarrão pelo refrigerante, acima do qual exibe-se a frase de efeito “P ” j -Cola para brindar o 20 de Setembro. 3147 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Figura 4: Refrigerante Coca-Cola. Fonte: http://www.cocacolabrasil.com.br/conteudos.asp?primeiro=1&item=2&secao= 39&conteudo=103&qtd_conteudos=1. Acesso em 26 de agosto de 2010. A garrafa do produto já está sem a tampa e gelada, contendo a sua marca registrada virada para o leitor/consumidor potencial. No plano de fundo, suponho a apresentação das cores do Rio Grande do Sul, já que a imagem foi veiculada, no jornal Zero Hora,(20/09/2002) em preto e branco. 3148 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Ao lado esquerdo, temos um objeto com suas formas relacionadas xb “S F 00 ” q ao leitor a sensação de proximidade com o produto. As quatro propagandas apresentadas possuem o mesmo objetivo, utilizando, também, artifícios publicitários similares. A aproximação com o consumidor em potencial é feita através de imagens típicas de uma cultura e expõem a forma de ser de determinada sociedade. Ademais, elas parecem persuadir, num esforço resultante da organização do texto (verbal e visual) que, supostamente, o constitui como natural para o destinatário, conforme sugere Citelli (2006). CONSIDERAÇÕES FINAIS Retomando a citação de Jacques Aumont (1993), segundo o qual a produção de imagens jamais é gratuita, seria ingenuidade pensar que as imagens veiculadas em campanhas publicitárias foram criadas sem o objetivo de vender seu produto a um determinado público-alvo. Todas as peças apresentadas foram desenhadas para provocar uma aproximação produto/ consumidor/ contexto sociocultural e subseqüente consumo. Foi com essa intenção que essas duas grandes marcas (Pepsi e Coca-Cola) criaram as propagandas aqui analisadas. Com o intuito de aumentar significativamente o volume de vendas, a publicidade vale-se de um número ilimitado de artifícios, incluindo a articulação das linguagens verbais e visuais, para conseguir seu objetivo, o que foi verificado nas propagandas da Pepsi e Coca-Cola. Nos exemplos apresentados, tratei de duas marcas específicas, em um universo muito amplo e de grandes possibilidades. Contudo, as peças publicitárias selecionadas tinham como propósito mostrar as possíveis aproximações do produto com o público-alvo. Dos aspectos mencionados por Kotler e Keller (2006), as propagandas analisadas contemplam: (a) a penetração, já que foram veiculadas repetidas 3149 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ vezes, permitindo ao comprador receber e comparar as mensagens com a concorrência; (b) o aumento da expressividade, visto que as marcas dos referidos refrigerantes foram divulgadas de forma artística, usando cores, impressões e imagens que remetem a aspectos constitutivos do contexto sociocultural do consumidor, estimulando-o, por conseguinte, à compra. Em última análise, cabe ressaltar que os dados sócio-econômicoculturais pertinentes ao público-alvo são de extremo interesse para a publicidade e é a partir desse levantamento que a propaganda desperta no consumidor o desejo pela compra do produto, como visto nas quatro propagandas mencionadas, que, de alguma forma, tentam através do apelo a marcas de brasilidade e de gauchismo se aproximar e participar do contexto desse consumidor potencial. REFERÊNCIAS Alves, Francisco das Neves. A Revolução Farroupilha: Estudos Históricos. Rio Grande, RS, Fundação Universidade Federal do Rio Grande 2004. Aumont, Jacques. A imagem. Tradução: Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro, Campinas, SP; Papirus, 1993. Citelli, Adilson. Linguagem e persuasão. São Paulo, SP, Ática, 2006. JOLY, Martine. Introdução a analise da imagem. Campinas: PAPIRUS, 1996. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de Marketing. Trad. Mônica Rosenberg, Brasil Ramos Fernandes, Cláudia Freire. 12ª ed. São Paulo: Prentice Hall, 2006. SANTAELLA, Lucia; NÖTH, Winfriend. Imagem: cognição, semiótica e mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998. http://www.abir.org.br/ acesso em 25 de julho de 2010. http://www.cocacolabrasil.com.br/ acesso em 25 de julho de 2010. http://www.pepsimundo.com/brasil/ acesso em 25 de julho de 2010. http://www.cocacolabrasil.com.br/conteudos.asp?item=2&secao=39&conteud o=103&qtd_conteudos=1 acesso em 23 de agosto de 2010. 3150 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ CORRE PARA A PRÓXIMA PÁGINA! EFEITOS DE ORALIDADE NO JORNALISMO IMPRESSO: O CADERNO KZUKA Raquel Neutzling Bierhals Instituto Federal Sul-rio-grandense, [email protected]) Ana Paula de Araujo Cunha Instituto Federal Sul-rio-grandense, [email protected] Resumo O presente trabalho pretende lançar um olhar sobre as marcas de oralidade que permeiam o jornalismo impresso jovem. Com esse foco em mente, analisou-se o Caderno Kzuka, do jornal gaúcho Zero Hora, procurando observar as semelhanças e diferenças entre o texto jornalístico clássico e o texto apresentado no suplemento sob análise. No intuito de contemplar tal objetivo, utilizou-se a metodologia sugerida por DIAS (1996), tendo em vista os níveis discursivo e lexical e, pontualmente, algum elemento do nível fonético. Nas análises, pode-se observar a semelhança do texto do Kzuka, principalmente com o veiculado em revistas direcionadas ao público jovem. A linguagem utilizada no Caderno vem ao encontro do que autores apontam como tendência no jornalismo impresso, especialmente para conquistar novos leitores. As marcas de oralidade constatadas procuram, pois, estabelecer uma espécie de cumplicidade com o público-alvo. O caderno supracitado adapta-se, liberta-se das regras e padronizações tradicionais, mantendo, no entanto, o traço essencial do texto jornalístico, isto é, o caráter informativo. 1 INTRODUÇÃO Fique ligado no que vai bombar nas próximas páginas. Será que esse negócio de oralidade no jornal impresso pega mesmo? Talvez fosse dessa forma que a chamada de matéria do caderno Kzuka, do jornal gaúcho Zero Hora, anunciasse o presente trabalho. A ideia do estudo é analisar as marcas da oralidade no jornalismo segmentado direcionado ao público jovem. O trabalho se deterá nos níveis discursivo e lexical, de forma a entender quais são as marcas de oralidade mais frequentemente encontradas no caderno Kzuka e as características do texto tradicional jornalístico que se aproximam ou se diferenciam do texto adotado em 3151 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ publicações segmentadas, como é o caso do jornalismo direcionado ao público jovem. Assim, se observará de que forma a linguagem utilizada pelo suplemento se aproxima ou se afasta da linguagem jornalística clássica, detectando os elementos dos dois níveis supracitados, analisando os pontos de aproximação e discrepância entre a linguagem utilizada pelo Kzuka e a linguagem clássica do jornalismo mostrando, porventura, algum outro tipo de relação entre as linguagens escritas nos meios de comunicação. O tema foi escolhido tendo em vista a proposta de segmentação já presente em diversos veículos de jornalismo impresso, que trata de assuntos específicos de forma específica para públicos diferenciados. Como já divide espaço com a televisão no Brasil desde a década de 50, o jornalismo impresso atualmente também disputa atenção com a Internet. Logo, precisa “ q ” úb aproximando-se de seus interesses, sua forma de ser e estar no mundo, e abordando temas próprios de cada gênero, nível socioeconômico ou faixa etária, como é o caso do caderno jovem Kzuka, do jornal gaúcho Zero Hora. Apresentando um projeto gráfico dinâmico, visualmente cheio de informações e trazendo assuntos abordados com uma linguagem cheia de expressões adolescentes, caracteriza um tipo diferenciado de jornalismo. Por isso, é necessário que se dê uma atenção especial a esta temática, que mistura jornalismo impresso com marcas típicas da oralidade. Até que ponto essa forma de ser do Kzuka aproxima-se do jornalismo tradicional ou se difere dele, e quais são essas marcas de oralidade mais presentes, são as questões principais deste trabalho, que visa a se debruçar sobre uma nova forma de fazer jornalismo. Desta forma, procura conhecer um pouco mais das vantagens e desvantagens de uma publicação segmentada e da linguagem de que se utiliza. 3152 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2 LINGUAGEM JORNALÍSTICA Segundo Rodrigues (1999), o primeiro semanário impresso de que se tem conhecimento apareceu em Londres, em 1622. Da forma como o conhecemos hoje, ele começou a ser criado entre 1930 e 1969, conforme diz Lustosa (1996, p.67). Como forma de padronizar, deixar as opiniões e comentários de lado em nome da pretensa objetividade, algumas regras começaram a ser implantadas. Comunicólogos de todo o mundo desenvolveram a arte da elaboração das mensagens, pesquisando as condições ótimas de percepção, decodificação, interpretação e incorporação de seus conteúdos. Pela prática profissional, pela pesquisa e pela competição recíproca, melhoram-se constantemente a redação de notícias e artigos (BORDENAVE, 1986, p.33). Conforme Lustosa (1996, op.cit.), o texto jornalístico passou por cinco fases. A primeira ocorreu de 1808 a 1827, quando a escrita era repleta de opiniões, juízos de valor, observações pessoais, além de zelar pelos princípios morais e cristãos. Na segunda fase, de 1827 a 1889, os textos narravam fatos seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos, com redução das opiniões. Surgem nesse período as agências de notícias. Depois, de 1889 a 1930, os veículos começam a adotar notícias quase que x v j z v v “ x j ”( 7) N q q q q vai de 1930 a 1969, os veículos – em especial os impressos – desenvolvem uma técnica especial de construção do texto informativo, com a criação do lide (primeiro parágrafo da notícia, que, conforme os criadores norteamericanos, deve conter as perguntas básicas sobre determinado assunto). D 9 9 zL v “ v ual, imposta 3153 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ pela televisão, que define o padrão estético dos veículos impressos, j v ” (LUS OS 7) Conforme Nilson Lage, a proposta do jornalismo é processar “ ” ( 998 p.35). Segundo Pinto, o discurso jornalístico é organizado de acordo com certo número de convenções, normas e regras (2002, p. 88). Adriano Rodrigues (1999) também fala da adequação das empresas jornalísticas organizadas de acordo com o modelo industrial (p.73). Da mesma forma, a questão é abordada por Jacira Rodrigues (2003). Enquanto o jornalismo se profissionalizou, alteraram-se as formas de redigir. A pomposidade da retórica sai das páginas do periódico, assim como os escritores se vão das salas de redação. Cada palavra passa a ser medida pela sua essencialidade, visando à compreensão do fato na hora da leitura (RODRIGUES, 2003, p. 15). No entanto, para Lage (1998) a linguagem jornalística irá incorporar expressões de linguagem coloquial, denominações de objetos novos (de origem científica ou popular), metáforas com intenção crítica e atualizações. Ou seja, é um instrumento dinâmico, que assim como é padronizado também assume para si termos e expressões que ganham as ruas ou são correntes “ no dia-a-dia ”( õ 44) P B v b j de provisão de informação e também satisfaz necessidades como o fornecimento de contatos sociais (1986, p.20). De acordo com Dias (1996, p.15), a linguagem coloquial faz parte, cada vez mais, das diversas situações de comunicação, inclusive instalandose nas páginas dos dicionários, como incorporações aceitas. Segundo ela, j õ ”( “ receptiva a essas ) Para Vilas Boas, o principal aspecto do texto jornalístico é seu caráter informativo acentuado (1996, p.103). 3154 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2.1 CARACTERÍSTICAS Dos autores consultados, pôde-se extrair a percepção de algumas características principais que estão presentes no texto jornalístico. São elas: a utilização de terceira pessoa – q v “ ” enunciador e do destinatário; a fala direcionada a um público geral, o que lhe confere o texto padrão pensado para um público mediano; a não-utilização de adjetivos; a utilização de citação para criar efeito de realidade e o respeito à linguagem tradicional, procurando utilizar uma linguagem cotidiana, porém afastada das formas coloquiais. De acordo com Ricardo Noblat (2003), as características da linguagem utilizada pelo jornalismo são ordem direta, simplicidade, frases curtas, concisão e clareza. Além disso, segundo ele, o jornalista deve escrever para “ ” j v z primeira pessoa é utilizada para estabelecer cumplicidade, só em alguns casos especiais. Lage (1998) faz eco a esta posição. Ele lembra que a situação do j ú q conjunto disperso e não-identifica ”( 40) L “ ( 99 ) b esta característica, de um falar mediano direcionado a um público geral, uma mensagem coletiva (pgs. 35, 65, 85 e 113), fator destacado também por Vilas B ( 99 9) “ v iversal, isto é, deve ser inteligível ou passível de decodificação por pessoas de diferentes v õ ” (LUS OS 99 ) “Q mais amplo e mais de massa for o público pretendido [...], mais o repertório lingüísti ” (V L S BO S 99 7 ) Para Lage, as circunstâncias da relação entre jornalista e público determinam restrições específicas no código lingüístico. A limitação do código – reduzindo tanto o número de itens léxicos (palavras e expressões) [...] aumenta a comunicabilidade e facilita a produção da mensagem, o que é útil no caso de um produto industrial como a notícia (LAGE, 1999, p. 22). Tanto para ele quanto para Benites (p.46), a notícia é informação transformada em mercadoria, e por isso deve obedecer a alguns critérios que “P 3155 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, z 98 bj B 4 ) “ x ” zV v ” (M rcondes Filho, b B ( 99 b 40) Vilas Boas também fala a respeito da padronização. O formato do texto é bastante racional. Todo jornalista de jornal já ouviu ou leu que os parágrafos devem ser curtos; que devem ser evitadas palavras desnecessárias, qualificativos tendenciosos, preciosismos ou frases feitas; não começar períodos sucessivos com a mesma palavra; não empregar repetidamente a mesma estrutura de frase; as frases diretas facilitam a compreensão; eliminar os termos abstratos, complicados; e quanto mais se usar palavras no seu significado exato, melhor (VILAS BOAS, 1996, p.41). “ j [ ] q â P v ( 00 ) b ” ( 47) “ ” “O x ’[ ]O ‘ b x ” (P N O um 00 9 ) P capa da pretensa objetividade pregada pelo jornalismo. E ele segue, adiante: “ distância, imposição, didatismo e superioridade hierárquica: o jornal informa a ‘v ’q v ”( 97) Nilson Lage (1998) salienta o uso quase obrigatório da terceira pessoa no texto jornalístico, da mesma forma que diz Pinto, para creditar confiabilidade. Assim, com o narrador onisciente, como diz Benites, a notícia se põe como verdadeira (2002, p. 46), na mesma opinião de Lage (1999, p. 19). O efeito de realidade é obtido por meio de enunciados concretos de que o texto jornalístico lança mão, como hora exata, placa do carro e o nome da pessoa (p.42). O uso de aspas para declarações, como faz coro Benites ( ) v “ b ” q x - se de complicações e a não-opinião também são dois aspectos citados por ele. 3156 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ De acordo com Dias (1996), os Manuais de Redação utilizados nos v z “ ” à tolerância com a linguagem gíria em certos contextos e por sérias limitações q ‘ q M F v ’ (D S S P 99 P8 ) S b zq x j v “ estilo próximo da linguagem cotidiana, sem deixar de ser fiel à norma culta, v evitan â ” (M NU L D REDAÇÃO, 2002, p.77). De acordo com Vilas Boas (1996), os principais aspectos do estilo jornalístico são ritmo, jeito, equilíbrio, linguagem, apresentação, símbolos, ética e personalidade. A linguagem jornalística se caracteriza pela correção, clareza, precisão, harmonia e unidade. Segundo ele, a linguagem é definida q q “O j presumivelmente, ser o ângulo em que o jornalista ou o veículo se coloca, v q ” (V L S BO S 99 9) z ele, como o jornalismo é literatura sob pressão, é preciso criatividade, pois a v b “ [ j ] pronto para sacrificar as virtudes da linguagem em nome da clareza, [ ] v ” (V L S BO S 99 p.63). Embora sejam efusivamente salientadas pelos autores consultados, não se pretende aqui tratar das características jornalísticas de conteúdo, como por exemplo, fatores de escolha de notícias, ou formas de composição dos textos, como os fatores de concisão ou clareza. A proposta é deter-se nos níveis discursivo e léxico. 2.2 UM OLHAR PARA A GÍRIA 3157 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Conforme Rodrigues, a linguagem é o fundamento por excelência da “ v ” ( 999 ) N x v -se atentar à questão da gíria. De acordo com Dino Preti, a gíria é um signo identificador de um grupo social – pessoas que partilham padrões organizados de interação ou que compartilhem uma consciência de filiação e interação. Conforme o autor, a gíria contribui para a formação de uma consciência de grupo e, ao usarem“ na, os integ vocabulário de uso oral e se forma em grupos sociais, em geral, com o acrescentamento de novos sentidos a vocábulos já existentes no vocabulário ” (PR bj 00 4 ) S v x gistro coloquial tem o v ( 47) “L aspecto negativo da linguagem, constitui [...] uma permanente e dinâmica fonte de criação lexical, contribuindo decisivamente para a interação verbal ” (PR do grupo, para 00 8) Para Rodrigues, as comunidades dão sentido aos enunciados. É por isso que um enunciado perfeitamente compreensível, do ponto de vista da significação das formas lingüísticas, tanto pode ter sentido, dentro de um determinado quadro, como ser absurdo ou desprovido de sentido, dentro de outro quadro. [...] Para a constituição dos quadros de sentido, os interlocutores fazem portanto intervir não só os elementos lingüísticos que integram os enunciados que trocam entre si, mas também todo um conjunto de saberes acerca dos interlocutores [...], da situação social em que estão envolvidos, assim como das visões do mundo próprias da comunidade a que pertencem (RODRIGUES, 1999, p. 58). O Manual da Folha de São Paulo z “G v x banalizar o texto, muitas vezes o significado de um determinado termo só é conhecido por parcela restrita de leitores. Em reprodução de declarações, a v ” (M NU L D R D ÇÃO 00 7 ) Ao falar sobre a liberdade dos textos das revistas, como veremos mais adiante, Vilas Boas diz que neologismos, coloquialismos e gírias são formas “ b v x j ” v 3158 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ tais recursos não são um mal em si. [...] Devem ser evitados, mas não rejeitados. Há casos em que serão de grande valia. Pense que a língua falada está sempre anos-luz à frente das gramáticas. [...] Não há por que dispensar uma determinada forma de significação da palavra (VILAS BOAS, 1996, p.17). 2.3 UMA NOVA PERSPECTIVA: APROXIMAÇÃO COM O LEITOR Bordenave coloca que a sociedade e a comunicação são uma coisa só. Logo, uma sociedade dinâmica influencia (ou mesmo é) uma “ ” ( 98 ) P a comunicação confunde-se com a própria vida e, assim, a reflete (p.19). B v zq “ b b ” ( 8) P b -se, assim, a realidade jovem atual, dinâmica, que deseja partilhar entre si, usa a linguagem também para fazer isso. Ricardo Noblat é um entusiasta quando se fala de mudança de padrões no jornalismo. O autor defende alguns itens essenciais, como clareza e concisão, mas propõe que se repense a forma como os jornais se apresentam a um público moderno, para os quais a televisão e a internet podem ser mais atrativas. “O j v j preferem informar-se por outros meios. Ou simplesmente não se à informam. Uma fatia c ” ( 00 4) Lembramos que, como o livro foi escrito no começo dos anos 2000, esse volume deve ter evoluído, com a contribuição das redes sociais. O autor cita uma pesquisa feita pela Associação Americana de Jornais, com um público de 18 a 24 anos. O resultado mostrou 75% dizendo que a Internet “ x ” 4 % j 3159 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [...] os jornais perderam espaço para os demais veículos de comunicação de massa. A tendência geral é de as pessoas procurarem cada vez mais na Internet notícias em tempo real, quase sempre servidas em estado bruto. Mais tarde poderão vê-las na televisão (NOBLAT, 2003, p.99). Por isso, diz ele, o jornalismo impresso precisa se atualizar. Para Noblat, a tendência é que os jornais devem renovar sua pauta de assuntos para ganhar mais leitores, principalmente mulheres e jovens. O z “ q j b v ” ( 00 7) A criatividade, segundo ele, é um grande trunfo para enfrentar a investida de meios de massa e cativar o leitor. Alguns dos exemplos citados por ele fogem da burocracia tradicional e enveredam, com ô “ ” q está lendo a matéria. [...] o modelo de jornal conhecido data de muitas décadas e envelheceu. Esgotou-se por não levar em conta o surgimento de outros meios de comunicação e desprezar a evolução dos gostos, costumes e modo de vida das pessoas (NOBLAT, 2003, p.147). Essa transformação, em sua ótica, passa por um processo de b v “v ”( ” j “ ) Essa mudança, diz ele, vai em direção à conquista de novos leitores, em especial mulheres e jovens. Isso vai ao encontro da avaliação de Bordenave. O sistema de signos que o homem criou para sua comunicação não é um conjunto mecânico de peças que se armam como um quebra-cabeças seguindo normas de engenharia da linguagem (BORDENAVE, 1986, p.45). 3160 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 2.4 COMO SE FALA Na sequência de seu pensamento, Noblat fala positivamente sobre o “ v ” z v z q j “D v ?N N tira pedaço de ninguém. E é mais fácil. Só não escrevam como falam se ” (NOBL 00 8 ) P L ( 998 7) de vista da eficiência da comunicação, a forma coloquial de tratar – espontânea, que reflete a realidade comunitária – sempre é preferível. No entanto, o registro formal é uma questão social, que o valoriza. Em sua opinião, a linguagem jornalística inclui tanto o registro formal quanto o coloquial. A conciliação entre esses dois interesses – de uma comunicação eficiente e de aceitação social – resulta na restrição fundamental a que está sujeita a linguagem jornalística: ela é basicamente constituída de palavras, expressões e regras combinatórias que são possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal (LAGE, 1998, p.38, grifos do autor). Segundo ele, é um constante jogo entre a norma culta e os interesses de comunicação. Por isso, diz o autor, a linguagem jornalística vai incorporar termos coloquiais, denominações de objetos novos – de origem científica ou popular, entre outras atualizações. Assim também P “O j casos, mistura uma perspectiva narrativa preponderante com marcas de v ” (P N O v z â 00 “ 97) P v “[ ] j z ” z ncia na mídia x -espectador, o que tem a ver com as reformas de linguagem que o jornalismo brasileiro v ” ( 00 98) compartilhamento com o senso co b -se no “[ ] 3161 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ tendência dos jornais para criar vocabulários rapidamente adotados por ” V B ( 9 ) 2.5 UM OLHAR PARA O TEXTO DE REVISTA Pelo fato de o objeto de análise ser um caderno semanal, procurou-se algumas informações a respeito das especificidades de textos segmentados e/ou especializados. Conforme Ander-Egg (1993), os gêneros jornalísticos se dividem em informativos e opinativos. Os primeiros são notícia, reportagem, entrevista e crônica. Os segundos dizem respeito a artigo, editorial, comentário e crítica. Quando há presença de opinião e adjetivação, o material jornalístico é considerado posicionado. Na bibliografia jornalística, essas análises específicas são escassas. No entanto, encontrou-se valiosas contribuições no que tange ao texto de revista. O principal autor a tratar disso é Vilas Boas (1996). Em sua concepção, com maior tempo para produzir suas matérias, as revistas apresentam textos mais criativos e utilizam recursos estilísticos que b periodicidade semanal v é j preponderante. [...] “ Isso possibilita a elaboração/produção de um texto prazeroso de ler, rompendo as amarras z ” (V L S BO S 99 9). De acordo com o autor, o texto de revista é mais elaborado e aprofundado, com reportagens mais detalhadas e abrangentes. Isso não é o caso do caderno Kzuka, que apresenta textos rápidos e dinâmicos. Mas acredita-se que as idéias de criatividade e soltura das amarras são características fortes. E, como concordam os outros autores estudados sobre o texto j x “ “ z - ” q ” b construções mais leves, termos e expressões coloquiais. 3162 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O texto para uma revista também segue os padrões jornalísticos, mas isto não impede que palavras, frases ‘ b ’ [ ] N revista as palavras podem ser usadas não apenas com o sentido que lhes atribuem os dicionários. [...] No texto diário de jornal, o valor conotativo só é aceito em situações muito especiais (VILAS BOAS, 1996, p. 18). No entanto, diz ele, as principais características do texto jornalístico devem ser respeitadas (já que a revista é um estilo de jornalismo). Clareza, concisão e correção gramatical sempre devem estar presentes. Mas a revista, diz ele, tem, além do sentido de informação, o “ j v pre z ”( 4) De acordo com Pinto (2002, p.89) e Lustosa (1996, p.113), a notícia pode variar de acordo com o tipo de editoria em que é vinculada. Da mesma forma, diz Vilas Boas (p.23), para o qual o entorno deve ser sempre levado em consideração, como o caso do público jovem. Apesar da padronização, o jornalismo é terreno para experimentações na área da linguagem. A riqueza das construções literárias, no entanto, pode ser utilizada, pelo jornalismo, como forma de enriquecer o texto, qualificando a narrativa dos fatos e tornando a leitura aprazível. São os recursos da arte a serviço da informação (RODRIGUES, J., 2003, p. 15). Jacira Rodrigues cita o Manual da Redação do jornal O Estado de São “ Paulo, que apresenta j - termo entre a linguagem literária e a falada. Por isso, evite tanto a retórica j q ” autora, os manuais de redação chegam a ser contraditórios na questão, pois tentam abarcar vários itens (RODRIGUES, J., 2003, p.63). z R “ z” ( 999 [ ] v v q 7) 3163 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 3 EFEITOS DE ORALIDADE É necessário também, para a realização do estudo, que se dê atenção “ ” “ ” P isso, seguiu-se as orientações de Hudinilson Urbano (2006). De acordo com ele, são muitos os estudiosos que contestam a classificação entre o falado e o escrito. Por exemplo, para Medeiros e Hilgert, apud Urbano, são as condições de produção de um determinado texto que determinam a presença de traços de maior ou menor formalidade. Assim, as características aparecem de acordo com o tipo de interação e o suporte onde o texto está inserido. De acordo com Urbano, muitos trabalhos são desenvolvidos no Brasil envolvendo a relação fala/escrita ou oralidade/escrita (2006, p.21). Para não cair em conceitos que misturam os fenômenos, o autor opta por valer-se da O “ K q “ ” O “ õ ” “ tratando de concepção – “ ” ” z â ” v ” z Ub “ô “ ” v b inicialmente, como uma atividade criada pelo ser humano para se comunicar com outros indivíduos. Em teoria, isso é feito por meio da língua, sistema percebido e observado como tal, nas teorias lingüísticas, as quais o inferiram, idealizaram e o descreveram com base na própria atividade comunicativa verbal. A língua é, portanto, uma descoberta dos linguistas, que entendem a linguagem verbal como um sistema de signos, atribuindo-lhe a ‘ ’ [ ] sistema de signos; na realidade, um sistema de sons vocais específicos (os chamados fonemas), organizados num sistema de formas (como é o caso dos padrões frasais...), que estabelecem entre si oposições, fundamentais ou primárias, específicas, entendida, a ‘ b ’ à [ ] 3164 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ discurso, o qual representa o nível concreto de utilização da língua (URBANO, 2006, p.23 e 24). D Ub b v “ v ”( “ ”“ v v v ”( ” “ 4) 4) Todos os textos escritos devem, de algum modo, estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro, habitat natural da língua, para comunicar seus significados (ONG, 1998, apud URBANO, p.25). Urbano salienta que a escrita é um modo de registrar a língua por meio de sinais visíveis. O que não quer dizer, no entanto, que a escrita seja pura e simplesmente a transcrição da fala. De acordo com o autor, a escrita é um processo mental diferente em gênese, organização e planejamento, mantendo com a fala somente o poder de registrá-la (p.25). â q ‘ z q “ q condições [ novas ] ’” ( colchetes de Urbano, p.26). Urbano destaca que, quanto ao meio, a comunicação é produzida e “ ” “ ” O z complementado pela entonação e gestos. O segundo utiliza letras e é complementado pela pontuação. Nesse sentido, ele diz que a linguagem z v b v ’ q “S b v b q q z ” (URB NO ‘ ‘ ’ 8) Quanto à concepção da linguagem, ele destaca que, conforme O “ bj modo v b z ” (p.29, grifo do autor). Isso se dá de acordo com a intenção do comunicar. Nessa dimensão concepcional, as manifestações verbais, quer fônicas, quer gráficas, são determinadas por condições e cumprem procedimentos, usos e 3165 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ finalidades que acabam por revelar determinadas características (p.29). Para ele, os mecanismos que regem o discurso oral estão “ v ” õ 3.1 AO GOSTO DO FREGUÊS Em suas colocações, ele chega, citando Lamiquiz (1998), à seguinte x “S q pensada reflexão e de maneira oportuna, tem-se imitado no texto escrito a q ” (L M QU Z ud URBANO, p.30). Ou seja, textos orais são naturalmente espontâneos e textos escritos são por natureza “ b ” (URB NO 47) Diz Urbano que, quando um enunciado apresenta características de um enunciado dependente do ambiente, embora utilize um suporte gráfico, “ pode- ” ( 40) O x é planejado e elaborado, e, dessa forma, engloba propositalmente, nesses casos, elementos característicos de espontaneidade e informalidade. Da mesma forma pensa Barros (2006, p.59). Do ponto de vista concepcional, as condições de comunicação vão “ v b z ” ” “ x (URB NO 4 ) D mesma forma isso ocorre com o texto escrito. Segundo o autor, uma condição essencial (mas não suficiente) para que um texto seja considerado língua falada ou língua escrita é a realização, fônica ou gráfica. Mas, atenta ele, nunca pode-se captar diretamente a manifestação da linguagem falada autêntica em textos graficamente exteriorizados. Então, a proposta do presente trabalho é ligada ao estudo dessas características particulares de um tipo de comunicação e de outro. Ou seja, como diz o autor, textos híbridos, às vezes mais próximos de “ ” características do texto oral. Além disso, o autor ressalta que fatores como idade – que é objeto de interesse aqui – também podem interferir na produção do texto (p.50). 3166 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Para Barros (p.59), os efeitos de oralidade possuem valorações positivas e negativas. Destaca-se aqui, para o presente trabalho, os valores de cumplicidade, proximidade e envolvimento proporcionados pelo texto oral. Assim, vê-se que o jornalismo jovem, ao utilizar-se de elementos da linguagem oral jovem, pretende aproximar-se de seu público, e, falando a sua linguagem, coloca-se mais perto e mais cúmplice de seu leitor. Nos textos escritos que buscam obter efeitos de oralidade são, porém, usados procedimentos discursivos que constroem os sentidos positivamente valorizados de fala. Em outras palavras, o texto escrito, ‘ - ’ destinatário, mais subjetivo, mais franco, mais sincero, v ‘v ’ (B RROS p.60). Identidade e igualdade são, portanto, características buscadas entre os interlocutores no jornalismo jovem. Ou seja, isso tudo, como também salienta Vilas Boas (1996), é uma forma de conquistar e manter seu público. B b x õ “ ” “v ” forma de produzir sentido de identificação e envolvimento, característico da informalidade dos textos orais (p.66), mas que não aparece no texto do jornalismo tradicional, cuja primeira pessoa é ausente. Outra estratégia [...] é a de propor que o você, destinatário, realize uma ação [...], o que põe o destinatário no interior [...], crie uma espécie de contexto situacional e reforça os efeitos de oralidade, devido à aproximação também espacial e temporal com o destinatário (BARROS, p.68). x O mesmo ocorre c “ ” q z efeito de informalidade dos usos mais coloquiais, típico da língua falada. Segundo a autora, o imaginário dos usuários da língua atribui à modalidade falada os usos populares e coloquiais. Daí, termos como gíria, frases feitas, diminutivos e aumentativos, assim como marcadores conversacionais contribuem para essa percepção (p.81). Barros salienta, em 3167 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ suas conclusões, que esse tipo de ação é particularmente encontrado em textos dirigidos a jovens. Os efeitos de oralidade obtidos com esse recurso de persuasão são, como foram apontados, os de sinceridade, franqueza, cumplicidade, simplicidade e usualidade adequados para um público mais jovem (BARROS, p. 82). Dentre as diferentes estratégias usadas para reforçar esse efeito de x “q ” (BARROS, p.83). B v q “ ” ( 98 n q v 74) “ z b z ” j novas dimensões, como vemos nas gírias. P R â “ z predominantemente afectiva e emocional. É o domínio por excelência da ” ( 999 4 ) uma representação da palavra oral (p.44). A estratégia de conquista de leitores também é salientada por Dias (2006). A imprensa escrita faz parte de uma rede de mídias que processa um tipo de comunicação no qual um único emissor se dirige para muitos receptores e, portanto, precisa não só considerá-los como um grupo nivelado por características gerais (quanto à faixa etária, nível sócio-econômico-cultural etc.), mas também desenvolver estratégias que os levem a se sentirem únicos, singulares no estabelecimento da interação comunicativa (DIAS, p.111). Por isso, diz ela, os veículos buscam estabelecer uma dimensão dialógica. Isso se dá na aproximação dos discursos à conversação cotidiana (p.112). 3168 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O jornal quer contar bem boas histórias, e assim captar a atenção do leitor. Por isso, diz ela, quanto maior o envolvimento do destinatário, maior o índice de interesse pela notícia e menor a distância entre o fato e a realidade “v v ” ( ) Dias (2006) destaca algumas estratégias nesse sentido. Ela cita a construção de uma narrativa, e a invocação direta do leitor, chamando-o por “v ” u Barros. [...] o relato noticioso se vale de estratégias que visam a criar um envolvimento do leitor, construindo um espaço de interlocução bem ao gosto da conversação face a face. [...] Ao invocar o leitor, enquanto presença no relato, descrever os pormenores dos fatos, reproduzir a fala dos atores da notícia e pressupor a conivência de valores e interesses [...] tende a [...] permitir identificações (DIAS, 2006, p. 126). 4 NÍVEIS DE ANÁLISE NA PROPOSTA DE ANA ROSA DIAS Para a realização do trabalho, baseou-se na proposta lançada por Ana Rosa Dias (1996), que estabelece cinco níveis para análise. A saber: Discursivo, Fonético, Morfológico, Sintático e Lexical. No entanto, para este estudo optou-se por utilizar apenas os níveis Discursivo e Lexical, detectando pontualmente também alguma manifestação do nível Fonético. A autora criou as divisões especialmente para um trabalho que envolvia marcas da oralidade e jornalismo popular, com o foco principal no discurso da violência. No entanto, as categorias podem ser aplicadas a outro j q z “ ” úb específico, sobretudo os jovens, cujas gírias fazem parte de seu cotidiano. Vai-se, a seguir, detalhar um pouco mais este dois níveis, de forma geral, exemplificando alguns casos de maneira a esclarecer melhor o tema, e também por vezes destacando alguns itens, já que são alguns que se sobressaem na análise. 3169 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Alguns aspectos também sugeridos por autores da área do jornalismo foram pontualmente observados, mesmo que não se encaixando especificamente nos níveis estabelecidos por Dias. 4.1 NÍVEL DISCURSIVO De acordo com a autora, o Nível Discursivo engloba marcas de oralidade e envolvimento entre redator e leitor. Ela propõe, para este nível de análise, as seguintes subdivisões, conforme segue. A Oralidade envolve gíria, vocábulos v ( obscenos, “ ”) formas populares e até marcadores O Envolvimento do Redator inclui marcas que deixam transparecer a presença do emissor da mensagem, com o intuito, segundo ela, de identificar-se com o receptor. O exemplo de envolvimento mais claro é a opinião expressa. Há também a Narrativa, onde se percebe notícias redigidas em formato de narrativa, em ordem, como uma história. Na mesma classificação está o Estilo Hiperbólico, caracterizado pelo exagero, segundo a autora, uma marca do discurso oral (1996, p.66). Há também o item Linguagem Popular / Linguagem Culta, cuja característica é a mistura das culturas consideradas culta/popular, criando estilos ambíguos e desiguais. Em seu estudo de jornalismo popular, Dias detecta a mescla entre “ a redação da linguage ” q -se com uma gíria, por exemplo. A Metalinguagem, linguagem que explica a própria linguagem, “ x ” Frases Feitas, o Duplo Sentido e a Construção Triádica (três segmentos verbais aparecendo juntos) completam o grupo de itens do Nível Discursivo. 4.2 NÍVEL LEXICAL 3170 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ De acordo com Dias, é esse nível que melhor expressa a linguagem popular por ela analisada. Conforme a autora, os jornais tentam o que chama “ x q q ria, como manifestação tipicamente oral, deve ser afastada da escrita, pois poderia tornar vulgar o ” (D S 99 84) O N v L x classificação, traz a Gíria, Metáforas Gírias (e recursos de linguagem figurada, com “ q ” “b q ” ) Eufemismos e Vocábulos Obscenos / Injuriosos. O Nível Fonético, que pincelaremos em algumas ocasiões pontuais, traz as Formas Monossilábicas ou Reduzidas (“ ” Transcrições da Pronúncia Popular ( “ Onomatopaicas (“ ” “ ”) O M “ ” F S “ ” “ ô” ”) ) Formas P Declaração Textual, diz: [...] seja fiel ao que foi dito, mas, se não for de relevância jornalística, elimine repetições de palavras ou expressões da linguagem oral: hum, é, ah, né, tá, sabe?, entende?, viu? Para facilitar a leitura, pode-se suprimir trecho ou alterar a ordem do que foi dito – desde que respeitado o conteúdo (MANUAL DA REDAÇÃO, 2002, p.39). Esses itens citados, diz Dias (1996), são marcadores conversacionais. 5 METODOLOGIA A metodologia escolhida para o presente trabalho baseia-se, como foi dito, nas proposições da autora Ana Rosa Dias, que pesquisa exatamente a área de interesse em questão. Assim, as análises serão feitas à luz do referencial apresentado nas seções antecedentes, incluindo as perspectivas da própria Dias, aliada com Ricardo Noblat, Sérgio Vilas Boas e Diana Barros. 3171 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A análise será feita de forma qualitativa, ou seja, a partir de dados contidos em cinco edições do Caderno Kzuka. O corpus será baseado nas propostas de Dias, nos níveis Discursivo e Lexical, com alguma observação a respeito do Fonético. Também serão incluídas percepções levantadas por autores da teoria do jornalismo, que salientam o desaparecimento das “ ” j q j direcionado. Assim, selecionaram-se esses efeitos de oralidade que pareceram mais evidentes em análise geral do material. Dessa forma, a atenção será direcionada a enunciados contendo gírias, presença expressa do redator e do leitor, mistura culta e popular, e outras destacadas por Dias. 5.1 O KZUKA De acordo com informações de sua página eletrônica na Internet, o Kzuka caracteriza-se como a empresa do segmento jovem vinculada ao Grupo RBS, afiliada da Rede Globo na região Sul do Brasil, englobando Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em sua descrição, argumenta que nasceu e se consolidou baseado na certeza de que o público jovem é um dos mais difíceis de ser atingido, pela natureza de não aceitar imposições, mas q N úb j v “ b v quando o conteúdo é autêntico e verdadeiro. E, claro, quando a conversa é ” (KZUK 0 0) O Kzuka está há nove anos no mercado, atuando com foco no público entre 13 e 24 anos. Envolve ações, além dos dois estados supracitados, em S P R J q úb “ v “ j v q ” ” ( própria empresa) com o jovem, o Kzuka possui uma equipe de relacionamento específica, chamada Comunika, e uma linha editorial diferenciada para seus veículos de comunicação. Transcrevemos, abaixo, o conceito de linha editorial adotado pelo Kzuka. 3172 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Aproximando cultura e entretenimento do universo jovem, o Kzuka consegue trabalhar temas polêmicos e atuais de uma forma clara, objetiva e inserida no contexto dos adolescentes. A linguagem jovem e alinhada com o público, permite estimular a reflexão e a discussão sadia em sala de aula (KZUKA, 2010). Um de seus produtos de mídia é o caderno jovem encartado todas as sextas-feiras nos seis principais jornais do Grupo RBS no Rio Grande do Sul, a saber: Zero Hora, O Pioneiro e Diário de Santa Maria. Além disso, circula, em Santa Catarina, nas publicações Diário Catarinense, A Notícia e Jornal de Santa Catarina. Esse relacionamento com os jornais do Grupo RBS iniciou em 2001, quando o Kzuka tinha uma coluna semanal na Zero Hora. O caderno hoje possui de oito a 12 páginas. E, em suas próprias v “ v j v ” (KZUK [ ] õ 0 0) D j abordados pelo caderno são diferentes, conforme cada região. 6 ANÁLISES Dentro das cinco edições do Kzuka, foram analisados textos presentes õ R “P ” “N ” “B M F Q ” “B V ?” b b “ ” “D B b B P ” “ ” páginas centrais, que trazem o tema da capa. Há uma seção, na página 07, v v P “D ” “Kz k F b b ” “M M L ” “P ” -se este espaço também. Não se deixou de observar os textos que apareciam na capa do referido caderno. Na própria nomenclatura das seções já pode-se observar, escritos, elementos peculiares à fala. A gíria está sempre presente, com expressões “ ” – assim mesmo, com acento – “b v de ( v b ) ” “ b ” “ ” v discursivo de Ana Rosa Dias, também está presente. No nível fonético, vê-se x b “ ” N “v x ” b “v ” ifestações na Internet. Ou seja, na 3173 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ própria identificação permanente de seções fixas do caderno já estão presentes marcas significativas. A seguir, observa-se alguns trechos colhidos do caderno Kzuka. 6.1 TRECHOS 1 (DIÁLOGO COM O LEITOR) Pode-se constatar que o diálogo direto com o leitor é uma das marcas mais frequentes no texto do caderno. Seguem exemplos. “Que tal curtir a domingueira ao som de bandas gaúchas? A partir das 15h, no Scooba, vai rolar festerê com as bandas Área Restrita e douyoulike?”. (KZUKA, Ed. 145, p. 02). No meio de uma matéria sobre a vinda do cantor Bob Sinclair: “Quer curtir esse super show de barbada? O Kzuka vai dar quatro pares de ingressos para curtir a festa no Camarote Kzuka! Então, corre pro kzuka.com.br e responda [...]” (KZUKA, ed. 145, p.04). “ Nestes dois trechos, observa“ ” “ ” O b ” x para reforçar o assunto. O x “ v ” Na legenda de uma foto, está o seguinte texto: “Ele é o cara do hit Love Generation, lembra?” (KZUKA, Ed. 145, pg. 04). [Grifos do Caderno]. “Te liga! A galera do Kzuka estará fazendo cobertura na praia durantes (sic) os finais de semana de verão” (KZUKA, Ed. 145, pg.08). “Para você arrasar, o Kzuka preparou um editorial de moda com muitas dicas de cores e peças que são a cara do verão. Corre nas páginas 4, 5 e 6.” (KZUKA, Ed. 140, capa). “Então, se programa e dá um pulo pra conferir o Projeto Verão do Brasil, que vai montar uma estrutura irada na praia, durante os próximos três finais de semana”. (KZUKA, Ed. 146, pg.06). “Te joga no nosso site e bora agilizar essa festinha!”. (KZUKA, Ed. 146, pg.07). Nesses exemplos, pode-se observar que o caderno dirige-se “L b ?” “ ” “ v ” “ ” “ 3174 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ” q fazendo relação com a estratégia de Barros, e fazendo coro a Noblat, é falar com o leitor, dirigir-se diretamente a ele. Um jornalismo atento às tendências quer conquistar o público, seja conversando com ele diretamente ou usando “O [ ] D v q z ” (NOBL 00 0 ) O “[ ] os recursos da língua oral popular facilitam essa integração do j ” (D 99 4) 6.2 TRECHOS 2 (GÍRIAS) Uma marca forte no texto do Kzuka é a gíria. Seguem exemplos. “Apesar de ter virado motivo de brincadeira entre as amigas, se defende dizendo que as melhores festas rolam no fíndi” (KZUKA, Ed. 145, pg. 05). “Na agenda, é possível ver que os caras [...] fazem show quase todos os dias”. (KZUKA, Ed. 146, pg.04) “Barbeiragem no Enem: Depois do furto das provas em outubro, o Enem embaçou de novo! Gabaritos errados, questões anuladas e prova longa. Palhaçada!” (KZUKA, Ed. 140, pg.02). O Kzuka trabalha com gírias em seu texto original e, claro, mantém a gíria quando ela se encontra no meio de uma citação literal de algum entrevistado. O que é recomendado pelo Manual da Redação da Folha de São Paulo. “- Não dá tempo de curtir a praia, mais trabalhar na noite é muito irado, compensa – conta o guri, que pensa em juntar uma grana e aproveitar a praia em fevereiro”. (KZUKA, Ed. 145, pg.05). Nesse mesmo exemplo, pode-se observar que o entrevistado é “ ” x R G S As gírias estão presentes em praticamente todos os trechos selecionados para estas análises. Pode-se observar também expressões gírias, como menciona Dias. Abaixo, observa- x “ ” 3175 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “Os guris que ficaram no litoral dão uma mão na panfletagem [...]”. (KZUKA, Ed. 146, pg.05). Em alguns casos, as gírias tornam-se juízos de valor, um item condenado pelo texto do jornalismo tradicional. Os dois exemplos abaixo mostram isso. Sobre estampas de camiseta: “As esportivas sempre mandam bem”. (KZUKA, Ed. 146, pg. 06 “Enquanto aguarda um convite para passar um tempo na praia, a gatinha pega um sol no clube” (KZUKA, Ed. 145, pg.05). Ao soltar as amarras no texto, há mais liberdade e menos padronização o que, no entender de Vilas Boas e no nosso também, pode v j z v j “ “ revista informativa permite acrescentar bj v ” beleza, elegância, sofisticação, sensibilidade etc. Subjetivos porque não ” (V L S BO S possuem uma referênciaq Kz k “ b N 99 j z 0 ) v v “ ” ” b x “ ” q Ana Rosa Dias inclui no nível morfológico de sua classificação, mas é possível adaptar-se a este subgrupo de gírias. Como se pode observar na z “ ” “ ” “O notebook e o modem 3G tinha lugar garantido entre as roupas, pares de sapatos e maquiagens nas oito malas que se espalham pelo apê” (KZUKA, Ed. 146, pg.05). Em alguns casos esporádicos, o texto dá lugar a um símbolo: “A combinação blusa larga + shortinho é uma boa pedida para a noite da virada, por ser confortável e lindo” (KZUKA, Ed. 140, pg.04). 6.3 TRECHOS 3 (ESTRATÉGIA NARRATIVA) O b v “ ” com seu público. 3176 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “Verão é sinônimo de mar, areia e diversão, certo? Não para os “pobres coitados” que viram todos seus amigos partirem pro litoral e sobraram na cidade”. (KZUKA, Ed. 145, pg. 05). Além da gíria, no exemplo abaixo é possível observar a ordem narrativa, de almoço e janta. “Na hora do rango, as meninas costumam variar. Normalmente, os almoços são em casa e os jantares na rua, pra logo depois estender a noite” (KZUKA, Ed. 146, pg.05). 6.4 TRECHOS 4 (MISTURA CULTA E POPULAR) A mistura culta e popular, listada por Ana Rosa Dias, também surge. Apesar de misturar a linguagem característica do Sul, em vez de escrever “ ” z q “ ” “E tuas aulas, acabam quando? Para que série tu passou?” (KZUKA, Ed.140, pg.08). “Contudo, há muitas bandas desse estilo no Brasil que passam despercebidos (sic) por aqui, mas fazem um baita sucesso lá fora”. (KZUKA, x Ed. 146, pg. 04). ú “b ” ” ” “ No exemplo abaixo, o caderno mistur “ “ – “ ” – em vez v ” “Eles respiram o post-punk e indie-dance da virada dos anos 80 para os 90 e acham que Wilco e Kraftwerk têm absolutamente tudo a ver”. (KZUKA, Ed. 140, pg.07). Vilas Boas, sobre isto, fala das revistas, mas pode-se ver claramente nos cadernos. Na escolha dos significados, além do habitual estilo formal-coloquial do jornalismo, a revista toma expressões e as transpõe para o uso corrente. Da mesma forma o faz com expressões populares (jargões, neologismos, coloquialismos etc). Daí pode-se obter uma outra forma de expressão, ao mesmo tempo criativa e erudita (VILAS BOAS, 1996, p.72). 3177 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A mesma coisa diz Dias, sobre a mistura popular e erudita no nível discursivo. 6.5 TRECHOS 5 (PRESENÇA EXPRESSA DO EMISSOR) Além de ter presente o leitor, o texto também deixa clara a presença do emissor: “A guria estava curtindo o intervalo no Colégio Senhor Bom Jesus quando foi flagrada por nós”. (KZUKA, Ed. 140, pg.08). b Nesse b v ú “ ” No exemplo abaixo, vemos, além da conversa com o receptor, a mistura com a linguagem característica do Rio Grande do Sul: “O que tu estavas fazendo no momento da foto?” (KZUKA, Ed. 140, pg.08). “Como o Kzuka é xereta, futricamos a bolsa da Juliana Obert [...]”. (KZUKA, ed. 146, pg. 07) 6.6 TRECHOS 6 (ESTILO HIPERBÓLICO) Na legenda de uma foto, estava presente o estilo hiperbólico – citado por Ana Rosa Dias – como exagero. No caso, detectamos principalmente o x “ ” v “A lindinha Clara Costa no show do Jeito Moleque que rolou no Paradouro 9”. (KZUKA, Ed. 146, pg.02). “Como será, então, que essa gurizadinha conhece e passa a adorar essas bandas?” (KZUKA, Ed. 146, pg.04). “[...] a galerinha mais encarnada acaba chegando até essas bandas” (KZUKA, Ed. 146, pg.04). Em uma manchete das páginas centrais, incluiu-se o estilo hiperbólico de exagero, para ressaltar o fato. “A Porto Alegre do Metaaaaaal” (KZUKA, Ed. 146, pg.04). Numa matéria sobre as exigências do camarim da banda Metallica, que faria show em Porto Alegre, o caderno lista os itens, com a retranca 3178 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “ !” x “Entre refrigerantes, energético e muuuuuita água, os caras pediram leite desnatado e leite de soja sem açúcar” (KZUKA, Ed. 145, pg. 04). Outro exemplo, na página 06, é semelhante. “Só assistindo ao vídeo da francesinha que esbanja criatividade e um sotaque liiindo” (KZUKA, Ed. 145, pg. 06). Aí, vemos a utilização de “ diminutiv “ ” ” “ D v ” F 6.7 TRECHOS 7 (MISTURA DE VÁRIOS ITENS) Alguns trechos são uma mistura de vários pontos citados por Ana Rosa Dias. Observemos o excerto a seguir: “Para se organizar, as estudantes fizeram uma caixinha. Cada uma depositou uma grana e é desse dinheiro que saem as compras para a casa (fica a dica, hein!)” (KZUKA, Ed. 146, pg.05). v “ x x ” “ j q ” “ !” inclusive com ponto de exclamação. “Casas têm a preferência da gurizada, pois há mais liberdade, principalmente em relação ao som alto. Mas não vá arrumar briga com os vizinhos, né?”. (KZUKA, Ed. 146, pg.05). “ z “ ” x ” v R D Nível Fonético. “Impossível este momento nunca ter acontecido com você: chegar na praia, abrir a bolsa para encontrar algo e ops... esqueceu!”. (KZUKA, Ed. 146, pg. 07). Além da estratégia narrativa, fala diretamente com o receptor, usa a j “ ” x 6.8 TRECHOS 8 (TEXTO TRADICIONAL) 3179 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ b No “ ” postura mais semelhante ao jornalismo tradicional 176 , que se reflete num x “ ” V j b x “ ” ntre si. “Para a psiquiatra infantil e professora da PUCRS Gibsi Rocha, se uma menina experimenta ficar com outra apenas para repetir um comportamento e ser aceita no seu grupo (atitude muito comum nessa fase), corre mais riscos de se confundir. – A menina pode sentir um prazer momentâneo e acabar pensando que é gay, o que pode não ser verdade – observa Gibsi. [...] Explicar um fenômeno que ainda é considerado novo para especialistas em adolescentes é um desafio que dá brecha para julgamentos preconceituosos”. (KZUKA, Ed. 139, p.04). Neste trecho, observa-se um tom mais sério, com a consulta à especialista – cuja fala é transcrita como citação, tal qual no jornalismo tradicional. Como dizem Lage e Benites, a citação literal é um efeito de realidade usado pe j ú “ ” j há algum tempo entre os jovens – e os nem tão jovens assim. No entanto, no início da referida reportagem, em referência às opiniões dos próprios adolescentes, percebe-se o retorno ao modelo coloquial, peculiar à linguagem veiculada no caderno em questão. “-Já tive curiosidade, mas, na hora... Nunca rolou nada concreto – revela a estudante da Capital, enquanto é interrompida pela amiga Camila, 17 anos, que observa: ‘vai sair no jornal, guria!”. (KZUKA, Ed. 139, p.04). Em outra matéria, sobre a estreia de um time de futebol americano em Porto Alegre, o texto, apesar de usar gírias, tem um tom mais jornalístico ao apresentar números, uma outra característica do texto jornalístico apontada pelos autores. “Debaixo de chuva, cerca de 150 pessoas acompanharam, no Sesc, em Porto Alegre, a derrota por 26 x 7 para o Barigui Crocodiles. Essa foi a primeira derrota em casa e a quarta na história do time, que é bicampeão gaúcho” (KZUKA, Ed. 178, pg.04). 176 Entende-se aqui por jornalismo tradicional aquele modelo clássico apresentado no princípio do referencial teórico. 3180 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS A origem da comunicação teve início com a oralidade, lembra Bordenave (1986, p.28). Seria agora, o uso dessa oralidade cada vez mais presente no jornalismo escrito um retorno às origens, à forma mais consagrada de comunicação? Parece que sim. Embora circule em um jornal diário, o Kzuka apresenta características do texto de revista. E segue a tendência do jornalismo proposta por Noblat, no que tange a conquistar mais leitores, em especial os jovens. Como suplemento especializado, o cadern “ ” úb -alvo, como estratégia frente a novas mídias, mais atrativas a esse tipo de público. O Kzuka corresponde ao estilo jornalístico apontado por Vilas Boas: simplicidade com criatividade, usando a linguagem do leitor a que se quer dirigir. Vilas Boas diz que cadernos especializados são os espaços onde se fazem experiências mais ousadas e onde o estilo mais leve da revista fica evidente. Como diz Lustosa, os suplementos (ou materiais informativos especializados) abrem espaços para ofe j ” ( 99 “ v 7 ) O Kzuka é semelhante às revistas no trato da linguagem, mas não na abordagem de conteúdo, que na revista é mais aprofundado. Mantém a característica essencial, a de ter caráter informativo, segundo Vilas Boas. No entanto, como caderno semanal que é, tem v q z “b z ” v aproximação permite um texto direcionado, mais livre e coloquial. Apesar de se dirigir a um tipo de público em especial, o Kzuka personaliza cada leitor ao tratar cada um diretamente. Dentro dos princípios de universalidade, de falar para todos, o caderno fala especialmente para seu público-alvo, mas sendo universal dentro dessa perspectiva. Como diz Dines, citado por Jacira Rodrigues, o veículo deve saber quem é o público e, dessa v v b “O bj v j q 3181 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ x j [ ] v z v ” (RODRIGUES, J., 2003, p.83). O texto é um diferencial competitivo. Principalmente no que tange às gírias, o Kzuka tem forte influência da linguagem oral. Essa linguagem é utilizada para uma interação com o leitor, com uma aproximação da forma como o próprio leitor se expressa em sua conversação diária. Como observa Dias, se nota claramente aspectos coloquiais no texto do caderno, mas este, como é veículo impresso, segue N “ ” mas a presença constante de marcas de oralidade, principalmente de natureza lexical. Alguns aspectos merecem estudo posterior ou mesmo maior aprofundamento, o que, pela natureza da presente investigação e considerando a exigüidade de tempo, não foi possível. Essa liberdade no uso mais coloquial de palavras e expressões dá ao caderno um fôlego para seguir as tendências e tentar atrair e cativar o público jovem frente a um mundo onde televisão e internet conquistam a atenção desse público. Para conquistar novos leitores, o jornal impresso adapta-se, liberta-se das regras e padronizações tradicionais, usa efeitos de oralidade para criar cumplicidade, embora, por vezes, mantenha as características informativas e citação de números e fontes características do texto jornalístico. O Kzuka faz jornalismo adequando-se ao seu público. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDER-EGG, Ezequiel. Periodismo Popular. Argentina: Instituto de Ciencias Sociales Aplicadas, 1993. BARROS, Diana Luz Pessoa de. Efeitos de Oralidade no Texto Escrito. In: PRETI, Dino (org.). Oralidade em Diferentes Discursos. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. BENITES, Sonia Aparecida Lopes. Contando e Fazendo História: a Citação no Discurso Jornalístico. São Paulo: Arte & Ciência/ Assis – Núcleo Editorial Proleitura, 2002. 3182 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ BORDENAVE, Juan Díaz. O Que é Comunicação. 8ª Ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986. DIAS, Ana Rosa Ferreira. O Discurso da Violência: As Marcas da Oralidade no Jornalismo Popular. São Paulo: EDUC/Cortez, 1996. ______. Mídia e Interação: Estratégias de Envolvimento do Leitor na Construção do Discurso da Notícia. In: PRETI, Dino (org.). Oralidade em Diferentes Discursos. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. KZUKA. Site. Disponível em: <www.kzuka.com.br>. Acesso em 27.09.10, às 13h07. KZUKA. 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Reportagem Impressa, Estilo e Manuais de Redação: a Construção da Autoria nos Textos do Jornalismo Diário. Santa Maria: FACOS/UFSM, 2003. 3183 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ URBANO, Hudinilson. Usos da Linguagem Verbal. In: PRETI, Dino (org.). Oralidade em Diferentes Discursos. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. VILAS BOAS, Sérgio. O Estilo Magazine: o Texto em Revista. São Paulo: Summus, 1996. IDENTIDADE CULTURAL NA PUBLICIDADE – 3184 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ANÁLISE DE PEÇA PUBLICITÁRIA: JEANS JEANERATION AZEVEDO, Ariadne Oertel177; CARDOSO, Fernanda dos Santos; SILVERIA, Luciane Dias e FROEHLICH, Márcia178 RESUMO: O conjunto de signos imagéticos, sonoros e verbais veiculados pela mídia ajudam a formar o tecido da vida cotidiana fornecendo material para a construção identitária dos indivíduos. Nosso trabalho analisa uma peça publicitária de um Jeans da década de 1980, um texto verbovocovisual na tentativa de contribuir com o letramento de leituras de imagem publicitária. PALAVRAS-CHAVE: publicidade; identidade cultural, verbovocovisual. 177 Formada em Letras pelo curso de Licenciatura Plena em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Bacharel em Comunicação Social Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) .Pós-Graduanada no curso Lato Sensu em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-RioGrandense (IFSul). Professora e vice-diretora na rede estadual de educação. [email protected] 178 Orientadora do trabalho; professora da COLINC/CPG - Ling do IFSul 3185 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Introdução A publicidade é um artefato cultural. Ela colabora para constituir o sistema de significação e representação cultural. Além de seduzir e induzir o público ao consumo de determinado produto, ela consegue agregar valor a alguns produtos e, dessa forma, influenciar na construção identitária dos indivíduos. Além disso, a publicidade tem contribuído para que grupos sociais construam seu senso de classe, de nacionalidade, de gênero, moldando sua visão do mundo, definindo padrões de comportamento que persistem no tempo e constituindo um traço identificador de um determinado grupo. Em nosso trabalho, analisamos uma peça publicitária do Jeans Jeaneration da década de 1980 que retrata a rotina diária de jovens recém inseridos na vida adulta. A peça foi mostrada para alunos do segundo ano do ensino médio (70 alunos) da escola Mário Quintana, uma instituição de ensino privado, com o objetivo de contribuir com o letramento em leituras de imagem publicitária. Os alunos responderam um instrumento de avaliação em duas etapas. A primeira sem qualquer informação sobre o comercial; e a segunda depois de oferecermos uma possibilidade de análise do texto verbovocovisual oitentista que forma a peça publicitária do produto. O cruzamento das informações obtidas com a produção escrita dos alunos feita em duas etapas busca levantar aspectos relevantes que possam influenciar na formação de identidade do grupo social que constitui um provável público-alvo do produto Jeans Jeaneretion, jovens de classe média alta. A análise, oferecida aos alunos após a primeira produção escrita, serviu de instrumentalização para uma segunda leitura feita pelos alunos e articula a descrição de características formais do filme publicitário com elementos indicativos dos aspectos sócio-históricos e mercadológicos relacionados ao seu contexto de produção. Essa instrumentalização ou possibilidade de leitura é parte integrante deste trabalho. Ela tenta demonstrar como os signos verbovocovisuais se combinam de modo a vincular, habilmente, o produto a uma visão de mundo e a um determinado grupo social. Discutimos como essa combinação 3186 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ dos signos vincula ao produto uma ideia de vida que não busca o ideal de perfeição freqüente na maioria dos anúncios publicitários e buscamos nas respostas dos alunos a compreensão e identificação com esses ideais. Jeans Jeaneration: sobre a peça publicitária Veiculado na mídia nacional, o comercial da marca Jeaneration seguia, na época, os padrões americanos de publicidade de jeans. Pouco ou quase nenhum texto, música de grande impacto em Língua Inglesa, tentando vender um conceito e não apenas o produto. Há então uma vinculação da marca com um elemento internacional, mais precisamente com o modo americano de vida, ou se preferir, com o american way of life. A combinação dos signos, organizada de forma hábil, vincula ao produto um valor; uma idéia de vida sem o ideal de perfeição típico da maioria dos anúncios publicitários. Não há glamour, pelo contrário, a rotina de adultos jovens é retratada com percalços e frustrações. Mesmo assim, tudo é mostrado através de uma estética jovem procurando aceitação social e, sobretudo, formação de público consumidor. A peça tenta mobilizar as pessoas de uma determinada classe social e faixa etária (adultos jovens) em torno da marca Jeaneration, estimulando esse grupo, de classe média alta, a seguir uma tendência de pertencer a uma identidade cultural única. Desse modo, corrobora Bauman: Buscamos, construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades em movimento - lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo. (Bauman,2005) Entendemos que o grupo social que constitui o público-alvo (consumidor) do produto da marca Jeaneration é retratado na propaganda por personagens da mesma faixa etária, da mesma classe social economicamente ativa, que tem formação universitária e ainda investe em estudos. 3187 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Todos usam jeans e roupas no estilo oitentista. O jeans não é o foco principal das imagens e está sempre ligado a uma situação que transmite um modo, ou estilo de vida. Descreveremos essas situações articuladas com a mensagem verbovocovisual mais adiante. As características formais do filme publicitário como duração, efeitos de edição, iluminação, cortes de cena e movimentos de câmera são, da mesma forma, elementos indicativos dos aspectos sócio-históricos e mercadológicos relacionados ao seu contexto de produção, que também são relevantes para a fundamentação da análise. Tudo isso para demonstrar como os signos verbovocovisuais se combinam de modo a fazer uma conexão do produto a um determinado grupo social com uma visão de mundo muito específica. Para compor um anúncio publicitário, a mensagem que se quer passar muitas vezes é composta por palavras e imagens, o que para Roland Barthes (1988) é o significante e o significado, sendo eles os componentes do signo: Pode-se dizer que a substância do significante é material (sons, objetos, imagens). Em semiologia, em que vamos tratar de sistemas mistos que envolvem diferentes matérias (som e imagem, objeto e escrita etc.), seria bom reunir todos os signos. [...] o signo é uma fatia (bifacial) de sonoridade e visualidade. A significação pode ser concebida como um processo; é o ato que une significante e significado, ato cujo produto é o signo (BARTHES, 1988, p. 50) Baseado nas concepções saussurianas, Barthes defende que na ü “ bj “ bj ” q ” q b algo isolado, ou seja, há uma relação entre o verbal e não-verbal. Barthes opta por abordar as sensações provocadas pela fotografia, do que simplesmente trabalhar no conceito que elas representam, ou seja, ele entra no campo da subjetividade, no qual analisa a interpretação do observado. 3188 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A linha de pensamento de Barthes é marcada pela contradição e pela instabilidade, ou seja, enquanto formalista e sistemático, também demonstrou ter reflexões sujeitas a rupturas bruscas. (Des)construindo o verbovocovisual Como se fosse possível separar o verbo do voco e do visual tentamos, para o efeito de análise, des(cosntruir) essa unidade para lermos seus significados e retratarmos aqui o resultado dessa leitura. Comecemos, então pelo verbovoco. A linguagem verbal, o verbo, se insere no comercial através do slogan, do nome da marca do produto e da letra da canção que lhe serve de trilha sonora. Da mesma forma que o visual, esses elementos procuram expor uma visão de mundo desejável para a nova b geração, sintetizada pelo slogan “New Jeaneration. O Jeans da nova geração” O conceito se insere até mesmo na marca fantasia do produto: Jeaneration nada mais é do que a junção de duas palavras em Inglês: jeans e generation. P “I feel good” v Silva, uma brasileira que além de estabelecer e seguir essa mesma tendência, por utilizar a Língua Inglesa, também produz um forte efeito apesar de sua extrema simplicidade na reprodução da melodia. Apenas voz, baixo, violão e teclado compõem a música tema do comercial. Também não se pode esquecer que a música em questão foi produzida especificamente para esse comercial por Hilton Raw (brasileiro, produtor publicitário). O efeito verbovocovisual é percebido, pois a canção modifica a mensagem da imagem e vice-versa; imagens cotidianas transformam-se em belas imagens inusitadas, a música simples torna-se poderosa com os efeitos das imagens. A rotina é retratada como algo que será bom, um meio de satisfazer fantasias e sonhos. No visual, a última parte analisada do texto verbovocovisual, o uso do recurso de slow motion ou câmera lenta é utilizado durante toda a propaganda e contribui para que imagens cotidianas se tornem imagens poéticas. Esse recurso transforma as cenas; imagens simples e corriqueiras 3189 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ tornam-se inéditas. O efeito de filmagem que se consegue através do recurso de câmera lenta é geralmente obtido em edição, seu grande diferencial é possibilitar a eternizarão do momento, a extensão do segundo. Com esse efeito se consegue dar dramaticidade e impacto a uma imagem que perderia seu sentido se transcorresse em tempo real. A frustração mostrada no início do comercial, por um comentário, ou notícia que a personagem não esperava, por exemplo, pode ter sido rápida para quem vê; não para quem sente. O efeito de slow motion consegue mostrar o duração, o detalhe da transfiguração do sorriso em frustração. Outro fato que se deve ressaltar é a duração do comercial, na época dessa peça publicitária, tornou-se corriqueiro em comerciais cinematográficos com mais de 30 segundos e belas músicas. São 3 minutos de imagens com muitos planos cortados por mais de 28 fusões e 24 cortes secos que imprimem um ritmo que acompanha os movimentos de câmera e movimentos das cenas. Toda essa movimentação de imagem em cenas rápidas e intercaladas nas suas sequências, muito cortes, daria uma dinâmica quase frenética ao comercial se não fosse pelo efeito de slow motion. A cor e a luz nas cenas também causam efeito na peça publicitária. Ambientes tornam-se mais ou menos aconchegantes combinando com a ação dos personagens. A luz delimita os espaços e o tempo no comercial, separa os segmentos do dia em turnos bem distintos para descrever a rotina do dia. A sequência da discussão na sala de escritório, por exemplo, tem luz uma luz suave, mas intensa, mostrando que é de manhã. O enquadramento dessa cena também é bastante interessante. Nela a câmera está no lado de v “ ” v desenvolver. Tudo isso contribui para que as imagens possam ser descritas (des)construindo o tecido da vida cotidiana. Essa (des)construção ou reconstrução das cenas é a análise feita por cada um e também instrumento para medir a identificação com o produto ou com qualquer outro aspecto da propaganda. 3190 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Tentaremos então descrever agora uma análise o mais próximo possível da oferecida aos alunos após terem respondido a primeira questão do questionário. As situações/cenas articuladas com a mensagem verbovocovisual e o resultado que a (des)construção do tecido da vida cotidiana quer causar no público-alvo. As cenas retratam uma rotina de um dia útil inteiro. Na primeira cena a rotina inicia-se. A mensagem verbovoco é ( e aparecera aqui sempre ) “Everyday, just another day, todo dia apenas outro dia. O dia inicia-se marcado por absoluta falta de novidades, mudanças. Nada mudou, (nothing is changed). A primeira cena tem seu ápice quando a jovem de cabelos desarrumados, que veste jeans e a parte de cima de seu pijama sensual, é interrompida por um jovem durante o que representa ser a preparação de um café da manhã bem ao estilo americano, pois usa uma frigideira para preparar a refeição a beira do fogão. O jovem passa por trás da moça enquanto, apressado, termina de colocar o paletó. Parece se desculpar por não ficar para o café que ela prepara. Palavras que são ditas, mas não são as esperadas por ela. Estão vazias de significados e lhe causam frustração deixando-a sem palavras (so many words, nothing to say) Os personagens encaminham-se para seus afazeres diários, iniciam suas atividades e se sentem bem com isso (and I feel good when I am with you). Atividades jovens ou feitas de um modo jovem. Atrasos, correrias. Mesmo com o trânsito caótico de dez bilhões de carros (ten billion cars), a mensagem verbovocovisual mostra a esperança de que algum dia alguém achará a solução (someday some one will find a way), para isso ou para greves de professores que têm perpassado gerações e se tornado referência na vida de qualquer geração. Ou ainda, a solução para corações solitários (lonely hearts). Uma imagem vocal da solidão (wet dog keep barking in the rain) atravessa várias outras visuais: no carro sozinho, mas com disposição para um sorriso; um lanche solitário em praça pública, mesmo que cercado de pessoas. As mulheres, bem posicionadas no mercado de trabalho, sentem-se bem e têm determinação suficiente para não se intimidarem perante um 3191 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ assédio. Fazem-se entender, mesmo que para isso precisem impor sua determinação com gestos mais fortes. (and I feel good). E mesmo que estejam sozinhas(os) em um happy hour, ou em seus estudos, esperando por algo ou alguém, sentem-se bem, (I feel good when I with you). Um solo de violão marca a corrida atrás de um ônibus, a caminhada na multidão, um encontrão e finalmente o encontro que parece ter sido decidido pela moça que vai até a porta do rapaz. É ela que toma a decisão, é ela que tem a iniciativa. O rapaz, mesmo estando sozinho, em companhia apenas da televisão e de um livro, cuja a leitura parece ter sido imposta, sente-se bem; neste momento o verbovoco é retomado (and I feel good) q ” v â q “ â para o casal do apartamento vizinho, que está tendo uma discussão ao fundo da cena. Apesar da solidão ser retratada como positiva, a companhia é agradável e mostrada a partir daqui com um apelo sexual. (and I feel good when I with you.) Outros, ainda na solidão são vencidos pelo cansaço em seus estudos. Ou optam por entretenimento, cinema ou qualquer outra sala enfumaçada (a smoky room) que também pode remeter ao velho clichê de um cigarro após o ato sexual, pois se inicia a sequência de imagens de corpos nus no escuro (a naked body in the dark). Ação que talvez tenha sido combinada por um telefonema (the telephone rings) esperado. A noite é mostrada como sendo parte de um amanhã distante (tomorrow is something too far). O ápice acontece conceitualmente, uma mão segura e torce fortemente um lençol. O detalhe da taça pela metade e do cinzeiro são, respectivamente, os índices do início e do fim do ato que lhes fazem sentir-se bem (and I feel good). O casal deitado, com o olhar interessado da jovem para o jovem que fuma. O homem solitário que caminha chutando latinhas pela calçada: todos se sentem bem (and I feel good when I with you), mesmo com as dúvidas de 3192 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ que seja isso realmente o que eles querem. Apenas se sentem bem. Pois são The NewJeaneration. Nossas leituras A leitura que temos e que levamos ao aluno do ensino médio da escola, grupo mais próximo ao público-alvo da propaganda, é submetida ao questionamento e análise dos alunos. Assim, pretendemos apenas instrumentalizar o aluno para que ele possa fazer a sua análise e quem sabe atentar para mais detalhes e produzir analises próprias a partir dessa experiência. Nossa metodologia consiste em colher as impressões de alunos, com o objetivo de descobrir a leitura que eles fazem da peça verbovocovisual em questão. Depois de mostrar a peça aos alunos, sem interferência ou análise alguma, pedimos uma produção escrita sobre a leitura que eles fizeram daquela peça publicitária, através da seguinte pergunta: Descreva o que você entendeu da propaganda que acaba de assistir, falando sobre o que ela vende. Em seguida, mostramos de novo a propaganda traduzindo a letra da música e pedimos uma segunda produção escrita. Desta vez pedimos para pensarem de novo sobre o que a propaganda vende relacionando a letra, a música e a imagem. Verificamos, então, se a opinião anterior sofreu alguma mudança. Analisamos se a leitura deles (provável público-alvo do produto) sofreu influencia quando chamados a atenção para outros aspectos que constituem a propaganda. Nos relatos colhidos, tendo ou não mudança de opinião após a instrumentalização, temos leituras de identidades de consumidores diferentes. Incluímos também duas perguntas objetivas, além das produções escritas, que, dependendo da resposta, são contraditórias entre si para analisarmos a percepção e atenção dos nossos sujeitos analisados. 3193 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ “V j ?”; “V 80?” O propaganda é dos anos 80. As análise das respostas foram divididas em dois grandes grupos que foram, cada um subdivididos em outros dois de acordo com as respostas das questões subjetivas. O primeiro grande grupo é o que respondeu sim quando questionado se usaria as roupas mostradas no comercial. Neste grupo 4 alunos respostas apresentam contradição dizendo que não usariam roupas da década de 1980 e 20 alunos não apresentam contradição em sua resposta, dando-se conta de que as roupas da propaganda são roupas dos anos 1980. Dentro do outro grupo. Os que responderam não quando questionados se usariam as roupas usadas na propaganda, 16 respostas entram em contradição com a primeira dizendo que não usariam roupas mostradas na propaganda mas que usariam roupas da década de 1980 e 30 não apresentam contradição, dando-se conta de que as roupas da propaganda são roupas dos anos 1980. Com isso descobrimos se o consumidor atual faz parte de uma identidade de consumidor crítico, analítico, consciente, ou se é uma consumidor que apenas é consumista, paciente e que não reflete sobre o verdadeiro objetivo da propaganda. Ambos os grupos compartilham uma identidade única que se confunde a medida que não se sabe se o grupo retratado dita os padrões de comportamento ao grupo consumidor ou, se o grupo consumidor inspira a representação do grupo retratado pelo comercial. O que se pode afirmar é ambos compartilham uma visão de mundo, um ideal de vida, um way of life que é moldado conforme padrões de comportamento mantidos até os dias atuais. O uso de jeans por jovens persiste no tempo desde que se consolidou no mercado como opção de vestuário cotidiano. Tendências diferentes da moda são ditadas a cada nova estação, mas sempre o jovem usa o jeans. Ele figurava em propagandas como essa, que foi objeto de nosso estudo, em um tempo em que tentava se consolidar no mercado. Hoje, 3194 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ algumas décadas depois, o jeans é alvo de um ataque menos massivo da propaganda, mas segue sendo peça comum do vestuário jovem. A intensidade da identidade A propaganda tenta vender uma ideia de um futuro normal para os jovens, sem tentar passar glamour nas cenas, mas utilizando os efeitos da música e efeito de câmera lenta fica claro que a intenção da marca é atrelar a si conceito de juventude promissora sem tentar enganar o seu público alvo. Não há felizes para sempre, ou a felicidade açucarada e perfeita de famílias felizes em comerciais de margarina. A vida no comercial da Jeaneration não é cor de rosa, mas é extremamente convidativa. O filme consegue isso com sua música, com seus efeitos de edição e também por seu produto ser jovem e já ter respaldo em vários contextos como, por exemplo, o cinema e a moda. Um determinado comportamento (o uso de jeans) pode ser considerado como fonte de significados ou como um foco de identificação e um sistema de representação. A questão é saber se a identidade que esse determinado comportamento constrói é realmente unificada. Um determinado comportamento é unificador e pode transformar uma identidade que anula e subordina a diferença cultural. O uso de jeans é um comportamento já gl b z “ j v j v ” (HALL, 2006) e parece ter poder cultural de formar uma identidade cultural de um determinado grupo etário e social. Não só a perfeita junção entre imagens e música, mas também o caráter rotineiro das cenas provocam a forte identificação do consumidor com o filme e consequentemente com a marca Jeaneration. Comentários postados na internet para esse filme deixam essa identificação bem clara. Para esta peça comercial existem 54 postagens positivas e saudosas. Os elementos analisados na peça publicitária conseguem dar dramaticidade e impacto a cenas que perderiam sua força e sentido se fossem mostradas de outra maneira. A frustração retratada em algumas cenas é eternizada, mesmo durando segundos, por meio de efeitos que tornam o sentimento tão próximo do expectador (público alvo) quanto do personagem. Isso acontece por meio do conjunto de signos imagéticos, 3195 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ sonoros e verbais constituintes dessa peça publicitária que inova à medida que não mostra a vida cotidiana como bela e perfeita como faz a publicidade em geral. Assim, a peça publicitária em questão faz com que o público alvo ou grupo social se identifique com a mensagem do anúncio, sendo influenciado em suas opiniões e comportamentos sociais conforme a visão de mundo passada pela marca Jeaneration RESUMEN: El conjunto de signos compuesto por imágenes, sonoros y verbales vehiculados por los medios de comunicación ayudan a formar el tejido de la vida cotidiana forneciendo material para la construcción de la identidad de los individuos. Nuestro trabajo, analiza una pieza publicitaria del Jeans de la década de ochenta, un texto verbovocovisual con la tentativa de contribuir con la formación de lecturas de imagen publicitaria. PALABRAS-CLAVE: publicidad; identidad cultural, verbovocovisual. 3196 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Referências Bibliográficas AUMONT, Jacques et alli. A estética do filme. São Paulo: Papirus, 1994. BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1971 BAUMAN, Zigmund. Identidade.Rio de Janeiro:Jorge Zahar,2005 BETTON, Gerard. Estética do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1987. BOLZ, Norbert. Teoria da mídia em Walter Benjamin. In: Sete perguntas a Walter Benjamin, Revista USP. São Paulo: 1991. COMERCIAL das calças jeans da marca Jeaneration. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=q4wkhN4lDVo> Acesso em: 01 Ago. 2010. 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Petrópolis: Vozes, 1995. p. 104-131. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações. Comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. 3197 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ DESIGN E FETICHISMO: UMA REFLEXÃO SOBRE A CULTURA MATERIAL EDITORIAL E A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Guilherme Mendes Pereira RESUMO O termo fetichismo assume nesta pesquisa a acepção de processo de investir significados alheios aos intrínsecos de um produto. Tentaremos evidenciar tal conceito partindo de definições para o campo do design, para então dadas explanações socioculturais verificarmos como estes fetiches atuam no seio das sociedades em contextos mais amplos: nas construções mitológicas. Daí, procederemos com análises de duas peças de design editorial, tendo como base a metodologia e a argumentação dispostas. PALAVRAS-CHAVE: Fetichismo. Cultura Material. Design Editorial. 1 INTRODUÇÃO O processo criativo e produtivo do design envolve uma complexa rede estabelecida para a produção de bens e geração de informação, voltada para a comunicação e a obtenção de lucro. Tal processo envolve também uma dinâmica teia comunicativa e significativa que influi na criação, modificação e perpetuação de valores socioculturais. A influência silenciosa e corriqueira dos produtos cotidianos em nossa percepção do mundo tece vínculos de sedução e reiteração dos diversos fetiches e mitos difundidos na sociedade. Assim, para o sucesso de um produto, o qual se encontrará sempre imerso numa infinidade difusa de outros, é necessário além do mesmo informar, persuadir e vender, também manter a correlação com as demandas sociais, considerando as possibilidades tecnológicas e produtivas. As soluções formais e estéticas de um projeto de design bem-sucedido inserem no produto valores dos quais o próprio não é portador, valores estes em parte instaurados e reconhecidos nos nichos sociais diversos; e em outra Pós-graduando em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) e é graduado em Design Gráfico pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atualmente trabalha em uma agência de Marketing e Comunicação como Designer Gráfico e Webdesigner. Endereço Residencial: Rua Lobo da Costa, 1366 ap. 401, Pelotas, RS – Brasil Telefone: +55 53 9946 0398 E-mail: [email protected] 3198 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ parte valores com caráter de novidade, cruciais para suscitar a curiosidade e instigar ao consumo. Através de produtos culturais temos acesso a dados válidos referentes a inúmeros processos sociais e históricos. 2 DESIGNANDO DESIGN O design foi formalizado e configurado enquanto prática profissional e área do conhecimento humano durante a primeira revolução industrial, onde os processos de produção maquinofaturados e seriados, bem como a lógica capitalista emergiram e ganharam força, assim como a popularização dos bens materiais (em maior demanda e mais baratos) e a nova cultura em torno destes, com a manifestação de novos juízos e significados a partir dos mesmos, conforme defendem Redig (1977), Villas-Boas (2003) e Cardoso (2004), consoantes a Forty (2007). Para Redig a finalidade de um produto motivaria sua realidade de uso. Os produtos seriam assim signos da sociedade industrial e seus usos implicariam em métodos comunicativos. Os produtos estabeleceriam assim ligações físicas com o homem, sejam elas visuais, táteis ou perceptivas. O fator estético do design seria resultado da forma do produto, a concretização material de um projeto. Sendo a estética um componente inerente à nossa percepção de estímulos de qualquer natureza. De tal modo, a forma também poderia ser considerada informação. Em introdução ao livro O Mundo Codificado, de Flusser (2007), Cardoso afirma que todo o produto é elaborado por meio do ato de dar forma a alguma coisa a partir de um intento. Etimologicamente, o vocábulo produto corresponderia ao sentido do termo in(formação), literalmente a ação de dar forma a alguma coisa. Assim, projetar e criar algo não deixaria de ser um processo informativo. Todo produto teria por finalidade transformar as relações do usuário com seu entorno, de modo a aperfeiçoar a vida deste. Ao efetivar uma possibilidade de uso, o produto se comporia como arquétipo e informação. 3199 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Villas-Boas (2003) vem a argumentar que o processo criativo e produtivo do design gráfico (uma subárea do design) constitui-se de quatro fases fundamentais: formal, funcional, metodológica e simbólica. Completa que ao avaliarmos os aspectos simbólicos evidenciamos que os produtos adquirem funções particulares junto a seus usuários, funções estas que os situam temporalmente como resultantes de práticas diversas (como o design informacional e a arte), exercendo uma função na representação e concretização do fetiche de tal modo que um produto é dotado de valores simbólicos em analogia com outros e conseguintemente com os diversos grupos sociais. Llovet (1979) trata objeto, do latim objectu, como algo perceptível aos sentidos, que é manipulável, o qual é concebido a partir de uma intenção, que é perpetuado a cada geração, que circula comercialmente, que é mensurável, cujo trabalho é avaliado com o tempo, o qual ao ser percebido conota uma apreensão compreensiva e contemplativa, seduzindo e estimulando o consumo e hábitos culturais. Do ponto de vista de Forty (2007) design seria a atividade que tem como princípio o ato de projetar, onde o designer converte ideias em convenções e instruções para a produção de bens. A forma das coisas seria fruto dos processos criativos e produtivos. Como justifica este mesmo autor, enquanto integrantes de uma sociedade capitalista visamos ao lucro como o resultado da produção de bens e inerente à linguagem aplicada aos mesmos, o objetivo basilar é tornar os produtos vendáveis e lucrativos e não exteriorizar idiossincrasias estilísticas. A ligação do aspecto formal dos produtos deve-se muito mais a condições sociais, culturais e tecnológicas. Longe de ser uma atividade artística conceitual e contemplativa, o design, por sua própria natureza provoca efeitos mais duradouros do que inúmeros produtos mais efêmeros das mídias tradicionais, porque pode dar formas tangíveis e estáveis às ideias sobre identidades e comportamentos. No ensaio intitulado Design, cultura Material e o fetichismo dos objetos, Cardoso (1998) explora numa dialética despretensiosa uma delimitação mais ampla para o termo design. Questiona que apesar de ser evidente que a natureza do design seja pautada tanto nos seus produtos 3200 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ quanto nos seus processos, essa imprecisão põe em tensão a identidade da área, que desde o fim do século XIX e ainda hoje é relacionada com juízos de valores, como o bom gosto, deixando sua atuação sociocultural e suas conexões tecnológica e industrial para um segundo plano. Hoje, quando as tecnologias gráficas democratizam os meios do fazer nos processos de design, Cardoso levanta a questão de até que ponto um designer não poderá vir a ser substituído por um software? Contra argumentando o contrassenso de tal hipótese, pois a base dos processos de design não circula em torno de seus produtos ou metodologias e sim numa situação peculiar destes: no modo como sucedem os produtos, instalando nestes significados externos aos seus por natureza. Essa capacidade de ajuntar aos objetos valores que não lhes são próprios, Cardoso denomina de o fetichismo dos objetos. Para ele o processo de design consiste na (re)produção de significados que irão configurar os diversos produtos. Podemos depreender a partir das argumentações dispostas que uma das características chave do campo enfoca a capacidade de adicionar significados alheios aos já culturalmente impostos aos produtos e a manipulação destes. Propriedade esta indicadora do design enquanto processo gerador e articulador de fenômenos culturais. 2 PRODUTOS FETICHIZADOS A palavra fetiche deriva do vocábulo francês fétiche, termo este – assim como seu equivalente em inglês fetish – originados da palavra portuguesa feitiço, conforme explica Cardoso (1998). A adoção e adaptação do vocábulo português ocorreram em função da ausência de palavras com significado aproximado nestas línguas. Feitiço, era o termo usado pelos portugueses no século XV para denotar amuletos usados com finalidades mágicas e pagãs e também para designar as práticas religiosas de alguns povos africanos no século XVI. Cientificamente, o conceito de fetichismo ficou inicialmente restrito ao campo da antropologia referindo-se ao fetichismo animista, muito comum em algumas religiões primitivas da África, da América Central e América do Sul. No sistema de crenças fetichistas era comum atribuírem a determinados 3201 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ objetos – fetiches – qualidades sobrenaturais, representando a aceitação de uma manifestação do divino no natural. Sob o prisma de Marx (1996), o conceito de fetichismo passa a referirse ao duplo aspecto – econômico e ideológico – que o produto assume na “À v ria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia z ”( 97) Para ele, o aspecto simbólico do produto procede do fato de que ele transmuta os valores sociais do trabalho do homem enquanto características b b ‘ ’ N de transformações simbólicas, o homem criador do produto submeter-se-ia ao mesmo, subordinando-se a sua marcha e visando majoritariamente ao lucro, que seria alheio ao produto. Durante os processos produtivos a matéria ainda seria objeto que o produtor dominaria, para em seguida transformá-la em artefato útil (produto). Em seguida, quando o produto fosse submetido à circulação nas redes x v ‘ j ’ pelo produto. A criação sobrepujaria seu criador, passando este a depender daquela, que seria dotada de poderes misteriosos, o capital social. Os produtos assim fetichizados coisificariam o homem que passaria a conviver num mundo mágico coabitado por inúmeros fetiches. Marx completa afirmando que o fetichismo da mercadoria ampliado se dilataria no fetichismo do capital. Cardoso aborda ainda uma terceira acepção para o termo. Segundo as teorias psicanalíticas de Freud, fetichismo definiria uma anomalia comportamental materializada por uma excitabilidade patológica em relação a partes do corpo ou a objetos, e também a predisposição a torná-los o foco de seu impulso sexual. Freud defendia que o desejo fetichista seria resultado da descoberta na infância da ausência de um pênis (fenômeno da castração) em sua mãe. Seu temor e não aceitação levaria o indivíduo a procurar um apêndice, um substituto físico que suprisse essa reprimenda psicológica. Fetichismo então, de acordo com esta ótica seria a capacidade de atribuir 3202 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ significados eróticos em objetos que não seriam portadores de tais valores por natureza. Conforme Cardoso, podemos resgatar então três conceitos difusos para o uso da palavra fetichismo: no primeiro, abordaria a manifestação do sobrenatural em objetos inanimados, através de uma perspectiva religiosa; no segundo via as teorias marxistas, teríamos uma visão mais extremada, onde o processo de fetichismo seria tratado como a anulação do indivíduo pensante em função da supervalorização e do culto mágico e cego aos produtos; e a terceira contemplaria a ótica freudiana, onde fetichismo consistiria no estado patológico de delegar para partes do corpo ou a produtos o foco da desenvoltura sexual. Ele evidencia aí o ponto de intersecção dessa multiplicidade semântica: fetichismo compreenderia por fundamento a ação de instalar nos produtos valores subjetivos que lhes seriam alheios por natureza, e também a posterior assimilação destes valores (simulados pelos produtos) pelos indivíduos. Fazendo uma analogia, como observamos anteriormente, o design enquanto processo criativo e produtivo teria por função elaborar formas, informar, investindo de amplos e inúmeros significados a matéria ou as próprias informações. Neste sentido seria uma atividade inerentemente fetichizadora. 3 A FUNDAÇÃO DOS MITOS Todo produto de êxito incorporaria ideias reconhecidas ou amplamente aceitas por seus usuários através de estereótipos e arquétipos. De tal modo os produtos passariam a assumir incontáveis mitos, que se sobressairiam sobre os próprios produtos, argumenta Forty (2007). O design, com a capacidade de gerar significados consistentes e duradouros através de seus produtos seria um catalisador dos mitos na atual sociedade. Llovet (1979) ressalta que os produtos funcionariam no seio das sociedades consumistas como verdadeiras marcas simbólicas que se sobreporiam por um lado a sua própria funcionalidade como produtos. 3203 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O sistema dos produtos seria um mundo de pequenas utilidades que responderiam em geral a pequenas necessidades, formando um microcosmo simbólico, graças ao qual os membros da sociedade encontrariam meios de identificação com seus nichos sociais, teriam a chance para a realização de desejos pessoais, ou onde encontrariam os signos necessários para manter e divulgar uma imagem almejada. As possibilidades dos produtos, indo além de sua utilidade mais elementar, superariam seu valor de uso através de um excedente simbólico, marcado desde suas origens. Este paradigma social simbólico traçaria também as diferenças econômicas e culturais nas sociedades capitalistas. Os produtos e seus enredos comunicacionais orientariam o percurso dos mitos ao nosso redor convergidos num conjunto que formaria um sistema de relações e sentidos. Pelos valores simbólicos e mais amplamente pelos universos mitológicos nos quais podem estar inseridos os produtos podemos sugerir que estes seriam configurados e vinculados por valores e costumes através dos processos de design, contribuindo para a regulação e definição de grupos sociais e culturais e acondicionando arquétipos e estereótipos. Llovet presume que as próprias diferenças de classe repercutiriam nas relações indivíduo versusdesign visto que muitos poderiam se sentir obrigados a substituições contínuas de suas possessões materiais para garantirem sua identidade, originalidade ou status social. Segundo o mesmo autor, os objetos e a cultura imagética do design gráfico acabaram sendo firmados como uma cultura exterior ao indivíduo, porém integrando o funcionamento interno da sociedade industrial. Assim, no nosso tempo teria se desenvolvido uma força cultural nos objetos, imagens, sinais e mitos no circuito cultura > trabalho > produto > cultura > consumo. O qual ou começou com a adaptação dos mecanismos industriais a novas e mais abundantes exigências de produtividade do mercado ou pelo nascimento de uma síndrome cultural caracterizada pela voracidade de consumo dos produtos, concebidos mais a partir de valores capitalizados para a circulação social e geração de lucro e progresso, do que de valores mais utilitaristas e voltados para a desenvoltura cognitiva e sociocultural. 3204 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A sociedade de produtos, serviços e consumo jogaria com certos aspectos da constituição psicológica do sujeito e das sociedades para incrementar vendas e ampliar o espectro das necessidades do cidadão, instigando ao desejo. Nesse âmbito poderia se dizer que os processos de design concernem em ainda preservar certas utopias viáveis, característica que parece imprescindível no desenrolar temporal das sociedades. O desenvolver do aforismo que desvelou os mitos antigos trazendo formas mais racionalizadas de pensamento, contribuindo posteriormente para a institucionalização do conhecimento e das sociedades científicas, paradoxalmente serviu de base para a construção de novos mitos, convincentes as novas mentalidades, tal transformação se deu em uma dialética temporal gradual e adaptativa. Lévi-Strauss (1987) explica que por volta dos séculos XVII e XVIII, com a visão antropocentrista e o surgimento de grandes expoentes culturais os ‘ ’ v uma razão, um motivo. Tudo era mensurado, calculado e estudado. Este rumo demonstrou ser necessário e fundamental para o desenvolvimento das sociedades, encontrando condições para a sua autoconstrução. Num sentido amplo, o objetivo do pensamento científico seria o de atingir (por intermédio de fatos racionalizados, quantificados e classificados) um conhecimento panorâmico e crescente do universo. Segundo esta lógica se não se pudesse compreender tudo, nada poderia ser justificado. Lévi-Strauss comenta que por meio do pensamento científico conseguimos dominar a natureza e subvertê-la em prol da estabilidade e do q v v ‘ v ’ v pelos mitos fantásticos, que não possibilitavam ao homem o entendimento amplo e repleto e o contíguo domínio do seu meio. P “[ ] q ologia sublinha o aspecto do sentido, o aspecto do b ”( 8 ) Explica que significar constituiria a potencialidade de transcodificar informações em linguagens diversas. 3205 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O autor afirma que os mitos se valem de imagens pertencentes ao conhecimento empírico humano, sendo o pensamento conceitual resultante deste o mérito de sua novidade, de seu sucesso comunicacional. A construção dos mitos possivelmente intervém na base conceitual e simbólica para a elaboração dos fetiches contemporâneos. Os processos de criação e manipulação dos significados consistiriam num recurso ambíguo, adaptável de acordo com os objetivos comunicacionais em questão. Os mitos e seus fetiches participariam deste modo da construção das redes culturais e comportamentais. A análise dos mesmos pode ser um meio pertinente para entendermos os processos socioculturais e históricos. 4 DENSIDADE SIGNIFICATIVA Segundo Cardoso (1998), o design visa no seu sentido mais estrito, “ x ô b bj v ”( 9) Flusser (2007) vai defender que o design, como todas as expressões culturais mostra que a matéria não aparece até que seja informada. Informada, esta forma começa a se manifestar passando a compor fenômenos. Fenômenos são codificados em fatos que podem ser quantificados, esmiuçados, desconstruídos e compreendidos para assim gerarem novos produtos e fenômenos. Ao conjunto de objetos produzidos e utilizados por qualquer grupo humano (produtos) empregamos o termo cultura material. Termo fundado a partir de estudos socioculturais, mas que atualmente é empregado em pesquisas relativas à sociedade e o modo como os produtos determinados e consumidos pela mesma afluem em grupos simbólicos e ideológicos mais amplos. Para Niemeyer (2003) a construção do sentido é resultado da articulação dos signos, os quais se estabelecem através dos códigos, compondo os sistemas de linguagem que são à base de qualquer forma de significação, sendo o produto obra de um contexto sociocultural determinado por coordenadas históricas e geográficas. A autora, sob um enfoque semiótico, denomina o usuário de interpretador, o qual a partir dos produtos 3206 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ projetados pelo designer, percebe, raciocina e interage (ou não) com os mesmos. O designer chamado de gerador deve considerar todo o ciclo produtivo, os aspectos culturais, sociais e tecnológicos assim como a função e inserção do produto na sociedade. Sendo o sucesso do propósito comunicacional de um produto proporcional à correspondência e posterior identificação deste com o repertório do interpretador somado a qualidade, funcionalidade e pertinência do produto para o usuário e o seu contexto. Niemeyer pontua uma concisa metodologia para a análise de produtos, na qual o produto pode ser dividido em quatro dimensões semióticas: material, sintática, semântica e pragmática. Dados estes aspectos analíticos, passaremos à apresentação dos itens de análise, a exposição de dados e a breves análises dos mesmos. Foram selecionados dois produtos de design editorial, correlatos às acepções de fetichismo recortadas por Cardoso (1998). O primeiro produto eleito para este estudo é o livro Sex179. No cenário histórico onde vigorou esta peça de design editorial (década de 1990), o mundo se recuperava dos resquícios da antiga desordem mundial (guerra fria). O período foi marcado pelo firmamento da hegemonia norte-americana (guerra do golfo), almejando resguardar os seus interesses geopolíticos e econômicos. Também nesta década foi crescente a propagação do vírus HIV, assim como foram popularizadas diversas campanhas de prevenção à doença. Sex foi produzido em New York, sob o aval dos designers do grupo Baron & Baron Inc. O livro apresenta uma embalagem mais externa constituída de um tipo de plástico brilhoso cinza, na qual está impressa uma imagem em tons de cinza do rosto da autora em uma fisionomia de êxtase. No centro geométrico dessa composição percebe-se uma discreta tipografia em preto com a informação verbal MADONNA SEX, toda em caixa alta (figura 1). 179 MADONNA. Sex. New York: Warner Books, 1992. 3207 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Dentro desta embalagem está o livro, encadernado com espiral metálica, em formato retangular, com a palavra SEX (também em caixa alta) gravada no centro perceptivo da composição da capa metálica (figura 2). Apresenta uma contracapa também em material metálico com um símbolo v z v v ‘x’ parênteses (figura 3). O livro não possui uma malha construtiva fixa, sendo suas informações organizadas de maneira ótica e intuitiva, variando a cada página (figuras 114). A paleta cromática do projeto é bem variada, apresentando desde tons de cinza na maior parte do projeto, mas também conta com a presença de contrastes vívidos de cores frias e quentes matizadas (figuras 1-14). A tipografia empregada é bem diversificada, o ponto comum é a fluidez e elegância nos traçados. Apresenta desde tipos sem serifa (figura 8), serifados (figuras 4, 6 e 13) e manuscritos (figuras 5 e 12) até tipos mais orgânicos e experimentais (figura 14). As ilustrações do livro são delimitadas basicamente em grafismos de apoio (figuras 5 e 14), ruídos (figura 12) e construções a partir de tipos (figura 8 e 13). O emprego da fotografia (recurso amplamente explorado no livro), crucial ao bem-sucedido projeto gráfico, consiste em fotos eróticas, provocativas e ambíguas. Prevalecem fotografias em tons de cinza (figuras 5, 9, 10 e 14). Quando são empregadas cores é notável a utilização de matizes cromáticos fortes em monocromia (figuras 4 e 6) e policromia (figura 9). Fotomontagens e efeitos mais transgressores, como recortes e colagens grosseiros, com uma óbvia intencionalidade são também recursos bem trabalhados (figuras 4, 9 e 14). Sex apresenta um projeto gráfico intrincado, coerente e formalmente bem construído. Apesar da grande diversidade de elementos gráficos, tipos e fotografias, o projeto mantém uma forte coesão pelo ritmo e estilo veiculados. 3208 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Produzido em número limitado não tendo outras edições, Sex tem um enfoque de certo modo elitista, que somado ao crescente sucesso 3209 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ profissional de sua autora e protagonista (o ícone pop Madonna), constitui hoje uma peça exclusiva só encontrada em lojas ou leilões virtuais a um preço bem mais alto do que na época em que foi comercializado, sendo evidente seu caráter fetichista, tanto de objeto de desejo, quanto simbólico e significativo. Quando lançado no mercado, Sex tinha uma aura polêmica e refletia um misto de provocação e de crítica à sociedade incongruente, defensora de certos valores e algoz de outros. Ao mesmo tempo podia ser interpretado como uma resposta a crescente propagação da AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. O invólucro do livro sugere tal contexto remetendo a uma embalagem de preservativo em conjunto à imagem da autora, que traduz uma mulher em pleno gozo do ato sexual. A embalagem de proteção serve de filtro e aviso para o que está por vir, um conteúdo transgressor e polêmico. A capa e a espiral em metal transfiguram uma couraça, uma armadura, alusivos a proteção e também a texturas e materiais, conferindo importância a percepções sensoriais, ao tato mais especificamente. O metal é também um material dúbio, pois pode tanto proteger quanto ferir, como quando é moldado em equipamentos bélicos e de segurança. Em Sex, fotos e montagens referentes a fetiches sexuais insinuam exteriorizações da psique humana em ambientes livres e a céu aberto. Uma leitura possível pode remeter ao desejo transgressor de romper com paradigmas e estereótipos e de ser visto e desejado, assim como a inversão desses papéis, caracterizando o chamado voyeurismo. Outra interpretação pode fazer jus a um contraponto crítico em relação à postura hegemônica e moralmente repressora de alguns países imperialistas, corporificada através de personalidades públicas, ironicamente travestidas de preceitos puritanos e progressistas em prol do bem comum e do progresso, mas que também fazem uso de seu poder em proveito de regalias pessoais, imoralmente despudoradas. A ambiguidade significativa do material conota um erotismo ácido e cético. O ato sexual quente, forte, intenso e prazeroso é traduzido em Sex em tons de cinza e salpicos de matizes vívidos, passando uma ideia de 3210 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ artificialidade, efemeridade e superficialidade em relação à promiscuidade das relações. A expressiva variedade de configurações visuais e de tipos, assim como organicidade da composição e das fotografias e fotomontagens transgressoras refletem a diversidade e contradição da natureza humana, onde o poder e a materialidade (meios de se conseguir prazer) são legados a um caráter crucial dos objetivos do homem, configurando a existência humana em vivências cada vez mais narcisísticas. O significado de uso, mais evidente e provavelmente o configurador do sucesso do significante (Sex) provavelmente seja seu apelo erótico e exótico. A exclusividade, a fluidez e originalidade do conteúdo, assim como a qualidade e elegância do material o promovem a um objeto de desejo, trabalhando com a libido e com o impulso consumista, configurando o produto como um fetiche sexual e mercadológico ao mesmo tempo, abrangendo também a acepção trabalhada neste estudo, onde os elementos formais e estéticos configuram além de uma possibilidade de uso, uma possibilidade informacional. Seguindo a conjuntura erótica, mas com um caráter mais artístico e poético, não tendo um objetivo comercial tão marcante quanto Sex, temos o Gibi Erótico 180 , peça que flui dum contexto mais recente, líquido e inconstante, onde a busca pela satisfação é o foco intermitente. Observando formalmente a revista, notamos uma capa num papel simples de gramatura média, contendo uma ilustração de uma mulher e um pássaro em tons pastéis que extrapola os limites do suporte (imagem sangrada), constituída de linhas e manchas de cor orgânicas e fluídas, apresentando um fundo com um tom de amarelo pastel (figura 15). A marca da revista está localizada na extremidade superior esquerda e apresenta uma tipografia simples em versão bold, em caixa baixa. Visualizamos também na parte inferior direita desta composição a palavra vintage, escrita numa tipografia manuscrita. O termo vintage aqui pode se 180 MORÁBITO, Jorge; GUTIERRES, Zeca. Gibi Erótico. São paulo: OnSpeed, 2007. 3211 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ referir ao estilo do projeto gráfico, composto propositalmente com falhas, manchas, desfoques e interferências diversas. Não é observável uma estrutura organizacional fixa (malha construtiva), visto que tanto as imagens como os textos não apresentam posições padrões (figuras 15-24). A paleta cromática do livreto é predominantemente dessaturada, composta de tons pastéis diversos (figuras 15-24). Apresenta tipos dos mais diversos, desde os serifados (figura 17), até tipos manuscritos (figura 23), e outros mais experimentais com desenho mais gestual e casual (figuras 19 e 20). A ilustração é o recurso gráfico que dá coerência e ritmo ao material, observável desde estilos figurativos (figuras 20-22 e 24) até mais abstratos (figuras 18 e 20). As fotografias atentam para imagens de corpos e detalhes (figuras 17, 19, 21 e 23). Também são percebidas imagens desfocadas (figura 17) e com interferências (figura 19 e 23). 3212 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 3213 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Num âmbito geral o Gibi Erótico é um projeto instigante, difuso e que mistura referências, estilos e temáticas diversas apresentando certo ritmo estético e formal, dado pelas cores e ilustrações, que mantem uma unidade composicional. A dinâmica gráfica do impresso e as cores em tons pastéis adotadas atentam para uma volatilidade e organicidade próprias dos aspectos formais e cromáticos do corpo humano. A divergência estrutural e tipográfica do material expressa à fugacidade do homem contemporâneo, dinâmico, oscilante e contraditório. Valores como impessoalidade, casualidade e promiscuidade estão presentes tanto no contexto vintage do material como na oferta de detalhes de corpos difusos e imprecisos. A revista Gibi Erótico é um material de consumo contemplativo e reflexivo, de certa forma descompromissado, sendo conexa a conjuntura transitória e volátil contemporânea, onde tudo que é desejado é posteriormente consumido e descartado em função de uma nova oferta. 5 CONSIDERAÇÕES PROVISÓRIAS Flusser (2007) destaca a raiz etimológica do termo objeto (objectu) que remete a problema. Seriam os objetos necessários para afastarmos os problemas de nossa trajetória, porém estes objetos seriam a fonte da inserção de mais problemas em nosso caminho. Ao utilizarmos os objetos (produtos) como apêndices de nossa existência, relegaríamos aos mesmos como fundamentais para a nossa sobrevivência, e como básicos seriam cada vez mais necessários e nós mais dependentes deles para (sobre)viver, indo além da sobrevivência e além do conforto. Esse ciclo, o qual podemos entender por cultura material, seria inacabável e fatal para a humanidade em função de suas tendências cientificistas e pretensamente progressistas. Hoje, a função mediadora (media) dos produtos é perceptível através das relações humanas e desvela a proeminente função do designer como criador de obstáculos e ao mesmo tempo de soluções. Como vimos, o termo fetichismo explorado neste estudo abordou não somente seu sentido mais evidente, de elitização das mercadorias e o 3214 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ processo de sedução pela/para as mesmas, mas também o de trabalhar com a produção e transformação de significados através dos produtos. Evidenciamos a pluralidade significativa latente e inerente dentro de uma metodologia projetual, criativa e produtiva como o design e a sua crescente necessidade e importância para a economia e a sociedade. Apontamos também que o processo simbólico dentro das etapas projetuais, sendo intencional ou involuntário, é arbitrário e depende dos desígnios e preceitos de todos os envolvidos nos processos produtivos para cumprir com seus objetivos comunicacionais, fluindo pelas redes sociais. Cauduro (2001) desenvolve o assunto referente à transgressão no universo simbólico e significativo do design embasado em teorias da psicanalista e linguista Julia Kristeva, segundo a qual o processo criativo é resultado da inconstância e da incoerência nos processos de construção das significações. Conforme Kristeva a linguagem não incidiria exclusivamente em uma convenção, uma articulação mental, mas também numa prática significante, num trabalho contínuo de interpretação e decodificação da realidade, numa produção que existe graças ao sujeito material, dividido entre suas modalidades de significação, a semiótica, da ordem dos acontecimentos e a simbólica, da ordem dos símbolos, dos signos convencionais. Assim, nas práticas comunicacionais temos uma organização de significantes heterogêneos que são assimilados e reiterados em textos e discursos históricos peculiares ao sujeito. Parafraseando Kristeva, o desígnio de uma prática naturalmente inventiva é desconstruir as realidades institucionalizadas em conveniências para o vivenciar de maneira participativa e renovadora, instigando a constante ressignificação das coisas. Vê-se aí que os fetiches, seus processos significativos e suas confabulações mitológicas versam como importantes meios e junções para o caminhar das sociedades e seus tramites socioculturais ao longo do tempo, participando ativamente do eterno jogo de construção e transformação das realidades. 6 REFERENCIAL TEÓRICO 3215 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ CARDOSO, Rafael Denis. Uma Introdução a História do Design. São Paulo: Edgard Blücher LTDA, 2004. ____________________. Design, Cultura Material e o Fetichismo dos objetos. Revista Arcos, 1:14-39, Rio de Janeiro, 1998. CAUDURO, Flávio Vinícius. 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Fetichism means in this research the process of include different meanings (artificial ) W ’ b knowledge field, for then, given sociocultural assertions, to verify as how these fetishes act inside of core social in bigger contexts: in the mythological constructions. From there, we will proceed with analyses of two products from editorial design, having as base the methodology and the argumentation exposed. KEYWORDS: Fetishism. Material Culture. Editorial Design. 3217 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ OS CLÁSSICOS AINDA TÊM ALGO A DIZER AOS JOVENS DE HOJE? Marisa Fernanda Pegoraro Brisolara181 marisabrisolara@gmail Marília Dias Treicha182 [email protected]; [email protected]. RESUMO :Investigação dos motivos da rejeição/aceitação à leitura de clássicos por alunos do 2º ano do Ensino Médio do IFSUL. A pesquisa dividese em duas fases: na primeira, analisaram-se dados oriundos de questionários estruturados; na segunda, analisaram-se entrevistas semiestruturadas, aplicadas a um grupo menor de alunos. Os resultados foram analisados à luz de teorias como sociologia da leitura e formação do leitor. Palavras-chave: leitores adolescentes, obras clássicas, ensino médio. 1. INTRODUÇÃO Na prática de sala de aula, com frequência, ao solicitar a leitura de obras literárias clássicas, o professor da disciplina de Língua Portuguesa e 181 Graduada em Letras - Português e Literaturas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); especialista em Linguagens, Códigos e suas Tecnologias pelo Curso de PósGraduação Lato Sensu em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias (CPGLing) do IFSul; professora de Língua Portuguesa da rede de Ensino Estadual e Municipal do Município do Capão do Leão. E-mail: [email protected]. 182 Graduada em Letras - Português e Literaturas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); aluna do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias (CPG-Ling) do IFSul; professora da rede pública Estadual de Ensino (séries finais); tutora a distância do Curso de Educação Continuada (CPEaD) UAB/IFSul; Pesquisadora voluntária no projeto de pesquisa Por que ler os clássicos? e do projeto de pesquisa Narrativas de professores em curso online de formação continuada: refletindo sobre a construção da identidade docente. Email: [email protected]; [email protected]. 3218 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Literatura Brasileira 183 depara-se ora com a resistência/ rejeição de alguns alunos, ora com a aceitação/ identificação de outros. Tal fato suscita inquietações e questionamentos por parte do docente. Que critérios o aluno leva em conta ao julgar positiva ou negativamente determinada obra canônica? Como estimular o despertar do gosto por esse tipo de leitura que, de fato, repercutirá em sua formação, não só como leitor, mas como futuro profissional e, em última análise, como ser humano? Estudos sobre leitura e formação do leitor ressaltam a importância da prática da leitura literária e do papel da escola nesse processo. Segundo Aguiar e Bordini (1993), na educação do leitor de literatura, é papel da escola, para produzir um sentido eficaz da leitura da obra literária, apresentar uma infra-estrutura que contemple uma biblioteca bem aparelhada (material e profissionalmente), professores leitores com boa formação, programas de valorização da leitura e uma interação democrática e simétrica entre alunos e professores. Tais reflexões procuram demonstrar a importância da leitura para a formação do ser humano. Deve-se destacar o papel ativo do leitor no ato da leitura, elevado à condição de sujeito, preenchendo as lacunas do texto com sua experiência de vida e, assim, ampliando os sentidos da obra. Dessa forma, a leitura literária possibilita ao sujeito leitor o contato com uma realidade em que as possibilidades associativas, relacionais e interpretativas são infinitas. Sendo assim, tanto o conhecimento de mundo quanto as experiências do indivíduo com o mundo são ampliadas. O conhecimento já não é mais algo estático (dentro de um livro didático, por exemplo), mas algo que faz sentido para ele, que o leitor reconhece como representação da realidade. A leitura pode, assim, representar um encontro do indivíduo consigo mesmo. 2. METODOLOGIA 183 No IFSul, tanto em relação ao curso de Ensino Médio Regular quanto ao Integrado, a língua e a literatura constituem uma mesma disciplina: Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. 3219 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Este trabalho analisa os resultados de uma pesquisa qualitativa que investigou a recepção de obras clássicas por parte de alunos do 2º ano do Ensino Médio regular do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul). Para tanto, a investigação enfocou as motivações, preferências e gostos dos alunos e, principalmente, a recepção à apresentação, por parte dos professores, de listas de leitura de obras clássicas dos séculos XVIII e XIX, durante o 1º e/ou 2º trimestres letivos de 2007 e 2008. Os dados coletados foram analisados à luz de teorias como estética da recepção, história da leitura, sociologia da leitura e formação do leitor; segundo as quais, a leitura não é um ato passivo. A coleta de dados referente aos dois anos letivos acima mencionados foi realizada em 2008 e 2009. Para cada ano letivo analisado, a pesquisa dividiu-se em duas fases. Da primeira, participaram como sujeitos de pesquisa, na coleta realizada em 2008, os alunos que, em 2007, fizeram parte de nove turmas do 2º Ano do Ensino Médio Regular do IFSul; na coleta realizada em 2009, participaram os alunos que, em 2008, fizeram parte das seis turmas do 2º Ano do Ensino Médio Regular da instituição184. Devido ao número total de alunos ultrapassar uma centena, o uso de entrevistas foi considerado, nos dois anos em que a pesquisa foi realizada, inapropriado para essa primeira fase. Desse modo, o corpus originou-se de questionários estruturados de modo a construir o perfil sociocultural dos alunos e explicitar a visão deles sobre atividades de leituras realizadas durante a vida escolar, em especial a leitura dos clássicos dos séculos XVIII e XIX. Da segunda fase, a partir dos resultados dos questionários, foram selecionados, em 2008, 10 alunos e, em 2009, seis alunos. Esses alunos responderam a uma entrevista semiestruturada, para aprofundar a compreensão do fenômeno investigado. Tais entrevistas foram transcritas e os dados obtidos, após categorização, foram submetidos a uma análise. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 184 Metodologicamente, passamos a fazer referência, no decorrer deste texto, apenas aos anos de coleta de dados (2008 e 2009). 3220 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Para fundamentar a pesquisa, os dados coletados foram analisados à luz de teorias como história da leitura, sociologia da leitura e formação do leitor. A partir das teorias consultadas, primeiramente, foi necessário refletirmos sobre alguns conceitos básicos, tais como o que é um livro clássico, quais são os critérios para se determinar a excelência estética do ponto de vista literário e qual a função da leitura literária. Marisa Lajolo (2001) afirma que a palavra clássico deriva de classis, palavra latina que significa classe de escola, o que remeteria à época em que a escola só indicava a leitura de autores gregos e latinos, os quais passaram a ser chamados de clássicos por sua leitura ser recomendada às classes, isto é, por serem adotados nas escolas. Portanto, para Lajolo, na própria origem da palavra clássico estariam as marcas da escola como instituição avalista do que se pretende literatura ( p. 20-1) Italo Calvino (1993), em sua obra Por que ler os clássicos?, afirma b que um z ”( q ) q j “ z b q q q v vida, e a compreensão que o leitor pode retirar dela será modificada à medida que seu conhecimento de mundo e experiências vão também se modificando. Afirma, também, que a tarefa da escola é propiciar – talvez – o ‘ ’ j v b [...] a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais ( ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer ‘ ’ b -lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola. É só nas leituras desinteressadas que pode acontecer depararq q ‘ ’ v [ ] (CALVINO, P. 13) Calvino ressalta, assim, que através de uma leitura institucionalizada (pela escola), poderá surgir o gosto e o interesse, uma vez que se estabeleça uma relação pessoal entre a obra e quem a lê, ou seja, essa tarefa não deve 3221 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ v ”( “ v -13). 3.1 Sociologia da Leitura e História da Leitura Para Regina Zilberman (2001), uma ciência da leitura que coloca o leitor na posição de protagonista não pode excluir o objeto a que se dirige a atenção dele, o livro, mercadoria que dispõe de mecanismos próprios de distribuição e circulação. O livro confere materialidade à literatura e seu consumo movimenta a sociedade capitalista. Também o escritor não deve ficar à margem de uma teoria da leitura, pois é ele que põe à disposição do úb ‘ q ” preferên (ZILBERMAN, p. 81) . Não menos importante é estudar o papel das instituições mediadoras – como a escola, a crítica literária, a academia, a imprensa – que facultam a passagem de um texto literário à condição de cânone. Essas entidades estabeleceram e fixaram a concepção de literatura q ‘b ’ burguesa e do capitalismo, garantindo sua permanência. Entendendo a literatura como uma formação histórica, Roger q v “ j ” passível de transformação e adequação em virtude das mudanças sociais e tecnológicas, mas enunciador do conhecimento do mundo que circula por inte ” (Z LB RM N 8 ) P x corresponder a uma função passiva no processo de leitura. Processo esse que pode ser desencadeado pelo escritor, responsável por uma obra inovadora ou estereotipada; ou pelo industrial que investe no mercado editorial visando ao lucro. Leitor e público normalmente aparecem no último elo da cadeia, receptáculo das decisões do sistema. Chartier, destacando a x “ b ordenação sequencial do processo, que parte do emissor e chega a ele, o recebedor, por uma concepção dialética, estabelecendo a paridade entre os ” (Z LB RM N 8 ) 3222 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Robert Escarpit (1976), pensador da Sociologia da Leitura, distingue a obra literária das demais por sua aptidão à gratuidade, ou seja, por seu aspecto não-funcional que visa a satisfazer a uma necessidade cultural nãoutilitária. Tal predisposição supõe que ’ q j â b ‘ v É ’ ‘q rcâmbio autor-público que está, para Escarpit, o critério do literário e do não-literário, ou seja, o ato literário é o típico ato de comunicação (p. 27-8). Assim, pode-se afirmar que, para que haja texto literário, do ponto de vista da Sociologia da Leitura, é preciso que haja leitura. Escarpit estuda, ainda, as circunstâncias de leitura e relaciona-as à disponibilidade do sujeito para a mesma, apontando fatores que contribuem para tal. O primeiro e um dos mais importantes seria a idade. Segundo seus estudos, no período da adolescência e juventude, o sujeito está menos disponível à leitura não-funcional (literária), devido ao fato de grande parte de seu tempo ser reservado aos compromissos com sua formação (educacional e profissional) e à conquista de uma situação na sociedade. Nos momentos ociosos, o indivíduo dessa faixa etária é solicitado por inúmeras atividades de distração, como o esporte. Todavia, acrescenta Escarpit: O jovem lê, apesar de tudo, porque tem potentes motivações para isso ( esta época da vida é a das crises de personalidade, dos choques com a coletividade), é um leitor apaixonado e ávido, mas, como indicam todas as pesquisas, lê pouco, além do que necessita para seus estudos, e suas leituras reduzem-se a um círculo relativamente estreito (ESCARPIT, 1971, P. 119). Deve-se considerar, no entanto, o lapso de tempo entre as pesquisas de Escarpit e o momento presente. O recente estudo sobre os hábitos de leitura do brasileiro – a pesquisa Relatos da Leitura no Brasil, realizada em 2007 e divulgada no segundo semestre de 2008–, que envolveu um universo 7 õ b (9 % ) q “ leitura do país é de 4,7 livros por habitante/ano. Dessa média, 3,4 livros por habitante/ano foram indicados pela escola, freqüentada por 60 milhões de ”( 009) ú 3223 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ discriminarem idade, não se ignora que grande parte da população escolar compõe-se de crianças, adolescentes e jovens. E, como demonstraram os dados da pesquisa, é durante a fase escolar que o brasileiro mais lê. No âmbito da mediação, Robert Escarpit distingue um circuito culto de distribuição das obras —em que podem transitar, entre outros, intelectuais, artistas, escritores, críticos literários (consumidores de obras consideradas canônicas ou aceitas pela crítica especializada) —dos circuitos populares — nos quais faz-se a distribuição das leituras de tipo literário ao grande público leitor ( em geral, literatura de massas, como best Sellers, narrativas policiais e folhetinescas, por exemplo). Nos circuitos populares, destacam-se, como instâncias mediadoras, bancas de revistas, quiosques e, mesmo, prateleiras de supermercados. Normalmente as obras distribuídas e consumidas no circuito culto, não circulam nos populares e vice-versa. No entanto, Escarpit ressalta que essa regra não é tão rígida. A adaptação de obras que circulam apenas no circuito culto aos meios de comunicação que atingem as massas, como o cinema e a televisão, por exemplo, fazem chegar, ao público dos circuitos populares, obras a que até então esse público não tinha acesso (ESCARPIT, 1971). 3.2 Estética da Recepção Para Jauss, principal nome da Estética da Recepção, o leitor é o responsável pela atualização dos textos, garantindo a historicidade das obras literárias. Esse leitor, porém, corresponde a uma entidade coletiva, definida desde o horizonte de resposta dado a certo texto. Dessa forma, ignora-se a intimidade e disposição do leitor enquanto indivíduo, mas se reconhece como “ x se realiza o processo conhecidas por ocasião da produção do texto e da poética imanente do ” (Z LB RM N 89) As obras, para a Estética da Recepção, são formadoras, explicitandose o caráter social da literatura, que é de ampliar o horizonte de conhecimento de mundo do leitor, ou seja, um papel emancipador. Mas como 3224 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ se dá essa emancipação? Para Jauss, a experiência emancipação do sujeito, primeiramente, libertando estética propicia a o homem dos constrangimentos e da rotina cotidiana; estabelecendo uma distância entre ele e a realidade convertida em espetáculo; podendo preceder a experiência, o que implica a incorporação de novas normas para a atuação e compreensão da vida prática; e, finalmente, sendo, ao mesmo tempo, antecipação utópica, ao projetar vivências futuras, e reconhecimento retrospectivo, ao preservar o passado e permitir a redescoberta de fatos esquecidos. A experiência estética compõe-se de três atividades: poiesis, aisthesis e katharsis. A poiesis corresponde ao prazer de sentir-se co-autor da obra. A aisthesis diz respeito ao efeito de renovação da percepção do mundo circundante provocado pela obra de arte. A katharsis completa o processo coincidindo com o prazer efetivo resultante da recepção de uma obra e que motiva uma transformação das convicções do receptor aliada à liberação de sua mente. A definição de catarse mostra-a como basicamente mobilizadora, pois o espectador não só sente prazer, mas também é motivado à ação. Sua concretização depende da reação de identificação por parte do leitor. Suscitada pelo herói, a identificação apresenta as seguintes modalidades: associativa — quando a representação torna-se um tipo de jogo e o espectador integra-se ao que transcorre ficcionalmente; admirativa — produzida pela figura que corporifica um ideal e converte-se num exemplo a ser seguido; simpatética — desencadeada pelas personagens que se aproximam “ ”; catártica — própria à tragédia, tendo um fundo liberador; irônica — complexa, pois apresenta duas respostas: inicialmente, apresenta-se como possibilidade de identificação, para ser depois recusada pelo viés da ironia, levando o destinatário ao distanciamento e à reflexão. 3225 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Outro importante nome da Estética da Recepção, Wolfgang Iser, também irá preocupar-se com a relação de interação e de comunicação que se estabelece entre texto e leitor. De acordo com Iser (1979), só através de uma interação do texto com o leitor, pode ocorrer a concretização da obra. Para ele, essa interação pressupõe, primeiramente, uma relação de assimetria entre esses dois polos. Essa assimetria é fundamental e constituise nos chamados vazios do texto, que só o leitor, no ato da leitura, através de projeções, poderá preencher. Os vazios, que nascem do desequilíbrio decorrente da assimetria entre texto e leitor, podem ser definidos como tudo o que fica em suspenso no texto, implícito; tudo o que não é dito. Diante dos vazios, o leitor sente a necessidade de preenchê-los. O preenchimento ou ocupação dos vazios é feito pelas projeções ou representações projetivas. Nesse processo, podem surgir dificuldades. Ao fazer novas projeções, o leitor vai superando as dificuldades que a leitura lhe propõe. Desse modo, o preenchimento dos vazios se faz e a assimetria é superada. Iser (1979) ressalta que o que é lido na superfície (ou o que é dito) modifica-se pelo preenchimento do que não é dito ( o calado ou o vazio). Assim, o que não é dito dá uma nova significação ao que é dito. Portanto, para Wolfgang Iser, os vazios provocariam o leitor a tomar uma atitude frente ao texto, na tentativa de superar a assimetria — preenchendo os vazios, modificando suas atitudes de leitura —, concretizando, assim, o processo de interação do texto com o leitor. 4. ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.1 Análise dos resultados dos questionários A análise dos resultados inicia-se pelos dados levantados na primeira fase da pesquisa, quando os alunos foram submetidos a questionários. A 3226 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ primeira parte dos questionários envolvia questões com o objetivo de traçar um perfil sociocultural dos alunos. Quanto ao histórico sociocultural, é digno de nota que a maior parte dos alunos pesquisados (62%), tanto em 2008 quanto em 2009, cursam apenas o Ensino Médio Regular, tendo, portanto, o turno inverso das aulas para atividades extracurriculares, incluindo a leitura. Assim sendo, para a maioria dos estudantes o fator tempo não é um elemento restritivo para o hábito de ler. Também é importante observar o nível de escolaridade dos progenitores: em 58% (em 2008) e 67,8% (em 2009) dos alunos, o pai tem escolaridade igual ou superior ao Ensino Médio completo; já a mãe atinge um índice ainda maior: 69% (em 2008) e 71,9% (em 2009). Essa taxa relativamente alta de escolarização dos progenitores pode ser um dos fatores responsáveis pelos índices igualmente altos de acesso a bens culturais e à internet. 86% (em 2008) e 80,3% (em 2009) dos alunos têm acesso à internet na residência e cerca de 56,5% (em 2008) e 71,8% (em 2009) deles a acessam diariamente, índices que apontam para a forte influência desse meio na vida dos adolescentes. Entre as finalidades de acesso, destacam-se a realização de trabalhos escolares e a comunicação entre amigos e/ou colegas. Com relação aos bens culturais adquiridos, percebe-se que a maioria dos estudantes tem por hábito a sua aquisição, pois somando-se os que costumam adquiri-los assídua ou ocasionalmente, em quase todos os itens pesquisados, a soma é igual ou superior a 50% dos estudantes: DVDs, 76% (em 2008) e 75,8% (em 2009); CDs, 66% (em 2008) e 68,1% (em 2009); jornais, 64% (em 2008) e 65,5% (em 2009); livros, 60% (em 2008) e 60,7% (em 2009); HQs, 60% (em 2008) e 20,5% (em 2009); revistas, 50% (em 2008) e 55,6% (em 2009). É digno de nota, no entanto, que, enquanto nos três primeiros itens, o consumo regular é superior ao ocasional, nos três últimos, essa proporção se inverte. Isso sinaliza que DVDs, CDs e jornais são itens mais valorizados como bens de consumo do que livros, HQs e revistas. 3227 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Essa hipótese é confirmada quando os sujeitos pesquisados são solicitados a compararem a aquisição de livros com a de outros produtos ou bens culturais. Em 2008, apenas 3% afirmaram adquirir mais livros; em 2009, esse número subiu para 16,4%. Nos dois anos da coleta de dados, os itens indicados em primeiro lugar são os jornais (22% em 2008) e os DVDs (24,1% em 2009). Já as partes dos questionários destinadas a obter dados específicos sobre leitura revelam que a maioria expressiva dos alunos (71% em 2008 e 65% em 2009) afirma ter o hábito de leitura, sendo que a maior parte destes (70,8% em 2008 e 76,4% em 2009) desenvolveu tal hábito antes de ingressar no Ensino Médio. Isso indica um cenário favorável na instituição ao desenvolvimento de atividades de leitura durante o Ensino Médio, já que existe um grupo de alunos leitores que pode exercer influência sobre os demais, pois, conforme resposta a outra questão, 42% dos alunos pesquisados em 2008 e 45% em 2009 costumam discutir as leituras realizadas com amigos e colegas. No entanto, um grupo muito pequeno de alunos (4% em 2008 e 5,8% em 2009) costuma discutir suas leituras com o professor e/ou bibliotecários. Quando confrontados os índices das respostas sobre discussão das leituras com os índices das questões relativas ao incentivo à leitura por parte da escola, os dados obtidos são aparentemente conflitantes. O percentual de alunos que afirma ser estimulado pelo professor (45% em 2008 e 61,3% em 2009) é significativamente superior ao percentual que se declara estimulado pelos colegas (11% em 2008 e 37,1% em 2009). Ainda assim, os dados sobre a recepção às propostas de leitura dos professores revelam que 51% (em 2008) 56,4% (em 2009) dos alunos reagem com indiferença ou desinteresse a tais propostas. As razões dessa rejeição foram mais bem exploradas na segunda parte da pesquisa, durante as entrevistas, assim como o que os alunos entendem por estímulo à leitura. Discrepâncias também foram observadas nos resultados das questões relativas ao fluxo de leitura. 59% dos alunos (em 2008) informaram, 3228 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ inicialmente, ler um ou mais livros por mês; em 2009, esse número caiu para 44,9%. No entanto, quando perguntados sobre o número de obras lidas no ano, o índice de alunos que responderam ler mais de cinco livros por ano caiu para 38% em 2008; em 2009, 41% dos alunos dizem ler mais de três livros por ano. 4.2 Análise dos resultados das entrevistas Em relação aos resultados obtidos pelas entrevistas com alunos leitores e não leitores, na coleta realizada em 2008, o ponto positivo destacado o maior número de vezes em relação à leitura de obras clássicas é a importância de conhecer o/a passado/História. Esse aspecto é salientado novamente pelos entrevistados quando perguntados sobre a importância da leitura de clássicos (todos os alunos leitores o mencionam, e três, dentre os não leitores, também o fazem) e ainda sobre a relação entre obras clássicas lidas e sociedade atual (quatro alunos leitores e um não leitor consideram que conhecer o passado, os hábitos das pessoas em outras épocas, ajuda a entender o presente). Nesta perspectiva, percebe-se que a literatura é vista, portanto, como fonte de conhecimento, oportunizando conhecer épocas passadas sob um ponto de vista diferente do apresentado pelo historiador, já que, segundo os entrevistados, o escritor, tendo vivido em tal época, mostra aspectos que o historiador, muitas vezes, despreza. A extensão das obras lidas também é referenciada com frequência, tanto por leitores quanto por não leitores. A extensão breve é vista como positiva, facilitando a leitura. Outro aspecto a salientar é que os alunos consideram, em geral, mais importante o enredo do que a técnica narrativa. Observações sobre esta última, quando aparecem, costumam figurar como aspecto negativo: excesso de descrições, ritmo narrativo lento etc. Isso remete a um perfil de leitor que prefere narrativas com ênfase na ação, sobretudo se combinada com elementos fantásticos ou de suspense. Tal aspecto é confirmado ao se examinar a lista de obras contemporâneas citadas pelos alunos como lidas por conta própria, na qual predominam obras da literatura infanto-juvenil (como a série Harry Potter, citada quatro vezes), 3229 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ romances policiais (como Código Da Vinci, citado duas vezes) ou autoajuda (A Bruxa de Portobelo, por exemplo). Já a linguagem é vista como o maior obstáculo para a leitura dos clássicos. Para a maioria dos alunos, leitores e não leitores, a necessidade frequente de interromper a leitura para verificar o significado de palavras no dicionário é um fator desestimulante. Apenas um entrevistado (não leitor) a considera um ponto positivo, pois levaria à ampliação do vocabulário. Para os leitores, além da linguagem, vários outros elementos são vistos negativamente, os quais estão relacionados principalmente ao estilo de época – Romantismo – ao qual pertenciam as obras lidas. Nesse ponto, é curioso observar que tais aspectos vistos negativamente nos clássicos, como a presença do fantástico, a idealização; constituem a principal característica de certas obras contemporâneas apreciadas pelos entrevistados (a série Harry Potter, a série O Senhor dos Anéis). Em termos gerais, a escola é vista como incentivadora do hábito de ler, tanto pelos leitores quanto pelos não leitores entrevistados. No entanto, as respostas dadas são, em certa medida, divergentes. Para alguns, a exigência de um trabalho avaliativo acompanhando a leitura é um fator positivo, pois de outro modo o aluno não leria. Para outros, esse ponto é desestimulante, pois torna a leitura uma obrigação, algo pouco prazeroso. Não há consenso, entre os alunos entrevistados, sobre a própria noção de incentivo. Outros consideram que o tipo de texto trabalhado na escola deveria ser substituído ou por leituras voltadas para o público jovem, isto é, literatura infanto-juvenil (de preferência, estrangeira); ou por textos de outros gêneros, sejam literários (contos, crônicas) sejam informativos. Já outros alunos acreditam ser importante também conhecer a literatura brasileira. Um aspecto interessante é que os alunos pouco citam obras contemporâneas brasileiras (com exceção de obras de Paulo Coelho) ou que não se encaixem na chamada literatura de massa (exceção feita às que fazem parte de listas de 3230 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ vestibular, como O que é isso, companheiro? e Concerto campestre). Isso pode indicar desconhecimento dos alunos de autores brasileiros contemporâneos que não produzam literatura de massa. Também se pode perceber que a própria leitura de obras clássicas está intimamente ligada à atuação escolar. Em linhas gerais, é possível afirmar que os alunos leitores consideram as obras literárias clássicas como fonte de conhecimento; portanto, sua leitura é considerada por eles como importante. Já os alunos não leitores não veem nenhum acréscimo cultural na leitura de tais obras, não consideram, assim, sua leitura importante. A linguagem culta continua sendo o maior obstáculo para a leitura dos clássicos, porém os entrevistados não citaram aspectos formais. Os entrevistados que se consideram não leitores dizem preferir, quando leem, textos não ficcionais. Por outro lado, os alunos leitores destacam que seria importante a escola trabalhar com obras mais atuais (best-sellers). Assim, a escola assume o papel de espaço de ampliação do repertório de leitura dos alunos, propondo alternativas à influência da mídia. A leitura dos clássicos se insere nessa perspectiva, já que eles fazem parte do patrimônio cultural da sociedade. Através de seu estudo, recuperam-se e preservam-se as formas instituídas de construção do imaginário coletivo e o patrimônio representativo da cultura. 5. CONCLUSÃO Com base nas teorias que fundamentaram esta pesquisa, não é possível pensar na leitura como um ato passivo. Ao contrário, ler pressupõe uma interação entre texto e leitor. E é exatamente nesse sentido que surge a noção de sujeito-leitor. Assim, teóricos como Robert Escarpit e Wolfgang Iser defendem que, para existir texto, é preciso que exista leitura, ou seja, os textos não existiriam sem serem lidos. 3231 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Ao concluirmos este estudo, não poderíamos deixar de relacionar essas reflexões com a prática de sala de aula. É importante que o professor tenha a consciência de que, ao ler, o aluno não está apenas atribuindo significado ao texto, mas ressignificando-o, recriando-o. Quanto aos resultados obtidos ao longo das duas fases da pesquisa, percebe-se que, para os alunos informantes, as obras literárias clássicas têm um valor sociocultural; são vistas como fonte de conhecimento, enquanto as leituras feitas por conta própria são vistas como uma forma de entretenimento ou evasão. Destaca-se, mesmo entre os alunos não leitores, o reconhecimento da obra canônica como um patrimônio cultural a que eles têm acesso através da leitura. Em relação ao repertório de leituras feitas por iniciativa própria, devese considerar que, como é fruto de influência da mídia e/ou da indicação de amigos, tem uma permanência efêmera: os livros que estão na lista dos mais vendidos hoje são, muitas vezes, rapidamente substituídos, esquecidos. Os clássicos, por sua vez, são aquelas obras já inscritas na tradição, ou seja, q q “ b vv ”à Retomando reflexões desenvolvidas por Márcia Abreu (2006), o professor pode perfeitamente discutir essas preferências de leitura dos alunos em sala de aula, inclusive comparando tais leituras com as obras canônicas. É justamente a partir dessas discussões que pode começar a se efetivar a formação do gosto literário dos alunos. Por fim, ressalta-se que o papel da escola não é só o de despertar o gosto pela leitura, mas também o de propiciar acesso ao patrimônio cultural representado pelos clássicos; daí a necessidade de desenvolver atividades de leitura e interpretação de obras canônicas. A preocupação da escola não pode ser somente a de agradar ao leitor em formação, mas acima de tudo contribuir para que os alunos obtenham um acréscimo em sua bagagem intelectual ao conhecerem obras que, ainda hoje, repercutem na cultura atual, 3232 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ sendo retomadas e/ou atualizadas pela literatura contemporânea, cinema, teatro e artes em geral. 6. REFERÊNCIAS ABREU, Márcia. Cultura letrada: literatura e leitura. São Paulo: UNESP, 2006. AGUIAR, Vera Teixeira de; BORDINI, Maria da Glória. Literatura: a formação do leitor – alternativas metodológicas. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. ALVES, Magda. Como escrever teses e monografias: um roteiro passo a passo. Rio de Janeiro: Campus, 2003. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CHARTIER, Roger (org). Práticas de leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. ESCARPIT, Robert. A revolução do livro. Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas, 1976. _____. Sociologia de la literatura. Barcelona: Oikos-tau, 1971 _____. Lo literario y lo social. In: ESCARPIT, Robert et al. Hacia una sociología del hecho literario. Madrid: Edicusa, 1974. ISER, Wolfgang. O ato de ler. Rio de Janeiro: 34, 1997. v. 1. LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores & leitura. São Paulo: Moderna, 2001. LEITE, Lígia Chiappini M. & MARQUES, Regina H. Ao pé do texto na sala de aula. In: ZILBERMAN, Regina (Org.). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 11. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. RESUMEN: Investigación del rechazo/aceptación a la lectura de clásicos de los alumnos de segundo año de la enseñanza secundaria en IFSUL. La investigación se divide en dos fases: en la primera, se analizaron datos oriundos de cuestionarios estructurados; en la segunda, se analizaron entrevistas en parte estructuradas, aplicadas a un grupo menor de alumnos. Los resultados fueron analizados a la luz de teorías como la sociología de la lectura y de la formación del lector. Palabras-clave: lectores adolescentes, obras clásicas, enseñanza. 3233 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ESTUDO SOBRE FATORES MOTIVACIONAIS NA FORMAÇÃO LEITORA DE JOVENS DO SÉCULO XXI Marília Dias Treicha185 IFSul/ Pelotas/RS/Brasil [email protected] [email protected] RESUMO: O presente trabalho propõe analisar de que forma a vida escolar pode influenciar na formação de alunos/leitores. A partir de algumas inferências, investiga-se se esta influência foi positiva ou negativa; se os 185 Graduada em Letras - Português e Literaturas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); aluna do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias (CPG-Ling) do IFSul; professora da rede pública Estadual de Ensino (Ensino Fundamental - séries finais); tutora a distância do Curso de Educação Continuada (CPEaD) UAB/IFSul; Pesquisadora voluntária no projeto de pesquisa Por que ler os clássicos? e do projeto de pesquisaNarrativas de professores em curso online de formação continuada: refletindo sobre a construção da identidade docente. Email: [email protected]; [email protected]. 3234 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ alunos que começaram a ler no Ensino Fundamental continuaram ou adquiriram o hábito pela leitura no Ensino Médio e, assim, procuram-se os v “ v ” PALAVRAS-CHAVE: Leitura. Leitor. Literatura. 1. Introdução Buscando o porquê do desinteresse de alguns discentes diante da literatura e como alguns fatores podem influenciar nessa trajetória pela busca da leitura por prazer, utilizaram-se os dados obtidos no Projeto de Pesquisa Por que ler os Clássicos? Uma análise da relação entre leitores adolescentes e textos canônicos dos séculos XVIII e XIX que, numa primeira fase, analisava um questionário aplicado a alunos do 3º ano do Ensino Médio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFSul) – campus Pelotas – no período letivo de 2009. Numa segunda fase, o mesmo estudo verificava pontos importantes sobre os hábitos de leitura de alguns alunos previamente selecionados para uma entrevista que levantaria os aspectos positivos e negativos da leitura de obras clássicas. O projeto mencionado apurou que o hábito da leitura, quando não vem da família, vem da escola e, se existe alguém comprometido com a leitura dentro de uma sala de aula, os resultados são positivos, ou seja, o aluno desenvolverá o gosto pela leitura de textos tanto literários quanto não literários. Verificou-se que quanto mais o aluno for forçado a ler contra a sua vontade e sob pressão, mais distante da leitura prazerosa ele estará e cada vez mais se afastará dos livros. Isso é lamentável, pois seu futuro acadêmico/escolar ficará comprometido, já que a leitura da boa literatura é fundamental para a ampliação de nossa competência discursiva em língua escrita. Nesse âmbito, entende-se por literatura, segundo Leite (2004, p. 21), cada texto consagrado pela crítica como sendo literário, e até um texto, ainda não consagrado, mas com intenção literária, no qual é visível o trabalho da linguagem e da imaginação. 3235 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A leitura não é um ato de comunicação imediata; é, certamente, um objeto de partilhamento e, por isso, é muito importante envolver o aluno, instigá-lo, fazer com que se sinta parte de algo que lhe dê prazer (PENNAC, 2008, p. 77). Sendo assim, o professor que incentiva a leitura, que mostra o contexto em que as obras discutidas em sala de aula foram escritas e o que representam para a Literatura, além do próprio prazer de uma leitura sem cobranças infelizes – como fichas de leitura ou resumos de obras – certamente formará um leitor que no futuro buscará sozinho suas próprias leituras. A partir de tais constatações, questiona-se: Como a escola pode influenciar nos hábitos de leitura dos alunos? As influências podem tornar os alunos leitores autônomos, competentes, livres de lembranças negativas, que buscam o enriquecimento cultural e o prazer na leitura? Traumas causados por fichas de leitura com propostas que intimidam o aluno, durante o período escolar, tornam a leitura um sacrifício? 2. Metodologia Com a intenção de descobrir o que leva os alunos a nutrirem o gosto ou a aversão à leitura, levantaram-se elementos que atuam e/ou influenciam na formação de alunos/leitores. Para isso, serviram de base as entrevistas com os seis alunos do 3º ano do Ensino Médio regular 186 do IFSul – campus Pelotas –, que faziam parte do Projeto de Pesquisa Por que ler os clássicos? Uma análise da relação entre leitores adolescentes e textos canônicos dos séculos XVIII e XIX. Os dados obtidos no projeto de pesquisa foram analisados neste trabalho, sob a forma qualitativa, detendo-se nas entrevistas dos sujeitos que aqui serão nomeados pelas duas letras iniciais de seus nomes. 186 O Ensino Médio regular foi extinto e, hoje, substituído pelo Ensino Médio integrado ao técnico. 3236 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ O projeto de pesquisa,anteriormente citado,teve por objetivo verificar as impressões de leitura de alunos do Ensino Médio Regular do IFSul – campus Pelotas – sobre textos literários clássicos dos séculos XVIII e XIX. O projeto contou, na primeira fase da pesquisa, com cento e dezessete (117) informantes que, através de um questionário, responderam sobre seu histórico familiar e as influências na sua formação cultural e de leitor, além de práticas de leitura e vida escolar. Tais dados buscavam definir o perfil dos entrevistados e sua formação de leitura. Na segunda fase do projeto, foram feitas entrevistas, com seis (6) alunos selecionados, segundo o critério da autodeclaração como leitores ou não leitores. Foram selecionados para essa fase três alunos que, na primeira fase, haviam se autodeclarado como não leitores e três que se autodeclararam como leitores. A entrevista abordava aspectos positivos e negativos da leitura de obras clássicas, a importância dessas leituras e a relação entre as obras lidas e o acréscimo cultural que proporcionam. A entrevista também questionou o incentivo dado a propostas de estímulo à leitura por parte da escola e os hábitos de leitura dos entrevistados. Dentre os aspectos levantados pelo citado Projeto de Pesquisa, ressalta-se a influência que a escola e a família exercem para a formação de alunos/leitores, através do histórico de suas leituras e de sua trajetória escolar. v “ pação cooperativa do leitor na interpretação e na reconstrução do sentido e das intenções pretendidas pelo ” ( N UN S 00 ) v escrita. Assim, a leitura torna-se uma atividade de interação entre sujeitos, sendo o leitor um dos sujeitos mais participativos dessa interação. A leitura consiste em um processo de interlocução entre o leitor e o autor, mediado pelo texto, em que este serve de suporte para buscar informações e conhecimento, além de pretexto para outras leituras e de base 3237 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ para uma leitura desinteressada, gratuita, sem pressões, sem intenções de obter resultados (GERALDI, 2004, p. 92). A partir dessas reflexões, analisase o que revelam as entrevistas. 3. Fundamentação Teórica Para Abreu (2001, p. 144), o texto escrito revela dois modos de contato: a leitura de instrução, como símbolo de conhecimento ou garantia de seu acesso; e a leitura de evasão e entretenimento, promovida pela literatura. A primeira remete à busca de informações e conceitos que promovam a procura por outros saberes. A segunda proporciona um envolvimento tão grande do leitor que este acredita fazer parte da narrativa e pode, dessa forma, evadir-se de sua realidade, de seus problemas, criando um novo plano, no qual se sente seguro, autoconfiante. Barthes (2006, p. 11) diz que o prazer da leitura vem de certas rupturas, certamente rupturas com a realidade cruel em que vivemos. Ter em mãos um livro capaz de nos conduzir a lugares jamais visitados, a épocas que não voltam mais, a emoções que só sentimos através da leitura, são realmente prazeres que só desfrutamos quando deixamos de lado as barreiras do mundo real. Tanto um modo de leitura quanto o outro noslevam ao conhecimento, pois questões culturais, políticas, sociais e históricas estão sempre envolvidas e fazem parte do nosso discurso. Segundo Magda Soares (1998, p. 18) “ q ” é uma forma de inserção social do indivíduo, de acordo com o uso competente que ele pode fazer da leitura e da escrita. Acredita- q “ z ” (P NN 008 0) transforma, faz com que repense seus atos e reflita sobre sua própria existência. Um bom texto, e também um texto que não nos agrada, pode despertar os mais diversos sentimento “ x ” (BARTHES, 2006, p. 39) conceitos e ideologias que temos arraigados. 3238 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ D ( 00 77) “ v v processos e estratégias de realização na dependência de diferentes õ condições do tex ” D forma, deve-se, antes de tudo, levar em consideração os interesses, o desenvolvimento intelectual, as experiências de vida dos alunos e a comunidade onde está localizada a escola, para que exista interação entre o professor, os alunos e as obras oferecidas. Assim, a leitura não dependeria apenas do contexto linguístico, mas também do contexto extralinguístico da x “ x alcançada por sua leitura crítica implica a percepção de relações entre o texto x ” (FR R 990 ) O ensino de Literatura passaria a ser vivenciado na obra literária como experiência transformadora e não como assimilação de mecanismos j q “ dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar v ” (P NN 008 0) D Parâmetros Curriculares Nacionais (1997, p.29), o trabalho com o texto literário deve ser incorporado às práticas cotidianas da sala de aula, já que se trata de uma forma específica de conhecimento. Antunes sugere apresentar a Literatura aos poucos, antes mesmo da alfabetização, através de brincadeiras com as letras e os sons, da invenção do texto livre e do prazer em ouvir e contar histórias, cultivando, a partir daí, o gosto pela leitura, que deve ser exercitado ao longo da vida (2003, p.22). Robert Escarpit e Ronald E. Barker (1975, p.122) também recomendam que o livro entre na vida da criança ainda na primeira infância, antes da escola, fazendo parte de suas atividades cotidianas e suas brincadeiras. Assim, quando a escola, na figura do professor, resgatar a dimensão lúdica e prazerosa da leitura, através de diferentes modalidades de gêneros e dos suportes multimidiais de leitura e apresentar formas criativas de promoção da leitura, estará, enfim, utilizando a leitura como uma prática social (BURLAMAQUE, 2005, p.40). 3239 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Ferreiro (2009, p. 57) salienta que é exigência fundamental dos tempos modernos iniciar as crianças, primeiro, nos textos narrativos e, depois, fazê-las circular pelos diversos tipos de textos. Vale dizer que não existem textos privilegiados, mas que é importante a exposição simultânea à diversidade. Assim, os pequenos leitores já poderão criticar e ter critérios para selecionar suas leituras antes dos últimos anos do Ensino Fundamental. Mesmo a escola sendo um dos estimuladores, às vezes ela deixa a desejar, quando encontramos bibliotecas mal equipadas ou sem profissionais capacitados para atender à demanda dos alunos. Ferreiro (2009, p. 62) acredita que O acesso à diversidade de livros deveria dar-se na escola; se ela não cumpre sua função, outros espaços têm de ser criados ou recriados: as bibliotecas públicas, os centros culturais, os programas de televisão, o cinema, o jornal, as redes informáticas. P ( 008 9) q “ aprendizagem, fazemos da glosa e do comentário um dever para os ” q v -los dos livros, pois falar de uma obra aos adolescentes e exigir que falem dela podese revelar muito útil, para acrescentar conhecimento, mas pouco eficiente quando os alunos ainda não possuem uma bagagem cultural para criticar ou apreciar uma obra ao ponto de poderem analisá-la profundamente. Ao mesmo tempo, se não contextualizá-la, corremos o risco de sermos criticados pelos próprios alunos, que mais cedo ou mais tarde sentirão a falta de tal embasamento teórico para prosseguirem com suas próprias leituras. Assim, devemos ter o cuidado de reconhecer a capacidade e a maturidade da turma para que os ensinamentos transmitidos sejam aproveitados no momento de discutir uma obra literária. Alguns professores deveriam colaborar para a formação do hábito de leitura de seus alunos, mas equivocadamente pensam que a Literatura é 3240 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ apenas mais um componente curricular passível de metas, notas e registros. Sabe-se que, na rede de ensino, a Literatura tem o papel de se mostrar como conjunto externo e determinante de obras catalogadas e consagradas que o aluno adiciona às informações já recebidas. Na rede pública, normalmente não é trabalhada no Ensino Fundamental como uma disciplina separada do ensino de Língua Portuguesa. Geralmente, o ensino privado é que tem tomado essa iniciativa. Contudo, a Literatura ainda parece ser tratada de maneira superficial, detendo-se no conjunto que compreende o sistema de obras, e como uma disciplina escolar que se confunde com a história da literatura, forma esta que é abordada mais tarde, no Ensino Médio, através de leituras obrigatórias, difíceis e cansativas, conforme reclamações feitas pelos alunos entrevistados. A experiência literária do professor é um dos componentes imprescindíveis no trabalho que ele desenvolverá em sala de aula com o objetivo de formar novos leitores literários (BURLAMAQUE, 2005, p. 35). Se o docente gostar de ler, for apaixonado pelo que faz e souber cativar, interagir e atrair o aluno para novas leituras, este se sentirá à vontade para se comprometer com a proposta do professor. Mas, antes de tudo, o professor deve saber respeitar a leitura de cada aluno, para que ele não se sinta pressionado ou obrigado, pois cada leitor já traz suas referências individuais, sociais e históricas, e a partir delas construirá sua interpretação e interação com o texto. Conforme Burlamaque (2005, p. 36), quando é respeitada a liberdade do aluno, este alcança a autonomia leitora no processo de construção de sentidos, estabelecendo relações com a realidade que o cerca. Para Leahy-Dios (2005, p. 41), a causa do desinteresse e da falta de incentivo pela leitura deve-se ao fato de as escolas estarem mal equipadas, os professores não gostarem de ler ou não possuírem tempo para as leituras e os próprios alunos já chegarem desinteressados na sala de aula, pois suas famílias são indiferentes à leitura. Antunes (2003, p. 28) destaca que, quando a leitura é transformada numa atividade puramente escolar, sem gosto, sem 3241 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ prazer, convertida em momentos de treino, de avaliação ou em oportunidade para futuras cobranças que culminem com as conhecidas fichas de leitura, “ tornaú v z õ ” Se a Literatura for tratada como algo essencial, necessário nos primeiros anos escolares, ou antes, durante o período em que as crianças ainda não sabem ler, mas podem visualizar histórias por suas ilustrações e recontáq v z q “ b ” “ ” M encontrados nos relatos das entrevistas constantes do relatório de conclusão do Projeto de Pesquisa analisado. 4. Análise das entrevistas As entrevistas serão analisadas a partir de questionamentos explorados através de pontos relevantes presentes nos discursos dos entrevistados, os quais confirmam nossas inferências sobre fatores influenciáveis nos hábitos de leitura dos jovens. 4.1. Quem são os leitores? Na primeira fase da pesquisa, ao responderem ao questionário, os informantes deveriam, em uma determinada questão, declarar-se como leitores e não leitores. Para a segunda fase, a entrevista, foram escolhidos três informantes que se autodeclararam leitores (AR, IS, RO) e mais três (CI, FL, MA) não leitores. As justificativas para a escolha da resposta foram pessoais, seguindo seus próprios critérios, às vezes equivocados, como veremos a seguir, em um trecho de uma das entrevistas com alunos do 3º ano do Ensino Médio regular. O informante não se considera leitor, por acreditar que somente quem lê livros literários é um verdadeiro leitor: [...] E – Tu te consideras uma leitora? CI – Não. 3242 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ E – Não? Por quê? CI – Porque não sei, leitora, não sei, eu tenho na cabeça que leitora é quem lê livro. E – Mais literário. CI– É, e como eu nãoleio, eu digo que não. [...] (ALUNO CI) [grifo nosso] Verifica-se que há um conceito equivocado para leitura, pois o informante acredita que somente a leitura de livros literários o tornam um leitor, algo que se dá a todo instante através de revistas, jornais, textos científicos etc. Abreu (2001, p. 154) lembra que a delimitação de Literatura ou literário é resultado de um certo conjunto de textos e de determinados modos de ler como válidos; o desprezo aos demais está na base dos discursos que proclamam a inexistência ou a precariedade da leitura no Brasil. Outro informante relata que possui o hábito de ler através da leitura j “a parte esportiva [...], ou alguma matéria que me interessa” (Aluno MA), mesmo assim, ainda se considera um não leitor. Abreu (2001, p. 154) discute o conceito de leitor dado a quem apenas lê os livros avaliados positivamente pela escola, universidade, grandes jornais ou crítica literária. Os demais escritos, por tratarem-se de objetos desvalorizados, são leituras apagadas em favor da preservação da leitura mítica, prestigiada pela crítica. Desta forma, segundo Abreu, negam-se os objetos ou as outras práticas de leitura. É o que se verifica nas declarações dos entrevistados, que preconceituosamente menosprezam suas próprias leituras. 4.2. Escola e professores influenciam na formação leitora? Constata-se que a leitura por obrigação é um dos motivos da aversão a boas leituras, o que marcou profundamente este outro adolescente, afetando sua trajetória escolar. Segundo Burlamaque (2005, p. 37), a modalidade de leitura empregada nas escolas representa uma ação pedagógica que tenta legitimar a leitura escolar; para isso, se concretiza sob o controle do professor, que a direciona e a submete à autonomia do 3243 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ aprendiz, através de registros literários. Tal método prejudica o discente e reduz sua capacidade de interagir com o texto. [...] MA – É, não consigo me concentrar, quando eu não gosto; por exemplo, a professora pediu, mas eu não queria lê o livro; tá, aí é como se eu fosse, entre aspas, obrigado a ler, entendeu? Aí eu não consigo me concentrá. Eu fico bravo, aí eu não consigo..., não consigo mesmo. Simplesmente eu travo e não consigo lê. Aí eu vô lê, aí eu vô lendo, lendo, lendo; aí tem uma hora que eu canso, aí deu, chega, não consigo mais, sabe? Aí eu já não sei o que leio, aí tenho que lê duas ou três vezes a mesma página. E – Lê por obrigação tu não gosta? MA – Não, não consigo. (ALUNO MA) [grifos nossos] Logo a seguir, encontramos mais um motivo que levou o jovem entrevistado a perder, por um longo tempo, o gosto pela leitura, que só foi lentamente retomado, no final do Ensino Médio. Trata-se de um professor do Ensino Fundamental que abordou a leitura como uma obrigação curricular, “ x ” q b q por muitos anos, afastando-o dos livros. [...] E – na escola, teve algum professor lá no fundamental... MA –No fundamental teve, que pedia livros, que acho que foi aí que eu parei nesse ponto: eu não gosto de lê. E – O que aconteceu? MA – Por causa que foi uma exigência da professora. Tinha que lê, não lembro se era um por mês, ou era um por semana, não interessava que tamanho. E – Foi em qual série? MA – Na oitava. E – Antes disso tu ainda lia? MA – É, eu lia jornal só, tipo umas matérias só, mas não lia muito. E foi bem nessa fase aí que deu aquele estalo, sabe? Pô, eu leio muito devagar, eu não vô consegui, aí começou E – Achô que tu não ia consegui fazê as leituras. MA – É, e aí foi quando travô geral e eu não quis. 3244 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [...] E – Então tu achas que teu hábito da leitura se refere a estes textos que tu não gostô muito ou já desde casa que tu não gosta e... MA – É, eu acho que tudo foi se formando uma bola de neve. A partir do momento que eu não lia em casa e do nada na minha vida aparece uma professora que diz, assim, que eu tenho que lê um livro por mês, acho que trava assim. Foi bem marcante o problema. E – Então, não tem muito a vê com as obras. MA – Não, não, não tem muito a vê com as obras. Tem mais a vê com a.... E – Teu estímulo, que tu não tem... MA – Que do nada eu passei a sê obrigado a lê. [...] (ALUNO MA) [grifos nossos] A leitura por obrigação, cobrada de forma, muitas vezes, equivocada não ajuda o aluno, não o cativa. É papel do professor respeitar o tempo de leitura de cada aluno, além de permitir que faça a construção de sua própria interpretação e interação com o texto, sem intervenção imediata e preconcebida (BURLAMAQUE, 2005, p. 36). Pennac (2008, p. 110-1) sugere que não se peça nada em troca durante a atividade de leitura, nenhum julgamento de valor, explicação de vocabulário, análise de texto ou indicação biográfica, pois quando o aluno estiver reconciliado com o livro, estiver intimamente envolvido, vai percorrer voluntariamente o caminho que vai do romance ao autor, do autor à sua época e da história lida a seus múltiplos sentidos, e, assim, alcançará os objetivos do professor. Nesse momento, poderá, sim, exigir-lhe leituras que antes não seriam produtivas pela imaturidade leitora desse jovem, e, até mesmo, trabalhar-se o contexto das obras consideradas clássicas sem ferir o aluno com explanações incompreensíveis sobre determinado livro ou autor. Verifica-se que o incentivo à leitura no Ensino Fundamental é muito importante, mas nem sempre ele existe de forma efetiva. Abaixo, são apresentados vários relatos de quem não teve o devido incentivo, tanto da escola quanto do professor, no Ensino Fundamental. Existe, apenas, a presença de alguém da família motivando esses jovens ainda na infância. 3245 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [...] E – Quem é que te incentivou à leitura? AR – Ah! Eu acho que... é que desde pequena que eu sempre fui pedindo livro, mas acho que até minha mãe que sempre comprava desde pequenininha, primeiro pintando e aí com o tempo fui gostando. E – E na escola? AR – Na escola... eu acho que não teve muito isso no fundamental, assim, de incentivarem a lê assim. [...] (ALUNO AR) [grifos nossos] [...] RO- Eu só acho que, assim, estranho na forma de educação é, por exemplo, por que noensino fundamental, nem que seja na quinta série, não tem... não é obrigado a lê, não é obrigado, não tem... não exigem essa leitura. E- Não tiveste nenhum tipo de estímulo lá nas séries iniciais e nem finais? RO- Não, o primeiro livro que eu acho que foi Peter Pan.. era bem grande. Que uma tia minha deu, eu li, mas demorô, eu acho que eu tava na quarta série, mas de resto não, literatura não tive contato nenhum, só fui tê no Ensino Médio. [...] (ALUNO RO) [grifos nossos] [...] E- E na escola tu foste estimulada? CI – Eu pegava livros na escola, frequentemente. E – Na biblioteca? CI – Na bilbioteca. E – As professoras trabalhavam este tipo de coisa? Ou era por que tu era estimulada em casa? CI – Não, era porque eu era estimulada. A professora nunca trabalhou no colégio. [...] (ALUNO CI) [grifos nossos] [...] E- Tu costuma te interessá. E tu achas que assim, no fundamental, tu não foste estimulado também, pelos professores à leitura? FL- Não. E- Não tiveste nenhum professor que procurô estimulá a leitura? De forma alguma? 3246 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ FL- Tinha biblioteca no colégio; daí ficava contigo, se tu quisesse pegá livro. E- Mas ficava livre, não era feito nenhum trabalho em sala de aula? FL- Na oitava série só que eu tive que lê Dom Casmurro.[...] FL- É que tinha uma avaliação. [...] (ALUNO FL) [grifos nossos] Nos relatos acima, verificamos que tanto os entrevistados autodeclarados como leitores (AR e RO) quanto como não leitores (CI, FL e MA) não tiveram incentivo na escola. Os alunos leitores souberam superar a falta de estímulo que tiveram no ambiente escolar, por possuírem uma base leitora forte, trazida, certamente, do ambiente familiar. Mas o que chama a atenção é que os discentes que não receberam propostas de leitura durante o Ensino Fundamental reclamaram a sua ausência, enquanto os que receberam, reclamaram também, alegando que se sentiam pressionados a ler pelo professor ou para realizar uma avaliação. Fica evidente que tanto a falta de indicações de leitura quanto as propostas equivocadas de alguns professores, resultaram em críticas por parte dos informantes. De qualquer forma, o modo de abordar ou de deixar de abordar a leitura, trouxe más lembranças a esses jovens. A escola, sendo a instituição encarregada da educação formal, deveria desenvolver a competência leitora de seus alunos, e a figura do professor deveria desencadear as múltiplas visões que cada criação literária sugere, enfatizando as mais variadas interpretações pessoais dos discentes, as quais oportunizariam a vivência de diferentes histórias e emoções, permitindo-lhes uma visão mais crítica do mundo (BURLAMAQUE, 2005, p. 41). Às vezes, a escola falha no cumprimento de seu papel, e os maiores prejudicados são os alunos. Em alguns momentos, os professores são responsabilizados, por serem os principais agentes nesse processo, mas também são vítimas pela falta de educação literária na sua própria formação. Existem marcas negativas promovidas por alguns professores, mas há o que positivamente colabora com a leitura. Ressaltamos que dos seis 3247 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ entrevistados, apenas um foi marcado pelo incentivo positivo de um professor ainda no Ensino Fundamental, como verificamos na passagem abaixo: [...] E – E no ensino fundamental, lá atrás, o professor te incentivava a lê na escola? IS –Sim, eu tive uma professora de Português na quinta série que incentivava a gente bastante a lê. [...] (ALUNO IS) [grifos nossos] Portanto, o docente deve refletir e avaliar sua prática pedagógica para oferecer propostas de leitura atraentes a seus alunos, as quais oportunizem vivenciar diferentes histórias e emoções, além de promover a autonomia literária dos jovens discentes (BURLAMAQUE, 2005, p. 41). Para isso, é importante a formação continuada dos profissionais do ensino. Culpar alguém pela falta de leitura de nossos jovens, sem termos nos esforçado ao máximo para sanar essas dificuldades seria injusto, não? Mesmo quando “ -se da invasão eletrônica; e se a culpa não é dos joguinhos hipnóticos, é da escola: a aprendizagem aberrante da leitura, o anacronismo dos programas, a incompetência dos professores, a decadência bb ” (P NN 008 28). Todos os meios tecnológicos, se bem dominados e utilizados, podem reverter em práticas construtivas em sala de aula, facilitando o acesso de nossos alunos a novas propostas de leitura, até mesmo de uma releitura da própria leitura através de projetos capazes de conciliar o uso da informática e de toda a tecnologia que nos cerca. Ferreiro (2009, p.39) mostra-se preocupada com o futuro dos jovens e faz um apelo a todos os que participam da formação discente: Que nos comprometamos com os futuros leitores para que a utopia democrática pareça menos inalcançável. As crianças – todas as crianças, garanto – estão dispostas para a aventura da aprendizagem inteligente. [...] São o que são e têm o direito a ser o que são: seres 3248 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ mutáveis por natureza, porque aprender e mudar é seu ‘ ’ ‘ ’ ‘ ’ que pode gestar um futuro complexo: ou seja, novas maneiras de dar sentido (democrático e pleno) aos v b ‘ ’ ‘ v ’ Q j b conjugação não o permita. Deve-se semear nas crianças a curiosidade da leitura, pois já se constatou, através do passado de alguns entrevistados, que é lá que deve ser dedicada a atenção para dar continuidade no presente e pensar num futuro cheio de leitores sem traumas, que seguros de si poderão reivindicar leituras aos seus professores e familiares. Leituras essas que poderão modificar suas vidas, pois os livros trazem além do conhecimento, a vontade de saber mais e mais, de conquistar horizontes e de transformar sonhos em realidade. 4.3. O que desmotiva os informantes? Um fator que desmotiva os alunos é o vocabulário das obras consideradas clássicas. Apesar de acreditarem que esse vocabulário enriquece e colabora para uma escrita correta, pois“... te dá uma noção da evolução da escrita”(Aluno MA) e é importante para o ENEM, vestibular etc., acham-no difícil e distante da linguagem falada atualmente, que cada vez mais agrega palavras comuns da oralidade na escrita. Conforme alguns dos v “ não tem muito a ver com o que eu vivo hoje; então eu acho que não tem muito a ver com o contemporâneo” (Aluno CI), pois são “histórias antigas...” (Aluno AR). Estranham o contexto ou não conseguem fazer a relação com a época em que foram escritas, talvez pela pequena bagagem cultural que carregam ou, mesmo, pela imaturidade que ainda possuem. [...] E – E tu acha importante lê esse tipo de obra? Uma obra mais clássica, mais antiga? MA- Eu até acho importantepra quem gosta, claro, né, por causa que te dá uma noção da evolução da escrita, tá, que é por exemplo no vestibular eles exigem 3249 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ muito isso. Isso vai te ajudá até a entrá numa faculdade. A evolução da escrita, por exemplo, esse ENEM que teve eu fiz e a prova de português foi muito com base nisso, na evolução da escrita, como eles escreviam antigamente, como eles estão escrevendo agora, da fala das pessoas em cima da escrita, como é que é a escrita correta e como é que as pessoas estão falando hoje em dia. E – E essa forma de escrevê, tu acha que dificulta essa forma mais antiga de escrevê, pra tua leitura? MA – Até certo ponto sim, por causa que nós, hoje em dia, a gente fala de uma maneira muito diferentedo que se escrevia antigamente, então, assim, a gente tá acostumado a ouvi algumas coisas que não tem no livro, que são, por exemplo, algumas palavras antigas que já não se fala mais, que não se pronuncia mais, aí fica complicado. (ALUNO MA) [grifos nossos] [...] E – Tu acha mais difícil a compreensão deste tipo de texto, de obra clássica? CI – Acho, porque o vocabulário é mais antigo, é um vocabulário mais culto. Não que os outros contemporâneos não sejam, né? É mais culto, bem mais culto, bem difícil. [...] (ALUNO CI) [grifos nossos] É evidente que essas dificuldades a respeito do vocabulário desmotivam esses jovens, mas pelas poucas leituras que, geralmente, carregam e pelo choque com tais obras e épocas ainda desconhecidas. Calvino (2007, p.10) afirma que as leituras na juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração e inexperiência do leitor, mas sempre será positiva, pois sempre se tirará algo que terá seu proveito no momento de prestar avaliações ou para a futura vida acadêmica. Com a necessidade de passar em processos seletivos nacionais ou na própria escola, o aluno procurará a leitura de obras clássicas, que podem até não o agradar, mas lhe valerão o conhecimento e o enriquecimento cultural de que necessita. Calvino (2007, p. 13) ainda sugere que a escola deva fazer com que os jovens conheçam certo número de clássicos, dentre os quais, os alunos poderão, mais tarde, reconhecer os próprios clássicos, ou seja, os que o agradam. Assim, é papel da escola dar instrumentos para que essa escolha seja feita futuramente, fora do ambiente escolar. 3250 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Pode-se dizer, dessa forma, que os jovens, mesmo não sentindo prazer nas leituras de clássicos durante o período em que estão no Ensino Fundamental e/ou Médio, sabem da importância da leitura dessas obras para seu futuro. Os relatos dos informantes comprovam que eles já estão sentindo as mudanças positivas na interpretação e na percepção da evolução da q v b “ ” compreensão de textos. 4.4. A família promove o hábito da leitura? Em várias entrevistas, pais e irmãos aparecem como incentivadores dos entrevistados, antes mesmo de seu ingresso no meio escolar. Isso pode significar que o grande motivador, quando a escola não desempenha seu papel, é a família: [...] AR – Ah! Eu acho que... é que desde pequena que eu sempre fui pedindo livro, mas acho que até minha mãe que sempre comprava desde pequenininha, primeiro pintando e aí com o tempo fui gostando. [...] E – E o estímulo maior tu acha que tem que vir de casa? AR – É, eu acho. É, às vezes na escola, mas acho que geralmente em casa... é muito mais assim [...] (ALUNO AR) [grifos nossos] [...] E- A maioria das pessoas tem isso... De quem tu acha que é, por exemplo, a tua influência... o fato de tu lê, gostares de lê ou não, isso é por influência de quê? Da família ou da escola? CI – Acho que é mais da família. Eu tenho uma biblioteca infantil de 151 livros, assim, que a mãe comprava e eu adorava aqueles livros, ainda gosto deles como, assim, como ouro em casa. Ah, eu não sei, acho que é por causa disso mesmo, foi perdendo essa vontade, conforme foi passando os anos, a ocupação, não sei. 3251 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ [...] (ALUNO CI) [grifos nossos] [...] E – A tua família, eles te incentivam à leitura? IS – Sim, desde pequena. [...] (ALUNO IS) [grifos nossos] [...] E- E em casa, existe, assim... existiu algum tipo de estímulo à leitura ou não? RO- Sim, com certeza, porque a minha mãe é professora de história. [...] RO- É teria que tê um processo de educação mesmo, que nem tê que fazê um exercício, é coisa que a gente já tá acostumado a fazê se pegasse ..... a gente ia fazê aí, então, eu acho que, sim, os professores.... tem que tá dando a aula, tem que tá ensinando, e ao mesmo tempo tem que tá motivando pra lê, mas aí entra aquela questão acho que é pouco tempo ali três aulas, é pouco tempo pra mudá um hábito, criá um hábito. E- Deveria sê uma sequência desde as séries inicias pra que o aluno realmente criasse esse hábito, né? RO- É. [...] (ALUNO RO) [grifos nossos] Segundo Leahy-Dios (2005, p. 33), os principais responsáveis pela formação de leitores motivados e competentes são a família, a escola, a comunidade, os governos em todas as instâncias e a mídia. Através dos relatos, temos a dimensão do papel desempenhado pelo ambiente familiar para a construção desses leitores, que autodeclarados leitores e não leitores, sentem ambos que o estímulo da família é superior ao estímulo que raramente sentem por parte da escola. Se todos os pais fizessem a sua parte durante os anos de formação de seus filhos, minimizariam os problemas que estes enfrentarão no futuro, quando se depararem com escolas mal preparadas, bibliotecas sucateadas, professores desmotivados e desatualizados. Se o hábito de leitura dos jovens for alimentado durante toda a infância e juventude, não existirá docente z z “ v ” v b 3252 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ou da apresentação de uma obra difícil de ser lida por sua complexidade. Desta forma, podemos afirmar que a família é um meio de incentivo muito importante e enriquecedor, que pode, realmente, promover a leitura. 4.5. A leitura, afinal, é importante? Na passagem transcrita abaixo, podemos observar que os alunos compreendem a importância da leitura em suas vidas: [...] IS – Sim, eu acho que toda leitura é válidapra tu tirá uma reflexão, tentá aplicá na tua vida ou tentá mudá alguma coisa. [...] (ALUNO IS) [grifo nosso] O v “positiva” ( ; b S) “abriram espaço para a literatura” (Aluno RO) em suas vidas. Os informantes não leitores confirmam essas õ z q “ajudou a interpretar” ( ) “acho importante” (Aluno MA). Apesar das dificuldades que possuem para interpretar textos canônicos, pelo vocabulário complexo e pelo excessivo detalhamento, os alunos entrevistados admitem que a leitura dessas obras abriu as portas para novas propostas literárias, revelando que o exercício da leitura promove o ato da interpretação de qualquer outro texto. Sabe-se que a leitura conhecimentos, amplia horizontes. É é transformadora, q que emancipa “ gostar de ler quando, de alguma forma, a qualidade de suas vidas melhora ” (P N 997 9); v a leitura gera uma melhoria na condição social dos indivíduos.Abreu (2001, p 157) afirma também, que não é preciso que todos leiam ou gostem dos mesmos livros, mas que tenham suas próprias opiniões sobre eles. 3253 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A leitura de um clássico durante o Ensino Médio, geralmente, é fonte de críticas por jovens leitores. As reclamações chegam por diversos motivos, mas o estranhamento deve-se ao fato de não conseguirem relacionar o vocabulário da obra ao que popularmente utilizam na linguagem oral. O detalhamento ou as longas descrições são cansativas, as propostas avaliativas do professor desanimam, tornando a leitura de tais obras um sacrifício necessário para alcançar a aprovação. v b q “ j v qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se muitos detalhes, níveis e significados ” ( 007 0) L q q q q v saberes, conhecimentos, que serão agregados a nossa história de vida e que valerão sempre. Ler novamente a mesma obra em tempos diferentes, com idades diferentes, revela uma nova visão da própria obra, uma nova perspectiva, pois a bagagem cultural e social carregada permite um novo olhar, uma nova interpretação, que às vezes, pela inexperiência, ficaram ignoradas. E a releitura de um clássico, é uma leitura de descoberta, como a j q “ q v z ” ( LV NO 007 q z ); q v z jovens acham complicado seu vocabulário e difícil sua leitura. O que o livro diz no momento da primeira leitura, ainda não é compreendido pelo jovem, que na segunda vez que ler, perceberá detalhes que antes passaram despercebidos por seus olhos e que a maturidade lhe revela. 5. Considerações Finais Após analisar os relatos das entrevistas, verifica-se que os alunos que já liam no Ensino Fundamental não abandonaram esse hábito no Ensino Médio. Positivamente, quem não se considerava leitor aos poucos está percebendo que novas leituras são importantes, mesmo que não sejam b “ atividade de acesso ao conhecimento produzido, ao prazer estético e, ainda, 3254 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ ” ( N UN S uma atividade de acesso às especificidades 00 70). A escola ainda deixa a desejar durante o Ensino Fundamental, assim como seus docentes que ainda se preocupam mais com conteúdos gramaticais do que com a leitura de obras literárias. Fica evidente que a família tem um papel importante no incentivo e iniciação à leitura dos jovens ainda na infância, pois os alunos entrevistados que se autodeclararam leitores ou não leitores relataram que pelo menos um dos membros da família o motivou à prática de leitura. Os motivos que levam os alunos/leitores à leitura de obras clássicas ainda são o acréscimo cultural, a busca de conhecimento para provas ou avaliações escolares, assim como o ENEM e os vestibulares, e o aperfeiçoamento da escrita através do vocabulário erudito/culto. Esses elementos motivacionais refletem uma exigência de nossa sociedade, que anseia por boas oportunidades de estudo, tendo como fim um bom emprego e a segurança de ter um trabalho que possibilite o crescimento social, tendo v q “ v ” ( BR U 2001, p. 156). Ao mesmo tempo, o que desmotiva esses incipientes leitores é o próprio vocabulário das obras consideradas clássicas. Apesar de o acharem importante e enriquecedor, acham-no distante da realidade, da linguagem oral, do contexto no qual vivem. Preferem adaptações das obras ditas clássicas pela dificuldade que encontram ao lê-las. A busca de textos canônicos, ainda não se dá de forma autônoma, voluntária; necessita que o professor indique o caminho que devem percorrer, qual texto é mais indicado para cada avaliação que esse aluno irá prestar. Os entrevistados também citam o excesso de descrições como um fator que cansa o leitor, e o faz buscar na literatura de massa, um vocabulário simples e uma leitura dinâmica e envolvente que, provavelmente, traga mais prazer que a leitura de um clássico. 3255 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A leitura de um clássico por prazer ainda não foi despertada para a maioria dos informantes. As leituras desinteressadas, sem cobrança, ainda produzem mais satisfação a esses jovens. Para obter-se o rendimento máximo da leitura de um clássico, deve-se saber alternar com a leitura de atualidades, numa sábia dosagem, como sugere Calvino (2007, p. 15). Assim, relacionar o contexto de uma obra ao momento em que se vive, revela um bom entendimento da obra lida, e é o que vários autores utilizados neste trabalho recomendam. Mas para isso é necessário maturidade que a maioria dos entrevistados ainda não possui para tais leituras. O incentivo do professor é muito questionado, já que é quem deve fornecer meios para que o aluno entre em contato com os livros e que sinta a necessidade de lê-los, sem cobranças e sem obrigações, apenas pelo prazer de desfrutar de uma boa leitura. Alguns professores mencionados pelos entrevistados não desempenham esse papel, como incentivadores. Cativar o aluno não é tarefa fácil, mas é essencial envolvê-lo no universo literário ainda no Ensino Fundamental, pois é neste momento que se verificam os maiores traumas dos alunos entrevistados que se consideram não leitores. Estes culpam os docentes pela aversão que sentem às leituras em geral, não apenas de obras clássicas. Ao mesmo tempo, os docentes que tentaram inserir a literatura foram criticados pelas cobranças que fizeram aos alunos, através de fichas avaliativas. Talvez a abordagem adotada por esses profissionais não tenha surtido resultados por não saberem qual caminho deveriam seguir para envolver os alunos. A leitura é responsabilidade de cada um de nós e também é um meio “ de ampliar nossos conhecime pessoas lessem mais, a educação brasileira não seria mais um problema. Se as pessoas lessem mais, não haveria diferenças entre um pobre e um ” ( BR U 00 4 ) F z sa parte para transformar essa realidade de leitores inseguros, em leitores autoconfiantes, que sabem o que ler e o que gostam de ler. 3256 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ 7. Referências Bibliográficas: ABREU, Márcia. Diferença e desigualdades: Preconceitos em leitura. In: MARINHO, Marildes. (org.). Ler e navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas: Mercado das Letras – ALB, 2001. ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro e interação. São Paulo: Parábola, 2003. BARKER, R.; ESCARPIT, R. A fome de ler. Rio de Janeiro: FGV, 1975. BARTHES, Roland. 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Gramática e Literatura: desencontros e esperanças. In: GERALDI, João Wanderley (org.). O texto na sala de aula. 3.ed. São Paulo: Ática, 2004. PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: L & PM, 2008. 3257 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ RESUMEN: En este documento se propone examinar cómo la vida escolar puede influir en la formación de los estudiantes y lectores. De algunas deducciones, investiga si esta influencia fue positivo o negativo; Si los estudiantes han comenzado a leer en escuela primaria continuó o adquirido el hábito de la lectura en la escuela secundaria y así buscar las razones y los "desmotivos" para leer clásicos. PALABRAS CLAVE: Lectura. Lector. Literatura. 3258 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ PROPOSTA PARA TRABALHAR COM JORNAL NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA Patrícia Martins Tavares E-mail: [email protected] Autor: Patrícia Martins Tavares graduada em Letras - Língua Portuguesa e Respectiva Literatura - pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Aluna do curso de Pós-Graduação Lato Senso em Educação do Instituto Federal Sul-Riograndense (IFSUL). Já trabalhou como professora da rede particular na cidade de Pelotas. Atualmente atua como tutora da Rede Gaúcha de Ensino Superior a Distância (REGESD) PROPOSTA PARA TRABALHAR COM JORNAL NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA Resumo Refletindo quanto à metodologia mais adequada ao ensino de língua portuguesa, pensei acerca de uma nova proposta de trabalho à luz das perspectivas funcional e lingüístico textual. Para tanto, propus atividades de interpretação e de ensino de gramática a partir de textos jornalísticos. Palavras- chave: Ensino de Língua Portuguesa, Texto Jornalístico. O ensino de Língua Portuguesa deve promover ao aluno um encontro com textos autênticos, do cotidiano do aluno, e a partir destes explorar a leitura, oralidade, escrita e gramática tornando assim o ensino interessante e significativo. Para tanto, é sugerido um trabalho em cima de textos retirados do jornal, pois neste estão textos atuais, de acordo com realidade social do aluno, visando que este tenha um maior interesse pela disciplina. Visto que não há texto sem gramática, além de trabalhar com o texto e com os diversos gêneros deste, há inúmeros aspectos gramaticais nos textos do jornal. 3259 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Segundo Antunes 187 “ j q ”. Nesse sentido devemos trabalhar a gramática e suas funções e não somente nomenclaturas. Além de o texto jornalístico ter mais legitimidade ao ser lido e interpretado pelo aluno, possibilita um aprendizado interessante e mais motivante pela autenticidade e realidade apresentada. Os objetivos do trabalho com o jornal são: auxiliar no desenvolvimento da competência comunicativa e textual dos alunos, ajudar o aluno a compreender e produzir textos, identificar os diferentes gêneros textuais, conhecer e aprimorar o uso da norma padrão. Maria Aparecida Borelli de Almeida188, professora, jornalista e coordenadora do Subcomitê Jornal na Educação (um projeto dirigido pela Associação Nacional dos Jornais – ANJ) em entrevista para o Portal Aprende Brasil informa que 35 jornais participam de projetos educacionais espalhados por 16 estados brasileiros. Esses programas atendem 8,5 mil escolas e cerca de 2,5 milhões de estudantes. Ela conta ainda que existem projetos de utilização de jornais na educação em 52 países, reunindo cerca de 18 mil empresas de comunicação. Neste trabalho serão apresentadas duas propostas de trabalho com o jornal em sala de aula, uma atividade com propaganda e outra com notícia. Proposta para trabalhar Propaganda: Começar a aula perguntando para o aluno qual o objetivo da propaganda, para que ela serve. Levar uma propaganda e analisá-la junto com a turma. Pode-se dividir a turma em grupos e pedir que eles interpretem a propaganda. Pedir que eles criem um slogan para vender um produto, explorando assim a criatividade e escrita do aluno. Exemplo: 187 ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo. Parábola Editorial, 2003. p.85. 188 Entrevista intitulada: Informar e Educar. Disponível em<http://www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0101.asp> Acesso em 17/11/2008. 3260 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ A aula será considerada satisfatória se o aluno compreender que os textos publicitários almejam vender um produto, um serviço ou uma idéia. O objetivo é persuadir o leitor por meio da publicidade e despertar nas pessoas o desejo de comprar algo. Dentro da propaganda, além de interpretação, podemos trabalhar: ambigüidade, metáforas e tipo de linguagem utilizada (coloquial, culta). Enfim, há uma série de aspectos a serem trabalhados, os quais variam de uma propaganda para outra. Proposta pata trabalhar Notícia: Primeira proposta (aluno escolhe a notícia): Alunos, em grupos, recebem jornais. Escolhem uma notícia do jornal, a partir da manchete e/ou foto e a leem. Respondem: Quem? Onde? O quê? Quando? Por quê? Como? Relatam a notícia a toda turma e fazem um breve comentário oral, indicando sua opinião sobre o assunto Criam novas manchetes para a notícia relatada. Segunda proposta (professor escolhe a notícia): Mostrar o título. 3261 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Entregar a notícia aos alunos, divididos em duplas ou trios. Analisar a estrutura do texto, o jornal, a seção, a data, o autor . Subtítulo. Foto / Imagem / Legenda. Ler a notícia (professor). Assunto geral. Identificar o tipo de texto, respondendo às perguntas O quê? Onde? Quando? Como? Quem? Por quê? Opinião dos alunos. Em um segundo momento: Analisar discurso direto e indireto. Passado, presente ou futuro. Pronomes, a que se referem? Palavras acentuadas pela mesma regra, e perceber o que há em comum. Diferença entre há e a. Neste exemplo, seria muito interessante analisar, também, as várias formas utilizadas pelo autor para se referir ao time do Pelotas: 3262 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Portanto, é importante ser observado em qualquer notícia: informações técnicas do próprio jornal, título, subtítulo, foto/legenda, perguntas-chaves (o quê?, onde?, quando?, quem?, por quê?, como?), e que notícia não é um texto argumentativo nem em 1ª pessoa. A partir destas propostas é possível afirmar que existem maneiras de trabalhar gramática e texto juntos em um contexto. Desta maneira o ensino se torna mais significativo para o aluno. Além disso, esse tipo de trabalho em sala de aula visa a ampliar a formação e a informação do aluno em todas as áreas do conhecimento. 3263 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ Summary Reflecting on the most appropriate methodology to teaching English, I thought about a new work proposal in light of the textual and linguistic functional perspectives. To that end, proposed activities of interpretation and teaching of grammar from newspaper articles. Keywords: Teaching Portuguese Language, Text Journalistic. 3264 Anales del I Encuentro internacional del conocimiento : diálogos en nuestra América / I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur, 5, 6, e 7 de mayo 2011, Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011 - ISSN 2238-0078 _________________________________________________________________________________ e o a atalogação na onte ue tro e a e a u a a ara a te ra e e o o ur eila oares - CRB10/926 E Enc entro de las iencias Pelotas-Brasil) manas ecnológicas para la ntegración en el onos r 1. : 2011 : Anales del Enc entro internacional del conocimiento di logos en n estra América Enc entro de las iencias manas ecnológicas para la ntegración en el onos r, , , e de ma o , Pelotas, Brasil – Pelotas (RS) : Instituto Federal Sul-rio-grandense/IFSul, 2011. – v.1, 2011. - 1 CDROM. ISSN 2238-0078 . ones l, integração do . i ncias h manas – ones l . i ncias tecnológicas – ones l . t lo. CDD: 300 600 Total de paginas :: 3265 3265