PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Elaine Cardia Laviola
O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de
camadas médias
DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
São Paulo
2010
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Elaine Cardia Laviola
O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de
camadas médias
DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
Tese apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em
Psicologia Social, sob a orientação da
Profª. Doutora Fúlvia Rosemberg.
São Paulo
2010
ERRATA
Résumé – 15ª linha - Onde se lê: ... et en contexte politique...
Leia-se: ... et en contexte publique...
Página 15 – Onde se lê: ... No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e
modalidades de educação e cuidado foi, também, procurar compreender se as escolhas por determinados tipo
de atendimento às crianças é influenciada, ou não, pela pouca oferta de modalidades coletivas...
Leia-se: ... No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e modalidades de educação e
cuidado foi, também, procurar compreender se as escolhas por determinados tipos de atendimento às
crianças são influenciadas, ou não, pela pouca oferta de modalidades coletivas...
Página 22 – Onde se lê: ... Procuramos escutar mães que, por serem de classe média, supostamente...
Leia-se: ... Procuramos escutar mães que, por pertencerem às camadas médias da população,
supostamente...
Página 25 - Onde se lê: ... Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais,
provenientes das camadas médias, associaram-na às classes menos favorecidas. ...
Leia-se: ... Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais, provenientes das
camadas médias, associaram-na às camadas menos favorecidas. ...
Página 25 – Onde se lê: ... No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu somente 9,4%
segundo dados do IBGE (2009). O crescimento pouco acelerado do atendimento, nessa etapa da educação
básica, coloca em xeque a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das
crianças dessa faixa etária em 2011. ...
Leia-se: ... No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu 9,4 pontos percentuais segundo
dados do IBGE (2009). Entretanto, o crescimento do atendimento, nessa etapa da educação básica, ainda
coloca em xeque a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das crianças
dessa faixa etária em 2011. ...
Páginas 37, 41, 69 e 203 - Onde se lê: ... Érica Burman...
Leia-se: ... Erica Burman ...
Página 79 - Onde se lê: ... A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG, 2007b) que
as novas concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais importantes na família, especialmente em
decorrência dos movimentos de mulheres, e mudanças nas concepções de criança...
Leia-se: ... A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG, 2007b) que as novas
concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais importantes na família, especialmente em
decorrência dos movimentos de mulheres, e de mudanças nas concepções de criança...
Página 82 – Onde se lê: ... apontam que indivíduos das camadas médias e com maior escolaridade tendem a
expressar valores mais modernos, liberais e democráticos...
Leia-se: ... apontam que indivíduos das camadas médias e com maior escolaridade tendem a expressar
valores mais “modernos”, liberais e democráticos...
Página 92 – Onde se lê: ... a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é ainda muito
baixa (18,1%), como já destacamos, quando comparada à taxa de freqüência das crianças maiores que
freqüentam a pré-escola (79,8%) (IBGE, 2009). ...
Leia-se: ... a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é ainda muito baixa (18,1%),
como já destacamos, quando comparada à taxa de freqüência das crianças maiores (4 a 6 anos de idade) que
freqüentam a pré-escola/escola (79,8%) (IBGE, 2009). ...
Página 98 - Onde se lê: ... As que não haviam matriculado seus filhos na creche apresentavam uma rede de
apoio maior dos que as que tinham optado por essa instituição...
Leia-se: ... As que não haviam matriculado seus filhos na creche apresentavam uma rede de apoio maior do
que as que tinham optado por essa instituição...
Página 103 - Onde se lê: ... Daí, nosso interesse de nos debruçarmos sobre os discursos de mães...
Leia-se: ... Daí, nosso interesse em nos debruçarmos sobre os discursos de mães...
Página 104 - Onde se lê: ... Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e não de
classes médias, considerei, como enfatizado por Romanelli (2003)...
Leia-se: ... Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e não de classe média,
considerei, como enfatizado por Romanelli (2003)...
Página 105 - Onde se lê: ... e também classificada pelo UNICEF como a terceira melhor do Brasil e a
segunda melhor do estado de São Paulo no atendimento à infância...
Leia-se: ... e também classificado pelo UNICEF como o terceiro melhor do Brasil e o segundo melhor do
estado de São Paulo no atendimento à infância...
Página 105 e páginas 247, 252, 279, 315, 335, 355, 379, 404, 405 – Onde se lê: ... As crianças brasileiras de
0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, mas somente 18,1% das crianças de 0 a 3 anos freqüentam
creche, enquanto quase 80% de crianças de 4 e 5 anos freqüentam pré-escola. O que pensa sobre isso? ...
Leia-se: ... As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, mas somente 18,1% das
crianças de 0 a 3 anos freqüentam creche, enquanto quase 80% de crianças de 4 a 6 anos freqüentam préescola/escola. O que pensa sobre isso? ...
Página 129 - Onde se lê: ... Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na
decodificação do choro de seus bebês...
Leia-se: ... Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na decodificação do choro de
bebês...
Página 147 - Onde se lê: ... uma efetiva opção por não contar nem com a ajuda da sogra e nem com a da
própria mãe...
Leia-se: ... uma efetiva opção para não contar nem com a ajuda da sogra e nem com a da própria mãe...
Página 181 - Onde se lê: ... A classe média que seria, na concepção de Natália, o segmento com melhores
condições para reivindicar acabaria, quase sempre, optando pela creche particular para seus filhos...
Leia-se: ... As camadas médias que seriam, na concepção de Natália, os segmentos com melhores condições
para reivindicar acabariam, quase sempre, optando pela creche particular para seus filhos...
Página 181 – Onde se lê: ... as demais expressam acreditar que seria necessária uma maior reivindicação
dos direitos, com a escolha de políticos que se interessassem por essas questões e que atuassem com maior
boa vontade...
Leia-se: ... as demais citam que seria necessária uma maior reivindicação dos direitos, com a escolha de
políticos que se interessassem por essas questões e que atuassem com maior “boa vontade”...
Banca Examinadora
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DEDICATÓRIA
Aos meus pais, Ângelo e Ivone (In Memoriam), pelo
dom maior, o dom da vida. Todo meu amor e minha
gratidão.
Em especial, à memória de minha mãe, que partiu
durante a realização desta tese. Sua presença estará
em minha vida, nas minhas memórias e no meu
coração para sempre.
AGRADECIMENTOS
À minha orientadora Professora Doutora Fúlvia Rosemberg pela extrema
competência e dedicação.
Ao Henrique, meu grande amor, pela companhia em todos os momentos, pela
enorme paciência e compreensão e também pela ajuda com as traduções.
À minha irmã Marlene, Doutoranda em Ciências Sociais, com quem compartilhei
todo o percurso de elaboração desta tese. Obrigada por me motivar e por estar
sempre ao meu lado!
Ao meu irmão Roberto, com quem compartilho a paixão pelos nossos gatos e pelo
nosso time, pelas indicações de mães para as entrevistas e o auxílio com as
cópias e encadernações.
À Maria Isabel, sempre na torcida para que tudo desse certo e eu conseguisse
finalizar o trabalho.
Aos(às) professores(as) Doutores(as) do Programa de Estudos Pós–Graduados
em Psicologia Social da PUC-SP. Em especial, Mary Jane Spink, Silvia Lane (In
Memoriam), Sérgio Ozella, José Leon Crochík, com quem cursei disciplinas e que
muito contribuíram para minha formação.
À Marlene Camargo, secretária do Programa, pela atenção e respostas às
inúmeras questões burocráticas e acadêmicas.
À Professora Doutora Josildeth Gomes Consorte do Programa de Estudos Pós–
Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, com quem cursei a disciplina Marcel
Mauss: sobre o dom e o Sacrifício.
Ao professor Doutor Pedrinho Guareschi do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com quem
cursei a disciplina Representações Sociais e Ideologia como aluna especial.
Às Professoras Doutoras Ana Paula Soares da Silva e Heloísa Szymanski pela
leitura cuidadosa e contribuições durante o Exame de Qualificação.
À professora Heloísa Szymanski pela elaboração de parecer sobre o projeto de
tese para envio ao Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP.
Aos(às) professores(as) que gentilmente aceitaram participar da Banca de Defesa.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela
concessão de bolsa de estudos.
Aos(às) antigos(as) e novos(as) colegas do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e
Idade (NEGRI) Honório, Leila, Renata, Vanessa, Etelma, Elisângela, Maysa,
Carlos, Carla, Lourdes, Flávio, pelas leituras do trabalho, sugestões e incentivos.
À amiga Carmem Sussel Mariano, pela paciência e disponibilidade para me
escutar nos momentos mais difíceis da elaboração desta tese, pela força e auxílio
constantes.
À amiga Bárbara Radovanski Galvão, pela ajuda com traduções, leituras e
inúmeras conversas sobre o projeto, pela motivação ao longo de todas as etapas
da pesquisa, pela amizade que se construiu.
Aos(às) meus(minhas) amigos(as) queridos(as), alguns de muitos anos, que
sempre se interessaram e acompanharam a realização deste trabalho, mesmo
que de longe.
Aos(às) amigos(as) e conhecidos(as) que procuraram auxiliar-me indicando mães
de bebês para as entrevistas.
Às cinco mulheres que me concederam entrevistas ainda na fase exploratória,
colaborando para que eu pudesse treinar a situação de entrevista e também
adequar o roteiro de questões.
Às oito mulheres entrevistadas que se dispuseram a participar da pesquisa e a
compartilhar comigo suas concepções sobre o bebê, sua educação e cuidado,
suas vivências, suas decisões, suas dúvidas e questionamentos.
Aos bebês que, do colo de suas mães e entre uma mamada e outra, participaram
dos momentos de entrevistas.
[...] quanto mais óbvio parecer o que se vê e ouve,
mais se deve desconfiar e buscar desatar as tramas.
Porque não há imagem produzida sobre a criança e
a infância [...] que não seja, de algum modo, produto
de um contexto sociocultural e histórico específico
[...]. (COHN, 2005, p. 50).
LAVIOLA, Elaine Cardia. O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas
médias. São Paulo. Tese (Doutorado em Psicologia Social). PUC-SP, 2010.
RESUMO
Esta tese de doutorado vincula-se ao Núcleo de Estudos de Gênero, Raça
e Idade (NEGRI) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), integrando o projeto
coletivo de pesquisas que vem focalizando discursos proferidos por adultos sobre
o bebê, sua educação e cuidado. Seu objetivo foi descrever e interpretar discursos
de oito mães de bebês, inseridas profissionalmente, com formação universitária,
pertencentes às camadas médias urbanas e residentes no município paulista de
São Caetano do Sul, sobre o bebê e suas concepções sobre o que consideram
adequado em termos de modalidades de educação e cuidado não só para seus
filhos, mas também, para outros bebês. Partimos da hipótese de que prevaleceria,
nos discursos das entrevistadas, uma concepção de criança pequena,
considerada frágil, imatura, dependente, que vincula o bebê, prioritária ou
exclusivamente, ao espaço doméstico, sustentando sua invisibilidade no plano
social e em contexto público, dificultando que seus direitos à educação sejam
plenamente contemplados pelas políticas de Educação Infantil. Adotamos os
aportes teóricos proporcionados tanto pelos novos estudos sobre a infância, que
procuram romper com concepções adultocêntricas e naturalizantes, quanto pela
produção acadêmica das pesquisadoras francesas Bloch e Buisson (1998, 1999)
sobre o processo de escolha de casais por modalidades de educação infantil,
analisado, por elas, a partir da perspectiva das relações intergeracionais e de
gênero. Com base na utilização de técnicas de análise de conteúdo apresentamos
os resultados, que corroboram nossa hipótese inicial, em torno de cinco eixos
interpretativos: os contextos sociais das entrevistadas; concepções sobre o bebê e
a criança pequena; modalidades de educação e cuidado para bebês;
responsabilidades do Estado e da sociedade; aspectos intergeracionais.
Palavras-chave: bebê; creche; educação infantil; infância; camadas médias.
LAVIOLA, Elaine Cardia. The baby, its upbringing, education and care in the discourse of
middle class mothers. São Paulo. Thesis (Doctor's degree in Social Psychology). PUC-SP, 2010.
ABSTRACT
This doctoral thesis is linked with the Center of Studies of Gender, Race and
Age (Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade – NEGRI) of the postgraduate
studies program in Social Psyhcology from the Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP), as part of the collective research project which focus on the
discourse made by adults about their babies, their upbringing, education and care.
This thesis' objective is to describe and interpret the discourse of eight mothers of
babies, professionally active, with a university degree, belonging to the urban
middle class and living in the city of São Caetano do Sul, in the state of São Paulo,
about the baby and their perception of what they consider adequate methods od
upbringing, education and care not only for their own children, but also for other
babies. We assumed that, in the interviewees' discourse, the perception of the
small child as fragile, immature and dependent would prevail. This view links the
baby, first and foremost or exclusively, to the domestic realm, sustaining its
invisibility in the social level and in public context, making it difficult for its rights for
education to be completely fulfilled by the policies of education of children ages 03. We adopted the theoretical approaches offered by the new studies on childhood,
which attempt to break away from the adult-centered and naturalizing concepts, as
well as the academic production of the French researchers Bloch and Buisson
(1998,1999), on the process of choice of couples of methods of child upbringing
and education, analyzed by them, from the perspective of relations between
generations as well as gender relations. Based on the use of content analysis
techniques we present the results, which confirm our initial hypothesis, around five
interpretative axles: the interviewees' social contexts; perceptions of the baby and
the toddler; methods of upbringing, education and care for babies; the government
and the society's responsibilities; and aspects related to the relations between
generations.
Keywords: baby; day care center; upbringing and education of children ages 0-3;
childhood, middle class.
LAVIOLA, Elaine Cardia. Le bébé, son éducation et soins selon des discours de mères de
classe moyenne. São Paulo. Thèse (Doctorat en Psychologie Sociale). PUC-SP, 2010.
RÉSUMÉ
Cette thèse de doctorat est associée au Centre d’Études du Genre, Race et
Âge (NEGRI) du Programme d’Études de Postlicence en Psychologie Sociale de l’
Université Pontificale Catholique de São Paulo (PUC-SP), intégrant le projet
collectif de recherches qui se focalise sur des discours proférés par des adultes à
propos du bébé, son éducation et soins. Son objectif a été de décrire et
d’interpréter les discours de huit mères de bébés - insérées professionnellement
dans le marché, ayant une formation universitaire et appartenant aux classes
moyennes urbaines et résidantes dans la Commune de São Caetano do Sul
(région de São Paulo) - à propos du bébé et de leurs conceptions sur ce qu’elles
considèrent être adéquat en termes de modalités d’éducation et de soins, pour
leurs enfants ainsi que pour d’autres bébés. Nous sommes partis de l’hypothèse
qu’il prévaudrait, dans les discours des mères interviewées, une conception de
petit enfant considéré fragile, immature, dépendant, qui le soumet, prioritaire ou
exclusivement, à l’espace domestique, renforçant son invisibilité sur le plan social
et en contexte politique et rendant plus difficile que ses droits à l’éducation soient
pleinement contemplés par les politiques de l’Éducation de l’Enfant. Nous avons
adopté les apports théoriques fournis par les nouvelles études sur l’enfance, qui
cherchent à rompre avec des conceptions naturalisantes et centrées sur les
adultes, ainsi que par la production académique des chercheuses françaises Bloch
et Buisson (1998, 1999) , sur le procès de choix de couples par des modalités
d’éducation de l’enfant, analysé, par elles, à partir de la perspective des relations
intergénérationnelles et de genre. Basés sur l’utilisation de techniques d’analyse
de contenu, nous présentons les résultats, qui valident notre hypothèse initiale,
autour de cinq axes interprétatifs: les contextes sociaux des interviewées; des
conceptions à propos du bébé et du petit enfant; des modalités d’éducation et
soins pour les bébés; des responsabilités de l’État et de la société; des aspects
intergénérationnels.
Mots-clés: bébé; crèche; éducation de l’enfant; enfance; classes moyennes.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ___________________________________________________13
CAPÍTULO 1 – CONSTRUÇÃO DO OBJETO ___________________________18
CAPÍTULO 2 – TEORIAS E MÉTODO_________________________________32
2.1 Teorias
2.1.1 Infância e seus estudos contemporâneos__________________________32
2.1.2 Teoria sobre a dádiva__________________________________________49
2.2 Método
2.2.1 Hermenêutica de profundidade__________________________________70
CAPÍTULO 3 - CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO_________________________78
3.1 Educação e cuidado da criança pequena no Brasil contemporâneo________79
3.1.1 Famílias contemporâneas_______________________________________79
3.1.2
Conciliação
entre
trabalho
e
educação
e
cuidado
das
crianças
pequenas________________________________________________________83
3.1.3 Consensos e dissensos envolvendo as políticas e práticas de Educação
Infantil __________________________________________________________87
3.1.4 Demanda por modalidades de Educação Infantil_____________________95
CAPÍTULO 4 – ENTREVISTANDO MÃES_____________________________104
4.1 As entrevistadas e o contexto de produção das entrevistas_____________104
4.2 A análise dos dados____________________________________________117
4.2.1 Eixo 1. Os contextos sociais das entrevistadas_____________________119
4.2.2 Eixo 2. Concepções sobre o bebê e a criança pequena______________129
4.2.3 Eixo 3. Modalidades de educação e cuidado para bebês_____________139
4.2.4 Eixo 4. Responsabilidades do Estado e da sociedade________________178
4.2.5 Eixo 5. Aspectos intergeracionais________________________________189
CONSIDERAÇÕES FINAIS________________________________________196
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _________________________________200
ANEXOS_______________________________________________________219
Termo de compromisso do(a) pesquisador(a) responsável________________220
Termo de consentimento livre e esclarecido____________________________221
Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP____________________224
Transcrição primeira entrevista______________________________________225
Transcrição segunda entrevista______________________________________252
Transcrição terceira entrevista_______________________________________278
Transcrição quarta entrevista_______________________________________315
Transcrição quinta entrevista________________________________________335
Transcrição sexta entrevista________________________________________354
Transcrição sétima entrevista_______________________________________379
Transcrição oitava entrevista________________________________________404
INTRODUÇÃO
A pesquisa, base desta tese de doutorado1, teve como objetivo descrever e
interpretar discursos de mães das camadas médias sobre o bebê, sua educação e
cuidado.
Neste estudo, estamos considerando bebê uma etapa da vida, um
momento da pequena infância que inclui as crianças recém-nascidas ou de
poucos meses, as crianças menores de 1 ano de idade, definição esta encontrada
nos principais dicionários de Língua Portuguesa2.
A hipótese subjacente ao nosso trabalho foi a de que ainda prevalece, na
sociedade brasileira, uma concepção de criança pequena (considerada imatura,
frágil, dependente) que vincula o bebê ao espaço privado (GALVÃO, 2008; LIMA,
2004). Essa concepção mantém relações discriminatórias de idade - com as
crianças de 4 e 5 anos podendo freqüentar a pré-escola enquanto poucas crianças
menores de 3 anos freqüentam creche -, além de sustentar a invisibilidade do
bebê no plano social, dificultando que seus direitos à educação sejam plenamente
contemplados pelas políticas de Educação Infantil (EI).
Notamos que, em geral, no Brasil, pouca atenção vem sendo dada às
necessidades dos bebês pelas políticas públicas, em especial, pelas educacionais.
O baixo investimento em creches, quando comparado aos recursos alocados para
outros níveis educacionais, vem revelando descaso com essa população.
Focamos, neste estudo, discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado
proferidos por mães pertencentes às camadas médias e com escolaridade
superior, residentes em São Caetano do Sul3 e que, potencialmente, poderiam
optar pela creche como modalidade de EI para seus filhos e/ou recomendá-la
também para outros bebês.
1
Neste trabalho, ainda não são adotadas as novas regras da Reforma Ortográfica.
Consultamos também três dicionários de Psicologia e dois dicionários de Educação, mas
somente encontramos definição para o termo bebê em um dos dicionários de Psicologia
(DORSCH, 2008) pesquisados. Segundo esse dicionário, bebê é a criança (lactente) até o 2º mês
de vida. Como essa definição nos pareceu mais restrita, preferimos adotar, nesta tese, as
definições dos dicionários de Língua Portuguesa.
3
Município do ABC paulista de 144.857 habitantes (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO
CAETANO DO SUL, 2008), incluindo 5598 crianças entre 0 a 3 anos de idade (IBGE, dados de
2001) e que possui indicadores de qualidade de vida e investimentos em educação bastante
diferenciados em relação à grande maioria dos municípios brasileiros.
2
13
A opção pela análise de discursos de mães pertencentes às camadas
médias se deveu não somente à constatação de que muitos estudos sobre EI
focam suas análises na população de baixa renda, de que mães com maior
escolaridade e renda tendem mais a optar por modalidades coletivas de educação
para seus filhos (CARVALHO, KAPPEL, KRAMER, 2001; CEDEPLAR/UFMG,
1999; IBGE, 2007, 2009; IPEA,1999, entre outros estudos), mas também na
hipótese de que, mesmo em um contexto de ausência de carência pessoal e
social, vivendo em uma cidade com maior investimento em EI e melhores
indicadores sociais, prevaleça, nos discursos das entrevistadas, uma concepção
de bebê vinculada, prioritária ou exclusivamente, ao espaço doméstico, à esfera
do privado.
No Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI), grupo de
pesquisa vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), temos adotado como
referencial teórico para nos auxiliar em nossas análises e interpretações
envolvendo concepções sobre bebês e relações de idade, os novos estudos sobre
a infância, com destaque para os paradigmas propostos, especialmente a partir da
década de 1990, pela Sociologia da Infância (MONTANDON, 2001; SARMENTO,
2007; SIROTA, 2001), que, ao considerarem a criança como ator social e a
infância como categoria construída sócio-histórica e culturalmente, rompem com
concepções adultocêntricas e naturalizantes.
De forma complementar, utilizamos também como referencial teórico nesta
tese, a produção acadêmica das pesquisadoras francesas Bloch e Buisson (1998,
1999) sobre o processo de escolha de casais por modalidades de educação e
cuidado infantil, analisado por elas, sobretudo, de uma perspectiva de gênero e do
ponto de vista intergeracional.
Embora as autoras francesas apresentem uma abordagem importante, ela
não nos pareceu suficiente para servir como referencial teórico principal, pois
mesmo comentando que a escolha por modalidades de EI também é influenciada
pelo que os pais desejam ou têm como expectativas para seus filhos(as)4, elas
4
A partir deste ponto do texto, adotarei o genérico masculino, abandonando a fórmula o(a).
14
deixaram de lado em suas análises as novas concepções sobre criança pequena
e bebê.
Assim, para além da compreensão proposta por Bloch e Buisson (1998,
1999) que centraram seu olhar na mulher, focalizamos nossa atenção na
apreensão de componentes das concepções sobre o bebê, sua educação e
cuidado que podem estar orientando escolhas por determinadas modalidades de
EI.
Como essas escolhas dependem também de como se concebe a criança
pequena e não apenas a mulher, o homem e o filho, nos pareceu adequado adotar
como teoria principal, nesta análise, os estudos contemporâneos sobre infância, já
que estamos considerando relações de idade, voltando nosso foco para o bebê, o
bebê compreendido enquanto uma etapa da vida, um momento da pequena
infância, enquanto criança (puer) e não somente enquanto filho (filius).
No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e
modalidades de educação e cuidado foi, também, procurar compreender se as
escolhas por determinados tipo de atendimento às crianças é influenciada, ou não,
pela pouca oferta de modalidades coletivas, como creches, por exemplo.
Como ressaltam Bloch e Buisson (1999):
[...] é necessário ainda que essa escolha [da modalidade de educação e
cuidado infantil] seja efetivamente possível. Ao [...] disponibilizar seu
auxílio para desenvolver tal ou tal tipo de modalidade de guarda e
favorecendo o acesso a estes últimos a certas camadas sociais, os
poderes públicos podem assumir um papel não negligenciável nas
capacidades de que dispõem os pais para modificar as práticas sociais [...].
(p. 27, tradução nossa).
Esta tese participa da luta pela efetivação da creche enquanto direito do
bebê e da criança pequena à educação e aos cuidados, respeitando sua condição
de cidadã; e enquanto direito de escolha por parte das famílias de um serviço que,
com qualidade e eqüidade, venha atender suas expectativas, procurando evitar
modelos assistencialistas e maternalistas e permitindo, ao liberar a mulher para o
trabalho e para a autonomia econômica, uma maior igualdade entre homens e
mulheres.
15
Para o NEGRI, sem que a sociedade brasileira reconheça, efetivamente, o
direito da criança pequena de ser cuidada e educada em ambiente social mais
amplo que a família, dificilmente esse direito se tornará prioridade nas agendas de
políticas públicas. Complementarmente, para que políticas públicas, visando
facilitar a conciliação entre vida familiar e trabalho, possam ser implementadas, se
faz necessário que a sociedade brasileira reconheça o direito das famílias de
dividir com o Estado, e com a sociedade em geral, caso desejem, as
responsabilidades pela educação e o cuidado das crianças pequenas.
O estudo de discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado ganha
relevância quando se pensa, também, na necessidade de avaliação dos serviços
oferecidos à criança pequena, e à sua família no Brasil, permitindo que se venha a
comparar o que é oferecido ao que as famílias gostariam que fosse, possibilitando
uma melhor análise dos projetos e programas em EI, e conseqüente adequação
na formulação de políticas públicas (ROSEMBERG, 2001), visando melhorar a
qualidade do que é oferecido.
A pesquisa que sustenta esta tese me possibilitou retomar questionamentos,
baseados em minha prática na área da EI, além de constituir um desdobramento e
um avanço em relação à minha dissertação de mestrado (LAVIOLA, 1998). O
tema “EI em contexto de creche” permaneceu, bem como, a estratégia de trabalho
a partir de entrevistas, enquanto a utilização das reflexões proporcionadas pelos
novos estudos sobre a infância (especialmente os de: MONTANDON, 2001;
ROSEMBERG, 2006b, 2006c; SARMENTO, 2007; SIROTA, 2001), do referencial
teórico de Bloch e Buisson (1998, 1999) e do método da hermenêutica de
profundidade (HP) proposto por John B. Thompson (2002), que orientou a
estruturação do texto e a análise dos discursos das entrevistadas, me permitiu
avançar.
No primeiro capítulo deste trabalho, descrevo a construção do objeto de
pesquisa. Inicio o segundo capítulo, focalizando infância e seus estudos
contemporâneos, já que as escolhas por modalidades de EI dependem também
das concepções de criança e eu estarei analisando-as da perspectiva das
relações de idade.
16
Em seguida, apresento a teoria sobre a dádiva tal como desenvolvida por
Bloch e Buisson (1998, 1999), a partir do referencial de Marcel Mauss (1950),
sobre o princípio da troca e da reciprocidade, com as autoras francesas
compreendendo as escolhas por modalidades de educação e cuidado infantil, a
partir de uma dinâmica de dependência intergeracional.
Finalizando o segundo capítulo, descrevo o método da HP de Thompson
(2002) que orientou a estrutura desta tese, bem como, me auxiliou na análise e na
interpretação da produção simbólica, no caso específico, as entrevistas, os
discursos das mães.
No terceiro capítulo, abordo o contexto sócio-histórico focalizando políticas
e práticas de EI no Brasil com base na revisão de literatura.
No quarto capítulo, descrevo, primeiramente, a coleta de dados e o
contexto de produção das entrevistas que realizei e, na seqüência, apresento os
resultados, com o conteúdo apreendido nos discursos, a partir da utilização das
principais orientações da análise de conteúdo, segundo Bardin (1977) e
Rosemberg (1981), e re-interpretados com base nos referenciais teóricos
utilizados e no contexto sócio-histórico apresentado.
Nas considerações finais, retomo a hipótese inicial desta tese, destacando
os
principais
resultados
e
interpretações
que
poderão
orientar
outros
pesquisadores em suas investigações sobre o tema, contribuindo para que os
direitos e necessidades dos bebês e de suas famílias, em termos de EI, possam
adquirir maior visibilidade na sociedade brasileira e nas políticas públicas.
17
CAPÍTULO 1 – CONSTRUÇÃO DO OBJETO
Minha opção por pesquisar discursos sobre o bebê, sua educação e
cuidado, a partir da ótica de mães, é fruto, inicialmente, de meu interesse
acadêmico e prático por creche.
Durante o mestrado, pesquisando o tema da sexualidade infantil por meio
de entrevistas com educadoras de creche (LAVIOLA, 1998), tive a oportunidade
de visitar 63 instituições públicas no município de São Paulo apreendendo
realidades de atendimento bastante diversas. Tendo atuado também, por quase
dois anos, como dirigente de creche na rede pública de EI no município paulista
de São Bernardo do Campo, pude vivenciar o cotidiano de educação e cuidado
oferecido às crianças, bem como refletir sobre as expectativas das famílias em
relação à creche pública e ao atendimento prestado.
Esse contato prático com a realidade do atendimento despertou minha
atenção para a insuficiente oferta de vagas, que, em geral, não dá conta da
demanda quantitativa – aquela que, a princípio, poderia ser medida a partir das
listas de espera para inscrições ou pela realização de cadastros específicos –,
mas gerou, também, algumas questões, não menos importantes: quais seriam, na
visão das mães, as melhores opções de atendimento para bebês? Que
concepções sobre o bebê ou sobre como educar uma criança pequena estariam
implicadas nas escolhas por modalidades de EI? Quais seriam os discursos das
mães sobre a creche, em especial, sobre a creche pública?
Foi, entretanto, com o início de minha participação no NEGRI, e a partir de
meu contato com a tese de doutorado intitulada A demanda5 e escolha das mães
por educação infantil: um novo tema para o estudo da educação infantil,
defendida, em 2004, por Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima, então
integrante do Núcleo e também orientanda da professora Fúlvia Rosemberg, que a
presente tese começou a ser esboçada.
5
No NEGRI, bem como neste trabalho, o termo demanda sempre se refere à EI e às modalidades
de educação e cuidado destinados ao bebê e à criança pequena.
18
Pareceu-me interessante tomar como base o estudo desenvolvido por Lima
(2004), mas, ao mesmo tempo, ampliar suas discussões, investigando os
discursos de mães das camadas médias, e com nível superior de escolaridade6,
sobre concepções referentes ao bebê, sua educação e cuidado que poderiam
estar orientando essas mulheres em suas escolhas por modalidades de EI para
seus filhos(as), mas também, em seus posicionamentos sobre educação e
cuidado para os bebês em geral.
Inserido na linha de pesquisa sobre EI do NEGRI, que focaliza relações de
gênero e de idade (entre outras pesquisas: LAVIOLA, 1998; LYRA, 1997; PAULA,
1999; ROSENBAUM, 1998), este estudo integra o grupo de pesquisas sobre
discursos sobre o bebê em um projeto coletivo. Nosso projeto coletivo envolve
outras dissertações de mestrado e teses de doutorado, que também apreenderam
ou procurarão descrever e interpretar concepções da sociedade brasileira
contemporânea sobre bebês e modalidades de sua educação e cuidado, a partir
da escuta de diversos atores sociais: homens-pais (GALVÃO, 2008), mídia
(NAZARETH, 2008; PELLICER DOS SANTOS, 2009), pediatras (URRA, 2008),
instituição de ensino superior (SECANECHIA, 2009).
A linha de pesquisa que focaliza discursos brasileiros sobre o bebê, sua
educação e cuidado compartilha, com as demais linhas de pesquisa do NEGRI, o
objetivo geral de compreender processos de construção da infância brasileira e
sua incidência na elaboração da agenda de políticas públicas para esta etapa da
vida humana. Porém, nossa linha de pesquisa focaliza um segmento etário
específico: os bebês.
Temos como objetivo pesquisar componentes que estão envolvidos na
construção da concepção por um modo considerado “ideal ou adequado” de
educação e cuidado para bebês, na orientação da escolha por, e na oferta de,
modalidades de educação e cuidado infantil considerando que “[...] escarafunchar
as representações sociais sobre o bebê pode ser um caminho para sua
visibilidade pública [...].” (ROSEMBERG, 2006b, p.3).
6
Das oito mães entrevistadas por Lima (2004), somente duas apresentavam renda familiar
superior a cinco salários mínimos e apenas uma apresentava nível superior de escolaridade. A
maioria não havia concluído o ensino fundamental.
19
Apesar dos avanços na legislação nos últimos anos no Brasil (CAMPOS,
2009; ROSEMBERG, 2009b), na prática, a creche, enquanto espaço institucional
de educação e cuidado para a criança entre 0 e 3 anos de idade - concepção que
compartilho com outros gestores e pesquisadores brasileiros (BRASIL, 1995ª,
1995b, 2003; CAMPOS, ROSEMBERG e FERREIRA, 1995; HADDAD, 2006;
KRAMER, 1985, entre outros) -, ainda não constitui um direito infantil universal.
O número de crianças pequenas freqüentando creche é ainda muito baixo:
somente 18,1% da população brasileira na faixa etária entre 0 e 3 anos
freqüentavam creche em 2008, segundo dados divulgados em 2009 pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com base nos dados obtidos na Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV) de
1996/1997 e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1997, o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) realizou, em 1999, um estudo
sobre o Desenvolvimento da Primeira Infância. Nesse trabalho, a partir dos dados
coletados em 4800 domicílios brasileiros, o que mais chamou minha atenção foi o
reduzido número de bebês tendo acesso a um espaço coletivo de educação e
cuidado: menos de 1% do total de crianças de 0 a 6 anos residentes nos
domicílios pesquisados que freqüentavam creche ou pré-escola eram menores de
1 ano.
Vários
estudos
brasileiros
e internacionais
(CARVALHO,
KAPPEL,
KRAMER, 2001; CEDEPLAR/UFMG, 1999; FRENETTE, 1987; IBGE, 2007, 2009;
IPEA,1999; NERI, 2005; PUNGELLO, KURTZ-COSTES, 1999; RAPOPORT,
PICCININI, 2004) têm mostrado que quanto maior a idade da criança, a renda
domiciliar per capita e o nível de escolaridade dos pais - em especial, o das
mães -, maior é a freqüência à creche.
Com relação ao nível de escolaridade das mães, a pesquisa brasileira de
Carvalho, Kappel e Kramer (2001) apontou, inclusive, que a probabilidade de as
crianças de 0 a 3 anos freqüentarem creche chega a 100% para as mães com
mestrado ou doutorado.
A opção por uma determinada modalidade de educação e cuidado infantil confiar o bebê a uma instituição coletiva como a creche; confiar a criança aos
20
cuidados de avós ou outros parentes; contratar alguém no domicílio parental ou
educar e cuidar pessoalmente do bebê em casa - é baseada, além da experiência
concreta, em valores e crenças construídas a partir da interação do indivíduo com
instituições e grupos sociais e culturais, e influenciada, também, pela história
pessoal de cuidados e educação recebidos (BLOCH, BUISSON, 1998).
Além disso, o contexto social e a política de atendimento disponível também
influenciam as escolhas por modalidades de EI. Permeadas pelas vivências ou
pelo imaginário de cada família, essas escolhas não seriam, portanto, opções
imutáveis ou universais (BLOCH, BUISSON, 1998, 1999; PUNGELLO, KURTZCOSTES, 1999), o que Lima (2004) também pôde apreender em seu estudo,
observando que algumas famílias mudaram, ao longo do tempo, suas opções.
Em seu estudo, Lima (2004) identificou que nem sempre o que a família
utilizava enquanto instituição ou atendimento (a chamada oferta) correspondia ao
que a família (mãe) demandava ou escolhia como modalidade “ideal ou adequada”
para seu filho.
Lima (2004) entrevistou oito mães com filhos menores de 3 anos de idade
(sendo que apenas uma entrevistada era mãe de uma criança menor de 1ano),
residentes na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
Quatro das entrevistadas por Lima (2004) eram mães de crianças que
freqüentavam uma mesma creche conveniada, situada em um bairro de classe
média e que atendia famílias de baixa renda que trabalhavam na região. As outras
mães tinham escolhido outras modalidades de educação e cuidado para seus
filhos, deixando as crianças em casa com outros parentes, especialmente avó ou
avô, ou com a empregada.
A maioria das entrevistadas já havia experimentado outros arranjos
familiares ou outras modalidades de EI tendo, por exemplo, interrompido sua
atividade profissional para que pudesse cuidar da criança ou mesmo levando-a
para seu local de trabalho quando possível.
A entrevistada com mais alta renda e escolaridade, e que tinha um bebê de
6 meses, havia optado pela creche como modalidade de EI para seu filho.
21
De forma geral, a pesquisa de Lima (2004) apreendeu a presença de uma
forte crença materna sustentando que o bebê deve ser educado e cuidado pela
mãe, impondo-se esse modelo como um ideal.
A maior parte das mães entrevistadas declarou que a criança, até a idade
de 3 anos – algumas mães referiam-se à idade de 5, 6 e 7 anos – deve
permanecer em casa, com a mãe ou com outro membro da família, em
decorrência da sua situação de fragilidade, tanto física quanto psicológica.
(LIMA, 2004, p. 133).
No estudo de Lima (2004), o foco é sempre a demanda pessoal/familiar por
modalidades de educação e cuidado para os filhos. Nosso estudo, porém, se
diferencia do de Lima (2004), não somente por entrevistar mães de camadas
médias, com nível superior de ensino e com filhos menores de 1 ano de idade,
mas também por dirigir seu foco de atenção para os discursos maternos sobre
suas concepções sobre o bebê, não somente seu filho, e sobre as modalidades de
EI que consideram adequadas também para outros bebês.
Procuramos escutar mães que, por serem de classe média, supostamente,
teriam tido maior oportunidade de formação e por residirem em São Caetano do
Sul, se encontrariam em uma situação de maior possibilidade de escolha quanto
às modalidades de EI.
São Caetano do Sul aparece em 1º lugar no ranking dos municípios
brasileiros no IFDM (Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal), com base em
indicadores de emprego e renda, saúde e educação, especialmente analisando a
oferta e qualidade do ensino fundamental e da pré-escola com base nas seguintes
variáveis: taxa de atendimento no ensino infantil; taxa de distorção idade-série;
percentual de docentes com curso superior; número médio diário de horas-aula;
taxa de abandono escolar; resultado médio no Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica (FIRJAN, 2008).
O município apresenta, também, um IDH de 0,919, com menos de 1% de
analfabetismo, 18,5% de população com nível superior completo, 100% de infra-
22
estrutura (água, luz e esgoto7), renda per capita estimada em US$ 16.500 e 35,5%
de receita aplicada em Educação em 2002 (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO
CAETANO DO SUL, 2003a, 2003b).
Embora
São
Caetano
tenha
apresentado
queda
no
Índice
de
8
Desenvolvimento Infantil (IDI) , que variou negativamente de 0,928, em 1999,
para 0,895, em 2004, segundo informações do UNICEF (2005), o município
encontra-se na 59ª posição no grupo de somente 560 cidades brasileiras
apresentando desenvolvimento infantil elevado (aqueles com IDI acima de 0,800).
Segundo dados apresentados por Neri (2005), 40,6% das crianças de 0 a 3
anos freqüentavam creche em São Caetano (colocando o município na 16ª
posição no Brasil em termos de freqüência à creche), sendo que dessas crianças,
28,1% freqüentavam creche pública e 12,5% a rede privada. Nunca haviam
freqüentado creche 58,4% das crianças de 0 a 3 anos residentes no município.
O Censo Escolar de 2008 (BRASIL, 2009a), com informações mais
recentes, informa também que o município apresenta 2166 crianças matriculadas
em creches, sendo que 1483 freqüentam a rede municipal distribuídas em 11
Escolas Municipais Integradas (EMIs) e em três creches assistenciais. Outras 683
crianças freqüentam creches ou escolas privadas.
Em paralelo ao presente estudo que focaliza os discursos de mães
residentes em São Caetano do Sul, Bárbara Radovanski Galvão (2008), em sua
dissertação de mestrado, investigou as concepções de homens-pais, de camadas
médias residentes no município de São Paulo, sobre criança pequena, sua
educação e cuidado. Não desconsiderando a grande responsabilidade que recai
sobre a mãe no processo de escolha por tipo de atendimento à criança pequena
7
São Caetano do Sul é o município brasileiro com maior taxa de acesso à rede e coleta de esgoto
(NERI, 2007b). Em 2009, atingiu 100% de coleta e tratamento.
8
O Índice de Desenvolvimento Infantil (IDI) é calculado pelo UNICEF, Fundo das Nações Unidas
para a Infância, com o objetivo de monitoramento da situação da primeira infância em municípios,
estados e regiões brasileiras. O IDI é composto por quatro indicadores básicos: porcentagem de
crianças menores de 6 anos morando com pais com escolaridade precária (até três anos de
estudo); cobertura vacinal em crianças menores de 1 ano de idade (vacina tríplice contra difteria,
coqueluche e tétano (DTP) e a tetravalente composta pela DTP e pela Hib (Haemophilus
influenzae tipo b); proporção de gestantes com mais de seis consultas pré-natais; porcentagem de
crianças de 4 a 6 anos de idade matriculadas na pré-escola. O Índice tem uma variação de 0 a 1.
Quanto mais próximo de 1, melhor a situação da primeira infância (UNICEF, 2005, 2008).
23
(BLOCH, BUISSON, 1998, 1999; PUNGELLO, KURTZ-COSTES, 1999), mas
visando apreender a influência ou participação paterna nessas decisões, o
trabalho de Galvão (2008) mostrou-se relevante e complementar a esta
investigação.
Os seis homens-pais entrevistados por Galvão (2008) apresentaram
discurso sofisticado sobre a educação e o cuidado em relação aos seus próprios
filhos, mas poucas reflexões sobre e mobilização por EI em ambientes coletivos e
públicos. O foco dos discursos foi o próprio filho pequeno no âmbito privado e
doméstico, embora a pesquisa tenha tido como objetivo dar voz aos homens-pais,
especialmente, no que se referia aos bebês, sua educação e cuidado em espaços
coletivos.
Galvão (2008) também apreendeu, nos discursos de seus entrevistados,
uma oposição entre um discurso genérico que diria respeito ao conjunto de
homens-pais e um discurso mais pessoal, com um posicionamento mais
específico sobre a forma de cada um agir ou pensar. A pesquisadora observou
que seus ideais de educação e cuidado para os filhos pequenos envolvem
conceitos “modernos” que valorizam: a participação do homem-pai no cuidado
(com maior presença do pai nos cuidados diários com o filho); a autonomia do
filho; a promoção do convívio entre crianças de mesma idade; o rompimento com
padrões anteriores de exercício da paternidade (os homens-pais entrevistados
procurando se diferenciar da postura de seus próprios pais, por exemplo).
Importante destacar, também, que os homens-pais entrevistados por
Galvão (2008) diferenciam nitidamente bebê e criança pequena e que essa
diferenciação, para eles, não se dá pela idade, mas sim pelo desenvolvimento das
competências. “Enquanto o bebê se caracteriza pela dependência acentuada, a
criança pequena se diferencia pela capacidade de comunicação.” (p. 92).
Embora nem todos os pais entrevistados por Galvão (2008) tenham optado
por uma modalidade coletiva de EI para seus filhos, eles consideram que, a partir
de 1 ano de idade, a criança poderia começar a freqüentar “escola”. Para eles, a
escola ideal deveria ser um espaço onde se cuida bem das crianças, que funciona
24
em prédio limpo e adaptado às necessidades das crianças e que promove a
socialização entre pares.
Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais,
provenientes das camadas médias, associaram-na às classes menos favorecidas.
O termo creche é mal visto por eles e, em geral, associado somente ao cuidado
com a criança e não orientado por objetivos educacionais. A pesquisa de Galvão
(2008) revelou forte rejeição dos serviços públicos pelos homens-pais de camadas
médias.
Além das concepções dos adultos sobre o bebê e sobre as modalidades de
EI, deve-se levar em conta, também, a oferta, ou seja, o número de vagas
disponíveis em estabelecimentos públicos, nas diferentes regiões geográficas
brasileiras e locais de inserção ou localização do domicílio, e a qualidade do
atendimento oferecido.
No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu somente
9,4% segundo dados do IBGE (2009). O crescimento pouco acelerado do
atendimento, nessa etapa da educação básica, coloca em xeque a meta
estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das crianças
dessa faixa etária em 2011.
As políticas de EI implementadas no Brasil parecem não convergir para os
direitos ou expectativas e necessidades dos principais interessados, crianças
pequenas e famílias, especialmente mães. Não se trata da ausência de políticas
voltadas para a infância, mas sim como esses direitos e necessidades de bebês e
de suas famílias aparecem na agenda de políticas públicas9.
No NEGRI, temos recorrido à produção sobre construção de problemas
sociais (BEST, 1987, 2008; HILGARTNER, BOSK, 1988; LAHIRE, 2005; OSZLAK,
O’DONNELL, 1976) em nossas análises e interpretações sobre como a agenda de
políticas públicas é negociada e construída, isto é, como os problemas sociais são
9
As políticas públicas englobam várias políticas específicas como, por exemplo, política
econômica, política social. As políticas educacionais se inserem nas políticas sociais e as políticas
de educação infantil nas políticas educacionais. As políticas sociais são, portanto, um setor das
políticas públicas e as políticas educacionais um sub-setor das políticas sociais.
25
hierarquizados ou considerados prioritários para investimento de recursos e/ou
implementação de ações.
Segundo a definição proposta por Oszlak e O’Donnell (1976), política
pública pode ser conceituada como: “[...] um conjunto de ações e omissões que
manifestam uma determinada modalidade de intervenção do Estado em relação a
uma questão que incita a atenção, interesse ou mobilização de outros atores na
sociedade civil.” (p. 25, tradução nossa).
Para Oszlak e O’Donnell (1976), a política pública se insere em uma
estrutura de arena de negociações, onde ocorre debate e embate entre uma
multiplicidade de operadores/atores sociais10 (mídia, igrejas, movimentos sociais,
organizações multilaterais, especialistas, juristas, academia etc.) com desiguais
oportunidades de participação, que representam numerosos e contraditórios
interesses, em uma perspectiva dinâmica, em um jogo de conflitos e tensões.
A política pública é o produto de uma arena: onde consensos e
legitimidades devem ser construídos. Vivemos em situações de
interlocuções plurais, competitivas, polêmicas, assimétricas, pois há muitos
grupos sociais que por discriminação e exploração não conseguem incluir
seus problemas na agenda de Governo. (AGUILAR, 2006, p. 38, tradução
nossa).
Na constituição da agenda de políticas públicas, a hierarquia dos problemas
sociais a serem enfrentados/resolvidos é estabelecida a partir de jogos de
interesse, do poder social, econômico e político dos atores, alguns mais “visíveis”
que outros, com status diferenciados e marcados por hierarquias de gênero, raça,
idade e classe. Os grupos dominantes apresentariam maior poder de barganha e
de negociação do que os grupos mais “invisíveis” que, nem sempre, participam
das negociações ou são ouvidos sobre temas de seu interesse.
Cada um desses atores sociais não constitui, entretanto, um grupo
monolítico. Coexistem contradições e conflito de interesses, tendências diversas e
divergências nas instâncias onde atuam os atores. Nem o Estado, nem a
sociedade civil, nem as instituições são homogêneos. São nessas fissuras e na
10
Hilgartner e Bosk (1988) utilizam o termo ator, enquanto Oszlak e O’Donnell (1976) utilizam o
termo operador.
26
correlação de forças entre os vários grupos que se encontram espaços de
negociação. Compreendemos, portanto, que essas contradições e conflitos de
interesses11 são constituintes da construção de problemas sociais.
Hilgartner e Bosk (1988) sugerem caminhos para o estudo dos fatores e
forças que direcionam a atenção pública para alguns problemas ou desviam-na de
outros. Segundo esses autores, cada problema social compete com outros
problemas por atenção pública. Para eles, um problema social é “[...] uma dada
condição ou situação suposta, presumida, que é nomeada ou rotulada como um
problema nas arenas públicas de discurso e ação”. (p.55, tradução nossa).
Partimos da idéia de que o reconhecimento social de uma dada
necessidade é importante, já que implica a mobilização de recursos para atendêla. Como os recursos são finitos e as demandas, por sua vez, infinitas, se um
problema não tem visibilidade social, dificilmente receberá investimentos. Se não
vai para a agenda, não vira política pública.
A agenda de políticas públicas prioriza o que é considerado como
necessidade objetiva ou simbólica, o que é reconhecido, ou não, como
necessidade social. Os problemas sociais podem ser construídos a partir de
necessidades objetivas, mas também a partir de necessidades não concretas, já
que são projeções de sentimentos coletivos, são construídos subjetiva e
simbolicamente, não se constituindo, portanto, em um espelho real de condições
objetivas de existência (HILGARTNER, BOSK, 1988).
Pode-se, pois, aventar que nem todos os problemas têm o mesmo apelo.
Aparentemente, alguns segmentos etários (bebês, crianças pequenas) e
instituições (como a creche) não vêm recebendo a mesma atenção que outros.
Para o NEGRI, certos temas, como “menino de rua”, “prostituição infanto-juvenil”,
“gravidez adolescente”, obtiveram visibilidade midiática, passando a orientar as
políticas públicas, na medida em que conseguiram espaço na agenda, receberam
recursos e motivaram o desenvolvimento de políticas específicas. Esses temas
11
A promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990 (BRASIL, 2005), reflete bem
a participação de diversos setores da sociedade movidos por interesses, muitas vezes, conflitantes
e pode ser citado como exemplo de lei que foi criada a partir de intensas negociações sociais.
27
têm conseguido, nos últimos anos, despertar a atenção social e alimentar a
política espetáculo (ROSEMBERG, 2005b).
Fragmentando a pobreza, e também a infância e adolescência, em
subgrupos, canalizam-se olhar e recursos para programas específicos de
atendimento, desconectando-os de uma política social mais abrangente voltada
para o conjunto de crianças e de adolescentes12.
Na perspectiva do NEGRI, a agenda de políticas públicas para a infância
não é uma agenda que prioriza o combate à desigualdade. Para nós, a agenda
deveria adotar mais políticas universalistas de educação e menos políticas
focalizadas em subgrupos considerados “anômicos”. Não será através de ações
focadas em segmentos que se combaterá a desigualdade, pois esses subgrupos
são formas muito específicas de expressão da pobreza.
Por isso, consideramos fundamental que os direitos das crianças pequenas,
incluindo creches de qualidade, ocupem um papel mais importante na agenda e
nas prioridades públicas.
A ausência de poder de barganha por parte dos bebês parece fazer com
que uma necessidade que para nós do NEGRI é uma necessidade social não
obtenha reconhecimento social, nem espaço na agenda. A pequena infância não
tem cidadania plena, não tem direito a voto e são os adultos que se dão o direito
de falar em nome das crianças e que formulam propostas para a infância. Desse
modo, elas permanecem invisibilizadas na cena pública.
[...] O que importa aqui acentuar é o fato de que as crianças privadas de
direitos políticos diretos tendem a ser, em conseqüência da sua ausência
forçada da cena política representativa (governo, parlamento, câmaras
municipais etc.), invisibilizadas enquanto atores políticos concretos.
(SARMENTO, 2007, p. 37).
As reflexões e pesquisas do NEGRI têm partido de algumas pistas ou
hipóteses que podem estar associadas à invisibilidade política do bebê em nossa
sociedade (ROSEMBERG, 2006b, 2006d):
12
É importante ressaltar que muitas políticas sociais específicas foram dirigidas às crianças e
adolescentes de famílias consideradas desestruturadas, com o objetivo de redução da
delinqüência e da criminalidade (PASSETTI, 2004).
28
• a sociedade ainda parece considerar o bebê ou a pequena infância
como um tempo social relativo à esfera privada (família, casa) e não
à esfera pública, concebendo-a como dimensão da vida reprodutiva e
não da vida produtiva. A criança pequena guardada em espaços
fechados não tem tanta visibilidade pública enquanto geração;
• apesar de poucos bebês e crianças pequenas freqüentarem
creches, se relacionando com outros adultos e crianças não
pertencentes às suas famílias, o convívio das crianças em
instituições específicas para elas acaba escondendo-as também, de
certo modo, da esfera pública;
• os adultos não conseguem decodificar amplamente a comunicação
dos bebês;
• os brasileiros adultos, formadores de opinião, parecem não ter
experiências concretas13 com espaços institucionais coletivos para
educação e cuidado de crianças pequenas. As imagens que fazem
desses espaços são alimentadas por representações arcaicas e
suspeitosas, muitas vezes associadas à roda de expostos, ao
abandono, ao orfanato, aos maus-tratos ou à falta de atenção;
• as mídias não têm contribuído14 para ampliar a visibilidade de
bebês em outros espaços sociais além da casa. Além disso, crianças
pequenas são modelos para produtos usados em espaço doméstico
e, geralmente, são retratadas em matérias na mídia, quase sempre,
associadas à condição de vítima em situações de tragédia15 no
espaço privado e/ou público e em abordagens sensacionalistas que
mobilizam a sociedade no sentido do espetáculo16;
13
Nenhum dos homens-pais entrevistados por Galvão (2008) vivenciou, quando criança,
experiências em creches ou outros espaços coletivos de EI.
14
Apesar da realização de estudos (BRASIL, 1995a; ZABALZA, 1998) sobre o que seria um
atendimento de qualidade que respeitasse os direitos das crianças, a mídia (uma fonte de
informação poderosa e acessível para muitas famílias brasileiras) não vem abordando ou
divulgando adequadamente bons parâmetros para avaliação da EI (LIMA, 2004).
15
Os entrevistados de Galvão (2008) também citaram notícias veiculadas pela mídia envolvendo
babás e creches em situações de maus-tratos ou tragédias.
16
Estudos do NEGRI (ANDRADE, 2001; BIZZO, 2008; FREITAS, 2004) vêm apontando, também,
o uso retórico da infância pela mídia enquanto “cabide de notícias”. A infância é, quase sempre,
29
• a redução do número de nascimentos e o aumento da esperança
de vida parecem tornar muito curta a duração da pequena infância na
trajetória de vida familiar17. Para um bebê aqueles anos são a vida
toda, mas para suas famílias e sociedade não;
• a sociedade ainda associa intensamente bebês e crianças
pequenas às mulheres, segmento social com ainda menor poder de
atuação ou negociação política que os homens;
• as famílias, por ocasião do nascimento e dos primeiros anos de
vida do bebê, vivenciam um momento de maior intimidade e
fragilidade, voltadas para suas necessidades próprias, se adaptando
à nova composição familiar, muitas vezes, ainda, procurando se
inserir no mercado de trabalho e conquistar autonomia, com maior
dificuldade para participar de ações políticas;
• a sociedade ainda associa o bebê exclusivamente à condição de
filho e não o reconhece plenamente como criança cidadã. “Não
votando nem sendo eleitas, as crianças são tematizadas fora do
quadro do referencial de destinatários políticos, designem-se eles
como ‘cidadãos’, ‘contribuintes’ [...] ou mesmo ‘povo’. (SARMENTO,
2007, p.38).
Para além da invisibilidade pública do bebê na sociedade brasileira,
apreendemos, também, a invisibilidade da necessidade de se conciliar trabalho e
atividades familiares e de se diminuir a desigualdade entre homens e mulheres no
que tange aos cuidados e à educação de crianças pequenas.
A maior parte dos estudos sobre escolha por modalidades de EI, concepções
sobre creche ou avaliação da qualidade do atendimento oferecido às crianças
pequenas, que apresentaremos no capítulo 3, tem entrevistado famílias ou pais de
camadas populares, enfocando, sobretudo, itinerários pessoais/familiares de
escolha e compreendendo o bebê e a criança pequena enquanto filhos. Daí, a
associada na mídia à violência, à sexualidade, à exploração, ao trabalho e ao abandono (BIZZO,
2008). E, dificilmente, a voz das crianças é ouvida pelos jornalistas.
17
Homens-pais entrevistados por Galvão (2008) também se referiram à curta duração da pequena
infância na trajetória familiar como um dos motivos possíveis para a desmobilização política dos
adultos frente aos direitos das crianças de 0 a 3 anos.
30
importância de pesquisas como a de Galvão (2008) e a presente investigação, que
sustenta esta tese, que focalizam as concepções sobre o bebê, enquanto etapa da
pequena infância, e as escolhas por modalidades de EI para os bebês em geral,
nos discursos de pais e mães pertencentes às camadas médias.
31
CAPÍTULO 2 – TEORIAS E MÉTODO
2.1 TEORIAS
Neste capítulo teórico, procurarei integrar dois campos de conhecimento
que compartilham a desconstrução de uma naturalização de concepções sobre a
criança, sua educação e cuidado.
Iniciarei, apresentando o campo de novos estudos sobre a infância com
destaque para os novos paradigmas da Sociologia da Infância, e seguirei,
descrevendo, brevemente, a teoria de Marcel Mauss (1950) sobre a dádiva e
como vem sendo atualizada por Bloch e Buisson (1998, 1999), na interpretação de
opções familiares por modalidades de educação e cuidado infantis.
2.1.1 INFÂNCIA E SEUS ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS
O ponto chave para a compreensão do que se tem conveniado denominar
“novos estudos” ou “novos paradigmas” nos estudos sobre a infância é concebê-la
como resultante de um processo de construção social.
Ao publicar L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, em 196018,
Philippe
Ariès
revolucionou
a
compreensão
do
conceito
de
infância,
desconstruindo uma concepção, até então vigente e compartilhada, de infância
natural e universal.
Ariès (1981) apontou a ausência de um sentimento de infância na Idade
Média com as crianças sendo consideradas adultos em miniatura. Segundo esse
autor, foi a partir dos séculos XVII e XVIII, sobretudo nas famílias burguesas, que
a idéia de infância compreendida enquanto uma fase autônoma e distinta da vida
adulta foi construída.
18
A primeira edição brasileira só foi publicada em 1978, tendo sido traduzida como História Social
da Criança e da Família. Neste trabalho, utilizo a edição brasileira publicada em 1981.
32
Embora seu trabalho tenha sofrido inúmeras críticas19, segundo Singly
(1993), os estudos de Ariès (1981) constituíram um divisor de águas. Há um antes
e um depois desses estudos e da apreensão do surgimento do sentimento de
infância associado ao nascimento também do sentimento de família. A partir do
novo lugar do filho na família e das modificações nas relações internas da família
com essa criança é que essa família também se transformou.
Segundo Ariès (1981), o sentimento de infância se constrói historicamente a
partir da privatização do universo familiar, da atribuição de um estatuto social à
infância, do desenvolvimento de novas formas de se exercer a maternidade e a
paternidade e da institucionalização das crianças, com o ingresso na escola20. A
infância passa a ser objeto pedagógico com o ofício da criança passando a ser o
de escolar (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986).
Como apontam Ferreira (2002) e Sarmento (2007), dentre múltipas
concepções sobre criança, as imagens da criança má, da criança inocente, das
crianças como futuro do mundo, da criança como tábula rasa, frágil, vulnerável,
amoral, imatura, irresponsável, irracional ou incapaz foram as que mais se
propagaram e atingiram o senso comum, influenciando de forma direta a vivência
das crianças no cotidiano.
Não é de hoje, portanto, que se reflete sobre a infância e que circulam
múltiplos olhares e concepções sobre criança (BURMAN, 1999). Entretanto, como
veremos mais adiante, os novos estudos sobre a infância, somente mais
recentemente,
têm
proposto
uma
ruptura
de
paradigmas,
passando
a
compreender a criança como sujeito e ator de seu desenvolvimento. Será que a
concepção que temos sobre criança e, em especial, sobre a criança pequena está
mudando?
19
Muitas críticas se basearam no fato de Ariès ter, em seus trabalhos: partido de fontes
iconográficas e tê-las considerado como expressões de atitudes e valores da época (PINTO,
1997); produzido generalizações afirmando a ocorrência de oposição entre as relações privadas,
valorizadas pela família burguesa, e vida social (SNYDERS, 1984); desconsiderado a existência de
manuscritos que apontavam uma diferenciação entre adultos e adolescentes já na Idade Média, o
que contradizia suas afirmações (SANTOS,1996).
20
Vale lembrar, entretanto, que no Brasil, a privatização dos lares, a ênfase na intimidade e a
preocupação com a escolarização das crianças desenvolveram-se muito tempo depois, quando
comparados com a sociedade burguesa européia (DEL PRIORE, 2004a).
33
O lugar da criança na sociedade brasileira terá sido sempre o mesmo?
Como terá ela passado do anonimato [se é que realmente saiu do
anonimato ou da invisibilidade] para a condição de cidadão com direitos e
deveres aparentemente reconhecidos? Numa sociedade desigual e
marcada por transformações culturais, teremos recepcionado, ao longo do
tempo, nossas crianças da mesma forma? Sempre choramos do mesmo
jeito a sua perda? O que diferencia as crianças de hoje, daquelas que as
antecederam no passado? Mas há, também, questões mais contundentes:
por que somos insensíveis às crianças que mendigam nos sinais? Por que
as altas taxas de mortalidade infantil, que agora começam a decrescer,
pouco nos interessam? (DEL PRIORE, 2004a, p. 8).
No Brasil, em 1976, em seu texto Educação: para quem? Fúlvia Rosemberg
chamava a atenção para a adoção pela Psicologia de uma postura adultocêntrica
no estudo do desenvolvimento humano, compreendendo a criança sempre com
base em um padrão adulto (especialmente de homem, adulto, ocidental, de classe
média) a servir de referência. Desta ótica, as relações adulto-criança, e em
especial adulto-bebê, seriam, de forma geral, marcadas pela subordinação da
infância ao mundo adulto.
A visão adultocêntrica apreende a criança como um vir a ser, uma
promessa, sobre quem é possível projetar e idealizar, como se ela já não fosse
alguém com individualidade e com história. Enquanto promessa, a criança
encarnaria todas as possibilidades de realizar o que os adultos ainda não
puderam.
Uma das concepções idealizadoras da infância:
[...] ao invés de propor a modificação da sociedade-centrada-no-adulto,
paradoxalmente, aceita ou submete-se a seu paradigma. Parte,
inicialmente, da crítica à sociedade adulta corrompida e domesticadora da
infância. A salvação da humanidade só seria possível pela contribuição da
criança, pela preservação de suas qualidades, de sua natureza boa, ainda
não corrompida, porque a-social. Não podendo enfrentar a contradição
fundamental, que opõe a sociedade-centrada-no-adulto à criança, tal
concepção cria o mito e protege a infância, isolando e separando-a da
sociedade, recolocando-a no seu meio ideal, a natureza. (ROSEMBERG,
1976, p. 1467).
Rosemberg (1976) questionava a concepção que considera a infância como
um fenômeno natural e universal. A biologização e naturalização da criança,
34
especialmente do bebê, com os padrões adultos e de maturidade permeando a
compreensão do desenvolvimento, retiram da infância seu caráter histórico e seu
potencial transformador, “[...] pois cada nova infância é reconstruída à luz do
paradigma adulto atual, que viveu sua infância em outro tempo histórico.”
(ROSEMBERG, 1996, p. 21). Essa concepção norteou as diversas teorias da
Psicologia do Desenvolvimento que deram pouca atenção ao tempo social,
privilegiando o aspecto orgânico e as chamadas “etapas” do desenvolvimento,
com ênfase no preparo da criança para a vida adulta, não reconhecendo a criança
como ativa em seu próprio processo de socialização (bem como, no processo de
socialização de outras crianças e adultos).
A infância e a criança têm sido compreendidas como dependentes devido
ao seu suposto ou preconcebido “déficit” em relação ao corpo adulto e a todas as
dependências consideradas como infantis (FERREIRA, 2002; ROSEMBERG,
1976) e essa forma de compreender as crianças parece ser, ainda, mais
acentuada quanto menor é a criança. Essas concepções baseadas nas diferenças
corporais entre adultos e crianças tendem a dualizar criança-adulto e infânciaadultez.
Mesmo algumas teorias feministas, apesar de terem revolucionado os
paradigmas científicos, por meio da utilização da categoria analítica gênero,
desafiando a concepção essencialista e o reducionismo biológico, e considerarem
as relações entre homens e mulheres como histórica, cultural e socialmente
construídas, continuaram a incorporar um modelo adultocêntrico. Com base nesse
olhar, segundo Rosemberg (1996), a família nuclear e as relações de parentesco
permaneceram no centro desses estudos, não se compreendendo a infância fora
do universo adulto e do contexto privado.
Para várias teóricas feministas, como por exemplo, Rubin (1975 apud
ROSEMBERG, 1996) e Gilligan (1992 apud ROSEMBERG, 1996) é:
[...] como se na família se sediasse toda a dinâmica psicológica das
crianças, como se a partir da primeira infância outras instituições não
fossem indicadas pela hierarquia de gênero (construídas por e marcando
adolescentes e adultos), e como se toda dinâmica psicológica das crianças
se esgotasse na família, sempre em uma relação etariamente assimétrica.
(ROSEMBERG, 1996, p.21).
35
Certas teorias feministas, como as que citamos, segundo Rosemberg
(2006c), apresentam uma abordagem adultocêntrica quando:
• generalizam as relações de gênero características da condição de
adulto para todas as fases da vida;
• reconstroem a construção da identidade de gênero na infância
partindo da bipolaridade masculino-feminino que marca a fase adulta;
• opõem infância natureza X adulto cultura;
• silenciam sobre as contradições e relações de dominação entre
adultos e crianças nos planos material e simbólico como, por
exemplo, na hierarquia etária na definição de prioridades em políticas
públicas.
Essas teorias feministas que apresentam uma abordagem adultocêntrica se
mantêm coerentes frente ao eixo de dominação que querem combater – a
subordinação de gênero – mas, se mantêm internamente coerentes através da
naturalização e essencialização da infância.
Segundo Rosenbaum (1998, p. 104), “[...] as pesquisas sobre gênero dos
anos 1990 têm orientado pouco seu olhar para a dinâmica geracional.” A proposta
teórica de Bloch e Buisson (1998, 1999), que apresento no próximo tópico e que
também utilizo como referencial teórico nesta tese, aporta, nesse sentido, um
olhar interessante e inovador sobre a questão geracional, ao afirmar que os casais
podem ou não transformar aquilo que receberam de seus pais ao escolherem
modalidades de educação e cuidado para seus filhos, embora ainda se restrinja,
como abordaremos mais adiante, ao âmbito da família.
Diferentemente do que pensa Martins (1993), Rosemberg (1995) considera
que a sociedade contemporânea não vive o fim da infância, mas sim a
subordinação da infância. Para essa autora, há uma demarcação da infância como
período com necessidades específicas submetido à autoridade adulta, enquanto
categoria subordinada.
Outro foco de crítica destacado pelos novos estudos sobre infância é o
conceito de socialização tal como usado por teorias funcional-estruturalistas. O
modelo de socialização funcionalista compreendendo a socialização como
36
processo de inculcação que se daria em mão única (do adulto ativo ou das
instituições para a criança considerada receptor passivo) está na base da
subordinação da infância. Essa compreensão desconsidera a participação da
criança no seu próprio processo de socialização, no de seus pares e na
socialização de adultos, pais e profissionais de educação (MOLLO-BOUVIER,
2005).
A pesquisadora Érica Burman (1999) também destaca que a Psicologia do
Desenvolvimento desqualifica os discursos das crianças como sendo inferior ao
dos adultos. Para essa autora, não é possível pensar a infância sem se abordar as
relações de poder na sociedade.
Na perspectiva do NEGRI, pressupomos um modelo de sociedade
constituída por conflitos e contradições, no qual as relações de idade (ou as
gerações) participam, ao lado das classes sociais, gênero, raça-etnia, da
construção das desigualdades sociais. Partimos de uma visão de sujeito histórico
e ativo que enfrenta desigualdades e contradições em diversas esferas da vida
social e nas diferentes dinâmicas de classe, gênero, raça e idade. Mas, não
consideramos que as desigualdades sigam um modelo associativo ou cumulativo,
em um movimento sincrônico, com uma pessoa ou grupo enfrentando, ao longo de
sua vida, todos os efeitos das desigualdades de classe, gênero, raça e idade ao
mesmo tempo e da mesma forma (ROSEMBERG, 2006b, 2006c).
Não encontramos dados que indiquem que bebês meninas sofram
discriminação de gênero21 no Brasil, mas parece ocorrer desigualdade em termos
de relações raciais e de idade, por exemplo. Bebês e crianças negras vivem em
áreas com piores condições de saneamento e maior pobreza, mais sujeitas à
desnutrição e mortalidade na infância. A não sincronia também se expressa em
termos de direitos na sociedade contemporânea. Os homens os conquistaram
antes, as mulheres e as crianças depois.
Em uma sociedade centrada no adulto, a dominação adulta sobre a infância
evidencia-se pela pouca visibilidade e voz que é dada às crianças, especialmente
21
Na pesquisa de Galvão (2008), os homens-pais entrevistados relataram expectativas
semelhantes em relação ao futuro de seus filhos, sendo eles meninos ou meninas.
37
às pequenas. Crianças não consideradas como atores sociais não conseguem
exercer seu protagonismo social.
Nos anos 1990, novos aportes e paradigmas procurando romper com
visões naturalizantes, universalizantes, adultocêntricas e a concepção de
socialização como inculcação são propostos pela Sociologia da Infância que
considera as crianças como agentes sociais ativos, procurando compreender a
infância enquanto categoria construída sócio-historicamente (FERREIRA, 2002;
MONTANDON, 2001; QUINTEIRO, 2002; SARMENTO, 2007; SIROTA, 2001).
Os chamados novos paradigmas para o estudo da infância, propostos por
Alan Prout e Allison James (SIROTA, 2001; MONTANDON, 2001), são os
seguintes:
• [A] infância é entendida como uma construção social. Como tal ela provê
um quadro interpretativo para contextualizar os primeiros anos da vida
humana. Infância, diferente da maturidade biológica, não é nem um
atributo material, nem universal dos grupos humanos, mas aparece como
um componente estrutural e cultural específico de muitas sociedades.
• [A] infância é uma variável da análise social. Ela não deve ser
inteiramente isolada de outras variáveis tais como classe, gênero ou
etnicidade. Análise comparativa e intercultural revela uma variedade de
infâncias ao invés de um fenômeno técnico e universal.
• As culturas e relações sociais das crianças merecem ser estudadas em si
mesmas, independentemente das perspectivas e preocupações dos
adultos.
• Crianças são e devem ser vistas como ativas na construção e
determinação de suas próprias vidas sociais, nas vidas de seu entorno e
da sociedade em que vivem. Crianças não são sujeitos passivos das
estruturas e processos sociais.
• [A] etnografia é uma metodologia particularmente útil para estudar a
infância. Ela permite que a criança disponha de uma voz indireta e tenha
maior participação na produção de dados sociológicos que o que é
possível pelas pesquisas experimentais e os surveys.
• [A] infância é um fenômeno no qual a dupla hermenêutica das ciências
sociais está particularmente presente (ver GIDDENS, 1976). Isto é,
proclamar um novo paradigma da sociologia da infância é também engajarse e responder pelo processo de reconstrução da infância na sociedade.
(JAMES, PROUT, 2003 apud FREITAS, 2004, p. 39).
Produções
acadêmicas
em
países
francófonos
ou
anglo-saxões,
considerando a criança como ator social competente, são, portanto, relativamente
recentes. Esses novos estudos sobre a infância compreendem que:
38
[...] a infância não é a idade da não-fala: todas as crianças, desde bebês,
têm múltiplas linguagens (gestuais, corporais, plásticas e verbais) porque
se expressam. A infância não é a idade da não-razão: para além da
racionalidade técnico-instrumental, hegemônica na sociedade industrial,
outras racionalidades se constroem, designadamente nas interações de
crianças, com a incorporação de afetos, da fantasia e da vinculação ao
real. A infância não é a idade do não-trabalho: todas as crianças
trabalham, nas múltiplas tarefas que preenchem os seus quotidianos, na
escola, no espaço doméstico e, para muitas, também nos campos, nas
oficinas ou na rua. A infância não vive a idade da não-infância: está aí,
presente nas múltiplas dimensões que a vida das crianças (na sua
heterogeneidade) continuamente preenche. (SARMENTO, 2007, p. 35-36).
As abordagens da construção social da infância procuram considerar as
crianças a partir de seus próprios referenciais e a se interessar pelo que as
crianças têm a dizer sobre elas e sobre suas vidas. A criança é considerada capaz
de produzir e modificar culturas, capaz também de intervir na própria construção
social da infância. Essas novas concepções de infância chamam a atenção para a
produção de cultura infantil a partir do protagonismo de seus próprios atores na
interação não somente entre pares, mas também entre crianças e adultos,
emitindo opiniões, exercendo sua curiosidade, construindo saberes e produzindo
conhecimentos. Concebe-se a infância como produtora de cultura e as crianças
constituindo e sendo constituídas pelos contextos sócio-culturais onde se inserem
(FERREIRA, 2002; SARMENTO, 2007; VASCONCELOS, 2007).
A concepção da criança de todas as idades como ator-sujeito abre novas
perspectivas para as pesquisas e altera o estatuto da criança enquanto
participante ou enquanto pesquisadora: “[...] seres sociais plenos [as crianças]
ganham legitimidade como sujeitos nos estudos que são feitos sobre elas”
(COHN, 2005, p. 21).
A realização de pesquisas com crianças abre espaço para que se conheça
a diversidade de infâncias e experiências sociais infantis em contextos sóciohistórico-culturais diversos, bem como pode lhes proporcionar maior visibilidade
social (FERREIRA, 2002). Assim, vários pesquisadores partiram à escuta das
crianças22 (ALDERSON, 2005; CORSARO, 2005; FERREIRA, 2002; PRADO,
2002; SIROTA, 2005).
22
Deve-se salientar, entretanto, que a maior parte desses estudos não ouviu ou observou crianças
na faixa etária que é o foco de meu estudo (bebês de até 1 ano de idade).
39
Pesquisando crianças de 0 a 3 anos de idade, brincando em creches
públicas brasileiras, Prado (2002, p. 106) percebeu que elas:
[...] transgrediam a divisão etária proposta no contexto da creche, aquela
utilizada em todo o sistema escolar, que parte de uma concepção de
infância como algo que se compartimentaliza em fases tão delimitáveis
que, quase naturalmente, coloca às crianças um modelo definitivo e
definidor na construção de seu desenvolvimento e de sua identidade
social, reforçada pelas teorias etapistas de desenvolvimento infantil e por
pré-noções em relação à infância, como por exemplo, que as crianças
maiores machucam as crianças menores ou que crianças maiores e
menores não sabem brincar juntas, dentre tantas outras.
Sirota (2005), analisando a experiência de crianças por ocasião das festas
de aniversário, percebeu que entre 2 e 3 anos de idade, as crianças já apresentam
um círculo de amigos, o que é bastante característico da infância moderna,
segundo essa autora.
Por sua vez, Alderson (2005) descreveu inúmeros exemplos bem sucedidos
de pesquisas também realizadas por crianças (algumas a partir de 3 anos de
idade) e adolescentes que conseguiram, não só de maneira eficiente divulgar os
resultados dessas pesquisas, mas influenciar e alterar decisões adultas sobre
inúmeros temas.
Ao se fazer pesquisas com crianças, segundo Alderson (2005), deve-se
tomar o cuidado para não tratá-las como imaturas. Essa autora cita a pesquisa de
Kendrick (1986) em que crianças de 2 anos com câncer foram ouvidas sobre a
natureza e o objetivo dos tratamentos médicos e se expressaram com tanta
clareza que desafiaram as crenças sobre suas possíveis incapacidades de
compreensão.
Alderson (2005) também cita várias pesquisas, da década de 1990
(BOYDEN, ENNEW, 1997; HART, 1997; JOHNSON et al., 1996), que indicam que
crianças bem pequenas, e que ainda não sabem ler ou escrever, podem contribuir
com informações precisas, por meio de sonhos, músicas, desenhos ou mapas,
informando sobre sua mobilidade, rotina cotidiana e aspectos da natureza local.
Relatando sua experiência em pesquisas etnográficas com crianças préescolares norte-americanas (a partir de 4 anos de idade) e italianas (a partir de 3
40
anos de idade), Corsaro (2005) também apreendeu a competência das crianças
enquanto atores sociais ativos na construção de suas culturas infantis.
Diante da realização dessas novas pesquisas, pesquisadores adultos se
depararam com o surgimento de debates e tensões envolvendo questões éticas e
relacionadas aos direitos das crianças (ALDERSON, 2005; KRAMER, 2002).
O direito da criança à autonomia, à voz, ao reconhecimento, por um lado, e
à proteção, por outro, geram uma tensão, um conflito, ainda pouco debatido na
sociedade. A infância protegida pode ser emancipada?
Internacionalmente, os direitos das crianças adquiriram uma nova
dimensão na última década com os assim chamados direitos de
participação. Tradicionalmente, as crianças sempre foram excluídas do que
é conhecido como a primeira geração de direitos, ou direitos à autonomia:
proteção contra as interferências e direitos à integridade física e mental e à
autodeterminação. Eram consideradas estando sob a proteção e o controle
de seus pais. (ALDERSON, 2005, p. 421).
Alain Renaut (2002) e Irène Théry (2001) são alguns dos autores franceses
que vêm debatendo essa contradição observada no campo dos direitos das
crianças, especialmente a partir de análises da Declaração de Genebra, de 1924,
da Declaração dos Direitos da Criança, de 1959, e da Convenção Internacional
sobre os Direitos da Criança aprovada em 198923.
Em pesquisa sobre as representações sociais da criança e do adolescente
entre atores sociais que participaram do processo de elaboração e aprovação da
Constituição Brasileira de 1988 (a primeira a dedicar um capítulo especificamente
à criança e ao adolescente brasileiro), Pinheiro (2004) também apreendeu tensões
entre concepções que compreendiam a criança e o adolescente como objeto de
proteção social e aquelas que os definiam como sujeito de direitos.
Érica Burman (informação verbal)24 também aponta o paradoxo atual entre
uma concepção de infância que compreende as crianças como boas e considera
que elas necessitam ser protegidas e uma concepção de infância que as
23
Para um maior aprofundamento sobre as tensões envolvendo o debate sobre a criança e o
adolescente enquanto sujeito de direitos, sugiro a leitura da pesquisa de Carmem Sussel Mariano
(2009) que atualmente desenvolve sua tese de Doutorado também no contexto do NEGRI.
24
Palestra proferida na PUC-SP em 7 de março de 2007.
41
caracteriza como perigosas ou más. A sociedade ocidental contemporânea deseja
proteger as crianças, mas, ao mesmo tempo, parece também querer controlá-las.
No âmbito do NEGRI, temos optado por desenvolver pesquisas sobre
discursos proferidos por adultos sobre criança(s) e infância(s). Isto porque nosso
interesse se volta para a compreensão da articulação entre a agenda de políticas
sociais e a concepção de infância que a sustenta. A este interesse no plano do
conhecimento se alia um objetivo político que visa a construção de uma agenda
de
políticas
públicas
mais
sensível
aos
direitos
da
criança
pequena,
particularmente dos bebês.
A partir dessa ótica de análise, Neyrand (1999, 2000), na França,
estudando discursos proferidos por adultos sobre o bebê e a pequena infância,
especificamente discursos acadêmicos, apreendeu três rupturas sucessivas que
produziram, de certa forma, alterações no modo de se conceber a infância:
• uma ruptura epistemológica e política;
• uma ruptura social e ideológica;
• uma ruptura científica e moral.
Com base nesse autor descreverei, brevemente, cada um desses
momentos de mudança sobre as concepções de infância, alguns que ocorreram
mais especificamente em contexto francês.
A ruptura epistemológica e política
Com o fim da Segunda Guerra mundial e com a apropriação pelos médicos
e pediatras do discurso da psicanálise, um novo olhar sobre o bebê e sobre a
importância de sua vida afetiva se desenvolveu. Embora a psicanálise tenha se
interessado pelos bebês, muito antes do final dos anos 1940, foi com os efeitos da
guerra sobre bebês separados de suas famílias que as teorias do hospitalismo e
da carência materna ganharam força.
Os estudos de René Spitz e Bowlby, entre outros, marcaram o momento de
disseminação da psicanálise entre várias áreas médicas ligadas à infância, mas
também sobre a puericultura e a educação e cuidado coletivo da criança pequena.
A psicanálise tornou-se referência no campo do conhecimento sobre a infância,
42
não somente entre especialistas, mas também entre o público em geral, tendo
sido intensamente popularizada pela mídia.
Ao mesmo tempo em que a psicanálise reforçava a importância do vínculo
mãe-bebê (ao qual Winnicott concedeu estatuto de díade), renegava as
instituições coletivas de educação e cuidado de crianças, bem como,
menosprezava o papel do pai. Com efeito, no plano do desenvolvimento afetivo do
bebê, segundo essas teorias, modalidades coletivas de cuidado produziriam
carência e tanto elas, quanto o pai da criança, jamais conseguiriam substituir a
mãe no processo de socialização de seu bebê.
A ruptura social e ideológica
Com o início dos anos 1970, esse panorama vai, entretanto, se alterar. As
mudanças passam a se referir mais à mulher e à criança pequena e, nos anos
1980, ao pai.
O movimento feminista rompe com padrões de relações de gênero,
especialmente no que diz respeito ao controle de natalidade e à participação da
mulher no mercado de trabalho.
A idéia de instinto maternal como algo natural é questionada por Badinter e
a experiência de Bettelheim, sobre Kibboutz em Israel, mostra a possibilidade de
cuidados do bebê para além da díade mãe-filho.
A concepção de mulher dona-de-casa, dependente do marido, começa a
ser substituída pela idéia de um casal onde tanto o homem quanto a mulher
trabalham fora. Apesar disso, e da necessidade crescente de atendimento das
crianças pequenas em instituições de educação e cuidado, a mulher continua
sendo associada aos cuidados infantis. A díade mãe-bebê parece ser substituída
pela díade mulher-bebê.
A partir dos trabalhos de Françoise Dolto, na França, surge uma nova
imagem de criança pequena. O bebê sendo considerado como uma criançasujeito, simbolizado pela máxima “o bebê é uma pessoa”. Partindo dessa
concepção, é desenvolvido, na França, um novo tipo de instituição para cuidado e
educação das crianças pequenas, a Maison verte, que procurava reconciliar a
43
valorização das famílias com a socialização coletiva, através da sua integração
nesse cuidado e procurando evitar tanto os riscos da fusão excessiva entre a
criança e a mãe, bem como os malefícios de uma transição abrupta para um
atendimento coletivo que fosse despersonalizado.
Nos anos 1980, outra questão que ganhou força foi a do papel do pai na
parentalidade. A ausência ou distanciamento do pai em relação à gestação e ao
cuidado da criança passam a ser problematizados, na medida em que a carência
paterna passa a ser associada aos problemas de adaptação, de delinqüência e
outras perturbações durante a vida.
Especialmente na França, a teoria lacaniana repercute e, ao valorizar a
função simbólica e de autoridade do pai, acaba por reforçar uma ideologia de
divisão dos papéis parentais na sociedade. Enquanto a função de cuidado
continua associada à figura materna e a de autoridade associada à função
paterna, mesmo que essas funções sejam consideradas como simbólicas e
independentes de atribuições concretas, essa divisão acaba “oficializando” e
contrapondo os papéis materno e paterno. Entretanto, quando mãe e pai não são
mais associados a funções específicas no âmbito da educação e cuidados dos
filhos, ambos podem exercer tanto cuidados quanto autoridade.
Funções de cuidado e educação desvinculadas dos papéis de mãe e pai
possibilitam, também, que outras pessoas possam assumi-las, sem serem
consideradas como substitutos maternos ou paternos, mas como educadores de
crianças. Isso permite que se reconheça a especificidade de cada pessoa próxima
da criança, inclusive dos educadores, bem como possibilita que o modelo de
família nuclear ocidental burguesa não seja mais considerado como universal.
Contudo, o modelo que ainda prevalece, nesse período, nas sociedades
ocidentais é mesmo o da divisão sexual das atribuições com a dominação
masculina se exercendo no espaço público e o poder feminino no espaço privado
e na relação com a criança pequena.
O papel do pai, marcado por sua função simbólica e pelas alterações, cada
vez mais freqüentes em seu estatuto jurídico (pais divorciados, separados),
44
continua frágil e clama por uma nova ruptura que o campo dos conhecimentos
sobre infância aportará nos anos seguintes.
A ruptura científica e moral
A responsável por essa nova ruptura foi a Medicina, por meio de seus
avanços e novas possibilidades de intervenção médica na reprodução assistida.
Essas novas técnicas marcam o começo de uma nova concepção de filiação e do
lugar do filho trazendo novas questões e conflitos éticos que devem ser
regulamentados pelo direito.
A questão da relação do pai com o filho volta à tona, mas agora,
confrontada com a questão da própria filiação materna. A partir desse momento, a
paternidade biológica se torna certa pelo empréstimo de material genético,
enquanto a maternidade biológica pode ser colocada em dúvida: a mãe biológica é
a que fornece o óvulo ou o útero?
A medicina retoma sua posição de poder sobre a infância, tal qual
ostentava no século XIX e que foi contestada pelas ciências humanas no século
XX. O Direito, por sua vez, cada vez mais solicitado a acompanhar a evolução dos
costumes no domínio familiar, particularmente na França, se vê envolvido com a
regulação das práticas sociais no âmbito do privado, especialmente com relação à
filiação.
Essa dupla ruptura, social e médica, que também esteve implicada nas
mudanças iniciadas nos anos 1970, constitui a base do questionamento sobre o
modo de se apreender o contexto relacional do bebê.
Não é mais possível, pois, conceber o desenvolvimento psicomotor e
cognitivo independentemente da vida relacional e afetiva que o sustenta. A
idéia piagetiana de um desenvolvimento essencialmente interno da
inteligência sensório-motora se encontra questionada em benefício de uma
nova importância acordada às estimulações sensoriais do entorno. Do
mesmo modo, as análises modernas da linguagem tendem a sublinhar,
sobre a base de uma predisposição inata à aprendizagem, o seu caráter
ativo e a importância do meio, redescobrindo de certa forma o trabalho
precursor de Vygotsky. (NEYRAND, 1999, p. 10, tradução nossa).
45
Em paralelo com a Medicina, a Psicologia do Desenvolvimento revê
saberes anteriores e passa a reconhecer a importância das estimulações
sensoriais do ambiente no desenvolvimento infantil.
Novas concepções sobre o bebê construídas a partir de pesquisas sobre
suas capacidades cognitivas, intelectuais, relacionais e afetivas, vêm destacando
cada vez mais, seu papel de sujeito ativo, inclusive, em seu próprio
desenvolvimento.
Embora tenhamos apreendido, através dos estudos de Neyrand (1999,
2000), a ocorrência de rupturas e transformações nos discursos acadêmicos sobre
o bebê e a criança pequena, ainda nos parece que o foco de suas análises recai
mais sobre a família (mais do que sobre as modalidades de educação e cuidado
coletivos) e, quase sempre, sobre o bebê na condição de filho.
Apesar de os novos estudos sobre a infância terem proposto, como vimos,
novos paradigmas importantes, essa área de conhecimento em construção
também apresenta três dificuldades ou tensões quando tentamos pensar
especificamente o bebê, a criança de pouca idade que dispõe de uma linguagem
que os adultos apresentam dificuldade em decodificar, daí nossa opção por
estudarmos, nesse momento, discursos proferidos por adultos sobre os bebês.
A primeira tensão, segundo Rosemberg (2006c, p.6), refere-se “[...] ao
estatuto epistemológico da categoria infância na Sociologia da Infância
contemporânea. Trata-se de uma categoria descritiva ou analítica?” Infância,
classe, gênero e etnicidade (ou raça) teriam a mesma equivalência heurística?
Classe, gênero e raça pressupõem um outro como contraponto relacional. Qual
seria o outro termo para a Sociologia da Infância que se relacionaria com a
variável infância? Para a Sociologia da Infância, seria a infância, ou a categoria
“idades da vida”, que estaria sendo considerada como variável? Infância enquanto
categoria analítica estaria para relações de idade (como um dos pólos), como
mulheres está para a categoria gênero?
Uma segunda tensão diz respeito à linguagem. Na produção de
conhecimentos sobre a infância pode estar havendo uma não precisão em relação
ao sentido de criança - considerada como fase da vida ou considerada como filho-,
46
de acordo com a língua de produção. Em alguns idiomas como o português, o
espanhol e o italiano, por exemplo, se faz a distinção clara entre criança (puer) e
filho (filius). Já, em outros, como o inglês e o francês, a mesma palavra remete
aos dois sentidos (ROSEMBERG, 2006c). O uso de um mesmo termo pode gerar
imprecisão teórica e política, encobrindo a condição de cidadã da criança e sua
possível associação ao espaço público em contraposição à condição de filho,
ainda vinculado mais ao espaço privado.
Rosemberg (2006b, 2006c) destaca, também, a tensão relacionada à faixa
etária. Qual a idade da criança para a Sociologia da Infância? A impressão que se
tem é que o grupo etário de referência para esses estudos é o das crianças entre
5 e 16 anos. Aparentemente, as crianças da Sociologia da Infância falam, mas
essa delimitação da faixa etária é vaga. Os novos paradigmas da Sociologia da
Infância estariam também incluindo os bebês? O bebê também poderia ser
considerado ator social ou produtor de cultura, mesmo sem ter as suas formas de
linguagem facilmente ou adequadamente compreendidas pelos adultos ou por
outras crianças?
Procurando buscar possíveis respostas para esses questionamentos, os
integrantes do NEGRI tiveram a oportunidade de indagar Régine Sirota e Manuel
Sarmento, pesquisadores de renome no campo dos novos estudos sobre a
infância, por ocasião de suas palestras proferidas na PUC-SP em 16 de abril de
2007 e 20 de junho de 2007, respectivamente. Em suas respostas, os
pesquisadores destacaram que a Sociologia da Infância compreende a criança de
0 a 18 anos, mas tiveram dificuldade para precisar como a autonomia proposta
pelos novos estudos sobre a infância poderia ser pensada para o bebê. Régine
Sirota propôs que pensássemos no bebê provocando alterações a partir de seu
nascimento, no estatuto social de seus pais (que deixariam de ser apenas filhos e
se tornariam pais), mas concluiu que essas mudanças provocadas pelo
nascimento do bebê não poderiam ser totalmente caracterizadas como
manifestação de autonomia, como pressupõe a expressão ator social.
47
Mesmo Priscilla Alderson (2002), ao apontar três objeções25 que
habitualmente são feitas à participação e capacidade dos bebês em opinar e
exercer seus direitos, não se refere propriamente aos bebês (ou crianças menores
de 1 ano) participando de pesquisas enquanto atores sociais, mas fornece alguns
exemplos de como eles, desde bem pequenos, podem se manifestar de outras
formas, que não somente através da fala, por exemplo, frente a situações
envolvendo sua própria alimentação e higiene26.
Reconhecer as crianças como sujeitos em vez de objetos de pesquisa
acarreta aceitar que elas podem “falar” em seu próprio direito e relatar
visões e experiências válidas. Essas “falas” podem envolver língua de
sinais, quando as crianças não podem ouvir ou falar, e outros sons e
linguagens corporais expressivas, tais como os das crianças autistas ou
com graves dificuldades de aprendizagem (ALDERSON, GOODEY, 1998
apud ALDERSON, 2005, p. 423).
É interessante notar também que a Convenção Internacional sobre os
Direitos da Criança (1989) se refere de forma geral, a uma criança que fala, que
anda e que tem autonomia.
Nossas problematizações não se referem à concepção de bebê como
sujeito, pessoa ativa que age e reage frente ao seu meio, capaz de expressar
preferências, afetos, de comunicar-se. Problematizamos a atribuição do estatuto
de ator social ao bebê, como também a não demarcação de divisões internas à
categoria infância. Isto nos leva a refletir sobre a prevalência de concepções
referentes a todo o “ciclo vital” da infância ou a concepções diferenciadas
internamente à própria infância. As diferenciações internas à infância não
decorreriam apenas de posições de classe, raça-etnia, gênero, região/país, mas
também das próprias idades.
25
Segundo Alderson (2002), a primeira objeção à participação infantil baseia-se na concepção de
que a criança pequena não saberia o que é o melhor para si e que considerar seu ponto de vista
poderia ameaçá-la em seu bem-estar ou proteção. A segunda objeção parte da concepção de que
a criança não apresenta um pensamento racional e, portanto, seria incapaz de exercer seus
direitos. Por sua vez, a terceira objeção concebe que a criança pequena é ainda pouco
desenvolvida, ignorante, emotiva e egoísta para exercer seus direitos.
26
A autora citou exemplos envolvendo bebês de 7, 12 e até 17 semanas de vida que estavam
internados em unidades de terapia intensiva e que se expressavam sobre seus desejos durante o
banho, amamentação ou quando se sentiam incomodados com a fralda molhada.
48
Os novos estudos sobre infância não têm separado as etapas da vida e/ou
não têm chamado atenção para distinções internas à infância. Mesmo esforços
como os de Neyrand (1999, 2000) e Chamboredon e Prévot (1986) abordam mais
a incorporação das crianças pequenas na reflexão sociológica e os dispositivos
sociais criados para elas e menos, ou muito pouco, as distinções internas à
infância.
Diante das tensões que apontamos, embora estudos diretos com crianças
pequenas sejam importantes, eles não se mostram suficientes, especialmente
quando lidamos com crianças menores de 1 ano.
Assim, optei pela análise e interpretação dos discursos adultos, no caso,
discursos das mães sobre o bebê, sua educação e cuidado. Para tanto, além de
me basear nos estudos contemporâneos sobre a infância, utilizei também, como
referencial teórico, os estudos das pesquisadoras francesas Françoise Bloch e
Monique Buisson (1998, 1999) que, com base na teoria sobre a dádiva de Marcel
Mauss (1950), pesquisam e interpretam as escolhas de casais por modalidades de
educação e cuidado para crianças como veremos a seguir.
2.1.2 TEORIA SOBRE A DÁDIVA
Por meio da tese de doutorado de Lima (2004), entrei em contato com os
estudos das autoras francesas Bloch e Buisson (1998, 1999) que, a partir do
conceito sobre o dom/dádiva de Mauss (1950), desenvolvem uma teoria para a
análise da demanda por modalidades de cuidado e EI na França.
Antes de apresentar a teoria de Bloch e Buisson (1998, 1999), proponho
que conheçamos um pouco da obra de Mauss27, base para o trabalho das
francesas.
27
Visando me aproximar e melhor conhecer a obra de Mauss, já que era ela que norteava as
autoras francesas, tive a oportunidade, no segundo semestre de 2005, de cursar a disciplina
Marcel Mauss: sobre o Dom e o Sacrifício, ministrada pela Profª. Drª. Josildeth Gomes Consorte,
do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP.
49
Para escrever, em 1920, o que se tornaria sua obra mais importante e
reconhecida, Essai sur le don, Marcel Mauss se baseou em relatos de outros
antropólogos sobre as sociedades na Polinésia, na Melanésia e no noroeste norteamericano. Segundo o autor, nessas sociedades ocorriam trocas não somente de
bens ou recursos. O que se podia perceber é que os clãs ou famílias trocavam,
por intermédio de, ou representadas por, um chefe, toda sorte de bens, não só os
econômicos, mas também serviços, festas, ritos, mulheres e crianças, além de
presentes. As trocas, aparentemente voluntárias, eram, na realidade, obrigatórias
e a retribuição era quase sempre esperada. A esse sistema, Mauss (1950)
denominou sistema das prestações totais.
A troca estava ligada à produção de bens de toda a natureza e não só aos
bens de consumo. Todos os aspectos da vida, todas as transações, todos os
contratos, todas as relações eram e podiam ser permeadas pela troca. Parecia
que tudo que circulava (através dessas trocas) estava reforçando e atualizando,
constantemente, as relações entre famílias ou clãs.
Dentre os temas e instituições complexas que compõem a vida em
sociedade, Mauss (1950) definiu seu problema de estudo procurando formular
perguntas específicas sobre esse tipo de prestação, que envolvia muito mais do
que uma simples troca comercial ou econômica, e que ocorria, segundo ele, em
quase todas as sociedades.
Qual é a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo
atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja
obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa que se dá que faz
com que o donatário a retribua? (MAUSS, 1950, p. 52).
Estudando a forma de relacionamento e de prestação entre os Tlingit e os
Haïda, do noroeste norte-americano, Mauss assinalou a ocorrência do potlatch
que “[...] quer dizer essencialmente ‘alimentar’, ‘consumir’ [...] uma forma, típica
sem dúvida, mas evoluída e relativamente rara, dessas prestações totais.”
(MAUSS, 1950, p. 56). Os Tlingit e os Haïda, com suas estruturas hierárquicas
bem demarcadas, apresentavam todo tipo de prestações com festas, ritos,
negociações jurídicas e econômicas, mas tudo permeado por grande rivalidade
50
visando preservar o poder e a hierarquia, podendo mesmo levar à destruição de
recursos. A esse sistema Mauss chamou de prestações totais de tipo agonístico.
“A obrigação de dar é a essência do potlatch.” (MAUSS, 1950, p. 115, grifo
nosso). Para mostrar-se soberano, o chefe de uma família ou clã deve dar,
mostrando tanto que tem para dar, quanto preservando sua imagem, seu poder e
sua honra. “A obrigação de receber não é menos constrangedora. Não se tem o
direito de recusar uma dádiva, de recusar o potlatch.” (MAUSS, 1950, p.121, grifo
nosso). Recusar uma dádiva é demonstrar medo ao ter de retribuir, é sentir-se
inferior, humilhado pela dádiva e pelo poder do outro, ou inversamente,
demonstrar suposta superioridade.
O autor acredita que a obrigação de retribuir está mesmo ligada ao espírito
- hau - da coisa dada, algo que transcenderia a materialidade, tendo uma
dimensão subjetiva e mágica que acompanharia o objeto dado e que implicaria na
obrigação de retribuí-lo. Mauss (1950) parte do vínculo, da força da coisa dada,
que não é inerte, mas tem um espírito28. “Tudo se passa como se houvesse troca
constante de uma matéria espiritual, compreendendo coisas e homens, entre os
clãs e os indivíduos, repartidos entre as classes, os sexos e as gerações.”
(MAUSS, 1950, p. 69).
Mauss (1950) reconhece que coisas trocadas são trocadas em momentos
diferentes e têm pesos e valores diversos. A troca é um genérico. A especificidade
como ela ocorre diz respeito aos valores, podendo haver um estatuto para cada
troca.
Apesar de o autor ter identificado poucos exemplos de sociedades onde
prevalecia a prestação total permeada por rivalidade entre famílias, ele apontou a
ocorrência de uma forma intermediária, entre um número considerável de
sociedades, onde a rivalidade não era tão declarada, mas onde, mesmo assim, a
retribuição
era
aguardada
e
necessária
e
os
indivíduos
rivalizavam
moderadamente, mas rivalizavam por meio de festas, presentes e convites.
28
Mauss foi criticado por Lévi-Strauss, que ofereceu outra interpretação para o que
“acompanharia” a coisa dada, substituindo o imaginário pelo simbólico.
51
Para Mauss (1950), o comportamento ou gesto de dar, que pode ser por
obrigação ou por generosidade, gera, para o outro, a obrigação de receber e
retribuir o dom. Para o autor, o fato é social. Cria-se um vínculo social, um
relacionamento entre quem dá e aquele que recebe e retribui, vínculo esse que
supera o próprio contrato real que possa existir entre as partes. Uma relação de
pertença ao grupo, de compromisso, é construída.
Todo tipo de troca pressupõe um tempo de espera, já que muitas vezes, a
retribuição não é imediata. É, então, no momento da retribuição que os vínculos
sociais se fortificam e que a troca se completa. A dádiva não retribuída, ou a
retribuída de forma desigual ou não equivalente, inferioriza aquele que a recebeu,
ainda mais quando recebeu sem a intenção de retribuir. Segundo a análise de
Mauss (1950), a capacidade de retribuir preservaria a honra e o poder.
Ora, em todas essas numerosas sociedades, em todos os tipos de graus
de civilização, [...] essas trocas e esses dons de coisas que ligam as
pessoas se efetuam a partir de um fundo comum de idéias: a coisa
recebida como dom, a coisa recebida, em geral, compromete, liga mágica,
religiosa, moral e juridicamente o doador e o donatário. Vindo de uma
pessoa, fabricada ou apropriada por ela, e sendo dela, confere-lhe poder
sobre o outro que a aceita. (MAUSS, 2001, p. 365).
Como a vida social se baseia em múltiplos e complexos aspectos morais,
jurídicos, religiosos, econômicos e subjetivos que se articulam, não haveria para o
autor um só fator determinante do fato social. O fato social total abrangeria essa
cadeia de aspectos em relação.
Nesse sistema [Mauss refere-se ao sistema social das prestações totais]
não somente jurídico e político, mas também econômico e religioso, os
clãs, as famílias e os indivíduos ligam-se por meio de prestações e de
contraprestações perpétuas e de todos os tipos, comumente empenhadas
sob forma de dons e de serviços, religiosos ou outros. (MAUSS, 2001, p.
364).
Segundo Mauss (1950), as trocas também ocorrem em uma mesma família.
Ocorrem trocas que podem não seguir o potlatch, mas que também podem gerar
conflitos. Ao refletir sobre a dádiva, Mauss (1950) pensava sobre o sentido de dar
e também sobre o paradoxo da retribuição que, para ele, está na raiz das relações
52
humanas. Para o autor, estudar o significado social do ato, do gesto de dar, é
estudar o que caracterizaria os humanos.
A troca é, para Mauss (1950), um componente essencial da vida social e,
através de seus estudos, ele procurou compreender melhor o que nos une e nos
conecta enquanto seres humanos. As trocas, segundo ele, vinculam coisas às
pessoas e pessoas às coisas. Mais do que isso, talvez, as trocas vinculem
pessoas a pessoas através de suas coisas, emoções, sentimentos e experiências
trocadas, pois, como apontam Bloch e Buisson (1998, 1999), já nascemos
devedores da vida e dos cuidados que recebemos de nossos pais.
Ao relacionarem o dar, o receber e o retribuir com as escolhas de casais
por modalidades de educação e cuidado para seus filhos, as pesquisadoras
francesas29 apresentam uma leitura contemporânea30 da obra de Marcel Mauss e
recuperam seus conceitos para a análise de temas que deveriam obter maior
destaque e visibilidade na área social, como a EI, já que a cada dia mais mulheres
ingressam no mercado de trabalho e encontram-se diante da necessidade de
conciliar carreira profissional e família.
A teoria de Bloch e Buisson (1998, 1999) compreende que a escolha por
uma determinada modalidade de educação e cuidado infantil baseia-se em
crenças construídas a partir da interação entre o indivíduo e seu grupo social e
cultural e são influenciadas, também, pela história pessoal de cuidados e
educação recebidos pela mãe e pelo pai do bebê e por uma dinâmica
intergeracional.
As pesquisadoras focalizam o processo de escolha de mães e pais por
modalidades de educação e cuidado para seus filhos31, no contexto francês32,
29
O trabalho de Bloch e Buisson é fruto de pesquisas, durante ao menos uma década, sobre a
dádiva, a dívida e a filiação, constituintes da construção do vínculo familiar e da rede de
interdependência entre gerações.
30
Sirota (2005) também apresenta uma leitura contemporânea da teoria da dádiva proposta por
Marcel Mauss (1950), ao analisar a troca de presentes e contrapresentes em festas de aniversário
infantis. A autora chega, inclusive, a utilizar o termo potlatch da infância para esse evento que
envolve socialização, mas também produção de cultura infantil e, ao mesmo tempo, exercício de
parentalidade.
31
Como já comentamos, Rosemberg (2007) vem chamando a atenção sobre os sentidos
vinculados ao termo criança em idiomas que possuem palavras específicas para puer e filius, como
em português, criança e filho, ou que não possuem, como em francês enfant e em inglês children
(ROSEMBERG, ANDRADE, 2007). Sendo a questão da linguagem tão importante, procurei realizar
53
enquanto eu procuro descrever e interpretar discursos maternos sobre o bebê,
não somente filho, sua educação e cuidado, no contexto brasileiro. Acreditamos
que as mulheres-mães que escolhemos entrevistar, representantes das camadas
médias da população, urbanas, com formação universitária e residentes em um
município que apresenta bons indicadores de qualidade de vida e é vizinho da
maior cidade brasileira, se aproximam, em parte, da população francesa estudada
por Bloch e Buisson (1998, 1999).
As autoras francesas mostram, em seus estudos, que mais do que uma
livre escolha ou uma escolha racional - baseada somente em uma análise custobenefício de cada modalidade -, optar por um tipo de atendimento para crianças
pequenas envolve sempre uma reflexão sobre a história de muitas vidas: a dos
pais (e o que eles já viveram enquanto experiências até aquele momento –
incluindo como se relacionaram com os modelos materno e paterno) e de seus
filhos (ou o que os pais planejam, desejam ou fantasiam para a vida deles).
A primeira experiência social que a criança tem é a de estar inscrita,
socializada em uma configuração familiar específica. Este primeiro vínculo
tem a particularidade de inscrever o indivíduo em uma genealogia, em uma
história, em uma cadeia de interdependências na qual seu nascimento
modifica o lugar ocupado por cada um; seu pai, sua mãe deixam suas
posições de filhos para ocuparem, por sua vez, a de pais. (BLOCH,
BUISSON, 1998, p. 19, tradução nossa).
Para Bloch e Buisson (1998), “[...] o cimento do vínculo familiar que une
cada geração às precedentes é a dádiva e seu princípio dinâmico: a dívida.” (p.
20, tradução nossa). Passar a fazer parte de uma genealogia familiar, sem
uma leitura e tradução cuidadosas para que pudéssemos, de forma mais fidedigna, nos aproximar
dos sentidos que estavam sendo atribuídos pelas autoras francesas à expressão enfant, se elas
estariam se referindo à criança, enquanto fase da vida ou enquanto filho.
32
Segundo dados franceses referentes ao ano de 2002 (FRANCE, 2008), dois terços das crianças
francesas entre 4 meses e 3 anos de idade ficavam, durante a semana, principalmente com um de
seus pais. Outros 18% ficavam com assistentes maternais ou em creches domiciliares, enquanto
8% freqüentavam principalmente creches coletivas, o que significava dizer que as modalidades
coletivas de EI representavam cerca de um terço dos modos de educação e cuidado infantis que
vinham sendo utilizados por essa população. É importante destacar, também, que, na França,
convivem várias modalidades coletivas de EI (FRANCE, 2009), dentre elas: as creches coletivas
que atendem, de forma regular, crianças com menos de 3 anos; as creches domiciliares que se
baseiam no atendimento fornecido por uma assistente maternal conveniada que acolhe as crianças
em seu próprio domicílio; e as “haltes-garderies” que oferecem atendimento eventual às crianças
de menos de 6 anos. Além disso, a escola maternal (sistema nacional de educação) acolhe
crianças a partir de 2 anos de idade.
54
imaginar que nós próprios estaríamos na origem de nossa existência e sem nos
confundirmos com nossos ascendentes, é reconhecer que a vida nos foi dada.
Que se trate do dom inicial - este da vida - ou mais amplamente da
herança material e simbólica recebida, reconhecer esses dons, é se sentir
devedor para com nossos pais como foram eles mesmos devedores para
com seus ascendentes. Nessa cadeia de interdependência que são a
família e a transmissão intergeracional, os “dons” aos filhos revestem, em
um mesmo movimento, o sentido de contra-dom destinados aos
ascendentes: perpetuar a vida, retomar a herança material e simbólica, é,
então, reconhecer uma dívida para com seus pais, e mais amplamente
para com seus ascendentes, e com sorte, introduzir seus filhos no mesmo
tipo de relação. [...] A dinâmica dessa ligação reside, então, no ponto de
vista daquele que recebe: esse que se sente devedor e convocado a
ocupar por sua vez a posição de doador, tentando como sublinhou Mauss
(1968) dar mais do que recebeu, transformando dessa forma a herança e
as práticas sociais; ou então, sentindo uma incapacidade de reduzir a
dívida tanto que o dom recebido foi excessivo e o aniquilou? Ou ainda
considerando esse dom como não tendo satisfeito sua expectativa?
(BLOCH, BUISSON, 1998, p. 20, tradução nossa).
Segundo as pesquisadoras, para conquistar, então, um lugar na genealogia
familiar, o indivíduo deve assumir um papel ou uma posição frente aos seus
ancestrais, bem como frente ao social. Ele vai assim ou retomar certos elementos
de sua história familiar ou transformar outros visando se distanciar. Dentre os
aspectos que podem possibilitar a transformação e o distanciamento em relação
às práticas das gerações anteriores estão: a união, isto é, a presença do cônjuge
com seu posicionamento em relação à sua própria herança e história; o filho ou
algum outro membro da família e as instâncias de socialização exteriores à
família. É aqui que as modalidades e as políticas públicas de educação e cuidado
destinadas às crianças pequenas ganham importância.
O filho, depositário dessa herança e da transformação que seus pais
desejam aportar, se encontra no centro dessa dinâmica do dom e da
dívida. Essa famosa “disponibilidade” para com a criança, constantemente
atribuída às mulheres [...] é o objeto de uma re-interpretação recorrente
que responde como em eco às concepções sócio-historicamente
construídas sobre a infância e o ideal normativo da boa mãe. Esse ideal
está, ele mesmo, em constante metamorfose ao longo das mudanças
sócio-históricas, mas também segundo a maneira como cada um reinterpreta sua história familiar e social. (BLOCH, BUISSON, 1998, p. 21,
tradução nossa).
55
Para as francesas, a compreensão de como a norma social da boa mãe se
torna perene ou se transforma constitui um dos eixos importantes para se refletir
sobre a opção por determinados modos de educação e cuidado infantil. Segundo
Bloch e Buisson, com o nascimento do primeiro filho, o casal terá de decidir com
quem e onde deixar o bebê e essa decisão se situa entre contradições sociais
reveladoras das relações sociais de gênero: a atividade profissional da mulher em
oposição à norma da boa mãe (essa que estaria o tempo todo disponível para os
filhos). Diante dessas contradições, os pais podem “externalizar”33 a educação de
seu filho, optando por um tipo de atendimento realizado por pessoas estranhas à
rede familiar (babás, educadoras ou professoras, por exemplo) em sua própria
residência ou em um ambiente coletivo (como creche ou escola/berçário), ou
então “internalizá-la”34, confiando o cuidado de seu filho a uma pessoa de sua
própria família como a avó da criança, por exemplo, ou com a própria mãe do
bebê assegurando seu cuidado e educação no domicílio familiar.
A norma social da boa mãe, aliada ao sentimento de dívida em relação aos
próprios ascendentes, poderia levar os pais, e em especial as mães, a procurarem
retribuir as dádivas recebidas - a vida e cuidados recebidos - ao cuidarem, de
forma semelhante ou não, de seus filhos.
As pesquisadoras francesas propõem, portanto, investigar como se mantém
ou se alteram as práticas sociais e a norma relacionada aos cuidados infantis,
bem como o que está em jogo, na educação do filho. Elas procuram compreender
como e porque, por exemplo, certas famílias preferem não externalizar a
educação e o cuidado de seus filhos, optando pela interrupção da atividade
profissional da mãe ou mesmo delegando esse cuidado à avó da criança.
Bloch e Buisson (1998) acreditam que muitos componentes sociais estão
presentes na escolha de um determinado tipo de modalidade de educação e
33
O termo “externalizar” significa a delegação da educação e cuidado da criança a uma pessoa
exterior à família, ou seja, que não possui vínculo com a família e que é remunerada por esse
serviço. A modalidade de educação e cuidado infantil que poderia, portanto, ser considerada a
mais externa seria a creche.
34
O termo “internalizar”, por sua vez, significa que a educação e o cuidado da criança são
assegurados por alguém da própria família, na maior parte dos casos, pela mãe ou pela avó. A
educação e os cuidados oferecidos pela própria mãe do bebê em sua casa constituiriam, assim, a
modalidade considerada mais interna.
56
cuidado infantis. Elas escolheram analisar três desses componentes: a família; o
dinheiro; e o Estado (através das políticas sociais que implementa). Para as
autoras, essas três dimensões se articulam no momento da reflexão sobre onde e
com quem deixar seu bebê e nessa articulação podem surgir vários conflitos.
A configuração familiar
Ao nascer, a criança se inscreve em uma configuração familiar, alterando
os papéis de todos. Homem e mulher deixam de ser apenas filhos e tornam-se
pais. Além disso, o bebê se inscreve em uma dada genealogia e história, onde
além de ter recebido o dom da vida, estará recebendo uma herança material e
simbólica (que incluirá não só os cuidados que receberá, mas também práticas
culturais e sociais).
Nessa nova configuração familiar, o filho inscreve-se, também, na dinâmica
da dádiva e da sua contrapartida, a dívida. Ao identificar ter recebido um dom,
gera-se o contra-dom, ou um posicionamento de devedor, de quem possui uma
dívida para com seus ascendentes. Para Bloch e Buisson (1998), que abordam,
sobretudo, a questão geracional familiar, o “[...] peso das heranças e das
transmissões se exprime no jogo das ‘dívídas’ contraídas por uma geração em
relação àquela que a precedeu ou entre os membros da rede familiar [...].” (p. 6,
tradução nossa).
Ao possibilitar a vida e o cuidado de seus filhos, os pais estariam, além de
inserí-los na dinâmica, retribuindo, de certa forma, o que receberam, por sua vez,
de seus próprios ascendentes. Assim, dar significaria devolver, retribuir; e retribuir
significaria dar. Esse modo de funcionamento entre as gerações foi nomeado
pelas autoras francesas como “funcionamento por meio de dívida”.
O funcionamento por meio de dívida é, segundo Bloch e Buisson (1998), o
princípio dinâmico do dom, no qual retribuir não significa nunca abolir a relação
social concreta na qual nos encontramos; é o princípio pelo qual retribuir se
confunde com dar, já que é, ao mesmo tempo, um movimento de tentar se
desfazer da posição de devedor e inserir o outro, por sua vez, nessa posição.
57
Para as autoras, existe um laço de união entre a disponibilidade frente ao
filho e o dom. O dar a vida, os cuidados e as tarefas para com o filho estão no
centro dessa relação. Bloch e Buisson (1999) afirmam que uma dimensão de
oblação35 pode permear a dinâmica do dom/da dádiva, com aquele que dá - nesse
caso, a mãe - se preocupando, prioritariamente, com as necessidades daquele
que recebe - nesse caso, o filho -, muitas vezes em detrimento de suas próprias
necessidades.
[...] A dinâmica do dom/da dádiva apresenta essa característica de tornar
inseparáveis sujeitos – aqui a mãe e os filhos – e objetos – os cuidados e
prestações domésticas: dissociá-los implicaria o risco de esvaziar de seu
sentido a relação que lhe serve de suporte. O dom/a dádiva, constitutiva da
ligação social familiar, está a serviço dessa ligação, assim como a
qualidade da ligação depende da relação que se estabelece entre
doadores e aqueles que recebem a doação. A dimensão oblativa da
disponibilidade permanente frente ao filho, no centro do que está em jogo
em sua guarda, não seria eficiente se sujeitos e objetos fossem separados,
se as tarefas não estivessem a serviço da relação. (BLOCH, BUISSON,
1998, p. 22, tradução nossa).
Embora o filho seja fruto de um duplo dom, o dom da vida recebido de seu
pai e de sua mãe, quase sempre “uma norma social” acaba por delegar a
educação e os cuidados do bebê e da criança exclusivamente à mulher,
atribuindo-lhe as características, qualidades e disponibilidade necessárias para
essa tarefa. Mesmo fora do ambiente doméstico, as mulheres são, ainda, em
grande maioria36, as responsáveis pelos cuidados/educação das crianças, mesmo
que não seus filhos.
Para nós, bem como para as autoras francesas, além dessa associação
com a criança pequena, essas atividades são, geralmente, desvalorizadas por
serem consideradas uma extensão das características nomeadas como “naturais”
das mulheres, e, assim, não profissionais. Apenas as profissionais exigiriam
35
Bloch e Buisson (1998) utilizam, em francês, o termo “oblative” ao se referirem à preocupação
daquele que dá prioritariamente com aquele que recebe, em detrimento de suas próprias
necessidades.
36
A pesquisa de Saparolli (1997) intitulada Educador Infantil: uma ocupação de gênero feminino
apresenta dados referentes às creches paulistanas que revelam ser a profissão de educador de
creche, uma profissão de gênero feminino, exercida quase que exclusivamente por mulheres e
desvalorizada, mesmo quando homens a exercem.
58
formação e capacitação. Com a construção social de uma norma tradicional da
boa mãe, todas as mulheres seriam identificadas como portadoras de habilidades
consideradas adequadas e suficientes para o exercício dessas atividades.
A disponibilidade frente ao filho pode ser considerada, segundo Bloch e
Buisson (1998), como um valor que revela a dinâmica da dádiva, tomada somente
sob o aspecto feminino, tornando-se produto de uma norma social construída e
que, embora, se altere ao longo da história, permanece associando as mulheres
aos cuidados e à EI. A disponibilidade é sempre considerada em relação à
imagem da mãe em casa com seu filho e é essa imagem que permanece como a
referência, como o modelo que se procura repetir ou se distanciar ao se escolher
um modo de educação e cuidado.
No processo de escolha da modalidade de EI, segundo Bloch e Buisson
(1999), os casais relembram e re-avaliam os próprios cuidados recebidos na
infância. Independente das características ou da qualidade desses cuidados e das
possíveis re-interpretações feitas ao longo da vida, pais e mães não serão
indiferentes frente às suas próprias experiências enquanto filhos. Eles procurarão
retomar, ou rejeitar, o modelo de disponibilidade que lhes foi conferido quando
eram crianças.
A relação obrigatória de retribuição da dádiva constitui o elo entre as
gerações familiares. Os indivíduos, homens e mulheres, fazem re-interpretações,
ao longo de suas vidas, sobre os cuidados recebidos de seus pais e as comparam
com as experiências vivenciadas por outras pessoas. Segundo Bloch e Buisson
(1999), os indivíduos produzem interpretações críticas sobre seus ascendentes e
os cuidados que eles lhes dispensaram na infância.
O que os pais (homens e mulheres) fornecem, ou não, aos filhos em termos
de cuidados é produto de suas experiências pessoais, bem como da formação que
receberam de outros modelos sociais que conheceram e do relacionamento que
estabeleceram entre si. A presença maior ou menor de modelos masculinos na
educação recebida ou no contexto social próximo pode propiciar a manutenção ou
rejeição da norma. O que eles receberam de seus pais é re-interpretado, ao longo
dos anos, e serve de base para a retribuição agora com seus filhos.
59
Cuidado, em sua infância, sobretudo por mulheres (mãe, avó, babá ou
educadora de creche), o homem pode acreditar não ser devedor do dom recebido,
pois compreenderia que a disponibilidade frente ao filho seria uma característica
feminina. Já, as mulheres reconheceriam haver recebido cuidados de outras
mulheres (mãe, avó, babá, educadora de creche) e, assim, se sentiriam devedoras
e necessitando retribuir da mesma, ou de outra, forma a disponibilidade recebida
na infância.
Não seria a relação obrigatória de retribuição dos cuidados, e da vida,
recebidos que seria normativa em si mesma, mas sim a ocultação de que o filho é
produto de um duplo dom, atribuindo-se, então, somente às mulheres, as
características e capacidades necessárias para o cuidado e a educação das
crianças pequenas. Porém, o filho é fruto de uma dupla dádiva – a de sua mãe e a
de seu pai. A mãe pode ter trazido seu filho ao mundo, mas ele não foi gerado
somente por ela. A participação do pai na dádiva fica, entretanto, obscurecida. A
ocultação desse fato facilita que a educação e o cuidado fiquem restritos às mães
e, por conseqüência, às mulheres, como se somente elas possuíssem as
qualidades e capacidades de oblação necessárias para essas tarefas.
[...] Se a dívida inicial, que todo humano contrai em relação aos seus
ascendentes, se ancora na dádiva da vida que ele recebeu, mas também
nas modalidades segundo as quais ele foi criado, cuidado e educado, por
que as mães seriam mais devedoras que os pais? Por que a
representação da disponibilidade frente ao filho seria unicamente
maternal? [...] Por que somente elas teriam a missão de inscrever o filho
em uma forma de continuidade ou de distância em relação à herança
recebida? (BLOCH, BUISSON, 1999, p. 19, tradução nossa).
Em outras palavras, por que somente a mulher ficaria com a dívida? Se o
pai de seu filho também recebeu a dádiva de seu pai e de sua mãe?
“A ideologia produzida a partir dessa característica biológica [a gestação]
construiu a maternidade como única possibilidade, para uma mulher, de se
realizar plenamente” (BLOCH, BUISSON, 1999, p.19, tradução nossa). Com base
em uma característica biológica, várias concepções procuraram naturalizar ou
tornar inerente à mulher a capacidade de cuidar/educar crianças, como se a
60
particularidade de “trazer ao mundo uma criança” lhe fornecesse os atributos
necessários e suficientes para o exercício desses cuidados.
Com a disponibilidade frente ao filho sendo considerada uma característica
feminina, mães que trabalham e que, assim, não se encontram totalmente
disponíveis para seus filhos, poderiam pensar que estão “compensando” essa
suposta “falha”, deixando seus filhos com outras mulheres. Não se perceberia
essa norma da boa mãe, da disponibilidade associada às mulheres, como uma
construção social.
Acredita-se que as mulheres, mesmo quando na atuação profissional, ao
terem como profissão o cuidado e a educação de crianças, estão “colocando em
prática” a disponibilidade e a dimensão de oblação desse cuidado considerado,
equivocadamente, como característica do feminino.
A associação construída socialmente entre uma característica biológica e
uma suposta capacidade de ser/estar disponível para a criança, se impõe como se
fosse uma norma, com regras estipulando as relações. Ocultando a participação
masculina no dom da vida, se esqueceria que os homens também podem ser
devedores de seus ascendentes e que também teriam a “obrigação” de retribuir.
As capacidades de oblação em relação ao cuidado e à educação das crianças
pequenas associadas somente às mulheres acabam por excluir os homens dos
ambientes domésticos e familiares e também de atividades profissionais ligadas
aos cuidados dos pequenos.
Apesar de o cuidado das crianças tradicionalmente ser atribuído às
mulheres, a “disponibilidade” efetiva delas para esse cuidado vem sofrendo
alterações, de acordo com diferentes contextos sócio-históricos e dependendo de
sua inserção profissional. O estudo e a compreensão de como a norma social, que
associa as mulheres à disponibilidade frente aos filhos se mantém, é transmitida
ou modificada, exige sempre uma contextualização sócio-histórica37. Em muitos
momentos, as mulheres sofreram pressão para retornarem ao lar e ao cuidado
das crianças. Hoje, mesmo com a grande participação das mulheres no mercado
37
No capítulo 3, daremos especial atenção à contextualização sócio-histórica e descreveremos as
principais características das famílias brasileiras contemporâneas tanto em termos de composição,
quanto em termos de valores e inserção profissional das mulheres.
61
de trabalho, talvez a norma social da disponibilidade materna frente ao filho não
tenha desaparecido, mas possa ter sofrido modificações.
As pesquisadoras francesas se interessaram em compreender como
delegar a educação e o cuidado de seus filhos pequenos a outrem permite, ou
não, às mulheres se distanciarem do modelo de mãe disponível em tempo integral
para seus filhos, e também, em mostrar que, ao conceder a educação de seus
filhos a outras mulheres, a norma, praticamente, não é alterada.
Para as mães, é necessário um distanciamento em relação à norma social
para conseguir delegar a outra pessoa a educação e o cuidado de seus filhos. A
transformação da norma estaria ligada à capacidade de obtenção de uma
remuneração financeira no mercado de trabalho e à negociação entre o casal para
que a formação profissional da mulher seja valorizada. Segundo Bloch e Buisson
(1999), essa negociação é mais fácil entre o casal quando a diferença de
formação ou de status profissional é favorável à mulher.
Confiar a criança a uma “mãe crecheira” em creche domiciliar manteria os
cuidados da criança em uma esfera doméstica, onde a polivalência da dona-decasa e mãe de família seria característica. A dimensão de oblação da
disponibilidade, como discutem Bloch e Buisson (1998, 1999), seria somente
transferida a uma outra mulher. Entrevistando casais38 que optaram por esse tipo
de modalidade, as autoras observaram a prevalência de uma distribuição mais
sexuada das atividades ligadas aos cuidados dos filhos e da casa. Para 72%
deles, o cuidado das crianças era considerada uma responsabilidade quase
exclusiva das mulheres.
Mães que escolhem uma outra pessoa para cuidar dos seus filhos em
ambiente doméstico acreditam que essa pessoa (babá, parente ou “crecheira” em
creche domiciliar) teria maior disponibilidade para com a criança, pois se ocuparia
apenas de seu bebê ou de um número menor de crianças do que ocorreria na
creche, estando mais atenta e mais próxima de um contato maternal e do
38
As pesquisadoras francesas realizaram pesquisa com 41 casais que haviam escolhido a creche
como modalidade de educação e cuidado para, ao menos, seu primeiro filho, e 72 casais tendo
confiado o cuidado de todos os seus filhos a uma mãe crecheira em creches domiciliares (esses
casais tinham 2 ou 3 filhos e, ao menos, um dos cônjuges, exercia profissão de nível
intermediário).
62
ambiente doméstico. Esse tipo de cuidado/atendimento seria, na ótica dessas
mães, semelhante ao que ela própria poderia oferecer em um ambiente também
similar, onde a criança se sentiria mais acolhida afetivamente.
Por outro lado, segundo Bloch e Buisson (1998), as mães que decidem
delegar a educação e o cuidado de seu primeiro filho à creche, de modo a
externalizar essa educação, parecem rejeitar a idéia de confiar o bebê a uma outra
mulher dentro de um ambiente familiar evitando uma possível situação de
rivalidade, dada sua proximidade com as tarefas da casa e com a idéia da
disponibilidade frente ao filho. Para essas mães, delegando o cuidado da criança à
creche, seria possível separar esse cuidado das atividades domésticas e de sua
dimensão de oblação, já que as profissionais receberiam salário para
desempenhar essa atividade. No entanto, essas mães acreditam que as
profissionais de creche estarão também disponíveis para as crianças, pois esse é
o seu trabalho, e, embora haja mais crianças sob sua responsabilidade, há
também mais adultos para desempenhar a função.
Para uma parte desses casais que optam pela creche, a norma da boa mãe
parece ser questionada, ao menos, parcialmente. Eles experimentam um
relacionamento diferenciado em relação aos de seus pais, com maior divisão das
tarefas - não seguindo tanto o modelo de divisão por sexos - entre o casal e
também com menor diferenciação na educação de meninos ou meninas. A
manutenção desse estatuto social distanciado da repartição sexuada das
atividades supõe que ambos os cônjuges sejam provedores econômicos e que
redefinam as atribuições no espaço doméstico e familiar.
Entre esses casais, apenas 43% consideravam o cuidado das crianças
como uma atribuição somente feminina. Assim, os casais que haviam inscrito seus
dois filhos na creche relatavam maior participação masculina nas atividades
domésticas, bem como, descreviam uma trajetória profissional feminina contínua e
quase sem alterações ou interrupções ao longo do tempo, segundo Bloch e
Buisson (1998, 1999).
Permitir aos seus filhos conservar, ou até ultrapassar, esse estatuto social
[distanciado da repartição sexuada das atividades entre os cônjuges],
passaria igualmente pela adoção de um modo de guarda - a creche -
63
concebido como um espaço de socialização oferecendo as melhores
chances de abertura e de sucesso escolar. (BLOCH, BUISSON, 1999, p.
23, tradução nossa).
Estudando também as famílias contemporâneas e suas relações de
parentesco e troca entre gerações, em contexto francês, Singly (1993) observa
que tanto a autonomia em relação à família de origem, quanto o sentido dos laços
de parentesco vêm se modificando. Embora sejam mais valorizadas a
independência do indivíduo e a ênfase no casal e nos filhos, ainda se mantêm as
relações entre a família de origem e a conjugal. Os laços de parentesco próximo
(com pais, irmãos, cunhados e sogros) se mantêm, especialmente através da
troca de bens e serviços nas relações entre gerações, como nos apontam Bloch e
Buisson (1998, 1999).
É nessa perspectiva [do fornecimento de serviços] que deve ser
apreendida a descrição das formas de apoio familiar descrita
primeiramente por Agnès Pitrou: dos filhos em direção aos seus pais (com
o problema da dependência das pessoas idosas), dos pais em direção aos
seus filhos (com as ajudas em dinheiro, estas recebidas para a habitação,
para o equipamento do lar, para as férias, a guarda das crianças, com a
ajuda doméstica da mãe ou da sogra, os auxílios, os presentes). (SINGLY,
1993, p. 71-72, tradução nossa).
Segundo Singly (1993), as formas de ajuda entre as gerações e entre as
famílias conjugais e suas famílias de origem podem variar, mas seguem princípios
comuns com relação: ao respeito frente à independência e à autonomia; ao lugar
do dinheiro nessas trocas; à observância de reciprocidade e seletividade; à
rejeição afetiva.
O respeito à independência parece ser um princípio bastante valorizado
pelas famílias francesas contemporâneas. Os casais querem ter seu espaço de
autonomia respeitado, sem a interferência de suas famílias de origem em suas
decisões. Em alguns casos, visando manter sua autonomia e independência,
certos casais vão mesmo recusar auxílio, ou deixar de solicitá-lo, às suas famílias
de origem (SINGLY, 1993).
64
Segundo esse autor, o parentesco que pode ser chamado a ajudar, no caso
das famílias contemporâneas, é restrito e selecionado de acordo com uma maior
ou menor proximidade afetiva ou afinidade.
O dinheiro
Ao delegar a educação e o cuidado de seus filhos a outra pessoa ou
instituição, a mulher se vê entre a norma social que prevê que toda mãe seja
disponível gratuitamente aos seus filhos e sua atividade profissional remunerada,
que lhe proporciona autonomia econômica.
Nesse desejo de separar a disponibilidade frente ao filho da função materna
é que poderíamos visualizar uma tentativa de certo distanciamento da norma.
Entretanto, ao externalizarem a educação e o cuidado de seus filhos, essas mães
desejam que as profissionais (em geral, outras mulheres) que venham a se ocupar
das crianças também sejam e estejam disponíveis para as crianças. A
disponibilidade e a oblação ligadas à norma da boa mãe parecem continuar
relacionadas ao serem transferidas indiretamente para outras mulheres.
Se as mães reconhecessem a disponibilidade e a dimensão de oblação no
atendimento das profissionais de creche aos seus filhos, elas se sentiriam,
provavelmente, devedoras frente a essas profissionais, assim como eram em
relação às suas mães. O fato de pagar para alguém cuidar de seus filhos, não
reconhecendo a dimensão de oblação também presente no cuidado oferecido pela
educadora “profissional”, permitiria às mães se distanciarem dessa relação
obrigatória que torna devedor aquele que recebe.
[...] a remuneração do serviço facilita a ocultação da dimensão de oblação
da disponibilidade: pagando uma instituição e não uma pessoa específica
que se ocuparia especialmente de seu filho, as mães têm, portanto, o
sentimento de estarem quites com as profissionais. (BLOCH, BUISSON,
1999, p. 23, tradução nossa).
O dinheiro atuaria, portanto, como um terceiro elemento na relação. O valor
pago pelos pais a uma creche particular ou a uma babá, por exemplo, operaria
como moeda de circulação, pelo valor de uso do serviço (BLOCH, BUISSON,
65
1998). Ao procurar externalizar os cuidados e a educação de seus filhos, os casais
estariam, de certa forma, procurando uma “disponibilidade” que fosse paga.
As pesquisadoras francesas, ao entrevistarem mulheres que atuavam como
mães crecheiras em creches domiciliares ou como educadoras de creche,
puderam perceber como, mesmo sendo remuneradas pelo trabalho, essas
profissionais apresentavam grande dificuldade em diferenciar sua atividade
profissional do papel materno. As educadoras consideravam que “gostar de
criança” é uma qualidade essencial para realizar um bom trabalho, como se a
disponibilidade fosse mesmo e somente uma característica feminina e como se
elas tivessem que ser tão disponíveis com as crianças que cuidam, assim como o
são para com seus próprios filhos. O aspecto profissional e remunerado ficava,
portanto, camuflado.
Em relação ao lugar do dinheiro e da remuneração econômica na família e
no parentesco, Singly (1993) pondera que, para que o afeto continue ligado à
gratuidade, serviços prestados deveriam ser remunerados ou compensados por
serviços recíprocos. Se os serviços não são pagos ou se não há reciprocidade,
aquele que recebeu o serviço se sente devedor afetivamente.
[...] Françoise Dolto propunha, no caso em que a avó cuida de seu neto,
que os pais separassem a cada mês a soma, total ou parcial, que eles
teriam em outras circunstâncias pago a uma babá. Eles poderiam assim
evitar “serem forçados a obedecer à vontade dos avós” e permanecer
livres e mestres para definir a relação educativa entre a avó e a criança
pequena. O relacional não deveria ser misturado ao interesse, de onde a
proposição paradoxal de introduzir o dinheiro como modalidade de
extinção da dívida. (SINGLY, 1993, p. 75 -76, tradução nossa).
Como vimos, ao abordarem a configuração familiar e o dinheiro como
componentes sociais que estão presentes nas opções dos pais por modalidades
de educação e cuidado para seus filhos, as autoras francesas se concentram mais
na abordagem e análise da demanda familiar e individual por EI e nas relações
entre gerações familiares e de gênero. O foco está nas mulheres e no bebê na
condição de filho.
66
Neste projeto de tese, procuraremos avançar trazendo para a análise as
novas concepções sobre o bebê e seu direito à educação enquanto cidadão.
Nesta perspectiva, a análise sobre a responsabilidade e participação do Estado,
outro componente social importante abordado por Bloch e Buisson (1998, 1999),
na oferta de modalidades de educação e cuidado infantis, nos parece
fundamental.
O Estado39
Os pais (homens e mulheres) podem apresentar uma visão fragmentada e
abstrata do que cada modalidade de educação e cuidado oferece às crianças.
Muito se dá pelo “boca a boca”, troca de informações com amigos ou familiares,
pelo que os pais ouvem dizer de cada atendimento ou de uma dada creche, pelo
que vivenciaram quando crianças e, também, através da experiência com filhos
anteriores.
A oferta de serviços para crianças pequenas, os custos, a adaptação ou
flexibilidade do que é oferecido frente às necessidades dos pais, a qualidade do
atendimento, tudo isso se relaciona com a escolha por modalidades de EI. O
Estado, que deveria garantir a igualdade entre os cidadãos, tem aqui um
importante papel a cumprir.
Segundo Bloch e Buisson (1999), em concordância com o que Pungello e
Kurtz-Costes (1999) e também Rosemberg (2004) apontam, mulheres com status
sócio-econômico mais elevado (com renda, educação e prestígio ocupacional
mais altos) tenderiam a expressar maior compromisso com o trabalho, a atribuir
maior importância ao desenvolvimento profissional e ao prazer pessoal resultante
da ocupação e pensariam retomar o trabalho logo após o término da licença
maternidade, procurando uma modalidade de atendimento que se ajuste aos
39
Nesta tese estamos, assim como Bloch e Buisson (1998), empregando o termo Estado dentro de
“... uma concepção globalizante, capaz de abranger diferentes níveis de exercício dos poderes
públicos, como federal, estadual [...] e municipal.” (p. 25, tradução nossa). Essa definição é muito
próxima das definições que encontramos, ao empreendermos uma breve busca sobre esse termo,
como a de que o Estado é a sociedade política, social e jurídicamente organizada ou, ainda, a
definição de que o Estado é o conjunto de instituições que controlam e administram uma nação.
67
objetivos educacionais que têm para seus filhos, bem como à sua rotina
profissional.
Para Rosemberg (2004), mulheres com nível superior de escolaridade ou
pós-graduação, como as que entrevistamos, têm menor número de filhos, em
geral, e possuem recursos simbólicos e materiais ampliando suas possibilidades
de escolha e proporcionando novas concepções sobre a educação e o cuidado
infantis, especialmente fora do ambiente doméstico.
A implementação de políticas públicas que assegurassem, não só,
quantidade de vagas, mas também, qualidade no atendimento oferecido às
crianças pequenas, facilitaria a conciliação entre carreira profissional e família por
parte das mulheres.
O desenvolvimento e a maior oferta de serviços de EI e cuidados coletivos,
como creches, fora da configuração familiar, e a contratação de profissionais de
sexo masculino40, como educadores ou professores de creche, facilitariam a
autonomia
econômica
feminina
proporcionando
uma
maior
inserção
e
permanência das mulheres no mercado de trabalho; auxiliariam a transformação
da norma da boa mãe com o cuidado das crianças deixando de ser atribuído
somente às mulheres; promoveriam uma valorização41 da profissão de
educador/professor de creche; e favoreceriam, do nosso ponto de vista, o
reconhecimento do direito da criança à creche.
Com base nos estudos de Singly (1993) sobre família e atuação do Estado,
podemos perceber que, ao mesmo tempo em que a família contemporânea está
cada vez mais centrada em si, em sua vida intrafamiliar e privada, mais o Estado e
as instituições a controlam e a regulamentam com base em preocupações
sanitárias, educativas e de direito. “O interesse da criança é uma noção que serviu
(e serve) de justificativa às intervenções do Estado na família.” (SINGLY, 1993,
p.8, tradução nossa).
40
Em São Paulo, Saparolli (1997) encontrou apenas quatro homens atuando como educadores de
creche em 71 Centros municipais de Convivência Infantil pesquisados em 1994.
41
Izquierdo (1991) chama nossa atenção para a desvalorização (em termos de prestígio social,
poder e dinheiro) a que estão submetidas as pessoas (em grande maioria, mulheres) que se
ocupam de atividades diretamente relacionadas à produção e manutenção da vida humana, como
por exemplo, as educadoras de creche.
68
Em concordância com o apontado por Singly (1993), Érica Burman
(informação verbal)42 apreendeu, a partir da análise de políticas relacionadas à
infância, que as famílias têm perdido poder em relação ao Estado. Essa autora
destaca, também, o papel muito importante e valorizado que os especialistas e a
Psicologia passaram a ter na forma como as famílias educam seus filhos.
O Estado regulamenta a esfera privada através de ações em diversos
campos. Por exemplo:
• jurídico, com leis sobre a contracepção, o aborto, o divórcio, a
autoridade parental; as licenças maternidade e paternidade;
•
econômico,
com
leis
regulando
a
previdência
social,
aposentadorias, incentivos fiscais, auxílios (especialmente no caso
da sociedade francesa onde predomina a sociedade do Bem-Estar
em que quase todas as classes usam serviços públicos/oferecidos
pelo Estado);
• institucional, procurando ou não responder às demandas das
famílias por creche e tornando ou não possível a emancipação das
mães (como bem destacado por Bloch e Buisson, 1998, 1999).
Ao regulamentar a esfera privada, o Estado, ao mesmo tempo:
[...] ajuda a diminuir os laços de dependência: da família em relação à
solidariedade de parentesco, de vizinhança; da mulher em relação ao
homem; do filho em relação aos seus pais [...] [mas, torna menos
autônomos a família e seus membros] frente aos representantes do
Estado, juízes, psicólogos, professores, sociólogos etc. (SINGLY, 1993,
p.34, tradução nossa).
Mesmo quando destacam o papel e a responsabilidade do Estado, Bloch e
Buisson (1998, 1999) continuam enfatizando, em suas análises, a questão da
mulher e da demanda pessoal/familiar por modalidades de educação e cuidado
infantil.
Sabemos que mudanças e questionamentos no âmbito das relações de
gênero provocam alterações na forma como se pensa a EI, mas, como vimos no
tópico anterior, concepções sobre criança e infância também podem embasar ou
42
Palestra proferida na PUC-SP em 7 de março de 2007.
69
sustentar o que se escolhe para seus próprios filhos ou se recomenda para outras
crianças em termos de educação e cuidado.
Expostos os campos teóricos que sustentam esta tese, é necessário
explicitar o método que orienta a pesquisa, objeto do próximo tópico.
2.2 MÉTODO
2.2.1 HERMENÊUTICA DE PROFUNDIDADE
Em seu livro Ideologia e Cultura Moderna (2002), John B. Thompson
descreve a proposta metodológica da hermenêutica de profundidade (HP) que
atua como referencial metodológico, nesta investigação, não somente para análise
das entrevistas, mas também para a estruturação do texto da tese.
Embora pesquisadores do NEGRI venham utilizando o interessante
referencial teórico de Thompson (2002), baseado em uma concepção crítica do
conceito de ideologia, em estudos especialmente relacionados com a análise da
produção de discursos pela mídia (ANDRADE, 2001; FREITAS, 2004; BIZZO,
2008, entre outros), não me pareceu ser essa proposta teórica a mais adequada
para utilização como referencial nesta tese. Assim, optei por utilizar somente a
proposta metodológica de Thompson, já que ela pode ser integrada e se articular
com outras teorias.
Segundo a hermenêutica43, os sujeitos se inserem ativamente em um
mundo social e histórico tecendo redes de significados que são transmitidos a
outros sujeitos e que os constituem enquanto humanos. Assim, para Thompson
(2002), as formas simbólicas (falas, entrevistas, textos, imagens, ações) podem
ser compreendidas e interpretadas por serem construções significativas e
contextualizadas.
No
caso
específico
desta
investigação,
considerei
as
43
Para desenvolver o referencial metodológico da HP, Thompson apoiou-se no referencial da
hermenêutica, uma tradição clássica grega de pensamento que foi bastante transformada e
desenvolvida por filósofos dos séculos XIX e XX – especialmente Dilthey, Heidegger, Gadamer e
Ricoeur.
70
transcrições das entrevistas realizadas com as mães de bebês como formas
simbólicas que foram descritas e interpretadas.
Quando interpretamos formas simbólicas, nos propomos a interpretar
campos pré-interpretados. Daí a hermenêutica como método. Porém, a préinterpretação efetuada pelos sujeitos (pesquisador e entrevistados) não ocorre em
vazio social.
Para esse autor, “[...] o objeto-domínio da pesquisa sócio-histórica é um
campo pré-interpretado em que os processos de compreensão e interpretação se
dão como uma parte rotineira da vida cotidiana das pessoas que, em parte,
constituem esse domínio.” (THOMPSON, 2002, p. 32-33; grifo do autor).
Na pesquisa sócio-histórica, trabalhamos com um campo que não se trata
de um campo objetivo, um campo-objeto, mas sim com um campo-sujeito-objeto
em que os próprios sujeitos significam, procuram compreender, expressar-se e
reagir frente aos outros. O campo é rotineiramente alterado pelos sujeitos que o
constituem. Procuramos re-interpretar um campo já pré-interpretado pelas
pessoas que fazem parte do mundo sócio-histórico. Trata-se de uma realidade já
interpretada pelos sujeitos que produzem, transmitem ou recebem as formas
simbólicas que analisamos (no caso desta tese, as entrevistas das mães).
Na perspectiva da HP, as interpretações que as mães entrevistadas
produziram sobre campos pré-interpretados (em especial, sobre o bebê, sua
educação e cuidados) foram descritas e re-interpretadas pela pesquisadora, ela
própria, um sujeito que também atribui significado à vida social e que também
produziu pré-interpretações sobre o tema desta pesquisa antes mesmo de
entrevistar as mulheres-mães.
O modo como os sujeitos do campo sócio-histórico interpretam as formas
simbólicas deve ser considerado pela HP. A “hermenêutica da vida quotidiana”
segundo Thompson, é uma base importante para se iniciar a análise.
Através de entrevistas, observação participante e outros tipos de pesquisa
etnográfica, podemos reconstruir as maneiras como as formas simbólicas
são interpretadas e compreendidas nos vários contextos da vida social. É
evidente que essa reconstrução é, ela própria, um processo interpretativo;
é uma interpretação do entendimento quotidiano – ou, como o
denominarei, uma interpretação da doxa, uma interpretação das opiniões,
71
crenças e compreensões que são sustentadas e partilhadas pelas pessoas
que constituem o mundo social. (THOMPSON, 2002, p. 363-364, grifo do
autor).
A interpretação da doxa, apesar de imprescindível, não é o ponto final.
Devemos
avançar
para
além
dessa
interpretação
ou
re-interpretação,
considerando na análise outras características das formas simbólicas, como sua
estrutura e sua contextualização sócio-histórica.
O referencial metodológico da HP compreende três fases - análise do
contexto sócio-histórico de produção, transmissão e recepção das formas
simbólicas, análise discursiva e interpretação/re-interpretação - que serão
descritas a seguir.
• Análise sócio-histórica: nessa fase, o pesquisador procura identificar e
descrever as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção
das formas simbólicas analisadas, já que elas são fenômenos sociais
contextualizados, produzidos, veiculados e recebidos sob condições específicas. A
contextualização sócio-histórica é necessária e devemos, ao realizá-la, estar
atentos às características típicas dos contextos sociais, isto é, a:
• situações espaços-temporais - as formas simbólicas são produzidas
e transmitidas por sujeitos situados em uma dada época, em um
dado local, e recebidas por outros também situados em locais e
épocas específicos;
• campos de interação - podemos analisar as posições e trajetórias
que determinam as relações entre as pessoas e a quantidade e
qualidade de recursos e “capital” disponíveis e acessíveis, bem como
regras e convenções. Campos de interação são “estruturados”, pois
são caracterizados por assimetrias de recursos e de poder44. Não só
a subordinação de classe deve ser considerada na análise, mas
44
Segundo Bourdieu (apud THOMPSON, 2002, p. 195), um campo de interação pode ser
conceituado, sincronicamente, como um espaço de posições e, diacronicamente, como um
conjunto de trajetórias. Indivíduos particulares estão situados em determinadas posições dentro de
um espaço social e seguem, no curso de suas vidas, determinadas trajetórias. Essas posições e
trajetórias são determinadas, em certa medida, pelo volume e distribuição de variados tipos de
recursos ou “capital”.
72
também as assimetrias de gênero, raça, entre nações e também,
entre idades e gerações. De acordo com a posição que uma pessoa
ocupa em um campo de interação, ela pode empregar certo tipo de
estratégia de valorização simbólica. Se o sujeito ocupa uma posição
que pode ser considerada como dominante - com amplo acesso a
recursos e capital - ele tende a adotar estratégias como distinção,
menosprezo e condescendência ao produzir ou “avaliar” formas
simbólicas; já os sujeitos ocupando uma posição considerada
intermediária - com acesso a somente certos tipos de recursos ou
capital ou em quantidades limitadas - podem agir com moderação,
pretensão ou desvalorização frente às formas simbólicas que
produzem ou recebem, e, aqueles com uma posição considerada
como subordinada - com acesso restrito a recursos e capital ou com
acesso a quantidades mínimas de recursos - podem adotar uma
estratégia de praticidade, resignação respeitosa ou rejeição em
relação às formas simbólicas produzidas ou recebidas;
• instituições sociais - devemos reconstruir as regras, recursos e
relações que podem permear ou regular os relacionamentos entre as
pessoas nas instituições; analisá-las no tempo e em suas práticas
através das pessoas que as representam. As instituições sociais
estão situadas dentro de campos de interação, mas também os
criam, por estabelecerem novas posições e trajetórias. Mesmo ações
e interações que ocorrem fora de instituições específicas podem ser
também influenciadas por regras e recursos;
• estrutura social - sua análise nos permite voltar o olhar para as
divisões e assimetrias de poder ou recursos que podem ocorrer nas
interações entre as pessoas. As assimetrias estáveis e sistemáticas,
diferenças coletivas e não só individuais devem ser consideradas,
especialmente as que se mantém no tempo e que impedem o acesso
de alguns aos recursos ou ao poder. Essas assimetrias podem
caracterizar tanto os campos de interação quanto as instituições
73
sociais. A análise aqui é mais teórica e deve considerar assimetrias
de classe social, raça, gênero, nações, idade;
• meios técnicos de construção de mensagens e transmissão - para
que as formas simbólicas possam ser “trocadas” entre as pessoas é
necessário algum meio de transmissão. Os meios de transmissão
implicam em diferentes características - possibilidade dos sujeitos
participarem, grau de fixidez, grau de reprodutibilidade - para as
formas simbólicas. Assim como as formas simbólicas, os próprios
meios de transmissão também estão inseridos em contextos sóciohistóricos específicos no tempo e no espaço, também são
submetidos a tipos e quantidades de recursos e capital diversos, a
regras e convenções e são desenvolvidos, muitas vezes, em
instituições e em certos campos de interação.
Nesta pesquisa, as formas simbólicas que analisei foram as entrevistas
produzidas em um dado contexto sócio-histórico, a partir da interação entre a
pesquisadora e as mães de bebês, durante encontros realizados no município de
São Caetano do Sul, em 2009 e início de 2010, com base em práticas e políticas
públicas sobre EI e concepções sobre infância e bebê no Brasil contemporâneo.
Todos esses temas, pré-interpretados por diversos atores sociais (mães de bebês
entrevistadas, pesquisadora, academia, mídia, governo, movimentos sociais e
organizações internacionais) participaram também do contexto de produção das
entrevistas.
- Análise formal ou discursiva: estudo da estrutura, dos padrões, da
articulação e das relações das formas simbólicas compreendidas enquanto
construções significativas estruturadas que dizem alguma coisa sobre algo. O
pesquisador, durante a análise formal ou discursiva, se preocupa com a
organização e com a estrutura interna da forma simbólica, com seus padrões,
relações e características estruturais. Ele não deve tomar isoladamente os dados
provenientes dessa fase de análise, mas deve relacioná-los com os dados da fase
anterior, para não perder a contextualização das formas simbólicas, e também,
com os da fase posterior, para através da re-interpretação, poder identificar o que
74
as formas simbólicas estruturadas e contextualizadas expressam em termos de
sentido e significado.
Como cabe a cada pesquisador identificar quais procedimentos mostram-se
mais adequados para o objetivo de sua pesquisa, utilizei, para a análise formal
das entrevistas, o conjunto de técnicas propostas pela análise de conteúdo na
perspectiva de Bardin (1977) e Rosemberg (1981) e o apresentarei no quarto
capítulo deste trabalho.
- Interpretação/re-interpretação: nesta fase da HP, o analista procura
explicitar o que a forma simbólica “diz” ou “representa”, ou seja, interpretá-la. A
interpretação se constrói a partir das fases anteriores de análise, mas também
avança, procurando interpretar uma forma simbólica com base nas suas
condições sociais de produção, circulação e recepção e também em suas
características estruturais.
Nesta investigação, a re-interpretação se construiu a partir dos debates
sobre infância e da proposta teórica de Bloch e Buisson (1998, 1999) articulados
com a análise sócio-histórica e com os resultados da análise formal das
entrevistas.
Ao oferecer uma interpretação das formas simbólicas, estamos reinterpretando um campo pré-interpretado e, assim, engajando-nos num
processo que, por sua própria natureza, faz surgir um conflito de
interpretações. (THOMPSON, 2002, p. 34-35).
A possível ocorrência de um conflito de interpretações (entre a préinterpretação dos sujeitos e a re-interpretação do analista) é o que abre a
possibilidade para o que Thompson (2002) descreve como “potencial crítico da
interpretação”.
Na investigação social, quando o analista propõe uma interpretação, essa
interpretação pode ser apropriada pelos sujeitos que constituem o campo-sujeitoobjeto e provocar alterações no campo no processo de apropriação. Para
Thompson, pode ocorrer uma “relação de apropriação potencial”, de retroalimentação potencial. Os resultados de uma análise social podem ser
75
apropriados pelos sujeitos, mesmo que, em muitos casos, isso não ocorra ou não
produza transformações efetivas nesse campo-sujeito-objeto estudado.
A interpretação [...] pode possibilitar que as pessoas vejam as formas
simbólicas diferentemente, sob uma nova luz e, por isso, que se vejam a si
mesmas de modo diferente. Pode capacitá-las a re-interpretar uma forma
simbólica em relação às condições de sua produção e recepção, em
relação às suas características estruturais e organização. Pode capacitálas a questionar ou revisar sua compreensão anterior da forma simbólica e,
com isso, alterar os horizontes da compreensão de si mesmas e dos
outros. (THOMPSON, 2002, p. 38).
Thompson
(2002)
descreve
essa
possibilidade
de
transformação
interpretativa das crenças, comportamentos e atitudes cotidianas dos sujeitos que
constituem o mundo social, como a transformação interpretativa da doxa.
Para esse autor, a preocupação deve estar na interpretação (na
apresentação de mais uma interpretação ou re-interpretação possível) e não na
explicação, pois não estamos atrás de relações de causa e efeito.
Analisando as formas simbólicas podemos chegar à re-interpretações
plausíveis e aceitáveis, nunca incontestáveis. Por isso, faz-se necessária uma boa
argumentação que justifique e dê sustentação à re-interpretação do analista.
Para se garantir a dialogicidade, devemos buscar interpretações justificadas
que possam passar pelo escrutínio do outro. É fundamental a argumentação e a
explicitação do caminho percorrido durante a análise, para que os leitores possam
acompanhar como foi possível a construção daquela dada re-interpretação.
No processo de interpretação/re-interpretação, deve-se evitar o que
Thompson (2002) chama de “falácia do reducionismo”, ou seja, o erro de se
considerar que as formas simbólicas possam ser interpretadas somente em
função de seu contexto sócio-histórico. Deve-se evitar também a “falácia do
internalismo” – ao se tomar os métodos da análise formal ou discursiva
isoladamente, supondo-se que as formas simbólicas possam ser interpretadas
somente a partir da sua estrutura interna, sem se considerar o contexto sóciohistórico onde elas se inserem e as próprias interpretações e compreensões
quotidianas que os sujeitos do campo sócio-histórico apresentam. Todas as fases
devem se relacionar e não podem ser analisadas em si mesmas.
76
A proposta metodológica da HP de Thompson (2002) permitiu, não só, que
eu adotasse um método de trabalho para a análise das formas simbólicas (as
entrevistas das mães), mas também me auxiliou a estruturar a apresentação da
pesquisa. Tanto as teorias quanto o método, apresentados neste segundo
capítulo, quanto o contexto sócio-histórico (educação e cuidado da criança
pequena no Brasil contemporâneo), que será desenvolvido no terceiro capítulo,
constituíram o contexto de produção das entrevistas, no que diz respeito não só às
perguntas da pesquisadora, mas também, às respostas das entrevistadas.
77
CAPÍTULO 3 - CONTEXTO SÓCIO- HISTÓRICO
Para a elaboração da síntese sobre o contexto sócio-histórico, que
apresento a seguir, parti da bibliografia encontrada por Lima (2004) para começar
a desenvolver meu trabalho.
Outros estudos que também serviram de referência para a redação desta
tese foram, em sua maioria, localizados a partir de pesquisa bibliográfica realizada
nas Bibliotecas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, da Fundação Carlos Chagas e também através de consulta às
seguintes bases de dados: Dedalus, Scielo, Lilacs, Google, Google Acadêmico,
Unibibliweb (acervos da Universidade de São Paulo e da Universidade de
Campinas), resumos no banco de dissertações e teses da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), teses e dissertações na
biblioteca digital do Instituto Brasileiro de Ciência e Tecnologia (IBICT), artigos
publicados na Revista Brasileira de Educação e disponíveis no site da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação.
As bases de dados foram consultadas inicialmente no mês de julho de 2004
e atualizações no levantamento bibliográfico foram realizadas em agosto de 2006,
em março de 2007, no primeiro semestre de 2008 e, mais recentemente, nos
meses de agosto e setembro de 2009.
A busca se deu a partir do cruzamento dos seguintes descritores: demanda,
escolha, mãe, criança pequena, bebê, mulher trabalhadora, creche, educação
infantil e Sociologia da Infância.
Muitos dos textos utilizados, como base para o debate sobre infância e
políticas públicas, vêm norteando as discussões no NEGRI. Sobre educação
infantil consultei também a Bibliografia selecionada sobre educação infantil
brasileira: 1988-2006 (ROSEMBERG, 2006e). Foi possível também localizar
bibliografia pertinente ao estudo através da verificação de referências citadas por
outros pesquisadores no material consultado.
78
3.1
EDUCAÇÃO
E
CUIDADO DA CRIANÇA PEQUENA
NO
BRASIL
CONTEMPORÂNEO
A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG,
2007b) que as novas concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais
importantes na família, especialmente em decorrência dos movimentos de
mulheres, e mudanças nas concepções de criança, tema tratado no capítulo 2. As
modificações nas relações de gênero e na concepção de criança pequena (como
apontadas, entre outros autores, por NEYRAND, 1999, 2000), foram fundamentais
para que a educação e o cuidado da criança pequena passassem a ser realizados
também em instituições coletivas.
Neste capítulo, vamos analisar o contexto sócio-histórico da ótica das
políticas e práticas de EI no Brasil, abordando: as principais transformações que
ocorreram nas famílias brasileiras tanto em termos de composição quanto de
valores; a necessidade de conciliação entre trabalho e educação e cuidado das
crianças pequenas; os consensos e dissensos envolvendo as políticas e práticas
de EI; os estudos sobre demanda por modalidades de EI.
3.1.1 FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS
Inúmeras
pesquisas
(ARAÚJO,
SCALON,
2005;
BERQUÓ,
1998;
BRUSCHINI, PUPPIN, 2004; BRUSCHINI, 2007; GALVÃO, 2008; GOLDANI,
1994;
MACHADO,
2001;
PICANÇO,
2005;
ROCHA-COUTINHO,
2000;
ROMANELLI, 2006; ROSENBAUM, 1998; SALÉM, 1980; SARTI, 2006; SORJ,
2005; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007; VITALE, 2006) vêm apontando a
coexistência de permanências e transformações nas famílias contemporâneas no
Brasil, especialmente nos segmentos médios urbanos, não somente em termos de
sua estrutura e organização, com novas configurações familiares, mas também no
que diz respeito aos ideais e valores assumidos.
A composição das famílias brasileiras vem se alterando, nas últimas
décadas, e embora a composição tradicional baseada em um casal e filhos ainda
79
predomine, vem crescendo o número de estruturas menores compostas por casais
sem filhos, de famílias monoparentais e o número de mulheres morando sozinhas
(BERQUÓ, 1998; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).
Os arranjos domésticos também vêm mudando. Em 2005, 30,6% das
famílias residentes em domicílios particulares eram chefiadas por mulheres
(BRUSCHINI, 2007; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).
O crescimento intenso desse tipo de arranjo familiar [famílias
monoparentais chefiadas por mulheres] nos dias atuais abrange
igualmente mulheres pertencentes às camadas médias urbanas. Nesse
caso, uniões conjugais desfeitas ou interrompidas alteram o padrão de vida
das mulheres e de seus filhos. (BERQUÓ, 1998, p. 432).
A queda da taxa de fecundidade, que atingiu 1,89 filho por mulher em 2008
no Brasil (IBGE, 2009), destaca-se dentre os fatores demográficos. Nos estados
de São Paulo e do Rio de Janeiro, a taxa é ainda mais baixa, com valores
próximos a 1,5 filho por mulher. São, ainda, as mulheres com maior escolaridade e
renda as que têm menor número de filhos.
Os fatores sócio-culturais e econômicos, como o novo papel das mulheres
(com a busca de um projeto de vida profissional a partir dos anos 1970), a maior
escolaridade (com maior acesso das mulheres à educação, inclusive às
universidades) e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho (com
progressivo aumento da inserção feminina), contribuíram também para alterar o
perfil das trabalhadoras brasileiras.
No período entre 1995 e 2005 “[...] a PEA/População Economicamente
Ativa feminina passou de 28 para 41,7 milhões, a taxa de atividade aumentou de
47% para 53,0% e a porcentagem de mulheres no conjunto de trabalhadores
subiu de 39,6% para 43,5%.” (BRUSCHINI, 2007, p.2).
As trabalhadoras, que, até o final dos anos setenta, em sua maioria, eram
jovens, solteiras e sem filhos, passaram a ser mais velhas, casadas e
45
mães . (BRUSCHINI, 2007, p. 4).
45
Segundo Scavone (2001), mães que trabalham fora e que têm poucos filhos caracterizam o
modelo de maternidade que predomina nas sociedades ocidentais contemporâneas.
80
Quanto maior a escolaridade feminina, maior é sua inserção no mercado de
trabalho. “Em 2005, enquanto mais da metade das brasileiras, em geral, eram
ativas, entre aquelas com 15 anos ou mais de escolaridade, a taxa de atividade
atingia 83%.” (BRUSCHINI, 2007, p. 10).
Embora a inserção feminina no mercado de trabalho pareça irreversível e
se acentue a cada ano, os cuidados domésticos e com os filhos continuam sendo
atividades atribuídas, sobretudo, às mulheres. Para elas, as atividades domésticas
e responsabilidades familiares apresentam um impacto maior que para os homens
e dificultam a sua disponibilidade para obtenção de empregos de melhor qualidade
e em tempo integral e uma maior dedicação às atividades profissionais
(BRUSCHINI, 2007; BRUSCHINI, PUPIN, 2004; DELGADO, 2005; MADALOZZO,
MARTINS, SHIRATORI, 2008; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).
As famílias compostas por casais com filhos, e que contam com a presença
de outros parentes em casa, o que poderia auxiliá-las no cuidado com as crianças,
vêm registrando queda nos últimos anos. “Essa mudança pode indicar que as
soluções privadas para a conciliação entre trabalho e cuidados familiares que se
assenta no apoio dos parentes, sobretudo nas avós, pode estar hoje menos
disponível do que no passado.” (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007, p. 9).
Além disso, as avós de hoje também apresentam mudanças em seus perfis,
com maior escolaridade e inserção profissional (SORJ, FONTES, MACHADO,
2007).
Nas famílias de tendências igualitárias, nos segmentos médios, a tensão
existente entre a mulher-mãe e a mulher-indivíduo pode continuar com a
mulher-avó, que muitas vezes ainda trabalha, tem seus desejos e sonhos
para essa etapa da vida e, ainda, ajuda no trato com as crianças da
família. Essas mulheres procuram conciliar demandas eventualmente
contraditórias: os projetos individuais com as reciprocidades familiares.
(VITALE, 2005, p. 101).
No plano dos valores, o modelo de família mais hierarquizada, com papéis
claramente demarcados e diferenciados entre adulto-criança e homem-mulher,
estaria coexistindo ou sendo substituído por outro mais igualitário em termos de
81
relações entre homem e mulher, com menor ênfase ou diferenciação entre idade e
sexo (VITALE, 2006; SARTI, 2006).
Vários
autores
(entre
outros,
ALMEIDA,
2007;
BERQUÓ,
1998;
ROMANELLI, 2006; SALÉM, 1980) apontam que indivíduos das camadas médias
e com maior escolaridade tendem a expressar valores mais modernos, liberais e
democráticos; a adotar novas práticas afetivas e a incorporar com maior facilidade
novas formas de conduta nas relações domésticas, redefinindo a divisão sexual do
trabalho e estando mais abertos às mudanças nas relações de autoridade e poder
que vêm ocorrendo no interior das famílias.
[...] a vida doméstica tende a se democratizar, criando condições para a
emergência e concretização de interesses individuais. Conseqüentemente,
o familismo tende a ser gradativamente deslocado e substituído pelo
individualismo. Nessas circunstâncias que são cada vez mais presentes
nas famílias de camadas médias, a redução da autoridade do marido e do
pai contribui de modo decisivo para que os filhos assimilem a posição de
“sujeitos de direitos”, dentro e fora da unidade doméstica, ficando em
segundo plano a condição de “sujeitos de deveres”. Assim, a ação
socializadora das famílias de camadas médias, que é fruto de mudanças
em sua estrutura, concorre para que o individualismo dos filhos prevaleça
sobre as aspirações de cunho coletivo. (ROMANELLI, 2006, p. 87).
No Brasil, portanto, os autores vêm destacando o individualismo46 como
uma característica das famílias das camadas médias. Com a valorização da
qualidade das relações familiares, bem como, com a necessidade de dedicação
aos filhos, de mobilização para a garantia de seu futuro e sucesso e de
personalização das relações, a família se voltou mais para seu interior, na busca
de realização individual para cada um de seus membros.
O valor do individualismo seria mais reivindicado por pessoas que dispõem
de maior capital cultural ou social. E, para Machado (2001, p. 24), esse valor
(baseado também na idéia de igualdade de direitos) seria “[...] em grande parte
responsável [...] pela dessensibilização do indivíduo em relação ao seu
46
Rosenbaum (1998) pesquisando discursos sobre paternidade na revista Pais e Filhos, identificou
a revista como um dos instrumentos de divulgação de valores individualistas para famílias
brasileiras das camadas médias.
82
semelhante e [...] ao seu pertencimento social, diminuindo a apreensão dos seus
limites e da sua situação de compartilhamento.”
Em síntese, valores e concepções ambíguas e contraditórias parecem
permear a família contemporânea, em um movimento, ao mesmo tempo, de
superação e de permanência entre novos e antigos modelos, entre ideais
igualitários e menos hierárquicos, entre autonomia e dependência frente ao
Estado e ao parentesco, entre o desejo de individualidade e a necessidade de
socialização de suas crianças.
3.1.2 CONCILIAÇÃO ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO E CUIDADO
DAS CRIANÇAS PEQUENAS
Vimos, especialmente a partir das pesquisas brasileiras sobre família que
acabamos de apresentar (pesquisas essas que têm, sobretudo, focalizado as
relações de gênero), que a necessidade de se conciliar trabalho e educação e
cuidado das crianças pequenas vem se acentuando com a maior inserção das
mulheres e mães no mercado de trabalho.
Se pensarmos nos efeitos ou impactos que a política de EI poderia ter na
articulação entre trabalho e família, a creche surge como uma importante rede de
apoio social com forte impacto positivo.
[...] a eficácia deste mecanismo [atendimento em creches em tempo
integral] em facilitar a conciliação entre demandas do trabalho e da família
é notável com repercussões importantes no aumento da participação das
mulheres no mercado de trabalho, na renda e na ampliação da jornada de
trabalho. Este impacto positivo ocorre, em geral, em todas as classes
sociais. (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007, p. 5).
Entretanto, no Brasil, diferentemente do que ocorre em países da
Comunidade Européia, a articulação entre família e trabalho parece não ser
reconhecida como um problema social relevante, obtendo fraca legitimação social
e política, permanecendo, ainda, sobretudo como assunto privado, na medida em
que ocorre desenvolvimento insuficiente de políticas públicas que possibilitem uma
83
maior conciliação entre o trabalho e o cuidado com as crianças (SORJ, FONTES,
MACHADO, 2007).
A aprovação pelo Parlamento Europeu, em março de 2004, de uma
resolução sobre a conciliação entre vida profissional, familiar e privada, pode ser
citada como exemplo de como outros países têm buscado promover políticas que
favoreçam essa articulação. Nessa resolução (PARLAMENTO EUROPEU, 2004),
se solicitou e recomendou, aos Estados-Membros e aos que aderirem à
Comunidade Européia, que, por exemplo:
• procurem proporcionar aos pais uma maior liberdade de escolha
com relação às modalidades de cuidado/EI, oferecendo benefícios,
isenções fiscais, incentivos que auxiliem a família;
• criem, até 2010, serviços de atendimento com qualidade, para no
mínimo 33% das crianças com menos de 3 anos;
• procurem encorajar e flexibilizar a diversidade de modalidades de
EI proporcionando maior escolha por parte das famílias, bem como,
procurando responder às preferências e necessidades das crianças e
de seus pais;
• facilitem o acesso às licenças parentais remuneradas, respeitando
a autonomia de escolha dos pais;
• busquem assegurar o princípio de igualdade de remuneração entre
os trabalhadores masculinos e femininos, para que decisões sobre
licença parental e outras licenças para o cuidado das crianças
possam ser tomadas com base nessa igualdade.
Para além de propiciar a articulação entre trabalho e família e promover
maior igualdade entre homens e mulheres, o que a legislação oferece, ou não, às
mães e pais que trabalham, em termos de licença após o nascimento do bebê, diz
respeito também a como a sociedade concebe o bebê e suas necessidades.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê licença maternidade, sem
prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias e licença
paternidade de cinco dias após o nascimento ou adoção do filho, com ônus para o
empregador.
84
Em 9 de setembro de 2008, foi sancionado pelo Presidente da República o
projeto de autoria da Senadora Patrícia Saboya, que permite que a licençamaternidade seja prorrogada por mais sessenta dias mediante concessão de
incentivo fiscal às empresas da iniciativa privada47.
A prorrogação da licença maternidade é facultativa tanto para as mulheres
quanto para as empresas.
Inicialmente elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria48, em
parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o projeto de lei aprovado
pautou-se pela necessidade de promoção e defesa dos direitos das crianças, mas
também, e, com muita ênfase, na necessidade de se garantir o estreitamento do
vínculo mãe-bebê e a amamentação até os seis meses de vida do bebê. A
concepção que embasa a prorrogação da licença maternidade é a de que o
melhor para o bebê é permanecer junto à sua mãe em casa sendo amamentado.
Às mulheres que optem pela prorrogação da licença, será vedado que
inscrevam seus bebês em creches ou outras modalidades de EI durante os dois
meses adicionais.
A fala do presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Dioclécio
Campos Júnior, intitulada Maternidade - a importância do vínculo afetivo,
publicada no Jornal Correio Braziliense em 10/05/2006 e divulgada no site da
entidade, apresenta uma concepção de como o bebê deve ser educado/cuidado,
na qual a criança é vinculada à mãe e o pai não é sequer citado.
Na esteira desse avanço [o ingresso da mulher no mercado de trabalho],
algumas mudanças de costumes revelaram-se inelutáveis. A maior delas
se deu na maternidade, alterada pelas novas atribuições que a mulher
passou a ter. A função maternal perdeu relevo, dispõe de pouco tempo. O
binômio mãe-filho cedeu lugar ao bebê solitário, habitante de creches,
cuidado por babás ou pela tia de todos. O aleitamento materno substituiuse por alternativas artificiais de alimentação. Essa realidade nega direitos à
mulher e à criança. Direitos cuja doutrina se fortalece à medida em que a
ciência mostra o caráter essencial da relação mãe-filho nos primeiros
47
Deve-se salientar que 80 municípios e 8 estados brasileiros já possuíam leis próprias ampliando
a licença-maternidade para 6 meses, mesmo antes da aprovação do projeto.
48
Visando obter assinaturas e pressionar o Senado para que o projeto fosse aprovado, a
Sociedade Brasileira de Pediatria desenvolveu a campanha Licença-maternidade: 6 meses é
melhor.
85
tempos da existência da criatura. (CAMPOS JÚNIOR, 2006, versão
eletrônica).
Mais recentemente, em fevereiro de 2010, a Comissão da Câmara dos
Deputados, que analisa a Proposta de Emenda à Constituição 30/07, aprovou, por
unanimidade, o aumento da licença maternidade de 120 dias para 180 dias, em
caráter obrigatório, devendo ser a proposta ainda encaminhada para votação no
plenário da Câmara e, posteriormente, enviada ao Senado.
Com relação à licença-paternidade, o projeto de lei que prevê sua
ampliação de cinco para quinze dias, de autoria também da senadora Patrícia
Saboya, ainda aguarda aprovação no Congresso Nacional. Apesar de ainda não
aprovado, tem sido adotado por algumas instituições, como a Fundação Carlos
Chagas, em São Paulo, e a Caixa Econômica Federal, e governos como os de
Pernambuco, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Amapá que vêm concedendo
a ampliação aos funcionários públicos.
Os cinco (ou 15) dias de licença-paternidade e os seis meses de licençamaternidade revelam a enorme desigualdade de gênero em nosso país.
Consolida-se, com esse abismo, o monopólio feminino dos prazeres,
encargos e sacrifícios com os filhos. Reforça-se, também, a falta de
respeito e de reconhecimento da importância do exercício da função
paterna. (GOLDENBERG, 2007, p. A3).
Destacamos que na pesquisa de Galvão (2008), os homens-pais
entrevistados criticaram a insuficiência ou adequação do período de cinco dias
previstos em lei, embora não tenham se mobilizado para que este direito fosse
revisto. Para alguns, a licença deveria variar de 10 a 15 dias, para outros ela
deveria ser equivalente ou superior ao período de 1 mês. Apenas um pai
entrevistado considerou que a licença paternidade deveria ser equivalente à da
mulher.
86
87
3.1.3 CONSENSOS E DISSENSOS ENVOLVENDO AS POLÍTICAS E
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL
A educação e o cuidado da criança pequena compreendidos como
responsabilidade que deve ser compartilhada por toda a sociedade constituem
ainda um consenso relativo e novo na sociedade brasileira.
Segundo Haddad (2006), para que a El se efetive enquanto um sistema
integrado de educação e cuidado de qualidade, onde a educação e cuidado da
criança pequena deixe de ser uma atribuição somente familiar e do âmbito do
privado, é necessária uma mudança de paradigma que requer:
• uma redefinição dos papéis e da relação entre o Estado e a família
no que diz respeito à infância;
• o reconhecimento de que a criança tem o direito de ser cuidada e
socializada em ambiente social mais amplo que a família;
• o reconhecimento de que a família tem o direito de dividir com a
sociedade a educação e o cuidado das crianças;
• o reconhecimento de que cuidar e educar crianças pequenas em
contexto institucional são atividades profissionais que devem
promover o desenvolvimento global das crianças.
Como aponta Rosemberg (2007b), a mobilização social pela expansão da
oferta de vagas em creches de qualidade, para crianças de 0 a 3 anos, integrando
educação e cuidado e respondendo, ao mesmo tempo, ao direito das crianças à
educação e ao direito dos pais, principalmente ao das mães, de exercer uma
atividade profissional, é um consenso que vem sendo construído a partir da
década de 1970 e que, apesar de ter sido legitimado por textos legais (BRASIL,
1988, 1996, 2007), não se encontra, ainda, totalmente implementado.
A partir dos anos 1970, grandes transformações sócio-econômicas,
culturais e demográficas, como vimos, começaram a questionar o que era
consensual até então: o cuidado e a educação da criança pequena constituíam
uma atribuição exclusiva da família, especialmente das mães. O Estado e a
sociedade identificavam que somente algumas crianças (abandonadas, órfãs,
88
necessitadas) deveriam receber cuidado e educação em instituições coletivas
(ROSEMBERG, 2007b).
A crescente inserção profissional das mulheres, a possibilidade de
planejamento familiar com conseqüente queda de fecundidade, a urbanização
intensa, a queda da mortalidade infantil, novas concepções de criança e a
organização dos movimentos de mulheres e de luta por creches contribuíram para
que a creche passasse a ser reconhecida enquanto reivindicação social e direito
da mulher trabalhadora.
Ainda em pleno regime militar, o Estado implementou uma política de
expansão intensa da oferta de vagas, com forte caráter assistencialista e baseado
em uma concepção de educação compensatória voltada para o atendimento da
população pobre.
Como Haddad (2006) destaca, embora as reivindicações sociais tenham
sido, de certa forma, acolhidas naquele período, elas foram incorporadas
principalmente às políticas sociais e não às políticas educacionais, sobretudo no
que diz respeito ao atendimento das crianças de 0 a 3 anos.
Segundo Rosemberg (1999, 2002), essas políticas implementadas, tanto no
Brasil quanto em outros países subdesenvolvidos, sofreram os efeitos perversos
de modelos dito não-formais, com baixos investimentos por parte do poder
público, defendidos e divulgados por organismos multilaterais como UNICEF,
UNESCO e Banco Mundial.
A opção por expandir a educação infantil através de um modelo não-formal
apoiado nos baixos salários de professoras leigas, prioritariamente para as
regiões Norte e Nordeste, diferenciou o padrão de oferta do atendimento
não só quanto ao desenvolvimento regional, mas, também, aos segmentos
raciais. Esses programas atingiram principalmente as crianças negras,
principais usuárias de creches públicas e conveniadas. (ROSEMBERG,
2006c, p. 9).
Com o término do regime militar e a abertura política no Brasil, a
mobilização social, através da atuação do movimento de mulheres e do
movimento pelos direitos das crianças e dos adolescentes, foi fundamental para
que a Constituição de 1988 reconhecesse a creche como um direito à educação
da criança pequena (ROSEMBERG, 1999).
89
Com a formulação de novas propostas de políticas nacionais de EI,
orientadas por pesquisadores que já se interessavam pelo tema, o perfil
assistencialista de atendimento em creches foi sendo questionado. Apesar disso,
somente com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em
1996, é que a creche e a pré-escola foram reconhecidas como primeira etapa da
educação básica.
Apesar dos avanços da Constituição Brasileira de 1988, da LDB de 1996,
dos documentos, de 1993 e de 2003, de Política Nacional de Educação Infantil do
MEC que visavam garantir um atendimento de qualidade com a equivalência entre
creches e pré-escolas, ambas reconhecidas como instituições de educação e
cuidado, as políticas são tensas, contraditórias. Isto é, apesar de suas conquistas
em termos de legislação, a EI vem sofrendo, há anos, os impactos de
investimentos insuficientes e mesmo pertencendo à mesma etapa educacional,
creche e pré-escola vêm recebendo tratamento bastante diferenciado.
Com a instituição, em 1996, do FUNDEF – Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Fundamental e de Valorização do Magistério -,
ficou evidente a priorização do ensino fundamental pelos municípios, estados e
governo federal, em detrimento do investimento em creches e pré-escolas.
Mesmo com pesquisadores da área e economistas (CARVALHO, KAPPEL,
KRAMER, 2001; IPEA, 1999, 2007a; NERI, 2005) apontando o alto índice de
retorno social (por exemplo, impacto na escolaridade futura e no mercado de
trabalho) e financeiro quando se investe em EI, segundo análises do IPEA (1999,
2007a, 2007b), o financiamento da educação no Brasil nos últimos anos, vem
apresentando instabilidade com elevações e recuos nos gastos educacionais. Os
gastos do MEC em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) variaram de 1,44% em
1995, 1,22% em 2000 para somente 1,03% em 2005. O baixo investimento em
educação49 foi ainda mais acentuado na primeira etapa da educação básica, com
49
Pereira (2007) chama, também, nossa atenção para a comparação entre o montante gasto no
Brasil em publicidade dirigida ao público infantil – R$ 210 milhões segundo o IBOPE - e o
investimento no Programa Federal de Desenvolvimento da Educação Infantil (FNDE) –
aproximadamente 28 milhões. A criança pequena, pouco atendida em suas necessidades
educacionais, parece, entretanto, ser considerada e valorizada como consumidora.
90
as creches recebendo o menor investimento dentre todos os níveis de ensino e,
mesmo internamente à EI, também recebendo menos investimento que as préescolas.
Além de ter sido o nível educacional que menos cresceu na década de 90
(ROSEMBERG, 2006d), a EI é o que apresenta o mais baixo custo médio anual
por aluno do sistema educacional brasileiro: US$ 820,00, sendo que o do ensino
superior era de US$ 10.000,00 em 2000 (segundo dados da OCDE apud
ROSEMBERG, 2006d).
Apesar de ter como objetivo a elevação e distribuição de forma mais
racional dos recursos em educação, a lei do FUNDEB - Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da
Educação – que foi, finalmente, promulgada em dezembro de 2006, substituindo o
FUNDEF, modifica os critérios de financiamento, proporcionando investimentos
também em educação básica, inclusive em creches, mas mantém, ainda,
diferenças quanto aos níveis de investimento.
Através da Emenda Constitucional nº 53, o FUNDEB insere-se na
Constituição Federal, estimando beneficiar cerca de 48,1 milhões de estudantes
após sua total implementação. A Emenda Constitucional nº 53 adéqua também a
redação do artigo 7º, parágrafo XXV, e do artigo 208, entre outros, da Constituição
Brasileira, com a garantia de “[...] assistência gratuita [como dever do Estado] aos
filhos e dependentes [de trabalhadores urbanos e rurais] desde o nascimento até
cinco [e não mais seis] anos de idade em creches e pré-escolas” (BRASIL, 2007,
versão eletrônica).
O FUNDEB prevê, também, a fixação de um valor mínimo nacional por
aluno para cada etapa e tipo de modalidade e estabelecimento de ensino, bem
como a definição de um piso salarial profissional nacional para os profissionais do
magistério público, visando promover a melhoria da qualidade de ensino,
assegurando um padrão mínimo definido nacionalmente.
Em abril de 2007, algumas alterações foram aprovadas e as instituições de
EI conveniadas com o poder público foram também inseridas no FUNDEB com
vistas ao recebimento de recursos.
91
É importante ressaltar que as creches, e posteriormente, as instituições
conveniadas, só foram incluídas no FUNDEB após importante mobilização e
pressão de vários atores sociais (pesquisadores da área, políticos, mídia,
movimentos sociais), para que essas decisões, em benefício da criança pequena,
fossem assumidas. Sem esse movimento, as creches teriam sido excluídas do
FUNDEB e não receberiam parte desses recursos.
O debate envolvendo a aprovação do FUNDEB escancarou as tensões e
dissensos na negociação de políticas públicas educacionais. Segundo Rosemberg
(2007a), com a aprovação desse novo fundo, a sociedade brasileira reafirmou “em
parte” seu compromisso com a causa da EI, visto que, ao mesmo tempo em que
as creches, inclusive as conveniadas, foram incluídas no FUNDEB, o montante de
recursos a elas destinado se manterá ainda em um patamar inferior ao que será
repassado ao ensino fundamental.
Com base nos baixos investimentos e na insuficiente oferta de creches de
qualidade, Rosemberg (2006b, 2007b) apreende um descaso histórico e pouca
mobilização política da sociedade brasileira para com as necessidades e direitos
das crianças pequenas.
Do ponto de vista da oferta de vagas e da qualidade, observam-se
iniqüidades sócio-econômicas, regionais e etárias:
• como já citamos, quanto maior a renda familiar e o nível de escolaridade
dos pais, maior a chance de uma criança pequena freqüentar creche - em 2008, a
taxa de freqüência à creche mostrava-se bastante superior entre as crianças de 0
a 3 anos pertencentes às famílias com rendimento superior a 3 salários mínimos
per capita (46,2%) quando comparada à taxa de freqüência entre crianças de
mesma idade pertencentes às famílias com renda de até ½ salário mínimo per
capita (18,5%) - (IBGE, 2009);
• crianças residentes na região Sudeste do País têm mais chance de
freqüentar creche que aquelas que moram na região Norte - segundo dados da
PNAD de 2006, enquanto na região Sudeste 19,2% das crianças entre 0 a 3 anos
freqüentavam creche, na região Norte apenas 8% das crianças tinham acesso a
esse serviço (IBGE, 2007);
92
• apesar de encontrarmos crianças pequenas freqüentando mais creches
públicas que particulares - segundo dados da PNAD de 2006 (IBGE, 2007), das
crianças brasileiras de 0 a 3 anos de idade freqüentando creche, 57,7%
freqüentavam a rede pública, enquanto 42,3% tinham acesso à rede particular -,
algumas cidades apresentam histórico de atendimento educacional público
praticamente inexistente para essa população. Mota e Albuquerque (2002), em
pesquisa sobre demanda por EI no município de Rio Grande, no Rio Grande do
Sul, constataram que, em 1998, não havia sequer uma creche pública no
município e que somente em 2002, o município passou a contar com a sua
primeira creche pública.
• a região Nordeste é a que apresenta os piores indicadores de qualidade,
com maior índice de professoras leigas recebendo piores salários e trabalhando
em creches com piores condições de infra-estrutura (ROSEMBERG, 2006d);
• de forma geral, muitas creches brasileiras ainda não apresentam
condições mínimas de infra-estrutura para atender às necessidades dos bebês e
crianças pequenas. Somente 55,8% dessas instituições contam com parque
infantil e apenas 23,5% apresentam espaço diferenciado para troca de fraldas. A
oferta de material didático também é insuficiente: somente 84,1% das creches
contam com brinquedos, 58,1% utilizam livros de literatura e 61,7% possuem
material para expressão artística (BRASIL, 2000).
• a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é
ainda muito baixa (18,1%), como já destacamos, quando comparada à taxa de
freqüência das crianças maiores que freqüentam a pré-escola (79,8%) (IBGE,
2009).
A pré-escola tem se aproximado, cada vez mais, da formalização do ensino
fundamental50 com elevada taxa de cobertura, enquanto a creche pública, que
procura se integrar ao sistema educacional, ainda caminha lado a lado com
50
Rosemberg (2009c) tem debatido os impactos da Emenda Constitucional 59/09, que instituiu a
obrigatoriedade da matrícula/freqüência da educação pré-escolar para crianças de 4 e 5 anos e do
ensino médio para jovens de até 17 anos. Para a autora, tal emenda, não só, provocaria uma cisão
e distanciamento ainda maiores entre a pré-escola e a creche, tanto em termos de políticas quanto
de investimentos, mas também alteraria a “...concepção consagrada pela Constituição de 1988 da
EI como uma opção da família...” (p.1).
93
políticas de tipo familiaristas (creches domiciliares e programas de educação de
pais, especialmente voltados para as mães) que parecem ressurgir financiadas,
agora, por recursos da EI e no âmbito das políticas educacionais (ROSEMBERG,
2006b, 2006c).
Para Rosemberg (2002), os modelos alternativos propagados pelos
organismos multilaterais continuam a exercer influência e a ameaçar a EI no
Brasil. Podemos citar, como exemplo, o programa Primeira Infância Melhor (PIM)
que vem sendo implementado pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul com
grande divulgação.
O PIM se baseia no programa “Educa a tu hijo”, que tem servido de
referência para a América Latina como um programa de política familiarista e de
atendimento domiciliar. No PIM, visitadores (em grande maioria mulheres)
percorrem os domicílios explicando aos pais, especialmente às mães ou outros
cuidadores, como estimular a criança desde o nascimento, além de esclarecerem
dúvidas sobre saúde, alimentação e higiene.
Alguns dos responsáveis pela implementação do PIM se vangloriam do fato
do programa “ser mais barato” do que a implementação de creches, mas se
esquecem que além de não liberar as mulheres para o exercício de atividades
extrafamiliares, o que implica na manutenção de desigualdades de gênero, o
programa acaba por reforçar a idéia de que o bebê deve e pode ser cuidado em
casa pela mãe ou por outra mulher que a substitua, além de também não
assegurar às crianças o direito à educação de qualidade em ambientes coletivos
com a interação entre pares.
O descaso social em relação às crianças pequenas não é revelado apenas
por dados referentes ao atendimento em creches. Outros indicadores, como por
exemplo, mortalidade vinculada à falta de saneamento básico e índices de
desnutrição (NERI, 2007b; ROSEMBERG, 2005b), também nos fornecem pistas
de como a infância brasileira vem sendo “maltratada” pelas políticas públicas e de
como não estamos, de forma geral, nos mobilizando adequadamente para
defender e assegurar os direitos das crianças pequenas. “A análise de um amplo
94
espectro de indicadores sociais consolida a imagem das crianças como o grupo
prioritariamente desfavorecido de nossa sociedade.” (NERI, 2001, p. 50).
Apesar
das
tensões
e
desigualdades
ainda
persistentes,
alguns
movimentos sociais não vêm dando mais tanta atenção às crianças pequenas. O
movimento feminista que, nas décadas de 1970 e 1980, se mobilizava por creches
para crianças pequenas, filhas de mães trabalhadoras, hoje, concentra mais sua
atenção
na
mulher
adulta,
no
combate
à
violência
doméstica
e
na
descriminalização do aborto. O movimento negro também tem voltado suas ações
para a reivindicação de direitos para adultos, crianças maiores e adolescentes,
enfocando a implementação de ações afirmativas e políticas de cotas nas
universidades brasileiras (ROSEMBERG, 2006d).
Atualmente, o Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (MIEIB)
destaca-se como um dos movimentos mais ativos e que têm dirigido ações
específicas para as crianças pequenas. O MIEIB, organização laica, tem como
meta o monitoramento das políticas de EI (ROSEMBERG, 2006d).
Apreendemos que apesar de haver consenso na área de estudos sobre EI
no Brasil, ainda coexistem dissensos e tensões em termos das políticas
implementadas. A cisão entre creche e pré-escola mesmo dentro da mesma etapa
educacional nos leva a pensar que não há consenso sobre o estatuto do bebê,
sua educação e cuidado. O menor investimento, o menor acesso e a menor
qualidade estão muito mais associados ao atendimento em creches para crianças
de 0 a 3 anos do que ao atendimento em pré-escolas para crianças de 4 e 5 anos.
Embora tanto creches quanto pré-escolas integrem a EI, notamos
diferenciações internas, com tratamentos desiguais. Daí nosso interesse em
discursos proferidos por diversos atores sociais adultos sobre o bebê, sua
educação e cuidado no âmbito das políticas sociais, especialmente das
educacionais.
Como abordaremos no próximo tópico, notamos diversidade de discursos
sobre o bebê, sua educação e cuidado: de um lado, os discursos e práticas de
educação e cuidado compartilhados; de outro, os que concebem que a criança
95
pequena está melhor em sua casa, cuidada por mães ou outros parentes, de sexo
feminino de preferência, e no espaço da casa.
3.1.4 DEMANDA POR MODALIDADES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
O pequeno acesso das crianças de 0 a 3 anos, e em especial de bebês, às
vagas em creche no Brasil e a desigualdade em termos de oferta, qualidade e
investimento nos leva a questionar:
• quais motivos estariam impedindo/dificultando as crianças pequenas de
freqüentarem creche?
• será que algumas mães/pais não querem creche para seus filhos? Será
que as mães/pais indicam a creche somente para as outras crianças que
não são seus filhos?
A definição de uma demanda quantitativa ou a utilização de um indicador de
demanda por creche não parece ser tarefa muito fácil. A Lei nº 14.127, do
município de São Paulo, de janeiro de 2006, instituiu a criação de um cadastro
único da demanda por vagas no ensino público. Entretanto, os Conselhos
Tutelares da cidade, bem como, promotoras de Justiça, vêm questionando os
números apresentados pela Secretaria Municipal de Educação.
Em 18 de março de 2009, foi instaurado inquérito civil com o intuito de obter
esclarecimentos sobre o processo de recadastramento de crianças que
aguardavam vaga em creche e pré-escola no município de São Paulo. Em
recadastramento que a Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo
realizou no 2º semestre de 2008, a demanda por vagas em creche no município
seria de 57.607 e de 14.585 em pré-escolas. Em outro cadastro anteriormente
divulgado, a demanda quantitativa por vagas em creche e pré-escola era de
158.000 vagas. A retirada de 86.000 crianças de 0 a 6 anos do novo cadastro foi o
que motivou a abertura do inquérito, segundo as promotoras.
Acessando o cadastro eletrônico da Secretaria Municipal de Educação, o
que se verifica é que a demanda ali registrada está muito abaixo da que se
sabe real. Para constatar a demanda potencial basta comparar o número
96
total de crianças de 0 a 3 anos com o número de crianças matriculadas em
creches. (MONTEIRO, 2007, p. 28).
Embora possa se tratar de uma demanda “potencial”, o número total de
crianças de 0 a 3 anos que não estão freqüentando creche não corresponde por si
só à demanda por vagas. Visto que a creche é um direito da criança, mas não é
obrigatória, pode-se supor que nem todas as famílias desejam ou optarão pela
creche para seus filhos como modalidade de EI.
Rosemberg (2001) aponta para a diferenciação entre dois tipos de
demanda, a explícita e a latente:
A demanda é uma necessidade sentida e expressa. Ela pode ser explícita
ou latente: a explícita é avaliada através da procura de um serviço. A
demanda latente é aquela que não se expressa espontaneamente, por
alguma razão (distância entre domicílio e equipamento, qualidade ou tipo
de serviço oferecido etc). A única forma de aferição da demanda latente é
a realização de enquetes específicas. No Brasil são raríssimos, quase
inexistentes, os estudos sobre demanda: não sabemos quais as
modalidades de serviços preferidos pela população e qual a extensão da
demanda latente. Não dispomos de instrumentos para avaliar qualquer tipo
de demanda, além da extensão da “lista de espera”. (ROSEMBERG, 2001,
p. 25).
As listas de espera ou cadastros têm apontado uma elevada demanda
explícita por creche, mas pesquisas tipo survey ou qualitativas revelam
ambigüidades. Múltiplos discursos sobre a criança pequena, sobre a creche e
sobre qual seria a melhor forma de EI podem revelar diferentes demandas.
No Brasil, ainda poucos estudos têm investigado as escolhas por
modalidades de EI (ROSEMBERG, 2002). Esses estudos são de dois tipos: macro
- através de surveys incluindo perguntas sobre a freqüência ou não à creche e os
motivos pela eventual não freqüência - e micro – mais qualitativos e entrevistando
um menor número de pessoas.
Como vimos, tanto em um tipo de pesquisa quanto em outro, a crença, de
que a criança pequena deve ser cuidada e educada em contexto privado e
doméstico, aparece com força no Brasil, especialmente entre as famílias de menor
renda (CEDEPLAR/UFMG, 1999; DELGADO, 2005; LIMA, 2004). Esses estudos
têm apontado também para a prevalência, nos discursos das famílias, de uma
97
diferenciação entre o que se considera adequado para crianças bem pequenas e
para aquelas maiores de 3 anos.
[...] 81,79% dos entrevistados consideram que a melhor forma de criar
filhos de até 3 anos de idade é na própria casa, com mãe, pais e irmãos, e,
para as crianças entre 4 e 6 anos de idade, a educação na creche/préescola em horário parcial é a opção de maior preferência entre os
entrevistados (72,32%). (CEDEPLAR/UFMG, 1999, p.17).
Delgado (2005), Torres e Silva (1998 apud DELGADO, 2005) e Lima (2004)
apontam que os setores mais populares com rendimentos baixos e menor
escolaridade tendem a apresentar uma procura por uma educação mais
familiarista na escolha da modalidade de educação e cuidado, deixando as
crianças com uma outra pessoa ou com parentes que cuidem da criança em casa
ou em ambiente semelhante ao doméstico, como com uma “mãe crecheira”, em
uma creche domiciliar. Mães que optaram por essas modalidades de EI preferem
que a “mãe crecheira”, em uma creche domiciliar, atenda um pequeno número de
crianças para que elas possam receber maior atenção, como a que receberiam
em suas próprias casas. Já, as mães que optaram por deixar seus filhos em casa
com um parente consideram que somente essas pessoas da família é que
poderiam transmitir segurança, amor, carinho e atenção na relação com a criança.
Além disso, com essa opção, essas mães procuravam evitar que valores
estranhos ao contexto familiar fossem transmitidos às crianças por outros adultos.
No estudo de Lima (2004), bem como no de Galvão (2008), os adultos
entrevistados e que não optaram pela creche como modalidade de EI para seus
filhos apresentavam uma concepção bastante negativa sobre a instituição, a
considerando como “[...] ‘um lugar ruim e triste’, isto é, um local de abandono e
carente de afetividade” (LIMA, 2004, p. 138).
A Consulta sobre qualidade da educação infantil (CAMPANHA NACIONAL
PELO DIREITO À EDUCAÇÃO, 2006), que entrevistou 254 crianças de 5 e 6 anos
e 882 adultos (incluindo pais e mães usuários e não-usuários de 53 creches e préescolas públicas, particulares e sem fins lucrativos, profissionais e comunidade), a
maioria pertencentes às camadas populares, em 4 estados brasileiros (Ceará,
Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), apreendeu que, possivelmente,
98
a não freqüência de crianças à creche ou pré-escola estaria sendo sustentada por
uma concepção familiar de que a criança ainda seria muito nova para essa
freqüência, de que não haveria necessidade para a criança ingressar na creche,
ou, ainda, pela falta de vagas ou de estabelecimentos.
Moro (2002), em sua pesquisa de mestrado intitulada Infância e educação
infantil pública: concepções maternas, também procurou investigar motivos para a
não freqüência de crianças menores de 6 anos à creche. Nesse estudo descritivo,
a autora realizou entrevistas coletivas com 30 mulheres-mães de camadas
populares51, residentes no município paranaense de São José dos Pinhais, sendo
que 15 entrevistadas haviam optado pela creche pública como modalidade de EI
para seus filhos e outras 15 não. As que não haviam matriculado seus filhos na
creche apresentavam uma rede de apoio maior dos que as que tinham optado por
essa instituição e apontaram como principais motivos para essa decisão “quero
acompanhar o crescimento; sempre tive alguém para ajudar; optei por trabalhar
em casa; você não sabe como é o tratamento; não estou precisando trabalhar;
não consegui vaga” (p. 101). Ao avaliarem as creches municipais, essas mesmas
mães criticaram a localização e a inadequação de seu horário de funcionamento
às necessidades ou expectativas das famílias. Elas prefeririam horários mais
flexíveis para a entrada ou saída das crianças e até mesmo que o atendimento na
creche fosse oferecido também em meio-período.
Em sua investigação, Moro (2002) também procurou conhecer os motivos
pelos quais algumas mães haviam optado pela creche como modalidade de EI
para seus filhos e obteve as seguintes respostas: “para começar a trabalhar;
minha mãe não podia ficar; acabaram levando meus filhos para a creche [por uma
questão de extrema vulnerabilidade da família].” (p. 101). Segundo essa autora,
essas mães apresentavam mais informações sobre aspectos educacionais da
creche do que aquelas que não haviam optado por essa modalidade.
As mães entrevistadas por Lima (2004), e que também haviam optado por
matricular seus filhos na creche, expressaram conceitos positivos sobre a
51
Apenas quatro mulheres entrevistadas por Moro (2002) declararam renda superior a 5 salários
mínimos e nenhuma apresentava escolaridade superior.
99
instituição, considerando-a como um ambiente seguro, rico em estimulações e
uma “extensão do lar”. Essas concepções ou avaliações positivas também
puderam ser apreendidas, de certa forma, quando a grande maioria das famílias
de crianças matriculadas em creche ou pré-escola ouvidas na Consulta sobre
qualidade da educação infantil (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À
EDUCAÇÃO, 2006) revelou que seus filhos gostavam de freqüentar a instituição e,
também, na pesquisa de Martinez (1998) com relação à escola52/creche particular.
Em sua pesquisa, Martinez (1998) acompanhou o ingresso de cinco
crianças com idades variando de 1 ano e 3 meses a 3 anos de idade em uma
creche particular no município paulista de São Carlos, a partir de observações dos
momentos em que essas crianças chegavam e eram recebidas pela escola nas
quatro primeiras semanas de ingresso escolar.
Além das observações e de entrevistas com a diretora, professoras e outras
profissionais da creche, Martinez (1998) realizou também entrevista semi-dirigida
com quatro mães e dois pais das crianças. Todos os pais e mães entrevistados
apresentavam escolaridade superior e pertenciam às camadas médias.
Essa pesquisadora identificou diferentes motivos que levaram os pais
entrevistados a optarem pela creche/escola particular como modalidade de EI para
seus filhos. Os pais esperam que essa instituição promova uma aceleração no
desenvolvimento de seus filhos em diferentes áreas (social, afetiva, cognitiva e da
comunicação) e, além disso, “[...] é valorizada pela possibilidade de proporcionar à
criança pequena independência, sociabilidade e espaço físico ainda que a
disciplina e organização sejam também esperadas.” (MARTINEZ, 1998, p. 71). A
opção pela modalidade coletiva, em detrimento de outras possibilidades, como por
exemplo, deixar a criança com uma empregada ou babá, foi influenciada pela
valorização da qualidade da interação adulto-criança na creche.
Segundo Martinez (1998), os pais entrevistados esperam que o ensino
particular ofereça um ambiente repleto de atenção e afeto, um pouco como se
fosse a extensão da casa da criança. Alguns pais, entretanto, apesar de terem
optado pela creche para seus filhos, apresentavam uma avaliação negativa,
52
A pesquisadora utiliza o termo escola, e não o termo creche, em seu estudo.
100
considerando que a criança ainda era muito nova e que deveria ter ingressado na
creche somente quando já estivesse falando.
Vale frisar que a pesquisa de Martinez (1998) não questionou esses pais
sobre suas impressões a respeito da creche pública e nem sobre os possíveis
motivos de sua não escolha como local de educação para seus filhos.
Com relação a representações sobre creche, a Consulta sobre qualidade da
educação infantil (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO, 2006)
apreendeu que ela é caracterizada como um local de atendimento para crianças
cujas mães precisam trabalhar, onde são realizadas tarefas ligadas aos cuidados
infantis - guarda, alimentação, higiene -, cuidados esses habitualmente atribuídos
às mulheres. A socialização da criança a partir de sua convivência com outras
crianças e adultos e o aprendizado de regras foram citados nessa pesquisa como
papéis relacionados à EI.
Uma boa creche/pré-escola foi considerada, pela maioria dos respondentes
dessa mesma pesquisa, como aquela que “cuida bem da criança”, que “funciona
em prédio limpo e bem cuidado” e que “trata bem as crianças, não importando
suas diferenças” (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO, 2006,
p. 46-47). A maior parte dos entrevistados enfatizou, portanto, aspectos
relacionados aos cuidados.
[...] pais/mães mais pobres almejam da instituição [creche ou pré-escola]
que ela seja capaz de suprir aquelas necessidades básicas das crianças
que eles não se julgam em condições de proporcionar: alimentação,
cuidados com a saúde. Pais/mães, assim como outros segmentos, também
se preocupam com o tratamento que as crianças recebem na instituição,
desejando que sejam cuidadas com carinho, por pessoas que gostem de
crianças, de acordo com suas próprias palavras. Uma boa creche ou préescola seria aquela em que os educadores demonstrassem essas
qualidades. (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO,
2006, p. 63).
Alguns estudos como os de Cruz (2001), França (2001) e Monção (1999)
que se propuseram a estudar as representações de famílias sobre creche
entrevistaram, em geral, somente mães e pais de camadas populares e que já
tinham atribuído a educação de seus filhos a essa instituição. Poucas famílias
entrevistadas, usuárias dos serviços prestados por essas creches, conseguiram,
101
de forma geral, expor suas críticas em relação ao serviço oferecido.
Reconhecendo a creche pública (e a vaga finalmente conseguida) como um
milagre, uma dádiva ou um favor, muitas famílias entrevistadas não a
identificavam como um direito da criança.
Múltiplos discursos sobre o bebê e sobre a creche podem traduzir ou
concretizar, portanto, expectativas de diferentes naturezas em relação à EI.
Pudemos apreender que os pais tendem a procurar modalidades de EI que
assegurem à criança um contato muito próximo ao que recebem em suas casas. A
expressão “como se fosse uma extensão da casa” aparece com freqüência nas
pesquisas. Mesmo pais que optam por modalidades coletivas de cuidado como a
creche parecem desejar que o ambiente que acolha as crianças seja semelhante
ao da casa.
A creche aparece nas concepções das famílias, quase sempre, relacionada
aos cuidados e, ainda, muito pouco à educação.
Devemos, entretanto, antes de finalizar esse tópico, atentar para o fato de
que algumas pesquisas brasileiras, que vêm investigando os motivos pelos quais
crianças na faixa etária de 0 a 6 anos estavam ou não estavam freqüentando
creche ou pré-escola, muitas vezes, não apresentam resultados desagregados por
idade da criança ou subdivididos pelas faixas etárias de 0 a 3 e de 4 a 6 anos.
Assim, muitos resultados acabam se referindo, de forma geral, às crianças de 0 a
6 anos, abrangendo ou avaliando tanto a demanda por creche quanto por préescola. Em conseqüência, como ressalta Rosemberg (2009c), notamos uma maior
fragilidade e insuficiência nas informações relativas aos motivos pelos quais
crianças pequenas não estão freqüentando creche, ao atendimento em creche e
às especificidades ou distinções internas entre as crianças de 0 a 3 anos.
A desagregação dos dados por idades tem se mostrado fundamental para
expor a intensidade das diferenças de freqüência à creche entre bebês menores
de 1 ano e crianças já maiores, a partir de 2 e 3 anos de idade, como podemos
observar nas informações apresentadas no quadro 1 e provenientes de dados
coletados na PNAD (2008).
102
Quadro 1. Freqüência à creche/pré-escola/escola, segundo a idade da
criança
Idade
das
crianças
(em
anos)
População
por idade
Freqüência à creche/préescola/escola
Educação
Infantil
Ensino
Fundamental
Idade das
crianças
(em
anos)
Porcentagens de freqüência à
creche/pré-escola/ escola
Educação
Infantil
Ensino
Fundamental
0
2.553.221
59.527
0
2,33%
1
2.618.009
236.579
1
9,04%
2
2.706.386
518.946
2
19,17%
3
2.849.041
1.127.309
3
39,57%
4
2.895.074
1.849.531
4
63,89%
5
2.870.331
1.584.009
715
5
55,19%
0,02%
6
2.959.157
676.411
1.330.597
6
22,86%
44,97%
7
3.081.044
89.975
2.694.733
7
2,92%
87,46%
8
3.396.581
23.916
3.246.875
8
0,70%
95,59%
9
3.463.140
9.472
3.390.352
9
0,27%
97,90%
Fonte: (PNAD, 2008, micro dados processados por Sergei Soares, apud ROSEMBERG, no prelo).
Em uma breve análise do quadro apresentado, apreendemos que menos de
3% dos bebês menores de 1 ano de idade estão freqüentando creches no Brasil,
enquanto que essa taxa se eleva para quase 10% entre crianças com 1 ano de
idade e mostra-se, ainda, muito maior - quase 20% para crianças de 2 anos e
aproximadamente 40% entre as de 3 anos -, quanto maior é a idade da criança,
como já havíamos apontado no início desta tese. Essas informações nos levam a
supor que as pesquisas que objetivam investigar demanda ou a não freqüência à
creche devem procurar obter informações específicas sobre as diferenciações
internas à faixa etária de 0 a 3 anos.
Com taxas de freqüência tão diferentes, também, entre as crianças que
estão matriculadas nas creches e àquelas que freqüentam a pré-escola, pode-se
imaginar que as famílias apresentem motivos ou demandas específicas de acordo
com a idade das crianças. Não seria recomendável, portanto, que as pesquisas
continuassem considerando a EI como se fosse um bloco homogêneo. Sem que
ocorra a separação dos dados por idades sempre teremos muito menos
informação, ou informações frágeis, sobre as especificidades da freqüência, ou
não freqüência, à creche por parte de bebês.
103
Daí, nosso interesse de nos debruçarmos sobre os discursos de mães
sobre os bebês menores de 1 ano e suas especificidades em termos de educação
e cuidados.
104
CAPÍTULO 4 – ENTREVISTANDO MÃES
Este capítulo aborda a segunda fase prevista pelo método da hermenêutica
de profundidade (THOMPSON, 2002), ou seja, descreve as formas simbólicas, no
caso, as entrevistas, seu contexto de produção e também seu conteúdo. Em um
primeiro momento, explicitarei os procedimentos que nortearam a coleta de dados
e, na seqüência, apresentarei a análise do conteúdo apreendido.
4.1 AS ENTREVISTADAS
ENTREVISTAS
E
O
CONTEXTO
DE
PRODUÇÃO
DAS
As mulheres-mães entrevistadas foram selecionadas intencionalmente,
como na pesquisa de Galvão (2008), com base na literatura consultada e no
objeto de pesquisa.
No total, foram entrevistadas oito mulheres, mães de primeiro filho (com até
no máximo 1 ano de idade), casadas ou residindo com companheiro, moradoras
de São Caetano do Sul, com formação em nível superior, inseridas no mercado de
trabalho e pertencentes às camadas médias da população.
Por que entrevistei mulheres com estas características? Ora, como vimos
na revisão bibliográfica que efetuamos, renda e escolaridade materna elevadas
atuam como variáveis importantes, influenciando positivamente a freqüência aos
equipamentos coletivos de educação e cuidado por parte de crianças pequenas,
inclusive bebês.
Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e
não de classes médias, considerei, como enfatizado por Romanelli (2003), que
mesmo que elas se encontrem, através de seus rendimentos econômicos,
posicionadas dentro de uma mesma camada econômica ou social, elas vivem no
dia-a-dia experiências de vida e organização familiar diversas.
[...] a opção pelo uso de camadas médias implica uma postura teórica
segundo a qual elas não constituem uma classe social, no sentido
marxista, mas se configuram como categoria descritiva, cuja diferenciação
105
em segmentos específicos resulta da articulação entre determinantes
sociais e culturais (ROMANELLI, 2003, p. 248).
Escolhi escutar mães de bebês moradoras de São Caetano do Sul por
diversos fatores já citados, mas também pela facilidade de acesso, já que também
resido na cidade e pelo interesse em entrevistar residentes no município brasileiro
considerado como “O melhor para se viver” em pesquisa realizada pela FIRJAN
(Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) em 2008; que possui o
melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), segundo a Fundação SEADE e
a Organização das Nações Unidas em 2000, e também classificada pelo UNICEF
como a terceira melhor do Brasil e a segunda melhor do estado de São Paulo no
atendimento à infância, graças ao trabalho nas áreas de educação, cultura, saúde
e esportes (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL, 2003a).
Para a coleta de dados, optei por realizar entrevista individual em
profundidade, pois, segundo Gaskell (2003, p. 65):
A entrevista qualitativa [...] fornece os dados básicos para o
desenvolvimento e a compreensão das relações entre os atores sociais e
sua situação. O objetivo é uma compreensão detalhada das crenças,
atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das
pessoas em contextos sociais específicos.
As entrevistas foram guiadas por um roteiro composto pelos temas e
questões53 detalhadas abaixo.
• Percepção sobre política, direito do bebê e participação da sociedade
- pensando em um contexto mais geral, acha que a sociedade ou o Estado têm
algum dever para com os bebês, alguma responsabilidade? De quem seria essa
responsabilidade? As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde
1988, mas somente 18,1% das crianças de 0 a 3 anos freqüentam creche,
enquanto quase 80% de crianças de 4 e 5 anos freqüentam pré-escola. O que
pensa sobre isso? Por que os adultos, em geral, não se preocupam ou se
53
Durante o Exame de Qualificação, foi sugerido pela Banca Examinadora que a ordem das
questões fosse alterada, para que as relacionadas à percepção sobre política, direito do bebê e
participação da sociedade atuassem nas entrevistas como questões desencadeadoras. Por essa
razão, somente a primeira entrevista, a única realizada antes da Qualificação, apresentou uma
ordem diferente na proposição das questões.
106
mobilizam pela questão dos direitos dos bebês e das políticas de creche? Como
os adultos, incluindo aí os políticos e a sociedade em geral, poderiam se mobilizar
para procurar atender aos direitos dos bebês e agir mais ativamente em relação
às políticas de creche? Você se preocupa ou se mobiliza? Por quê? Como?
• Concepções sobre o bebê – você poderia descrever um bebê para mim;
o que vem à cabeça quando falamos em bebê, o que é um bebê para você?
Existe diferença entre um bebê e uma criança pequena? O que os diferencia?
Bebê seria até mais ou menos qual idade? Como a entrevistada se instrui ou
como aprendeu sobre os cuidados para com um bebê? Como acha que os bebês
gostariam de ser cuidados/educados; qual seria a melhor maneira de educá-los;
do que um bebê necessita? Qual seria a idade que você considera ideal para um
bebê começar a freqüentar a creche? Qual é a rotina de um bebê em casa?
Como é ou seria a rotina de um bebê na creche?
• Conhecimento sobre creche – o que vem à cabeça quando falo creche;
o que o termo evoca? O que é, para que serve uma creche? A quem se destina?
Conhece alguma? Sabe se tem creche pública no seu bairro? Conhece alguém
que utiliza ou trabalha em uma creche? No município? Já ouviu alguém comentar
sobre creche? Quem? Tem alguma impressão ou avaliação sobre as creches de
São Caetano? Há diferença entre as creches públicas de São Caetano e as de
outros municípios? O que é uma boa creche (uma creche de boa qualidade)? O
que a creche deveria oferecer para um bebê se sentir bem? O que é uma creche
ruim (de má qualidade)? Colocaria o bebê em uma creche? Colocaria o bebê em
uma creche pública? Colocaria o bebê em creche em período integral?
Recomendaria a creche pública para outros pais/bebês? O que acha da oferta de
vagas? O que fazer diante da oferta insuficiente de vagas? Existem diferenças
entre creche pública e creche particular? Quais? Por que você acha que essas
diferenças existem? Existe alguma diferença entre os bebês que freqüentam
creche pública e os que freqüentam creche particular?
• Contexto familiar – breve descrição da família (idade da entrevistada e a
de seu marido/cônjuge, escolaridade/formação/profissão, bem como a do cônjuge,
107
tipo de trabalho/ocupação, idade e sexo do bebê, religião da família, local de
residência).
• Cuidados e educação recebidos na infância – como se recorda dos
cuidados e educação recebidos quando era criança? Sua mãe trabalhava fora?
Freqüentou creche (pública ou privada) e com qual idade? Ficava com outros
familiares ou com outras pessoas em casa? O que pensa da educação recebida?
Do que recebeu de seus pais, o que gostaria de transmitir para seu filho ou adotar
na educação dele? Do que recebeu, o que gostaria de modificar em relação à
educação de seu filho?
• Licença-maternidade - o que sabe sobre licença maternidade? Usufruiu
dela por quanto tempo? Considera que este tempo foi suficiente ou adequado? O
que achou do projeto aprovado e da possibilidade de poder prorrogá-la por mais 2
meses; acha que 6 meses de licença maternidade é suficiente ou adequado para
as famílias e para os bebês? Qual seria o tempo “ideal” de licença maternidade?
Por quê?
• Licença-paternidade – o que sabe sobre licença paternidade? O pai do
seu filho usufruiu de licença paternidade? Por quanto tempo? Considera o tempo
previsto em lei adequado? O que acha do projeto que propõe a ampliação de 5
para 15 dias? Qual seria o tempo “ideal” de licença paternidade para as famílias e
para os bebês? Por quê?
• Expectativa/escolha – o que pretende fazer ou fez ao término da licença
maternidade: voltar (voltou) a trabalhar, deixar (deixou) o bebê com alguém,
colocar (colocou) na creche, reduzir (reduziu) a jornada de trabalho, parar (parou)
de trabalhar? Qual o tipo de educação escolhida? Por que essa escolha? Como se
deu a escolha: consultou alguém, conversou com o pai da criança, visitou alguma
creche, pensou em parar de trabalhar ou sofreu algum tipo de pressão para parar
de trabalhar e cuidar pessoalmente do bebê em casa? A escolha é pessoal ou
também a recomenda para outros pais/bebês? A idade da criança influenciou a
escolha? O que pessoas conhecidas falaram sobre a escolha ou escolheram para
seus bebês? Em algum momento pensou na possibilidade de o bebê ficar com as
avós ou avôs (paterno ou materno)? Por que sim? Por que não? Alguém (a avó)
108
se ofereceu para ficar com o bebê ou vocês que pediram? Como é para ela, o que
ela acha de educar, cuidar do bebê?
• Nomenclatura/vocabulário – qual termo utiliza ou prefere utilizar ao se
referir às instituições de educação e cuidado infantil? Por que utiliza ou prefere
esse termo?
Este roteiro baseou-se, não somente no recorte do objeto de pesquisa e no
estudo teórico realizado, mas, também, em cinco entrevistas exploratórias que tive
a oportunidade de realizar em diferentes estágios de desenvolvimento deste
projeto.
Em outubro de 2004, durante meu primeiro semestre de estudos, dentro
das atividades desenvolvidas no NEGRI, apresentei um seminário sobre
entrevista, com base no livro A entrevista na pesquisa em educação: a prática
reflexiva, organizado pela professora Heloisa Szymanski (2002), e esbocei um
roteiro prévio de questões, com base nos estudos de Lima (2004), Bloch e
Buisson (1998, 1999), CEDEPLAR/UFMG (1999) e IPEA (1999). Realizei,
também, uma primeira entrevista com uma mãe que havia optado pela creche
como modalidade de educação e cuidado para seus dois filhos.
Após a análise dessa primeira entrevista, e com o desenvolvimento do
projeto de pesquisa, foi possível ampliar o roteiro de questões e realizar, no início
de 2006 e também em 2008, mais quatro entrevistas exploratórias com mães que
já apresentavam características próximas às das que foram, posteriormente,
entrevistadas.
As entrevistas exploratórias, além de terem me auxiliado a melhor estruturar
o roteiro de questões/temático, que passou a focar mais o bebê enquanto criança
e menos enquanto filho, também serviram como “treino” para a situação e a
função de entrevistar. Como nos lembra Luna (2002, p.61-62):
Com alguma freqüência, um pesquisador pode descobrir que a formulação
adequada do seu problema pode depender de algumas informações a
serem coletadas preliminarmente [...] Esse procedimento poderá ter a
finalidade de “treinar” o pesquisador iniciante à situação concreta que
enfrentará durante a pesquisa, mas também poderá ser um recurso de um
pesquisador experiente que adentra uma área ainda pouco explorada.
Pode, ainda, ter o sentido de um pré-teste de instrumentos ou de
determinados procedimentos a serem empregados, com o objetivo de não
109
“queimar” o trabalho efetivo de pesquisa (em geral, isto é feito em uma
situação mais restrita, com menos indivíduos).
Realizei, em 29 de setembro de 2009, a primeira entrevista54 e todas as
demais foram realizadas durante os meses de janeiro e fevereiro de 2010, tendo
sido a última realizada em 05 de fevereiro de 2010. Todas as entrevistas foram
gravadas com a concordância das entrevistadas, após leitura do termo de
consentimento informado, que foi assinado por todas as participantes. Em respeito
aos princípios éticos, todas as entrevistadas tiveram seus nomes e os das
pessoas por elas citadas alterados, para a garantia de anonimato.
Também
visando
garantir
o
cumprimento
de
aspectos
éticos,
foi
encaminhada ao Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP a versão do projeto de
tese contendo os objetivos da pesquisa, sua justificativa, os procedimentos e
cuidados éticos que seriam adotados, bem como, caracterizada a população que
seria entrevistada. Após avaliação pelo Comitê, o projeto foi aprovado55.
Para localizar as entrevistadas, divulguei minha pesquisa entre parentes,
amigos, conhecidos e contatei pediatras e também algumas direções de creches
particulares de São Caetano do Sul, informando sobre as características das mães
que poderiam compor minha amostra. Dessa forma, pude contar com as
indicações de mulheres que, eventualmente, poderiam se interessar em participar
da pesquisa.
Em apenas um caso, fiz uma abordagem direta ao observar uma mulher
acompanhada de seu bebê em um restaurante. Essa mãe, não só apresentava o
perfil que eu procurava, como se interessou pelo tema e aceitou participar.
Vale destacar, também, que, apesar do contato com pediatras e creches
particulares, a maior parte das indicações que recebi partiu, mesmo, de pessoas
de meu convívio social, que serviram como intermediárias entre a pesquisadora e
as mulheres entrevistadas.
54
A transcrição da primeira entrevista realizada foi parte integrante do Projeto de Tese que foi
avaliado em 07 de dezembro de 2009 durante Exame de Qualificação. Nessa ocasião, a Banca
Examinadora sugeriu que fossem realizadas no mínimo seis entrevistas. As transcrições das oito
entrevistas realizadas constam dos anexos.
55
Em anexo, são apresentados os termos de compromisso do pesquisador responsável e de
consentimento livre e esclarecido, bem como, o parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da PUCSP.
110
Quando as possíveis entrevistadas se mostravam dispostas a participar, eu
entrava em contato por telefone, fornecia dados mais detalhados sobre a
pesquisa, verificava se elas realmente se encaixavam no perfil de composição da
amostra56 e se desejavam conceder a entrevista. A partir daí, agendávamos, de
acordo com a preferência e sugestão das entrevistadas, o dia, horário e local de
realização das entrevistas.
Antes da análise das entrevistas, será necessário descrevermos o contexto
em que foram produzidas, como nos lembra Thompson (2002). A descrição do
local onde cada uma foi realizada, a qualidade da interação entre pesquisadora e
entrevistada, incluindo sentimentos, perguntas ou outros comentários que possam
ter sido expressos, também devem ser considerados na análise.
Quanto ao contexto no qual foram produzidas, vale lembrar que as
entrevistas envolveram diferentes atores sociais. Um primeiro ator fui eu, a
pesquisadora: psicóloga, ex-dirigente de creche, branca, com idade entre 35 e 40
anos, casada, sem filhos, também moradora de São Caetano e pertencente às
camadas médias da sociedade, representando a academia e a universidade. Um
segundo ator foram as mulheres entrevistadas, profissionais com nível superior,
brancas, com idades variando entre 27 e 40 anos, casadas ou residindo com
companheiro, mães de primeiro filho, moradoras de São Caetano e representantes
das camadas médias que discursaram não somente sobre seus filhos e suas
escolhas em termos de EI, mas também, sobre os bebês, em geral, e sobre as
modalidades de EI que consideram mais adequadas e/ou recomendadas para
bebês.
A descrição do contexto de produção de cada entrevista se mostra também
bastante útil ao pensarmos que, embora tenham sido gravadas, as entrevistas
foram analisadas a partir de transcrição de falas, o que não registra entonações,
importantes referências para interpretar seu conteúdo. Todas as transcrições,
ainda que correspondam o mais fielmente possível ao que foi gravado e tenham
sido totalmente realizadas por esta pesquisadora, como recomendado por Queiroz
56
Três mulheres que me foram indicadas, infelizmente, não puderam ser entrevistadas ou porque
não residiam em São Caetano ou porque eram mães de crianças acima de 1 ano de idade.
111
(1983), não traduzem completamente o ambiente das entrevistas e as suas
condições de produção.
Quero ainda registrar que, de forma geral, me senti bastante à vontade com
todas as entrevistadas e considerei que o fato de apresentarmos similaridades em
relação à escolaridade, renda, residência em São Caetano e, em um caso,
profissão, facilitou o contato e interação com as entrevistadas. Além disso, relato
que todas as oito mães mostraram-se interessadas em receber as transcrições de
suas entrevistas, bem como, em ter acesso ao trabalho final para poderem
conhecer não só o que as outras participantes pensam sobre o tema, mas também
os resultados da pesquisa.
A seguir, apresentarei uma breve descrição introdutória sobre cada uma
das entrevistas.
Joana
Joana foi a primeira mãe a ser entrevistada e me recebeu em seu local de
trabalho no período da tarde, sem a presença de sua filha, Maria Clara.
Quando nos encontramos, a entrevistada perguntou se eu era psicóloga e
se trabalhava em consultório. Perguntou, também, se eu morava na cidade e se
tinha filhos, ao que respondi prontamente. Contei que eu trabalhava com
educação infantil, que já havia sido dirigente de creche, que morava na cidade e
que não tinha filhos.
A entrevista que durou 1 hora e 8 minutos não sofreu qualquer interrupção
e pudemos contar com privacidade e silêncio para sua realização.
A entrevistada participou bastante, apesar de ter comentado, em um dado
momento da entrevista, ser uma pessoa reservada.
Minha percepção era a de que a entrevistada sentia-se à vontade, o que, de
fato, ela confirmou após o término da entrevista. Quando finalizamos, ela
perguntou se eu já havia realizado outras. Falei que sim e que algumas tinham
servido para definir o roteiro e para treinar a situação de entrevista.
Joana relatou ter sido a primeira vez que participou de uma pesquisa e
comentou ter achado muito interessante poder apresentar o seu ponto de vista
sobre o assunto.
112
De forma geral, o relacionamento entre entrevistadora e entrevistada foi
marcado pela cordialidade. Ao final, obtive junto à entrevistada o número de
telefone de um pediatra na cidade para, eventualmente, conseguir contatar outras
mulheres para entrevistas posteriores.
Na análise pessoal de minha postura durante a entrevista, percebi que,
embora eu tenha me mantido atenta ao que a entrevistada respondia, em alguns
momentos, fiquei presa ao roteiro e à ordem das questões, o que acabou
promovendo algumas idas e vindas na entrevista, deixando alguns assuntos para
depois e retomando-os mais à frente.
Natália
Natália me recebeu em sua residência, no período da manhã, antes de sair
para o trabalho. A entrevista, que durou 1 hora e 12 minutos, foi realizada em uma
sala reservada, sem a presença do bebê. Pudemos contar com privacidade e
silêncio e o clima entre pesquisadora e entrevistada também foi de cordialidade.
A entrevistada pareceu-me bastante tranqüila e focada no tema da
entrevista.
Antes que eu me despedisse, me apresentou sua filha, Laura, que dormia
no carrinho sob os cuidados da babá.
Considerei, enquanto entrevistadora, que a alteração na ordem de
apresentação das questões, procedimento que, como já comentei, havia sido
proposto durante o exame de qualificação do projeto e que passei a adotar a partir
dessa segunda entrevista, foi bastante positiva para a pesquisa, visto que, ao
propor, logo de início, questões referentes à percepção sobre política, direitos do
bebê e participação da sociedade, de certa forma, propiciou que a entrevistada
refletisse sobre outros bebês e não somente sobre sua filha.
Aléxia
Fui recebida pela terceira entrevistada, Aléxia, na casa de sua mãe, onde
reside com seu companheiro e bebê. Essa entrevista foi realizada na mesma data
113
que a entrevista de Natália, porém no período da tarde, e contou com a presença
do bebê, Juliano, já que Aléxia informou não ter com quem deixá-lo.
Ao agradecer sua disponibilidade em participar, comentei que Juliano
mostrava-se bastante observador e participante. A mãe comentou que ele até
parava de mamar para olhar para nós. O bebê tomou mamadeira, mas acabou
dormindo durante quase todo o decorrer da entrevista. Aléxia e eu conversamos
sem interrupções, com tranqüilidade, privacidade e silêncio.
A entrevistada pareceu-me estar à vontade. Notei uma atitude expansiva e
bastante participativa por parte da entrevistada, o que talvez possa ser justificado
pela proximidade entre sua atividade laboral - ex-professora de EI - e o objeto
desta pesquisa. Esta foi a entrevista de mais longa duração, 1hora e 42 minutos.
Apesar disso, Aléxia não considerou sua duração como desagradável. Ao
terminarmos, ela me ofereceu suco e bolachas e ainda pudemos conversar mais
um pouco. Comentei que eu já tinha sido diretora de creche em São Bernardo do
Campo e justifiquei, também, minha opção por entrevistar mães residentes em
São Caetano.
A entrevistada também me indicou o pediatra de seu bebê como um contato
na busca por indicações para outras entrevistas.
Malu
Malu foi a quarta mãe entrevistada e me recebeu em sua residência, no
período da tarde. Seu bebê, Anjinho, que estava dormindo quando eu cheguei,
acordou no decorrer da entrevista e foi amamentado.
No início da entrevista, Malu perguntou se eu morava em São Caetano, se
eu era casada e se tinha filhos ou se pensava em ter. Respondi, de forma breve,
informando que também morava na cidade, que era casada e não tinha filhos.
De forma geral, pudemos contar com um ambiente silencioso e com
privacidade para a realização da entrevista.
Aparentando estar bastante focada no tema da entrevista, Malu pareceu-me
bastante direta e objetiva na maior parte das respostas, o que transparece na
duração da entrevista: 1 hora (das oito realizadas foi uma das mais curtas).
114
Ao final da entrevista, a relação entre pesquisadora e entrevistada que
havia me dado a impressão de ter sido relativamente formal, pareceu-me mais
descontraída com o café que me foi gentilmente oferecido e com a presença do
bebê que tinha acordado.
Malu considerou o tema da entrevista importante e me cumprimentou pela
iniciativa em pesquisá-lo: “... É muito bom, parabéns. É muito importante esses
trabalhos que vocês fazem, essas pesquisas, porque isso contribui, de alguma
forma, para melhorar esse tema...”
Beatriz
Entrevistei Beatriz em sua residência, às 20h30, como havíamos
combinado e, logo de início, agradeci não só sua participação, mas, também, sua
disponibilidade de tempo, sua disposição em me receber à noite depois de um dia
de trabalho e a participação de sua filha, Mariana, que estava no colo e acordada.
A entrevista transcorreu sem maiores interrupções, em ambiente cordial,
com privacidade.
Beatriz, que informou estar participando de uma pesquisa pela primeira vez,
não forneceu respostas muito longas, mas restringiu-as ao tema da entrevista. A
duração da entrevista foi de 1 hora e, assim como a entrevista com Malu, foi uma
das mais curtas.
Ela considerou o tema da entrevista válido e disse que esperava ter
ajudado, mesmo sem conhecer muito sobre creche ou sobre a realidade das
creches em São Caetano.
Ao final da entrevista, Beatriz quis confirmar se a pesquisa era para a minha
tese e se eu era psicóloga de criança. Respondi que estava desenvolvendo minha
tese em Psicologia Social, que eu não era psicóloga de criança, mas que já tinha
trabalhado com crianças na área de EI.
Um pequeno incidente com o gravador foi descoberto pouco antes do
término da entrevista. O aparelho não havia registrado as últimas respostas de
Beatriz. Para compensar esse problema, logo após a entrevista, transcrevi a parte
final recorrendo a minha memória e, no dia seguinte, encaminhei a transcrição
115
completa da entrevista para que Beatriz a avaliasse, a completasse ou corrigisse
qualquer eventual equívoco.
A entrevistada se mostrou compreensiva com o ocorrido e gentilmente leu a
transcrição e deu seu aval, confirmando que o que estava escrito era o que
havíamos conversado e o que ela havia respondido.
Manuela
Entrevistei Manuela, a mais jovem das oito mulheres, na residência de seus
pais, logo após o almoço. Diferentemente das outras entrevistas, em que
estávamos só eu, a entrevistada e o bebê no local de entrevista, a entrevista com
Manuela sofreu mais interrupções, não só pela presença do bebê, João, que
chorou e foi amamentado, mas também pela circulação de outras pessoas na
casa. Os pais de Manuela entraram uma vez no local de entrevista e o pai dela me
perguntou se a pesquisa era sobre pós-parto. Em outro momento, interrompemos
a entrevista, pois nos foi servido café.
Manuela tratou-me como se fôssemos amigas de longa data. Foi
extremamente simpática e pareceu-me muito à vontade não somente para
responder às questões, mas também para me questionar sobre os temas
abordados, especialmente sobre as creches. Dentre as perguntas que fez ao
longo da entrevista, perguntou-me também se eu tinha filhos, ao que respondi
prontamente.
A entrevistada utilizou uma linguagem que qualifico como tendo sido mais
informal e descontraída que a das demais e, às vezes, também um pouco menos
focada.
Apreendi uma certa preocupação de Manuela com o fato de não conhecer
creches em São Caetano e de, em sua análise, não ter tanto conhecimento pelo
fato de estar começando, de só ter 3 meses de experiência com o bebê e de ser
“marinheira de primeira viagem”. Procurei tranqüilizá-la, informando que eu estava
entrevistando somente “mães de primeira viagem” e que eu queria conhecer suas
impressões, mesmo que ela nunca tivesse visitado uma creche.
116
Ela afirmou ter gostado de participar da pesquisa: “... achei legal as
perguntas que você fez, às vezes, fazem perguntas meio, como se diz, meio,
como fala, ai fugiu a palavra, tipo invadindo a privacidade, mas não, eu achei
super tranqüilo, você não perguntou nada que eu não quisesse responder, o que
eu não respondi é porque eu não sabia mesmo...”
Ao final, comentei com ela que eu já havia trabalhado como dirigente de
creche pública em São Bernardo e que me parecia que a Secretaria de Educação
de São Caetano estava tentando assegurar que todos os matriculados em creche
residissem mesmo no município. Manuela revelou-me ter ficado satisfeita com
essa informação, já que, ao longo de sua entrevista, criticou o fato de as creches
públicas de São Caetano estarem, possivelmente, sendo utilizadas por pessoas
de outras cidades na busca por uma vaga ou um melhor atendimento.
Milena
Fui recebida por Milena em seu local de trabalho, no período da tarde, e
sem a presença de seu bebê, Raul. Procurei iniciar rapidamente a entrevista, pois
sabia que, logo após, Milena iria para casa ficar com seu filho.
Pudemos conversar durante 1hora e 14 minutos em uma sala tranqüila,
sem sermos interrompidas. Como ela atua na área da EI, pude fazer algumas
perguntas relativas, também, ao seu trabalho e ao atendimento oferecido aos
bebês.
O clima da entrevista pareceu-me cordial, mas ficou bem mais simpático
quando a entrevista terminou e pudemos conversar sem o gravador. Milena
perguntou-me, mais que as demais, sobre minha formação e interesse em EI.
Assim, comentei sobre meus trabalhos anteriores na creche e também a informei
sobre os estudos que vêm sendo desenvolvidos no âmbito do NEGRI. Ela, que
durante a entrevista, afirmou se ressentir da falta de material de estudo relativo
aos bebês, mostrou-se animada com a possibilidade de ter acesso, por exemplo, a
minha dissertação de mestrado na área de sexualidade infantil, à pesquisa de
Galvão (2008) com pais de camadas médias, e aos resultados da pesquisa que
sustenta esta tese.
117
Júlia
A oitava entrevistada me recebeu na companhia de seu bebê, Diogo, em
seu local de trabalho, no período da manhã. Apesar de ainda estar em licença
maternidade, ela preferiu que a entrevista não fosse realizada em sua casa, para
que, assim, eu pudesse conhecer o seu local de trabalho.
No início da entrevista, agradeci a gentileza de Júlia de ter aceitado me
receber e participar da pesquisa, mesmo estando com o bebê bem novinho no
colo. Ao utilizar o termo “novinho”, eu me referia ao fato de Diogo ter 1 mês e meio
de vida e ser o bebê com menor idade entre todos que eu havia conhecido
durante o período de entrevistas. O bebê dormiu durante quase todo o tempo da
entrevista e só precisamos fazer uma breve interrupção para que ele fosse
amamentado no horário correto.
Considero que a entrevista transcorreu de forma muito tranqüila com
grande participação de Júlia. Sua duração de 1h e 30 minutos, pareceu-me não ter
gerado qualquer reação de incômodo por parte da entrevistada.
Júlia relatou que a entrevista tinha sido diferente do que ela havia
imaginado ao comentar suas impressões, quando chegávamos ao final. Ela
esperava que eu fosse questioná-la mais sobre questões relativas ao seu próprio
bebê.
A entrevistada ressaltou, também, que eu havia contribuído com
informações interessantes, como a do projeto de lei para ampliação da licença
paternidade que ela desconhecia.
Antes de nos despedirmos, conversamos um pouco também sobre meu
percurso profissional e como ele tinha contribuído para que eu, hoje, estivesse
entrevistando mães sobre o bebê, sua educação e cuidado.
4.2 A ANÁLISE DOS DADOS
Retomando Thompson (2002), e lembrando que cabe a cada pesquisador
adotar na fase de análise formal das formas simbólicas os procedimentos que
julgue ser os mais apropriados para o objetivo de sua pesquisa, empreguei, assim
118
como outras pesquisas realizadas no âmbito do NEGRI, um conjunto de técnicas
de análise de conteúdo, com base em Bardin (1977) e Rosemberg (1981), para
descrever os discursos das mães entrevistadas. A análise do conteúdo das
entrevistas mostrou-se necessária, já que as formas simbólicas precisam ser
analisadas não somente em relação ao seu contexto sócio-histórico de produção,
recepção e divulgação, mas também em si mesmas.
Nesta pesquisa, as transcrições das entrevistas constituíram o corpus, ou
seja, o “[...] conjunto dos documentos tidos em conta para serem submetidos aos
procedimentos analíticos.” (BARDIN, 1977, p. 96).
A reprodução das transcrições integrais das entrevistas em anexo tem
como finalidade, não somente disponibilizar aos leitores o acesso aos discursos
das entrevistadas e possibilitar o acompanhamento do processo realizado por esta
pesquisadora de transformação das informações em dados úteis para a análise,
mas também proporcionar, eventualmente, que outras re-interpretações, também
plausíveis e justificadas, venham a ser elaboradas por outros pesquisadores com
base em diferentes enfoques teóricos.
Finalizada a etapa de transcrição das entrevistas, empreendi sucessivas
leituras de cada uma, visando estruturar meu plano de análise com foco nos
aspectos comuns dos discursos da maioria das entrevistadas e não em suas falas
individuais e identificar, em um primeiro momento, os temas de maior aparição ou
destaque.
O tema, portanto, foi a unidade de significação e de registro que utilizei.
Segundo Bardin (1977, p. 105-106):
Fazer uma análise temática consiste em descobrir os “núcleos de sentido”
que compõem a comunicação e cuja presença, ou freqüência de aparição,
podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido. [...] O
tema, enquanto unidade de registro, corresponde a uma regra de recorte
(do sentido e não da forma) que não é fornecida uma vez por todas, visto
que o recorte depende do nível de análise e não de manifestações formais
reguladas. [...] O tema é geralmente utilizado como unidade de registro
para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças,
de tendências, etc. As respostas a questões abertas, as entrevistas (não
diretivas ou mais estruturadas) individuais ou de grupo, de inquérito [...]
podem ser, e são freqüentemente, analisados tendo o tema por base.
119
Partindo do conteúdo temático das entrevistas, e com base também nas
referências teóricas e no roteiro de questões, procurei construir quadros que
permitissem a codificação das respostas. Esses quadros contêm sínteses ou
citações de cada entrevista organizadas em torno de categorias e serão
apresentados ao longo do texto para permitir ao leitor uma melhor visualização
dos dados.
Após a análise dos quadros, foi possível estabelecer uma apresentação dos
resultados em torno de cinco eixos, a saber:
• eixo 1: os contextos sociais das entrevistadas;
• eixo 2: concepções sobre o bebê e a criança pequena;
• eixo 3: modalidades de educação e cuidado para bebês;
• eixo 4: responsabilidades do Estado e da sociedade;
• eixo 5: aspectos intergeracionais.
Eixo 1. Os contextos sociais das entrevistadas
Em síntese, podemos dizer que as mulheres-mães que entrevistamos
representam as camadas médias urbanas, apresentam formação universitária, são
bem situadas profissionalmente, optaram ou tiveram seus bebês em uma fase
mais madura de suas vidas, têm acesso a fontes variadas de informação
(profissionais, parentes e conhecidos, mídia, internet, livros, cursos), vivem em
contextos pessoais e sociais de não carência, não apresentando limitações de
ordem econômica ou social para poderem escolher ou optar pelas modalidades de
EI que consideram mais adequadas para seus bebês.
A apresentação sobre os contextos sociais das entrevistadas será dividida
em duas partes. Primeiramente, forneceremos informações que as caracterizam, e
na seqüência, descreveremos suas experiências e práticas em relação à vivência
da maternidade e ao cuidado com bebês.
As entrevistadas são brancas, situadas na faixa etária dos 27 aos 40 anos,
mães de bebês com idades variando entre 1 mês e meio e 11 meses, sendo que
120
três bebês são meninas e cinco são meninos, casadas ou vivendo com
companheiro, estão inseridas no mercado de trabalho, bem como seus maridos,
que se situam na faixa etária dos 29 aos 41 anos (quadro 2).
A formação universitária das mães entrevistadas ocorreu em áreas
distintas: Pedagogia, Administração de Empresas, Psicologia, Arquitetura,
Ciências da Computação, Economia. Apenas a mãe economista cursou pósgraduação.
Quatro das mães são mais escolarizadas que seus cônjuges. Três deles
completaram apenas o nível médio, um está atualmente cursando nível superior,
enquanto os outros concluíram suas formações universitárias e um também
cursou pós-graduação.
As profissões que as entrevistadas exercem são variadas: três são
proprietárias ou sócias de seus negócios (escola de idiomas, escola de educação
infantil, comércio) atuando, em alguns casos, com outros membros da família;
duas trabalham em universidades; uma é profissional liberal autônoma; uma é
assalariada e atua no comércio; uma é funcionária pública municipal. Dos seus
cônjuges, três são funcionários de grandes empresas, três são proprietários de
seus negócios ou atuam na empresa da família, um é guarda-municipal e um é
gerente de vendas.
Como procedemos a uma busca intencional de nossas entrevistadas, todas
residem com suas famílias em São Caetano do Sul, mas três exercem suas
atividades profissionais em São Paulo.
Com exceção de Aléxia que mora com seu companheiro e bebê na casa de
sua mãe, todas as demais entrevistadas, residem somente com seus maridos e
bebês.
As entrevistadas, em sua maioria, se declaram como praticantes de alguma
religião. Duas são evangélicas, sendo uma batista e a outra presbiteriana, outras
duas são católicas. Três das quatro mães que se definem como católicas não
praticantes informaram também se identificar com a religião espírita, sendo que
uma, dentre elas, se define, inclusive, como praticante dessa religião (quadro 2).
121
Das praticantes de alguma religião, apenas as mães evangélicas
discursaram um pouco mais sobre suas vivências religiosas no cotidiano. Júlia,
por exemplo, se referiu ao trabalho voluntário que desenvolve na Igreja e, quando
questionei se consideraria a religião como um critério para, eventualmente,
escolher uma creche para seu bebê, respondeu negativamente. Já, no discurso de
Malu, entretanto, pudemos apreender referência religiosa ao explicitar suas
concepções sobre o bebê: “Bebê para mim é uma benção de Deus [...] porque a
criança, ela pertence ao reino dos céus, ela é um cordeirinho de Deus, então
acredito que por ser um anjinho, que nada de mal vai acontecer com a criança...”
Como sabemos pelas condições de nossa busca intencional, todas as
entrevistadas são mães de filhos únicos, até o presente momento. Todas elas,
embora já mantivessem um relacionamento afetivo ou estivessem casadas há
algum tempo, vinham se dedicando às suas carreiras profissionais, algumas já
atuando profissionalmente há 17 ou 20 anos.
Seis dessas mulheres se tornaram mães após os 35 anos. Três
entrevistadas (dentre elas, as duas mães mais jovens) declararam que a gravidez
não tinha sido planejada, embora, todas tenham relatado que, em algum momento
de suas vidas, já tinham pensado ou desejado ter um bebê. Três mães informaram
que a gravidez tinha sido planejada e dois casais tiveram que recorrer a processos
de fertilização para poderem gerar seus bebês. A fertilização foi apontada pelas
mães como, talvez, sustentando uma maior preocupação com o bem-estar do
bebê: “...eu também fiz fertilização, [...] então gera uma expectativa muito grande,
talvez até isso que gera essa coisa de ‘ai, a escola, vai ficar doente, ai’, acho que
isso também tem um pouco a ver. Tudo o que a gente passa, toda a expectativa,
toda a angústia, nós temos outros casos [na escola] de mãe que também fizeram
fertilização, então é sempre assim os cuidados, o excesso de zelo, acaba ficando.”
(Milena); “...eu fiz fertilização in vitro, então a gente queria muito um bebê. Eu
acho assim que (risos) eu sonhei tanto assim em ter um bebê, eu e ele [marido] e
tudo, ah, pra gente é, tem coisas que a gente não sabe explicar, o sentimento que
a gente tem assim é uma coisa, [o bebê] é um ser assim tão puro, tão frágil...”
(Beatriz).
122
A gravidez, em idade mais avançada, também foi mencionada pelas
entrevistadas: “... eu estou com 40 anos, é evidente que eu até gostaria de ter tido
filho com uns 30, até os 35, ter tido filho antes, mas foi até bom porque eu
amadureci bastante...” (Malu).
Consideramos que talvez, a experiência da primeira gravidez após os 35
anos de idade, que seis mães vivenciam, possa constituir uma particularidade de
nossas entrevistadas.
Todas as oito mães, sem exceção, relatam estar vivenciando intensamente
a experiência da primeira maternidade e expressaram, em momentos diversos da
entrevista, tanto sentimentos de prazer quanto de insegurança com relação a isso.
A maioria delas informa que muita coisa mudou com a chegada do bebê e que se
reconhecem pensando diferentemente do que pensavam antes e, por vezes,
revendo concepções anteriormente defendidas como, por exemplo, em relação ao
retorno ao trabalho, à dificuldade em se separar do bebê, à necessidade da
licença maternidade: “Ah, é amor, é uma coisa assim, é um sentimento assim
maravilhoso, é uma coisa que eu falo parece que hoje em dia, parece que a minha
vida era sem graça sem a minha filha, parece que a vida ganha um sentido com
uma criança [...] antes eu não ligava muito pra esse negócio de criança, sempre fui
mais racional, depois que eu tive a minha filha fiquei muito mais sentimental...”
(Joana); “... antes de ter filho, eu pensava de uma outra forma ‘assim, deixa ele
[bebê] na escola já que você precisa trabalhar [...]’, hoje, eu já vejo que é uma
situação um pouco mais delicada para a mulher, para a mãe, em olhar assim e
deixar ele o dia inteiro, ‘ah, vou ficar longe dele o dia inteiro’, sabe assim, é uma
outra visão que eu tenho hoje por ser mãe [...] enquanto mãe, coração de mãe,
fala que eu deveria colocar [o bebê] um pouco mais para frente [na escola].”
(Aléxia); “Eu só comecei a pensar nisso, nem quando eu estava grávida, eu
comecei a pensar nisso depois que eu tive ele e assim, não foi nem no primeiro
mês, porque no primeiro mês você ainda está em surto né, você ainda está
assustada. Eu comecei a pensar mais agora que ele está melhorando assim de
comportamento, que agora vou ter que deixar ele.” (Manuela); “A gente fica super
corujona assim. É um misto, na verdade, de sentimentos que a gente tem [...] o
123
nosso olhar muda, a verdade é essa. Às vezes, você passa quinhentas mil vezes
na frente de uma escola, enfim, e nunca deu conta que ali é uma escola e agora
[quando se é mãe] o teu olhar já está diferente, já está buscando isso...” (Júlia);
“...eu acho que é tudo de bom, para mim está sendo uma experiência muito boa,
muito gratificante, a princípio eu estou gostando de cuidar de um bebê. Eu acho
que é muito gostoso.” (Beatriz); “...é uma diferença bem grande entre a gente ser
mãe e a gente ser pedagoga, muito grande. Hoje, eu enxergo muito diferente...”
(Milena); “... acho que a licença maternidade é fundamental [enfática]. Nunca dei
valor para isso, sempre achei um exagero uma pessoa ter que ficar 5 meses em
casa, incluindo férias, para ficar com uma criança. Achava uma coisa absurda e eu
[hoje] acho que é fundamental.” (Natália); “...eu tive que deixar um filho que era o
trabalho para assumir um filho que requer muita responsabilidade, eu acho que é
responsabilidade para a vida toda, e eu falei ‘eu vou ter que me dedicar, não é
fácil’, você acorda de madrugada, não dorme, você fica um pouco como um zumbi
(risos), mas acho que é gratificante porque é como aquele ditado ‘é sofrer no
paraíso’. Vale à pena passar por essa experiência porque é única. Depois que a
gente é mãe, a gente vive em função do filho, a responsabilidade aumenta muito,
enfim.” (Malu).
Das entrevistadas, Aléxia e Milena, com formação em magistério e
pedagogia, apresentam experiência profissional na área de EI: a primeira
trabalhou em creche pública como auxiliar de primeira infância e também em
creche particular, tendo atuado no berçário e participado de vários cursos de
aperfeiçoamento sobre o trabalho com bebês; a segunda é proprietária há vários
anos de uma escola de educação infantil que atende bebês a partir de 4 meses.
Aléxia e Milena são também as únicas, dentre as entrevistadas, a relatarem
experiência pessoal, anterior ao exercício da maternidade, de cuidado com bebês,
ambas tendo participado ou acompanhado a educação de seus sobrinhos. Nas
citações seguintes, veremos também que as demais entrevistadas mencionam a
ausência dessa experiência pessoal prévia: “... sempre tive muito medo de pegar
neném no colo [...] a primeira experiência já foi com a minha filha já, aprendendo
na prática.” (Joana); “... Eu [...] nunca cuidei, mas eu sempre gostei. Então, aí, eu
124
acho que fica mais fácil também. Eu nunca tive medo de pegar a criança, de
trocar, então parece que quando é a sua, parece que é mais fácil, você vai vendo
o que você acha que é melhor. Na verdade, assim, eu acho que a minha
adaptação foi muito fácil...” (Natália); “... eu sou filha única, meu marido também,
então a gente não tinha muito contato com criança [...] como que cuida, como
troca uma fralda, como faz um leite, [...] eu não sabia nada.” (Beatriz); “Nada [de
experiência anterior]. Só aquela coisa de você chegar em algum lugar, está lá o
bebê e você ‘ai, que bonitinho...’, pega 5 minutos no colo, estraga, dá uma cocacola e depois devolve para a mãe (risos).” (Manuela).
Questionadas sobre como haviam aprendido sobre os cuidados para com
os bebês, as entrevistadas informaram ter recorrido principalmente aos livros
(entre os títulos citados: Nana neném; Durma com os anjos; A encantadora de
bebês; Mãe, e agora?), às revistas sobre gravidez e parto, às leituras indicadas
por pediatras e obstetras, a filmes e à internet, especialmente consultando sites
sobre bebê e gestação: “... eu me cadastrei em um site lá da internet daquele
www.bebê.com e todo mês eu ia lendo a fase que eu estava da gestação. A partir
do momento em que eu estava grávida, a gente começou a ler bastante coisa, a
ver filmes, ver documentário. Então, conforme foi acontecendo, a gente foi
procurando, fuçando, pesquisando.” (Beatriz); “[...] hoje em dia [...] você entra na
internet, tem um monte de sites, você pega livro, enfim, tem muita informação. O
obstetra indica, o pediatra indica leitura [..] são bem legais os sites, porque você
vai sentindo mesmo as modificações no corpo e, também depois, os cuidados que
tem que ter com a criança, então você acha com facilidade...” (Júlia); “... eu
comprei os livros, assim, para compreender o mundinho deles, porque eu não
tinha a menor noção.” (Joana).
Duas entrevistadas (Malu e Júlia) freqüentaram cursos oferecidos às
gestantes ou aos casais pelas maternidades onde nasceram seus bebês. Malu,
apesar de ter avaliado positivamente o curso freqüentado e toda a equipe de
enfermagem, da pediatria e do berçário que a ensinou a trocar fralda e dar banho
no bebê, considerou que, muito do que se aprende é teoria e que, somente na
prática, no dia-a-dia com o bebê, é que se verifica o que realmente pode ser feito
125
ou não. Em sua análise, algumas prescrições do curso acabaram não fazendo
muito sentido. Júlia, por sua vez, valorizou o trabalho realizado pela equipe da
maternidade freqüentada, tanto em relação ao grupo de aleitamento materno e ao
curso para casais, que freqüentou com seu marido, quanto em relação ao suporte
para dúvidas que é oferecido aos pais através do programa “disk-bebê”: “Eles têm
toda essa parte, ela [maternidade] é muito conhecida e é um centro mesmo,
porque tem esse grupo de apoio ao aleitamento e tem essa parte dos cursos, tem
um disk-bebê que eles falam, que você pode ligar para tirar dúvidas, então é bem
legal, principalmente, pra gente que é mãe de primeira viagem, é tudo de bom. Eu
acho que fez muita diferença.”
Outras duas mães (Beatriz e Manuela), apesar de não terem freqüentado
cursos específicos, relataram terem recebido informações sobre os primeiros
cuidados para com o bebê também nas respectivas maternidades: “Eu não sabia
trocar fralda, eu não sabia dar de mamar, aprendi na maternidade, que elas me
ensinaram, não sabia dar banho, eu aprendi tudo quando ele nasceu.” (Manuela).
Todas as mulheres que entrevistamos utilizaram pronome na primeira
pessoa, assumindo seus discursos, mas mencionaram também seus maridos em
algumas oportunidades. Quatro mães (Joana, Aléxia, Malu e Júlia), por exemplo,
citaram a participação dos cônjuges na educação ou cuidados para com o bebê,
como veremos em algumas falas: “... ele [marido] fica muito com ela [bebê],
embora assim ele não cuida assim de dar mamadeira porque ele não tem muito
jeito, mas ele está sempre assim, quando der ele fica, ele está com ela, ele cuida
e comigo assim em casa ele ajuda muito a fazer mamadeira, às vezes janta, ele
está sempre apoiando muito [...] então precisa fazer mamadeira, eu vou trocando,
cuidando e ele já vai, faz mamadeira, ele ajuda bastante, então ele é um bom
companheiro.” (Joana); “Eu vejo isso pelo meu marido. Ele sai para trabalhar de
manhã, ele [bebê] está dormindo, ele volta ou o bebê está dormindo ou ele acorda
para mamar de novo, então tem o período da noite e ele [marido] fala ‘ai, é tão
pouco tempo que eu fico com ele [bebê]’...” (Aléxia); “[Marido tinha] menos
conhecimento que eu (risos). Porque homem fica meio que com medo, com receio
‘ah, muito pequenininho, molinho’. No começo assim ele também não queria
126
pegar. Única coisa assim que quando ele [bebê] fazia algum barulhinho, ele
[marido] já escutava, já falava, já cutucava sabe, ficava bem alerta preocupado
com o menino... [...] Agora, ele [marido] já está se envolvendo mais com ele
[bebê], brincando. Também ele [bebê] já está com quase 4 meses...” (Malu); “À
noite, eu tenho a facilidade que meu marido ajuda [a cuidar do bebê] [...] o meu
marido fica [com o bebê] e me dá essa força...” (Júlia).
Além dos discursos maternos terem feito referência aos seus cônjuges e
pais dos bebês, eles mencionam também outros familiares (todas as entrevistadas
se referiram, em algum momento da entrevista, às suas próprias mães, por
exemplo), amigos e conhecidos, especialmente, citando-os como fonte de
informação ou de comentários sobre creches, babás, pediatras e profissionais que
atuam em creches, como abordaremos no eixo 3.
A mídia também aparece nos discursos das entrevistadas, tanto como fonte
de informações sobre como escolher uma creche, quanto como divulgando casos
de crianças vítimas de maus-tratos e acidentes tanto em contexto público quanto
privado e exemplos de creches sem qualidade, como Rosemberg (2006b, 2006d)
já vinha apontando e como também foi apreendido na pesquisa de Galvão (2008).
Vejamos algumas falas: “... às vezes, a gente vê na televisão mães que reclamam
[das creches em outras cidades] até mesmo você vê condições de escolas que
não têm aquele espaço adequado [...] é sempre falado até mesmo na televisão
‘você tem que pesquisar, você tem que cobrar, você tem que até perguntar, exigir
documentos da própria escola para saber onde você está deixando [o bebê]’.”
(Aléxia); “[...] acho que eu fiquei meia que traumatizada de ver alguns casos na
TV, aí já me assustou um pouco [...] eu já vi ‘n’ casos aí de pais que deixaram
câmeras em casa e filmou a babá maltratando, judiando, fazendo unha com
acetona lá para a criança dormir, então, quer dizer, não dá...” (Malu); “...às vezes,
a gente ouve em noticiário de que tem 3, 4 crianças no mesmo berço, as
responsáveis ali pelo cuidado da criança que não têm tanta orientação, não têm
respeito, enfim, que acabam judiando da criança, essa questão que eu te falei de
amarrar, de queimar, a gente ouve assim coisas medonhas. E também já ouvi de
deixarem a criança suja o dia inteiro, que não troca a fralda [...] locais em que, às
127
vezes, deixam as crianças sozinhas, as crianças acabam se machucando [...]
atrocidades que a gente ouve em noticiário ‘que a tia amarrou’, enfim, essas
coisas horríveis que a gente acaba ouvindo...” (Júlia); “... as mães vêm com um rol
de perguntas, mãe moderna, [...] que as revistas indicam o que a mãe deve
procurar, que tipo de pergunta ela deve fazer...” (Milena); “...a gente vê certas
barbaridades que acontecem com bebê na televisão...” (Beatriz); “...tem creche
que você ouve, tem casos em que você ouve falar de, sei lá, acidentes com bebê,
sei lá, que deixam [o bebê] cair...” (Manuela).
128
Quadro 2. Caracterização das entrevistadas
Entrevistada
Idade
(em
anos)
Ocupação/
Formação
Idade
(em
meses) e
sexo do
bebê
Vínculo conjugal
Idade do
pai do
bebê
(em anos)
Ocupação/
Formação do pai do
bebê
Religião da família
Joana
29
Formada em Ciências da
Computação/
Analista programadora e professora
universitária
9/F
Casada
31
Ensino médio/
Guarda Municipal
Católica não
praticante /
Identifica-se com a
religião espírita
Natália
35
Economista com pós-graduação/
Proprietária de uma escola de idiomas
3/F
Casada
40
Católica praticante
Aléxia
39
Pedagoga/
Trabalha como professora do ensino
fundamental na rede pública
3 e ½/M
Mora com companheiro
30
Pós-graduação em
Marketing/
Gerente em uma grande
empresa
Cursando nível superior/
Gerente de vendas
Malu
40
Administradora de Empresas/
Trabalha em uma universidade
3 e ½/M
Casada
40
Ensino médio/
Comerciante, dono do
próprio negócio
Evangélica
presbiteriana
praticante
Beatriz
37
Administradora de Empresas/
Trabalha no comércio de propriedade
da família
6/F
Casada
39
Católica não
praticante/
Espírita praticante
Manuela
27
Arquiteta/
Trabalha como vendedora em uma
boutique de luxo
3/M
Casada
29
Milena
37
Pedagoga/
Proprietária de uma escola de
educação infantil
11/M
Casada
41
Ensino médio/
Trabalha no comércio
de propriedade da
familia
Nível universitário em
Turismo/
Proprietário de uma
empresa em outro setor
de atividade
Administrador de
Empresas/
Trabalha em uma
grande empresa
Júlia
36
Psicóloga/
Atua em consultório particular
1 e ½ /M
Casada
40
Engenheiro/
Trabalha em uma
grande empresa
Católica praticante
Católica não
praticante
Católica não
praticante/
Identifica-se com a
religião espírita
Evangélica batista
praticante
129
Eixo 2. Concepções sobre o bebê e a criança pequena
De forma geral, as entrevistadas definem bebê como um ser (uma coisa,
uma pessoa ou uma figura, são outros termos também utilizados) frágil,
delicado, pequenininho, novinho, indefeso, muito dependente, inocente, sem
maldade, puro, anjinho, que se comunica através do choro e do grito, mas que
não fala, que age por instintos (não reconhece, mas sente pelo cheiro, por
exemplo), que gera sentimentos nos outros (um ser maravilhoso, que traz
felicidade, coisas boas, tranqüilidade), que necessita de cuidados e preocupa,
dá trabalho, e que absorve o que é passado pela família (quadro 3).
Algumas mães, entretanto, o concebem como um ser em constante
aprendizado, complexo, que aprende desde que nasce, enquanto outras já
enfatizam que o bebê não pensa, não reconhece, não raciocina.
Ao
discursarem
sobre
como
compreendiam
os
bebês,
várias
entrevistadas fizeram menção ao fato de pensarem diretamente em seus
bebês. No atual momento de suas vidas, suas impressões ou concepções
sobre um bebê parecem-me muito associadas às, ou sustentadas pelas,
imagens de seus próprios filhos: “Um bebê? Meu filho [enfática]! As bochechas
dele, apertar muito, a risada que ele me dá de manhã (sorrisos), um bebê, vem
ele à cabeça, óbvio [...] Agora, é ele, não tem como. Antes? Um bebê para mim
era, tipo, era um E.T. porque eu não sabia trocar fralda, eu não sabia fazer
nada...” (Manuela);
“... eu estou [...] com a imagem do meu filho na cabeça.”
(Milena); “... é [o] meu lindo agora...” (Júlia).
Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na
decodificação do choro de seus bebês: “O bebê é muito teste [...] o choro você
vai interpretando no começo [...] é muito não saber...” (Milena); “... É a forma
que acho que ele tem de falar que ele quer alguma coisa ou choro ou as
sílabas, as vogais que ele fala “a, má, dá”, de, certa forma, ele está se
comunicando. A gente, às vezes, só não entende muito bem o que ele está
querendo dizer (risos).” (Joana); “... o bebezinho ele não fala, você não sabe se
ele está chorando porque ele está com fome, se está com cólica [...] se ele
quer dormir, tem hora que confunde [enfática], você não consegue, você tenta
de todas as maneiras para descobrir realmente o que ele quer, porque, de
repente, o choro não está expressando realmente o que ele está sentindo ou o
130
que ele quer...” (Malu); “ [Com] um bebê, você [fica] meio no escuro assim, ah,
está chorando aí você vai tentando se é fome, se é frio, se é calor [...] o bebê
agora é que você começa a entender ou a compreender que cada choro é
diferente. É diferente quando ela chora [...] se ela está com frio ou fome, no
começo é muito difícil...” (Beatriz); “... não vem com manual de instruções
(risos), a gente tem que aprender a identificar suas vontades porque ele só
sabe chorar no começo...” (Aléxia).
A concepção de bebê como tábula rasa é expressa em um dos
discursos: “... bebê é assim matéria bruta no sentido assim, no começo a
mente é um pedaço de carne que você vai criando vínculo, vai colocando toda
a sua emoção, toda a sua expectativa, todo o seu, os seus desejos, as suas
vontades, coitadinho né do bebê (risos), carrega de tudo e mais um pouco,
projeções, tudo ele carrega, mas ele é puro.” (Milena).
A criança compreendida como tábula rasa parece embutir também uma
concepção de socialização enquanto processo de inculcação, onde o bebê,
considerado passivo, não é percebido como participando de seu próprio
processo de socialização e nem influenciando a socialização de adultos e de
outras crianças, como apontado por Mollo-Bouvier (2005) e mencionado no
capítulo 2 desta tese.
Como pudemos apreender a partir dos discursos das entrevistadas, suas
concepções sobre bebê se assemelham às imagens ou representações que
Ferreira (2002) e Sarmento (2007) mencionam como sendo as que mais se
dissiparam e atingiram o senso comum.
Nossas entrevistadas, assim como os homens-pais ouvidos por Galvão
(2008), também diferenciam com precisão um bebê de uma criança pequena e
essa diferenciação, para elas, também é marcada muito mais pelo
desenvolvimento de competências do que propriamente pela idade. A criança
pequena, segundo elas, anda, fala, entende, raciocina, já é um pouco mais
independente, já acumulou conhecimento, se expressa e é também melhor
compreendida pelos adultos (quadro 3).
Para elas, a passagem de bebê para criança pequena se daria entre 6
meses e 2 anos de idade variando de criança para criança: “... Bebezinho são
os que entram com 4 meses, 5 meses na escola. Então, na verdade, eu tenho
um pouco isso por ter trabalhado com criança, então quando você olha uma
131
criança de 1 ano e quando você olha um bebezinho, você fala ‘ai, nossa, mas
já é um mocinho’ o de 1 ano, mas o bebezinho não.” (Aléxia); “Eu acho que
esse é um marco, uma divisão dos dois períodos. É claro que cada bebê tem o
seu tempo, mas 1 ano e meio eu diria que é quando ele já desabrocha mais
com a linguagem e com a marcha.” (Milena); “... acho que bebê vai até uns 6
meses, 7 ou 8 meses, porque depois ele [...] já começa a exigir coisas...”
(Manuela); “... acho que até uns 2 anos seria um bebê [...] a partir daí, já é uma
criança pequena porque 2 aninhos ainda eu acho assim bem novinho, às
vezes, tem criança que nem fala direito.” (Beatriz).
Somente uma entrevistada considera que as crianças pequenas até 4 - 5
anos, embora não sejam mais denominadas bebês, são ainda bastante
dependentes: “... até uns 4 ou 5 anos ainda é um ser totalmente dependente de
uma pessoa [...] [Com essa idade é que] aí a criança já tem uma base, aí ela já
consegue, com o que ela já aprendeu [...] ela já começa a pedir, ela já tem
condição de fazer algumas coisas sozinha [...] é o que você fizer até lá que ele
vai conseguir, vai ter condição de mais para a frente, aí você vai começar a
deixar mais sozinho, já descobrindo as coisas e tal...” (Natália).
As falas das mães entrevistadas apontam fortemente para distinções
internas à faixa etária de 0 a 3 anos, com cada idade apresentando uma certa
especificidade, tanto em termos de necessidades quanto em termos de
competências. Essas distinções parecem ser, segundo alguns discursos
maternos, ainda maiores quanto menor é o bebê: “Conforme [o bebê] vai
desenvolvendo vai... não tem como ser igual, o primeiro mês já não é igual ao
segundo. Uma semana para ele já faz muita diferença.” (Manuela).
Além dos termos bebê, criança e filho, as entrevistadas utilizaram
algumas outras palavras (algumas no diminutivo) para se referirem aos
próprios ou a outros bebês: neném, bebezinho, filhinha, nenê, nenêzinho,
criancinha, recém-nascido, menininha, coisa, coisinha, serzinho (quadro 4).
Nos discursos de todas as entrevistadas nota-se o emprego de grande
quantidade e variedade de palavras no diminutivo. Ao refletir sobre isso,
percebi que eu mesma havia utilizado dois termos também no diminutivo:
“novinho” e “pouquinho”. O primeiro foi utilizado somente quando me referi ao
bebê de Júlia (o de menor idade entre todos os filhos das mães entrevistadas),
como eu já havia comentado. Já, o segundo foi empregado em momentos
132
variados em todas as entrevistas, a meu ver com a intenção tanto de demarcar
que eu e a entrevistada conversaríamos sobre um dado assunto por alguns
minutos quanto de apresentar as questões de uma maneira talvez menos
formal.
De qualquer forma, procedi a um levantamento de todas as palavras
utilizadas no diminutivo pelas entrevistadas e exclui a palavra “pouquinho” da
listagem. O uso pelas entrevistadas de palavras tão variadas e, em alguns
casos, tão pouco empregadas em linguagem corrente e oral no diminutivo,
como por exemplo, “saboneteirazinha” ou “estimuladinhos” chamou minha
atenção. No quadro 4, o leitor conseguirá visualizar com maior detalhamento a
riqueza desse vocabulário que nos dá a impressão de se referir a um certo
“mundo em miniatura”, como se essas palavras no diminutivo estivessem
sendo associadas nos discursos maternos talvez ao tamanho físico do bebê ou
à sua suposta condição de “fragilidade”. Por ora, citarei apenas algumas
palavras que foram utilizadas: “suquinho, tadinha, fichinha, almocinho,
roupinha,
passinho,
mocinho,
chineladinha,
frescurinhas,
comidinha,
quintalzinho, doentinha, coitadinho, animadinhos, shampoozinho, cuidadinha,
sorrizinho, bolachinha, pãozinho...”
Indagadas sobre qual seria a melhor forma de se educar e cuidar de um
bebê ou do que um bebê necessitaria (quadro 4), a maioria das entrevistadas
organizou suas respostas em torno de cinco grandes pilares: muito amor, afeto
e carinho; muita atenção, disponibilidade constante e cuidados adequados;
limites, disciplina e constância na rotina; muita conversa, explicação e
orientação; sem violência, sem descaso, respeitando o bebê: “... com muito
amor, nada de tapas. Eu acho que conversar, eu já percebi uma coisa, uma
bela diferença quando você pega ele, por exemplo, você tem que trocar, vai um
exemplo, [...] se você pega ele e simplesmente vai e troca, ele berra. Se você
pega e fala ‘oi, vamos trocar’, não sei o que, ‘vamos tirar essa fralda, mamãe
vai ter que trocar você’, se você vai falando tudo, ele te ouve e não fica... Ele
não chora, sabe, ele sabe o que você está fazendo, acho que ele entende...”
(Manuela); “... tem que ter respeito por um bebê...” (Malu); “... eles necessitam
de uma pessoa 100% com eles assim para tudo, alguém que cuide deles, das
necessidades que eles têm, mas que oriente, que converse, que explique as
coisas [...] nessa fase assim pequena eu acho até muito difícil escola, por
133
exemplo. Por mais que seja um, dois ou três que cuidem, mas não é aquela
dedicação 100%. Conversar, eu acho que o bebê tem que ter aquela
identificação com aquela pessoa. Então, acho assim, é integral, é horário
integral você com a criança orientando, conversando, se dedicando.” (Natália);
“... acho que a constância da rotina, independente de onde for, é claro que a
rotina dentro de casa é uma, com a vovó também é outra, mas essa
constância, acho que é tudo que eles [bebês] precisam, porque aí já é a
segurança, já é o limite também, é saber realmente o que vai acontecer com
eles, eles vão interpretando isso, tanto é que se você demora um pouquinho
mais no banho, se demora a hora de dormir, eles vão ficando estressadinhos
(risos), estressam todo mundo da família, então assim, eu diria que a rotina é o
principal cuidado que você tem que ter assim com o bebezinho.” (Milena); “...
eu falo com ele, eu brinco, a gente vai tentando estimular de toda forma por
menorzinho que ele seja, a gente sabe hoje que até mesmo quando a criança
está no útero é importante você estar conversando e tentar ficar tranqüila
também, porque isso é uma coisa que a gente percebe mesmo, se eu fico um
pouco mais agitada ou muito cansada ou até irritada reflete nele...” (Júlia).
Estimular o bebê, a partir da apresentação de músicas e brincadeiras,
também foi apontado por Júlia e Manuela como importante para o seu
desenvolvimento.
Algumas mães, como Natália, Joana e Beatriz, embora tenham se
referido mais diretamente à importância da mãe na educação e cuidados para
com o bebê comentando que o bebê necessita de muita atenção e
disponibilidade e que, preferencialmente, esse cuidado deveria ser realizado
pela própria mãe da criança, como abordado por Bloch e Buisson (1998, 1999)
em seus estudos e também apreendido por Lima (2004) em sua pesquisa,
reconhecem que, nem sempre a mãe está totalmente disponível (não se
trataria somente de uma questão de quantidade de horas passadas com o
bebê) ou apresenta as características adequadas (paciência, ter o dom, gostar
de criança) para se dedicar com qualidade ao bebê: “... tem que ser a mãe se a
mãe tiver essa disponibilidade [...] se você tiver, acho que seria o ideal uma
mãe que goste, que tenha esse dom e que tenha disponibilidade, agora [...] se
isso não for possível, acho que você encontrar uma pessoa que se encaixe
melhor naquilo para você [...] tem que ser uma pessoa muito especial que
134
tenha paciência porque, às vezes, o fato de estar perto não significa que você
está educando. Às vezes, você está segurando, chacoalhando, mas não
significa que você está junto...então tem que ser uma pessoa que goste muito,
que tenha muita dedicação, por isso que acho que é importante quando você
decide ter um filho você realmente querer muito, porque eles são bonitinhos,
mas na hora ‘h’, quando você acorda às 2 horas da manhã, se você realmente
não quiser... então, tem que ter muita paciência. Eu acho que ele realmente
precisa de uma pessoa que goste de criança, que tenha o dom.” (Natália); “O
melhor é ser cuidada pela mãe, no meu caso, é ir junto ao meu trabalho, pois
tenho essa possibilidade. Lá, o meu bebê tem o meu cuidado, a minha
presença e cuidados dos avós e do pai [...] Eu acho que tem que pensar muito
bem antes de ter um filho porque não é fácil, é difícil, dá trabalho, envolve
muita coisa, ainda mais que eu trabalho, tem gente que vai tendo filho e não,
não liga ou não pensa o que acarreta ter um filho, que é para a vida toda...”
(Beatriz); “... eu acho que ele tendo afeto, acho que assim, a mãe, ele sente
falta, eu acredito que ele sinta falta da mãe, mas [...] eu acredito é que o
importante é você dar atenção com qualidade mais do que a quantidade,
porque às vezes, vamos supor você fica o dia inteiro com o seu filho, mas você
não dá atenção pra ele, ele fica lá, você fica lá fazendo as suas coisas mas,
assim, ele não recebeu a atenção que ele precisa [...] meio como um robozinho
e o neném fica lá, largado.” (Joana).
As mães entrevistadas apresentam também um discurso sofisticado e,
aparentemente, bastante influenciado pelos aportes da Psicologia, quando se
referem ao que acreditam ser o melhor em termos de educação e cuidado para
os bebês, ou seja, uma educação que garanta afeto com limites, atenção com
qualidade e que privilegie a rotina.
Não foram observadas diferenças em relação ao que as mães
consideram ser importante em termos de educação e cuidado para bebês de
sexo masculino ou de sexo feminino.
135
Quadro 3. O bebê e a criança pequena
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Concepção de bebê
Há
diferença
entre bebê
e criança
pequena?
Concepção de criança pequena
Passagem de bebê para criança
pequena
Joana
9/F
Pequeno; frágil; não fala ainda; criança ainda, novinho; muito dependente; é muito molinho;
tem grande vínculo com a mãe; fofinho; inocente; demonstra os sentimentos; não
racionaliza, não pensa, não entende; age de instinto, reage ao que você dá para ele, ao que
você ensina, aprende o que a gente ensina
Não reconhece, mas sente pelo cheiro quem cuida dele
“... a comunicação dele é chorar...”
“... eles não sabem as palavras, então acho que eles se expressam com sons.”
“... acho que ele não sabe ainda, acho que assim, ele chora ou fala “mamama, dádádá”,
porque ele está querendo alguma coisa ou ele está com algum desconforto. Ou ele quer
comer ou ele quer carinho ou alguma coisa.”
“É a coisa mais maravilhosa que tem (sorrisos), mas é um ser assim 100% dependente de
você, que traz muita felicidade, mas assim tudo é uma coisa que ele precisa de você, tudo é
novo, tudo que ele vai descobrir é através de você, então é uma pessoa 100% dependente,
é um ser assim... é maravilhoso, mas é uma coisa que te dá trabalho, você tem que se
dedicar, você tem que ter alguém assim tempo integral se dedicando, porque assim, bebê
não é uma coisa que mama, dorme, não é um relógio. É uma criança, é uma coisa assim
que precisa de 100% de dedicação de uma pessoa.”
Sim
“... já começa a racionalizar muita coisa.”
“... até 1 ano e meio, 2 anos é bebê ainda
[...]
a partir desse momento é que eles
começam a entender as coisas, que aí você
consegue explicar e eles entenderem o que
está acontecendo.”
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
“... já começa a falar, a se expressar da forma correta.”
“Acho que a criança mais velha, ela já se expressa com o
falar e acho que não é só com o desconforto, acho que
se ela quer alguma coisa específica...”
Sim
Dependente
Já acumulou conhecimento
Aprende desde o nascimento, ser em constante aprendizado, absorve o que a família tem
de educação, ações, gestos
Complexo
Mais delicado no sentido do cuidar e do educar
Tem menos condições de se defender do que uma criança pequena
Anjinho; benção de Deus; indefeso
“... bebê é uma figura especial...”
Muito dependente
Não entende nada
Está acima de tudo
Não tem maldade
Molinho; pequenininho
Puro
Frágil
Pequenininho
Novinho
Sim
É maior
Já fala
Tem mais condições de se defender do que um bebê
Já tem algo que foi aprendido, enquanto um bebê está
iniciando
“... a criança pequena já está mais independente, ela, por
exemplo, já está andando, ela já consegue estar falando,
então ela já consegue se expor, ela já tem uma
personalidade formada, porque quando fala você
consegue entender...”
Coisinha linda
“... um bebê está ali total à sua disposição. Você pega ele no colo, ele chora...”
“... só coisas boas, porque, afinal de contas, um bebê só traz coisa boa, eu acho, mesmo
com dificuldades que você tem para cuidar etc. Mas é só uma energia boa, é isso que vem
à minha cabeça [ao pensar em um bebê]...”
Sim
Sim
Sim
“Única coisa é que uma criança pequena já começa a
falar e é mais fácil você cuidar porque ela começa a se
expressar melhor e você começa, que nem ela chora,
você começa a saber porque ela está chorando [...] uma
criança quando estiver maiorzinha é mais fácil você
começar a entender o que ela quer, o que ela está
precisando, se ela está com dor...”
“... uma criança de 1 ano começou a andar você não
segura mais, não quer saber de colo, não quer saber de
nada. Eu acho que eles ficam mais exigentes assim do
que quando [...] é bebezinho.”
A criança pequena come, tem uma alimentação diferente
da de um bebê, o cocô é diferente, começa a falar
“... bebê acho que é até 1 ano, até que não
anda...”
Considera que uma criança de 4 ou 5 anos
ainda é muito dependente
“... o termo bebê, talvez, não seja mais o
caso. Eu até brinquei, olhei para a minha
[filha] que fez 3 meses ontem e falei assim
‘ah, você não é mais um bebê, você já é
uma criancinha’...”
“bebê [...] vai até 1 ano, depois já começa 1
ano, já é grandinho, já fala ‘já não é
bebezinho’”.
“... eu acho que até 1 ano mais ou menos.
Quando começa a falar e a andar eu acho
que ele já consegue entender melhor...”
Até 2 anos é bebê, a partir daí já é uma
criança pequena
É bebê enquanto “... você está ainda com
ele no colo, ainda mamando...”
Acha que bebê vai até uns 6, 7 ou 8 meses
136
Continuação quadro 3. O bebê e a criança pequena
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Concepção de bebê
Há
diferença
entre bebê
e criança
pequena?
Concepção de criança pequena
Passagem de bebê para criança
pequena
Milena
11/M
Pureza
Fragilidade
Sensibilidade
Aconchego
Sim
“... a criança pequena, [...] ela já tem todo um contexto
que você vai formando ela. Cada dia você vai passando
uma mensagem pra ela de como você é, de como você
responde, o que você espera dela e isso vai formando e a
resposta dela já começa a ser mais de acordo com a tua
ação e reação também.”
“... a criança pequena você já sabe, eles também já
sabem, você já compreende a questão do choro, a
resposta, as manhas...”
1 ano e meio, quando já está falando e
andando e fica mais independente
Sim
Já fala
Responde
Brinca com o adulto
Deixa de usar fraldas
“... acho que até 1 ano. Depois de 1 ano já
é mais uma criança mesmo, pequena ainda
[enfática], exigindo muito cuidado...”
“... parece que cada bebê é de um jeito, mas não é...”
“[Bebê] é, ao mesmo tempo, tranqüilidade também para o dia-a-dia de hoje em dia em que
a gente corre tanto, tem tanta preocupação que quando você chega em casa, apesar de
tudo que você tem também com o bebê, apesar de tudo, você vê um sorriso já te compensa
tudo. Sorriso marca muito, do meu filho, no caso, o sorriso é tudo de bom [sorrisos].”
Júlia
1 e ½ /M
“...mudanças intensas a cada segundo, realmente assim, não tem como você assim, hoje
você define alguma coisa, amanhã ou no momento seguinte muda, muita alegria [enfática],
muita preocupação [enfática]. Mas, assim, é uma mudança na vida do casal, é tudo de bom,
mas, ao mesmo tempo, tudo diferente (risos). Mas, traz alegria total.”
“... serzinho que depende de você...”
“... Às vezes, grita, chora, esperneia...”
Não é fácil identificar a causa do choro
Hoje em dia, a criança se mexe muito cedo e já nasce de olho aberto
“Serzinho...” que desperta vários sentimentos nos outros e gera responsabilidade para a
vida toda
“... coisinha fofinha, rechonchudinha, gostosinha, cheirosinha [...] que não é assim 100% do
tempo...”
Bebê ainda não reage tanto ao outro, pede muito, quer mamar, está sujo, quer dormir, exige
cuidados. Só aos poucos, vai reagindo mais, começa a sorrir ou fazer carinho
“... a gente sabe que bem pequenininho eles não interagem tanto assim com outras
crianças, isso vem aos poucos, ao longo do desenvolvimento deles.”
137
Quadro 4. Discursando sobre o bebê e as melhores formas de educá-lo
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Outras palavras ao
se referir ao
próprio ou a outros
bebês
Joana
9/F
Bebezinho Filhinha
Neném
Criança
Filha
Nenêzinho
Nenê
Criancinha
Recém-nascido
Natália
3/F
Neném
Nenê
Coisa
Aléxia
3 e ½/M
Bebezinho
Criança
Filhinha
Neném
Menininha
Filho
Pequenos
“... já dá para trabalhar
com os pequenos
vários aspectos...”
Filho
Criança
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
Criança
Criança
Filho
Filho
Utilização de outros diminutivos
Suquinho
Prézinho
Bercinho
Maiorzinha
Novinha
Almocinho
Salinha
Tadinha
Negócinho
Carrinho
Mundinho
Fichinha
Cantinho
Prézinho
Grandinho
Passinho
Pequenininhos
Chineladinha
Frescurinhas
Coisinha
Postinho
Dinheirinho
Robozinho
Pequenininho(a)
Brinquedinhos
Tempinho
Colchãozinho
Papinha
Probleminha
Suquinho
Maiorzinha
Novinho
Mercadinho
Todinha
Direitinho
Quintalzinho
Prézinho
Pequenininho
Bercinho
Doentinha
Aninhos
Necessita “... de amor, afeto, carinho, atenção, cuidados que precisa e limites.”
Ter rotina, horários de refeições, controle
“... Não é aquela coisa assim ‘ah, faz o que quer’ [...] eu sou mais [...] ‘tem que ensinar’.”
Atenção com qualidade
“... você tem que se dedicar, você tem que ter alguém assim tempo integral se dedicando...”
“... você tem que ter dedicação, você tem que ter cuidado, você tem que ter atenção, é uma forma assim que eu acho que
tudo que você ensinar, tudo o que você fizer vai refletir lá na frente.”
“... não é você fazer para eles até 2 ou 3 anos você fazer as coisas no lugar deles, é você ensinar, você se dedicar, ter tempo
de se dedicar para ensinar para ele [bebê] fazer sozinho [...] esse acompanhamento no começo é essencial.”
O ideal seria que essa pessoa que se dedicasse 100% fosse a mãe, se ela tiver essa disponibilidade, se tiver o dom
A disponibilidade tem que ser em tempo integral
“Eu acho que quando você tem a disponibilidade da família e que tem essa pessoa assim, eu acho que é o mais ideal, mas
que não seja aquela avó que estrague... [...] que não seja aquela pessoa também que estrague e eu não falo assim no sentido
de proteção, porque proteção a gente sabe que a família vai dar. Eu acho assim aquela orientação, aquela paciência, eu acho
que se você tiver alguém da família é o mais ideal, senão você tem que procurar alguém no mercado mesmo, que tenha
experiência, que você confie, geralmente por indicação ou até que você conheça [...] mas [...] se você olhar hoje o jeito de
pegar uma criança você já percebe se a pessoa tem jeito ou não.”
Importante também manter a rotina de horários
Com muito amor, carinho, atenção, assim a criança crescerá sadia
Não maltratar
“... acho que se você se dispõe a ter um bebê você tem que cuidar da melhor maneira possível [...]
você não precisa dar tudo do mais caro, mas você tem que acima de tudo cuidar com amor...”
Parquinho
Mocinho
Turminhas
Roupinha
Parquinho Bercinho
Varinha
Novinho
Frutinha
Comidinha
Molinho
Pequenininho
Qual a melhor forma de se educar e cuidar de um bebê? Do que um bebê necessita?
Quartinho
Papinhas
Grandinho
Barulhinho
Merece todo o respeito do mundo
Seria covardia não respeitar um bebê
“Amor, carinho, afeto, muito diálogo, muita conversa...”
Sem violência, sem espancar
Mas, “... acredito no castigo também, você tirar alguma coisa que a criança gosta muito, então, acho que tem que ter, lógico,
disciplina também porque você não vai deixar a criança fazer o que ela quer. A importância do não, de mostrar para ela os
valores e eu acredito que a criança precisa, acima de tudo, de respeito. Ela precisa ser respeitada pelos pais [...] assim, a
criança também vai respeitar os pais.”
Precisa de carinho, “... ser amado, ser bem cuidado, ter bons exemplos, para ser um ser humano [e um adulto] melhor [...]
Não [...] tratar com descaso como muitas pessoas fazem, muitas famílias...”
Evitar brigas no lar para não traumatizar a criança...”
Dar “... bastante atenção, tentando fazer tudo assim bem saudável, tudo fazer em casa, não comprar tudo coisa pronta,
porque eu trabalho e, às vezes, eu preciso, não dá tempo de fazer a sopinha dela, a papinha dela num determinado dia e aí
eu compro a papinha da Nestlé e dou (risos), mas eu acho assim quanto menos der é melhor, bastante variedade assim para
que a criança cresça saudável e com bastante alegria [...]
passar uma paz, uma segurança para o bebê, para ela se sentir confortável e ter um desenvolvimento melhor.”
O melhor seria o bebê ser cuidado pela mãe
138
Continuação quadro 4. Discursando sobre o bebê e as melhores formas de educá-lo
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Manuela
3/M
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
Outras palavras ao
se referir ao
próprio ou a outros
bebês
Coisinha
Bebezinho
Bebezinho(s)
Criança(s)
Serzinho
Criança
Filho
Criança
Filho
Coisinha
Filho
Utilização de outros diminutivos
Suquinho
Jeitinho
Netinho
Amiguinhos
Coisinhas
Pequenininha(s)
Regularzinho
Carrinho
Coitadinho
Estressadinhos
Aninho
Cedinho
Suquinho
Soninho
Frutinha
Solzinho
Animadinhos Estimuladinhos Pãozinho
Bolachinha
Maiorzinho(s)
Pezinho
Direitinho
Espertinho
Danadinho
Finalzinho
Fortinho
Bobinha
Irmãzinha
Comecinho
Amiguinho
Pequenininhos
Rechonchudinho(a)
Gordinho
Limpinho
Sujinho
Chorinho
Olhinho
Fofinha
Gostosinha
Cheirosinha
Sorrisinho
Pequenininho(a)
Piniquinho
Menorzinho
Tempinho
Pertinho
Musiquinha
Shampoozinho
Saboneteirazinha
Fechadinho
Quentinho
Cantinho
Comecinho
Novinho
Horinhas
Cadeirinha(s)
Brinquedinho
Cuidadinha
Maiorzinho
Qual a melhor forma de se educar e cuidar de um bebê? Do que um bebê necessita?
“Com muita conversa e paciência, porque precisa de muita (risos).”
“Ele necessita de educação, de escola, aprender muito, brincar muito, acho que ele precisa brincar muito, acho que isso é
muito importante.”
“Agora, que ele é bebê eu quero estimular bastante, eu quero que ele seja uma criança feliz, conversar com ele acho que é
super importante [...] eu acho que ele quer falar, acho que ele quer responder, não sei o que é (risos)...”
“... com um amor firme. A gente sempre escuta isso em educação, como eu sou pedagoga, então amor firme é sentido, é
necessário um olhar terno da mãe [enfática], no sentido assim, eles esperam isso tudo, mas eles precisam da firmeza, da
segurança, do limite, para eles seria um norte [...] eles precisam [de] um olhar que realmente cative, porque o olhar já diz tudo
nas relações, mas ao mesmo tempo os “nãos” são necessários, eu acho que eles pedem por isso também.”
Constância da rotina
De higiene, limpeza, cuidados, alimentação adequada
Muito carinho, muita atenção, mas sem dar atenção em excesso
Fazer acompanhamento com pediatra todo mês para avaliar o peso e o crescimento
Precisam de estímulos, como música, brincadeiras
Não é só cuidar da parte física, mas também ver o aspecto emocional
Mãe deve estar disponível para o bebê, ao menos, por um tempo
139
Eixo 3. Modalidades de educação e cuidado para bebês
Iniciaremos, a apresentação dos resultados referentes a esse eixo,
abordando
a
licença
maternidade
e
a
licença
paternidade,
pois
compreendemos que para além de refletirem o que a sociedade concebe como
adequado para que mães e pais possam conciliar trabalho e a educação e
cuidado de bebês logo após o nascimento, elas apontam também para o que
as famílias, ao usufruírem ou não dessas licenças, podem estar valorizando em
termos do atendimento aos direitos e necessidades tanto de bebês, quanto das
próprias famílias.
A partir de nossas indagações sobre licença maternidade e paternidade,
identificamos que tanto as entrevistadas quanto seus cônjuges vivenciaram
experiências bastante variadas com relação ao tempo em que puderam
desfrutar de suas licenças.
Das quatro mães que estavam em licença maternidade (quadro 5)
quando entrevistadas, duas (Aléxia e Malu) já estavam usufruindo a licença de
6 meses, enquanto Manuela usufruía a de 4 meses e Júlia, que é profissional
autônoma, havia optado por se afastar de suas atividades profissionais por 3
meses, mas já avaliava a possibilidade de ampliação desse período para 4
meses. Todas essas mães estavam pessoalmente cuidando de seus bebês,
sem ajuda de babás ou das avós.
Dentre as entrevistadas que já haviam retornado ao trabalho, Joana
relatou ter usufruído a licença de 4 meses, enquanto Milena permaneceu em
casa com seu bebê por um período de 5 meses.
Natália e Beatriz que relataram ter retomado suas atividades
profissionais em seus próprios negócios, respectivamente após 15 e 40 dias do
nascimento de seus bebês, não desfrutaram da licença pelo período de 4
meses.
Apesar das diferentes vivências, metade das entrevistadas considera
que o tempo que está usufruindo ou que pôde usufruir foi adequado, enquanto
a outra metade o considerou como totalmente insatisfatório ou satisfatório
somente do ponto de vista profissional (quadro 5).
Cinco entrevistadas, ao refletirem sobre o tempo de licença maternidade
que julgavam ideal (quadro 6), foram favoráveis ao período de 6 meses e
140
consideraram que tanto a mãe quanto o filho se beneficiariam desse maior
período juntos. Segundo elas, a mãe poderia amamentar o bebê por mais
tempo e também se reorganizar para o retorno ao trabalho, enquanto o bebê se
desenvolveria um pouco mais para, eventualmente, ingressar na creche a partir
dos 6 meses. Natália e Beatriz, que praticamente não usufruíram da licença
maternidade, consideram que o período ideal é o de 4 meses e apenas Aléxia
expressou seu desejo de que a licença fosse de 1 ano.
Mesmo as entrevistadas que consideram a licença de 6 meses ideal,
tanto para as mães quanto para os bebês, não a consideram adequada em
termos profissionais para as mulheres. Joana, por exemplo, avalia que como
mãe gostaria de ficar o maior tempo possível com o bebê, mas enquanto
profissional considera que não seria adequado ficar mais que 4 meses afastada
do trabalho.
Nos primeiros dias após o nascimento de seus bebês, os cônjuges de
cinco entrevistadas usufruíram da licença paternidade, sendo que dois deles
permaneceram com seus bebês e esposas por um período um pouco maior
que os 5 dias previstos em lei: o marido de Manuela, que trabalha por conta
própria, ficou uma semana em casa, enquanto o marido de Aléxia conseguiu
acompanhar por um período de 10 dias o seu bebê que ainda estava
hospitalizado (quadro 7).
Porém, três entrevistadas não contaram com a presença ou auxílio de
seus maridos, pois esses não desfrutaram da licença paternidade. No entanto,
com exceção de uma, todas as outras entrevistadas relataram ter contado com
a ajuda de suas mães ou sogras nos seus primeiros dias em casa com os
bebês.
Chamou nossa atenção o fato de duas entrevistadas terem relatado não
possuir muitas informações a respeito da licença paternidade.
Com a exceção de Natália, que considera o período de 5 dias da licença
paternidade como adequado, apesar de seu marido não ter usufruído, todas as
demais entrevistadas avaliam esse período como insuficiente para que o pai
possa se envolver mais com os cuidados do bebê e também auxiliar a esposa
(quadro 7). Essa crítica que nossas entrevistadas fazem à duração da licença
paternidade foi compartilhada também pelos homens-pais que Galvão (2008)
entrevistou.
141
Questionadas sobre qual seria o período ideal para a licença
paternidade (quadro 8), quatro entrevistadas (Aléxia, Malu, Beatriz e Milena)
apoiaram o projeto de ampliação desse período para 15 dias e duas (Joana e
Manuela) expressaram o desejo de que essa licença fosse ampliada para 1
mês. Apenas uma entrevistada (Júlia) defendeu que os homens-pais possam
contar com o mesmo período de licença concedido às mulheres-mães, ou com
1 mês de licença.
Júlia, que não conhecia o projeto de lei prevendo a ampliação da licença
paternidade, foi uma das poucas entrevistadas a destacar a ocorrência de
transformações nas famílias em termos das práticas de cuidados infantis, com
o homem participando mais ativamente e se envolvendo cada vez mais com os
cuidados para com seus filhos: “... 1 mês seria melhor que os 15 dias, mas
acho que o ideal seria os pais terem o mesmo, tanto o pai quanto a mãe, terem
o mesmo tempo, porque antigamente que tinha aquela coisa de ‘ai, quem cuida
da criança é a mãe’, hoje em dia, já não é assim. Hoje em dia, tem muitos pais
que a mãe retorna ao trabalho e o pai fica em casa para cuidar das crianças,
então assim, eu acho que a gente está deixando esse preconceito de lado de
que o homem não ajuda, não troca fralda, não dá banho, não dá de comer,
enfim, [...] acho que se está deixando esse preconceito de lado. O ideal
mesmo, o sonho, era ter o mesmo tempo para o pai e para a mãe [sabe que
tem países em que o tempo de licença é o mesmo para o pai e para a mãe].”
Em sentido contrário ao de Júlia, podemos citar os discursos de duas
entrevistadas. Natália enfatiza a primazia da mãe junto ao bebê durante seus
primeiros meses de vida para justificar a não necessidade de ampliação da
licença paternidade: “Eu acho que para o pai é o ideal [o período de 5 dias].
Porque eu acho assim durante os primeiros meses é a mãe mesmo, não tem
jeito. O pai ajuda? Ajuda assim para comprar alguma coisa, para trocar uma
fralda ou outra, mas o dia-a-dia é a mãe mesmo. É a mãe que conhece, é a
mãe que vai amamentar, acho que o principal é a mãe mesmo.” Por sua vez,
Milena concebe que essa licença deve durar no máximo 15 dias, pois não
saberia avaliar até que ponto seu marido mais a “atrapalharia” do que a
auxiliaria no caso de uma licença mais prolongada: “... 15 dias era até razoável.
É complicado, porque eu penso assim, tudo bem que muda muito na tua vida a
chegada de um bebê, muda tudo, vira de ponta cabeça a sua vida, a sua casa,
142
tudo, mas acho que, pelo menos no meu caso, ele [marido] não é tão
participativo [enfática], não é tão, eu não sei até que ponto mais me
atrapalharia do que ajudaria (risos) [...] 10 dias acho que tudo bem, mais do
que 5 dias [...] pelo menos para chegar em casa, viver um pouquinho mais os
primeiros momentos de agitação, de desespero assim junto com o marido eu
acho que é interessante, mas mais do que isso acho que atrapalharia, no meu
caso, atrapalharia.”
Conciliar trabalho e a educação e os cuidados para com o bebê, não tem
se apresentado como tarefa fácil, especialmente, para as mães e pais que não
têm desfrutado das licenças maternidade e paternidade. A grande maioria das
entrevistadas aponta para a necessidade de licenças mais prolongadas: 6
meses para a licença maternidade e 15 dias ou mais para a licença
paternidade.
Em algum momento de suas vivências da maternidade, cinco
entrevistadas refletiram sobre a possibilidade de interromperem suas atividades
profissionais para cuidarem de seus bebês. No momento da entrevista,
entretanto, Joana relatou já ter desistido totalmente dessa idéia, enquanto
Aléxia, Manuela, Beatriz e Júlia, mesmo reafirmando a importância do trabalho
em suas vidas tanto em termos pessoais quanto em termos econômicos, ainda
pensavam na hipótese de parar de trabalhar temporariamente. Das outras três
mães que não haviam refletido sobre essa possibilidade, duas tinham reduzido
suas jornadas de trabalho para passar mais tempo com seus bebês.
Neste eixo 3, abordaremos a partir de agora, as justificativas das mães
para suas escolhas pelas modalidades de educação e cuidado, atuais e
previstas (quadro 9) para seus bebês, mas também os motivos que as levam a
rejeitar algumas opções. Destacaremos, ainda, as concepções e avaliações
das entrevistadas sobre uma modalidade em especial, a creche.
No momento da entrevista, como mencionado anteriormente, quatro
entrevistadas estavam em licença maternidade em casa cuidando de seus
bebês.
Dos bebês das outras quatro mães que já haviam retomado suas
atividades profissionais, um ficava com uma babá (a filha de Natália), outros
dois ficavam com suas avós maternas (a filha de Joana e o filho de Milena) e a
filha de Beatriz acompanhava seus pais e avós ao trabalho mas, apesar de
143
passar o dia no mesmo ambiente que sua mãe, seu pai e seu avô, ficava
mesmo sob os cuidados e atenção de sua avó materna.
Tanto as mães que haviam optado por deixar seus filhos sob os
cuidados das avós maternas (Joana, Milena e Beatriz), quanto Natália que
havia optado pela contratação de uma babá para sua filha, relataram, de forma
geral, considerar que seus bebês eram muito pequenos para freqüentar a
creche (quadro 9) e mencionaram ter optado por deixá-los sob os cuidados de
pessoas em quem confiavam (mesmo que fosse alguém contratado, como no
caso de Natália) e que, segundo acreditavam, poderiam se dedicar com
qualidade aos cuidados para com o bebê: “...em uma escolinha, não que eu
ache que o pessoal vai deixar a criança chorando, mas o cuidado não vai ser o
mesmo do que eu ou mesmo a minha mãe deu para a minha filha.” (Joana); “...
ele [bebê] fica com a minha mãe de olhos fechados [...] mãe é mãe [enfática], a
minha mãe é muito mãezona, então assim, eu estou sossegada...” (Milena).
Beatriz e Milena, entretanto, apresentaram mais algumas motivações
justificando suas escolhas atuais. A primeira, que voltou ao trabalho 40 dias
após o parto, decidiu, em comum acordo com seus pais e cônjuge, que o
melhor seria que sua filha pudesse acompanhá-los ao trabalho, já que todos
trabalham juntos na empresa da família, pois lá haveria espaço para ela, sua
própria mãe poderia se dedicar ao bebê e a criança também estaria perto dos
pais e avós. Já Milena, mesmo sendo proprietária de uma escola de EI, preferiu
que o bebê permanecesse em ambiente doméstico (casa da avó) para evitar
que seu filho adoecesse: “... foi realmente com relação à saúde mesmo o
motivo. E eu não escondo também [...] as mães [que deixam seus bebês na
escola de EI de sua propriedade] sabem, eles [bebês] ficam mesmo doentes,
quando os pais vêm procurar é uma pergunta que eles sempre fazem e que né,
não tem como [...] você não tem como negar, a criança realmente fica muito
doente, com uma freqüência maior mesmo do que quando ela fica em casa.”
Como podemos perceber, nenhum dos bebês freqüentava creche ou
outra modalidade de educação e cuidado coletiva. Todas as entrevistadas
adotavam, portanto, no momento da entrevista, modalidades de EI que
circunscreviam seus bebês ao espaço doméstico, sob a responsabilidade da
própria mãe da criança ou das avós, e em apenas um caso da babá, optando,
144
em sua maioria, por não externalizar, como compreendem Bloch e Buisson
(1998, 1999), a educação e o cuidado de seus filhos.
Todas as entrevistadas foram indagadas também sobre as modalidades
de EI que previam como possíveis escolhas futuras (quadro 9) para seus
bebês, já que metade delas voltaria a trabalhar com o término de suas licenças
e algumas, mesmo satisfeitas com as modalidades atuais que haviam
escolhido, já buscavam novas alternativas considerando que a criança já
estava maior.
Quatro mães (Joana, Malu, Milena e Júlia) estavam optando por colocar
seus filhos na creche pública ou particular em São Caetano, enquanto Natália e
Beatriz manteriam as atuais opções (manter o bebê sob os cuidados de uma
babá e levar o bebê para o trabalho na empresa da família, respectivamente)
que estavam considerando adequadas.
Assim, com exceção de Júlia, que pretende colocar seu bebê aos 4
meses de idade na creche mesmo o considerando ainda muito novo, as demais
mães que estarão fazendo a mesma opção pretendem matricular seus filhos já
maiores na creche, com idades variando de 7 meses e 20 dias a 1 ano.
Ao optarem pela creche no futuro, essas mães expressam o desejo de
que seus bebês possam interagir com outras crianças, recebam estímulos e
vivenciem atividades que os auxiliem em seus processos de desenvolvimento.
Elas acreditam também que muitas dessas atividades e estímulos, ao serem
propostos por profissionais capacitados na creche, são diferentes daqueles que
as mães ou avós da criança poderiam oferecer aos bebês em suas casas: “...
as escolinhas têm muita atividade para desenvolver o aspecto psicomotor [...] a
escola está mais preparada até para desenvolver a criança...” (Joana); “...eu
valorizo essa parte da estimulação da criança. Por mais que a gente tenha um
certo conhecimento dentro da nossa área, uma pessoa que está trabalhando
em um lugar é, como eu te falei, ela está sempre passando por treinamento,
por reciclagem. Então, ela tem muito mais contato com o que está aí de mais
novo no mercado do que eu. Por mais que a gente estude, que a gente corra
atrás, é o trabalho dela, ela vivencia aquilo.” (Júlia).
Joana e Malu apontaram, ainda, o alto custo das creches particulares
como um fator que as motivava a optar pela creche pública em São Caetano.
Milena e Joana, com suas escolhas pela creche como modalidade prevista,
145
relataram também estar liberando as avós maternas da responsabilidade de
continuarem cuidando dos netos.
Aléxia, não encontrando uma creche pública em São Caetano que
oferecesse atendimento em meio-período, o que teria sido sua primeira opção,
pretendia que seu bebê ficasse somente meio-período com uma babá, sob a
supervisão da avó materna, mas ainda ponderou sobre a possibilidade de
usufruir licença sem vencimentos, prolongando seu período de permanência
em casa com o bebê.
Manuela, por sua vez, informa ter decidido que, com seu retorno ao
trabalho, seu bebê ficaria sob os cuidados da avó paterna. Sua decisão se
baseava não somente na disponibilidade por parte dos avós que haviam se
oferecido para cuidar do neto, mas também no custo-benefício dessa opção, já
que Manuela avaliava a creche particular como muito cara, não poderia contar
com creche em seu local de trabalho e além disso, orientada pela pediatra do
bebê também considerava que aos 4 meses ele ainda seria muito novo ou
pequeno para entrar na creche.
De modo geral, pudemos apreender que as escolhas das entrevistadas
foram também sustentadas por particularidades do contexto familiar, como por
exemplo, a idade, a inserção profissional ou o local de moradia de suas
próprias mães. Na ocasião da entrevista, quatro avós maternas dos bebês
trabalhavam e duas moravam longe da residência de suas filhas. Várias
entrevistadas fizeram, ainda, referência à idade avançada de suas mães (60,
70 ou 75 anos foram algumas idades mencionadas) e, eventualmente, de suas
sogras, como algo que dificultava que as avós estivessem disponíveis para
cuidar de seus netos. Como apresentamos no capítulo 3, com base na
pesquisa de Sorj, Fontes e Machado (2007), as mudanças nos perfis das avós
podem estar tornando menos disponível tal ajuda familiar.
Para além das preferências pessoais e dos contextos familiares,
apreendemos, também, que concepções sobre criança parecem exercer
influência nas decisões sobre modalidades de EI a serem escolhidas. Nos
discursos das mães, a idade da criança, sua suposta imaturidade (“bebê é
muito novo, bebê é muito pequeno”) e sua fragilidade (mais risco de adoecer)
aparecem como justificativas quanto a sua permanência em ambientes
domésticos, com menos contato com outras crianças e adultos. Citamos como
146
exemplo a fala de Natália: “... Até os 3 meses a gente não estava saindo não
[...] eu não levei ela ainda em shopping, a neném ficou em casa praticamente
até os 3 meses. A gente foi viajar, fomos para a praia, mas ela [babá] ficou
dentro do apartamento com a nenê, por causa das vacinas... então a nenê não
saiu pra nada não, por enquanto a rotina está em casa mesmo.”
A opção por certas modalidades de EI revela, também, a rejeição por
parte das entrevistadas de algumas outras alternativas de educação e cuidado
para bebês. A contratação de uma babá foi a modalidade mais rejeitada entre
nossas entrevistadas. Metade das mães não considera essa opção como
adequada por não confiar na pessoa que cuidaria dos bebês em suas casas,
pelo receio de que essa pessoa pudesse maltratar a criança (receio esse,
muitas vezes, alimentado pelo mídia, como já citamos) e por acreditar que, na
creche, o bebê poderia estar sendo mais estimulado do que ficando em casa
com uma babá: “... nunca pensei nessa hipótese [de babá] porque eu não acho
legal ou ela [bebê] vai estar na escolinha com um monte de gente ou vai estar
com a minha mãe (risos).” (Joana); “É, pela falta de confiança porque assim eu
poderia até ver alguém lá da minha Igreja, mas, às vezes, a gente pensa que
conhece a pessoa, mas não conhece. Então fica complicado isso [...] Eu prefiro
mil vezes deixar um, o meu bebê, em uma escola municipal com educadores,
pedagogos do que deixar em casa com uma babá, correr o risco dela judiar da
criança, maltratar, bater na criança [...] deixando com empregada, com babá,
com “vó” [avó] [...] não é bom porque a criança não vai interagir com outras
crianças, não vai ter aquela integração de arrumar amiguinhos, amiguinhas,
fica muito presa, fica muito reprimida dentro de casa, não sai, não vai passear,
porque a escola já tem todo aquele programa de interatividade, jogos
pedagógicos, lúdicos que envolve a criança, acaba que com a criança se
tornando mais assim extrovertida, enfim, está em contato com pessoas, mesmo
que ela não esteja passeando no parque, na rua, mas ela está em contato com
pessoas, enquanto que dentro de casa acho que fica uma criança muito
parada...” (Malu); “... às vezes, você coloca uma pessoa na sua casa, você
pensa que é de confiança e acaba judiando do bebê...” (Beatriz); “... por essa
questão da estimulação é que eu não imagino deixar ela [criança] em casa com
alguém [...] claro que se minha mãe estivesse mais perto eu tinha mais
confiança de deixar o bebê com ela em um retorno ao trabalho, pelo menos no
147
princípio [para depois colocá-lo na creche], do que com uma desconhecida...”
(Júlia).
Como Singly (1993) já havia comentado com relação às famílias
francesas, entre as mães brasileiras entrevistadas, o parentesco que pode ser
chamado a ajudar nos cuidados para com o bebê é, em sua maioria, também
restrito e selecionado de acordo com uma maior proximidade afetiva. Assim,
observamos em algumas entrevistas, uma certa rejeição a deixar o bebê sob
os cuidados da sogra, rejeição essa sustentada por diversas razões: a idade
avançada, como já mencionamos, da avó paterna; o oferecimento de cuidados
diferentes daqueles que a avó materna ofereceria; um certo “ciúmes” por parte
da mãe do bebê; uma efetiva opção por não contar nem com a ajuda da sogra
e nem com a da própria mãe (como no caso de Natália): “A mãe dele se
deixasse, é lógico ela iria adorar, mas é uma pessoa que tem 70 anos, eu acho
assim também que não tem condição física e nem essa disposição [...] Deixar
com mãe e sogra a gente sempre foi muito contra, porque a gente acha ‘o filho
é nosso, quem tem que...’, avó gosta, mas assim, cada um tem sua vida, e
essa era uma opção que a gente nunca queria.” (Natália); “... sinto que há uma
cobrança de ficar com a minha sogra e eu justamente não deixo meio a meio
[metade do tempo com a avó materna e outra metade com a avó paterna],
porque eu acho que falta a rotina igual dos dois lados. Não sou muito a favor
de deixar a criança cada dia com uma pessoa. Eu acho que é complicado [...]
sofro um pouquinho com isso [...] avó sogra, é diferente dos cuidados da avó
mãe da mãe...” (Milena); “Ela [sogra] me ajudava no banho [do bebê] porque eu
não deixava ela fazer nada (risos), eu mesma passava roupa, lavava roupa do
bebê, enfim, trocava, cuidava e não deixava ela fazer nada de ciúmes assim
(risos). A única coisa é que ela me ajudou no banho, também por pouco
tempo...” (Malu).
Quanto à modalidade creche como opção para o cuidado e a educação
das crianças pequenas, as mães ofereceram muitas pistas em suas
entrevistas.
Em primeiro lugar, o termo creche, de modo geral, foi rejeitado pela
maioria das entrevistadas, que o associou, em alguns casos, ao atendimento
público (como fizeram Natália, Beatriz e Milena), ou considerou que essa
denominação não deve mais ser empregada já que em São Caetano do Sul,
148
tanto creches públicas quanto particulares são denominadas igualmente como
escolas: “... não importa assim se é privada ou público porque, de certa forma,
os dois [particular ou pública] tratam até como escolinha [...] em São Caetano,
não se procura por creche, se procura por escola [...] são escolas para o ensino
infantil.” (Joana); “Então, a gente nunca usou essa terminologia quando eu
trabalhava e acabou incorporando. Então, eu não falo ‘vou botar ele na creche’,
não, creche não, falo ‘vou botar ele na escola ou na escolinha’, às vezes, a
gente também usa esse termo para dizer que são os pequenininhos, como se
escola fosse para os grandes e escolinha para os pequenos [...] a gente [nas
creches públicas de São Caetano] extinguiu a palavra creche.” (Aléxia); “...
acho que esse termo creche não deveria ser usado. Eu acho que deveria ser
usado escola [...] se você olhar está escrito lá ‘Escola Municipal Infantil’, que
acho que é o que eles usam aqui [em São Caetano] e a outra é EMEI [Escola
Municipal de Educação Infantil]. É, eu gosto do termo escola [enfática].” (Malu).
Rejeitado pela maioria das entrevistadas, assim como havia sido pelos
entrevistados por Galvão (2008), o termo creche foi associado, em alguns
discursos, ao oferecimento de serviços de baixa qualidade (freqüentado por
muitas crianças que seriam atendidas por poucos profissionais) e à sua
concepção “antiga”, enquanto local somente destinado ao oferecimento de
cuidados físicos básicos (alimentação, higiene, sono) aos bebês (quadro 10):
“... talvez seja por causa desse termo ‘creche’ que as pessoas ficam até com
receio de deixar o filho, ‘ah, será que vão cuidar de qualquer jeito, é um monte
de criança e poucas pessoas para cuidar, ah, a criança vai ficar assada, não
vão trocar direito, se eu levar um leite lá vão dar o leite para outra criança’...”
(Malu); “... creche seria mais ou menos o cuidado que eu tenho em casa com a
minha filha.” (Joana); “...sinceramente... acho que é até uma visão um pouco
preconceituosa, infelizmente, eu tenho que dizer isso, preciso mudar isso
[enfática], na verdade [...] A creche já dá, o termo, não sei te explicar por que,
mas já dá uma questão de ser uma coisa mais largada, sem tanto estímulo,
onde a criança fica mais deixada assim sabe, é o mínimo do mínimo, não sei
nem te explicar por que me vem essa imagem, mas é a imagem que me vem à
cabeça.” (Júlia).
Por outro lado, o termo escola (ou o termo creche compreendido em sua
nova concepção) já englobaria, na fala das entrevistadas, não somente o
149
cuidar, mas também o educar, através do oferecimento de atividades,
brincadeiras e estímulos que proporcionariam o desenvolvimento infantil em
várias áreas (quadro 10): “... muita gente só direciona para o lado do cuidar [...]
mudou o conceito [...] antigamente tinha só esse [...] de cuidar, a creche era só
cuidar, então era mamar, dar de mamar, cuidar da alimentação, cuidar até
mesmo do bem-estar também, da higiene pessoal, essas coisas [...] E hoje em
dia não, a gente já tem uma outra concepção especialmente por conta do
Referencial que existe, que já tem os Parâmetros para você seguir [...] sobre o
que trabalhar, que já dá para trabalhar com os pequenos vários aspectos
[enfática], quer dizer, então tem o educar, não é só o cuidar, então mudou essa
concepção, então eu tenho essa visão de que não é uma creche, é uma escola
[...] é uma escola normal, de aprender, de fazer, de conhecer.” (Aléxia); “... na
lista [telefônica], se você procurar não são creches que aparecem, são escolas
infantis, então pode ser até uma outra denominação que as pessoas estão
dando pelo fato de terem essas outras atividades.” (Joana); “Um lugar cheio de
crianças com várias tias (risos) que cuidam do seu bebê, do seu filho, um
monte de criança [...] Para cuidar dos bebês [enfática], das crianças, para dar
educação, ensino. Eu não sei se elas ensinam coisinhas. Acho que elas devem
estimular né com brinquedos e essas coisas. Sem dúvida, elas não colocam
[os bebês] na TV, eu acho, não sei, eu acho (risos)...” (Manuela).
Para algumas entrevistadas, como Beatriz, a creche se apresentava, de
forma geral, como uma das últimas opções para se deixar o bebê caso a mãe
precise trabalhar, não possa levá-lo ao trabalho e nem conte com a ajuda de
uma pessoa de confiança. Natália, por sua vez, rejeitava a creche por
considerar não somente que um bebê de menos de 1 ano é ainda novo para
freqüentá-la, mas também porque acreditava que, mesmo quando de excelente
qualidade, as creches não conseguiriam assegurar um atendimento exclusivo
ou uma disponibilidade em tempo integral a cada bebê: “... até 6 meses, 1 ano,
eu acho que ela [bebê] tem algumas rotinas que mesmo em uma escola top a
criança não consegue ter essa rotina, porque aí entra naquilo de ter uma
pessoa dedicada, de acordá-la no horário, de dar aquela mamada, de pegar
manha [...] a gente sabe que se ela estiver em uma escola, mesmo que seja
top, ela [profissional] não tem tempo de ficar andando para dar mamar [para se
adaptar à necessidade da criança].”
150
Outras duas mães (Júlia e Aléxia), que contavam com flexibilidade em
seus horários de trabalho e poderiam passar mais tempo com seus bebês, de
certa forma, não rejeitavam a creche, mas sim o horário de atendimento em
período integral. Elas expressavam o desejo de poder contar com
atendimentos em meio-período ou até mesmo com horários eventuais, não
rígidos e adequados à realidade das famílias: “... eu não sabia que tinha isso,
mas alguns berçários eles falam que eles têm esquema de hotel, ou seja, você
leva a criança no horário que você precisa, você retira a criança no horário que
você precisa, então, não tem aquela rigidez de ‘ah, ou fica a manhã toda ou a
tarde toda ou até o período integral’ [...] Eu sei que é possível na particular, em
algumas que já me indicaram. Na pública, eu não sei...” (Júlia); “... eu não
queria passar tanto tempo longe dele. O problema é mesmo o período integral
(risos) [...] ‘ah, se tivesse [creche pública em São Caetano] meio-período seria
o ideal’ (risos) [...] falam que a criança o dia inteiro aprende mais, até por isso
que as escolas estão se transformando em período integral, mas eu acho que
deveria ser uma opção, não uma obrigação você colocar. Acho assim que tem
que ter o meio-período para você aprender o básico e o período integral para
quem realmente precisa, que queira, de repente, porque, às vezes, a mãe quer
ficar com seu filho meio-período, ela não quer deixar o dia inteiro na escola
para só vê-lo à noite, quer ter esse contato maior com ele, então eu acho que
deveria ser uma escolha, ter para todas as opções assim.” (Aléxia).
Algumas creches particulares são rejeitadas por Aléxia, por não
disporem de profissionais devidamente capacitados para o atendimento
específico de bebês. Ela que já havia trabalhado tanto em creches particulares
quanto em públicas, relata ter observado que em algumas particulares se
exigia menos a formação específica dos profissionais:
“Porque as escolas
[particulares] não exigem, foi o que eu te falei, em uma creche, em um berçário,
professores assim que tenham formação tudo, que nem, por exemplo, aqui em
São Caetano [na creche pública] não, a gente já vê que a partir do berçário
maior, que agora tem outro nome que eu não lembro, que agora é por grupo,
mudou, acho que é grupo 2, uma coisa assim, que mudou a terminologia, já
tem professor. Então, bebês de 1 ano, 1 ano e pouco já têm um professor em
sala junto com as auxiliares para cuidar das crianças [...] Então, quer dizer, já
tem um direcionamento, tem uma pessoa que está preparada para estar
151
cuidando, no caso de necessidade já tem uma forma, uma visão diferente, não
que quem, por exemplo, já trabalha há 15 anos como pajem ou auxiliar de
primeira infância, ou sei lá o nome que queiram dar para quem cuida, não tem
experiência, mas acho que você tem que ter uma pessoa ali do lado
acompanhando, que tenha um conhecimento...”
Como pudemos apreender nos discursos das entrevistadas, a idade que
as mães consideram como a ideal para o bebê começar a freqüentar a creche
parece sustentar suas escolhas por EI.
Com pequenas variações para mais ou para menos, nas respostas de
várias de nossas entrevistadas (Joana, Milena, Manuela, Beatriz e Aléxia), as
crianças só deveriam ingressar na creche com idades variando entre 1 e 2
anos (quadro 11). Diferentemente do que relataram os pais entrevistados por
Galvão (2008), algumas de nossas entrevistadas preferiam que as crianças
entrassem na creche já mais velhas (a partir de 2 ou 3 anos). De forma geral,
apenas Júlia (que previa colocar seu bebê na creche a partir dos 4 meses) e
Malu (que expressava o desejo de matricular seu bebê quando ele estivesse
com 7 meses e 20 dias) consideraram que o ideal seria o bebê freqüentar a
creche a partir dos 6 meses de idade.
Para a maior parte das entrevistadas, as crianças entre 1 e 2 anos já
estariam maiores, seriam menos frágeis fisicamente, já teriam acumulado
conhecimento e vivências familiares, já reconheceriam as pessoas e já
conseguiriam expressar suas reações frente aos cuidados que estariam
recebendo podendo, assim, passar a freqüentar a creche e também informar
aos pais quando não estivessem sendo bem cuidadas.
Parece-nos, portanto, haver quase uma associação direta, nos discursos
das mães, entre a idade em que o bebê já teria desenvolvido algumas
competências, como a fala e sua capacidade de raciocinar e acumular
conhecimentos, quando eles já seriam considerados crianças pequenas por
suas mães, como vimos no eixo 2, e a idade ideal para o bebê ingressar na
creche.
Quanto ao conhecimento mais específico das entrevistadas sobre
creche, apreendemos que até o momento da entrevista, três mães (Beatriz,
Manuela e Júlia) não haviam tido a oportunidade de visitar ou conhecer uma
creche. As demais, por experiência profissional, por interesse em colocar seu
152
bebê ou por conhecer pessoas que atuam em EI, já haviam visitado alguma
creche pública ou particular em São Caetano do Sul ou mesmo creches
conveniadas ou assistenciais em outros municípios. Metade das entrevistadas
soube informar, também, a existência de creches públicas em seus bairros de
residência.
Embora eu tenha utilizado durante, e ao longo de, todas as entrevistas o
termo creche, assumindo sua denominação “oficial”, todas as entrevistadas
utilizaram, em momentos diversos de seus discursos, outros termos como
“escola” e “escolinha” ao se referirem à creche. Três usaram também a palavra
“berçário” e apenas Júlia empregou o termo “centros” se referindo tanto a
creches quanto a berçários (quadro 10).
De forma geral, as entrevistadas consideram que uma creche de boa
qualidade deve oferecer: um ambiente adequado com boa infra-estrutura e
espaço físico (com lugares para as crianças dormirem, espaços ao ar livre,
locais bem ventilados, iluminados, limpos e seguros); boa alimentação; um
número de adultos adequado ao número de crianças atendidas; atividades
pedagógicas,
brincadeiras
e
estímulos;
uma
equipe
de
profissionais
qualificados e capacitados, comprometidos, responsáveis e pacientes, que
gostem de criança e cuidem delas com atenção, carinho e respeito (quadro 12):
“... precisa ter uma pessoa que gosta do que está fazendo e que vai tratar o
seu filho com carinho, carinho e respeito.” (Joana); “... os profissionais
constantemente têm cursos de capacitação, o espaço físico é sempre
adequado, eles buscam sempre a adequação do espaço físico, a alimentação é
de qualidade...” (Aléxia); “... limpeza, a higiene, a alimentação adequada, uma
boa alimentação porque já me falaram também que [em São Caetano] a
merenda é muito boa, enfim... ah, em geral assim, o envolvimento [...] das
pessoas, o respeito com os bebês e com as crianças de forma geral [...] na
escola tem toda uma disciplina, tem horários para seguir, são profissionais que
estão cuidando...” (Malu); “... eu não sei quantos bebês uma pessoa em uma
creche ela cuida. Acho assim ter bastante gente para cuidar direitinho para não
ter problema de se machucar ou até de engasgar [...] Ah, ter bastante atenção,
uma alimentação adequada para a idade. Ah acho que, ser confortável, um
lugar limpo, com bastante higiene para a criança não ter problema de ficar
doentinha.” (Beatriz); “Que tivesse realmente preocupação pedagógica, acho
153
que pensar o tempo todo em ações para que a criança não esteja só, porque a
gente fala a liberdade, a garantia do brincar é super importante, é a brincadeira
simbólica enfim, todo o espaço que deixa ela ser criança, assim sem tanta
condição assim no sentido de formalidade...” (Milena); “... Porque tem
escolinhas que são assim micro né. Você olha, bem pequenininhas assim que
está lotada de criança e tem também essa coisa de cada tia né, que elas falam,
são responsáveis por tantas crianças, eu acho isso importante também dar
uma olhada [...] Como 3 pessoas vão dar conta de 25 bebês? [enfática] Me
fala, não dá! Eu acho muita coisa [...] 3 pessoas para 15 bebês. Tudo bem, é
bastante também, é, mas já [diminui a proporção]...” (Manuela).
Em oposição, uma creche de má qualidade seria aquela que não conta
com profissionais qualificados e especializados, que não privilegia os aspectos
pedagógicos ou emocionais da criança, oferecendo somente cuidados físicos
básicos, que não assegura uma boa alimentação e nem conta com um
ambiente adequado, limpo ou seguro, onde a proporção adulto/criança é
inadequada (quadro 12): “... onde a criança faz o que quer, não tem pessoas
que [...] prestariam atenção na característica da criança [que] deixaria
chorando, que [...] não tem muita paciência, vamos supor tem criança que
gosta de dormir ninando e não vai cuidar da criança como, às vezes, ela
precisaria, respeitando as características que ela tem.” (Joana); “[...] um lugar
onde você só deixe e que não tenha pessoas que sejam especializadas, que
seja, por exemplo, um lugar onde só tenha voluntários. Voluntário é bom, mas
não são pessoas que estudaram para aquilo.” (Natália); “... eu acredito que
uma creche ruim, de má qualidade para começar não deveria existir (risos),
porque você lida com vidas [...] [e] você não pode deixar, se deparar com um
lugar que não tenha qualidade porque tem que ter [enfática], eu acho que é o
fator principal, tem que ter qualidade tanto sabe na parte da alimentação [...]
[e] dos profissionais...”
(Aléxia); “Ruim, acho que seria não ter pessoas
qualificadas pra isso, não serem professoras. Não ter [...] um lugar legal
também acho que é importante. Muita gente, muito bebê para poucas pessoas
cuidarem, sabe aquela coisa de quanto mais dinheiro melhor...” (Manuela).
Como pudemos apreender, dentre os indicadores considerados para a
avaliação do que seria uma boa creche, as entrevistadas valorizam a formação
e capacitação dos profissionais que atendem os bebês e relatam o desejo de
154
que esses profissionais gostem de crianças. Somente uma mãe mencionou o
critério “ser mãe” como uma característica importante para esse profissional.
Ao se referir aos critérios que sua escola particular utilizava para contratar os
profissionais que atendem os bebês, Milena disse: “A exigência não é a
formação em Pedagogia, mas [...] o critério é ser mãe [enfática] que a gente
utiliza, ser mãe e meia idade também [enfática] porque muito mais velha por
volta dos 50 ou 60 anos a agilidade, enfim, a gente já teve algumas
experiências de que já foi mais difícil. E bebê é o tempo todo abaixa, levanta,
pega, uma pessoa mais velha já tem mais dificuldade né, e uma pessoa muito
nova, porque a faixa das nossas professoras é assim na média de 25 ou 20 e
poucos anos. No berçário, já é mais na faixa dos 40, 40 e poucos anos. Então,
tem que ser mãe, não precisa ter pedagogia porque tem uma assistente que
trabalha direto no berçário [...] que faz a supervisão. E a gente oferece alguns
cursos [...] para elas fazerem, mas não tem que ter pedagogia [enfática].”
Para a escola de Milena, “ser mãe” é considerado um critério ainda mais
importante para admissão do que a própria formação profissional e, ao mesmo
tempo, um critério que parece sugerir que a disponibilidade para o atendimento
dos bebês seria uma característica somente feminina, inviabilizando a
contratação de profissionais de sexo masculino.
A predominância de profissionais de sexo feminino nas creches se
revela, também, em diferentes momentos dos discursos das entrevistadas,
quando elas, ao utilizarem denominações variadas para se referirem aos
profissionais que atuam diretamente com os bebês e crianças, empregam
algumas palavras somente no feminino: “moças, tias, menina, profissionais,
orientadores, professores(as), assistentes, educadores, pedagogos, auxiliar de
primeira infância, pajem.”
Questionadas sobre se existiriam ou não diferenças entre a rotina de um
bebê em casa e a rotina de um bebê na creche (quadro 13), notamos que as
entrevistadas forneceram respostas que poderiam ser divididas em dois grupos
distintos. Metade delas (Manuela, Joana, Milena e Júlia) acredita que as
creches seguem mais ou menos a mesma rotina que é proposta aos bebês em
suas casas, mas oferecendo mais atividades, estímulos e brincadeiras e a
possibilidade de convivência com outras crianças e adultos. Por outro lado,
outras entrevistadas (Aléxia, Beatriz, Natália) acreditam haver diferença entre a
155
rotina da criança em casa e a rotina proposta por uma creche porque
consideram que em casa o bebê receberia atenção exclusiva por parte de
quem cuida dele, enquanto que na creche os profissionais estariam menos
disponíveis já que teriam mais bebês para cuidar.
Essa concepção, expressa por algumas mães, de que a criança
receberia maior atenção em casa quando cuidada pela mãe, avó ou babá, em
contraposição a uma menor atenção ou disponibilidade que estaria recebendo
na creche, também foi apreendida por Bloch e Buisson (1998, 1999) em suas
pesquisas. No contexto francês, entretanto, as mães que optavam pela creche
tendiam a acreditar que os profissionais também poderiam se dedicar aos seus
filhos, porque embora houvesse mais crianças haveria também mais
profissionais para esse cuidado. Em contexto brasileiro, poderíamos supor que
essas mães, que consideram que a disponibilidade será menor nas creches,
possam estar sustentando suas impressões não somente no fato de que na
creche existem mais crianças para serem atendidas, mas também, talvez, na
possibilidade de que em muitas creches o número de profissionais ainda não
seja adequado para esse atendimento, no fato de que elas mesmas não
freqüentaram creches quando crianças, como veremos no eixo 5, e não
apresentam contato extenso ou freqüente com essa instituição e por
conceberem que os bebês necessitam de cuidados e de uma atenção mais
individualizadas.
A imagem da creche ainda parece atrelada à necessidade da mãe
trabalhadora, embora a maior parte das entrevistadas tenha considerado que a
creche destina-se às crianças e aos bebês (citamos como exemplo a fala de
Aléxia: “Ah, para os bebês, as crianças, porque tem essa divisão de 0 a 3 e de
3 a 6, então tem uma forma de trabalho direcionado para as crianças de 0 a 3
[...], então é direcionada para eles.”); que Joana defenda que todas as crianças
possam freqüentar “escolas” de EI e não “creches” para se desenvolverem; que
Júlia considere a creche como uma instituição que destina-se tanto aos bebês,
que têm o direito de receber estímulos para o seu desenvolvimento, quanto às
mães, incluindo aquelas que não trabalham e que também queiram matricular
seus filhos.
Natália e Beatriz consideram que a creche se destina às mães que
trabalham e que não têm com quem deixar seus bebês: “... para as pessoas
156
[...] que não têm essa condição de ficar em casa, para as mães que não têm a
condição de ficar em casa cuidando e que não têm também a opção de deixar
[o bebê] com alguém que conheça ou pagar uma profissional.” (Natália); “Eu
acho que às mulheres que trabalham e que querem continuar trabalhando, eu
acho que elas teriam preferência. Eu sei que tem... parece que não é assim,
parece que funciona mesmo que a mulher não trabalhe, ela consegue vaga na
creche. Eu acho que ela tira, como acho que não tem tanta vaga, eu acho que
ela tira o direito, a vaga de alguém que realmente precisa trabalhar [...] acho
que creche é para as mulheres que trabalham fora, que não têm uma pessoa
da família que possa cuidar do bebê, que ela possa trabalhar e deixar a criança
em boas mãos, eu acredito.” (Beatriz).
De forma geral, as avaliações que parte das entrevistadas expressam
sobre a creche pública são muito semelhantes, não somente às que os
homens-pais de camadas médias entrevistados por Galvão (2008) também
referiram, mas também, aos comentários que as entrevistadas ouvem de
conhecidos que trabalham e/ou utilizam creches. Essas avaliações são sempre
muito menos positivas em relação às creches de outros municípios (como São
Paulo, por exemplo) do que as avaliações da maioria das entrevistadas em
relação às creches públicas de São Caetano do Sul. As creches públicas, de
forma geral e em outras cidades, são associadas a um cenário de carência de
recursos, com poucos investimentos na área pedagógica e de capacitação dos
profissionais e a uma baixa utilização por parte das famílias pertencentes às
camadas médias.
Para a maioria das mães com quem conversamos, há diferença de
atendimento entre creches públicas e particulares (quadro 14), sendo que
apenas para duas entrevistadas (Joana e Malu) essa diferença não existiria, ao
menos em São Caetano, em termos dos cuidados oferecidos às crianças.
As
creches
particulares,
quando
comparadas
às
públicas,
se
aproximariam mais dos indicadores de creches de boa qualidade, segundo a
maioria de nossas entrevistadas, pois ao contarem com maiores recursos ou
investimentos e com um menor número de crianças para atenderem, poderiam
oferecer pessoal mais capacitado, além de uma proporção adulto/criança mais
adequada: “... a diferença principal é você ter uma pessoa qualificada para
cuidar do seu filho conforme a idade dele [...] Uma escola boa vai atrás dos
157
melhores profissionais, sabe que os pais vão procurar isso [...]. A creche
pública não vai estar preocupada com isso, vai colocar um profissional x e vai
pagar por aquilo um salário mínimo ou um pouco mais. Então, aí é questão
realmente de salário, das condições que vão ofertar para a pessoa trabalhar.
Às vezes, o profissional que está lá na creche [pública] é até bom, mas ele não
tem material, ele não tem condições de ofertar alguma coisa.” (Natália); “Acho
que na particular, você consegue, talvez, arrecadar mais dinheiro para suprir
todas as necessidades, não tem nenhum desvio que geralmente a gente
conhece no público...” (Beatriz).
Apresentando um discurso na direção oposta e centrado no que
conhecia das creches em São Caetano, Aléxia considera que a creche pública
no município não só valoriza mais que a creche particular a capacitação dos
profissionais que atendem as crianças, como também os remunera melhor.
Para ela, a creche pública, em São Caetano, se caracterizaria também por
atender todos os níveis sociais enquanto a creche particular atenderia somente
pessoas com mais recursos e que valorizariam um certo “status” que a creche
particular proporcionaria: “A escola pública ela abrange todo mundo, qualquer
pessoa pode estudar. Tem desde a classe mais paupérrima quanto pode
estudar o que tiver muito dinheiro. Se você tiver vaga, ele vai lá e estuda e é
tratado igual, de maneira igual, todo mundo é igual, porque lá na escola não
tem diferenciação, são crianças [...] [Na creche particular] era sempre um nível
[...] de uma classe média para alta porque, por exemplo, para poder ter o filho
em uma escola, para se pagar é porque precisa ter o mínimo de uma condição
financeira para estar abrindo mão, para estar dando esse dinheiro [...] como eu
trabalhei em uma escola particular, eu digo isso muito pelas falas dos pais,
enfim, entendeu, ‘ah não, colocar na escola pública não, tem muita criança’,
como se na particular não fosse também, tem menos porque é mais caro,
porque tem que pagar, por isso acaba tendo menos criança, mas na verdade é
isso, então assim acaba colocando na particular porque ‘ah não, meu filho
estudou na particular’, faz questão, às vezes, até de falar o nome da escola
para gerar um certo status. Tem gente que ainda pensa nisso, não pensa na
qualidade, pensa no status.”
Além de Aléxia, outras mães também mencionaram o alto custo de
algumas creches particulares. Destacaremos dois discursos que, ao tentarem
158
mostrar sua indignação com o valor cobrado por algumas dessas creches,
parecem revelar, também, sinais de hierarquização de idade (onde “não teria
cabimento” um bebê receber para sua educação e cuidados recursos ou
investimentos equivalentes aos da educação de um adulto) e de uma certa
desvalorização do atendimento que seria oferecido: “... não tem cabimento
você pagar mais de R$ 500,00, mais caro que uma faculdade para deixar uma
criança [...] não concordo com isso [...] quem agüenta pagar R$ 500,00, não
tem condição, é muita coisa.” (Malu); “Você paga R$ 1500,00 para o seu filho
(risos) ficar lá dormindo, comendo, acho meio complicado.” (Manuela)
Ao indagarmos nossas entrevistadas sobre a possibilidade de elas
inscreverem seus bebês em creches públicas, pudemos apreender que, em
sua maioria, elas consideravam a creche pública, ou melhor dizendo a “escola”
pública, em São Caetano do Sul como uma efetiva opção de atendimento para
seus bebês. Apenas três entrevistadas (Natália, Milena e Beatriz) prefeririam
optar, em qualquer cenário, pela creche particular.
As mães, que visualizam a EMI [Escola Municipal Integrada] em São
Caetano como uma possibilidade de escolha, sustentam sua opção tanto em
seu conhecimento pessoal quanto nos comentários de outras pessoas. Tais
avaliações tendem a valorizar não somente a qualidade da educação ou a
capacitação dos profissionais, mas também a adesão por parte das camadas
médias ao atendimento oferecido: “...sem dúvida [colocaria na creche pública
em São Caetano], sem nenhum medo, sem nenhum constrangimento [...] se eu
não trabalhasse eu não poderia estar te falando isso ‘ah, eu prefiro mil vezes a
escola pública do que a particular’ [...] os profissionais têm um curso, os
professores estão em constante formação, não só, no caso das EMIs que foi
como eu te falei tanto as auxiliares também têm curso de formação, como no
meu caso, eu era auxiliar e a gente fazia, desde o berçário como de outras
fases a gente faz curso de formação, então aqui assim, a população digo de
uma maneira geral não pode reclamar, acho que é mais assim, claro faz parte
do governo dar essa educação de qualidade, então aqui existe essa educação
de qualidade, não posso dizer em outros lugares, assim onde nunca trabalhei,
em outras cidades [...] eu vejo [aqui] muita gente assim elogiando, muita gente
tira da escola particular para pôr na pública, só não põe, às vezes, ou porque
não consegue vaga que é um caso ou outro ou porque, às vezes, quer por
159
status, só porque tem uma condição financeira melhor de manter o filho em
uma escola particular por status mesmo. Mas, assim, muita gente que eu vejo
que até tem condições consegue vaga, tira [da particular] e põe [na pública]
porque não está preocupado com isso de status [...] você vê [...] mães [...] que
elogiam, que falam super bem da educação pública de São Caetano...”
(Aléxia); “.. como São Caetano é menor, então a quantidade de crianças é
menor por escola, você vê, é diferente [...] aqui tem bem menos crianças e
deve ter um número já adequado de pessoas para cuidar dessas crianças [...]
as pessoas precisam confiar mais nessas escolas municipais porque são muito
boas, inclusive, conheço pessoas de classe média alta que deixam crianças [e
bebês] em creches [em São Caetano] [...] principalmente nessa escola aqui [na
frente da casa da entrevistada há uma EMI, escola municipal integrada e
também uma EMEI, escola municipal infantil], eu vejo as pessoas parando aqui
com carrões, a gente sabe que são pessoas bem informadas e de classe
média alta que confiam e deixam suas crianças [enfática]. Então eu acho que a
gente precisa confiar mais nessas escolas porque são escolas muito boas, em
São Caetano né [enfática], eu falo por São Caetano, não vou responder, por
exemplo, por Santo André, Mauá, São Paulo, porque já não conheço.” (Malu);
“... eu sou de São Paulo, a maioria das pessoas que eu conheço está lá, então
eu não conheço ninguém lá que deixa uma criança em uma EMEI em São
Paulo. As pessoas se viram em mil para conseguirem pagar uma escola
particular, porque vêem uma grande diferença no ensino lá e aqui [em São
Caetano] não, aqui são pessoas que trabalham junto com a gente, enfim, têm
mais ou menos o mesmo estilo de vida da gente e fazem questão de deixar
porque vêem que o ensino é bom. Então, partindo disso, se a EMEI é boa, eu
imagino, e também assim, já ouvi alguns comentários do ensino fundamental
ser bom também [...] [e] partindo desse pressuposto, eu acredito que deva ser
de qualidade também a creche...” (Júlia); “...porque eu já ouvi falar que é muito
boa [...] Eu acho que eu não tenho esse preconceito. Não sei, acho que muitas
vezes é preconceito isso de colocar pública e particular. Até porque eu tenho
uma massagista que o netinho dela está em uma pública e ela falou que tem
muito carrão que para lá com gente de dinheiro que estuda em uma escola
pública entendeu [...] Eu acho que eu não, eu não teria esse preconceito assim.
Eu acho que é importante. Se eu conseguisse [vaga] seria ótimo, se eu não
160
conseguir, eu preciso conhecer também, como eu nunca fui, eu sei só de
pessoas que têm, que comentam que as filhas foram e que gostam [...] Sobre o
que eu já ouvi falar, sobre o que as pessoas falam, é que é muito boa a creche
em São Caetano, que vale muito à pena colocar, que nunca teve problema
nenhum com nada...” (Manuela).
De forma geral, nossas entrevistadas recomendam a creche para outros
pais e bebês (quadro 15), especialmente, pelo fato de a creche liberar a mulher
para o trabalho e oferecer à criança convívio entre pares, estímulos e
atividades diferentes daqueles que ela receberia em casa. Algumas
entrevistadas recomendam, ainda mais enfaticamente, a creche pública ou,
melhor dizendo, a “escola” pública em São Caetano por conhecerem e
confiarem no trabalho. Duas entrevistadas (Natália e Beatriz), por considerarem
a creche somente como uma última opção, como já havíamos mencionado,
preferiam recomendar aos pais outras modalidades de educação e cuidado
(como contratar uma babá, deixar a criança com algum familiar ou a criança
acompanhar a mãe ao trabalho).
As mães que entrevistamos consideram que não há diferenças entre
bebês que freqüentam creche pública e os que freqüentam creche particular,
mas algumas se preocupam com a possibilidade de que atendimentos de
qualidade desigual possam “produzir” diferenças futuras em termos do
desenvolvimento dos bebês: “Eu acho que é isso assim, com certeza, esse
profissional da escola é mais qualificado que uma orientadora em uma creche,
então, assim, a orientação do bebê já vai ser diferente, não vai ser igual à da
creche. O cuidado que ela vai ter com essa pessoa vai ser diferente. O cuidado
que eu falo é assim, desde o jeito de você falar, tudo o que você faz, os bebês
já conhecem, já estão aprendendo, então o aprendizado vai ser outro. Vai ser
uma pessoa mais dedicada, vai ter menos crianças, é uma pessoa mais
qualificada, então vai ser totalmente diferente [na particular que na pública].”
(Natália); “... se a criança tiver mais atenção, não importa se é [creche]
particular ou Estadual, mas se ela tiver bastante atenção e for estimulada, eu
acho que ela se desenvolve bem, agora se, talvez, na creche que é pública não
tiver esse estímulo... não que ela não se desenvolva, mas talvez vá mais
devagar assim o desenvolvimento dela.” (Beatriz); “Olha, se houver diferença
nessa questão do cuidado e do estímulo que a criança recebe, com certeza, a
161
gente sabe que dá diferença, porque uma criança que fica o dia todo suja, com
certeza, ela vai ser muito mais irritadiça e a criança estando irritada você
também perde um pouco a paciência mais cedo do que se a criança é mais
tranqüila, então assim, é uma bola de neve como a gente fala. Já, a criança
que está bem cuidada, que está tendo estímulos, ela vai reagir de uma maneira
diferente. Lógico que a gente sabe também que cada criança tem a sua
personalidade, isso é independente do estímulo que ela vai receber, ela tem
aquele traço dela e ponto final, mas em havendo uma diferença de cuidado e
de estímulo, com certeza vai haver uma diferença no comportamento dessas
crianças [...] Olha, se [a creche] for como eu estou te falando, uma EMEI, por
exemplo, aqui em São Caetano que tem um ensino ótimo e um cuidado ótimo
com as crianças [...] Então, se seguir esse mesmo parâmetro, não vai ter
diferença. Agora, se já for diferente, senão tiver tanto investimento, enfim, se a
instituição não for legal, aí eu acho...” (Júlia).
162
Quadro 5. Licença maternidade usufruída
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Contou com a ajuda de alguém
nos primeiros dias em casa com o
bebê? Por quanto tempo?
Licença maternidade
(período usufruído)
Satisfeita com o tempo usufruído?
Joana
9/F
Sim, contou com a ajuda da mãe
Ficou o 1º mês morando na casa dos pais
com o marido e o bebê
Sim, contou com a ajuda da mãe
4 meses
Não
Mas, em termos profissionais considerou adequado o período de 4 meses
15 dias
Não
Diz ter sido muito dolorido
“E eu acho que a criança precisa de você [enfática], você percebe que durante os primeiros dias, a neném não
dormia durante o dia e eu não fui em período integral, eu ia, ficava 3 horas e voltava, eu ficava 3, 4 horas e
voltava. Mas, com 15 dias, ela ficava 3 ou 4 horas acordada, coisa que para um neném é muito tempo. Então,
assim, acho que esse contato da mãe no começo é muito importante. Então [...] hoje, eu sou super a favor da
licença maternidade e é duro não poder ficar em casa.”
Sim
Considera que 6 meses é um período melhor tanto para a mãe quanto para o bebê e que para o
desenvolvimento do bebê quanto maior o contato físico com a mãe melhor
Sim
“... agora parece, eu não tenho muita certeza, me falaram aí que agora já é lei, obrigatório a partir de março, não
sei.”
“Não foi adequado nem suficiente. Na realidade, eu tinha me planejado para ficar os 4 meses de licença, mas
acabou não sendo possível devido a um período conturbado na empresa [...]
Tinha uma outra funcionária que também saiu de licença [...] então eu tive que voltar antes....”
“E é aquela coisa, funcionário tem direito, patrão já não tem (risos).”
“Eu acabei voltando antes e eu voltei com ela [bebê] junto. Assim, e minha mãe junto.”
Não
“Eu acho que [o período de 4 meses] não foi o suficiente porque agora [...] ele [bebê] está fazendo 3 meses [...]
e daqui duas semanas eu tenho que voltar a trabalhar, então ele vai estar com 3 meses e meio.”
“... eu vou voltar a trabalhar agora e ele [bebê] não está pegando leite, sabe, são várias as coisas que você tem
que mudar e se eu não conseguir, entendeu.”
Sim
Tinha uma liberdade maior por ser proprietária da escola onde trabalha
“E eu tinha que retomar [...] pela responsabilidade do meu trabalho, mas não era nada imposto, se eu quisesse
ficar mais eu ficava.”
“... quanto eu sou abençoada de poder estar parando, por mais que como profissional autônoma, eu não tenho
assim, a licença quem está fazendo sou eu, então enquanto eu não trabalho, eu não estou recebendo, só vêm
os gastos. Mas, graças a Deus, eu tenho a possibilidade de estar passando um tempo com ele, de estar me
dispondo a estar com ele, a estar cuidando dele.”
Natália
3/F
Nos primeiros dias após o retorno ao trabalho,
trabalhava só 3 horas e não ia todos os dias
Atualmente, trabalha 5 ou 6 horas diárias
Aléxia
3 e ½/M
Sim, contou com a ajuda da mãe
Está usufruindo a licença de 6 meses
Malu
3 e ½/M
Sim, contou com a ajuda da sogra
Está usufruindo a licença de 6 meses
Beatriz
6/F
Sim, contou com a ajuda da mãe
40 dias
Manuela
3/M
Está usufruindo a licença de 4 meses
Milena
11/M
Sim, contou com a ajuda da mãe
5 meses
Júlia
1 e ½ /M
Sim, contou com a ajuda da mãe
Está usufruindo licença maternidade e
previa ficar 3 meses em licença, mas acredita que vá
estender um pouco mais
“Com certeza, eu não vou ficar 6 meses com ele
[bebê]. Talvez, eu fique os 4, não vou ficar os 3 que eu
estava imaginando (risos), mas, provavelmente, eu
fique os 4 meses para daí sim retornar.”
“Hoje, eu penso em retornar porque eu não tenho que
retornar em período integral, talvez se eu tivesse que
retornar para uma empresa, em período integral [...]
talvez eu não retornasse, não sei.”
“... por mais assim que pese o coração eu deixar ele [bebê] um pouquinho [ao retornar ao trabalho], também
sinto falta, quero rever os meus pacientes...”
163
Quadro 6. Licença maternidade ideal
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Joana
9/F
Licença
maternidade
(tempo ideal)
Justificativa
6 meses
Natália
3/F
4 meses
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
1 ano
Diz que teria prorrogado a licença se tivesse tido essa possibilidade. Gostaria de ter ficado mais 2 meses com a filha, mas como o bebê ficou com a sua mãe, considerou que não houve problema
Acha que como mãe quanto mais tempo pudesse ficar com a criança seria melhor, mas como profissional considera que ficar muito mais tempo longe do trabalho não seria adequado
Caso o bebê tivesse que ir para a escolinha, ela diz que preferiria ter tido mais tempo de licença para colocar a criança já maior na escola
Refere que no final da licença maternidade chegou a pensar: “...’você é uma mãe má, estou deixando a minha filha na minha mãe’...”
Acha que um período maior que 4 meses não é necessário. O principal seriam os 3, 4 primeiros meses de vida do bebê e considera que deixar o bebê para voltar ao trabalho, se separar do bebê será
sempre difícil em qualquer idade da criança.
“Eu acho que até os 3 meses é fundamental. Eu percebo [...] que agora [com 3 meses], ela já está em uma fase melhor que você já consegue deixar mais, você já consegue até conversar mais e ela
já entende melhor.”
“Acho que [...] os 3 primeiros meses são onde a criança realmente tem mais necessidade. Até, o pediatra sempre brincou que com 3 meses ia acabar o soluço, a criança ia dormir melhor, a rotina
estaria criada [...] ela está com 3 meses e está com uma rotina ótima, já tem hábitos, já criou aquele vínculo, você já sabe o que ela quer, ela já tem a rotina dela, os horários dela, então acho [...] que
se eu pudesse ficar aqui 6 meses seria ótimo, mas na hora de separar dela seria tão duro quanto aos 3 meses. Acho que ficar mais tempo não iria mudar isso.”
Acha que o importante é se dedicar totalmente à criança no período em que ficar com ela
“Eu já cheguei a ficar aqui em casa com ela aqui no carrinho, mas com um notebook no colo, um rádio e um celular. Aí eu falava assim ‘o que adianta eu ficar aqui em casa’”.
“Ah (risos), é complicado. Agora, enquanto mãe assim, a gente quer ficar o máximo que pode, mas assim, vou ter que voltar a trabalhar. Se eu pudesse eu ficava com ele até 1 ano, se eu pudesse.
Seria assim a minha vontade.”
6 meses
Beatriz
6/F
4 meses
Manuela
3/M
6 meses
Milena
11/M
6 meses
Júlia
1 e ½ /M
6 meses é o
ideal para a
mãe, mas não
para a
profissional
autônoma
Considera que a licença maternidade de 4 meses não era suficiente, pois o bebê com essa idade ainda era muito novo para entrar na creche
O período de 6 meses é bom “... para a mãe se organizar, ir se adaptando também, para já ir se preparando
para a volta ao trabalho, então acho que é assim um tempo suficiente. Claro que para as empresas (risos) não é bom, porque terão essa funcionária mais tempo afastada do trabalho. Ah, mas são só
dois meses a mais, acho que dá para conciliar.”
Para o bebê “... acho que está bom também. Acho que aí ele já está maior para poder ingressar na escola, já está mais preparado, tanto o bebê quanto a mãe.”
Acha que 4 meses “... é um tempo para a família se adaptar [...] que o bebê já interage, reconhece mais os pais.”
Acha que a prorrogação da licença de 4 para 6 meses “... é bom para as famílias, mas não é bom para as mulheres, pois algumas empresas não vão querer contratar mulheres por causa de mais 2
meses longe do trabalho. Para a empresa é um custo grande pagar alguém que não está trabalhando.”
Diz que se tivesse tido a possibilidade “... teria ficado os 6 meses. [...] antes de eu ficar grávida, eu achava que 4 meses era muito tempo [de licença] [...] quando eu estava grávida eu falava isso
‘como é que eu vou ficar 4 meses em casa, sem fazer nada, sem trabalhar, eu não vou conseguir’ [...] e agora a gente nem vê a hora passar [...] você acorda, faz as coisas correndo, a hora que você
vê já acabou o dia [...] e 4 meses não é nada, não é nada para ficar com ele [bebê]. Eu acho super importante, se eu pudesse eu ficava mais mesmo.”
A licença maternidade “... deveria ser até os 6 meses que agora foi liberado né. Concordo com isso porque dizem que você tem que amamentar o seu filho até os 6 meses...”
“Enquanto proprietária de escola eu acho que se essa lei dos 6 meses for rigorosamente para todos eu acho complicado. Mas, enquanto mãe é tudo de bom você poder ficar 6 meses, um pouquinho
a mais com o seu filho, em tempo integral.”
“Eu acho assim os 4 primeiros meses são os mais críticos mesmo, talvez os 6
primeiros, até vai, até 6, mais do que isso, para mim é meio difícil assim você pensar nessa pessoa, independente de ser na escola, no caso, mas assim que trabalha, uma empresa sobreviver mais
de 6 meses com uma pessoa afastada, ela vai continuar sobrevivendo sem entendeu. Então, faz falta eu acho...”
“Hoje em dia, uma mãe, ela trabalha, ela tem o seu compromisso também, hoje em dia, a mãe dificilmente abre mão do profissional dela por conta até da necessidade, então mais de 6 meses eu
acho complicado pensando em tudo.”
Em sua escola, ainda não decidiram se concederão a licença de 6 meses às funcionárias que quiserem optar pela prorrogação da licença
“... eu acho que esse projeto [...] de licença maternidade de 6 meses, agora como mãe, eu acho que é super legal, para você ter realmente um tempo bom com a criança, tem a questão do
aleitamento que a gente sabe que é importante, mas não sei se vai vingar isso, por já ter vivido o outro lado, o lado das empresas, eu não sei como vai ser. Eu acho que vai aumentar mais essa
questão [...] das meninas serem mandadas embora porque quer queira quer não, a empresa está ali bancando aquela pessoa e não pode pôr ninguém no lugar [...] mas é complicado [...] pensando
agora, é difícil, por mim, eu queria ficar com ele (risos) o máximo de tempo possível, mas...”
“... se eu estivesse na situação anterior, que eu era funcionária de empresa e tal, a questão dos 6 meses eu acho que é muito legal. Você tendo garantias, claro que não é 100% garantido, porque [...]
eu via que as meninas voltavam, tinham o período de garantia e depois elas eram postas, eram demitidas. Mas, hoje, eu vivencio uma situação diferente [...] em um trabalho autônomo, você para de
trabalhar, você para de receber, então, por isso eu penso em retornar antes.”
É complicado pensar nisso:
“... mesmo [voltando a trabalhar] depois de 6 meses, [...] a Sociedade de Pediatria eles falam que o ideal era a amamentação até 2 anos de idade...”
164
Quadro 7. Licença paternidade usufruída
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Licença paternidade
(período usufruído pelo pai do bebê)
Tempo usufruído pelo pai do bebê foi adequado?
Joana
9/F
5 dias
“Não, muito pouco (enfática) (risos). Se tivesse [um período] maior até ajudaria mais, assim, tanto ele para ajudar nos cuidados quanto para ficar
com a criança também, porque acho que 5 dias o pai não consegue, acho que o pai tira esses dias só para resolver documentação, essas coisas,
porque às vezes não dá nem tempo direito de ficar com a criança.”
Natália
3/F
Não usufruiu... só pôde ficar no dia do nascimento
e no período da manhã dos dias posteriores. À
tarde teve que trabalhar
10 dias (5 dias pela lei e mais 5 dias usufruindo de
férias não tiradas), já que bebê ficou um período
maior no hospital
Sim
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
Achava que a licença
paternidade era de 1 semana
Não usufruiu, não tirou nenhum dia
Não usufruiu, não tirou nenhum dia.
“Não, ele também teve que trabalhar. Não deu
para se ausentar da empresa.”
Diz não ter informações sobre a licença
paternidade
Ficou 1 semana por conta própria
“... não sei muita coisa [sobre licença paternidade]
porque o [...] [pai do bebê] não é funcionário, ele
não teve, ele tirou por conta própria.”
5 dias
5 dias
Não
“... o pai poderia ter um pouco mais porque assim, às vezes, nem toda mulher tem uma mãe próxima, alguém [para ajudar] [...]
então, quer dizer, o marido é fundamental também nessa ajuda, principalmente, no pós, assim, por causa dos pontos. Principalmente quem faz
cesárea, às vezes, tem um pouco mais de dificuldade, tem algum problema ou uma limitação, vamos dizer assim, e precisa da ajuda de uma
pessoa. Às vezes, tem mulher que não tem uma irmã perto, não tem uma mãe perto e com isso acaba tendo uma certa dificuldade em estar
cuidando do bebê, porque no começo você fica meio atrapalhada mesmo, muda um pouco, um pouco não, muda bastante a sua rotina (risos).”
“... ele continuou trabalhando, ele não fez questão não, porque é dele o negócio.”
“Não, acho pouco tempo [5 dias] para ficar com a família. São muitas mudanças. Só para a mulher tirar os pontos, como eu que fiz cesárea, são
15 dias e a recuperação é um pouco mais demorada [...] nem todo mundo pode contar.”
“... não. Acho que deveria ser mais [que 5 dias].”
5 dias é bem pouco
“Não saberia te dizer não sobre licença paternidade, não saberia (risos). Acho que é pouco divulgado, também acho que ninguém sabe...”
Acha pouco 5 dias
“... se o pai pudesse ficar um tempo maior, porque assim, quer queira quer não, a gente como mãe está com o filho na barriga [...] existe um
vínculo já [...]
Com o pai, é diferente [...] acho que ele precisa desse tempo para estabelecer um vínculo com a criança, que é muito importante para o pai e é
muito importante para a criança [...] especialmente, no caso de um menino, porque depois vai ter toda a questão da identificação.”
165
Quadro 8. Licença paternidade ideal
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Licença
paternidade
(tempo ideal)
Justificativa
Joana
9/F
1 mês
Natália
3/F
5 dias
Aléxia
3 e ½/M
15 dias
Malu
3 e ½/M
15 dias
“Acho que daria até para o pai aproveitar a criança, porque recém-nascido, às vezes, é bem pequenininho, às vezes, o pai tem até receio de pegar.”
Seria adequado para a família em si e para a criança: “...
porque [...] tem pai também que trabalha muito e que, às vezes, acaba [...] nem vendo [...] [o bebê] [...] acaba não tendo muito contato...”
Tem “... muitas vezes que ela [filha] não [...] vê [o pai], acorda ele já não está e aí ela também vai dormir e ele não está em casa. Então, acha que fica né, acho que tanto para o pai quanto
para a criança, a presença.”
“... eu sou muito apegada com a minha filha, não sei se meu marido ia... ele não gosta muito de cuidar. Eu acho assim tem pais que, de certa forma, se dispõem, eu acho que não teria
problema nenhum [caso o casal pudesse escolher quem ficaria com o bebê e pudesse ficar um período maior], o pai, de certa forma, estando disposto a cuidar da criança, porque, às vezes,
acaba a criança tendo mais vínculo com a mãe pelo fato dos cuidados, às vezes, seria uma oportunidade do pai também participar mais.”
Não vê necessidade da prorrogação de 5 para 15 dias
“Porque assim, é uma fase em que a criança dorme muito na verdade (risos). Então, quando ela acorda, o que ela quer? É a mãe para amamentar. É uma fase, principalmente o primeiro
mês, é uma fase em que a criança não fica acordada. É acordar para amamentar e dormir. Então, eu acho que é um período que, na verdade, o pai não pode... [...]
o pai não faz muita coisa. Não tem como fazer muita coisa. Tem pessoas, tem mãe que acha que vai amamentar e que o pai tem que acordar de noite para ficar... sei lá, para mim é meio...
quem vai ter que acordar é a mãe [enfática], quem vai amamentar é a mãe. Eu acho que o pai entra em outras fases, acho que quando está maior, que nem agora com 3 meses você já
percebe que ela já interage, ela já conversa... conversa assim do jeito dela, já conhece, mas nossa no primeiro mês, segundo mês a criança não tem essa... assim, ela interage com a mãe
mesmo.”
É a favor da ampliação de 5 para 15 dias e considera interessante
“... eu acho assim, 15 dias acho que já está... porque assim para quem faz uma cesárea, eu pelo menos, a minha recuperação, até mesmo antes de 15 dias eu estava bem já. Então, acredito
que 15 dias, para uma mulher que não tenha ninguém perto, 15 dias de um apoio do pai já é, depois de 15 dias, a recuperação dela já está, a não ser que ela tenha um problema maior, mas
se foi tudo bem, dentro da normalidade, para ela, um companheiro, marido, sei lá, ficar 15 dias acho que já está um tempo adequado sim.”
“Ah, eu acho que é mais justo para os pais. Os pais precisam se envolver mais com os filhos, para dar uma força, um apoio moral (risos) aí para as mães.”
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
15 dias
“Acho que 15 dias já seria um período melhor para a família e para os bebês, acho que quanto mais tempo o bebê passa com os pais melhor. Mas não é bom para as empresas.”
1 mês
Milena
11/M
7 a 15 dias
“... o primeiro mês é muito [enfática] difícil.”
“... eu conheço gente e eu achava que era besteira esse negócio de depressão pós-parto, mas não é. Eu tive. [...]
Eu chorava, só chorava, chorava, chorava. Eu fazia tudo [...] para [o bebê], mas eu sentia uma insegurança assim enorme, entendeu. E eu ficava sozinha e não queria que a minha mãe ou a
minha sogra fossem lá, eu queria que ele [marido] ficasse comigo [enfática] entendeu, eu precisava que ele [enfática] estivesse ali do meu lado. E com outras pessoas que eu conversei
também foi assim.”
Relata o caso de uma amiga que foi auxiliada pelo marido que tirou 1 mês de férias para ficar junto com ela logo após o nascimento do bebê
“Eles ficaram esse 1 mês juntos [...]. Então, ele ajudou muito ela e ela se sentiu super segura.”
“Tudo bem que o homem, ele não sofre nada fisicamente, nem nada, mas é super importante estar ali do lado, sabe, ajudando...”
“... nesse primeiro mês [...] a médica fala assim para você ‘olha, você não tem que especificar horário para ele [bebê] mamar, toda hora que ele quiser mamar, ele tem que mamar’, só que
assim esse ‘toda hora que ele quer mamar’ pode ser de meia hora, 40 minutos [...] e isso à noite também [...] então você fica que parece um zumbi e aí se você tem uma pessoa que, por
exemplo, você dá de mamar e aí você dá o bebê para o teu marido, por exemplo, e ele faz arrotar e coloca para dormir [...] porque todo esse processo demora e aí você vai e dorme um
pouquinho pra balancear um pouco.”
Acha que 1 semana já seria bom para a mãe
No máximo, a licença deveria ser de 15 dias
Júlia
1 e ½ /M
Mesmo período
que o da licença
maternidade ou,
ao menos, 1
mês
Marido teve férias coletivas umas duas semanas após o nascimento do bebê e “... eu vi o quanto foi importante, o quanto ele [marido] se envolveu, então eu acho sim que poderia ter [...]
nem que fosse 1 mês para o pai poder curtir essa criança, eu acho que seria bem legal, vale muito à pena.”
A ampliação da licença de 5 para 15 dias não é o que ela queria, mas é válida, considera já um avanço. Ela desconhecia o projeto de lei.
“O meu marido com certeza [enfática], (risos) com certeza [gostaria de ter o mesmo tempo de licença que a mulher]! Ele brincava muito, ele queria que o neném nascesse em uma segundafeira para ele poder ter os 5 dias e mais o final de semana [...] Conheço [...] alguns pais que não [gostariam], mas ele sim, com certeza.”
166
Quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus bebês
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Modalidade atual
de EI
Justificativa para escolha da modalidade atual
Modalidade
prevista de EI
Justificativa para escolha da modalidade prevista
Joana
9/F
Bebê fica com a avó
materna na casa dos
avós
Não discorda de nada da educação que recebeu da mãe
Mãe [avó materna do bebê] dá carinho e limite, confia na mãe
Avó materna se ofereceu para cuidar
“... eu gostaria que ela [filha] ficasse pelo menos nos primeiros
meses até ela [filha] ficar um pouco maiorzinha [para depois ir para
a creche].”
Todos estavam de acordo na família
Avó materna providenciou toda uma estrutura para receber o bebê
“Minha mãe montou lá (risos) um berçário (risos) [...]
tem bercinho, [...] tem carrinho, tem mamadeira, tem tudo o que
precisa, roupinha, [...] brinquedinhos...”
Considera o cuidado oferecido pela mãe como de melhor
qualidade do que seria oferecido em uma escolinha
Avó materna adora cuidar do bebê
Com 4 meses a criança ainda é muito pequena para freqüentar
creche
“... com 4 meses, o nenezinho fica muito sensível aos cuidados de
quem está com ele...”
“... foi uma coisa que a gente sempre planejou, ‘ah, quando eu
ficar grávida, vai ter que ter uma pessoa’.
Considera que essa opção foi adequada para eles
Queriam alguém de confiança
“... a gente achou que escolinha não era o ideal. Até os 6 meses,
escolinha nem pensar.”
A única obrigação da babá é se dedicar integralmente ao bebê
Bebê freqüentará
creche pública em
São Caetano
[Escola Municipal
Integrada], em
período integral
Para a criança não ficar sozinha, interagir com outras crianças, aprender a dividir, se desenvolver, ter
estímulo, fazer atividades porque, às vezes, em casa com a avó ou com a mãe, não se sabe quais
atividades desenvolver com a criança e não se estimula suficientemente
Na escola tem mais atividade de recreação, brinquedos do que em casa (criança aprende a ficar
sentado, em pé)
Liberar os avós do cuidado
Pensou em colocar somente meio-período, mas o que atrapalharia seriam as férias em janeiro e em
julho, por isso optou pelo período integral
Creche particular custaria em torno de R$ 900,00 por mês, custo elevado a está fazendo optar pelo
custo-benefício. Foi conhecer e percebeu que os cuidados são praticamente os mesmos tanto na
pública quanto na particular. Além disso, ouviu também comentários positivos sobre as creches
públicas de São Caetano
Vai manter a
modalidade atual
Se tudo continuar
do jeito que está,
bebê deverá ficar
com a babá até 1
ano, 1 ano e meio
Não irá mais levar
a bebê com a babá
para o trabalho
dela, como
anteriormente
havia planejado
Bebê e babá se adaptaram muito bem
“Acho que não existe uma receita, se eu deixasse com a [...] [primeira] babá, eu jamais deixaria ficar
aqui sozinha, não que ela não fosse boa, mas porque eu não ia confiar, então [...] [bebê e babá] iria
comigo para a escola, para o meu trabalho. Eu, com certeza, iria colocar ela [bebê] na escolinha antes
do que eu acho que vou colocar ela ficando com essa babá atual. Então, [...] é tão cada caso. Mesmo
sendo você, você muda conforme... não tem receita, não é fácil.”
Tem condições de pagar uma pessoa para ficar período integral e acha que é o ideal
Mãe vai ver o bebê
na hora do almoço
também
Natália
3/F
Bebê fica com uma
babá em casa, que
trabalha período
integral e dorme na
casa
Mãe faz questão de
estar presente em
alguns momentos:
quando a bebê
acorda, na primeira
mamada, na primeira
troca, na hora do
banho
167
Continuação quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus
bebês
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Modalidade atual
de EI
Justificativa para escolha da modalidade atual
Modalidade
prevista de EI
Justificativa para escolha da modalidade prevista
Aléxia
3 e ½/M
Mãe está em licença
maternidade com o
bebê em casa
Pais e bebê moram
na casa da avó
materna
Licença maternidade de 6 meses
No meio-período
em que a mãe
voltará a trabalhar,
o bebê ficará com
uma pessoa de
confiança em casa
sob a supervisão
da avó materna.
Ou mãe usufruirá
de licença sem
vencimentos para
ficar com o bebê
Malu
3 e ½/M
Mãe está em licença
maternidade com o
bebê em casa
Licença maternidade de 6 meses acrescidos de férias e
qüinqüênio
Beatriz
6/F
Família leva o bebê
para o trabalho, para
a
empresa
de
propriedade
da
família onde pais e
avós
maternos
trabalham. Lá, fica
sob os cuidados da
avó materna
Mãe tinha planejado ficar os 4 meses em licença maternidade e
mais alguns meses em casa com o bebê, mas isso não foi possível
“Foi meio que um consenso entre eu, meu marido e meus pais
que a melhor opção seria levar minha filha para o trabalho, até
porque há espaço lá para ela e seria ótimo ela ficar por perto. Eu
estou lá, o pai está lá e os avós também.”
Avó materna adora ficar com o bebê
“Todo o tempo, ela [avó materna] diz ‘pode deixar que eu fico, se
precisar eu fico’.”
Bebê irá para a
creche pública
[Escola Municipal
Integrada] em São
Caetano em
período integral
com 7 meses e 20
dias
Caso não consiga
vaga, bebê irá
para creche
particular
Vai manter a
modalidade atual
Irá procurar uma pessoa com certo preparo e conhecimento para ficar com o bebê
Se tivesse atendimento meio-período em creche pública deixaria o bebê na creche
Quer ficar com o bebê durante o meio-período em que não trabalha, quer manter o vínculo e o contato
com o bebê, fará questão de, por exemplo, dar banho no bebê
Avó materna não trabalha fora
Conversou com a família sobre a decisão
Avó materna não se ofereceu para cuidar, mas aceitará a decisão da filha
“...eu não vou deixar nas costas dela, de eu falar ‘ah, ela vai cuidar’, primeiro porque eu não acho justo,
porque ela já cuidou da gente, dos seus filhos, então, na verdade, é mais ela estar próxima, para ela
estar com essa pessoa mesmo, porque queira ou não, a gente quer ter uma pessoa de confiança perto.
Então, ela ficaria mais assim só acompanhando mesmo o dia-a-dia dele, enquanto eu não estou, só
isso, mas não para ela ter o trabalho, seria mesmo só para ela estar supervisionando...”
“...primeiro eu vou ver se eu consigo alguém, se eu não conseguir, deixar em período integral só se eu
realmente não puder ficar um período sem receber, mas se der, se a gente perceber que dá [...] para a
gente ficar um certo tempo sem o salário tudo, aí eu posso até solicitar essa licença [sem
vencimentos]...”
Conversou com o marido e ele está de acordo que o bebê vá para a creche pública. Relata que o
marido não gostaria de pagar creche particular
“Acho que eu quis tanto que ela nascesse que seria muito triste se eu não pudesse ficar com a minha
filha.”
Não pretende colocar o bebê em creche antes dos 2 anos
168
Continuação quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus
bebês
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Modalidade atual
de EI
Justificativa para escolha da modalidade atual
Modalidade
prevista de EI
Justificativa para escolha da modalidade prevista
Manuela
3/M
Mãe está em licença
maternidade com o
bebê em casa
Licença maternidade de 4 meses
Bebê ficará com a
avó paterna na
casa dos avós
Decisão de deixar o bebê com a avó paterna foi influenciada pela idade do bebê, pela opinião da
pediatra “... que entende super do assunto...”, pelo fato da sogra não trabalhar e ter mais
disponibilidade e pelos avós terem se oferecido para cuidar do bebê
“... ela [sogra] ama [enfática], ela vai adorar, ela está super feliz que ele [bebê] vai ficar com ela.”
Antes dos avós se oferecerem, pensavam em colocar o bebê na creche particular
Pediatra falou que com 4 meses é muito cedo para o bebê ir para a creche
Casal conversou sobre a decisão
Casal acredita que vai economizar cerca de R$ 1500,00 por mês não colocando o bebê em escola
particular
Gostaria que tivesse creche no local de trabalho
“Se tivesse uma creche lá, aonde eu trabalho, se tivesse um berçário, alguma coisa assim, eu levaria
ele junto [...]. Eu deixaria ele lá, aí parava, dava mamá, [...] Eu trabalho 6 horas, mas se eu pudesse
fazer isso, eu trabalharia até mais, porque eu ficaria um período maior lá para compensar o horário da
mamada e o horário que eu estou trabalhando. Eu acho que é importante, acho que deveria ter. Mas,
não é, não são todas que têm, não sei nem se tem em alguma.”
“... já era para eu ter trazido [o bebê para a escola] [...] fui protelando, aí ele [bebê] ficou doente [...]
mas já passou da hora de vir para a escola...”
“... nessa idade de 1 ano eu já acho necessário mesmo [colocar na creche]. Hoje em dia, a criança,
porque assim os avós eles já começam a não ter a disponibilidade física, há um cansaço, a gente se
cansa [...] quem dirá os avós. Então, acho que é o tempo certo, 1 aninho já está maiorzinho tudo, mais
fortinho, eu iria realmente já procurar [uma creche, caso não fosse proprietária de uma].”
Mãe pensa em
colocar o bebê na
creche quando ele
já estiver com 1
ano, mas não sabe
se será na pública
ou na particular
Milena
11/M
Fica com a avó
materna na casa
dela durante parte do
dia e depois fica com
a mãe que reduziu
sua carga horária no
trabalho para poder
ficar outra parte do
dia com o bebê
Júlia
1 e ½ /M
Mãe está em licença
maternidade com o
bebê em casa
Não quis colocar o bebê na creche para evitar que o bebê ficasse
doente, pois “.... as crianças têm mais probabilidade de ficar
doente [na creche] sim do que ficando em casa.”
Pais dos bebês usuários da escola de sua propriedade questionam
porque o bebê dela não está freqüentando e ela alega que é
mesmo para evitar que o bebê fique doente
Avó materna trabalhava na escola particular da filha e saiu “de
licença” junto para acompanhá-la
Pela idade da avó materna, considera que seria mais sossegado
para a avó ficar cuidando do bebê mais um tempo do que retornar
ao trabalho na escola. Avó pensa em retomar o trabalho na escola
quando o bebê começar a freqüentá-la
Avalia positivamente o cuidado da avó materna
“... eu falo ‘vou levá-lo para a escola [...]’ e ela fala ‘espera o
aniversário de 1 aninho’, então ela é muito mãezona nesse
sentido...”
Mãe pretendia ficar em licença maternidade por 3 meses, mas está
pensando em estender para 4 meses
Bebê passará a
freqüentar a
creche/escola
particular de
propriedade da
mãe quando
estiver com 1 ano.
Ele frequentará por
algumas horas
diárias, pois ainda
ficará parte do dia
com a mãe que
manterá a redução
em sua jornada de
trabalho
Bebê deverá ir
para a creche
pública ou
particular aos 4
meses, quando a
mãe retornar ao
trabalho
Conversou bastante com o marido sobre a escolha das modalidades de educação e cuidado
Relata valorizar que o bebê seja estimulado e acreditar que as pessoas que atuam nas creches
estejam mais atualizadas, passem por reciclagem e treinamentos, já que é o trabalho delas
Expressa valorizar também que o bebê tenha contato com outras crianças, mas, apesar disso
“... pesa o coração de deixar [o bebê na creche], você fala ‘poxa vida, tão novinho, será que vão cuidar
direito?’, dá uma certa insegurança sim.”
Avó materna mora longe
Pretende encontrar uma creche que acompanhe a flexibilidade dos seus horários de trabalho, para que
ela possa ficar parte do tempo com o bebê e para que ele não fique em período integral
169
Quadro 10. Concepções sobre creche e escola
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Como se refere
às instituições
de educação e
cuidado para
bebês? (Além
da utilização da
palavra creche)
Concepções
Joana
9/F
Escolinha
Escola
“... para mim [...] é uma escola, é uma escolinha, que nem é uma escola só que para crianças que, de certa forma, vão ficar período integral [...] na cabeça, está mais escola do que creche.”
“... nunca liguei e perguntei ‘ai, deixa eu ver uma creche’, porque normalmente as escolas tanto que as EMIs [Escolas Municipais Integradas de São Caetano do Sul] eles não falam que são
creches, são as escolas municipais e as escolinhas também, é uma escola que, de certa forma, o pessoal tinha para primário, jardim, prézinho e eles abriram pras crianças, para os bebês em
período integral, acho que é essa diferença, por isso é que eu acho que é o fato de escola e não creche.”
Acha que creche seriam só os cuidados básicos com a criança, escola já desenvolveria mais atividades do que a creche
Natália
3/F
Escola
Berçário
Escolinha
Chama de creche o que é público e de escola o que é particular
“Eu acho que a diferença não é de nome, acho que tem escolas que se você for pôr talvez sejam piores que uma creche. O que eu acho é que se você optar por colocar em uma escola ou em
uma creche você tem que conhecer as pessoas que trabalham lá, qual é assim a condição realmente do lugar e eu acho que quando eu falo escola, querendo ou não, assim tem escola que
você paga R$ 500,00 que vai ser pior, talvez, que uma creche [...]
quando eu penso em uma escola eu penso assim em uma escola particular, mesmo particular, mas em uma top. Porque a gente sabe também que tem escola particular que a gente paga R$
500,00 para ficar lá período integral e que talvez seja pior que uma creche. Então aí, não é nem o termo creche ou o termo escola, o problema não é esse. É que quando eu penso em uma
escola, eu penso em uma escola top, então aí assim que tenha, realmente, todas aquelas condições principalmente as pessoas qualificadas, tenham um outro salário, que tenha os melhores
profissionais. Então assim, talvez se você comparar uma creche pública com uma escolinha que a gente fala de bairro, talvez não tenha diferença nenhuma.”
“[Creche] eu acho que é um lugar onde você... que tem cuidados com a criança. São lugares que têm, geralmente, psicólogos, orientadores que se dedicam para as crianças. Eu acho que são
bons lugares, com certeza, tem bons lugares [...] A única coisa que eu acho é que lá ou em qualquer outro lugar não tem assim dedicação, é muita criança e poucos profissionais talvez.
Poucos que eu falo é que hoje o importante seria assim uma criança para cada [adulto]”.
Aléxia
3 e ½/M
Escola
Escolinha
Malu
3 e ½/M
Escola
“[...] na verdade, a gente [em São Caetano] nem fala muito creche mais, na verdade é como se fosse uma escola mesmo, a pré-escola, mas aí a gente fala ‘de 0 a 6 anos’...”
“...uma escola específica para bebês, não é só uma creche, porque eu acho que não é só o cuidar, acho que também tem o educar, porque cuidar a gente acha que é só mesmo a parte de
higiene, alimentação e o educar não, engloba tudo também.”
Usa o termo berçário somente relacionado à faixa etária de atendimento dentro da creche/escola
“... eu não gosto de usar essa palavra creche, eu prefiro usar escola [...] Escola de educação [enfática].”
Se refere ao fato de em São Caetano as creches públicas serem denominadas escolas
Beatriz
6/F
Escolinha
Escola
Manuela
3/M
Escola
Escolinha
Berçário
Escola
Escolinha
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
Centros
Berçário
Escola
“... acho que creche é pública e escola é particular. Mas, EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil] também é escola e é pública. Não sei, acho que a diferença é mais [...] só uma questão
de nome.”
Creche pública: “... onde você possa deixar seu filho que seja cuidado e isso daí é pago pelo Governo, no caso, a Prefeitura. Pessoas que não têm possibilidade, às vezes, de deixar em uma
escolinha particular, então deixam na creche. Que o certo seria a gente não ter que pagar também, eu acho que deveria ter [...] cuidados de acordo, sem ter que ficar... porque a gente já paga
tanto imposto no nosso país, então eu acho que toda mulher que pretende ter filho, não tem com quem deixar e pretende continuar trabalhando, deveria ter direito a uma creche de acordo.”
“... na creche, talvez, como tem mais gente [não é só uma pessoa como no caso de uma babá], então se tivesse algum problema [no atendimento do bebê] é mais fácil de você perceber.”
“... acho que é só por maneira de falar mesmo, acho que não tem [diferença] [...] nunca parei para pensar nisso [se teria diferença entre um termo e outro].”
Chama as creches municipais de escola
“É assim, a creche, para mim remete mais ao público. Escolinha é mais o particular. Eu acho que isso está posto (risos) né.”
A creche serve para: “Uma creche é para atender a criança nos seus cuidados, nas suas necessidades, nas suas peculiaridades, enfim no atendimento, no cuidado e na educação também,
tem esses dois lados, a parte da segurança emocional, física, cuidado com tudo isso e a parte mais relativa também à educação como se estabelecem as relações, a questão do currículo,
acho que é uma soma aí. Creche é tudo (risos).”
Usa o termo berçário somente relacionado à faixa etária de atendimento dentro da creche/escola
“... acho que se você fala em berçário dá aquela impressão de uma coisa mais bem cuidadinha, com os estímulos, brinquedos, enfim com mais cuidado [do que creche]”.
A creche serve para: “... acho que é isso, é a questão da mãe ter onde deixar para poder continuar a sua vida profissional, mas também um local de cuidados da criança, não só os cuidados
básicos [...] mas de ter um estímulo, ter algo a mais, não ficar só nos cuidados básicos. E um conforto e uma segurança para a mãe que precisa retornar ao trabalho.”
170
Quadro 11. Quando o bebê deve começar a freqüentar a creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e sexo
do bebê
Joana
9/F
Qual a idade ideal para um bebê freqüentar a
creche?
Justificativa
9, 10 meses ou 1 ano
Natália
3/F
“Eu acho que a partir de uns 2 ou 3 anos.”
Aléxia
3 e ½/M
“... com 1 ano, 1 ano e meio mais ou menos [...] até
com 2 anos eu acho que eu colocaria...”
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
“... acredito que com 6 meses já seja o ideal...”
“...eu acho que assim com 9, 10 meses ou 1 ano porque eu acho que a criança, eu vejo pela minha filha, não sei,
porque cada criança também anda num certo período, pra mim, ainda mais que eu trabalho fora, eu acho que a partir
dos 8 meses que [...] a criança já consegue entender, [...] que ela reconhece já os pais, eu acho que é uma idade boa
porque [...] você já consegue perceber muito assim se ela não gosta da pessoa ela já reage, que nem vai no colo de
fulano, se for na escolinha, a criança de certa forma já reage, ela vai para o colo, se ela não gosta ela já chora, não
quer, então você já consegue acho que perceber na criança se ela, de certa forma, está sendo bem cuidada ou não.”
Com 2, 3 anos o bebê já teve uma base da educação, um aprendizado em casa com a mãe ou com uma pessoa de
confiança: “... ele vai começar a se virar sozinho, mas os principais passos foram dados em casa.”
“Eu acho que até 1 ano, eu acho que uma escolinha não é o ideal.”
Antes de 1 ano não colocaria o bebê na creche
“... se uma criança entra na escola com 1 ano, ela já vai levar para a escola uma bagagem muito maior do que um
bebê que entra aos 4 meses em uma creche porque ele passou só 4 meses com a família, então a partir dos 4 meses
ele já vai ser inserido em uma outra sociedade que é a escola e uma criança de 1 ano, vai 2 anos, ela já tem uma
vivência daquele período...”
Com 4 meses o bebê é muito novo e mães ficam com dó de colocar na creche
Manuela
3/M
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
“Com 1 ano eu acho que seria o ideal...”
Mas, pensa em colocar sua filha somente lá pelos 2
anos na creche
1 ano
A partir de 1 ano
“Ai, que pergunta difícil! Não sei...”
“Acho que no mínimo, no mínimo, com uns 6 meses,
mas com ele mesmo[seu bebê] eu acho que eu não
vou conseguir cumprir isso que eu estou te dizendo,
acho que ele vai antes de ter 6 meses, então é
complicado.”
“... quando a mãe trabalha e não tem com quem deixar, a creche, eu não sei a partir de que idade, não sei te falar
com quantos meses a criança já pode ir para a creche...”
“... fica complicado porque eu acho que o bebê é muito pequenininho [com 4 ou 6 meses] para você deixar com
alguém, eu... se eu fosse deixar ela na creche assim, eu ia sentir muito...”
“Acho que daí [com 2 anos] não sacrificaria muito ela e já seria melhor, aí ela já estaria falando e poderia me contar se
acontecesse alguma coisa.”
Relata que o pediatra disse que com 4 meses o bebê é ainda muito novo para ir para a creche
Pretende colocar seu bebê quando estiver com 1 ano e no verão para evitar doenças
“... agora você [...] fez uma pergunta difícil, porque assim (risos) eu estou nesse impasse. Você vê, a escola é minha,
e eu já poderia ter trazido, não trouxe, por quê? Porque assim se a gente for ver, a partir dos 4 meses da licença tá,
[...] até 1 aninho [...] o sistema imunológico está sendo formado. E é onde eles ficam mais doentes, mais, então isso
me assusta um pouco realmente antes de 1 ano [...] em termos de saúde, a fragilidade até 1 aninho eu acho muito
grande..”
“... porque [...] acho que depende muito [...] mais da necessidade até da mãe de voltar a trabalhar...”
171
Quadro 12. Creche de boa qualidade X creche de má qualidade
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do
bebê
O que considera como uma creche de boa qualidade?
O que considera como uma creche de má qualidade?
Joana
9/F
Ambiente adequado, local para a criança dormir, número de adultos para cuidar, se a criança fica muito tempo sozinha,
alimentação, se tem regras, limpeza, se não tem perigo, se tem horário flexível que se adéqüe ao horário de trabalho da
mãe
“... é uma preocupação geral com quem está cuidando, como é a relação com a criança e o ambiente.”
Tem que ter atenção “... de certa forma, a creche tem que tentar se adaptar [à criança, aos seus costumes] [...] o
profissional tem que, de certa forma, respeitar essa coisa da criança e impor uma rotina e desenvolver atividades [...]
‘olha, vamos comer, está na hora’ e também respeitar a criança, vamos supor, ah, se a criança ficou com fome um
pouco antes, não vai deixar a criança passar fome, acho que é neste sentido de cuidar, respeitar a criança, mas
também impor limite para a criança também já ir aprendendo os horários, os limites.”
“Eu acho que ela tem que ter bons orientadores [...] acho que tem que ter atendimento... tem que ter um psicólogo, um
pedagogo, se possível, assim uma enfermeira de primeiros socorros, essa preocupação de educação, de levar em
escola, trazer da escola, uma excelente alimentação conforme a idade da criança [...] para ser uma boa creche deveria
ter limpeza, aposentos para a criança poder dormir [cantinho de cochilo], limpeza, higiene [...] orientadores [...] de ter
alguém que brinque com eles nessa parte de educação [...] Eu acho que praticamente para uma criança é isso, brincar,
comer e dormir [...] [ter uma] alimentação adequada com uma nutricionista porque o que uma criança de 1 ano come
não é a mesma coisa que outra come. Aquela coisa de forçar a comer fruta... imagina se em uma creche eles vão né,
mas deveria.”
Ter profissionais especializados, capacitados
“... eu acho que é importante nessa fase um por um [um educador para cada bebê] e é lógico é humanamente
impossível em uma creche ter isso.”
Considera as creches públicas de São Caetano como de boa qualidade
“... a gente que conhece, gente que trabalhou, a gente que estudou, que fez magistério, fez pedagogia você olhando,
você entrando em uma escola e vendo o espaço físico, você já percebe, ‘ah, é um lugar que está preparado’...”
Creche de qualidade tem transparência, mostra o trabalho que desenvolve com a criança, porque isso inspira confiança
nos pais
“Se você sabe o que está sendo feito com o seu filho, você confia.”
Creche de qualidade tem qualidade de ensino, “... pessoas especializadas, preparadas para cuidar de um bebê tanto
fisicamente quanto mesmo na parte de educação...”, pessoas com comprometimento, qualidade de alimentação (não
tem restrições por falta de comida), qualidade na parte física e de higiene
Uma creche com muitas crianças para poucos adultos cuidarem
Não pode haver áreas muito separadas no ambiente para não se perder o controle do que está
acontecendo com as crianças
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Número de crianças não tão elevado e uma proporção adequada de educadores para cuidar das crianças, boa
alimentação, limpeza, higiene, envolvimento e respeito no atendimento
“Eu acho que é uma que não tenha nada disso (risos) [do que a creche tem que ter para ter
qualidade]. Um lugar onde você simplesmente largue, um lugar em que você deixe seu filho, que
vai ter alguém lá para pegar seu filho e depois para te devolver às 5 da tarde, mas que não
tenha uma boa alimentação, que não tenha uma higiene, que não tenha cuidados básicos...”
Que não tenha profissionais capacitados e nem alimentação de qualidade
Avalia que algumas creches particulares não têm estrutura adequada:
“... Para o pai que é leigo, [...] [para uma] pessoa que não entende do trabalho com a criança, às
vezes, vê o bonito e acha que é uma escola de qualidade, não está preocupado com o que vai
ser passado para a criança, o que vai ser ensinado. O trabalho feito tem que ter aquela
transparência [...] se o pai quiser conhecer o trabalho do professor, se o pai quiser conhecer o
trabalho do dia-a-dia da escola [que ele possa chegar ] em um determinado horário e falar ‘eu
quero ver como é o trabalho’ [...] aquela escola que não tenha [qualidade], ela não permite esse
acesso, assim essa abertura para os pais para conhecerem...”
“Se você não sabe [o que está sendo feito com o seu filho], você desconfia.”
“... muitos pais colocam [as crianças em algumas escolas sem qualidade] porque, às vezes, não
têm conhecimento e não sabem o que precisa ter ou não para ter uma escola de qualidade [...]
a gente conhece pais [...] que, às vezes, não sabem, enfim, para eles tanto faz, eles precisam
de um lugar para deixar o filho e muitos, [...] não estão preocupados em saber o que é ou o que
não é. Outros não [enfática], outros querem sim conhecer, querem saber...”
Alguns pais colocam o bebê “... na particular porque ‘ah não, meu filho estudou na particular’,
faz questão, às vezes, até de falar o nome da escola para gerar um certo status. Tem gente que
ainda pensa nisso, não pensa na qualidade, pensa no status.”
“... que as pessoas não estão treinadas, preparadas para cuidar dessas crianças, para educar,
não tem higiene, não tem limpeza, alimentação ruim, precária, então isso daí não tem nem
condições. [...] Número muito grande de crianças para poucas pessoas cuidarem...”
Não ter apoio maior dos governantes, dos políticos e ter que depender de doações
172
Continuação quadro 12. Creche de boa qualidade X creche de má qualidade
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do
bebê
O que considera como uma creche de boa qualidade?
O que considera como uma creche de má qualidade?
Beatriz
6/F
Proporção adulto/criança adequada, atenção com as crianças, boa alimentação, higiene e limpeza
Tem que ter pessoas qualificadas que gostem de cuidar de criança e que tenham paciência para dar toda a atenção e o
cuidado que a criança precisa
Manuela
3/M
Uma creche onde não tenha acontecido nada com os bebês, que não tenha tido acidentes
Tem que ter “Pessoas qualificadas para cuidar de bebê [...] Além disso, o lugar eu acho que tem que ser muito legal, um
lugar aberto sabe, o espaço com bastante brinquedo colorido...”
Não pode ser um lugar escuro
“... acho que é importante ter, sabe, não só deixar o bebê no berço, por exemplo, [...] colocar assim ao ar livre...”
Tem que ter uma proporção adequada de crianças para cada adulto
O espaço é primordial. Onde a criança vai ficar, limpeza, umidade, luminosidade. Algumas escolas não têm isso
“Não procuraria também uma escola muito grande pra essa idade de 1 aninho, 1 ano e meio porque eu assim, a gente
se assemelha muito à clientela que eu atendo, classe média no sentido assim e meio protetora, então, quer dizer, não
quer que a criança se perca no mundo, embora a realidade de São Caetano é muito diferente, ou seja, para quem tem
dinheiro, a estrutura, a mega estrutura, a coisa bonita, grande, o status disso é muito valorizado pelos pais, muito mais
do que o pedagógico. “
Prefere um lugar aconchegante, com condições físicas adequadas e o acesso às pessoas, um bom atendimento, se é
bem recepcionada, como vai ser o relacionamento no dia-a-dia com a creche, acolhimento. Se o ambiente for legal, se
ela se sentir bem acolhida, acha que seu filho também será.
Valoriza isso mais do que se a creche tem psicóloga, por exemplo
Mensalidade cara não necessariamente indica que a creche tem qualidade
“... eu, de classe média, não procuraria também uma escola com uma mega mensalidade achando que também você
pagando você tem tudo de bom e mais um pouco assim, o critério mensalidade ele é relativo porque não é aquele custo
fixo que você tem no mês, existem as despesas todas extras que você tem...”
Que tenha preocupação pedagógica, que pense em ações que proporcionem o brincar, a brincadeira simbólica, que a
criança possa ser criança
Que discuta questões específicas, os problemas, tem que ter circulação de informações sobre as turmas, sobre cada
criança em cada ano, para se garantir a continuidade, preocupação com a forma de avaliar, troca entre as professoras.
Ela acredita que nem sempre se tem essa preocupação
Tem que ter estímulo, não só cuidados básicos
Convívio com outras crianças
“... tem que ter toda uma infra-estrutura, então tem que ter um berçário para ele ou uma cadeirinha, hoje tem umas
cadeirinhas super legais que a criança meio que se mexe e a cadeira balança, então ela mesmo se embala ali e com
brinquedinho [...] tem questões que acho que são mínimas, da questão de higiene, de segurança, então tem que ter
pessoas responsáveis ali, a criança não pode ser largada porque a gente sabe que [...] as crianças já se mexem muito
mais cedo hoje, então assim, tem que ter toda essa questão de cuidado para a criança não se machucar, enfim, a
questão da higiene que eu acho importante e da alimentação, e essa questão dos estímulos, de ter essa parte
emocional, de ter um convívio bom...”
“... ter poucas pessoas para olhar as crianças [...] não sei quantas pessoas que daria para
cuidar de um bebê. Aliás, uma pessoa para quantos bebês. Acho que ficar uma pessoa
sobrecarregada, a alimentação não ser de acordo, o lugar onde a criança fica também não
ser limpo, pessoas que não sejam qualificadas para cuidar, porque, às vezes, a pessoa
trabalha naquilo, mas não leva nenhum jeito para cuidar de criança...”
Não ter pessoas capacitadas, não ter um ambiente legal, ter muitas crianças para poucos
profissionais cuidarem
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
“Uma creche de má qualidade? É o oposto de tudo isso que eu falei [de uma creche de
qualidade], mas assim que realmente não respeite a criança na sua fase de
desenvolvimento e que não avalie, não tenha esse olhar para a criança, das suas
necessidades, dos seus interesses, do que ela precisa, que só fique realmente nos
cuidados físicos, quer dizer, de estar assim [...] com sono em ordem, bem alimentada, bem
cuidada fisicamente. Que não tem uma preocupação com o emocional, com o afetivo.”
Muitas crianças em um mesmo berço, que as pessoas responsáveis pelo cuidado da
criança não têm orientação, não têm respeito, que acabam judiando da criança, que não
trocam a fralda, não tem cuidados básicos com a higiene, com a segurança, locais onde as
crianças ficam sozinhas e se machucam
173
Quadro 13. As rotinas de bebês em casa e na creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Rotina de um bebê em casa
Rotina de um bebê na creche
Joana
9/F
Dorme depois do almoço
Pela manhã fica mais no carrinho, não brinca muito
Natália
3/F
“... ele acorda, tem os horários [...] de cada 3 em 3 horas a mamada, troca, tem o horário de ficar acordado um
pouquinho, que ela já está ficando acordada um pouquinho, que é a hora de brincar, então assim a gente segue
muito rigorosamente esse negócio de 3 em 3 horas [...] a gente dá banho à noite, às 19 horas, aí ela dorme, já
está dormindo até às 8 horas da manhã seguinte, então assim, essa rotina é muito certa aqui em casa.”
“... eu percebi que essa rotina que tem em casa é importante, foi muito importante para ela. Você consegue dar as
mamadas nos horários certos, mama melhor...”
Aléxia
3 e ½/M
“... em casa, a mãe só tem mesmo o seu bebê [enfática], então assim ela tem atenção, tem tempo integral
praticamente para cuidar do bebê e é só dele [...] por mais que tenha um outro filho [...] mais velho [...] mas não é
um outro bebê...”
Mesmo padrão que é seguido em casa e que é também o que o pediatra indica
“... nas creches que eu vi eles respeitam o horário de dormir da criancinha...”
“... nas creches, acho que é o padrão, para a idade dela, eles seguem a mesma rotina. É bom
porque ela não vai sentir tanta diferença.”
11h almoço
Dormem depois do almoço
14h30 mamadeira
“Na escola, eles têm mais atividade [de recreação] porque eles têm lá os brinquedinhos, que aí
desenvolve até para aprender a ficar sentadinho, em pezinho...”
Em uma creche, em uma escolinha é mais difícil conseguirem realmente respeitar as 3 horas de
intervalo entre uma mamada e outra, talvez o bebê tenha que aguardar um pouco pois há outros
bebês sendo alimentados, então “...
para um bebê, esses 15, 20 minutos fazem diferença e a próxima mamada, o intervalo não vai
ser de 3 horas, vai ser de 2 horas e meia, já não mama como deveria mamar...”
“Eu acho que em uma creche, em uma escolinha, a pessoa não tem muito tempo de ficar se
dedicando, enquanto ela está olhando um, a outra está dormindo e, às vezes, faltam 10 minutos
para acabar de dar de mamar para uma, o que eu acho que é normal...”
“... em uma creche não, são vários bebezinhos da mesma faixa etária que exigem a mesma
atenção, o mesmo cuidado então [...] você não consegue, o bebê não vai ter atenção 100% de
um profissional porque, às vezes, o profissional tem que cuidar de um, depois tem que cuidar de
outro e ele não vai ter atenção, então para ele [bebê] é diferente...”
Malu
3 e ½/M
“Em casa, a gente não tem horário para nada (risos). O meu filho não tem horário para nada, tem dia que faz uma
coisa, tem dia que faz outra (risos), então acaba virando uma bagunça, você não tem aquela rotina.”
“[Em casa] não tem muito horário fixo, não tem muita disciplina...”
“Sei que a cada 3 horas você tem que dar de mamar para o bebê, tem que dar fruta, que nem no caso dela que já
está comendo fruta, papinha...”
“... a rotina dela assim, eu tento seguir o que o pediatra fala para mim e assim também o que eu acho, eu leio
bastante também na internet, então eu tento seguir, mas durante o dia a gente tenta dar banho de sol nela quando
tem sol, a gente tem lá um espaço, um quintalzinho, às vezes ela toma sol, toma suquinho de manhã, mamadeira,
depois na hora do almoço papinha...”
“... a rotina dele na minha casa é isso: mama, come, dorme, toma banho e assiste TV, é isso o que ele faz. E
brinca um pouquinho...”
“... eu não estou conseguindo dar suquinho...”
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
““[Na creche] tem toda aquela rotina a seguir, então não é bagunçado, é mais organizado.”
“A rotina da creche eu não sei te falar porque não sei como funciona, não sei quantas pessoas
para cuidar de quantos bebês...”
“... eu acredito que não [seria diferente se ela estivesse na creche]. É lógico que com a gente,
ela tem a atenção da gente todinha para ela. Uma criança na creche não vai ter atenção todinha
para ela.”
“Agora, na creche, acho que nessa idade, não seria muito diferente, porque ele não faz mais
nada que isso [...] Agora, mais pra frente, acho que ele vai brincar bastante, fazer amizades,
bastante amiguinhos...”
174
Continuação quadro 13. As rotinas de bebês em casa e na creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Rotina de um bebê em casa
Rotina de um bebê na creche
Milena
11/M
“...eles acordam cedinho, por volta das 9 horas é a hora do suquinho, aí é onde eles estão também mais
dispostos para brincar, por volta das 11h30 mais ou menos o almoço, a papa salgada [...] Aí um soninho logo
depois do almoço por volta das 14 horas e pouquinho, fica perto da mamadeira porque depois do almoço, dá um
descanso e aí vem a mamadeira e a frutinha da tarde também mais ou menos depois. A alimentação do meu filho
é de 2 em 2 horas. A recomendação, às vezes, é de 3 em 3, mas eu acho que é muito de criança para criança. A
dele é de mais ou menos 2 horas e meia ou 3 horas, aí brinca no período da tarde e por volta das 19 horas mais
ou menos o jantar. Aí ele fica bastante ativo até mais ou menos umas 21 horas quanto toma a mamadeira do
soninho e por volta das 21h30 ou 22 horas dorme até às 7 horas do dia seguinte [...] O banho, ele é mais ou
menos assim [...] eu prefiro dar o banho em casa perto da hora dele ir dormir.”
“... mais ou menos [a mesma rotina da casa], mas aí intercalado com as atividades de
estimulação, então de manhã, tomar um solzinho, eles já chegam por volta das 8h 30 ou 9 horas
e tem uma parte de estimulação, aí a mesma coisa, suquinho, alguns dormem depois do lanche
ou senão dormem depois do almoço. [...] Aí, a gente faz atividade um pouquinho mais calma
nesse horário enquanto alguns dormem, aí acordam, almoçam [a papa salgada] aqui também é
servido às 11h30, meio-dia.
A parte de estimulação também, depois que eles acordam eles ficam mais estimuladinhos,
assim mais animadinhos e é por volta das 13h15 ou 13h30. Às 14 horas, começa a frutinha ou a
mamadeira, depende da faixa etária da criança, se ela já come pãozinho, bolachinha... Aí, a
gente tem a rotina do banho também. [...] Aqui, a gente começa logo depois que eles dormem
no segundo horário, das 15 horas mais ou menos, depois que eles comeram, aí a gente já
começa o horário do banho. [...] Às 17 horas, tem o jantar aqui e aí cada um sai em um horário,
mas aí a gente já não faz atividade mais específica. Conforme vão saindo os bebês, a gente vai
ficando com eles um a um, não é a parte de estimulação. Estimulação é mais ou menos assim
antes do lanche da manhã e depois do almoço, à tarde.”
Bebês na sua escola têm: “Estimulação assim para deslocamento no espaço, preparo para
engatinhar, ficar em pezinho, a parte da estimulação oral, história, música, circuito para
deslocamento.”
A maioria dos bebês atendidos em sua escola fica em período integral
“Tem alguns que entram praticamente quando a escola abre e saem a hora que a escola fecha,
das 7 às 19 horas. Mas [...] a gente atende também os horários especiais, então o semi-integral,
às vezes, fica período de 8 horas ou de 6 horas.”
Júlia
1 e ½ /M
“... em casa [...] eles [bebês] estão sozinhos [...] com a gente [...] eles mamam, dormem, têm que tomar banho,
têm que ser limpos [...] e claro [...] eu pelo menos tento parar um tempinho, brincar com ele, dar uma estimulada.”
“...acho que a diferença maior que eu vejo é esse contato com outros bebês [com outras
crianças e com pessoas diferentes que não a mãe] [...] o cuidado eu acho que tem que ser o
mesmo [na creche do que em casa], essa questão da higiene [...] a alimentação [...] A questão
de ser cuidado com afeto, eu acho que as moças [na creche] acabam se afeiçoando, não tem
como...”
175
Quadro 14. Creche pública e creche particular
Entrevistada/
Idade (em meses)
e sexo do bebê
Existe diferença entre creche pública
e creche particular?
Joana
9/F
Não tem muita diferença, praticamente os
cuidados e a rotina são os mesmos
Natália
3/F
Sim
“Partindo do pressuposto que você pôs em
uma escola top [sim, teria diferença], também
se você colocar em uma escolinha qualquer
talvez não haja diferença nenhuma [entre a
particular e a pública].”
Aléxia
3 e ½/M
Sim
“Tem escolas particulares que podem ser
muito boas, eu tenho amigas que trabalham,
que são professoras, então tem escolas que
você percebe que realmente tem um
comprometimento, tem investimento, tem tudo
isso, mas a gente tem também essa qualidade
também na pública.”
Malu
3 e ½/M
Somente em termos de quem financia
Em termos de cuidados não existe diferença
“Para mim, é a mesma coisa porque particular
também não deixa de ser escola...”
“... os cuidados, no fim das contas, são os
mesmos. Se tiver que acontecer alguma coisa
vai acontecer em uma ou em outra, não vejo
diferença.”
Tem educadores, pedagogos, tanto na pública
quanto na particular para cuidar da criança
Diferenças entre a creche pública e a creche particular
Pública
Particular
Crianças dormem em colchãozinho no chão e
em carrinho, não tem berço e elas não tomam
banho na pública, a não ser em casos de
necessidade, já que o banho não faz parte da
rotina
Talvez viva mais de doação e não tenha
material adequado para a faixa etária
Os profissionais são voluntários, talvez não
tenha pessoas qualificadas para cuidar das
crianças de acordo com as necessidades de
cada faixa etária
Na creche pública é muito maior o número de
bebês e pode haver um menor número de
pessoas para cuidar
Têm bercinho para as crianças dormirem e em
algumas particulares as crianças tomam banho na
escola
Em São Caetano: profissionais têm
capacitação constante
As creches têm qualidade e quantidade na
alimentação
Não têm atendimento em meio-período, mas
expressa o desejo que tivesse
Remunera melhor os professores que a
creche particular
Atende todos os níveis sociais
Tem mais crianças do que na particular
É sustentada, mantida pelo Governo, pelo
município
“... acho que [...] tem a qualificação das pessoas. [...]
geralmente [...] você tem uma nutricionista, você tem
uma pedagoga, as professoras que estão lá vão ser
realmente pessoas instruídas, você tem uma
enfermeira, então assim você tem todo um trabalho
das pessoas que são instruídas para aquilo, que
são... que estudaram para fazer aquilo.”
“... já tem mais estrutura para aquilo, foi criada para
aquilo, então tem... mesmo o material pedagógico
para aquilo...”
Pode ter também diferença de alimentação, de
orientação, na limpeza e na quantidade de bebê por
orientador. Acredita que na escola particular exista
uma melhor proporção adulto/criança
Em São Caetano: nem sempre os profissionais têm
formação adequada ou capacitação constante
Profissionais, muitas vezes, não têm nem magistério
Ás vezes, a quantidade de alimentação para as
crianças é limitada
Tem atendimento em meio-período
Não remunera bem seus profissionais
Não atende todos os níveis sociais
Tem menos crianças do que na pública, porque é
paga e custa caro
Acaba gerando um certo “status” para as famílias
que valorizam isso
Não é sustentada pelo Governo, pelo município,
você tem que pagar e é cara
Justificativa para a possível existência de
diferenças
Condição, salário, investimento
“... eu acho que os melhores profissionais não vão estar
ganhando um salário mínimo em uma creche. Os bons
profissionais vão procurar um lugar melhor.”
Escolas particulares teriam que privilegiar a formação dos
profissionais que contratam para trabalhar com as
crianças
Profissionais tinham que ter conhecimento adequado
para o trabalho, para que os pais pudessem confiar
Algumas escolas particulares não conseguem exigir muita
capacitação dos profissionais, pois pagam pouco. Ficam
trabalhando, então, as pessoas com menor capacitação
.
176
Continuação quadro 14. Creche pública e creche particular
Entrevistada/
Idade (em meses)
e sexo do bebê
Existe diferença entre creche pública
e creche particular?
Diferenças entre a creche pública e a creche particular
Pública
Particular
Beatriz
6/F
Sim
Menor número de pessoas para cuidar das
crianças, menos conforto, alimentação talvez
não tão completa
“Ah, acho que a quantidade das pessoas que
trabalham, deve ter talvez mais conforto; a
alimentação, talvez, mais completa.”
Manuela
3/M
Sim
Precisa conseguir a vaga
“... Não sei, às vezes, eu tenho um pouco de
impressão que a pública é o que eu te falei, é
um preconceito que eu não gostaria de ter
entendeu, tipo de por ser pública a gente cria
um pouco de preconceito como eu te falei,
uma impressão de que vão deixar seu filho
largado, que se ele começar a chorar,
principalmente porque ele é bebezinho, que
ele vai ficar lá largado entendeu...”
Não sabe como funciona a pública, relata não
saber se teria que levar a alimentação do
bebê
“... você tem muita gente boa, competente,
mas tem muita gente que também se
encosta... [devido à estabilidade no
emprego]...”
“... acho que no público você tem uma
mistura maior de realidades [sociais] também
diferenciadas...”
Tem crianças mais pobres
“Então, assim, a creche [pública] remete à
questão do número grande de crianças.”
Lugar para só largar a criança, deixar a
criança, onde não há estímulos
Custa caro
Talvez tenha mais pessoas para cuidar, para não
deixar o bebê chorando, não deixar o bebê sozinho
Tem que levar a alimentação para o bebê
Alguns eventos ruins [acidentes, por exemplo]
podem acontecer tanto na pública quanto na
particular
“ Não é porque é pública que isso vai
acontecer. Isso pode acontecer na particular
também.”
Milena
11/M
Sim
Júlia
1 e ½ /M
Sim
Em São Caetano não poderia dizer, pois não
conhece as creches públicas
“... eu posso te falar em São Paulo que eu via
que sim [que tinha diferença entre creche
pública e particular], por amigas, enfim, irem
visitar e não conseguirem deixar as crianças
porque achavam que a criança não seria bem
cuidada.”
Tem uma amiga que optou por deixar seu bebê de 3
meses em uma creche particular e acessa pela
internet para ver o bebê na creche
“Eu acho muito bom [poder acompanhar pela internet
através de câmeras], porque você não confia né
100%, então, pelo menos no começo, se você tem
isso, então acho que te dá um pouco mais de
segurança.”
Não tem a questão da estabilidade do funcionário,
então pode-se demitir um profissional ruim
Algumas são muito caras, são freqüentadas por
pessoas mais ricas
“E na particular [as amigas viam que] [...] tem todo
um apoio, até para as pessoas que cuidam [enfática],
as assistentes que cuidam estão sempre em
treinamento, estão sempre tendo uma reciclagem...”
Justificativa para a possível existência de
diferenças
“Ah, porque tudo que é público, a gente vê que sempre
falta alguma coisa...”
“No público [...] tem aquele dinheiro para suprir as
necessidades, mas, às vezes, o dinheiro não chega [...]
estou falando mais assim como eu vejo assim o geral no
nosso país como funciona, então eu acredito que a
creche é a mesma coisa, mas, de repente, eu estou
enganada.”
As particulares são melhor remuneradas, têm mais
recursos do que as creches municipais
A demanda é um fator que faz com que existam
diferenças entre a creche pública e a particular. A creche
pública acaba atendendo um maior número de crianças
porque tem uma demanda muito grande
Falta investimento e atenção por parte do Governo na
área de educação, que seria a base e também o
brasileiro “... se mobilizar, correr atrás,
reivindicar, que é uma coisa que o brasileiro não faz,
infelizmente. E eu, infelizmente, também me incluo dentro
disso.”
“Como você falou [...] você trouxe aqueles dados de
estatística, nem as crianças pequenas que já estão assim
em idade assim de alfabetização, não é 100% das
crianças que estão na escola, e isso é uma catástrofe,
porque a criança tem que estar ali, eu acho que traz
dignidade para o ser humano...”
177
Quadro 15. A creche enquanto opção para outros pais e bebês
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Recomenda a creche para outros pais e bebês?
Joana
9/F
Sim, recomenda a creche pública em São Caetano, pois foi conhecer e gostou do que viu
“... Deu para perceber que elas [profissionais] gostam do que elas estão fazendo, o ambiente é um lugar gostoso, minha filha foi lá, ela foi até comigo, ela já queria sair do meu colo e ir brincar e assim, vendo as pessoas
cuidando das crianças [...] no dia em que eu fui conhecer uma estava lá dormindo no colo da moça, outra estava dando a mamadeira, eu gostei de como o profissional estava lidando com a criança...”
Para a criança ter atividades que não estaria desenvolvendo em casa. Crianças que vão para a escola mais tarde têm mais dificuldade para se relacionar com os outros, saber dividir. Crianças que entram mais cedo na
escola têm um desenvolvimento diferenciado em relação às que entram mais tarde
“... como eu realmente não conheço seria muito difícil eu falar. A que eu conheço... sim, a gente sabe que se a pessoa não tem condições, a creche é boa lá, é, mas a gente sabe que tem escolas, se a pessoa tiver
condições de pagar, a gente sabe que tem escolas que são muito melhores. Acho que você tem que comparar aquilo que você tem condição de pagar. Então, se é uma pessoa que tem condição de pagar, a gente sabe
que tem escolas muito melhores. Então, assim, do meu ponto de vista, assim, dependendo, a pessoa tendo condição, eu acho assim que uma pessoa em casa cuidando do seu bebê ainda é o melhor, a segunda opção
seria assim uma excelente escola e aí a terceira opção seria uma creche. E que eu acho que essa opção, a terceira opção ainda é muito difícil porque eu não conheço, não sei se é por eu não conhecer, mas acho muito
difícil uma creche que tenha tudo isso [que se encaixe no perfil do que seria considerado uma creche boa].”
“... enquanto profissional, por conhecer, por saber o quanto é importante [...] eu acho sim que seria importante para o desenvolvimento do bebê porque, às vezes, em casa, se você não tem um conhecimento, você não
consegue estimular ele de uma maneira correta e a gente pode estimular os bebês, até mesmo, para o desenvolvimento psicomotor, então é importante.”
“... com 5 ou 6 meses para você deixar o bebê na escola se você tiver necessidade, a gente tem que deixar, não tem como, tem mãe que não tem muita opção, precisa trabalhar, tem que deixar e ponto [...] eu confio na
escola pública aqui [em São Caetano], já trabalhei, então quer dizer, eu confio nas pessoas que trabalham, no trabalho que é feito, então tem todo um controle.”
Sim, recomendaria creche pública em São Caetano, inclusive já recomendou para familiares mesmo quando não era mãe, quando somente trabalhava na creche
“... eu falei para ele [sobrinho] ‘é melhor você colocar na pública, eu confio muito mais, eu acredito muito mais no ensino, principalmente aqui de São Caetano, do que em uma particular’.”
Recomendaria pela qualidade de ensino, pela qualidade da alimentação
“... recomendaria, recomendo, já recomendei (risos).”
“Recomendo e não concordo com pessoas que param de trabalhar.”
“... o filho vai crescer e depois você ‘ai, eu quero voltar a trabalhar’ e aí já não consegue arrumar emprego, talvez, por causa da idade e uma mãe ela precisa trabalhar, ter o seu dinheirinho, sua independência, não ficar
só dependendo do marido, até porque, hoje em dia, só o marido não é suficiente, a maioria precisa trabalhar e ajudar também, colaborar e ter o seu dinheirinho...”
“Para a mãe que puder levar junto [o bebê ao seu trabalho] talvez seja a melhor opção, mas se a mãe precisa voltar a trabalhar e não tem com quem deixar, se não tem mãe ou sogra para ficar, talvez tenha que colocar
na creche.”
Relata ser difícil opinar porque não conhece as creches em São Caetano
“Ah, se o meu [bebê] estivesse e fosse tudo bem, recomendaria sim. Pelo que eu ouço falar, eu recomendaria.”
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
“... a gente fala realmente como uma mãe que trabalha antes de ficar realmente com uma babá ou mesmo com uma vovó e assim, com essa possibilidade assim de você cercear um pouco a liberdade dos avós também
para fazer as coisas, então a escola acaba sendo uma boa opção.”
“Recomendaria, com certeza, especialmente por esse aspecto da socialização, a criança fica mais independente mesmo, lidar entre iguais para resolver os seus problemas eu acho melhor, é diferente de um adulto, de
uma avó ou de uma pessoa mais velha estar lidando com ela, então nos conflitos, nos problemas ela ter que sair lidando com crianças da mesma idade, então quer dizer, um igual, então eu acho que isso é primordial, a
parte de interação social. Hoje em dia, antes a gente ia com 6 ou 7 anos para a escola, hoje uma criança que vai com essa idade pela primeira vez acho que ela fica, para mim, atrasada no sentido assim ‘bobinha’ no
sentido do mundo que está por aí, que está posto. As relações sociais ela mobiliza muito isso no caso de você estar aprendendo o tempo inteiro com o outro, com um amiguinho e com realidades diferentes vai te
abrindo. Acho que uma criança que fica hoje em casa muito tempo ou fica na frente da televisão, falta o espaço para brincar, para o grupo, não se tem, a maioria mora em apartamento, quer dizer e aí, que tempo essa
criança tem para ser criança também? Acho que a escola é o espaço que sobrou para ela, para ela brincar de ciranda, cirandinha, de corre cotia, de coisas que na infância de antigamente se brincava na rua. Eu acho
que é um espaço social, hoje em dia, é mais a escola para a criança.”
Recomenda a creche pública em São Caetano também
“... para [...] deixar o seu filho, e mesmo aquela que não trabalha, mas que quer ter um tempinho pra ela, porque a gente sabe que faz falta, faz falta você ter umas horinhas pra você e poder cuidar da sua vida, das suas
coisas, então não só, é que aquela que trabalha, a necessidade é maior, mas mesmo aquela [mãe] que não trabalha que acha um lugar legal que deixa a criança, de novo, para ter contato com outras crianças, para ter
alguns estímulos, eu acho legal. É que hoje assim, é o meu foco (risos) encontrar um lugar para deixar para eu poder voltar a trabalhar, então acho que por isso que vem isso primeiro à mente. Mas, mesmo a mãe que
não trabalha tem o direito também de deixar seu filho. E a criança tem o direito de ter esse cuidado, de ser estimulada, enfim.”
“... se a gente sabe que é um lugar legal que vai estimular a criança, a gente sabe que é importante [...] até pelo contato com outras crianças, mas se é só um lugar para largar ali a criança, deixar como a gente sabe que,
infelizmente, a maioria das creches públicas são, é difícil, você fica com dó de deixar...”
178
Eixo 4. Responsabilidades do Estado e da sociedade
Resumidamente, podemos destacar que as mães reconhecem que o
Estado e a sociedade devem compartilhar com as famílias a educação e o
cuidado dos bebês, mas concordam que há pouca mobilização para que todos
os bebês possam ter acesso a serviços de saúde e educação de qualidade.
A escolha de outras modalidades de educação e cuidado para bebês,
que não a creche, por parte de algumas famílias, é apontada por nossas
entrevistadas, como possível justificativa para a quase inexistente mobilização
social por mais vagas em creches, bem como, para a baixa freqüência a essa
instituição por parte das crianças de 0 a 3 anos de idade.
As entrevistadas explicitaram, em algum momento, a concepção de que
a sociedade e o Estado também têm, além das famílias, responsabilidades
para com os bebês e de que essa responsabilidade deveria se exercer
especialmente nas áreas da saúde e da educação (quadro 16).
As mães entrevistadas apontam deficiências na atuação do Estado e
expressam a expectativa de que um efetivo retorno dos impostos pagos pela
sociedade gere um melhor atendimento às crianças e suas mães, não só, em
termos do oferecimento de bons hospitais, de maior número de vacinas
gratuitas, de centros de orientação para gestantes, de grupos de aleitamento
materno, mas também em termos de maior disponibilidade de vagas em
creches e escolas e de maiores investimentos que proporcionem aos bebês e
demais crianças o acesso à educação de qualidade.
Algumas mães assinalaram que o Estado não deve somente oferecer
educação de qualidade porque muitas pessoas sem condições financeiras
necessitam dos serviços públicos, mas também porque toda a população,
incluindo os bebês, tem direito à educação: “... educação é um direito de todos,
e o bebê também, começa desde criança, desde bebê a educar. A gente não
educa uma criança a partir dos 7 anos, muito pelo contrário, é desde a sua
formação, desde bebê que vai se formando o cidadão [...] os professores da
faculdade falavam muito ‘ah, a gente tem que valorizar a escola pública, tem
que valorizar a escola pública’ e eu acredito que tem que valorizar mesmo
[enfática] porque é um direito de todo mundo ter uma escola pública de
qualidade...” (Aléxia); “Na área da educação tem a parcela de responsabilidade
179
sim, afinal de contas nós dependemos dos educadores. Tudo bem que a
educação começa em casa, que vem de berço, que a responsabilidade é dos
pais em primeiro lugar, mas também o Estado tem grande responsabilidade
sim.” (Malu); “Normalmente, você vai optar por uma escola porque, às vezes, a
pessoa não tem condição de pagar ou mesmo que tenha você quer um lugar
porque você está pagando os impostos, você quer ter um lugar para colocar o
teu filho de qualidade...” (Joana).
Milena, que atua na área de EI, ressaltou também a necessidade de
maior atenção por parte do Estado para com a educação dos bebês e crianças
que ainda não se encontram em fase de alfabetização constatando, como já
havíamos enfatizado, que crianças maiores, já na pré-escola ou no ensino
básico, vêm recebendo maior atenção e investimentos por parte das políticas
educacionais: “Acho que ainda se vê muito mais a responsabilidade com
crianças maiores, já na fase de escolarização mesmo, do que com os
pequenos. Então, programa, currículo, atendimento acho que é pouco,
especialmente pela minha área, acho que tinha que ter mais cuidado mesmo
relativo à educação.”
Uma das mães (Manuela) ressaltou não utilizar ou conhecer os serviços
públicos, optando sempre por utilizar serviços particulares no que se referia ao
seu próprio bebê, mas destacou, assim como Júlia, a necessidade de que as
empresas também ofereçam creches às suas funcionárias.
Júlia solicitou também que o Estado ofereça o que ela chama de
“centros” (creches ou berçários) que, além de atenderem os bebês, também
poderiam contar com equipes multiprofissionais orientando não somente as
mães, mas também os profissionais que atuam com as crianças.
Com relação ao município onde residem, seis entrevistadas avaliaram
de forma positiva a qualidade de ensino e de investimento público em
educação. Essas mães, relatando suas impressões pessoais e/ou os
comentários de parentes, amigos ou conhecidos, consideram que os
moradores de São Caetano são privilegiados e que o município apresenta uma
realidade diferente da de outras cidades por oferecer quantidade e qualidade
no ensino público e pelo fato de a creche pública ser utilizada também por
famílias de camadas médias, que não necessitam comprovar renda para
poderem matricular suas crianças: “... É porque é assim, é para qualquer
180
pessoa de São Caetano, que more em São Caetano e que a mãe trabalhe mais
que 6 horas [...], esse é o requisito para fazer a inscrição. [...] E, normalmente,
é a mãe que tem que trabalhar, se o pai não trabalha não tem problema.”
(Joana); “... aqui em São Caetano, a gente não tem esse problema porque a
grande maioria das crianças [...] têm vaga nas creches, nas EMIs [Escolas
Municipais Integradas] que a gente chama aqui [..] quem mora em São
Caetano não pode reclamar, da realidade aqui de São Caetano, porque em
termos da educação da escola, tanto das EMIs quanto das EMEIs e depois dos
Fundamentais 1 e 2, até mesmo assim de cursos enfim preparatórios que a
própria Prefeitura fornece, é tudo muito bom.” (Aléxia); “[Em] São Caetano a
gente vê que isso realmente é feito. Tem muitas opções aí de escolas, creches
[...] Claro que aqui em São Caetano, [...] o nível tem até classe média alta que
freqüenta [a creche pública]. Então, é bem melhor [...] em todos os sentidos
[das pessoas que usam e do que é oferecido]...” (Malu); “...acho que aqui em
São Caetano, a gente é privilegiado, porque todo mundo me fala que o ensino
público é maravilhoso, depois quando ele [bebê] estiver um pouquinho maior
que dá para colocar...” (Júlia); “São Caetano, assim o que você tem é que a
educação é de alta qualidade, tanto é que tem pais de classe média que
buscam a [creche] pública e o referencial de que é de qualidade acho que está
colocado [enfática]...” (Milena).
Entretanto, algumas mães entrevistadas e que não freqüentaram creche
ou pré-escola em São Caetano do Sul quando crianças, como apresentaremos
no próximo eixo, informam desconhecer a existência ou a localização de
creches públicas no município (Natália e Júlia).
Em conjunto com Natália e Júlia, Beatriz, que, por sua vez, freqüentou
pré-escola no município quando criança, também acredita não poder avaliar se
a quantidade de vagas ou a qualidade da educação oferecida, especificamente,
pelas creches é satisfatória ou não.
Já, Manuela foi a única entrevistada que ponderou que o critério de
comprovação de residência não vem sendo respeitado em São Caetano e que
muitas crianças moradoras de cidades próximas estão “ocupando” vagas que
seriam destinadas às crianças residentes no município: “E eu acho isso uma
sacanagem porque, afinal de contas, uma escola, um berçário, hoje em dia,
custa R$ 1500,00 no particular.”
181
Ao serem indagadas sobre a pequena oferta de creches, praticamente
todas as entrevistadas afirmam que os adultos não se mobilizam pelos direitos
dos bebês ou por políticas de creche porque nossa sociedade é culturalmente
acomodada e individualista e que o povo brasileiro, muitas vezes, por não
conhecer seus direitos acaba não exigindo que eles sejam respeitados. Essa
postura de pouco questionamento ou mobilização ocorreria também, segundo
elas, em outras áreas, não somente com relação aos bebês (quadro 17).
A classe média que seria, na concepção de Natália, o segmento com
melhores condições para reivindicar acabaria, quase sempre, optando pela
creche particular para seus filhos, não “sentindo falta” da creche pública e
assim, não a reivindicando para outros bebês. Joana e Malu também supõem
que um dos motivos que levaria a não mobilização seria a opção dos pais por
outras modalidades de EI que não a creche, como por exemplo, deixar a
criança com os avós ou mesmo parar de trabalhar para cuidar do bebê.
Manuela, por sua vez, acredita que as pessoas só param para pensar
sobre questões relativas aos bebês no momento em que estão vivenciando a
experiência da maternidade e da paternidade: “... antes, era, sei lá, um bebê,
eu nem pensava nisso [...] Antes de eu ficar grávida, eu nem imaginava, nem
pensava nisso [sobre escola, creche, hospital ou plano de saúde para o
bebê]...” (Manuela).
Da mesma forma, outras entrevistadas, também, revelaram, em
momentos diferentes da entrevista, “não terem nunca parado para pensar”
sobre a questão dos direitos da criança à creche, sobre o que pensam sobre
creche, sobre a idade mínima para a criança ir para a escola, sobre por que os
adultos não se mobilizam por questões relacionadas aos bebês, mesmo
sabendo que há falta de vagas em creches: “... a gente sabe que tem a maior
dificuldade, por que a gente não vai atrás né?” (Natália).
Embora duas entrevistadas considerem difícil conseguir mobilizar as
pessoas, as demais expressam acreditar que seria necessária uma maior
reivindicação dos direitos, com a escolha de políticos que se interessassem por
essas questões e que atuassem com maior boa vontade, não somente
efetivando que mais creches fossem construídas, mas também propiciando
maior divulgação dos serviços e direitos à população.
182
Milena, especialmente por atuar em EI, apontou para a necessidade de
se pensar mais nos bebês, revendo e divulgando o Referencial Curricular da
Educação Infantil, para que ele pudesse ser mais utilizado pelas creches e para
que questões sobre avaliação e contexto sócio-histórico e cultural dos bebês
atendidos pudessem ser mais debatidas. Ela cobrou da Secretaria Municipal de
Educação uma maior fiscalização e acompanhamento do trabalho que é
realizado, especialmente, pelas creches particulares.
Júlia e Manuela destacaram a necessidade de maior fiscalização e
punição junto às empresas, para que elas ofereçam mais creches às mães
trabalhadoras.
Apesar de terem expresso que muito ainda precisa ser feito ou
reivindicado na área de creches e de atendimento aos bebês, a grande maioria
das entrevistadas reconheceu que também não vinha se mobilizando (quadro
17). Além disso, apreendemos que, mesmo as mães que relatam se preocupar
com essas questões, tendem a refletir mais sobre suas próprias escolhas
futuras de atendimento para seus filhos, do que se mobilizar efetivamente pelo
conjunto dos bebês na sociedade.
Já, as duas entrevistadas que trabalham na área da educação (Aléxia e
Milena) circunscreveram suas ações de mobilização aos seus espaços
concretos de atuação, principalmente através da busca constante, ou da
divulgação, de material de estudo específico sobre bebês, visando a melhoria
do atendimento oferecido a essa população.
Com relação aos possíveis motivos que estariam levando a uma tão
baixa freqüência de crianças de 0 a 3 anos quando comparada à de crianças
de 4 e 5 anos à pré-escola, todas as entrevistadas apontaram para as escolhas
por parte das famílias de outras modalidades de EI como as principais razões
para a não freqüência (quadro 18). Apenas metade delas explicou a baixa
freqüência pela insuficiência na oferta de creches.
Segundo as mães entrevistadas, as famílias estariam preferindo deixar
seus bebês com avós ou outros familiares ou conhecidos, com babás ou
mesmo parando de trabalhar para cuidar pessoalmente de seus filhos, por
medo e desconfiança em relação à creche, mas também porque ainda
consideram seus bebês como muito novos para essa freqüência.
183
A pré-escola, na concepção das entrevistadas, estaria sendo mais
freqüentada porque as crianças já ingressariam maiores, porque seus pais
tenderiam a valorizar mais o papel educacional e de alfabetização da escola,
porque a população contaria com uma maior oferta de vagas e também porque
seu custo financeiro, na rede particular, seria menor para as crianças maiores
do que para os bebês.
184
Quadro 16. Responsabilidades do Estado e da sociedade
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Joana
9/F
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Beatriz
6/F
Manuela
3/M
Milena
11/M
Júlia
1 e ½ /M
Estado/sociedade tem responsabilidade para com os bebês?
Em qual área? Justificativa
Sim. Na área da saúde: vacinação
Na área da educação: oferecer mais vagas para as mães que precisam trabalhar; mais vagas em escolas e creches de qualidade para deixar as crianças; remunerar melhor os
professores, todos os bebês deveriam ter direito à educação como consta na Constituição; pagamos altos impostos, mas, às vezes, temos que colocar em escola particular porque
não temos escolas públicas de qualidade
Deficiência do Estado aparece em várias áreas não só com relação aos bebês ou crianças maiores
Sim. Na área da saúde: pré-natal, orientação para as grávidas, tratamentos ainda durante a gravidez
Sim. Na área da educação: pagamos impostos e quem não tem condições de pagar uma escola particular tem que ter acesso a uma escola de qualidade, de confiança e
apropriada para deixar seu filho; a falta de vagas é problemática e talvez não dê conta da demanda, pois tem mãe que tem deixar na particular porque não conseguiu vaga na
pública; nem sempre escolas particulares têm qualidade e por isso o Estado deve disponibilizar; deveria existir uma escola pública de meio-período para os bebês, assim como
existe essa opção nas escolas particulares; os bebês têm direito à escola englobando não só o cuidar, mas também o educar
Quem mais precisa da escola pública é quem tem menor poder aquisitivo, mas “... é um direito de todos, então todo mundo, quem tem dinheiro e quem não tem, deveria ter
acesso.”
Sim. Na área da educação: alguns municípios têm deficiência na oferta de escolas, faltam vagas em creches
“... imagino que São Paulo seja um desastre [...] eu acredito que a maioria [da população] não tem nem acesso à creche [...] por isso é que tem esse monte de criança aí, de
qualquer jeito, na rua, tudo largado, porque não tem, é muita gente, para pouca escola. Eu acredito, eu imagino [que faltam vagas].”
Sim. Na área da saúde: “... se a criança ficar doente, ter um bom hospital que cuide direitinho. Às vezes, você leva em algum lugar e o posto, não é bem atendida, às vezes, a
criança está com algum probleminha e não percebe e o negócio se agrava. Inclusive [...] parece que vão incluir algumas vacinas que não davam no posto. Eu acho que isso daí é
bom porque a gente, às vezes, não consegue, tem pessoas que não conseguem pagar e as vacinas são muito caras e evita a criança pegar que nem pneumonia...”
Na área da educação: “... o ensino básico assim, as instruções mesmo, o aprendizado mesmo, acho que é [responsabilidade] do Governo para construir um país melhor no futuro.”
Sim. Na área da saúde: especialmente com a oferta de vacinas de boa qualidade
Na área da educação: construir mais creches e escolas
As empresas também deveriam oferecer creches
Sim. Na área da educação: planejamento, com cuidado, com escola, maior atenção com as crianças que não estão em fase de alfabetização
“Acho que depende muito do incentivo público mesmo, do Governo.”
Sim. Na área da saúde: “... eu acho que poderiam haver mais centros para orientação das mães, grupos de apoio ao aleitamento materno.”
“... a gente sabe que, infelizmente, algumas mulheres [e seus bebês] não têm acesso [ao pediatra ou saúde] [...], porque, às vezes, não têm nem direito aonde deixar a criança, não
tem uma rede pública muito boa...”
Na área da educação: deveria ter “... mais creches pra depois a gente poder voltar a trabalhar com mais tranqüilidade, berçários. Então, acho que falta muito...”
Teria que “... ter mais centros mesmos, porque não adianta ter um centro longe do trabalho da pessoa ou da casa dela [enfática], tem que ser no caminho, entendeu, ou pertinho da
casa dela que ela já vá e já deixa a criança ou próximo ao trabalho ou dentro das empresas que é o que a lei pede dependendo assim, depois de x número de funcionárias, ela teria
que ter a creche dentro...”
Os centros comunitários de atendimento público poderiam oferecer, além de creche ou berçário, atendimento com pediatra, assistente social, psicóloga e atender não só
as mães, mas também os professores ou assistentes “... que cuidam das crianças, pra essas pessoas também terem uma orientação melhor.”
185
Quadro 17. Mobilização pelos direitos dos bebês ou por políticas de creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Por que os adultos não se mobilizam ou se preocupam com
os direitos dos bebês ou com as políticas de creche?
Como os adultos poderiam se mobilizar ou agir mais ativamente?
A entrevistada se mobiliza? Como?
Joana
9/F
Cultura do brasileiro
É acomodado, comodismo do povo que não luta pelos seus direitos em
todas as áreas, se adapta à realidade e não tenta mudá-la
Muitos pais podem preferir deixar os bebês com seus avós ou mesmo
parar de trabalhar e por isso não reivindicariam creche
As pessoas mais esclarecidas e de classe média que poderiam se
mobilizar acabam optando por escola particular e não pela creche
pública, acabam não sentindo falta e conseqüentemente não se
mobilizando
Políticos não se preocupam com isso
A população é pacata e não se mobiliza. Povo brasileiro não corre atrás
dos seus direitos, às vezes, também por falta de conhecimento
A sociedade em geral teria que brigar pelos seus direitos
Não se mobiliza
“... a gente acaba se acomodando...”
Seria criando mais vagas
Indo atrás dos direitos
É difícil mobilizar as pessoas, para que isso ocorresse teria que afetar a maioria das
pessoas (incluindo a classe média)
Fica preocupada com a questão das vagas, quer
sempre que as funcionárias consigam vaga ou que
haja vaga na creche onde a mãe trabalha como
voluntária, “...
mas eu nunca fui atrás para sabe, ‘o que nós vamos
fazer para arrumar alguma coisa’”.
Quer resolver o imediato, arranjar uma vaga para dada
criança em um certo momento, mas “... você nunca
pensa assim mas, ‘o problema é muito maior, você vai
resolver dessa criança, mas tem mais vinte que não
têm condição’”.
Quando trabalhou em escola particular tentou mudar
algumas coisas, lutar pelo que acreditava, mas como a
proprietária da escola não investia, resolveu pedir
demissão
Considera que é difícil tentar sozinha
“... por ter conhecimento você tenta até levar para
ajudar, mas tem pessoas que, às vezes, não estão
abertas assim. Na [creche] particular era complicado
você conseguir passar porque tem uma outra visão,
depende muito daquelas pessoas que estão
trabalhando naquela escola como coordenação,
direção e assim o que a gente aprende na Prefeitura
era super bem adequado e até mesmo tinha muito
valor...”
“Sim, eu já pensava nisso, me mobilizava.”
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Sociedade é individualista e tem pressa, não parando para pensar.
Pessoas pensam só no seu, se têm condições de pagar uma boa escola
não se preocupam com aquele que não tem. Isso ocorre em outras áreas
também. Não se luta por algo melhor para todos, não se luta pelos
direitos
Sociedade acomodada, onde “... muita gente empurra com a barriga”.
“... Acho que em tudo se a sociedade fosse mais unida, assim não fosse
tão individualista, a gente teria muito mais direitos conquistados.”
É difícil ver melhora. “... Será que vão conseguir enxergar?”
Brasileiro é acomodado, não cobra, não briga, não é revolucionário, ele
paga impostos, mas não corre atrás dos seus direitos
Tem que ter mais boa vontade dos políticos, da sociedade em geral. Ter que ter mais
boa vontade no atendimento, na informação para a população e na divulgação dos
serviços
“... políticos [deveriam] [...] pôr a mão no bolso, porque o imposto em São Paulo,
principalmente, é muito alto, então, de oferecer mais escolas, construir mais escolas,
oferecer mais vagas para todas as mães terem esse direito porque, afinal de contas,
é um direito Constitucional [...] é direito garantido por lei, é Constitucional,então acho
que a população teria que se mobilizar, se conscientizar e correr atrás dos seus
direitos.”
Votando nas pessoas corretas que se interessem por esses assuntos
Campanhas na televisão para informar as mães sobre os seus direitos
“... se tem falta de vagas teria que construir mais creche mesmo. Às vezes, os
políticos se preocupam com outras coisas [...] e teria que ajudar mais o nosso povo
aqui...”
Às vezes, as pessoas se acomodam, e não reivindicam por medo ou
porque não tem informação
Beatriz
6/F
Povo brasileiro é acomodado, conformista, aceita as decisões do
Governo
Muitas vezes, as pessoas não conhecem os seus direitos e por isso não
cobram
É difícil ter apoio
“... tenho essa preocupação porque essa questão é
importante, porque pode acontecer também da criança
não se adaptar, por outro lado também, eu não posso
parar de trabalhar, então vou ter que dar um jeito de
conciliar, de ver, de insistir e espero que dê certo [do
bebê ir para a creche] (risos).”
Vê muita injustiça, vê que a educação é muito ruim no
País
“... eu vou tentar educar [o bebê] da melhor forma
possível, não dependendo muito do Governo. Se eu
puder pagar uma escola, eu vou pagar.”
186
Continuação quadro 17. Mobilização pelos direitos dos bebês ou por políticas de creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Por que os adultos não se mobilizam ou se preocupam com
os direitos dos bebês ou com as políticas de creche?
Como os adultos poderiam se mobilizar ou agir mais ativamente?
A entrevistada se mobiliza? Como?
Manuela
3/M
Pessoas só param para pensar ou se preocupar sobre as questões
relativas ao bebê quando têm um bebê, quando passam pela situação,
quando vivem a experiência, a partir daquele momento, do primeiro filho
Para que os bebês possam ter mais acesso são necessárias mais creches, mais
escolas e escolinhas
Também é importante as empresas oferecerem creche
Só começou a pensar nessas questões recentemente,
depois que o bebê nasceu
Milena
11/M
“Eu acho que no geral, direitos assim do cidadão, mesmo da criança, eu
acho que, no geral, mesmo sem ser bebê, eu já acho difícil viu. Para o
bebê menos ainda. Eu acho que é falta de conhecimento ou de uma
política voltada só para bebê mesmo, de alguma coisa específica voltada
só para essa faixa etária.”
“Pensando mais neles. Estabelecendo, que nem falando em educação, a gente tem
o Referencial Curricular de Educação Infantil. Ele é um bom referencial, eu acho que
dá uma base, mas acho que tem que se pensar muito mais, inclusive na realidade,
no contexto em que a criança vive. Cada contexto tem alguma coisa. Acho que isso
tudo no Brasil não sai muito do papel não, e as mudanças, que nem o acesso da
criança de 6 anos ao ensino fundamental, mudam a lei, mas não se pensa ao
contrário, quer dizer, como atender, qual a melhor forma de atender, enfim, o que
seria específico para essa faixa etária, que mudanças deveriam ter no ensino
fundamental para captar esses alunos de 6 anos.”
O Referencial precisaria ser revisto, especialmente, tanto em relação ao registro, à
avaliação da criança, quanto em relação ao contexto sócio-histórico e cultural das
crianças para que ele possa ser melhor aplicado
É necessária também maior fiscalização das escolas
Cita como exemplo que as escolas particulares para atenderem bebês devem ser
regularizadas, mas são fiscalizadas só no momento de abertura, da aprovação,
depois não recebem nenhum tipo de acompanhamento ou averiguação
Nenhum órgão acompanha o desenvolvimento do trabalho. Só é cobrado da escola
que atenda às exigências da lei, especialmente em relação ao aspecto físico, da
construção da escola
“Eles traçam para as particulares muito mais o plano, acho que assim de estrutura da
escola, ‘precisa ter isso, precisa ter alimentação, tela de proteção na cozinha, ai não
pode ter acesso, a porque a comida não pode ficar assim’. Muito mais na estrutura
do que no trabalho.”
Acha que deveria ter mais fiscalização e que o acompanhamento deveria ser
regional e partir da Secretaria de Educação, da Delegacia de Ensino do município.
“Acho, realmente, que cada cidade, cada município devia ter, de acordo com a sua
realidade, a clientela particular, privada, acho que tem que ver muito o contexto
social mesmo de cada grupo...”
Havendo maior e eficaz fiscalização das empresas que não oferecem creches, só a
multa não resolve
“Ah, sempre teve, é claro que a escola é que, eu acho
que se eu fosse uma mãe sem [ser dona de] escola eu
pensaria diferente.”
Acha que as pessoas não conhecem as leis e os direitos também
Júlia
1 e ½ /M
“[No Brasil] as pessoas são muito egoístas [enfática], eu acho. A gente
não tem aquela noção de comunidade, de um ajudar o outro [...] Cada um
olha só para o seu próprio umbigo, então vai pensar nisso na hora em
que precisa. Então, nesse momento eu vou precisar, então aí eu corro
atrás, vou ver como é que é. Eu acho que a Sociedade, ela não se
mobiliza, nem nessa questão e nem em tantas outras [...]
eu acho que falta essa noção de comunidade da nossa Sociedade.”
“... os políticos aqui no Brasil estão muito sem credibilidade. Então, o
pessoal também não corre atrás, fica só falando ‘ai, é tudo ladrão
mesmo’, já generaliza e meio que se conforma com essa situação. Eu
não entendo muito por que, mas acho que acaba sendo isso que
acontece...”
“... ninguém está interessado.”
“... acho que é legal ter uma lei para apoio, mas que seja mais fiscalizado, não
adianta ficar só na multa. A multa, para a empresa, é irrisória.”
Busca constante por material de apoio para o trabalho
Diz que todo o planejamento e a organização para a
faixa etária de 0 a 1 ano, tudo é muito precário. Diz
sentir bastante falta de materiais de estudo, de
pesquisas ou estudos sobre essa faixa etária “... acho
que é muito ou manuais de Psicologia do
Desenvolvimento ou manual de Pediatria. Você não
tem focado em educação, então é uma coisa que
sempre assim, a busca ela é constante. Embora, o
acesso seja difícil.”
Cita ter tido acesso ao material utilizado em creches
públicas:
“... de alguns pais que trabalham nas creches, aí eu
instigava para eles trazerem o material para mim e aí
eu investiguei muito, xeroquei muito material assim
(risos)...”
“Então, infelizmente, eu me incluo também na nossa
população que se preocupa mais com o próprio umbigo
que nunca se mobilizou. Apesar de eu trabalhar com
criança, eu vivenciava também uma realidade
diferente. Normalmente, as crianças [pacientes]
estavam em escolas particulares, então que oferecem
todo um apoio para as mães, então assim, o que eu me
preocupava era mais a questão de ensino mesmo, de
estímulo, do que estava sendo passado para essa
criança, às vezes, a criança tinha algum probleminha e
eu queria saber o que estava sendo feito para dar um
suporte, era mais nesse lado, então eu também não
estava super engajada.”
187
Quadro 18. Possíveis motivos para a não freqüência de crianças de 0 a 3 anos à creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e sexo
do bebê
Joana
9/F
Natália
3/F
Aléxia
3 e ½/M
Malu
3 e ½/M
Por que só 18% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos freqüentam creche?
Demanda/Escolha das famílias
Oferta insuficiente
Outros motivos ou outras impressões
As famílias, às vezes, preferem deixar com avós, vizinhos ou a mãe para de trabalhar
para ficar com a criança do que colocar na creche/escola pelo fato da criança ser
pequena, por ter medo de colocar ou pela questão do vínculo com o bebê
Creche não é obrigatória
Famílias mais pobres sempre “dão um jeitinho” e deixam a criança com alguém, com
irmão mais velho ou a mãe cuida
Por falta de vagas
Para a pré-escola já teria maior procura porque já tem mais
uma certa obrigação de colocar a criança com 4 anos (maioria
da população acaba colocando com 4 anos e ela também
entrou na pré-escola com 4 anos
Custo da creche
(a pré-escola é mais accessível em termos de custo do que as
creches particulares para as crianças de 0 a 3 anos)
Por falta de vagas
A partir dos 4 anos, a pré-escola já é
mais accessível com maior oferta de
vagas
Por uma questão de escolha da família que, às vezes, não deixa em creche por
insegurança, por não confiar no lugar ou nas pessoas que irão cuidar, já que alguns
lugares não exigem dos profissionais especialização ou formação adequada para
trabalhar e cuidar de um bebê e, também, por ouvirem notícias de bebês que não
foram cuidados adequadamente, que morreram porque engasgaram, por exemplo
Os pais talvez se sintam mais seguros em colocar as crianças já maiores na pré-escola
porque eles próprios falavam “‘...ah, eu prefiro colocar meu filho quando ele for maior
porque meu filho ele vai poder falar caso aconteça alguma coisa.’”
Considera a freqüência à creche muito baixa e diz que é necessário acreditar mais,
confiar mais nas escolas municipais, nas creches que já contam com profissionais em
pedagogia e são muito boas
Talvez também “... por comodidade [algumas famílias] acabam que deixando [seus
bebês] com empregada, com babá, com “vó” [avó] e não é bom...”
Algumas mães não querem deixar a criança em creche com 4 meses de idade porque
a criança está muito apegada e as mães sentem muito. Com 6 meses de licença
maternidade acha que vai aumentar o índice de mães que vão colocar em creche,
porque aí a criança já está um pouco mais independente que uma de 4 meses e
porque nem toda criança tem avó
Para as crianças “... de 3 a 6 anos você tem que ter uma
professora em sala, já em um berçário não é necessário. Tem
escolas que não pedem um professor formado, um pedagogo
ou pelo menos um magistério.”
Beatriz
6/F
Algumas mães que trabalham talvez deixem as crianças com as avós
“... talvez não tenha o número de
creches suficiente... [...] para atender
todas as crianças...”
A freqüência talvez já seja maior na pré-escola porque a
criança já com idade maior “... já tem que começar a aprender
certas coisas, então aí já vai para a escola.”
Manuela
3/M
“... você tem um pouco de medo assim de deixar...”
Acha que talvez em São Caetano o problema não seja
realmente de insuficiência de vagas e sim de utilização por
pessoas de outras cidades
Milena
11/M
Classe média, muitas vezes, opta por avós ou babá, talvez por medo ou para “... se
livrar um pouco da culpa [...] ficando com a avó ou com babá parece que a coisa fica
assim mais velada do que, de repente, deixar em escola, parece que é como um
abandono maior [...]
“... a porcentagem é só essa mesma de crianças de 0 a 3?
Só? E onde ficam as outras? Nossa, eu achei pouco assim.
Achava que seria mais. Achei que em se tratando de creche
elas estariam muito mais presentes.”
Estranhou a porcentagem, pois acha que “... a mãe que
trabalha e de um poder aquisitivo menor procuraria creche...”
De repente, acho que até o custo também, o custo-benefício,
você põe uma empregada em casa que cuide da casa e da
criança, às vezes, vale mais a pena. Ou a avó também.”
188
Continuação quadro 18. Possíveis motivos para a não freqüência de crianças de 0 a 3 anos à creche
Entrevistada/
Idade (em
meses) e sexo
do bebê
Júlia
1 e ½ /M
Por que só 18% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos freqüentam creche?
Demanda/Escolha das famílias
Oferta insuficiente
Outros motivos ou outras impressões
“...a mulher acaba que não voltando ao trabalho, aquelas que podem ficar em casa,
que têm um mínimo de condição, acabam ficando em casa porque não têm apoio para
voltar.”
“... eu não vejo que tenha tanto
acesso não [...]
a gente vê que não é suficiente o que
tem.”
“Eu trabalhei em empresa particular
durante muito tempo [...] e [...] por
mais que tenha lei, a gente sabia
disso, vinha fiscalização, a empresa
levava multa, mas não tinha creche
[enfática], as mães tinham que se
virar, o máximo que as empresas
davam era aquela 1 hora, para você
sair 1 hora antes do trabalho, para
poder fazer o aleitamento [...] Então
assim, existe a lei, existe. Mas, na
prática, por tudo o que eu vi, ela não
é cumprida.”
As empresas “... Não tinham [creche]
e não pagavam nada [nenhum
auxílio para as funcionárias].”
Talvez mais crianças freqüentem a pré-escola porque “... o
pessoal dá mais importância porque ‘na escola já tem que
começar a aprender a ler, a escrever’, então o pessoal faz
questão de colocar. Agora, no berçário, na creche, eu acho
que é mais uma questão de necessidade mesmo, a pessoa
esquece que ali a criança também tem que ser estimulada,
o convívio com outras crianças é importante, a gente sabe
disso, mas eu não sei também a qualidade dessas
instituições, como que está. Agora, é que eu vou começar a
procurar é que eu vou ver realmente.”
189
Eixo 5. Aspectos intergeracionais
As entrevistadas não vivenciaram experiências concretas em creches
quando bebês (quadro 19), assim como os homens-pais de camadas médias
entrevistados por Galvão (2008). Sete delas foram educadas e cuidadas
principalmente por suas mães, enquanto uma recebeu os cuidados de sua avó
e, posteriormente, de uma empregada. Todas, entretanto, ingressaram na préescola com idades que variaram entre 3 anos e meio, 4 anos e 6 anos. Cinco
entrevistadas freqüentaram pré-escola pública, duas ingressaram na pré-escola
particular e uma freqüentou pré-escola rural. Cinco delas estudaram em préescolas de São Caetano do Sul. Das mães das entrevistadas, metade não
trabalhava fora e duas (incluindo a mãe de Joana que trabalhou como diretora
em uma pré-escola) pararam de trabalhar fora para cuidar pessoalmente dos
filhos (entrevistadas e seus irmãos/irmãs).
É necessário lembrar que, das mães que entrevistamos seis viveram
suas infâncias na década de 1970, quando as creches brasileiras ainda
iniciavam seu processo de expansão, a partir das reivindicações dos
movimentos de mulheres e de luta por creche, direcionando seu atendimento
aos filhos de mães trabalhadoras. Duas entrevistadas mencionam suas
percepções de que naquela época não havia creches: “Acho que na época não
tinha creche...” (Joana); “... antes não tinha isso muito de creche e como minha
mãe não trabalhava então eu fiquei com a minha mãe até 5 para 6 anos...”
(Aléxia).
Apreendemos, portanto, que todas as entrevistadas foram educadas e
cuidadas principalmente por suas mães ou por outras pessoas também de
sexo feminino, como avó ou empregada. Elas avaliam bastante positivamente
os cuidados recebidos destacando a dedicação e atenção por parte de suas
mães, mas também os valores familiares e a educação de qualidade que
puderam usufruir na infância (quadro 20): “... minha mãe era dedicação 100%
para nós, que eu acho que é o ideal.” (Natália); “Meu pai também era presente,
mas como ele trabalhava bastante eu ficava mesmo mais com ela [mãe], [...]
[eles] me passaram bons valores, puderam me colocar na escola particular no
primário e 1º grau.” (Beatriz); “A gente lembra já quando é maiorzinho né, não
de quando era bebezinho. Mas, assim, minha mãe sempre foi mãezona, [...] é
190
mãe com M maiúsculo e a gente assim sempre foi muito unido. Na hora do
jantar, discutindo tudo, sempre apoio na resolução dos problemas da gente,
meu pai e minha mãe sempre teve isso de sentar e conversar, aconselhar, a
gente tinha esse tempo...” (Milena); “... eu tive uma infância que eu falo que [...]
eu adorei [...] Eu brinquei muito, eu tive muita dedicação da minha mãe,
cuidado, não tenho queixas ...” (Aléxia).
Algumas entrevistadas expressaram seu reconhecimento em relação ao
que haviam recebido de suas famílias na infância: “Eu aprendi, na verdade, eu
sou o que sou graças à educação que eu recebi. A responsabilidade, a
integridade, a minha informação enquanto pessoa de forma geral, respeito
pelos outros, porque a gente tem que respeitar os outros para poder ser
respeitado, então sabe meu pai era uma pessoa que transmitia muita
sabedoria, ele não chegou a fazer faculdade na época porque ele era de uma
família de muitos irmãos e minha mãe também não fez faculdade [...] mas nem
por isso não tinham a sabedoria da vida.” (Aléxia); “... minha mãe fez papel de
pai, de mãe, de tudo, porque, realmente, faz falta a figura paterna.” (Malu);
Meus pais fizeram de tudo pela gente. Tudo, tudo que eles podiam fazer, eles
faziam. Graças a Deus, sempre deram tudo pra gente, sempre, nunca faltou
nada, sempre se esforçando, tirando deles para dar pra gente assim, eu acho.
E não tem o que falar assim.” (Manuela); “E assim, eu vi que os meus pais
fizeram de tudo para me dar uma boa educação [...] eu sempre estive em
escolas particulares, eu fiz faculdade, então isso tudo eu devo ao esforço dos
meus pais...” (Júlia).
Embora o que tenham recebido de seus pais tenha sido vivido de forma
bastante positiva pelas entrevistadas, algumas delas conseguiram apontar em
suas avaliações também pontos, digamos menos positivos, como a cobrança
excessiva dos pais em relação à educação formal ou uma postura mais
rigorosa na imposição de limites (palmadas e chineladas, por exemplo).
Ao refletirem sobre o que gostariam de manter ou modificar na educação
de seus filhos (quadro 20), com base na educação e cuidados recebidos na
infância, algumas entrevistadas se referiram às diferenças de contextos sóciohistóricos entre o período em que elas viveram suas infâncias e o momento
contemporâneo em que seus bebês vivenciam suas experiências: “...a gente
não vai comparar aqueles tempos que não eram tão evoluídos como agora que
191
têm internet, que tem uma série de coisas que naquela época não existia.
Aquela época era muito deficiente, então, não dá nem para comparar 40 anos
atrás com agora, com essa modernidade toda da tecnologia [...] naquela época,
as crianças eram criadas de qualquer jeito, não tinha esse negócio de ter o seu
quartinho, o seu bercinho, imagina, dormia na cama junto com a mãe, ia para a
roça com a mãe, então, quer dizer, não tinha tantos cuidados como tem hoje,
tanta frescura (risos) como tem hoje. Quer dizer, eu não morri, estou aqui viva
(risos).” (Malu); “... hoje é outra realidade (risos) que antigamente [...] acho que
educar da mesma forma eu não vou conseguir, porque assim [...] não sei se eu
agüentaria ficar 100% em casa hoje. A gente fala que é o ideal, mas eu não sei
se hoje, nos dias em que a gente vive, se eu realmente pudesse abrir mão, ‘ah,
não vou mais trabalhar’, não sei se eu conseguiria me dedicar 100%...”
(Natália); “...Hoje em dia, o assunto ecologia está na moda [...] mas,
antigamente não era e mesmo na época eu tive isso...” (Aléxia); “... eu vejo
assim, que pra época, apesar de eu não ser super velha (risos), mas eu vejo
que tem muita diferença [enfática]. Antigamente assim, o foco era mais a
educação mesmo, a alfabetização, o respeito. E, hoje em dia não, hoje em dia
não, já tem a questão do estímulo [...] as pessoas se conscientizaram de que
não é só a parte formal da educação, mas que tem uma outra questão do
estímulo, da interação entre as crianças [...] As crianças de hoje vivem em um
mundo com muito mais estímulo do que na minha época [...] eu acho que eu fui
estimulada, dentro do que havia de disponível para a época, e em tão pouco
tempo mudou muito, nossa. É impressionante.” (Júlia).
As diferenças mencionadas pelas entrevistadas entre os contextos
sócio-históricos parecem sugerir uma re-interpretação não somente do que
receberam em suas infâncias em termos de valores ou de educação formal,
mas também do modelo de disponibilidade materna ou feminino que lhes foi
conferido quando crianças (como abordado por BLOCH e BUISSON, 1999).
Natália, por exemplo, considera que o ideal seria o bebê ficar com a mãe em
tempo integral, como ela mesma foi educada e cuidada, mas pondera que hoje,
por estar inserida profissionalmente talvez não consiga se afastar de suas
atividades para se dedicar “100%” (como ela mesma diz) ao seu bebê. Nesse
caso, tem deixado seu bebê com uma babá, transferindo a norma da
disponibilidade para outra pessoa também de sexo feminino. Por sua vez,
192
Manuela, que foi educada/cuidada por sua avó e, posteriormente, por uma
empregada, já que sua mãe trabalhava fora, revela seu desejo de manter-se
mais presente junto ao seu bebê.
Além disso, alguns discursos maternos (como o de Júlia, o de Joana e o
de Malu, por exemplo) revelam a percepção de que mudanças ocorreram
também nas concepções de criança e de cuidados que devem ser
proporcionados aos bebês. A preocupação em não ser rigorosa ao colocar
limites, em propiciar estímulos, em brincar com seu bebê e possibilitar que ele
possa interagir com outras crianças de mesma idade despontam como aquilo
que algumas mães revelam ser importante oferecer ao bebê e que avaliam
como tendo recebido pouco ou de modo diferente em suas infâncias.
Malu explicita a vontade de oferecer ao seu bebê o que avalia não ter
sido possível receber em sua infância: “Tudo o que eu não tive, eu quero dar
para ele, o melhor. Por exemplo, um quartinho, um bercinho, todos os cuidados
que uma criança tem hoje, todas as frescurinhas que tem hoje [...] Oferecer
coisas boas que, graças a Deus, hoje, eu posso oferecer isso ao meu filho e
que naquela época, minha mãe, infelizmente, não tinha como oferecer [...] eu
falei ‘eu não vou ter um bebê aí, sem pai, de qualquer jeito’. Para mim, é muito
importante a figura paterna porque eu também fui criada sem pai, então eu sofri
por causa disso, fiquei meio revoltada e tal. E já com o pai presente, então falei
‘ele [bebê] vai ser feliz, ele vai ter vó [avó], vai ter vô [avô]’, tem duas vós [avós]
e um vô [avô], e eu não tive porque eles já tinham morrido.”
As mães entrevistadas expressam, então, procurar manter o que
consideram válido da educação que receberam, mas modificar o que acreditam
não ser adequado à realidade atual de seus bebês e de suas famílias, ao
mesmo tempo re-interpretando o modelo de disponibilidade materna e
procurando adequá-lo aos seus momentos pessoais e profissionais. De forma
geral,
apreendemos,
em
seus
discursos,
um
legado
intergeracional
relacionado, sobretudo, com a expressão do desejo de zelar pelo bem da
criança, de educar e cuidar com amor, atenção e limites, de transmitir os
valores familiares recebidos, de oferecer aos seus filhos as mesmas
oportunidades e qualidade de ensino formal que receberam quando crianças.
193
Quadro 19. Educação e cuidados recebidos pela entrevistada em sua infância
Entrevistada/
Idade (em meses) e
sexo do bebê
Freqüência à creche ou préescola pública ou privada
Idade de
ingresso na
creche ou préescola
(em anos)
3 e ½, 4
Estudou em
São
Caetano?
Pessoa responsável
por sua educação e
cuidados
Mãe exercia atividade profissional
quando a entrevistada era criança?
Joana
9/F
Sim, freqüentou pré-escola
pública
Sim
Mãe
Mãe parou de trabalhar para cuidar dos
filhos
Natália
3/F
Sim, freqüentou pré-escola
pública
4
Não
Mãe
Não
Aléxia
3 e ½/M
Sim, freqüentou pré-escola
pública
De 6 para 7
Sim
Mãe
Não
6
Não
Mãe
Acompanhava a mãe
em seu trabalho na roça
Sim
4
Sim
Mãe
Não
“... eu era bem
pequena, bem
pequenininha, não
lembro.”
Sim
Avó até 1 ano de idade,
na casa da avó
Sim
“... fiz a pré-escola, que era o
prézinho, o parquinho que
falava antes (risos)...”
Malu
3 e ½/M
Sim, freqüentou pré-escola
“... a gente falava ‘parquinho’,
que eram escolas em
fazendas.”
Beatriz
6/F
Sim, freqüentou pré-escola
pública
“... o prézinho, jardim de
infância era da Prefeitura.”
Manuela
3/M
Sim, freqüentou pré-escola
particular
Milena
11/M
Sim, freqüentou pré-escola
pública
6
Sim
Júlia
1 e ½ /M
Sim, freqüentou pré-escola
particular
5
Não
Empregada a partir de 1
ano de idade
Mãe
Mãe
Avó ajudava, às vezes,
mas não era uma ajuda
constante
Não
Mãe parou de trabalhar para cuidar dos
filhos
194
Quadro 20. Do que recebeu na infância, o que gostaria de manter ou alterar na educação e cuidado do bebê
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Relatos sobre educação e cuidados recebidos
O que gostaria de manter na educação do bebê ou transmitir para ele?
O que gostaria de alterar na educação
do bebê?
Joana
9/F
Tem um lado negativo e um positivo
Com a mãe se tem uma atenção maior
Com as irmãs, tinha com quem brincar, mas ficavam “... no nosso
mundinho [...] não tem outras atividades que você acaba
desenvolvendo na escola.”
“... diferente do que eu tinha, é que ela [bebê]
é filha única...” Quando é filho único a criança
acaba ficando muito sozinha em casa, fica
com manha, avó dá tudo na mão e o bebê
não aprende a dividir
Natália
3/F
Mãe se dedicava integralmente aos filhos
“... respeito, muito carinho, minha mãe ela tem a dose do carinho e a dose do limite que
eu acho que isso é importante, você ter o limite na educação, que é uma coisa que a
criança precisa [enfática], mas ter o carinho também, que eu acho que isso é uma
coisa que minha mãe passou pra gente e eu pretendo também passar para a minha
filha, dar as noções de convivência, mas ter o amor também, porque, às vezes, você
tem uma coisa muito rígida, mas não tem o carinho, o afeto que a criança também
precisa. Eu acho que isso minha mãe passou e eu pretendo fazer isso com a minha
filha também.”
“... eu acho que tem algumas coisas que são importantes, assim a gente sempre tomou
café junto, almoçou junto, jantávamos juntos, a lição de casa todo dia fazíamos juntos
[...]
Então, são coisas que você vai [...] criando esse hábito e que [...]
foram muito importantes na minha educação [e que gostaria de manter ou preservar na
educação da filha, ao menos um pouco].”
Aléxia
3 e ½/M
“...só tenho recordações muito boas, de felicidade mesmo [enfática],
por mais que eu caía, machucava, porque eu [...] era muito levada
[...] eu só tenho recordações excelentes. Eu não vejo a minha
infância como triste. Não, muita brincadeira, por isso que eu falo que
criança tem que brincar mesmo, a gente aprende brincando sim, [...]
para mim, a minha infância foi inesquecível.”
“... meus pais souberam muito bem educar os meus irmãos e a mim
também [...] a gente é uma família que [...] não pode se queixar.”
Malu
3 e ½/M
Mãe era rigorosa, mas também conversava bastante com a filha e
cumpriu papel de mãe e de pai
“..naquela época a gente apanhava de chinelo, isso quando ela
conseguia me pegar [...] Mas, a minha mãe é muito guerreira, muito
lutadora, trabalhava muito na roça. e a partir dos 7 anos eu já sabia
fazer comida, eu já sabia fazer tudo em casa e ai se eu não fizesse.”
Na época de sua infância não tinha tantos cuidados como as
crianças têm hoje
“Eu acredito que ter sido cuidada pela minha mãe foi o mais
acertado, não mudaria nada na minha educação e o fato de ter
freqüentado a EMEI a partir dos 4 anos também foi o mais acertado,
pois acredito que para a criança é bom o convívio com outras.”
Beatriz
6/F
“... são coisas que eu quero passar, assim, o brincar, o respeito, a consideração pelos
outros, por si mesmo, pelo meio ambiente, sabe isso sempre foi muito passado pelos
meus pais [...] então tenho que passar mais ainda para ele [bebê]. Então, em todos os
aspectos, em termos de educação mais geral mesmo, em termos de respeito, de ser
uma criança feliz para ser um adulto feliz.”
“... a minha educação [...] tinha a repreensão, mas não pela punição e sim para você
aprender o que é certo e o que é errado e é o que eu quero fazer com ele [bebê] da
mesma forma. Se precisar dar bronca a gente dá, chamar uma atenção a gente chama,
para ele saber tudo como fazer.”
“Minha mãe sempre conversava muito comigo e então isso eu também quero levar de
conversar muito com ele.”
Quer manter a disciplina
“... a gente quer passar o melhor para ele e, é claro, que a questão da chinelada
também, às vezes, até para disciplinar, a varinha né da sabedoria, isso talvez ainda
valha à pena, tipo uma chineladinha no bumbum da criança não vai fazer mal, é lógico,
que você não vai espancar a criança, porque eu também não fui espancada (risos).”
“Ah, mais os valores, ajudar a formar um bom caráter, formar com bons exemplos, não
discutir na frente dela.”
Acha que não conseguirá educar seu bebê
da mesma forma que foi educada, porque não
sabe se conseguiria se dedicar 100% ao bebê
nos dias atuais
Brincar mais com a criança, sentar no chão,
rolar, ser mais relax, não ficar só cobrando ou
só focando a educação. O difícil é encontrar
esse equilíbrio
Como nunca apanhou dos pais, avalia que
não precisa mudar nada em relação à
educação do filho
O que não teve, o que puder, vai fazer pelo
bebê
Quis que o bebê tivesse pai e avós, que
vivesse uma situação familiar diferente da que
viveu na infância
“Acho que não [faria nada diferente], mas
tentaria fazer com que ela [bebê] possa ser
calma. Minha mãe era mais agitada e eu acho
que eu acabei ficando também mais agitada e
mais ansiosa. E isso não foi bom, porque a
gente acaba sofrendo também por ser
ansiosa. Acho que minha mãe passou um
pouco também de insegurança e não queria
passar isso para a minha filha.”
195
Continuação quadro 20. Do que recebeu na infância, o que pretende manter ou alterar na educação e cuidado do bebê
Entrevistada/
Idade (em
meses) e
sexo do bebê
Relatos sobre educação e cuidados recebidos
O que gostaria de manter na educação do bebê ou transmitir para ele?
O que gostaria de alterar na educação
do bebê?
Manuela
3/M
“... eu era terrível! Eu odiava estudar, então meu pai e minha mãe me
chantageavam com isso tipo, ‘você quer alguma coisa, então só se
você tirar nota boa’...”
“... eu vou fazer tudo para ele. No sentido de poder dar uma boa escola pra ele, sabe,
não estou falando de mimar, de ficar dando coisinha, de ficar comprando a criança com
brinquedo, não, isso não, isso eu não gostaria de fazer. A minha mãe fala ‘é, você fala
que não vai dar, quero ver na hora você falar não’, então, não sei como vai ser, mas eu
quero ter condição, eu gostaria muito de ter condições de dar uma boa escola para ele,
eu acho que viajar, fazer uma viagem de intercâmbio é super importante, eu fiz, [...] e
foi a melhor experiência da minha vida! [...] e gostaria que ele tivesse [...]
eu quero estimular muito o crescimento dele, tudo o que eu puder fazer para estimular
a inteligência dele eu vou fazer [...] Eu não sei ainda o que que tem que fazer
especificamente, mas o que eu tiver que fazer, eu vou fazer.”
“Não sei se eu faria assim [como os pais
fizeram com ela] com o João. Mas, também,
não posso largar. Se eu largar, eu vou fazer o
que? ‘Ah, você não quer estudar, não estuda,
problema seu’. Não dá, tem que estar em
cima, tem que ter alguma forma de, não sei se
eu usaria esse método [chantagem]
especificamente, mas alguma coisa eu ia
fazer, não sei o que.”
“[A educação recebida] foi ótima [...]. Meu pai era, quando a gente
era mais nova, ele era um pouco ignorante no sentido de que ele
achava que bater resolvia, então ele me deu umas palmadas [...]
mas depois ele viu que não funcionava [...] Ele melhorou muito
assim, por isso que eu acho que bater não resolve nada. E a
chantagem também era meio complicado, ele me chantageava com
tudo, tudo, não me deixava fazer nada por causa das notas [...] Não
deu muito certo porque eu não estava nem aí, entendeu...”
Milena
11/M
“Minha avaliação é 10 em termos realmente de aconchego,
acolhimento, atenção, proteção, tudo de bom. Minha mãe era um
pouco rigorosa quanto às regras tudo, enfim cheia de tabus e
preconceitos, mas isso eu carreguei para a minha vida assim eu
acho que também direciona, então o cuidado, muito cuidado
[enfática], ela tinha muito isso e isso me ajudou.”
“Eu acho que de tudo um pouco eu levaria, talvez, um pouquinho mais de liberdade
mesmo porque com a minha mãe sempre teve horário para chegar em casa [...] era
assim a minha mãe que, às vezes, fazia papel de pai no sentido de, se bem que meu
pai sempre foi rigoroso, mas assim, de colocar hora, atenção, obediência à professora
[enfática], sempre foi cheia de dedos. Então, isso eu levo, com menos intensidade
talvez, talvez com um pouquinho mais de liberdade. Mas, assim o fato de acolhimento,
de estar junto para discutir, para aconselhar, para amparar, isso, amparo eu diria que
foi tudo que a minha família deu [...] acho que o amparo é tudo.”
Júlia
1 e ½ /M
“Minha mãe fala [...] ‘nossa, eu não conversava com vocês, porque
não tinha ninguém pra falar pra gente, olha, converse com o seu
bebê, a gente achava que dando de mamar, limpando, trocando e
pondo para dormir era o suficiente’ [...] Então não tinha mesmo o
acesso a muita informação. [...]
“... essa questão do respeito, respeito com os mais velhos, esse carinho com os avós,
[...] Uma coisa que eu recebi, mas acho que já mais velha e que também gostaria de
passar para ele é essa questão ética [...] Tem uma coisa que eu não recebi dos meus
pais, mas que eu gostaria de passar para ele que é essa questão do ensino religioso
que hoje é uma coisa importante na minha vida, mas [...] vai depender, é uma escolha
muito individual, então eu não sei que escolha ele vai fazer, mas eu vou tentar. Ah, e
muito amor que eu recebi, que é o que eu quero passar para ele também, que ele se
sinta amado, cuidado, valorizado, porque a gente sabe o quanto isso é importante.”
Também quer proporcionar ao filho uma boa educação, em boas escolas
Ela gostaria de ser mais presente. Quando era
pequena, a mãe tinha que trabalhar, mas ela
queria que a mãe ficasse com ela
“...eu acho que eu quero estar bem presente
assim no crescimento dele. Já estou doida,
imagina, com a minha sogra, imagina se ele
fala ‘vó’ [avó] antes de mãe, aí eu me mato!
(risos), aí eu largo o trabalho na mesma hora,
aí eu falo ‘chega, tchau, não quero mais’.”
“... não tem nada que eu fale ‘não, isso eu não
levaria para o meu filho’.”
Comenta que quer colocar limites sendo um
pouco menos rigorosa que os pais ou dando
um pouco mais de liberdade ao seu filho
“... eu acho assim que [transmitiria] as coisas
com um pouco mais de equilíbrio, então, por
exemplo, talvez essa questão do respeito,
meus pais sempre ensinaram a gente a não
responder, independente do que vinha do
outro, e eu acho que já ficou muito
tendencioso para um lado sabe, acho que tem
que ter um equilíbrio, acho que deve haver um
respeito sim, mas se a pessoa te agride
verbalmente, [...]você tem que ser ensinado,
não digo a agredir, mas [...] a responder à
altura, ou pelo menos falar ‘olha, não fale
comigo dessa forma’ e eu não fui ensinada
dessa forma. Eu fui ensinada independente do
que o outro fale você tem que ficar quieta e eu
acho que isso não é legal.”
196
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esperamos que, ao final deste trabalho, tenhamos conseguido
apresentar uma re-interpretação significativa e válida do campo-sujeito-objeto
pesquisado.
Ao abordarmos os discursos de mães de camadas médias sobre o bebê,
sua educação e cuidado, procuramos dialogar com as re-interpretações já
propostas por outros estudos do NEGRI, em especial os de Lima (2004) e de
Galvão (2008), adotando os aportes teóricos proporcionados tanto pelos novos
estudos sobre infância, quanto pela produção das pesquisadoras francesas
Bloch e Buisson (1998, 1999) sobre o processo de escolha de casais por
modalidades de EI, analisado, por elas, do ponto de vista das relações
intergeracionais e de gênero.
Pudemos apreender, nos discursos das mães que entrevistamos, quais
as opções de educação e cuidado que consideram adequadas não somente
para seus filhos, mas também para outros bebês, quais concepções sobre o
bebê parecem embasar suas escolhas por modalidades de EI e como
expressam suas avaliações sobre a creche, especialmente sobre a creche
pública, enquanto instituição de educação e cuidado coletivos.
Observamos que as mães entrevistadas pouco haviam se mobilizado
por questões relacionadas aos direitos dos bebês ou às políticas de creche.
Muitas relataram mesmo “nunca ter parado para pensar” sobre essas questões,
embora algumas soubessem e conhecessem a dificuldade de algumas mães e
bebês para conseguirem, por exemplo, uma vaga em creche.
A baixa mobilização social pelos direitos dos bebês e pelas políticas de
creche foi associada não somente a uma postura, talvez, individualista e
acomodada da sociedade brasileira, mas também à opção por parte de
algumas famílias de modalidades de educação e cuidado infantis em contexto
doméstico e à oferta insuficiente de vagas em creche.
Apreendemos que os discursos das entrevistadas evidenciam o que
supúnhamos como hipótese inicial de nosso trabalho, ou seja, que mesmo
entre mães com maior escolaridade e renda e inseridas profissionalmente
prevalecem concepções sobre o bebê associadas a imagens de fragilidade,
dependência e inocência, que os inserem, principalmente, quanto menor a
197
idade da criança, ao contexto doméstico. Estes dados se aproximam dos
resultados encontrados tanto por Lima (2004), ao entrevistar mulheres de
pouca escolaridade e renda, quanto por Galvão (2008), quando entrevistou
homens de camadas médias.
O bebê, compreendido como imaturo, frágil e dependente, foi mais
associado pelas entrevistadas ao espaço privado e cuidado por mães, avós e
babá, do que a criança pequena que entre 1 e 2 anos, por já ter desenvolvido
algumas competências como a marcha, a fala, a capacidade de compreensão
e expressão, já seria considerada, pelas entrevistadas, como mais apta a
freqüentar a creche.
Não notamos diferenciação nos discursos de mães de bebês de sexo
masculino e feminino, mas apreendemos que as mães apontam fortemente
para a distinção interna entre as crianças na faixa de 0 a 3 anos, considerando
que os bebês apresentam tanto capacidades diferenciadas das de crianças
pequenas quanto necessidades específicas de atenção, educação e cuidado.
As mães entrevistadas, talvez por não terem vivenciado experiências de
educação e cuidado infantil em espaços coletivos quando bebês, tendo
permanecido no espaço da casa sempre sob o cuidado de suas próprias mães,
avós ou empregada, expostas, portanto, a um modelo de disponibilidade
feminina ao bebê, parecem ter orientado suas buscas por alternativas de
atendimento para seus filhos que também pudessem assegurar essa mesma
atenção e disponibilidade, quase sempre oferecida, também, por pessoas de
sexo feminino em casa ou na creche.
Ao refletirem sobre como foram educadas/cuidadas quando crianças, as
entrevistadas pouco se referem à avaliação das modalidades de cuidado e
educação, ou, por exemplo, ao fato de terem permanecido sob os cuidados de
suas próprias mães e não terem, por exemplo, freqüentado creche.
Também, é necessário destacar como apreendemos, no contexto social
paulista dessas mães, que não freqüentaram elas mesmas a creche, os
legados intergeracionais. Observamos que elas expressam o desejo de manter
o que consideram válido da educação que receberam, especialmente,
procurando zelar pelo bem da criança, procurando educar e cuidar com amor,
atenção e limites, tentando transmitir os valores familiares recebidos e
oportunizando aos seus filhos a mesma qualidade de ensino a que tiveram
198
acesso quando crianças, mas também de modificar o que acreditam não ser
conveniente à realidade atual de seus bebês e de suas famílias.
A concepção das mães entrevistadas do que seriam creches de
qualidade parece contemplar indicadores que assegurem para, além dos
cuidados físicos, o desenvolvimento de atividades pedagógicas garantindo, não
somente, que as crianças possam se socializar e interagir com outras crianças,
mas que possam receber uma atenção mais individualizada por parte de
profissionais devidamente capacitados.
Apesar de somente metade das entrevistadas optar pelo uso da creche
para seus filhos quando mais velhos, a maioria das mães que entrevistamos
visualiza a “escola” pública em São Caetano do Sul como uma opção não
somente para seus filhos, mas também para outros bebês. Elas consideram
que a creche pública, mantida pelo município e denominada Escola Municipal
Integrada, oferece, não somente, bom atendimento às crianças com grande
investimento na capacitação de seus profissionais, mas também conta com a
adesão das camadas médias, diferentemente do que ocorreria, segundo elas
com creches públicas de outros municípios.
Não observamos, portanto, um sentimento de rejeição a priori frente ao
serviço público, como Galvão (2008) havia apreendido entre os homens-pais
de camadas médias que entrevistou, mas notamos, sim, uma rejeição explícita
ao termo creche e às creches (públicas, mas também particulares) que possam
não preencher os critérios de qualidade que as mães consideram adequados
às necessidades dos bebês em termos de educação e cuidados.
Para finalizar, gostaríamos de registrar que, diante das limitações de
tempo que tivemos para efetuar a análise dos dados, optamos por apresentar
informações mais gerais que dessem conta do que havia prevalecido nos
discursos da maioria das entrevistadas. Infelizmente, não conseguimos atentar
para todos os detalhes ou informações que, embora preciosas, dissessem
respeito somente à realidade de uma entrevistada, de uma família ou de um
contexto muito particular. Não foi nosso objetivo, também, abordar as possíveis
ambigüidades internas a cada discurso.
Apresentamos, nesta tese, uma possibilidade de interpretação dos
dados, e esperamos que ela possa instigar outros pesquisadores a também
investigarem o tema - tomando o cuidado de desagregarem a faixa etária de 0
199
a 3 anos por idades e de não considerarem a EI como um bloco homogêneo,
como se a freqüência à creche (para todas as idades de 0 a 3) e a freqüência à
pré-escola fossem equivalentes, perdendo, com isso, a especificidade da
creche -, e a produzirem novas interpretações, propiciando uma maior
visibilidade social para os bebês brasileiros e suas necessidades e direitos em
termos de educação e cuidado.
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219
ANEXOS
219
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Comitê de Ética em Pesquisa
Sede Campus Monte Alegre
São Paulo, 16 de novembro de 2009.
Termo de Compromisso do(a) Pesquisador(a) Responsável
Título da Pesquisa: O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães
de camadas médias.
Os(as) pesquisadores(as), abaixo assinados(as), se comprometem a:
Respeitar e cumprir a Teoria Principialista que visa salvaguardar a autonomia,
beneficência, não maleficência e justiça (Res. 196/96 CONEP/CNS/MS);
Atender aos deveres institucionais básicos da honestidade; sinceridade;
competência; discrição; sigilo; etc.;
Pesquisar de forma adequada aos princípios éticos, além de buscar o
aprimoramento e promoção do respeito e desenvolvimento à sua profissão;
Não fazer pesquisas que possam causar riscos aos sujeitos de pesquisa
envolvidos;
Não violar as normas do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;
Não converter recursos públicos em benefícios pessoais;
Não prejudicar o meio ambiente, evitando erros previsíveis ou evitáveis;
Comunicar ao sujeito da pesquisa todas as informações necessárias para um
adequado “consentimento livre e esclarecido”;
Propiciar ao sujeito da pesquisa plena oportunidade e encorajamento para
fazer perguntas, bem como respeitá-lo em seus posicionamentos;
Excluir a possibilidade de engano, influência indevida e intimidação;
Solicitar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido apenas quando o
sujeito da pesquisa tenha conhecimento adequado dos fatos relevantes e das
conseqüências de sua participação, e tenha tido oportunidade suficiente para
considerar livremente se quer participar da pesquisa;
Obter de cada sujeito de pesquisa um documento assinado como evidência do
consentimento livre e esclarecido;
Renovar o consentimento livre e esclarecido de cada sujeito se houver
alterações nas condições ou procedimentos da pesquisa;
Respeitar a dignidade da pessoa humana;
Cumprir na integralidade todas as resoluções da Comissão Nacional de Ética
em Pesquisa CONEP/CNS/MS, as quais temos pleno conhecimento.
____________________________
_______________________________
Assinatura do(a) Orientador(a)
Assinatura do Autor(a)
Nome: Fúlvia M. de B. Mott Rosemberg Nome: Elaine Cardia Laviola
CPF Nº_______________________.
CPF Nº_______________________.
RG Nº________________________.
RG Nº_________________________.
220
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social
NEGRI – Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
O presente termo de consentimento tem por objetivo informar-lhe sobre a
pesquisa, bem como, a partir de sua compreensão, obter sua autorização explícita
para dela participar como entrevistada, visando assegurar o cumprimento de
normas éticas na relação pesquisador-pesquisado. Objetiva-se, através deste,
fornecer à entrevistada uma idéia básica sobre a pesquisa e sobre o que a sua
participação envolverá.
Se você desejar obter mais detalhes sobre algo mencionado, ou
informações não incluídas, sinta-se à vontade para perguntar. Por favor, leia
cuidadosamente este termo de consentimento e as informações aqui contidas.
Tema de pesquisa
O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias.
Pesquisadora
Elaine Cardia Laviola, Doutoranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em
Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Orientanda
da Professora Doutora Fúlvia Maria de Barros Mott Rosemberg.
Objetivo da pesquisa
Descrever e interpretar as concepções de mães sobre o bebê, sua educação e
cuidado.
Recrutamento e seleção dos participantes
Serão convidadas a participar da pesquisa: mulheres mães de bebês com 1 filho
de até 1 ano de idade, residentes no município paulista de São Caetano do Sul,
221
casadas ou com companheiro, inseridas no mercado de trabalho, pertencentes às
camadas médias da população e que apresentem formação superior.
Procedimento
O procedimento adotado será a entrevista. Estima-se que o tempo de duração de
cada entrevista seja de aproximadamente 1 hora. As entrevistas serão gravadas
com consentimento para permitir um registro mais preciso e sua posterior
transcrição.
Aspectos éticos
Em relação aos aspectos éticos, é importante ressaltar que só serão realizadas
entrevistas e apresentados dados cuja autorização prévia para divulgação seja
obtida. Os objetivos da pesquisa serão informados às participantes e lhes será
dada a liberdade de decisão sobre participação no estudo, assim como também
lhes será garantido anonimato.
Risco ou desconforto
Caso a participante sinta-se desconfortável em algum momento da entrevista,
poderá solicitar a interrupção ou, até mesmo, o encerramento da sua participação
na pesquisa.
Sigilo
Os nomes das participantes serão mantidos em absoluto sigilo. Todas as
informações obtidas na entrevista serão utilizadas apenas para análise dos dados
e em hipótese alguma os nomes das participantes constarão nas eventuais
publicações escritas e/ou orais. Os nomes de pessoas citadas pelas entrevistadas
também serão alterados visando garantia de anonimato.
Consentimento
A sua assinatura no presente termo de consentimento indica que você leu e
compreendeu as informações aqui contidas, que você concorda em participar da
222
pesquisa e ser entrevistada. Você é livre para se recusar a responder qualquer
questão durante a entrevista. Sinta-se livre também para desistir de participar do
estudo em qualquer momento, sem nenhuma penalidade. Esteja à vontade para
pedir explicações ou esclarecimentos sobre a pesquisa sempre que achar
necessário. Se você tiver outras questões relacionadas a este estudo, estou à
disposição através do telefone (11) 8683-8880 ou pelo e-mail [email protected]
São Caetano do Sul,
de
de 2010.
______________________________
Pesquisadora: Elaine Cardia Laviola
RG:
CPF:
_______________________________
Participante:
RG:
CPF:
223
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA PUC-SP
SEDE CAMPUS MONTE ALEGRE
Protocolo de Pesquisa nº 008/2010
Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social
Orientador(a): Prof.(a). Dr.(a). Fúlvia Maria de Barros Mott Rosemberg
Autor(a): Elaine Cardia Laviola
PARECER sobre o Protocolo de Pesquisa, em nível de Tese de Doutorado, intitulado O bebê,
sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias
CONSIDERAÇÕES APROVADAS EM COLEGIADO
Em conformidade com os dispositivos da Resolução nº 196 de 10 de outubro de
1996 e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS),
em que os critérios da relevância social, da relação custo/benefício e da autonomia dos sujeitos
da pesquisa pesquisados foram preenchidos.
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permite ao sujeito compreender o
significado, o alcance e os limites de sua participação nesta pesquisa.
A exposição do Projeto é clara e objetiva, feita de maneira concisa e fundamentada,
permitindo concluir que o trabalho tem uma linha metodológica bem definida, na base do qual
será possível retirar conclusões consistentes e, portanto, válidas.
No entendimento do CEP da PUC-SP, o Projeto em questão não apresenta qualquer
risco ou dano ao ser humano do ponto de vista ético.
CONCLUSÃO
Face ao parecer consubstanciado apensado ao Protocolo de Pesquisa, o Comitê de
Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – Sede Campus
Monte Alegre, em Reunião Ordinária de 01/03/2010, APROVOU o Protocolo de Pesquisa nº
008/2010.
Cabe ao(s) pesquisador(es) elaborar e apresentar ao CEP da PUC-SP – Sede Campus
Monte Alegre, os relatórios parcial e final sobre a pesquisa, conforme disposto na Resolução nº
196 de 10 de outubro de 1996, inciso IX.2, alínea “c”, do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do
Ministério da Saúde (MS), bem como cumprir integralmente os comandos do referido texto legal
e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS).
São Paulo, 01 de Março de 2010.
_____________________________________________
Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho
Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP
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Transcrição primeira entrevista
Entrevistada: Joana, 29 anos, professora e analista programadora com
formação em Ciências da Computação, trabalha em uma universidade, mãe
de Maria Clara, 9 meses.
Elaine: Bom, queria agradecer você ter aceitado participar... eu não sei se você já
tinha participado alguma vez de alguma pesquisa?
Joana: Não, nunca participei. Quando você comentou, falei “ah, se puder
ajudar...” (risos).
Elaine: O que você achou do tema que eu vou pesquisar?
Joana: É interessante, até em relação à educação, eu estou passando por um
momento assim de... que ela [bebê] está com 9 vai fazer 10 meses e ela já está
começando a andar e eu já estou procurando escolinhas para colocá-la e fica
aquela dúvida porque aqui na região, em São Caetano, tem as escolinhas da
Prefeitura, tem uma ao lado da minha casa, então estou visitando escola pra ver
aonde colocá-la, a gente se preocupa com os cuidados, que é novinha tudo, então
até foi interessante que é um... eu estou passando por este momento... em
relação aonde colocá-la, cuidado, educação é uma coisa que a gente se preocupa
bastante.
Elaine: Ahamm... você comentou que está procurando uma escolinha. Queria que
você falasse um pouquinho o que você está procurando nessa escolinha, se você
já viu alguma?
Joana: Isso. Olha, eu visitei já as escolas da Prefeitura, ao lado da minha casa e
três escolas particulares. Minha filha ela tem assim, ela tem refluxo, então a gente
sempre está... eu presto muita atenção assim nos cuidados que as pessoas vão
dar para a criança. Normalmente, se tem muita gente olhando ou não, se a criança
fica muito tempo sozinha, em relação assim aonde vai dormir, o que vai comer, se
tem regras ou não tem, o lugar, como que é o ambiente, se é limpo, se não tem
perigo, porque assim eu vi algumas escolinhas que, às vezes, assim ficam 9
crianças com uma moça e aí assim são áreas, às vezes tem o berço aqui, depois
uma área onde a criança fica brincando, outra área separada onde toma banho e,
às vezes, eu acho que perde um pouco o controle, às vezes, as crianças ficam um
pouco sozinhas lá brincando, então a gente, eu fico preocupada neste aspecto, às
vezes, também horários, se tem horário flexível para trabalhar porque eu aqui
trabalho das 10h às 18h, 18h30, só que às vezes eu fico até mais tarde, embora a
minha mãe está disposta, às vezes que eu fico aqui a ir buscá-la. Então é uma
preocupação geral com quem está cuidando, como é a relação com a criança e o
ambiente.
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Elaine: Nós vamos voltar a falar mais sobre isso, sobre o que você está
procurando, mas antes eu queria que você descrevesse um pouco sua família,
falasse um pouco sobre você, seu marido e sua filha. O que você puder falar em
termos de idade, profissão, religião, se vocês tiverem, para descrever um
pouquinho sua família...
Joana: Tá. Eu sou professora, eu trabalho com informática, eu fiz a minha
formação, fiz Ciências da Computação e depois fiz Licenciatura. Eu sou
programadora, analista programadora, e comecei a voltar a minha formação para
educação, tanto que eu estou no setor de uma Universidade desenvolvendo
conteúdos online. Meu marido é guarda municipal, ele até assim... a gente tem
personalidade... embora os dois sejam tranqüilos, ele gosta de luta, é policial, eu
já sou uma pessoa mais tranqüila. A gente tem um relacionamento muito bom, já
faz 9 anos que eu namoro com ele e nós temos 2 anos de casados. Ele já morou
um tempo na casa dos meus pais porque eu com a minha família sou muito ligada,
tanto que eu já era ligada antes de ter a minha filha e agora, assim, vivo na minha
mãe, que ela [bebê] também fica lá, que nem hoje meu marido está de folga e está
lá na minha mãe...
Elaine: Você tinha comentado antes da entrevista que vocês moram bem perto...
Joana: É bem perto mesmo, eu até assim quando eu casei... antes de casar
quando eu estava procurando, eu falei para o meu marido “eu quero morar perto
da minha mãe” e o meu marido não tem assim uma relação com a família porque
assim ele não foi criado pela mãe, foi criado pela avó, então ele valoriza muito a
família tanto que o meu pai e a minha mãe para ele são os pais dele. Ele valoriza
muito, então todas as festas desde que a gente começou a namorar ele passou
comigo então virou uma grande família, meus pais e meu marido, de certa forma,
virou um filho. A gente tem um relacionamento muito bom, eu e meu marido, a
Maria Clara veio em uma surpresa assim, embora, eu não estava mais tomando
remédio, mas eu não estava assim “olha, quero ter um filho agora”. E foi uma
coisa muito boa que aconteceu, até aproximou eu e meu marido, esse negócio de
ter uma criança, os cuidados, que nem hoje ele está lá, ele fica muito com ela,
embora assim ele não cuida assim de dar mamadeira porque ele não tem muito
jeito, mas ele está sempre assim, quando der ele fica, ele está com ela, ele cuida
e comigo assim em casa ele ajuda muito a fazer mamadeira, às vezes janta, ele
está sempre apoiando muito porque como eu trabalho também então ele sempre
ajuda, que nem hoje de madrugada ela [bebê] acordou porque o dentinho está
nascendo então precisa fazer mamadeira, eu vou trocando, cuidando e ele já vai,
faz mamadeira, ele ajuda bastante, então ele é um bom companheiro.
Elaine: E quais as idades de vocês?
Joana: Ele tem 30 e eu tenho 29, vou fazer 30 agora [três meses após a data da
entrevista], ele tem 31, então tem 1 ano e meio de diferença.
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Elaine: E você é funcionária da universidade, contratada, assalariada...
Joana: Isso, eu sou concursada.
Elaine: E vocês têm alguma religião que vocês seguem ou não?
Joana: Olha assim, eu sou católica não praticante. Eu acredito em Deus, eu já
freqüentei centro espírita porque eu acredito no espiritismo, mas assim eu não sou
freqüentadora de nenhuma... eu acredito em Deus, rezo, mas não tenho uma
religião que eu seja praticante e ele a mesma coisa, ele acredita em Deus, a gente
tem um altarzinho em casa com Jesus tudo, mas não sou praticante de ficar indo
em igreja, não gosto muito.
Elaine: Você tinha começado a falar um pouquinho em relação ao que seu marido
viveu de não ter sido criado pela mãe, de ter sido criado pela avó...
Joana: Isso.
Elaine: Eu queria que você me falasse um pouquinho agora sobre os cuidados e a
educação que você recebeu na infância, então como era, com quem você ficava,
do que você se recorda...
Joana: Olha, eu fui criada pela minha mãe, meu pai e minha mãe, eles são
casados até hoje, mas meu pai assim sempre trabalhou muito, normalmente ele
saía de casa a gente estava dormindo, ele chegava nós já estávamos dormindo.
Minha mãe trabalhava, ela dava aula em escolinha, mas quando a minha irmã
mais velha nasceu ela parou de trabalhar. Somos três irmãs, tem a mais velha, eu
sou a do meio e tem a mais nova.
Elaine: A escolinha, que você está dizendo que sua mãe dava aula, era para qual
idade?
Joana: Era para criancinha. Acho que na época não tinha creche, acho que era
para 3 ou 4 anos, pré-primário. E ela foi e ficou uns 6 ou 7 anos porque ela fez o
Normal e depois ela fez Letras. Ela chegou até a ser diretora de escolinha, mas a
minha irmã mais velha nasceu e ela parou de trabalhar. Então eu fui criada assim
praticamente pela minha mãe, meu pai deu todo o apoio, de certa forma, o
sustento, nunca deixou faltar nada, mas quem criou a gente mesmo, que passou
tudo foi a minha mãe. Assim até de lembrança de estar junto, com o meu pai até a
gente tinha um afastamento sabe, aquela relação meio que de medo, de respeito.
Eu comecei a ter um pouquinho mais de contato com ele aos 18 anos porque eu
fui trabalhar com ele porque a formação dele é em computação também...
Elaine: Ele é professor?
Joana: Ele também é professor universitário. Ele trabalha com informática e, de
certa forma, acabei me aproximando mais dele. Hoje, a gente tem uma relação de
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conversar tudo, mas é uma coisa assim que foi construída já quando eu já estava
mais velha porque antes era uma coisa de medo assim, tanto que quando eu
comecei a trabalhar com ele, era meio aquela coisa de sentar no carro e ficar
esperando “o que ele vai falar?”.
Elaine: E você, então, não chegou a freqüentar creche ou escola?
Joana: Não. Acho que foi com 3 anos e meio, 4 anos já que eu entrei na escola.
Elaine: E em qual escola? Pública ou particular?
Joana: Foi na escolinha da Prefeitura de São Caetano também, aí eu acho que eu
fiquei até o prézinho e depois a gente foi para a escola particular, eu e a minha
irmã mais nova.
Elaine: Você se lembra um pouco mais dessa época que você freqüentava a
escola?
Joana: Olha, assim, eu lembro mais do pré-primário...
Elaine: Ahamm...
Joana: Eu lembro assim de uma ou outra coisa que aconteceu na escolinha. Uma
vez que eu perdi um negócio, teve uma festa lá que a gente levou uma boneca,
que eu perdi o negócinho da boneca e aí a boneca não chorou mais. É isso que
eu lembro dessa fase e mais do prézinho, que aí eu acabo lembrando um pouco
mais e aí já foi na escola particular.
Elaine: Ahamm...
Joana: E que eu sempre gostei de ir para a escola (risos).
Elaine: Sempre gostou de ir para a escola... e o que você pensa dessa educação
que você recebeu, do jeito como você foi criada, enfim, cuidada, educada, de ter
ficado até uns 3 anos com a sua mãe e depois ter ido para a escola? Que
avaliação você faz disso?
Joana: Olha, assim, eu acho que tem um lado positivo e um lado negativo que eu
vejo dessa criação. Uma assim que você está com a mãe, de certa forma você
tem uma atenção maior, embora assim, uma coisa boa é que como eu tinha as
irmãs eu tinha com quem brincar tudo, mas uma coisa que eu vejo até pela minha
filha, que eu já estou até querendo colocar na escolinha em uma fase assim de
desenvolvimento dela, a escola está mais preparada até para desenvolver a
criança, para ela ter um relacionamento maior com as crianças, porque uma coisa
que eu vejo com a minha filha, diferente do que eu tinha, é que ela é filha única,
por enquanto não tem primos, eu quero ter filhos, mas daqui um pouco pra frente,
ela acaba ficando muito só ela, ela, ela, então eu acho legal essa coisa de você ir
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para a escola aprender a dividir sabe e desenvolver outras coisas porque a gente
é muito manha, agora que ela fica com a minha avó, é muito assim, dá tudo na
mão.
Elaine: Fica com a sua mãe...
Joana: Fica com a minha mãe, por enquanto ela vai com a minha mãe, porque é
aquela coisa que eu confio, fica meio essa dúvida do saber com quem vai estar
para cuidar, mas também ter uma possibilidade de ter o desenvolvimento da
criança porque a gente não sabe ao certo que atividades você pode desenvolver
pra criança, para desenvolver o aspecto... minha filha é um pouco preguiçosa, ela
puxou um pouco a mim (risos) porque eu andei, eu falei bem tarde, sentei com 9
meses, eu era preguiçosa e, às vezes, assim uma coisa que eu vejo com a minha
mãe é que a gente ao invés de estimular já pega e minha filha gosta de ficar lá no
bercinho sentada, ela não faz muito esforço para levantar. Então acaba, não que
ela esteja atrasada, mas em relação, às vezes, até às outras crianças acaba
desenvolvendo um pouco mais tarde porque a gente acaba não estimulando.
Elaine: Você acha que se colocasse na escola...
Joana: É, de certa forma, porque hoje em dia as escolinhas até pelo que eu andei
vendo, eles têm muita atividade para desenvolver o aspecto psicomotor, então
isso eu acho interessante, diferente do que a gente teve, porque a gente ficou lá
no nosso mundinho, fui para escola com 3 anos e meio, 4, a gente acaba
brincando lá, mas não tem outras atividades que você acaba desenvolvendo na
escola.
Elaine: E dessa educação que você recebeu, do jeito como foi, o que você
gostaria de transmitir para a sua filha ou se tem alguma coisa que você não
gostaria de fazer?
Joana: Olha eu acho que assim, a minha mãe, eu acho interessante tanto que a
minha filha está lá porque ela sempre, até é uma coisa de ter muito respeito, muito
carinho, minha mãe ela tem a dose do carinho e a dose do limite que eu acho que
isso é importante, você ter o limite na educação, que é uma coisa que a criança
precisa [enfática], mas ter o carinho também, que eu acho que isso é uma coisa
que minha mãe passou pra gente e eu pretendo também passar para a minha
filha, dar as noções de convivência, mas ter o amor também, porque, às vezes,
você tem uma coisa muito rígida, mas não tem o carinho, o afeto que a criança
também precisa. Eu acho que isso minha mãe passou e eu pretendo fazer isso
com a minha filha também.
Elaine: Teria alguma coisa que você não quer, digamos assim, para a educação
da sua filha que você tenha vivido ou que você avalia como não sendo muito
interessante?
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Joana: Olha eu acho assim, da criação da minha mãe eu não tenho nada o que
falar em relação a discordar. Não tenho o que discordar do que foi passado pela
minha mãe...
Elaine: Ahamm...
Joana: Por isso até que minha filha está lá (risos).
Elaine: Ahamm... Então, no telefone, antes da entrevista, você já havia me
contado que a sua filha fica com a sua mãe. Ela fica desde que você voltou a
trabalhar?
Joana: É que é assim, quando a minha filha nasceu eu fiquei 1 mês, porque
assim, eu estou na minha mãe já faz um tempo porque na minha gravidez eu já
fazia repouso, então eu fiquei 1 mês e pouco no começo da gravidez, aí eu fui
para a minha casa, eu tive que fazer repouso também no final da gravidez e aí eu
já fiquei na casa da minha mãe. Aí, minha filha nasceu de 8 meses porque rompeu
a minha bolsa, aí eu já fiquei o primeiro mês lá, por não ter experiência, hoje em
dia eu acho engraçado até a criação, pelo menos a minha criação, nunca fui de
cozinhar muito, sempre gostei de trabalhar, então a gente fica meio sem noção,
sem saber como lidar com a criança, fiz cesárea, primeiro filho, então fiquei o
primeiro mês na minha mãe e aí depois que eu já estava segura, já tinha me
recuperado, aí eu fui para a minha casa.
Elaine: Seu marido ficou junto na casa da sua mãe durante esse primeiro mês?
Joana: Ele ficou junto. Aí eu fui para a minha casa depois de 1 mês e aí aos 4
meses eu voltei a trabalhar e ela [bebê] ficou em tempo integral na minha mãe.
Elaine: Tá. Então você usufruiu a licença maternidade durante os 4 meses
regulamentares?
Joana: Isso.
Elaine: Ahamm... e como foi essa decisão, enfim, você chegou a pensar, como foi
esse momento de pensar com quem o bebê ia ficar?
Joana: Olha, eu pensei porque assim eu sou uma pessoa, não gosto muito de
ficar pedindo as coisas, que nem pra minha mãe “ah, mãe fica com a minha filha”,
embora assim é uma coisa que eu gostaria, principalmente por ela [filha] ser
pequena, porque eu sei que é uma responsabilidade muito grande porque minha
mãe já vai fazer 60 anos, não é fácil cuidar de uma criança, é que minha mãe
também comentou, ela ficou disposta a cuidar da minha filha, eu tinha comentado
alguma coisa que eu gostaria que ela [bebê] ficasse pelo menos nos primeiros
meses até ela [bebê] ficar um pouco maiorzinha, ainda mais porque ela nasceu
com 8 meses, até logo que eu voltei a trabalhar ela ficou, teve bronqueolite, várias
vezes eu tive que ir para o hospital com ela, então, de início, eu não queria colocá230
la e até foi uma conversa com a minha mãe, ela se disponibilizou, conversei com
ela, então eu a deixei com a minha mãe, mas assim com uns 8 meses eu já
estava pretendendo colocá-la em escolinha, mais pra ela crescer um pouquinho,
pra ficar um pouquinho maior para eu colocá-la na escolinha.
Elaine: Ahamm... e essa escolha, enfim, essa sua decisão foi conversada com o
seu marido? O que ele achou disso?
Joana: Foi, ele concorda sim. Ele... é... meu marido concorda muito, às vezes,
com o que eu falo, embora ele coloque a opinião dele, mas acho que em relação à
filha, ele também conversa, sabe como é minha mãe e por ela [bebê] ser
pequenininha ele também concordou em deixá-la com a minha mãe.
Elaine: Ahamm... e vocês chegaram a conversar com mais alguma pessoa sobre
essa decisão ou não?
Joana: Não.
Elaine: Ninguém também... amigos ou parentes, ninguém comentou, avaliou se
era legal ou não?
Joana: Não, não. O pessoal normalmente comenta assim que, às vezes, eu falo
que depois ela vai para a escolinha, o pessoal “ai, mas é muito novinha para pôr
na escolinha, deixa com a sua mãe, não sei o quê”. Normalmente, as pessoas,
família mais comenta, fala “ai, você vai ter coragem de colocar na escolinha?”,
eles sempre têm essa, porque na minha família, a maioria... tem só uma tia que
trabalha, as outras ficam em casa, então elas não, de certa forma, os filhos
ficaram em casa, não foram para a escolinha, tenho uma outra tia que ela
contratou uma babá para ficar com a criança...o que eu já não gosto, não gosto de
colocar uma pessoa dentro de casa para cuidar da minha filha, eu já não... eu
nunca pensei nessa hipótese porque eu não acho legal ou ela vai estar na
escolinha com um monte de gente ou vai estar com a minha mãe (risos).
Elaine: Por que você não acha tão legal?
Joana: Ah, porque eu não sou uma pessoa assim, colocar uma pessoa na minha
casa, vamos supor ficar o dia inteiro na minha casa eu não estando lá, sendo que
eu não confio, mesmo que eu tenha referências, eu não gosto. Eu não acho legal
tanto pra minha filha porque uma coisa até de ouvir falar, de pesquisas que, às
vezes, a criança cria muito vínculo com uma pessoa desconhecida, estranha que,
às vezes, pode sair e dependendo não ter o contato e esse negócio de ter uma
pessoa o dia inteiro na minha casa assim eu não gosto, eu sou uma pessoa muito
reservada, assim já vai uma moça lá limpar uma vez por semana e está muito bom
(risos). Esse negócio de ficar muito na minha casa eu não gosto não.
Elaine: Tá, mas essa moça quando vai, a sua filha não está lá?
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Joana: Não, ela [bebê] está lá, que nem a empregada, eu estou lá, junto também,
ela limpa a casa, às vezes, também eu não estou lá porque eu tenho que
trabalhar, mas é uma vez por semana, não é todo dia, vamos supor uma
empregada todo dia na minha casa.
Elaine: Mas, a sua filha fica com a sua mãe na sua casa ou na casa dela?
Joana: Na casa da minha mãe.
Elaine: Ok.
Joana: Minha mãe montou lá (risos) um berçário (risos).
Elaine: Ah, é? Conta um pouquinho o que tem neste berçário?
Joana: É que é assim, já tem bercinho, ela [bebê] dorme na casa da minha mãe
porque assim, o sonho da minha mãe era ser avó porque minha irmã mais velha
ainda não providenciou. Agora, que eu tive o filho é que ela ficou um pouquinho
mais animada, mas ainda está pensando um pouco, então ela tem um perfil
diferente, ela gosta muito de viajar todo final de semana, então ela, então minha
mãe sempre quis, quando eu dei a notícia ela pulou, começou a ligar pra todo
mundo, então assim, já tem bercinho, já tem carrinho, tem mamadeira, tem tudo o
que precisa, roupinha, eu levo as coisas, mas já tem uma estrutura lá e ela fala “já
fica para os próximos netos”, então ela comprou tudo, a Maria Clara vai para lá,
tem lugar para ela dormir, tem o carrinho que ela fica, já tem os brinquedinhos que
ficam na minha mãe, já tem uma estrutura lá que eu não tenho que ficar levando,
leva e traz, leva e traz.
Elaine: E o seu pai ainda trabalha bastante...
Joana: Trabalha, é que assim, ele ainda, antes meu pai trabalhava fora, agora ele
só dá aula. Então, assim ele continua estudando, um ou dois dias que ele tem
compromisso de manhã ou à tarde e é mais à noite que ele fica fora, todas as
noites.
Elaine: Mas, de qualquer forma, a Maria Clara fica mais tempo com a sua mãe
mesmo?
Joana: Com a minha mãe. Tem a minha irmã mais nova que trabalha e tem
horário flexível, então ela sai, dá aula, volta, então, às vezes, minha mãe está
fazendo almoço, fazendo alguma coisa, então, às vezes, minha irmã fica com ela,
mas quem cuida mesmo, assim dá banho, troca fralda, dá mamadeira é a minha
mãe. Uma ou outra vez, a minha irmã ajuda. Meu pai não faz nada, às vezes, fica
com ela no colo, mas de cuidados assim também não mexe, uma vez que ele
pediu para trocar a fralda (risos).
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Elaine: Ahamm... Em algum momento neste processo de decisão de com quem
deixar, você pensou em parar de trabalhar para ficar com ela e cuidar
pessoalmente?
Joana: Ó, eu pensei pouco tempo (risos). Porque assim, eu gosto muito de
trabalhar, até no começo, no final da licença maternidade, eu fiquei, quando eu
voltei a trabalhar a gente fica aí pensando “você é uma mãe má, estou deixando
minha filha na minha mãe”, embora eu já estava louca para voltar a trabalhar
porque eu acho que ficar só cuidando da criança, embora é minha filha tudo, falta
alguma coisa, então assim pensei pouquíssimo, mas já desisti da idéia.
Elaine: E outras pessoas falaram com você sobre isso? Questionaram?
Joana: Não, não, nunca ninguém falou nada. Até meu marido também, uma coisa
que ele falou, que ele sabe que eu gosto muito de trabalhar, então ele nunca falou
“ai, para de trabalhar”, que eu decidi também, mas ele achou também, uma que eu
preciso pela minha condição financeira para sustentar a casa, mas é uma coisa
que eu também gosto e eu acho que eu não ficaria feliz ficando em casa cuidando
e não trabalhando.
Elaine: Ahamm... E essa escolha de ter deixado a sua filha logo após a licença
maternidade com a sua mãe, você acha que essa escolha é só uma escolha
pessoal que vale só para o seu caso ou você recomenda também para outros pais
e outros bebês?
Joana: Ah, eu recomendo (enfática) porque 4 meses eu acho muito pequenininho.
A criança, embora você consiga perceber pela reação da criança, às vezes, aos
cuidados, mas acho que assim a criança está muito pequeninha pra freqüentar
uma escola. Eu, se eu tiver outro, que eu pretendo ter outro filho e minha mãe
puder cuidar, nestes primeiros meses, eu também deixaria com a minha mãe para
após esse período colocar na escolinha.
Elaine: Então, você acha que a idade da criança influenciou aí?
Joana: Eu acho que muito, agora ela já reconhece, ela já tem reação, mas com 4
meses, o nenezinho fica muito sensível aos cuidados de quem está com ele, que
nem a minha filhinha tem refluxo, com 4 meses para dormir era um sufoco, às
vezes, a gente ficava meia hora, uma hora ninando, até eu descobrir depois que
ela tinha refluxo, tomar remédio, ficou ainda um período, então, às vezes, até em
uma escolinha, não que eu ache que o pessoal vai deixar a criança chorando, mas
o cuidado não vai ser o mesmo do que eu ou mesmo a minha mãe deu para a
minha filha.
Elaine: Antes você tinha falado que com uns 8 meses pensou em colocar sua filha
na escola. Ela está com quase 10 meses. Ela continua lá com a sua mãe? O que
aconteceu, você está repensando?
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Joana: (risos). É que eu estou vendo, comecei a procurar a escola, fiz inscrição
também na escolinha da Prefeitura porque assim, eu só consigo conhecer a
escola depois que eu fizer a matrícula e sair a vaga, tanto que saiu agora a vaga
dela, só semana passada é que eu pude conhecer a escola. Então, por isso é que
demorou, porque eu fiz a inscrição em julho, mas por conta do recesso, da gripe
suína, tudo isso, então atrasou um pouco.
Elaine: É uma escola pública da Prefeitura...
Joana: É da Prefeitura aqui de São Caetano. Então, por isso que eu estou
aguardando, como saiu a vaga agora é que eu fui conhecer as escolinhas, eu já
tinha conhecido algumas escolas particulares e estou visitando outras para decidir
onde que eu vou deixá-la.
Elaine: Tá. A gente já vai conversar mais sobre essa questão da escolinha, mas
antes eu queria que você falasse um pouquinho... você faz uma avaliação
bastante positiva desse período que a sua filha ficou com a sua mãe, como é para
a sua mãe, o que ela acha de cuidar da sua filha?
Joana: Ah, ela adora. Por ela, ela [bebê] ficaria com ela [avó] até uns 2 anos e
meio, 3 anos. Ela só não fica mais por causa do meu pai, porque meu pai gosta
muito de viajar, por isso também a escolha de colocá-la na escolinha, mas pela
minha mãe até 2 anos e meio, 3 anos ela ficaria com a minha filha, porque a
minha mãe assim, acho que pelo fato de ela ter parado de trabalhar para cuidar
das filhas, normalmente eles falam que é melhor ser avó que ser pai, pela minha
mãe é o que ela fala, ela fica cansada, porque cansa você cuidar de uma criança,
mas ela adora, por ela, tanto que eu falei “mãe, ó, vou colocar a Maria Clara na
escolinha agora”, ela até chorou (risos), porque eu acho que ela vai sentir muito
mais do que eu porque ela fica hoje o dia inteiro. Para mim, foi mais difícil quando
eu saí da licença e voltei a trabalhar porque você fica um período que daí dá o
baque e você fica aquele período longe. Embora é bom que como minha mãe
mora perto e eu trabalho perto então no almoço eu vou lá, fico no almoço com ela
[bebê] e volto, eu trabalho 7 horas por dia, então dá ainda para ficar um tempinho
com ela [bebê].
Elaine: Ok. Agora, eu queria que você descrevesse um bebê, o que vem à cabeça
quando pensamos em um bebê? O que é um bebê para você?
Joana: Ah, é amor, é uma coisa assim, é um sentimento assim maravilhoso, é
uma coisa que eu falo parece que hoje em dia, parece que a minha vida era sem
graça sem a minha filha, parece que a vida ganha um sentido com uma criança. É
engraçado que agora todo lugar, antes eu não ligava muito pra esse negócio de
criança, sempre fui mais racional, depois que eu tive a minha filha fiquei muito
mais sentimental porque acho, não sei, o sentimento brotou e é uma coisa assim
que eu recomendo pra todo mundo ser mãe (risos). Agora eu vejo todo neném eu
olho para o neném, é uma coisa diferente que eu não tinha isso antes.
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Elaine: Mas e o que caracteriza um bebê? Tem alguma coisa que você possa
falar ...um bebê é... tem essas características?
Joana: ... Ah, não sei... acho que dependente, fofinho, não sei (risos).
Elaine: Você já deu algumas características, tem mais alguma coisa?
Joana: Acho que a inocência, ele demonstra os sentimentos...
Elaine: Ahamm... você acha que tem diferença entre um bebê e uma criança
pequena?
Joana: Ah, muita, acho que pelos cuidados que você tem com o neném, porque
acho que uma criança pequena ela já começa a racionalizar muita coisa que o
neném não racionaliza. O neném acho que ele reage muito pelo que você dá para
ele, embora a criança também, mas acho que a criança já começa a racionalizar
muita coisa que acho que o neném não pensa, acho que ele age de instinto.
Elaine: Ahamm... tem mais alguma coisa que diferencia? A partir de qual idade,
como você faz essa separação... bebê até que idade e depois criança pequena?
Joana: Ah, acho que até 1 ano e meio, 2 anos é bebê ainda porque acho que eles
não pensam, acho que não racionalizam ainda, acho que a partir desse momento
é que eles começam a entender as coisas, que aí você consegue explicar e eles
entenderem o que está acontecendo.
Elaine: E você acha que tem alguma diferença em termos de comunicação?
Joana: É, acho que normalmente o nenêzinho, a comunicação dele é chorar. Eles
começam, eles não sabem as palavras, então acho que eles se expressam com
sons. Eu acho que quando, a partir de quando ele não é mais um bebê, ele já
começa a falar, a se expressar da forma correta. O neném, acho que ele não sabe
ainda, acho que assim, ele chora ou fala “mamama, dádádá”, porque ele está
querendo alguma coisa ou ele está com algum desconforto. Ou ele quer comer ou
ele quer carinho ou alguma coisa. Acho que a criança mais velha, ela já se
expressa com o falar e acho que não é só com o desconforto, acho que se ela
quer alguma coisa específica...
Elaine: Mas, de qualquer forma, você está dizendo que ele também consegue se
comunicar...
Joana: Se comunica só que através do choro. É a forma que acho que ele tem de
falar que ele quer alguma coisa ou choro ou as sílabas, as vogais que ele fala “a,
má, dá”, de, certa forma, ele está se comunicando. A gente, às vezes, só não
entende muito bem o que ele está querendo dizer (risos).
235
Elaine: Ahamm... Então você disse que o bebê seria até mais ou menos uns 2
anos...
Joana: É, 1 ano e meio, 18 meses.
Elaine: E como é que você se instruiu, como você aprendeu sobre os cuidados
com o bebê?
Joana: Ai, comprei um monte de livros, internet...
Elaine: Você lembra o nome de algum?
Joana: Ah, é que eu para nome de livro sou uma coisa, mas assim, tem... é... é
que eu não lembro... eu para nome sou muito... mas, livros para dormir Nana
neném; Durma com os anjos; é tem um...que é A encantadora de bebês, vários
livros assim relacionados, principalmente assim porque a minha filha com uns 2
meses e meio ela ficou com muito problema no sono, mas por causa do refluxo
então eu fui tentar pesquisar porque ela assim, ela passou a dormir meia hora,
dava meia hora acordava, então eu fui até pesquisar para entender assim como é
o processo do sono, esse negócio que o pessoal comenta muito “ah, se você
ninar, ele acostuma de um jeito”, então eu fui buscar literatura para entender o que
acontece com o bebê, até assim em relação à rotina, porque é importante a rotina,
então eu comprei os livros, assim, para compreender o mundinho deles, porque eu
não tinha a menor noção.
Elaine: Você não tinha tido nenhum contato anterior com crianças?
Joana: Não, não, porque na minha casa assim, os meus primos já são velhos,
quando eles cresceram, já cresceu todo mundo junto, eu nunca fui assim, eu
sempre tive muito medo de pegar neném no colo que é muito molinho, então a
primeira experiência já foi com a minha filha já, aprendendo na prática.
Elaine: Você chegou a fazer algum curso?
Joana: Não, é que assim, eu ia até fazer para gestante, mas só que aí como eu
tive que ficar de repouso acabou, porque eu ia fazer no final, mas eu fiquei no
começo um tempão de repouso e no final também, acabei não conseguindo fazer
o curso. E ela nasceu também com 8 meses, aí não deu.
Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados e educados?
O que eles precisam ou o que eles necessitam? Qual a melhor maneira de educálos?
Joana: Ah, eu acho que assim, de amor, carinho e limites. Eu acho que assim, o
bebêzinho é mais difícil você impor limites em certas coisas porque eles não
entendem, mas eu acho assim, ter uma rotina que eu acho importante, horários de
refeições, claro, você tem uma coisa assim deu fome antes você não vai deixar a
236
criança com fome, mas ter essa rotina, esse controle porque às vezes a criança,
pra minha filha eu busco sempre isso, ela tem horário para almoçar, só de manhã
é que, às vezes, ela acorda um pouco mais cedo para mamar, a gente dá
mamadeira e vai adaptando o horário ou aí depois dá o suquinho, mas acho que é
importante assim o carinho, o afeto, a atenção que você dá para a criança e
também essa rotina e os limites que você tem que dar também. Não é aquela
coisa assim “ah, faz o que quer”, eu acho que eu sou, às vezes, um pouco mais
rígida até que a minha mãe com essa questão sabe de impor limites porque acho
que a minha mãe até por ser avó tem aquela coisa mais “ai, tadinha”, eu sou mais
“não, ó, tem que ensinar”.
Elaine: Mas você acha que teria alguma coisa que diferenciaria para o bebê em
termos de tipo de cuidado, por exemplo, ficar com uma avó, ficar com uma babá,
ficar em casa com a mãe ou ir para uma creche, para uma escola? O que o bebê
necessitaria, ou talvez, o que ele gostaria mais?
Joana: Olha, uma coisa assim, eu acho que ele tendo afeto, acho que assim, a
mãe, ele sente falta, eu acredito que ele sinta falta da mãe, mas eu acho assim,
uma coisa que eu acredito é que o importante é você dar atenção com qualidade
mais do que a quantidade, porque às vezes, vamos supor você fica o dia inteiro
com o seu filho, mas você não dá atenção pra ele, ele fica lá, você fica lá fazendo
as suas coisas mas, assim, ele não recebeu a atenção que ele precisa.
Elaine: Ahamm...
Joana: Eu acho assim se for com babá, com quem seja, embora eu não gostaria
de babá por outros motivos, mas acho assim você dando atenção pra criança,
claro acho que ele também sente falta da mãe, porque especialmente o bebêzinho
quando ele não entende, não reconhece, eu acho que ele sente muito pelo cheiro,
eu acho que é uma forma de ele reconhecer quem está cuidando dele, mas eu
acho que o importante é isso, você dar atenção e os cuidados que a criança
precisa porque, às vezes, você pode cuidar dele, mas não dar atenção e o afeto
que ele precisa, meio como um robozinho e o neném fica lá, largado.
Elaine: E qual seria a idade que você consideraria ideal para um bebê começar a
freqüentar a creche ou escola?
Joana: Olha, eu acho que assim com 9, 10 meses ou 1 ano porque eu acho que a
criança, eu vejo pela minha filha, não sei, porque cada criança também anda num
certo período, pra mim, ainda mais que eu trabalho fora, eu acho que a partir dos
8 meses que eu acho que a criança já consegue entender, eu acho que ela
reconhece já os pais, eu acho que é uma idade boa porque eu acho que você já
consegue perceber muito assim se ela não gosta da pessoa ela já reage, que nem
vai no colo de fulano, se for na escolinha, a criança de certa forma já reage, ela vai
para o colo, se ela não gosta ela já chora, não quer, então você já consegue acho
que perceber na criança se ela, de certa forma, está sendo bem cuidada ou não.
237
Elaine: Você tem uma idéia de como seria a rotina de um bebê na creche?
Joana: Eu já perguntei lá, normalmente assim, o pessoal dá 11 horas o almoço,
normalmente a rotina que eu estou fazendo na minha casa é o que o padrão
segue. É até o que o pediatra indica, 11 horas é o almoço, aí 14h30 mais ou
menos é a mamadeira, então eu sigo, de certa forma, o pediatra e eu percebi
também que nas creches, acho que é o padrão, para a idade dela, eles seguem a
mesma rotina. É bom porque ela não vai sentir tanta diferença. Normalmente, eu
vi nas creches que os bebêzinhos costumam dormir depois do almoço, embora
nas creches que eu vi eles respeitam o horário de dormir da criancinha, e a minha
nenê também costuma dormir depois do almoço.
Elaine: E tem mais alguma atividade que o bebê faça na rotina diária, tanto em
casa quanto na creche ou que seja diferente?
Joana: Eu acho mais assim atividade de recreação, porque de manhã quando ela
fica na minha mãe ela fica mais no carrinho, não brinca muito. Na escola, eles têm
mais atividade, porque eles têm lá os brinquedinhos, que aí desenvolve até para
aprender a ficar sentadinho, em pezinho, coisas que, às vezes, em casa a gente
por tempo acaba não conseguindo desenvolver que, às vezes, mudaria um pouco
a rotina dela.
Elaine: Voltando agora a falar um pouquinho da licença maternidade, que você
usufruiu os 4 meses, você acha que esse tempo foi suficiente ou adequado?
Joana: Olha, se tivesse 6 meses eu ia gostar para ficar um pouco mais tempo
com a minha filha, mas eu acho que foi importante porque também ficar muito
tempo fora do trabalho, que nem eu já voltei depois dos 4 meses, a gente fica
meio alienada. E eu acho que assim como ela ficou na minha mãe também, eu
acho que se ela fosse para a escolinha, eu acho que eu queria ter mais tempo,
mas como ela ficou na minha mãe e eu pude também na hora do almoço ver a
minha filha, não teve problema, mas assim se eu tivesse colocado ela na
escolinha, eu gostaria de ter mais tempo para aproveitar mais e para ela estar um
pouquinho maior para ir para a escolinha.
Elaine: Você sabe que já foi aprovada a prorrogação da licença maternidade por
mais 2 meses se a mulher e a empresa tiverem interesse, você teria prorrogado se
você tivesse tido essa possibilidade?
Joana: Eu sei, eu teria.
Elaine: Teria ficado mais 2 meses então com a criança...
Joana: Teria.
Elaine: Você acha que esse período é adequado ou haveria um tempo
considerado “ideal” para a licença maternidade?
238
Joana: Eu acho que 6 meses... é que acho que a gente como mãe, embora tenha
o lado profissional, quanto mais tempo a gente puder ficar acho que com a
criança, acho que mãe não gostaria de continuar recebendo, embora assim no
meu serviço eu sempre estava em contato porque muita coisa depende do meu
trabalho porque a gente trabalha, tem a professora XYZ que é a gestora, eu sou
professora e a gente só trabalha com monitores. Então, muita coisa depende do
trabalho, então acho assim também se ficar muito tempo fora eu acho que assim,
às vezes, tem lugar que é 1 ano de licença, parece que você está voltando para
um outro lugar de trabalho porque acho que muita coisa aconteceu, eu acho que
para o lado profissional da mãe.
Elaine: Na Suécia, por exemplo, podem conceder até 2 anos de licença, mas o
casal pode escolher e a criança pode ficar um período com o pai e um período
com a mãe. O que você acha?
Joana: Olha, eu sou muito apegada com a minha filha, não sei se meu marido ia...
ele não gosta muito de cuidar. Eu acho assim tem pais que, de certa forma, se
dispõem, eu acho que não teria problema nenhum, o pai, de certa forma, estando
disposto a cuidar da criança, porque, às vezes, acaba a criança tendo mais
vínculo com a mãe pelo fato dos cuidados, às vezes, seria uma oportunidade do
pai também participar mais.
Elaine: E o seu marido tirou, usufruiu a licença paternidade?
Joana: Os 5 dias.
Elaine: Ele ficou os 5 dias com você...
Joana: Ficou.
Elaine: E vocês consideraram esse tempo adequado?
Joana: Não, muito pouco (enfática) (risos). Se tivesse maior até ajudaria mais,
assim, tanto ele para ajudar nos cuidados quanto para ficar com a criança
também, porque acho que 5 dias o pai não consegue, acho que o pai tira esses
dias só para resolver documentação, essas coisas, porque às vezes não dá nem
tempo direito de ficar com a criança.
Elaine: Existe um projeto aguardando aprovação para ampliação da licença
paternidade de 5 para 15 dias. O que você acha desse aumento e qual o tempo
que você consideraria “ideal”?
Joana: Ah, às vezes 1 mês. Acho que poderia ser 1 mês (risos). Acho que daria
até para o pai aproveitar a criança, porque recém-nascido, às vezes, é bem
pequenininho, às vezes, o pai tem até receio de pegar.
239
Elaine: Seria adequado tanto para o pai...
Joana: Para família em si e para a criança.
Elaine:...para a mulher e para o bebê também?
Joana: É porque eles acabam, tem pai também que trabalha muito e que, às
vezes, acaba, que nem meu marido tem dias que sai às 4h30 da manhã para
trabalhar e chega às 22h, 23h da noite. Ele acaba nem vendo a minha filha. Às
vezes, assim, ela tem mais vínculo até, às vezes, com o meu pai, com a minha
mãe e com a minha própria irmã que ficam mais, do que com o meu marido que,
às vezes, acaba não tendo muito contato, embora é engraçado, tem uma foto
nossa lá no mural, que aí eu pego a Maria Clara e falo “vamos dar boa noite para
o papai”, aí ela fica passando a mãozinha e depois vai dormir, mas tem muitas
vezes que ela não o vê, acorda ele já não está e aí ela também vai dormir e ele
não está em casa. Então, acha que fica né, acho que tanto para o pai quanto para
a criança, a presença.
Elaine: Um período maior seria importante...
Joana: É.
Elaine: Ahamm... Então, quando começamos a conversar, você contou que
estava procurando, que você se inscreveu e parece que conseguiu vaga, que
pôde visitar a escola, você usou mais sempre esse termo “escola” mesmo quando
você se referia à...
Joana: Creche (risos).
Elaine: Mesmo quando você se referia à escola pública né? O que te vem à
cabeça quando falamos “creche”? O que esse termo “creche” evoca? Por que
você preferiu ou utilizou o termo “escola”?
Joana: Não, é que acho que para mim assim, porque de certa forma é uma
escola, é uma escolinha, que nem é uma escola só que para crianças que, de
certa forma, vão ficar período integral. Então é que, de certa forma, para mim, na
cabeça, está mais escola do que creche.
Elaine: Você diz...
Joana: Mas não teria diferença...
Elaine: ...mais em termos de atividade ou em relação a ser privada ou pública?
Joana: Não, porque para mim não importa assim se é privada ou público porque,
de certa forma, os dois tratam até como escolinha. É difícil, não sei, porque eu
nunca liguei e perguntei “ai, deixa eu ver uma creche”, porque normalmente as
240
escolas tanto que as EMIs [Escolas Municipais Integradas de São Caetano do Sul]
eles não falam que são creches, são as escolas municipais e as escolinhas
também, é uma escola que, de certa forma, o pessoal tinha para primário, jardim,
prézinho e eles abriram pras crianças, para os bebês em período integral, acho
que é essa diferença, por isso é que eu acho que é o fato de escola e não creche.
Elaine: Então, para você não haveria tanto essa diferenciação de usar um termo
ou outro?
Joana: Não, é que, às vezes, assim a escola, de certa forma, às vezes, eles
desenvolvem mais atividades do que a creche que só seriam os cuidados básicos
com a criança.
Elaine: Ahamm...
Joana: Pode ser essa diferença em relação à escola. Ela [escola] vai estar
instruindo e desenvolvendo algumas coisas que a creche não faria.
Elaine: Você acha que mudando o nome tem essa diferenciação?
Joana: É se for pensar no contexto mudaria.
Elaine: Qual contexto, fala um pouquinho mais sobre isso...
Joana: Não, porque eu acho que a creche em si é mais para o cuidado, ficar
cuidando da criança e acaba não desenvolvendo e a escolinha tem outras
atividades para desenvolver a criança. Acho que na creche, eles não vão ficar,
não sei, tentando desenvolver o aspecto motor da criança, acho que é mais ou
menos o cuidado que eu tenho na minha casa com a minha filha.
Elaine: Então, para você, a creche serviria mais para dar conta desta parte dos
cuidados...
Joana: É só.
Elaine: Não necessariamente desta parte da educação ou do desenvolvimento...
Joana: É.
Elaine: E a quem se destinaria essa creche? Para quem?
Joana: Acho que o ideal seria que todo mundo fosse na escolinha porque já
estaria desenvolvendo.
Elaine: Então, você chegou a conhecer...
241
Joana: Conheci várias. Acho que hoje em dia, em relação ao que o pessoal
comenta em creche assim, eu pelo menos, principalmente aqui em São Caetano,
não se procura por creche, se procura por escola.
Elaine: Ahamm...
Joana: São escolas para o ensino infantil.
Elaine: Não se procura... você diz porque elas se denominam ou porque na
Secretaria de Educação...
Joana: Isso ou mesmo as escolas, você não procura, vamos supor, você vai na
lista, se você procurar não são creches que aparecem, são escolas infantis, então
pode ser até uma outra denominação que as pessoas estão dando pelo fato de
terem essas outras atividades.
Elaine: Ahamm... então, você conheceu várias escolas/creches públicas e
privadas e você pode comentar um pouquinho qual foi a avaliação que você fez?
O que as diferencia, se você viu diferenças?
Joana: Olha, assim, praticamente assim tanto a escola da Prefeitura quanto a
escola particular, os cuidados são os mesmos, a rotina, a única diferença que eu
vi é que assim nas escolas particulares têm bercinho para as crianças dormirem,
nas escolas públicas elas dormem em colchãozinho no chão e em bercinho, ou
carrinho, desculpe, não tem berço em nenhuma da Prefeitura. Eles dormem ou em
colchãozinho no chão ou tem os carrinhos. Essa foi a única diferença. E assim,
tem algumas escolas particulares que as crianças tomam banho na escola, mas
tem escolinhas que não e na Prefeitura, elas não tomam banho na escolinha, elas
tomam banho em casa, aí eles comentaram só no caso de, às vezes, em caso de
necessitar o bebê toma banho, senão não.
Elaine: Não faz parte da rotina?
Joana: Não, não faz. Essa foi a diferença que eu vi nas escolinhas.
Elaine: E você, está optando a princípio por uma escola/creche pública?
Joana: Por enquanto sim. É porque assim, uma coisa que, o problema maior que
eu vejo assim, de cuidados é a mesma coisa, eu estava até pensando em colocála meio-período e meio-período ela ficar, às vezes, com a minha mãe. Só que o
problema é que fica de férias em julho e em janeiro, então para mim não
adiantaria porque também, às vezes, minha mãe não pode e para as creches o dia
inteiro assim a média que eu vi, pelo menos aqui em São Caetano perto da minha
casa, é R$ 900,00 porque aí cobra almocinho, aí material, e assim eu estou
optando mais por esse valor do custo, em relação ao custo-benefício porque a
diferença mesmo que eu vi até nos cuidados, eu tenho primas que têm
nenêzinhos na Prefeitura de São Caetano, primas da minha mãe que são diretoras
242
das EMIs [Escolas Municipais Integradas] e a avaliação delas também elas
falaram que não devem nada pras escolinhas particulares e pelo que eu vi
também porque eu fui conhecer, então não tem aquela coisa de falar “olha, se a
minha filha ficar aqui ela não vai ser bem tratada, então eu vou colocá-la em uma
escolinha particular”.
Elaine: E tem uma no seu bairro?
Joana: Tem ao lado da minha casa, ao lado da minha casa, eu atravessando a
rua já é na frente assim.
Elaine: É nessa que você pretende colocar?
Joana: É que é assim, eu optei por essa, mas por enquanto não tem vaga. Eles
me deram três escolinhas para eu escolher e eu já fui conhecer uma delas, as
outras duas, o local fica fora de mão pra mim, e quando eu fui conhecer essa
escolinha, eles falaram que é mais fácil a criança estar em uma escolinha da
Prefeitura e aí quando abre vaga, porque como ela passa para o outro nível a
partir de 1 ano, ela consegue vaga na escolinha ao lado da minha casa, que aí
facilitaria bastante.
Elaine: Como foi esse processo da inscrição?
Joana: Para a inscrição tem toda uma documentação porque eles precisam saber
se você mora mesmo em São Caetano, então é conta de luz, IPTU, tem uma
fichinha com os dados, onde fica, se você trabalha porque para a Prefeitura você
tem que trabalhar mais que 6 horas porque senão eles não disponibilizam a vaga,
então de certa forma assim eles vão, eles visitam a sua casa entre 8h30 e 9 horas
da noite para ver se você mora lá mesmo, eles fazem uma pesquisa pra ver
telefone, tudo isso, se está no nome da pessoa, para saber se a pessoa mora lá
mesmo, ligam para o serviço...
Elaine: Teve isso mesmo?
Joana: Teve. Eles ligam para o serviço também para ver se você trabalha lá e
para ver se o horário que você trabalha está certo. Eu aqui, de certa forma, estou
com carteira assinada, mas assim não tem o horário que eu trabalho, então eu
informei o horário e eles ligam no período em que você falou que você trabalha
para ver se você está aí mesmo.
Elaine: Ahamm...
Joana: Então eles fazem toda uma verificação porque eles querem que as vagas
sejam disponibilizadas para quem mora em São Caetano.
Elaine: Teve algum critério em relação à renda? Alguma pergunta ou algum
questionamento em relação a isso?
243
Joana: Não, não perguntaram nada. É porque é assim, é para qualquer pessoa de
São Caetano, que more em São Caetano e que a mãe trabalhe mais que 6 horas.
Isso é o que eles, esse é o requisito para fazer a inscrição. Em relação a quanto
ganha não. E, normalmente, é a mãe que tem que trabalhar, se o pai não trabalha
não tem problema.
Elaine: Você falou que você conhece pessoas que trabalham, que são diretoras e
outras primas que também têm filhos nas escolas da Prefeitura... eles são bebês?
Joana: Agora já assim, tem uma que já está com 2, outra está com 1 ano, até
uma das primas da minha mãe são gêmeas e estão na escolinha que eu quero
que a Maria Clara estude que é ao lado da minha casa. Elas estão desde os 4
meses na escolinha, ela comenta até que as netas dela adoram a escolinha,
nunca, não tem queixa nenhuma e a outra também que é diretora e o neto dela
também estuda na escola em que ela trabalha, também está desde os 4 meses
assim, é o que ela fala, ela recomenda e nunca teve queixa nenhuma a respeito
disso.
Elaine: E se você pensar em termos de creche, em um contexto mais genérico,
ampliando, saindo de São Caetano, que tipo de informação você tinha sobre
creche, que tipo de impressão ou avaliação?
Joana: Olha, o pessoal comenta que eu ouço, não fiz muita coisa fora de São
Caetano porque como eu trabalho e moro aqui eu nunca pensei em procurar fora.
Mas, o que eles comentam em relação vamos supor à creche de Prefeitura, o
pessoal comenta muito bem daqui, lá de São Paulo, o pessoal se fosse não
recomendaria uma creche pública, aí teria que optar por uma escolinha particular.
Elaine: Por que não recomendariam?
Joana: Acho que pelos cuidados porque falam assim que o pessoal, é uma coisa
que eu já ouvi, que o pessoal comenta, é que normalmente aqui o pessoal já é
bem preparado, capacitado, tem um número maior de pessoas pra cuidar, o
número limite de crianças por adulto, coisa que, às vezes, não tem isso na
Prefeitura.
Elaine: Em outra cidade?
Joana: É.
Elaine: E quem comenta essas coisas?
Joana: Ah, outras pessoas do convívio, que eu ouvi, às vezes, você vê uma ou
outra coisa, principalmente falando de São Caetano, fora assim...
Elaine: Você tem menos informação...
244
Joana: É.
Elaine: E o que seria para você uma creche de boa qualidade? O que essa creche
tem que oferecer para a criança se sentir bem?
Joana: Olha, acho que assim tem que ter uma atenção, uma coisa assim que eu
percebi e até comentei quando eu fui visitar, é que, às vezes, assim tem uma
criança que vamos supor dorme sendo ninada, acho que assim, de certa forma, a
creche tem que tentar se adaptar, principalmente porque a criança, ela aprende o
que a gente ensina, então, de certa forma, ela vai reagir ao que a gente ensinou
para ela, então, cada criança tem um costume, então acho que assim o
profissional tem que, de certa forma, respeitar essa coisa da criança e impor uma
rotina e desenvolver atividades, que nem tem horário, “olha, vamos comer, está na
hora” e também respeitar a criança, vamos supor, ah, se a criança ficou com fome
um pouco antes, não vai deixar a criança passar fome, acho que é neste sentido
de cuidar, respeitar a criança, mas também impor limite para a criança também já
ir aprendendo os horários, os limites.
Elaine: E o que seria para você uma creche de má qualidade, uma creche ruim?
Joana: Acho que onde a criança faz o que quer, não tem pessoas que, às vezes,
pode ser que não prestariam atenção na característica da criança, deixaria
chorando, que, às vezes, tem gente que não tem muita paciência, vamos supor
tem criança que gosta de dormir ninando e não vai cuidar da criança como, às
vezes, ela precisaria, respeitando as características que ela tem.
Elaine: Você, no caso, pretende colocar sua filha em uma creche em período
integral?
Joana: Pretendo.
Elaine: E essa sua opção de colocar agora a Maria Clara em uma creche pública
em São Caetano, você recomendaria para outros pais e bebês?
Joana: Recomendaria.
Elaine: Especialmente por que?
Joana: Porque, assim, eu fui conhecer o lugar e eu gostei. Eu vi as moças
cuidando das crianças, claro que assim, eu não fiquei lá um período grande, mas
assim deu para perceber que elas gostam do que elas estão fazendo, o ambiente
é um lugar gostoso, minha filha foi lá, ela foi até comigo, ela já queria sair do meu
colo e ir brincar e assim, vendo as pessoas cuidando das crianças, até no dia em
que eu fui conhecer uma estava lá dormindo no colo da moça, outra estava dando
a mamadeira, eu gostei de como o profissional estava lidando com a criança. Eu
acho que isso vai fazer muita diferença porque eu acho que você precisa ter uma
245
pessoa que gosta do que está fazendo e que vai tratar o seu filho com carinho,
carinho e respeito.
Elaine: A gente conversou um pouco em relação ao que é particular e ao que é
público, pelo menos em São Caetano você não vê tanta diferença assim...
Joana: Não.
Elaine: Você acha que tem diferença entre os bebês que vão para uma escola,
uma creche pública e os que vão para uma creche particular?
Joana: Não, acho que não.
Elaine: Ahamm... a gente está entrando agora na parte final da entrevista, acho
que vai dar mais ou menos 1 hora... se você pensasse agora em um contexto
mais geral, você acha que a sociedade ou o Estado tem algum dever para com os
bebês? Têm alguma responsabilidade em relação a eles?
Joana: ... acho que, de certa forma, que nem o Estado, é uma coisa que eu vejo
até em relação à vacinação, vou colocar uma coisa que eu percebo, tem algumas
vacinas que, de certa forma, eles falam que são obrigatórias, mas você tem que
pagar, tem a da meningite, a da pneumonia e são preços caros, graças a Deus eu
tenho condição de pagar, mas muitas pessoas que nem a da meningite tem que
tomar duas doses é R$ 150,00 a dose, a da pneumonia são R$ 240,00 a dose.
Para uma pessoa que não tem condição, isso é uma coisa que eu acho que o
Estado deveria fornecer porque é uma necessidade para a criança, de certa
forma, ficar protegida, então eu acho que isso é uma coisa que o Estado deveria
olhar mais, não só para os bebês, para as crianças maiores porque, de certa
forma, eles falam “tem que vacinar”, mas e quem não pode pagar esse valor?
Porque não é um valor barato para as outras pessoas que não têm condição de
pagar.
Elaine: E em termos de educação? O Estado teria alguma responsabilidade
também em relação aos bebês ou o bebê é uma responsabilidade mais da
família?
Joana: Acho que também deveria. É que, de certa forma, eu graças a Deus, se eu
também não tivesse a opção da escola pública em São Caetano eu teria uma
condição de pagar, mas eu acho que eles deveriam porque hoje em dia o mercado
de trabalho, a mulher, normalmente, tem muitas mulheres que elas sustentam a
família e você quer colocar o teu filho sendo cuidado ou por uma escola ou por
uma pessoa. Normalmente, você vai optar por uma escola porque, às vezes, a
pessoa não tem condição de pagar ou mesmo que tenha você quer um lugar
porque você está pagando os impostos, você quer ter um lugar para colocar o teu
filho de qualidade. Eu acho que eles deveriam pensar neste sentido e ter um
desenvolvimento, até pagar melhor os professores, isso se a gente for discutir, até
professor coitado, o salário do professor hoje em qualquer nível, não só para os
246
bebês. Então eu acho que eles deveriam olhar um pouco mais porque é
importante também a formação dessa criança porque, às vezes, a mãe também
não tem onde deixar, ela deixa com vizinho, não sabe como está cuidando... tem
muita criança, não bebêzinho, mas às vezes, já com 5 anos, 6 anos fica sozinho
em casa porque a mãe não tem onde deixar, então acho que o Estado deveria
dispor mais vagas porque aqui [em São Caetano] é mais fácil, mas a gente vê
pesquisas que a criança, que não tem vaga em escola, a mãe não sabe o que
fazer com o filho porque ele precisa estudar, isso a gente está falando de crianças
mais velhas, mas se for pensar em creche também precisa ter um número maior
de vagas e uma estrutura melhor para atender esses bebês.
Elaine: Aqui [em São Caetano], em termos de vagas, foi fácil você conseguir uma
vaga...
Joana: Foi.
Elaine: Não na escola que você queria que era mais perto da sua casa...
Joana: É, mas eu consegui a vaga e, de certa forma, o que ela comentou que é
fácil conseguir a vaga inicial...
Elaine: Depois, provavelmente, vai ser mais fácil conseguir para mudar de
escola...
Joana: Isso, para mudar de escola.
Elaine: As crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988 com a nova
Constituição, mas somente 18,1% das crianças desta faixa etária freqüentam
creche enquanto quase 80% das crianças com 4 e 5 anos já vão para a préescola. O que você acha, o que você pensa sobre isso?
Joana: Olha é, de certa forma, até para o desenvolvimento da criança, se uma
criança menor pudesse freqüentar escola seria interessante até para o
desenvolvimento dela porque, às vezes, uma criança, às vezes, a gente
comentando, não em pesquisa, até em sala a gente fala que uma criança que vai
para a escola mais tarde até uma dificuldade de se relacionar com os outros, de
saber dividir, algumas atividades que normalmente na escola são desenvolvidas
que em casa você não tem, então, às vezes, a criança não vai ser discriminada,
mas, às vezes, ela já vai ter um desenvolvimento um pouco diferenciado do que o
de uma criança que, às vezes, já está na escola mais cedo.
Elaine: Ahamm... então você acha que seria interessante...
Joana: O ideal seria colocar mais cedo.
Elaine: Já na creche e depois na pré-escola?
247
Joana: Ahamm...
Elaine: E o que você acha em relação a esse número de só 18,1% das crianças
de 0 a 3 estarem na creche?
Joana: Olha, eu acho assim pode ser por vagas, por não ter a opção de vagas
para colocar o filho num lugar público e outra que acho que muitas mães deixam
com avós, a gente vê muito ou a própria mãe. O que eu vejo assim no médico,
que a gente vê as mães falando que muitas “ah, eu não agüentei, parei de
trabalhar, vou ficar até 1 ou 2 anos e aí depois eu coloco meu filho na escola”.
Então, às vezes, é uma opção da mãe parar de trabalhar e às vezes é uma opção
de não ter uma escolinha para deixar e deixar o filho, às vezes, com vizinho. Eu
acho que tem esses dois lados, uma opção da mãe de deixar com a família ou ela
parar de trabalhar e outra de não ter, às vezes, a mãe que gostaria, mas não tem
a opção de onde deixar a criança.
Elaine: E você conhecia essa questão do direito das crianças pequenas à
educação?
Joana: Não, eu não sabia disso.
Elaine: E o que você acha disso?
Joana: Olha, é importante, mas deveria ser como várias leis, deveria ser um
direito adquirido, coisa que assim está na Constituição, mas muitos não têm.
Elaine: Aí, então, entra a questão da falta de vagas...
Joana: É.
Elaine: Você acha que os adultos em geral, incluindo aí os políticos, enfim, você
mesma, os adultos na sociedade, se a gente se preocupa suficientemente com
esses direitos dos bebês?
Joana: Ah, acho que não.
Elaine: Ou com a política de creche?
Joana: Não. Acho que a gente acaba se acomodando muito e, de certa forma, se
adapta à realidade, não tenta mudá-la.
Elaine: Por que você acha que isso acontece?
Joana: Acho que é muito da cultura do brasileiro em geral, que, às vezes, a gente
acaba se acomodando demais e não luta, às vezes, pelos nossos direitos.
248
Elaine: Ahamm... você comentou “ah, eu pago impostos então eu gostaria de ter
uma creche de qualidade, uma vaga disponível para o meu filho” e como você
acha que a sociedade poderia reagir frente a isso, enfim, tem uma saída?
Joana: (Risos).
Elaine: Ou não? Tem um caminho?
Joana: Risos. Acho que aí é uma coisa mais complexa, de você ir brigar pelos
seus direitos, até a sociedade inteira porque muitas vezes assim você se dispõe a
brigar e a maioria não quer “ah, tá bom do jeito que está e não quero mudar, não
quero ir atrás, brigar por isso, porque a situação está cômoda”.
Elaine: E você acha que isso é diferente em relação ao que acontece com os
direitos das crianças pequenas ou com a política de creche?
Joana: Eu acho que é geral, qualquer coisa, educação, eu acho que isso é uma
coisa não só com a educação, mas com saúde, a gente acaba, às vezes, não tem
médico... ainda que aqui em São Caetano a gente tem uma realidade diferente,
embora ainda no Brasil inteiro tem um problema que as pessoas não tem
educação, você fica dois meses para conseguir uma consulta no médico, às
vezes, acaba morrendo na fila, não só em relação à educação, em relação geral.
Mas, eu acho assim muito do que acontece na política, inclusive dinheiro, ninguém
está nem aí, e de certa forma a gente é que acaba colocando esses políticos, às
vezes por falta de opção. Acho que é uma questão muito política em relação à
educação, saúde, entre outros aspectos, porque pagar imposto a gente paga 30%
quase, 32% mas, às vezes, o retorno que você tem em estrutura, que nem a gente
tem que pagar plano de saúde porque não tem, muitos têm que pagar escola
porque, às vezes, não têm escola de qualidade.
Elaine: E o que você acha que, especificamente, em relação às crianças de 0 a 3
anos, o que talvez dificulte ainda mais essa falta de mobilização ou de
reivindicação?
Joana: Porque às vezes eu acho que os pais preferem deixar os seus filhos, às
vezes, com um avô ou mesmo parar de trabalhar ao invés de colocá-lo na escola,
por ser pequeno, frágil, aquela coisa “ai, tenho medo de deixar o meu filho”,
porque a gente fica, eu agora que a vaga saiu você começa “ai, vou por a minha
filhinha na escola”, parece que cai a ficha e você fala “ai, está chegando a hora”.
Elaine: Ahamm...
Joana: Porque acho que por ser uma criança, eles ainda não falam, você tem
aquele vínculo, ainda é muito dependente, então eu acho que a opção dos pais de
deixar o filho com a avó, que tem muita gente que deixa ou parar de trabalhar
acaba sendo maior do que colocar na escolinha então, de certa forma, não tem
tanta procura...
249
Elaine: ... acaba desmobilizando um pouco as pessoas?
Joana: É porque como, normalmente na escola, a partir dos 4 anos, de certa
forma, já é uma exigência “ó, você tem que ir para a escola”, então acho que aí
acaba tendo um questionamento maior a respeito disso do que uma vaga para
uma criança de 0 a 3 anos que não é obrigatório você ir para a escola.
Elaine: Como assim, já tem que colocar na escola quando tem 4 anos?
Joana: É porque, de certa forma, você tem, não sei já a lei ao certo para saber a
partir de que momento, mas pelo que eu sei, acho que é a partir não sei se é do
primário ou da 1ª série, isso eu não sei.
Elaine: Ah, tá, mas você acha que é obrigatório a criança entrar na escola com
quantos anos?
Joana: Olha, acho que é com 5 anos que é a partir da 1ª, que agora é a partir de
6 anos é que é o 1º ano...
Elaine: Então, a partir dessa idade, a criança já teria que...
Joana: Isso eu não sei, para ser sincera (risos).
Elaine: Não tem problema.
Joana: É que normalmente, a partir dos 4 anos que a gente acaba entrando,
normalmente a maioria da população acaba colocando.
Elaine: Como eu tinha citado, tem quase 80% das crianças que freqüentam préescola, mas realmente obrigatório mesmo é a partir dos 6 anos atualmente.
Joana: O que virou o 1º ano?
Elaine: É... então, para a gente terminar, gostaria que você pensasse em nomes
para você, seu marido e para sua filha para a gente poder trocar, pois eu não vou
citar os nomes verdadeiros na transcrição, queria que você pensasse nomes
alternativos.
Joana: Joana para mim, Pedro para o meu marido e Maria Clara para a minha
filha.
Elaine: Quero te agradecer...
Joana: Eu que agradeço.
250
Elaine: Quero agradecer pelo tempo e pela sua disponibilidade, enfim, por ter
contado tanta coisa, e também perguntar o que você achou da entrevista ou se
você quer fazer algum comentário, acrescentar alguma coisa?
Joana: Eu achei bem interessante. Até depois se você puder assim disponibilizar
o trabalho porque eu acho interessante até para ver assim o que outras mães
acham também sobre educação porque acho que isso é uma coisa que a maioria
das mães creio que têm uma preocupação, onde deixar o seu filho, quais os
princípios que você quer passar, até se você tiver como disponibilizar o trabalho
para ver qual foi o resultado da sua pesquisa, eu agradeceria.
Elaine: Com certeza, claro que sim e também posso te passar a transcrição da
entrevista se você quiser. Você quer fazer mais algum comentário?
Joana: Não, que eu comentei é que achei muito interessante. Eu nunca tinha
participado de uma pesquisa, é interessante a gente colocar o nosso ponto de
vista...
Elaine: Ahamm...
Joana: Até em relação a alguns questionamentos que a gente nunca tinha
pensado, “ó, eu nunca tinha parado para pensar nisso”.
Elaine: Por exemplo, sobre o que você nunca tinha parado para pensar?
Joana: Ah, tem relação até com o que você falou dos direitos da criança da
creche, uma coisa que você perguntou “qual é a idade mínima para a criança ir
para a escola”, tem coisas que você acaba, você vai, você não pára pensar
“nossa, qual é o direito, o que realmente tem que ser feito ou não”, você acaba
indo, os outros falam “ah, você vai colocar na escolinha” e você acaba não vendo
o que realmente você tem o direito, qual que é o seu dever, isso é uma coisa
importante que, às vezes, a gente acaba...
Elaine: E você perguntaria alguma coisa, comentaria alguma coisa, enfim, teria
alguma pergunta que eu não fiz que você estivesse esperando ou que você acha
importante e que, de repente, não foi conversado aqui?
Joana: Não, acho que não. Como você estava focando a educação, eu acho que
o que eu penso assim até para a minha filha, eu acho que foi falado.
Elaine: Então tá. Muito Obrigada!
Joana: Obrigada você, espero ter ajudado.
Elaine: Com certeza! Foi ótimo.
251
Transcrição segunda entrevista
Entrevistada: Natália, 35 anos, economista, proprietária de uma escola de
idiomas, mãe de Laura, 3 meses.
Elaine: Então, eu queria, primeiramente, agradecer a sua disponibilidade e
participação. Vamos começar, assim, pensando em um contexto mais geral, você
acha que a sociedade ou o Estado tem algum dever para com os bebês, alguma
responsabilidade?
Natália: Deveria né, total (risos). Eu acho que desde que você sabe que você está
grávida, o Estado deveria ser responsável pelo pré-natal, pela parte da saúde da
mãe, às vezes, orientar a mãe, tem muita mãe também que não quer ter o neném
e deveria ter uma orientação psicológica, não é todo mundo que está preparado,
então acho assim, desde que você sabe que você está grávida o Estado deveria
ser responsável e ter, te dar condição.
Elaine: Não seria, então, uma responsabilidade só da família?
Natália: Não, eu acho assim, é principal, mas você deveria ter o apoio de,
especialmente nessa área da saúde, para as pessoas serem orientadas a fazer o
pré-natal, às vezes, algum problema que dê durante [a gravidez] que ela [mulher]
tenha condição de poder tratar.
Elaine: Ahamm...
Natália: Porque hoje em dia a gente sabe que tem tanto recurso para você fazer
ainda dentro da barriga quando você fica sabendo que tem alguma coisa e se
você não tem condição, é só depois que nasce mesmo que você fica sabendo. Já,
às vezes, tem tantos casos de coisas tão simples que a pessoa só vai saber
depois que nasce e a gente sabe que já tem tanto tratamento antes.
Elaine: Você acha que o Estado, o Governo poderia oferecer esses recursos...
Natália: É.
Elaine: Então, as crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, isso
consta na Constituição, mas somente 18,1% das crianças brasileiras nessa faixa
etária freqüentam creche. Por outro lado, 80% das crianças de 4 e 5 anos já
freqüentam a pré-escola. O que você acha, o que você pensa sobre isso?
Natália: Olha, eu não tenho muita informação assim do motivo, mas eu vou te
falar da experiência que eu tenho, das minhas funcionárias, na verdade. Nessa
faixa etária de 0 a 3, elas não acham creche para ficar.
252
Elaine: Ahamm...
Natália: É o que elas mais querem [enfática] e assim, é impossível achar creche e
quando acha, não acha vaga. Até os 4 anos, é impossível achar vaga na creche.
Elaine: Ahamm...
Natália: Então, eu acho que depois dos 4 anos, na verdade, a escola é mais
accessível, então acho que a porcentagem aumenta porque ou você consegue
pela Prefeitura ou até a escola particular é mais accessível, porque de 0 a 4 é
caríssimo. E vaga em creche elas não acham de jeito nenhum.
Elaine: E por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam ou não
se mobilizam por essa questão dos direitos dos bebês ou mesmo das políticas de
creche? Enfim, essa questão da falta de vagas que você apontou...
Natália: Olha, eu nunca tinha pensado nisso (risos). E é engraçado que é uma
necessidade que a gente vê que toda mãe tem.
Elaine: Ahamm...
Natália: Assim, é um desespero quando nasce, você não tem com quem deixar, é
que eu acho que a classe mais pobre acaba sempre arrumando aquele jeitinho
assim de deixar com alguém, sempre a mãe cuida, sempre tem alguém próximo
que cuida e a classe média acaba sempre colocando em escola, tendo mais
condição e em berçário. Acho assim, quem podia se mobilizar que são as pessoas
mais esclarecidas, eu acho que não optam por colocar em uma creche, optam já
por colocar em uma escolinha paga e então, na verdade, as pessoas que são
mais esclarecidas para irem atrás disso, acabam não sentindo falta.
Elaine: Acabam não se mobilizando pelos direitos...
Natália: É, acho que não faz falta. A classe média não vai optar por colocar em
uma creche, às vezes, até por falta de conhecimento, porque eu sei que tem muita
creche que é até melhor que uma escola particular.
Elaine: E como os adultos, em geral, tanto os políticos, a gente, a sociedade
poderiam se mobilizar para procurar atender a esses direitos dos bebês ou agir
mais ativamente em relação às políticas de creche?
Natália: Era para existir mais vagas. Mas, como? Ninguém... eles... políticos não
estão nem aí. Acho que a falta de vagas não é de hoje. Acho que já é uma coisa
que vem de muito tempo. Acho que seria criando, indo atrás, acho que, na
verdade, os políticos não estão nem aí, e eu acho que volta aquela questão, a
população que deveria solicitar, pedir, a população eu acho que é uma população
pacata que a gente nunca faz nada. Eu acho que as pessoas que vão mais atrás
253
das coisas não utilizam creche e as pessoas com menos condições, realmente,
não tem aquela coisa de ir atrás, de brigar pelos direitos, às vezes, não tem nem
conhecimento de saber como ir, para quem pedir, então eu acho que eles
[políticos] não estão nem aí e quem deveria estar realmente... então é um pouco
do povo brasileiro de não ir atrás dos seus direitos.
Elaine: Acaba se conformando?
Natália: É, é que você sempre dá um jeitinho. E com filho também. Eu vejo lá,
sempre deixa com vizinho, sempre deixa com alguém, sempre arruma um jeitinho
de deixar com alguém.
Elaine: Ahamm...
Natália: Ou um irmão mais velho cuida.
Elaine: Você conseguiria visualizar que alternativa a gente teria ou um caminho
para essa participação ou mobilização?
Natália: Não, sinceramente não. Porque acho que é uma coisa que tinha que
afetar realmente todo mundo. É muito difícil mobilizar as pessoas, a gente só
consegue mobilizar quando é uma coisa que afeta a maioria das pessoas e isso é
uma coisa que eu acho que não afeta por conta assim, a população média, média
alta, não vai procurar, não sente falta disso e acaba não indo atrás.
Elaine: E você, particularmente, você se preocupa com essas questões ou se
mobiliza por essas questões de alguma forma? Por que ou como?
Natália: Não, eu fico até, realmente, eu fico preocupada, eu tenho a minha mãe
que trabalha em uma creche, então assim, a gente está sempre preocupada como
arrumar vaga. Eu vejo as minhas funcionárias sempre atrás de vaga e... é aquilo
ficam na fila, sempre acaba arrumando depois, mas eu nunca fui atrás para sabe,
“o que nós vamos fazer para arrumar alguma coisa”. Você sempre quer resolver o
imediato, você tem aquela criança, você quer resolver para aquela criança, de
ajudar a pôr na creche, arrumar algum lugar e você nunca pensa assim “mas, o
problema é muito maior, você vai resolver dessa criança, mas tem mais vinte que
não têm condição”.
Elaine: Você tem muitas funcionárias mulheres?
Natália: Tenho vinte e uma mulheres.
Elaine: É grande lá!
Natália: Ainda bem que só tenho duas que têm filho (risos).
254
Elaine: Ahamm... E, agora, a gente vai falar um pouquinho sobre os bebês em
geral... Você poderia descrever um bebê para mim? O que vêm à cabeça quando
eu falo bebê ou o que é um bebê para você?
Natália: É a coisa mais maravilhosa que tem (sorrisos), mas é um ser assim 100%
dependente de você, que traz muita felicidade, mas assim tudo é uma coisa que
ele precisa de você, tudo é novo, tudo que ele vai descobrir é através de você,
então é uma pessoa 100% dependente, é um ser assim... é maravilhoso, mas é
uma coisa que te dá trabalho, você tem que se dedicar, você tem que ter alguém
assim tempo integral se dedicando, porque assim, bebê não é uma coisa que
mama, dorme, não é um relógio. É uma criança, é uma coisa assim que precisa de
100% de dedicação de uma pessoa.
Elaine: E existe diferença para você entre um bebê e uma criança pequena?
Natália: Criança pequena que você fala de quanto tempo?
Elaine: O que você achar... Até que idade você acha que é um bebê ou criança
pequena você consideraria a partir de que idade? Se há uma diferença entre
esses termos, entre um bebê e uma criança pequena, ou não?
Natália: Eu não tenho muita experiência (risos), só tenho experiência com o meu
bebê [enfática], o que eu acho assim, e com os meus sobrinhos, tudo... eu acho
que pelo menos até uns 4 ou 5 anos ainda é um ser totalmente dependente de
uma pessoa. É assim, você tem que ter dedicação, você tem que ter cuidado,
você tem que ter atenção, é uma forma assim que eu acho que tudo que você
ensinar, tudo o que você fizer vai refletir lá na frente. Então, por que eu falo até os
4 ou 5 anos, porque aí a criança já tem uma base, aí ela já consegue, com o que
ela já aprendeu até essa idade, ela já começa a pedir, ela já tem condição de fazer
algumas coisas sozinha. Agora, assim acho que o bebê não é só 1 ano, 2 anos,
acho que é até uns 4, 5 anos, é o que você fizer até lá que ele vai conseguir, vai
ter condição de mais para a frente, aí você vai começar a deixar mais sozinho, já
descobrindo as coisas e tal. Mas, acho que até os 4, 5 anos...
Elaine: Você ainda consideraria um bebê ou uma criança pequena? Tem alguma
coisa que muda aí?
Natália: Eu acho que assim, bebê acho que é até 1 ano, até que não anda, mas
assim, quando você fala bebê assim um ser dependente aí eu acho que vai até
essa idade.
Elaine: Então, para você, mesmo os maiores também são dependentes ainda...
Natália: Ainda.
Elaine: Eles podem até não ser chamados de bebê...
255
Natália: Exatamente. Acho que o termo bebê, talvez, não seja mais o caso. Eu até
brinquei, olhei para a minha que fez 3 meses ontem e falei assim “ah, você não é
mais um bebê, você já é uma criancinha” (risos), eu falei, mas ainda acho que eles
são muito dependentes, eu acho que tudo o que você fizer com eles, e não é você
fazer para eles até 2 ou 3 anos você fazer as coisas no lugar deles, é você
ensinar, você se dedicar, ter tempo de se dedicar para ensinar para ele fazer
sozinho. Mas, acho que esse acompanhamento no começo é essencial.
Elaine: Você começou a falar um pouquinho... Como você acha que os bebês
gostariam de ser cuidados/educados? Qual seria a melhor maneira de educá-los?
Ou do que eles necessitariam?
Natália: Eu acho que eles necessitam de uma pessoa 100% com eles assim para
tudo, alguém que cuide deles, das necessidades que eles têm, mas que oriente,
que converse, que explique as coisas, que tenha... tem que ser uma pessoa muito
especial que tenha paciência porque, às vezes, o fato de estar perto não significa
que você está educando. Às vezes, você está segurando, chacoalhando, mas não
significa que você está junto... então tem que ser uma pessoa que goste muito,
que tenha muita dedicação, por isso que acho que é importante quando você
decide ter um filho você realmente querer muito, porque eles são bonitinhos, mas
na hora “h”, quando você acorda às 2 horas da manhã, se você realmente não
quiser... então, tem que ter muita paciência. Eu acho que ele realmente precisa de
uma pessoa que goste de criança, que tenha o dom. Acho que cada um tem um
dom para uma coisa. E eu vejo até nessa fase assim pequena eu acho até muito
difícil escola, por exemplo. Por mais que seja um, dois ou três que cuidem, mas
não é aquela dedicação 100%. Conversar, eu acho que o bebê tem que ter aquela
identificação com aquela pessoa. Então, acho assim, é integral, é horário integral
você com a criança orientando, conversando, se dedicando.
Elaine: Ahamm... E quem teria que ser essa pessoa?
Natália: A mãe (risos) é quem teria que ser.
Elaine: É?
Natália: Eu acho assim, se a gente for ver, o ideal seria a mãe. Acho que toda
mãe queria também, é que acho que hoje em dia é praticamente impossível.
Elaine: Ahamm...
Natália: É lógico também que tem que ser a mãe se a mãe tiver essa
disponibilidade, porque eu conheço gente que não tem essa disponibilidade
também, então também não, mas assim, se você tiver, acho que seria o ideal uma
mãe que goste, que tenha esse dom e que tenha disponibilidade, agora senão, se
isso não for possível, acho que você encontrar uma pessoa que se encaixe melhor
naquilo para você. Eu acho que até 1 ano, eu acho que uma escolinha não é o
ideal.
256
Elaine: Ahamm... E essa pessoa pode ser quem, uma pessoa da família, uma
pessoa que você contrate? Enfim, uma empregada, uma babá? Essa pessoa que
ficaria na ausência da mãe...
Natália: Em tempo integral né. Eu acho que quando você tem a disponibilidade da
família e que tem essa pessoa assim, eu acho que é o mais ideal, mas que não
seja aquela avó que estrague... geralmente, a avó vai... que não seja aquela
pessoa também que estrague e eu não falo assim no sentido de proteção, porque
proteção a gente sabe que a família vai dar. Eu acho assim aquela orientação,
aquela paciência, eu acho que se você tiver alguém da família é o mais ideal,
senão você tem que procurar alguém no mercado mesmo, que tenha experiência,
que você confie, geralmente por indicação ou até que você conheça.
Elaine: Ahamm...
Natália: Mas, até assim, é uma coisa que você percebe, se você olhar hoje o jeito
de pegar uma criança você já percebe se a pessoa tem jeito ou não. Coisa que
antes de ser mãe você não percebia.
Elaine: E qual você acha que seria a idade ideal para o bebê começar a
freqüentar a creche? Você falou que acha que no comecinho, o bebê ainda é
muito novo, 1 ano ainda não... Qual seria a idade ideal?
Natália: Eu acho que a partir de uns 2 ou 3 anos.
Elaine: Ahamm... Por quê? O que muda?
Natália: Porque acho que ele já teve uma base assim em casa, já teve as
primeiras instruções, o primeiro aprendizado acho que foi em casa com a mãe ou
com uma pessoa de confiança, então acho assim, que ele já teve aquela coisa e
aí ele vai começar a viver meio sozinho, mas com aquela base que ele teve em
casa, ele não vai aprender assim, a base da educação veio de casa. Aí, assim, ele
vai começar a se virar sozinho, mas os principais passos foram dados em casa.
Elaine: Ahamm... tá. E qual seria a rotina de um bebê em casa?
Natália: Ah, isso eu queria descobrir também (risos).
Elaine: (risos)
Natália: Você diz assim em que sentido?
Elaine: Ah, assim, o que você acha que é a rotina de um bebê em casa, assim no
dia-a-dia e um pouquinho assim, vamos supor, se teria alguma diferença se ele
estivesse na creche hoje. Qual seria a rotina se ele estivesse na creche? Seria
diferente ou seria parecido? O que você acha?
257
Natália: Bom, aqui em casa o que tem... ele [bebê] acorda, tem os horários assim
de cada 3 em 3 horas a mamada, troca, tem o horário de ficar acordado um
pouquinho, que ela já está ficando acordada um pouquinho, que é a hora de
brincar, então assim a gente segue muito rigorosamente esse negócio de 3 em 3
horas. O horário do banho também, acho que deu muito certo, a gente dá banho à
noite, às 19 horas, aí ela dorme, já está dormindo até às 8 horas da manhã
seguinte, então assim, essa rotina é muito certa aqui em casa.
Elaine: Ahamm...
Natália: O que eu acho é que, nesse ponto, em uma creche, em uma escolinha
não acontece, porque eu acho que não dá para eles terem assim, se ela [bebê]
acordar e já der as 3 horas e eles estiverem dando de mamar para mais dois
bebês, ela vai ter que esperar mais 15, 20 minutos. E, para um bebê, esses 15, 20
minutos fazem diferença e a próxima mamada, o intervalo não vai ser de 3 horas,
vai ser de 2 horas e meia, já não mama como deveria mamar... aqui [em casa],
assim, vai dando horário, você já vai acordando, conversando até você despertar
a criança, você já percebe, às vezes, pelo jeito em que ela está no berço, você já
percebe se você precisa despertar ou se mais 5 minutos ela já vai acordar
sozinha. Eu acho que em uma creche, em uma escolinha, a pessoa não tem muito
tempo de ficar se dedicando, enquanto ela está olhando um, a outra está
dormindo e, às vezes, faltam 10 minutos para acabar de dar de mamar para uma,
o que eu acho que é normal, mas é que eu percebi que essa rotina que tem em
casa é importante, foi muito importante para ela. Você consegue dar as mamadas
nos horários certos, mama melhor, você percebe que mama melhor, eu já fiz o
teste de deixá-la dormir até a hora em que ela quisesse e depois acordar e não é
a mesma coisa porque aí vai atrasando as outras mamadas.
Elaine: Ahamm...
Natália: Então, se você consegue manter essa rotina assim de horários, para ela
foi muito importante.
Elaine: Você amamenta ainda?
Natália: Não.
Elaine: Ahamm... Agora, eu queria que você contasse um pouquinho se você se
instruiu ou se você foi atrás de algum aprendizado específico, como você
aprendeu sobre os cuidados para com um bebê... Se você já tinha cuidado de
algum bebê antes...
Natália: Não, eu não fui não, acho que é no dia-a-dia, é lógico, você sempre ouve
uma coisa de uma [pessoa], outra coisa de outra [pessoa], mas quando nasce,
parece que você já tem alguma coisa assim, você fala “é assim”. Minha mãe ficou
aqui [em casa] comigo, não ficou aqui, mas vinha aqui todo dia durante uma
258
semana, aí você vai pegando algumas coisas, eu li assim, enquanto eu estava
grávida, uns dois livros, mas por curiosidade, mas aí você vê também que
algumas coisas que você lê, na prática também não é assim.
Elaine: Você lembra o nome de algum livro?
Natália: Não, mas depois eu posso te passar. Um é o Nana Neném e o outro eu
não lembro o nome.
Elaine: Ahamm...
Natália: Mas acho que você vai pegando o seu jeito, o que você vai percebendo
que por ali dá mais certo e acho que é gostar também. Eu sempre gostei de
criança, assim nunca cuidei, mas eu sempre gostei. Então, aí, eu acho que fica
mais fácil também. Eu nunca tive medo de pegar a criança, de trocar, então
parece que quando é a sua, parece que é mais fácil, você vai vendo o que você
acha que é melhor. Na verdade, assim, eu acho que a minha adaptação foi muito
fácil, mas não fui atrás não.
Elaine: Não chegou a fazer nenhum curso?
Natália: Não.
Elaine: E como foi assim a sua gravidez? Foi planejada? Vocês decidiram...
Natália: Planejamos, foi uma gravidez muito tranqüila, eu não senti assim
absolutamente nada, eu não tive assim um enjôo, uma pressão alta, nada, nada.
Eu trabalho em XYZ [bairro em São Paulo e distante de São Caetano], eu
trabalhei até na sexta-feira porque ela adiantou 15 dias, aí no domingo eu estava
aqui em casa, achei que tinha estourado a bolsa, mas também não sabia ao certo,
porque tinha sido só um pouquinho, fomos para o hospital sem saber se era ou
não, achei até que não era, cheguei lá, fiquei conversando, no fim nasceu, foi
cesárea, mas eu não senti nada antes, nem durante, nem depois [enfática] e olha
que eu sou a pessoa mais medrosa (risos).
Elaine: (risos) Que ótimo que você não sentiu nada!
Natália: Nada, nada, nada, foi muito fácil. Eu falo que se fosse só fazer e ter, que
eu teria uns dez (risos) porque foi muito fácil.
Elaine: (risos). Então... Agora, a gente vai conversar um pouquinho sobre
creche... O que vem à cabeça quando eu falo creche, quando eu uso o termo
creche? O que esse termo traz para você?
Natália: Ah, eu acho que é um lugar onde você... que tem cuidados com a
criança. São lugares que têm, geralmente, psicólogos, orientadores que se
259
dedicam para as crianças. Eu acho que são bons lugares, com certeza, tem bons
lugares.
Elaine: Ahamm...
Natália: A única coisa que eu acho é que lá ou em qualquer outro lugar não tem
assim dedicação, é muita criança e poucos profissionais talvez. Poucos que eu
falo é que hoje o importante seria assim uma criança para cada...
[pequena pausa para a entrevistada atender ao telefone]
Natália: Então, quando eu falo pouca é por isso, eu acho que é importante nessa
fase um por um e é lógico é humanamente impossível em uma creche ter isso.
Elaine: Você acha que teria que ter uma pessoa para atender cada criança, cada
bebê...
Natália: É, exatamente.
Elaine: Você já falou um pouquinho, mas para complementar, para que serve uma
creche e para quem se destina uma creche...
Natália: Então, eu acho realmente para as pessoas assim que não têm essa
condição de ficar em casa, para as mães que não têm a condição de ficar em casa
cuidando e que não têm também a opção de deixar com alguém que conheça ou
pagar uma profissional.
Elaine: Ahamm... Você conhece alguma creche?
Natália: Conheço.
Elaine: Fala um pouquinho então sobre essa que você conhece...
Natália: Eu conheço uma, inclusive assim, ela é excelente. Ela fica em São
Bernardo, assim...
Elaine: É uma creche pública?
Natália: É. Nossa, a alimentação que as crianças têm lá, então assim, tem
psicólogo, tem dentista, tem orientadores por faixa etária, vão para a escola
rigorosamente com perua [transporte escolar], já vão embora com banho tomado,
com janta, fazem 5 refeições na creche. Então, assim, a creche que eu conheço
realmente assim é excelente, muito boa realmente. Eu acho mesmo que é
excelente a creche, mas eu acho que ainda falta isso, lógico, na minha opinião,
não tem aquela dedicação, uma cuida de 5 crianças, 6 crianças, conforme vai
aumentando a faixa etária ainda é maior o número de crianças.
260
Elaine: Você comentou que a sua mãe trabalha em uma creche?
Natália: Ela é voluntária nessa creche.
Elaine: Ok. É uma creche assistencial, conveniada ou totalmente municipal? Você
sabe?
Natália: Não sei, na verdade, eu acho que tem ajuda do Município, tem ajuda da
Igreja, até minha mãe ajuda lá porque minha mãe conseguiu uma ajuda de fora,
do exterior, então vem dinheiro também de um país europeu, vem gente de fora,
então, enfim como cuidar do dinheiro, é uma creche que não falta dinheiro, então
por isso é que eles têm de tudo lá.
Elaine: Ahamm... E sua mãe faz um trabalho voluntário em qual área? Como é o
trabalho dela lá?
Natália: Na administrativa, ela cuida de compras, é ela que ajuda.
Elaine: E aqui, a gente pensando um pouquinho em São Caetano, você sabe se
tem alguma creche pública aqui no bairro? Ou conhece alguma creche aqui em
São Caetano?
Natália: Eu não conheço.
Elaine: Ahamm... Eu ia te perguntar se você conhece alguém que utiliza ou
trabalha em uma creche, então você tem o voluntariado da sua mãe e mais
alguém que você conheça que trabalhe ou em outra creche ou que utilize, enfim,
suas funcionárias?
Natália: Não, as minhas funcionárias até hoje nunca conseguiram uma creche
para elas, uma vaga em uma creche.
Elaine: Em São Paulo?
Natália: É, todas moram em São Paulo e nenhuma conseguiu. É a grande luta
delas, aí acaba deixando com família, porque elas realmente não conseguem.
Elaine: Então, os comentários que você ouve sobre essa creche que você
conhece são nessa linha de um bom atendimento...
Natália: Sim.
Elaine: Mas, sobre outras creches, outros comentários são sempre esses que a
pessoa não conseguiu vaga...
Natália: De que não conseguiu, apesar assim das creches que elas vão visitar,
também não conheço, mas elas sempre voltaram elogiando, “ah, se meu filho
261
ficasse lá, seria bom”. Então assim, acho que as creches, nunca ouvi alguém falar
mal de uma creche.
Elaine: Ahamm...
Natália: Lá, eu não tenho muito contato, mas lá o problema que eu ouço mesmo é
que não arrumaram vagas.
Elaine: Ok. E sobre as creches de São Caetano, você já ouviu alguma coisa?
Natália: Para falar a verdade, não sei nem se tem creche aqui em São Caetano.
Elaine: Tá.
Natália: Eu tenho uma cunhada minha que trabalha, ela é psicóloga e trabalha em
um abrigo, em um orfanato e parece que existem só dois aqui em São Caetano,
que é um número assim absurdo de pequeno diante da necessidade que tem.
Agora, eu imagino creche então, deve ser um número muito pequeno. Mas, eu
estou chutando, não faço a menor idéia.
Elaine: Tá, então você não conseguiria nem comparar, não daria para falar das de
São Caetano em comparação com as de outros lugares porque não tem esse
referencial do que existe ou não aqui...
Natália: Isso.
Elaine: Você também já comentou algumas coisas sobre a creche que você
conhece... O que seria para você uma boa creche, uma creche de boa qualidade?
O que você realmente leva em consideração, o que uma creche tem que ter para
ser boa?
Natália: Eu acho que ela tem que ter bons orientadores lá dentro, acho que tem
que ter atendimento... tem que ter um psicólogo, um pedagogo, se possível, assim
uma enfermeira de primeiros socorros, essa preocupação de educação, de levar
em escola, trazer da escola, uma excelente alimentação conforme a idade da
criança.
Elaine: O que você quer dizer com essa questão de levar para a escola, trazer da
escola... Uma creche em que a criança já maior ficasse em um período e no outro
fosse para a escola?
Natália: Isso. E também para ser uma boa creche deveria ter limpeza, aposentos
para a criança poder dormir, limpeza, higiene.
Elaine: O que a creche deve oferecer também para o bebê se sentir bem?
262
Natália: Quando eu falo orientadores seria isso de ter alguém que brinque com
eles nessa parte de educação, que tenha um cantinho assim de cochilo. Eu acho
que praticamente para uma criança é isso, brincar, comer e dormir. Então eu acho
que tem que ter essas três coisas sim.
Elaine: Para o bebê também... se tiver um bebê na creche isso também tem que
ser oferecido?
Natália: É, também, e mesmo para uma criança de 3 ou 4 anos que ainda use
isso, e mais para frente, levar para a escola, ter uma alimentação adequada com
uma nutricionista porque o que uma criança de 1 ano come não é a mesma coisa
que outra come. Aquela coisa de forçar a comer fruta... imagina se em uma creche
eles vão né, mas deveria.
Elaine: E o que seria uma creche ruim, de má qualidade?
Natália: Eu acho que é uma que não tenha nada disso (risos). Um lugar onde
você simplesmente largue, um lugar em que você deixe seu filho, que vai ter
alguém lá para pegar seu filho e depois para te devolver às 5 da tarde, mas que
não tenha uma boa alimentação, que não tenha uma higiene, que não tenha
cuidados básicos.
Elaine: Um lugar mais onde a criança só passe o dia...
Natália: É, um lugar onde você só deixe e que não tenha pessoas que sejam
especializadas, que seja, por exemplo, um lugar onde só tenha voluntários.
Voluntário é bom, mas não são pessoas que estudaram para aquilo.
Elaine: Então, a capacitação é uma coisa importante para você...
Natália: É, com certeza.
Elaine: Você colocaria seu bebê em uma creche?
Natália: Nas atuais, hoje?
Elaine: Ahamm...
Natália: Olha, assim, eu acho que não, mas é como eu estou falando, não
conheço nenhuma aqui em São Caetano para eu estar avaliando se realmente é
bom, se é boa ou ruim.
Elaine: Ahamm...
Natália: A que eu conheço, aquela que eu comentei, eu sei que é muito melhor
que muitas escolas.
263
Elaine: Lá, você colocaria?
Natália: Hã?
Elaine: Lá, você colocaria seu bebê se você pudesse colocar?
Natália: É que hoje eu tenho condições de pagar uma pessoa para cuidar. Se
fosse para colocar em uma escola ou lá, lá eu colocaria, talvez. Agora, assim, eu
tenho condições de pagar uma pessoa que fique integral, que eu acho que é o
ideal.
Elaine: Ahamm...
Natália: Agora assim, avaliar alguma creche daqui, eu não posso falar nem que
sim nem que não porque eu não conheço.
Elaine: E se você não tivesse essa opção de ter uma pessoa com quem deixar,
você colocaria o bebê para ficar o dia inteiro, em período integral?
Natália: Eu colocaria ele [bebê] na escolinha. Aqui em São Caetano, eu colocaria
ele em uma escola em período integral.
Elaine: Uma escola, você diz, escola particular?
Natália: Particular.
Elaine: Você recomendaria a creche pública para outros pais e bebês? Essa que
você conhece, você recomendaria?
Natália: Então, como eu realmente não conheço seria muito difícil eu falar. A que
eu conheço... sim, a gente sabe que se a pessoa não tem condições, a creche é
boa lá, é, mas a gente sabe que tem escolas, se a pessoa tiver condições de
pagar, a gente sabe que tem escolas que são muito melhores. Acho que você tem
que comparar aquilo que você tem condição de pagar. Então, se é uma pessoa
que tem condição de pagar, a gente sabe que tem escolas muito melhores. Então,
assim, do meu ponto de vista, assim, dependendo, a pessoa tendo condição, eu
acho assim que uma pessoa em casa cuidando do seu bebê ainda é o melhor, a
segunda opção seria assim uma excelente escola e aí a terceira opção seria uma
creche. E que eu acho que essa opção, a terceira opção ainda é muito difícil
porque eu não conheço, não sei se é por eu não conhecer, mas acho muito difícil
uma creche que tenha tudo isso.
Elaine: Ahamm... Que se encaixe nesse perfil do que seria para você uma creche
boa...
Natália: É.
264
Elaine: Ainda pensando nessa questão do que você está chamando de creche
pública e escola particular, quais seriam as diferenças que você acha que existem
entre uma e outra?
Natália: Eu acho que em uma escola você tem a qualificação das pessoas. Então,
geralmente em uma escola, você tem uma nutricionista, você tem uma pedagoga,
as professoras que estão lá vão ser realmente pessoas instruídas, você tem uma
enfermeira, então assim você tem todo um trabalho das pessoas que são
instruídas para aquilo, que são... que estudaram para fazer aquilo.
Elaine: Ahamm...
Natália: Geralmente, a escola já tem mais estrutura para aquilo, foi criada para
aquilo, então tem... mesmo o material pedagógico para aquilo... coisas que, às
vezes, em uma creche, na verdade, talvez vivam de doação, então é um material
doado, às vezes, não tem materiais para aquela faixa etária, às vezes, os
profissionais são voluntários, não são pessoas qualificadas.
Elaine: E você acha que tem alguma diferença entre os bebês que freqüentam
creche pública e os que freqüentam, no caso, uma escola particular?
Natália: Eu acho que as diferenças são essas de alimentação, de orientação.
Partindo do pressuposto que você pôs em uma escola top, também se você
colocar em uma escolinha qualquer talvez não haja diferença nenhuma. Mas, eu
acho que a diferença principal é você ter uma pessoa qualificada para cuidar do
seu filho conforme a idade dele, e que em uma creche, talvez, às vezes, você não
tem isso.
Elaine: E por que você acha que existem essas diferenças entre a particular e a
pública? Eventualmente, de repente, você ter gente mais qualificada em uma do
que talvez na outra...
Natália: Ah, acho que aí é condição, é salário. Uma escola boa vai atrás dos
melhores profissionais, sabe que os pais vão procurar isso. Então assim, a
questão realmente é de salário. A creche pública não vai estar preocupada com
isso, vai colocar um profissional x e vai pagar por aquilo um salário mínimo ou um
pouco mais. Então, aí é questão realmente de salário, das condições que vão
ofertar para a pessoa trabalhar. Às vezes, o profissional que está lá na creche é
até bom, mas ele não tem material, ele não tem condições de ofertar alguma
coisa.
Elaine: Ahamm... Para você, então, é mais pela questão do investimento?
Natália: Sim.
Elaine: Se tem menos investimento, o profissional vai ter menos condições de
trabalho ou serão, talvez, contratadas pessoas menos qualificadas?
265
Natália: É, eu acho que os melhores profissionais não vão estar ganhando um
salário mínimo em uma creche. Os bons profissionais vão procurar um lugar
melhor.
Elaine: E em termos dos bebês, você acha que tem alguma diferença entre o
bebê que freqüenta creche pública e o bebê que freqüenta creche particular? Não
em termos mais do que se oferece para eles, mas alguma diferença entre os
bebês mesmo, se existe ou não?
Natália: Eu acho mesmo que deve ser limpeza e quantidade de bebê por pessoa
que oriente, porque eu acho assim, em uma creche é muito maior o número de
bebês.
Elaine: Na escola particular você acha que talvez tenha uma proporção melhor?
Natália: Eu acho, com certeza.
Elaine: E tem mais alguma coisa que talvez diferenciasse os bebês? As que vão
para a particular e as que vão para a pública, elas têm alguma coisa diferente?
Natália: O bebê que você fala... é bebê, bebê?
Elaine: O bebê, uma criança que está indo para a creche.
Natália: Eu acho que é isso assim, com certeza, esse profissional da escola é
mais qualificado que uma orientadora em uma creche, então, assim, a orientação
do bebê já vai ser diferente, não vai ser igual à da creche. O cuidado que ela vai
ter com essa pessoa vai ser diferente. O cuidado que eu falo é assim, desde o
jeito de você falar, tudo o que você faz, os bebês já conhecem, já estão
aprendendo, então o aprendizado vai ser outro. Vai ser uma pessoa mais
dedicada, vai ter menos crianças, é uma pessoa mais qualificada, então vai ser
totalmente diferente.
Elaine: Ahamm... Agora, eu gostaria que você falasse um pouquinho mais de
você, da sua família, do seu marido, do seu bebê, em termos de idade, profissão,
tipo de trabalho, religião, só para situar um pouco, uma breve apresentação...
Natália: Bom, meu marido tem 40 anos, ele é Gerente na XYZ [grande empresa],
ele tem pós-graduação, eu tenho 35 anos, tenho uma escola de idiomas, uma
franquia. Quanto à religião, somos católicos praticantes. É nosso primeiro filho,
planejado, depois de 5 anos de casados e nasceu a Laura, que ontem fez 3
meses e é uma coisa maravilhosa (risos).
Elaine: (risos)... E qual é a sua formação, como você chegou na escola de
idiomas?
266
Natália: Eu sou economista, tenho pós-graduação, trabalhei 17 anos na XYY
[outra grande empresa]. Como meu marido trabalhava no mesmo ramo de
negócios, na concorrência, eu falava “eu preciso mudar”. Aí com o tempo
apareceu a oportunidade de eu comprar uma escola de idiomas, aí eu larguei tudo
e fui, não me arrependo. Faz 5 anos que eu tenho a escola.
Elaine: Então, a escola já existia quando você planejou ter a bebê...
Natália: Já.
Elaine: Queria que você falasse um pouquinho como você se recorda da
educação e dos cuidados que você recebeu quando você era criança... como era,
se a sua mãe trabalhava fora ou não, com quem você ficava, se você freqüentou
creche pública ou particular e com qual idade?
Natália: Não, minha mãe não trabalhava. Eu ficava em casa com a minha mãe.
Lógico, hoje é outra realidade (risos) que antigamente. Eu fui para a escolinha
quando eu tinha 4 anos, era na EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil].
Elaine: Aqui em São Caetano?
Natália: Não, em XYZ [outro município do ABC paulista], mas estudava meioperíodo e depois ia para casa, então sempre tive esse negócio de chegar em casa
e a minha mãe estar em casa, almoço, minha mãe sempre ajudou nas tarefas de
casa.
Elaine: E sua mãe já não trabalhava quando você nasceu?
Natália: Não.
Elaine: E você tinha irmãos?
Natália: Tinha uma irmã mais velha que também recebeu o mesmo cuidado.
Elaine: E, além da sua mãe, você ficava também com algum outro familiar ou
outra pessoa?
Natália: Não, não, só com a minha mãe.
Elaine: E o que você pensa, o que ficou dessa educação que você recebeu? O
que você guardou, o que é importante e que você gostaria de transmitir para a sua
filha ou fazer da mesma forma, educar da mesma forma como você foi educada?
Natália: É, acho que educar da mesma forma eu não vou conseguir, porque
assim, minha mãe era dedicação 100% para nós, que eu acho que é o ideal. Não
sei se eu agüentaria ficar 100% em casa hoje. A gente fala que é o ideal, mas eu
não sei se hoje, nos dias em que a gente vive, se eu realmente pudesse abrir
267
mão, “ah, não vou mais trabalhar”, não sei se eu conseguiria me dedicar 100%. E
ela sim, ela se dedicou 100%. Mas, eu acho que tem algumas coisas que são
importantes, assim a gente sempre tomou café junto, almoçou junto, jantávamos
juntos, a lição de casa todo dia fazíamos juntos, eu não me lembro de fazer a lição
se ela não estivesse junto.
Elaine: Ahamm...
Natália: Então, são coisas que você vai acabando criando esse hábito e que
foram importantes assim e que eu acho que foram muito importantes na minha
educação.
Elaine: E são coisas que você gostaria de manter, de preservar na educação...
Natália: É, pelo menos um pouco (risos).
Elaine: Ahamm... E tem alguma coisa que você não gostaria de fazer da mesma
forma, que você gostaria de modificar em relação à educação que você recebeu
dos seus pais? Você comentou que os contextos são um pouco diferentes, que
você trabalha e que sua mãe não trabalhava...
Natália: É, talvez assim brincar um pouco mais. Acho que, na época, eles se
dedicavam muito em educação. E talvez fazer o que eles fizeram com os netos
depois de rolar um pouco mais, de sentar no chão e assim ser um pouco mais
relax. Não só cobrar, cobrar, era muita cobrança, cobrança. Então, talvez ser um
pouco mais diferente nisso também.
Elaine: Ahamm...
Natália: Agora, o grau disso é que é difícil. Medir o quanto é isso é que é difícil
(risos).
Elaine: Ahamm... Agora, vamos conversar um pouquinho em relação à licença
maternidade. Eu gostaria de saber o que você sabe sobre a licença maternidade e
também que você falasse um pouquinho aquilo que você me contou no telefone,
quando agendamos a entrevista, de que você não pôde usufruir muito da licença...
gostaria que você falasse dessa sua experiência...
Natália: Bom, acho que a licença maternidade é fundamental [enfática]. Nunca dei
valor para isso, sempre achei um exagero uma pessoa ter que ficar 5 meses em
casa, incluindo férias, para ficar com uma criança. Achava uma coisa absurda e eu
acho que é fundamental. Eu não tive, com 15 dias eu voltei a trabalhar e é muito
dolorido.
Elaine: Ahamm...
268
Natália: E eu acho que a criança precisa de você [enfática], você percebe que
durante os primeiros dias, a neném não dormia durante o dia e eu não fui em
período integral, eu ia, ficava 3 horas e voltava, eu ficava 3, 4 horas e voltava.
Mas, com 15 dias, ela ficava 3 ou 4 horas acordada, coisa que para um neném é
muito tempo. Então, assim, acho que esse contato da mãe no começo é muito
importante. Então acho assim, hoje, eu sou super a favor da licença maternidade e
é duro não poder ficar em casa.
Elaine: E como é hoje, você fica mais tempo?
Natália: Assim, vai passando, você fica mais tempo trabalhando, mas assim ainda
não estou período integral, mas já estou indo todos os dias, antigamente eu não
estava indo todo dia, agora já estou, então assim pelo menos umas 5 horas longe
de casa eu fico, 5 ou 6 horas eu fico longe de casa.
Elaine: Você tem aumentado o seu tempo de trabalho...
Natália: É.
Elaine: Mas, você gostaria de ficar ou de ter ficado mais em casa...
Natália: Eu acho que assim, principalmente até os 3 meses. Eu acho que até os 3
meses é fundamental. Eu percebo assim que agora, ela já está em uma fase
melhor que você já consegue deixar mais, você já consegue até conversar mais e
ela já entende melhor. Mas, acho que até os 3 meses, era uma coisa que eu não
dava valor, mas é fundamental [enfática].
Elaine: E para você também agora já está um pouco mais fácil ou ainda é muito...
você falou que foi sofrido no começo...
Natália: Acho que tudo você vai se acostumando (risos). É fácil? Não, não é, mas
assim eu também sou daquelas que acho que se você ficar pensando muito é pior
para você e pior para o nenê. Então, eu sei que ela está bem, então eu vou para lá
[trabalho] e não sou de ficar ligando por causa assim se eu deixar ela com uma
pessoa é porque eu confio naquela pessoa e acho que a pessoa também, eu acho
que ou você vai [trabalhar] e se desliga ou é melhor não ir.
Elaine: Ahamm...
Natália: Então, assim acho que quando você está com ela, você tem que ter o seu
tempo integral para ela, acho que não é legal nada que você faça, que você faça
pela metade. Eu já cheguei a ficar aqui em casa com ela aqui no carrinho, mas
com um notebook no colo, um rádio e o celular. Aí eu falava assim “o que adianta
eu ficar aqui em casa”.
Elaine: Ahamm...
269
Natália: Então, eu parti e disse “chega, o que eu fizer eu vou fazer integral e me
dedicar àquilo”. Então eu prefiro ir todo dia, fazer o que eu tenho que fazer lá e aí
quando voltar ficar com ela e me dedicar para isso.
Elaine: Ahamm... Bom, então você acha que pelo menos um período de 3 meses
seria o necessário, o ideal para a licença maternidade ou os 4 meses previstos na
lei?
Natália: Os 4 meses seriam mesmo o ideal.
Elaine: E o que você achou do projeto de lei que foi aprovado e que dá a
possibilidade de prorrogação da licença maternidade por mais 2 meses? As
funcionárias que quiserem, de comum acordo com as empresas onde trabalham,
poderão usufruir de licença maternidade de 6 meses... Você acha que esse
período é suficiente, adequado? É bom para as famílias e para os bebês?
Natália: Eu acho que não tem necessidade, acho que o principal mesmo seriam
os 3 primeiros ou 4 primeiros meses. Eu acho que largar a criança em qualquer
idade vai ser difícil. Se você vai pensar nisso, 6 meses vai ser pouco, você vai
querer 7, 8 meses, quer dizer, você se separar da criança é duro. Mas, a
necessidade de você ficar um mês a mais ou a menos, não é isso que vai fazer
diferença. Acho que assim os 3 primeiros meses são onde a criança realmente
tem mais necessidade. Até, o pediatra sempre brincou que com 3 meses ia acabar
o soluço, a criança ia dormir melhor, a rotina estaria criada e eu e meu marido até
brincávamos “ah, então a gente vai fazer um churrasco porque realmente
acontece tudo com 3 meses”, a gente não acreditava e realmente assim, ela está
com 3 meses e está com uma rotina ótima, já tem hábitos, já criou aquele vínculo,
você já sabe o que ela quer, ela já tem a rotina dela, os horários dela, então acho
assim que se eu pudesse ficar aqui 6 meses seria ótimo, mas na hora de separar
seria tão duro quanto aos 3 meses. Acho que ficar mais tempo não iria mudar isso.
Acho que não tem necessidade. Acho que realmente são os 3 primeiros meses
que são a fase que ela tem mais cólica, é a fase em que você não consegue ter
rotina, então que eu acho que é o principal realmente, agora não vejo necessidade
de um período maior de licença.
Elaine: Você comentou sobre o pediatra... Vocês chegaram a conversar com o
pediatra sobre o seu retorno ao trabalho, sobre você ter retornado após 15 dias...
Ele recomendava que você ficasse mais tempo ou não? Vocês conversaram sobre
isso?
Natália: Não. Eu comuniquei né (risos). Na verdade, eu estava conversando sobre
o leite... a nenê lá na maternidade já tomou complemento, então aqui em casa eu
continuei amamentando e dando complemento. Até os 2 meses, eu consegui fazer
isso. Então, como ela já estava também na mamadeira, durante o tempo em que
eu ficava fora, essa mamada ela tomava na mamadeira, então deu para conciliar.
Então, também não teve problema quanto a isso.
270
Elaine: E o pediatra ou a pediatra não se manifestou nem a favor nem contra?
Natália: Não (risos).
Elaine: Agora, vamos conversar um pouco sobre a licença paternidade... O que
você sabe sobre essa licença? Seu marido usufruiu ou não?
Natália: Meu marido não usufruiu porque ela nasceu durante uma feira importante
do ramo de atividades da empresa onde ele trabalha, que é uma feira super
importante da indústria, ia começar em um domingo e dura uma semana. Foi bem
no domingo em que ela nasceu, então assim, ele só não foi trabalhar lá no
domingo, foi trabalhar todos os dias. Mas é aquilo também, eu acho que ficar em
casa e você ficar pensando lá [no trabalho], ficar com o notebook e com o celular,
acho que não... pelo menos ele ia e ficava o tempo necessário... de manhã ele
não ia porque a feira só abria à tarde, de manhã ele ficava aqui e se dedicar...
também não é ficar em casa e ficar olhando junto só e falar “ah, estou em casa”. O
tempo que você ficar tem que ser para você se dedicar para aquilo.
Elaine: Ahamm... Mas, você conhece a lei, sabe qual é o período?
Natália: São 5 dias né.
Elaine: Ahamm... Você acha que esse tempo previsto em lei é adequado?
Natália: Eu acho que para o pai é o ideal. Porque eu acho assim durante os
primeiros meses é a mãe mesmo, não tem jeito. O pai ajuda? Ajuda assim para
comprar alguma coisa, para trocar uma fralda ou outra, mas o dia-a-dia é a mãe
mesmo. É a mãe que conhece, é a mãe que vai amamentar, acho que o principal
é a mãe mesmo.
Elaine: Tem um projeto que prevê a ampliação da licença paternidade de 5 para
15 dias. O que você acha disso?
Natália: Assim, eu não via necessidade.
Elaine: Você acha que os 5 dias estão adequados...
Natália: Estão... Porque assim, é uma fase em que a criança dorme muito na
verdade (risos). Então, quando ela acorda, o que ela quer? É a mãe para
amamentar. É uma fase, principalmente o primeiro mês, é uma fase em que a
criança não fica acordada. É acordar para amamentar e dormir. Então, eu acho
que é um período que, na verdade, o pai não pode...
Elaine: Você acha que acaba não sendo um período muito proveitoso para o pai
também?
271
Natália: É, o pai não faz muita coisa. Não tem como fazer muita coisa. Tem
pessoas, tem mãe que acha que vai amamentar e que o pai tem que acordar de
noite para ficar... sei lá, para mim é meio... quem vai ter que acordar é a mãe
[enfática], quem vai amamentar é a mãe. Eu acho que o pai entra em outras fases,
acho que quando está maior, que nem agora com 3 meses você já percebe que
ela já interage, ela já conversa... conversa assim do jeito dela, já conhece, mas
nossa no primeiro mês, segundo mês a criança não tem essa... assim, ela interage
com a mãe mesmo.
Elaine: Ahamm... Então, falando agora sobre essa decisão que você tomou...
você contou que voltou ao trabalho depois de 15 dias e, aos poucos, você foi
aumentando a sua carga horária... Com quem o bebê fica em casa? Como você
chegou nessa decisão? Como foi esse processo?
Natália: Na verdade, isso já era uma coisa planejada antes de eu ficar grávida,
porque eu sabia já que eu não poderia ter licença maternidade, até adiamos a
gravidez por conta disso, mas foi uma coisa que a gente sempre planejou, “ah,
quando eu ficar grávida, vai ter que ter uma pessoa”. O único plano que nós
mudamos foi que eu imaginava que depois de 4 meses eu iria levar ela para a
escola, eu fiz uma salinha lá para ela, então ela iria para lá junto com a babá e
ficariam lá comigo. E aí, hoje, depois que nasceu, eu mudei de idéia porque acho
que é muito cansativo, é distante, é muito trânsito para ir, muito trânsito para
voltar, eu acho que elas se adaptaram muito bem.
Elaine: Você contratou uma babá?
Natália: Contratei uma babá. Então, assim não tem necessidade de ficar duas
horas no trânsito para ir e duas para voltar, a nenê vai sofrer muito. Então, a única
coisa que nós mudamos nos planos depois que nasceu foi isso dela não ir mais
comigo.
Elaine: Você pretende que fique esse esquema de ela ficar aqui com a babá
durante quanto tempo? Você acha que vai mudar... você pensa em algo diferente
mais para frente ou não?
Natália: Eu acho assim que se continuar do jeito em que está até 1 ano, 1 ano e
meio vai ficar desse jeito com a babá.
Elaine: E ela fica em período integral?
Natália: Ela dorme aqui, fica em período integral. Algumas coisas que eu faço
questão assim, eu não vou trabalhar antes dela [bebê] acordar, a primeira
mamada sou eu que dou, eu troco ela, a babá não dá banho se eu não chego,
então até umas 17 horas eu estou aqui para eu dar banho, pra eu dar mamar,
então tem algumas rotinas que eu faço questão de não pular e de fazer, até para
ela também poder criar isso.
272
Elaine: Para chegar nessa decisão você conversou com seu marido ou com
outras pessoas?
Natália: Foi muito eu e meu marido. A gente pensou que quando nascesse, a
gente achou que escolinha não era o ideal. Até os 6 meses, escolinha nem
pensar. A gente achou que tinha que ficar com uma pessoa. Deixar com mãe e
sogra a gente sempre foi muito contra, porque a gente acha “o filho é nosso, quem
tem que...”, avó gosta, mas assim, cada um tem sua vida, e essa era uma opção
que a gente nunca queria.
Elaine: Alguém se candidatou a ficar ou não? Uma das avós?
Natália: Ah, elas sempre jogam alguma coisa, sempre querem.
Elaine: Ahamm...
Natália: A minha mãe até que não porque ela trabalha fora. A mãe dele se
deixasse, é lógico ela iria adorar, mas é uma pessoa que tem 70 anos, eu acho
assim também que não tem condição física e nem essa disposição que acho
assim, a criança tem que ficar conversando o tempo todo, mesmo que ela não
está respondendo, mas você conversa o tempo todo, você fala e eu acho que uma
pessoa de idade não tem essa disposição. Então, isso é uma coisa que a gente
conversou já quando a gente decidiu ter neném, ter o filho, a gente já sabia como
ia ser, que ia ser uma babá e que ficaria aqui. Então, foi uma coisa que já estava
muito clara pra gente.
Elaine: E essa decisão de você voltar a trabalhar e dela ficar com uma babá gerou
alguma repercussão? Alguém comentou alguma coisa?
Natália: Ah, a gente ouvia assim “mas já, você tem coragem?” E eu falava assim
“ah, mas tem outro jeito?”, ou então eu falava “a criança está doente? A criança
está ruim? Ela está feliz? Ela está crescendo? Ela está saudável?”. Então assim
você consegue mostrar de outras formas e acho que a realidade assim mesmo
“ah, tem outro jeito?”, aí a pessoa fica assim... não né.
Elaine: Sua irmã já tinha bebê?
Natália: Já, minha irmã tem duas crianças.
Elaine: E ela optou pelo que?
Natália: O mais velho, minha mãe ficou até os 6 anos. O segundo, já tinha uma
pessoa que ficava na casa da minha irmã e ele já ficou com essa pessoa. Mas, o
primeiro, quando ficou com a minha mãe, minha mãe não trabalhava, era uma
outra realidade.
273
Elaine: E como vocês já tinham decidido que não colocariam na escolinha, nem
chegaram a conhecer alguma como uma possibilidade, nem creche, nem escola...
Natália: Ahamm...
Elaine: Em algum momento, você pensou ou cogitou, eventualmente, em parar de
trabalhar ou reduzir muito sua carga horária?
Natália: Não.
Elaine: E nem sofreu qualquer pressão para fazer isso?
Natália: Não.
Elaine: E essa sua escolha, você acha que é pessoal ou que também serve para
outros pais e bebês? Você recomendaria também para outras famílias?
Natália: Acho que para nós encaixou muito bem. Acho que, se para nós encaixou
muito bem com ela [bebê] com 15 dias, acho que para uma mãe que tem licença e
que vai deixar a criança já com 4 meses, a tendência é melhor ainda, porque a
pessoa vai ter ainda mais tempo para ficar com a babá em casa, de pegar o
hábito. Acho que é difícil você achar alguém de confiança, é muito difícil. Nós
ficamos assim, na verdade, 1 ano atrás dessa pessoa.
Elaine: E quais foram os critérios para você escolher essa pessoa?
Natália: O primeiro critério foi de indicação. Ficamos 6 meses atrás de uma
indicação, não achamos indicação, fomos atrás de uma agência, contratamos
através de uma agência, a pessoa ficou comigo aqui 2 meses antes dela nascer
para nós nos acostumarmos, depois que nasceu, depois de 1 semana ela pediu a
conta, teve que voltar para a cidade dela. E eu tenho uma empregada que
trabalha com a minha mãe e trabalhava comigo também há 14 anos e a irmã dela
já trabalhava há 15 anos como babá e ela queria um lugar para dormir e a pessoa
ia mudar e ela não ia mais poder dormir lá. Então, essa pessoa que a gente
conhece há 14 anos, a irmã dela veio trabalhar com a gente.
Elaine: Aí, você tem a empregada e tem a babá que é só babá o tempo todo...
Natália: Tenho. E a babá é só babá o tempo todo.
Elaine: No teu caso, como você já comentou, você acha que a idade da criança
influenciou na escolha de ficar com a babá ao invés de ir para a escola... Você
considerou que ela era ainda muito nova para ir para a escola...
Natália: Sim.
274
Elaine: Então, agora já estamos finalizando. Eu gostaria só que você comentasse
um pouquinho mais... embora eu tenha utilizado o termo creche durante a maior
parte da entrevista, ficou claro que você usa mais o termo escola para o que é
particular, mesmo que destinado aos bebês, e o termo creche para o que é
público...
Natália: Eu acho que a diferença não é de nome, acho que tem escolas que se
você for pôr talvez sejam piores que uma creche. O que eu acho é que se você
optar por colocar em uma escola ou em uma creche você tem que conhecer as
pessoas que trabalham lá, qual é assim a condição realmente do lugar e eu acho
que quando eu falo escola, querendo ou não, assim tem escola que você paga R$
500,00 que vai ser pior, talvez, que uma creche.
Elaine: Você acha que o nome em si não define o lugar...
Natália: É, não define o lugar. Eu estava definindo porque quando eu penso em
uma escola eu penso assim em uma escola particular, mesmo particular, mas em
uma top. Porque a gente sabe também que tem escola particular que a gente
paga R$ 500,00 para ficar lá período integral e que talvez seja pior que uma
creche. Então aí, não é nem o termo creche ou o termo escola, o problema não é
esse. É que quando eu penso em uma escola, eu penso em uma escola top, então
aí assim que tenha, realmente, todas aquelas condições principalmente as
pessoas qualificadas, tenham um outro salário, que tenha os melhores
profissionais. Então assim, talvez se você comparar uma creche pública com uma
escolinha que a gente fala de bairro, talvez não tenha diferença nenhuma.
Elaine: E mesmo assim, você achou ideal para o seu bebê ficar com a babá ao
invés de colocar em uma escola mesmo que fosse uma super escola com tudo
isso que você acha importante?
Natália: É, na verdade, eu acho assim que até 6 meses, 1 ano, eu acho que ela
tem algumas rotinas que mesmo em uma escola top a criança não consegue ter
essa rotina, porque aí entra naquilo de ter uma pessoa dedicada, de acordá-la no
horário, de dar aquela mamada, de pegar manha, por exemplo, ela para mamar
mama metade sentada, a outra metade ela só mama se for andando pela casa
(risos), são coisas assim. A gente acostuma, não sei se a gente que acostuma ou
se ela acostumou, mas acho assim que a gente sabe que se ela estiver em uma
escola, mesmo que seja top, ela [profissional] não tem tempo de ficar andando
para dar mamar.
Elaine: Ahamm... Você até comentou que, dificilmente, mesmo em uma escola top
vai ter uma pessoa para cada criança...
Natália: É, então eu acho que é esse ficar perto, essa dedicação é que é
importante. Eu falo para ela [babá] que não quero que faça nada na minha casa, a
única obrigação é ficar com a criança realmente.
275
Elaine: Ahamm... E, além dos cuidados com a bebê em casa, a babá tem alguma
coisa que ela faça fora de casa? Ela leva a criança para passear? Ela tem alguma
outra atividade diferente?
Natália: Ainda não. Até os 3 meses a gente não estava saindo não. Agora, a
gente vai voltar no médico. Até os 3 meses eu não levei ela ainda em shopping, a
neném ficou em casa praticamente até os 3 meses. A gente foi viajar, fomos para
a praia, mas ela ficou dentro do apartamento com a nenê, por causa das vacinas...
então a nenê não saiu pra nada não, por enquanto a rotina está em casa mesmo.
Elaine: Ok. Eu queria te agradecer bastante e pedir que você escolhesse nomes
para você e para sua filha para não usarmos os nomes de vocês, para
garantirmos o anonimato.
Natália: Ah, sei lá, é difícil escolhermos outro nome pra gente. Dá uma dica, o que
você colocar eu vou aceitar, não tem problema (risos).
Elaine: Um nome só para constar, para não utilizarmos os nomes verdadeiros de
vocês.
Natália: Tá, então para mim, Natália e para ela, Laura.
Elaine: Quero te agradecer muito e se você quiser comentar o que achou da
entrevista, se você quiser complementar algo ou fazer algum comentário, falar o
que você achou do tema...
Natália: É interessante, tem coisas né, você questionou sobre essa questão da
creche, a gente sabe que tem a maior dificuldade, por que a gente não vai atrás
né? Mas, é muita inexperiência, na verdade, também. É uma coisa nova pra gente
também.
Elaine: Para as mães de primeira viagem...
Natália: É, nossa, para mim totalmente [enfática]. Você falou assim “vocês não
foram atrás de uma escola?”, não, a gente ficou só com aquilo na cabeça de que a
babá seria melhor, de que uma pessoa seria melhor, é aquilo, a gente sempre faz
aquilo que a gente acha que é melhor, mas, de repente, não necessariamente seja
melhor. É você dar sorte mesmo com a babá ou então dar sorte mesmo com a
escola. Acho que não existe uma receita, se eu deixasse com a outra babá, eu
jamais deixaria ficar aqui sozinha, não que ela não fosse boa, mas porque eu não
ia confiar, então ela iria comigo para a escola, para o meu trabalho. Eu, com
certeza, iria colocar ela [bebê] na escolinha antes do que eu acho que vou colocar
ela ficando com essa babá atual. Então, assim, acho que é tão cada caso. Mesmo
sendo você, você muda conforme... não tem receita, não é fácil.
Elaine: Ahamm... Muito obrigada novamente!
276
Natália: Eu espero ter ajudado.
Elaine: Com certeza, ajudou bastante. Assim que eu fizer a transcrição da
entrevista eu te passo.
277
Transcrição terceira entrevista
Entrevistada: Aléxia, 39 anos, pedagoga, professora do ensino fundamental
na rede pública, mãe de Juliano, 3 meses e meio.
Elaine: Bom, então eu queria te agradecer pela participação e pela
disponibilidade...
Aléxia: Imagina... (risos)
Elaine: ...pela atenção... bom, ele é um bebê participante também, olha só como
ele está... [com referência ao bebê que também estava presente observando tudo]
Aléxia: ...é, ele presta uma atenção...
Elaine: é bem observador...
Aléxia: ...é, até para de mamar...
Elaine: Então, a primeira parte da entrevista é um pouco mais sobre questões
mais genéricas...
Aléxia: Tá.
Elaine: Então, se a gente pensar em um contexto mais geral, você acha que a
sociedade ou o Estado tem algum dever para com os bebês, alguma
responsabilidade?
Aléxia: Ah, eu acho que sim porque faz parte da educação e a educação é um
direito de todos e o bebê também, começa desde criança, desde bebê a educar. A
gente não educa uma criança a partir dos 7 anos, muito pelo contrário, é desde a
sua formação, desde bebê que vai se formando o cidadão, então eu acredito que
sim.
Elaine: Que tem responsabilidade...
Aléxia: É, porque nem todo mundo tem condições, sei lá, tem que ter uma escola
específica para bebês, não é só uma creche, porque eu acho que não é só o
cuidar, acho que também tem o educar, porque cuidar a gente acha que é só
mesmo a parte de higiene, alimentação e o educar não, engloba tudo também,
então eu acredito que sim.
Elaine: Então não é uma responsabilidade só da família?
278
Aléxia: Não, acho que, na verdade, esta parte assim, lógico a família tem a sua
parte como o Estado também tem a sua porque é uma via de mão dupla, vamos
dizer assim, porque a gente paga os impostos, então assim quem não tem
condições de ter uma escola, de pagar uma escola boa porque a mãe que hoje em
dia precisa trabalhar, não é mesmo, ela precisa de um lugar bom para deixar o
seu filho, de confiança, apropriado, adequado, tanto o espaço físico principalmente
porque tem lugares que não têm mínimas condições físicas, de espaço físico quer
dizer, para abrigar um bebê. Você vê muitas escolas particulares que não têm
condições assim de estar abrigando, eu acredito que o Estado ou o Município, no
caso, seja qual for, tem que estar disponível, tem que disponibilizar mesmo os
recursos que recebe para estar aplicando.
Elaine: Ahamm...então...
Aléxia: Não sei se respondi a sua pergunta?
Elaine: Ahamm...
Elaine: As crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988 com a
Constituição, mas somente 18,1% das crianças brasileiras de 0 a 3 freqüentam
creche enquanto que quase 80% de 4 e 5 anos de idade freqüentam pré-escola. O
que você pensa sobre isso?
Aléxia: Ah, eu não sei, assim, antes, eu tinha uma outra visão, antes de ter o
bebê, porque agora assim eu acredito que para você deixar um bebê em uma
creche tem que ter pessoas especializadas, preparadas para cuidar de um bebê
tanto fisicamente quanto mesmo na parte de educação porque ele aprende né
desde pequeno e... eu acredito assim que muita gente, às vezes, não deixa por
insegurança das pessoas que vão cuidar dos bebês, dos seus filhos, ou até
mesmo, acho que o principal é a insegurança, não ter confiança no lugar em que
você vai estar deixando, principalmente diante de tantas notícias que a gente anda
vendo de bebê que morreu por, sei lá, porque engasgou ou porque não foi cuidado
adequadamente...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então não sei, acho que é por um pouco de insegurança, falta de
confiança no local adequado, porque a gente assim, tem lugares que eles não
pedem assim especificações vai pra cuidar, para a pessoa que vai cuidar de um
bebê...
Elaine: Para quem vai trabalhar?
Aléxia: Exatamente. Eu trabalhei em uma escola particular e assim eu tinha
magistério, eu tinha feito pedagogia, então quer dizer eu tinha uma formação. Eu
279
trabalhei no berçário, mas nem todo mundo que trabalhava comigo tinha essa
formação, nem mesmo magistério.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Né, então é uma parte que você tem que saber. Você tem que ter vai
conhecimento para cuidar...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Não só da parte...também o comprometimento lógico, porque a parte
física, higiene e tudo mais, mas não tinham, a maioria vai não tinha sabe, não
tinha sabe estudo suficiente para estar cuidando de um bebê.
Elaine: Não tinha uma formação específica...
Aléxia: É, porque é necessário. Eu acho que é uma coisa que é assim, o bebê é
muito mais delicado no sentido assim do cuidar e do educar, é uma
responsabilidade muito grande para você deixar na mão de pessoas que não
estão qualificadas assim de uma certa forma, de uma maneira específica.
Elaine: Você acha que na pré-escola os pais já se sentem mais seguros?
Aléxia: É, porque na pré-escola por as crianças serem maiores, eu acredito que
tende um pouco mais para o lado da segurança porque a criança já até mesmo
fala...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Eu digo isso até mesmo pelos próprios pais porque eles falavam “ah, eu
prefiro colocar meu filho quando ele for maior porque meu filho ele vai poder falar
caso aconteça alguma coisa”, então assim ele já tem até mesmo condições de se
defender um pouco mais, então eu acredito que sim.
Elaine: Você acha que tem diferença também na capacitação do pessoal que
trabalha?
Aléxia: Sim, porque já de 3 a 6 anos você tem que ter uma professora em sala, já
em um berçário não é necessário. Tem escolas que não pedem um professor
formado, um pedagogo ou pelo menos um magistério. Tem escolas, não vou
generalizar, mas você nunca sabe direito quais são, por isso é que é sempre
falado até mesmo na televisão “você tem que pesquisar, você tem que cobrar,
você tem que até perguntar, exigir documentos da própria escola para saber onde
você está deixando”. Mas, por pagarem pouco, muitas vezes eles não conseguem
profissionais adequados que tem assim esse estudo para cuidar de criança.
280
Elaine: Por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam ou não se
mobilizam pela questão dos direitos dos bebês ou das políticas de creche?
Aléxia: Ah, acho que muitas vezes tem assim... acho assim vai... acho que tem
pessoas que pensam só no seu, não pensam em um conjunto total, dependendo
vai quem tem condições de pagar uma escola excelente não está pensando
naquele que não tem, de repente, condições de estar tendo um acesso a uma
escola boa, então ele pensa “ah, o meu está bem, então está bom”, então não vai
ter uma luta para uma coisa melhor para todos assim, eu vejo a sociedade um
pouco individualista, não só nesse assunto como em outros também, por exemplo,
“ah, minha casa não enche, então, por exemplo, não me preocupo vai em cuidar
do meio ambiente”, muita gente é assim, “ah, eu não moro na encosta mesmo, eu
não moro do lado de um rio, não é, então eu vou me preocupar para quê”, “minha
casa não é no alto”, então as pessoas, às vezes, pensam dessa forma “eu vou me
preocupar com o outro por quê, eu vou batalhar para uma coisa para os outros por
quê?”
Elaine: Você acha que falta mobilização... e quem poderia se mobilizar ou
defender essas causas?
Aléxia: Eu acho que a sociedade em geral, acho que assim como um todo. Acho
que em tudo se a sociedade fosse mais unida, assim não fosse tão individualista,
a gente teria muito mais direitos conquistados.
Elaine: Ahamm... você vê um caminho para isso, como os adultos, incluindo aí os
políticos, a sociedade de forma geral, a classe média, enfim, poderiam estar se
mobilizando para atender ou exigir esses direitos, cobrar?
Aléxia: Ah, foi o que eu disse, eu vejo a sociedade tão individualista como eu já
disse e com tanta pressa que não pára para pensar, então é difícil você falar “será
que vai melhorar?”, “será que vão conseguir enxergar?”, porque cada um está
pensando no seu só “o meu está bom, então tá bom, se o outro aí do lado não
está eu não me preocupo com ele” e eu vejo assim muita gente mesmo empurra
mesmo com a barriga, não quer saber, então ninguém luta por nada, pelos direitos
de nada, “ah, deixa para lá, não vou me estressar por isso”, então você vê muita
gente que faz esse tipo de comentários assim neste sentido, então é difícil ver
uma melhora no meu ponto de vista.
Elaine: E você se preocupa com esses assuntos, com esses temas ou se mobiliza
por essas questões? Por quê?
Aléxia: É, a gente tenta assim, mas é complicado, sendo que, de repente, você
não tem um apoio, é difícil você tentar sozinha, tentar melhorar assim nesse
sentido. Quando eu trabalhei nessa escola particular que eu te disse, nossa assim,
eu tentei bastante, tanto que eu acabei e pedi demissão porque eu lutava por
aquilo que eu acredito só que a dona da escola não queria investir, então fica
complicado, aí eu fui deixando de lado.
281
Elaine: Você já tinha parado para pensar sobre essas questões, por exemplo,
sobre o direito dos bebês à creche?
Aléxia: Sim, por exemplo, aqui em São Caetano, a gente não tem esse problema
porque a grande maioria das crianças elas têm vaga nas creches, nas EMIs
[Escolas Municipais Integradas] que a gente chama aqui...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então, em São Caetano, na verdade, a gente não tem tanto esse
problema. Mas, eu vejo assim como uma situação meio problemática porque vai
chegar uma hora que tem muita criança e não sei se a demanda de vagas vai ser
suficiente, a gente vê por aí, às vezes, criança que não tem vaga [enfática], mãe
que tem que deixar em uma creche particular, em uma escola particular, porque
não consegue vaga na pública. Já tem isso, porque não é todo mundo que
consegue até mesmo aqui em São Caetano, por mais que eles investem, tem um
investimento, mas sempre falta uma vaga ou outra, assim uma mãe que não
consegue, às vezes, porque tem que comprovar que trabalha, tem tudo isso e às
vezes tem toda essa situação, então...
Elaine: Você já tinha ouvido falar um pouco dessa problemática mesmo antes de
ter o bebê, essa questão das vagas?
Aléxia: Sim, sim, mas assim, como eu te disse aqui em São Caetano não é tão
gritante, não vejo mães reclamando “ai, eu não consigo”. Principalmente quem
precisa mais é quem tem um poder aquisitivo mais baixo, da pública, embora é um
direito de todos, então todo mundo, quem tem dinheiro e quem não tem, deveria
ter acesso, mas até mesmo pessoas que têm poder aquisitivo maior, mais alto,
que tem a opção de ir para uma escola particular, por status e outras coisas
assim, então aqui, a nossa realidade aqui em São Caetano é um pouco diferente
de uma outra realidade de São Paulo, de uma periferia, a gente consegue ter uma
outra realidade, então assim, eu estou falando de algo assim mais superficial
porque é uma mãe ou outra que a gente vê em São Caetano falando que não
consegue vaga, mas acredito que para uma outra, na periferia de São Paulo, a
situação já é mais caótica, vamos dizer mais complicada, não é assim tão fácil.
Elaine: Agora pensando assim um pouquinho sobre o bebê, os bebês de forma
geral, você poderia descrever um bebê para mim? O que te vem à cabeça quando
a gente fala bebê? O que é um bebê para você?
Aléxia: Ah, é um ser em constante aprendizado. Foi o que eu te falei desde o
começo, ele aprende desde o início, com suas ações, com seus gestos, então é
um ser que já nasceu e já vai aprendendo, o meio em que ele vive, que nem o
primeiro meio social dele é a família e depois vai crescendo, vai para uma escola e
depois vai ampliando e aí ele já vai aprendendo com a família, então todos, o que
a família tem de educação, então a criança vai já absorvendo isso, então é um ser
282
em constante aprendizado, complexo [enfática], porque a gente, ele não vem com
manual de instruções (risos), a gente tem que aprender a identificar suas vontades
porque ele só sabe chorar no começo (risos), mas é um ser em constante
aprendizado.
Elaine: Para você, tem diferença entre um bebê e uma criança pequena?
Aléxia: Ah, tem. O bebê, ele está iniciando, uma criança pequena já tem algo que
ela já foi aprendendo, então, por exemplo, se uma criança entra na escola com 1
ano, ela já vai levar para a escola uma bagagem muito maior do que um bebê que
entra aos 4 meses em uma creche porque ele passou só 4 meses com a família,
então a partir dos 4 meses ele já vai ser inserido em uma outra sociedade que é a
escola e uma criança de 1 ano, vai 2 anos, ela já tem uma vivência daquele
período, então, às vezes, para se adaptar é um pouco mais difícil em um grupo
maior, porque às vezes em casa ela é sozinha, só ela, então assim, aprender a
dividir já é um pouco mais assim, é diferente, eu acho [enfática].
Elaine: E o bebê, por exemplo, você consideraria até que idade? Até que idade
você falaria que ainda é um bebê?
Aléxia: Ah, um bebê...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Ah, é complicado isso, assim porque a gente quando trabalha com
criança, bebê para nós assim vai até 1 ano, depois já começa 1 ano, já é
grandinho, já fala “já não é bebezinho”. Bebezinho são os que entram com 4
meses, 5 meses na escola. Então, na verdade, eu tenho um pouco isso por ter
trabalhado com criança, então quando você olha uma criança de 1 ano e quando
você olha um bebezinho, você fala “ai, nossa, mas já é um mocinho” o de 1 ano,
mas o bebezinho não.
Elaine: Então para você é com mais ou menos 1 ano que se faz essa...
Aléxia: É, essa transição.
Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados, educados?
Qual seria a melhor maneira de educá-los?
Aléxia: Ah, acima de tudo ter muito amor. Acho que o amor é o principal. Acho
que uma criança que é cuidada com amor, ela cresce muito mais, de uma forma
muito mais sadia que uma criança que vive em um ambiente que não é assim
favorecida essa sintonia, porque a gente vê casos de crianças que crescem em
um ambiente de brigas, de uma família desestruturada, já vai pondo, não diria
seqüelas, mas algumas marcas, uma criança que é maltratada desde criança ela
tem marcas que vai levar para o resto da vida e que vai causar alguma coisa ali na
frente, se você cuidar dela com amor, aí é outra coisa.
283
Elaine: Você acha que isso é o que ela mais necessita...
Aléxia: Ah, o carinho, a atenção, o amor, acho que se você se dispõe a ter um
bebê você tem que cuidar da melhor maneira possível. Não digo assim, você não
precisa dar tudo do mais caro, mas você tem que acima de tudo cuidar com amor
mesmo, tudo o que você faz pelo bebê com amor.
Elaine: E qual a idade que você considera que seria a ideal para colocar um bebê
na creche, para um bebê começar a freqüentar a creche?
Aléxia: Olha, diante de todas as circunstâncias que a gente vê, eu acho assim, eu
acho que eu particularmente não sei se eu colocaria ele agora, sabe acho que
com 1 ano, 1 ano e meio mais ou menos.
Elaine: Ele está com?
Aléxia: Ele vai fazer 3 meses e meio. Porque é aquilo que eu te falei, eu não vejo,
até com 2 anos eu acho que eu colocaria...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Porque as escolas não exigem, foi o que eu te falei, em uma creche, em
um berçário, professores assim que tenham formação tudo, que nem, por
exemplo, aqui em São Caetano não, a gente já vê que a partir do berçário maior,
que agora tem outro nome que eu não lembro, que agora é por grupo, mudou,
acho que é grupo 2, uma coisa assim, que mudou a terminologia, já tem professor.
Então, bebês de 1 ano, 1 ano e pouco já têm um professor em sala junto com as
auxiliares para cuidar das crianças...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então, quer dizer, já tem um direcionamento, tem uma pessoa que está
preparada para estar cuidando, no caso de necessidade já tem uma forma, uma
visão diferente, não que quem, por exemplo, já trabalha há 15 anos como pajem
ou auxiliar de primeira infância, ou sei lá o nome que queiram dar para quem
cuida, não tem experiência, mas acho que você tem que ter uma pessoa ali do
lado acompanhando, que tenha um conhecimento, então eu acredito nisso assim
que eu colocaria mais com 1 ano, 1 ano e pouco, por causa disso assim.
Elaine: Depois de 1 ano, não antes...
Aléxia: É, não antes, e isso na pública. Na escola particular, aí só mesmo vendo
realmente o que faz e que tem um profissional adequado mesmo para estar
cuidando.
Elaine: Você faria uma avaliação melhor, então?
284
Aléxia: Sim, adequada.
Elaine: O que você pode me falar assim, por exemplo, sobre qual é a rotina de um
bebê em casa e como é ou seria a rotina dele na creche? Tem diferença? No quê?
Aléxia: Tem, porque assim, em casa, a mãe só tem mesmo o seu bebê [enfática],
então assim ela tem atenção, tem tempo integral praticamente para cuidar do
bebê e é só dele que ela tem para cuidar, ela não tem outros bebês, por mais que
tenha um outro filho, mas não é um outro bebê, deve ser um pouquinho mais
velho, então não é a mesma coisa. E em uma creche não, são vários bebezinhos
da mesma faixa etária que exigem a mesma atenção, o mesmo cuidado, então
assim é diferente, você não consegue, o bebê não vai ter atenção 100% de um
profissional porque, às vezes, o profissional tem que cuidar de um, depois tem que
cuidar de outro e ele não vai ter atenção, então para ele é diferente, tem uma
diferença sim.
Elaine: Você comentou que você trabalhou em uma escola particular...
Aléxia: Particular...
Elaine: E você trabalhava no berçário...
Aléxia: É, no berçário.
Elaine: E você já tinha formação, você falou que tinha magistério...
Aléxia: E pedagogia.
Elaine: Minha pergunta agora é justamente sobre como você se instruiu ou se
você procurou algum conhecimento para aprender sobre os cuidados para com o
bebê. Não sei se você já tinha tido alguma experiência com bebês anterior a sua
formação e ao seu trabalho e especificamente sobre bebê, se você fez algum
curso específico, se você leu algum material?
Aléxia: Aí no caso assim, aqui na Prefeitura de São Caetano, a gente, é muito
assim, muito valorizado. Eu trabalhei em EMI [Escola Municipal Integrada] antes
como auxiliar de primeira infância, mas quando eu entrei, eu já tinha o magistério.
E eles vivem dando curso de aperfeiçoamento, assim constante. Então, por
exemplo, quem trabalha no berçário tem um curso para as meninas que trabalham
no berçário, para quem trabalha com uma outra fase então tem, sabe, um curso
de formação mesmo para preparar o profissional para estar trabalhando, então a
gente tem constantemente cursos de aperfeiçoamento. Então, quando eu fui para
a particular, trabalhando junto com a Prefeitura, só que em períodos diferentes...
Elaine: Ahamm... Lá você também trabalhava no berçário?
285
Aléxia: Isso, naquele ano. Em outros anos eu trabalhei com outras fases.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Nossa, por ter conhecimento você tenta até levar para ajudar, mas tem
pessoas que, às vezes, não estão abertas assim. Na particular era complicado
você conseguir passar porque tem uma outra visão, depende muito daquelas
pessoas que estão trabalhando naquela escola como coordenação, direção e
assim o que a gente aprende na Prefeitura era super bem adequado e até mesmo
tinha muito valor, então assim as pessoas poderiam até se abrir para o novo, para
um outro conhecimento, mas muita gente não queria, então, no meu caso, eu
tinha já essa bagagem por causa da Prefeitura, então eu já estava mais assim
digamos inteirada do assunto, vamos dizer assim. E antes mesmo a gente lia
sobre todas as fases da criança, não é porque você trabalha só com uma fase que
você não tem que estudar no curso, você tem que estudar todas as fases da
criança, principalmente quem faz pedagogia e magistério. Então, de uma certa
forma, eu já tinha lido sobre bebês, estava aprendendo naquele ano mais sobre
bebês ainda, a gente tinha, no caso, no curso sempre uma formadora lá na escola
para ajudar a gente, assim, por exemplo, para propor atividades para os bebês
para o desenvolvimento, então era constante o nosso aprendizado e isso ajudou
bastante tanto em um lugar quanto no outro.
Elaine: Ahamm... e quando você resolveu engravidar foi planejado ou não...
Aléxia: Não, foi meio sem querer, embora que eu sempre tive vontade de ter um
bebê, mas foi sem querer, mas já que veio...
Elaine: E você não tinha nenhuma experiência mais pessoal de cuidar de bebês?
Aléxia: Sim, tinha com os meus sobrinhos. Primeiro que sempre foi minha paixão,
hoje eles são moços, então, na verdade eu cuidei deles antes de entrar na escola
e trabalhar entendeu. Assim, cuidar não digo, não ficar com eles todos os dias,
mas assim tinha isso de ir lá, visitar e ficar brincando, toda semana pelo menos,
então tinha um pouco desse conhecimento. Só fui ter mais profundo mesmo
quando eu entrei mesmo, aí é outra coisa e isso ajudou bastante agora, tudo o
que eu aprendi nos cursos que fiz (risos)...
Elaine: Na sua prática no trabalho...
Aléxia: Exatamente, o dia-a-dia, então isso me ajuda bastante com ele, por
exemplo, não tive problema nenhum em trocar fralda porque eu já tinha, e por
mais que eu já, na verdade, eu saí da EMI [Escola Municipal Integrada] em 2006...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E fui para a EMEF [Escola Municipal de Ensino Fundamental] que é o
Fundamental em 2007, então assim, por mais que eu já estivesse afastada por um
286
tempo, só que assim é uma coisa que você aprende que é difícil você
desaprender, então isso está ajudando bastante com ele, no cuidado, no
aprendizado, no desenvolvimento.
Elaine: Você chegou a procurar algo especificamente “ah, agora que eu vou ter o
meu bebê”, você acrescentou alguma coisa, você leu, você fez algum outro curso?
Aléxia: Sim, li revistas, por mais que você tenha o conhecimento, mas a gravidez
é uma novidade...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Né, eu nunca trabalhei com gestante, eu trabalhei com os bebês, então
assim, quando você é gestante muitas coisas foram novidade para mim, então fiz
o pré-natal, lia revistas sobre gravidez, parto, eu só não fiz curso de pré-parto que
tem porque foi justo na época da gripe...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Essa gripe que teve, a gripe suína, então eu não fiz cursos específicos
porque eu ia fazer nas minhas férias no meio do ano, no recesso do meio do ano,
porque eu estava trabalhando normalmente até então e com isso, por causa da
gripe, eu não fui. Não fui para nenhum curso porque normalmente é nos hospitais
onde você pensa em ter, ou até mesmo no convênio, eles me ligaram para fazer o
curso, tinha até o método Shantala para fazer massagem...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Só que era tudo em São Paulo, então era complicado, eu nem saía de
casa praticamente por causa da gripe, então não fiz por esse motivo um curso
específico de gestante, pré-parto ou pós-parto que eles explicam como cuidar do
bebê. Então, na verdade, eu acabei buscando essas informações na internet,
pesquisando mesmo em revistas, lendo revistas de assuntos focados para a
gravidez, então foi assim que eu me inteirei sobre o assunto.
Elaine: Ahamm... Então, agora, eu tenho várias perguntas sobre creche...
Aléxia: Ahamm...
Elaine: O que vem à sua cabeça quando eu falo, eu uso o termo creche? O que
este termo evoca para você?
Aléxia: Ah, na verdade, hoje até mudou, assim, quando a gente fala da creche
muita gente só direciona para o lado do cuidar, então, na verdade, a gente nem
fala muito creche mais, na verdade é como se fosse uma escola mesmo, a préescola, mas aí a gente fala “de 0 a 6 anos”, por causa disso, é que mudou o
conceito, antigamente tinha só esse conceito só de cuidar, a creche era só cuidar,
287
então era mamar, dar de mamar, cuidar da alimentação, cuidar até mesmo do
bem-estar também, da higiene pessoal, essas coisas...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E hoje em dia não, a gente já tem uma outra concepção especialmente
por conta do Referencial que existe, que já tem os Parâmetros para você seguir....
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Para você seguir sobre o que trabalhar, que já dá para trabalhar com os
pequenos vários aspectos [enfática], quer dizer, então tem o educar, não é só o
cuidar, então mudou essa concepção, então eu tenho essa visão de que não é
uma creche, é uma escola, uma pré-escola, mas é uma escola.
Elaine: Então aí, nessa concepção, a creche serve para além do cuidar, também
para o educar...
Aléxia: Exato.
Elaine: E a quem se destina a creche?
Aléxia: Ah, para os bebês, as crianças, porque tem essa divisão de 0 a 3 e de 3 a
6, então tem uma forma de trabalho direcionado para as crianças de 0 a 3 e uma
outra forma para as de 3 a 6, então é direcionada para eles.
Elaine: No caso, você já conhece creche, já trabalhou em uma, EMI [Escola
Municipal Integrada] pública em São Caetano, no berçário e também em uma
particular também no berçário. Você sabe se tem uma creche pública aqui no seu
bairro?
Aléxia: Tem, tem aqui mesmo uma EMI, aqui nessa rua...
Elaine: Bem pertinho...
Aléxia: Isso, tem uma EMI e tem uma EMEI [Escola Municipal de Educação
Infantil] do lado (risos).
Elaine: Ahamm... e você conhece alguém que utiliza?
Aléxia: Aqui não.
Elaine: Não... e outra em São Caetano?
Aléxia: Ah, em São Caetano sim, eu digo essa perto da minha casa. Perto de
casa eu não conheço assim particularmente ninguém, mas de outras sim.
288
Elaine: E o que as pessoas comentam?
Aléxia: Olha, é um pouco como eu te falei, mas agora ampliando um pouco mais,
quem mora em São Caetano não pode reclamar, da realidade aqui de São
Caetano, porque em termos da educação da escola, tanto das EMIs quanto das
EMEIs e depois dos Fundamentais 1 e 2, até mesmo assim de cursos enfim
preparatórios que a própria Prefeitura fornece, é tudo muito bom. Por isso que eu
falo que quando a gente conhece, a gente pode falar, então os profissionais tem
um curso, os professores estão em constante formação, não só, no caso das EMIs
que foi como eu te falei tanto as auxiliares também têm curso de formação, como
no meu caso, eu era auxiliar e a gente fazia, desde o berçário como de outras
fases a gente faz curso de formação, então aqui assim, a população digo de uma
maneira geral não pode reclamar, acho que é mais assim, claro faz parte do
governo dar essa educação de qualidade, então aqui existe essa educação de
qualidade, não posso dizer em outros lugares, assim onde nunca trabalhei, em
outras cidades...
Elaine: Eu ia mesmo perguntar se você via diferença entre as creches de São
Caetano e as de outros municípios, se você sabia, se você conhece alguém que
use, que comentou algo?
Aléxia: Não, assim pessoal, de conhecer alguém não, de contato, amigos, não,
porque na verdade meu grupo mais de amigos é daqui de São Caetano, tem
algumas pessoas de XXX [outro município do ABC paulista], só que ainda não têm
filhos, então não dá para ter um parecer. Mas, assim, às vezes, a gente vê na
televisão mães que reclamam, até mesmo você vê condições de escolas que não
têm aquele espaço adequado e aqui existe um investimento muito grande nisso,
então eu vejo muita gente assim elogiando, muita gente tira da escola particular
para pôr na pública, só não põe, às vezes, ou porque não consegue vaga que é
um caso ou outro ou porque, às vezes, quer por status, só porque tem uma
condição financeira melhor de manter o filho em uma escola particular por status
mesmo. Mas, assim, muita gente que eu vejo que até tem condições consegue
vaga, tira [da particular] e põe [na pública] porque não está preocupado com isso
de status “ah, meu filho estuda em uma escola particular”, tem muito disso.
Elaine: Você acha que isso do status já aparece mesmo quando é um bebê?
Você acha que essa questão do status é um fator a mais na hora de escolher
entre a pública e a particular?
Aléxia: Ah sim, já, já porque como eu trabalhei em uma escola particular, eu digo
isso muito pelas falas dos pais, enfim, entendeu, “ah não, colocar na escola
pública não, tem muita criança”, como se na particular não fosse também, tem
menos porque é mais caro, porque tem que pagar, por isso acaba tendo menos
criança, mas na verdade é isso, então assim acaba colocando na particular porque
“ah não, meu filho estudou na particular”, faz questão, às vezes, até de falar o
nome da escola para gerar um certo status. Tem gente que ainda pensa nisso,
não pensa na qualidade, pensa no status. Tem escolas particulares que podem
289
ser muito boas, eu tenho amigas que trabalham, que são professoras, então tem
escolas que você percebe que realmente tem um comprometimento, tem
investimento, tem tudo isso, mas a gente tem também essa qualidade também na
pública. É o que eu sempre falo, se eu tiver que colocar o meu bebê, é na pública,
porque eu já trabalhei, alimentação é de qualidade, desde os bebês, a gente vê
alimentos que chegam freqüentemente na semana, não são alimentos que ficam
lá muito tempo, então é tudo de boa qualidade como o leite, o leite é sabe super
conceituado, o leite em pó que é feito o leite dos bebês, então assim, é tudo de
qualidade.
Elaine: O fato de você ter trabalhado te dá assim mais segurança...
Aléxia: Sim, e você vê assim mesmo as outras mães que não trabalharam que
elogiam, que falam super bem da educação pública de São Caetano, então assim
eu acho que a gente aqui tem um fator, que a gente é privilegiado nesse sentido,
eu vejo isso.
Elaine: Ahamm...
[pequena pausa para a mãe amamentar o bebê]
Elaine: Você já comentou sobre a questão da capacitação dos profissionais, mas
eu gostaria que você comentasse mais sobre o que você considera uma boa
creche, uma creche de boa qualidade. Você falou que as de São Caetano são de
boa qualidade... o que elas garantem?
Aléxia: É nesse sentido mesmo, os profissionais constantemente têm cursos de
capacitação, o espaço físico é sempre adequado, eles buscam sempre a
adequação do espaço físico, a alimentação é de qualidade, nunca teve problema
de merenda escolar em São Caetano, ah sabe de alguém falar “faltou merenda”,
nunca houve isso pelo menos desde que eu me conheço por gente nunca houve,
eu estudei em EMEI quando criança, só não estudei em escola de Fundamental I,
naquela época, da Prefeitura porque não tinha, era só do Estado, então nesse
sentido eu não posso reclamar.
Elaine: Você estudou na escola do Estado também...
Aléxia: É porque na época em que eu estudava, aqui em São Caetano não tinha...
Elaine: Era só Estadual...
Aléxia: Exatamente, agora ele está municipalizando tudo.
Elaine: Então você estudou na escola pública mesmo no Fundamental. E na EMEI
você entrou com qual idade?
290
Aléxia: Eu entrei de 6 para 7, aí eu fiz a pré-escola, porque antes não tinha isso
muito de creche e como minha mãe não trabalhava então eu fiquei com a minha
mãe até 5 para 6 anos, depois fiz a pré-escola, que era o prézinho, o parquinho
que falava antes (risos) e depois fui para o fundamental.
Elaine: E o que você seria uma creche ruim ou de má qualidade?
Aléxia: Bem, eu acredito que uma creche ruim, de má qualidade para começar
não deveria existir (risos), porque você lida com vidas, é igual a um hospital, um
hospital de péssima qualidade a gente vê uma situação caótica, não é?
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então assim quando você lida com vidas você não pode deixar, se
deparar com um lugar que não tenha qualidade porque tem que ter [enfática], eu
acho que é o fator principal, tem que ter qualidade tanto sabe na parte da
alimentação, dos profissionais, eu acho que quando você não está disposto a isso,
vai você quer sei lá abrir uma escola, eu acho que você tem que estar disposta a
fazer o melhor, ser o melhor, porque se você for o melhor você vai conseguir ter
pessoas, ter os seus clientes, porque uma escola particular nada mais é do que
uma empresa, então as pessoas são os seus clientes, porque uma escola queira
ou não, mais tempo ou menos tempo, as pessoas vão ver se aquela escola não é
de qualidade, então ela vai, principalmente a particular. A pública depende das
pessoas, dos pais de estarem batalhando por uma coisa melhor.
Elaine: Então isso que você disse “mais cedo ou mais tarde eles vão ver que não
é de qualidade”... quais são os primeiros critérios assim que vão te chamar a
atenção de que aquela escola não é de qualidade?
Aléxia: Ah, assim, bem, da minha visão, até por eu ter o estudo, a gente falava
muito isso “gente que conhece, gente que trabalhou, a gente que estudou, que fez
magistério, fez pedagogia você olhando, você entrando em uma escola e vendo o
espaço físico, você já percebe, “ah, é um lugar que está preparado”...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Você olhando você já fala, porque assim tem escola que são abertas, mas
que não tem um mínimo de estrutura adequada, tanto fisicamente, então a pessoa
que tem um conhecimento consegue entrar e ver que aquilo está errado. Para o
pai que é leigo, é mais difícil, então assim, de repente, uma pessoa que não
entende do trabalho com a criança, às vezes, vê o bonito e acha que é uma escola
de qualidade, não está preocupado com o que vai ser passado para a criança, o
que vai ser ensinado. O trabalho feito tem que ter aquela transparência, eu
acredito assim não dá para você trabalhar com criança e você não ter a
transparência. Transparência eu digo assim se o pai quiser conhecer o trabalho do
professor, se o pai quiser conhecer o trabalho do dia-a-dia da escola, queira ele
chegar em um determinado horário e falar “eu quero ver como é o trabalho”,
291
mesmo ficar de longe porque, às vezes, a criança vê o pai ou a mãe e quer ir com
ele, então assim eu acho que a escola que tem essa transparência, ela sim não
está preocupada em falar “ah, eu não tenho qualidade”, ela sabe que ela tem,
então ela não vai se preocupar em estar mostrando isso.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Eu acredito que aquela escola que não tenha, ela não permite esse
acesso, assim essa abertura para os pais para conhecerem, porque a gente que
trabalha com criança a gente sempre mostra o que é feito com a criança, o
trabalho feito com a criança, como é feito. Primeiro, porque isso inspira o que nos
pais? Confiança. Se você sabe o que está sendo feito com o seu filho, você confia.
Se você não sabe, você desconfia. Então assim, eu digo que é complicado para
quem não sabe, por isso que, às vezes, você vê crianças que são colocadas em
creches, eu digo assim, creches assim particulares, essas escolinhas que são
abertas que são tantas com o mínimo de, sabe, de tudo e muitos pais colocam
porque, às vezes, não têm conhecimento e não sabem o que precisa ter ou não
para ter uma escola de qualidade. Eu digo isso porque a gente conhece pais
assim que, às vezes, não sabem, enfim, para eles tanto faz, eles precisam de um
lugar para deixar o filho e muitos, assim, não estão preocupados em saber o que é
ou o que não é. Outros não [enfática], outros querem sim conhecer, querem saber,
então acho que depende muito.
Elaine: Você colocaria o seu bebê em uma creche?
Aléxia: Particular ou pública?
Elaine: Particular ou pública...
Aléxia: Particular? Olha, só se eu conhecesse quem trabalhasse lá.
Elaine: Ahamm... e na pública, aqui em São Caetano?
Aléxia: Na pública sim.
Elaine: Colocaria...
Aléxia: Sim, sem dúvida, sem nenhum medo, sem nenhum constrangimento. Eu
assim, eu penso em não colocar por causa do período integral, só por isso, porque
a EMI aqui em São Caetano é período integral, então o bebê entra às 8h e sai às
17h. Tem o horário estendido, pelo menos tinha quando eu trabalhava, que era
das 7h às 18h, dependendo do horário de trabalho dos pais, então assim eu fico
pensando em deixá-lo ou não por esse lado só, só pelo horário.
Elaine: Se tivesse um meio-período?
292
Aléxia: Exatamente, sim, aí eu não hesitaria, eu colocaria sem problemas, porque
eu trabalho meio-período.
Elaine: Tá.
Aléxia: Então assim, se eu trabalhasse em período integral, não, eu colocaria sem
problemas porque eu trabalharia, então eu não teria como mesmo, mas assim
como eu quero cuidar também, eu fico “poxa, vou colocar o dia inteiro na escola?
Mas eu não vou cuidar no tempo em que eu posso ficar com ele?” Então, na
verdade, é mais isso, pelo fato de não colocar, entendeu, pelo menos enquanto
ele é menor, pequeno. Como eu te disse, depois de 1 ano, 1 ano e pouquinho aí
sim porque para o desenvolvimento dele também vai ser importante.
Elaine: Aí você deixaria mesmo o dia todo?
Aléxia: É, com um pouquinho de dor no coração (risos), mas deixaria.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Porque, na verdade, assim eu sempre quis cuidar do meu bebê, sempre,
quando eu trabalhava a minha intenção era buscar mesmo a área da educação
porque era uma coisa que eu gosto e também unir o útil ao agradável. É uma
coisa que eu gosto, é o que eu quero como profissão e ao mesmo tempo, eu
posso cuidar do meu bebê meio-período, por isso é que eu fico nessa dúvida de
ai, ter que colocar ele em período integral.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Agora, é como eu te disse, na particular só se eu conhecesse alguém, se
eu conhecesse muito bem a escola, caso contrário não.
Elaine: Ahamm... bom, acho que algumas coisas aqui a gente já comentou, acho
que você já falou, mas se você quiser acrescentar alguma coisa, por exemplo, se
você recomendaria a creche pública para outros pais e bebês?
Aléxia: Sim, com certeza.
Elaine: Aqui em São Caetano sim...
Aléxia: Já recomendei até, inclusive, mesmo sem ser mãe, foi quando eu
trabalhava. Foi para o meu sobrinho, desde que a esposa dele estava grávida, eu
sempre, por mais que a empresa onde meu sobrinho trabalhava tivesse uma ajuda
mensal de escola para as crianças, eu falei para ele “é melhor você colocar na
pública, eu confio muito mais, eu acredito muito mais no ensino, principalmente
aqui de São Caetano, do que em uma particular”. Ele viria morar aqui e ele
poderia colocar as crianças aqui em São Caetano. “Por mais que você receba
essa ajuda de custo etc. etc.” primeiro é por aquilo que eu falei já, tem tudo, a
293
qualidade de ensino, a alimentação é de qualidade, a criança tem a liberdade de
comer uma quantidade, sabe o quanto quiser, ela pode repetir, coisas que na
particular eu já vi, às vezes, que não aconteciam assim, bem assim, em termos da
quantidade de comida era bem certinho para cada criança e na pública, imagina,
eu lembro quando eu trabalhava, lógico você não vai deixar a criança repetir 10
vezes porque senão ela passa mal (risos), mas assim, a criança com fome ela não
ficava, entendeu. Então, tinha uma quantidade de comida muito grande, era
sempre feita uma quantidade grande de comida para que todos pudessem se
alimentar bem e fora isso, qualidade de ensino. Então, recomendaria, recomendo,
já recomendei (risos).
Elaine: (risos) Tá. Em relação também às vagas, o que você acha da oferta de
vagas? Aqui em São Caetano você tinha falado que somos privilegiados porque
aparentemente tem um número suficiente...
Aléxia: Sim, porque a gente vê a quantidade de EMIs, a quantidade de EMEIs, a
quantidade de escolas, agora, a gente vê que ele quer, no caso, assim de 1ª a 4ª
série ou 5º ano, agora mudou, ele já municipalizou todas e agora a intenção dele é
municipalizar de 5º ao 9º ano, perdão de 6º ao 9º ano. Então, ele está cuidando da
educação de uma maneira geral, ele não quer privilegiar só os pequenininhos, ele
quer dar a qualidade de ensino na seqüência.
Elaine: “Ele”, você diz, o Prefeito?
Aléxia: Sim, sim, a Prefeitura, vamos dizer o Governo.
Elaine: o Governo Municipal...
Aléxia: Isso, melhor colocar dessa forma, porque aí pode ser que entra um e sai
outro, mas é a mesma coisa, eles dão continuidade. Então, o Governo Municipal
aqui se preocupa com isso, com essa qualidade, então ele está tentando manter
uma seqüência não só dos pequenos, mas até os adolescentes.
Elaine: E existem diferenças entre creche pública e creche particular... acho que
você também já apontou algumas.
Aléxia: Sim (risos).
Elaine: E por que você acha que essas diferenças existem?
Aléxia: Olha, é aquilo que eu falei, para trabalhar com criança você não tinha que
trabalhar uma situação “ah, eu vou escolher um profissional qualquer”. Então, eu
acredito assim tem que ter o melhor, eu acredito porque você está lidando com
uma vida, você não vai pegar um médico e pôr qualquer um, às vezes, um que
não tenha feito residência, porque você tem que ter o quê? Confiança. Você vai ao
médico em quem você confia, não é? Se você chega no médico e você vê que ele
fala uma coisa que você não tem confiança no que ele falou, meio inseguro, tudo,
294
porque às vezes ele não tem uma qualificação, então ele não está sabendo falar
aquilo com propriedade, vamos dizer assim. E um profissional que lida com vidas,
ele tem que ter a sua formação muito, e ter propriedade naquilo que ele fala. Ele
tem que ter conhecimento daquilo que ele faz.
Elaine: Pelo que você falou, a questão da capacitação é algo fundamental.
Aléxia: Sim.
Elaine: E você avalia isso bem nas escolas públicas aqui em São Caetano, mas
não necessariamente isso se repete ou acontece nas escolas particulares? Isso
pode ser diferente nas particulares...
Aléxia: É, porque nas particulares, foi isso que eu te falei, no berçário quando eu
trabalhava, nem todo mundo tinha formação em magistério, no mínimo, pelo
menos, porque eu acho assim, você exigir uma faculdade, às vezes, uma
graduação com o salário que é pago, pelo menos na escola onde eu trabalhei, não
sei em outras, mas pela minha experiência, com o salário que era pago era muito
difícil para uma pessoa conseguir pagar os seus estudos e sobreviver também
porque tem os gastos do dia-a-dia, a pessoa tem que comer pelo menos [enfática]
e então para muita gente, às vezes, era difícil. E o magistério, antigamente, ele era
o que, dado de graça, tinha nas escolas estaduais. Hoje, não tem mais, foi extinto
por conta de uma preocupação com a formação até mesmo, mas antigamente até
tinha o curso de magistério gratuito para todo mundo. Então, acho assim a escola
tinha que buscar pessoas, tinha que se preocupar em buscar pessoas formadas
para trabalhar com as crianças, só que ao mesmo tempo também ela não pode
exigir porque ela paga pouco. Então, o que acontecia? Eu estou falando isso
porque eu via isso, meninas que estavam entrando, que estavam se formando em
pedagogia, muitas delas ficavam 1 mês, 2 meses, arranjavam uma coisa que
pagasse melhor, um outro emprego que pagasse melhor, até mesmo outra escola
e iam embora porque elas não estavam sendo valorizadas financeiramente,
porque ninguém trabalha vai por esporte, todo mundo trabalha por uma
sobrevivência e aí o que acontecia? Sempre ficavam aquelas que tinham menos
formação, porque na verdade elas falavam que elas queriam um emprego, então
elas tinham um emprego, meio-período normalmente, e o salário...
Elaine: Tinha muita diferença entre o que você recebia na Prefeitura e o que você
recebia na escola particular?
Aléxia: Sim. Na Prefeitura eu não era professora nessa época, eu era auxiliar.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Muita, muita. Tem escolas que não pagam, assim particular, que não
pagam para o professor o que uma auxiliar de primeira infância de São Caetano
ganha. Hoje né, o salário atual, assim pago, e na época tinha diferença, eu
ganhava muito mais na Prefeitura do que nessa escola, lá.
295
Elaine: E na Prefeitura você não era professora...
Aléxia: Exatamente. Eu também nem era professora na outra escola [particular]
porque como eu trabalhava no berçário, eu não tinha o cargo de professora, eu
tinha do quê? De, vai, lá não era nem auxiliar, tinha outro nome, era tipo pajem,
porque lá se usava esse nome, a terminologia pajem...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E lá não tinha professor dentro do berçário, só que assim, por a gente ter
um conhecimento que a gente tinha, a gente fazia um trabalho diferenciado
porque a gente está ali e se eu me propus a trabalhar lá, então eu tinha que fazer
o melhor. Eu aceitei o salário quando eu entrei, até mesmo eu quis até para a
minha própria experiência mesmo porque eu tinha experiência só da pública e eu
queria ter experiência da particular, principalmente porque eu estava estudando,
eu estava terminando o curso de pedagogia.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então, eu queria ter esse conhecimento, saber essa diferença,
principalmente porque os professores da faculdade falavam muito “ah, a gente tem
que valorizar a escola pública, tem que valorizar a escola pública” e eu acredito
que tem que valorizar mesmo [enfática] porque é um direito de todo mundo ter
uma escola pública de qualidade, só que eu quero, eu consegui essa vaga e eu
falei “eu quero ver a diferença” porque só você trabalhando mesmo, você tendo
contato, se eu não trabalhasse eu não poderia estar te falando isso “ah, eu prefiro
mil vezes a escola pública do que a particular”.
Elaine: Tinha uma diferença de público? Como você via isso?
Aléxia: Tinha. A escola pública ela abrange todo mundo, qualquer pessoa pode
estudar. Tem desde a classe mais paupérrima quanto pode estudar o que tiver
muito dinheiro. Se você tiver vaga, ele vai lá e estuda e é tratado igual, de maneira
igual, todo mundo é igual, porque lá na escola não tem diferenciação, são
crianças.
Elaine: E tinha todos esses níveis sociais na escola onde você trabalhou?
Aléxia: Na escola pública sim. Sim, tinha crianças com condições assim
financeiras excelentes como tinha crianças com condições financeiras
paupérrimas.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Tinha todos os níveis sociais.
296
Elaine: E na outra?
Aléxia: Na outra não. Na outra era sempre um nível vai de uma classe média para
alta porque, por exemplo, para poder ter o filho em uma escola, para se pagar é
porque precisa ter o mínimo de uma condição financeira para estar abrindo mão,
para estar dando esse dinheiro.
Elaine: E você acha que existe alguma diferença entre os bebês que freqüentam
a creche pública e os bebês que freqüentam a creche particular?
Aléxia: Assim, no sentido do cuidar, você está dizendo?
Elaine: Alguma característica dos bebês que seja diferente?
Aléxia: Não, porque bebê é bebê. Ele não tem noção ainda se ele vai com uma
roupinha de marca ou com uma roupinha comprada em uma outra loja. Para ele,
ele não tem isso ainda. Ele pode usar uma roupa de marca, como ele pode usar
uma roupa mais simples que tanto faz para ele. Ele não tem isso. Isso cria-se na
criança mais velha, essa coisa de status, de marca, a gente consegue ver essa
diferenciação em crianças mais velhas, já de uns 5, 6 anos, você consegue
perceber quando eles já conseguem entender um pouco o que tem marca, o que
não tem, então você já começa a perceber uma certa mudança, uma
diferenciação, mas enquanto bebê não.
Elaine: Não tem nada de diferente...
Aléxia: Nada.
Elaine: Agora, pensando em um contexto mais específico, das suas experiências,
das suas vivências, eu gostaria que você falasse um pouquinho sobre a sua
família, fizesse uma breve descrição. Algumas coisas você já comentou, mas
agora, por exemplo, em relação a sua idade, um pouco mais sobre o seu trabalho
atual, um pouco sobre o seu marido, a formação, o trabalho dele, a idade, religião
da família...
Aléxia: Ahamm...
Elaine: Enfim, algumas informações para apresentar...
Aléxia: A família né...
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Bem, a minha família era dentro dos padrões normais de uma família
mesmo, eu tive pai, mãe, irmãos, coisas que hoje, assim, a família pode ser vista
de formas diferentes. Até mesmo a gente tem que saber falar isso no dia-a-dia
com a criança porque, às vezes, ela tem pai, é um padrasto, às vezes a mãe é
297
uma madrasta, o pai casou de novo, a mãe casou de novo, então tem irmão, tem
meio-irmão com uma família, tem meio-irmão com outra família, então tem tudo
isso, ou mora com os avós porque os pais o deixaram, então, assim, hoje em dia a
família mudou.
Elaine: É ampla...
Aléxia: É, no meu caso não, era aquela família tradicional, antiga, pai, mãe,
irmãos. Vivi com o meu pai, com a minha mãe. Vivi com o meu pai até ele falecer,
e com a minha mãe até hoje. A religião, a gente é católico, só que também a gente
não tem preconceito nenhum porque na minha família a gente nunca teria essa
coisa sabe de você diferenciar o outro e sim de respeitar o outro, então
independente...
Elaine: Vocês se consideram praticantes?
Aléxia: Sim, sim. Não vou dizer que nós somos beatos. Mas, somos praticantes.
Porque beatos, é aquele que, de repente, vai todo dia na igreja. Nós não. A gente
pratica, mas assim não é como um beato.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: O que eu posso dizer mais?
Elaine: Você mora aqui? Você havia comentado que aqui é a casa da sua mãe.
Aléxia: É, eu moro por enquanto aqui, com a minha mãe, porque como foi uma
coisa que a gente não planejou, então a gente não está planejando casar agora, a
gente está com a intenção de mais para o final deste ano, então muitas coisas a
gente teve assim, estava preparando e não dava. Então, por exemplo, a gente
falou “não vamos morar, comprar uma coisa qualquer para morar no primeiro...”
porque assim quando você procura com rapidez uma coisa, você nunca encontra
nada legal. Então, a gente começou a procurar apartamento, a procurar casa e
nunca era uma coisa legal, boa e o que tinha era assim, o preço absurdo porque
parece que quando você está precisando parece que as pessoas falam “a gente
vai...” e aí a gente resolveu “não, vamos fazer as coisas com mais calma, não é
porque eu estou grávida, vamos procurar com mais calma, para procurar e achar
uma coisa legal”. Quero morar aqui em São Caetano [enfática], a gente já está até
vendo, já está em vista, porque para o meu trabalho é melhor e assim para ele
[bebê] também o caso da escola do que de repente eu morar em XXX [outro
município do ABC paulista], porque meu marido é de lá, então a gente tinha até
cogitado, às vezes, morar para lá, mas assim eu tenho uma colega de trabalho
que mora lá e que dá aula em São Caetano e a filhinha dela fica em São Caetano
e até a neném dela tinha uns problemas e precisou tirar da escolinha porque ela
sofria muito com o caminho de volta para casa. Pegava o horário do rush, trânsito,
e a menininha ia chorando 1 hora dentro do carro. Então, pensando nisso, falei
“não quero essa vida para mim”. Então, vamos fazer o quê? Vamos esperar um
298
pouquinho, a gente vai comprar em São Caetano? Então, a gente vai comprar em
São Caetano.
Elaine: Então, moram aqui você, seu marido, seu filho e sua mãe?
Aléxia: É, por enquanto sim, só nós. Por enquanto, mas, a gente já está em vias
de... lógico que vai demorar um pouquinho porque até... a gente quer escolher
uma coisa mesmo que seja em construção, então tem um período que... a gente
falou “ah, vamos escolher uma coisa legal”, porque às vezes você vai querer
comprar, compra e depois troca os pés pelas mãos. Então, não estamos vendo
coisas assim “ah, tem que comprar correndo porque ai tem que morar”, sabe, e a
gente acabou se deparando com uma coisa mais “ah, eu não gostei disso”, sabe,
“ah, eu não gostei daquilo”.
Elaine: E vocês estão juntos há quanto tempo?
Aléxia: Há 1 ano, mais de 1 ano.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: 1 ano e meio.
Elaine: E vocês não são casados oficialmente...
Aléxia: Não, a gente vai casar, porque quando eu engravidei, o meu foco foi a
gravidez. E eu falei “não quero fazer tudo de uma vez, sabe, eu não quero
atropelar, eu não vou esconder de ninguém que eu estou grávida”. Não é mais
como antigamente “ai, tinha que esconder a barriga, tinha que casar e falar que
nasceu de 7 meses, de 6 meses” (risos), eu falei “a gente vive em outra época,
com outra mentalidade, pelo menos a minha”.
Elaine: E vocês moravam juntos antes?
Aléxia: Não. A gente começou a morar junto depois que ele nasceu. Foi uma
decisão minha também, porque assim, eu passei minha gravidez super bem, não
tive problema nenhum, quer dizer, tive no final diabetes gestacional por causa de
uma infecção de urina, tudo mais, mas assim nada que eu precisasse dele
constantemente. Então, ele continuou na casa dele, eu continuei na minha até ele
nascer. A gente só veio morar junto depois que ele nasceu.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E, foi como eu te falei, meu foco principal era a gravidez. Eu falei “eu não
vou atropelar, eu não vou me estressar com um monte de coisa, porque é uma
coisa que eu quero aproveitar, que eu quero curtir.” Eu sempre quis, eu falei “eu
não vou fazer tudo ao mesmo tempo, eu não vou procurar coisa de casamento
correndo, cuidar de médico correndo, fazer o pré-natal, dando aula sabe”. Eu falei
299
“não, não vou, vou fazer de acordo com o que dá, primeiro o meu foco é a
gravidez, depois a gente vê o casamento, depois o lugar para morar”. A gente até
começou a ver, mas foi aquilo que eu te falei, a gente vê um monte de coisa que a
gente não gosta e eu falei “ah, vamos com calma, porque meu foco principal é a
gravidez, passar bem a gravidez”.
Elaine: Ahamm... E o teu trabalho atual, você é professora, da rede pública no
Fundamental...
Aléxia: Isso, no Fundamental I.
Elaine: Meio-período...
Aléxia: É, meio-período. Por isso é que eu posso falar com bastante propriedade
da qualidade do ensino, eu faço parte, então conheço (risos).
Elaine: E ele [bebê] está com 3 meses e meio...
Aléxia: É, o Juliano.
Elaine: Você tem quantos anos?
Aléxia: Eu tenho 39.
Elaine: E o seu marido?
Aléxia: 30.
Elaine: E ele trabalha com o quê? Qual é a formação dele?
Aléxia: Ele é gerente de vendas e ele está cursando ainda a graduação, ele ainda
não terminou. Ele começou um pouco mais tarde por causa do trabalho, horário de
saída do trabalho, então ele está cursando ainda.
Elaine: Ahamm... Um pouquinho você já começou a falar sobre a sua infância,
que você foi para a EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil] com 6 anos e
depois entrou no Fundamental... Sua mãe não trabalhava fora...
Aléxia: Não.
Elaine: Ela ficou com você. Você tinha irmãos mais velhos?
Aléxia: Dois irmãos mais velhos.
Elaine: Todos ficaram em casa, sendo cuidados pela sua mãe?
Aléxia: Sim, sim, todos pela minha mãe.
300
Elaine: Como você se recorda dos cuidados e da educação que você recebeu
quando era criança?
Aléxia: Ah, dos melhores assim, eu tive uma infância que eu falo que “ai, eu
adorei a minha infância!”. Eu brinquei muito, eu tive muita dedicação da minha
mãe, cuidado, não tenho queixas de falar “ah, a minha infância não foi boa, minha
infância não foi feliz”. Não, muito pelo contrário, só tenho recordações muito boas,
de felicidade mesmo [enfática], por mais que eu caía, machucava, porque eu
sempre me machucava, eu era muito levada, então vivia com roxo, com ralado,
com braço quebrado, mas eu só tenho recordações excelentes. Eu não vejo a
minha infância como triste. Não, muita brincadeira, por isso que eu falo que
criança tem que brincar mesmo, a gente aprende brincando sim, então eu não
tenho o que falar, para mim, a minha infância foi inesquecível.
Elaine: E você ficava também com algum outro familiar ou com alguma outra
pessoa em casa, além da sua mãe?
Aléxia: Só os meus irmãos, mas assim se dava, porque a gente tem um período
de diferença de idade, então, por exemplo, quando eu tinha 7 anos, meu irmão
mais velho já estava começando a trabalhar. Então, na verdade, eu fiquei mais
com meu irmão do meio que brincava comigo. E aí depois chegou uma certa
idade, meu irmão também começou a trabalhar, então só ficou eu e minha mãe
por causa dessa diferença de idade com os meus irmãos.
Elaine: Ahamm... Mas, tinha alguma outra pessoa para cuidar?
Aléxia: Para cuidar não, só a minha mãe.
Elaine: E do que você recebeu dos seus pais de educação, o que você quer
transmitir ou adotar na educação do Juliano? O que você quer dar continuidade ou
que você fale “eu gostei, foi bom, eu quero manter”?
Aléxia: Ah, muita coisa. Eu aprendi, na verdade, eu sou o que sou graças à
educação que eu recebi. A responsabilidade, a integridade, a minha informação
enquanto pessoa de forma geral, respeito pelos outros, porque a gente tem que
respeitar os outros para poder ser respeitado, então sabe meu pai era uma pessoa
que transmitia muita sabedoria, ele não chegou a fazer faculdade na época porque
ele era de uma família de muitos irmãos e minha mãe também não fez faculdade,
não tem curso de graduação, nem meu pai, nem minha mãe, mas nem por isso
não tinham a sabedoria da vida. Então, me ensinaram muita coisa [enfática], a
mim e aos meus irmãos. Então assim, a gente não tem problema nenhum na
família sabe, graças a Deus, a gente fala “ai, porque tal pessoa se desvinculou e
passou por algum problema ou entrou por um caminho que não deveria”. Não,
meus pais souberam muito bem educar os meus irmãos e a mim também e os
meus irmãos também aos seus filhos porque meus sobrinhos são moços já e
todos, o último está terminando a faculdade, está no último ano de faculdade, o
301
resto todos têm faculdade, têm pós já, então quer dizer, nenhum dá nenhum
trabalho em nenhum sentido. Hoje em dia a gente vê muito adolescente que se
envereda por caminhos né e eles não. Então, quer dizer, a gente é uma família
que a gente não pode se queixar.
Elaine: E o que você comentou em termos de atenção, essa questão do brincar...
Aléxia: São coisas que eu quero passar, assim, o brincar, o respeito, a
consideração pelos outros, por si mesmo, pelo meio ambiente, sabe isso sempre
foi muito passado pelos meus pais, embora que antigamente o meio ambiente não
era tão focado quanto hoje, mas como meu pai era uma pessoa que gostava muito
de animais e de plantas, ele acabava passando que a gente tinha que cuidar do
meio ambiente, que faz parte do nosso convívio, para o nosso crescimento e até
mesmo para a nossa continuação enquanto ser. Então, meu pai sempre passou
muito isso também. Hoje em dia, o assunto ecologia está na moda diante de
tantas coisas que andam acontecendo, mas, antigamente não era e mesmo na
época eu tive isso e hoje mais ainda, então tenho que passar mais ainda para ele
[bebê]. Então, em todos os aspectos, em termos de educação mais geral mesmo,
em termos de respeito, de ser uma criança feliz para ser um adulto feliz.
Elaine: E tem alguma coisa que você gostaria de modificar em relação ao que
você recebeu? Alguma coisa assim que você pense “ah, isso eu vou fazer
diferente”?
Aléxia: Não, porque assim, eu nunca apanhei. Nunca apanhei, então não tenho
assim essa... levei bronca sim, quando eu aprontava e tal, fui de uma certa forma
repreendida, mas nada que me deixasse em uma situação que você teria
vergonha de falar, não. Então, a minha educação foi, lógico, tinha seu lado que
não era punitivo, tinha a repreensão, mas não pela punição e sim para você
aprender o que é certo e o que é errado e é o que eu quero fazer com ele [bebê]
da mesma forma. Se precisar dar bronca a gente dá, chamar uma atenção a gente
chama, para ele saber tudo como fazer. Tem o como fazer. Não é sabe, tem
criança que apanha e eu não sei o que pode ser dela. Então, eu não tenho isso
como experiência.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então eu nunca apanhei dos meus pais, era outro aspecto da educação
que foi dado de uma outra maneira. Então é isso que eu quero continuar também.
Elaine: Ahamm... Agora, vamos conversar um pouquinho sobre licença
maternidade e licença paternidade. Você está de licença atualmente?
Aléxia: Ahamm, ainda estou.
Elaine: O que você sabe sobre a licença maternidade e há quanto tempo você
está usufruindo?
302
Aléxia: A minha é a de 180 dias. Já é a nova, a licença de 6 meses já.
Elaine: Tá. A Prefeitura já está adotando?
Aléxia: Já está, então, eu acredito que para a criança é até melhor porque quanto
maior o contato com a mãe tem todo um desenvolvimento ainda para a criança,
principalmente para o bebê, o contato com a mãe, o contato físico com a mãe é
muito importante.
Elaine: Você acha que a de 6 meses ficou mais adequada?
Aléxia: Fica melhor tanto para a mãe quanto para o bebê. Para os dois. É um
ganho dos dois lados tanto para a mãe quanto para o bebê.
Elaine: Ahamm... Você vai voltar quando ele já estiver com quanto tempo? Você
saiu de licença bem quando ele nasceu?
Aléxia: Não, eu saí de licença 15 dias antes por causa da minha diabetes
gestacional. Eu precisei sair um pouco antes porque eu precisei antecipar o parto,
mas como eu tive que fazer vários exames em uma mesma semana, então eu
precisei sair um pouco antes para poder dar conta de fazer todos os exames sem
precisar ficar faltando.
Elaine: E se você pensasse em um tempo “ideal” de licença maternidade?
Aléxia: Ah (risos), é complicado. Agora, enquanto mãe assim, a gente quer ficar o
máximo que pode, mas assim, vou ter que voltar a trabalhar. Se eu pudesse, eu
ficava com ele até 1 ano, se eu pudesse. Seria assim a minha vontade.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Mas, são 6 meses, então aí, por isso que eu falei, eu prefiro deixar meioperíodo só, porque eu quero estar meio-período com ele para estar passando,
convivendo com ele esse meio-período pelo menos.
Elaine: Mas, você pretende colocá-lo na creche quando você voltar a trabalhar?
Aléxia: Por isso que eu estou te falando, como é meio-período, aí como é período
integral [a EMI], eu não sei se eu vou pôr. Talvez, assim, eu coloque alguém na
minha casa para estar cuidando dele junto com a minha mãe assim para estar
olhando por ele. Porque, é como eu disse, eu não queria ficar longe dele período
integral. Por esse aspecto porque se fosse meio-período, eu colocaria porque eu
vou ficar longe dele meio-período, então, colocando ele na creche ou em casa,
meio-período eu vou ter que estar distante dele.
Elaine: Ahamm...
303
Aléxia: Mas, período integral eu não queria.
Elaine: Tá.
Aléxia: É por esse lado que eu não penso em colocar ele agora entendeu, só por
isso.
Elaine: Ahamm... E, agora, o que você sabe sobre a licença paternidade?
Aléxia: É uma semana né que o pai tem direito.
Elaine: Ele usufruiu?
Aléxia: Sim.
Elaine: Na realidade, são 5 dias...
Aléxia: Na verdade, ele acabou até ficando um pouco mais porque ele [bebê] teve
icterícia. Na verdade, assim, ele nasceu em uma segunda, então, no caso ele [pai
do bebê] ficou de segunda até sexta comigo, sábado e domingo normal, só que
como ele [bebê] saiu na sexta, eu saí na quinta, ele [bebê] saiu na sexta, aí eu já
tinha conseguido uma consulta com pediatra por causa disso mesmo eu queria
passar, primeiro porque é o pediatra que cuidou dos meus sobrinhos há 20 e
tantos anos e eu já tinha confiança. Aí, foi solicitado um exame de sangue no 6º
dia de vida, do 6º para o 7º dia, que o médico falou que é o pico da bilirrubina que
causa a icterícia. E aí ele pediu que o exame fosse feito no domingo, aí a gente foi
para o hospital e deu altíssimo, deu 17 pontos lá, não sei como é feita a medição e
aí, é altíssimo isso já e chegando a 20 pode causar várias coisas para o bebê,
tanto no cérebro pode afetar e aí ele [bebê] precisou ficar internado novamente,
então aí ele [pai do bebê] acabou ficando comigo na segunda, na terça e na
quarta, porque o bebê só saiu na quarta, quando deu as 48 horas do banho e aí
foi feito novo exame e aí baixou bem e ele pôde sair.
Elaine: Então, seu marido acompanhou esse período também...
Aléxia: Acompanhou esse período, então, na verdade, ele acabou ficando um
pouco mais.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Como ele tinha um pouco dessa facilidade de estar conversando porque,
assim, ele quase não tira férias, então ele teve um pouco de facilidade para estar
entrando em um acordo e ficar esses dias também.
Elaine: Você considera o período previsto em lei, de 5 dias, adequado?
304
Aléxia: Ah, eu acho que o pai poderia ter um pouco mais porque assim, às vezes,
nem toda mulher tem uma mãe próxima, alguém. Minha mãe me ajudou [enfática]
quando ele foi trabalhar na quinta-feira. Minha mãe ficou assim, embora eu não
tive problema de cuidar porque, como eu te disse, eu já tinha um certo
conhecimento. Mas, por ter feito cesárea, então tem alguns cuidados, então minha
mãe me ajudou muito. Graças a Deus, eu tinha minha mãe perto, mas tem
mulheres que não têm, então, quer dizer, o marido é fundamental também nessa
ajuda, principalmente, no pós, assim, por causa dos pontos. Principalmente quem
faz cesárea, às vezes, tem um pouco mais de dificuldade, tem algum problema ou
uma limitação, vamos dizer assim, e precisa da ajuda de uma pessoa. Às vezes,
tem mulher que não tem uma irmã perto, não tem uma mãe perto e com isso
acaba tendo uma certa dificuldade em estar cuidando do bebê, porque no começo
você fica meio atrapalhada mesmo, muda um pouco, um pouco não, muda
bastante a sua rotina (risos).
Elaine: E o que você acha do projeto de lei que propõe a ampliação de 5 para 15
dias da licença paternidade?
Aléxia: Ah, eu acho que é muito interessante. Eu sou a favor.
Elaine: E qual seria o tempo “ideal” de licença paternidade?
Aléxia: Ah, eu acho assim, 15 dias acho que já está... porque assim para quem
faz uma cesárea, eu pelo menos, a minha recuperação, até mesmo antes de 15
dias eu estava bem já. Então, acredito que 15 dias, para uma mulher que não
tenha ninguém perto, 15 dias de um apoio do pai já é, depois de 15 dias, a
recuperação dela já está, a não ser que ela tenha um problema maior, mas se foi
tudo bem, dentro da normalidade, para ela, um companheiro, marido, sei lá, ficar
15 dias acho que já está um tempo adequado sim.
Elaine: Ahamm... e, agora, só conversando um pouquinho mais sobre as suas
escolhas... então você tem pensado nessa possibilidade de, de repente, no meioperíodo em que você estiver trabalhando deixar o bebê com alguém junto com a
sua mãe...
Aléxia: Alguém de confiança lógico... porque, na verdade, assim, eu penso “ah, na
escola tem pessoas mais bem preparadas”, mas eu vou buscar alguém que tenha
uma certa preparação para ficar com eles meio-período, que tenha um pouco de
conhecimento pelo menos. Tudo bem, por isso que eu disse que minha mãe vai
estar perto.
Elaine: Sua mãe não trabalha fora atualmente?
Aléxia: Não, não porque ela já tem uma certa idade, tem 75 anos, então já é uma
senhora, então ela fica em casa mesmo, ela não precisa parar de trabalhar para
me ajudar entendeu. Então, é mais por esse lado que eu não queria colocar ele
305
em período integral. Eu não queria dispor desse outro meio-período que eu teria
para ficar com ele.
Elaine: Ahamm... E sobre essa decisão, você conversou com alguém?
Aléxia: Já, com todo mundo (risos).
Elaine: Conversou com seu marido a respeito...
Aléxia: Sim...
Elaine: Vocês pensaram em outras possibilidades ou não?
Aléxia: Ah, a gente pensou em tudo. “Ah, não seria melhor colocar na escola
particular?” Na escola particular existe o meio-período. Mas, assim, não tem
ninguém que eu conheço que trabalhe com o berçário. Tenho amigas que
trabalham em escolas particulares, mas é com as turminhas já mais velhas,
crianças de uma idade maior. Então, escola particular está meio fora de cogitação.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: A pública, só se, de repente, eu não conseguir ninguém que eu queira
dentro dos meus padrões assim, aí se não tiver opção aí eu coloco em período
integral, mas vai ser contra a minha vontade, vai ser em último caso, se eu não
tiver mesmo opção. Mas, foi bem pensado, a gente conversou bastante e é uma
coisa que eu não queria abrir mão desse meio-período, eu não queria abrir mão
de estar com ele.
Elaine: Ahamm... E teve também a contribuição de mais alguém, por exemplo, o
pediatra se manifestou, em algum momento, sobre a idade ideal para colocar em
escola ou não?
Aléxia: Não, na verdade, com o pediatra a gente não entrou com esse assunto
(risos).
Elaine: E em algum momento, vocês cogitaram de você, sei lá, parar de
trabalhar?
Aléxia: Parar de trabalhar eu não queria, porque eu adoro o que eu faço, eu gosto
do que eu faço, eu batalhei para estar onde eu estou, então assim, foi uma coisa
que eu fui atrás, estudei, me aperfeiçoei, estudei para um concurso, então assim,
fui atrás dessa vaga, e é uma coisa que eu adoro, então eu não queria abrir mão,
porque eu acho importante também você ter essa satisfação. Então, se eu pedisse
demissão, eu estaria abrindo mão, de uma certa forma vai, de uma conquista.
Embora que, não que não valeria à pena, eu não penso por esse lado, mas eu
acho que a gente tem que ter também a sua satisfação, embora que exista o fato,
tem uma lei que você pode se afastar...
306
Elaine: Sem vencimentos?
Aléxia: É, exatamente, por um tempo. Então assim, foi uma coisa que eu até
pensei, mas eu não sei, se caso, porque como a gente tem algumas coisas para
conquistar ainda, então eu não sei se eu faria isso agora, você entendeu. Então, é
mais mesmo assim, estou pensando ainda, porque eu não sei se eu vou colocar
ele em período integral, então dependendo se der esse afastamento pelo menos
esse ano, pra poder, porque aí no ano que vem, no começo do ano letivo ele já vai
estar com 1 ano e 4 meses praticamente, então já é mais ou menos um tempo em
que eu o colocaria mesmo na escola.
Elaine: Tá.
Aléxia: Então, pode até ser, mas assim, tá ali já, a gente pensou nessa
possibilidade de eu parar temporariamente [enfática] de trabalhar, não
definitivamente.
Elaine: Porque você tem essa opção de não perder o vínculo...
Aléxia: Exatamente, isso. Porque, na verdade, o que vai acontecer, ele vai um dia
para a escola, ele não vai ficar comigo com 6, 7, 8, então, quer dizer, por isso que
eu não quero parar de trabalhar, eu quero ter, sabe, estar trabalhando, acho que
faz bem. Eu sempre trabalhei [enfática], então, quer dizer, é difícil a gente se ver
em uma situação de parar de trabalhar, não sei como seria.
Elaine: Ahamm...
Aléxia:, Então eu tenho essa possibilidade, então se não for possível as outras,
então, talvez, eu entre com essa. É uma coisa que tem um tempo e depois eu
posso voltar e ele já vai estar com uma certa idade para ir para a escola, então
não vai ter problema. Eu já pensei nessa possibilidade, mas ainda está vai,
primeiro eu vou ver se eu consigo alguém, se eu não conseguir, deixar em período
integral só se eu realmente não puder ficar um período sem receber, mas se der,
se a gente perceber que dá, que eu não preciso, que dá para a gente ficar um
certo tempo sem o salário tudo, aí eu posso até solicitar essa licença que tem uma
lei, um número, não lembro qual.
Elaine: Ahamm... Estamos chegando ao final da entrevista... Então, você não
sofreu nenhuma pressão nesse sentido de, eventualmente, ter que parar de
trabalhar para ficar com seu bebê em tempo integral?
Aléxia: Não, ninguém me... assim...
Elaine: Ninguém cogitou...
307
Aléxia: Não, a gente colocou isso “ah, tá vamos tentar assim, caso dê a gente fica
dessa forma, senão a gente tenta de outra forma”, mas existe essa possibilidade
de eu parar temporariamente, não definitivamente, porque ele vai, eu quero que
ele vá para a escola [enfática]. Para ele, como eu disse, é importante. Vai chegar
um momento em que é importante para a criança entrar no escolar para aprender,
se socializar, o primeiro grupo social que ela faz parte é a família, o segundo é a
escola, então ela tem que fazer parte disso. Então, quer dizer, ele não vai ficar
comigo o resto da vida, ficar grudado comigo (risos), não digo mais nesse primeiro
momento em que ele é menor, eu tenho um meio-período.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E eu querer ficar com ele nesse meio-período.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então, na verdade, porque eu sempre quis ter filho, mas também cuidar
dele, não deixar para os outros cuidarem, entendeu. Minha intenção era essa,
quando eu tivesse um filho, eu queria poder cuidar dele também.
Elaine: E essa sua opção do momento, de contratar alguém para ficar com o bebê
e colocá-lo na creche mais para frente, você a recomendaria também para outros
pais e bebês?
Aléxia: Ah, olha, é difícil recomendar para os outros. Foi até o que eu estava
conversando com a [pessoa que comentou sobre a pesquisa e a entrevista e que
a indicou para participar] quando ela me ligou para falar de você.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Até ela falou “e aí Aléxia, você já pensou o que vai fazer, como vai fazer
[em relação ao bebê quando tiver que voltar a trabalhar], de que jeito”, aí eu falei
para ela “ah, estou com dúvidas, não sei, estou pensando em colocar alguém e
tal”, ela virou e falou assim “ah, quando aconteceu comigo eu também não quis
colocar ele na escolinha logo a princípio, também acabei colocando alguém para
ficar com ele em casa”, ela falou “realmente, é uma situação difícil para a mãe,
para a mulher decidir”. Quem está passando por essa situação é que acho que
tem que tomar a decisão. É difícil você aconselhar alguém a tomar essa decisão
porque assim, antes de ter filho, eu pensava de uma outra forma “assim, deixa ele
na escola já que você precisa trabalhar, então deixa ele na escola”, hoje, eu já
vejo que é uma situação um pouco mais delicada para a mulher, para a mãe, em
olhar assim e deixar ele o dia inteiro, “ah, vou ficar longe dele o dia inteiro”, sabe
assim, é uma outra visão que eu tenho hoje por ser mãe. Assim, lógico que é uma
questão pessoal isso, difícil você aconselhar isso, é a mesma coisa que você
aconselhar “olha, não casa com fulano”, é quem está namorando com aquele
fulano que vai saber se é bom ou não é (risos), então é difícil falar “não faça isso
ou faça aquilo”, é complicado.
308
Elaine: E o que mais pesou, nessa sua decisão, foi a idade do bebê ou a questão
do contexto familiar, das suas possibilidades com relação ao trabalho em meioperíodo e até de eventualmente poder usufruir de uma licença maior?
Aléxia: O que mais está pesando, vai com 5 ou 6 meses para você deixar o bebê
na escola se você tiver necessidade, a gente tem que deixar, não tem como, tem
mãe que não tem muita opção, precisa trabalhar, tem que deixar e ponto. No meu
caso, eu fico pensando, eu falei “ah, eu queria ficar um pouquinho mais com ele,
para poder cuidar dele, pelo menos um período”. E como eu tenho essa opção do
meio-período, eu falei “ah, então, eu consigo cuidar dele meio-período, meioperíodo ele pode até ir para a escolinha porque aí ele vai conseguir se
desenvolver e tudo mais”, só que como aqui, infelizmente, não tem o meio-período
da pública, como eu te falei. Se tivesse, eu colocaria, sem problemas porque para
ele seria bom porque assim já iria com quase 7 meses se ele fosse, ele iria com
quase 7 meses, então eu confio na escola pública aqui, já trabalhei, então quer
dizer, eu confio nas pessoas que trabalham, no trabalho que é feito, então tem
todo um controle. Na pública, eu até colocaria sim, caso tivesse meio-período, se
fosse meio-período, eu colocaria. É que como não tem, eu teria que opinar.
Elaine: A questão para você mais importante é a questão do meio-período mais
do que propriamente a idade dele de ingresso...
Aléxia: Exatamente, isso, porque para a criança eu vejo que é importante a
socialização. Principalmente, porque ele é o primeiro e assim, os meus sobrinhos
são mais velhos, na parte da família do meu marido também, então, quer dizer
assim, ele vai ser muito paparicado. E isso para a criança também, depois quando
ela entra na idade escolar, o dividir gera um certo conflito. Porque antes, tudo é
para ele e ter que dividir já é um pouco complicado. Então, quer dizer, ele já ia
começar a entrar nesse meio, para ele ia ser mais fácil do que mais para a frente.
Eu digo assim, enquanto mãe, coração de mãe, fala que eu deveria colocar um
pouco mais para frente, entendeu, mas enquanto profissional, por conhecer, por
saber o quanto é importante, com a idade que ele estaria assim, eu acho sim que
seria importante para o desenvolvimento do bebê porque, às vezes, em casa, se
você não tem um conhecimento, você não consegue estimular ele de uma
maneira correta e a gente pode estimular os bebês, até mesmo, para o
desenvolvimento psicomotor, então é importante. Só que para mim, o problema é
que eu não quero assim período integral, e para ir para uma escola particular
meio-período, que é o caso, que eu teria a possibilidade, foi aquilo que eu te
coloquei, eu não colocaria por não conhecer alguém que trabalhe e até mesmo
por ter um certo conhecimento, às vezes, do que é feito, que, às vezes, não tem
pessoas preparadas, constantemente acompanhadas assim por uma, como existe
na Prefeitura, as auxiliares, elas não precisam ser formadas em magistério, mas
existem os cursos de aperfeiçoamento para você se adequar àquela função,
entendeu. Então, de uma certa forma, é por isso que eu fico só nessa dúvida, de
não colocar por causa do meio-período. Até eu, outro dia, estava conversando,
“ah, se tivesse meio-período seria o ideal” (risos).
309
Elaine: E não existe mesmo, em nenhuma EMI [Escola Municipal Integrada]?
Aléxia: Não, é só mesmo período integral. Só tem meio-período na EMEI [Escola
Municipal de Educação Infantil], mas a EMEI não tem para os bebês.
Elaine: Sim.
Aléxia: É que como teve uma mudança agora, antes tinha até o mini-grupo, mas
mudou as terminologias e tal, não sei se é acima dos 3, eu sei que mudou agora,
eu não estou muito certa agora, mas parece que acima dos 3 anos, a criança vai
para uma EMEI que é meio-período, mas abaixo disso [dessa idade] é só período
integral.
Elaine: E aqui em São Caetano não se pergunta sobre a renda da família. A renda
não é um critério para a pessoa poder concorrer a uma vaga...
Aléxia: Não, não porque, na verdade, é um direito de todos independente de ser
rico ou ser pobre. Tem que morar em São Caetano [enfática]; é o requisito
principal morar em São Caetano, tanto é que eles pedem comprovante de
endereço, essas coisas, mas de renda não.
Elaine: E sobre essa sua opção de deixar o bebê meio-período com a sua mãe e
mais uma pessoa, alguém comentou ou mesmo a sua mãe, foi algo que ela
sugeriu?
Aléxia: Não, não, na verdade, isso veio da minha cabeça, porque como eu quero
cuidar dele meio-período, por tentar pensar uma saída para ele ficar meio-período.
Porque ou seria pôr alguém em casa ou escolher uma escola particular e aí, entra
naquilo que a gente já conversou.
Elaine: Sim. E a sua mãe, o que acha ou o que achou dessa solução, dessa
escolha?
Aléxia: É, na verdade, a minha mãe, como eu vou dizer, ela não se intromete,
vamos dizer assim, nas minhas decisões. Ela deixa eu tomar a decisão sozinha,
só se eu peço conselho, mas mesmo assim, ela fala “Aléxia, é melhor você chegar
na decisão final porque se caso você se arrepender, você não vai poder, de
repente, vir falar que foi influenciada por alguém” (risos), então minha mãe fala
“pensa bem, escolha o caminho que você achar que seja o melhor para você, que
você acha que vai ser o melhor”.
Elaine: Ahamm... Não foi o caso, então, ela não se candidatou a ficar com o seu
filho... é uma coisa que, às vezes, acontece em algumas famílias da mãe ou da
sogra pedir para ficar, se oferecer...
310
Aléxia: Ahamm... não, não, ela não pediu, nada. O que eu tomar de decisão ela
falou que vai aceitar. Primeiro porque eu não vou deixar nas costas dela, de eu
falar “ah, ela vai cuidar”, primeiro porque eu não acho justo, porque ela já cuidou
da gente, dos seus filhos, então, na verdade, é mais ela estar próxima, para ela
estar com essa pessoa mesmo, porque queira ou não, a gente quer ter uma
pessoa de confiança perto. Então, ela ficaria mais assim só acompanhando
mesmo o dia-a-dia dele, enquanto eu não estou, só isso, mas não para ela ter o
trabalho, seria mesmo só para ela estar supervisionando, vamos dizer assim.
Embora que será tão pouco tempo também que ele [bebê] vai ficar com a pessoa
que... eu trabalho das 13h às 17h30, vai que eu saia 12h30 de casa e chegue às
18h, então não é um período muito longo para ele ficar com uma pessoa. Ele vai
mesmo mamar, dormir um pouquinho, porque o banho eu vou querer dar. Eu acho
importante esse contato com os pais para a criança, esse vínculo ser mantido.
Então, a questão da refeição também, realmente vai ser o cuidado de dar mamar,
trocar fralda, se uma necessidade houver de ter que dar um banho, aí sim, mas é
mais isso mesmo, então nem é tanta coisa assim trabalhosa sabe. Brincar com ele
o tempo em que ele estiver acordado, só isso.
Elaine: Ahamm... Eu me referi sempre, ao longo da entrevista, ao termo creche...
em São Caetano se usa o termo EMI, Escola Municipal Integrada, né... Você
prefere usar esse termo escola, você considera mais como escola?
Aléxia: Mais escola do que uma creche? Sim, porque assim, como eu te falei,
quando a gente tem um conhecimento e outra, eu trabalhei, então a gente
extinguiu a palavra creche. A creche, antigamente, era o cuidar, hoje não, já tem
tudo aquilo que eu já falei. Então, a gente nunca usou essa terminologia quando
eu trabalhava e acabou incorporando. Então, eu não falo “vou botar ele na
creche”, não, creche não, falo “vou botar ele na escola ou na escolinha”, às vezes,
a gente também usa esse termo para dizer que são os pequenininhos, como se
escola fosse para os grandes e escolinha para os pequenos. Mas, é uma escola
normal, de aprender, de fazer, de conhecer.
Elaine: Ahamm... Bom, agora, chegamos ao final. Eu queria te perguntar o que
você achou da entrevista, se você quer acrescentar algo ou fazer algum
comentário... o que você achou do tema ou das perguntas?
Aléxia: Ah, assim, o tema é para mim importante agora, porque enquanto mãe, foi
como eu te falei, a gente tem uma visão diferente de quando a gente não é mãe.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: E, assim, tem coisas que antes eu pensava de uma maneira, hoje eu
penso de outra. Por isso que para tomar uma decisão, acho que só quem é a mãe
para tomar, para saber o que vai ser melhor. Que não adianta você dar pitaco, é
uma decisão bem difícil, então a mãe é quem tem que escolher. A mãe, eu digo
311
assim, a mãe e o pai, né. Mas, não uma terceira pessoa. Vai ser difícil alguém
poder tomar essa decisão por você.
Elaine: Ahamm...
Aléxia: Então, na verdade, é isso, o tema assim, se enquadrou na realidade que
eu estou passando hoje e agora assim o que eu fico mesmo pensando é bem que
poderia existir uma escola pública de meio-período para os bebês (risos).
Elaine: (risos). Ahamm... Essa é uma reivindicação sua para São Caetano...
Aléxia: É, de repente, quem sabe (risos). Mas, falam que a criança o dia inteiro
aprende mais, até por isso que as escolas estão se transformando em período
integral, mas eu acho que deveria ser uma opção, não uma obrigação você
colocar. Acho assim que tem que ter o meio-período para você aprender o básico
e o período integral para quem realmente precisa, que queira, de repente, porque,
às vezes, a mãe quer ficar com seu filho meio-período, ela não quer deixar o dia
inteiro na escola para só vê-lo à noite, quer ter esse contato maior com ele, então
eu acho que deveria ser uma escolha, ter para todas as opções assim. Ter o meioperíodo, ter o período integral, como tem a particular que tem período integral,
como tem o meio-período.
Elaine: Ahamm... E você acha que ficou faltando abordar algum assunto, você
acrescentaria alguma pergunta?
Aléxia: Ah, eu acho que a gente falou sobre tanta coisa, de qualidade de ensino,
de confiança, de decisão do que fazer, se deixa ou senão deixa, qual a idade. É
aquilo que eu já te falei, enquanto profissional da área, a gente tem uma outra
visão, a gente pensando no lado profissional, mas você pensando como mãe,
você pensa um pouco diferente. Hoje, eu penso, hoje eu tenho esses dois lados,
antes eu só tinha o lado profissional, eu não era mãe.
Elaine: Hoje você tem os dois...
Aléxia: Exatamente. E eu sei o quanto é difícil, às vezes, você ficar longe, porque
assim, quando eu trabalhava na escola de período integral em que as mães
deixavam os bebês, eu assim tinha muito dó porque elas saiam chorando, isso
para a criança, a criança sente isso, por isso para a criança criar esse vínculo é
mais sofrido, vamos dizer assim, do que para aquela mãe que deixa com
confiança e sai, porque a criança sente essa... não é dúvida da mãe, não é uma
incerteza, mas sim uma, como eu posso dizer, às vezes, a mãe se sente culpada
por deixá-lo, então não passa aquela confiança para a criança. Por isso que eu
não quero deixá-lo período integral, porque eu vou me sentir meio que culpada
porque eu sei que eu posso ficar com ele meio-período, você entendeu. Então,
para ele, eu não vou estar lá falando para ele “pode ficar, mamãe precisa trabalhar
o dia inteiro”, então eu sei que eu vou deixar ele, se eu tiver que deixar em período
integral, vamos dizer assim, eu vou deixar com o coração partido. Eu sei que para
312
a criança isso, ele consegue sentir também e para a adaptação dele é muito pior
do que para aquela que a mãe tenha certeza “não, você vai ficar, mamãe tem que
trabalhar”. Eu via isso quando eu trabalhava, a mãe que saía mais chorosa, mais
assim com o coração apertado, a criança tinha dificuldade de criar um vínculo com
a escola porque ela sentia isso. Mais do que aquela mãe que deixava lá a criança
com aquela confiança, com aquela certeza, porque realmente precisava e a
criança criava um vínculo maior, aceitava melhor a escola. Então, é complicado
hoje em dia, eu tenho essas duas visões hoje, embora que antes, por conviver
com as mães, porque a gente sempre conversou muito, elas falavam “ai, porque
eu me sinto tão culpada em deixar, sabe, eu queria poder ficar mais”, então hoje,
eu estou nessa situação. Hoje, eu estou passando pelo que elas passaram, assim
entre aspas (risos) porque eu ainda não coloquei ele na escola, mas penso já
como elas estavam pensando o quanto é difícil realmente você ter que deixar, às
vezes, porque realmente você precisa trabalhar [enfática]. Tem umas [mães] que
deixam tranquilamente, eu acho que é de pessoa para pessoa, eu achava que eu
ia deixar mais tranqüilo, mas eu acho que eu não vou conseguir deixar tão
tranqüilo não (risos). Assim, queria ter mais essa tranqüilidade por causa dele,
mas acho que não vou conseguir ser tão tranqüila não.
Elaine: Ahamm... mas, mais em relação ao integral, porque para o meio-período
você estaria mais tranqüila...
Aléxia: Isso, exatamente, porque eu sei que aquele meio-período eu estaria
trabalhando, não estaria vai, não fazendo nada. Eu estaria bem comigo mesma,
então sabendo que eu iria... que eu estava trabalhando e que também era para o
bem dele, para o desenvolvimento dele e eu teria um tempo também com ele. Eu
não estaria deixando só nas mãos dos outros cuidarem. Porque, na verdade, eu
sempre quis ter um filho, mas para eu cuidar dele, poder dar banho, toda a
comida, para eu poder presenciar coisas do dia-a-dia que só quem está junto é
que presencia. Muitas vezes, na reunião, as mães falavam “ai, vocês aproveitam
os bebês muito mais que a gente” e é verdade, porque, às vezes, dá o primeiro
passinho e é na escola, fala a primeira palavra na escola, então, quer dizer, muitas
conquistas da criança acontecem na escola. Os pais, muitas vezes, não vêem
porque o bebê está cansado, chega em casa, fica pouco tempo acordado, então,
quer dizer, não tem muita troca com a família. Eu vejo isso pelo meu marido. Ele
sai para trabalhar de manhã, ele [bebê] está dormindo, ele volta ou o bebê está
dormindo ou ele acorda para mamar de novo, então tem o período da noite e ele
fala “ai, é tão pouco tempo que eu fico com ele [bebê]”, então, quer dizer, tem
esse lado de não estar tanto tempo, então as mães falam isso “ai, vocês
conhecem muito mais os filhos da gente do que a gente mesmo, vocês passam
muito mais tempo com eles do que a gente” e é verdade. Então, na verdade, eu
não queria passar tanto tempo longe dele. O problema é mesmo o período integral
(risos).
Elaine: Ahamm... (risos), ok, então eu queria agora que você pensasse um nome
para você, um nome para ele [bebê] para garantirmos o anonimato...
313
Aléxia: Para ele? Vou colocar Juliano e para mim pode colocar Aléxia.
Elaine: Ok, então. Depois eu posso te entregar então a transcrição da entrevista
como eu havia comentado com você...
Aléxia: Não sei se eu fui clara.
Elaine: Foi ótimo, imagina. Foi muito bom.
Aléxia: Não sei se atingiu o seu objetivo...
Elaine: Nossa, agradeço imensamente o tempo e a tua disponibilidade. No final, a
entrevista demorou muito mais.
Aléxia: Imagina, é que eu falo bastante também (risos).
Elaine: Muito obrigada mesmo!
314
Transcrição quarta entrevista
Entrevistada: Malu, 40 anos, administradora de empresas, trabalha em uma
universidade, mãe de Anjinho, 3 meses e meio.
Elaine: Eu gostaria, primeiramente de agradecer a sua participação e
disponibilidade... Vamos começar por uma parte mais genérica... pensando em um
contexto mais geral, você acha que a Sociedade ou o Estado têm algum dever
para com os bebês, têm algum tipo de responsabilidade?
Malu: Sim.
Elaine: De quem seria exatamente essa responsabilidade, em que área, em que
aspecto?
Malu: Na área da educação tem a parcela de responsabilidade sim, afinal de
contas nós dependemos dos educadores. Tudo bem que a educação começa em
casa, que vem de berço, que a responsabilidade é dos pais em primeiro lugar,
mas também o Estado tem grande responsabilidade sim. Eu acredito que em
alguns municípios, por exemplo, São Caetano a gente vê que isso realmente é
feito. Tem muitas opções aí de escolas, creches.
Elaine: Ahamm...
Malu: Já nos outros municípios que são maiores, a gente vê que tem uma
deficiência aí, que têm muito menos escolas do que em um município como São
Caetano que é bem menor.
Elaine: Então, não é uma responsabilidade só das famílias...
Malu: Não.
Elaine: As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988,
com a Constituição, mas somente 18,1% das crianças nessa faixa etária
freqüentam creche atualmente, enquanto quase 80% das crianças de 4 e 5 anos
já estão na pré-escola. O que você pensa sobre isso?
Malu: Eu acho... eu não concordo, acho que precisaria acreditar, confiar mais
nessas escolas municipais, nessas creches, deixar os bebês, porque nós estamos
com profissionais em pedagogia. Eu prefiro mil vezes deixar um, o meu bebê, em
uma escola municipal com educadores, pedagogos do que deixar em casa com
uma babá, correr o risco dela judiar da criança, maltratar, bater na criança, você
vê violência doméstica, então esse índice realmente é muito pouco, assim o
percentual é muito baixo e precisa aumentar isso, as pessoas precisam confiar
315
mais nessas escolas municipais porque são muito boas, inclusive, conheço
pessoas de classe média alta que deixam crianças em creches.
Elaine: Aqui em São Caetano?
Malu: Conheço, é.
Elaine: Deixam os bebês?
Malu: É, principalmente nessa escola aqui [na frente da casa da entrevistada há
uma EMI, escola municipal integrada e também uma EMEI, escola municipal
infantil], eu vejo as pessoas parando aqui com carrões, a gente sabe que são
pessoas bem informadas e de classe média alta que confiam e deixam suas
crianças [enfática]. Então eu acho que a gente precisa confiar mais nessas
escolas porque são escolas muito boas, em São Caetano né [enfática], eu falo por
São Caetano, não vou responder, por exemplo, por Santo André, Mauá, São
Paulo, porque já não conheço.
Elaine: Ahamm...
Malu: Mas, por São Caetano, realmente vale à pena.
Elaine: Você acha que algumas famílias acabam optando mais em outras cidades
por outros tipos de cuidado do tipo deixar com babá ou com empregada, ao invés
de deixar na creche, por falta de confiança ou você acha que tem mais algum
fator?
Malu: Talvez por comodidade acabam que deixando com empregada, com babá,
com “vó” [avó] e não é bom porque a criança não vai interagir com outras crianças,
não vai ter aquela integração de arrumar amiguinhos, amiguinhas, fica muito
presa, fica muito reprimida dentro de casa, não sai, não vai passear, porque a
escola já tem todo aquele programa de interatividade, jogos pedagógicos, lúdicos
que envolve a criança, acaba que com a criança se tornando mais assim
extrovertida, enfim, está em contato com pessoas, mesmo que ela não esteja
passeando no parque, na rua, mas ela está em contato com pessoas, enquanto
que dentro de casa acho que fica uma criança muito parada e “vó” [avó] deixa
fazer tudo o que quer [enfática]. Babá tem aquele problema que pode judiar da
criança, maltratar, também que não é confiável e já na escola tem toda uma
disciplina, tem horários para seguir, são profissionais que estão cuidando, então é
outra postura.
Elaine: E isso você pensa também para o bebê a partir de qual idade, mesmo
com menos de 1 ano?
Malu: Penso. Quando eu voltar a trabalhar, por exemplo, o Anjinho, vai estar com
7 meses e 20 dias. Eu acredito que não vai ter problema nenhum. Vou deixar na
escola municipal, estou pensando até em deixar nessa, a que fica aqui em frente,
316
porque eu vou voltar a trabalhar, afinal de contas, falta muito pouco tempo para eu
me aposentar também. Não tem sentido eu parar de trabalhar.
Elaine: Ahamm... E porque você acha que os adultos, de forma geral, não se
preocupam ou não se mobilizam por essa questão dos direitos dos bebês à
educação ou também pelas políticas de creche?
Malu: Ah, no geral, o brasileiro é muito sossegado, muito acomodado, não é
revolucionário de cobrar os seus direitos, de brigar, de correr atrás dos seus
direitos, de exigir os seus direitos, porque nós temos deveres, nós pagamos
impostos, mas também nós temos direitos, só que a maioria acaba se
acomodando e não exige, tipo, tudo “deixa para lá”, acaba se acomodando mesmo
e sobre esse tema também, a gente sabe que muita coisa não rende, não
funciona, não vira, acabam não reivindicando seus direitos por comodidade, às
vezes, até por medo também, apesar que a gente vive entre aspas uma
“democracia” assim, tem o direito de se expressar, de expressão e tal, mas, às
vezes, acaba que as pessoas ficam com medo, às vezes, também são pessoas
que não têm informação, são pessoas muito simples. Então, acaba não dando
muito certo. Agora, é complicado porque essa lei, tipo 4 meses, a licença
maternidade, o bebê é muito novinho, o máximo que a mãe conseguia era mais 1
mês de férias, aí são 5 meses, até que mais ou menos, às vezes o bebê ainda é
muito novinho e a mãe fica com dó, aí já vem a parte de sentimento, envolve o
sentimento “ah, porque é muito novo, não sei o que”. Agora, parece que foi
aprovada a lei que é obrigatório os 6 meses, porque antes era facultativo. Como
eu trabalho em autarquia eu já consegui os 6 meses no ano passado.
Elaine: Então você já está usufruindo a de 6 meses...
Malu: Já, a de 6 meses. Mas, agora parece, eu não tenho muita certeza, me
falaram aí que agora já é lei, obrigatório a partir de março, não sei.
Elaine: É lei, mas é facultativo por enquanto. A empresa e a mãe é que terão que
negociar ou verificar se essa opção é possível.
Malu: Então, é, isso aí é que é complicado, porque 6 meses já é um tempo bom
porque a criança já está praticamente vai, mais independente, porque 4 meses é
muito novinho, muito dependente. Por isso que talvez as mães sentem muito, a
criança está muito apegada. Acaba que tendo esse problema aí de não querer
deixar em creche.
Elaine: Você acha, então, que agora, com 6 meses, ficou um tempo mais
adequado para a licença maternidade...
Malu: Eu acho [enfática] que vai aumentar esse número aí, de 18% né, eu acho
que vai aumentar esse índice aí das pessoas, das mães de deixar as crianças.
Porque “vó” [avó], não é todo mundo que tem “vó” [avó].
317
Elaine: Você acha que, agora, com essa licença maternidade maior as mães já
vão poder... com a criança um pouco maior, talvez, elas passem a ter mais
interesse em colocar na creche?
Malu: Eu creio que sim, que vai melhorar para todos aí.
Elaine: Então, para você qual seria a idade que realmente você considera ideal
para um bebê começar a freqüentar a creche?
Malu: É como eu te falei, acredito que com 6 meses já seja o ideal...
Elaine: Logo que terminasse a licença maternidade de 6 meses...
Malu: Isso, ele já poderia começar.
Elaine: E como você acha que os adultos, incluindo aí os políticos e a Sociedade
em geral, poderiam se mobilizar então para procurar atender aos direitos dos
bebês e agir mais ativamente em relação às políticas de creche?
Malu: Ah, ter mais boa vontade para informar as pessoas porque têm muito gente
desinformada e a gente precisa ficar correndo atrás de informação e funcionário
público tem aquela fama de que não atende bem, que atende mal e é complicado
porque você pergunta para uma pessoa, ela diz “ah, eu não sei”, fica uma peteca,
um jogando para o outro, aí passa para o outro ele também fala “ah, não sei”,
agora em São Caetano é que tem o atende-fácil, então eles acabam jogando as
inscrições para lá, a Diretoria de Educação joga para lá as inscrições, aí tem uma
equipe que faz, é organizado até certo ponto, só que antes dessa organização, eu
acho que eles deveriam se envolver mais de, enfim, de informar a população.
Elaine: Ahamm…
Malu: Porque muita coisa você fica sabendo por outra pessoa e pelo órgão
mesmo, é como eu te falei, fica um jogando para o outro, ninguém resolve nada.
Por exemplo, eu estou esperando chegar a carta para eu poder fazer a matrícula.
A gente já vai entrar em fevereiro e cadê essa carta? E eu estou sabendo que a
reunião, estou sabendo por outras pessoas, vai ser no início de fevereiro aqui na
escola e eu não sei mesmo nem se vai ser nessa escola ou se vai ser em outra
escola que eu vou fazer a matrícula. Então, acho que tem que ter mais assim boa
vontade por parte dessas pessoas, dos políticos, da sociedade em geral.
Elaine: Então, você já chegou a fazer a inscrição para concorrer a uma vaga...
Malu: Fiz. Ele nasceu em outubro e eu fiz a inscrição em dezembro no final do
ano. Já está tudo aprovado, a assistente social já veio aqui visitar porque tem, por
conta de muita gente que dá endereço falso, aí todo mundo paga o pato. Aí ela
veio aqui e confirmou que eu realmente moro aqui. É um problema.
318
Elaine: Eles querem mesmo que a pessoa more em São Caetano...
Malu: Aí, ela falou depois vêm mais duas assistentes sociais, não sou eu que
venho, fazer mais duas visitas. Eu falei “tá, bom”. Aí, nada de vir, nada de vir, aí
eu liguei na Diretoria de Educação e me informaram que está tudo certo que era
para eu aguardar essa carta que ia chegar para fazer a matrícula depois do dia 20.
Hoje já é dia 27 e até agora eu não recebi nada.
Elaine: E essa carta diria que você poderia fazer a matrícula...
Malu: E em qual escola eu poderia fazer a matrícula porque eu dei três opções de
escola: aqui, a X e a Z [outras duas escolas mais próximas do trabalho da
entrevistada e que ficam em outro bairro].
Elaine: Ahamm...
Malu: Mas, é lógico que eu prefiro aqui, até se for em outra eu vou pedir
transferência. Estou esperando a carta e aí eu fui perguntar aqui na escola porque
eu vi que tinha gente e um senhor respondeu que no dia 5 de fevereiro vai ter uma
reunião com a diretora e estou esperando, daqui a pouco vou ligar lá de novo e
vou procurar saber, porque eu preciso fazer a matrícula, vamos entrar em
fevereiro. Tudo bem que ele não vai entrar agora. Ele vai entrar lá para o final de
maio, acho que, tipo uma semana antes de eu voltar a trabalhar, eu já posso
colocá-lo para ver se ele vai se adaptando. Porque eu vou ter que insistir, não tem
como parar de trabalhar de jeito nenhum, então vou ter que correr atrás.
Elaine: E você já sabe se você pode matricular mesmo que ele comece a
freqüentar só mais para a frente, daqui a alguns meses?
Malu: Então, isso eu também não sei, porque as pessoas não informam. Mas,
vamos ver o que eles vão me falar, estou esperando.
Elaine: E essas três que você deu como opção elas têm atendimento para os
bebês...
Malu: É, são creches... são top [enfática] né. São duas no outro bairro que são
excelentes e essa aqui também. Eu até conheço pessoas que têm crianças ali,
reformaram toda a escola, a estrutura é muito boa, até 4 anos é aqui na EMI
[escola municipal integrada] e depois vai para a outra do lado que tem o ensino
infantil [a EMEI, escola municipal de educação infantil].
Elaine: E você, particularmente, já se preocupava com esse assunto ou passou a
se preocupar com a chegada do seu bebê, se mobiliza de alguma forma pela
questão da creche ou dos direitos dos bebês à educação?
Malu: Sim, eu já pensava nisso, me mobilizava. É... eu estou com 40 anos, é
evidente que eu até gostaria de ter tido filho com uns 30, até os 35, ter tido filho
319
antes, mas foi até bom porque eu amadureci bastante e tenho essa preocupação
porque essa questão é importante, porque pode acontecer também da criança não
se adaptar, por outro lado também, eu não posso parar de trabalhar, então vou ter
que dar um jeito de conciliar, de ver, de insistir e espero que dê certo (risos).
Elaine: Ahamm... Agora, então, vamos conversar um pouquinho sobre bebê...
Você poderia descrever um bebê para mim? O que vem à cabeça quando a gente
fala bebê? O que é um bebê para você?
Malu: Bebê para mim é uma benção de Deus, porque eu sou evangélica, sou
presbiteriana. Sou praticante... sou membro... porque a criança, ela pertence ao
reino dos céus, ela é um cordeirinho de Deus, então acredito que por ser um
anjinho, que nada de mal vai acontecer com a criança. Então, para mim, bebê é
uma figura especial assim. Realmente, é, tem que ter respeito por um bebê, assim
como por pessoas também idosas, porque ele é muito dependente o bebê, ele não
entende nada, depende muito da gente, então seria covardia não respeitar um
bebê, porque o bebê merece todo o respeito do mundo. Então, para mim, nossa,
está acima de tudo assim. Claro, que Deus é acima de tudo, mas abaixo de Deus,
eu acho que um bebê não tem maldade nenhuma. A gente... o que eu puder fazer
por ele, o que eu não tive eu vou fazer por ele, porque eu acho que vale à pena.
Elaine: Ahamm… você falou um pouquinho assim que ele é dependente, que ele
não tem maldade alguma, o que mais ajuda a descrever um bebê?
Malu: O que mais? Ah, é que ele é especial. E assim, eu desejei muito, era meu
sonho ter um bebê. É... porque o primeiro passo, a primeira benção que eu recebi
foi o casamento, porque eu falei “eu não vou ter um bebê aí, sem pai, de qualquer
jeito”. Para mim, é muito importante a figura paterna porque eu também fui criada
sem pai, então eu sofri por causa disso, fiquei meio revoltada e tal. E já com o pai
presente, então falei “ele [bebê] vai ser feliz, ele vai ter ‘vó’ [avó], vai ter ‘vô’ [avô]”,
tem duas “vós” [avós] e um “vô” [avô], e eu não tive porque eles já tinham morrido.
Elaine: Ahamm...
Malu: Então, ele foi muito desejado, muito esperado, planejado e assim, ele para
mim, é uma benção de Deus mesmo. Eu até falo “ele”, mas meu marido também
são duas benções que eu recebi na minha vida, razão de viver mesmo.
Elaine: Ahamm... E existe alguma diferença para você entre um bebê e uma
criança pequena?
Malu: Se existe diferença?
Elaine: É, se tem alguma coisa que diferencie um bebê de uma criança pequena...
Malu: Sim, porque, como eu te falei, um bebê é mais dependente. A criança
pequena já está mais independente, ela, por exemplo, já está andando, ela já
320
consegue estar falando, então ela já consegue se expor, ela já tem uma
personalidade formada, porque quando fala você consegue entender, agora o
bebezinho ele não fala, você não sabe se ele está chorando porque ele está com
fome, se está com cólica, se ele quer que você fique em pé (risos), se ele quer
dormir, tem hora que confunde [enfática], você não consegue, você tenta de todas
as maneiras para descobrir realmente o que ele quer, porque, de repente, o choro
não está expressando realmente o que ele está sentindo ou o que ele quer
realmente naquele momento. Naquele momento, ele pode estar querendo dormir
ou no outro momento ele está com fome, então, tem muita diferença entre um
bebezinho totalmente indefeso, dependente, de uma criança que já está mais
independente.
Elaine: Bebê seria mais ou menos até que idade para você? A partir de quando
você já diria que não é mais um bebê, que é uma criança pequena?
Malu: Ah, eu acho que até 1 ano mais ou menos. Quando começa a falar e a
andar eu acho que ele já consegue entender melhor.
Elaine: Como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados/educados?
Qual seria a melhor maneira de educá-los? Ou do que um bebê necessita?
Malu: Amor, carinho, afeto, muito diálogo, muita conversa, porque espancar
criança, violência, não funciona. Isso é muito arcaico. Hoje, em dia nem pode
porque você pode ser denunciado por isso.
Elaine: Ahamm...
Malu: Acho que não tem nem cabimento. Acho que diálogo, uma boa conversa,
acredito no castigo também, você tirar alguma coisa que a criança gosta muito,
então, acho que tem que ter, lógico, disciplina também porque você não vai deixar
a criança fazer o que ela quer. A importância do não, de mostrar para ela os
valores e eu acredito que a criança precisa, acima de tudo, de respeito. Ela
precisa ser respeitada pelos pais e vice-versa, assim, a criança também vai
respeitar os pais.
Elaine: Qual seria para você a rotina de um bebê em casa? E como você acha
que é ou seria a rotina de um bebê na creche?
Malu: Em casa, a gente não tem horário para nada (risos). O meu filho não tem
horário para nada, tem dia que faz uma coisa, tem dia que faz outra (risos), então
acaba virando uma bagunça, você não tem aquela rotina. Às vezes, também, você
tem que sair, ir ao pediatra, levar para dar as vacinas e não sei mais o quê, e
acaba assim que você não tem muito horário fixo, não tem muita disciplina. Já, em
uma creche, tem horários, tem disciplina, mesmo, por exemplo, se eu precisar
levar ao pediatra, levar para tomar vacina, vou procurar ir antes da creche, vou
bem cedinho, aí ele já vai para lá. Então já tem toda aquela rotina a seguir, então
não é bagunçado, é mais organizado.
321
Elaine: E você já tinha tido alguma experiência anterior com bebês, já tinha
ajudado a cuidar de algum? Como você aprendeu sobre os cuidados para com um
bebê? Fez algum curso ou leu alguma coisa?
Malu: Eu tinha experiência assim muito pouco com bebês, de pôr a mão na massa
mesmo muito pouco até porque eu fui a filha mais nova, não tive irmão para
cuidar.
Elaine: Ahamm...
Malu: Eu fiz um curso no hospital XYZ [hospital localizado em outra cidade do
ABC paulista] que foi onde ele nasceu. O curso me ajudou muito, ganhei uma
coleção de livrinhos e isso ajuda. É claro que é muita teoria. Então, você só vai
mesmo aprender na prática. No começo, eu fiquei meio atrapalhada porque as
pessoas dão palpites e aí você tem que ver o que dá para aproveitar, o que não
dá. E a gente vai, a gente erra, às vezes, a gente fica com medo, com receio
“poxa, será que eu estou fazendo certo, será que isso não está errado? Será que
não vai prejudicar o bebê?”, a gente tem toda aquela preocupação, fica
apreensiva, mas é pondo a mão na massa que vai lidando, vai aprendendo, vai
descobrindo, porque é algo novo, eu até falei “ah, eu não queria deixar um filho,
mas esse outro filho valeu muito à pena”, então eu tive que deixar um filho que era
o trabalho para assumir um filho que requer muita responsabilidade, eu acho que
é responsabilidade para a vida toda, e eu falei “eu vou ter que me dedicar, não é
fácil”, você acorda de madrugada, não dorme, você fica um pouco como um zumbi
(risos), mas acho que é gratificante porque é como aquele ditado “é sofrer no
paraíso”. Vale à pena passar por essa experiência porque é única. Depois que a
gente é mãe, a gente vive em função do filho, a responsabilidade aumenta muito,
enfim.
Elaine: Você lembra de algum livro que tenha te marcado mais nesse caminho aí
de aprendizado dos cuidados para com o bebê? Ou mesmo no curso ou na
maternidade você recebeu a ajuda de alguém que te passou alguma informação
que você considerou bastante importante?
Malu: Olha, no hospital, equipe de enfermagem, pediatria, pessoal do berçário
auxiliou, ensinou a trocar fralda, falaram do banho, passaram um filme, então são
coisas assim que ajudam. É claro que tem outras também que não tem assim
muito sentido, muito cabimento, não funcionam muito na prática mesmo.
Elaine: Por exemplo? Você lembra de alguma?
Malu: Ah, por exemplo, elas falavam que a gente tem que limpar dentro da boca
da criança 4 vezes ao dia. Você acha que você vai conseguir limpar 4 vezes ao
dia? Para que? Você limpando uma ou duas já está bom, já é o suficiente. Criança
não tem dente ainda, é só leite materno. Então, tem coisa que não tem muito
cabimento, muito sentido. É só mesmo na prática que a gente vai vendo o que dá
322
para fazer e o que não dá. Imagina, por exemplo, uma pessoa que tem gêmeos,
trigêmeos. Você acha que ela vai ter condições de fazer tudo isso?
Elaine: E você contou com a ajuda de alguém logo nos primeiros dias?
Malu: Nos primeiros dias com a minha sogra. Ela me ajudava no banho porque eu
não deixava ela fazer nada (risos), eu mesma passava roupa, lavava roupa do
bebê, enfim, trocava, cuidava e não deixava ela fazer nada de ciúmes assim
(risos). A única coisa é que ela me ajudou no banho, também por pouco tempo,
logo na dieta mesmo eu já consegui dar banho sozinha nele.
Elaine: Seu marido também recebeu algum tipo de orientação na maternidade ou
depois te ajudou aqui? Ele tinha já algum conhecimento prévio?
Malu: Também não. Menos conhecimento que eu (risos). Porque homem fica
meio que com medo, com receio “ah, muito pequenininho, molinho”. No começo
assim ele também não queria pegar. Única coisa assim que quando ele [bebê]
fazia algum barulhinho, ele [marido] já escutava, já falava, já cutucava sabe, ficava
bem alerta preocupado com o menino, porque desde o começo eu já deixei ele
[bebê] em outro quarto, no berço e tal, mas já para ganhar segurança mesmo para
ficar no espaço dele, no quarto dele. Até gente que fala “ai, essa pessoa aí é fria,
tal”, porque a maioria coloca dentro do quarto do casal, mas eu quis fazer assim,
deu certo.
Elaine: Ahamm...
Malu: Até agora está dando certo, então eu acho que cada um vai pelo caminho
que, sei lá, acho que vê que é melhor, acho que não tem certo e errado. Cada um
acho que tem que ir vendo, buscando a melhor forma possível. Agora, ele [marido]
já está se envolvendo mais com ele [bebê], brincando. Também ele [bebê] já está
com quase 4 meses, então...
Elaine: Ah, o bebê já vai completar 4 meses?
Malu: É, está com 3 meses e meio e na primeira quinzena de fevereiro vai
completar 4 meses.
Elaine: E o que te vem à cabeça quando eu uso o termo “creche”. O que esse
termo evoca para você?
Malu: É que creche é um termo meio que... eu não gosto de usar essa palavra
creche, eu prefiro usar escola.
Elaine: Ahamm...
Malu: Escola de educação [enfática], então talvez seja por causa desse termo
“creche” que as pessoas ficam até com receio de deixar, “ah, será que vão cuidar
323
de qualquer jeito, é um monte de criança e poucas pessoas para cuidar, ah, a
criança vai ficar assada, não vão trocar direito, se eu levar um leite lá vão dar o
leite para outra criança”, que isso pode acontecer realmente. Então, por isso é que
talvez as pessoas ficam meio que com receio de deixar o filho.
Elaine: Ahamm... Você acha que essa denominação muda a característica do
trabalho?
Malu: Eu acho que esse termo creche não deveria ser usado. Eu acho que
deveria ser usado escola, até porque se você olhar está escrito lá “Escola
Municipal Infantil”, que acho que é o que eles usam aqui e a outra é EMEI [Escola
Municipal de Educação Infantil].
Elaine: Aqui em São Caetano eles chamam de escola...
Malu: É, eu gosto do termo escola [enfática].
Elaine: Ahamm... E para que serve uma creche ou escola pensando nos bebês?
A quem se destinaria? Ou se tem diferença entre o bebê que vai para a creche
pública ou particular ou para a escola?
Malu: Para mim, é a mesma coisa porque particular também não deixa de ser
escola, a única diferença é que você está pagando, por sinal, acho que é muito
caro, não tem cabimento você pagar mais de R$ 500,00, mais caro que uma
faculdade para deixar uma criança. Então, já não concordo com isso. No fim, dá
na mesma, porque não vejo diferença alguma. A única diferença é que a escola
particular não é sustentada pelo Governo, pelo município, mas os cuidados, no fim
das contas, são os mesmos. Se tiver que acontecer alguma coisa vai acontecer
em uma ou em outra, não vejo diferença. E você quer saber também se tem
alguma diferença...
Elaine: Se tem alguma coisa que diferencia o bebê que freqüenta creche ou
escola pública e àquele que freqüenta creche ou escola particular?
Malu: Eu acho que não tem diferença não, porque tem ali educadores para cuidar,
da mesma forma que tem pedagogos na municipal tem na particular. A criança vai
interagir nas duas escolas, tanto na municipal quanto na particular.
Elaine: Ahamm… E você conhece alguma, de já ter freqüentado ou visitado
alguma creche ou uma EMI?
Malu: Já entrei aqui [na EMI que fica na frente da casa da entrevistada], já dei
uma olhada assim básica, não entrei assim no geral em todas as classes, dei
assim uma olhada meio por cima, mas já conversei com pessoas, por exemplo,
que tinham criança em escola particular e acabaram trazendo para cá, porque
quem agüenta pagar R$ 500,00, não tem condição, é muita coisa.
324
Elaine: E essas pessoas que trouxeram os filhos para a EMI, o que elas
comentam?
Malu: Então, que... olha, tem pessoas que de forma positiva, que tudo bem, que é
boa, já ouvi falar uma outra pessoa de forma negativa “ah, porque minha menina
ficou assada”, mas a menina é alérgica a tudo, só de olhar para a menina, ela já
fica com alergia, então, quer dizer, acho que aí já é um problema da criança não é
um problema da escola.
Elaine: E você conhece alguém que trabalhe em alguma creche do município? Ou
de outro lugar, de outra cidade?
Malu: Conheço. A minha sobrinha trabalha na XWW [uma creche de outro
município], minha sobrinha e o marido dela. O marido dela trabalha em outra área
e ela com telemarketing pedindo doações e inclusive ela leva as crianças dela
para lá também.
Elaine: É uma creche assistencial, conveniada?
Malu: É, parece que tem mais de 300 crianças, então eles vivem de doações.
Elaine: E em termos assim de comparação, de comentários em relação às daqui e
as de outros municípios, você tem mais alguma informação?
Malu: Então, essa onde minha sobrinha trabalha e a XZZ [outra creche também
de outro município] que eu conheço também pessoas que trabalham, são muito
boas, inclusive eu já fui nessa última e a gente vê que atende mais assim crianças
de classe média baixa mesmo, mas são creches, assim, escolas boas. Claro que
aqui em São Caetano, foi até como eu te falei, o nível tem até classe média alta
que freqüenta. Então, é bem melhor.
Elaine: Bem melhor pelas pessoas que usam ou bem melhor, você diz, no que é
oferecido?
Malu: Ah, em todos os sentidos, porque como São Caetano é menor, então a
quantidade de crianças é menor por escola, você vê, é diferente.
Elaine: Você acha que aqui tem um número mais adequado de escolas para as
necessidades da população?
Malu: Isso. Por exemplo, lá, como eu te falei, tem 300 crianças. Imagina, de
repente, não tem o número adequado de pessoas para cuidar desse monte de
criança. Já aqui não, aqui tem bem menos crianças e deve ter um número já
adequado de pessoas para cuidar dessas crianças.
Elaine: Ahamm... A sua avaliação, a princípio, é bem positiva em relação às
creches de São Caetano...
325
Malu: Sim.
Elaine: Tirando essas duas creches que você conhece do outro município e que,
talvez, tenham um perfil mais assistencial, você não tem mais informações sobre
outras creches públicas?
Malu: Eu imagino que São Paulo seja um desastre.
Elaine: O que você imagina sobre as creches de São Paulo?
Malu: (risos). É super população, eu acredito que a maioria não tem nem acesso à
creche. Deve... por isso é que tem esse monte de criança aí, de qualquer jeito, na
rua, tudo largado, porque não tem, é muita gente, para pouca escola. Eu acredito,
eu imagino.
Elaine: Então, você acha que faltam vagas...
Malu: É, faltam vagas.
Elaine: E o que é uma boa creche para você, uma creche de boa qualidade?
Algumas coisas, você já comentou, como a quantidade de crianças e a proporção
adequada de educadores... além disso, o que mais caracterizaria uma boa
creche?
Malu: Ahamm... a limpeza, a higiene, a alimentação adequada, uma boa
alimentação porque já me falaram também que a merenda é muito boa, enfim...
ah, em geral assim, o envolvimento mesmo das pessoas, o respeito com os bebês
e com as crianças de forma geral.
Elaine: E o que seria uma creche ruim ou de má qualidade?
Malu: Ah, que as pessoas não estão treinadas, preparadas para cuidar dessas
crianças, para educar, não tem higiene, não tem limpeza, alimentação ruim,
precária, então isso daí não tem nem condições.
Elaine: Você também tinha comentado sobre o número de crianças né...
Malu: Número muito grande de crianças para poucas pessoas cuidarem, então,
entendeu, não tem, talvez, um apoio maior dos governantes, dos políticos, então
acaba que, tem coisa, tem que depender de doações e aí complica.
Elaine: Bom, você colocaria o seu bebê em uma creche e você está pensando em
colocá-lo assim que você voltar a trabalhar né...
Malu: Sim.
Elaine: Em uma creche pública aqui da cidade e colocaria em período integral?
326
Malu: Integral.
Elaine: Recomenda essa opção para outros pais e bebês?
Malu: Recomendo e não concordo com pessoas que param de trabalhar, acho
que tem que ter uma insistência porque senão depois acabam se arrependendo,
não porque vai se tornar dona de casa, dona de casa a gente é mesmo
trabalhando ou não trabalhando a gente é dona de casa [enfática]. Não tem como
“ai, não sou dona de casa”, não é nem por isso é que acaba se arrependendo, o
filho vai crescer e depois você “ai, eu quero voltar a trabalhar” e aí já não
consegue arrumar emprego, talvez, por causa da idade e uma mãe ela precisa
trabalhar, ter o seu dinheirinho, sua independência, não ficar só dependendo do
marido, até porque, hoje em dia, só o marido não é suficiente, a maioria precisa
trabalhar e ajudar também, colaborar e ter o seu dinheirinho.
Elaine: E o que você acha dessa oferta insuficiente de vagas em creches em
algumas cidades e o que fazer diante disso?
Malu: O que fazer? Aí é que vêm os políticos de pôr a mão no bolso, porque o
imposto em São Paulo, principalmente, é muito alto, então, de oferecer mais
escolas, construir mais escolas, oferecer mais vagas para todas as mães terem
esse direito porque, afinal de contas, é um direito Constitucional. É como eu te
falei, brasileiro é tão acomodado, que não reivindica os seus direitos, porque é
direito garantido por lei, é Constitucional, então acho que a população teria que se
mobilizar, se conscientizar e correr atrás dos seus direitos.
Elaine: Você consegue pensar em alguma diferença entre a creche pública e a
particular no atendimento aos bebês?
Malu: Para mim, não tem diferença alguma.
Elaine: O tipo de atendimento, você acha que é equivalente...
Malu: Para mim é o mesmo, às vezes, até na municipal seja até, como estamos
lidando com profissionais pedagogos, eu imagino que vão atender da melhor
forma possível também.
Elaine: Ahamm… Agora, eu gostaria que você descrevesse, brevemente, a sua
família, você, seu marido e o bebê. Você pode falar sobre a idade de vocês,
ocupação, formação, religião você já falou um pouquinho... então, eu gostaria que
você fizesse uma breve apresentação.
Malu: Família pequena né. Eu, meu marido, a gente tem 40 anos. Ele é
comerciante, eu sou funcionária pública.
Elaine: Vocês estão juntos há bastante tempo?
327
Malu: Há quase 7 anos namorando, bastante tempo (risos) e a gente casou no
final de 2008 e o Anjinho nasceu em 2009 e está com 3 meses e meio.
Elaine: Foi como você tinha dito bem planejado e querido...
Malu: Casei e engravidei 1 mês depois, “nossa, vai ser fértil assim lá longe”
(risos).
Elaine: Ahamm...
Malu: E assim, o que mais eu posso falar?
Elaine: Você falou que vocês são evangélicos e que a religião é algo importante e
que vocês valorizam...
Malu: Sim, ahamm.
Elaine: Você fez faculdade né?
Malu: Fiz, fiz Administração. Meu marido tem ensino médio completo e fez alguns
cursos técnicos também.
Elaine: E você trabalha em uma Universidade?
Malu: Sim, há quase 20 anos.
Elaine: E qual é a sua função lá?
Malu: Sou auxiliar administrativo, trabalho com a parte de estágios, incluindo em
Psicologia também. Enfim, a gente está lá para atender ao aluno, ao estudante.
Elaine: Ahamm…
[pequena interrupção – o bebê acordou e precisou ser amamentado]
Elaine: Você falou sobre o seu trabalho... e o seu marido trabalha como
comerciante?
Malu: É, ele tem um negócio próprio há mais de 20 anos já.
Elaine: E aqui na sua casa moram só vocês?
Malu: Só nós, eu, meu marido e o meu filho.
Elaine: E você tem empregada ou alguém que te ajude aqui no dia-a-dia com o
bebê?
328
Malu: Uma faxineira de 15 em 15 dias só.
Elaine: Ok, é que você tinha comentado que era você mesma que lavava e
passava as roupinhas do bebê...
Malu: É, assim, eu tenho meio receio de colocar empregada doméstica e começar
a me quebrar as coisas, eu tenho meio que ciúmes das coisas, sou meio
materialista sabe.
Elaine: Agora, pensando um pouquinho na sua vivência, quando você era criança,
eu gostaria que você contasse um pouquinho o que você lembra dos cuidados e
da educação que você recebeu...
Malu: Olha, a minha mãe era muito rigorosa, conversava muito comigo, naquela
época a gente apanhava de chinelo, isso quando ela conseguia me pegar porque
eu era muito esperta, subia nas árvores e ela não conseguia me pegar e quando
passava a raiva dela, eu voltava. Mas, a minha mãe é muito guerreira, muito
lutadora, trabalhava muito na roça e a partir dos 7 anos eu já sabia fazer comida,
eu já sabia fazer tudo em casa e ai se eu não fizesse.
Elaine: Ahamm… Onde vocês moravam?
Malu: Moravámos no interior, em fazendas, então eu comecei a escola com 6
anos, que a gente falava “parquinho”, que eram escolas em fazendas.
Elaine: Ahamm…
Malu: Então, naquela época, as crianças eram criadas de qualquer jeito, não tinha
esse negócio de ter o seu quartinho, o seu bercinho, imagina, dormia na cama
junto com a mãe, ia para a roça com a mãe, então, quer dizer, não tinha tantos
cuidados como tem hoje, tanta frescura (risos) como tem hoje. Quer dizer, eu não
morri, estou aqui viva (risos).
Elaine: E você tinha comentado sobre o seu pai...
Malu: Minha mãe se separou do meu pai quando estava grávida de mim, então
não tive muito contato. Ele faleceu quando eu era adolescente e ele morava em
São Paulo e a gente no interior, então a gente não tinha muito contato com ele.
Elaine: Então, creche mesmo, você não freqüentou, nem pública nem particular
quando você era menor, foi direto para a escola na fazenda aos 6 anos...
Malu: Isso.
Elaine: As crianças ficavam também com outras pessoas ou não? Você estava
sempre acompanhando a sua mãe ou ficava com mais alguém?
329
Malu: Sempre acompanhando a minha mãe, vivia embaixo da barra da saia dela,
bichinho do mato mesmo (risos).
Elaine: Ahamm… E o que você pensa da educação que você recebeu? E o que
gostaria de adotar na educação do seu filho ou transmitir para ele e o que quer
fazer diferente?
Malu: Tudo o que eu não tive, eu quero dar para ele, o melhor. Por exemplo, um
quartinho, um bercinho, todos os cuidados que uma criança tem hoje, todas as
frescurinhas que tem hoje.
Elaine: Ahamm…
Malu: Então, a gente quer passar o melhor para ele e, é claro, que a questão da
chinelada também, às vezes, até para disciplinar, a varinha né da sabedoria, isso
talvez ainda valha à pena, tipo uma chineladinha no bumbum da criança não vai
fazer mal, é lógico, que você não vai espancar a criança, porque eu também não
fui espancada (risos) e a parte do diálogo. Minha mãe sempre conversava muito
comigo e então isso eu também quero levar de conversar muito com ele. Enfim,
melhorar sempre, porque também a gente não vai comparar aqueles tempos que
não eram tão evoluídos como agora que têm internet, que tem uma série de
coisas que naquela época não existia. Aquela época era muito deficiente, então,
não dá nem para comparar 40 anos atrás com agora, com essa modernidade toda
da tecnologia.
Elaine: Ahamm… e você comentou que desejou que seu filho tivesse o pai
presente né...
Malu: Sim, porque isso me fez falta. Porque minha mãe fez papel de pai, de mãe,
de tudo, porque, realmente, faz falta a figura paterna. Você se espelha, às vezes,
até em outra pessoa, um homem, como se fosse um pai, mas falta aquela coisa
de pai presente ali e tal, que meu pai não foi infelizmente.
Elaine: O que você gostaria de modificar é mais nesse sentido de oferecer coisas
desse novo contexto e que você tem mais acesso...
Malu: Oferecer coisas boas que, graças a Deus, hoje, eu posso oferecer isso ao
meu filho e que naquela época, minha mãe, infelizmente, não tinha como oferecer.
Elaine: Você tinha comentado que está usufruindo da licença maternidade né,
essa de 6 meses já...
Malu: Sim
Elaine: Você achou esse tempo de 6 meses mais adequado...
Malu: Justo.
330
Elaine: Ahamm… Seria esse período de 6 meses também o ideal?
Malu: Ideal.
Elaine: Além do que você tinha falado de poder ficar um pouco mais com o bebê,
que o bebê já ficaria um pouco mais independente, mais algum fator para você
considerar o período de 6 meses como ideal?
Malu: Para a mãe se organizar, ir se adaptando também, para já ir se preparando
para a volta ao trabalho, então acho que é assim um tempo suficiente. Claro que
para as empresas (risos) não é bom, porque terão essa funcionária mais tempo
afastada do trabalho. Ah, mas são só dois meses a mais, acho que dá para
conciliar.
Elaine: Para o bebê, você acha que...
Malu: Acho que está bom também. Acho que aí ele já está maior para poder
ingressar na escola, já está mais preparado, tanto o bebê quanto a mãe.
Elaine: Ahamm... E o que você sabe sobre a licença paternidade? O pai do bebê
conseguiu usufruir da licença?
Malu: Ah, não, porque ele é dono do próprio negócio. Para ele, ele não tira nem
férias (risos). Então, ele continuou trabalhando, ele não fez questão não, porque é
dele o negócio.
Elaine: Ahamm... Mas, você conhece a lei, sabe quantos dias são previstos em
lei?
Malu: São 5 dias né.
Elaine: Ahamm... Agora, tem um projeto prevendo a ampliação da licença
paternidade de 5 para 15 dias, o que você acha disso?
Malu: Ah, eu acho que é mais justo para os pais. Os pais precisam se envolver
mais com os filhos, para dar uma força, um apoio moral (risos) aí para as mães.
Acho que é favorável sim, acho que é positivo.
Elaine: Você acha que 15 dias seria o ideal ou deveria ser um outro período?
Malu: Acho que 15 dias é o suficiente. Acho que está bom sim, é justo.
Elaine: 15 dias seriam, então, um período adequado para os pais se envolverem e
darem esse apoio moral que você comentou...
Malu: Sim.
331
Elaine: Ahamm... Você já comentou que quando terminar a sua licença de 6
meses você pretende colocar o bebê na creche, na escola, aqui em São
Caetano...
Malu: Sim.
Elaine: Em algum momento, você pensou em outras possibilidades? Como foi
tomar essa decisão?
Malu: Ah, até pensei, mas, por exemplo, a minha sogra já está com uma idade
mais avançada então é complicado, ela não vai ter aquele pique para cuidar de
criança, aí eu pensei “se eu não conseguir vaga na escola municipal, aí eu vou ter
que ir para a particular, aí o marido vai ter que pagar (risos)”, o que vou fazer,
parar de trabalhar não dá e eu nem pensei nessa possibilidade de parar de
trabalhar (risos).
Elaine: Ahamm... Isso vocês não cogitaram, nem parar de trabalhar, nem reduzir
carga horária?
Malu: Não, porque eu não concordo com isso, então essa possibilidade eu não
pensei não.
Elaine: E de ter uma babá ou uma empregada?
Malu: Aí, piorou (risos). Também não.
Elaine: Ahamm… Por conta daquilo que você comentou da falta de confiança?
Malu: É, pela falta de confiança porque assim eu poderia até ver alguém lá da
minha Igreja, mas, às vezes, a gente pensa que conhece a pessoa, mas não
conhece. Então fica complicado isso, acho que eu fiquei meia que traumatizada de
ver alguns casos na TV, aí já me assustou um pouco.
Elaine: Ahamm… Você lembra de algum caso?
Malu: Ah, eu já vi “n” casos aí de pais que deixaram câmeras em casa e filmou a
babá maltratando, judiando, fazendo unha com acetona lá para a criança dormir,
então, quer dizer, não dá né.
Elaine: E essa escolha foi uma decisão conversada com o seu marido, ele
também concorda com a opção pela escola?
Malu: Sim, ele concorda. Concorda, porque ele é bem pão duro (risos).
Elaine: Ele não quer pagar uma escola particular…
332
Malu: De preferência não (risos).
Elaine: E vocês chegaram a conversar com mais alguém sobre isso, sobre as
possibilidades e a escolha pela escola?
Malu: Não, eu não pedi a opinião de ninguém não. Eu já tinha opinião formada
sobre isso.
Elaine: E você comentou da sua sogra… Ninguém se ofereceu para cuidar do
bebê?
Malu: Não, ela não se ofereceu e também a gente vê, a gente até entende porque
a idade já avançada não tem condições de ficar assim período integral. Eu
trabalho, eu entro um pouco antes das 8h e fico até às 17h30, de segunda à sexta,
quer dizer, é puxado, a carga horária é de quase 8 horas e meia por dia. Então, é
complicado também querer. Se eu tivesse minha mãe aqui por perto e ela fosse
mais jovem, até tudo bem, mas a minha mãe está, vai fazer 82 anos, mesmo que
ela estivesse aqui perto, ela não teria condições.
Elaine: Ahamm... A idade do bebê não pesou, em nenhum momento, na escolha
pela escola?
Malu: Para mim não. Ele vai estar já com 7 meses e 20 dias, acho que já está um
tempo bom para ir para a escola.
Elaine: Você juntou férias também ao período de licença?
Malu: Juntei férias, qüinqüênio, eu tinha qüinqüênio vencido e tinha que tirar
mesmo. Então, consegui juntar todos esses meses.
Elaine: Então, ele já vai entrar com quase 8 meses...
Malu: É.
Elaine: E com o pediatra, você comentou que colocaria o bebê na escola? Ele fez
algum comentário?
Malu: Cheguei, cheguei a conversar e ela falou “não, legal, a partir do 5º mês
você já pode, a gente já vai entrando com as papinhas”, apesar que eu já estou
oferecendo alguma coisinha para ele, frutinha, comidinha, mamadeira está difícil
para ele pegar (risos), mas ela falou “não, bacana, importante, legal que você vai,
já que você conseguiu essa licença aí de 6 meses e mais esse tempo, então já vai
estar bem grandinho quando for para a escola”.
Elaine: E a pediatra é aqui em São Caetano?
333
Malu: É, eu nem estou usando convênio. Estou passando aqui no Postinho [posto
de saúde] e a pediatra, aí da rede pública, é muito boa.
Elaine: Ahamm.. Agora, já chegamos ao final, e eu queria que você pensasse
nomes, para você e para o bebê, para alterarmos na transcrição da entrevista e
que você comentasse também o que você achou do tema, da entrevista, das
perguntas...
Malu: Ah, eu achei bacana, importante. É muito bom, parabéns. É muito
importante esses trabalhos que vocês fazem, essas pesquisas, porque isso
contribui, de alguma forma, para melhorar esse tema aí todo.
Elaine: Obrigada! Eu te envio depois a transcrição tá.
Malu: Tá. Para mim, pode colocar o nome Malu e para o bebê, deixa eu ver,
Anjinho, não sei, pode?
Elaine: Pode, o nome que você quiser. Muito Obrigada novamente pela
disponibilidade e participação!
334
Transcrição quinta entrevista
Entrevistada: Beatriz, 37 anos, administradora de empresas, trabalha com
sua família em um comércio próprio, mãe de Mariana, 6 meses.
Elaine: Em qualquer momento, se você quiser perguntar algo sobre a pesquisa,
fique à vontade.
Beatriz: Tá legal.
Elaine: Eu queria agradecer você ter aceitado participar e colaborar com a
pesquisa e também pela disponibilidade de tempo, enfim, oito e meia da noite,
depois de um dia de trabalho, com ela [bebê, filha da entrevistada que também
estava junto], a participação dela também... (risos)
Beatriz: (risos)
Elaine: Tem uma primeira parte da entrevista que é um pouco mais genérica,
então, pensando em um contexto mais geral, você acha que a sociedade ou o
Estado tem algum dever para com os bebês, tem alguma responsabilidade?
Beatriz: Ah, eu acredito que sim.
Elaine: Qual seria essa responsabilidade, em qual área?
Beatriz: Ah, acho que em saúde e educação.
Elaine: Ahamm... Por quê? Você acha que não é uma responsabilidade só da
família?
Beatriz: Ah, algumas coisas sim, educação sim, mas assim o ensino básico
assim, as instruções mesmo, o aprendizado mesmo, acho que é do Governo...
para construir um país melhor no futuro.
Elaine: Ahamm... E, as crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche
desde 1988, com a Constituição, mas somente 18,1% das crianças nesta faixa
etária freqüentam creche. Por outro lado, já temos quase 80% de crianças de 4 e
5 anos freqüentando a pré-escola. O que você pensa sobre isso?
Beatriz: No sentido assim de, do quê?
Elaine: As crianças menores, de 0 a 3, 18,1% estão freqüentando creche...
Beatriz: Ahamm...
335
Elaine: Já, as maiores, quase 80% estão na pré-escola. Por que você acha que
existe essa diferença? Por que você acha que as maiores estão freqüentando
mais escola do que as menores?
Beatriz: Olha... eu acho assim, talvez não tenha o número de creches suficiente
para atingir a faixa etária né...
Elaine: Para atender todas as crianças...
Beatriz: É, para atender todas as crianças, por isso é que tem essa...
Elaine: Você acha que se existissem mais vagas, talvez tivesse uma freqüência
maior?
Beatriz: Ah, eu acho que sim.
Elaine: Ahamm... E por que os adultos, em geral, não se preocupam ou se
mobilizam pela questão dos direitos dos bebês e das políticas de creche?
Beatriz: Olha, o povo brasileiro eu acho um pouco acomodado, muito conformista
com as coisas que acontecem. Então, o pessoal não está muito, aceita tudo o que
o Governo joga pra gente.
Elaine: Você acha que acaba não tendo uma mobilização, isso que você falou,
por exemplo, em relação às vagas, que têm poucas vagas...
Beatriz: É, eu acho assim, que o povo brasileiro é acomodado, do jeito que está,
vai levando e talvez porque as crianças ficam com os avós, as mães que
trabalham deixam com os avós também e a escola, já a escolinha com a idade
maior já tem que começar a aprender certas coisas, então aí já vai para a escola,
mas acho que a quantidade de creche é pequena.
Elaine: Aqui em São Caetano também?
Beatriz: É, eu, então, em São Caetano, eu moro em São Caetano, mas eu
trabalho em São Paulo então eu não sei muito bem como funciona o município.
Aqui em São Caetano, eu sei que as coisas são melhores que em São Paulo, mas
assim, a quantidade de creches aqui eu já não sei.
Elaine: Você não conhece muito as creches daqui?
Beatriz: Não conheço, como eu tenho bebê só agora, eu não sei como que seria
se eu precisasse colocar lá na creche, se é fácil, se não é, aí eu já não sei como
funciona aqui em São Caetano.
Elaine: Ahamm...
336
Beatriz: A gente ouve falar que em São Paulo tem mães que não trabalham e que
conseguem vaga na creche; as que trabalham, que precisam, às vezes, não
conseguem. Então, mesmo quem não trabalha tem direito de colocar a criança na
creche. E eu acho que o certo seria mais para quem trabalha porque quando a
pessoa trabalha e precisa, às vezes, não tem vaga e aquela que fica em casa
coloca a criança na creche tomando o lugar de outra que precisaria. Agora aqui
em São Caetano eu não sei como é.
Elaine: Ahamm...você não conhece muito...
Beatriz: Não conheço. Como eu tive bebê só agora, eu nunca tive criança, então
eu não sei assim como funciona aqui.
Elaine: Ahamm... E como você acha que os adultos, incluindo aí os políticos e a
sociedade de forma geral, poderiam se mobilizar para procurar atender esses
direitos dos bebês e agir mais ativamente em relação às políticas de creche?
Beatriz: Primeiramente, acho que é votando nas pessoas corretas. Agora, como
fazer para mobilizar a população? Acho que fazer campanha na televisão, assim
informar mais as mães porque, às vezes, as mães não são informadas dos
direitos, as pessoas não sabem muito bem dos direitos delas, elas sabem mais
acho dos deveres do que dos direitos que elas têm.
Elaine: Ahamm... Então essa seria uma forma de mobilizar e também pela
questão política da escolha de políticos que talvez se interessem por esses
assuntos?
Beatriz: É, que se interessem por esses assuntos.
Elaine: E você se preocupa ou se mobiliza por esses assuntos? Como? Antes de
ter bebê ou agora? Você já tinha parado para pensar sobre esses assuntos?
Beatriz: Ah, assim, a gente vê muito, como se diz, muita injustiça, muito deixa pra
lá, a educação mesmo no nosso país é muito ruim, então eu acho assim, ela [sua
filha], eu vou tentar educar da melhor forma possível, não dependendo muito do
Governo. Se eu puder pagar uma escola, eu vou pagar. Eu sei que aqui em São
Caetano tem escolas boas. Eu estudei aqui, eu sei que a escolas da Prefeitura
aqui são boas.
Elaine: Você estudou em escola pública ou particular?
Beatriz: Eu estudei em escola particular, mas assim, o prézinho, jardim de
infância era da Prefeitura. Eu estudei e sei que as escolas daqui são boas.
Elaine: Você estudou na EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil]?
Beatriz: É.
337
Elaine: E você entrou com que idade na EMEI?
Beatriz: Eu tinha 4 anos.
Elaine: Mas, você estava falando que se você tiver condições, você pretende
colocá-la em uma escola particular...
Beatriz: Ah, é.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Vou tentar fazer assim o máximo que eu puder porque assim, escola
municipal tudo bem, aqui em São Caetano acho que são boas, agora estadual eu
já não tenho aquela... não acredito muito. Mas, assim, como eu te falei, eu estou
totalmente fora, apesar de eu ter tido filho, ainda como está na fase de bebê
assim, não pensei ainda em escola.
Elaine: Você não tinha pensado nesse assunto das escolas, de creche, mais
diretamente?
Beatriz: Não, especificamente não.
Elaine: Ahamm... Agora, vamos falar um pouquinho sobre bebê... você poderia
descrever um bebê para mim? O que esse termo “bebê” evoca para você ou o que
te vem à cabeça quando a gente fala “bebê”?
Beatriz: Ai, é complicado. Olha eu não sei assim te falar, como eu tive problema
para ter ela, não foi uma gravidez natural, eu fiz fertilização in vitro, então a gente
queria muito um bebê. Eu acho assim que (risos) eu sonhei tanto assim em ter um
bebê, eu e ele [marido] e tudo, ah, pra gente é, tem coisas que a gente não sabe
explicar, o sentimento que a gente tem assim é uma coisa, é um ser assim tão
puro, tão frágil, às vezes, a gente vê certas barbaridades que acontecem com
bebê na televisão, agora que tem [um bebê], fica mais revoltado ainda. Ah, eu
acho que é tudo de bom, para mim está sendo uma experiência muito boa, muito
gratificante, a princípio eu estou gostando de cuidar de um bebê. Eu acho que é
muito gostoso.
Elaine: E se você pensar também em outros bebês...se alguém fala um “bebê”,
que imagem você tem?
Beatriz: Ah, um ser assim que precisa ser amado, ser bem cuidado, ter bons
exemplos, para ser um ser humano melhor, para cada vez mais a gente evoluir.
Não, assim tratar com descaso como muitas pessoas fazem, muitas famílias, não
tendo briga no lar porque eu acho que briga traumatiza a criança quando chega na
fase adulta. Eu acho que tem que pensar muito bem antes de ter um filho porque
não é fácil, é difícil, dá trabalho, envolve muita coisa, ainda mais que eu trabalho,
338
tem gente que vai tendo filho e não, não liga ou não pensa o que acarreta ter um
filho, que é para a vida toda, que... enfim, acho que é uma pessoa que você tem
que cuidar com muito carinho porque aí ele vai se tornar um adulto melhor ou não.
Elaine: E existe diferença para você entre um bebê e uma criança pequena?
Beatriz: Assim, em termos de cuidado, você fala?
Elaine: Há alguma característica que diferencie uma criança pequena de um bebê
ou não, enfim... o que você acha?
Beatriz: Ah, não assim. Única coisa é que uma criança pequena já começa a falar
e é mais fácil você cuidar porque ela começa a se expressar melhor e você
começa, que nem ela chora, você começa a saber porque ela está chorando. Um
bebê, você tem que ficar meio no escuro assim, ah, está chorando aí você vai
tentando se é fome, se é frio, se é calor.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Mas, o cuidado é assim o mesmo eu acho, é a mesma coisa.
Elaine: Você acha que o que diferencia mesmo é a fala...
Beatriz: É, ele se expressa melhor, você começa a conhecer mais também a
criança quando ela chora, que nem o bebê agora é que você começa a entender
ou a compreender que cada choro é diferente. É diferente quando ela chora assim
se ela está com frio ou fome, no começo é muito difícil, eu acho que uma criança
quando estiver maiorzinha é mais fácil você começar a entender o que ela quer, o
que ela está precisando, se ela está com dor.
Elaine: Ahamm... E para você, se a gente falasse “bebê” seria até que idade? Que
depois já seria uma criança pequena...
Beatriz: Bem, acho que até uns 2 anos seria um bebê.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: A partir daí, já é uma criança pequena porque 2 aninhos ainda eu acho
assim bem novinho, às vezes, tem criança que nem fala direito. Eu acho que até
uns 2 anos é considerado bebê.
Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados/educados?
Qual seria a melhor maneira de educá-los?
Beatriz: Olha, dando bastante atenção, tentando fazer tudo assim bem saudável,
tudo fazer em casa, não comprar tudo coisa pronta, porque eu trabalho e, às
vezes, eu preciso, não dá tempo de fazer a sopinha dela, a papinha dela num
339
determinado dia e aí eu compro a papinha da Nestlé e dou (risos), mas eu acho
assim quanto menos der é melhor, bastante variedade assim para que a criança
cresça saudável e com bastante alegria, não ter coisa... não deixar a criança
presenciar, às vezes, alguma discussão, sei lá. Passar uma paz, uma segurança
para o bebê, para ela se sentir confortável e ter um desenvolvimento melhor.
Elaine: Você acha que todas essas coisas, são coisas que o bebê necessita...
Beatriz: Acredito que sim, lógico... uma boa... por exemplo, se a criança ficar
doente, ter um bom hospital que cuide direitinho. Às vezes, você leva em algum
lugar e o posto, não é bem atendida, às vezes, a criança está com algum
probleminha e não percebe e o negócio se agrava. Inclusive até, outro dia, eu vi
na televisão, eles estavam falando sobre vacinação que agora, a partir do ano que
vem, parece que vão incluir algumas vacinas que não davam no posto. Eu acho
que isso daí é bom porque a gente, às vezes, não consegue, tem pessoas que
não conseguem pagar e as vacinas são muito caras e evita a criança pegar que
nem pneumonia, ah basicamente eu acho que é isso.
Elaine: E o que você acha que seria melhor para um bebê, ir para creche ou para
a escola, ficar em casa com a mãe, ficar com a avó, ficar com uma babá?
Beatriz: O melhor é ser cuidada pela mãe, no meu caso, é ir junto ao meu
trabalho, pois tenho essa possibilidade. Lá, o meu bebê tem o meu cuidado, a
minha presença e cuidados dos avós e do pai.
Elaine: Ahamm... E qual seria a idade que você consideraria “ideal” para um bebê
começar a freqüentar uma creche?
Beatriz: Uma creche?
Elaine: Ahamm...
Beatriz: [Breve silêncio] Olha, aí assim que nem quando a mãe trabalha e não
tem com quem deixar, a creche, eu não sei a partir de que idade, não sei te falar
com quantos meses a criança já pode ir para a creche.
Elaine: Pela lei, ela já pode ir a partir de 4 meses...
Beatriz: 4 meses, é depois da licença maternidade...
Elaine: Ou agora
maternidade...
com
essa
possibilidade
de
prorrogação
da
licença
Beatriz: 6 meses...
Elaine: 6 meses se a mãe optou por essa prorrogação...
340
Beatriz: É, fica complicado porque eu acho que o bebê é muito pequenininho para
você deixar com alguém, eu... se eu fosse deixar ela na creche assim, eu ia sentir
muito. Com 1 ano eu acho que seria o ideal, mas a mulher ficar um 1 ano parada
também sem trabalhar é complicado, teria que ter alguém para deixar a criança.
Elaine: No seu caso, você falou que leva a bebê com você ao trabalho... Como é
seu dia-a-dia com ela?
Beatriz: Eu trabalho com meu pai, com a minha mãe, com o meu marido, então a
gente leva ela lá para a empresa. Tem um escritório lá que dá para colocar o
bercinho e ela fica com a minha mãe. Então, assim, minha mãe me ajuda, eu
estou sempre ali entendeu, mas a maior parte ela fica com a minha mãe.
Elaine: Lá no ambiente de trabalho em que vocês estão...
Beatriz: Isso.
Elaine: Todo dia, de segunda à sexta?
Beatriz: Ahamm... todo dia, de segunda à sexta, eu chego às 10 horas e saio às
18 horas.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Antes eu chegava mais cedo, mas agora com ela não tem condição.
Elaine: Eu vou perguntar um pouquinho mais sobre isso, sobre essa escolha,
como vocês chegaram à decisão de que essa era a melhor forma de resolver a
questão agora para você voltar a trabalhar...
Beatriz: Na verdade, como a gente tem negócio próprio, eu não tive licença
maternidade. Fiquei 40 dias só em casa.
Elaine: Ah, ok.
Beatriz: E aí tinha uma funcionária nossa que estava grávida também, ela
engravidou na mesma época que eu, tinha só uma diferença de 3 meses e ela
teve que fazer repouso absoluto e eu tive que voltar antes. E eu pretendia ficar
mais tempo, mas infelizmente não pude. E é aquela coisa, funcionário tem direito,
patrão já não tem (risos).
Elaine: É mais difícil...
Beatriz: É mais difícil. Eu fiquei assim 40 dias em casa.
Elaine: Qual é o trabalho de vocês?
341
Beatriz: É uma XYZ [um comércio], eu trabalho na parte do escritório. Eu acabei
voltando antes e eu voltei com ela [bebê] junto. Assim, e minha mãe junto.
Elaine: Ahamm... e como você acha que é a rotina de um bebê em casa, ou
enfim, a rotina dela lá quando está com vocês, e como é ou seria a rotina de um
bebê na creche? Não precisa ser a rotina dela especificamente, mas a rotina de
um bebê.
Beatriz: Olha, assim, exatamente como é na creche eu não sei. Sei que a cada 3
horas você tem que dar de mamar para o bebê, tem que dar fruta, que nem no
caso dela que já está comendo fruta, papinha...
Elaine: Ela está com 6 meses?
Beatriz: 6 meses. A rotina da creche eu não sei te falar porque não sei como
funciona, não sei quantas pessoas para cuidar de quantos bebês, mas a rotina
dela assim, eu tento seguir o que o pediatra fala para mim e assim também o que
eu acho, eu leio bastante também na internet, então eu tento seguir, mas durante
o dia a gente tenta dar banho de sol nela quando tem sol, a gente tem lá um
espaço, um quintalzinho, às vezes ela toma sol, toma suquinho de manhã,
mamadeira, depois na hora do almoço papinha.
Elaine: Você acha que seria diferente se ela estivesse na creche?
Beatriz: Ah, eu acredito que não. É lógico que com a gente, ela tem a atenção da
gente todinha para ela. Uma criança na creche não vai ter atenção todinha para
ela. Então, eu não sei te falar assim exatamente como que funciona a creche, eu
desconheço.
Elaine: E como foi para você se instruir ou aprender sobre os cuidados para com
o bebê? Você falou que vocês queriam muito um bebê, mas vocês já tinham tido
uma experiência anterior, já tinham cuidado de alguém, de algum sobrinho, de
algum bebê?
Beatriz: Não, na verdade, eu não tinha experiência nenhuma com bebê. E eu sou
filha única, meu marido também, então a gente não tinha muito contato com
criança. Tem primos que tiveram bebês, mas é no interior, então a gente não tem
convivência, vê de vez em quando, tudo, sabe lá alguma coisa, mas conviver
mesmo, como que cuida, como troca uma fralda, como faz um leite, alguma coisa,
eu não sabia nada.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Foi tudo assim, eu me cadastrei em um site lá da internet daquele
www.bebê.com e todo mês eu ia lendo a fase que eu estava da gestação. A partir
do momento em que eu estava grávida, a gente começou a ler bastante coisa, a
ver filmes, ver documentário. Então, conforme foi acontecendo, a gente foi
342
procurando, fuçando, pesquisando. Eu queria ter feito curso, antes dela nascer,
mas não deu tempo. Como eu trabalhava muito e ela acabou nascendo antes da
hora, minha bolsa estourou, então acabou nem dando. No hospital, eu fui bem
orientada como cuidar, como dar os primeiros cuidados. Eu achei que foi bem
legal o hospital.
Elaine: Nasceu aqui [em São Caetano]?
Beatriz: Nasceu em São Paulo, no Hospital XXX [hospital conhecido e bem
conceituado de São Paulo].
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Aí, conforme vai acontecendo as fases, a gente vai perguntando pra um,
pra outro, vai tentando.
Elaine: E você teve alguém que te ajudou logo no começo?
Beatriz: Ah, minha mãe. Ela ficou comigo o tempo todo aqui em casa me
ajudando bastante.
Elaine: Você chegou a ler algum livro ou falou com pediatra antes?
Beatriz: Não... é aquela coisa, quando você é mãe acaba o instinto falando mais
alto, eu acho que é bem isso mesmo, você vai se adaptando, vai descobrindo, vai
pesquisando, vai perguntando pra um pra outro, conversei bastante com a minha
mãe.
Elaine: Ahamm... agora a gente vai conversar um pouquinho sobre creche para
depois passarmos para uma parte mais específica sobre as suas experiências, as
suas vivências com o bebê.
Beatriz: Ahamm...
Elaine: O que te vem à cabeça quando eu falo creche? O que este termo evoca?
Ou para que serviria uma creche?
Beatriz: Ah, acho que creche é para as mulheres que trabalham fora, que não têm
uma pessoa da família que possa cuidar do bebê, que ela possa trabalhar e deixar
a criança em boas mãos, eu acredito.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Assim, basicamente, eu acho que é isso, onde você possa deixar seu
filho que seja cuidado e isso daí é pago pelo Governo, no caso, a Prefeitura.
Pessoas que não têm possibilidade, às vezes, de deixar em uma escolinha
particular, então deixam na creche. Que o certo seria a gente não ter que pagar
343
também, eu acho que deveria ter um, uma boa, assim, cuidados de acordo, sem
ter que ficar... porque a gente já paga tanto imposto no nosso país, então eu acho
que toda mulher que pretende ter filho, não tem com quem deixar e pretende
continuar trabalhando, deveria ter direito a uma creche de acordo.
Elaine: Então, ter mais vagas, enfim, para todas poderem usufruir...
Beatriz: Ahamm...
Elaine: E a quem se destinaria então? Você falou dessa questão da mãe que
trabalha...
Beatriz: Eu acho que às mulheres que trabalham e que querem continuar
trabalhando, eu acho que elas teriam preferência. Eu sei que tem... parece que
não é assim, parece que funciona mesmo que a mulher não trabalhe, ela
consegue vaga na creche. Eu acho que ela tira, como acho que não tem tanta
vaga, eu acho que ela tira o direito, a vaga de alguém que realmente precisa
trabalhar.
Elaine: Você não conhece nenhuma creche né?
Beatriz: Não, não conheço.
Elaine: Você sabe se tem alguma creche pública aqui no seu bairro?
Beatriz: Não.
Elaine: Você conhece alguém que utiliza ou que trabalha em uma creche?
Beatriz: Também não.
Elaine: Nenhuma funcionária da empresa usa creche pública?
Beatriz: Não.
Elaine: Você comentou um pouquinho sobre ter ouvido comentários de que
mesmo mães que não trabalham conseguem colocar seus filhos na creche...
esses comentários...
Beatriz: Comentaram lá na empresa mesmo que, até foi uma funcionária, parece
que a prima dela não trabalha e ela conseguiu colocar a criança na creche.
Elaine: Ahamm...
Beatriz: Então assim, eu não sabia disso, não sabia que mesmo que a mulher não
trabalhe, ela tem direito à vaga na creche.
344
Elaine: E isso foi em São Paulo?
Beatriz: É, eu não sei exatamente em que lugar de São Paulo também. Ela só
comentou.
Elaine: Ahamm... E você teria alguma avaliação ou impressão sobre as creches
daqui, mesmo conhecendo pouco, como você disse antes?
Beatriz: É, então, para eu falar sinceramente, eu sei que aqui, a cidade de São
Caetano assim em si, é, está bem melhor que outros municípios. Na educação, eu
lembro que há um tempo o Prefeito reformou todas as escolas, eu não sei
exatamente, para falar a verdade, eu não, nessa parte eu ainda não...
Elaine: Você não saberia dizer se tem alguma diferença entre as de São Caetano
e as de outros lugares por não conhecer...
Beatriz: É, eu acredito que em São Caetano seja melhor talvez, eu não sei te
falar. Se eu falar, eu vou estar falando besteira.
Elaine: Tá. E o que seria para você, uma creche de boa qualidade? Ou o que uma
creche deveria oferecer para um bebê se sentir bem?
Beatriz: Ah, eu acho assim, o duro é que eu não sei quantos bebês uma pessoa
em uma creche ela cuida. Acho assim ter bastante gente para cuidar direitinho
para não ter problema de se machucar ou até de engasgar que isso daí, às vezes,
a gente vê na televisão. Ah, ter bastante atenção, uma alimentação adequada
para a idade. Ah acho que, ser confortável, um lugar limpo, com bastante higiene
para a criança não ter problema de ficar doentinha.
Elaine: Ahamm... E o que seria uma creche ruim ou de má qualidade?
Beatriz: Ah, ter poucas pessoas para olhar as crianças assim, sei lá, não sei
quantas pessoas que daria para cuidar de um bebê. Aliás, uma pessoa para
quantos bebês. Acho que ficar uma pessoa sobrecarregada, a alimentação não
ser de acordo, o lugar onde a criança fica também não ser limpo, pessoas que não
sejam qualificadas para cuidar, porque, às vezes, a pessoa trabalha naquilo, mas
não leva nenhum jeito para cuidar de criança. E criança requer muita paciência
porque não importa o problema que você tem lá fora, mas quando você está com
o bebê, você tem que dar a atenção e o cuidado que ele precisa. Se ele está
chorando você tem que saber, tem que tentar sanar o problema, não perder a
paciência, não sei como as creches... têm que ter pessoas que gostem de cuidar
de criança, ser qualificadas para isso.
Elaine: Tá. Você colocaria o seu bebê em uma creche?
Beatriz: Olha, se eu precisasse, eu colocaria. Se eu tivesse que continuar
trabalhando, não tivesse com quem deixar, não pudesse pagar uma babá...
345
Elaine: Se não pudesse levá-la para o trabalho...
Beatriz: É, aí eu ia ter que fazer isso.
Elaine: Mas, seria uma última opção?
Beatriz: É, seria. Mas, assim, eu estou te falando também assim desconhecendo,
porque, de repente, as creches são boas e eu não conheço...
Elaine: Ahamm... eu perguntei se seria uma última opção porque você comentou
sobre a necessidade de continuar trabalhando e se não tivesse com quem deixar,
se não pudesse ter uma babá e nem levar ao trabalho...
Beatriz: De repente, não seria uma última opção não, porque, às vezes, você
coloca uma pessoa na sua casa, você pensa que é de confiança e acaba judiando
do bebê e na creche, talvez, como tem mais gente, então se tivesse algum
problema é mais fácil de você perceber.
Elaine: E se você colocasse o bebê em uma creche você colocaria o bebê em
uma creche pública? Aqui em São Caetano?
Beatriz: Aqui em São Caetano acho que sim.
Elaine: E em outro município?
Beatriz: Ah, talvez por indicação, se eu conhecesse alguém que falasse “pode
colocar que é super assim de acordo”.
Elaine: E você colocaria o bebê em creche em período integral?
Beatriz: É, no caso, eu trabalho, se eu fosse trabalhar em outro lugar, acho que
eu trabalharia em período integral, das 8h às 18h, a não ser que eu arrumasse um
emprego de meio-período, aí tudo bem. Mas se eu tivesse que trabalhar o dia
inteiro, aí ia ser período integral.
Elaine: Você já comentou que não conhece as creches aqui da região né... minha
questão seria se você recomendaria creche para outros pais e bebês...
Beatriz: Aí, então, é como eu te falei, como eu não sei...
Elaine: É difícil opinar...
Beatriz: É.
Elaine: E sobre a oferta insuficiente de vagas em creches que já comentamos um
pouco... o que fazer diante disso?
346
Beatriz: Aqui em São Caetano tem poucas creches assim para a quantidade? Eu
não sei...
Elaine: Eu sei quantas creches tem aqui, mas não posso afirmar se a quantidade
é suficiente ou não...
Beatriz: É, eu acho assim, se tem falta de vagas, teria que construir mais creche
mesmo. Às vezes, os políticos se preocupam com outras coisas, que nem, a gente
vê, tudo bem, aconteceu uma tragédia lá no Haiti, de terremoto, todos os países
estão se mobilizando, mas assim o nosso país também ele ajuda muito lá fora e
esquece um pouco daqui de dentro, eu estou falando assim no geral. Eu acho que
teria que ajudar mais o nosso povo aqui do que tentar ficar correndo atrás para
ajudar outros, entendeu, não sei assim...
Elaine: Mesmo que você não conheça uma creche ou com base no que você
ouviu falar, você acha que existem diferenças entre as creches públicas e as
creches particulares?
Beatriz: Ah, eu acredito que sim.
Elaine: Quais seriam essas diferenças?
Beatriz: Ah, acho que a quantidade das pessoas que trabalham, deve ter talvez
mais conforto; a alimentação, talvez, mais completa.
Elaine: Na particular?
Beatriz: Isso.
Elaine: E por que você acha que existem essas diferenças?
Beatriz: Ah, porque tudo que é público, a gente vê que sempre falta alguma coisa,
nunca é... você vê hospital público e hospital particular, tome como base um
hospital público e um particular. Acho que na particular, você consegue, talvez,
arrecadar mais dinheiro para suprir todas as necessidades, não tem nenhum
desvio que geralmente a gente conhece no público. No público, o dinheiro, às
vezes, não vai, tem aquele dinheiro para suprir as necessidades, mas, às vezes, o
dinheiro não chega. Mas, assim, eu estou te falando sem conhecer (risos). Às
vezes, eu posso estar falando besteira...
Elaine: Não, não, me interessa saber mesmo as suas impressões, mesmo que
você não conheça muito a fundo, não tem problema.
Beatriz: Eu estou falando mais assim como eu vejo assim o geral no nosso país
como funciona, então eu acredito que a creche é a mesma coisa, mas, de repente,
eu estou enganada.
347
Elaine: E você acha que existiria alguma diferença entre os bebês que freqüentam
a creche pública e aqueles que freqüentam a particular?
Beatriz: Os bebês? Talvez, os bebês em si não, porque eles ainda estão, não têm
ainda muita formação assim. Escola eu acho que já começa, dá aquela diferença,
mas o bebê, talvez eles fiquem mais espertos, se desenvolvam mais rápido que
uma outra criança que... não sei te falar...
Elaine: Esses que você está falando... esses que se desenvolvem mais rápido...
Beatriz: Eu acho assim se a criança tiver mais atenção, não importa se é
particular ou Estadual, mas se ela tiver bastante atenção e for estimulada, eu acho
que ela se desenvolve bem, agora se, talvez, na creche que é pública não tiver
esse estímulo... não que ela não se desenvolva, mas talvez vá mais devagar
assim o desenvolvimento dela. Eu sei que pelo que o pediatra fala, a gente tem
que estimular bastante um bebê, quanto mais você estimular mais ele vai ficar
mais esperto.
Elaine: Pensando agora em um contexto mais específico, das suas vivências e
experiências, eu gostaria que você fizesse uma breve descrição da sua família
(sua idade e a do seu marido, sua escolaridade e profissão, bem como a do seu
marido, se vocês têm alguma religião).
Beatriz: Bom, eu vivi com os meus pais, meu marido foi criado pelos avós, já que
os pais dele se separaram e ele foi criado com a avó. Eu tenho 37 anos, meu
marido vai fazer 40. Nós namoramos desde que eu tinha 16 anos, então já são 20
anos juntos. Estamos casados há 10 anos e há uns 4 anos pensamos em ter um
bebê, fizemos uns exames e foi constatado que teríamos que fazer fertilização. Eu
fiz 4 tentativas e só na última engravidei. Eu estava esperando gêmeos, mas perdi
um bebê logo no início e ficou só ela. Eu trabalho com os meus pais e meu marido
também, temos um negócio familiar, como eu havia dito antes. Meu marido veio
trabalhar com a gente bem antes de casarmos depois que ele saiu da empresa
XYZ onde ele trabalhava. Ele tem o ensino médio e alguns cursos técnicos. Eu fiz
administração e trabalho com a parte de finanças e é uma parte bem estressante,
vários aspectos podem afetar essa parte, por exemplo, se sai algum pacote, vários
aspectos externos acabam influenciando. Passamos por um momento conturbado
na empresa, já tivemos que demitir muita gente. A empresa já teve 29
funcionários, hoje tem 5. Em termos de religião, falamos que somos católicos, pois
eu sou batizada, também batizei a bebê, mas somos mais praticantes do
espiritismo, nos guiamos mais pelo espiritismo, lemos Allan Kardec, já cheguei a
freqüentar centro kardecista.
Elaine: E aqui mora você...
Beatriz: Meu marido e a bebê.
348
Elaine: Como você se recorda dos cuidados e educação que você recebeu
quando era criança?
Beatriz: Ah, minha mãe não trabalhava fora, eu ficava com ela. Meu pai também
era presente, mas como ele trabalhava bastante eu ficava mesmo mais com ela.
Minha mãe foi trabalhar só quando eu já era adolescente. Eles me passaram bons
valores, puderam me colocar na escola particular no primário e 1º grau.
Elaine: Antes, você foi para a EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil] aos 4
anos e ficava com a sua mãe no outro período?
Beatriz: É, não lembro se eu ia para a escola de manhã ou à tarde, mas ficava o
restante do tempo com a minha mãe.
Elaine: Tinha mais algum familiar ou outra pessoa em casa que também ficasse
com você?
Beatriz: Não, ficava só com a minha mãe mesmo.
Elaine: O que você pensa da educação que você recebeu? Ou do que recebeu de
seus pais, o que você gostaria de transmitir para a sua filha ou adotar na
educação dela?
Beatriz: Ah, mais os valores, ajudar a formar um bom caráter, formar com bons
exemplos, não discutir na frente dela.
Elaine: E o que você recebeu que gostaria de modificar em relação à educação
da sua filha? Gostaria de fazer algo diferente?
Beatriz: Acho que não, mas tentaria fazer com que ela possa ser calma. Minha
mãe era mais agitada e eu acho que eu acabei ficando também mais agitada e
mais ansiosa. E isso não foi bom, porque a gente acaba sofrendo também por ser
ansiosa. Acho que minha mãe passou um pouco também de insegurança e não
queria passar isso para a minha filha.
Elaine: E o que você acha de ter sido, na sua infância, cuidada pela sua mãe e de
ter ido para a EMEI aos 4 anos? Que avaliação você faz disso?
Beatriz: Eu acredito que ter sido cuidada pela minha mãe foi o mais acertado, não
mudaria nada na minha educação e o fato de ter freqüentado a EMEI a partir dos
4 anos também foi o mais acertado, pois acredito que para a criança é bom o
convívio com outras.
Elaine: Ahamm... Agora, vamos falar sobre licença-maternidade. O que você sabe
sobre essa licença?
Beatriz: Sei que são 120 dias e parece que agora passou para 180 dias, 6 meses.
349
Elaine: Você contou que não usufruiu da licença, que voltou a trabalhar 40 dias
após o nascimento da sua filha...considera que este tempo foi adequado ou
suficiente?
Beatriz: Não foi adequado nem suficiente. Na realidade, eu tinha me planejado
para ficar os 4 meses de licença, mas acabou não sendo possível devido a um
período conturbado na empresa. Tinha uma outra funcionária que também saiu de
licença, como eu já havia comentado, então eu tive que voltar antes e também
uma negociação que não deu certo, então não deu para eu ficar afastada. Eu
queria ter engravidado antes, em outros momentos, mas a gente sempre pensava
“ah, agora ainda não dá, é melhor esperar”, só que aí cheguei em uma idade que
não dava mais para esperar para engravidar. E o momento na empresa não foi
dos melhores para que eu pudesse ficar com a minha filha mais tempo em casa.
Elaine: O que você acha do projeto de lei que foi aprovado e que permite
prorrogar a licença passando de 4 para 6 meses?
Beatriz: Acho que é bom para as famílias, mas não é bom para as mulheres, pois
algumas empresas não vão querer contratar mulheres por causa de mais 2 meses
longe do trabalho. Para a empresa é um custo grande pagar alguém que não está
trabalhando.
Elaine: Qual seria o tempo “ideal” de licença maternidade?
Beatriz: Acho que seriam mesmo os 4 meses, é um tempo para a família se
adaptar, acho que o bebê já interage, reconhece mais os pais.
Elaine: E o que você sabe sobre licença paternidade?
Beatriz: Nada.
Elaine: O pai dela usufruiu de licença paternidade? Por quanto tempo?
Beatriz: Não, ele também teve que trabalhar. Não deu para se ausentar da
empresa.
Elaine: O tempo previsto em lei da licença paternidade é de 5 dias. Você
considera este tempo adequado?
Beatriz: Não, acho pouco tempo para ficar com a família. São muitas mudanças.
Só para a mulher tirar os pontos, como eu que fiz cesárea, são 15 dias e a
recuperação é um pouco mais demorada. Eu ainda contei com a minha mãe que
ajudou bastante, mas nem todo mundo pode contar.
350
Elaine: E o que você acha do projeto que propõe a ampliação de 5 para 15 dias
da licença paternidade? Qual seria o tempo que você considera “ideal” para os
bebês e para as famílias?
Beatriz: Acho que 15 dias já seria um período melhor para a família e para os
bebês, acho que quanto mais tempo o bebê passa com os pais melhor. Mas não é
bom para as empresas.
Elaine: Você tem a visão dos dois lados...
Beatriz: É, eu vejo dos dois lados, do lado da família, mas também da empresa. É
um custo muito grande para a empresa. Se você é funcionário pode tirar, voltar
depois de 4 ou 6 meses, no caso da mulher, e seu cargo está lá ou você pode ser
demitida. No caso do patrão, não dá para tirar, não dá para ficar tanto tempo longe
do trabalho ainda mais no meu caso que a empresa é da família. É diferente se eu
trabalho em um lugar e meu marido em outro. Se ele perde o emprego, eu ainda
tenho o meu. No nosso caso não, eu e meu marido dependemos da empresa e
meus pais também. Então não dá para ficar tanto tempo longe.
Elaine: E como se deu a escolha, a decisão de que vocês levariam a sua filha
para o trabalho e que sua mãe ficaria cuidando dela lá? Você conversou com seu
marido sobre isso?
Beatriz: O que a gente tinha planejado era que eu ficaria de licença maternidade
os 4 meses, mas acabou não dando certo. Eu achava também que dependendo
da situação da empresa, se as coisas tivessem dado certo que eu conseguiria
ficar mais alguns meses em casa com ela, pois já faz muito tempo que também
não tiro férias e esperava poder ficar esse tempo a mais com ela, mas isso acabou
não acontecendo por problemas na empresa e eu tive que voltar antes. Foi meio
que um consenso entre eu, meu marido e meus pais que a melhor opção seria
levar minha filha para o trabalho, até porque há espaço lá para ela e seria ótimo
ela ficar por perto. Eu estou lá, o pai está lá e os avós também.
Elaine: Em algum momento cogitou parar de trabalhar ou sofreu algum tipo de
pressão para parar de trabalhar e cuidar pessoalmente do bebê em casa?
Beatriz: Não sofri pressão, mas já cogitei sim parar de trabalhar. Se as coisas
estivessem bem na empresa, talvez eu tivesse ficado em casa com ela.
Elaine: O que as pessoas conhecidas falaram sobre a escolha ou escolheram
para seus bebês?
Beatriz: Ah, as pessoas só acham bom que eu possa levá-la para o trabalho
comigo. Se fosse uma gerente de banco, por exemplo, isso seria impossível.
Conheço pouca gente que comenta mais, minhas primas no interior tem um
mercadinho, então os filhos também estão por perto. Tem uma outra amiga que
351
contratou uma babá. Sei o que elas escolheram, mas não comentamos muito
sobre a decisão de cada uma.
Elaine: Essa sua decisão de levar sua filha com você para o trabalho e sua mãe
cuidar dela lá, você também a recomendaria para outros pais/bebês, ou considera
que é algo mais pessoal?
Beatriz: Para a mãe que puder levar junto talvez seja a melhor opção, mas se a
mãe precisa voltar a trabalhar e não tem com quem deixar, se não tem mãe ou
sogra para ficar, talvez tenha que colocar na creche. Agora, se a mãe pode parar
de trabalhar, se o marido tem um salário que dá para ela parar de trabalhar por um
tempo, talvez seja o melhor ficar com a criança até uns 4 anos. As mulheres
lutaram muito para ter mais direitos, mas eu, por exemplo, hoje, estou bem
sobrecarregada, pois antes trabalhavam 4 no escritório e hoje estou sozinha, além
disso, fico ajudando minha mãe a cuidar da minha filha também. Se eu pudesse
parar de trabalhar ficaria com a minha filha em casa e talvez colocasse na escola
já com uns 2 anos. Acho que daí não sacrificaria muito ela e já seria melhor, aí ela
já estaria falando e poderia me contar se acontecesse alguma coisa. Acho que eu
quis tanto que ela nascesse que seria muito triste se eu não pudesse ficar com a
minha filha.
Elaine: E como é para a sua mãe cuidar da sua filha lá na empresa?
Beatriz: Minha mãe mudou muito. Antes, acho que porque nós tivemos dificuldade
para engravidar, ela não incentivava muito não. Dizia que já tinha cuidado da filha
dela e que não ia querer saber de cuidar de neto. Mas, mudou completamente e
adora ficar com a minha filha. Todo o tempo, ela diz “pode deixar que eu fico, se
precisar eu fico”.
Elaine: Há, para você, alguma diferença entre o termo escola e o termo creche?
Beatriz: Ah, acho que creche é pública e escola é particular. Mas, EMEI [Escola
Municipal de Educação Infantil] também é escola e é pública. Não sei, acho que a
diferença é mais essa mesmo, só uma questão de nome.
Elaine: O que você achou do tema e da entrevista? Quer fazer algum comentário?
Beatriz: Achei o tema válido, espero ter ajudado, mesmo sem conhecer muito
sobre creche ou meio de fora dessa realidade das creches aqui de São Caetano.
Você está fazendo a pesquisa para a sua tese?
Elaine: Sim, ajudou muito com certeza, e eu queria saber mesmo o que você
pensava, o que você ficou sabendo através dos comentários de outras pessoas ou
da televisão, sobre as suas decisões e escolhas. Estou fazendo sim minha tese de
doutorado em Psicologia Social.
Beatriz: Você é psicóloga de criança?
352
Elaine: Não sou psicóloga clínica, eu trabalhei com crianças na área de educação
infantil. Você já tinha participado de alguma entrevista de pesquisa antes?
Beatriz: Não, foi a primeira vez, espero ter ajudado.
Elaine: Ajudou sim, muito obrigada. Eu gostaria que você escolhesse nomes para
você e para sua filha para eu utilizar na pesquisa, procurando, como eu havia
falado antes, garantir o anonimato.
Beatriz: Para mim, pode ser Beatriz e para ela, Mariana.
Elaine: Ok, e como eu te falei, enviarei uma cópia da transcrição da entrevista
para você. Obrigada mais uma vez pela participação e disponibilidade!
353
Transcrição sexta entrevista
Entrevistada: Manuela, 27 anos, arquiteta, trabalha como vendedora em uma
boutique de luxo, mãe de João, 3 meses.
Elaine: Então, primeiro eu quero te agradecer pela disponibilidade, pela
participação...
Manuela: Imagina!
Elaine: A pesquisa tem um primeiro bloco de questões que é mais genérico...
Manuela: Tá.
Elaine: Pensando em um contexto, mais geral, você acha que a sociedade ou o
Estado têm algum dever para com os bebês, têm alguma responsabilidade?
Manuela: Se eles já têm hoje em dia?
Elaine: Se o Estado ou a sociedade têm alguma responsabilidade para com os
bebês?
Manuela: Não, acho que não.
Elaine: Deveria ter? Ou de quem seria essa responsabilidade?
Manuela: Deveria ter. Uma das coisas que eu fiquei impressionada foi das
vacinas que a minha médica me explicou, a diferença da vacina do posto de
saúde e a vacina particular que você paga, que tem aquela coisa do vírus, a que
você toma no posto de saúde o vírus é vivo na vacina, você sabia disso? O vírus é
vivo na vacina e aí se o bebê toma, ele corre risco de ter a doença que ele tomou
a vacina. E na particular não, o vírus é morto, entendeu, tipo se ele [bebê] tomar
ele não vai ter nunca, entendeu, só que você tem que pagar muito além. Então, eu
acho que o Governo não tem nenhuma responsabilidade com os bebês, eu acho
que não.
Elaine: Então, mas você considera que ele deveria ter?
Manuela: Deveria ter, com certeza.
Elaine: Não seria uma responsabilidade só da família, por exemplo?
Manuela: Não, acho que não. Depende também, se for uma mulher que tem 6, 8,
10 filhos, sabe aquela pessoa que tem milhões de filhos, aí já é um caso que não
sei, já é de se pensar.
354
Elaine: E o que o Governo ou a sociedade deveriam oferecer, então, para os
bebês?
Manuela: O que deveriam oferecer para os bebês? Isso da vacina é uma coisa.
Elaine: Ahamm...
Manuela: É que eu não sei muito sobre essas coisas do Governo e parte Estadual
essas coisas, porque tudo dele [bebê], eu faço tudo particular. A gente se
desdobra para pagar (risos).
Elaine: Ahamm...
Manuela: Então, eu não sei muito, mas o que eu sei, por exemplo, da vacina é
uma coisa que eu acho que deveria ser diferente.
Elaine: Isso chama a sua atenção...
Manuela: É.
Elaine: As crianças brasileiras de 0 a 3 anos de idade têm direito à creche desde
1988, com a Constituição, mas somente 18,1% das crianças nessa faixa etária
freqüentam creche, enquanto que quase 80% de crianças de 4 e 5 anos já
freqüentam a pré-escola. O que você pensa sobre isso?
Manuela: Isso você fala de São Paulo?
Elaine: No geral, no Brasil.
Manuela: No geral. O que eu sei assim é que aqui em São Caetano, por exemplo,
se eu quiser colocar o João em uma escola ou em uma creche, eu tenho que ter
algum contatozinho ali político, porque não dá, todas as creches estão lotadas,
esse pessoal aqui de fora que fica envolta de São Caetano, a galera, todo mundo
vem para cá, dá um jeito de comprovar endereço e tal.
Elaine: O pessoal que mora em São Paulo ou em outras cidades...
Manuela: É, ao redor assim de São Caetano, está tudo em creche aqui, em
creche e escola ocupando vaga de pessoas que realmente moram aqui, tipo sabe,
as madames que colocam o filho da empregada, sabe essas coisas. E eu acho
isso uma sacanagem porque, afinal de contas, uma escola, um berçário, hoje em
dia, custa R$ 1500,00 no particular, entendeu. Você paga R$ 1500,00 para o seu
filho (risos) ficar lá dormindo, comendo, acho meio complicado. Se tivesse, eu
colocaria sim.
Elaine: Se tivesse vaga, você colocaria em creche aqui em São Caetano?
355
Manuela: Aqui em São Caetano, eu colocaria porque eu já ouvi falar que é muito
boa. Então, eu colocaria sim.
Elaine: E você acha que o maior fator para essa diferença de 80% das crianças
mais velhas já estarem na pré-escola e das menores nem 20% freqüentarem
creche é a questão das vagas?
Manuela: Não, eu acho que não, acho que não é uma questão de vaga. Não sei...
ainda não cheguei nessa parte, ele está com 3 meses ainda, não sei. É que eu
nunca tive muito contato assim com criança tal, quer dizer, sempre esteve
presente na minha vida, mas eu nunca fui muito apegada, de fazer parte da vida
do bebê, sabe essas coisas, só o meu filho agora, que eu estou amando aquela
coisinha linda (risos).
Elaine: (risos) E, por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam
ou não se mobilizam pela questão dos direitos dos bebês ou pelas políticas de
creche?
Manuela: Por que?
Elaine: Por que você acha?
Manuela: Por que eles não se mobilizam?
Elaine: Ou se você acha que eles se mobilizam...
Manuela: Eu acho que quando tem um bebê, quando cada casal tem um bebê
assim, alguma coisa, aí que para pra pensar realmente nas coisas, assim em
escola, em hospital, sabe essas coisas, em plano de saúde. Eu acho que só
passando mesmo. Antes de eu ficar grávida, eu nem imaginava, nem pensava
nisso “por que eu vou pensar?”.
Elaine: Então você acha que é quando o casal está vivendo a experiência, aquela
necessidade, a partir daquele momento....
Manuela: É, a partir do primeiro filho, aí começam as preocupações. Eu acho que
é isso, não sei. Você tem filhos?
Elaine: Eu não. Mas, assim, fique tranqüila, são sempre as suas respostas
realmente que me interessam, o que você souber, o que você achar...
Manuela: É porque tem um monte de coisa que eu não sei, estou aprendendo
agora.
Elaine: Não se preocupe com isso não... Continuando nessa parte de questões
mais genéricas, como é que os adultos, incluindo aí os políticos e a sociedade em
356
geral, poderiam se mobilizar para procurar atender esses direitos dos bebês à
creche ou agir mais ativamente em relação às políticas de creche?
Manuela: Como?
Elaine: Ahamm...
Manuela: Como eles poderiam se mobilizar para fazer isso? Eu não sei como
funciona uma creche hoje em dia. Eu acho que a criança vai lá, fica o dia inteiro e
tudo. Mas, como eles poderiam se mobilizar para que isso funcionasse?
Elaine: Ahamm... Para que mais bebês pudessem, por exemplo, ter acesso?
Manuela: Tendo mais, o Governo fazendo mais [enfática] escolas, mais
escolinhas, mais creches, essas coisas. Eu acho também que é importante as
empresas terem creche, terem berçário, essas coisas. Eu tomei um susto essa
semana, antes de ontem, porque eu achei que eu fosse voltar a trabalhar só no
final de fevereiro e não, vou voltar agora depois do Carnaval, eu tenho que voltar a
trabalhar. E eu não tinha me programado para isso, entendeu?
Elaine: Então, você está usufruindo agora da licença maternidade...
Manuela: Estou. Então, eu vou voltar a trabalhar agora e ele [bebê] não está
pegando leite, sabe, são várias as coisas que você tem que mudar e se eu não
conseguir, entendeu. Se tivesse uma creche lá, aonde eu trabalho, se tivesse um
berçário, alguma coisa assim, eu levaria ele junto, entendeu. Eu deixaria ele lá, aí
parava, dava mamá, entendeu, tudo bem que levaria muito mais tempo. Eu
trabalho 6 horas, mas se eu pudesse fazer isso, eu trabalharia até mais, porque eu
ficaria um período maior lá para compensar o horário da mamada e o horário que
eu estou trabalhando. Eu acho que é importante, acho que deveria ter. Mas, não
é, não são todas que têm, não sei nem se tem em alguma.
Elaine: E você, particularmente, se preocupa ou se mobiliza sobre isso de alguma
forma? Você comentou que só passou a pensar sobre esses assuntos depois que
teve o bebê...
Manuela: Eu só comecei a pensar nisso, nem quando eu estava grávida, eu
comecei a pensar nisso depois que eu tive ele e assim, não foi nem no primeiro
mês, porque no primeiro mês você ainda está em surto né, você ainda está
assustada. Eu comecei a pensar mais agora que ele está melhorando assim de
comportamento, que agora vou ter que deixar ele, não vou deixar ele na escolinha,
vou deixar ele com a minha sogra, porque a minha sogra não trabalha. Então,
você tem um pouco de medo assim de deixar, agora é que eu estou começando a
ver essas coisas, eu não sei. Tem uma amiga minha que ela viu aqui umas
escolas em São Caetano, elogiou algumas, e ela colocou no XWZ [escola infantil
particular] aqui em São Caetano e está gostando. O bebê também está adorando
e tem a mesma idade que o João. Então, é isso, agora é que eu comecei a ver.
357
Elaine: Ahamm... Agora, pensando um pouquinho sobre bebê, você poderia
descrever um bebê para mim? O que vem à cabeça quando a gente fala bebê?
Manuela: Ah! Meu filho! (risos), não tem outro...
[breve interrupção para a entrevistada atender ao telefone]
Manuela: Um bebê?
Elaine: Ahamm...
Manuela: Meu filho [enfática]! As bochechas dele, apertar muito, a risada que ele
me dá de manhã (sorrisos), um bebê vem ele à cabeça, óbvio.
Elaine: Ahamm... Mas, e o que caracterizaria um bebê para você? O que é um
bebê, se alguém fala “um bebê” qual imagem você faz? Agora, você me disse que
depois que o João nasceu, um bebê é ele. Mas, e antes, qual era a imagem que
você tinha de um bebê?
Manuela: Agora, é ele, não tem como. Antes? Um bebê para mim era, tipo, era
um E.T. porque eu não sabia trocar fralda, eu não sabia fazer nada. Então, antes,
era, sei lá, um bebê, eu nem pensava nisso. Eu pensava assim “um dia eu quero
ter um filho”, mas um dia bem distante (risos), o João não foi programado (risos).
Elaine: Ahamm... E o que caracterizava um bebê, que imagem você tinha?
Manuela: Ah, só coisas boas, porque, afinal de contas, um bebê só traz coisa boa,
eu acho, mesmo com dificuldades que você tem para cuidar etc. Mas é só uma
energia boa, é isso que vem à minha cabeça, eu acho.
Elaine: E você acha que tem alguma coisa que diferencia um bebê de uma
criança pequena?
Manuela: O bebê, de uma criança tipo de 1 ano?
Elaine: Pode ser, o que você achar...
Manuela: Tem, lógico que tem. Um bebê está ali total à sua disposição. Você
pega ele no colo, ele chora... uma criança de 1 ano começou a andar você não
segura mais, não quer saber de colo, não quer saber de nada. Eu acho que eles
ficam mais exigentes assim do que quando ele é bebezinho.
Elaine: Você acha que com 1 ano, diferencia? Muda, tem uma mudança?
Manuela: Tem.
358
Elaine: Bebê iria até mais ou menos 1 ano e depois já seria criança pequena?
Manuela: Não, acho que bebê vai até uns 6 meses, 7 ou 8 meses, porque depois
ele... Ele já [enfática] exige muita coisa, por exemplo, ele quer assistir TV e se
você tira ele da TV, ele começa a berrar, entendeu. Aí, você volta de novo e ele
“ai, ai” faz aquele soluço assim e para. Ele já começa a exigir coisas.
Elaine: E o que mais você acha que teria de diferenças entre o bebê e o que você
já chamaria de criança pequena?
Manuela: Ah, comida, eles comem, a alimentação é diferente, ah, o cocô, as
coisinhas são diferentes (risos), não sei, começa a falar também, acho que é isso.
Elaine: Isso que marca mais essa diferença...
Manuela: Eu acho que é. Conforme vai desenvolvendo vai... não tem como ser
igual, o primeiro mês já não é igual ao segundo. Uma semana para ele já faz muita
diferença.
Elaine: E para você, então, bebê seria até mais ou menos uns 6, 7 meses...
Manuela: Acho que sim, até aquela época que você está ainda com ele no colo,
ainda mamando sabe. Deixa eu pegar ele, você vai conhecê-lo.
[breve interrupção para a entrevistada pegar no colo o bebê que tinha acabado de
acordar]
Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados e educados?
Qual seria a melhor maneira de educá-los?
Manuela: Ah, com muito amor, nada de tapas. Eu acho que conversar, eu já
percebi uma coisa, uma bela diferença quando você pega ele, por exemplo, você
tem que trocar, vai um exemplo, qualquer coisa que você vai fazer, se você pega
ele e simplesmente vai e troca, ele berra. Se você pega e fala “oi, vamos trocar”,
não sei o que, “vamos tirar essa fralda, mamãe vai ter que trocar você”, se você
vai falando tudo, ele te ouve e não fica... Ele não chora, sabe, ele sabe o que você
está fazendo, acho que ele entende, entendeu?
Elaine: Ahamm...
[pequena pausa – os pais da entrevistada entram na sala e brincam um pouco
com o bebê]
Elaine: Então, você estava falando com muito amor, sem tapas...
Manuela: Com muita conversa e paciência, porque precisa de muita (risos).
359
[o pai da entrevistada pergunta se a entrevista é sobre pós-parto e a entrevistada
responde que é uma pesquisa minha e eu comento que a pesquisa é sobre o
bebê, seu cuidado e educação]
Elaine: E além dessas coisas que você comentou, do amor e desse cuidado, o
que mais um bebê necessita para a vida dele, para estar bem, feliz?
Manuela: Do que ele necessita? Ele necessita de educação, de escola, aprender
muito, brincar muito, acho que ele precisa brincar muito, acho que isso é muito
importante. Eu acho que isso.
Elaine: Ahamm... E qual seria a rotina do bebê em casa? Como é a rotina em
casa e se você consegue pensar como seria a rotina de um bebê na creche?
Manuela: Olha, na minha casa, ele mama muito, muito, demais, demais. Ele toma
banho à noite e adora tomar banho, está naquela fase que adora e berra muito
quando sai do banho, eu não estou conseguindo dar suquinho nem nada disso
entendeu. Então, a rotina dele na minha casa é isso: mama, come, dorme, toma
banho e assiste TV, é isso o que ele faz. E brinca um pouquinho. Agora, na
creche, acho que nessa idade, não seria muito diferente, porque ele não faz mais
nada que isso entendeu. Agora, mais pra frente, acho que ele vai brincar bastante,
fazer amizades, bastante amiguinhos, eu acho, vamos ver como é que vai ser.
Elaine: E como é que você se instruiu ou aprendeu sobre os cuidados para com o
bebê?
Manuela: Eu li alguns livros quando eu estava grávida, mas eu não fiz nenhum
curso dessas coisas de gestante nada e quando eu tive ele eu não sabia nem
trocar uma fralda. Foi um instinto assim que veio automático, entendeu. Eu não
sabia trocar fralda, eu não sabia dar de mamar, aprendi na maternidade, que elas
me ensinaram, não sabia dar banho, eu aprendi tudo quando ele nasceu. Tem
gente que faz, eu tenho uma amiga que fez [curso] de parto também, que ela teve
parto normal, ela teve na Itália e lá eles não fazem cesárea. Então, ela fez e falou
que foi super legal. Eu não fiz, achei que não tinha necessidade de fazer.
Elaine: Ahamm...
Manuela: E me dei super bem.
Elaine: Foi parto normal também?
Manuela: Não, eu fiz cesárea.
Elaine: E você não fez o curso porque não queria ou achou que não precisava...
Manuela: Eu achei que não precisava. Eu li alguns livros.
Elaine: Você lembra o nome de algum?
360
Manuela: Ai, não lembro, mas se você quiser depois posso te passar.
Elaine: Você tinha comentado um pouco, você não tinha tido nenhuma
experiência anterior de cuidar de bebê né... nem de irmão, sobrinho...
Manuela: Nada. Só aquela coisa de você chegar em algum lugar, está lá o bebê e
você “ai, que bonitinho...”, pega 5 minutos no colo, estraga, dá uma coca-cola e
depois devolve para a mãe (risos).
Elaine: (risos). Ahamm... Agora, vamos passar a falar um pouco mais sobre
creche... O que vem à sua cabeça quando a gente fala creche? O que esse termo
traz, evoca para você?
Manuela: Um lugar cheio de crianças com várias tias (risos) que cuidam do seu
bebê, do seu filho, um monte de criança, vem isso na minha cabeça.
Elaine: E essas “tias” têm alguma característica?
Manuela: Não. Eu não fui fazer nenhuma visita ainda.
Elaine: Ahamm... Não conhece nenhuma creche....
Manuela: Não, não fui fazer nenhuma visita, mesmo porque a gente decidiu que
ele vai ficar com a minha sogra, então, eu não precisei ir ver as escolas.
Elaine: Nem pública, nem particular...
Manuela: Não, não vi nenhuma.
Elaine: E para que serve uma creche?
Manuela: Para cuidar dos bebês [enfática], das crianças, para dar educação,
ensino. Eu não sei se elas ensinam coisinhas. Acho que elas devem estimular né
com brinquedos e essas coisas. Sem dúvida, elas não colocam [os bebês] na TV,
eu acho, não sei, eu acho (risos).
Elaine: E você acha isso bom ou ruim?
Manuela: De não colocar na frente da TV?
Elaine: É.
Manuela: Acho bom, porque estraga. Olha eu estragando o meu filho todo dia!
(risos)
Elaine: E a quem se destina a creche?
361
Manuela: Às crianças e aos bebês.
[os pais da entrevistada se despedem e saem]
Elaine: Você sabe se tem alguma creche pública aqui no bairro?
Manuela: Tem, tem. Tem sim. Aonde é? Aqui em São Caetano tem várias
creches. Você conhece alguma? É que eu não sei o nome dela. Tem uma ali no
XZ [outro bairro de São Caetano, um pouco distante de onde estávamos].
Elaine: Você mora neste bairro também?
Manuela: Eu moro aqui, um quarteirão para cima.
Elaine: Ah, tá, então você mora aqui no mesmo bairro que seus pais...
Manuela: É, é que eu venho aqui todos os dias para fazer ginástica (risos).
Elaine: Ahamm... Então você sabe que tem creche aqui no bairro, mas, como
você já disse, não chegou a visitar...
Manuela: Tem, mas não fui visitar nem a municipal, nem a particular, nenhuma
das duas.
Elaine: Você comentou que tem uma amiga que colocou o bebê na creche
particular... e na creche pública, conhece alguém que trabalha ou que usa?
Manuela: Eu conheço as sobrinhas de um amigo meu. Elas são gêmeas e elas
ficam nessa que eu te falei do outro bairro.
Elaine: Ahamm... Na pública...
Manuela: É, e ele me falou que é ótima [enfática], elas estão super bem, adoram
ir para a escolinha, então eu sei dessa.
Elaine: E você conhece alguém que utiliza ou que trabalhe em outra creche em
outra cidade?
Manuela: Não, que trabalhe não.
Elaine: E essa sua amiga que tem a bebê em uma creche particular, o que ela
comenta sobre a creche?
Manuela: Ela gosta sim. O bebê começou faz 2 semanas e já está se adaptando
super, está gostando de ir, que ele fica numa boa, sem problema nenhum. Hoje
362
em dia, tem aquelas coisas de você ficar vendo pela internet e ela [mãe do bebê]
fica lá acessando (risos).
Elaine: Ahamm... E o que você acha disso?
Manuela: Eu acho muito bom, porque você não confia né 100%, então, pelo
menos no começo, se você tem isso, então acho que te dá um pouco mais de
segurança. Eu acho.
Elaine: E essa sua amiga trabalha?
Manuela: Ela trabalha e já voltou a trabalhar já.
Elaine: Com base nos comentários que você ouviu, você tem alguma avaliação
sobre as creches de São Caetano?
Manuela: Sobre o que eu já ouvi falar, sobre o que as pessoas falam, é que é
muito boa a creche em São Caetano, que vale muito à pena colocar, que nunca
teve problema nenhum com nada, mas eu não sei, como não aconteceu comigo e
com ninguém da minha família, entendeu.
Elaine: Você acha que tem diferença entre a creche pública em São Caetano e a
de outros municípios?
Manuela: Ah, acho que deve ter. São Caetano é uma cidade muito pequena. Acho
que é mais fácil de controlar do que uma creche em São Paulo, por exemplo,
pública de São Paulo. Acho que deve ter diferença sim.
Elaine: O que seria mais fácil controlar?
Manuela: Controlar assim a forma de como eles vão cuidar das crianças, a
maneira como eles vão fazer, eu não tenho certeza, porque eu não conheço
nenhuma creche, então não sei.
Elaine: E o que seria para você, mesmo sem conhecer, uma creche de boa
qualidade?
Manuela: Uma creche onde não tenha acontecido nada assim com uma criança,
porque tem creche que você ouve, tem casos em que você ouve falar de, sei lá,
acidentes com bebê, sei lá, que deixam cair, entendeu que é o mínimo que pode
acontecer, essas coisas assim, eu acho. E aí tem que pesquisar né. Não é porque
é pública que isso vai acontecer. Isso pode acontecer na particular também. Isso é
o de menos, eu acho.
Elaine: E o que a creche tem que ter para ela ser boa, de boa qualidade?
363
Manuela: Pessoas qualificadas para cuidar de bebê, eu acho. Além disso, o lugar
eu acho que tem que ser muito legal, um lugar aberto sabe, o espaço com
bastante brinquedo colorido eu imagino. Essa minha amiga que colocou o bebê na
escolinha foi fazer visita e tinha uma escola que ela falou “nossa, é muito escura”,
entendeu, não dá. Eu acho que é importante ter, sabe, não só deixar o bebê no
berço, por exemplo, entendeu, colocar assim ao ar livre, eu acho. Mas, eu não sei
se tem isso [enfática], entendeu. Você sabe se tem?
Elaine: Algumas sim, outras não.
Manuela: É? Eu não sei se tem. Nem todas são né.
Elaine: Nem todas têm um bom espaço físico, outras tem...
Manuela: Porque tem escolinhas que são assim micro né. Você olha, bem
pequenininhas assim que está lotada de criança e tem também essa coisa de
cada tia né, que elas falam, são responsáveis por tantas crianças, eu acho isso
importante também dar uma olhada. Essa minha amiga viu algumas que tinham 1
pessoa responsável por 25 bebês, como que, não... 3 pessoas, desculpa. Como 3
pessoas vão dar conta de 25 bebês? [enfática] Me fala, não dá! Eu acho muita
coisa. Aí, ela colocou na outra em que eram 3 pessoas para 15 bebês. Tudo bem,
é bastante também, é, mas já é mais né (risos).
Elaine: Diminui um pouco a proporção...
Manuela: É.
Elaine: E o que você acha que seria uma creche ruim ou de má qualidade?
Manuela: Ruim, acho que seria não ter pessoas qualificadas pra isso, não serem
professoras. Não ter o lugar também acho que isso é, um lugar legal também acho
que é importante. Muita gente, muito bebê para poucas pessoas cuidarem, sabe
aquela coisa de quanto mais dinheiro melhor. Eu acho que... o que mais?
Elaine: Você diz isso do dinheiro...
Manuela: Quanto mais criança tiver em creches particulares... Na municipal e na
estadual eu não sei quantas crianças são para cada professora assim, eu não sei,
não tenho nem idéia, não perguntei para essa amiga. Eu acho que é isso.
Elaine: Ahamm... E você já comentou um pouco... Você colocaria o bebê em uma
creche, em uma creche pública?
Manuela: Colocaria [enfática]. Eu acho que eu não tenho esse preconceito. Não
sei, acho que muitas vezes é preconceito isso de colocar pública e particular. Até
porque eu tenho uma massagista que o netinho dela está em uma pública e ela
364
falou que tem muito carrão que para lá com gente de dinheiro que estuda em uma
escola pública entendeu.
Elaine: Em São Caetano?
Manuela: Aqui em São Caetano. Eu acho que eu não, eu não teria esse
preconceito assim. Eu acho que é importante. Se eu conseguisse seria ótimo, se
eu não conseguir, eu preciso conhecer também, como eu nunca fui, eu sei só de
pessoas que têm, que comentam que as filhas foram e que gostam.
Elaine: Você colocaria em uma creche pública aqui em São Caetano então...
Manuela: Colocaria. Em São Paulo, eu acho que eu já não colocaria não.
Elaine: Por que?
Manuela: Não sei também, porque eu sempre morei em São Caetano, tudo,
sempre tive acesso às coisas aqui de São Caetano. Comecei a ir para São Paulo
para sair e faculdade. Então, foi o que eu te falei, São Caetano é bem mais fácil
porque é pequena, tem acesso a essas coisas assim mais fácil. Não sei se São
Paulo é assim, acho que já é mais difícil. Não sei se é uma creche para cada
zona, sei lá, zona Norte, zona Sul, não sei como funciona.
Elaine: E você colocaria o bebê na creche em período integral?
Manuela: Integral.
Elaine: E você recomendaria a creche pública para outros pais e bebês?
Manuela: Ah, se o meu [bebê] estivesse e fosse tudo bem, recomendaria sim.
Pelo que eu ouço falar, eu recomendaria.
[o bebê foi amamentado]
Elaine: A gente comentou um pouquinho sobre a questão das vagas, se você
sabia alguma coisa, se você achava que era uma oferta suficiente ou insuficiente...
Manuela: Eu acho que é insuficiente. Ou não! Ou é suficiente e as pessoas é que
fazem muita sacanagem, entendeu, porque foi aquilo que eu te falei de gente de
fora, de colocar o filho da empregada, de dar apoio assim para essas coisas, por
exemplo, tem um monte de gente... outro dia, eu estava saindo do meu prédio e
tinha uma assistente social na frente do prédio, não sei se ela ia fazer uma visita,
alguma coisa. Aí passou um moço que eu acho que conhecia ela e eu estava
saindo com o João no carrinho, aí ele virou para ela e falou assim “o que você
acha de mandar colocar um policial em cada saída de São Caetano, em cada
entrada em horário escolar, porque aí eles vão parando todos os carros e
perguntando onde você mora, para onde você está indo, em que escola o seu filho
365
estuda, faz uma pesquisa para ver quantas pessoas de fora estão estudando aqui,
porque assim vamos ver se eu consigo uma vaga para o meu filho”, mas assim
brigando com ela entendeu. E aí eu passei e dei risada, tipo, “ah, eu também sei
disso que você está falando”, entendeu, então acho que é meio um absurdo
assim.
Elaine: Ahamm... Então, você está falando que talvez aqui não seja um problema
de vagas, mas do uso por parte de outras pessoas de outras cidades...
Manuela: É, exatamente.
Elaine: E você acha que existe diferença entre a creche pública e a creche
particular?
Manuela: Acho que sim.
Elaine: Quais seriam essas diferenças?
Manuela: Talvez, a particular tenha mais pessoas para estarem ali em cima, não
sei se a pública tem. Não sei, às vezes, eu tenho um pouco de impressão que a
pública, é o que eu te falei, é um preconceito que eu não gostaria de ter entendeu,
tipo de por ser pública a gente cria um pouco de preconceito como eu te falei, uma
impressão de que vão deixar seu filho largado, que se ele começar a chorar,
principalmente porque ele é bebezinho, que ele vai ficar lá largado entendeu. Mas,
acho que isso, talvez, seja impressão.
Elaine: Você tinha falado que na particular, talvez, tenha mais gente para ficar em
cima, no sentido de...
Manuela: É, eu acho que mais gente para ficar em cima se tipo, se ele chorar...
não se ele chorar, mas no sentido de cuidar mais, não deixar largado assim.
Elaine: Você acha que vai ter mais gente trabalhando, mais profissionais?
Manuela: Também. Eu acho que vai ter mais... eu acho que é mais regularzinho,
ai não, não é isso, fugiu a palavra. Por exemplo, eu não sei se em uma escola
pública você tem que deixar o bebê com tanto de comida, entendeu, eu não sei
como que funciona. Eu sei como funciona a particular, porque a minha amiga
colocou o bebê dela lá. Então, na hora em que você leva, você já tem que levar o
leitinho, você já deixa tudo pronto e a menina que vai estar lá só vai dar a mama
para ele, vai fazer isso, vai fazer aquilo. Eu não sei se na pública é assim também,
não sei como funciona. Deve ser né, porque também... é assim? (risos)
Elaine: (risos) Não posso te falar porque só conheço algumas, não conheço
todas... E por que você acha que essas diferenças entre a pública e a particular
existem ou podem existir?
366
Manuela: Por que elas podem existir ou existem?
Elaine: Ahamm...
Manuela: Talvez por ser melhor remuneradas, pode ser? Acho que pode ser por
isso.
Elaine: Você acha que têm mais recursos...
Manuela: Acho que sim, do que a municipal. Acho que a particular tem mais
recursos, com certeza.
Elaine: E com mais recursos, ela poderia então ter mais profissionais para cuidar
e dar uma atenção mais próxima?
Manuela: Eu acho, eu acho que sim.
Elaine: E você acha que existe alguma diferença entre os bebês que freqüentam
a creche pública e os que freqüentam a creche particular?
Manuela: Não, acho que não, acho que não, foi aquilo que eu falei que a minha
massagista contou que tem vários carrões que param lá na frente, acho que não é
porque a pessoa é pobre que ela vai para uma escola municipal, acho que não
tem diferença não.
Elaine: Agora, estamos mais ou menos na metade da entrevista e eu gostaria que
você fizesse uma descrição da sua família, falasse um pouquinho sobre você, seu
marido, em termos de idade, escolaridade, tipo de trabalho, religião...
Manuela: Olha, eu e ele nós somos católicos, mas não praticantes. Eu e ele, a
gente se conhece desde pequeno, as famílias se conhecem desde que nós
éramos pequenos e eu namorei com ele quase 10 anos, a gente namorou. Até
que um dia a gente se separou e ficamos 1 ano e meio separados e depois eu
voltei com ele. Aí quando eu voltei com ele, ele pediu minha mão em casamento
de surpresa no Carnaval e no Carnaval mesmo eu engravidei. Aí, decidimos casar
definitivamente e ter o João.
Elaine: Isso foi no último Carnaval?
Manuela: Isso foi, no último Carnaval.
Elaine: Ahamm...
Manuela: Agora, a minha família adora ele, sempre adorou. As minhas irmãs
sempre adoraram, a gente sempre se deu super bem, eu adoro a família dele,
sempre fui amiga da irmã dele, antes de namorar com ele, eu era amiga da irmã
367
dele, já freqüentava a casa dele. E no geral, a família assim, em geral, desde avô,
avó, tudo assim. Que mais?
Elaine: Vocês casaram né, estão morando juntos...
Manuela: A gente mora junto, a gente casou só no civil. A gente mora juntos vai
fazer uns 8 meses por aí...
Elaine: Moram só vocês três...
Manuela: Só nós três, moramos aqui no bairro, um quarteirão aqui para cima, em
um apartamento.
Elaine: E qual é a tua idade e a dele?
Manuela: Eu tenho 27 e ele tem 29 anos.
Elaine: E você fez faculdade...
Manuela: Fiz faculdade de Arquitetura e Design de Interiores e ele fez faculdade
de Turismo.
Elaine: Ahamm... e sobre os trabalhos de vocês, se você puder falar um
pouquinho sobre o que vocês fazem hoje...
Manuela: Ele tem uma empresa de cenografia, trabalha com cenografia, abriu faz
pouco tempo, mas graças a Deus está dando tudo certo e eu, saí da minha área
completamente, eu ganhava muito pouco, não dava e eu estou trabalhando na
XXZ [uma boutique de artigos de luxo em São Paulo], agora estou de licença e
vou voltar agora em fevereiro. Vamos ver... mas eu gosto bastante.
Elaine: E lá, o que você faz?
Manuela: Eu sou vendedora do [de uma parte específica de artigos da loja] e é
bem gostoso o ambiente de trabalho porque você trabalha só com mulheres, lá a
gente tem uma liberdade bem legal, é mais descontraído. E fora que você tem
uma disponibilidade, principalmente, quando você tem um bebê você fala numa
boa, as pessoas te tratam de igual para igual, compreendem o seu problema,
falam “não, tudo bem, pode ir resolver o que você precisa resolver e tal...”, não
tem problema nenhum, é bem legal.
Elaine: E você tem muitas colegas de trabalho que têm bebês?
Manuela: Ah, sim, quando eu saí de licença, já tinham saído duas, uma ia sair
junto comigo e já tinha mais uma grávida. E semana passada, eu soube que uma
amiga minha de lá também está grávida. Então, ali, bebeu a água, engravidou
(risos).
368
Elaine: (risos).
Manuela: A gente brinca, porque pelo amor de Deus, não para a fabriquinha lá.
Elaine: Essa que você contou que tem uma criança na creche particular aqui em
São Caetano trabalha lá também?
Manuela: Não, o marido dela é que trabalha com o meu marido e eles já eram
amigos antes e assim que eu a conheci.
Elaine: Você tinha comentado, logo no início, que você sente falta de uma creche
no teu local de trabalho...
Manuela: É.
Elaine: E lá, onde você trabalha, tem bastante mulher trabalhando...
Manuela: Tem bastante mulher trabalhando e tem creche, mas creche para as
faxineiras, meninas que ficam no café, não sei sabe, a carga horária delas é maior
que a nossa, elas têm vale-transporte, vale-refeição etc. e eu não, entendeu, eu
trabalho 6 horas por dia, então a minha carga horária é menor e eu não tenho
tantos benefícios quanto elas.
Elaine: E essa creche é lá, funciona dentro do espaço deles ou é fora?
Manuela: Não, é fora. Mas vira e mexe, quando eu entrava e saía, eu via as
meninas pegando os filhos porque vai uma van que leva as crianças, então deve
ser ali perto, mas eu não sei onde é.
Elaine: Você não sabe se a creche é da empresa/da loja ou se é um convênio?
Manuela: Acho que é um convênio, alguma coisa assim. Acho que não é
especificamente da loja.
Elaine: Ahamm... Então, agora, vamos falar um pouquinho sobre a sua infância e
a educação que você recebeu... Como você se recorda dos cuidados e da
educação que você recebeu?
Manuela: Olha, eu era terrível! Eu odiava estudar, então meu pai e minha mãe me
chantageavam com isso tipo, “você quer alguma coisa, então só se você tirar nota
boa”, só que eu nunca tirava, então eu sempre me ferrava, entendeu (risos). Eu
lembro disso, eu lembro que eu não gostava de estudar, não adiantava, não
gostava, para mim aquilo era um terror, eu nem fazia questão de entender e
aprender a gostar, eu comecei a fazer isso já era no colegial, foi só aí que eu
comecei a querer entender, saber por que, de onde vem, aí é que você começa a
pegar o gosto pela coisa, só que foi um pouco tarde (risos).
369
Elaine: Sua mãe trabalhava fora ou não?
Manuela: Sempre trabalhou.
Elaine: Desde que você era bebê?
Manuela: Ahamm, sempre trabalhou fora.
Elaine: E você ficava com quem?
Manuela: Com a tia XWZ [empregada que trabalha na casa até hoje]. A tia está
com a gente desde que eu tenho 1 ano. É ela [neste momento, essa pessoa
entrou na sala onde ocorria a entrevista] que cuidou da gente, então a minha irmã
mais velha tinha 3 anos quando ela chegou, eu tinha 1 ano e a minha irmã mais
nova desde sempre. Então, ela sempre cuidou da gente.
Elaine: E tinha mais alguém além dela, algum parente ou outra pessoa?
Manuela: Até 1 ano, minha mãe me fala que ela me deixou na casa da minha avó.
Minha irmã é que deve ter pego mais essa fase, mas eu não lembro. Eu lembro,
depois assim, quando eu já era mais velha, eu lembro de ir para a casa da minha
avó várias vezes tal, mas nessa parte, antes, eu não lembro.
Elaine: E o que você pensa da educação que você recebeu?
Manuela: Olha, foi ótima. Meus pais fizeram de tudo pela gente. Tudo, tudo que
eles podiam fazer, eles faziam. Graças a Deus, sempre deram tudo pra gente,
sempre, nunca faltou nada, sempre se esforçando, tirando deles para dar pra
gente assim, eu acho. E não tem o que falar assim. Meu pai era, quando a gente
era mais nova, ele era um pouco ignorante no sentido de que ele achava que
bater resolvia, então ele me deu umas palmadas assim, e na minha irmã, mas
depois ele viu que não funcionava, tanto é que na minha irmã mais nova ele nunca
fez nada disso entendeu. Ele melhorou muito assim, por isso que eu acho que
bater não resolve nada. E a chantagem também era meio complicado, ele me
chantageava com tudo, tudo, não me deixava fazer nada por causa das notas. É
que também eu era a única que ia mal entendeu, as minhas irmãs iam super bem,
então ele pegava no meu pé desse jeito. Não deu muito certo porque eu não
estava nem aí, entendeu. Não sei se eu faria assim com o João. Mas, também,
não posso largar. Se eu largar, eu vou fazer o que? “Ah, você não quer estudar,
não estuda, problema seu”. Não dá, tem que estar em cima, tem que ter alguma
forma de, não sei se eu usaria esse método especificamente, mas alguma coisa
eu ia fazer, não sei o que.
Elaine: E você chegou a ir para a creche?
370
Manuela: Fui para a escolinha desde pequena. Na época, a escola XWZ [escola
de educação infantil particular que ainda existe em São Caetano] chamava YWZ e
eu estudei lá (risos).
Elaine: Com quantos anos você entrou, você lembra?
Manuela: Ah, não sei, eu era bem pequena, bem pequenininha, não lembro.
Elaine: E era meio-período?
Manuela: Era. Depois de lá, eu fui para o XVZ [escola particular de ensino
fundamental] e fiz até a 4ª série, depois fui na 5ª série para o WXZ [escola
particular de ensino fundamental e médio], aí repeti 2 anos, fui para o QYW
[escola particular de ensino médio] depois e aí depois eu fui para o ZXW que é um
supletivo (risos). Como eu era terrível! (risos).
Elaine: Então, parece que você já entrou direto na pré-escola né... que já era
meio-período.
Manuela: É, acho que sim, eu ficava só meio-período e depois ficava com a tia em
casa.
Elaine: E ela, digamos assim, a gente pode chamar, ela era mais empregada ou
mais babá?
Manuela: Ah, ela era tudo né, ela fazia tudo.
Elaine: Do que você recebeu de educação dos seus pais, o que você gostaria de
transmitir para o seu filho ou adotar na educação dele?
Manuela: Ah, com certeza, a nível de tirar, não de tirar, mas, por exemplo, eu vou
fazer tudo para ele. No sentido de poder dar uma boa escola pra ele, sabe, não
estou falando de mimar, de ficar dando coisinha, de ficar comprando a criança
com brinquedo, não, isso não, isso eu não gostaria de fazer. A minha mãe fala “é,
você fala que não vai dar, quero ver na hora você falar não”, então, não sei como
vai ser, mas eu quero ter condição, eu gostaria muito de ter condições de dar uma
boa escola para ele, eu acho que viajar, fazer uma viagem de intercâmbio é super
importante, eu fiz, as minhas irmãs fizeram e foi a melhor experiência da minha
vida! Acho que todo mundo deveria ter e gostaria que ele tivesse.
Elaine: E enquanto ele ainda é um bebê, do que você recebeu dos seus pais, o
que você gostaria de adotar na educação dele?
Manuela: Enquanto ele é bebê... Ah, eu acho assim eu quero estimular muito o
crescimento dele, tudo o que eu puder fazer para estimular a inteligência dele eu
vou fazer entendeu. Eu não sei ainda o que que tem que fazer especificamente,
mas o que eu tiver que fazer, eu vou fazer. E eu estou até imaginando, imagina
371
quando eu deixar ele agora na minha sogra, desde que ele nasceu, eu nunca
fiquei 2 horas longe dele, eu fico assim 40 minutos ou 50 que eu desço para fazer
ginástica aqui no prédio dos meus pais, entendeu, e quando eu consigo ficar isso.
Porque tem horas que ele chora e aí esquece, eu tenho que subir.
Elaine: Ele está com 3 meses né...
Manuela: 3 meses, faz 3 meses hoje. Eu não consigo imaginar assim ficar tanto
tempo longe, não sei como é que vai ser. Mas, eu pretendo dar... Agora, que ele é
bebê eu quero estimular bastante, eu quero que ele seja uma criança feliz,
conversar com ele acho que é super importante, ele fica assim, eu acho que ele
quer falar, acho que ele quer responder, não sei o que é (risos), eu acho que é
isso.
Elaine: Ahamm... E do que você recebeu, o que você gostaria de modificar na
educação do seu filho? O que você gostaria de fazer diferente?
Manuela: De quando eu era bebê você fala?
Elaine: Ahamm...
Manuela: Eu gostaria de ser mais presente.
Elaine: Ahamm...
Manuela: Só que como minha mãe trabalhava e ela tinha um negócio próprio
então você tem que ficar muito em cima. Hoje em dia, eu sei disso, mas quando
eu era pequena eu não queria entendeu, eu queria que a minha mãe ficasse
comigo e ela não ficava porque ela tinha que trabalhar, mesmo porque ela tinha
que sustentar a gente. E eu, eu não sei como vai ser comigo, porque eu não tenho
uma coisa própria, eu sou uma funcionária e eu acho que é mais tranqüilo. Pelo
fato de você ser funcionária, você não tem tanta preocupação, diferente de você
ser dono, e eu vou lá, eu cumpro meu horário, faço o que eu tenho que fazer e são
6 horas, não é muita coisa. Então, eu acho que eu quero estar bem presente
assim no crescimento dele. Já estou doida, imagina, com a minha sogra, imagina
se ele fala “vó” [avó] antes de mãe, aí eu me mato! (risos), aí eu largo o trabalho
na mesma hora, aí eu falo “chega, tchau, não quero mais”.
[pequena pausa para o café]
Elaine: Agora, a gente vai falar um pouquinho sobre licença maternidade. O que
você sabe sobre a licença maternidade?
Manuela: Ah, que eu tenho 4 meses né para ficar com ele [bebê], que eu recebo
uma quantia que é calculada... O que mais? Pelo menos, no meu trabalho é só
isso, eu recebo essa quantia a que eu tenho direito e só e esse período é para eu
ficar com ele, mas acho que deveria ser diferente.
372
Elaine: Como é que deveria ser?
Manuela: (risos). Eu acho que deveria ser até os 6 meses que agora foi liberado
né. Concordo com isso porque dizem que você tem que amamentar o seu filho até
os 6 meses e acho que tem que liberar mesmo os 6 meses.
Elaine: Se você tivesse tido a opção de escolher, você teria ficado os 6 meses?
Manuela: Com certeza. Eu teria ficado os 6 meses. Não é nem pelo fato, antes eu
achava nossa que quando você tirasse licença, antes de eu ficar grávida, eu
achava que 4 meses era muito tempo, nossa, imagina, quando eu estava grávida
eu falava isso “como é que eu vou ficar 4 meses em casa, sem fazer nada, sem
trabalhar, eu não vou conseguir”, sabe assim, e agora a gente nem vê a hora
passar, tipo você acorda, faz as coisas correndo, a hora que você vê já acabou o
dia entendeu e 4 meses não é nada, não é nada para ficar com ele [bebê]. Eu
acho super importante, se eu pudesse eu ficava mais mesmo.
Elaine: Qual seria o tempo que você considera ideal?
Manuela: 6 meses mesmo.
Elaine: E esses 4 meses que você está usufruindo, você acha que não foram
adequados nem suficientes mesmo...
Manuela: Eu acho que não foi o suficiente porque agora ele tem, ele está fazendo
3 meses hoje e daqui duas semanas eu tenho que voltar a trabalhar, então ele vai
estar com 3 meses e meio.
Elaine: Ahamm... Você saiu de licença um pouquinho antes do nascimento?
Manuela: Eu saí, porque eu tive que fazer repouso e aí ela já me deu logo a
licença e ela falou “depois eu te dou os 15 dias de amamentação a que você tem
direito”. Só que esses 15 dias de amamentação, eu fui agora para saber, não é
assim, tem que dar os 15 dias entendeu. Eu tenho que ir no INSS [Instituto
Nacional do Seguro Social] fazer uma consulta junto com o bebê para saber se ele
tem necessidade desses 15 dias de amamentação, entendeu. Se ele não tiver e e
ele não tem, entendeu, ele é uma criança super saudável, não tem nada.
[pequena interrupção, pois o bebê começou a chorar]
Elaine: Então, agora, é sobre licença paternidade. O que você sabe sobre a
licença paternidade?
Manuela: Olha, não sei muita coisa porque o Pedro [pai do bebê] não é
funcionário, ele não teve, ele tirou por conta própria entendeu. Ele ficou uma
semana comigo e só.
373
Elaine: O tempo previsto na lei é de 5 dias corridos para a licença paternidade.
Você considera esse tempo adequado ou suficiente?
Manuela: Humm, humm, não. Acho que deveria ser mais, pelo menos 1 mês
porque o primeiro mês é muito [enfática] difícil.
Elaine: Ahamm....
Manuela: E assim, eu conheço gente e eu achava que era besteira esse negócio
de depressão pós-parto, mas não é. Eu tive. Nossa, eu parecia uma louca. Eu
chorava, só chorava, chorava, chorava. Eu fazia tudo entendeu para o João, mas
eu sentia uma insegurança assim enorme, entendeu. E eu ficava sozinha e não
queria que a minha mãe ou a minha sogra fossem lá, eu queria que ele [marido]
ficasse comigo [enfática] entendeu, eu precisava que ele [enfática] estivesse ali do
meu lado. E com outras pessoas que eu conversei também foi assim e teve uma
amiga minha que foi super importante que quando o bebê dela nasceu caiu bem
com as férias dela e dele, eles tiraram férias e o bebê nasceu. Eles ficaram esse 1
mês juntos, entendeu. Então, ele ajudou muito ela e ela se sentiu super segura.
Então, eu acho que deveria ser pelo menos 1 mês.
Elaine: Ahamm...
Manuela: Tudo bem que o homem, ele não sofre nada fisicamente, nem nada,
mas é super importante estar ali do lado, sabe, ajudando e tal, porque sabe, é
realmente muito difícil.
Elaine: Ahamm... Então, agora, tem um projeto de lei para ampliação da licença
paternidade de 5 para 15 dias. Mas, como você já comentou, você acha que 1
mês mesmo é o que seria mais adequado... Você acha que é o mais adequado
para o bebê, para a família e para o casal...
Manuela: Eu acho porque nesse primeiro mês assim, a médica fala assim para
você “olha, você não tem que especificar horário para ele [bebê] mamar, toda hora
que ele quiser mamar, ele tem que mamar”, só que assim esse “toda hora que ele
quer mamar” pode ser de meia hora, 40 minutos entendeu e isso à noite também é
do mesmo jeito, então você fica que parece um zumbi e aí se você tem uma
pessoa que, por exemplo, você dá de mamar e aí você dá o bebê para o teu
marido, por exemplo, e ele faz arrotar e coloca para dormir entendeu, porque todo
esse processo demora e aí você vai e dorme um pouquinho pra balancear um
pouco.
Elaine: Ahamm...
Manuela: Só que ele [marido] não tem como fazer isso, porque no dia seguinte ele
tem que acordar para ir trabalhar, você não, você ainda dá um jeitinho e tenta
374
dormir, vai adequando, por isso que eu acho super importante o marido estar
junto, daria mais para dividir, ajudar nessas coisas que são importantes.
Elaine: E você comentou que agora, você voltando a trabalhar, você pretende
deixar o bebê com a sua sogra... Aqui em São Caetano, na casa dela ou ela vai na
sua casa?
Manuela: É, aqui em São Caetano, na casa dela.
Elaine: Ela que se ofereceu?
Manuela: Ela que se ofereceu, ela não trabalha, meu sogro também não, se
aposentou já e eles se ofereceram porque “vô” [avô] e “vó” [avó] humm! Nossa
Senhora! Tanto os meus pais quanto os pais dele [marido] estão assim babando.
Então, eles se ofereceram que aí eles vão ficar. Fora que aí eu vou economizar
um pouco (risos).
Elaine: É o primeiro neto dos dois lados?
Manuela: Dos dois lados.
Elaine: E essa decisão, como foi exatamente que vocês chegaram nessa opção?
Você conversou com o seu marido?
Manuela: Olha, porque a mãe dele se ofereceu. Até aí, a gente ia pôr na
escolinha. Aí, a mãe dele se ofereceu. Aí, a gente parou para pensar “ah, poxa,
será que não é legal?”, porque a gente não queria deixar essa responsabilidade
com ela entendeu, afinal de contas, fui eu e ele que fizemos o filho, é nossa
responsabilidade, então vamos colocar em uma escola. Só que, aí conversando
com a pediatra também, a pediatra falou que com 4 meses é muito cedo para pôr.
Se não tivesse outra alternativa, se não tivesse com quem deixar, tudo bem põe
com 4 meses. Mas, já que tem, não tem necessidade entendeu de colocar. Aí, ela
[sogra] ama [enfática], ela vai adorar, ela está super feliz que ele [bebê] vai ficar
com ela. E aí, a gente conversou e decidiu que, a gente está começando né
agora, então R$ 1.500,00 para mim agora vai fazer muita diferença mensalmente
entendeu, é um dinheiro que eu posso contar agora e que vai fazer diferença.
Elaine: Ahamm... E vocês pensavam, antes, a princípio, mais na escola particular,
você comentou dos R$ 1.500,00...
Manuela: É, eu pensei direto na escola particular. Ele que questionou de colocar
na pública. É e eu fui um pouco contra por causa dessa coisa de preconceito, eu
fui preconceituosa, mas aí, isso quando eu estava grávida a gente conversando.
Mas, hoje em dia, eu acho que eu colocaria ele [bebê] assim. Mesmo porque
quando eu colocar ele na escolinha, eu vou colocar ele com 1 ano só. Aí, vamos
ver.
375
Elaine: Então você pretende deixá-lo com a sua sogra esses meses e depois com
1 ano levá-lo para a escola...
Manuela: É, porque quando ele tiver 6 meses vai ser inverno e no inverno a
pediatra falou que não é legal colocar, ainda mais com esse negócio da gripe e
tudo, que não é legal colocar, que aí, se eu não colocasse agora que é verão
ainda também, eu ia colocar só no verão que vem vai, vamos dizer assim, em
janeiro que vem, que aí ele já vai ter feito 1 ano.
Elaine: E aí será na pública ou na particular?
Manuela: Aí, eu não sei. Ainda não sei, tem tempo ainda né (risos).
Elaine: O que você acha que vai pesar para escolher entre uma e outra?
Manuela: Ah, porque para você colocar na pública, você também precisa
conseguir a vaga. E para conseguir a vaga, é difícil entendeu, então eu teria que ir
atrás disso. Mas, eu colocaria, hoje em dia, eu colocaria sem problema nenhum na
pública.
Elaine: E você acha que essa decisão de deixar o bebê com a sua sogra foi
também influenciada pela idade dele?
Manuela: Também, é, juntou tudo, com a opinião da pediatra que entende super
do assunto, a minha sogra pelo fato dela não trabalhar, dela ter mais
disponibilidade, meu sogro também, então, acho que tudo isso foi fazendo com
que eu deixasse com eles.
Elaine: E teve algum comentário sobre essa escolha que vocês fizeram? Ou
outras pessoas que fizeram outras escolhas comentaram, por exemplo, a sua
amiga que colocou o bebê na escolinha, comentou algo?
Manuela: Não, só assim perguntavam “e aí, você vai pôr na escolinha?” Eu falava
“não, vou pôr na minha sogra” e as pessoas falavam “ai, que bom, vai deixar com
uma pessoa conhecida!” Ninguém falou nada para mim, mesmo porque se falar,
quem que teria a ver com isso, não é? (risos)
Elaine: E você em algum momento pensou em parar de trabalhar ou reduzir a sua
carga horária?
Manuela: Pensei, pensei. Penso até hoje.
Elaine: Ahamm...
Manuela: Foi o que eu te falei, desde que ele nasceu até hoje, eu não me separei
dele, nada assim, então eu fico imaginando que todo dia ele faz uma coisa nova
entendeu, não todo dia especificamente, mas toda semana é uma coisa nova.
376
Agora, ele está super sorridente assim, você conversa com ele, ele dá risada.
Então, eu fico um pouco assim triste porque eu vou perder algumas coisas
entendeu e aí isso me faz parar para pensar e falar “vou largar tudo por causa
dele” (risos), por esse lado, mas pelo outro, pelo lado financeiro, eu não, assim,
me dá até arrepio de pensar em ter que pedir dinheiro para o meu marido
entendeu. Isso eu nunca quis para mim, isso foi uma coisa que meu pai sempre
falou desde pequena pra gente “nunca dependa de homem”, não por ser ele
entendeu, qualquer um, então eu não gostaria de depender dele [marido]. Então,
por esse outro lado da dependência financeira, essas coisas, fora que também
você fica em casa “cabeça vazia é oficina do Diabo”, você já fica, nossa, como eu
estava insuportável, eu estava muito insuportável, então você já começa a pensar
um monte de coisa entendeu, você fica atormentando a vida do outro e não é
legal, então mais por isso assim que eu vou voltar, entendeu. Vamos ver.
Elaine: E para o seu marido, essa questão de você continuar trabalhando, enfim...
Manuela: Não, ele faz super questão. “Imagina, você vai parar de trabalhar e eu
que vou ter que sustentar, você vai ajudar também” (risos). Quanto a isso ele é
super na boa.
Elaine: Bom, eu usei bastante o termo creche durante a entrevista né...
Manuela: É.
Elaine: E em alguns momentos, você se referiu mais à escolinha. Você acha que
tem alguma diferença? Se, de repente, por que você prefere usar escolinha e não
creche.
Manuela: A palavra, você fala?
Elaine: É.
Manuela: Não, acho que é só por maneira de falar mesmo, acho que não tem...
Elaine: Você não vê nenhuma grande diferença entre uma e outra?
Manuela: Não. Por quê? Tem diferença? (risos)
Elaine: (risos)
Manuela: Eu te perguntando... tem diferença?
Elaine: Eu usei mais o termo creche porque é o termo digamos assim oficial, do
Ministério da Educação. Para crianças de 0 a 3 anos é chamado creche. Para
crianças de 4 e 5 anos já é chamado pré-escola.
Manuela: Ah, tá.
377
Elaine: É que tem muita gente que utiliza outras denominações como escola,
escolinha, berçário...
Manuela: Ah, não, nunca parei para pensar nisso.
Elaine: Ok, então agora, gostaria que você pensasse um nome para você, para o
bebê e para o seu marido para que eu possa substituir na transcrição para
garantirmos o anonimato.
Manuela: Tá, meu nome então vai ser Manuela, para o meu marido põe Pedro e
para o bebê pode ser João?
Elaine: Pode sim, o nome que você escolher... Então, como eu tinha te dito, eu
vou te enviar, assim que possível, a transcrição da entrevista e queria que você
comentasse o que você achou do tema, da entrevista...
Manuela: Ah, eu achei legal. Eu respondi um monte de coisa que eu não sabia
como esse negócio da creche tem um monte de coisa que eu não sabia e eu fui
tentando. Mas, eu achei legal as perguntas que você fez, às vezes, fazem
perguntas meio, como se diz, meio, como fala, ai fugiu a palavra, tipo invadindo a
privacidade, mas não, eu achei super tranqüilo, você não perguntou nada que eu
não quisesse responder, o que eu não respondi é porque eu não sabia mesmo.
Foi isso.
Elaine: Então tá jóia. Você quer acrescentar mais alguma informação, comentar
mais alguma coisa?
Manuela: Não, eu não tenho muita informação assim Elaine, eu estou começando
agora, sou marinheira de primeira viagem né (risos). São só 3 meses só.
Elaine: As outras entrevistadas também são, então, não precisa se preocupar
com isso.
Manuela: É? Você está entrevistando só mães de primeira viagem, não as que já
têm mais filhos?
Elaine: Ahamm, só mães de primeira viagem com bebês até 1 ano, que moram
em São Caetano, que trabalhem, com esse perfil como o seu, como eu tinha
comentado... Quero agradecer novamente a sua participação e disponibilidade!
378
Transcrição sétima entrevista
Entrevistada: Milena, 37 anos, pedagoga, proprietária de uma escola de
educação infantil, mãe de Raul, 11 meses.
Elaine: Então, primeiro, eu queria agradecer muito a sua participação, a sua
disponibilidade e atenção.
Milena: Ahamm...
Elaine: A entrevista tem um primeiro bloco de questões, digamos, mais genéricas
tá... Então, pensando em um contexto, mais geral, você acha que a sociedade ou
o Estado têm algum dever para com os bebês ou alguma responsabilidade?
Milena: Com certeza.
Elaine: De quem seria, qual seria essa responsabilidade?
Milena: Olha, assim até de planejamento, de cuidado, acho que ainda,
principalmente com educação, com escola mesmo.
Elaine: Ahamm...
Milena: Acho que ainda se vê muito mais a responsabilidade com crianças
maiores, já na fase de escolarização mesmo, do que com os pequenos. Então,
programa, currículo, atendimento acho que é pouco, especialmente pela minha
área, acho que tinha que ter mais cuidado mesmo relativo à educação.
Elaine: Não é só uma responsabilidade das famílias, então?
Milena: Não. Acho que depende muito do incentivo público mesmo, do Governo.
Elaine: As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988,
mas somente 18,1% das crianças nessa faixa etária freqüentam creche, enquanto
já temos quase 80% das crianças de 4 e 5 anos que estão na pré-escola. O que
você pensa sobre isso?
Milena: Acho que é mais ou menos o que a gente fala da primeira questão, acho
que retomando um pouco. E a porcentagem é só essa mesma de crianças de 0 a
3?
Elaine: É, no geral, no Brasil.
379
Milena: Só? E onde ficam as outras? Nossa, eu achei pouco assim. Achava que
seria mais. Achei que em se tratando de creche elas estariam muito mais
presentes.
Elaine: Ahamm...
Milena: Né, na escola mesmo.
Elaine: Você achava que a freqüência já seria maior para as crianças de 0 a 3...
Milena: Ahamm, acho que seria.
Elaine: O que você acha que marca essa diferença? Por que no Brasil a gente já
tem quase 80% das crianças de 4 e 5 anos em pré-escola e, enfim, menos de
20% das de 0 a 3 na creche?
Milena: Então, até pensando na minha classe social, acho que muitos ficam com
os avós, babás. Agora, a porcentagem eu estranhei por causa disso, como é
geral, acho que é muito, a mãe que trabalha e de um poder aquisitivo menor
procuraria creche, agora na nossa classe, realmente, avó, babá.
Elaine: Por qual motivo você acha que, de repente, essas famílias não estão
escolhendo a creche pública ou particular?
Milena: Ah, eu acho que é medo, assim é, acho que é se livrar um pouco da culpa
assim ficando com a avó ou com babá parece que a coisa fica assim mais velada
do que, de repente, deixar em escola, parece que é como um abandono maior, eu
acho que assim, em escolas, do que com os avós e babás. De repente, acho que
até o custo também, o custo-benefício, você põe uma empregada em casa que
cuide da casa e da criança, às vezes, vale mais a pena. Ou a avó também. Isso eu
estou falando da minha realidade tá, o que eu vejo.
Elaine: Tá, sim.
Milena: Agora de outras realidades, eu não sei.
Elaine: Até como é um dado geral do Brasil, se você pegar somente a região
Sudeste, você vai ter percentuais mais elevados, então, você já vai ter quase
todas as crianças de 4 e 5 anos na pré-escola e um número um pouco maior de
crianças de 0 a 3 freqüentando creche, mas é ainda muito pouco.
Milena: Tá.
Elaine: E por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam ou se
mobilizam pela questão dos direitos dos bebês ou pelas políticas de creche?
380
Milena: Eu acho que no geral, direitos assim do cidadão, mesmo da criança, eu
acho que, no geral, mesmo sem ser bebê, eu já acho difícil viu. Para o bebê
menos ainda. Eu acho que é falta de conhecimento ou de uma política voltada só
para bebê mesmo, de alguma coisa específica voltada só para essa faixa etária.
Elaine: Você acha que as pessoas não conhecem as leis, os direitos...
Milena: Ahamm, eu acho.
Elaine: E como os adultos, incluindo aí os políticos e a sociedade, em geral,
poderiam estar se mobilizando para procurar atender aos direitos dos bebês e agir
mais ativamente em relação às políticas de creche?
Milena: Pensando mais neles. Estabelecendo, que nem falando em educação, a
gente tem o Referencial Curricular de Educação Infantil. Ele é um bom referencial,
eu acho que dá uma base, mas acho que tem que se pensar muito mais, inclusive
na realidade, no contexto em que a criança vive. Cada contexto tem alguma coisa.
Acho que isso tudo no Brasil não sai muito do papel não e as mudanças, que nem
o acesso da criança de 6 anos ao ensino fundamental, mudam a lei, mas não se
pensa ao contrário, quer dizer, como atender, qual a melhor forma de atender,
enfim, o que seria específico para essa faixa etária, que mudanças deveriam ter
no ensino fundamental para captar esses alunos de 6 anos. Nada é muito
específico, tudo é muito no papel mesmo.
Elaine: Tá e você acha que o Referencial não é muito divulgado, não é muito
conhecido, não é muito aplicado?
Milena: Não. E é assim, é um Referencial seguro, embora assim eu ache que ele
precisa ser revisto, mas também não serve assim como um apoio para todo
mundo e não tem muita divulgação mesmo.
Elaine: Vocês usam bastante na escola?
Milena: Nós usamos.
Elaine: E em que aspectos você acha que ele precisa ser revisto?
Milena: Ah, até o próprio contexto, a gente guarda ainda muita coisa assim do
próprio discurso construtivista, não que não tenha né, mas tem que rever um
pouquinho mais os aspectos assim o contexto sócio-histórico da criança, os
aspectos culturais, eu acho que a discussão tem que ser maior, acho que a
avaliação é uma coisa que sempre fica muito aberta. Ainda é classificatória, mas
assim, trabalhar na questão do registro, com avaliação e tudo, ainda é, acho que
faltam subsídios também, mais clareza.
Elaine: Para ele poder ser melhor aplicado...
381
Milena: Ahamm.
Elaine: Você falou do Referencial, que ele precisaria ser revisto e talvez de maior
divulgação e como as pessoas poderiam fazer para que isso acontecesse? Que
outras formas as pessoas teriam para se mobilizar?
Milena: Ahamm... E a fiscalização também (risos) precisaria mais, em termos de
escola eu disse assim. Sair do papel, eu acho que pra isso acontecer a coisa tinha
que ser realmente mais levada a sério e assim, fiscalização mais intensa. Por
exemplo, hoje em dia, mesmo em escola para atender bebê, você tem que ter ali a
escola de educação infantil, a escola de educação infantil tem que ser
regularizada né, as particulares, e aí você fiscaliza só no momento da aprovação e
depois não se tem nenhum tipo de acompanhamento também, averiguação, acho
que falta mais.
Elaine: Não tem nenhum órgão que acompanhe o desenvolvimento do trabalho?
Milena: Não, eles só cobram, na verdade, para você ter tudo certo fisicamente,
em termos de atender ao que a lei coloca, mas na hora de acompanhar, de ver o
trabalho mesmo, não tem.
Elaine: Você acha então que deveria ter esse acompanhamento... E quem deveria
fazer esse trabalho?
Milena: Acho que deveria ser mais regional. Acho que quando passa para os
órgãos mais a nível nacional, acho mais complicado. Acho, realmente, que cada
cidade, cada município devia ter, de acordo com a sua realidade, a clientela
particular, privada, acho que tem que ver muito o contexto social mesmo de cada
grupo que tem.
Elaine: Mas, quem poderia fazer isso? Você acha que isso poderia partir das
próprias famílias, dos pais ou da própria Secretaria Municipal de Educação?
Milena: Da Secretaria em primeiro lugar. Agora, para os pais, eu não sei, é difícil,
é diretamente com a escola, porque eu acho que é mais da Delegacia de Ensino
do município mesmo.
Elaine: Você se preocupa ou se mobiliza ou já se mobilizava antes de ter a escola
ou de ter o bebê, sobre essas questões, a questão da creche, da educação infantil
para os bebês e crianças de 0 a 3 anos?
Milena: Ah, sempre teve, é claro que a escola é que, eu acho que se eu fosse
uma mãe sem escola eu pensaria diferente. Isso é uma coisa, é o que eu falo,
tudo, tudo o que você planeja, que você organiza para essa faixa etária de 0 a 1
ano, tudo é muito precário assim. Você não tem mesmo a nível de estudo, de
pesquisa, eu acho que é muito ou manuais de Psicologia do Desenvolvimento ou
382
manual de Pediatria. Você não tem focado em educação, então é uma coisa que
sempre assim, a busca ela é constante. Embora, o acesso seja difícil.
Elaine: Você sente falta de materiais de estudo...
Milena: Bastante, bastante mesmo.
Elaine: Você é proprietária da escola né...
Milena: Isso.
Elaine: E você tem outras sócias...
Milena: Isso.
Elaine: E vocês têm a escola desde quando?
Milena: 17 anos.
Elaine: E ela sempre foi aqui em São Caetano?
Milena: Sempre em São Caetano.
Elaine: E como surgiu para vocês essa questão de atender aos bebês? De ter um
berçário na escola? Eles entram a partir de que idade?
Milena: 4 meses. Foi pela demanda dos pais. A gente começou com a escola a
partir de 1 aninho, quando a criança andava, 1 aninho e pouquinho, a gente
começava o trabalho, mas aí, a própria demanda de pais com segundo filho é que
nos mobilizou. Aí a gente começou a atender os pequenininhos, poucos, começou
com 1 ou 2 alunos de irmãos que já estavam aqui na escola e foi crescendo.
Elaine: Vocês têm muitos bebês na escola hoje?
Milena: A gente tem, mais ou menos, uns 12 bebezinhos até 1 ano.
Elaine: E como foi esse começo do trabalho para atender aos bebês? Vocês
tiveram que buscar conhecimento específico? O que você lembra do início?
Milena: É, já faz um certo tempo... é, a gente sempre buscou também muito assim
a entrevista com os próprios pais no sentido assim dos hábitos da criança para
começar. O ponto de partida sempre foi o referencial que se tem. Agora, de busca
assim, foram muitos livros, alguns cursos, a gente teve que correr atrás. Desculpe,
acho que eu fugi um pouquinho.
Elaine: Não, não, era isso mesmo, se vocês tinham procurado algo para poder
mesmo oferecer o atendimento para os bebês...
383
Milena: Não, só a questão do espaço que foi uma reforma maior...
Elaine: Ahamm... tiveram que adequar...
Milena: É, no começo ainda, a gente começou a engatinhar como o bebê, no
sentido assim era mais cuidado mesmo, então pôr para dormir, comer, alimento,
sono, justamente pela dificuldade de traçar um plano de educação mesmo. E aí,
depois, começou a preocupação “não, realmente, essa faixa etária precisa de uma
parte de educar também, precisa de um desenvolvimento assim mais da criança
evoluir”, aí a gente começou a busca, aí que eu te falo que é difícil.
Elaine: Ahamm... Aqui em São Caetano, vocês conseguiram algum curso ou teve
alguma orientação da Secretaria?
Milena: Humm, humm, não.
Elaine: Vocês não têm nenhum tipo de intercâmbio ou de troca com as creches
públicas, as EMIs [Escolas Municipais Integradas]?
Milena: Não. De alguns pais que trabalham, isso também foi né, de alguns pais
que trabalham nas creches, aí eu instigava para eles trazerem o material para mim
e aí eu investiguei muito, xeroquei muito material assim (risos), aí sim.
Elaine: Mas, não eram, digamos assim, as direções das creches conversando e
trocando...
Milena: Não. Eles traçam para as particulares muito mais o plano, acho que assim
de estrutura da escola, “precisa ter isso, precisa ter alimentação, tela de proteção
na cozinha, ai não pode ter acesso, a porque a comida não pode ficar assim”.
Muito mais na estrutura do que no trabalho.
Elaine: Ahamm... Agora, vamos falar um pouquinho sobre bebê... Você poderia
descrever um bebê para mim, o que te vem à cabeça quando a gente fala bebê?
O que é um bebê para você?
Milena: Bebê... mudanças intensas a cada segundo, realmente assim, não tem
como você assim, hoje você define alguma coisa, amanhã ou no momento
seguinte muda, muita alegria [enfática], muita preocupação [enfática]. Mas, assim,
é uma mudança na vida do casal, é tudo de bom, mas, ao mesmo tempo, tudo
diferente (risos). Mas, traz alegria total.
Elaine: E o que caracterizaria um bebê? Se alguém fala para você “bebê”, que
imagem vem?
Milena: Ai, é pureza [enfática], é sensibilidade, eu estou assim com a imagem do
meu filho na cabeça (risos).
384
Elaine: Ahamm... E seu filho está com quantos meses?
Milena: 11 meses. Mas, assim é, aconchego, em que sentido assim você diz? A
criança?
Elaine: Ah, a imagem mesmo, uma representação, enfim... essa palavra “bebê” te
faz lembrar do quê?
Milena: É isso, é aconchego, é pureza, é, ao mesmo tempo, tranqüilidade também
para o dia-a-dia de hoje em dia em que a gente corre tanto, tem tanta
preocupação que quando você chega em casa, apesar de tudo que você tem
também com o bebê, apesar de tudo, você vê um sorriso já te compensa tudo.
Sorriso marca muito, do meu filho, no caso, o sorriso é tudo de bom [sorrisos].
Elaine: Ahamm... E existe diferença para você entre um bebê e uma criança
pequena?
Milena: Ah, existe. Cada fase tem um... bebê é assim matéria bruta no sentido
assim, no começo a mente é um pedaço de carne que você vai criando vínculo,
vai colocando toda a sua emoção, toda a sua expectativa, todo o seu, os seus
desejos, as suas vontades, coitadinho né do bebê (risos), carrega de tudo e mais
um pouco, projeções, tudo ele carrega, mas ele é puro. Aí a criança pequena, aí
você, ela já tem todo um contexto que você vai formando ela. Cada dia você vai
passando uma mensagem pra ela de como você é, de como você responde, o que
você espera dela e isso vai formando e a resposta dela já começa a ser mais de
acordo com a tua ação e reação também. O bebê é muito teste, assim ele vai, o
choro você vai interpretando no começo, você ainda, é muito não saber, a criança
pequena você já sabe, eles também já sabem, você já compreende a questão do
choro, a resposta, as manhas, enfim da mãe, da criança. A criança pequena é
mais, já está super mais, bebê já é mais matéria bruta, é puro (risos).
Elaine: Até que idade você consideraria bebê ou a partir de que idade já passaria
a ser uma criança pequena?
Milena: 1 ano e meio.
Elaine: Ahamm... Por quê?
Milena: Eu acho que assim é quando há marcha, eles adquirem a marcha, então
a independência leva ele mais para poder ficar mais sozinho mesmo e o
desenvolvimento da linguagem que é quando se dá. Eu acho que esse é um
marco, uma divisão dos dois períodos. É claro que cada bebê tem o seu tempo,
mas 1 ano e meio eu diria que é quando ele já desabrocha mais com a linguagem
e com a marcha.
Elaine: Quando ele já está falando e andando...
385
Milena: Isso.
Elaine: Como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados e educados?
Milena: (risos) Ah, essa pergunta é tão genérica. Engraçada.
Elaine: Qual seria a melhor maneira de educá-los?
Milena: Olha, com um amor firme. A gente sempre escuta isso em educação,
como eu sou Pedagoga, então amor firme é sentido, é necessário um olhar terno
da mãe [enfática], no sentido assim, eles esperam isso tudo, mas eles precisam
da firmeza, da segurança, do limite, para eles seria um norte, para eles estarem
crescendo em uma direção. Então, eu acho que é isso que eles precisam, é um
olhar, um olhar que realmente cative, porque o olhar já diz tudo nas relações, mas
ao mesmo tempo os “nãos” são necessários, eu acho que eles pedem por isso
também.
Elaine: Você já falou um pouco sobre a relação né... Mas, e em relação aos
cuidados ou a uma forma de educação, então, por exemplo, alguns bebês ficam
com as avós, outros ficam com babás, alguns ficam com as mães, outros estão na
creche ou na escola, enfim, como talvez eles prefeririam, como eles gostariam
mais de ser cuidados?
Milena: Ah, acho que a constância da rotina, independente de onde for, é claro
que a rotina dentro de casa é uma, com a vovó também é outra, mas essa
constância, acho que é tudo que eles precisam, porque aí já é a segurança, já é o
limite também, é saber realmente o que vai acontecer com eles, eles vão
interpretando isso, tanto é que se você demora um pouquinho mais no banho, se
demora a hora de dormir, eles vão ficando estressadinhos (risos), estressam todo
mundo da família, então assim, eu diria que a rotina é o principal cuidado que você
tem que ter assim com o bebezinho.
Elaine: Ahamm... E qual seria a idade que você considera ideal para um bebê
começar a freqüentar a creche?
Milena: Ai, agora você também fez uma pergunta difícil, porque assim (risos) eu
estou nesse impasse. Você vê, a escola é minha, e eu já poderia ter trazido, não
trouxe, por quê? Porque assim se a gente for ver, a partir dos 4 meses da licença
tá, dos 4 meses até 1 aninho, o que seria assim, o sistema imunológico está
sendo formado. E é onde eles ficam mais doentes, mais, então isso me assusta
um pouco realmente antes de 1 ano.
Elaine: Para o seu bebê?
Milena: Para o meu e assim, geral, a gente fala realmente como uma mãe que
trabalha antes de ficar realmente com uma babá ou mesmo com uma vovó e
assim, com essa possibilidade assim de você cercear um pouco a liberdade dos
386
avós também para fazer as coisas, então a escola acaba sendo uma boa opção.
Mas, em termos de saúde, a fragilidade até 1 aninho eu acho muito grande. O
ideal para mim é a partir de 1 aninho.
Elaine: Tá. Você pretende colocá-lo a partir de 1 ano?
Milena: Você vê que até agora né, eu só não trouxe porque ele ficou doente.
Quando eu tinha decidido trazê-lo para a escola e foi por sorte, porque se eu
tivesse trazido, eu já ia relacionar a doença ao ter vindo para a escola. Realmente,
as crianças têm mais probabilidade de ficar doente sim do que ficando em casa.
Elaine: Acontece muito de bebê ficar doente e ficar sem freqüentar então?
Milena: Com certeza. Talvez, se eu não fosse da área, se eu não tivesse escola,
eu já tinha colocado ele há muito mais tempo porque eu não gostaria de ficar,
porque aí tem que dividir com as avós, aí a avó sogra, é diferente dos cuidados da
avó mãe da mãe, então aí você tem que dividir. Eu já sofro um pouquinho com
isso.
Elaine: Ele fica com quem?
Milena: Com a minha mãe. Mas, eu já sinto que há uma cobrança de ficar com a
minha sogra e eu justamente não deixo meio a meio, porque eu acho que falta a
rotina igual dos dois lados. Não sou muito a favor de deixar a criança cada dia
com uma pessoa. Eu acho que é complicado, mas então, assim, eu preferia do
que contar assim, de repente, é que mãe é mãe [enfática], a minha mãe é muito
mãezona, então assim, eu estou sossegada, mas contar com os avós assim,
depende da características dos avós ou da minha sogra, eu preferia muito mais a
escola e talvez ele já teria vindo mesmo. Se eu não soubesse também de toda
essa problemática também, eu ia sofrer na pele, ele ia ficar doente.
Elaine: Ahamm... E os pais dos bebês do berçário eles não questionam você
porque não traz o seu bebê para cá?
Milena: Questionam, questionam (risos).
Elaine: É, e como é?
Milena: Eles perguntam “ah, e o Raul quando vem?” Não, na verdade, também
porque ele não veio também, por causa da gripe suína, foi quando começou a
gripe, além da expectativa que eu tinha sobre as doenças, a gripe suína veio
assim com tudo. Eu retornei da licença na metade do ano, aí foi o boom do
problema da gripe, aí com isso já era final de ano. Aí, eu já emendei. Aí ele ia vir
no comecinho do ano, mas aí ele ficou doente. Mas, as mães colocam isso sim.
Ontem mesmo a gente recebeu uma ligação “ah, mas e o Raul?”, aí você tenta
justificar tudo, mas foi realmente com relação à saúde mesmo o motivo. E eu não
escondo também, elas sabem, as mães sabem, eles ficam mesmo doentes,
387
quando os pais vêm procurar é uma pergunta que eles sempre fazem e que né,
não tem como. Os pediatras, muitas vezes, não recomendam, falam da
problemática da escola e você não tem como negar, a criança realmente fica
muito doente, com uma freqüência maior mesmo do que quando ela fica em casa.
Elaine: Ahamm. Só para a gente completar esse bloco de questões sobre o bebê,
você comentou que o bebê tem uma rotina diferente em casa ou uma rotina com a
avó... Eu queria que você falasse um pouquinho sobre a rotina de um bebê em
casa e como é que seria a rotina, ou se ela é igual ou parecida, com a rotina de
um bebê na creche?
Milena: Rotina que você diz assim alimentação, sono, tudo...
Elaine: O que o bebê faz no dia-a-dia...
Milena: É muito parecido, enfim, quando você vai ver, no começo pra gente
parece que cada bebê é de um jeito, mas não é. Então, assim, normalmente, no
caso, o meu filho, eu posso falar?
Elaine: Sim.
Milena: Então, eles acordam cedinho, por volta das 9 horas é a hora do suquinho,
aí é onde eles estão também mais dispostos para brincar, por volta das 11h30
mais ou menos o almoço, a papa salgada, que aqui também é servido às 11h30,
meio-dia. Aí um soninho logo depois do almoço por volta das 14 horas e
pouquinho, fica perto da mamadeira porque depois do almoço, dá um descanso e
aí vem a mamadeira e a frutinha da tarde também mais ou menos depois. A
alimentação do meu filho é de 2 em 2 horas. A recomendação, às vezes, é de 3
em 3, mas eu acho que é muito de criança para criança. A dele é de mais ou
menos 2 horas e meia ou 3 horas, aí brinca no período da tarde e por volta das 19
horas mais ou menos o jantar. Aí ele fica bastante ativo até mais ou menos umas
21 horas quanto toma a mamadeira do soninho e por volta das 21h30 ou 22 horas
dorme até às 7 horas do dia seguinte.
Elaine: E o seu bebê fica com a sua mãe no período em que você está
trabalhando...
Milena: Isso, aí eu estou saindo mais ou menos por volta das 14h ou 15 horas.
Elaine: E aí, é você que fica com ele?
Milena: Isso.
Elaine: E ela fica na sua casa ou na casa dela?
Milena: Na casa dela.
388
Elaine: E como seria a rotina de um bebê na escola, na creche?
Milena: Mais ou menos isso, mas aí intercalado com as atividades de
estimulação, então de manhã, tomar um solzinho, eles já chegam por volta das 8h
30 ou 9 horas e tem uma parte de estimulação, aí a mesma coisa, suquinho,
alguns dormem depois do lanche ou senão dormem depois do almoço. Mas,
normalmente depois do lanche, mas não é via de regra, alguns dormem. Aí, a
gente faz atividade um pouquinho mais calma nesse horário enquanto alguns
dormem, aí acordam, almoçam. A parte de estimulação também, depois que eles
acordam eles ficam mais estimuladinhos, assim mais animadinhos e é por volta
das 13h15 ou 13h30. Às 14 horas, começa a frutinha ou a mamadeira, depende
da faixa etária da criança, se ela já come pãozinho, bolachinha... Aí, a gente tem a
rotina do banho também. Eu esqueci de falar do banho em casa. O banho, ele é
mais ou menos assim, hoje eu mudei um pouco porque como o meu filho é
maiorzinho, ele se arrasta por tudo quanto é lugar, então eu prefiro dar o banho
em casa perto da hora dele ir dormir. Mas, antes, o banho era antes do jantar.
Aqui, a gente começa logo depois que eles dormem no segundo horário, das 15
horas mais ou menos, depois que eles comeram, aí a gente já começa o horário
do banho. Quem comeu mais cedo já começa a tomar banho. Às 17 horas, tem o
jantar aqui e aí cada um sai em um horário, mas aí a gente já não faz atividade
mais específica. Conforme vão saindo os bebês, a gente vai ficando com eles um
a um, não é a parte de estimulação. Estimulação é mais ou menos assim antes do
lanche da manhã e depois do almoço, à tarde.
Elaine: Que tipo de estimulação que vocês fazem?
Milena: Estimulação assim para deslocamento no espaço, preparo para
engatinhar, ficar em pezinho, a parte da estimulação oral, história, música, circuito
para deslocamento.
Elaine: E eles ficam o dia todo?
Milena: A maioria fica, é difícil você ter procura para meio-período. A maioria fica
período integral.
Elaine: Ahamm... e entram você falou às 8 horas e pouco...
Milena: Tem alguns que entram praticamente quando a escola abre e saem a
hora que a escola fecha, das 7 às 19 horas. Mas, aí como a gente atende também
os horários especiais, então o semi-integral, às vezes, fica período de 8 horas ou
de 6 horas.
Elaine: Ahamm. Me conta um pouquinho também sobre a equipe que atende os
bebês...
Milena: A exigência não é a formação em pedagogia, mas assim o critério é ser
mãe [enfática] que a gente utiliza, ser mãe e meia idade também [enfática] porque
389
muita mais velha por volta dos 50 ou 60 anos a agilidade, enfim, a gente já teve
algumas experiências de que já foi mais difícil. E bebê é o tempo todo abaixa,
levanta, pega, uma pessoa mais velha já tem mais dificuldade né, e uma pessoa
muito nova, porque a faixa das nossas professoras é assim na média de 25 ou 20
e poucos anos. No berçário, já é mais na faixa dos 40, 40 e poucos anos. Então,
tem que ser mãe, não precisa ter pedagogia porque tem uma assistente que
trabalha direto no berçário.
Elaine: Ela coordena o trabalho?
Milena: Exatamente, ela que faz a supervisão. E a gente oferece alguns cursos no
CIESP [Centro das Indústrias do Estado de São Paulo] para elas fazerem, mas
não tem que ter pedagogia [enfática].
Elaine: Tem que ter magistério?
Milena: Não.
Elaine: E precisa ter o 2º grau/Ensino Médio ou não?
Milena: Olha, boa pergunta porque não faço a seleção, mas as que estão com a
gente têm sim. Tem uma que tem, que está com as crianças do berçário maior,
que é mais próximo de 1 aninho, 1 ano e pouquinho, aí ela tem magistério. Mas,
2º grau todas têm sim.
Elaine: Claro que também teve toda a sua formação em pedagogia né, mas eu
gostaria de saber como você se instruiu ou aprendeu sobre os cuidados para com
o bebê, se você já tinha tido alguma experiência mais pessoal de cuidado de
bebê...
Milena: Na verdade, eu tenho 2 sobrinhos muito desejados, aliás o nosso histórico
para ter bebês é complicado, eu também fiz fertilização, minha irmã também fez,
então gera uma expectativa muito grande, talvez até isso que gera essa coisa de
“ai, a escola, vai ficar doente, ai”, acho que isso também tem um pouco a ver.
Tudo o que a gente passa, toda a expectativa, toda a angústia, nós temos outros
casos de mãe que também fizeram fertilização, então é sempre assim os
cuidados, o excesso de zelo, acaba ficando.
Elaine: Gera uma preocupação a mais?
Milena: É. E aí, pelos meus sobrinhos, a gente tinha um contato muito direto, mas
nunca tinha tido alguém muito próximo. Tinha, assim, os meus sobrinhos, mas não
que eu ficasse o tempo todo com eles. Mas, é complicado, é uma diferença bem
grande entre a gente ser mãe e a gente ser pedagoga, muito grande. Hoje, eu
enxergo muito diferente, tanto é que algumas mães até perguntam, porque a
gente começou muito cedo a escola, eu tinha 17, 18 anos, então a nossa [dela e
das sócias] aparência de nova chocava um pouco. E elas sempre perguntavam
390
“vocês são mães?”. E hoje, eu entendo também essa questão porque quando
você é mãe muda muito.
Elaine: O que mais mudou para você?
Milena: Eu sempre tive a preocupação do cuidado das professoras em relação ao
choro, à birra, à manha, é difícil, você se mistura muito com o que a criança está
sentindo, às vezes, você sai do teu controle mesmo, é difícil você se distanciar
muitas vezes. As professoras, às vezes, agem com a criança como se virassem
criança também, não tem como, o lado da gente que o tempo todo que bate de
frente com a criança, a gente sempre está testando. Então, a gente tem tido essa
preocupação de trabalhar com as professoras isso, mas quando a gente é mãe, o
choro é diferente, por exemplo, uma mãe coloca no berçário e sai chorando,
porque na maioria das vezes acontece isso, não é a criança pequenininha de 4
meses que chora, é a mãe. Então, hoje a gente entende com muito mais, eu
[enfática] entendo com muito mais facilidade essa angústia de estar colocando em
um espaço onde a criança vai ficar o dia inteiro, “quem vai ficar com ela, como
eles vão cuidar”, é difícil, então assim, hoje, sendo mãe, eu enxergo com mais
sensibilidade esse lado mais inseguro de mãe, o lado mais fantasioso, “ai, o que
será que vai acontecer, será que vai cuidar bem, ai”, então existe isso.
Elaine: Você falou que pretende colocar o seu bebê agora com 1 ano aqui na sua
escola...
Milena: Isso, com certeza.
Elaine: E se não fosse a sua escola, você colocaria também ou deixaria mais
tempo com a sua mãe ou colocaria mais para a frente?
Milena: Pergunta difícil. Que nem eu já te falei, nessa idade de 1 ano eu já acho
necessário mesmo. Hoje em dia, a criança, porque assim os avós eles já
começam a não ter a disponibilidade física, há um cansaço, a gente se cansa,
quando eu chego em casa estou o tempo todo atrás dele porque ele está
engatinhando por tudo que é lugar, você se cansa e quem dirá os avós. Então,
acho que é o tempo certo, 1 aninho já está maiorzinho tudo, mais fortinho, eu iria
realmente já procurar.
Elaine: E você procuraria uma escola pública ou particular?
Milena: Eu procuraria uma escola particular aqui na região, agora os critérios eu já
não sei te dizer, os critérios que hoje eu tenho de Pedagoga, é bem diferente do
que mãe tem, eu acho. Não tem como separar, o critério de Pedagoga é uma
coisa, o critério de mãe é outra bem diferente [enfática], entendeu. Hoje, eu não
sei te responder.
Elaine: Se você fosse procurar uma escola...
391
Milena: Se eu não fosse pedagoga, você diz?
Elaine: Mesmo sendo pedagoga, mas se você não tivesse a sua escola, se você
não tivesse essa opção de trazê-lo para cá, se você fosse procurar uma outra
escola, você gostaria que a escola oferecesse o que?
Milena: Ahamm... Acho assim que o espaço é primordial. Onde o meu filho vai
ficar, com que condições, então limpeza, umidade, luminosidade, isso eu acho um
critério, porque para você estar bem em um lugar, qualquer lugar tem que ter
alguns critérios e tem algumas escolas que não têm. Não procuraria também uma
escola muito grande pra essa idade de 1 aninho, 1 ano e meio porque eu assim, a
gente se assemelha muito à clientela que eu atendo, classe média no sentido
assim e meio protetora, então, quer dizer, não quer que a criança se perca no
mundo, embora a realidade de São Caetano é muito diferente, ou seja, para quem
tem dinheiro, a estrutura, a mega estrutura, a coisa bonita, grande, o status disso
é muito valorizado pelos pais, muito mais do que o pedagógico. Então, mais é
assim, um lugar aconchegante, não muito grande, com condições físicas legais e
o acesso realmente assim quem me atendeu, como me atendeu, com quem eu
posso tirar dúvidas, como que é o dia-a-dia, com quem eu vou estabelecer essa
comunicação, muito mais do que critérios “ai, tem psicóloga, tem isso”, em termos
de que, às vezes, as mães vêm com um rol de perguntas, mãe moderna, que mais
ou menos assim, que as revistas indicam o que a mãe deve procurar, que tipo de
pergunta ela deve fazer, eu acho assim um ambiente me sentindo legal, me
sentindo bem acolhida, como eu veria o meu filho sendo também acolhido. Então,
o atendimento também eu acho que ele difere aí. A primeira impressão, às vezes,
é a que fica sim, talvez em um lugar em que eu fosse bem recepcionada, bem
acolhida, seria assim que eu veria também que estariam recebendo o meu filho.
Então isso acho importante. Não sei se eu respondi (risos)...
Elaine: Ahamm... Sim, sim. Você comentou que escolheria uma escola
particular... Eu queria saber agora o que te vem à cabeça quando eu falo creche?
Milena: Ai creche, muitas crianças, um número enorme de crianças.
Elaine: Quando eu falo creche te traz algo mais ligado ao público ou ao particular
também?
Milena: É assim, a creche, para mim remete mais ao público. Escolinha é mais o
particular. Eu acho que isso está posto (risos) né. Então, assim, a creche remete à
questão do número grande de crianças. A questão, de repente, por ser um
emprego assim mais, vamos supor, um pessoal, concurso, a estabilidade, escola
particular tem todo um cuidado com o, vamos dizer assim, com o pessoal que
trabalha no sentido assim de uma reclamação, alguma coisa do profissional você
tem como investigar, como estar em atenção e tem essa possibilidade de ele estar
saindo, de estar sendo demitido, já a coisa da segurança, de estabilidade de
emprego, você tem muita gente boa, competente, mas tem muita gente que
também se encosta, que também, não sei, enfim o critério de, para estar ficando,
392
para estar atendendo bem [enfática], entendeu, a criança. Fora que também a
realidade social, eu penso assim, eu, de classe média, não procuraria também
uma escola com uma mega mensalidade achando que também você pagando
você tem tudo de bom e mais um pouco assim, o critério mensalidade ele é
relativo porque não é aquele custo fixo que você tem no mês, existem as
despesas todas extras que você tem, mas também eu acho que no público você
tem uma mistura maior de realidades também diferenciadas. Me preocupam os
dois lados, assim com o futuro do meu filho, entendeu.
Elaine: Mas, você acha que é ruim ou é boa essa mistura social?
Milena: A mistura sempre vai acontecer. Ela tem um lado bom e um lado ruim,
mas o lado ruim sempre pesa mais. Tanto o meu filho com crianças mais ricas,
vamos dizer assim trocando em miúdos, eu acho preocupante quanto com
crianças mais pobres. Acho complicado a mistura de culturas, de contexto, eu
acho complicado.
Elaine: Ahamm... Então se você fosse escolher uma outra escola você se
preocuparia com isso, qual é o público que freqüenta essa escola?
Milena: Ah, com certeza!
Elaine: Ahamm... E para o que serve uma creche?
Milena: É tão genérico. Uma creche é para atender a criança nos seus cuidados,
nas suas necessidades, nas suas peculiaridades, enfim no atendimento, no
cuidado e na educação também, tem esses dois lados, a parte da segurança
emocional, física, cuidado com tudo isso e a parte mais relativa também à
educação como se estabelecem as relações, a questão do currículo, acho que é
uma soma aí. Creche é tudo (risos).
Elaine: Você conhece alguma creche pública ou alguma outra escolinha particular
aqui em São Caetano ou em outra cidade?
Milena: Conheço de nome algumas referências, mas conhecer o trabalho ou de
visitar não.
Elaine: Você sabe se tem uma creche pública no bairro onde você mora?
Milena: Onde eu moro?
Elaine: Ahamm...
Milena: As EMEIs [Escola Municipal de Educação Infantil] né, elas são
consideradas...
Elaine: Para esse público de 0 a 3 são as EMIs [Escola Municipal Integrada].
393
Milena: Não, acho que perto de casa tem mais EMEI.
Elaine: Você conhece alguém que utiliza ou trabalha em uma creche pública ou
outra escola particular aqui em São Caetano ou em outra cidade?
Milena: Conheço. Ela trabalha, acho que já é São Paulo, acho que já é
considerado São Paulo onde ela trabalha.
Elaine: Essa creche onde essa pessoa trabalha é pública ou particular?
Milena: Pública.
Elaine: E essa pessoa comenta ou tem alguma impressão ou avaliação sobre a
creche onde ela trabalha?
Milena: Essa pessoa já trabalhou em escola particular também. E assim, quem
trabalha em escola pública e em particular compara muito. Então o fato assim dos
maus-tratos, isso assim, com os familiares, assim, pra gente, isso é tão distante,
mas a repercussão disso pra creche entendeu, como cuidar disso, daquela criança
que sofre.
Elaine: Ela comenta de crianças que são maltratadas pela família...
Milena: É, os pais, às vezes, são alcoólatras, então tem muito disso. Assim
também o cuidado da supervisão, do planejamento com a parte do currículo é
mais a critério dela, dessa pessoa que eu estou falando e não da própria
instituição, do que a própria cobrança, vamos dizer assim, entre aspas, é muito
mais para cuidar, para o bem estar físico e emocional, mas nem tanto uma
preocupação com o pedagógico, vai entre aspas, e ela sente falta disso.
Elaine: Ahamm... E você tem alguma impressão ou avaliação ou já ouviu
comentários sobre as creches aqui de São Caetano?
Milena: Ah, sim. São Caetano, assim o que você tem é que a educação é de alta
qualidade, tanto é que tem pais de classe média que buscam a pública e o
referencial de que é de qualidade acho que está colocado [enfática], embora eu
tive mães que por problemas financeiros colocaram em EMEI aqui em São
Caetano e a criança retornou pra gente porque “ah, não, falam que é tão bom e
tudo, mas é muita criança e depende da professora, a professora da minha mais
velha ela era atenciosa, levava o trabalho, a da outra menor não, ela não era tão
atenciosa, não, mesmo na reunião, não transparecia uma preocupação maior né”.
Então depende de quem está fazendo a educação.
Elaine: E essa criança era um bebê ou uma criança maior?
394
Milena: Era uma criança de 5 anos. Ela saiu, foi para a EMEI e retornou pra
gente. Agora ela já saiu porque foi para o ensino fundamental, mas a irmãzinha
dela está aqui, que também ficou um tempo na EMEI.
Elaine: Ahamm...
Milena: Então ela [mãe] fala mesmo “imagina, falam que é tão bom, mas não é
tudo isso”. Que eu acho assim é o número né, é o número de crianças por sala
que, de repente, também, não que impede um bom trabalho, mas para o professor
é difícil, 35 crianças, uma realidade de 35 crianças, às vezes para 1 professor só,
é complicado.
Elaine: Aqui você trabalha com que proporção?
Milena: Uma a cada 12.
Elaine: Em qual faixa etária?
Milena: Para os maiorzinhos de 2 anos em diante, aí é assim, não de 2 e 3 anos
eu tenho duas para cada 12. Aí de 4 e 5 anos é uma para cada 12. No berçário, o
espaço permite mais, então a proporção é de uma a cada 3 ou 4 bebês. A
capacidade é até 15, o espaço é maior.
Elaine: E sobre as creches de outros municípios você tem alguma outra
informação, conhece mais alguém, já ouviu outros comentários?
Milena: Não, só mesmo essa moça que trabalha em São Paulo, não tenho tanto
referencial e já não posso entrar em maiores detalhes não.
Elaine: E que seria para você uma boa creche, uma creche de boa qualidade?
Milena: Que tivesse realmente preocupação pedagógica, acho que pensar o
tempo todo em ações para que a criança não esteja só, porque a gente fala a
liberdade, a garantia do brincar é super importante, é a brincadeira simbólica
enfim, todo o espaço que deixa ela ser criança, assim sem tanta condição assim
no sentido de formalidade, mas ao mesmo tempo uma preocupação para discutir o
que é específico, que acho que em uma creche de qualidade tem que trazer isso
as discussões dos problemas, essa circulação das informações “o que acontece
com a minha turma, o que acontece com a sua”, uma professora de 1 ano que
passou com a criança para o outro ano então poder contar como era, trocar mais,
acho que não se tem essa preocupação. Na parte de creche acho que tinha que
ter a preocupação com a continuidade, com a forma de trabalhar, com a forma de
avaliar.
Elaine: Ahamm... E isso vale tanto para a pública quanto para a particular?
Milena: Sim.
395
Elaine: E uma creche ruim ou de má qualidade, o que seria?
Milena: Uma creche de má qualidade? É o oposto de tudo isso que eu falei, mas
assim que realmente não respeite a criança na sua fase de desenvolvimento e que
não avalie, não tenha esse olhar para a criança, das suas necessidades, dos seus
interesses, do que ela precisa, que só fique realmente nos cuidados físicos, quer
dizer, de estar assim alimentada, com sono em ordem, bem alimentada, bem
cuidada fisicamente. Que não tem uma preocupação com o emocional, com o
afetivo.
Elaine: E quando o seu bebê vier para cá, ele vai ficar o dia todo ou você ainda
vai trabalhar menos tempo?
Milena: Não. Eu vou trabalhar menos, vou ficar mais tempo com ele.
Elaine: Você já cumpria esse mesmo horário ou você reduziu a sua carga
horária?
Milena: Reduzi.
Elaine: Ahamm... e você pretende manter essa redução até que idade do bebê?
Milena: Aí eu preciso sentir também (risos), porque assim, conforme a criança vai
crescendo, a interação social né, embora eu ache que tem que ter realmente um
período em que a mãe fique com a criança entendeu. Eu acho que só a noite em
que a mãe tem que cuidar de todos, da janta, de colocar a casa em ordem no
sentido de pelo menos, porque é ela que conduz isso, embora tenha uma
empregada ou não, sei lá, é a mãe que conduz. E eu acho que é muito pouco,
então um tempo maior enquanto eu puder levar eu vou. Mesmo uma criança maior
assim, hoje em dia, a gente tem crianças que saem daqui com 6, 7 anos, que vão
para o período integral, ficar o dia inteiro na escola eu acho muito.
Elaine: E você recomendaria escola, creche pública ou escola particular para
outros pais e bebês?
Milena: Recomendaria, com certeza, especialmente por esse aspecto da
socialização, a criança fica mais independente mesmo, lidar entre iguais para
resolver os seus problemas eu acho melhor, é diferente de um adulto, de uma avó
ou de uma pessoa mais velha estar lidando com ela, então nos conflitos, nos
problemas ela ter que sair lidando com crianças da mesma idade, então quer
dizer, um igual, então eu acho que isso é primordial, a parte de interação social.
Hoje em dia, antes a gente ia com 6 ou 7 anos para a escola, hoje uma criança
que vai com essa idade pela primeira vez acho que ela fica, para mim, atrasada no
sentido assim “bobinha” no sentido do mundo que está por aí, que está posto. As
relações sociais ela mobiliza muito isso no caso de você estar aprendendo o
tempo inteiro com o outro, com um amiguinho e com realidades diferentes vai te
abrindo. Acho que uma criança que fica hoje em casa muito tempo ou fica na
396
frente da televisão, falta o espaço para brincar, para o grupo, não se tem, a
maioria mora em apartamento, quer dizer e aí, que tempo essa criança tem para
ser criança também? Acho que a escola é o espaço que sobrou para ela, para ela
brincar de ciranda, cirandinha, de corre cotia, de coisas que na infância de
antigamente se brincava na rua. Eu acho que é um espaço social, hoje em dia, é
mais a escola para a criança.
Elaine: E você recomendaria a creche pública aqui em São Caetano também para
outros pais e bebês?
Milena: Sim.
Elaine: E o que você acha ou se você conhece ou ouviu falar algo sobre a oferta
de vagas em creche?
Milena: Não, não posso te informar. Sobre a oferta de vagas eu não conheço.
Elaine: Você comentou algumas diferenças que você acha que existem entre as
creches públicas e as particulares, como o número de crianças atendidas e a
capacitação ou a qualidade dos profissionais... Por que você acha que existiriam
essas diferenças entre a creche pública e a particular?
Milena: Demanda, talvez, eu acho que é um, nas creches, no público a demanda
é muito grande.
Elaine: E aí para conseguir atender, se acaba atendendo mais crianças?
Milena: É.
Elaine: E você acha que existe alguma diferença entre um bebê que freqüenta a
creche pública e um bebê que freqüenta creche particular?
Milena: Diferença é de acordo com o contexto em que vive, mas isso a minha
escola particular também vai ser diferente do contexto de uma outra escola, eu
acho que enfim, cada escola com o seu contexto, a criança vai.
Elaine: Não se trata então de uma característica do bebê...
Milena: Não.
Elaine: Agora, eu gostaria que você fizesse uma breve apresentação da sua
família, em termos, por exemplo, da sua idade e a do seu marido, você já falou
que é formada em Pedagogia, já falou um pouco sobre o seu trabalho, mas se
puder comentar um pouco sobre o trabalho e a formação do seu marido, se vocês
têm alguma religião...
397
Milena: Tá, eu tenho 37 anos, sou pedagoga, tenho ensino superior em
Pedagogia, ele é formado em Administração de Empresas, hoje trabalha na XWZ
[uma divisão de uma grande empresa]. Ele tem 41 anos. O que mais você falou?
Elaine: Religião...
Milena: Religião assim, nós somos católicos, a mãe dele é mais praticante, mas a
gente não é praticante. E me identifico também com o espiritismo, já fui entendeu,
me identifico mais com o espiritismo em termos de religião, já fui, assim, agora
não estou freqüentando, mas já me encontrei muito (risos).
Elaine: E você começou o seu trabalho pela escola ou teve algum outro trabalho
anterior?
Milena: Comecei pela escola, eu fiz magistério, na verdade, porque ainda existia,
depois fiz pedagogia. A minha irmã mais velha trabalhava em um banco e eu e
minha irmã do meio estávamos fazendo pedagogia e assim, nossa família é muito
unida também, muito protetora e tal, e ela tinha o sonho de sair do banco e assim
atender a gente também, pensando no mercado pra gente também e na
dificuldade em relação a ser professor e tudo, e foi ela quem montou a escola e eu
comecei na escola mesmo, ainda fazendo faculdade. No começo, enquanto a
escola era bem pequenininha, eu fiquei um bom tempo na sala de aula com
crianças maiores porque ainda não tinha o berçário.
Elaine: E você mora aqui em São Caetano né e moram juntos só você, seu
marido e seu bebê...
Milena: Isso.
Elaine: E o que você lembra dos cuidados e da educação que você recebeu na
sua infância?
Milena: A gente lembra já quando é maiorzinho né, não de quando era bebezinho.
Mas, assim, minha mãe sempre foi mãezona, tanto que assim ele [bebê] fica com
a minha mãe de olhos fechados, minha mãe é mãe com M maiúsculo e a gente
assim sempre foi muito unido. Na hora do jantar, discutindo tudo, sempre apoio na
resolução dos problemas da gente, meu pai e minha mãe sempre teve isso de
sentar e conversar, aconselhar, a gente tinha esse tempo, sempre teve, então a
gente sempre muito unido.
Elaine: Sua mãe trabalhava fora?
Milena: Não.
Elaine: E vocês ficavam com ela, foram cuidadas por ela?
Milena: Por ela e eu tenho 1 ano de diferença da minha irmã então a gente vivia
juntas e minha mãe não trabalhava e ficava com a gente.
398
Elaine: E você chegou a freqüentar, foi para a escola com que idade?
Milena: Com 6 anos, que era a antiga pré-escola, só com 6.
Elaine: Aqui em São Caetano?
Milena: Em São Caetano.
Elaine: E era pública?
Milena: Era escola estadual, na verdade. Antes tinha escola estadual que tinha o
prézinho. E lá eu fiquei e fiz o ensino fundamental, vamos dizer, de antigamente,
o primário e o ginásio eu fiz nessa mesma escola. Meu marido também, a mãe
não trabalhava e cuidava dele.
Elaine: E o que você pensa dessa educação que você recebeu?
Milena: Minha avaliação é 10 em termos realmente de aconchego, acolhimento,
atenção, proteção, tudo de bom. Minha mãe era um pouco rigorosa quanto às
regras tudo, enfim cheia de tabus e preconceitos, mas isso eu carreguei para a
minha vida assim eu acho que também direciona, então o cuidado, muito cuidado
[enfática], ela tinha muito isso e isso me ajudou.
Elaine: E do que você recebeu, o que você quer transmitir para o seu filho ou
adota ou quer adotar na educação dele?
Milena: Tudo assim que eu vivi, não tem nada que eu fale “não, isso eu não
levaria para o meu filho”. Eu acho que de tudo um pouco eu levaria, talvez, um
pouquinho mais de liberdade mesmo porque com a minha mãe sempre teve
horário para chegar em casa, ela era, sempre foi mais fechada e meu pai ele
falava “eu combinei com a sua mãe, se fosse homem eu administrava, vocês
deram azar de nascer mulher, porque são 3 mulheres, então é ela que toma
conta” (risos). Então, era assim a minha mãe que, às vezes, fazia papel de pai no
sentido de, se bem que meu pai sempre foi rigoroso, mas assim, de colocar hora,
atenção, obediência à professora [enfática], sempre foi cheia de dedos. Então,
isso eu levo, com menos intensidade talvez, talvez com um pouquinho mais de
liberdade. Mas, assim o fato de acolhimento, de estar junto para discutir, para
aconselhar, para amparar, isso, amparo eu diria que foi tudo que a minha família
deu. Você saber assim que você tem as costas protegidas, meu pai nunca ajudou
a gente financeiramente no sentido “olha, eu faço por você”, mas ele dava
retaguarda. Então, para tudo o que a gente começou, tanto a escola para a minha
irmã quando ela começou também, mesmo para comprar, pra gente casar,
comprar o apartamento, quer dizer, sempre teve aquilo de “olha, se precisar eu
estou aqui”. A gente faz o possível e o impossível para “olha, você quer, está
aqui”, mas a gente nunca abusou disso, quer dizer, nunca precisou, mas a gente
399
tinha certeza que, até hoje, que a gente tem esse amparo. Então, acho que o
amparo é tudo.
Elaine: Ahamm... e sobre licença maternidade, o que você sabe? Você chegou a
usufruir dela por quanto tempo?
Milena: Na verdade, eu tinha uma liberdade maior, então eu fiquei 5 meses,
embora coincidiu o primeiro semestre afastada, porque ele nasceu no começo do
ano e então eu fiquei afastada o primeiro semestre. E eu tinha que retomar no
segundo semestre pela responsabilidade do meu trabalho, mas não era nada
imposto, se eu quisesse ficar mais eu ficava.
Elaine: E você conseguiu mesmo ficar em casa com ele?
Milena: Fiquei, fiquei... Enquanto proprietária de escola eu acho que se essa lei
dos 6 meses for rigorosamente para todos eu acho complicado. Mas, enquanto
mãe é tudo de bom você poder ficar 6 meses, um pouquinho a mais com o seu
filho, em tempo integral.
Elaine: Qual você acha que seria o tempo ideal de licença maternidade? Para a
mãe, para o bebê, para a mulher, enfim?
Milena: Eu acho assim os 4 primeiros meses são os mais críticos mesmo, talvez
os 6 primeiros, até vai, até 6, mais do que isso, para mim é meio difícil assim você
pensar nessa pessoa, independente de ser na escola, no caso, mas assim que
trabalha, uma empresa sobreviver mais de 6 meses com uma pessoa afastada,
ela vai continuar sobrevivendo sem entendeu. Então, faz falta eu acho assim, mais
do que isso acho que você tem que ter, a realidade social também move. Hoje em
dia, uma mãe, ela trabalha, ela tem o seu compromisso também, hoje em dia, a
mãe dificilmente abre mão do profissional dela por conta até da necessidade,
então mais de 6 meses eu acho complicado pensando em tudo.
Elaine: Aqui vocês pensam em adotar ou negociar com as suas funcionárias essa
licença maior, já que o projeto aprovado dá essa liberdade de negociação para
prorrogar, estender a licença para os 6 meses?
Milena: Não pensamos nisso ainda. Nós estamos com três gestantes e a gente
está acertando, começo de ano é muito confuso para você acertar tudo e ontem
mesmo a minha irmã comentou que a gente vai precisar ver isso direitinho. Mas,
ainda não conversamos a respeito.
Elaine: E você considera que os 5 meses que você usufruiu foram adequados,
foram suficientes? Foi um tempo bom?
Milena: Foi, foi, foi um tempo que deu para aproveitar bem.
Elaine: E sobre licença paternidade, o que você sabe?
400
Milena: (risos)
Elaine: O seu marido usufruiu?
Milena: Não, não usufruiu. Não saberia te dizer não sobre licença paternidade,
não saberia (risos). Acho que é pouco divulgado, também acho que ninguém
sabe...
Elaine: Ele não ficou nenhum dia com você?
Milena: Não, ah sim, tem 5 dias né. Mas, assim foi bem de final de semana
também, com feriados, então, praticamente também, não teve, emendou só.
Elaine: A licença paternidade são mesmo os 5 dias...
Milena: Ah, uma semana era bom para a mãe.
Elaine: Eu ia mesmo te perguntar qual o período que você consideraria ideal para
a licença paternidade e também o que você acha do projeto que está propondo a
ampliação dessa licença de 5 para 15 dias?
Milena: Olha que 15 dias era até razoável. É complicado, porque eu penso assim,
tudo bem que muda muito na tua vida a chegada de um bebê, muda tudo, vira de
ponta cabeça a sua vida, a sua casa, tudo, mas acho que, pelo menos no meu
caso, ele [marido] não é tão participativo [enfática], não é tão, eu não sei até que
ponto mais me atrapalharia do que ajudaria (risos). Que mais?
Elaine: Você contou com a ajuda de alguém logo depois do nascimento do bebê?
Milena: Com a minha mãe, o tempo todo ela comigo, o tempo todo ela ficou. Mas,
acho que assim 10 dias acho que tudo bem, mais do que 5 dias que é bem pouco,
pelo menos para chegar em casa, viver um pouquinho mais os primeiros
momentos de agitação, de desespero assim junto com o marido eu acho que é
interessante, mas mais do que isso acho que atrapalharia, no meu caso,
atrapalharia.
Elaine: Ahamm... e os 15 dias, tudo bem?
Milena: Tudo bem.
Elaine: Mais do que isso você acha que não...
Milena: Não, não, já acho desnecessário.
Elaine: Então, você me contou que o seu bebê fica com a sua mãe e eu gostaria
de saber como vocês chegaram nessa decisão, se você conversou com o seu
401
marido, se a sua mãe se candidatou a ficar ou não, como foi que vocês decidiram
ou conversaram sobre isso?
Milena: Olha, foi bem mais eu determinando do que ele [marido], eu mais
comuniquei do que, na verdade, perguntei (risos) ou assim discuti com ele. Como
a minha mãe trabalhava aqui [na escola] comigo e ela saiu de licença comigo,
coincidiu de ela sair de licença comigo, então eu fui acomodando, para quem já
está 4 meses fica mais um pouco, vai ficando e ela foi. Por causa da gripe e teve
toda aquela coisa.
Elaine: Ela saiu de licença para te acompanhar...
Milena: Foi, ficou o tempo inteiro comigo.
Elaine: Ahamm...
Milena: E aí emendou, ela acabou ficando porque senão ela retornaria comigo
para a escola. E até pela idade dela, a gente até comenta, entre nós assim, ela
trabalhava também o dia inteiro antes de sair de licença comigo, ela ficava das 8
horas, ela era praticamente a primeira que chegava e a última que saía. E ela é
sempre assim, ela sempre foi muito disposta. Ela nunca se acomoda, não é
porque é mãe da gente [proprietárias da escola], mas assim, ela faz em dobro. E a
gente quis dar até um “não, fica em licença ainda, é mais sossegado”, embora
agora ela está também sofrendo com ele [neto] no sentido de ele estar bem
espertinho, tal, mas ela não tem boca para dizer nada assim. Eu falo “ai, mãe, ele
está difícil, está danadinho né” e ela diz “não, não, imagina”. Aí eu falo “vou levá-lo
para a escola agora que ele está melhor” e ela fala “espera o aniversário de 1
aninho”, então ela é muito mãezona nesse sentido, mas foi mais uma
determinação minha, tanto é que meu marido ficou um pouco assim na hora que
eu falei “não, ela, minha mãe vai ficar sim”. Me perguntavam, a família começou a
me perguntar, na verdade, ele ficou mais sabendo porque a família me
perguntava, “não, ele vai ficar com a minha mãe e tal” e aí ele sentiu um
pouquinho de resistência assim de ciúmes “porque com a sua mãe e não com a
minha?”, eu enfrento até hoje essa problemática, de ficar meio a meio, porque eu
converso com todo mundo que trabalha comigo e isso também é uma
problemática que falo “já era para eu ter trazido mesmo, fui protelando, aí ele
[bebê] ficou doente, então isso foi, mas já passou da hora de vir para a escola
mesmo para evitar todo esse tipo de problema”.
Elaine: E a sua mãe pensa em voltar a trabalhar quando ele [neto] vier para a
escola?
Milena: Pensa.
Elaine: E você, em algum momento, pensou em parar de trabalhar? Porque você
acabou, de qualquer forma, também reduzindo a sua carga horária...
402
Milena: Humm, é não pensei. Eu só assim quando eu estava, no finalzinho da
licença, porque a previsão não era que eu tiraria 5 meses de licença, não, mas
assim eu pensei “ah, deixa terminar as férias de julho, agosto começam as aulas e
aí eu começo, então coincidiu 5 meses. Para eu retornar em julho, a escola já
estava mais calma, e aí eu pensei “ah, não vou também retornar agora, vou ficar
mais tempo com ele”. Mas, aí, eu já tinha desde então conversado com as minhas
irmãs “ah, eu vou reduzir um pouquinho” e elas disseram “não, você deve
realmente, imagina”. Como a minha irmã também tem dois que são gêmeos, ela
só trabalha meio-período mesmo, então “ah, não, a gente trabalha por conta então
cada uma”... aí coincidiu da minha irmã casar há pouco tempo, porque antes a
gente trabalhava o período todo, exceto a minha irmã mais velha que estava só
meio-período, aí como cada uma agora tem seus compromissos, minha irmã
casou, tem casa para cuidar, eu com o bebê e minha irmã mais velha com os
filhos, todas reduziram, então a gente entrou nesse acordo.
Elaine: Ahamm...
Milena: Então, isso eu tinha certo, “vou trabalhar menos”.
Elaine: Mas, parar de trabalhar não pensou...
Milena: Não.
Elaine: Então tá, acho que a gente já conversou sobre quase tudo, já estamos
mesmo no final, e eu gostaria que você pensasse os nomes para você e para seu
bebê para eu poder alterar na transcrição.
Milena: Põe Milena eu e Raul, meu filho.
Elaine: Eu queria então agradecer, não sei se você quer comentar alguma coisa
sobre o tema, sobre a entrevista ou sobre as perguntas, ou acrescentar alguma
coisa?
Milena: Não, assim, só fica a curiosidade de realmente saber a conclusão do seu
trabalho.
Elaine: Ahamm...
Milena: Assim, por que, a justificativa (risos) da tua pesquisa, eu porque estou na
área queria saber, queria ter acesso a isso, mas é só curiosidade mesmo.
Elaine: Ahamm... então tá jóia, muito obrigada e, como eu já tinha comentado,
vou te encaminhar a transcrição da entrevista assim que ficar pronta. Quanto ao
trabalho, depois que eu entregar e defender, eu poderei sim te entregar uma
cópia, não tem problema algum.
403
Transcrição oitava entrevista
Entrevistada: Júlia, 36 anos, psicóloga, atua como psicóloga clínica em
consultório particular, mãe de Diogo, 1 mês e meio.
Elaine: Então, eu queria agradecer a sua participação, a sua disponibilidade em
me receber com o bebê bem novinho no colo (risos) e o seu interesse mesmo em
participar da pesquisa. O começo da entrevista é um pouco mais genérico tá.
Júlia: Tá jóia.
Elaine: Então, pensando em um contexto mais geral, você acha que a sociedade
ou o Estado têm algum dever para com os bebês, o Estado ou a Sociedade têm
alguma responsabilidade para com os bebês?
Júlia: Ah, eu acho que poderiam haver mais centros para orientação das mães,
grupos de apoio ao aleitamento materno. Eu tive sorte porque eu fui ter o bebê em
uma maternidade muito boa, muito conceituada e lá tem um grupo de aleitamento,
elas fizeram todo um trabalho, porque assim eu conheço meninas que o bico
racha e aí não consegue dar de mamar, então, mas assim a gente está em uma
camada favorecida, o plano de saúde cobre essa boa maternidade [localizada em
São Paulo], porque meu médico é de lá de São Paulo, eu sou de lá de São Paulo,
então assim, eu estou aqui em São Caetano há 3 anos, e quando você vai ter
bebê, meu médico é o meu médico quase a vida toda, então você quer procurar
um profissional que você já conhece, que você já está à vontade, eu queria muito
que ele nascesse aqui [enfática], mas meu médico não vinha para cá, então eu
tive que me deslocar e teve essa coisa boa de ter todo esse apoio, de explicar os
cuidados com o bebê, porque mãe de primeira viagem é uma loucura, eu não
tenho criança perto na família, a criança mais nova da família está com 27 anos,
então ele [bebê] agora é a sensação. Então, eu acho que poderia ter, aqui em São
Caetano eu até soube que tem um local, mas assim, eu vejo que não tem muita
divulgação, então eu acho que deveria ter mais e claro, mais creches pra depois a
gente poder voltar a trabalhar com mais tranqüilidade, berçários. Então, acho que
falta muito, acho que aqui em São Caetano, a gente é privilegiado, porque todo
mundo me fala que o ensino público é maravilhoso, depois quando ele [bebê]
estiver um pouquinho maior que dá para colocar, mas berçário mesmo [enfática]
eu ainda não achei nenhum que fosse público, só achei particular.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Então, acho que falta todo esse apoio com a mãe ainda na gestação pra
aprender a depois cuidar do bebê e ter esse apoio depois na volta ao trabalho.
Elaine: Ahamm... As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde
1988, com a nova Constituição, mas somente 18,1% das crianças nessa faixa
404
etária estão freqüentando creche, enquanto que quase 80% das crianças de 4 e 5
anos já estão freqüentando a pré-escola. O que você pensa sobre isso?
Júlia: Ah, eu acho que é meio isso que eu te falei, eu não vejo que tenha tanto
acesso não. Eu trabalhei em empresa particular durante muito tempo, eu estou
aqui na clínica há menos tempo, e não tinha, por mais que tenha lei, a gente sabia
disso, vinha fiscalização, a empresa levava multa, mas não tinha creche [enfática],
as mães tinham que se virar, o máximo que as empresas davam era aquela 1
hora, para você sair 1 hora antes do trabalho, para poder fazer o aleitamento.
Mas, a gente sabe que se você não tiver aquela constância de poder ir rapidinho,
nem que seja uma meia horinha, e dar o peito, o bebê vai perdendo o costume, vai
acostumando com a mamadeira, e aí é um ciclo, não estimula o seio, o seio para
de produzir leite e aí para o aleitamento. Então assim, existe a lei, existe. Mas, na
prática, por tudo o que eu vi, ela não é cumprida.
Elaine: As empresas não tinham creche e pagavam algum auxílio-creche?
Júlia: Não tinham e não pagavam nada. A única coisa que tinham era poder sair 1
hora antes pra dar de mamar, o que a gente via que na prática não resolvia nada.
Então, eu acho que é legal ter uma lei para apoio, mas que seja mais fiscalizado,
não adianta ficar só na multa. A multa, para a empresa, é irrisória. Então, tem
mesmo que ter mais apoio, mais instituições porque a gente vê que não é
suficiente o que tem. Aí acaba que no final, a mulher acaba que não voltando ao
trabalho, aquelas que podem ficar em casa, que têm um mínimo de condição,
acabam ficando em casa porque não têm apoio para voltar.
Elaine: Elas acabam preferindo parar de trabalhar?
Júlia: É, eu acho que sim. Pelo menos, foi o que eu vi nessa minha vida até
então, mais até o lado profissional que eu acompanhei muitas mães.
Elaine: E aí, você acha que isso justificaria um pouco essa pouca freqüência das
crianças menores à creche enquanto as maiores já freqüentam mais a préescola...
Júlia: Eu acredito que sim, eu acredito que sim, porque aí o pessoal dá mais
importância porque “na escola já tem que começar a aprender a ler, a escrever”,
então o pessoal faz questão de colocar. Agora, no berçário, na creche, eu acho
que é mais uma questão de necessidade mesmo, a pessoa esquece que ali a
criança também tem que ser estimulada, o convívio com outras crianças é
importante, a gente sabe disso, mas eu não sei também a qualidade dessas
instituições, como que está. Agora, é que eu vou começar a procurar é que eu vou
ver realmente.
Elaine: Ahamm... E por que os adultos, em geral, não se preocupam ou não se
mobilizam pela questão dos direitos dos bebês ou pelas políticas de creche?
405
Júlia: Olha, eu acho que, infelizmente, acho que dá até para falar no Brasil como
um todo. Como eu te falei, eu sou de São Paulo, eu estou aqui em São Caetano
há uns 3 anos, eu morei 5 anos em outro Estado, então eu posso falar daqui e
posso falar um pouquinho da realidade de lá. As pessoas são muito egoístas
[enfática], eu acho. A gente não tem aquela noção de comunidade, de um ajudar o
outro, às vezes, você não conhece o seu próprio vizinho, então assim, chegam
férias, Carnaval e, às vezes, a casa do vizinho está do lado, está vazia, é
assaltada e ninguém faz nada sabe. A pessoa é assaltada na rua e ninguém faz
nada. Então, eu acho que é essa questão de egoísmo que a gente tem na nossa
sociedade. Cada um olha só para o seu próprio umbigo, então vai pensar nisso na
hora em que precisa. Então, nesse momento eu vou precisar, então aí eu corro
atrás, vou ver como é que é. Eu acho que a sociedade, ela não se mobiliza, nem
nessa questão e nem em tantas outras como a gente está vendo aí essa questão
de enchente, que está uma calamidade. Então, eu acho que falta essa noção de
comunidade da nossa sociedade. Eu morei 1 ano, praticamente 1 ano, fora do
Brasil, e eu vi que lá é diferente. Lá assim, cada um mantém a sua privacidade,
eles têm muito isso de ter a sua privacidade, ninguém invade o outro, então assim
não têm essa liberdade que nós brasileiros temos de quando você sai com uma
criança o povo vem “ai que bonitinho, ai que fofinho” e puxa uma conversa. Isso lá
não existe e eles ficam até meio ressabiados se você faz. Por outro lado, eles têm
essa questão de comunidade, eles se unem, eles brigam, então eu acho que falta
pra gente um pouquinho isso.
Elaine: Ahamm... E como você acha que os adultos, incluindo aí os políticos e a
sociedade em geral, poderiam se mobilizar para atender a esses direitos dos
bebês e agir mais ativamente em relação às políticas de creche ou reivindicar?
Júlia: Eu acho que os políticos aqui no Brasil estão muito sem credibilidade.
Então, o pessoal também não corre atrás, fica só falando “ai, é tudo ladrão
mesmo”, já generaliza e meio que se conforma com essa situação. Eu não
entendo muito por que, mas acho que acaba sendo isso que acontece e teria sim,
é como eu falei, a lei existe, mas teria que haver meios de ter uma fiscalização, de
buscar e ter mais centros mesmos, porque não adianta ter um centro longe do
trabalho da pessoa ou da casa dela [enfática], tem que ser no caminho, entendeu,
ou pertinho da casa dela que ela já vá e já deixa a criança ou próximo ao trabalho
ou dentro das empresas que é o que a lei pede dependendo assim, depois de x
número de funcionárias, ela teria que ter a creche dentro e como eu te falei, eu
trabalhei em grandes empresas, multinacionais conhecidas e nenhuma delas
tinha, não tinha pretensão de ter [enfática], eles preferiam bancar a multa que era
irrisória do que fazer o investimento e, de verdade, infelizmente, o que eu vivenciei
era assim, 98% das meninas engravidavam, tinham a sua licença maternidade
respeitada, o seu período de estabilidade, depois do período de estabilidade, elas
eram postas no olho da rua. Eu vi isso acontecer muito, muito, muito [enfática].
Era uma ou outra menina que conseguia se manter porque era uma profissional
assim excepcional, porque se fosse aquela profissional mediana, ia pra fora
mesmo, não tinha choro nem vela, como a gente fala. Então, ninguém está
interessado. Precisaria criar mesmo um mecanismo, assim criar mais centros
406
desses e criar fiscalização mesmo, outros mecanismos e exigir mesmo que as
empresas, por exemplo, tenham e para a comunidade que, às vezes, não está em
uma grande empresa ter locais mais perto de casa, mais perto, mais centros, mais
espalhados, não adianta ter poucos como a gente vê hoje.
Elaine: O que você está chamando exatamente de “centros”?
Júlia: Ou uma creche ou um berçário. Um centro comunitário assim ou que tenha
os dois ou que um seja uma creche e o outro seja um berçário.
Elaine: Um lugar que ofereça atendimento público...
Júlia: Exato, exato. Que poderia até ser ampliado, ter ali um pediatra, uma
assistente social, até uma psicóloga pra estar atendendo as mães também. Até os
próprios professores, não sei, acho que não chamam professores, acho que são
assistentes né que cuidam das crianças, pra essas pessoas também terem uma
orientação melhor.
Elaine: Ahamm... E você, particularmente, se preocupa ou se mobiliza por essas
questões dos direitos dos bebês ou das políticas de creche? Se preocupava antes
ou passou a se preocupar mais agora?
Júlia: Ah, a preocupação aumentou agora com o nascimento dele por também
estar tendo que vivenciar isso, mais um pouquinho eu já estou começando a
buscar para ver como eu vou fazer para voltar ao trabalho. Minha família está toda
em São Paulo, então assim, não é distante, mas com trânsito, com enchente, com
isso e com aquilo, fica distante [enfática], então eu não tenho como contar [com a
ajuda da família], eu vou ter que me virar aqui mesmo, meu marido também
trabalha, por sorte, eu vou ter um horário mais flexível estando aqui na clínica,
mas mesmo assim eu vou precisar de um apoio. Então, infelizmente, eu me incluo
também na nossa população que se preocupa mais com o próprio umbigo que
nunca se mobilizou. Apesar de eu trabalhar com criança, eu vivenciava também
uma realidade diferente. Normalmente, as crianças [pacientes] estavam em
escolas particulares, então que oferecem todo um apoio para as mães, então
assim, o que eu me preocupava era mais a questão de ensino mesmo, de
estímulo, do que estava sendo passado para essa criança, às vezes, a criança
tinha algum probleminha e eu queria saber o que estava sendo feito para dar um
suporte, era mais nesse lado, então eu também não estava super engajada. Acho
que agora a visão da gente vai mudando de acordo com os momentos que a
gente vivencia, com a experiência que a gente está passando.
Elaine: Você atende crianças?
Júlia: Eu trabalho com adulto e criança.
Elaine: Ahamm...
407
Júlia: Depois eu vou te mostrar, lá em cima a gente tem uma sala só para criança,
então me proporcionou essa experiência que é muito gostosa, muito legal.
Elaine: Você está atendendo há 3 anos? Você comentou que está morando em
São Caetano há 3 anos...
Júlia: Isso, estou em São Caetano há 3 anos e estou aqui no consultório há um
pouquinho menos do que isso, porque até chegar, até buscar e tal...
Elaine: Você veio para São Caetano por conta do casamento?
Júlia: Então, eu vim por conta do trabalho do meu marido.
Elaine: Ahamm... tá.
Júlia: A gente já estava casado há um bom tempo, a gente já está casado há 11
anos, então, eu no começo morava em São Paulo, aí fui para fora com ele, fui
para outro Estado com ele, a gente trabalhou lá e queria muito voltar. A gente não
se acostumou muito bem não, não se adaptou muito bem lá e aí a gente quis
voltar. E aí a gente está amando. Aqui, eu falo que parece, para quem vem de
fora, parece uma cidadezinha do interior porque o pessoal é mais gentil, é mais
disponível eu acho. Então, você está meio perdido na rua, você pede uma
orientação, a pessoa faz de tudo para te dar, às vezes, lá em São Paulo, você
para pra pedir, todo mundo já fica assustado, com medo de assalto. Não que aqui
não tenha, mas é um ambiente mais gostoso eu acho, mais tranqüilo.
Elaine: Ahamm... Agora, então, vamos falar um pouquinho mais sobre bebê. Você
poderia descrever um bebê para mim? O que te vem à cabeça quando falamos
bebê ou o que é um bebê para você?
Júlia: Ah, é meu lindo agora né! A gente fica super corujona assim. É um misto,
na verdade, de sentimentos que a gente tem, porque é um serzinho que depende
de você, muitas vezes te limita porque aonde você vai, ainda mais eu que estou
fazendo questão de estar dando de mamar mesmo, de dar o peito, aonde você vai
eu tenho que levar e assim eu dependo dele para fazer as coisas, os horários são
dele, mas é uma experiência assim inacreditável. Todo mundo falava, mas acho
que só depois mesmo de você passar que você vai ver mesmo. Às vezes, grita,
chora, esperneia, você fica desesperada, você não está entendendo o que que é,
então mexe com você, quando tem dor, você se sente super impotente, porque, às
vezes, você ministrou remédio e o remédio não faz efeito ou demora, então você
vê que você não consegue proteger de tudo, mas é a vontade que você tem, e por
outro lado, é um amor imenso assim. Eu li um livro muito interessante que chama
Mãe, e agora? e que fala do depois do nascimento do bebê, a maioria dos livros
que tem de informações são sobre a gestação, pelo que você passa, as mudanças
e tal e é uma pediatra que escreveu, agora não me recordo o nome dela, e ela fala
muito do momento do nascimento, que é muito fantasiado, então em filme, em
novela, aquele bebê grandão, rechonchudinho, gordinho, limpinho [enfática] e que
408
não é nada disso, ele vem sujinho porque eles logo te mostram quando nasce e
ela falou “olha, também é muito fantasioso a questão do vínculo que para muitas
mulheres elas não se conectam com o bebê logo de cara”, demora um pouco, tem
uma questão hormonal que influencia também e aí vem muita culpa porque a
gente vê toda aquela fantasia e fala “poxa, eu sou a pior mãe do mundo porque
não me conectei com o bebê”. Então, pra mim, isso foi muito libertador quando eu
li e fiquei assim “poxa, como será que vai ser comigo?” e comigo foi meio a
fantasia assim (risos) porque eu ouvi o chorinho dele, pronto, já comecei a chorar,
já fiquei super emocionada e depois eles mostram logo, depois vão, fazem todos
os exames, limpam um pouquinho mais, aí trouxeram, aí eu comecei a conversar
com ele, ele parou de chorar na hora, abriu o olhinho, aí eu já fiquei encantada
(risos) então assim, é isso, tem essa questão que é difícil, é trabalhoso, às vezes,
você está cansada, às vezes, você fica irritada, não dá para dizer que não. Mas,
tem todo esse amor, essa alegria, esse contentamento, orgulho que a gente fica
toda orgulhosa quando falam que o bebê é lindo (risos), então tem essa mistura
mesmo. Acho que é esse serzinho que desperta tudo isso na gente e essa
responsabilidade que você tem com essa criança e é para o resto da vida, não
adianta. As minhas amigas que já são mães falam “olha, a preocupação é
constante, só vai mudando”, então agora é assim “está mamando direito?, está
crescendo, está limpinho?”. Daqui a pouco é “está indo bem na escola?”, daqui a
pouco tem namorada (risos) e assim vai.
Elaine: Ahamm... E se você pensar um pouquinho nos bebês, em geral, não tanto
no seu bebê, o que caracteriza um bebê, qual a imagem que você tem de um
bebê?
Júlia: Ah, acho que é aquela coisinha fofinha, rechonchudinha, gostosinha,
cheirosinha (risos), que não é assim 100% do tempo né, hoje eu sei, mas acho
que remetia mais a essa coisa boa, essa questão da maternidade também, da
mulher estar mesmo ali disponível para esse bebê, acho que misturava tudo isso,
acho que não ficava só no foco do bebê assim. Mas, a questão da mãe mesmo
estar disponível para cuidar, especialmente, para amamentar porque é uma
delícia, mas é como eu te falei, muitas vezes, é um pouco limitante pra gente.
Ainda mais eu que estava acostumada a ir, fazer, acontecer, fazer as coisas
sozinha e trabalhava, e, de repente, você se vê e seu mundo dá uma limitada
mesmo. Mas, é aquilo, você sabe que é temporário e é muito gostoso e assim, eu
acho que tem a questão da família também me vinha à tona mesmo, era uma
coisa que eu queria, que eu admirava em outras pessoas, e hoje, eu tenho pra
mim, a minha família aumentou, já não sou mais só eu e meu marido, já tem ele
também.
Elaine: E existe diferença para você entre um bebê e uma criança pequena?
Júlia: Ah, com certeza, mesmo antes assim, a gente sabe que determinada faixa
etária ele ainda não te reage tanto, ele pede muito, ele quer mamar, ele está sujo,
ele quer dormir, enfim, ele exige cuidado, mas ele não reage tanto à gente. Aos
poucos, ele vai reagindo mais, então vai dando um sorrisinho, vai fazendo um
409
carinho, e aí a criança pequeninha quando já fala então é uma delícia porque daí
brinca mesmo com você, responde, a gente vai vendo, a gente que conhece um
pouquinho vai acompanhando todas as fases de desenvolvimento, os
comportamentos esperados para cada fase.
Elaine: Ahamm... E para você um bebê seria até mais ou menos qual idade? Que
a gente diria “ah, até tal idade ainda é um bebê, depois já é uma criança
pequena”...
Júlia: Ai, eu acho que até 1 ano, eu acho, não sei. Eu vejo minhas amigas falarem
“ah, é bebê para o resto da vida, você vai ver” (risos), mas eu ainda, como ele
ainda é pequenininho, eu não tenho ainda a experiência mesmo, mas de imaginar
assim acho que até 1 ano. Depois de 1 ano já é mais uma criança mesmo,
pequena ainda [enfática], exigindo muito cuidado, mas acho que é isso, acho que
até 1 ano.
Elaine: Você comentou que aí a criança já fala... a fala é uma coisa que...
Júlia: Ah, eu acho que é um marco, que muda bastante assim. E acho também
que a questão do piniquinho que as mães falam, de sair das fraldas, acho que são
grandes marcos aí na vida da criança.
Elaine: Ahamm... Você aqui no consultório, atende crianças a partir de que idade?
Júlia: Olha, eu não tinha muito essa questão não. Mas, o meu paciente
menorzinho tem 4 anos. E eu acho, pela experiência, eu nunca tinha trabalhado
com uma criança tão pequena, eu acho que é uma idade boa. Não sei se muito
antes disso, porque assim é complicado até pela própria comunicação, por mais
que a gente trabalhe muito com o brincar, a falta da fala, eu acho que a fala faz
falta [enfática], então eu acho que essa faixa etária está boa. Você vai me
perguntar “mas, e se aparece alguém com uma necessidade real?”, eu acho que
eu vou ser muito honesta com a mãe e vou falar “olha, eu nunca trabalhei com
uma criança tão pequena, a gente pode tentar ver se funciona”, mas acho que a
partir de 4 é uma idade boa para começar.
Elaine: Ahamm... E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados e
educados? Ou qual seria a melhor maneira de educá-los? Do que um bebê
necessita?
Júlia: Ah, eu acho que, primeiramente, acho que é aquela questão mínima de
higiene, de limpeza e depois, lógico, muito carinho, muita atenção, que é
complicado, porque a gente fica também dosando para não dar atenção demais e
também acabar não comprometendo por outro lado, mas acho que primordial é
essa questão da higiene, do cuidado mesmo, de ter uma alimentação adequada,
ter essa preocupação, então, eu não sabia muito bem, mãe de primeira viagem,
mas tem que fazer um acompanhamento com a pediatra todo mês, então para ver
se ele está crescendo adequadamente, se está ganhando peso adequadamente, e
410
a gente sabe que, infelizmente, algumas mulheres não têm acesso a isso, porque,
às vezes, não têm nem direito aonde deixar a criança, não tem uma rede pública
muito boa, então é complicado, acho que tem que ter, isso é o básico do básico,
mas além disso tem que ter muito carinho, muita atenção. Eles precisam ser
estimulados, a gente sabe disso, da importância, então assim tem gente que olha
e fala “nossa, essa mulher é meio louca né”, porque eu falo com ele, eu brinco, a
gente vai tentando estimular de toda forma por menorzinho que ele seja, a gente
sabe hoje que até mesmo quando a criança está no útero é importante você estar
conversando e tentar ficar tranqüila também, porque isso é uma coisa que a gente
percebe mesmo, se eu fico um pouco mais agitada ou muito cansada ou até
irritada reflete nele, com certeza. Então, essa questão assim de ter uma
tranqüilidade e eu acho que, pelo menos, por um período de tempo, estar
disponível para o bebê. A gente quer ter a nossa vida, a gente quer voltar ao
trabalho, mas eu acho importante essa questão da licença, parar um pouquinho,
estar disponível para o bebê [enfática]. Eu sei que nem toda mãe pode e isso,
outro dia eu estava com ele e veio uma moça que ela fazia limpeza ali do lugar, foi
semana passada isso, ele já estava quase para fazer 2 meses e ela me perguntou
quanto tempo ele tinha e tal e ela falou “a minha bebê tem 28 dias e está em casa”
e eu falei “e você já está de volta?” [enfática], ela falou “é, eu tenho que trabalhar,
não tem como, a empresa não dá licença”. Você vê, a gente falando, a licença é
por lei, ela falou “a lei fica só na lei porque a empresa não dá a licença, então se
eu não voltasse a trabalhar, eu ia perder o emprego.” Então, eu olho muito para
esse lado também do quanto eu sou abençoada de poder estar parando, por mais
que como profissional autônoma, eu não tenho assim, a licença quem está
fazendo sou eu, então enquanto eu não trabalho, eu não estou recebendo, só vêm
os gastos. Mas, graças a Deus, eu tenho a possibilidade de estar passando um
tempo com ele, de estar me dispondo a estar com ele, a estar cuidando dele.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Eu acho que tem toda essa questão, não só a questão física de manter a
criança limpa, higienizada, enfim, de alimentar, de cuidar direitinho, mas essa
questão emocional também eu vejo que faz bastante diferença.
Elaine: Como você comentou essa questão de ser profissional autônoma, como
seus pacientes reagiram com essa questão da licença e de você ficar um tempo
afastada?
Júlia: Então, você sabe que eu fiquei um pouco preocupada [enfática] quando me
vi grávida, ele foi planejado, mas assim, eu tive uma gravidez anterior e eu sofri
um aborto espontâneo e da outra vez eu demorei quase 1 ano para engravidar.
Então, eu imaginava que seria mais ou menos a mesma coisa, mas não foi, foi
muito rápido, em 2 meses, eu me vi grávida. Então assim, de certa forma, me
pegou um pouco de surpresa, não era o que eu estava esperando. E, claro, me
preocupei, especialmente por trabalhar com crianças, porque é aquilo, a barriga
vai crescendo, não tem como. Até por já ter passado essa questão da gravidez
anterior, por ter tido o aborto, eu esperei um pouco para estar conversando com
411
os pacientes, porque a gente sabe que aqueles 3 primeiros meses são mais
críticos realmente, então passado esse período, eu faço supervisão, você sabe
como é que funciona, então assim, fui, conversei muito com a minha supervisora,
ela me tranqüilizou bastante, ela falou “não, tem que ser honesta como você
sempre foi”. É meu jeito mesmo de ser muito aberta, e ela falou “vai, conversa,
explica e a pessoa é aquilo, do mesmo jeito que você não estando grávida ela tem
liberdade de parar a hora em que ela quiser, a mesma coisa enquanto você estiver
grávida.” E assim, foi super legal, as crianças curtiam, perguntavam “e aí, tia, já
sabe o que é, não sabe?” Eu demorei um pouquinho para conseguir saber o sexo,
então eles curtiram comigo, claro, conversei primeiro com os pais, depois com as
crianças e com os adultos. Eu tive 1 paciente que não reagiu muito bem, não foi
uma coisa declarada, mas na semana seguinte, que eu avisei que estaria grávida,
que eu expliquei tudo, ele falou que queria parar. Então, acho que ele preferiu
“bom, já que lá na frente eu vou ter que parar, então prefiro parar agora por minha
escolha e não pela situação”. Mas, reagiram super bem, todo mundo quis saber
quando o bebê nasceu, então avisei, todo mundo me mandou mensagem, alguns
ligaram para saber, e a maioria falou assim, tirando esse que pediu para parar,
todos falaram que querem voltar, me pediram para estar entrando em contato
quando eu voltasse a trabalhar, então vamos ver, é uma loteria, a gente não sabe,
por mais que a pessoa fale, eu não sei exatamente como é que vai ser.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Mas eu acho que alguns vão voltar sim. Não sei te dizer se todos, mas é
assim, de modo geral, foi uma surpresa boa porque todo mundo curtiu e aquilo ver
a barriga crescendo não tem como assim não participar (risos).
[o bebê foi amamentado]
Elaine: E qual seria a idade que você considera ideal para um bebê começar a
freqüentar a creche?
Júlia: Ai, que pergunta difícil! Não sei... porque... é aquilo, acho que depende
muito também mais da necessidade até da mãe de voltar a trabalhar, eu acho que
esse projeto que tem aí falando de licença maternidade de 6 meses, agora como
mãe, eu acho que é super legal, para você ter realmente um tempo bom com a
criança, tem a questão do aleitamento que a gente sabe que é importante, mas
não sei se vai vingar isso, por já ter vivido o outro lado, o lado das empresas, eu
não sei como vai ser. Eu acho que vai aumentar mais essa questão que eu te falei
das meninas serem mandadas embora porque quer queira quer não, a empresa
está ali bancando aquela pessoa e não pode pôr ninguém no lugar porque senão
ela está pagando por 2 empregados, porque continua pagando INSS, assistência
médica continua pagando, tem todo esse lado, mas é complicado viu, pensando
agora, é difícil, por mim, eu queria ficar com ele (risos) o máximo de tempo
possível, mas...
Elaine: E a sua licença, você prevê de 4 meses?
412
Júlia: Então, eu estava falando pra todo mundo que eu queria voltar em março,
que seria menos do que os 4 meses. Mas, agora, já não sei. Acho que eu vou
estender um pouquinho mais (risos).
Elaine: Em março daria quanto tempo?
Júlia: Deixa eu ver, daria 3 meses. Agora, eu já estou pensando em estender um
pouquinho. Então, é difícil sim, se a gente sabe que é um lugar legal que vai
estimular a criança, a gente sabe que é importante, como eu te falei, até pelo
contato com outras crianças, mas se é só um lugar para largar ali a criança, deixar
como a gente sabe que, infelizmente, a maioria das creches públicas são, é difícil,
você fica com dó de deixar, então, ai, não sei. Acho que no mínimo, no mínimo,
com uns 6 meses, mas com ele mesmo eu acho que eu não vou conseguir
cumprir isso que eu estou te dizendo, acho que ele vai antes de ter 6 meses,
então é complicado.
Elaine: Ele vai para a creche então...
Júlia: É, eu vou procurar alguma coisa, um berçário, alguma coisa assim. É como
eu te falei, por eu estar aqui no consultório, eu tenho até uma flexibilidade, ele não
vai precisar ficar das 8 horas às 17 horas, 5 dias por semana, mas mesmo assim
pesa o coração de deixar, você fala “poxa vida, tão novinho, será que vão cuidar
direito?”, dá uma certa insegurança sim. É como eu te falei, a gente fala uma
coisa, mas depois que você está vivenciando na pele é um pouquinho diferente
sim.
Elaine: E como é para você a rotina de um bebê em casa e como é ou seria a
rotina de um bebê na creche? Tem diferença ou não?
Júlia: Ah, eu acho que não, acho que a diferença maior que eu vejo é esse
contato com outros bebês. Mas, o cuidado eu acho que tem que ser o mesmo,
essa questão da higiene como eu te falei, a alimentação, isso sim, acho que é a
base. A questão de ser cuidado com afeto, eu acho que as moças acabam se
afeiçoando, não tem como, assim eu vejo aqui comigo, eu me afeiçoei muito às
crianças que eu atendo, então a gente acaba se afeiçoando. Mas, o que eu acho
que mais diferencia é essa questão mesmo do contato com outras crianças
porque em casa né, você está fazendo a pesquisa com mães de primeira viagem
então eles estão sozinhos em casa com a gente, por mais que tenha um sobrinho,
um primo, alguma coisa, muitas vezes, não é aquele contato direto, a não ser que
a criança more junto, mas acho que a grande diferença seria essa mesma. E a
gente sabe que bem pequenininho eles não interagem tanto assim com outras
crianças, isso vem aos poucos, ao longo do desenvolvimento deles. Mas, é aquilo,
eles mamam, dormem, têm que tomar banho, têm que ser limpos, não tem muito
assim, e claro, se tiver uma musiquinha para estimular, se tiver um horário assim
de brincadeira, que eu pelo menos tento parar um tempinho, brincar com ele, dar
uma estimulada. Então, acho que isso é importante também. Mas, a diferença
413
maior, eu acho que é o contato com as outras crianças e com pessoas diferentes
né, porque ele vai estar sendo cuidado por outra pessoa que não a mãe, enfim.
Elaine: Ahamm... E como você se instruiu, como aprendeu sobre os cuidados
para com o bebê? Você estava falando sobre a questão da maternidade, do apoio
e da orientação que você recebeu lá, mas antes você não tinha tido muito contato
com bebê né, você comentou que a menor criança da tua família já é adulto, e
você comentou também que leu o livro da pediatra, mas teve mais alguma coisa
que você procurou, algum curso?
Júlia: Então, hoje em dia, tem muita informação na internet, são bem legais os
sites, porque você vai sentindo mesmo as modificações no corpo e, também
depois, os cuidados que tem que ter com a criança, então você acha com
facilidade, li vários livros (risos), não foi só esse e eu fiz um curso para gestantes.
Na verdade, assim, o curso que eu fiz era voltado para casais, não que
impossibilitasse a ida de mães solteiras, vamos dizer assim. Mas, é mais voltado
para casais, até assim para também envolver o pai e foi muito importante.
Elaine: Seu marido participou?
Júlia: Participou, foi muito importante. Assim, elas deram dicas, coisa boba
mesmo, mas que faz uma diferença quando você está ali em casa com a criança,
então, por exemplo, eles indicam um shampoozinho que é melhor usar nesse
princípio, que é muito pequenininho e tal, e aí ela falou “pega essas
saboneteirazinhas que a gente aperta e coloca o shampoozinho ali que você vai
ver que é muito mais prático na hora de você dar o banho no bebê”, é uma coisa
besta [enfática], mas faz uma diferença na hora em que você está ali, com a
criança, com o sabão, com tudo, escorregando, toalha, sabe (risos), então valeu
muito à pena [enfática], foi uma amiga que me indicou, ela falou “olha, vai, faz, vai
ser importante, você vai gostar”, e eu também indico muito para as meninas que
eu conheço e que estão grávidas, fez muita diferença para nós, eu acho.
Elaine: Foi na maternidade?
Júlia: Foi, foi lá na maternidade mesmo. Eles têm toda essa parte, ela
[maternidade] é muito conhecida e é um centro mesmo, porque tem esse grupo de
apoio ao aleitamento e tem essa parte dos cursos, tem um disk-bebê que eles
falam, que você pode ligar para tirar dúvidas, então é bem legal, principalmente,
pra gente que é mãe de primeira viagem, é tudo de bom. Eu acho que fez muita
diferença.
Elaine: E o que te vem à cabeça quando a gente fala creche, quando a gente usa
o termo creche? Essa parte da entrevista agora é mais sobre a creche.
Júlia: Ai, sinceramente... acho que é até uma visão um pouco preconceituosa,
infelizmente, eu tenho que dizer isso, preciso mudar isso [enfática], na verdade,
mas acho que se você fala em berçário dá aquela impressão de uma coisa mais
414
bem cuidadinha, com os estímulos, brinquedos, enfim com mais cuidado. A creche
já dá, o termo, não sei te explicar por que, mas já dá uma questão de ser uma
coisa mais largada, sem tanto estímulo, onde a criança fica mais deixada assim
sabe, é o mínimo do mínimo, não sei nem te explicar por que me vem essa
imagem, mas é a imagem que me vem à cabeça.
Elaine: Você prefere usar o termo berçário...
Júlia: Prefiro, prefiro. Engraçado isso, às vezes, a gente para pra pensar nas
coisas conforme você me perguntou, que eu elaborei isso na minha cabeça, mas,
infelizmente, é assim que veio.
Elaine: Ahamm... E o que é para você uma creche? Para que serve uma creche
ou um berçário?
Júlia: Ah, eu acho que é isso, é a questão da mãe ter onde deixar para poder
continuar a sua vida profissional, mas também um local de cuidados da criança,
não só os cuidados básicos, como a gente já conversou, mas de ter um estímulo,
ter algo a mais, não ficar só nos cuidados básicos. E um conforto e uma
segurança para a mãe que precisa retornar ao trabalho.
Elaine: Então, a quem se destina, seria para a mãe que precisa retornar ao
trabalho...
Júlia: É, para ter onde deixar o seu filho, e mesmo aquela que não trabalha, mas
que quer ter um tempinho pra ela, porque a gente sabe que faz falta, faz falta você
ter umas horinhas pra você e poder cuidar da sua vida, das suas coisas, então
não só, é que aquela que trabalha, a necessidade é maior, mas mesmo aquela
que não trabalha que acha um lugar legal que deixa a criança, de novo, para ter
contato com outras crianças, para ter alguns estímulos, eu acho legal. É que hoje
assim, é o meu foco (risos) encontrar um lugar para deixar para eu poder voltar a
trabalhar, então acho que por isso que vem isso primeiro à mente. Mas, mesmo a
mãe que não trabalha tem o direito também de deixar seu filho. E a criança tem o
direito de ter esse cuidado, de ser estimulada, enfim.
Elaine: Ahamm... E você conhece alguma creche?
Júlia: Olha, como eu te falei, aqui em São Caetano, eu ainda não achei nada da
rede pública, já conheci, assim não fui visitar, entendeu, mas já ouvi falar de
alguns, mas todos que eu já ouvi falar, que me indicaram, particulares. Tinha até
um aqui na rua aqui pertinho que eu estava animada porque é do lado [do
consultório], mas eu já soube que fechou. Então, é assim, que eu conheço, que
me falaram, foram particulares, então, já sei de alguns, mas públicos eu ainda não
achei nenhum.
Elaine: Ahamm... E você mora nesse bairro do consultório?
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Júlia: Não, moro mais perto do lugar onde a gente se conheceu.
Elaine: E você sabe se tem creche pública naquele bairro?
Júlia: Então, que eu saiba não. Eu estou começando a procurar, até agora eu não
encontrei, não vou te dar certeza porque pode ser que tenha e eu que não tenha
localizado ainda, mas até então não achei não.
Elaine: Ahamm... E você conhece alguém que utiliza ou que trabalha em uma
creche?
Júlia: Conheço, algumas pessoas amigas e conhecidas que utilizam e que foram
as pessoas que me indicaram.
Elaine: As particulares né...
Júlia: É onde deixam seus filhos. Que trabalhe? Não. Conheço uma pessoa que
já trabalhou no passado, mas não aqui em São Caetano, mas hoje já não trabalha
mais com isso, já mudou totalmente o ramo de trabalho.
Elaine: E quais são os comentários que você ouve dessas mães que utilizam
creche, que deixam seus filhos na creche, ou dessa pessoa que trabalhou?
Júlia: Olha, essa pessoa que trabalhou, trabalhou na rede pública, então traz
muito aquele relato de pouco recurso, às vezes, quer fazer alguma coisa diferente,
mas não tem o dinheiro para comprar o material, enfim, às vezes, até de trazer e
bancar do bolso para trazer alguma coisa diferente pras crianças.
Elaine: Era em São Paulo essa creche onde essa pessoa trabalhou?
Júlia: Era em São Paulo, aqui próximo, mas já era do lado de São Paulo. E as
que estão utilizando que me indicaram, estão super satisfeitas. Acham que os
locais, assim, que as crianças estão bem cuidadas, que as tias né são amorosas,
as crianças estão sendo estimuladas, então, disse que tem muito o dia da
brincadeira e tal, então um dia é o da fantasia, um dia é o dia do brigadeiro, então
as crianças fazem brigadeiro, então elas estão bem satisfeitas, mas aí, é como eu
te falei, são essas da rede particular.
Elaine: Você comentou que você ainda não sabe se existe creche pública para o
bebê aqui em São Caetano né e comentou também que você ouviu alguns
comentários sobre a questão da educação aqui... Mas, sobre as creches você
nunca ouviu nada, não tem muito conhecimento...
Júlia: Ahamm... Não. Eu tenho uma EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil]
que é assim a duas casas do prédio onde eu moro, é bem pertinho mesmo, então
me falam maravilhas de lá e de outras aqui [em outro bairro], mais aqui nessa
região e até lá no [outro bairro]. Eu falo que aqui em São Caetano nada é distante,
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mas já não é aqui para esse lado, é para o lado de lá, então as pessoas que eu
conheço e que colocaram mesmo, mas assim nessa faixa etária de até uns 8 anos
de idade, que eu tenho pessoas conhecidas que têm crianças, então acima disso
eu não sei, mas me falam muito bem do trabalho das EMEIs aqui. Então, essa é
uma coisa que me deixa bastante animada (risos), principalmente, por ter uma na
rua de casa, mais pra frente, se for possível, eu quero deixá-lo. Agora,
especificamente, das creches é que eu não conheço ninguém mesmo, assim
falando da rede pública, ainda não localizei mesmo, queria muito, até se você
conhecer pode falar (risos).
Elaine: Ahamm... E então, com relação à EMEI você já chegou a pensar... quando
ele estiver com a idade de ir para a pré-escola você pode colocá-lo na EMEI, na
escola pública aqui em São Caetano...
Júlia: Sem dúvida, sem dúvida, sim, com certeza. Até por, não só porque assim,
claro, uma coisa é a gente ouvir o comentário de outra pessoa e outra coisa é
você estar ali vivenciando. Se eu ver que está legal, que eu acho que o ensino
está adequado, com certeza, até pela facilidade de estar ali do lado de casa e
acho que a gente tem mesmo, voltando àquela questão da comunidade que a
gente falou, “poxa, se tem um ensino bom, vamos apoiar, vamos utilizar”. Claro, se
eu achar que está deficiente e se eu tiver condições de colocá-lo em uma escola
particular, sim, ele vai, mas tendo um ensino de qualidade, como eu ouço as
pessoas falarem tão bem, eu quero deixar sim, com certeza.
Elaine: Ahamm... Do que você já ouviu falar, então, você acha que tem diferença
entre as creches públicas de São Caetano e as de outros municípios?
Júlia: Olha, com base nesses comentários sobre as EMEIs eu acredito que sim.
De novo, aí já é uma suposição minha, porque não conheço, mas eu acredito que
sim porque como eu te falei, eu sou de São Paulo, a maioria das pessoas que eu
conheço está lá, então eu não conheço ninguém lá que deixa uma criança em
uma EMEI em São Paulo. As pessoas se viram em mil para conseguirem pagar
uma escola particular, porque vêem uma grande diferença no ensino lá e aqui não,
aqui são pessoas que trabalham junto com a gente, enfim, têm mais ou menos o
mesmo estilo de vida da gente e fazem questão de deixar porque vêem que o
ensino é bom. Então, partindo disso, se a EMEI é boa, eu imagino, e também
assim, já ouvi alguns comentários do ensino fundamental ser bom também, é que
eu conheço mais gente que tem as crianças na faixa etária da EMEI, mas partindo
desse pressuposto, eu acredito que deva ser de qualidade também a creche, mas
aí é só suposição (risos).
Elaine: E agora, só mais para completar, porque você já comentou algumas
coisas, o que seria para você uma creche de boa qualidade, o que seria uma boa
creche ou o que ela tem que oferecer para um bebê se sentir bem?
Júlia: Ah, eu acho que essa questão assim, tem que ter toda uma infra-estrutura,
então tem que ter um berçário para ele ou uma cadeirinha, hoje tem umas
417
cadeirinhas super legais que a criança meio que se mexe e a cadeira balança,
então ela mesmo se embala ali e com brinquedinho, enfim. É porque a gente, às
vezes, vê notícia de 3, 4 crianças em um mesmo berço, então é como eu te falei
assim, tem questões que acho que são mínimas, da questão de higiene, de
segurança, então tem que ter pessoas responsáveis ali, a criança não pode ser
largada porque a gente sabe que a criança em um minuto está, ainda mais hoje
em dia, em que eles já nascem de olho aberto, antigamente falavam que
demorava não sei quanto tempo para abrir o olho, quer dizer, as crianças já se
mexem muito mais cedo hoje, então assim, tem que ter toda essa questão de
cuidado para a criança não se machucar, enfim, a questão da higiene que eu acho
importante e da alimentação, e essa questão dos estímulos, de ter essa parte
emocional, de ter um convívio bom, então nada dessas atrocidades que a gente
ouve em noticiário “que a tia amarrou”, enfim, essas coisas horríveis que a gente
acaba ouvindo.
Elaine: Ahamm... E o que seria uma creche ruim, de má qualidade?
Júlia: É, infelizmente isso que eu te falei, eu nunca vivenciei, mas, às vezes, a
gente ouve em noticiário de que tem 3, 4 crianças no mesmo berço, as
responsáveis ali pelo cuidado da criança que não têm tanta orientação, não têm
respeito, enfim, que acabam judiando da criança, essa questão que eu te falei de
amarrar, de queimar, a gente ouve assim coisas medonhas. E também já ouvi de
deixarem a criança suja o dia inteiro, que não troca a fralda, é como eu te falei,
essa questão é básica assim, de higiene e de cuidado com a segurança, locais em
que, às vezes, deixam as crianças sozinhas, as crianças acabam se machucando,
acho que é meio por aí.
Elaine: Então, se você conhecesse você colocaria o bebê em uma creche?
Júlia: Ah, sim, sem dúvida. Você diz da rede pública?
Elaine: Ahamm...
Júlia: Sim, com certeza. Eu já estou buscando, eu já comecei a perguntar, eu
queria ter visto isso antes dele nascer, mas não deu tempo, eu estava trabalhando
e aquela coisa correndo atrás das coisas dele e não deu. Então, agora, que ele já
está um pouquinho maiorzinho, que já permite sair um pouquinho mais, eu tenho
buscado, você começa, você conversa com um, conversa com outro, para tentar
achar. Mas se eu encontrar, é aquilo, você vai fazer visita, vai conhecer, se eu
achar que está legal, com certeza eu deixo, tranqüilamente.
Elaine: E colocaria o bebê na creche ou no berçário em período integral?
Júlia: Então, eu acho que, a princípio não, por ter essa flexibilidade aqui no
consultório, então, de novo, a gente estando na situação você começa a buscar
mais, eu não sabia que tinha isso, mas alguns berçários eles falam que eles têm
esquema de hotel, ou seja, você leva a criança no horário que você precisa, você
418
retira a criança no horário que você precisa, então, não tem aquela rigidez de “ah,
ou fica a manhã toda ou a tarde toda ou até o período integral”.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Então, por conta da minha vida profissional hoje, da minha necessidade
hoje, é, eu acho que eu vou optar por essa flexibilidade, então, se eu puder
aglutinar os pacientes um pouquinho, para sei lá deixar o bebê uma tarde no
berçário e a manhã eu passo com ele, e os outros dias, sabe, então sei lá “a
manhã da segunda-feira eu deixo e a tarde da quarta-feira”. À noite, eu tenho a
facilidade que meu marido ajuda, então assim, trabalhando com criança, às vezes
você trabalha mais de dia e com adultos é mais à noite, normalmente, que a gente
trabalha. Então, os meus pacientes da noite é mais tranqüilo, porque o meu
marido fica e me dá essa força, mas durante o dia eu acho que eu vou optar por
essa questão ainda não colocá-lo em período integral por conta da minha
necessidade.
Elaine: Ahamm... Isso é uma coisa que você vai privilegiar na hora de procurar...
Júlia: Vou, vou, pelo menos, por enquanto, enquanto ele está pequenininho e na
minha situação atual, dá para eu fazer isso, então eu acho que vou privilegiar sim.
Claro que depois, aí é aquilo, a questão da alfabetização a gente sabe que tem
que ser mesmo, aí com certeza vai ser ou em um período manhã ou tarde, enfim,
mas por enquanto, por conta dessa minha flexibilidade, eu acho que eu vou
procurar também ter essa flexibilidade de horário.
Elaine: Você acha que isso vai ser possível na creche pública?
Júlia: Então, não sei. Eu sei que é possível na particular, em algumas que já me
indicaram. Na pública, eu não sei, justamente porque eu ainda não encontrei
nenhuma pública.
Elaine: Ahamm...
Júlia: E eu nunca tinha ouvido falar disso, só soube agora que eu comecei a
perguntar. Eu imaginava que você tinha que deixar de manhã e ir buscar, sei lá,
na hora do almoço, sabe.
Elaine: Mesmo nas particulares...
Júlia: É, imaginava que fosse assim, que não tinha essa flexibilidade. Então, eu
não sei o que eu vou encontrar na pública, a verdade é essa.
Elaine: E apesar de você não conhecer as creches daqui e de não saber como
elas funcionam, você sabe alguma coisa ou já ouviu falar sobre a questão da
oferta de vagas, se ela seria suficiente ou insuficiente? Se você teria alguma
419
referência quanto a isso mesmo em outras cidades, como você já morou em São
Paulo e em outro Estado...
Júlia: É, em outras cidades eu posso te dizer que é, que eu sei que não é
suficiente, por conta disso de trabalhar em empresa e ver as meninas saindo na
licença maternidade, retornando e comentando. Aqui, eu não sei realmente te
dizer, não tive contato mesmo. As EMEIs eu sei que o pessoal tem que ficar bem
esperto com a questão de inscrição tudo porque a procura é grande, enfim, e se
você perder, perdeu, então eu sei que a procura é muito grande, mas até então,
parece que assim, as pessoas que eu conheço sempre conseguiram. Agora, da
creche eu não tenho como te responder mesmo.
Elaine: Ahamm... E existiria para você diferença entre creche pública e creche
particular?
Júlia: É, olha, de novo, eu posso te falar em São Paulo que eu via que sim, por
amigas, enfim, irem visitar e não conseguirem deixar as crianças porque achavam
que a criança não seria bem cuidada. E na particular, verem que tem todo um
apoio, até para as pessoas que cuidam [enfática], as assistentes que cuidam
estão sempre em treinamento, estão sempre tendo uma reciclagem, enfim, agora
aqui, eu não sei te dizer. O que eu posso te dizer é que particulares eu estou
encontrando, públicas ainda não encontrei, então, eu estou vendo essa
dificuldade.
Elaine: Você acha que falta um pouco de divulgação da pública?
Júlia: Ah, com certeza, com certeza falta. Mesmo que fosse assim em outros
bairros, porque que nem meu marido trabalha mais ali no bairro [outro bairro],
então também a gente vai conhecendo um pouco por ali também por conta dele
estar ali. E lá também, eu falei pra ele “fica de olho”, porque também o nosso olhar
muda, a verdade é essa. Às vezes, você passa quinhentas mil vezes na frente de
uma escola, enfim, e nunca deu conta que ali é uma escola e agora o teu olhar já
está diferente, já está buscando isso, mas mesmo para lá eu ainda não encontrei
nada mesmo. Não estou assim só limitada aqui pertinho de casa e pertinho do
consultório, mas ainda não achei nada, então, com certeza falta.
Elaine: E por que você acha que existem algumas diferenças entre as creches
públicas e as particulares, como as que você comentou, pelo menos em São
Paulo, onde você tem mais referências e talvez essa comparação seja mais fácil?
Júlia: Ah, de novo, acho que falta investimento do Governo nessa área da
educação, que é a base. Como você falou no comecinho, que você trouxe aqueles
dados de estatística, nem as crianças pequenas que já estão assim em idade
assim de alfabetização, não é 100% das crianças que estão na escola, e isso é
uma catástrofe, porque a criança tem que estar ali, eu acho que traz dignidade
para o ser humano. Você conversa, eu já tive oportunidade de trabalhar com
adultos analfabetos, nossa, eles se sentem diminuídos perante os outros. Então,
420
acho que isso traz conseqüências na vida adulta. Então, falta mesmo investimento
do Governo, uma atenção nessa área e a gente, de novo, se mobilizar, correr
atrás, reivindicar, que é uma coisa que o brasileiro não faz, infelizmente. E eu,
infelizmente, também me incluo dentro disso.
Elaine: E existiria, para você, alguma diferença entre os bebês que freqüentam a
creche pública e aqueles que freqüentam a creche particular?
Júlia: Olha, se houver diferença nessa questão do cuidado e do estímulo que a
criança recebe, com certeza, a gente sabe que dá diferença, porque uma criança
que fica o dia todo suja, com certeza, ela vai ser muito mais irritadiça e a criança
estando irritada você também perde um pouco a paciência mais cedo do que se a
criança é mais tranqüila, então assim, é uma bola de neve como a gente fala. Já, a
criança que está bem cuidada, que está tendo estímulos, ela vai reagir de uma
maneira diferente. Lógico que a gente sabe também que cada criança tem a sua
personalidade, isso é independente do estímulo que ela vai receber, ela tem
aquele traço dela e ponto final, mas em havendo uma diferença de cuidado e de
estímulo, com certeza vai haver uma diferença no comportamento dessas
crianças.
Elaine: Mas, não existiria então, a priori, nada de diferente entre um bebê da
creche pública e um da creche particular?
Júlia: Olha, se for como eu estou te falando, uma EMEI, por exemplo, aqui em
São Caetano que tem um ensino ótimo e um cuidado ótimo com as crianças, eu
não vi diferenças da criança que está na EMEI e diferenças da criança que está na
particular.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Então, se seguir esse mesmo parâmetro, não vai ter diferença. Agora, se já
for diferente, senão tiver tanto investimento, enfim, se a instituição não for legal, aí
eu acho...
Elaine: ... Que se produz uma diferença?
Júlia: Eu acredito que sim.
Elaine: Ahamm... Agora, eu gostaria que você falasse um pouquinho da sua
família. Algumas coisas você já comentou sobre o bebê, que ele vai completar 2
meses né...
Júlia: Isso.
Elaine: Se você pudesse falar, por exemplo, a sua idade e a do seu marido, sobre
a formação do seu marido, o trabalho dele, se vocês têm alguma religião, enfim,
se você puder fazer uma breve apresentação da sua família...
421
Júlia: Ahamm, tá. Eu estou com 36 anos, eu sou psicóloga, eu já venho atuando
na área há muitos anos, como eu te falei, eu trabalhei por mais de 10 anos em
empresas, e o trabalho era uma paixão [enfática], mas, infelizmente, eu vi muita
coisa que eu não gostei, como isso que eu te falei desse preconceito com as
mulheres, não só essa questão da gravidez que era muito evidente, mas também
assim, as mulheres exerciam a mesma função que os homens e ganhavam 3
vezes menos. Isso foi uma coisa que eu vivenciei. A dificuldade que nós mulheres
temos, às vezes, quando tem filhos de pedir para o chefe “olha, eu preciso sair um
pouquinho mais cedo porque eu tenho que levar o bebê no médico”, eu vi isso
acontecer diversas vezes, então me desencantei muito com a área. É uma área
que eu gosto demais! Se a gente pudesse trabalhar mesmo naquilo que a gente
aprendeu, eu acho que daria muitos frutos, mas infelizmente, a gente é tolhido de
muitas formas, então, quando a gente mudou de volta aqui para o Estado de São
Paulo, eu falei “não quero mais essa vida para mim”. E aí, comecei a procurar “o
que é que eu vou fazer?” e a clínica era um sonho muito distante sabe, era aquela
coisa que eu falava “não, meio inatingível” e aí eu comecei a buscar, comecei a
me informar mais e vi que não estava tão distante e consegui realizar esse sonho
tanto é que eu estou aqui no consultório. Nós aqui somos várias sócias, temos
profissionais que sublocam espaço, então tem vários profissionais aqui, tem dado
muito certo, graças a Deus. Eu estou super satisfeita e por mais assim que pese o
coração eu deixar ele [bebê] um pouquinho, também sinto falta, quero rever os
meus pacientes, é como eu te falei, especialmente com as crianças a gente se
afeiçoa, não tem como, então, eu estou super feliz com essa virada profissional
que eu tive. Meu marido tem 40 anos, ele é engenheiro e sempre trabalhou nessa
área de multinacionais. Ele está em uma grande empresa e trabalha mesmo com
engenharia de produto, enfim, sempre trabalhou nessa área desde que a gente se
casou. Eu também trabalhei muito nessa mesma área. A gente já está há 11 anos
casados, como eu te falei, a gente ficou, se não me engano uns 3 ou 4 anos
casados morando em São Paulo e ele trabalhando aqui. Aí, surgiu essa
possibilidade de irmos para outro Estado em uma outra empresa do mesmo ramo
e a gente foi. Ele sempre nessa área e eu fui trabalhando ali com fornecedores
que também ficavam na mesma planta, e desenvolvemos um trabalho bem legal
lá, foi uma experiência boa. Mas, assim, a gente não se adaptou muito bem lá, foi
bem complicada a nossa adaptação pela diferença cultural. É claro que no final, já
estava um pouco mais tranqüilo, a gente já tinha feito bastante amizade,
mantenho as amizades lá até hoje. Hoje, com as facilidades aí de internet, MSN,
tem um monte de jeito da gente se comunicar, mas o começo foi muito difícil e a
gente queria muito voltar para estar perto da família, você perguntou um
pouquinho da família. No começo, eu estava muito voltada para essa minha
carreira, para essa parte profissional, não queria, nem pensava muito assim em ter
filhos. Depois, o tempo vai passando, a idade vai chegando e aí você começa a
refletir sobre isso, mas eu não me via tendo filhos longe da família, tão longe,
porque, hoje, como eu te falei, a nossa família está toda em São Paulo, não é
nenhuma lonjura, mas enfim, fica muito mais fácil ir no final de semana que não
tem trânsito do que enfrentar essa loucura de voltar durante a semana. Mas,
mesmo estando fora, como eu te falei, eu passei um tempo em outro país, não
imaginava, assim, nem tanto pela questão do auxílio, claro que se minha mãe
422
estivesse mais perto eu tinha mais confiança de deixar o bebê com ela em um
retorno ao trabalho, pelo menos no princípio, do que com uma desconhecida. Mas,
para ter o contato mesmo, para a criança ter o convívio. Eu tenho meus pais vivos,
graças a Deus, meu marido perdeu a mãe muito pequeno. Temos irmãos também,
então assim, para ter esse convívio com a família, a gente queria estar mais
próximo. E acho que faz bem também não estar tão coladinho assim não, porque
a minha família não, a minha família é mais de respeitar, mas já a família do meu
marido já se intromete mais, então assim, também estar muito coladinho acho que
não é muito saudável. É legal ter uma certa distância e essa distância está legal
pra gente. O que mais você me pediu também?
Elaine: Religião?
Júlia: Ah, sim, nós somos Evangélicos, a gente segue uma linha que é chamada
de Batista e é uma coisa que meu marido já era antes da gente se casar, eu não
tinha muito assim, aqui no Brasil a gente se fala muito católico, mas não é aquela
coisa de estar praticando realmente. E acabou que quando eu morei em outro
Estado eu acabei conhecendo através de uma amiga, não foi nem através de
pressão do meu marido nada, e acabei me convertendo, como a gente fala, e
estou super feliz. A gente freqüenta Igreja, não estamos indo agora por conta dele
[bebê] porque ainda está muito pequenininho, ainda não é aconselhável, um
tempo também fiquei um pouquinho afastada durante a gravidez por conta
daquele surto de gripe, eu fazia trabalho voluntário dentro da Igreja, trabalhava
com os pré-adolescentes e a gente ficava fechadinho em uma sala sem muita
estrutura, sem muita janela, então, eu tive que parar um pouquinho, algumas
crianças tiveram a gripe, infelizmente, então eu tive que me afastar um pouquinho.
Já para o final da gravidez que o tempo já estava mais favorável, já estava mais
quentinho, a gente pôde voltar, mas agora a gente está afastado de novo por
conta dele [bebê]. Mas, é uma coisa assim que a gente gosta, a gente faz
questão, e vamos tentar passar para ele. É uma questão, a gente sabe que, claro
que quando criança não, mas é uma decisão muito individual, então, no momento
dele, eu espero que ele tome a decisão e siga junto com a gente.
Elaine: Agora, eu gostaria que você falasse um pouquinho sobre os cuidados e a
educação que você recebeu na infância. Como você se lembra, se sua mãe
trabalhava fora ou não, com quem você ficava quando era bebê e criança
pequena...
Júlia: Tá, então, como eu te falei, eu tenho meu irmão mais velho, minha mãe
deixou de trabalhar quando meu irmão nasceu para ficar com ele, e quando eu
vim também, fiquei com ela e a gente só foi entrar na escola no que era,
antigamente, a pré-escola com 5 anos, tanto ele quanto eu. Então, quando eu
nasci, meu irmão tinha 4 anos, então minha mãe ficou esse 1 ano, ela ficou com
os dois ali cuidando sozinha.
Elaine: Não tinha mais ninguém para ajudar?
423
Júlia: Não, tinha assim uma faxineira, que vinha 1 vez por semana, mais para
cuidar da casa. E minha avó morava perto, mas assim, vinha de vez em quando,
dava uma forcinha, mas não era aquela coisa constante, então, a gente ficou
mesmo sob os cuidados dela [mãe] e aí tanto eu quanto ele com 5 anos, aí fomos
para a escola, mas era aquilo, meio-período, a gente nunca ficou período integral
na escola.
Elaine: Era em São Paulo e era pública?
Júlia: Era em São Paulo e não era pública, sempre era particular, sempre a gente
freqüentou, não, minto, meu irmão uma época freqüentou escola pública, mas foi
pouco tempo, não vou saber te precisar assim, acho que foi 1 ou 2 anos no
máximo. Eu já sempre freqüentei escola particular.
Elaine: Ahamm... E o que você pensa da educação que você recebeu?
Júlia: Olha, eu acho, eu vejo assim, que pra época, apesar de eu não ser super
velha (risos), mas eu vejo que tem muita diferença [enfática]. Antigamente assim,
o foco era mais a educação mesmo, a alfabetização, o respeito. E, hoje em dia
não, hoje em dia não, já tem a questão do estímulo, como eu te falei “tem o dia da
fantasia” e as crianças vão fantasiadas para a escola, “ai, tem o dia do brigadeiro”,
“tem o dia disso, o dia daquilo”, então eu acho que tem, ao longo desse tempo,
foram até feitos, foram realizando estudos como você está fazendo, enfim, que as
pessoas se conscientizaram de que não é só a parte formal da educação, mas
que tem uma outra questão do estímulo, da interação entre as crianças, então tem
escola que eu vejo que faz assim, as crianças dormem uma noite na escola, eles
chamam de acampadentro, nossa, isso na minha época não existia e eu acho que
é muito importante, um dos meus pacientes passou por isso, então eu vi como ele
estava encantado com essa possibilidade de dormir na escola, ficar mais tempo
com os amigos, então a gente vê hoje em dia tem essa questão que foi abrindo,
eu acho, foi ampliando a questão do conhecimento de que é importante esses
estímulos para a criança.
Elaine: Ahamm...
Júlia: E a minha mãe fala, ela ficou comigo a primeira semana quando eu cheguei
da maternidade com o bebê, ela veio para me ajudar, e como eu te falei, eu
converso com ele, vou falando, e ela, às vezes, parava e me dizia “nossa, eu não
conversava com vocês, porque não tinha ninguém pra falar pra gente, olha,
converse com o seu bebê, a gente achava que dando de mamar, limpando,
trocando e pondo para dormir era o suficiente”.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Então não tinha mesmo o acesso a muita informação. E, hoje em dia, é
como eu te falei, você entra na internet, tem um monte de sites, você pega livro,
enfim, tem muita informação. O obstetra indica, o pediatra indica leitura, então é
424
um mundo diferente. As crianças de hoje vivem em um mundo com muito mais
estímulo do que na minha época. A gente tinha aquele, eu acho que eu fui
estimulada, dentro do que havia de disponível para a época, e em tão pouco
tempo mudou muito, nossa. É impressionante.
Elaine: E do que você recebeu dos seus pais, o que você gostaria de transmitir
para o seu filho ou adotar na educação dele?
Júlia: Ai... a questão do respeito é uma coisa que eu valorizo muito. Até por
trabalhar com criança, e como eu te falei o trabalho voluntário que eu faço, que eu
fazia ali na Igreja, eu vejo que as crianças, hoje em dia, não têm mais aquele
respeito pelos pais, pelos professores, então, “imagina, nossa, quantas vezes a
gente deixava cair alguma coisa no chão e a professora chamava a atenção e a
gente ficava até envergonhado, ia lá, pegava”, hoje em dia, as crianças jogam lixo
no chão e falam “você vai lá e pega!”, então assim, acho essa questão do respeito,
respeito com os mais velhos, esse carinho com os avós, infelizmente, eu vejo
também crianças comentando dos avós, nossa, não têm o menor carinho
[enfática], respeito então nem pensar, então, é uma coisa que me entristece muito.
Uma coisa que eu recebi, mas acho que já mais velha e que também gostaria de
passar para ele é essa questão ética, especialmente na nossa profissão isso é
muito delicado, infelizmente, eu vi colegas nossos de profissão sem ter esse
mesmo cuidado ético, então eu acho que isso é uma coisa que eu também vou
fazer questão de passar pra ele. Tem uma coisa que eu não recebi dos meus pais,
mas que eu gostaria de passar para ele que é essa questão do ensino religioso
que hoje é uma coisa importante na minha vida, mas, de novo, vai depender, é
uma escolha muito individual, então eu não sei que escolha ele vai fazer, mas eu
vou tentar. Ah, e muito amor que eu recebi, que é o que eu quero passar para ele
também, que ele se sinta amado, cuidado, valorizado, porque a gente sabe o
quanto isso é importante. E assim, eu vi que os meus pais fizeram de tudo para
me dar uma boa educação, então como eu te falei, eu sempre estive em escolas
particulares, eu fiz faculdade, então isso tudo eu devo ao esforço dos meus pais,
então dentro do possível eu também quero proporcionar isso pra ele [bebê].
Elaine: Ahamm... Você falou sobre a religião, você acha que isso é algo que você
vai considerar na hora de procurar uma creche, um berçário para o seu bebê?
Você valorizaria isso nesse momento ou não? Seria um critério para a escolha?
Júlia: Não, não. Assim, eu não vou nem descartar e nem valorizar uma que tenha
isso, ah, logo de cara “ah, tem, então não quero” ou “tem, quero”. Se tiver, de
novo, é como eu te falei, eu vou visitar, vou conhecer, vou ver do que se trata.
Mas, não faço questão que tenha não e acho difícil até ter. Escola, eu até vejo que
tem mais, mas de novo, também não vou fazer questão, até porque acho que
talvez escola dê um bombardeio tão grande que a criança fica de saco cheio e aí
na adolescência fala “não quero mais saber disso”. Então, acho que quando for
maior não, mas, agora, sim, eu acho que eu não vou encontrar, mas se encontrar
eu não vou fazer questão e nem vou deixar de lado por ter.
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Elaine: Ahamm... e do que você recebeu dos seus pais na sua infância, o que
você gostaria de modificar em relação à educação do seu filho? O que você
realmente gostaria de fazer diferente?
Júlia: Hamm... é... eu acho assim que as coisas com um pouco mais de equilíbrio,
então, por exemplo, talvez essa questão do respeito, meus pais sempre
ensinaram a gente a não responder, independente do que vinha do outro, e eu
acho que já ficou muito tendencioso para um lado sabe, acho que tem que ter um
equilíbrio, acho que deve haver um respeito sim, mas se a pessoa te agride
verbalmente, eu estou dizendo, eu acho que você tem que ser ensinado, não digo
a agredir, mas assim a responder à altura, ou pelo menos falar “olha, não fale
comigo dessa forma” e eu não fui ensinada dessa forma. Eu fui ensinada
independente do que o outro fale você tem que ficar quieta e eu acho que isso não
é legal. Que mais? Não sei, agora está me ocorrendo só isso mesmo.
Elaine: Ahamm... Nós já estamos caminhando para o final da entrevista, mas
antes, tenho ainda algumas questões também sobre a licença maternidade e
sobre a licença paternidade... Você tinha falado que está usufruindo da licença
maternidade, que você estava pensando em ficar 3 meses e que talvez agora
você vá reavaliar; qual seria mesmo para você o período ideal de licença
maternidade e por que?
Júlia: É talvez eu estenda um pouquinho (risos). Tá, eu vou te dizer assim se eu
estivesse na situação anterior, que eu era funcionária de empresa e tal, a questão
dos 6 meses eu acho que é muito legal. Você tendo garantias, claro que não é
100% garantido, porque é como eu te falei, eu via que as meninas voltavam,
tinham o período de garantia e depois elas eram postas, eram demitidas. Mas,
hoje, eu vivencio uma situação diferente, como eu te falei, em um trabalho
autônomo, você para de trabalhar, você para de receber, então, por isso eu penso
em retornar antes. Com certeza, eu não vou ficar 6 meses com ele [bebê]. Talvez,
eu fique os 4, não vou ficar os 3 que eu estava imaginando (risos), mas,
provavelmente, eu fique os 4 meses para daí sim retornar. Eu não sei também, é
diferente, porque eu falo assim do passado, mas no passado eu não tinha ele
[bebê], porque você voltando mesmo depois de 6 meses, porque assim, a
Sociedade de Pediatria eles falam que o ideal era a amamentação até 2 anos de
idade, por mais que você vá introduzindo outros alimentos, o aleitamento materno
continua até 2 anos de idade. Mas, foi como eu te falei, quanto menos você dá,
menos produz, você vai introduzindo mamadeira, ele vai se acostumando com a
mamadeira que é mais fácil, enfim, então é complicado, é complicado pensar
nisso assim. Hoje, eu penso em retornar porque eu não tenho que retornar em
período integral, talvez se eu tivesse que retornar para uma empresa, em período
integral, das 8 horas às 17 horas, aquela coisa, talvez eu não retornasse, não sei.
Elaine: Você pararia de trabalhar?
Júlia: Pelo menos por um tempo, eu acho que sim, mas como eu tenho a
flexibilidade aqui do consultório, então eu posso conseguir estender essa questão
426
do aleitamento, então aí, eu penso mesmo em voltar, mas é complicado, não é
fácil não. Antes, eu falava “imagina, nunca que eu vou deixar de trabalhar por
conta de filho”, mas depois que você está na situação, a tua visão é diferente,
você avalia de outra forma.
Elaine: Você gostaria ou pensa em amamentá-lo até que idade? Até os 2 anos?
Júlia: Olha, não sei, até os 2 anos creio que não (risos).
Elaine: Ahamm...
Júlia: Mas, eu acho que eu vou tentar assim chegar pelo menos aos 8 meses de
idade dele, até 1 ano, assim, eu acho que depois fica até meio complicado, a
criança já é grande, outras questões, mas eu pretendo estender sim, acho que no
mínimo até uns 8 meses.
Elaine: Ahamm... Agora, vamos conversar um pouquinho sobre a licença
paternidade...
Júlia: Tá.
Elaine: O que você sabe sobre essa licença?
Júlia: Ahamm... Então, eu sei que o pai tem os 5 dias né.
Elaine: Ahamm...
Júlia: São 5 dias úteis, corridos que a gente fala, então assim, se o bebê nasce no
sábado, conta sábado, domingo e eu acho pouco [enfática]. Eu acho que se o pai
pudesse ficar um tempo maior, porque assim, quer queira quer não, a gente como
mãe está com o filho na barriga, você já começa a se preocupar com a sua
alimentação, porque interfere no que você está passando para o bebê, então
assim, existe um vínculo já. Pode ser que na hora que nasça não seja aquela
coisa, como eu te falei que eu li no livro, pode ser que não aconteça de imediato,
comigo aconteceu e foi maravilhoso, mas quer queira quer não, você tem um
vínculo, mesmo aquela mãe que não quer aquela gravidez, você sente o bebê
mexendo na sua barriga, existe um vínculo [enfática]. Com o pai, é diferente,
então, eu acho que ele precisa desse tempo para estabelecer um vínculo com a
criança, que é muito importante para o pai e é muito importante para a criança.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Especialmente, no caso de um menino, porque depois vai ter toda a
questão da identificação, então eu sei que tem países, acho que na Europa
principalmente, que o pai tem o mesmo tempo de licença que a mãe. Eu acho isso
super legal [enfática]. Vejo isso acontecer aqui no Brasil? Não. Mas, se pudesse
estender um pouquinho, eu acho que seria muito importante, que fosse 1 mês pelo
427
menos, acho que seria bem legal. Eu te digo assim, ele [bebê] nasceu um
pouquinho antes do Natal, então meu marido ficou com a gente na licença
paternidade, que foram os 5 dias e 2 dias meio que perdeu que era sábado e
domingo. Aí, depois ele retornou ao trabalho, foi a semana em que a minha mãe
ficou comigo para me dar um apoio, e depois, na seqüência foi a semana do Natal
e do Ano Novo que a empresa dele dá férias coletivas. Então, minha mãe voltou
para a casa dela, para o cantinho dela e ficamos nós três ali e eu vi o quanto foi
importante, o quanto ele [marido] se envolveu, então eu acho sim que poderia ter
alguma coisa nem que fosse 1 mês para o pai poder curtir essa criança, eu acho
que seria bem legal, vale muito à pena.
Elaine: Tem um projeto de lei para ampliar de 5 para 15 dias a licença
paternidade...
Júlia: Já é alguma coisa, não é 1 mês que eu estava querendo, mas já é super
válido.
Elaine: Mas, se você pensasse mesmo em termos ideais?
Júlia: 1 mês seria melhor que os 15 dias, mas acho que o ideal seria os pais
terem o mesmo, tanto o pai quanto a mãe, terem o mesmo tempo, porque
antigamente que tinha aquela coisa de “ai, quem cuida da criança é a mãe”, hoje
em dia, já não é assim. Hoje em dia, tem muitos pais que a mãe retorna ao
trabalho e o pai fica em casa para cuidar das crianças, então assim, eu acho que a
gente está deixando esse preconceito de lado de que o homem não ajuda, não
troca fralda, não dá banho, não dá de comer, enfim, claro, hoje, o meu caso, não
tem como ele [marido] dar de comer, mas mais pra frente ele vai estar
participando também, acho que se está deixando esse preconceito de lado. O
ideal mesmo, o sonho, era ter o mesmo tempo para o pai e para a mãe.
Elaine: Você acha que ele [marido] gostaria também de usufruir de uma licença
com tempo equivalente ao da licença maternidade?
Júlia: O meu marido com certeza [enfática], (risos) com certeza! Ele brincava
muito, ele queria que o neném nascesse em uma segunda-feira para ele poder ter
os 5 dias e mais o final de semana. Não foi o caso, o bebê nasceu em uma quartafeira, então ele acabou perdendo vai 2 dias por conta de ser final de semana, mas
ele, com certeza, ia curtir muito. Imagino que alguns pais não. Conheço até alguns
pais que não, mas ele sim, com certeza. Mas, eu acho que já é um avanço. Eu
não sabia disso que você está trazendo, desse projeto de lei, acho que é um
avanço já.
Elaine: Ahamm... Então você está pensando em talvez quando o bebê tiver 4
meses voltar a trabalhar, ainda com horários mais flexíveis, e estaria procurando
um lugar para ele ficar, provavelmente uma creche ou um berçário...
Júlia: Isso.
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Elaine: Para chegar nessa decisão, você conversou com o seu marido ou com
outras pessoas? Como vocês chegaram nessa decisão ou por que não outras
opções como alguém cuidando do bebê em casa como uma babá ou uma
empregada?
Júlia: Tá. A gente conversou bastante sim, desde o momento em que eu me vi
grávida, como eu te falei, era um projeto, mas eu imaginava que viria mais pra
frente. Hoje, eu tenho uma pessoa que me ajuda em casa 1 vez por semana, ela
vem mesmo para cuidar da casa, então quem está cuidando do bebê sou eu e ele
[marido] quando está em casa, porque ele trabalha em período integral, como a
gente fala. E eu não imaginei ter ninguém em casa, não busquei uma empregada
ou uma babá, como você falou, porque eu valorizo essa parte da estimulação da
criança. Por mais que a gente tenha um certo conhecimento dentro da nossa área,
uma pessoa que está trabalhando em um lugar é, como eu te falei, ela está
sempre passando por treinamento, por reciclagem. Então, ela tem muito mais
contato com o que está aí de mais novo no mercado do que eu. Por mais que a
gente estude, que a gente corra atrás, é o trabalho dela, ela vivencia aquilo.
Então, por essa questão da estimulação é que eu não imagino deixar ela [criança]
em casa com alguém. E como eu te falei, minha mãe mora longe. Se fosse assim
para deixar pelo menos no comecinho eu até gostaria de ter a minha mãe por
perto. Mas, não dá, então aí eu já pensei mesmo em ir para o berçário, para a
creche, por conta disso, da estimulação, e não ter alguém em casa, mesmo que
eu pudesse orientar, enfim, comprar brinquedos, comprar coisas para ela
estimular, eu acho que a pessoa que está ali no mercado de trabalho vivenciando
isso ela tem mais chance de estar se reciclando e estar antenada com o que está
recente aí no mercado.
Elaine: Sua mãe chegou a se oferecer para cuidar do bebê ou não, apesar dessa
questão da distância?
Júlia: Não, com o bebê não. Ela se ofereceu assim para ficar comigo nesse
comecinho que eu te falei, mas com ele não.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Não sei nem te dizer o motivo, acho que talvez por conta da distância
mesmo.
Elaine: Ahamm... E alguém comentou alguma coisa sobre essa sua decisão de
voltar a trabalhar depois da licença e colocar o bebê na creche ou no berçário?
Júlia: Olha, é engraçado porque o meu obstetra sempre falava “você vai ver
conforme a barriga vai crescendo, as pessoas vão se sentindo mais à vontade
para te abordar na rua, para fazer comentários mesmo que você não os peça,
para emitir opinião” e realmente eu vivenciei isso. Eu falava pra ele “não, imagina,
isso não acontece”, ele falou “tá bom, depois a gente conversa” (risos) e realmente
aconteceu e com o bebê a mesma coisa. A pessoa te vê e sempre tem alguma
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coisa e assim estou falando de pessoas conhecidas, família e amigos, e
desconhecidos que, às vezes, te vê na rua e dá opinião (risos). Tem gente que
fala “cuide do bebê de tal jeito”, então assim, eu estou me preservando um pouco,
não estou abrindo tanto, claro, as meninas aqui que são minhas sócias sabiam
dessa minha vontade de voltar, mas assim, uma tem filho, mas já é um rapaz, já é
adolescente e na época em que ele era menor, ela não trabalhava, então, ela não
vivenciou isso e também não emitiu opinião nenhuma. As outras não têm filhos
então também não falaram nada. Então, como eu te falei, eu estou me
preservando um pouco, não estou abrindo muito, justamente para evitar ouvir
comentários ou ouvir o que eu não quero ouvir, porque, infelizmente, as pessoas
se sentem à vontade pra emitir opinião. Então, acho que porque eu não abri, até
então, eu não ouvi nada.
Elaine: Ahamm...
Júlia: Tem uma amiga minha que é psicóloga também como a gente e ela foi a
única que me perguntou “e aí, você vai manter, vai voltar mesmo em março?” e eu
falei “acho que não”. E ela falou “eu falei para você que você não ia conseguir”,
porque ela tem filhos também e ela falou “eu também queria voltar e não consegui
voltar, adiei a volta”, então foi a única pessoa e também não foi ai, um comentário
assim. Não sei muito como vai ser, acho que eu vou ouvir algumas coisas que eu
não vou gostar muito não (risos).
Elaine: E você chegou a pensar em trazer o bebê para o consultório enquanto
você estivesse atendendo e deixá-lo com alguém aqui?
Júlia: Eu até pensei, mas achei que não seria uma boa idéia, pois talvez ele
chorasse, eu ia ficar preocupada, ia acabar tirando a minha atenção e talvez
também a dos pacientes.
Elaine: Ahamm... Então, agora, eu queria agradecer muito a sua participação.
Chegamos ao final e eu gostaria de saber se você quer fazer algum comentário?
O que você achou do tema, da pesquisa e da entrevista?
Júlia: Gostei da entrevista, eu imaginava um foco diferente, pensava que você iria
perguntar mais sobre o bebê.
Elaine: Sobre o seu bebê?
Júlia: É. Queria até saber mais por que você está pesquisando sobre esse tema e
quero sim receber a transcrição e gostaria também de ter acesso ao teu trabalho
para saber também o que as mães falaram.
Elaine: Sem problemas, vou te enviar a transcrição e depois que eu defender
posso sim te entregar uma cópia do trabalho.
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Júlia: Você trouxe dados interessantes como o do projeto de lei para ampliar a
licença paternidade que eu não conhecia e também sobre as estatísticas. Eu achei
também o tempo da entrevista adequado.
Elaine: Acabou sendo longa, quase 1 hora e meia.
Júlia: É, mas eu falo bastante. Espero ter ajudado.
Elaine: Foi ótimo, muito obrigada pela participação! Eu gostaria somente que você
escolhesse um nome para você e um para o bebê para alterarmos na transcrição
e com isso assegurarmos o anonimato...
Júlia: Para mim pode ser Júlia e para o meu filho pode colocar Diogo.
Elaine: Ok, então muito obrigada mesmo!
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