RITA LAGES RODRIGUES Eu sonhava viajar sem saber aonde ia... Entre Bruxelas e Belo Horizonte: itinerários da escultora Jeanne Louise Milde de 1900 a 1997. Belo Horizonte Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG 2001 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. RITA LAGES RODRIGUES Eu sonhava viajar sem saber aonde ia... Entre Bruxelas e Belo Horizonte: itinerários da escultora Jeanne Louise Milde de 1900 a 1997. Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História e modernidade: política, cultura e trabalho. Linha de pesquisa: História Social da Cultura; cultura artística e religiosidade. Orientadora : Dra. Adriana Romeiro. Belo Horizonte Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG 2001 Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Departamento de História Dissertação defendida e aprovada, em 19 de outubro de 2001, pela banca examinadora constituída pelas professoras: ___________________________________________ Professora Doutora Adriana Romeiro (orientadora) ___________________________________________ Professora Doutora Constância Lima Duarte ___________________________________________ Professora Doutora Marília Andrés Ribeiro ___________________________________________ Professora Doutora Thaís Velloso Cougo Pimentel “Eu sonhava em viajar sem saber aonde ia.” Trecho de depoimento de Jeanne Louise Milde presente no vídeo: FROTA, Gastão. A vida na arte de Jeanne Milde. Belo Horizonte, 2000. Dedico esta dissertação aos meus pais, Bené e Teté, e ao ensino público e gratuito, no qual tive o direito de ser educada por toda a minha vida. AGRADECIMENTOS Agradeço às professoras Adriana Romeiro, por me orientar no momento de escolher e trilhar caminhos; Marília Andrés Ribeiro, por me introduzir na pesquisa em História da Arte; Ivone Luzia Vieira, pelo auxílio na análise da vida e da obra de Jeanne Louise Milde; e ao professor José Carlos Reis, pelo suporte fundamental dado pela disciplina de metodologia. À CAPES, pela bolsa que me possibilitou dedicação aos estudos. Ao Museu Mineiro, pelo acesso à documentação do acervo particular de Mlle. Milde, especialmente ao Luís Augusto de Lima, atual diretor desta instituição. Aos meus irmãos Bernardo, Martha, Fernando e Henrique, pelos anos de convivência. Aos amigos Alessandra, Viviane, Matheus, Andréa, Guilherme, Carla, Carlos, Isaura, Luciana, Balu, por continuarem ao meu lado, mesmo com todas as minhas tensões e neuroses. À Camila, grande amiga nos últimos dois anos, e aos colegas de mestrado Jean, Rodrigo, Dangelis, Alexandre, Evandro, Márcio Eurélio, Maira, Lúcio, Carmem e Sônia, pela amizade em diferentes trechos dessa trajetória e por me fazerem lembrar que não estava sozinha nos momentos de aflição (por um pouco de egoísmo talvez, saber que todo aquele sofrimento na pesquisa, na escrita, era dividido com outros...). À Kelly e à Raque l pelas boas risadas. Ao Gabriel, por ter participado da minha história. Aos amigos feitos na Espanha, que certamente não irão ler este agradecimento, mas que, ao longo de mais de dois anos, muito me ajudaram com uma presença-ausência essencial. SUMÁRIO RESUMO ABSTRACT INTRODUÇÃO.....................................................................................................p. 01 I – DA FORMAÇÃO NA BÉLGICA À FORMAÇÃO DAS BRASILEIRAS: VENTOS CIVILIZADOS ACADÊMICOS E MODERNOS PARA BELO HORIZONTE........................................................................................................p. 10 I.I – Da formação em Bruxelas..................................................................p. 12 A mulher, a artista e a cidade na virada do século XX..................p. 12 A Real Academia de Belas Artes de Bruxelas...............................p. 17 Mestres...........................................................................................p. 22 A vida profissional da artista na Bélgica........................................p. 25 I.II – A Reforma de Ensino de Francisco Campos e a vinda de Jeanne Louise Milde para Belo Horizonte.........................................................................p. 31 Mudanças na capital: A Reforma de Ensino e a Escola de Aperfeiçoamento............................................................................p. 31 A vinda de Jeanne Milde para a capital..........................................p. 39 I.III – Modos de ensinar.............................................................................p. 41 II – HORIZONTES ARTÍSTICOS: JEANNE MILDE E AS ARTES PLÁSTICAS NA CAPITAL MINEIRA............................................................................................p. 52 II.I – O meio artístico belorizontino: mulher e artista..............................p. 53 II.II – Exposições, salões, convivência com artistas: artes e ofícios.........p. 60 Exposições individuais...................................................................p. 65 Trabalhos sob encomenda..............................................................p. 68 A crítica de arte em Belo Horizonte...............................................p. 71 II.III – Entre o Brasil e a Bélgica...............................................................p. 78 Estadas na Bélgica, visões do Brasil..............................................p. 78 II.IV – Ostracismo e redescoberta.............................................................p. 82 O período de seu afastamento e a Escola Guignard.......................p. 82 O resgate de sua obra nos anos 80 e 90..........................................p. 83 III – MODERNA, MAS COM UMA BASE CLÁSSICA... .................................p. 86 III.I – As obras de Mlle. Milde e a arte moderna: Impressionismo, Simbolismo, Expressionismo, Art Nouveau e Art Déco.................................................p. 89 III.II – Desenvolvimento da escultura moderna.........................................p. 100 III.III – Tradição escultórica: Rodin, Georges Minne e Constantin Meunier.......................................................................................................p. 106 III.IV – O Brasil na obra de Mlle. Milde: entre o exótico e a identificação................................................................................................p. 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................p. 126 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E DOCUMENTAIS..................................p. 130 Livros..........................................................................................................p. 130 Catálogos.....................................................................................................p. 134 Periódicos....................................................................................................p. 134 Vídeos..........................................................................................................p. 139 ANEXOS................................................................................................................p. 140 LISTA DE FIGURAS 1 –Jeanne Milde . Alegoria à Indústria. Alto relevo em bronze. 130 x 210 m. 1932. Coleção Belgo-Mineira..............................................................................p. 70 2 – Jeanne Milde . Cidadão Inglês. Madeira e gesso. 38 x 21 x 21 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro...........................................................................................p. 95 3 – Jeanne Milde . Sem Título. Madeira. 21.5cm x 17,2cm x 6,6 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro...........................................................................................p. 96 4 – Jeanne Milde . Sem Título. Madeira. 21.5cm x 17,2cm x 6,6 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro...........................................................................................p. 97 5 e 6 – Jeanne Milde . Volúpia Maternal. Bronze. 35 x 22 x 23cm. Antes de 1945. Coleção particular.......................................................................................p. 108 7 – Jeanne Milde . Carinho. Entalhe em madeira (jacarandá). 41x17x 10,2cm.1979. Acervo Museu Mineiro...............................................................................p. 109 8 – Auguste Rodin. Eva......................................................................................p. 110 9 – Jeanne Milde . Sem Título. Bronze. 52,0 x 16,0 x 16,0. S/data. Coleção Particular.....................................................................................................p. 111 10 – Jeanne Milde . Pescador de Rede. Moldagem em gesso. 45,3 x 19,0 x 32,5 cm. 1970. Acervo Museu Mineiro.....................................................................p. 112 11 – Constantin Meunier. Ecce Homo. 1890.....................................................p. 113 12 – Constantin Meunier. Femme du peuple. Aproximadamente 1890.............p. 114 13 – George Minne . Mère pleurant ses deux enfants. 1888................................p. 115 14 – George Minne . Le fils prodigue. 1896.........................................................p. 116 15 – George Minne . L’adolescent agenouillé. 1898............................................p. 117 16 e 17 – Jeanne Milde . Adolescentes. Modelagem em gesso. 94 x 62 x 16 cm. 1937. Acervo Museu Mineiro................................................................................p. 118 18 – Jeanne Milde . Meu Bebê. Moldagem em Gesso, pátina com anilina e goma-laca. 31,5 x 10,8 x 16,5 cm. 1969. Acervo Museu Mineiro.................................p. 119 19 – Jeanne Milde . Meus Filhos. Entalhe em madeira (aroeira vermelha). 51,5 x 15,3x 15,5 cm. 51,5 x 15,3 x 15,5 cm. 1979. Acervo Museu Mineiro........p. 120 20 – Jeanne Milde . Ternura. Gesso, anilina, goma- laca. Moldagem x pátina. 35 x 22 x 23cm, 1970. Acervo Museu Mineiro........................................................p. 121 21 – Jeanne Milde. Iara. Madeira. 85 (altura) x 80,1 (diâmetro) cm. S/data. Acervo Museu Mineiro.............................................................................................p. 122 22 – Jeanne Milde . A Deusa do Amazonas. Madeira. 116x 34,5x 32,5 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro................................................................................p. 123 23 – Jeanne Milde . Coral. Entalhe em madeira (imbuia), pátina com anilina, cera. 95 x 47,5 x 6,0 cm. S/ data. Acervo Museu Mineiro.......................................p. 124 LISTA DE ANEXOS Anexo I...................................................................................................................p. 140 Dados presentes no Livro de Registro da Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, Registro número 18850: Anexo II..................................................................................................................p. 142 Complemento da ficha funcional de Jeanne Louise Milde presente no Instituto de Educação de Minas Gerais: Anexo III.................................................................................................................p. 144 Documento mimeografado presente no acervo da artista doado ao Museu Mineiro. Pontos para exames de suficiências –Trabalhos Manuais- 1º Ciclo Anexo IV.................................................................................................................p. 146 Lista de obras presente no arquivo pessoal da artista. Anexo V..................................................................................................................p. 148 Lista de obras presente no arquivo pessoal da artista. Anexo VI.................................................................................................................p. 151 Dados de catálogo da exposição realizada na Galerie Maison D’or Anexo VII...............................................................................................................p. 153 Trechos do livro: ANDRADE, Moacyr. República Decroly. Belo Horizonte, Edições Pindorama, 1935. Anexo VIII..............................................................................................................p. 159 Poema de Carlos Drumond de Andrade: As moças da Escola de Aperfeiçoamento RESUMO O trabalho que se segue tem por objetivo resgatar pequena parcela da trajetória de vida da artista Jeanne Louise Milde, a partir de uma análise biográfica que considere as inúmeras interrelações entre sujeito e contexto. Busca-se a elucidação de alguns pontos para os quais sua vida serve de ponto de partida e de chegada, tais como: a participação feminina na arte no século XX em Belo Horizonte, o ensino de arte-educação, e questões sobre o antigo e o moderno na capital de Minas e o clássico e o moderno nas artes. Mlle. Milde nasceu em Bruxelas em 1900 e formou-se pela Real Academia de Belas Artes dessa cidade em 1925. Esse momento inicial foi fundamental na constituição de seus valores e de sua personalidade. Mudou-se da Bélgica para Belo Horizonte em 1929, para integrar a Missão Pedagógica Européia, inserida na Reforma de Ensino de Francisco Campos. Presença significativa no panorama artístico de Belo Horizonte, Mlle. Milde participou como artista plástica e mulher nesse meio nas décadas de 20 a 50 do presente século. Foi a primeira mulher e artista profissional a se estabelecer na cidade. Abriu espaço em Belo Horizonte para a participação feminina e para a arte moderna que posteriormente se estabeleceria nas terras da capital mineira. Sua arte era marcada pelo moderno-tradicional, sendo uma artista clássica e moderna. Adotou linguagens artísticas ligadas ao Simbolismo, Art Déco, Art Nouveau, expressionismo, mas permaneceu com uma percepção de arte que pode ser denominada clássica. ABSTRACT The aim of this work is to review the life of Jeanne Louise Milde, considering the relations between the individual and the context in a biography. Her life can help us to understand some points about XXth Century life such as women in arts, art education, and questions about the ancient and the modern in Belo Horizonte and about the classic and the modern in arts. Mlle Milde was born in Brussels in 1900 and was graduated by Brussels Royal Academy of Fine Arts in 1925. This moment was extremely important in the formation of her values and her personality. She moved from Belgic to Belo Horizonte in 1929, to integrate the Missão Pedagógica Européia, in the Reforma de Ensino de Francisco Campos. Mlle. Milde participated as a sculptor and women in the artistic field in Belo Horizonte and Brussels in the 20s till the 50s. She was the first professional women artist to establish in the capital of Minas Gerais. She has opened the artistic field to women participation and she has opened it to modern art too. Her art has modern and classical characteristics – she was an artist, at the same time, modern and classical. Jeanne Louise Milde adopted artistic languages related to symbolism, Art Déco, Art Nouveau and expressionism, but with an artistic perception that may be called classical. INTRODUÇÃO “Não se pode negar que há um estilo próprio a uma época, um habitus resultante de experiências comuns e reiteradas, exatamente como, a cada época, há também o estilo próprio de um grupo. Mas existe também, para cada indivíduo, um espaço de liberdade significativa que encontra precisamente sua origem nas incoerências dos limites sociais e que faz nascer as mudanças sociais. Nós não podemos, portanto, aplicar os mesmos procedimentos cognitivos aos grupos e aos indivíduos, e a especificidade das ações de cada indivíduo não pode ser considerada como indiferente ou privada de pertinência” 1 Como pensar questões teórico- metodológicas ao abordar o indivíduo Jeanne Louise Milde? Há de se passar pela emergência do sujeito, como possível de ser analisado dentro de uma tradição historiográfica. A discussão sobre este sujeito é feita pelos estudos dos campos: sujeito/contexto, subjetividade/objetividade, representações de mundo de diferentes sujeitos e grupos sociais. O gênero biográfico, presente desde há muito tempo nas obras dos que buscavam um conhecimento histórico, foi usado no século XIX para enaltecer os grandes homens. Caiu no ostracismo no século XX com o advento da Escola dos Annales e da História das Mentalidades na França, vertentes da historio grafia que buscavam totalidades. Surge na Itália, no fim dos anos 70, um movimento de renovação da História. Principalmente com Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, aparece uma nova perspectiva, a da micro-história que, em linhas gerais, propõe reduzir a escala, analisando pequenas realidades, muitas vezes a partir de um indivíduo, para melhor compreender o todo. Nesse sentido, a micro-história é “uma gama de possíveis respostas que enfatizam a redefinição de conceitos e uma análise aprofundada dos instrumentos e métodos existentes.” 2 Os micro- historiadores trabalham com a relativa liberdade do indivíduo, mas sabendo que existem limitações do sistema normativo e prescritivo em relação à liberdade individual. Assim sendo, “... o historiador não está simplesmente preocupado com a interpretação dos significados, mas antes em definir as ambiguidades do mundo simbólico, a pluralidade das possíveis 1 2 LEVI, Giovanni. Les usages de la biographie. p. 1335. Idem. Sobre a Micro-História. In: BURKE, Peter. A Escrita da História. p. 135 1 interpretações desse mundo e a luta que ocorre em torno dos recursos simbólicos e também materiais.” 3 Giovanni Levi4 realiza uma tipologia de biografias em que considera as formas como são feitas as biografias hoje. Não busca um estudo que esgote a análise da vida de uma certa pessoa, mas, antes de tudo uma biografia que nos faça pensar sobre algumas questões mais amplas que perpassam a vida dessa pessoa e enriquecem a compreensão de outros acontecimentos sociais. Levi divide em quatro os tipos de abordagem: prosopografia, biografia e contexto, biografia e casos limites e biografia e hermenêutica. Nesse último caso, biografia e hermenêutica, o material biográfico se torna discursivo, mas não podemos traduzir a natureza real, a totalidade de significações que a biografia possui: ela pode somente ser interpretada. Essa aproximação hemenêutica parece mostrar a impossibilidade de se escrever uma biografia mas, ao mesmo tempo, faz com que os historiadores reflitam sobre a utilização das formas narrativas em seu trabalho. Os problemas, ao se abordar a questão da biografia dentro do conhecimento histórico, passam por questões de fundo da própria teoria do conhecimento: as relações entre normas e práticas, entre indivíduo e grupo, entre determinismo e liberdade ou mesmo entre racionalidade absoluta e racionalidade relativa. Giovanni Levi encontra uma saída ao estabelecer uma relação permanente entre biografia e contexto. Sem negar a repartição desigual de poder devemos considerar que os dominados têm espaços, mesmo que reduzidos, para agir. Não se pode negar a existência de um habitus do grupo mas, além dele, devemos considerar a existência de um espaço de liberdade para cada indivíduo. E é nesse espaço que Jeanne Milde age. Age como sujeito que possui liberdade de escolha ao vir para Belo Horizonte em 1929, ao entrar para a Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, ao não se casar, não ter filhos e se dedicar ao ensino da arteeducação. Mas existe também o contexto no qual ela age: é chamada na Bélgica por um representante do governo mineiro para ajudar a fundar uma Universidade do Trabalho em Minas Gerais (plano que não foi levado adiante), foi aceita na Real Academia de Belas Artes, ainda que tenha passado por restrições devido ao fato de ser mulher e escultora. O sujeito age dentro de um contexto e é na relação e na tensão existente entre os dois que se produz a história de cada um dos seres humanos. 3 Idem. Sobre a Micro-História. BURKE, Peter. Op. cit. p. 136 2 Propõe-se aqui uma análise biográfica da vida de Jeanne Milde. Não uma biografia que busque esgotar a análise da vida de uma certa pessoa, mas que procure pensar algumas questões mais amplas que perpassem a vida dessa pessoa e enriqueçam a compreensão de acontecimentos sócio-culturais. E uma biografia realizada com todo o rigor possível, embora sabendo-se que a própria delimitação do campo de trabalho já representa uma escolha subjetiva do pesquisador. Além disso, não se pode esquecer que a fala, apreendida em reportagens, em entrevistas dadas pela artista, muitas vezes não venha a representar aquilo que ela realmente deseja. Deve-se, pois, trabalhar com os dados de que se dispõe, sem buscar uma compreensão além do possível, na tentativa de entender o pensamento e a mente da artista de uma maneira praticamente impossível de ser feita: nem mesmo os próprios sujeitos se compreendem dessa forma. Existe a necessidade de racionalização da atuação da artista para uma compreensão concreta de seus atos, suas motivações. A percepção de suas representações do mundo caminham em via de mão dupla: tanto ela como os meios em que vive dão significados à sua condição de mulher, européia, artista plástica, professora. É na conjunção do objetivo e do subjetivo, do simbólico e do real que Jeanne Milde se faz mostrar e, ao mesmo tempo, constrói sua percepção de mundo. Nesse sentido, o objeto desta pesquisa encontra-se relacionado com a micro-história e a biografia. A cidade Belo Horizonte, anos 20. Vários trabalhos já versaram sobre a cidade, a nova capital planejada, pensada, racional, que logo deu espaço à irracionalidade de variadas ações humanas. Cidade de cafés, de ficus, de avenidas largas, de construção do novo, de praças, de funcionários públicos, de homens e mulheres desgarrados de suas terras. Terra de ninguém, buscada por funcionários públicos, trabalhadores de sua construção, aventureiros, nova sede do governo. Mas mais de 30 anos já haviam se passado desde a inauguração da cidade quando Jeanne Louise Milde, belga de nascimento, aporta nas montanhas de Minas. Mas, qual seria a Belo Horizonte dos anos vinte? Era a Belo Horizonte moderna, do movimento modernista de Minas? Era a Belo Horizonte tradicional das 4 Idem. Les usages de la biographie, 1989. 3 famílias mineiras que não aceitavam as mulheres fora do aconchego do lar? Belo Horizonte, se não foi cosmopolita desde o seu princípio, tampouco deixou de possuir em sua realidade traços do mundo urbano e moderno das cidades: espaço de conflitos e contradições, de vivenciar o novo entremeado pelo antigo, de existência de classes sociais distintas, de culturas diversas, de convergência de pessoas desgarradas de suas terras, de suas realidades. E é esse choque entre o novo e o antigo, convivendo em um mesmo espaço, que aparece na moderna Belo Horizonte: “Belo Horizonte vivia, na década de 20, mudanças nas relações sociais e, conseqüentemente, no plano de concepção de vida e mentalidade vigentes. Fixavam-se na capital mineira contingentes populacionais oriundos de cidades interioranas ou de áreas rurais, definindo um intenso processo de urbanização. Daí a oscilação ideológica dos modernistas mineiros que ora reduplicavam o pensamento autoritário bernardista, ora se refugiavam em sua formação liberal. Surgia uma ampla classe média, devido à circunstância de ser a capital político-administrativa (e não ainda a capital econômica) de uma região dirigida por poderosa oligarquia regional. Note-se ainda a presença dos fazendeiros do ar, expressão retirada de Carlos Drummond de Andrade e que se refere ao homem que vem da propriedade rural para a grande cidade, ingressando na burocracia e recordando, em sua produção literária, valores e procedimentos formados na grande propriedade fundiária, normalmente conflitantes com o novo estilo de vida que encontram.” 5 Belo Horizonte era um espaço de encontro entre o moderno, o novo e o tradicional, o antigo, oposições que podem vir a fazer parte de um todo, como o todo de uma vida, moderna em alguns pontos e tradicional em outros. Podem vir também a fazer parte do todo de uma cidade que tenha como parte integrante a tradição e a modernidade, dois conceitos definidos a posteriori por aqueles que fazem um discurso buscando dar inteligibilidade ao acontecimento passado. Belo Horizonte poderia ser tanto um belo cenário, um “divino corpo com alma de arraial”, uma “poeirópolis” como o exemplo de um “desenvolvimento inédito”, símbolo do progresso e da civilização. 6 Poderia ser também “moderna e civilizada, trepidante, uma verdadeira metrópole ou, ao contrário, uma cidade pacata e 5 BUENO, Antônio Sérgio. O modernismo em Belo Horizonte: década de 20. p. 25. JULIÃO, Letícia. Belo Horizonte: itinerários da cidade moderna (1891-1920). p.52-53. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. BH: Horizontes históricos. 1997. 6 4 provinciana, perdida em meio as montanhas de Minas, e onde, pela sua sem-graceza, nem mesmo o trem tem vontade de parar.”7 Em sua construção, a cidade de Belo Horizonte já nasce marcada por um discurso do moderno, embora uma determinada tradição seja preservada com a posterior transformação de Ouro Preto em “panteão da nação brasileira.” 8 Não seria uma tradição que teria como locus a própria cidade, a tradição estaria relacionada com o resgate das figuras dos inconfidentes e da própria preservação de um passado das Minas Gerais com a mudança da capital de Minas para um “espaço de debate político e de ganho material que completava o destino das Minas Gerais e dos seus heróis” 9 Ao mesmo tempo em que existiria “não uma ruptura do tipo novo/velho, moderno/antigo, mas uma recomposição do tempo histórico dentro de uma legitimação da justaposição tradição/ futuro” 10 , Belo Horizonte era marcada pelo discurso da modernidade, da necessidade de uma modernização de seu espaço. A Belo Horizonte pretendida por seus idealizadores seria moderna e civilizada, civilizada de acordo com os modelos europeus: Paris, Londres, Berlim e, por que não, Bruxelas, a Bruxelas de Mlle. Milde. A artista belga aparece aqui como representante desta civilização desejada para Belo Horizonte, a civilização européia, a modernidade do Velho Continente. Jeanne Milde seria uma figura bem vinda na cidade que pretendia se modernizar, que buscava conformar a urbe dentro de novos padrões. Belo Horizonte nasce para ser a capital moderna do Estado de Minas Gerais em tempos republicanos. Cidade planejada de acordo com os novos padrões europeus do século XIX, versão brasileira das reformas de Paris, concebidas por Haussman, e de Viena com a abertura da Ringstrasse. Belo Horizonte nasce marcada pela necessidade do novo, cidade nova para novos ventos, mas sempre ancorada na representação de valores tradicionais que tentavam, de toda maneira, se fazerem valer na capital. Dois periódicos da Belo Horizonte dos anos 20, marcados por retóricas passadistas e modernistas, servem para mostrar o ambiente que existia na cidade: A Revista e O Leite Criôlo. Podemos assim perceber A Revista: 7 SILVEIRA, Anny Jackeline Torres Silveira. O sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Op.Cit. 8 MELO, Ciro Flávio Bandeira de. A noiva do trabalho, uma capital para a república. p.45. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Op.cit. 9 Ibidem. p.45. 10 Ibidem. p.13. 5 “... tem uma peculiaridade entre as publicações modernistas brasileiras em geral: apresenta em seu espaço duas escritas, a acadêmica e a modernista. No mesmo momento escritural, coexistem linguagens que se contradizem. Esse banquete heterogêneo é servido ao leitor cujo paladar certamente estava habituado às iguarias convencionais. E os novos alimentos vêm misturados aos costumeiros para serem mais facilmente digeridos.” 11 Percebe-se Jeanne Louise Milde como uma representante desse moderno/tradicional, parte integrante da modernidade, dialeticamente se relacionando na constituição do ser e do espaço ocupado por este ser. É uma modernidade marcada pelo moderno e pelo tradicional, não somente pelo moderno ou pelo tradicional, segundo Marshall Bermman, o isto e aquilo da modernidade no século XIX. 12 Ela chega em Belo Horizonte no ano de 1929, com uma formação acadêmica, tradicional, mas ao mesmo tempo proveniente de uma realidade européia na qual os movimentos modernistas nas artes já haviam ocorrido. A artista vinha de Bruxelas, a Bruxelas do Art Nouveau de Victor Horta, por sua vez professor na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas na qua l Milde realizou seus estudos. Milde, assim como A Revista, também traz em si elementos acadêmicos e modernistas. Com relação à pintura prevalecia, em Belo Horizonte, o academicismo de Aníbal Mattos, com algumas incursões pelo impressionismo de nomes como Genesco Murta. Contudo, a Belo Horizonte encontrada por Milde já conhecera outra mulher artista que viera mostrar uma arte moderna na capital de Minas: Zina Aita. Zina Aita realizou em 1920 a primeira exposição de arte moderna na cidade. Sua obra utilizava intensamente as cores, algo não visto anteriormente em Belo Horizonte. Transgressora das normas acadêmicas vigentes, pode se perguntar até que ponto essa exposição influenciou as relações existentes entre os membros do meio artístico. Mas, de qualquer maneira, teve repercussão, tendo tido defensores e detratores da arte exposta pela artista, belorizontina de nascimento, com formação artística realizada na Itália. A artista logo retornou à Itália, após ter participado da Semana de Arte Moderna de 22 em São Paulo, permanecendo no país de origem de seus pais até o fim da vida. 11 12 BUENO, Antônio Sérgio. O modernismo em Belo Horizonte: década de 20. p. 35 BERMAN, Marshall. Introdução. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da Modernidade. p.15-37. 6 Nos jornais de Belo Horizonte percebe-se uma vontade de se ser moderno, ancorada nos novos tempos que estavam chegando na capital, tempos de progresso e desenvolvimento ao mesmo tempo técnico e social. Juntamente às notícias sobre a exposição de Aita na capital, outras, falando da conquista de novos espaços pelas mulheres, aparecem nas páginas dos diários, mostrando “os progressos do feminismo”13 e as conquistas realizadas pelas mulheres. Assim, se em um primeiro momento as artes em Belo Horizonte estavam marcadas por um academicismo, estavam também abertas aos novos tempos do ecletismo e do Art Nouveau. É dentro dessa Belo Horizonte que aparece a figura de Jeanne Louise Milde, como mulher e artista atuante na cidade a partir do ano de 1929. Proveniente da Bélgica, traz em seu ser a idéia da modernidade e da civilização. É a própria artista que dá o tom do que teria vindo fazer no Brasil: “Pensei bem e cheguei à conclusão de que na Europa já estava tudo feito. Não podia dispensar uma oportunidade de ir para um lugar onde estava tudo por fazer.”14 A vida de Jeanne Louise Milde pode ser tomada como referência para a compreensão do tradicional e do moderno na capital de Minas, o desenrolar da arteeducação na Belo Horizonte das décadas de 30 a 50, a inserção da mulher nas artes neste mesmo século e a questão das opções feitas pela artista, que elege e escolhe suas influências nas artes plásticas e o local onde vai se instalar dentro de certa gama de possibilidades. O contexto e o indivíduo são analisados, sendo aquele compreendido como algo não rígido, passível de ser reelaborado a partir de novas interpretações. Belo Horizonte aparece aqui como um local, um palco para a atuação de personagens: artistas, professores, alunos, governantes, funcionários públicos, que se relacionam no espaço da cidade. Mas como estabelecer o espaço do sujeito Jeanne Milde no século XX? Como realizar um estudo sistemático desse sujeito? Partindo do pressuposto de que os sujeitos são múltiplos e variados, não devemos considerar a mulher só como membro de uma categoria geral de mulheres, mas, também, a partir de outros aspectos de sua vida: raça, classe social, meio em que esta mulher vive, relações sociais por ela estabelecidas. Jeanne Milde deve ser estudada como uma européia, branca, artista plástica, professora, membro de uma classe média urbana e mulher que age e atua dentro de um mundo através de suas convicções e por meio de práticas sociais. 13 14 DIÁRIO DE MINAS. 17 janeiro de 1920. p. 01. ESTADO DE MINAS, Feminino, 23 novembro 1997, p.09. 7 Qual seria a condição de Jeanne Louise Milde como mulher, artista plástica e professora de artes? Milde se insere em um determinado meio, o artístico, e se apropria das formas de representação aí existentes, mas com uma diferenciação básica: como mulher. Não se pode deixar de considerar que, pelo fato de ser proveniente de um outro espaço, o europeu, talvez fosse percebida, pelos habitantes da cidade, antes como artista plástica européia e civilizada do que como uma mulher artista plástica. Ao se reduzir o objeto a uma determinada individualidade, se por um lado restringe-se o campo a ser analisado, por outro verifica-se que a gama de possibilidades apresentadas no estudo da vida de um sujeito é muito grande. Torna-se necessário, então, delimitar as perguntas e direcionar o estudo. Essa a razão para se dividir a dissertação em três capítulos. O primeiro capítulo, Da formação na Bélgica à formação das brasileiras: ventos civilizados acadêmicos e modernos para a moderna Belo Horizonte, aborda a formação da artista na Bélgica e as conjunções que fizeram possível sua vinda para o Brasil, para Belo Horizonte e sua atuação como professora de artes. Sua formação realizou-se na Real Academia de Bruxelas, sendo analisados a estrutura da Academia assim como as influências que os mestres tiveram na arte de Milde e também o meio artístico belga, no qual Milde já se integrara antes de sua vinda para o Brasil. Para se compreender sua arte e o modo como se relaciona com o mundo, deve-se observar sua cultura primeira, a do meio artístico de Bruxelas do início do século. No outro aspecto tratado, as conjunturas que possibilitaram a vinda de Mlle. Milde para a capital de Minas, o ponto principal é a Reforma de Ensino de Francisco Campos e a sua atuação como professora de artes: de aluna da Real Academia a professora de artes para as professoras primárias. O segundo, Horizontes artísticos: Jeanne Milde e as artes plásticas na capital de Minas, procura elucidar a inserção da artista plástica no meio artístico da nova capital de 1929 até os anos 90. A partir do local ocupado por ela como mulher e escultora em Belo Horizonte, mostra-se como ela se inseriu no meio artístico sem choques. Ela adotou os valores do meio, ligando-se ao artista de maior peso na cidade na década de 20, Aníbal Mattos, e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para novas linguagens artísticas, diferentes do academicismo de Mattos, com sua participação no Salão do Bar Brasil de1936. Jeanne Milde realizou exposições na cidade nos anos 30 e 40 e participou dos diversos salões que ocorreram na cidade no período. Ela não faria mais parte do meio artístico de forma intensa a partir dos anos 50 – reflexo da chegada 8 de nomes como Guignard ainda nos anos 40 e da construção do complexo da Pampulha, marco da arquitetura e do urbanismo modernos. Além disso, foi nos anos 50 que se aposentou do cargo de professora no Instituto de Educação. Foi relembrada nos anos 80, a partir de estudos empreendidos por Ivone Luzia Vieira e de diversas homenagens que lhe foram prestadas ao longo das décadas de 80 e 90. A análise das esculturas de Milde é o ponto central do terceiro e último capítulo, Moderna, mas com uma base clássica... Sua obra insere-se dentro de uma tradição escultórica onde aspectos acadêmicos e modernos se encontram. A artista, formada em padrões artísticos ligados a uma arte mais característica do século XIX, entrou em contato com novas linguagens artísticas ainda na Bélgica: a arte das vanguardas já havia chegado a Bruxelas. Mas sua arte não é uma arte vanguardista, ainda que seja moderna. Em sua arte integram-se elementos de diversos movimentos artísticos como Simbolismo, Art Nouveau, Art Déco e expressionismo, assim como percebe-se a influência de mestres como Auguste Rodin, influência assumida pela artista, Constantin Meunier e Georges Minne, escultores belgas de grande influência na arte moderna. Como era necessário um corte em sua produção artística, a preferência foi dada às obras presentes no acervo do Museu Mineiro, que podem dar uma idéia do todo da sua produção artística. Onde foram encontradas as fontes para a escrita da dissertação? Elas fazem parte, em sua grande maioria, do acervo pertencente à artista, doado ao Museu Mineiro ainda em vida por Milde. Nesse acervo, encontram-se diversos recortes de jornais desde o tempo em que estudava e trabalhava na Bélgica e reportagens sobre seu trabalho como professora e artista em terras brasileiras, dos anos 20 aos anos 50, além de diversas esculturas e utilitários. Reportagens e entrevistas da artista nos anos 80 e 90 também integram o corpus documental que serviu de base para a realização da biografia de Milde. 9 I – DA FORMAÇÃO NA BÉLGICA À FORMAÇÃO DAS BRASILEIRAS: VENTOS CIVILIZADOS ACADÊMICOS E MODERNOS PARA BELO HORIZONTE. “Minha mãe não podia imaginar que eu queria ser escultora. Era uma coisa impossível para ela compreender.” “E eu fui a única mulher que foi aceita na Escola de Belas Artes a ser aluna entre os jovens. E os jovens me criticavam muito. Eles diziam: esta mulher pequenina se julga ser um dia escultora com este saltinho alto e esta roupa de enfeita.” 15 Jeanne Louise Milde Jeanne Milde nasceu e se formou em Bruxelas. Durante os primeiros 29 anos de sua vida, a sua realidade foi aquela cidade, as relações e os princípios de seu povo. A formação da artista se deu nas terras belgas, européias, num momento de mudança nas artes: vanguarda, modernismo, novas linguagens artísticas. Mas sua aprendizagem se realizou em um ambiente tradicional europeu: uma Academia de Belas Artes. Para além da arte, a formação da artista como ser humano realiza-se dentro daquela cultura e as suas relações com o mundo vão ser marcadas por todo o aparato cultural com o qual esteve em contato desde o início de sua vida. A posição da mulher-artista na sociedade belga deve, pois, ser observada, buscando o seu lugar dentro de uma realidade distinta da belorizontina. Nasceu no ano da virada do século: 15 de julho de 1900, filha de Josse Milde e Mathilde Cammaerts Milde. Era o início do século XX, de tantas transformações, pano de fundo para a vida em exame, a de Jeanne Milde. Longo ou breve, o século XX que serviu de palco para a artista foi uma época de profundas transformações, marcada por duas grandes guerras, em uma das quais a artista estava presente, não como participante direta, mas como habitante de áreas atingidas. Foi um século de significativas mudanças nas artes, de movimentos como o futurismo, o cubismo, o fauvismo, o surrealismo, o construtivismo, da maior divulgação do cinema, do surgimento da televisão, da chegada do homem ao espaço. Foi também o século do desespero: miséria, fome, guerras, possibilidade de destruição do mundo pela bomba atômica... 15 Vídeo: FROTA, Gastão. A vida na arte de Jeanne Milde. Belo Horizonte, 2000. 10 Embora o foco principal do trabalho sejam as relações que se estabelecem com a chegada de Jeanne Milde em terras brasileiras, a tentativa de compreender sua formação como artista ajuda a elucidar sua atuação em Minas Gerais. Sua formação é determinante, mas não age como uma camisa de força que amarra a artista por todos os lados. Sem negar a importância fundamental daquele período em sua vida, não se pode esquecer das novas relações que transformarão seu ponto de vista (ou não) no momento em que toma contato com novas culturas - belorizontina, mineira, brasileira e com novas possibilidades de mundo. Face importante da vida e do trabalho de Jeanne L. Milde, sua ligação com a arte-educação remonta à sua formação na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas. Quais seriam as metodologias de ensino, as teorias adotadas na Real Academia e quais seriam as escolhidas por Jeanne Milde ao chegar em terras brasileiras? Essas perguntas devem ser feitas sem se esquecer de um diferencial básico: o estudo de Milde como artista se deu em moldes clássico-acadêmicos, enquanto sua atuação como professora na capital mineira será destinada a formar professoras que se utilizarão de saberes artísticos para ensinarem a seus alunos outras disciplinas. 11 I.I – Da formação em Bruxelas A mulher, a artista e a cidade na virada do século XX Assim como nos demais países europeus, as primeiras décadas do século XX foi um período de lutas do movimento feminista na Bélgica: pelo direito ao trabalho, pelo direito ao voto, pelo direito à cidadania, por direitos civis e sociais. A Bélgica de Jeanne Milde não era diferente. Embora não fosse participante de nenhum movimento pelos direitos femininos, Milde esteve indiretamente ligada à conquista daqueles direitos ao entrar na Real Academia, local onde não havia muitas mulheres e onde, segundo relata, não teve uma recepção muito calorosa. Durante o século XIX, com o aumento da urbanização, tornara-se necessário reestabelecer os papéis sociais dentro de um novo mundo das cidades. Michelle PERROT considera o espaço público a partir do século XIX como espaço das cidades, no qual homens e mulheres encontram-se nas extremidades opostas da escala de valores. O homem público é respeitável: desempenhando um papel importante e reconhecido, mais ou menos célebre, ele participa do poder. Já a mulher pública é a parte escondida da cidade, é venal e debochada, um simples objeto, um território de passagem sem valor, é a prostituta, a mulher de vida fácil, que não fica no aconchego do lar. A mulher pública é vista de maneira extremamente negativa na distribuição de papéis entre homens e mulheres: "para os homens o público e o político, seu santuário, para a mulher, o privado e seu coração, a casa."16 Com relação aos direitos políticos, na Bélgica independente de 1830, assim como em todos os países europeus naquele momento, o voto não era permitido à mulher. O status civil da mulher era o mesmo dos menores de idade e dos incapacitados: só poderia trabalhar com a autorização do marido. O espaço público das cidades não era, inicialmente, permitido às senhoras da sociedade e às moças de boa família. Gradualmente, a cidade vai proporcionar o encontro das esferas pública e privada, no sentido de que as mulheres (antes restritas à esfera privada) passam a transitar no espaço público ao saírem de casa, seja se apresentando ou representando e, cada vez mais, ocupando um lugar público, não mais restrito a sua casa, ao domínio do privado. 16 PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. p. 10. 12 Diferenciando espaço público e esfera pública, podemos definir esfera pública, por oposição à esfera privada, como "o conjunto, jurídico ou consuetudinário, dos direitos e deveres que delineiam uma cidadania mas também os laços que tecem e fazem a opinião pública." O espaço público seria "mais concreto e material ... amplamente equivalente à cidade, é um espaço sexuado em que os homens e as mulheres se encontram, se evitam ou se procuram."17 Mas neste trabalho o que se encontra em questão não é a vida privada de Jeanne Milde. Não por considerá- la de menor importância para o conhecimento histórico e sim por ver a entrada das mulheres no campo das artes plásticas como uma conquista em um espaço antes reservado aos homens. As mulheres passam a ter a opção de ingressar em determinado campo e não ficam mais restritas a um mundo privado, visto como o lugar natural das mulheres. Aqui se encontra a defesa de uma possibilidade de escolha para mulheres que pretendiam seguir a carreira de artistas plásticas: foram necessárias mulheres como Jeanne Louise Milde para que este campo do fazer e do conhecimento humano fosse ocupado também por mulheres e não somente por homens. Ou seja, antes de mais nada, a abertura desse campo para as mulheres possibilitou um espaço a mais e uma alternativa a mais para as mulheres. E essa mulher, belga, artista plástica, é uma mulher da cidade, de cidades, inicialmente de Bruxelas, posteriormente de Belo Horizonte. No século XX, as mulheres conquistaram um espaço de fala, de escrita e de representação de si mesmas, tornaram-se sujeito, deixando de ser representadas em um mundo público somente pelos homens, antes praticamente os únicos agentes e participantes da construção do saber humano, o espaço da escrita, da leitura, do conhecimento, das academias, da ciência, das artes plásticas. A entrada da mulher no mundo do trabalho implicou transformações na relação entre o público e o privado, uma vez que "A presença constante das mulheres tanto no mercado de trabalho como no campo cultural e político levou à evolução do direito privado e à mutação das actividades domésticas, que por sua vez facilitaram o alargamento da esfera feminina pública."18 Este trecho serve para ilustrar a importância fundamental da entrada da mulher em ambientes nos quais não era bem vista: além do direito de escolha, a mulher passa 17 18 Ibidem. p. 7-8. THÉBAUD, Françoise. Introdução. História das Mulheres: o século XX. p. 20. 13 a ter voz ativa em direitos que antes ficavam restritos ao privado, mas que acabaram por se tornar públicos uma vez que as mulheres se tornaram públicas. Das primeiras décadas do século até fins da Segunda Guerra Mundial, observam-se os movimentos feministas, neles incluídas organizações sufragistas femininas, caminhando em direção à conquista do direito de voto da mulher, que no Brasil efetua-se em 1934. Além disso, há a entrada efetiva da mulher no mercado de trabalho urbano, processo iniciado no século XIX e que na Europa e nos Estados Unidos vai ser incentivado com as guerras pois, com os homens na frente de batalha, seus empregos teriam que ser assumidos pelo sexo feminino. No entanto, com o fim da guerra e a volta destes para seus empregos de origem, novamente se incentivaria o modelo de mulher do lar. A mulher é chamada de volta ao lar ou então para trabalhar no setor que se convencionou chamar de setor de serviços. Conhecido como período de interregno, o período que vai de 1945 a meados da década de 60 ainda é pouco estudado com relação aos movimentos feministas talvez por não ter havido confronto direto, como nos momentos anterior e posterior, um pela luta pelo voto feminino e outro pela luta por igualdade de oportunidades em todos os setores da vida, ainda mais acirrada com os movimentos feministas dos anos sessenta. 19 Na Bélgica, de 1890 a 1914, tem-se um período de fermentação na conquista de direitos femininos. Surgem movimentos que lutam pelos direitos, na burguesia e nas classes trabalhadoras, estes últimos juntamente com movimentos socialistas. 20 As mulheres passam a ocupar espaços a elas antes não permitidos, se não legalmente, ao menos por costume: o das salas de aula universitárias, o de juízas. Com a Primeira Guerra Mundial, as mulheres se afastam das lutas por direitos como o de votar, o de melhores condições de trabalho para as trabalhadoras, e mantêm atividades de beneficência, como, por exemplo, a ajuda aos soldados de guerra. No curso dos anos 20 observa-se o desabrochar dos movimentos feministas que haviam surgido no período de 1890 a 1914. Alguns grupos vão se ocupar da conquista do direito ao trabalho e ao sufrágio feminino, da igualdade jurídica e lutar contra a prostituição e pela proteção à infância, caso do Conselho Nacional de Mulheres. Ao mesmo tempo, outros vão estar trabalhando por obras educativas, sociais e de caridade. Em 1921 19 LANGRAVE, Rose-Marie. Uma emancipação sob tutela. Educação e trabalho das mulheres no século XX. In: THÉBAUD, Françoise (direção). História das Mulheres: o século XX. p. 505-543. 20 DE WEERDT, Denise. Zoé, Isabelle, Louise et les autres. Vies des femmes. 1980. 14 surge a Federação Belga de Mulheres Universitárias e em lei de 19 de fevereiro de 1921, as mulheres obtêm o direito de voto ativo aos 21 anos e o de voto passivo aos 25 anos nas eleições comunais. Somente em 1948 todas as mulheres passam a ter o direito de participar das eleições parlamentares. Qual era o espaço da mulher-artista na Bélgica? Assim como a História da Arte Ocidental, a História da Arte na Bélgica esteve marcada por um pequeno número de mulheres-artistas em seus meios. Aos poucos, de meados do século XIX ao século XX, elas ocupam, cada vez mais, o meio artístico, passando de modelos a artistas. A mulher vai passar de ser passivo de representação àquele que representa, que toma para si os meios de produção artística. Ao longo da história das artes, a mulher não se destacou no plano das artes plásticas. Que mulher se encontra entre os grandes nomes dos artistas renascentistas, barrocos, neoclássicos ou românticos? As mulheres não tinham acesso nem aos meios de produção artística – pincéis, tintas, telas, madeira, ferro, cinzel – nem a um mestre e a um aprendizado acessíveis aos artistas homens. Havia o discurso de que a mulher, um ser distinto do homem, deveria ter papéis diferenciados, definidos natural ou religiosamente: o papel da mãe, da mulher do lar, restrito a um ambiente privado, um ambiente distante das conquistas de um mundo público de participação política, da luta por direitos e do espaço de discussão. Cabialhe aceitar o seu papel de esposa honrada e mãe devotada. No entanto, a mulher não vai limitar-se a exercer esse papel: ao longo do século XIX e XX vai lutar por um lugar ao sol nas ruas das cidades, nos espaços de discussão pública, no mundo do trabalho. Jeanne Milde não se filiou a nenhum movimento feminista, mas teve uma vida que pode ser analisada sob a ótica das conquistas realizadas pelas mulheres. Assim como ela, outras mulheres começaram a trabalhar e a buscar uma profissão para se inserirem em um espaço público, espaço de conquista individual e de uma coletividade a qual o indivíduo pertence. Sem um engajamento político em partidos, em movimentos fe ministas, sem queimar sutiãs, a transformação que ajudou a realizar foi mais silenciosa: mostrando-se capaz de realizar uma atividade à qual as mulheres ainda não haviam tido acesso. Uma das etapas da aprendizagem nas academias de belas artes era realizada com a utilização de modelos masculinos nus, visando à representação perfeita do corpo humano pelo artista, aliás, representação bastante valorizada por Mlle. Milde. Às mulheres não era permitida a visão do modelo nu, o que lhes limitava o acesso à 15 aprendizagem da base do desenho, considerada fundamental no ensino das belas artes). Ficavam, pois, restritas a retratos, paisagens e naturezas- mortas. 21 Essa orientação das academias constituía um empecilho à existência de estudantes mulheres entre seus alunos. A mudança radical em relação ao gênero no panorama artístico não se dá a não ser no momento em que no próprio meio artístico – com os movimentos modernos – os valores deste meio, de representação do real a partir de moldes clássicos, da perspectiva, das le is de representação, são colocados em xeque. A entrada de mulheres no meio artístico só ocorre, pois, quando há a quebra de tradições no campo da representação nas artes ocidentais. Com o impressionismo essa cena se transforma. Mulheres passam a ocupar o lugar de artistas: as pintoras francesas Berthe Morisot e Mary Cassat, assim como a belga Anna Boch, única pessoa a comprar um quadro de Van Gogh quando este ainda estava vivo, e que era “um elo importante do meio artístico e intelectual [de Bruxelas] e organizava entre outros, nas segundas-feiras, saraus musicais nos salões de seu palacete em Ixelles.” 22 Além dessas, não se pode esquecer a escultora Camille Claudel, escultora renomada, aprendiz do escultor francês Auguste Rodin. Dentre as pintoras, desenhistas, escultoras belgas que se destacaram em fins do século XIX e princípios do século XX podemos citar além de Anna Boch, Jenny Montigny, também impressionista; Marthe Donas, que manteve contato com o “De Stijl”, adotou a linguagem cubista e foi convidada para participar das exposições de “Der Sturm”; Marthe Guillain que teve contato com o meio artístico parisiense na década de 10 e foi viver na África entre os pigmeus em 1953; Cécile Douard, escultora e escritora, que teve sua entrada na Academia de Mons recusada, recebendo a autorização para aí ingressar somente em 1911. Outra artista a ser citada é Louise Danse, desenhista que fazia litos e águas- fortes, e era filha do pintor e gravador Auguste Danse. Mas, mesmo dentro do que se chama arte, existem diferenças. Uma diferença fundamental aparece entre a prática da pintura e da escultura: os meios necessários para a prática da segunda são muito mais difíceis de se relacionar à “natural” feminilidade e fragilidade da mulher. A prática da aquarela e do desenho exige materiais menos “masculinos”, por assim dizer. Já a prática da escultura exige 21 LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. 1987. 22 MERTENS, Phil. Paradise Regained. Du modéle à l’artiste. Vies des femmes. p. 94. 16 materiais que demandam mais força para serem trabalhados e espaços muito mais amplos. Essa, possivelmente, é a razão para se encontrar um número maior de mulheres pintoras do que de escultoras. Existiram algumas artistas em momentos anteriores ao final do século XIX. Entretanto, assim como em outras profissões, as mulheres se inseriram mais profusamente no meio artístico a partir do século XX, momento de mudanças que possibilitaram o questionamento dos valores eternos do Renascimento. Embora não exista uma relação de causa e efeito entre os dois acontecimentos, podemos afirmar que a participação das mulheres no meio artístico e o questionamento dos valores ocorreram simultaneamente. A Real Academia de Belas Artes de Bruxelas Da vida acadêmica de Jeanne Louise Milde, de 1918 a 1925, temos notícias dos prêmios e notas que obteve, tendo sido sempre uma estudante aplicada. 23 A própria artista nos fala sobre o momento em que se inicia no estudo e da relação entre a artista- mulher e o ambiente da Academia, pouco acolhedor à sua figura: “E eu fui a única mulher a ser aceita pela Escola de Belas Artes, a ser aluna com os jovens. E os jovens me criticavam muito, eles diziam “essa mulher pequenina se julga ser algum dia escultor, com esse saltinho alto e essa roupa de enfeita, eles falavam.” 24 Mas, ao mesmo tempo em que frisa a dificuldade de ser aceita como mulher, Mlle. Milde revela que foi a partir do seu talento, pela forma como obtinha a expressividade de suas obras, que conseguiu se impor como artista nesse meio predominantemente masculino: “...mas meus professores, quando eles vinham para me corrigir, e principalmente na parte de escultura, eles me perguntavam: mas como que você faz para dar expressão a suas figuras. E eu dizia que eu olhava o modelo, a composição...” 25 23 24 Ver anexo 1, com dados das disciplinas cursadas por Mlle. Milde na Real Academia de Bruxelas. Entrevista dada ao CRAV em 1996. 17 Ao que parece, ao iniciar a vida artística, Mlle. Milde entra em choque com sua família. É a própria artista que nos relata a reação da família, ao dizer que nem seu pai nem sua mãe a queriam na Real Academia de Belas Artes: “[...] Era minha mãe que não queria. Mas se meu pai soubesse ele não deixava, mas eu não declarei e eu ia na Escola de Belas Artes sem ele saber, pensando que eu estudava ainda, e de fato estudava, porque a parte teórica é uma e a parte escultural era outra.” 26 A entrada na Academia, apesar das adversidades ocasionadas pelas posições proibitivas da família, aconteceu em 24 de setembro de 1918, sendo 18850 seu número de registro. Ainda na Bélgica, sua obra estava marcada pelo academicismo, tendo a artista estudado por quase dez anos na Real Academia de Bruxelas. Teve aulas com De Rudder, Matton, Dubois, Marin, Rousseau e, talvez, Victor Horta, nomes que aparecem à frente das cadeiras de escultura durante seu tempo de estudante na instituição. 27 Para melhor compreender a formação da artista, é preciso examinar o lugar ocupado pela Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, em princípios do século XX, no panorama artístico da cidade. 28 O termo “Academia” nos remete à palavra acadêmico, a academicismo, expressão considerada pejorativa a partir do desenvolvimento das vanguardas e que passa a ter um sentido de oposição, se comparamos a arte acadêmica à arte moderna. Instituição tradicional na cidade de Bruxelas, a Academia foi inaugurada em 1711, contando com mais de dois séculos de atividades no momento de ingresso de Milde em seus quadros. Seu modelo era a Accademia del Disegno, fundada em Florença em 1563. Posteriormente, em 1768, após ter sido colocada sob a proteção do duque Charles de Lorraine, passou a se chamar “Academia de Pintura, Escultura e Arquitetura” de Bruxelas. Mas a função primordial da Academia era ensinar a arte do desenho, sendo este a base para todas as outras artes: 25 Entrevista ao CRAV em 1996. Entrevista ao CRAV em 1996. 27 ACADEMIE ROYALE DES BEAUX ARTS ET ARTS DECORATIFS. Distribution de Prix, Dimanche, 21 mars 1926. Concurs de l’anée scolaire 1924-1925. Bruxelas, Typographie et Lithographie E. Guyot, 1926. 28 Para conferir as informações sobre a Academia, ver o livro LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. 1987. 26 18 “Na origem, as academias são por destino as escolas de desenho (A Academia de Bruxelas não escapa a esta regra) e a cor, que não era considerada a não ser como um produto subordinado ao desenho, será por muito tempo negligenciada no ensino acadêmico.” 29 Essa função primordial será considerada no ensino dos diversos alunos que passam a freqüentar aquele espaço de ensino, o que ocorreu mesmo à época dos estudos de Mlle. Milde. Não por acaso, das cadeiras cursadas por ela nos seus três primeiros anos na Academia, três eram de desenho. 30 Essa valorização do desenho como base para as outras artes permanecerá no ensino: Alberto da Veiga Guignard, quando assumiu as aulas na Escola do Parque em Belo Horizonte, em 1944, privilegiava o desenho como primeira arte a ser desenvolvida pelos alunos. Só posteriormente seus alunos passavam a aprender a pintura. Somente em 1849 será criado o curso de pintura na Academia. Um ano antes, em 1848, a Escola Real de Gravura havia sido anexada à instituição. Na constituição de novos cursos, percebe-se uma tendência, já em meados do século XIX (de 1860 a 1862), de se voltar o ensino à promoção das artes aplicadas à indústria, dentro de uma perspectiva utilitarista. A Exposição de Londres de 1851 serviu de impulso para a valorização do ensino de artes aplicadas à indústria e esses novos ventos sobre o papel reservado às artes acabaram por soprar em toda a Europa Ocidental. Essa relação arteindústria estará presente na formação e no ensino de Mlle.Milde. Ao mesmo tempo em que há uma valorização das artes aplicadas, as artes liberais também possuem lugar de destaque: o novo programa de 1862 insiste no respeito à expressão pessoal e à individualidade do estudante. A efetivação do desejo de se juntar o ensino de artes às novas técnicas industriais ocorrerá em 1886, com a instituição da Escola de Artes Decorativas. O ensino da escultura é também modificado, com o fim da cadeira de composição histórica, extremamente valorizada no século XIX. No momento em que Milde realiza seus estudos, os cursos de composição histórica já haviam sido abolidos e o local de estudo da artista era a Real Academia de Belas Artes e Escola de Artes Decorativas – a Real Academia adotara este nome em 1886. 29 30 Ibidem. p. 23. Ver anexo I 19 No século XIX, havia duas concepções do fazer artístico e da arte31 : uma, baseada em Ruskin e Morris, valorizava o artesanato, o gosto do belo por ele mesmo, estando ligada ao resgate de um modo de fazer arte antigo, revalorizado; a outra também valorizava o artesanato, mas como uma prática adaptada aos novos tempos industriais, que coexistia com as Belas Artes. A concepção de Ruskin e Morris relacionava-se a um resgate de uma arte do passado enquanto a outra concepção procurava conformar a arte ao presente industrializado. O objetivo da direção da Escola, ao abrir suas portas para o ensino de artes decorativas, era possibilitar aos artesãos e operários o conhecimento da arte. Buscavase uma democratização do ensino de artes aplicadas e uma aplicação da arte à indústria, colocando-se aquela a serviço desta mas, paralelamente, levando noções ligadas às “artes maiores” para esta arte decorativa ligada à indústria. 32 Essa prática de ligar a beleza na arte aos objetos cotidianos pode ser observada na própria concepção de arte e ensino de Mlle.Milde, tendência ainda presente na Academia nos seus tempos de estudo e por ela adquirida. Existiam, ainda, na Bruxelas do século XIX, ateliês de pintura e escultura onde os artistas-professores da Academia ofereciam aulas complementares aos alunos da instituição. As mulheres, cujo acesso à Academia era vedado, podiam freqüentar esses cursos paralelos. Somente no ano de 1892 elas têm acesso ao ensino da Academia. Mas “os argumentos a favor da admissão ao curso de desenho industrial estavam cheios de preconceitos. O acesso seria subordinado a uma formação em artes industriais, toda a pretensão feminina se resumiria ao desenho aplicado ao bordado e à tapeçaria, ou com uma vocação de colorido.” 33 Havia um choque entre diretores da Academia sobre a presença de mulheres na instituição: um dos diretores, Portaels, vê reflexos na produção dos alunos homens, pois “a presença das jovens, sem inconveniente nos cursos inferior e médio, exerce uma influência deplorável nos cursos [cursos superiores]” 34 . Mas havia os defensores da presença feminina, como Van Der Stappen (escultor e diretor da escola de 189831 LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. 1987. 32 Ibidem. 33 Ibidem. p. 23 e 35. 34 Ibidem. p. 35. 20 1901 e de 1907 a 1910), que exaltava o sucesso alcançado pelas mulheres nos concursos promovidos pela Escola. A conclusão a que se pode chegar com tais dados é a de que já existia na Academia, no momento de ingresso de Jeanne Milde, uma certa abertura ao ensino das artes às mulheres. Victor Horta, o conhecido artista do Art Nouveau belga, formulou, em 1914, um projeto de reestruturação do ensino da Academia, aprovado pela cidade de Bruxelas, mas que não foi posto em prática. Horta propunha uma aprendizagem progressiva dos alunos que passariam do ensino das artes decorativas ligadas à indústria para um ensino realizado na Real Academia. Prevaleceu, entretanto, o sistema anterior de ateliês livres proposto por Hermman Richir, que achava necessário existir uma divisão efetiva entre a Real Academia e a Escola de Artes Decorativas: o ensino das duas era diferenciado e não progressivo como o proposto por Victor Horta. Apesar do projeto de Horta ter sido aprovado pelo Conselho Comunal de Bruxelas em 1914, ele não foi efetivado em razão do início da 1ª Guerra Mundial. Em 1918, com o fim da Guerra, os ventos sopravam a favor de Richir. Foi o sistema de ateliês livres que prevaleceu no momento em que Mlle. Milde estava realizando seus estudos na Real Academia. O ensino de escultura na Real Academia merece um destaque especial, uma vez que foi a arte em que Mlle. Milde viria a se especializar. De 1711 a 1835 esse ensino foi relegado a segundo plano. O artista Gilles Lamberd Godecharle (17501835), que assumira a cadeira de escultura em 1814, já com a idade avançada, não tinha muitas condições físicas para exercer a função, o que acarretou pouco desenvolvimento no ensino da disciplina. Aposentado em 1831, somente em 1835 um novo professor será contratado para assumir a cadeira. Em meados do século XIX, o ensino de escultura foi reformulado pelo professor Louis Jehonte, que assumira a cadeira em 1835, nela permanecendo até 1863. A transformação por ele empreendida durou até o princípio do século XX. Seu ensino baseava-se em uma aprendizagem progressiva por parte do aluno: primeiramente, ele deveria exercitar sua capacidade de desenhar; em seguida, ele deveria modelar esculturas copiando estátuas antigas; finalmente, ele passava a trabalhar com modelos naturais e com motivos históricos (durante o século XIX os trabalhos de escultura se prenderam sobretudo ao neoclassicismo e ao emprego de motivos históricos). 21 Além do enfoque neoclássico, o ensino da Academia sofreu influência de outros movimentos artísticos europeus como o romantismo, o realismo e o naturalismo. Foi o caso do professor Eugène Simonis, titular da cadeira de escultura de 1862 a 1882 que, inicialmente, valorizou o ensino das regras neoclássicas, adotando posteriorme nte as tendências do romantismo. Em fins do século XIX, a Real Academia de Belas Artes de Bruxelas já se destaca no plano da escultura como principal centro formador de escultores da Bélgica: dos 17 escultores belgas selecionados na Exposição de Paris em 1900, 15 haviam saído da Real Academia. Havia também concursos na Academia, dos quais os alunos poderiam participar. Aqueles classificados em uma primeira fase eliminatória, concorriam aos prêmios concedidos em uma segunda etapa. Vários foram os prêmios obtidos por Jeanne Milde como aluna da Real Academia: primeiros lugares nas cadeiras de Pratique et mise au point – 1er année (1919-1920); Modelage torse antique soir (19201921); Modelage figure antique soir (1921-1922); Modelage nature jour (1921-1922); Modelage composition déco (1923-1924); Modelage composition (1924-1925); Pratique et mise au point – 3ème année (1924-1925); Grand Concours Sculpture (19241925).35 Mas vai ser em princípios do século XX que os futuros mestres de Mlle. Milde vão assumir as cadeiras de escultura: Victor Rousseau (1901-1935) e Paul Dubois (1901-1929). Com a morte de Van der Stappen, em 1911, uma nova equipe se constituiu em torno de Rousseau. Dela faziam parte Isidore De Rudder (cours de sculpture d’après l’antique en arts décoratifs – cours de jour, de 1911 a 1926) e Arsène Matton (cours de sculpture d’après l’antique – cours de soir, de 1911 a 1937). Jacques Marin ingressou como professor na Academia em 1919, como professor da cadeira de pratique et mise au point. Posteriormente, em 1935, ele assumirá a cadeira de sculpture d’après nature. Mestres Dentre os mestres de Jeanne Milde, os nomes da Real Academia que aparecem são os de De Rudder, Matton, Dubois, Rousseau e Marin36 , professores da instituição 35 36 Ver anexo I. JOURNAL D’ANVERS, Anvers, 19 agosto 1927. 22 nos anos 10 e 20 do século XX. Ao se traçar uma breve biografia de cada um deles, pretende-se entender o lugar de seus mestres na Academia e no meio artístico belga, com vista à compreensão da influência que exerceram na formação de Jeanne Milde e em sua concepção estética. O primeiro artista a ser considerado é Victor Rousseau (Feluy, 1865 – Bruxelas, 1954). Aluno matriculado na Academia em 1879 no curso de desenho de ornamento, aparece em 1880 cursando escultura ornamental na Escola de Desenho de Saint-Josse-ten-Noode com Georges Houtstont, ornamentista, em cujo ateliê permanece até 1890. Em 1886 retorna à Real Academia para cursar desenho de ornamento e em 1887 começa a praticar escultura. Nos anos de 1888-1889, seguiu os cursos de Van der Stappen, ganhando o prêmio Godecharle em 1890 e o Grande Prêmio de Escultura de Roma em 1911. Com esse prêmio realizou viagens à Inglaterra, França e Itália, retornando à Bélgica em 1894. Sua obra é reconhecida como idealista e é desta maneira que se refere aos diversos movimentos artísticos: “Eu faço hoje a arte livre de toda idéias pré-concebida. O classicismo e o romantismo não importam mais do que o realismo que opomos ao idealismo. São, do mesmo modo, movimentos diferentes do espírito que se referem à História da Arte e que ela faz estudar. Uma coisa me importa, é o espetáculo da vida, toda a vida, fisiológica, universal, que conduz às idéias gerais pelo estudo sincero da natureza.” 37 Nesse trecho fica clara a concepção aberta de arte que o artista possuía, sendo um adepto do simbolismo em suas obras, tanto que uma de suas obras denomina-se O Drama Humano. Rousseau foi diretor da Academia de 1919 a 1922, período em que Milde estava freqüentando esta instituição. Uma das vertentes a qual a obra de Milde encontra-se ligada é justamente a do simbolismo, o que a aproxima desse mestre da escultura belga. 38 Rousseau possuía uma concepção artística que frisava a liberdade artística dos indivíduos. Paul Dubois foi professor de escultura de ornamento na Academia a partir de 1901; assumiu, também na Academia, a cadeira de escultura antiga, curso diurno, em 1905 e em 1910 a de escultura natural na Escola de Artes Decorativas. Também possui 37 (M. des Ombieux, 1908, p.76) apud LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. p. 370. 38 Ver no capítulo 3, a parte referente às influências artísticas. 23 inúmeras obras em Bruxelas, como a fachada da Casa do Rei e o Monumento a Félix de Mérode. Outro artista a ter seu papel na formação de Mlle.Milde é Isidore De Rudder (Bruxelas, 1855 – 1943). No ano de 1880 ele entra na Real Academia de Bruxelas, passando por diversas cadeiras de desenho e ganhando o Prêmio da Academia da Bélgica em 1880. Realizou viagens pela Alemanha, Inglaterra e França. Foi professor de escultura antiga em artes decorativas de 1911 a 1926. Uma face importante desse artista é sua ligação com as artes aplicadas: realizou máscaras decorativas, luminárias, desenhos para bordados feitos por sua esposa. Encontram-se na Sala Etnográfica do Palácio de Tervueren, obras de sua autoria com os temas: Civilização e Barbárie, Família e Poligamia, Religião e Fetichismo, Liberdade e Escravidão. Outros títulos de obras: A Primavera e A Verdade. O gosto por viagens e o desejo de conhecer novos mundos já estava impregnado no espírito europeu há muito tempo. Desde o nascimento do mundo moderno, com o contato estabelecido entre os diversos continentes. Omesmo espírito permaneceu no romantismo, onde se busca o conhecimento de outras culturas, visando observar o que tem de exótico. Também a arte moderna voltou-se para motivos e formas artísticas distintas das européias com, por exemplo, como Paul Gauguin (fins do século XIX) e Picasso (século XX), este tendo se interessado por uma arte africana. Um dos professores de Mlle. Milde, Arsène Matton, ao assumir a cadeira de professor na Academia, empreende uma viagem ao Congo com um outro artista belga, o pintor Alfred Bastien. Essa viagem foi motivo de um debate interno na Academia. O referido professor, nomeado pelo Conselho Comunal por ter melhores relações políticas, em detrimento do nome de Charles Samuel, inicialmente o nome escolhido pelo Conselho Acadêmico, empreendeu a viagem após o início do ano letivo, quando já havia alunos matriculados em sua cadeira. Mas o que interessa neste ponto é o gosto pelo diferente, pelo exótico, a cultura de viagens que existia na própria Academia. E nesse aspecto, a vinda de Mlle. Milde para o Brasil possibilitava seu contato com uma outra cultura, um outro ambiente. Outro professor de Milde foi o escultor Jacques Marin (Bruxelas, 1877 – Nivelles,1950). Estudante da Academia de Belas Artes de Bruxelas, onde obteve diversos primeiros prêmios, Marin obteve o Prêmio Godecharle em 1897. Realizou inúmeros monumentos em Bruxelas como a escultura da escada da Rua Baron Horta ao longo do Palácio de Belas Artes da cidade. Foi admitido como professor de prática 24 e de mise aux points na Academia em 1919. Em 1935 substituiu Egide Rombaux como professor de escultura natural e foi diretor da Academia de setembro de 1941 a novembro de 1944, deixando-a em 1947. Uma das conclusões a que podemos chegar a respeito da vida acadêmica dos professores de Milde e da influência que os professores tiveram em seu trabalho é de que, pela forma como a artista estava com sua vida encaminhada em Bruxelas, existiam grandes possibilidades de ela vir a ser uma professora da Academia. Como quase todos os mestres dos quais ela disse ter tido influência, ela já possuía um ateliê na Academia onde fazia suas obras e havia sido muitíssimo prestigiada com primeiros prêmios. Difícil é estabelecer quais foram os professores de cada matéria: os dados disponíveis não mostram os nomes dos professores de cada uma das disciplinas. A vida profissional da artista na Bélgica No momento anterior à sua viagem para o Brasil, Jeanne Milde estava iniciando uma fecunda vida profissional em Bruxelas, com a realização de exposições em algumas cidades e uma intensa produção artística. Algumas reportagens e textos no Brasil mencionaram que a artista recebeu o Prêmio Godecharle em 1925, o que parece não ser verdadeiro. O Prêmio Godecharle, instituído em 1881 por Napoleón Godecharle, filho do escultor belga Gilles-Lambert Godecharle – professor da Real Academia em princípios do século XIX – destinava-se a oferecer bolsas de viagem para os jovens artistas, proporcionando- lhes a oportunidade de conhecer o mundo e de ter uma nova visão das diversas culturas. Essas viagens possibilitariam o contato com a obra dos grandes mestres da arte e, além disso, o contato com outras pessoas, com outras culturas. 39 No ano de 1925, de acordo com a revista La Revue Moderne 40 , a artista chega a concorrer ao Prêmio Godecharle, não sendo laureada. Entretanto, segundo livro comemorativo dos cem anos do Prêmio Godecharle 41 , houve um concurso em 1924, sendo o ganhador o escultor John Cluysenaar. 42 O prêmio coincidia com o Salão 39 Para maiores informações sobre o Prêmio Godecharle ver o texto LES CONCOURS GODECHARLE ONT CENT ANS 1881-1981. 1981. 40 LA REVUE MODERNE, Paris: 15 agosto 1926. 26º Ano, nº 15. 41 LES CONCOURS GODECHARLE ONT CENT ANS 1881-1981. 1981. 42 Conferir o texto de ÁVILA, Cristina. Mlle. Milde, A escultura do sensível. In: Jeanne Milde, Zina Aita 90 anos, 1991, no qual a pesquisadora diz a artista haver recebido o prêmio. Entende-se o erro: em catálogo de exposição da artista realizada em 1948 na Bélgica (reproduzido no Anexo VI) têm-se os 25 Trienal de Belas Artes de Bruxelas, sendo trienal até 1933. Em 1925 e 1926 não houve premiação, já que o prêmio fora concedido em 1924. Há, pois, uma contradição entre a revista La Revue Moderne e o livro comemorativo do centenário do Prêmio Godecharle. Em 30 de abril de 1927, foi aberta uma exposição da Sociedade Francesa de Belas Artes e Letras, com seções de escultura e pintura. De acordo com jornal da época, os expositores da seção de artistas escultores eram menos numerosos do que os pintores, mas a qualidade superior dos trabalhos compensava o pequeno número de obras apresentadas. Duas artistas foram dignas de interesse por demonstrarem grande esforço e perseverança: Jeanne Louise Milde e Paule Bisman. Segundo o crítico, cujo nome não consta no artigo, a única objeção às esculturas era o fato de serem muito acadêmicas, mas as obras Jeunesse au Printemps e La Rêveriere, de autoria de Jeanne Milde, eram dignas de atenção. 43 A artista já havia também participado do Salão da Sociedade Francesa de Belas Artes no ano de 1926. 44 Várias outras críticas elogiosas constam nos recortes trazidos pela artista ao Brasil: suas obras teriam o senso do movimento e atitudes graciosas. A relação entre Jeanne Milde e a crítica de jornal era boa, a exemplo da apreciação sobre a obra da artista no texto que se segue: “Mlle.Jeanne Milde, jovem escultora de Bruxelas, já mostrou em várias circunstâncias as mais apreciáveis qualidades. Sua técnica é refinada. Ela possui o senso da elegância na linha e da expressão viva no movimento. Sobretudo ela conhece e compreende a plástica do corpo humano e interpreta inteligentemente os sentimentos e os movimentos da alma através do modelo de uma figura.”45 Camille L., crítica belga do jornal de Anvers, é admiradora do trabalho da artista: seguintes dados: “Prix Godecharle en 1925. Prix de Rome en 1927.” Entretanto, não existe nenhuma referência em jornal da época ou algum documento comprovando o fato de a artista haver ganhado o referido prêmio. Existem textos falando deste prêmio, no complemento da ficha funcional da artista do Instituto de Educação consta este acontecimento da premiação, mas não existem outras comprovações e a data da premiação ora aparece como 1925, ora como 1926. Cf. também dados da ficha funcional da artista no Instituto de Educação, Anexo II. 43 JOURNAL DU LOUXEMBOURG, 1 junho 1927. 44 JOURNAL D’ANVERS, Anvers, 19 agosto 1927. 45 LA REVUE MODERNE, Paris: 15 agosto 1926. p. 22-23. 26 “A artista conhece seu trabalho e trabalha com uma coragem admirável da manhã até à noite, nada mais desejando do que fazer uma obra sã, bela e sólida. Ela aproveitou largamente as lições de desenho que recebeu de Mitre Mointald e honra, com sua técnica e sua habilidade manual, seus professores De Rudder, Matton, Dubois, Rousseau e Marin. Jeanne Milde conheceu seu primeiro sucesso em 1923 na Galeria Giroux. Em 1925 suas obras foram apreciadas na Sala Delgay e na Galeria de Arte em Bruxelas e ela participa em 1926 e 1927 do Salão da Sociedade Francesa de Belas Artes. Eu tive a oportunidade de ver várias vezes as obras da artista e nelas apreciei sobretudo o sentimento. Na obra “Tendresse”, que mostra uma mãe abraçando com amor seu bebê, eu descubro uma certa graça e uma emoção que atraem; na obra “Offrandre” talhada na pedra e bem estilizada, eu vejo poesia, nobreza, grandeza e admiro a alegria franca, o entusiasmo transbordante; a atitude cativante de “Rieuse”, um bronze de belo efeito. Jeanne Milde tem diante de si um caminho magnífico: ela o seguirá com a coragem que faz sua força, e com o talento que nada mais poderá fazer senão se afirmar e do qual ela já deu verdadeiras provas.” 46 Em 1927 realizou uma exposição na Nef, uma galeria em Bruxelas, com mais outros três artistas: a única mulher era a artista, fato destacado na reportagem que trata da exposição. 47 Neste mesmo ano, uma obra em especial foi digna de referência: uma placa em bronze com a figura do aviador norte-americano Charles Lindbergh de um lado, e seu avião do outro. Lindbergh foi o primeiro a realizar um vôo sem escalas de Nova Iorque a Paris no ano de 1927. Cópias da obra foram entregues ao embaixador americano em Bruxelas, à mãe do aviador e ao embaixador da Bélgica nos Estados Unidos. O aviador havia sido condecorado pelo governo belga por ocasião do seu feito. 48 A artista recebeu o Prêmio de Roma no ano de 1927, de acordo com uma breve biografia presente em seu arquivo e de acordo com relato da artista à Professora Ivone Luzia Vieira 49 . Ela teria recebido o prêmio, mas, por problemas de ordem política entre a Itália e a Bélgica, ela não teria viajado à Itália, e sim à França. 50 O Prêmio de 46 JOURNAL D’ANVERS, Anvers, 19 agosto 1927. ACTION NATIONALE, Bruxelas, 09 outubro 1927. 48 Notas sobre a obra realizada pela artista encontram-se nos jornais: L’ÉCHO DU SOIR, Anvers, 9 agosto 1927; AVENIR DU TOURNAISI, Tournais, 10 agosto 1927; COURRIER DE L’ESCAUT, Tournais, 10 agosto 1927; LA FLANDRE LIBERALE, 10 agosto 1927 e ETOILE BELGE, Bruxelas, 6 janeiro 1928. 49 Esta informação foi dada em conversas estabelecidas entre a autora desta dissertação e a Professora Ivone Luzia Vieira em 21/08/2001. 50 Ver anexo II, ano de 1927. 47 27 Roma, estabelecido em 1817, inicialmente era destinado ao melhor aluno da Academia de Anvers, mas, posteriormente, foi estendido a alunos das academias de toda a Bélgica. Este prêmio foi criado por Guilherme I de Orange observando o modelo francês: o aluno deveria gastar a maior parte do dinheiro adquirido com o prêmio, com viagens a países mediterrâneos para observar as obras de arte. 51 O Prêmio de Roma era dado a estudantes que haviam recentemente terminado seus estudos e havia uma prática da Real Academia, na qual os alunos mais talentosos permaneciam em ateliês na escola para se prepararem para os grandes concursos que tomavam corpo em Bruxelas. 52 E Mlle. Milde permaneceu na Academia com um ateliê após terminar seus estudos em 1925 onde pode praticar a sua escultura. O ano de 1928 foi de intensa atividade. Milde realizou uma exposição no Instituto da Rua Berlaimont, 34-36 onde sua obra foi interpretada como “próxima do real, com muito estilo e lirismo” pela crítica. 53 Participou do II Salão da Federação Nacional de Pintores e Escultores da Bélgica e freqüentou as reuniões da Seção Belga da Sociedade Francesa de Belas Artes, então com 1527 membros54 . A Federação Nacional de Pintores e Escultores da Bélgica foi alvo de críticas em jornais, especialmente devido a um Salão que organizou à margem de uma exposição organizada sob os auspícios do governo belga. A Federação, de acordo com o jornal Le Peuple¸ “partia em guerra contra a pintura moderna e contra o Estado Belga que, ao que parece a eles [aos membros da Federação], cerca a arte de avant -garde de um favoritismo descarado.”55 Nas duas reportagens que tratam negativamente do Salão realizado pela Federação, existentes no arquivo pessoal da artista, o nome de Milde aparece como uma das poucas exceções dentre a mediocridade das obras apresentadas. 56 Nesse ponto encontra-se um dos cernes da razão da existência desta dissertação: moderna em Belo Horizonte, Jeanne Milde, em Bruxelas, mesmo com sua 51 O fato da artista haver ou não recebido este Prêmio de Roma foi uma dúvida existente na escrita desta dissertação. Ao que tudo indica, a artista o recebeu no ano de 1927, de acordo com reportagem presente em jornal belga e de acordo com depoimento da artista. O teor da reportagem do jornal belga é o seguinte: “O verdadeiro sucesso artístico merece ser mostrado a todos àqueles que se ocupam da pintura e da escultura: o último prêmio de Roma para a escultura me dá o prazer de citar aqui o nome da jovem artista Jeanne Louise Milde.” JOUNAL D’ANVERS, 19 agosto 1927. 52 LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. 1987. P. 23. 53 LA LIBRE BELGIQUE, Bruxelas, 16 janeiro 1928 e LE NATIONAL BRUXELLOIS, Bruxelas, 16 janeiro 1928. 54 INDEPENDANCE BELGE, Bruxelas 31 janeiro 1928; L’ETOILLE BELGE, Bruxelas, 31 janeiro 1928; JOURNAL DE CHARLEROI, Charleroi, 1o fevereiro 1928. 55 LE PEUPLE, Bruxelas, 16maio 1928. 56 LE PEUPLE, Bruxelas, 16 maio 1928 e ETOILE BELGE, Bruxelas, 14 maio 1928. 28 obra sendo vista de modo positivo, ligava-se a um grupo que ia contra as vanguardas. Mais uma vez o moderno e o tradicional se fazem presente na vida de nossa personagem. Mas outras críticas foram favoráveis ao II Salão da Federação Nacional de Pintores e Escultores da Bélgica, principalmente ao compará- lo com o Salão realizado pela Federação no ano anterior, sendo o nome de Mlle. Milde sempre citado entre os artistas expositores. 57 Ao falar sobre o VIII Salão de L’Essaim, ocorrido em Mons, cidade belga, um crítico de arte do jornal Les Nouvelles, identificado como L. O., cita três artistas: Jules Bernaerts, Fernand Hecq e Mlle. Jeanne Milde. Sobre Milde, elogia o talento vigoroso da artista, dotada de grande inspiração e liberdade de elaboração, exprimindo com clareza os sentimentos através de suas esculturas, “ela faz viver esplendidamente o barro talhado por seus dedos e, apesar da feminilidade de sua pessoa, apesar da insuficiência de sua altura, ela se revela dotada de uma grandeza de expressão e de uma força artística pouco comuns.”58 Outro crítico, J. S., também refere-se à qualidade do trabalho de Jeanne Louise Milde no salão em questão: “movimento e graça, pureza de formas, elegância das atitudes e originalidade de apresentação.”59 As obras expostas pela artista eram Rêverie, Jeunesse, Timidités, La Jeune Faunesse, Tendresse, todas, de acordo com a crítica, muito expressivas. Além dessa participação ativa no meio artístico, Mlle. Milde também trabalhou em uma fábrica de manequins, ajudando a elaborar esses últimos pelo período de 5 anos. 60 Foi também convidada para desenhar modelos para algumas jóias. Os últimos anos de estada de Mlle. Milde na Bélgica, antes de sua vinda para o Brasil, sugerem que seu futuro em sua terra natal estava bem encaminhado: prêmio de viagem a Roma, críticas favoráveis nos jornais, ateliê na Real Academia de Bruxelas. Mas ela optaria por vir realizar um trabalho em outro país, onde então iria fixar residência, afastando-se de seu país de origem. A saída da Bélgica pode ter várias explicações. Que motivos a levaram a abandonar seu país e buscar uma outra realidade? Fugir do peso da família, da mãe que não queria uma filha artista; aventurar-se rumo ao desconhecido, ao exótico, na 57 NATIONAL BRUXELLES, Bruxelas, 18 maio 1928; LA LIBRE BELGIQUE, 18 maio 1928 e LIEGE-ECHO, Liege, 31maio 1928. 58 LES NOUVELLES, La Louvière, 25 abril 1928. 59 LA PROVINCE, Mons, 26 janeiro 1928. 60 Cf. anexo II. 29 esteira de outros artistas europeus que a precederam; levar um modo de fazer arte para uma realidade menos evoluída, voltando-se a um processo civilizador há muito iniciado pelos europeus... As conjecturas são muitas, mas é impossível encontrar o real motivo que moveu internamente a artista a tomar a decisão de se enveredar por novas paragens. 30 I.II – A Reforma de Ensino de Francisco Campos: a vinda de Jeanne Louise Milde para a capital. Mudanças na capital: A Reforma de Ensino e a Escola de Aperfeiçoamento 61 Quais seriam as condições que propiciaram a vinda de Mlle. Milde para a jovem capital mineira? Sem o ambiente favorável à sua vinda, o sujeito Jeanne Milde não teria possibilitada a sua ação como artista e professora em Belo Horizonte, embora tal contexto não nos possibilite saber a motivação pessoal de Jeanne Milde, o que a levou a atravessar o Atlântico e bater em terras mineiras. Nos anos vinte, houve um grande entusiasmo pela questão da educação e pelo potencial transformador do ensino na sociedade, surgindo o movimento chamado de Escola Nova, na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. A nova sociedade urbano industrial que emergia requeria mudanças no ensino nos seus mais diversos setores sociais: desde os empresários até os anarquistas, passando pelos operários, pela classe média emergente, e pelos próprios educadores sejam eles autoritários ou liberais. A Reforma de Ensino de Francisco Campos, no governo de Antônio Carlos, se insere neste panorama de mudança no ensino, sendo uma de suas medidas a fundação da Escola de Aperfeiçoamento onde Mlle. Milde vai trabalhar desde o início até o seu fechamento. Com o surgimento de novos grupos sociais no Brasil dos anos 20, e também de uma nova realidade social, econômica e política, a educação também iria se transformar. A reforma na educação, que ocorreria em Minas Gerais, almejava não a inserção de todos estes novos membros da sociedade igualitariamente dentro deste novo mundo, mas a inserção destes membros como parte integrante do todo orgânico da sociedade. Cada homem, como cada órgão, teria a sua função dentro do todo social. As idéias da Escola Nova, colocadas em prática na Reforma de Ensino, servem para corroborar o plano do Governo de Antônio Carlos e seus objetivos políticos. Mas 61 Os dados referentes à Reforma de Ensino de Francisco Campos foram em sua maioria retirados das dissertações: PRATES, Maria Helena Oliveira. A Introdução Oficial do Movimento de Escola Nova no Ensino Público de Minas Gerais. A Escola de Aperfeiçoamento. 1989. PEIXOTO, Ana Maria Casassanta. A Reforma de Ensino de Francisco Campos. 1981. 31 não podemos nos restringir ao uso político-institucional que se faz do ensino; o objetivo do presente trabalho é observar, microscopicamente, como Jeanne Milde agiu dentro desta realidade, com idéias próprias que serviram não somente para uso do referido governo, mas também para realizar um trabalho inovador no campo das artes aplicadas. O processo de mudança no ensino brasileiro a partir das idéias da Escola Nova, e a ênfase na educação não somente como um processo de ensino, mas também como um instrumento de participação social, ocorreu de maneira mais ou menos diferenciada em vários estados da Federação: no Ceará em 1923, na Bahia em 1925, em Minas Gerais em 1927, no Distrito Federal e em Pernambuco em 1928. Nos anos 20, a política do governo de Antônio Carlos pode ser compreendida como uma política modernizante-conservadora, como está na frase a ele atribuída: “Façamos a Revolução antes que o povo a faça”. A educação é o instrumento de maior relevância para se construir uma nova ordem social: é a partir da educação que vai se formar o cidadão para a nova sociedade, agora industrializada e urbana. As medidas tomadas durante aquele governo serão a Reforma do Ensino Primário e Normal e a criação da Escola de Aperfeiçoamento. Inserida na reforma do Ensino Primário e Normal, a Escola de Aperfeiçoamento tem um papel fundamental naquele momento: vai ser ela a responsável pela formação das professoras primárias, por sua vez, as responsáveis pela formação do novo cidadão para a nova sociedade brasileira (as professoras que se dirigiam à Escola de Aperfeiçoamento já haviam se formado na Escola Normal e já eram profissionais em suas cidades de origem). A expansão do processo de escolaridade, com os futuros cidadãos freqüentando a Escola Primária, aparece então como instrumento de participação política. Anamaria Casassanta PEIXOTO 62 relaciona a Reforma de Ensino de Francisco Campos, secretário do governo de Antônio Carlos, com a busca de controle pelo Estado das classes dominadas que passariam a ficar com a educação sob a tutela do Estado. O cidadão seria construído a partir do modelo almejado pela elite, controladora do Estado. O Estado Brasileiro passa de liberal a intervencionista, assumindo as rédeas da economia e participando cada vez mais na vida dos brasileiros. Mas a Reforma Educacional estudada passa por outro canal de atuação: não sendo 62 PEIXOTO, Ana Maria Casassanta. A Reforma de Ensino de Francisco Campos. 32 uma reforma somente político- institucional, preocupa-se, além disso, com o aspecto pedagógico do sistema escolar. Considerando-se que a educação reproduz a estrutura social e também coopera na sua construção, estabelecendo um movimento dialético no qual pode ter um papel fundamental na mudança social, nota-se que a reforma pregada por Francisco Campos “divulga ideologia da classe dominante aparentando defender uma visão de mundo universal, justa e neutra” 63 . Trabalha, pois, dentro de uma determinada ideologia, embora no discurso busque ser uma reforma racional e científica. A educação proposta pelo governo de Antônio Carlos se enquadrava na própria ideologia do governo. Carlos Drummond de Andrade nos dá a chave para essa compreensão da racionalidade vinda de cima ao escrever: “... Chamo seu Edgarzinho, / responsável pela Escola / Que ponha reparo – peço-lhe - / nas crianças do interior / que ficaram sem suas mestras. / Convém destituí-las logo / à tarefa habitual. / Ele responde: “São ordens / do Doutor Francisco Campos, / nosso ilustre Secretário / de Educação e Cultura. / Carece elevar o nível / do ensino por toda a parte. / Vá-se embora não insista / em perturbar nossos planos racionais.” 64 Os planos racionais do Secretário não se efetivaram de uma forma total, pois a sociedade não é assim tão previsível. Os profissionais chamados para trabalhar na Escola de Aperfeiçoamento, mesmo inseridos em um plano geral do governo, possuíam diversas possibilidades de atuação que escapariam ao controle do Estado. O decreto n º 8987, de 22 de fevereiro de 1929, criou formalmente a Escola de Aperfeiçoamento que, responsável pela formação do grupo de elite do ensino primário no Estado, instalou-se oficialmente em 14/03/1929. A Escola funcionou inicialmente na Av. Paraopeba – hoje Augusto de Lima – no prédio onde inicialmente iria ser a Escola Maternal – o que nunca ocorreu – e, posteriormente, foi remanejada para o prédio onde hoje funciona o Minas Centro, na mesma avenida. A Escola de Aperfeiçoamento tinha por objetivo proporcionar um ensino para professoras de 1ª a 4ª série primárias. Baseada nos princípios da chamada Escola Nova, vai estabelecer novos parâmetros educacionais para o ensino em Minas Gerais. A Escola Nova, além de propor uma maior promoção do ser humano individualmente a 63 64 Ibidem. ANDRADE, Carlos Drummond de. As moças da Escola de Aperfeiçoamento. Conferir anexo VIII. 33 partir de suas aptidões, preocupava-se também com o papel do indivíduo como membro integrante de uma determinada sociedade, com a sua formação como cidadão. Mas, apesar de ter um projeto visando a constituição de um cidadão específico para a nação brasileira, o governo de Antônio Carlos, com Francisco Campos à frente da Secretaria do Interior – então responsável pelo setor da educação no Estado –, vai procurar na Europa e nos Estados Unidos as novas metodologias e teorias de ensino para a Reforma Educacional. As realidades desses dois centros não são as mesmas, mas acabam por se encontrar na Escola de Aperfeiçoamento. Dos Estados Unidos vem a preocupação com a construção do futuro, uma preocupação maior com metodologias de ensino, visando a formação de uma sociedade, uma preocupação com o todo, com a integração do homem no corpo orgânico da sociedade. Isso se traduz na utilização do método global de alfabetização para as crianças. Já no modelo europeu, o mais importante era o estudo da psicologia, o estudo do presente baseado no indivíduo. O modelo dominante, na Escola de Aperfeiçoamento, será o americano, com a introdução de um grande número de cadeiras de metodologia. 65 Em 1927, cinco professoras são enviadas à Universidade de Columbia, em Nova York, para aprender novas técnicas relacionadas à educação: Inácia Ferreira Guimarães, professora da Escola Normal Modelo; Amélia de Castro Monteiro, vicediretora do Grupo Escolar Silviano Brandão; Alda Lodi, professora de classes anexas da Escola Normal Modelo; Benedita Valadares e Lúcia Schmidt Monteiro de Castro – mais tarde Lúcia Monteiro Casassanta – professoras do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Dessas, três voltam para serem professoras na Escola de Aperfeiçoamento: Amélia de Castro Monteiro, Benedita Valadares e Lúcia Schmidt Monteiro de Castro. Por outro lado, em 1928, Alberto Álvares é enviado à Europa para trazer para Minas pessoas de renome que promovam a renovação da área pedagógica do Estado. Essas pessoas vão integrar a chamada Missão Pedagógica Européia juntamente com Jeanne Milde 66 . Theodore Simon, médico francês, professor da Univesidade de Paris e diretor da Colônia de Alienados e Anormais de Perry-Vandeuse, auxiliar de Alfred Binet, criador dos primeiros testes de medida da inteligência humana, realizava suas pesquisas em psicologia a partir da observação e experimentação da criança. Esteve 65 66 Cf. PRATES, Maria Helena Oliveira. Op. cit. DIÁRIO DE MINAS, Belo Horizonte, 23 fevereiro 1929. 34 em Belo Horizonte de fevereiro a maio de 1929. Leon Walter, do Instituto Jean Jacques Rousseau de Genebra, trabalhava com Claparède, que estudava as necessidades e interesses da criança, considerando que a atividade infantil na aprendizagem deveria voltar-se para o lúdico, convertendo-se depois em trabalho. Ficou em Belo Horizonte no primeiro semestre de 1929. Mme. Artus Perrelet, também do Instituto Jean Jacques Rousseau, assumiu por dois anos a cadeira de desenho e trabalhos manuais e modelagem, que posteriormente seria assumida por Mlle. Milde. Prof. Omer Buyse, diretor do ensino técnico na Bélgica, dedicava-se ao ensino técnico-profissional e não ao magistério. Como pode se perceber, as pessoas que integraram a Missão Pedagógica Européia provinham de áreas variadas, mas tinham em comum a relação com o ensino. Helena Antipoff, assessora de Claparède no Instituto Jean Jacques Rousseau, chegou ao Brasil alguns meses depois. Substituiu o prof. Leon Walter, aprofundou-se na questão da psicologia infantil, tendo realizado cursos na Rússia e na Alemanha. Somente ela e Jeanne Milde vão permanecer no Brasil até o fim de suas vidas. O próprio Edouard Claperède veio ao Brasil em 1930, mas a Revolução de 30 o impediu de realizar o trabalho que iria aqui realizar. A maioria dessas pessoas viajou a bordo do vapor Alcântara, desembarcando primeiro no Rio de Janeiro, vindo, logo em seguida, para Belo Horizonte. Atravessaram o Atlântico e chegaram no Brasil em 22 de janeiro de 1929. A Reforma de Ensino teve grande repercussão, o que pode ser constatado em reportagem de jornal de 1935: “Moldada ao sabor das correntes victoriosas no campo da pedagogia contemporanea teve a reforma, não só sua concretização pelas medidas iniciaes de regulamentação e propaganda, como, também, seu início de realidade pratica, pela creação da Escola de Aperfeiçoamento, dirigida e leccionada por um grupo de professores mineiros, que o governo mandara estudar nos Estados Unidos e por outros contractados na Europa, duas das quaes, mme. Heléne Antipoff (psycologia) e Mlle. Jeanne Milde ainda se acham naquelle estabelecimento.”67 As normalistas, alunas da Escola de Aperfeiçoamento, faziam parte da elite do estado. Um dos únicos trabalhos permitidos à mulher, fora o doméstico, o de 67 O IMPARCIAL, Rio de Janeiro, 5 junho 1935 35 professora, também era a única maneira de as mulheres terem acesso ao estudo. 68 A reação da sociedade mineira à chegada das normalistas em Belo Horizonte não era das mais receptivas. As moças do interior chegavam à capital em busca de novas informações e se deparavam com uma realidade distinta daquela que conheciam em suas cidades de origem. Belo Horizonte assistia uma modificação no cenário urbano: europeus aportaram aqui para realizar um trabalho pioneiro em termos de ensino, professoras voltavam dos Estados Unidos com novas idéias e várias moças vinham do interior para a capital, para estudar na Escola de Aperfeiçoamento. Para se ter uma idéia da repercussão da instalação da Escola, basta observar o poema que Carlos Drummond escreveu, intitulado As moças da Escola de Aperfeiçoamento69 , no qual mostra a reação dos jovens da cidade – ele aí incluído – à invasão de Belo Horizonte pela moças que “vêm de Poços, de São João del Rei, Juiz de Fora, Lavras, Leopoldina, Itajubá, Montes Claros, cidades novas de minas...” O poema aponta o choque promovido na sociedade pela presença de moças que não se encontravam mais “fechadas” em suas casas, e que passavam a fazer parte do cotidiano da cidade, vindo aprender novidades pedagógicas e transformando o ritmo da cidade. Outro ponto a ser considerado na poesia é a modernidade que as moças trazem para a pacata Belo Horizonte: “... E são assim tão modernas / tão chegadas de Paris / par le dernier bateau /Ancorado na Avenida / Afonso Pena ou Bahia, / Que a gente não as distingue /das melindrosas cariocas / em férias mineiras?/ Que vêm fazer essas jovens?” 70 A presença dessas moças desnorteia o modo de pensar dos rapazes, pois será que elas “Vêm para perturbar / se possível mais ainda / a precária paz de espírito / dos estudantes vadios/ (eu, um deles) / que só querem declinar / os tempos irregulares/ de namorar e de amar? / Ai o mal que faz a Minas / a nós, pelo menos, frágeis, / irresponsáveis, dementes / cultivadores da aérea / flor feminina / fechada / em pétalas de reticência / a Escola novidadeira, / dita de aperfeiçoamento ”. 71 68 Dos cursos superiores na capital, somente o de farmácia era frequentado pelas mulheres. Ver anexo VIII. 70 Ver anexo VIII. 69 36 Além de mostrar todas as transformações que acarreta a presença das moças, Drummond também exagera, em outro trecho do poema, o teor da transformação que vem ocorrer em Belo Horizonte, escrevendo que as moças deveriam voltar às suas cidades de origem, para dar aulas às crianças. Existia um choque promovido pela presença destas moças, numa cidade que se pretendia moderna, mas que, ao mesmo tempo, estava ancorada em uma sociedade patriarcal que reservava à mulher o santo local do lar: “A gente não dava conta / de tanto impulso maluco / doridamente frustrado / ante a pétrea rigidez / dos domésticos presídios/ onde vivem clausuradas / as meninas de Belô...” 72 Outra obra que versa sobre a presença das moças em Belo Horizonte é de autoria de Moacyr de Andrade, que em seu livro República Decroly apresenta a vida destas moças na capital. Ao contrário de Drummond, que aponta a transformação causada pela da presença das garotas como parte da reação do ambiente conservador que imperava em Belo Horizonte na época, Moacyr Andrade vê a cidade como corruptora das pobres moças do interior que vinham para a capital. Trata-se de um livro irônico no qual o autor conta-nos a história de uma moça do interior de Minas Gerais, Zuleika, que vem para a capital estudar no Pedagogium (a Escola de Aperfeiçoamento). Zuleika vai morar na Republica Decroly (nome do pedagogo belga que influenciava a pedagogia adotada pela Escola) “O cometa dissera, no hotel, que algumas moças do Pedagogium viviam na capital sozinhas em República como rapazes, inteiramente à solta...” 73 Aqui fica claro a questão da liberdade permitida aos rapazes e o local reservado às mulheres: fora dos locais públicos e guardadas pela família. Moacyr Andrade denigre a imagem da Escola de Aperfeiçoamento, seja falando do pouco comprometimento das moças com o estudo 74 , seja insinuando a respeito dos altos salários pagos aos professores estrangeiros. 75 Mas o choque cultural vinha também das professoras que foram fazer cursos nos Estados Unidos, como relata Esther Assunção: “do grupo brasileiro que foi aos 71 Cf. anexo VIII. Cf. anexo VIII. 73 ANDRADE, Moacyr. República Decroly. p.117.Cf. anexo VII. 74 Ibidem. p. 132. “ ... com ela [a pobre Zuleika] apenas reduzido número de moças levava a sério o Pedagogium. Para as outras o Pedagogium era bem aquilo que o cometa palavroso e indiscreto dissera em Itacoatinga: - pretexto para as moças do interior virem namorar na capital.” 75 Ibidem. p. 43. “E assim se inaugurava o Pedagogium, com professores notáveis e conhecidos mas de preços desconhecidos para o povo que pagava.” (p. 43). 72 37 Estados Unidos, era comum ouvir-se dizer que elas vieram com liberdades exageradas.” 76 Não sem razão, Moacyr Andrade retrata a pouca atenção dada aos professores locais, que foram colocados à margem, com a modernização do ensino à européia e à americana. “O secretário Abdias, compreendendo que, apesar de seu surpreendente esforço, O Pedagogium, para viver, tinha que ambientar-se no regime nacional do ensino burocrático, do ensino – repartição pública, culpava do insucesso do plano governamental o Dr. Roberto Rodrigues que, nos primeiros tempos, com a confiança direta do Presidente, pondo e dispondo na organização do Pedagogium, contrariava o professorado brasileiro, humilhando-o mesmo, para só destacar o valor da ciência que ele contratara na Europa, a franco-ouro. Sem o estímulo necessário para tornar vitoriosa realização daquele vulto, que teria naturalmente de encontrar tropeços e enfrentar descontentamentos, porque destinada a refinar o magistério – o grupo seleto de professores brasileiros, designados para o Pedagogium, ficou à margem. Mestres que especialmente conheciam as questões do ensino e para os quais a bagagem dos professores estrangeiros não trazia grandes novidades, eles cumpriam, pontualmente, o seu dever, mas lhe faltava o prestígio indispensável para sua missão, pois só se reconhecia no Pedagogium um valor: - o dos mestres que o Dr. Roberto trouxera!” 77 Moacyr de Andrade mostra-se um crítico da pedagogia adotada pelo governo Antônio Carlos, ao mesmo tempo em que se coloca como um verdadeiro defensor da moralidade em Minas Gerais. Um artigo do Correio Mineiro de 27 de abril de 1929 teceu severos comentários sobre o ensino da Escola de Aperfeiçoamento. São criticados especialmente os professores Theodore Simon e Mme. Artus Perrelet pelo tratamento desrespeitoso que dispensavam às alunas e pelo fato de que confundiam “lamentavelmente o Brazil com a Zuzulandia e situam Minas um pouco abaixo do Congo.” Aqui fica explícita a desaprovação aos professores que traziam novas teorias (em moldes europeus) e que não se adequavam à realidade de Minas. Segundo o jornal, os referidos professores não consideravam irrelevante a cultura brasileira, mas 76 Depoimento de Esther Assunção a Maria Helena Oliveira Prates. Em PRATES, Maria Helena Oliveira, op. cit. 77 ANDRADE, Moacyr. República Decroly. p.133-134. Cf. anexo VII. 38 nos confundiam com os povos africanos e não percebiam no povo brasileiro a vontade de se ilustrar. O autor da matéria cobra do Secretário Francisco Campos uma investigação da Escola de Aperfeiçoamento, pois “... as professoras que aqui vieram ardentes no desejo de cultivar-se e apurar as suas qualidades magisteriaes, estão desiludidas e não escondem a sua amargura pelo que se passa naquelle estabelecimento, em relação aos massudos pedagogistas que nos espantam com a sua sabedoria, as suas barbas de annuncios de pilulas – e as suas roupas de apanhadores de pontas de cigarros.” 78 A Belo Horizonte que se pretendia moderna buscava sua modernidade fora das fronteiras do país, em novas experiências européias e norte-americanas. Entretanto, também temos de considerar que as metodologias e teorias provenientes de outros países acabaram por se transformar dentro de uma nova realidade: a do ensino em Minas Gerais. Essas teorias não eram idéias fora do lugar, pelo contrário, fazia sentido serem adotadas na realidade brasileira, principalmente se levarmos em consideração o programa de governo de Antônio Carlos. O trabalho de Jeanne Louise Milde serve para ilustrar esta mudança das teorias de outros países. Milde, ao tomar contato com outra realidade em Minas, tanto no ensino como em sua produção artística, vai provocar transformações em sua arte e na maneira de se ver a arte ao seu redor. A vinda de Jeanne Milde para Belo Horizonte Jeanne Louise Milde possuía um ateliê na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, quando Alberto Álvares chegou à cidade. Enviado pelo governo mineiro para trazer pessoas de renome para integrar a Missão Pedagógica Européia, acabou por entrar em contato com Milde para que esta atuasse na área artística. Alberto Álvares convidava as pessoas a virem integrar a Missão e conseqüentemente a fazerem parte da nova elite formadora do professorado. De acordo com reportagem sobre Milde em jornal de 1980, 78 CORREIO MINEIRO, 27 abril 1929. Pedagogia de Lampeão Belga. 39 “Dentre os elementos que deveriam participar com determinada especialização, faltava ainda um que lecionava arte, didática da arte, e aperfeiçoamento de desenho e artes aplicadas para as professorinhas do Instituto de Educação , ou melhor, para a Escola de Aperfeiçoamento. Alberto Álvares, encarregado deste recrutamento, dirigiu-se então à Escola de Belas Artes de Bruxelas, onde foi informado que um determinado elemento talvez se dispusesse a partir para o Brasil: apesar de uma ressalva colocada pelo diretor da Escola de Belas Artes de Bruxelas: ela era mulher. Mas mesmo sendo mulher Jeanne resolveu vir para o Brasil. “Sempre fui muito aventureira: não é que fosse uma aventura vir para o Brasil, a aventura consistia em largar a Bélgica.” E deixar o seu país era uma opção que lhe custava a própria fama.”79 No trecho anterior, observa-se que a própria imprensa (agora já nos anos 80 do século XX) mostrava o pioneirismo da ação de mulheres como Helena Antipoff e Jeanne Louise Milde: já famosas e com nome reconhecido na Europa, vêm para o Brasil com um projeto civilizador, de levar o seu saber para um local onde as pessoas não tinham acesso a uma educação e a uma cultura de alto nível como a européia, o que vai ao encontro da proposta governista de transformação do social pela educação. Outro ponto a ser considerado é a reação da imprensa belga à mudança da artista para terras brasileiras. Em reportagens de jornais da Bélgica, a vinda de Mlle. Milde é relatada como uma grande vantagem para ela. São curiosos os equívocos das reportagens a respeito do que a artista belga viria fazer em Belo Horizonte, desde dar aulas na Real Academia de Belo Horizonte – instituição inexistente – até exercer suas atividades artísticas em um ateliê para ela, montado pelo governo na cidade. 80 A artista só possuiria um ateliê graças à boa vo ntade do Sr. Arcângelo Maletta, dono do Grande Hotel, onde se hospedou Jeanne Milde. Ao que tudo indica, a artista Jeanne Milde veio para a capital de Minas para, juntamente com o Prof. Omer Buyse, criarem uma Universidade do Trabalho. Dentro desta Universidade, funcionaria uma Escola de Artes, e Mlle. Milde seria responsável pela direção dessa Escola. 79 PIGNATARO, Iolanda. Estado de Minas. Jeanne Louise Milde, Pioneira como Helena Antipoff.Belo Horizonte, 23 jan. 1980. 80 LA PROVINCE, Mons, Bélgica, 25 janeiro 1929. Além desta reportagem, outras com teor semelhante aparecem nos jornais: LA PROVINCE DE NAMUR, Namur, Bélgica, 15 fevereiro 1929 e L’EXPRESS, Liége, 15 fevereiro 1929. 40 I.III - Modos de ensinar. Qual vai ser o local de ensino da professora belga em Minas Gerais? Ela assumirá, na Escola de Aperfeiçoamento, duas cadeiras de desenho e modelagem, cada uma dessas cadeiras era dada em um dos dois anos de duração do curso ministrado na Escola para as professoras do Estado. Existiam as Escolas Normais de 1º e 2º graus e as cadeiras de trabalhos manuais e modelagem faziam parte do currículo do segundo ano dos dois graus e a de desenho dos dois primeiros anos dos cursos de 1º e 2º graus. 81 Com relação à aplicabilidade de teorias no ensino das artes, pode-se dizer que até o início do século XX, o modelo de ensino de educação artística era voltado para a aprendizagem de elementos decorativos já que se pretendia o preparo dos jovens para trabalhos manuais e para a arquitetura. A partir de 1927, o ensino de arte volta a ser objeto de discussões. Jeanne Milde aparece ligada a uma vertente da arte-educação que "defendia a idéia da arte como instrumento mobilizador da capacidade de criar ligando imaginação e inteligência."82 Os pressupostos teóricos para essa revalorização da arte sob um novo enfoque vai ser dado por John Dewey. Mme Artus Perrelet que também veio para Minas Gerais com a Missão Pedagógica Européia, escreveu o livro O desenho a serviço da educação, que contém uma visão de integração orgânica da experiência, de corpo e mente, experiência e raciocínio, gesto e visão, vida e símbolo, indivíduo e meio-ambiente, sujeito e objeto. Existiria um processo de sensibilização, reflexão e ação na elaboração do desenho. Mlle. Milde pensava tanto no aspecto da arte relacionando-a à sensibilidade, como no aspecto de aplicabilidade da arte no cotidiano das pessoas. Mlle. Milde era responsável pelo curso de desenho, trabalhos manuais e modelagem realizado na Escola de Aperfeiçoamento. Trabalhava com sua arte, aplicando-a à realidade de uma nova sociedade que se pretendia construir tendo como um dos pilares a educação. A cadeira de artes objetivava o aprimoramento do espírito e da criatividade, mas voltava-se para a prática escolar. De acordo com o programa da disciplina – montado pelo próprio professor – eram oferecidos às alunas: “técnica e 81 82 PRATES, Maria Helena Oliveira, op.cit. BARBOSA, Ana Mae. Arte-Educação, p.1084. 41 conhecimento prático dos trabalhos manuais, desenho, modelagem, encadernação, carpintaria...” 83 . Como relata a professora em entrevista: “Eu tinha um papel específico, de ordem mais material, que precisava ser combinado com o das outras professoras. Por exemplo, na aula de linguagem, cada aluna criava sua estorinha e eu ensinava como fazer os fantoches, máscaras etc, caracterizando-os de acordo com a literatura.” 84 A parte prática da aprendizagem artística era destacada, mesmo porque o objetivo da disciplina de modelagem não era formar grandes artistas e sim despertar a sensibilidade e valorizar a técnica das alunas para que estas transmitissem seu conhecimento às crianças e pudessem perceber e incentivar habilidades artísticas que, por ventura, aparecessem nas salas de aula: “O nosso curso não era de formar artistas, mas formar professores que cultivassem a arte, que viessem a ter ‘bom gosto’, que amassem a beleza. Se nem todos são capazes de produzir beleza, vamos formar os expressivos consumidores. A técnica se aprende, o belo se sente, se adivinha, se absorve. E nós alunas-professoras nos preparávamos para dar mais graça e beleza às nossas aulas, a abrir os olhos dos mais novos que nos esperavam, Platão teria dito: ‘a Arte deve ser a base natural e enaltecedora de toda forma de educação.” 85 Além de se enfocar os objetivos profissionais das técnicas aprendidas nas aulas, nas aulas de Mlle. Milde eram ensinadas as formas de se trabalhar a madeira, o ferro, o barro, as massas plásticas e os materiais compleme ntares, os fios, as fibras, o papel cartão, os arames. A artista também indicava a necessidade da prática para se realizar os trabalhos e se ensinar a fazê- los e a importância, a significação e a finalidade do programa dos trabalhos manuais nas duas primeiras séries. Na disciplina de Milde era dada importância fundamental ao desenho como linguagem no 83 Cf. Anexo III. PRATES, Maria Helena Oliveira. A Introdução Oficial do Movimento de Escola Nova no Ensino Público de Minas Gerais. P. 151. Em reportagem do DIÁRIO DE MINAS, 18 setembro 1949, mostrase também a importância do teatro de marionetes com “Inúmeras possibilidades abertas ao teatro de mascaras e marionetes, velhas tradições encontradiças em quase todos os países europeus e que só aos poucos alcança a devida atenção de nossos meios intelectuais, graças principalmente a esforços isolados que hoje temos o prazer de anotar.” 85 OLIVEIRA, Alaíde Lisboa de. Artista-professora. In: Jeanne Milde- Zina Aita, 90 anos. Catálogo de exposição. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha: 1990. 84 42 planejamento da ação, algo que se associa ao próprio ensino acadêmico da artista e à aprendizagem de uma técnica. A observação do todo era essencial, frisando-se a necessidade de compreender os “problemas relacionados com as outras matérias do curriculum ginasial e seu tratamento”.86 Além disso, era preciso observar os tipos e valores de matérias primas, assim como a procedência e uso prático de tais materiais. Valorizava-se, da mesma forma, a representação em alto relevo com modelagem de folhas e flores (dos quais temos exemplos da própria artista) e a reprodução de formas de gesso. Jeanne Milde introduziu na educação tanto uma forma de arte erudita, ao ensinar técnicas esculturais às alunas como, a partir da constatação da realidade do ensino nas Minas Gerais, uma arte mais aplicada; na qual trabalha com os elementos presentes no próprio solo mineiro. A ênfase dada à criatividade dos alunos permitia um ensino mais livre para as professoras que vinham ter aulas na capital do Estado. Além disso, Milde também dava aulas de História da Arte com slides trazidos da Europa: uma grande novidade em Belo Horizonte e que causou certo mal estar na capital por ela utilizar em suas aulas cópias de esculturas com modelos nus. Ao que tudo indica, era responsável por uma verdadeira oficina de criação na Escola de Aperfeiçoamento, mais tarde Instituto de Educação, “uma oficina de tudo: carpintaria, cerâmica, encadernação, trabalhos aos quais se acrescentaram recentemente preparativos para atividades dramáticas escolares – fabricação de máscaras, fantoches, marionetes, sombras, com a construção dos respectivos palcos e confecção de cenários.” 87 Dessa oficina, ao final de cada ano letivo, durante vários anos, saíam trabalhos para a realização de exposições com os trabalhos produzidos pelas alunas. 88 Esses trabalhos eram analisados pelos críticos, na imprensa, sempre sob a ótica de uma arte “genuinamente popular” e a exposição era cons iderada como um “autêntico mostruário folclórico” 89 . Tais apreciações poderiam nos levar a considerar as artes utilitárias como populares ou folclóricas. Essa, entretanto, não era proposta de Jeanne Milde – criada em um ambiente em que as artes eram aplicadas à indústria – e nem esse o teor das obras executadas pelas alunas. 86 Cf. anexo III. DIÁRIO CARIOCA, Rio de Janeiro, 25 setembro 1949. 88 ESTADO DE MINAS, Belo Horizonte, 20 novembro 1949; MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 20 novembro 1949; FOLHA DE MINAS, 20 novembro 1949. 89 FOLHA DE MINAS, Belo Horizonte, 26 novembro 1949. 87 43 A repercussão de suas aulas pode ser observada na recepção dessas por parte da imprensa, sempre bastante amável com a professora belga. Em reportagem do Estado de Minas sobre exposição da Escola Normal Modelo, as aulas de modelagem da professora são elogiadas: “Uma das secções mais interessantes, pelo inedito da orientação pedagogica, é, sem dúvida, a de modelagem. A esculptora européa Jeanne Louise Milde, contratada pelo governo para leccionar na Escola Normal, realizou com as alumnas do curso preparatorio numerosos trabalhos, salientando-se os baixo-relevos que conseguiram prender a atenção de todos os visitantes. Executados em classe, bem como fora do estabelecimento, essas delicadas modelagens são em grande número e mostram um acabamento que póde ser julgado com rigores de apreciação.” 90 Pode se perceber, pela utilização das palavras “inedito pela orientação pedagógica”, como a presença de Jeanne Louise Milde era marcada pela forma inovadora de dar aulas, trazendo o novo para a capital de Minas. Na mesma reportagem, observamos a importância dada ao desenho – também presente na Academia de Belas Artes de Bruxelas – nos trabalhos das alunas de Aníbal Mattos, sendo o desenho considerado pelo autor da reportagem como fundamental para o aprendizado das demais disciplinas, “fortalecendo a inteligência e dando uma compreensão mais nítida das coisas que nos cercam”. Milde também valorizava sobremaneira o desenho afirmando, certa feita, que “o menor dos croquis diz mais do que uma longa exposição.”91 Washington Albino comentou a exposição das alunas do curso de Artes Aplicadas, destacando a função sócio-econômica do referido curso que, ao incentivar a utilização de materiais regionais, contribui para o desenvolvimento econômico da região de Minas, vendo “nessa orientação segura que se dá à formação das professoras de artes aplicadas, que irão preparar a mentalidade das crianças mineiras, uma obra realmente 90 ESTADO DE MINAS, 2 de janeiro 1930. Outras reportagens tratam da importância do curso de modelagem: MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 10 abril 1930; MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 14 abril de 1930. Da exposições de trabalhos das alunas trata reportagem do ESTADO DE MINAS, 23 novembro 1934. 91 CORREIO MINEIRO, 25 novembro 1924. 44 patriótica e de profunda utilidade, tal seja a de incutir na criança maior amor pelas coisas que a rodeiam e que no caso são as nossas riquezas esquecidas ou abandonadas –bem como inspirar a esse senso artístico que tão bem ajuda a desenvolver a imaginação, o espírito de iniciativa e a própria alegria de viver em um meio abundante de recursos para a satisfação dos nossos sonhos e das nossas fantasias.” 92 Professora belga, sua obra era considerada patriótica e inédita, por utilizar materiais próprios do solo brasileiro na confecção de objetos, juntamente com suas alunas, na cadeira de artes aplicadas. Em texto publicado em periódico carioca, a professora é apontada como maior mestra em artes aplicadas no Brasil, utilizando-se de materiais próprios do solo mineiro: “Os trabalhos executados pelas alunas da professora Jeanne Milde, os materiaes neles empregados são a prova convincente do excelente trabalho da mestra belga que, a nosso ver, revelou um conhecimento do nosso meio geográfico-social de altas proporções. Assim, as trinta e três novas especializadas estão em condições de retirar de suas próprias regiões a matéria prima para o ensino dos trabalhos. Chego mesmo a acreditar que várias mestras da turma deste ano vão descobrir recursos regionais que lhe passaram desapercebidos até aqui. É pena que algumas não tenham compreendido o sentido altamente social e econômico do importante curso de Desenho e Artes Aplicadas. Contudo acordarão a tempo, não temos a menor dúvida.”93 Jeanne Milde incentivava a criatividade e inventividade das alunas ao mostrar a elas as formas de se produzir e de se aproveitar os materiais existentes ao redor: “A cabaça, de todos os tamanhos, transformava-se em porta jóia, bomboniére, farinheira, abajour, totalmente esculpida oupintada com desenhos de criação livre ou inspiração marajoara. Fazíamos abotoaduras, botões, broches, capas de álbum de madeira ou de couro; móveis de troncos e até cabos de vassoura e também estantes e suportes, os mais diversos. Aprendia-se a encadernar “para não perder os livros velhos” que recebiam capas artísticas, com relevos aplicados, desenhos e títulos dourados. Modelávamos, esculpíamos, 92 Citação de texto datilografado presente em pasta do acervo particular da artista doado ao Museu Mineiro, assinado por Washington Albino. 93 SANTOS, Carlos Porfírio dos. Educação e Ensino. A professora Milde e as novas mestras de Desenho e Artes Aplicadas. O Diário. Rio de Janeiro, 19 dezembro 1948. 45 desenhávamos, discutíamos os problemas individuais do exercício do magistério.” 94 Dentro da lógica do ensino de Jeanne Milde, o principal seria aprender a arte a partir do cotidiano, e é a importância dada à realidade do solo mineiro que está o tempo todo presente em seu trabalho: “A reciclagem desses materiais despertava nossa curiosidade e induzia para outros aproveitamentos, com a função didática de facilitar o trabalho das professoras das escolas de menores recursos e as do interior, onde é grande a diversidade de matéria prima regional. Tudo era reaproveitado e reinventado. E tudo isto, muito antes dos “inventores geniais”, os atuais vanguardistas, que fazem as mesmas coisas, (mais de cinquenta anos depois) sob os títulos de “objetos”, “conceituais”, “instalações”, etc. Faltava àquele tempo, o recurso da comunicação ampla de que nos valemos hoje, tais como os espaços dos jornais, revistas e a televisão, mais abertos para a difusão da cultura e da educação.” 95 Em 1931, em um evento intitulado Semana da Educação e que contou com três conferências, uma de Mlle. Milde, outra de Amélia da Matta Machado e a última do Dr. Aureliano Tavares Bastos, a professora belga mostrou uma das diretrizes básicas do seu pensamento em relação à utilização da arte: “Aproveitar sempre os modelos naturaes na confecção de objetos de utilidade pratica.”96 Aqui vemos mais uma vez a marca da formação da artista em sua fala e em sua prática cotidiana: a observação da realidade a ser retratada é fundamental para a confecção das obras. A diferença entre o ensino ministrado aos adultos (realizado por Milde) e o ensino ministrado às crianças (realizado pelas alunas de Milde) é observada pela professora que vê na criança uma espontaneidade e uma capacidade de lidar naturalmente com a argila muito maiores do que nos adultos. Interessante percebermos como se dava o ensino da artista na Escola de Aperfeiçoamento: ensinar às professoras modos de produção manual para facilitar seus trabalhos ao ministrar as diversas disciplinas, utilizando-se de recursos aprendidos nas aulas de trabalhos manuais e, ao mesmo tempo, ensinar a maneira como as artes deveriam ser ensinadas às crianças. 94 TRISTÃO, Mari’Stella. Jeanne Milde. In: Jeanne Milde- Zina Aita, 90 anos. Catálogo de exposição. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha: 1990. 95 TRISTÃO, Mari’Stella. Jeanne Milde. In: Jeanne Milde- Zina Aita, 90 anos. Catálogo de exposição. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha: 1990. 96 MINAS GERAES, Belo Horizonte, 24 maio 1931. 46 A primeira vez que retornou à Bélgica foi em 1933, quando deu uma entrevista ao jornal Le Soir, em que falou sobre o seu trabalho no Brasil, assim como da forma como os brasileiros recebiam os belgas. Sobre suas aulas, contou que eram dadas em uma escola primária para “[...] jovens homens e mulheres de 20 a 25 anos, escolhidos pelo governo entre os que pareciam apresentar o máximo de aptidões. Depois, meu auditório não parou de crescer e conta atualmente com 200 alunos. Por outro lado, minha escola, onde estou sendo agora auxiliada por quatro auxiliares que formei se transformou em uma verdadeira pequena indústria que produz por seus próprios meios e vende para aumentar seus recursos. Meus alunos são iniciados em todos os tipos de trabalho manual, ao desenho para “ouvrages de dames”, à modelagem à escultura em madeira, à feitura de móveis...” 97 De acordo com a artista, para fazer esses móveis, ela realizou um estágio prático com um grande marceneiro do Rio. Continuando com suas declarações sobre o ensino, comenta que seus alunos encontravam empregos na indústria de algodão (de tecidos), onde trabalhavam com desenho, e “ilustrando manuais escolares”. Na entrevista, Mlle Milde mostrou interesse em aumentar seus conhecimentos sobre cerâmica na Bélgica para utilizá- los posteriormente no Brasil. Ela empreendeu viagens ao Rio de Janeiro, a passeio, mas que serviam também para tomar conhecimento do que acontecia no ensino de modelagem e desenho no Brasil. 98 Dos trabalhos ensinados por Jeanne Milde, podemos observar modelagens em argila, talha em madeira, trabalhos de bordado e, de acordo com notícia da imprensa sobre exposição com os trabalhos das alunas, “alli se encontram, feitos em madeira, argilla, cartolina e panno, todos os objetos geralmente existentes em uma casa.” Frisa-se mais uma vez o caráter utilitário da arte de Jeanne Louise Milde e o objetivo maior da disciplina de desenho, trabalhos manuais e modelagem: a melhoria do ensino a partir da utilização da arte no próprio dia a dia das pessoas. No ano de 1932, Mlle. Milde teve uma pequena enfermidade que a impossibilitou de dar aulas até o mês de abril. Observando as cartas escritas para os amigos e representantes do governo, percebemos a vontade da professora em voltar às atividades. Com licença médica até o dia 20 de maio do ano de 1932, resolve, devido 97 98 LE SOIR, Bruxelas, 13 janeiro 1933. O JORNAL, Rio de Janeiro , 25 julho 1931 e O JORNAL, Rio de Janeiro, 29 julho 1931. 47 ao restabelecimento, voltar a dar aulas já no dia 09 de maio do mesmo ano. Durante o período em que esteve convalescendo, ficou em Sabará, na casa do diretor da usina siderúrgica Belgo-Mineira. O trabalho de Milde foi reconhecido por suas alunas que a homenagearam diversas vezes por ocasião da formatura das turmas do curso de aperfeiçoamento: como paraninfa no ano de 1934 e no ano de 1952 (já no curso de Administração Escolar do Instituto de Educação). Depoimento que demonstra como a artista realizava o ato de ensinar nos é fornecido com grande sensibilidade pela escritora Alaíde Lisboa: “Apelava sempre para a criatividade ao determinar tarefas: ‘Façam uma figura humana, como cada uma desejar, em pé, sentada, andando, sonhando...’ Na hora de julgar, a mestra apresentava o conjunto e cada pormenor: vulgar, inexpressivo, reproduzido, original, criativo... Adivinhava as intenções artísticas, os prenúncios de inspiração, as facetas de inovação.”99 Milde era bastante exige nte em suas aulas. Ela determinava que cada aluna fizesse dez croquis diários. O corpo discente da Escola de Aperfeiçoamento era constituído de mulheres, já que o ensino primário, como ainda hoje, era função feminina. Como professora de modelagem, Jeanne Milde exercia um fazer considerado feminino, a educação básica, uma das únicas ocupações destinadas às mulheres. Ainda assim, Milde não deixou de ter problemas em alguns momentos com o moralismo da cidade, como no caso que relatou Maria Helena Oliveira Prates: “Da entrevista com Mlle Milde, pode-se destacar uma ocasião em que o controle moral-religioso que se exercia através de pequenos atos é claramente detectado. Relata ela que, uma vez, ouvindo voz de homem na sua sala de aula, voltou-se e lá estava o diretor assistindo à aula. Isso por causa de slides que ela usava para ilustrar as aulas – slides de arte grega, arte clássica, nus. Por isso suas aulas foram “denunciadas”, ao que ele viera, de súbito, para ver o que acontecia.” 100 99 OLIVEIRA, Alaíde Lisboa de. Artista-professora. In: Jeanne Milde- Zina Aita, 90 anos. Catálogo de exposição. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha: 1990. 100 PRATES, Maria Helena Oliveira, op.cit. p. 132. 48 Observa-se, na forma como seu ensino era visto pelas alunas, o aspecto civilizador da atividade profissional de Mlle. Milde: “mademoiselle Milde deu valiosa contribuição nesses cursos para professoras rurais, alargando-lhes o horizonte estreito do meio em que viviam.”101 A efetivação de Milde no cargo de professora da cadeira de desenho, trabalhos manuais e modelagem do curso de Administração Escolar do Instituto de Educação de Minas Gerais ocorre em 5 de julho de 1952, por ato do Governador Juscelino Kubitschek. 102 A artista se aposenta como professora da cadeira no Instituto de Educação no ano de 1955, de acordo com ato publicado no Minas Gerais. 103 Nada melhor do que as palavras da própria artista e educadora para mostrar o que significava o ensino para ela: “O importante na escola nova é ensinar a criança a aprender, isto é, dar-lhe o caminho da experiência. A criança deve ser estimulada a pesquisar de acordo com as suas possibilidades. Além disso, deve ser preparada, psicologicamente, para as lutas da vida, adquirindo, na escola, noções de sociabilidade, num ambiente de amizade e cooperação com os outros coleguinhas. Enfim – continuou nossa entrevistada – o importante é orientar as crianças e não apenas repetir-lhes as lições.” 104 Mas o ensino da artista não se restringiu à Escola de Aperfeiçoamento, ela lecionou em outros lugares como a Escola de Polícia Rafael Magalhães, Fazenda do Rosário e realizou trabalhos em hospitais. Jornal da época nos fala sobre a contratação para a Escola de Polícia Rafael Magalhães: “Por ato de ontem, o chefe de Polícia Sr. Campos Cristo, contratou a srta. Jeanne Milde para professora da Escola de Polícia “Rafael Magalhães” onde lecionará aula de desenho e levantamento topográfico.”105 A professora trabalhou naquela Escola por breve período, tendo sido a sua contratação alvo de críticas: “[...] E a escultora Jeanne Milde foi contratada para a Escola de Polícia, sendo este um ato 101 MOURA, Elza de. Encontros com Jeanne Milde. In: Jeanne Milde- Zina Aita, 90 anos. Catálogo de exposição. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha: 1990. 102 MINAS GERAIS, 5 julho 1952 e carta do governador parabenizando-a pela efetivação. 103 MINAS GERAIS, 30 abril 1955. 104 DIÁRIO DE MINAS, 18 maio 1956. 105 ESTADO DE MINAS, 13 julho 1949. 49 do sr. Campos Christo. Um acordo municipal-estadual no capítulo de nomeações exquisitas.”106 Mas é a própria Jeanne Milde que nos fa la sobre o seu trabalho na Escola de Polícia Rafael Magalhães com o Dr. Campos Christo, onde exerceu o cargo de preparadora da cadeira de investigações, realizando levantamentos topográficos (maquetes), modelagens de peças e desenhos, para representação de local de crimes. Tratava, pois, de alguns aspectos de criminologia, para ajudar advogados, criminalistas, médicos legistas, etc. Abaixo encontram-se trechos de entrevista da artista, nos contando sobre o seu trabalho como contratada da Escola de Polícia, que consistia “[...] em facilitar os estudos de tipos humanos, suas tendências, anormalidades, através da modelagem das características descritas nos livros médicos que os professores me apresentavam. Por meio dessas modelagens em gesso os alunos podiam assimilar as explicações dos professores da Escola de Polícia.” 107 Assim, buscava-se um estudo de tipos físicos mais comuns que poderiam se ligar a tendências criminosas, no melhor estilo de Lombroso do século XIX. A artista desenvolveu também um trabalho humanitário em hospitais, junto a médicos e enfermeiras, utilizando-se do teatro de bonecos: “[...] No Hospital de Neuro-Psiquiatria Infantil trabalhei com médicos e professores especializados para orientar a necessidade de realizar teatrinhos de fantoches e marionetes, material manual de toda espécie, desenho, modelagem para descobrir tendências e vocações, desenvolver certas atitudes que a criança tem e descobrir as origens dessas mesmas atitudes. Nesse Hospital trabalhei durante três anos consecutivos.”108 Nos recortes de jornais presentes no arquivo particular de Jeanne Milde, observa-se que ela se interessava, de uma maneira considerável, pelo teatro de bonecos, recurso metodológico fundamental na formação de professores de crianças. 106 SILVA, Jair. Oropa, França e Bahia. Estado de Minas. 17 julho 1949. VEADO, Lúcia. A mulher de nossos dias. Estado de Minas. Feminino. 17 abril 1960, p. 06. 108 VEADO, Lúcia. A mulher de nossos dias. Estado de Minas. Feminino. 17 abril 1960, p. 06. 107 50 Dedicava-se, pois, ao ensino da confecção de títeres e de cenários para o teatro de bonecos. Mlle. Milde trabalhou também na Fazenda do Rosário, coordenada por Helena Antipoff: “[...] alcancei pequena vitória através de minhas alunas que comigo trabalharam na Fazenda do Rosário (onde lecionei durante 3 anos) e que aplicaram os meus métodos em outras escolas, no Instituto Patallozi e em algumas escolas do interior. Quanto ao apoio e compreensão do governo, em parte foi bastante apreciado o meu trabalho, mas faltou que me entregasse professoras que desejassem realmente especializar-se, gente de preparo maior e cultura que se apaixonasse pela cousa com idealismo e tenacidade, a fim de possibilitar um estudo mais sério e mais profundo, uma verdadeira pesquisa científica. Lamento apenas que muita coisa útil poderia ter sido realizada com proveito... e não foi.” 109 Percebe-se, nessa fala, uma certa decepção em relação ao trabalho que realizara no Brasil. Essa decepção devia-se muito mais ao material humano despreparado que existia no Brasil do que à constatação de um choque entre culturas distintas: a sua, belga e européia, e a das professoras. A presença de Jeanne Louise Milde na cidade de Belo Horizonte se faz notar em outros espaços como a Association Litéraire Française de que foi escolhida diretora no dia 13 de outubro de 1932. Múltipla e sempre a procura novos caminhos para a aplicação da sua arte, ancorada em um saber adquirido na Europa: assim é Jeanne Louise Milde. 109 VEADO, Lúcia. A mulher de nossos dias. Estado de Minas. Feminino. 17 abril 1960, p. 06. 51 II – HORIZONTES ARTÍSTICOS: JEANNE MILDE E AS ARTES PLÁSTICAS NA CAPITAL DE MINAS “História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.”110 Chegando a Belo Horizonte com uma função que não era a de fazer escultura, mas a de dar aulas, Jeanne Milde não teve nem mesmo um ateliê no qual pudesse realizar suas obras. A artista belga viera de um meio em que as artes plásticas, ainda que pouco praticadas pelas mulheres, tinham um determinado status que, em Belo Horizonte, então pequena capital de Minas, não possuíam. O que fazer em terras brasileiras? Levar a “civilização”, a “alta cultura”, para um povo que não valorizava a beleza das artes, ou melhor, a beleza da arte européia, clássica, erudita? Ou, além de levar um conhecimento próprio - que certamente ela, por pertencer àquela realidade, por haver estudado nela, havia adquirido -, aprender também com as pessoas do lado de baixo do Equador? Poucos artistas em Belo Horizonte acompanhavam o que ocorria nas artes no mundo e os que estavam cientes, na maioria das vezes, não valorizavam o novo, as vanguardas artísticas, como era o caso de Aníbal Mattos. Jeanne Milde também não estava diretamente ligada a nenhum movimento de vanguarda nas artes. A escultura já havia iniciado seu desenvolvimento rumo ao abstracionismo, como ocorrera com a pintura a partir da segunda metade do século XIX, ocupando-se de características que seriam intrínsecas à atividade escultórica: o volume, a relação com o espaço... A própria artista Jeanne Milde realizou algumas obras com fortes tendências à geometrização no início da década de 30, mas sem se ligar a movimentos de vanguarda. Pretende-se, neste capítulo, percorrer os passos de Milde na capital de Minas como artista plástica: espaços pelos quais andou, pessoas com as quais conviveu, tendo sempre como ponto de partida o fato de ela ser a primeira escultora, mulher, a se fixar na cidade. 110 COUTO, Mia. O apocalipse privado do tio Geguê. Cada homem é uma raça. Lisboa: Editorial Caminho, 1990. 52 II.I – O meio artístico belorizontino: mulher e artista Tendo militado sobretudo no campo da arte-educação, a artista também participou ativamente do meio artístico belorizontino. Atuando sempre nos salões promovidos na cidade (ainda que se considere esse meio artístico local incipiente), principalmente como jurada, Jeanne Louise Mild e teve uma presença ativa nas artes na Belo Horizonte das décadas de 30 e 40 do século XX. Foi uma pioneira, a primeira escultora com formação acadêmica a atuar na cidade. Antes dela, podemos falar de alguns poucos nomes que tinham formação formal. É o caso de Luís Olivieri e João Morandi que estudaram, respectivamente, na Escola de Belas Artes de Berna, Suíça e em Clermont-Ferrand, França e trabalharam na cidade como escultores no período de sua construção até décadas posteriores. Mas, além da escultura, ambos estiveram ligados à arquitetura, área de sua formação profissional. João Amadeu Mucchiut, austríaco que estudou na Escola Industrial do Estado, em Trieste, Itália e Carlo Bianchi também realizaram obras escultóricas na capital. Assim, a priori, podemos considerá- los como os únicos escultores a exercerem suas atividades artísticas na capital antes da chegada de Milde. 111 Com relação à atuação feminina nas artes em Belo Horizonte, duas outras artistas aparecem na cidade no momento da chegada da artista belga ou em momento imediatamente posterior: Aurélia Rubião e Maria Marschner. A primeira, pintora, havia estudado na Escola de Belas Artes de São Paulo, tendo nascido em Varginha, Minas Gerais em 1901. A outra, pintora e escultora, havia estudado arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, tendo nascido em Pirassununga, São Paulo, e começado a atuar em Belo Horizonte somente nos anos 30. Aurélia Rubião participou da 1ª Bienal de São Paulo já em 1951, e Maria Marschner fundou a FUMA (Fundação Mineira de Arte) em Belo Horizonte nos anos 50. Eram também mulheres e artistas, mas o nome mais importante entre elas era o de Mlle. Milde. 112 Jeanne Milde viveu no meio artístico e partilhou com seus demais integrantes certos códigos sociais e culturais. Sua história de vida nos fornece elementos para 111 RIBEIRO, Marília Andrés e SILVA, Fernando Pedro da (orgs). Um século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte. 1997. 112 Ibidem. p.465-466; 447. 53 refletir sobre o ingresso das mulheres no meio artístico. Será que a entrada de um novo agente, a mulher Jeanne Milde, ocasionou mudanças significativas naquele meio? Pierre BOURDIEU113 empreendeu um estudo sobre as mudanças ocorridas no meio artístico desde o Renascimento, que serve de base para uma reflexão sobre as transformações que tiveram lugar nesse ambiente. Segundo ele, com a separação entre a obra de arte e as suas funções mágicas e religiosas, ocorrida no Renascimento, surge uma categoria socialmente distinta de profissionais da produção artística que tem condições de libertar sua produção e seus produtos de outros campos da vida humana. No século XIX, o artista plástico vai, gradativamente, rompendo com a representação do real, o que ocasiona um direcionamento cada vez maior a um código próprio, intrínseco ao mercado artístico. A comunicação passa a se dar entre os pares aí inseridos. São os artistas, os críticos, os marchands e os colecionadores que passam a ter um controle quase exclusivo da arte produzida no meio. A ausência de domínio do código artístico por parte do público não especializado é antes causado pela falta de acesso ao capital cultural – conceito fundado por BOURDIEU – do que pela recusa consciente do código existente no meio artístico. São os agentes desse meio que vão estabelecendo as normas a seguir, os padrões a serem obedecidos, a partir de uma auto-referencialização em aspectos intrínsecos ao meio. Nesse sentido, os artistas plásticos constituem um grupo específico que se pauta por relações sociais de um meio em que há uma circularidade entre seus agentes internos: os artistas, os críticos, os colecionadores, os marchands e os historiadores da arte. A partir da análise empreendida por BOURDIEU, pode-se concluir que as mulheres virão a se inserir nesse meio a partir do momento em que tomam para si as diversas profissões aí existentes. Principalmente quando passam a partilhar do código específico existente nesse campo da vida e passam, também, a representar seus mundos a partir desse código. Além de recorrer à análise de BOURDIEU, pode-se enfocar a vida e a obra de Jeanne Milde a partir da lógica do suplemento estabelecida por Jacques Derrida. 114 Assim, em que medida a artista assumiria os códigos existentes no meio artístico, mas ao mesmo tempo os transformaria, sendo, como artista- mulher, simultaneamente, adição e substituição? Pela lógica do suplemento de Derrida o suplemento vem a ser 113 BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. O autor baseia-se em reflexões realizadas por Erwin Panofsky. 114 SCOTT, Joan. História das Mulheres, 1992. 54 uma indefinição, ele é tanto uma adição como uma substituição. As indefinições são "significados contraditórios que são impossíveis até de serem classificados separadamente."115 Com fundamento nessa teoria pode-se afirmar que as mulheres apareceriam como personagens que se inserem no meio artístico trazendo novos códigos, complementando e substituindo os códigos existentes anteriormente. As mulheres-artistas viriam aí se inserir de maneira a aceitar e/ou a colocar em xeque os modos de ver existentes. A interpretação da atuação de Jeanne Milde é feita justamente ao se pensar no limite dessa atuação no meio artístico em Belo Horizonte, nela como um agente adicionado a essa realidade e, ao mesmo tempo, um agente modificador desse quadro. Entretanto, Jeanne Louise Milde não realizou mudanças consideráveis no modo de se pensar a arte sob uma ótica que poderíamos chamar feminina: antes de mais nada, ela adotou o modo de ver existente no meio artístico como aluna da Academia de Belas Artes e como participante dos meios artísticos belga e belorizontino. Milde se insere, no meio artístico de Belo Horizonte, buscando conquistar um espaço maior para as artes plásticas na cidade. O trabalho como escultora estaria marcado pela quebra da tradição da dominação masculina dentro desse meio, pois raras foram as mulheres que se arriscaram nas artes da escultura até meados do século XX, presenças iniciais que acabaram por possibilitar a posterior entrada de mais mulheres nesse ambiente. A artista era uma exceção no mundo artístico, principalmente como mulher-escultora. É o que sugere o texto a seguir, no qual o autor mostra-se admirado como trabalho da artista: “os trabalhos em bronze da escultora Jeanne Milde denunciam sobretudo força de concepção. Por isso mesmo, admira-se que delicadas mãos femininas os tenham moldado. Não apenas pelo que representam em massa, na brutal matéria de pouca plasticidade e difícil de ser dominada. Ressaltamos principalmente o rigor de expressão que a artista emprestou às imagens.” 116 Para que seu trabalho fosse aceito, era necessário adotar o código existente no meio artístico e, para se impor como escultora, deveria ser capaz de realizar obras dentro dos pressupostos artísticos da época, assim como ocorrera na Real Academia de 115 116 SCOTT, Joan. História das Mulheres, p. 76. GRIFFA, agosto e setembro 1943. 55 Bruxelas 117 . Em entrevista dada ao jornalista Walter Sebastião no início do ano de 1997, a artista observa como foi difícil sua batalha para chegar a ser uma escultora e como, segundo ela, até aquele momento, não existiriam escultoras de peso: “Todos me criticavam, meus professores tinham muito interesse em saber por que eu me interessava por escultura. Eles diziam que eu era muito pequena para ser escultora e que devia me contentar em fazer bonecas de vitrina (a artista trabalhou em uma fábrica de manequins). Não respondi nada. Deixei eles falarem. A minha intenção era fazer coisas grandes e, graças a Deus, recebi o convite para vir a Minas Gerais, onde fiz peças bem grandes. E até hoje você não encontra mulheres fazendo esculturas, prossegue, ninguém acredita que a gente tem força e saúde para realizar escultura.” Entretanto, não podemos deixar de perceber a abertura existente no meio para as obras da artista, sempre observadas como obras de grande valor: “Jeanne Milde é sem dúvida, uma artista de talento. Os seus trabalhos, porém, se encontram camuflados nos corredores escuros do Grande Hotel, quando deviam estar expostos à claridade e aos olhos do público que os julgaria na sua natural e espontânea beleza. – SM.” 118 Essa abertura existente à sua produção artística no meio belorizontino relaciona-se, além do seu talento artístico, ao fato de ser uma européia, professora, com uma função bem definida e institucionalizada já no momento inicial de sua chegada ao Brasil. Ou seja, para além do fato de ser mulher, Jeanne Milde ocupava outras posições e representações no espaço da cidade que permitiam a ela ser figura de destaque nesse panorama. Jeanne Milde não atuou sozinha no campo das artes em Belo Horizonte. Teve como colegas de profissão diversas artistas plásticas ao longo do século XX. Com relação à participação feminina nas artes na cidade, podem-se delimitar quatro períodos de atuação das mulheres dos anos 20 aos anos 60. O primeiro momento corresponde à exposição realizada por Zina Aita em 1920. O segundo inicia-se com a atuação de Jeanne Milde. O terceiro caracteriza-se 117 118 Ver no primeiro capítulo a parte referente a Real Academia de Belas Artes de Bruxelas. GRIFFA, agosto e setembro 1943. 56 pela atuação das artistas da Escola Guignard e o quarto e último momento é marcado pelo embate, pela existência de uma luta política das mulheres nos anos sessenta, embate que se realizaria também no plano das artes plásticas. A atuação das mulheres de forma efetiva na capital mineira se inicia com a realização da exposição da pintora Zina Aita em 1920, primeira exposição de arte moderna na cidade. Transgressora das normas vigentes, pode-se perguntar até que ponto essa exposição influenciou as relações existentes entre os membros do meio artístico. Poderia essa exposição ser considerada como um marco dentro da história das mulheres artistas em Belo Horizonte, visto ser a primeira exposição de arte moderna e a primeira exposição de uma mulher? O evento abalou o meio artístico, mas a artista retornou à Itália, onde permaneceu até o fim da vida, não sendo uma presença constante no panorama artístico de Belo Horizonte no século XX. Zina Aita havia nascido em Belo Horizonte, tendo realizado seus estudos em artes na Itália, na Academia de Belas Artes de Florença. Além de ter realizado a exposição de arte em Belo Horizonte, ela participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Em jornal de 1920, o mesmo em que constam informações acerca da exposição da artista, nota-se o interesse em se mostrar o desenvolvimento dos modos de vida da mulher. Assim, após referir-se à nomeação da 1ª mulher para a magistratura pelo prefeito de Nova Iorque e ao ingresso, na Universidade de Londres, da 1ª mulher que deseja seguir a carreira jurídica, afirma o jornal: “Quer isso dizer que os progressos do feminismo se accentuam, dia a dia e que tempo virá, muito breve, em que as mulheres se equipararão, ainda nos paizes mais conservadores, ao sexo forte, cuja força ficará sendo apenas constituída pela sympatia com que vê e auxilia esse triumpho, que equivale à sua própria derrota.” 119 O poema Moças da Escola de Aperfeiçoamento, de Drummond, 120 revela uma Belo Horizonte marcada pela novidade, embora ancorada em um conservadorismo que fazia com que as moças da cidade ficassem restritas a suas casas. Daí a dúvida em relação à abertura para que as mulheres transitassem pelo espaço público da cidade como estudantes e profissionais. Belo Horizonte aparece como o espaço em que o 119 120 DIÁRIO DE MINAS, 17 janeiro 1920. p. 01. Cf. Anexo VIII. 57 tradicional e o moderno se encontram, em uma relação dialética de transformação e manutenção da ordem vigente. Um segundo momento inicia-se com a chegada da artista Jeanne Louise Milde, com a Missão Pedagógica Européia, no ano de 1929. Em entrevista concedida a Carlos Ávila em 1984, a artista fala do momento em que seu nome é indicado para integrar a Missão: “O Dr. Alberto Tavares consultou o secretário –geral da Escola de Belas Artes, pediu a ele que designasse uma pessoa, e então ele falou no meu nome. Ficou um pouquinho em dúvida por eu ser uma escultora. Na mulher as pessoas realmente não depositavam uma confiança no mesmo nível que poderiam ter em um rapaz. Mas eles falaram muito bem de mim e mostraram bastante a minha atividade e certamente eu não ia recusar. Eu era audaciosa mesmo...” 121 Assim, de uma maneira geral, sua aceitação como mulher-escultora no meio belga e também em Belo Horizonte, não se deu livre de preconceitos. No princípio do século XX a educação era uma das atividades atribuídas às mulheres, mas uma educação básica, sem altas incursões intelectuais. Mas, mesmo atuando como professora, Jeanne Milde vai se estabelecer como artista plástica na cidade, realizando obras para a empresa Belgo Mineira, bustos de personalidades mineiras e um painel para o hoje Instituto de Educação, além de várias outras obras livres, não encomendadas. Jeanne Milde "[...] tornou-se o elemento de maior significação no movimento modernista de Minas na década de 30, nas artes plásticas, enquanto artista e professora de artes, no sistema de ensino da capital.” 122 Após esse segundo momento, marcado pela figura central de Milde, as mulheres passam a assumir o fazer artístico como trabalho, mulheres que sobreviveriam de seu trabalho enquanto artistas não mais como educadoras. Formadas na escola de Guignard, muitas delas são hoje consideradas artistas de peso no cenário artístico brasileiro, como Maria Helena Andrés, Yara Tupinambá e Sara Ávila. 121 ÁVILA, Carlos. Nós vamos apresentar agora uma grande escultora: Jeanne Milde, uma belga muito mineira. Estado de Minas. Março 1984. 122 VIEIRA, Ivone Luzia. A presença da mulher no movimento modernista do início do século. Cadernos do núcleo de estudos e pesquisas sobre a mulher. Mulher e Arte. p. 79. 58 Entretanto, todas as três trabalharam como educadoras na área de artes plásticas, conciliando as duas atividades. Já o último momento, na década de 60, caracteriza-se por uma arte combativa, numa perspectiva feminista. A mulher exerce agora a arte como trabalho em um momento de luta no plano político marcado na efervescência dos anos sessenta. Uma rearticulação da sociedade estava ocorrendo com a entrada do movimento feminista no cenário político-cultural do país. Artes que buscassem novos valores e que, muitas vezes, enfocassem aspectos políticos fariam parte deste movimento de libertação da mulher, tendo como nomes importantes os de Maria do Carmo Secco, Lótus Lobo e Terezinha Soares. Jeanne Milde teve uma participação mais efetiva no cenário de Belo Horizonte durante as décadas de 30 e 40. Em fins dos anos 40, com a emergência da Escola Guignard, a artista começou a cair no ostracismo. Isso se deveu ao próprio desenvolvimento do meio artístico, pois a linguagem de Jeanne Milde, dentro da "evolução" da arte moderna, seria considerada uma linguagem ultrapassada por ser ainda figurativa e ligada a elementos simbolistas. Ao mesmo tempo, a artista se afasta do ensino, quando se aposenta em 1955. Sua figura volta a ser lembrada no início dos anos 80, com a realização de exposições sobre seu trabalho e com a pesquisa da professora Ivone Luzia Vieira sobre o Salão do Bar Brasil. É interessante a consciência que a artista tinha sobre sua posição dentro do panorama artístico. Ela dizia que sua escultura era moderna, mas que tinha uma base clássica. Assim, ela seria uma artista de formação acadêmica que rompeu com o academicismo em vários momentos de sua arte, que via o moderno como necessário e o fluir da arte como essencial. 59 II.II – Exposições, salões, convivência com artistas: artes e ofícios Desde o momento em que chegou a terras brasileiras, Milde estabeleceu contato com o meio artístico do país. No Rio de Janeiro, em 1930, participou de um salão, o Salão de Bellas Artes, no qual foi agraciada com uma medalha de ouro, “Bello Horizonte, 03 (do correspondente) – A diretora do curso de trabalhos manuais da Escola de Aperfeiçoamento, Mlle Jeanne Milde é uma ilustre escultora belga. Estudou na Academia de Bruxelas, obtendo os prêmios e distinções de Rudder, Malton, Dubois, Marin e Rousseau. Terminou seus estudos em 1925, ganhando o prêmio de viagem à Roma. Em 1929, veio para o Brasil, fazendo aqui o busto do embaixador da Bélgica em Washington, Maal, e a máscara do presidente Olegário Maciel. Concorreu a exposição de arte de 1930, alcançando medalha de ouro conforme noticiaram os jornais de 18 de agosto de 1930, inclusive O Globo. Todavia esse prêmio até hoje não lhe chegou às mãos. Por intermédio do Correio da Noite, Mlle Milde faz um apelo aos responsáveis pela execução das resoluções do júri, a fim de que lhe seja entregue a medalha.”123 Mlle. Milde não teve participação ativa nos meios de São Paulo e Rio de Janeiro pois, segundo ela, sua função de professora demandava muito tempo. Nos períodos do ano em que podia se afastar de Belo Horizonte, os artistas dos outros estados encontravam-se viajando. Já em Belo Horizonte, o meio artístico não seria dos melhores: “[...] na parte artística eu não encontrei nada naturalmente, não havia nada não é? Em Belo Horizonte os monumentos são, vamos dizer, zero. Só se pode encontrar obras maravilhosas do Aleijadinho em Sabará, em Ouro Preto, em Mariana, etc.” 124 Sua visão sobre o meio era pessimista e era necessário promover alguma ação para vitalizá-lo: 123 124 CORREIO DA NOITE, Rio de Janeiro, 5 agosto. 1936. ÁVILA, Carlos. Nós vamos apresentar agora uma grande escultora: Jeanne Milde, uma belga muito mineira. Estado de Minas, março 1984. 60 “Com relação ao meio artístico de Bello Horizonte, [...] sinto aqui falta de troca de idéias, de um ambiente propício à expansão da arte. Os artistas não se procuram. Não promovem reuniões e exposições que possam despertar nos filhos desta bella terra maior amor pelas coisas de arte.[...] Existem na capital – prossegue com vivacidade melle. Jeanne Louise Milde – alguns elementos de valor que poderiam se congregar em um movimento pró-arte tendo como finalidade, por exemplo, a creação de uma Escola de Bellas Artes e outra de Artes e Officios.” 125 A relação de Mlle. Milde com os demais artistas deu-se sem atritos. Assim que chegou à capital, ela se inseriu no meio expondo suas obras e julgando as obras de outros artistas. As exposições que realizou no meio artístico de Belo Horizonte foram sempre elogiadas pela crítica local, assim como por seus pares. Entretanto, a crítica possuía pouca fundamentação teórica, assim como pouco conhecimento sobre as artes plásticas em geral. A artista vinha respaldada por um projeto do governo do Estado, o que lhe fornecia um status privilegiado. Era, além disso, européia, criada em um ambiente de valorização das artes, que vinha ao Brasil para trazer um pouco da cultura e da arte de seu continente de origem. Sua boa aceitação como artista estava além da sua capacidade de produzir obras; encontrava-se na própria representação sóciocultural que possuía na cidade Aníbal Mattos dominava o cenário cultural e artístico da capital. Além de artista plástico era promotor cultural e também professor das futuras professoras formadas na Escola Normal da Capital. Em Belo Horizonte realizavam-se Exposições Gerais de Belas Artes desde 1918, fomentadas por ele, que foi também o fundador, em 1918, da Sociedade Mineira de Belas Artes. Milde vai participar da VII Exposição de Belas Artes de Minas Gerais, de acordo com reportagem da época, com “uma arte harmoniosa, de linhas elegantes e de profunda sensibilidade” 126 . Na seção de escultura havia, além das obras da artista, as do escultor Antonino Mattos. A artista participou também da VIII Exposição de Belas Artes de Minas Gerais ou VIII Salão de Belas Artes, organizado por Aníbal Mattos no ano de 1932. Em entrevista dada ao jornal Diário de Minas 127 , Aníbal Matos diz que “[...] na escultura, além de Jeanne Milde, a artista notável que todos admiramos, apresenta-se também 125 126 ESTADO DE MINAS, 15 janeiro 1935. DIÁRIO DE MINAS, 30 abril 1930. 61 com excelentes trabalhos a senhora Maria Meyer Marchner, que estudou em nossa escola e na Europa [...]”. 128 Note-se o adjetivo usado para se referir à artista, notável, além de dar como certa a admiração que todos nutririam por ela. Em oposição às Exposições de Belas Artes, promovidas por Aníbal Mattos, representante da arte acadêmica na capital, realizou-se em 1936 o Salão do Bar Brasil, que revelou “... uma subversão aos cânones acadêmicos da arte em Belo Horizonte. Organizar uma exposição de arte em um bar é uma transgressão ou negação dos lugares tradicionalmente designados para a experiência estética. O fato causou tal estranheza que para o cronista Jair Silva129 estava havendo “uma revivescência de costumes de artistas bohemios de 1936. O Bar Brasil está enfeitado de quadros e de esculturas (...). O Sr. Aníbal Mattos installou-se, sem bebidas, no Theatro Municipal. os artistas novos foram discutir a arte na penumbra de um bar. São opposicionistas. Não concordam com a evidência concedida, em Minas, ao pintor Anibal Mattos.”130 O salão foi organizado por Delpino Júnio r, pintor, desenhista, ilustrador e caricaturista que “[...] procurou o apoio de artistas de prestígio na cidade como Genesco Murta, Jeanne Milde, Renato de Lima, Julius Kaukal, Érico de Paula e Monsã – e convidou artistas novos como Francisco Fernandes, Délio Delpino, Fernando Pierucetti, Alvarenga, Alceu Pena, Aurélia Rubião, Nazareno Altavilla, Rosa Barillo Paradas, Elza Coelho, Antônio Rocha e José Pedrosa, entre outros. Buscou também o apoio de jovens arquitetos e estudantes da Escola de Arquitetura, que havia sido fundada em 1930. O catálogo da exposição relaciona o 127 DIÁRIO DE MINAS, 17 dezembro 1931. DIÁRIO DE MINAS, 17 dezembro 1931. Outros artistas presentes na Exposição foram os pintores Amílcar Agretti, José Quintino de Barros, J. A. Ferber, Laerte Baldine, Rafaelo Berti, Souza Reis, Oladimir Kozak, Anns Naim Vieira, Nicia Ruas Santos, Maria Guiomar Neves Cavalcanti de Abulquerque, Luiz Signorelli. No desenho a bico de pena apresentaram-se Raul Tassini, e o próprio Aníbal Mattos. Com charges, os artistas Adalberto Mattos, A. Childe, Argemiro Cunha e Monsã estiveram presentes juntamente com a professora Anna Ruhlemam, essa última na seção de artes aplicadas (cadeira que Milde ministrava na Escola de Aperfeiçoamento). 129 SILVA, Jair. Folha de Minas. Belo Horizonte, outubro 1936. 130 VIEIRA, Ivone Luzia. Emergência do modernismo. In: RIBEIRO, Marília Andrés e SILVA, Fernando Pedro da (orgs). Op. cit, p. 149. 128 62 nome dos seguintes arquitetos: J. Coury, Hardy Filho, Remo de Paoli, Shakespeare Gomes e Santólia.” 131 A oposição que se faz entre os participantes do Salão do Bar Brasil e o pintor Aníbal Mattos se encontra na própria linguagem artística dos modernos do Bar Brasil e do acadêmico Mattos. Artistas já estabelecidos em Belo Horizonte, como Genesco Murta, Jeanne Milde, Renato de Lima, Julius Kaukal, Érico de Paula e Monsã participaram do salão, apoiando novos artistas e suas linguagens modernas. As obras expostas possuíam traços de novas tendências como o cubismo, o expressionismo e o art déco, em oposição ao academicismo de Aníbal Mattos. Apesar de não estar concorrendo a prêmios, Jeanne Milde expôs 22 trabalhos como Castidade, Saudade, Vigilante, Bondade, Malícia, Hebe, Mestiça, Súplica, “além de pequenos trabalhos como cabeças de índios e mestiças, medalhas do embaixador Peltzer, busto de Mme. Olyntho Fonseca, de Cecy, da menina Maria Luiza Álvares.”132 Nesse salão, de acordo com a pesquisadora Ivone Luzia VIEIRA, Jeanne Milde apresentou esculturas “que revelam a transição entre expressões subjetivas simbolistas e formas arredondadas, volumosas, de características art déco.”133 Mesmo com a oposição clara entre os expositores do Salão de 36 e Aníbal Mattos, Milde e Mattos mantinham boas relações. Em 1937, quando o vereador Alberto Deodato indica Aníbal Mattos para coordenador do Salão da Prefeitura criado no mesmo ano, Milde integra, juntamente com João Boutshauser, a comissão nomeada para assessorar Mattos. A comissão teria sido criada para minimizar o confronto entre modernos e acadêmicos, diminuindo o conflito entre os artistas do Salão de 36 e Aníbal Mattos. 134 Jeanne Milde estava presente também para apaziguar conflitos e servir de elo entre os artistas da tradição e da linguagem acadêmica e os novos artistas com suas linguagens modernas. O I Salão de Arte da Capital ocorreu em 1937, reunindo tanto os artistas ligados a Aníbal Mattos quanto os artistas do Salão do Bar Brasil. 131 VIEIRA, Ivone Luzia. Emergência do modernismo. In: RIBEIRO, Marília Andrés e SILVA, Fernando Pedro da (orgs). Op. cit, p. 150. 132 ESTADO DE MINAS, 30 agosto 1936. 133 VIEIRA, Ivone Luzia. Emergência do modernismo. In: RIBEIRO, Marília Andrés e SILVA, Fernando Pedro da (orgs). Op. cit, p. 153. 134 Ibidem. p. 156. 63 A relação de Milde com Mattos era bastante amigável e é a própria artista que dela faz um relato: “O Aníbal Mattos era muito, muito meu colega. Qualquer exposição, qualquer coisa aqui em Belo Horizonte, eu era convidada, até mesmo a fazer parte de júri de carnaval... Eu era muito popular. O contato com Aníbal Mattos era constante porque ele trabalhava no Instituto de Educação, com a classe dos quinze ou dezesseis anos. Eu trabalhava com o curso superior, dava aulas para professoras que, pelo menos, tinham prática de dois anos.[...]” 135 Milde transitava em vários espaços artísticos da cidade, sendo acolhida por artistas acadêmicos e modernos, mostrando-se aberta a novas linguagens. Ela pode ser vista como uma ponte entre o novo, as novas linguagens artísticas na capital, e o antigo, a linguagem acadêmica de Aníbal Mattos. O II Salão de Artes da Capital contou com a presença de Milde como jurada. O salão se desdobrou em um encontro de artistas na Fazenda Petrópolis, de sua propriedade onde “[...] nasceu o movimento que congraçará os artistas de Belo Horizonte. Aliás, esse desejo de união residia há muito nos corações dos que vivem para a arte e pela arte em Minas. Pois bem, o domingo nove de outubro foi a data desse acontecimento. [...] Primeiro entraram Renato de Lima e Del Pino Júnior. As estatuetas olharam. Depois, Delio Del Pino, Aurélia Rubião, Vicente Guimarães, Genesco Murta. Alfredo Bastos e Maria Aurélia Bastos. As estatuetas admiraram-se. E logo após vieram o Bracher e os dois Altavilla. Para culminar entraram na dependência o Barão von Smigay e J. Carlos Lisboa. As estátuas gritaram: - sim senhor vai haver barulho no chateau!” 136 Nomes dos mais importantes das artes em Minas foram ao encontro, o que ilustra as boas relações da escultora com os mais diversos artistas. Jeanne Milde, de acordo com um jornalista, teria se tornado “[...] dois braços que estão reunindo quatorze artistas. É o abraço de Jeanne Milde. Em dia não muito longe ela abraçará todos os que vivem pela arte em Minas Gerais. Ela conhece o futuro da arte...”137 135 ÁVILA, Carlos. Nós vamos apresentar agora uma grande escultora: Jeanne Milde, uma belga muito mineira. Estado de Minas. Março 1984. 136 OLIVEIRA, Álvares. Folha de Minas. Fuga à realidade. 16 outubro 1938. 137 OLIVEIRA, Àlvares. Folha de Minas. Fuga à realidade. 16 outubro 1938. 64 Esse encontro em sua Fazenda Petrópolis demonstra a vontade que os artistas tinham de que houvesse maior união entre as diferentes tendências e conquistassem um espaço maior na cidade. Mas o encontro não passou de um germe que não se desenvolveu. De toda maneira, a simples iniciativa de promover a reunião demonstra a vontade que a artista tinha de ver o meio artístico se desenvolver na capital de Minas. É o que sugere o discurso de Renato de Lima: “À mesa falou o pintor Renato de Lima que inicialmente agradeceu às gentilezas da anfitriã. Foi focalizada pelo orador a necessidade de congraçar os artistas mineiros, casmurros e reservados, mas sempre em atividade, faltandolhes, porém, a união que fatalmente daria maior projeção à vida artística-cultural de Minas Gerais. Existia e existe uma grande vontade individual para promover esse contato – disse ainda o sr. Renato Lima – mas verificavase a ausência do promotor de meetings e também o local. Porém, Mlle Milde se tinha prestado a dar o seu concurso para a realização desse projeto e pedia pois a todos os artistas que se reunissem em torno da escultora belga, que dava naquele momento o primeiro passo para o verdadeiro congraçamento dos artistas mineiros.” 138 Exposições Individuais Em 1945 a escultora Jeanne Milde exibiu trabalhos (nos jornais dados controversos sugerem de 35 a 58 trabalhos) em uma mostra realizada no Salão de Festas do Grande Hotel de Belo Horizonte. Figuraram entre os trabalhos expostos cabeças e bustos dos Srs. Celso Machado, Prof. Pinto Antunes, Maestro Arthur Bosmans, Adami Requioni, Benjamin Cunha, Edmundo Paula Pinto, sras e senhoritas Maria Elvira Salgado, Magda Carvalhais, Alice Boignard, Elza Maletta e da pintora Serita. Além desses, Milde expôs busto de Otaviano de Almeida, que iria ser colocado na Praça Hugo Werneck. Havia também na mostra baixos-relevos de Monsã, Vitório Marçois, coronel Benjamin Guimarães e Thais d’Aita e alguns grupos de esculturas, dentre os quais “Garimpeiros”. 139 Vários jornais anunciaram a exposição da artista no Grande Hotel, o que demonstra um envolvimento ainda bastante significativo com a imprensa e com a vida 138 O DIÁRIO, 12 outubro 1938, p.09. 65 cultural da cidade naquele ano. 140 Foi a primeira exposição individual da artista, visto que não havia realizado nenhuma individual na Bélgica. No Edifício Sul América em 1947, aconteceu outra exposição individual de Milde antes de uma viagem que realizaria para a Bélgica. Algumas reportagens foram publicadas, as obras mostradas foram bastante elogiadas, mas uma crítica referente à pouca divulgação da exposição revela como o meio artístico e os belorizontinos não estavam tão interessados no que a artista estava produzindo. 141 “A escultora Jeanne Milde não incorre nunca no erro de exprimir o convencional. Pelo contrário, inspira-se em temas da vida corrente, em figuras de existência real, como se pode constatar nos grupos de danças populares e nas várias cabeças expostas. Sua técnica tem suficiente liberdade de movimentos para permitir-lhe revelar a sua personalidade de uma escultora evoluída e segura em seus objetivos.”142 Nas obras expostas pela artista, há uma grande presença de temas ligados ao povo diferente que ela encontrara em terras brasileiras. O contato com uma nova cultura propiciava a realização de obras com temáticas diferenciadas. Acabava, também, por transformar a própria arte, a partir da diferença do material utilizado, por causa da necessidade de adaptação aos materiais provenientes do solo de Minas Gerais. As obras expostas eram “obras com motivos brasileiros como Garimperios, Dança Popular nº 1, Dança Popular nº 2 (terracota), Retirantes (bronze); bustos de figuras conhecidas da capital como Monsã, Pinto Antunes, Francisco Fernandes, Ferras de Carvalho, Ana Maria Mascarenhas e Maria Stael del Pino; Cabeça de Cristo, Mestiça e Cavadores de Cristal (bronze).” 143 Essa exposição seria a última da artista em território mineiro, antes de sua viagem à Bélgica, de acordo com comentário de jornal de Belo Horizonte. 144 139 ESTADO DE MINAS, 19 agosto 1945. Jornais e Revistas nos quais saíram reportagens sobre a exposição da artista: FOLHA DE MINAS, 14 agosto de 1945. MINAS GERAIS, 11 agosto 1945. MINAS GERAIS, 28 agosto 1945. DIÁRIO DA TARDE, 29 de agosto de 1945. MINAS GERAIS, 1 setembro 1945. MINAS GERAIS, 2 setembro 1945. DIÁRIO DA TARDE, 3 setembro 1945. FOLHA DE MINAS, 5 setembro 1945. DIÁRIO DA TARDE, 6 setembro 1945. MINAS GERAIS, 14 setembro 1945. DIÁRIO DA TARDE, 15 setembro 1945. REVISTA BELO HORIZONTE, agosto - setembro 1945. REVISTA ALTEROSA, outubro de 1945, ano VII, número 66. 141 Jornais que trataram da exposição: DIÁRIO DA TARDE, Belo Horizonte, 9 abril 1947. ESTADO DE MINAS, 8 abril 1947. ESTADO DE MINAS, 29 de março 1947. 142 ESTADO DE MINAS, 8 abril 1947. 143 ESTADO DE MINAS, 29 março 1947. 144 ESTADO DE MINAS, 29 março 1947. 140 66 Essa relação entre a mudança de temas e a vivência no Brasil aparece também nas reportagens publicadas pelos jornais belgas. A obra de Mlle. Milde foi avaliada também na Bélgica. Milde realizou uma exposição no período de 21 de fevereiro a 4 de março de 1948 em Bruxelas, na Galeria Toison d’Or, juntamente com dois outros artistas, Yvonne Reper e Maurice Van Weyenbergh. Não é possível saber se a artista realmente levou as obras ou somente fotos dos mesmos, pois existe um depoimento da artista, já no fim da vida 145 (ressalvando-se os diversos momentos de falha na memória da senhora já idosa que era, com muitas dificuldades para se lembrar de acontecimentos do passado), em que ela diz haver levado somente fotos das obras realizadas em Belo Horizonte. Já no acervo da artista, doado ao Museu Mineiro, encontra-se uma lista com dados de obras que estariam presentes na exposição que realizara em Bruxelas. 146 Os dados do catálogo são bem claros: “Após uma ausência de 19 anos Jeanne Milde expõe algumas esculturas feitas no Brasil.” Pelos dados constantes no catálogo, a artista realmente levou suas obras para a Bélgica. Ela teria exposto 30 diferentes esculturas em terracota, bronze e cera, algumas com várias cópias, outras somente o original. O Ministério de Instrução Pública da Bélgica adquiriu a obra intitulada Ma maman.147 Algumas reportagens 148 trataram da exposição da artista, demonstrando que as relações de Milde com o meio artístico belga ainda continuavam razoavelmente boas, frutificando no momento em que lá retornou. 145 Entrevista dada ao CRAV em 1996. Ver Anexo VI. 147 Documento do Ministère de L’Instruction Publique. Nº 3099, 1948. 148 LA LANTERNE, Bruxelles, 1o março 1948. LE SOIR, Bruxelles, 2 março 1948. L’EVENTAIL, Bruxelles, 7 março 1948. 146 67 Trabalhos sob encomenda Dos trabalhos realizados por Mlle. Milde em Belo Horizonte, alguns foram encomendados por pessoas da cidade, por empresas ou pelo governo. Fica difícil estabelecer entre as obras que retratavam pessoas quais teriam sido encomendadas e quais foram feitas por iniciativa da artista, fosse por amizade ou por desejar retratar um determinado modelo. Em seu arquivo particular, existe uma lista de obras, material usado em sua confecção e prováveis donos das mesmas, mas não há dados mais específicos dos trabalhos, como dimensão e fotos por exemplo. A relação contribui, entretanto, para se ter uma idéia dos temas tratados pela artista. 149 A artista executou diversos bustos como os de Benedito Valadares, Otaviano de Almeida, Dr. Gilberto da Silva Porto e retratos de Edmundo Paulo Pinto, Francisco Fernandes, Celso Machado, Gilberto da Silva Porte e Louis Einch. Há um busto de Benedito Valadares em Pará de Minas 150 e um busto de Barbançon em Monlevade. O busto de Otaviano Neves, confeccionado a partir de fotos do médico, fo i colocado na av. Francisco Sales, entre a Santa Casa e a Casa de Saúde São Lucas. 151 É de autoria de Jeanne Milde a máscara mortuária de Olegário Maciel, presidente do Estado de Minas, morto no cargo em 1932. O texto a seguir descreve o modo de feitura da máscara: “[...] o rosto do sr. Olegário Maciel foi impresso em gesso, em várias camadas e em um só bloco, até adquirir consistência. Apenas uma das orelhas foi modelada em bloco separado, devido à posição do corpo (deitado). O rosto foi umedecido com glicerina. Arrancada a máscara foi esta transformada em formas (negativo). Untada de sabão com o fim de ser evitada a aderência, foi quebrada a máscara aos pedaços, depois de cheia de nova camada de gesso (positivo). O molde deixa ver que o trabalho foi perfeito. São perfeitamente visíveis os poros do rosto e a menor reentrância da pele. Os pelos da barba e do bigode aderem à máscara em abundância, a ponto de reimprimir-se no original. Estão 149 Nos anexos IV e V, estão listas com algumas obras e proprietários, lista feita pela artista e que se mostra bastante elucidativa com algumas datas e proprietários das obras. Realizei algumas modificações na referida lista buscando torná-la mais inteligível. 150 Ver anexo V. 151 ESTADO DE MINAS, 20 setembro 1946 e DIÁRIO DA TA RDE, 7 julho 1945. 68 também visíveis os cabelos brancos da cabeça, na borda do frontal e por cima das orelhas. Explica a modeladora que é impossível evitar que os cabelos sejam arrancados, dada a pressão da máscara de gesso no rosto, acrescentando que, na Europa, dão muito valor aos modelos extraídos do original e que trazem os sinais capilares. Na base do rosto foi colocada uma toalha e pedaços de papel, em volta da fronte, da altura do queixo à cabeça, com o fim de evitar o transbordamento da massa, ficando a descoberto, apenas, o rosto, até à orelha.”152 As especificações do tratamento dado à confecção da obra traz alguns detalhes que hoje podem ser considerados mórbidos, como a técnica utilizada para que os fios do bigode não grudem na face, assim como o fato de a máscara ser feita a partir do rosto já deformado morto. O lugar ocupado pela artista na cidade era, certamente, de destaque naquele momento: não seria qualquer pessoa, sem ter um certo status, que seria chamada para realizar a máscara mortuária do presidente do Estado. A máscara mortuária foi roubada no mesmo ano em que foi confeccionada, 1932, tendo sido devolvida na década de 90. O roubo permanece, até o momento, um mistério a ser esclarecido. Das obras encomendadas pelo governo, duas merecem destaque: Alegoria às Ciências e Alegoria às Artes. Encontram-se no saguão do prédio do Instituto de Educação, em Belo Horizonte, inaugurado em 5 de setembro de 1930 com a denominação de Escola Normal Modelo. O texto a seguir é uma descrição das duas alegorias: “O da direita é uma alegoria ao ensino das ciências naturais, da geografia, da literatura e da geometria, e o da esquerda representa uma alegoria ao ensino artístico da Escola Normal, isto é, a escultura, o canto, a música, e a pintura. As duas figuras principais representam o sol, isto é, a luz do ensinamento e o progresso de Minas. As outras figuras estão sob a impressão do desejo de conhecer e aprofundar o seu saber, e vão subindo a escadaria do progresso. Sob cada baixo relevo estão colocadas as efígies do Presidente Antônio Carlos e do Dr. Francisco Campos que são os realizadores da 152 ESTADO DE MINAS, 7 setembro 1933. A máscara do presidente Olegário Maciel. Detalhe do trabalho de Jeanne Milde. O jornal belga ETOILE BELGE, 15 outubro 1933 também fala da máscara mortuária feita por Jeanne Milde. 69 reforma do ensino e os grandes artífices da obra educacional em Minas.” 153 No Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, encontra-se a escultura Água, sua alegria e sua embriaguez, que ultrapassou as fronteiras das coleções particulares, assim como as duas alegorias. Outra obra de vulto da artista, Alegoria à Indústria (fig.1), acha-se na Belgo Mineira, empresa siderúrgica com sede em Sabará. É um alto-relevo em bronze que retrata o trabalhador, com toda a sua força, tendo ao fundo um forno siderúrgico. A representação do trabalhador na obra, realizada em 1933, condiz com o ideal estadonovista de valorização do trabalho. A representação é feita de forma a valorizar tanto a força do trabalhador, quanto a importância da indústria. A partir da grandiosidade das figuras humanas, pode-se perceber como o trabalho, figurado no próprio trabalhador, é enaltecido. Antes de ser uma Alegoria à Indústria, a obra parece ser uma Alegoria ao Trabalho, com a artista valorizando o homem como sendo a figura mais importante da peça, ainda que ao centro da obra encontre-se a imagem da siderúrgica. Fig. 1 Jeanne Milde. Alegoria à Indústria. Alto relevo em bronze. 130 x 210 m. 1932. Coleção BelgoMineira. 153 MINAS GERAIS, 5 setembro 1930. p. 10. No jornal belga LE SOIR, Bruxelas, 22 agosto 1930, também saiu uma referência à obra da artista. 70 A crítica de arte na capital mineira As artes plásticas não tinham grande participação no cenário da capital e tampouco significado ativo para a população. Percebe-se isso pelo desinteresse generalizado que as manifestações artísticas pareciam ter por parte dos habitantes da cidade. Algumas tentativas de explicação podem ser esboçadas: a falta de educação da população para apreciar esse tipo de arte (BOURDIEU diria a falta de acesso ao capital cultural); a não adequação da arte produzida ao esperado pelo meio, uma preferência da população por outros tipos de arte... Assim, as análises das obras da artista eram sempre muito pouco elaboradas, por não haver uma crítica especializada na capital mineira. Os jornalistas, muitas vezes, davam ênfase à formação da artista e ao seu trabalho como professora na Escola de Aperfeiçoamento, como na reportagem que se segue: “Vamos referir-nos nesta crônica à obra simpática desta última artista, que o nosso governo em boa hora contratou na Bélgica, para dirigir a cadeira de modelagem do curso Normal, em que, se tem mostrado conhecedora perfeita da moderna pedagogia. A escultora Milde mandou três trabalhos para o Salão Mineiro: Primavera da vida, Mestiça e Retrato da Senhorita Álvares da Silva.”154 Diversos jornais da cidade publicaram reportagens sobre a VII Exposição de Belas Artes de Minas Gerais. Uma das críticas mais interessantes, reproduzida abaixo, é uma tentativa de análise da obra de Milde por crítico da capital: “A escultora Milde é moça, de uma mocidade cheia de entusiasmo e de amor pela sua arte admirável. Em seus trabalhos palpita o encanto dessa mocidade, em arrojadas composições escultóricas a que não faltam técnica e sentimento. Expõe no Salão Mineiro três trabalhos de grande sensibilidade: Primavera da vida, Mestiça, e um retrato de distinta senhorinha de nossa sociedade. No primeiro, uma interessante composição cheia de graça e movimento, há um deslumbramento de formas moças nas figuras nuas das adolescentes que a compõem. 154 DIÁRIO DE MINAS, 30 abril 1930. 71 E nessas formas não há sensualismo nem luxúria mas uma expressão de simplicidade e inocência, que tornam o grupo empolgante na sua movimentação rítmica de bailado ao ar livre. É um trabalho de grande valor como desenho, como modelado e de linhas magníficas. Uma obra de artista completa e empolgante, fundida em bronze e com uma patina perfeita. Mestiça é estudo realizado em nosso meio. Representa uma pequena mulatinha, com todos os característicos da raça. Retrato da senhorinha Álvares da Silva é outro trabalho feito em Belo Horizonte. A artista mostra por essa forma que aquilo que trouxe de fora é obra sua, pois que, nos trabalhos aqui realizados, está patente a mesma segurança técnica, a mesma delicadeza de sentimento e essa grande vibração de alma que é a característica notável da sua obra de mestra. A escultura de Mlle. Milde, artista que tem trabalhos no Museu de Bruxelas, oferece um dos mais belos aspectos do salão mineiro: é obra de verdadeiro talento.”155 A arte da escultora seria arte de muita inocência e sensibilidade. A forma do tratamento dado a ela, moça, é significativa da inocência que desejavam dar à artista. Desejo de inocência motivado, talvez, pela posição, nem um pouco familiar, da artista na cidade: solteira, profissional que ganhava seu próprio sustento como professora e escultora na jovem capital. É claro o desconhecimento da arte escultórica por parte do jornalista que realiza a crítica, assim como a total ignorância a respeito do desenvolvimento da arte: não se fala em estilos (classicismo, romantismo, simbolismo) ou mesmo da forma como foi realizado o trabalho. Outra reportagem sobre a mesma exposição busca analisar a obra da artista, mostrando a forma de execução dessa e as características próprias da arte escultórica, mas sempre presa à retratação da realidade: “[...]Um dos problemas que se torna muito complicado para o escultor é a da escolha do modelo; mais difícil que para o pintor, a quem o colorido é, sem dúvida, uma das principais preocupações. [...] Para o escultor a forma torna-se o motivo essencial, porque na sua arte o que aparece, em primeiro de tudo, são as linhas. Essas influem decisivamente no todo, - não só no detalhe da figura, mas na estrutura da própria composição que deve estar baseada em perfeitas linhas de harmonia e de equilíbrio. E tão importante se torna esta exigência que os defeitos de modelado não chegam a influir decisivamente no 155 DIÁRIO DE MINAS, 26 abril 1930. 72 julgamento de uma obra escultórica que se apresente com uma linha original e interessante, que possa ser considerada uma linha de beleza verdadeiramente marcante. Neste particular a escultora Jeanne Milde aliou a graça de uma forma delicada e serena ao traço de linhas encantadoras.”156 No mesmo artigo, o crítico tece algumas considerações sobre as três obras expostas. O autor vai desenvolvendo sua crítica falando das obras e da técnica da artista. A primeira escultura a ser analisada é Primavera da Vida, conjunto escultórico de figuras femininas nuas: “Tudo nele é graça, vida e movimento; expressão, forma e delicadeza. Agita-o o ritmo da dança na desenvoltura de uma radiosa liberdade em plena natureza. A obra de arte que produz essa impressão forte e duradoura que prende e fascina, é aquela que reúne todos os requisitos de técnica, de inspiração e de sentimento que caracterizam as obras mestras. Em Primavera da vida palpitam os nervos e as veias dum verdadeiro artista de talento, que criou a sua obra nesses momentos admiráveis em que a inspiração diviniza a criatura humana, dando-lhe esse dom sobrenatural de produzir as obras superiores. Primavera da vida é trabalho que deve ficar na Pinacoteca de Minas.” 157 Assim, coroa-se o talento da artista frisando-se a necessidade de que a obra se estabelecesse em uma possível pinacoteca do estado. As outras obras são também analisadas, cada qual dentro da sua peculiaridade, mais ligadas ao tema escolhido do que ao tratamento dado à obra pela artista, como a obra Mestiça: “[...] Mestiça é uma cabeça de criança, tipo de mulato, de evidente cruzamento com a raça branca. As características raciais estão patentes na fisionomia, a um tempo desconfiada e triste, da pequenina mestiça, de cabelos aos caracóis. Na fronte larga há traços que aliados à melancolia do olhar fixo e à vaga expressão dos lábios polpudos, nos dão essa impressão de cisma e dolência em que, frequentemente, caem os nossos mestiços. Um excelente trabalho de expressão.” 158 156 157 ESTADO DE MINAS, 25 abril 1930. ESTADO DE MINAS, 25 abril 1930. 73 O juízo que se faz da obra e da representação realizada por Mlle. Milde como fidedigna da própria raça mestiça, com a sua melancolia e lábios polpudos, é elucidativo quanto à imagem que se tinha da raça brasileira – a representação criada pela artista é vista como uma representação da própria raça, um retrato deste povo. Sem dúvida, Jeanne Milde retratava em suas obras os sentimentos e as sensações que possuía em relação a determinado tema. Entretanto, a análise da obra é feita com juízos de valor acerca da obra, dando um traço pejorativo à parcela mestiça do povo brasileiro – impressão de cisma e dolência – algo que não é possível de se ver em uma determinada obra. A outra obra exposta, a figura de uma moça da sociedade belorizontina, é também analisada sob essa ótica do modelo: “O outro estudo de Mlle Milde é o retrato da senhorita Maria Álvares da Silva. [...] Este busto é uma prova de nossa afirmativa pois a pureza das linhas do modelo devem ter influído para a perfeição da sua escultora. Se a artista teve a felicidade de encontrar numa figura humana linhas de tanta harmonia e uma expressão de tão rara fidalguia, não é para admirar que tivesse realizado um trabalho de tal finura e de uma tão distinta elegância plástica. Nesse busto a expressão do olhar doce, que parece velado pela sombra acariciadora das sobrancelhas espessas: a elegante linha do nariz, quase grego; o desenho fino e delicado da boca, as linhas altivas do pescoço, em suma, as proporções de evidente tendência clássica da retratada, inspiraram a artista que realizou um trabalho de valor, modelado com simplicidade e largueza e cheio de uma admirável expressão. É com prazer que nos externamos sobre a obra desta escultora moça que se revela uma artista feita, pelas qualidades evidentes da técnica.”159 A crítica acima mostra a beleza das linhas da raça branca, colocando o juízo de valor a serviço da idealização da beleza: o critério de julgamento da beleza não se dá pela forma como a artista trata o tema mas pelo tema em si. Assim, o crítico via na obra, Mestiça, um valor escultórico, mas a beleza não se encontra na obra em si, mas sim no tema de que trata. O crítico dá importância à linha, não à relação com o espaço: 158 ESTADO DE MINAS, 25 abril 1930. 159 ESTADO DE MINAS, 25 abril 1930. 74 essa última será uma preocupação latente dos escultores a partir do desenvolvimento da escultura moderna. A diferença em relação às outras críticas presentes nos jornais é a tentativa de ligar a arte de Milde a um desenvolvimento das artes plásticas: “A sua arte é moderna sem os exageros de tendências futuristas, é a arte conscienciosa do artista sincero que faz arte pela arte, com o entusiasmo moço pela profissão que abraçou, com a sensibilidade fina de um temperamento de extrema vibração emotiva. Em sua escultura há serenidade e arrojo ao mesmo tempo, como se a artista houvesse conquistado esse dom profundo de dominar seus próprios nervos, dando à sua obra essa alta expressão emotiva que não está disciplinada ao canon clássico e que não tomba na vertigem do modernismo chocante. É uma artista moderna dentro dos limites da compreensão generalizada. Para admirar a sua escultura não é necessária a hipocrisia de uma falsa supersensibilidade: ela está ao alcance de todos os que, pela educação do sentimento estético, estejam aptos a compreender a verdadeira Beleza.” 160 A arte de Milde ainda se mostrava, de acordo com o crítico, apreciável por pessoas que não estavam cientes da arte moderna, “de uma falsa supersensibilidade”. Sua arte seria também “moderna sem os exageros de tendências futuristas”. O contato com a Bélgica continuou bem intenso nos primeiros anos da estada de Milde no Brasil: a mesma reportagem, reproduzida acima, sobre as obras da artista expostas na VII Exposição de Belas Artes de Minas Gerais, foi também publicada em jornal belga. 161 As reportagens tratam a artista sempre de uma forma muito respeitosa, destacando o grande valor de seu trabalho. A crítica é feita valorizando a capacidade que a artista tinha de reproduzir o real, um real baseado em pressupostos clássicos. Essa preocupação é característica da arte dita acadêmica, em oposição a uma arte dita moderna. Jeanne Milde, mesmo identificada em alguns pontos de sua obra com o moderno, trazia em sua arte preocupações de ordem acadêmica, como a boa representação do modelo. Esses críticos de jornal buscavam também na arte a expressão de um sentimento, capaz de mostrar o momento inspirador de produção de uma obra artística. 160 161 ESTADO DE MINAS, 25 abril 1930. LA PRESSE, 17 junho 1930. 75 Celso Brant realiza uma análise da obra Vers la Vie, de Milde, relacionando-a à beleza da arte grega que teria sido perdida com “a incompreensão da vida dos primeiros padres” 162 e mostrando como a obra da artista faz parte de uma tradição greco- ocidental: “Todo retorno à pureza grega é recebido com alegria pelo nosso espírito. Sentimo-nos bem em contato de toda arte que traz, na alma, o signo desses selos eternos, o sopro do gênio helênico.[...] E com que contentamento pousamos os olhos nessa admirável escultura de Jeanne Milde em que um simples convite à vida retrata um modo superior de ver as coisas, uma elegância de pensamento que chega a nos causar espanto em meio a uma civilização que se envenenou terrivelmente com uma pretensa virtude que é a própria negação dos princípios fundamentais da vida. [...] É esse sentimento do mundo que faz de Vers la vie uma rara expressão de beleza, uma verdadeira obra-prima de bom gosto. E nós continuamos a acreditar com Rodin, que “l’art est sentiment”.163 Salienta-se a importância do sentimento na arte de Jeanne Milde, arte simbólica por meio da qual a artista retratava os diversos sentimentos humanos. Mas a imaginação (e por conseqüência a criação) é também considerada pelos críticos como parte importante do trabalho artístico da escultora belgo- mineira: “Longe de concentrar-se na representação do retrato humano (às vezes em bustos de tamanho natural ou muito diminuído, às vezes em forma de baixos-relevos de pleno ou três quartos de perfil) a escultora dedica o seu cinzel a todos os aspectos possíveis do mundo real ou imaginário, que uma mão artística pode formar e interpretar em giz ou bronze.” 164 Críticas mais bem elaboradas, buscando compreender o papel da obra da artista no panorama do desenvolvimento da arte moderna da capital, aparecem já no momento em que seu valor como artista pioneira e moderna é resgatado nos anos 80. Sua obra é então analisada à luz de teorias que são capazes de inseri- la no desenvolvimento da arte ocidental e de estabelecer as diversas influências por ela sofridas. É o caso da seguinte crítica de Ângelo Oswaldo, que a inclui nos movimentos artísticos modernos: 162 163 BRANT, Celso. Diário da Tarde. 15 setembro 1945. BRANT, Celso. Diário da Tarde. 15 setembro 1945. 76 “A sua escultura se limpa de artifícios, rejeita mais e mais a matéria no deliberado compromisso com a espiritualidade que lhe infunde a artista, numa transfusão de alma do criador para o objeto criado. Partindo do processo clássico – simbolista, condicionado por algumas características que as décadas de vinte e trinta nitidamente imprimiram em seu trabalho, ela compôs um novo binômio, no qual se conjuraram, harmoniosamente, uma figuração sugerida pelo expressionismo e a solução formal resolvida à maneira concreta, dentro de um vocabulário geometrizante.”165 Outros críticos analisam a obra de Mlle. Milde, como Walter Sebastião, do jornal O Estado de Minas, que mostra, mais uma vez, sua importância como artista moderna na capital mineira. 166 As críticas em Belo Horizonte limitam-se a acompanhar o próprio desenvolvimento das artes plásticas no âmbito da cidade. O fundamento das queixas de Mlle. Milde em relação à pouca troca de informações existentes na capital mineira evidencia-se na análise das críticas de jornais. Os críticos demonstravam não possuir contato com as transformações artísticas que estavam ocorrendo nas outras partes do globo. Isso se reflete no pobre arcabouço teórico dos comentários, na fundamentação pobre e sem embasamento que marcou a crítica de jornal belorizontina na primeira metade do século XX. Entretanto, já no fim da vida e mesmo após sua morte, nas décadas de 80 e 90, sua obra foi alvo de críticas construtivas e enriquecedoras para a compreensão de sua arte. 164 FRANCK, Roberto. Minas Gerais. Arte e Diversões. Flagrantes. s/data. OSWALDO, Ângelo. Estado de Minas. 2ª Seção. 1 fevereiro 1994, p. 08. Este texto é elucidativo para analisar a arte de Jeanne Louise Milde, mostrando influências diversas: clássico, simbólico, expressivo, geometrizante, a serem abordadas no próximo capítulo. 166 SEBASTIÃO, Walter. Para conhecer ou relembrar Jeanne Milde. Viver BH. Estado de Minas. Belo Horizonte, 17 outubro 1997, p. 20. 165 77 II.III – Entre o Brasil e a Bélgica Jeanne Milde havia estabelecido boas relações com a sociedade, com o meio artístico e com o próprio governo belga, o que é demonstrado pelas homenagens por ela recebidas. A artista foi condecorada pelo governo belga duas vezes, uma em 1930 e a outra em 1950. Primeiramente, recebeu a comenda da ordem Chevalier Leopold que “representa um título honorífico da mais elevada distinção e só é conferido aos cidadãos que se notabilizam pelos mais distintos méritos intelectuais e artísticos.”167 Se ela fosse uma pessoa sem expressão no meio artístico ou na sociedade belga, não teria sido agraciada com a comenda. Além dessa, recebeu a comenda de Cavaleiro da Ordem da Coroa distinção que lhe outorgou o Príncipe-Regente Baudoin em 14 de novembro de 1950. O decreto do Príncipe-Regente belga foi- lhe entregue em janeiro de 1951 pelo Sr. Jean Thiry, cônsul da Bélgica em Minas. 168 Apesar de ter recebido essas honrarias do governo belga, Mlle Milde apresenta um pedido de naturalização como brasileira, próximo ao momento de sua aposentadoria: sua naturalização se dá por ato de 23 de no vembro de 1951 169 e menos de quatro anos depois ela se aposentaria 170 . Antes belga, agora brasileira, a escultora permanecia no país que adotara. Depois de dedicar mais de 25 anos ao ensino das artes, aposentava-se e podia se dedicar a suas esculturas. Estadas na Bélgica: visões do Brasil Em 1933, quando primeiro retornou à Bélgica, Mlle. Milde concedeu uma entrevista ao jornal Le Soir, relatando seu trabalho no Brasil e a forma amigável como os brasileiros recebem os belgas. Nessa entrevista, mostrou interesse em aumentar seus conhecimentos sobre cerâmica, para utilizá- los posteriormente no Brasil, introduzindo, na matéria que lecionava, “a arte teórica e prática da cerâmica.” E 167 ESTADO DE MINAS, 10 dezembro 1930. Outros jornais com reportagens sobre a condecoração: MINAS GERAIS, 10 dezembro 1930. L’ETOILLE BELGE, Bruxelas, 4 dezembro 1930. 168 MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 24 janeiro 1951. 169 proc. número 46576-51 170 MINAS GERAIS, 29 de abril de 1955. Este é o teor do decreto: “O governador do Estado, tendo em vista o que consta o processo 79 da Sec. da Educação, DESS/1ª Seção, resolve conceder aposentadoria, se acordo com o art. 142, par. II, da Constituição Estadual, a JEANNE LOUISE MILDE, no cargo de professor, padrão I – 31, da Cadeira de Desenho e Artes Aplicadas do Instituto de Educação de Minas Gerais.” 78 acrescentou: “Isto me permitirá aumentar, pela aplicação de nossos métodos industriais, o prestígio de nosso país.” 171 Assim, a própria Milde se colocava como uma representante do povo belga em terras brasileiras. Em 1947 retornou novamente à Bélgica, lá realizando algumas atividades, entre as quais uma entrevista para uma rádio belga, onde se revela a percepção que possuía do Brasil. A artista, agora na Bélgica, estava presente nos meios de comunicação para falar do Brasil, da sua experiência em outra terra: a belga que foi trabalhar em um mundo distante, exótico e bastante distinto da Europa. E que se deixara influenciar por modos de ser brasileiros. O entrevistador172 inicialmente apresenta a artista, uma belga que exerce no Brasil a profissão de escultora, aos ouvintes belgas. A arte brasileira, mais especificamente a arte colonial de Minas Gerais, foi um dos assuntos destacados na reportagem. Segundo a artista “uma arte colonial de influência portuguesa, uma mistura de estilos Manuelinos, Renascentista e Barroco Jesuítico”. Dos materiais utilizados, a artista vai falar do granito e da pedra sabão, “uma espécie de granito macio”. Dos artistas do período colonial, Milde cita Aleijadinho, “um brasileiro de pai português [...] particularmente dotado [...] foi devorado pela doença atroz da lepra.” Após referir-se às mazelas da vida do Aleijadinho, passa à especialidade do artista, a ornamentação, “Ele definiu sua época com uma personalidade incomparável, é o único artista brasileiro que deixou, até o presente, um grande nome. Suas obras remarcáveis são os Profetas de Congonhas. São obras de toda beleza escultural, de expressão, de vida, de movimento, são obras que vos fala e que vos impressiona. Toda sua arte é inspirada em motivos religiosos e na história do Brasil.” A artista demonstra, em sua fala, um conhecimento considerável a respeito da arte mineira. Não era mais somente a artista belga que viera ao Brasil trazer seus conhecimentos e sua civilização. Mostrava seu conhecimento acerca de uma cultura 171 LE SOIR, Bruxelas, 13 janeiro 1933. VIE INTELECTUELLE PAR CARL HENRY. Entrevista dada por Jeanne Milde em 6 agosto de 1947 à Radio-Diffusion Nationale Belge (transcrição da entrevista no acervo da artista doado ao Museu Mineiro). 172 79 distinta da sua, mas que, ao mesmo tempo, tornava-se sua segunda cultura, bem como sua consideração para com ela. Em seguida discorre sobre a Arte Moderna em Belo Horizonte, ocupando-se das obras de Niemeyer e Portinari na Pampulha. Minas Gerais e Belo Horizonte são bastante elogiados pela artista. Belo Horizonte é considerada o centro das reformas e “Minas Gerais é um Estado que ama o progresso e a maior preocupação do governo atual é o ensino.” Inquirida sobre a música na cidade onde habitava, disse a artista ter muito pouco o que dizer, somente teria a relatar que o maestro Arthur Bosman, que dirigia a Orquestra Sinfônica da cidade, era belga. Diz também haver trabalhado muito em solo brasileiro, como professora e como escultora: “eu fiz muitos retratos, muitos trabalhos de composição, monumentos e baixo-relevos que foram vendidos e que se encontram em locais públicos” A recepção dada pelos brasileiros aos belgas é vista pela artista como muito boa: “É bastante agradável dizer que o Brasil me reservou uma boa acolhida e que isso não é uma exceção: os belgas neste país são bem apreciados e bem acolhidos.” Na entrevista que havia dado em 1933, também falara sobre o tratamento dado aos belgas: “Eu recebi no Brasil uma acolhida das mais calorosas. O Brasil é um país magnífico. Não chove constantemente como em Bruxelas e as pessoas são agradáveis, como aqui.” 173 Essa boa acolhida foi, com certeza, um dos motivos que a levou a ficar em terras brasileiras. Os erros de conhecimento sobre o Brasil que aparecem em reportagens na Bélgica são impressionantes: “Encontra-se, nestas estátuas, as lembranças de tempos onde as populações indígenas conservaram sua originalidade, mas sobretudo imagens de uma América Meridional Hispânica e totalmente entranhada do barroquismo espanhol. As estátuas de Mlle Jeanne Milde têm a graça da flexibilidade, uma ciência da vida no estudo das linhas e dos volumes. Elas são igualmente cheias de espírito, de sensibilidade e sobretudo de idealismo. Eu penso em sua Matin Inquiet, em sua Cantique a la Vierge e em algumas de suas terracotas como l’Intellectuele e la Songeuse. Sua arte é plena de graça e de força, de charme e de energia.” 174 173 174 LE SOIR, Bruxelas, 13 janeiro 1933. LE SOIR, Bruxelles, 2 março 1948. 80 O erro do texto é flagrante: o Brasil torna-se uma América Meridional Hispânica, entranhada de barroquismo espanhol. É o problema de se falar de algo sem conhecimento de causa. Ao mesmo tempo, serve para que se perceba como Espanha e Portugal muitas vezes são considerados como um só no imaginário (ou desconhecimento) europeu, ao mesmo tempo em que as colônias desses países tornamse colônias hispânicas em vez de hispânicas e portuguesas. Na mesma reportagem, diz-se que Mlle. Milde realizou uma mostra, com muito sucesso, em Buenos Aires, exposição de que realmente não existem notícias. O aspecto do exótico, do diferente, está presente na análise que se faz das obras da artista, pois, as pessoas “que buscam o exotismo”175 ficariam satisfeitas com o conjunto das obras exibido por Mlle. Milde. No entender dos críticos, Mlle. Milde havia sido influenciada por uma arte que não era européia, ocidental. De fato, sua obra modificou-se ao entrar em contato com povos completamente diferentes do seu povo de origem. Mas o modo de fazer, as referências no fazer continuavam essencialmente européias. A matéria-prima, os temas das obras se modificaram, mas a concepção do que era uma obra de arte, a importância do utilitarismo das obras, das artes aplicadas à indústria e ao cotidiano, fundamentos de algumas tendências da arte européia daquele período, conservavam-se em sua produção artística. De acordo com Ivone Luzia VIEIRA: “Em 1948, quando Jeanne Milde expõe novamente sua obra em Bruxelas, na Galeria Toison d’Or, após dezenove anos de ausência, causa impacto a expressão primitiva do seu trabalho realizado no Brasil. A crítica local observou as mudanças em sua arte e considerou sua obra estrangeira, de algum modo “outra” para a cultura européia. Mas, ao olhar de forma retrospectiva sua obra como um todo, constata-se que ela soube viver as influências do seu tempo e libertar-se de princípios alheios à sua originalidade.” 176 Tem-se notícia de que a artista viajou à Bélgica também no ano de 1953, pois o governo do Estado concedeu- lhe licença para afastar-se do serviço por um determinado período daquele ano. Sobre essa viagem não existem dados esclarecedores no arquivo da artista. 175 JOTTRAND, Lucien. L’eventail. Bruxelles, 7 março 1948. VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.15. 176 81 II.IV – Ostracismo e redescoberta O período de seu afastamento e a Escola Guignard. Apesar da importância de momentos como o Salão de 36 na transformação da arte moderna em Belo Horizonte, foi a partir da ocupação dos espaços públicos da cidade, com a construção do complexo da Pampulha, em 1944, que a arte moderna passou a ocupar um lugar de destaque na capital. O choque ocasionado pela linguagem de Portinari e de Niemeyer, já completamente dominada pelo moderno, vem transformar o panorama artístico mineiro. A chegada de Guignard no ano de 1944 e a sua nova metodologia de ensino fizeram com que aqueles que trabalhavam com as artes plásticas em Minas antes de sua chegada, entre eles Jeanne Louise Milde, passassem a ser vistos como portadores de uma linguagem passadista e caíssem no ostracismo. Além disso, a Escola do Parque, de Alberto da Veiga Guignard, encontrava-se no centro da cidade, no Parque Municipal. O espaço público do Parque foi, pois, tomado por um ensino de artes muito mais moderno do que o ensino instituído anteriormente por Aníbal Mattos, que oferecia cursos de artes àqueles que se interessassem na aprendizagem artística. É o próprio espaço físico da cidade que passa a ser um local de arte moderna: a cidade se abria (mineiramente desconfiada e com grandes restrições) para novas tendências artísticas. A tomada de um centro urbano por uma nova arte era um acontecimento já conhecido por Jeanne Milde. Belga, de Bruxelas, viveu na cidade transformada pelo Art Nouveau de Victor Horta. Talvez, por isso, refira-se ao complexo da Pampulha como Art Nouveau em Belo Horizonte, em entrevista dada na Bélgica em 1947. Na realidade, o que a artista desejava dizer era uma arte nova (e não um Art Nouveau) que se estabelecia na cidade: “depois do ano de 1940, um Art nouveau se faz presente, o grande inovador, Juscelino Kubistchek, encorajou a Arte Moderna, ele era prefeito da cidade nesta época” 177 Após o elogio à figura de JK, o assunto passa a ser os artistas presentes na cidade a partir de então: 177 VIE INTELECTUELLE PAR CARL HENRY. Entrevista dada por Jeanne Milde em 6 agosto de 1947 à Radio-Diffusion Nationale Belge (transcrição da entrevista no acervo da artista doado ao Museu Mineiro) 82 “Alberto Guignard, professor de Pintura e de desenho no Instituto de Belas Artes, o arquiteto Niemeyer que perturbou os espíritos com sua curiosa Igreja da Pampulha, seu Cassino, sua Casa do Baile, seu Iate Clube e suas casas particulares que são de uma arte e de uma concepção totalmente novas. A Igreja da Pampulha tem suas partes exterior e interior decoradas pelo grande pintor moderno de afrescos, Portinari. Juntando-se a este cenário, o escultor Zamoysky, artista polonês, que esculpiu uma grande figura simbólica: a mulher polonesa. Tudo isso encontra-se à margem de um imenso lago; é um lugar curioso, onde se admira o conjunto de uma concepção nova, audaciosa e bela.” 178 As expressões elogiosas à arte moderna em Belo Horizonte mostram que Mlle. Milde não tinha, ao menos aparentemente, ressentimentos por não haver sido chamada para participar da construção do conjunto arquitetônico da Pampulha. No entanto, August Zamoysky, escultor e professor polonês que viveu no Brasil de 1940 a 1955, fora chamado de outro estado para executar uma obra na capital mineira, enquanto a artista não tivera seu nome lembrado. Jeanne Louise Milde teria se ausentado desse panorama artístico, a partir da chegada de Guignard, por estar presa a um ensino desvinculado da formação de artistas (ela ensinava artes para professoras primárias) e, ao mesmo tempo, por haver uma grande valorização do ensino do mestre pintor. Em meados dos anos 50, portanto em um momento posterior à sua chegada, os alunos de Guignard passam a ser reconhecidos em todo o Brasil. Ademais, Guignard já era um conhecido pintor quando vem para Belo Horizonte a convite de Juscelino Kubitschek. A artista não havia formado uma escola de artes, como Guignard, e já em 1955 havia se aposentado como professora do Instituto de Educação. O resgate de sua obra nos anos 80 e 90. Na década de 80, a artista terá sua obra resgatada por pesquisadores que estudam sua atuação em Minas Gerais. Algumas exposições de Milde acontecem em Belo Horizonte, privilegiando sua posição como uma artista moderna no panorama artístico belorizontino. 178 VIE INTELECTUELLE PAR CARL HENRY. Entrevista dada por Jeanne Milde em 6 agosto de 1947 à Radio-Diffusion Nationale Belge (transcrição da entrevista no acervo da artista doado ao Museu Mineiro) 83 Nos anos 80, morava em um apartamento na Av. Augusto de Lima, centro da cidade, onde continuava a produzir suas esculturas. Como uma das artistas importantes a serem relembradas pela participação intensa no panorama artístico belorizontino, foi homenageada no XIV Salão Nacional de Arte do Museu da Pampulha, em Belo Horizonte. O Salão realizou-se de 10 dezembro de 1982 a 28 fevereiro de 1983 e a artista teve suas obras expostas, juntamente com a obra dos artistas Délio Delpino, Herculano Campos, Julius Kaukal (estes três participantes do Salão do Bar Brasil) e Lorenzato (artista popular que teve contato com uma arte clássica), na Grande Galeria do Palácio das Artes, a partir de 17 de dezembro de 1982. Ela volta a ser notícia como artista atuante em Belo Horizonte desde 1929. É lembrada como uma pioneira nas artes e no ensino em Minas Gerais, sendo condecorada em 1982 com a Comenda da Ordem dos Pioneiros. Recebe, também, outras condecorações como a Medalha do Mérito Educacional, em 15 de outubro de 1984, e a Grand e Medalha da Inconfidência, em 21 de abril do mesmo ano, concedidas pelo Governo do Estado como reconhecimento pelo trabalho prestado a Minas Gerais. A artista deve ter se mostrado satisfeita com o resgate de sua história: reconhecida ainda em vida, lúcida e com possibilidades de aproveitar aquele momento. Além do salão e das condecorações, foram expostas algumas esculturas da artista, com bastante repercussão na imprensa, em uma exposição realizada em 1984 no Museu Mineiro, inaugurada em 27 de março de 1984. 179 Essa exposição foi, na realidade, uma retrospectiva da artista com obras as mais diversas. Essas datas e acontecimentos servem para revelar como Mlle. Milde esteve presente na vida da cidade de Belo Horizonte ao longo do século XX. Na década de 90, prosseguem as homenagens. Em 1990, aconteceu um seminário no Instituto de Educação para recordar Jeanne Milde e comemorar os seus noventa anos de idade. Dentre os ex-alunos e conhecidos que participaram, encontravam-se Alaíde Lisboa, Elza Moura, Mari’Stella Tristão, Daniel Antipoff, Carlos Alberto Pinto Fonseca e Maria Antonieta Bianchi. A coordenadora do seminário foi a Prof. Ivone Luzia, responsável pelo resgate da obra da artista nos anos 179 ESTADO DE MINAS, Feminino, 5 fevereiro 1984. p. 09. O Globo. Grande Rio. 07 fevereiro 1984. p. 08. MARINA, Ana. DIÁRIO DA TARDE, Belo Horizonte, 26 março 1984, p.13. DIÁRIO DO COMÉRCIO, Belo Horizonte, 29 março 1984, p.08. TRISTÃO, Mari’Stella. Museu Mineiro faz retrospectiva de Milde. Estado de Minas. 21 março 1984. p. 06. DRUMMOND, Austen Amaro de Moura. A transcendência escultural da forma. Estado de Minas, 09 agosto 1984. 84 80. Nos espaços pelos quais ela havia transitado em Belo Horizonte, prestavam-se homenagens pelos serviços prestados à cidade. Outra exposição ocorreu no Museu Mineiro, em 1994, em que as obras da artista aparecem ao lado das dos artistas Renato de Lima e Aurélia Rubião, ambos pintores participantes da Exposição do Bar Brasil em 1936. Quatro anos antes já ocorrera uma exposição da artista e de Zina Aita, no Museu de Arte da Pampulha, em comemoração dos 90 anos de nascimento de ambas. 180 Mas as homenagens não pararam por aí, continuaram após sua morte. Felizmente, alguns pesquisadores a entrevistaram, deixando depoimentos para aqueles que buscassem algum dia informações sobre essa mulher, artista e participante de acontecimentos do século XX. É essa mulher, Jeanne Milde, que aparece dando depoimentos, já idosa com 96, 97 anos, com falhas de memória, mas sempre independente. E é essa a mulher retratada nas linhas desta dissertação. Uma mulher realizada profissionalmente, ainda que em um meio incipiente, convivendo com pessoas que muitas vezes não compreendiam sua obra, o que, com certeza, a artista via como mais um obstáculo a ser vencido em sua longa trajetória. Por ocasião de sua morte, os jornais publicaram reportagens sobre o papel fundamental da artista em Belo Horizonte. Além disso, no ano de 2000, realizou-se, no Museu Mineiro, uma exposição comemorativa do seu centenário de nascimento com o lançamento de um vídeo intitulado “A vida na obra de Jeanne Milde”. Assim, Mlle. Milde continua a chamar a atenção pela escolha que fez ao vir para o Brasil. Se tivesse permanecido na Bélgica, talvez pudesse ser reconhecida como uma das primeiras escultoras a atuar naquele país. No seu país de opção, é reconhecida por suas esculturas, pelo trabalho que realizou como educadora e pelo importante papel que exerceu no incentivo às artes plásticas em Belo Horizonte. Se não obteve grande sucesso ao tentar incentivar o meio artístico com suas reuniões, com a participação no Salão do Bar Brasil, tornou o ambiente da cidade um pouco mais receptivo à arte moderna, abrindo caminhos para a afirmação de novos valores artísticos. Apesar da naturalização e de dizer que se sentia muito bem como mineira, sua cultura primeira, formadora de sua identidade, a européia, civilizadora, permanece presente em sua arte e em sua vida, marcando os passos que daria ao longo de sua longa existência. 180 JEANNE MILDE, ZINA AITA 90 ANOS. Belo Horizonte: Museu de Arte da Pampulha, 1991. 85 III – MODERNA, MAS COM UMA BASE CLÁSSICA... “Moderna, mas com uma base clássica. Tem a anatomia que a gente descobre, tem a inclinação da forma, tem interpretação. Quer dizer: se sofro, vou me inclinar e sinto dor. E isso tem que sair na expressão da modelagem.” 181 Jeanne Louise Milde Para se discorrer sobre a vida de Jeanne Milde, devem-se utilizar as obras de arte que ela produziu ao longo de sua existência. Através da análise de suas obras pode-se compreender o que a mo via a fazer sua arte, o que significava a arte para ela e mesmo qual era sua concepção de mundo. Além de estar ligada a uma arte figurativa, retrato do real, a artista via no fazer artístico a manifestação do seu sentimento, da sua forma individual de ver o mundo. A arte era, para ela, a conjunção do retrato de um mundo real com a representação do mundo feita por sua individualidade. Como se tornava imperativa, dado o curto espaço de tempo para a elaboração da dissertação, a redução do número de obras a serem analisadas, optou-se por fazer uma seleção entre as diversas obras. Assim, deu-se preferência às obras pertencentes ao Museu Mineiro que retratam momentos de sua carreira artística: obras simbolistas, obras que possibilitam a referência da artista a um caminho do Art Déco, obras de engajamento social, obras encomendadas, bustos, utilitários. Suas obras não são analisadas buscando-se um modo de ver feminino: é uma mulher que fala, mas uma mulher que adotou pressupostos de um meio ao qual pertence, o meio artístico. A artista elaborou uma visão artística própria, desde o momento em que começou a fazer arte, ingressando na Real Academia e assumindo a carreira artística ainda na Bélgica. É essa visão própria, de uma artista que acreditava na expressão individual, que é retratada neste capítulo. O objetivo do trabalho é entrelaçar obra e vida, de modo a produzir um texto lógico e biográfico, em que os significados inscritos na produção artística possam ser rastreados na experiência de vida da artista, integrando aí os diversos movimentos aos quais esteve ligada ao longo de sua carreira. Com esse procedimento, que implica a interpretação de sinais e indícios, no estilo da micro- história – como tão bem define Carlo Ginzburg -, pode-se ir além do universo particular de Milde. A natureza polissêmica das obras de arte permite inúmeras leituras. 181 ESTADO DE MINAS. 13 janeiro 1997. Trecho de entrevista de Jeanne Louise Milde. 86 Da Bélgica vêm o estudo da técnica, as referências artísticas, a própria concepção de arte: a marca do fazer artístico. Do Brasil, a incorporação de novas referências, a valorização desse fazer artístico originário de terras européias e uma experiência singular: a ausência de interlocução no cenário artístico belorizontino, marcado pela pouca valorização das artes, “O artista aqui vive isolado. Trabalha na surdina. Quasi que se podia dizer que ele crea as suas obras apenas pelo prazer de crea-las. Collocadas no seu “atelier”, elle mesmo as contempla e admira. E muitos delles trabalham afanosamente, pondo nas suas producções alma e cunho pessoal. Este detalhe não pode ser esquecido, porque é a expressão mesma da verdade.”182 Ao mesmo tempo em que via esse ambiente como pouco acolhedor ao debate artístico, à troca de idéias, Milde sempre valorizou muito o seu trabalho como escultora, paralelamente ao ensino de artes, “Fora da Escola de Aperfeiçoamento – iniciou Mlle. Jeanne Louise Milde – eu me consagro exclusivamente à esculptura. Não tenho outras preocupações além de minha arte, com que vivo identificada.” 183 Para se perscrutar os sentidos da obra de Milde, é preciso examinar também as características do ensino acadêmico, as influências recebidas dos mestres e de outros artistas com os quais conviveu. Nas inúmeras entrevistas, ela é genérica quando indagada sobre estas questões, mas aqui se procura o particular. No capítulo I, já se abordou o aprendizado na Real Academia e as influências dos seus professores. O objetivo deste capítulo é examinar os movimentos dos quais se aproximou, o lugar ocupado por ela no desenvolvimento da escultura moderna e os artistas com os quais se identificou A obra escultórica de Mlle. Milde já foi objeto de estudo por parte de alguns pesquisadores e críticos de arte, a exemplo de Ivone Luzia VIEIRA e Ângelo Oswaldo. É fundamental, assim, estabelecer um diálogo com as análises propostas por esses aut ores, a começar pelos trabalhos de Ivone Luzia VIEIRA, primeira pesquisadora a abordar de forma sistemática a produção da artista. VIEIRA escreveu 182 Entrevista da artista a jornalista. ESTADO DE MINAS, 15 janeiro 1935. 87 diversos textos sobre o tema, desde artigos sobre a posição de Milde no meio 184 , até ensaios específicos sobre sua obra. 185 Outros estudiosos abordaram a obra de Milde como Cristina Ávila, Ângelo Oswaldo e Walter Sebastião -, de modo a relacioná- la com os movimentos artísticos do século XX. 186 183 ESTADO DE MINAS, 15 janeiro 1935. Conferir: VIEIRA, Ivone Luzia. In: Mulher e Arte, 1988. VIEIRA, Ivone Luzia. In: Um século de história das artes plásticas em Belo Horizonte, p. 149. VIEIRA, Ivone Luzia. In: Jeanne Milde, Zina Aita, 90 anos, 1990. 185 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.14-15. 186 ÁVILA, Cristina. Mlle. Milde – a escultura do sensível. In: Jeanne Milde, Zina Aita, 90 anos, 1990. OSWALDO, Ângelo. Estado de Minas. 2ª Seção. 1o fevereiro 1994, p. 08. SEBASTIÃO, Walter. Para conhecer ou relembrar Jeanne Milde. Viver BH. Estado de Minas. Belo Horizonte, 17 outubro 1997, p. 20. 184 88 III.I – As obras de Mlle. Milde e a Arte Moderna: Impressionismo, Simbolismo, Expressionismo, Art Nouveau e Art Déco. Segundo ARGAN, a modernidade se instala no domínio da arte a partir do romantismo e do neoclassicismo. Em meados do século XVIII, tratados ou preceitísticas do Renascimento são substituídos por uma filosofia da arte (estética), que se define como uma teoria elaborada sobre a arte, contrapondo-se a questões puramente técnicas. Essa transformação liga-se ao Iluminismo, movimento que traz em si um anti-historicismo, identificando as artes grega e romana com o próprio conceito de arte. Essas artes são apreciadas como exemplos supremos de civilização, mas “não prosseguem no presente e não ajudam a resolver seus problemas. Aquela felicidade criativa perdida pode ser evocada e imitada (Canova, Thorvaldsen), revivida como em sonhos (Blake) ou reanimada com a imaginação (Ingres). Pode também ser violentamente recusada (Courbet). Mas será com os impressionistas que sairá definitivamente do horizonte da arte.”187 A arte passa a ser considerada autônoma, “uma experiência primária e não mais derivada, sem outros fins além do seu próprio fazer-se.” 188 Seria, em outras palavras, a autonomização do campo artístico que cada vez mais se auto-referenciava, estabelecendo um código próprio. A autonomia da arte, articulada com as outras atividades, faz com que “o artista declare explicitamente ser e querer ser do seu próprio tempo.”189 Esse seria o tempo da modernidade, do advento de uma nova época, em que as exigências artísticas são novas, em que o clássico perde o seu valor de modelo. Tratase de um conjunto mais vasto de transformações que se refletem no plano material, a exemplo das novas tecnologias, como a invenção da fotografia que conduzirá ao fim da concepção da arte como representação do real. ARGAN compreende o novo estatuto da arte a partir da própria transformação do fazer e da produção artísticos, levando em consideração também as mudanças na maneira de agir e de se relacionar com o mundo que vão transformar, por sua vez, o campo artístico. Segundo ele, “a passagem da tecnologia do artesanato, que utilizava os materiais e reproduzia os processos da natureza para a tecnologia industrial que se funda na ciência e age sobre a natureza, transformando (e freqüentemente degradando) o ambiente, é uma 187 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 14. Ibidem. p. 12. 189 Ibidem. p. 12. 188 89 das principais causas da crise da arte.”190 O homem torna-se senhor do seu destino e da sua arte. A criação artística, além de se ancorar em uma nova concepção de mundo e em uma nova relação com a natureza, passa a se utilizar de novos materiais, explorando novas possibilidades criadoras. A pintura, bem estabelecida em seus aspectos materiais como a bidimensionalidade e a utilização da tinta para retratar o real, caminha rumo à abstração – trajetória iniciada pela própria desmaterialização do real, inaugurada por aqueles que perseguiam esse real de uma forma cada vez mais realista, isto é, os impressionistas. Surgem nomes como Cézanne, Picasso, Mondrian, Kandinsky, cuja pintura se caracteriza, entre outros aspectos, pela desconstrução do espaço de realidade construída no interior da tela. O artista, fazendo parte de um mundo onde a arte se tornava autônoma, passa a se preocupar com os aspectos intrínsecos à obra de arte, desprezando a representação da realidade em moldes clássicos. Para ARGAN, cinco são as características gerais das tendências modernistas da arte em fins do século XIX e princípios do XX. A primeira é a deliberação de se fazer uma arte em conformidade com a sua época e a renúncia à evocação de modelos clássicos, tanto na temática como no estilo. A segunda, o desejo de eliminar a distância entre as artes maiores (arquitetura, escultura e pintura) e suas aplicações nos diversos campos da economia. A terceira, a funcionalidade decorativa da arte. Como quarta característica, tem-se a aspiração a um estilo ou linguagem européia próprios e, em quinto e último lugar, o esforço em interpretar a espiritualidade que se dizia (com ingenuidade e hipocrisia) inspirar e redimir o industrialismo. 191 A análise da arte moderna feita pelo autor não se encerra nessas características. Essas se relacionam ao momento inicial do modernismo, fase acrítica, em que se aceita e se exalta o novo tempo urbano e industrial. Paralelamente ao modernismo acrítico, existiria uma outra arte moderna, ligada a questões espirituais, que criticava o rumo que a moderna civilização ocidental tomara. Era a arte moderna de Gauguin e sua fuga exterior desse universo industrializado de fins do século XIX e princípios do XX; era a arte de Van Gogh, com sua fuga interior e, para além dele, a imagem decisiva que esse artista passaria a ter para as vanguardas do século XX: o artista genial não valorizado em vida que, após a morte, teve seu trabalho reconhecido e compartilhado pelo mundo. Além disso, não se podem esquecer os movimentos 190 191 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 17. Ibidem. p. 185. 90 artísticos que resgataram os tempos idos – os pré-rafaelitas, os neo-góticos, a arte primitiva, a arte oriental – , procurando no passado e em culturas diferentes, referências para uma arte fora do mundo industrializado ocidental. Já nos primeiros anos do século XX, surgem movimentos artísticos, contestando de forma mais intensa os pressupostos da arte ocidental e a modernização que ocorria e se mostrava inexorável para todo o mundo. Na obra de Jeanne Louise Milde, encontram-se presentes quase todas as tendências iniciais do modernismo. Sua arte é uma arte de seu tempo, preocupa-se com a utilização da arte no cotidiano (foi professora de um curso de artes aplicadas e produziu diversos utilitários na vida). Além disso, pertence a uma tradição européia de desenvolvimento das artes. Finalmente, em relação ao aspecto espiritual, sua obra possui características que a ligam ao simbolismo, tais como a representação de estados de espírito marcada por uma visão individual; títulos como Timidez, Angústia, A Espera e Ternura – que revelam uma preocupação com a dimensão humana da civilização e não uma ode ao progresso. A artista não renunciou à evocação dos modelos clássicos, mas esses eram usados por necessidade de estudo e não como modelos a serem seguidos à risca. Jeanne Milde, com todas as contradições do moderno/antigo, fazia parte de um mundo que se modernizava, de um modernismo inicial. Relacionava-se não a movimentos como futurismo, cubismo, surrealismo, e sim ao modernismo simbolista, esse modernismo menos crítico e engajado. Fazia uma arte de seu tempo, sem ser, contudo, panfletária, sem manifestos que propusessem rupturas radicais e estabelecessem o completamente novo; em suma, uma arte não vanguardista. 192 Definir e enquadrar a arte de um indivíduo é sempre tarefa árdua. Corre-se o risco de reduzir a complexidade da obra artística a partir de um único olhar, forjando, muitas vezes, uma interpretação que lhe é exterior. Mas, se não se realiza o estudo, 192 Para a definição de vanguarda conferir o livro RIBEIRO, Marília Andrés. Neovanguardas, Belo Horizonte anos 60. 1997. De acordo com a autora, vanguarda seria o que se encontra à frente, é a “ruptura com uma tradição passada através do choque, da surpresa e do escândalo visando a construção de um futuro promissor e utópico” A autora toma como aspecto de suma importância a questão estética: a problemática do trabalho não se estabelece a partir de uma determinação puramente política, o caráter permanente e renovador dos artistas de vanguarda, referente a aspectos estilísticos, é essencial para se compreender e analisar não só as vanguardas como também toda a História da Arte. No entanto, é fundamental a questão do caráter inovador que se coloca também em termos políticos e sociais a partir da transformação de uma dada realidade. As vanguardas históricas são identificadas com os movimentos artísticos do início do século XX, representados pelo futurismo, cubismo, surrealismo, dadaísmo, entre outros. 91 qual a função de se escrever sobre uma artista e seu tempo? Como decodificar os múltiplos significados que a arte emite, sem estabelecer um nível de compreensão, amparado pelas fontes e pela erudição? Indagar a respeito das ligações da artista com os movimentos ditos modernos é essencial para a compreensão de suas obras. É a própria artista que se diz ligada ao impressionismo, em reportagem datada de 1960: “Fui da Escola Impressionista e conservo até hoje alguns exemplares, considerando-a ainda a escola básica dos meus conhecimentos em arte, porém, apreciando muito a arte moderna na sua concepção sólida sem fantasia e sem exageros. Sobre a escultura moderna, considero uma necessidade evoluir e viver a nossa época. Como o artista é a vanguarda de uma civilização, é natural que a arte se transforme em visão e concepção diferentes.” Apesar dessa afirmação, é difícil perceber elementos impressionistas em suas esculturas. Antes, seria interessante definir o que seria essa arte impressionista, principalmente no campo da escultura, para depois verificar em que medida Milde é efetivamente tributária do movimento impressionista. Ao analisar a arte de Auguste Rodin, READ 193 o considera impressionista, partindo da perspectiva do movimento presente na obra de arte, não das características próprias da pintura impressionista que seriam os tons, a luz e a cor. Entretanto, observar como característica principal de um estilo o movimento da obra é bastante vago e impreciso: como não perceber, por exemplo, o movimento das figuras de Michelângelo? Daí a recusa em ver Mlle. Milde como escultora impressionista, movimento que adquiriu na pintura características tão claras que se torna difícil transpô- lo para a escultura. READ argumenta ainda que o impressionismo pode ser interpretado a partir da ação criativa dos pintores, que estaria baseada em sentimentos visuais: “o artista pinta seus sentimentos visuais, que podem ser ilusórios, mas o resultado está mais perto da verdade que qualquer fotografia.”194 Rodin, na interpretação realizada por este autor, retrataria aquilo que via, sendo por isso um realista visual que esculpe o que vê, que representa as suas sensações, não se limitando somente ao real. De acordo com essa abordagem, o impressionismo traria em si elementos que o aproximariam do simbolismo: resgatam-se, no impressionismo, características que seriam de cunho subjetivista - ainda que os artistas perseguissem a representação objetiva do real. Mas, 193 READ, Herbert. La escultura moderna. 1998. 92 cumpre lembrar que a questão fundamental dos impressionistas residia nas pesquisas sobre a cor – e que acabariam depois por desembocar no neoimpressionismo de Georges Seurat e Paul Signac. Portanto, as objeções de ARGAN 195 quanto à existência de uma escultura impressionista são amplamente legítimas, o que desautoriza uma interpretação impressionista da estatuária de Milde. Por outro lado, é inegável a influência decisiva do simbolismo na arte da artista belga. O movimento simbolista propôs uma linguagem que se baseasse não somente no real, mas que representasse e fosse, ao mesmo tempo, a idéia desse real, e, correspondeu, nas artes plásticas, ao simbolismo no campo literário, que ocorreu em torno de Mallarmé. O simbolismo e o impressionismo podem ser entendidos não como movimentos que se contrapõem, mas que procuraram modificar a arte a partir de diferentes pressupostos: o impressionismo modificava o valor das formas, enquanto o simbolismo transformava o conteúdo. De acordo com ARGAN, “o simbolismo se concretiza em tendência paralela e em antítese superficial ao Neo-Impressionismo: configura-se como uma superação da pura visualidade impressionista, mas em sentido espiritualista e não científico. A antítese prestava-se a ser facilmente resolvida, reconhecendo o caráter ideal ou espiritual da ciência ” 196 A arte, no simbolismo, não representaria, revelaria, por signos, uma realidade que está aquém ou além da consciência. Mas, qual era o conceito de símbolo dos simbolistas? HAUSER estabelece uma diferenciação entre símbolo e alegoria, que contribui para pensarmos o que era pretendido pelos simbolistas, embora mostre que, ao longo dos tempos, sempre existiram artes simbólica e alegórica. O símbolo já existia como meio de expressão, mas os simbolistas da geração de Mallarmé fizeram “do simbolismo como estilo poético, o objetivo consciente dos seus esforços.” 197 194 READ, Herbert. La escultura moderna. p. 17. Das características que congregariam os impressionis tas em torno a alguns pontos, ARGAN enumera cinco: “1) A aversão pela arte acadêmica dos salons oficiais; 2) a orientação realista;3) o total desinteresse pelo objeto – a preferência pela paisagem e a natureza morta; 4) a recusa dos hábitos de ateliê de dispor e copiar os modelos, de começar desenhando o contorno para depois passar ao chiaroscuro e à cor; 5) trabalho em plein-air, o estudo das sombras coloridas e das relações em cores complementares.” Além disso, afirma ARGAN em passagem sobre Rodin e Rosso: “Não é correto dizer que transferiram para a escultura a visão cromático-luminosa dos impressionistas...” ARGAN, Giulio Carlo. A Arte Moderna. p. 76 e p. 145. 196 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 82. 197 HAUSER. História Social da Arte e da Literatura. p. 924. 195 93 O símbolo “reúne a idéia e a imagem numa unidade indivisível, de modo que a transformação da idéia implica também a metamorfose da imagem”198 . Múltiplo, ele traz em si inesgotáveis possibilidades de interpretação. A alegoria seria “a tradução de uma idéia abstrata na forma de uma imagem concreta, por meio da qual a idéia continua, em certa medida, independente de sua expressão metafórica, podendo também ser expressa de outra forma”199 . A alegoria é um enigma cuja solução é óbvia, o símbolo tem que ser interpretado; a alegoria é estática, o símbolo, dinâmico. CHIPP vê o simbolismo como um dos movimentos subjetivistas de 1885-1900, com seus membros se afastando do mundo exterior e se voltando para o mundo interior, dos sentimentos, imaginando seus temas. O Manifesto Simbolista (1886) de Jean Moréas mostra as idéias centrais do movimento: “em oposição ao ensinamento, declamação, falsa sensibilidade, descrição objetiva, a poesia simbólica busca revestir a Idéia de uma forma perceptível [...] A realidade encontraria-se no reino da imaginação e da fantasia.”200 O movimento simbolista foi “resultado de novas possibilidades pela rejeição da obrigação de representar o mundo concreto e dos novos estímulos proporcionados pela exploração do mundo subjetivo.”201 O simbolismo pode, então, ser caracterizado como um movimento que rejeitou a objetividade em favor da subjetividade, afastandose da representação direta da realidade, mostrando a síntese de diferentes aspectos dessa, e sugerindo idéias por meio de símbolos ambígüos. 202 É neste registro artístico que se situa a produção artística de Milde, como se depreende dos títulos de suas esculturas e da representação dos sentimentos a partir de sua visão de mundo: a sua estátua Angústia, realizada ainda na Bélgica, as obras que representam mães e filhos todas se agregam em torno de uma imagem formada pela artista, uma imagemrepresentação que se torna o próprio título da obra, formando este um todo indivisível constituído pela obra e pelo pensamento da artista. Assim, “uma das características marcantes de sua obra é a expressão marcante do rosto que anuncia, sempre, a 198 HAUSER. História Social da Arte e da Literatura. p. 924. Ibidem. p. 924. 200 CHIPP, Herschel Browning. Teorias da Arte Moderna. p. 45. 201 Ibidem. p. 45. 202 THE THAMES AND HUDSON DICTIONARY OF ART TERMS. p. 182. 199 94 subjetividade de um sentimento em relação ao título da obra” 203 e a artista, como os simbolistas franceses, “se volta para os mitos existenciais.” 204 Nessas obras de inspiração simbolista, são notáveis a sensibilidade e a liberdade com que Milde revelava seus sentimentos – de resto, ausentes nas obras feitas de encomenda e nos bustos de personalidades (fig. 2). Essencial para a sua sobrevivência como artista em um mundo mercantilizado, essa segunda parte de sua obra destacava-se por uma fatura bastante acadêmica, desprovida de vida e sentimento pessoal. Fig. 2 Jeanne Milde. Cidadão Inglês. Madeira e gesso. 38 x 21 x 21 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro Além do simbolismo, o Art Nouveau também se encontra presente na formação artística de Mlle. Milde. O Art Nouveau floresceu, assim como o simbolismo, nas duas últimas décadas do século XIX e primeira do século XX. A Bruxelas onde viveu Mlle. Milde estava marcada pelo Art Nouveau, principalmente na arquitetura de Victor Horta. Esse estilo se caracteriza pelo uso de formas onduladas de todos os tipos, chamas, ondas, mulheres com cabelos esvoaçantes. Recusava o historicismo de 203 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.14. 204 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.14. 95 movimentos anteriores e se propunha a fazer uma arte de seu tempo. Ligava-se ao simbolismo e ao movimento de Arts and Crafts.205 O Art Nouveau era “a contrapartida, nas artes aplicadas, do simbolismo na pintura. Baseando seu pensamento no idealismo de William Morris, ainda assim, em contraste com este, aceitava totalmente a realidade do industrialismo e da produção mecanizada, com suas implicações estéticas. Viu o novo movimento (embora evitasse a expressão Art Nouveau), como uma revolução necessária contra conceitos tradicionais, e considerou seu desejo de criar um ambiente de harmonia total, que por sua vez tornasse a vida mais harmoniosa como a base do futuro.”206 Em parte da obra de Mlle. Milde, encontram-se bancos, biombos, pequenos alto-relevos para a decoração, que caracterizam-se pela utilização de elementos do Art Nouveau. Mas que elementos seriam esses? Seria principalmente a temática naturalista, de flores e animais presentes nessas obras (Figs. 3 e 4). Em uma divisória de sua autoria que hoje encontra-se no Museu Mineiro, percebem-se claramente esses elementos: a divisória é entalhada a partir de tema s como folhas e aves e, ademais, é claramente um objeto de cunho decorativo. Fig. 3 Jeanne Milde. Sem Título. Madeira. 21.5cm x 17,2cm x 6,6 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro 205 206 THE THAMES AND HUDSON DICTIONARY OF ART TERMS. p. 21. CHIPP, Herschel Browning. Teorias da Arte Moderna. p. 52. 96 Fig. 4 Jeanne Milde. Sem Título. Madeira. 21.5cm x 17,2cm x 6,6 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro ARGAN enumera outras características para esse estilo que não se encontram presentes na arte da pequena belgo-brasileira: motivos derivados da arte japonesa; preferência por motivos baseados nas curvas e arabescos, e recusa da proporção e do equilíbrio simétrico. 207 Sendo um fenômeno tipicamente urbano, o Art Nouveau levava um determinado tipo de arte, para o cotidiano. Uma arte com características bem definidas e que fazia parte da Bruxelas onde a artista cresceu e foi educada. Mlle. Milde, apesar de iniciar “uma nova prática da arte como produção utilitária, contrutiva”, não “abandona suas atividades de Belas Artes.”208 O Art Nouveau não se estabeleceu como um estilo escultórico a exemplo do simbolismo, vertente à qual a artista belga-brasileira se liga. Era um estilo decorativo. Se suas obras mostram-se simbolistas, em alguns momentos elas são tomadas por uma simplificação que pode se relacionar ao Art Déco, estilo decorativo assim denominado após a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, acontecida em Paris em 1925. Incentivava-se o uso de materiais luxuosos mas, em contraste com o Art Nouveau, as formas do Art Déco eram muito simples e massivas. 209 Ligava-se mais aos novos tempos industriais de despojamento das formas. O primeiro texto crítico que se tem notícia que relaciona a arte de Mlle. Milde a esses movimentos artísticos modernos é de autoria de Ângelo Oswaldo, publicado no 207 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 199. VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.15. 208 97 ano de 1984. É um dos textos que a posiciona dentro do desenvolvimento da arte moderna: “Entre o requintado e elaboradíssimo depuramento do art nouveau de um Victor Horta, ousando a elegância esculturalmente sóbria e sensual da arquitetura maior que legou a Bruxelas, e a modernidade do simples, proclamada nas formas esculpidas pelo art decorativismo – ao largo das explosões cubistas, do arbitrário dadaísta, do surrealismo visionário e da tensão expressionista – Jeanne Milde encontrou a sua vertente. A forma clássica tocada pela vibração do simbolismo aparece como fonte emanadora de suas mais sensíveis emoções. Sua escultura traz a marca translúcida do espírito que, entre as duas Guerras, cristalizou, paralelamente ao fluxo de rupturas, a projeção serena do primado simbolista [...] Aos poucos, lentamente, na medida de sua produção rarefeita, vencendo o encapsulamento mineiro e estimulada pela força mental que a sustenta em boa forma física ao cabo de longos anos de estafante atividade no magistério, a artista atingiu um plano de extrema simplificação culminando a paciente busca da forma pura.” 210 Nota-se como o crítico relaciona a obra da artista aos diversos movimentos: simbolismo, Art Nouveau, Art Déco. A análise das esculturas de Mlle. Milde encontrase justamente na busca de elementos dos diversos estilos modernos. Outras críticas acerca da obra de Milde também caminham na mesma direção: “Desde seus tempos de estudante em Bruxelas, Milde revela uma escultura pura, sensível e sensual. Tocada pelo simbolismo e influenciada, mais tarde, por aspectos da art déco e do expressionismo, mescla a uma notável concepção clássica formal, a leveza dos volumes e movimentos, conferindo uma espetacular longilineidade a suas peças.” 211 Nessa análise, acrescenta-se a influência do expressionismo em sua obra. Mlle. Milde procurava dar vazão aos sentimentos e expressá- los em seus traços. Entretanto, esse expressionismo encontra-se distante do alemão - do movimento Die Brücke (a 209 THE THAMES AND HUDSON DICTIONARY OF ART TERMS. p. 20-21. OSWALDO, Ângelo. A obra de Jeanne Milde em meio século de Minas. Estado de Minas. Belo Horizonte 4 de abril 1984. 211 ÁVILA, Cristina. Mlle. Milde – a escultura do sensível. In: Jeanne Milde, Zina Aita, 90 anos, 1990. p. 15. 210 98 ponte) - e do expressionismo francês - dos fauves (feras) 212 , em seus aspectos formais. Mas se compreendermos o expressionismo para além desses movimentos, a arte de Mlle. Milde também pode possuir alguns traços expressionistas, principalmente suas obras sociais, como Os retirantes e O pescador de rede (fig. 9). Da definição dada por ARGAN, pode-se refletir acerca do expressionismo como a antítese do impressionismo, ao mesmo tempo que o pressupõe, pois “ambos são movimentos realistas, que exigem a dedicação total do artista à questão da realidade, mesmo que o primeiro a resolva no plano do conhecimento e o segundo no plano da ação. Exclui-se, porém, a hipótese simbolista de uma realidade para além dos limites da experiência humana, transcendente, passível apenas de ser vislumbrada no símbolo ou imaginada no sonho. Assim se esboça, a partir daí, a oposição entre uma arte engajada, que tende a incidir profundamente sobre a situação histórica, e uma arte de evasão, que se considera alheia e superior à história.” 213 Na arte de Milde, marcada pelo simbolismo, que a perpassa ao longo das décadas, há espaço também para o expressionismo, marcante em algumas obras de Milde realizadas no Brasil, de acordo com Ivone Luzia VIEIRA, a partir da década de 1930. 212 213 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 227. ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p.227. 99 III.II – Desenvolvimento da escultura moderna A escultura, assim como a pintura, sofreu transformações profundas na forma e no conteúdo em fins do século XIX e, principalmente, na primeira metade do século XX. Os críticos da arte moderna vêem na escultura um certo “atraso” em relação ao desenvolvimento da pintura moderna. Mlle Milde, artista do século XX, liga-se, em parte considerável de suas obras, a movimentos de fins do século XIX e princípios do XX. Entretanto, não há como falar de sua produção artística sem abordar o desenvolvimento da arte moderna, a arte com a qual Milde tinha contato mesmo vivendo nas Minas Gerais, em um meio de pouc as trocas de idéias no campo das artes plásticas. O primeiro passo é compreender sua própria concepção da arte escultórica. Suas definições podem ser consideradas clássicas, no sentido de estabelecerem divisões entre os diversos tipos de arte e o que ela denominava Arte. Para Mlle. Milde, a Arte (com A maiúsculo), que merecia estar em exposições, era aquela que respeitasse a escultura como uma forma artística bem estabelecida: a escultura como uma forma tridimensional que retratasse algo, seja da realidade, do sentimento ou da imaginação. Os materiais utilizados nas suas obras escultóricas eram também os materiais tradicionais: o barro, a madeira e o gesso, esse último usado em peças que um dia desejava ver moldadas em bronze (nesse caso enquadra-se a escultura As Adolescentes – fig.16). A arte escultórica do século XX ultrapassou esses limites estabelecidos na arte de Mlle. Milde. O que a artista teria de vanguardista, seus objetos realizados em terras brasileiras com elementos encontrados nessa própria terra, nunca foram vistos por ela como obras de Arte. Não se pode, no entanto, deixar de constatar que existia também uma arte que se relacionava ao cotidiano da artista, uma arte que retratava uma sensibilidade que poderia atingir a todas as pessoas a partir da educação. Entretanto, a elaboração de uma Arte Maior seria privilégio de pessoas que soubessem manejar bem os elementos próprios da escultura, os verdadeiros escultores. No século XIX, a escultura havia se entregado a um academicismo e a um historicismo que a faziam parecer congelada no neoclassicismo. Dentro dos estudos da arte moderna, poucos escultores são considerados: fala-se de Rodin como o artista que 100 conseguiu redimir a escultura, recuperando “para a arte da escultura os valores escultóricos” 214 Existiram artistas como Medardo Rosso (escultor), Auguste Degas, Henri Matisse (pintores e escultores), que se embrenharam por caminhos da escultura mas que não conseguiram um rompimento tão intenso na escultura como o que foi propiciado por Cézanne e, posteriormente, pelos cubistas na pintura. Somente em princípios do século XX aconteceu o rompimento com a tradição escultórica, fazendo com que os artistas se voltassem para aspectos intrínsecos da escultura e desconstruíssem a concepção de escultura existente em momento anterior, em um movimento paralelo ao que acontecera na pintura. De acordo com ZANINE, a escultura, no século XIX, mostrava espírito conservador- naturalista, sendo uma arte “em situação desfavorável para corresponder à pesquisa e aos meios criativos que se manifestavam em pintura naqueles anos.”215 Um dos problemas detectados por ZANINE é o de que a escultura teria adotado, desde o Renascimento, métodos mais adequados aos procedimentos pictóricos, com a atenção do escultor voltando-se mais para “a elaboração da superfície do volume do que a valorizá-lo em termos de profundidade [...] decide-se ainda pelos efeitos óticos no approach prospéctico da figura representada, obedecendo a princípios de visualidade que lhe são menos específicos.” 216 . Compreende-se essa posição de ZANINE no concernente à observação do “atraso” da escultura em relação à pintura: a escultura não começara, ainda, o seu desenvolvimento rumo à abstração moderna. Entretanto, uma crítica que pode ser feita em relação a essa posição, que busca uma valorização da profundidade do objeto tridimensional em detrimento da superfície, baseia-se na própria abertura que acaba por ocorrer com o surgimento de uma nova forma artística, o objeto. No objeto, as diferentes artes plásticas (pintura e escultura principalmente) se encontram presentes. Em princípio, a utilização de características que são menos específicas à escultura poderia, até mesmo, possibilitar a transformação da arte. O crítico norte-americano Clement GREENBERG, incentivador do expressionismo abstrato de Jackson Pollock e que via na arte de Pollock o que de mais novo havia na arte na década de 40, realiza críticas sistemáticas sobre a arte moderna, 214 READ. Herbert. La escultura moderna. p. 19. ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna. p. 17. 216 Ibidem. p. 17. 215 101 investigando o desenvolvimento dessa arte nos séculos XIX e XX. A passagem que se segue, de autoria do crítico em que diz passar a arte a uma especialização cada vez maior com os homens estabelecendo um gosto pelo real, imediato, é elucidativa quanto ao desenvolvimento da arte moderna e do mundo moderno, “... o qual deseja que a pintura, a escultura, a música e a poesia se tornem cada vez mais concretas, limitando-se estritamente ao que há nelas de mais palpável, isto é, seus meios, e abstendo-se de tratar ou de imitar o que reside fora de seus efeitos exclusivos [...] a sensibilidade moderna reclama a exclusão de toda a realidade externa ao meio da respectiva arte – ou seja, a exclusão do tema.”217 A arte moderna passa a ser uma arte preocupada com seus próprios meios, não mais com aspectos exteriores, como a busca de se retratar a realidade. Com relação à escultura, GREENBEG dá a ela um caráter ora espacial, ora ótico, observando a mistura que ocorre entre a pintura, a escultura e a arquitetura. Ele frisa, em artigos de sua autoria, o aspecto espacial e óptico da escultura, deixando de acentuar o seu aspecto tátil – a escultura deveria tornar-se uma forma no espaço, colocando de lado as “injunções da gravidade e da massa”. GREENBERG enfatiza a opticalidade da escultura que, como toda forma, deveria existir em termos ópticos realizando “o aspecto mais positivo da estética modernista.”218 O aspecto principal a ser considerado na arte escultórica, seria o ótico? O espacial? O volume e o táctil, aproximando-se da arte sensorial, a ser desenvolvida em momento posterior? Essas são questões de fundo da própria definição do que vem a ser uma escultura e que demonstram que, além da arte em si, deve se observar o próprio conceito existente por detrás da forma elaborada. Resumindo em breves linhas o desenvolvimento da escultura, vê-se que os diversos críticos da arte moderna observam na escultura, assim como na pintura, o desenvolvimento rumo à abstração em movimentos que aconteceram na Rússia, na Alemanha, na França, nos Estados Unidos, na Holanda e em outros países. Dentre as mudanças fundamentais, podem ser enumeradas as que se seguem: a escultura adquire 217 GREENBERG, Clement. A nova escultura. Clement Greenberg e o debate crítico. p. 67. Este ensaio A Nova Escultura foi publicado em Partisan Review em junho de 1949 e revisto na revista Arts Magazine de junho de 1997. 218 Ibidem. p. 67. O crítico norte-americano, em vários de seus textos, defendia a existência de aspectos intrínsecos de cada uma das artes plásticas. Neste texto específico, ele trata da questão da escultura 102 uma consciência de si mesma; é marcada por padrões abstratos, assume uma função construtiva de ampla envergadura; substitui a relação direta artista-natureza pela de artista-pesquisa interior da forma; transforma a figuração a partir de artistas como Picasso, Brancusi e Henry Moore. Os cubistas e os construtivistas russos tiveram papel fundamental nesse desenvolvimento da escultura moderna, assim como ocorreu com a pintura. 219 Os cubistas transformaram a forma de representação anterior com suas colagens e mesmo com os experimentos escultóricos de Picasso (a cabeça de mulher de Picasso é datada de 1910). A escultura era, para Picasso, um campo de reflexão sobre a arte moderna. De acordo com ZANINE, os cubistas realizaram obras que possuíam uma não- identificação expressa com a natureza. Eles buscaram uma realidade auto-suficiente, fenomenológica, para a arte e a utilização de novos materiais – suas pesquisas abriram caminho para o desenvolvimento do construtivismo. A arte construtivista de Naum Gabo, de Antoine Pevsner e de Tatlin se engajou na “realidade de uma civilização modificada a fundo pela tecnologia.”220 Anteriormente, a problemática homem/tecnologia já havia sido abordada por Boccioni, no movimento futurista. Aliás, Tatlin “realizou as primeiras construções inteiramente não referenciais a protótipos figurativos nos mesmos anos em que Balla fazia voltejar o fio de ferro no espaço.” 221 Os movimentos da arte moderna se pretendiam universalistas e acabaram por atingir toda a Europa, expandindo-se pelas demais áreas do globo. Essa breve passagem mostra, em linhas gerais, o panorama escultórico na primeira metade do século XX, levando em consideração a trajetória em direção à abstração. Entretanto, a artis ta cuja obra está sendo aqui analisada não se identificou com as vertentes que levaram ao desenvolvimento da escultura como abstração. Examinar os movimentos que ocorreram nas artes ao longo da primeira metade do século XX fornece subsídios para elucidar a modernidade de Milde em Belo Horizonte: moderna, com formação na tradição acadêmica européia; moderna, pertencendo a uma modernidade de fins do século XIX, com traços do Art Déco dos como parte de uma espaço que seria o da própria arquitetura, misturando as diversas formas artísticas no espaço. 219 ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna. 1971. 220 Ibidem. p. 303. 221 Ibidem. Tendências da Escultura Moderna. p. 199. 103 princípios do século XX. Uma artista moderna em Belo Horizonte, mas uma artista moderna já não tão moderna na Europa das vanguardas do século XX. Na Bélgica, parte pequena dos artistas já havia se integrado às vanguardas artísticas no momento em que Mlle. Milde realiza seus estudos, ainda que tardiamente em relação ao que ocorria na França e na Alemanha. 222 O movimento expressionista e as vanguardas se desenvolveram na Bélgica após a 1ª Guerra Mundial, justamente no momento de ingresso da escultora na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas (1918). Os escultores Georges Minne e Constantin Meunier inspiraram gerações fora das fronteiras belgas, no momento anterior à 1ª Guerra Mundial, mas não obtiveram aprovação na Bélgica. 223 . Algumas obras desses escultores possuíam características expressionistas, e pode vir daí a influência expressionista na arte de Milde que afloraria no Brasil: “A sua escultura se limpa de artifícios, rejeita mais e mais a matéria no deliberado compromisso com a espiritualidade que lhe infunde a artista, numa transfusão de alma do criador para o objeto criado. Partindo do processo clássico – simbolista, condicionado por algumas características que as décadas de vinte e trinta nitidamente imprimiram em seu trabalho, ela compôs um novo binômio, no qual se conjuraram, harmoniosamente, uma figuração sugerida pelo expressionismo e a solução formal resolvida à maneira concreta, dentro de um vocabulário geometrizante.”224 Na Bélgica, na década de 20, já haviam aparecido movimentos de vanguarda em Bruxelas e Anvers, com a participação de escultores como Georges Vantongerloo, Oscar Jespers e Jozef Cantré, que se aproximavam do abstrato. Ou seja, no momento em que Milde freqüentava os ateliês da Real Academia, as vanguardas já se encontravam presentes em Bruxelas. A artista iniciaria, no Brasil, o caminho rumo a uma arte mais limpa, menos rebuscada – uma arte que os críticos caracterizam como influenciada pelo Art Déco. A trajetória que a artista percorre em território brasileiro se aproxima do desenvolvimento vivido pela arte européia: expressionismo e simplificação das 222 HOOZE, Robert (org).L’Art Moderne en Belgique. 1992. Ibidem. p. 08. Outros escultores belgas também realizaram obras ligadas ao naturalismo: Victor Rousseau (professor de Mlle.), Ernest Wijnants; Georges Grard e Charles Leplae; a uma introspecção: Erick Wouters, Constant Permeke e Oscar Jespers; e a influências do exótico: Henri Puvrez. In: ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna, p. 63. 224 OSWALDO, Ângelo. Estado de Minas. 2ª Seção. 1o fevereiro 1994, p. 08. 223 104 formas. Mas essa trajetória não é linear, a artista retoma, ao longo de sua vida, as diversas correntes da arte às quais se relacionou. 105 III.IV – Tradição escultórica: Rodin, Georges Minne e Constantin Meunier. Os mestres da escultura belga tiveram importante influência na obra de Mlle. Milde – Rudder, Matton, Dubois, Marin e Rousseau, nomes já citados no primeiro capítulo como mestres da artista na Real Academia. Mas a arte, a percepção do momento artístico encontra-se além da Academia, encontra-se no meio artístico europeu, no meio artístico belga. Acreditando-se na existência de um espírito do tempo, no melhor estilo da história das mentalidades, pode-se afirmar que, vivendo em uma determinada época marcada pelo espírito do tempo, as pessoas seriam tocadas por esse espírito. No entanto, ao se estudar uma individualidade, devem-se considerar as incongruências existentes quando se restringe o indivíduo a um modo de pensar de um certo momento histórico. Ao mesmo tempo em que o artista é atingido por um “espírito do tempo”, possui, outrossim, um “espaço de liberdade significativa”225 , o que ocorre com Mlle. Milde. Assim, a artista também escolhe suas influências: Rodin, influência assumida, Georges Minne e Constantin Meunier. Acadêmica e clássica de formação e moderna no espírito, assim pode ser caracterizada a pequena artista. Que escultor no primeiro quarto do século XX não se deixou tomar por algum sentimento em relação a Rodin? Alguns autores o colocam como aquele que resgatou o caráter próprio da escultura na segunda metade do século passado. Realmente, ao longo do século XIX, a escultura esteve marcada por obras monumentais, baseadas em pressupostos acadêmicos, que ressaltavam temas específicos de determinada região, determinada nacionalidade. É o momento das grandes esculturas comemorativas, colocadas em locais públicos na Europa. Em Bruxelas, as esculturas se encontram nas ruas, nas praças, fazendo parte da vida das pessoas que transitam pela cidade. A arte de Jeanne Milde em muitos aspectos se assemelha à de Auguste Rodin, podendo ser estabelecido um diálogo de suas obras com a produção artística desse mestre da escultura européia. Rodin também teria a marca dos movimentos simbolista e impressionista, e seria sensível “às sutilezas fantasiosas do Art Nouveau.”226 Rodin foi o responsável pela retomada de concepções referentes à escultura antiga, afastando-se da escultura somente ligada a comemorações e feitas para ocupar espaços públicos, “mas a contribuição fundamental de Rodin reside na compreensão 225 226 LEVI, Giovanni. Les usages de la biographie. 1989. ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna. p. 29. 106 genuína dos problemas da forma e de sua inserção no espaço.”227 A diferença fundamental de Rodin em relação à pintura de Cézanne foi a permanência da herança fundamental da tradição escultórica: ainda que tenha rompido com as formas da arte neoclássica predominante na escultura, permaneceu ligado a Michelangelo e Fídias, escultores que admirava e tinha como exemplos. 228 Para ARGAN, Rodin vem antes modificar a concepção de monumento do que transformar a própria escultura, procurando superar a contradição entre espaço fechado e forma aberta, ultrapassando o equilíbrio clássico com uma monumentalidade exaltada e mesclando “Praxíteles e Michelangelo com o simbolismo e o Art Nouveau.”229 Milde também buscava conjugar os clássicos com movimentos modernos de fins do século XIX como o simbolismo e o Art Nouveau. Rodin era um humanista, dedicado a servir a humanidade e dar à sua obra uma dimensão pública, não somente um espaço público na cidade sem um sentido humano. 230 Não por acaso, antes de morrer, já havia estabelecido que sua casa e as obras que nela se encontrassem tivessem um destino público: seria transformada em museu que guardaria toda a sua produção. Jeanne Milde também tinha esse desejo, em grau menor, mas com a mesma concepção do mestre europeu, pois, antes de morrer, suas obras e seus arquivos pessoais foram doados ao Museu Mineiro. Dos escritos de Rodin, temos o seguinte excerto que pode servir de reflexão sobre a própria concepção de arte de Mlle. Milde: “Concebe a forma em profundidade. Indica claramente os planos dominantes. Imagina as formas como dirigidas até você, toda vida surge de um centro e se expande de dentro para fora. Ao desenhar, observa o relevo, não o perfil. O relevo determina o contorno. O principal é ser comovido, amar, esperar, tremer, viver. Seja um homem antes que um artista.”231 Observa-se na passagem a importância dada ao espaço e à tridimensionalidade da escultura, ainda que sem considerar o espaço circundante. O central no espaço seria 227 ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna. p. 29. READ. Herbert. La escultura moderna. p. 10. 229 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. p. 145. 230 READ. Herbert. La escultura moderna. p. 14. 228 107 a própria escultura, independente do espaço circundante. O importante seria o relevo, com a luz, não o perfil. Fig. 5 Jeanne Milde. Volúpia Maternal. Bronze. 35 x 22 x 23cm. Antes 1945. Coleção particular Fig. 6 Jeanne Milde. Volúpia Maternal (detalhe). Bronze . 35 x 22 x 23cm. Antes 1945. Coleção particular. Jeanne Milde, em suas obras leva esse relevo em consideração como em Volúpia Maternal (figs. 5 e 6), ainda que em outras, como Súplica, Surpresa, Espera e Carinho (fig. 7), haja uma simplificação da linha rumo ao Art Déco. 231 READ. Herbert. La escultura moderna. p. 14. 108 Fig.7 Jeanne Milde. Carinho. Entalhe em madeira (jacarandá). 41x17x 10,2cm.1979. Acervo Museu Mineiro Além desses aspectos, Rodin, nesta passagem, diz que se deve ser um homem antes que um artista, mostrando tanto o humanismo existente em suas obras como todo o sentimento existente ao se realizar uma obra de arte: há de se comover, amar, esperar, tremer, viver, para dar vida à obra de arte. É preciso cultivar os sentimentos, transformá- los em obras, no melhor da tradição simbolista, simbolismo também presente em Jeanne Milde. Assim como Rodin, a artista também era uma humanista que valorizava o ser humano, seja partindo da sua arte como representação de uma individualidade que faz parte do todo, seja partindo da sua forma de ensinar, participando de uma corrente de ensino europeu que privilegiava a psicologia e o individual no desenvolvimento de habilidades específicas (ver Capítulo 1, ítem II). Da influência de Rodin é a própria Mlle. Milde quem fala, dando os vestígios para se trilhar o caminho da sua integração dentro de uma tradição escultórica: “Eu tive uma base acadêmica muito rígida por causa dos meus professores. E, felizmente, não fui muito obediente porque o clássico mata um pouquinho seu entusiasmo de 109 artista, obriga você a ser assim, assim... e a juventude não suporta!!! Então, obedeci, fui escrava um certo tempo, mas fui muito admiradora dos impressionistas, por exemplo, eu fui muito admiradora de Rodin. Porque Rodin cortou tudo isso, foi espontâneo e fez coisas grandiosas, de uma expressão de grande personalidade como também profissionalmente, materialmente. Ele modelava de uma forma toda diferente e isso me impressionou muito, eu tinha nessa época vinte e cinco anos.”232 Fig. 8 Auguste Rodin. Eva. Fonte: AUGUSTE RODIN. Catálogo de exposição realizada no Museo de Bellas Artes de Sevilha, janeiro a março de 2000. p. 54. Existe uma obra de Milde em particular, que exemplifica de forma direta a influência exercida por Auguste Rodin sobre a artista. Comparando a escultura Eva (fig. 8) com a obra Sem Título (fig. 9) de Mlle Milde pode-se observar a semelhança entre as duas. A diferença encontra-se principalmente no tamanho das referidas esculturas: a de Rodin em tamanho natural e a da belga em pequenas dimensões. Mas a essência da obra parece ser a mesma: o inacabado da escultura, a textura da 232 ESTADO DE MINAS. Março 1984. 110 representação da pele, a imagem de uma alma angustiada com algo que havia sido feito... A de Rodin leva ao extremo essas características, a de Milde apenas as sugere. Talvez essa seja uma das diversas interpretações que uma obra simbolista permite, uma vez que as obras simbolistas formam um todo indivisível – título, obra, objetivo do autor - que é reelaborado pela interpretação dada pelo espectador. Fig. 9 Jeanne Milde. Sem Título. Bronze. 52,0 x 16,0 x 16,0. S/data. Coleção Particular As obras realistas de Constantin Meunier influenciaram as obras de Mlle Milde que possuíam cunho social. Daí Mlle. Milde também haver sido influenciada em obras suas pela temática realista (fig. 10), retratando o lado do trabalhador, de figuras presentes no espaço das ruas de Belo Horizonte. Principalmente na década de 30, de acordo com estudos realizados sobre sua obra, as esculturas de Milde foram tocadas por um realismo que, por vezes, aproxima-se de um expressionismo. 233 233 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.15. 111 Fig. 10 Jeanne Milde. Pescador de Rede. Moldagem em gesso. 45,3 x 19,0 x 32,5 cm. 1970. Acervo Museu Mineiro Em fins do século XIX, Constantin Meunier era um reconhecido escultor de trabalhadores como personagens heróicas. Artistas europeus do período se deixaram tomar por uma admiração profunda por seus trabalhos e o adotaram como modelo para seguir uma estrada que os ligava ao seu próprio tempo e aos problemas sociais existentes naquele momento, deixando de lado o academicismo das Escolas de Arte. 112 Fig. 11 Constantin Meunier. Ecce Homo. 1890. Fonte: HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. p. 36. Mesmo sendo um escultor realista, “Em certas obras, ele conseguia, contudo, adaptar completamente sua linguagem plástica à angústia de seus personagens. Em esculturas como Ecce Homo (fig. 11) e Femme du peuple (fig. 12), a fisionomia dos personagens igualmente frisada pelos críticos – mostra uma linguagem nova pela qual Meunier se une ao expressionismo.” 234 234 HOOZE, Robert. Antes da 1ª Guerra Mundial. L’Art Moderne en Belgique. p. 37-38. 113 Fig. 12 Constantin Meunier. Femme du peuple. Aproximadamente 1890 Fonte : HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. p. 37. Já Georges Minne esculpiu obras que demonstram uma influência direta nas de Mlle. Milde: na escolha dos temas, no conteúdo, na forma da escultura... Por ser um simbolista assumido, a semelhança é clara em grande parte de suas obras. Além disso, percebem-se traços expressionistas em alguns de seus trabalhos, o mesmo ocorrendo com os de Mlle. Milde: “Diante das obras de Milde – autênticos ícones das primeiras criações que vão puxar o fio modernizante das artes em Belo Horizonte -, e respeitando inclusive sua produção, melhor seria falar daquelas situações de passagem entre as estéticas do final do século XIX (o simbolismo, em especial) e o modernismo. De um lado estão alegorias e símbolos, de outro figuras do cotidiano e ênfase aos temas da expressão. Igualmente digno de nota, nessas peças algo dispersas e produzidas ao sabor das circunstâncias, está uma tensão entre despojamento e interesse pela forma, sempre conjugada com 114 um interesse por valores psicológicos, em alguns casos vizinhos do que, hoje, se entende como expressionismo.” 235 Escultor belga e estudante da Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, Georges Minne seria um “representante do simbolismo belga”, combinando “sensibilidade e tendência social”, realizando um “afastamento da realidade”, utilizando o expressionismo em algumas de suas obras. Em suas esculturas eram temáticas freqüentes: mãe e filho, adolescente. Possuía alguma influência do Art Nouveau, realizando posteriormente uma “simplificação da forma” e esculturas de pequeno tamanho. Destas características, a sensibilidade aliada à tendência social, o fato de ser representante do movimento simbolista, a influência do Art Nouveau, alguns traços expressionistas e também a simplificação das formas, são características dos trabalhos de Mlle. Milde. 236 Fig. 13 George Minne. Mère pleurant ses deux enfants. 1888 Fonte : HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. p. 33. 235 SEBASTIÃO, Walter. Para conhecer ou relembrar Jeanne Milde. Estado de Minas. 17 outubro 1997. 236 HOOZE, Robert. Antes da 1ª Guerra Mundial. L’Art Moderne en Belgique. p. 37-38. 115 Alguns grupos de Minne como Mére pleurant ses deux enfants (fig. 13) e Le fils Prodigue (fig. 14) referem-se a Rodin tanto em suas formas como em seus temas. Contudo, mesmo se Minne inicia suas obras a partir de pesquisas anteriormente já realizadas por Rodin, “a força vital de Rodin é, entretanto, convertida em uma expressão de desespero, de abatimento e de encrespamento. É remarcável a liberdade que tem Minne a respeito das formas anatômicas.” 237 Fig. 14 George Minne. Le fils prodigue. 1896 Fonte: HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. p. 34. Dentre os personagens criados por Minne, encontra-se L’adolescent agenouillé, (fig. 15) que se contrasta com seus persona gens angustiados anteriores, mostrando certa paz e graça: as deformações e a vivacidade do modelo se unem a uma superfície abstrata de linhas e superfícies contornadas.” 238 237 HOOZE, Robert. Antes da 1ª Guerra Mundial. L’Art Moderne en Belgique. p. 37. 116 Fig. 15 George Minne. L’adolescent agenouillé. 1898 Fonte: HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. p. 35. Uma das obras mais conhecidas de Jeanne Louise Milde é justamente As Adolescentes (figs. 16 e 17) sendo o tema o mesmo da obra do simbolista Minne (fig. 15). Tem uma simplicidade de formas, sem trazer, no entanto, as deformações presentes na obra do artista belga, mostrando-se, em certa medida, muito mais clássica em sua essência. Só que no trabalho de Milde estão representadas figuras femininas, enquanto a obra de Minne retrata um homem adolescente. 238 Ibidem. p. 38. 117 Fig.16 Jeanne Milde. Adolescentes. Modelagem em gesso. 94 x 62 x 16 cm. 1937. Acervo Museu Mineiro Fig.17 Jeanne Milde. Adolescentes. Modelagem em gesso. 94 x 62 x 16 cm. 1937. Acervo Museu Mineiro 118 Outro tema bastante freqüente em obras simbolistas é o de mães e filhos. Mlle. Milde retratou esse tema de diversas formas, mostrando de diferentes maneiras a relação mãe e filho. Em Meu Bebê (fig. 18), a mãe, sintetizada em linha que desprezam o detalhe e buscam a essência, é terna – o amor e o carinho ao filho estão claros na obra. Fig.18 Jeanne Milde. Meu Bebê. Moldagem em Gesso, pátina com anilina e goma-laca. 31,5 x 10,8 x 16,5 cm. 1969. Acervo Museu Mineiro Em Meus Filhos (fig. 19), toda a ternura da obra anterior é substituída por uma ligação mais visceral: os filhos formam um todo com a figura materna cuja expressão é, ao mesmo tempo, triste e resignada. O entalhe lembra o próprio ato de entalhar, com sulcos na madeira, mostrando uma maneira diferente de trabalhar com a superfície escultórica. 119 Fig. 19 Jeanne Milde. Meus Filhos. Entalhe em madeira (aroeira vermelha). 51,5 x 15,3x 15,5 cm. 51,5 x 15,3 x 15,5 cm. 1979. Acervo Museu Mineiro Já em Ternura (fig. 20), a mulher possui um olhar distante, parecendo que, ao mesmo tempo em que segura o filho em seus braços, seu pensamento encontra-se alhures. Essa terceira escultura mostra-se diferente das outras duas – nestas últimas, o pensamento das mães encontra-se naquele momento retratado ou nas injunções que levaram àquele momento. A diferença dada a uma temática em comum reflete sentimentos diversos e ilustra o próprio sentido da arte simbolista – cada obra forma um todo indivisível e aberto a interpretações que devem ter em conta a forma, o conteúdo, o pensame nto da própria artista e, por que não, o pensamento daquele que vê a obra. 120 Fig.20 Jeanne Milde. Ternura. Gesso, anilina, goma-laca. Moldagem x pátina. 35 x 22 x 23cm, 1970. Acervo Museu Mineiro A representação do corpo feminino é outra constante em suas obras. De acordo com a crítica, “Jeanne Milde trabalha a repressão da condição humana da mulher no mundo moderno; particularmente dá ênfase ao corpo feminino, misterioso e expressivo.” 239 Apesar de se perceber a importância da figura feminina nas obras de Milde – suas representações de sentimentos são sempre realizadas a partir de figuras femininas – não é possível observar em suas esculturas a figuração da “repressão da condição da mulher em um mundo moderno.”240 De qualquer forma, é elucidativa sua opção por retratar os sentimentos sempre a partir de figuras femininas: não são nunca homens que representam os diversos sentimentos humanos. 239 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.14. 240 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.14. 121 III.V – O Brasil na obra de Mlle. Milde: entre o exótico e a identificação. Outra referência para as obras de Jeanne Milde seriam as transformações que sofreram no momento em que ela se estabeleceu em terras brasileiras: modificaram-se na temática e na forma, com o seu caminhar rumo ao Art Déco. As esculturas Iara (fig. 21), Deusa do Amazonas (fig. 22), Coral (fig. 23), como também os trabalhos referentes às mulheres e homens do povo, mostram em que medida o ambiente brasileiro interferiu na vida da artista. Fig. 21 Jeanne Milde. Iara. Madeira. 85 (altura) x 80,1 (diâmetro) cm. S/data. Acervo Museu Mineiro Se a forma procurada é a européia, o conteúdo passa a ser brasileiro, assim como o material utilizado na confecção das obras: “Com mármore eu não trabalhava, só com madeira. Gostava da madeira porque senti que a madeira era a alma aqui, do lugar. Era um prazer imenso talhar madeira. Até mesmo este 122 quarto (onde estamos) foi feito por mim, esse móvel foi feito com essa madeira de caixote. Eu quis mostrar que quem tem inteligência pode facilitar as coisas.” 241 Fig.22 Jeanne Milde. A Deusa do Amazonas. Madeira. 116x 34,5x 32,5 cm. S/data. Acervo Museu Mineiro O incipiente ambiente artístico de Belo Horizonte não possuía escultores com sólida formação como Mlle. Milde. As trocas que a artista poderia ter no meio artístico eram poucas, mas, ao mesmo tempo, ela é influenciada por uma cultura diferente, a brasileira e, principalmente, a indígena. Essa última, tema de várias obras de sua autoria, seria a verdadeira cultura brasileira no entender da artista. Um pouco da visão de Mlle. Milde sobre o Brasil encontra-se refletido em suas obras: tanto o exótico do indígena como as diversas figuras urbanas e os diversos bustos de personalidades revelam a constituição de uma imagem diferente da paisagem belga. 241 SUPLEMENTO LITERÁRIO. nº 60. Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais. Junho 2000.Entrevista da artista concedida a Gastão Frota em 1997. 123 A simbologia que ela vai utiliza ao retratar o indígena brasileiro encontra-se na cultura indígena: a Iara (fig. 21), divindade dos rios, que seduz pela sua beleza; uma Deusa do Amazonas (fig. 22) com feições indígenas assim como Coral (fig. 23), retratado no meio de folhas que também apresentam figuras com feições indígenas. Ademais, essas obras são muito mais simplificadas, com as linhas bem definidas, do que as obras que antes havia realizado na Bélgica. Fig.23 Jeanne Milde. Coral. Entalhe em madeira (imbuia), pátina com anilina, cera. 95 x 47,5 x 6,0 cm. S/ data. Acervo Museu Mineiro No final da década de 29, já haviam acontecido, no Brasil, manifestações modernistas e movimentos modernos, como a Semana de Arte de 22, o modernismo literário em Belo Horizonte, o modernismo em Cataguases. E em Belo Horizonte, nas artes plásticas, alguns artistas, como Zina Aita e Pedro Nava 242 , já haviam incursionado pelas linguagens modernas. A modernidade artística já fazia, pois, parte 242 VIEIRA, Ivone Luzia. Vanguarda modernista nas artes plásticas: Zina Aita e Pedro Nava nas Minas Gerais da década de 20. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. 124 do panorama brasileiro. Em 1929, com a chegada ao Brasil, as obras da escultora belga se modificam. A artista “deixa que os traços da cultura brasileira primitiva misturem-se, enlacem-se à sua arte, plena da erudição tradicional da cultura européia...” 243 Em Belo Horizonte foi bem acolhida, sendo que, nas lembranças que guardou, já na velhice, os problemas maiores que vivenciou aparecem na Bélgica. O Brasil é retratado como um espaço agradável e receptivo, ainda que com alguns problemas. 244 A artista não viu empecilhos à sua entrada no meio artístico de Belo Horizonte. Ela veio para o Brasil à procura de um espaço diferente no qual pudesse cada vez mais ser ela mesma e onde pudesse realizar suas obras com liberdade de atuação. Próxima de movimentos artísticos de fins do século XIX e início do século XX, sua obra se transformou à medida em que tomou contato com novos ares e novos movimentos. O significado das mudanças não é linear – por vezes a obra da artista vai e volta, realizando uma trajetória cheia de regressos a motivos, a formas anteriores. Simbolista principalmente, sua obra também se ligou ao Art Nouveau, ao expressionismo e ao Art Déco. Mas a referência acadêmica, clássica, européia, continuaria presente nos trabalhos dessa moderna artista belgo-brasileira. 243 VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. p.15. 244 Entrevista dada ao CRAV em 1996. 125 CONSIDERAÇÕES FINAIS Escrever sobre a vida de uma pessoa não é tarefa das mais fáceis. Escolhem-se acontecimentos, dentre os vestígios que restaram de uma trajetória. O estudo de uma vida serve para clarear alguns pontos, assim como para obscurecer outros que em análises anteriores mostravam-se cristalinos. Escrever sobre Jeanne Louise Milde não foi, nem será, tarefa das mais fáceis. Foram muitas as dúvidas ao longo da escrita, cortinas de fumaça rondaram o texto, até que esse, enfim, estivesse pronto. Mas ainda há muito o que dizer, o que pesquisar, sobre essa personagem por vezes enigmática, por vezes revelada a partir de uma escultura, uma fala da artista, um escrito de outrem... Ao se eleger uma pessoa para que dela se realize uma biografia, pensa-se que há algo a dizer. Há um significado a ser atribuído a tal personalidade em um determinado espaço ao longo de certo tempo. E Mlle. Milde foi presença significativa no panorama artístico de Belo Horizonte. Diversos foram os caminhos que trilhou. Alguns foram retratados nesta dissertação. Inicialmente, a vida de estudante e profissional na Bélgica, essencial na constituição de seus valores e de sua personalidade, foi objeto de análise. A Real Academia, local de seus estudos, possuía um status já estabelecido naquele país. Era uma instituição tradicional, cujos professores foram fundamentais na formação de Mlle. Milde. Além disso, há de se lembrar o grande valor adquirido pela escultura belga em fins do século XIX e princípios do XX, embora a escultura tenha sido relegada a segundo plano com o desenvolvimento da pintura moderna. Além dos estudos, Mlle. Milde, no momento em que foi chamada para trabalhar no Brasil, já iniciara sua trajetória como artista belga em terras européias: o Prêmio de Roma, os prêmios aos quais concorreu, os inúmeros primeiros prêmios adquiridos como aluna na Academia, as exposições que realizou, ilustram um início bem sucedido na Bélgica. Uma trajetória que, ao que tudo indica, frutificaria, se tivesse permanecido em sua cidade natal. Escultora formada pela Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, desde cedo mostrou-se uma pessoa convicta daquilo que queria realizar: esculturas. Além disso, almejava ser uma boa profissional naquilo que se dispusesse a fazer. Realizou seus objetivos, por isso disse ao final da vida: “Eu 126 sonhava toda minha vida ser uma coisa especial, não ser como todo mundo. E graças a Deus eu sou...” 245 Sua vida como artista na Bélgica se interromperia com o advento de outros tempos – o tempo do Brasil, de Belo Horizonte. Veio para Belo Horizonte ensinar aquilo que melhor sabia fazer, sua arte. Ensinou a professoras, que por sua vez iriam transmitir a seus pequenos alunos as técnicas aprendidas com a mestra belga. Para Belo Horizonte, veio como representante de uma outra cultura, a belga, a européia, para participar da Reforma de Ensino de Francisco Campos. Essa Reforma trazia em seu interior a idéia de formação de um novo cidadão. Só que, partindo de um ideal conservador, o governo buscava moldar o cidadão para servir aos interesses da parcela dominante da população. Entretanto, a vida, a arte e o ensino de Mlle Milde encontram-se além de objetivo governamental. Suas atividades como professora na Escola de Aperfeiçoamento revelam uma preocupação com a formação de suas alunas que ultrapassava a sala de aula. Desejava formar um público sensível às manifestações artísticas e, ao mesmo tempo, professoras que soubessem aproveitar o que o solo mineiro proporcionava. Utilizava em seus utilitários – cadeiras, mesas – a madeira encontrada nessas terras e ministrou aulas de marcenaria às suas alunas. Sua arte e sua vida transformaram-se ao tomar contato com novas culturas – belorizontina, mineira, brasileira - e com novas possibilidades de mundo. Jeanne Milde passa então a ocupar um lugar em Belo Horizonte – o lugar da artista belga que veio trazer ensina mentos do outro lado do Atlântico, para uma terra menos desenvolvida que a belga, uma terra onde havia muito o que fazer. Em Belo Horizonte, fez-se presente em diversos campos, ensino, artes plásticas... E também foi tocada por uma nova cultura: novas artes, como a de Aleijadinho, novos temas... Como mulher e artista fez parte da vida social, artística e cultural da cidade. Foi a primeira mulher e artista profissional a se estabelecer na capital de Minas. Com sua presença no meio artístico, abriu espaço em Belo Horizonte para a participação feminina e para a arte moderna que posteriormente se estabeleceria nas terras da capital mineira. Tem-se notícia de sua ampla participação no meio artístico nas décadas de 30 e 40. Ao lado do conservador Aníbal Mattos, que também teve seus méritos como incentivador das artes na capital mineira, e ligando-se aos nomes da arte moderna no 245 Depoimento de Jeanne Louise Milde presente em vídeo. In: TAVARES, Mariana. Um Século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. 127 Salão do Bar Brasil de 1936, Mlle. Milde realizou, com sua participação artística, a junção entre o antigo-acadêmico e o novo- moderno. Conviveu com artistas das mais diversas vertentes, ainda que seu nome não tenha sido recordado para trabalhar na Escola do Parque, do mestre Guignard. Tampouco foi chamada para esculpir obras para o Complexo da Pampulha. Novos tempos, de um ambiente dominado pelo moderno, haviam chegado à capital belorizontina. Era o tempo da escultura moderna de Franz Weissman, no qual a arte de Milde só caberia como passado – um passado esquecido por quase trinta anos. Somente nos anos 80 sua arte é resgatada, agora como parte integrante da História da Arte em Belo Horizonte. Sua presença na cidade ficara adormecida por vários anos, tendo ela retornado à vida artística de Belo Horizonte com a pesquisa da Professora Ivone Luzia Vieira. Nesse período de ostracismo, a artista ha via passado alguns anos no Rio de Janeiro, período do qual não se levantaram acontecimentos, dada a escassez de tempo para a realização deste trabalho. Sua arte é também marcada pelo moderno-tradicional. É a própria artista que se diz clássica e moderna. Seria uma arte de transição? Pode-se chamá- la assim. Arte em que o modo de fazer, a concepção do que era a arte, permaneciam ligados a valores clássicos, característicos da sua formação, mas também arte tocada pelo moderno, em sua essência transcendental-simbolista, em sua simplificação das formas Art Déco, nos volteios do Art Nouveau... Jeanne Louise Milde era uma artista moderna, se se entende o moderno na arte constituindo-se a partir do neoclassicismo e do romantismo como entende ARGAN. Seu simbolismo inicial configurava-se como arte moderna. Além desse modernonovo, o antigo-clássico também encontrava-se presente em sua obra. Sua produção permanecia presa a pressupostos clássicos, por isso não se pode ver em seu fazer artístico, em sua concepção de arte, uma arte vanguardista. Um modo antigo de ver a arte, transparecia em sua concepção artística clássica. Para Mlle. Milde, as obras de Arte eram figurativas e realizadas a partir de muito estudo e dedicação. Certamente, ela nunca consideraria seus utilitários como obras de arte juntamente a obras das Artes Maiores. Sua vida e sua arte juntam-se em um trajeto, uma viagem, entre o clássico e moderno; o tradicional e o moderno, o antigo e o novo. Não só ela, mas também sua arte, entrelaçando-se em seu tempo de vida, conjugam-se nesse antigo-moderno integrante da modernidade. 128 Ainda haveria muito o que dizer, dados a coletar... Suas obras de arte, dados sobre sua vida, encontram-se perdidos em jornais e coleções particulares não consultadas. Como pesquisar tantos materiais, com as atribulações da vida moderna, com o espaço de tempo reservado à escrita de uma dissertação? Contudo, não se pretendia com este trabalho a recuperação de toda uma vida. Visava-se unicamente, a partir da abordagem de alguns acontecimentos de uma vida, trazer uma modesta contribuição à compreensão desta vida como também de certo espaço em determinada época. Alguns pontos a respeito da participação feminina na arte no século XX em Belo Horizonte foram aqui esclarecidos. Também foram discutidas algumas questões sobre o antigo e o moderno na capital de Minas e o clássico e o moderno nas artes. Conclui-se essa dissertação com a certeza do muito que resta a escrever sobre essa artista belgo- mineira. Cabe lembrar, porém, que este texto deve ser ampliado por novos estudos que ajudem a compreender, não somente a vida dessa artista plástica, mas também a questão do moderno e do antigo em Belo Horizonte, bem como a posição da mulher na capital mineira. Estudos biográficos servem para constatar a relativa liberdade do indivíduo, que se movimenta a partir de normas culturais, de significados já atribuídos a ações por um certo grupo. Jeanne Louise Milde agiu dentro de determinadas conjunturas – Bruxelas, Belo Horizonte, Real Academia, meio artístico – mas também escolheu livremente parte do caminho a ser percorrido em sua longa trajetória. 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E DOCUMENTAIS Livros ANDRADE, Moacyr. República Decroly. Belo Horizonte: Edições Pindorama, 1935. ARGAN, Giulio Carlo. Arte e crítica de arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1988. ______________. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992. ______________. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. BARBOSA, Ana Mae. Arte-Educação. IN: ZANINE, Walter. História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walter Moreira Salles/Fundação Djalma Guimarães, 1983. BAZIN, Germain. História da História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1989. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da Modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 1986. BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. _______________.A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974. BUENO, Antônio Sérgio. O modernismo em Belo Horizonte: década de 20. Belo Horizonte: UFMG/PROED, 1982. BURKE, Peter. A Escrita da História. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992. CARDOSO, Ciro Flamarion. História e Paradigmas Rivais. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. CHADWICK, Whitney e COURTVRON, Isabelle. Amor e Arte. Duplas amorosas e Criatividade artística. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995. CHADWICK, Whitney. Women, art and society. Londres: Thames and Hudson, 1990. CHARTIER, Roger. A História Cultural. Lisboa: Difel, 1990. CHIPP, Herschel Browning. Teorias da Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1993. DIAS, Maria Odila L. S. Teoria e métodos de estudos feministas: perspectiva histórica do cotidiano. IN: COSTA, A. Uma questão de gênero. 130 DUBY, Georges e PERROT, Michelle. Escrever a História das Mulheres. História das Mulheres no Ocidente. São Paulo: EBRADIL, Porto: Edições Afrontamentos, 1993. FLAX, Jane. Pós-modernismo e relações de gênero na teoria feminista. IN: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. GEERTZ, Cliffort. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989. GINSBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. _____________. Mitos , emblemas e sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. GREENBERG, Clement. A nova escultura. Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Funarte Jorge Zahar, 1997. GRUBERGER, Neide Ures. Mulheres artistas no Brasil. In: AUAD, Sylvia M. Von Atzingen. Mulher – cinco séculos de desenvolvimento na América – capítulo Brasil. Belo Horizonte: Federação Internacional de Mulheres da Carreira Jurídica, CREZ/MG, Centro Universitário Newton Paiva, 1999. p. 397-406. HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, 1972. HEILBORN, Maria Luiza. Usos e abusos da categoria de gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque (org). Y Nosotras Latinoamericanas? Estudos sobre gênero e raça. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 1992. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Pós-Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. _____________. A historiografia feminista: algumas questões de fundo. IN: FUNK, S. C. Trocando Idéias sobre a mulher e a literatura. Florianópolis: UFSC, 1994, P. 453-63. HOOZE, Robert (org). L’Art Moderne en Belgique. Anvers: Fonds Mercator, 1992. JULIÃO, Letícia. Belo Horizonte: itinerários da cidade moderna (1891-1920). p.5253. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. BH: Horizontes Históricos. 1997. LANGRAVE, Rose-Marie. Uma emancipação sob tutela. Educação e trabalho das mulheres no século XX. In: THÉBAUD, Françoise (direção). História das Mulheres: o século XX. Porto: Edições Afrontamentos, 1991. p. 505-543. 131 LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs.). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984. _______________. História: novas abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. _______________. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. LE GOFF, Jacques. Antigo/Moderno. Enciclopédia Einaudi, Memória-História, v. 1, 1984, p.370-392 LENNEP, J. Van (coord). Academie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles 275 ans d’ enseignement. Bruxelas: Crédit Communal, 1987. LEVI, Giovanni. Sobre a Micro-História. In: BURKE, Peter. A Escrita da História. SP: Editora da Universidade Paulista, 1992. MELO, Ciro Flávio Bandeira de. A noiva do trabalho, uma capital para a república. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. BH: Horizontes Históricos. 1997. MICHELI, Mario de. Las vanguardias artisticas del siglo XX. Madrid: Alianza Forma, 1981. MORENO, Nuria Fernández. La construccion cultural de los dominios msculino y feminino. Espacios habitados, lugares no ocupados. IN: Astragalo. Cultura de la arquitectura y la ciudad. Espanha: Universidades Alcalá y Valladolid, n.5, nov/1996. MOURA, Antônio de Paiva. A projeção da Escola Guignard. Belo Horizonte: Fundação Escola Guignard, 1979. OLIVEIRA, Míriam Andréa de. A mulher e as artes: as pintoras da Primeira República no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. (Tese de doutorado). PEIXOTO, Ana Maria Casassanta. A Reforma de Ensino de Francisco Campos. UFMG, FAE: 1981. (Dissertação, Mestrado em Educação). PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1988. ________________. Excluidos da História: operários, mulheres e camponeses. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. PRATES, Maria Helena Oliveira. A Introdução Oficial do Movimento de Escola Nova no Ensino Público de Minas Gerais. A Escola de Aperfeiçoamento. UFMG, FAE, 1989. (Dissertação de mestrado) PRIORE, MARY DEL (org). História das Mulheres no Brasil. 2 São Paulo: Contexto, 1997. 132 ___________________. A mulher na História do Brasil. 2a edição. São Paulo: Contexto, 1989. RAGO, Margareth. As mulheres na Historiografia Brasileira. In: Silva, Zélia Lopes da (org). Cultura Histórica em Debate. São Paulo: Editora UNESP, 1995. READ, Herbert. La escultura moderna. Barcelona: Ediciones Destino, 1998. RIBEIRO, Marília Andrés. Neovanguardas: Belo Horizonte - Anos 60. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. RIBEIRO, Marília Andrés e SILVA, Fernando Pedro da (orgs). Um século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte: Fundação João Pinheiro: Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1997. SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992. SILVA, Fernando Pedro da. Resgatando a modernidade na pintura de Aníbal Mattos. In: Congresso Brasileiro de História e Arte. Porto Alegre, Instituto de Artes/UFRGS/Fapergs/CNPq, 1991. v.2. p. 121-124. SILVEIRA, Anny Jackeline Torres Silveira. O sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. BH: Horizontes históricos. 1997. SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda ao pós-moderno. São Paulo: Nobel, 1984. TELES, Gilberto de Mendonça. Vanguarda Européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1971. THÉBAUD, Françoise. Introdução. História das Mulheres: o século XX. Porto: Edições Afrontamentos, 1991. p. 09-29. THE THAMES AND HUDSON DICTIONARY OF ART TERMS. Londres: Thames and Hudson, 1984. TILLY, A Louise and SCOTT, Joan W. Women, Work and Family. New York: Holt, rinehart and Winston, 1978. VAINFAS, Ronaldo. História das Mentalidades e História Cultural. Caminhos e Descaminhos da História. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997 133 VIEIRA, Ivone Luzia. A Escola Guignard na cultura modernista de Minas. 1944 1962. Pedro Leopoldo: Cesa, 1988. VIEIRA, Ivone Luzia. Vanguarda modernista nas artes plásticas: Zina Aita e Pedro Nava nas Minas Gerais da década de 20. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. ZANINE, Walter. Tendências da Escultura Moderna. São Paulo: Editora Cultrix, 1980. ZERNER, Henri. A Arte. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs). História: Novas Abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. p. 144-159. ZÍLIO, Carlos (org.). A modernidade em Guignard. Rio de Janeiro: Ipiranga, 1981. _____________. A querela do Brasil. Rio de Janeiro: Funarte, 1982. Catálogos ACADEMIE ROYALE DES BEAUX ARTS ET ARTS DECORATIFS. Distribution de Prix, Dimanche, 21 mars 1926. Concurs de l’anée scolaire 1924-1925. Bruxelas, Typographie et Lithographie E. Guyot, 1926. ÁVILA, Cristina (e outros). Mlle. Milde, A escultura do sensível. In: Jeanne Milde, Zina Aita 90 anos. Belo Horizonte: Museu de Arte da Pampulha, 1991. DE WEERDT, Denise. Zoé, Isabelle, Louise et les autres. Vies des femmes 1830-1980. Bruxelas: Banque Bruxelles-Lambert. 16 out-30 nov. 1980. LA COMISSION PROVINCIALE DES FONDATIONS DE BOURSES D’ÉTUDES DU BRABANT. Les Concours Godecharle ont cent ans 1881-1981. Bruxelas, 1981. MERTENS, Phil. Paradise Regained. Du modéle à l’artiste. Vies des femmes 18301980. Bruxelas: Banque Bruxelles-Lambert. 16 out-30 nov. 1980. Periódicos Artigos de Revistas HILL, Bridget. Mulheres, história e revolução. IN: Varia História. Belo Horizonte: Departamento de História da FAFICH/UFMG, 1996, p.05-18. 134 ____________. Mulheres, trabalho e censo: um problema para os historiadores da Mulher. IN: Varia História. Belo Horizonte: Departamento de História da FAFICH/UFMG, 1985, p.45-66. ____________. Para onde vai a história da mulher? História da mulher e história social - juntas ou separadas? IN: Varia História. Belo Horizonte: Departamento de História da FAFICH/UFMG, 1985, p.09-21. LEVI, Giovanni. Les usages de la biographie. Annales ESC. Paris: novembredécembre 1989, no 6, p 1325-1336. PERROT, Michelle. Práticas da Memória Feminina. In: A Mulher e o Espaço Público. Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH/Marco Zero, vol.9, nº 18, agosto de 1989/setembro 1989. PIMENTEL, Thaís Velloso Cougo Pime ntel. Belo Horizonte ou o estigma da cidade moderna. In: Varia História. nº 18, 1985. Belo Horizonte, Departamento de História da FAFICH/UFMG. p. 61 - 68. SCOTT, Joan. Gender: a useful category of historical analyis. The American Historic Review, 91:5, Dec 1986. SOIHET, Rachel. Mulheres em busca de novos espaços e relações de gênero. IN: Acervo Revista do Arquivo Nacional. V.9, n1-2, jan/dez 1996. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997, p.85-94. VIEIRA, Ivone Luzia. A presença da mulher no movimento modernista do início do século. Cadernos do núcleo de estudos e pesquisas sobre a mulher. Mulher e Arte. Belo Horizonte: UFMG/Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, 1988. Periódicos consultados no Museu Mineiro, pertencentes ao acervo da artista doado à instituição ACTION NATIONALE, Bruxelas, 09 outubro 1927. AVENIR DU TOURNAISI, Tournais, 10 agosto 1927. BRANT, Celso. Diário da Tarde. 15 setembro 1945. BRUXELLOIS, Bruxelas, 16 janeiro 1928. CORREIO DA NOITE, Rio de Janeiro, 5 agosto. 1936. CORREIO MINEIRO, 25 novembro 1934. CORREIO MINEIRO, 27 de abril de 1929. Pedagogia de Lampeão Belga. COURRIER DE L’ESCAUT, Tournais, 10 agosto 1927. 135 DIÁRIO CARIOCA, Rio de Janeiro, 25 setembro 1949. DIÁRIO DA TARDE, 7 julho 1945. DIÁRIO DA TARDE, 29 de agosto de 1945. DIÁRIO DA TARDE, 3 setembro 1945. DIÁRIO DA TARDE, 6 setembro 1945. DIÁRIO DA TARDE, 15 setembro 1945. DIÁRIO DE MINAS, Belo Horizonte, 23 fevereiro 1929. DIÁRIO DE MINAS, 26 abril de 1930. DIÁRIO DE MINAS, 30 de abril de 1930. DIÁRIO DE MINAS, 17 dezembro 1931. DIÁRIO DE MINAS, 18 setembro 1949. DIÁRIO DE MINAS, 18 maio 1956. ESTADO DE MINAS, 2 de janeiro 1930. ESTADO DE MINAS, 25 de abril de 1930. ESTADO DE MINAS, 10 dezembro 1930. ESTADO DE MINAS, 7 setembro 1933. ESTADO DE MINAS, 23 novembro 1934. ESTADO DE MINAS, 15 janeiro 1935. ESTADO DE MINAS, 30 agosto 1936. ESTADO DE MINAS, 19 agosto 1945. ESTADO DE MINAS, 20 setembro 1946. ESTADO DE MINAS, 29 de março 1947. ESTADO DE MINAS, 8 abril 1947. ESTADO DE MINAS, 13 julho 1949. ESTADO DE MINAS, 20 novembro 1949. ESTADO DE MINAS, março 1984. ESTADO DE MINAS, 13 jan.1997. ESTADO DE MINAS, Feminino, 23 novembro 1997, p.09. FOLHA DE MINAS, 14 agosto de 1945. FOLHA DE MINAS, 5 setembro de 1945. FOLHA DE MINAS, 20 novembro 1949. FOLHA DE MINAS, Belo Horizonte, 26 novembro 1949. FRANCK, Roberto. Minas Gerais. Arte e Diversões. Flagrantes. S/data. GRIFFA, agosto e setembro 1943. 136 JOTTRAND, Lucien. L’eventail. Bruxelles, 7 março 1948. JOURNAL D’ANVERS, Anvers, 19 agosto 1927. JOURNAL DE CHARLEROI, Charleroi, 1º fevereiro 1928. JOURNAL DU LOUXEMBOURG, 1o junho 1927. LA FLANDRE LIBERALE, 10 agosto 1927. LA LANTERNE, Bruxelles, 1o março 1948. LA LIBRE BELGIQUE, Bruxelas, 16 janeiro 1928 LA LIBRE BELGIQUE, 18 maio 1928. LA PRESSE, 17 junho 1930. LA PROVINCE, Mons, Bélgica, 25 janeiro 1929. LA PROVINCE DE NAMUR, Namur, Bélgica, 15 fevereiro 1929. LA REVUE MODERNE, Paris: 15 agosto 1926. 26º Ano, nº 15. L’ÉCHO DU SOIR, Anvers, 9 agosto 1927. LE PEUPLE, Bruxelas,16 maio 1928. LES NOUVELLES, La Louvière, 25 abril 1928. LE SOIR, Bruxelas, 22 agosto 1930. LE SOIR, Bruxelas, 13 janeiro 1933. LE SOIR, Bruxelles, 2 março 1948. L’ETOILLE BELGE, Bruxelas, 31 janeiro 1928. L’ETOILE BELGE, Bruxelas, 14 maio 1928. L’ETOILE BELGE, Bruxelas, 6 janeiro 1928. L’ETOILLE BELGE, Bruxelas, 4 dezembro 1930. L’ETOILE BELGE, 15 outubro 1933. L’EVENTAIL, Bruxelles, 7 março 1948. L’EXPRESS, Liége, 15 fevereiro de 1929. LIEGE-ECHO, Liege, 31 maio 1928. MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 10 abril 1930. MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 14 abril de 1930. MINAS GERAIS, 5 setembro 1930. p. 10. MINAS GERAIS, 10 dezembro 1930. MINAS GERAES, Belo Horizonte, 24 maio 1931. MINAS GERAIS, 11 agosto 1945. MINAS GERAIS, 28 agosto 1945. MINAS GERAIS, 1o setembro 1945. 137 MINAS GERAIS, 2 setembro 1945. MINAS GERAIS, 14 setembro 1945. MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 20 novembro 1949. MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 24 janeiro 1951. MINAS GERAIS, 5 julho 1952. MINAS GERAIS, 29 de abril de 1955. MINAS GERAIS, 30 abril 1955. NATIONAL BRUXELLES, Bruxelas, 18maio 1928. O DIÁRIO, 12 de outubro de 1938, p.09. O IMPARCIAL, Rio de Janeiro, 5 junho 1935 O JORNAL, Rio de Janeiro, 25 julho de 1931 O JORNAL, Rio de Janeiro, 29 julho de 1931. OLIVEIRA, Álvares. Folha de Minas. Fuga à realidade. 16 out. 1938. PIGNATARO, Iolanda. Estado de Minas. Jeanne Louise Milde, Pioneira como Helena Antipoff.Belo Horizonte, 23 jan. 1980. REVISTA ALTEROSA, outubro de 1945, ano VII, número 66. REVISTA BELO HORIZONTE, agosto-setembro 1945. SANTOS, Carlos Porfírio dos. Educação e Ensino. A professora Milde e as novas mestras de Desenho e Artes Aplicadas. O Diário. Rio de Janeiro, 19 dezembro 1948. SILVA, Jair. Folha de Minas. Belo Horizonte, out. 1936. SILVA, Jair. Oropa, França e Bahia. Estado de Minas. 17 julho 1949. VEADO, Lúcia. A mulher de nossos dias. Estado de Minas. Feminino. 17 abril 1960, p. 06. Outros jornais consultados ÁVILA, Carlos. Nós vamos apresentar agora uma grande escultora: Jeanne Milde, uma belga muito mineira. Estado de Minas. Março 1984. DIÁRIO DE MINAS. 17 janeiro de 1920. P. 01. DIÁRIO DO COMÉRCIO, Belo Horizonte, 29 março 1984, p.08. DRUMMOND, Austen Amaro de Moura. A transcendência escultural da forma. Estado de Minas, 09 agosto de 1984. ESTADO DE MINAS, Feminino, 5 fevereiro 1984. P. 09. MARINA, Ana. Diário da Tarde, Belo Horizo nte, 26 de março 1984, p.13. 138 O GLOBO. Grande Rio, 07 fevereiro, 1984. p. 08. OSWALDO, Ângelo. A obra de Jeanne Milde em meio século de Minas. Estado de Minas. Belo Horizonte 4 de abril 1984. OSWALDO, Ângelo. Estado de Minas. 2ª Seção. 1 fev. 1994, p. 08. SEBASTIÃO, Walter. Para conhecer ou relembrar Jeanne Milde. Viver BH. Estado de Minas. Belo Horizonte, 17 out. 1997, p. 20. SUPLEMENTO LITERÁRIO. Nº 60. Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais. Junho 2000.Entrevista da artista concedida a Gastão Frota em 1997. TRISTÃO, Mari’Stella. Museu Mineiro faz retrospectiva de Milde. Estado de Minas. 21 março 1984. P. 06. VIEIRA, Ivone Luzia. A juventude de uma obra. Suplemento Literário. Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. P.15. Vídeos FROTA, Gastão. A vida na arte de Jeanne Milde. Belo Horizonte, 2000. Vídeo de Entrevista dada ao CRAV (Centro de Referência Audiovisual da Prefeitura de Belo Horizonte) em 1996. TAVARES, Mariana. Um Século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. Transcrição de Entrevista. VIE INTELECTUELLE PAR CARL HENRY. Entrevista dada por Jeanne Milde em 6 agosto de 1947 à Radio-Diffusion Nationale Belge (transcrição da entrevista consta no acervo da artista doado ao Museu Mineiro) 139 ANEXOS Anexo I Dados presentes no Livro de Registro da Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, Registro número 18850: DADOS BIOGRÁFICOS: Na Academie Royale de Beaux-Arts et Ecole des Arts Decoratifs: Anées Cours suivis Concours pour Concours Distinctions les places pour les prix obtenues 1918-19 Dessin d´ornem. 2ème D 17 7 1918-19 Peinture ornem. 1ère année 6 10 1919-20 Dessin tête et torse antiques 1 8 1919-20 Modelage tête antique jour 1 2 2ème Prix 1919-20 Pratique et mise au point – 1 Prix 1 Prix avec 1er année 1920-21 Modelage torse antique soir 1 distinction 11 3 1er Accessit 1920-21 Etude dessin figure 1920-21 Pratique et mise au point – Prix avec 2ème année distinction 1921-22 Modelage figure antique soir 1 1 1921-22 3 malade Modelage nature jour 1922-23 Modelage figure antique soir 1921-22 Modelage nature jour Prix HC 2 1 1er prix avec distinction 1922-23 Modelage composition 1922-23 Pratique et mise au point 3ème année 1923-24 Dessin modèle 2 2ème Prix 2 Prix avec distinction 12 140 Anées 1923-24 Cours suivis Modelage nature Jour Arts Concours pour Concours Distinctions les places pour les prix obtenues 1 2 2ème Prix 1 1er Prix 2 Prix avec distinc. 1 1er Prix avec déco 1923-24 Modelage Composition déco. 1924-25 Modelage nature soir 1924-25 Modelage composition 1 distinction 1924-25 Pratique et mise au point – 1 Prix 1 Prix 3ème année 1924-25 Grand Concours Sculpture 1924-25 Modelage Nature Soir 1 141 Anexo II Complemento da ficha funcional de Jeanne Louise Milde presente no Instituto de Educação de Minas Gerais: Iniciou suas atividades profissionais como modeladora da Fábrica Reper para manequins, em Bruxelas, durante um período de 5 anos. Diplomas: 1916: Curso secundário, Colégio Berbemont, Bruxelles 1917: Curso de corte em escola reconhecida pelo governo belga. 1918: Curso menager – reconhecido pelo governo 1922-23: Escola de Belas Artes de Bruxelas, Seção de Escultura do Natural com 1º Prêmio, distinção e medalha de bronze. 1923-24: Escola de Belas Artes de Bruxelas, Seção de Escultura composição com 1º Prêmio, distinção e medalha de bronze. 1924-25: Escola de Belas Artes de Bruxelas, Seção Natural e Composição com 1º Prêmio, distinção e medalha de bronze. 1924-25: Escola de Belas Artes de Bruxelas, Seção de Escultura do Natural com 1º Prêmio, distinção e medalha de prata dourada. 1924-25: Escola de Belas Artes de Bruxelas, Seção de Prática (moldagem, talhe de pedra e madeira) com 1º Prêmio, medalha de prata. 1925: Escola de Belas Artes de Bruxelas, 1º Prêmio Godecharle com a composição estátua: “La femme en prois a la frayeur” 1927: Escola de Belas Artes de Bruxelas – Grande Prêmio Viagem a Roma – Jornais L´echo d´ostende e Le Soir de 4 de junho de 1927. 1928: Aquisição de escultura intitulada Danse Folle pelo Museu Nacional de Belas Artes de Bruxelas 1929: Convidada pelo governo do Estado de Minas Gerais, presidente Antônio Carlos, conforme contrato assinado na Bélgica, para ocupar o lugar de professora e orientadora dos cursos de Desenho, Escultura e Artes Aplicadas nos cursos: 142 Normal, Profissional, Superior e Aperfeiçoamento. Jornais do Rio e Minas publicaram reportagens a respeito. 1929: Condecoração pelo rei Alberto da Bélgica. Publicado nos jornais Le Soir na Bélgica, Minas Gerais e Estado de Minas em Belo Horizonte. 1930: Medalha de Ouro no Salão de Belas Artes no Rio de janeiro. Publicado em jornais do Rio. 1940: Aquisição de uma obra “Água – sua alegria e sua embriaguez”, pelo Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. 1947: Um ano de férias concedido pelo Presidente Milton Campos sem ônus para o estado. 1948: Realizou uma exposição em Bruxelas na Galeria Toison d´Or. 1948: Convidada e chamada de volta pelo Governador Milton Campos e pelo Secretário Dr. Abigar Renault, conforme carta de 22-02-1948 da Sra. Amélia Monteiro de Castro, diretora do Instituto de Educação, para continuar o curso de especialização de desenho e artes aplicadas para professoras. 1948: Convidada a trabalhar no curso de Professores Rural Fazenda do Rosário e no curso de férias para curso secundário, organizado pelo Secretário Abgar Renault. 1948: Aquisição de uma obra Ma maman pelo Museu nacional de Belas Artes de Bruxelas 1949: Convidada a trabalhar no curso de Prof. Pré-primário criado e organizado pelo Professor Abgar Renault. 1949: Convidada e contratada por ato do chefe da polícia do Estado de Minas Gerais Sr. Campos Cristo. Escola Rafael Magalhães onde ensina desenho, levantamento topográfico, modelagem e moldagem. Publicado no Jornal Minas Gerais de 12 de julho de 1949 e no Estado de Minas de 13 de julho de 1949. 1950: Convidada pelo secretário Abgar Renault a trabalhar no curso de Biblioteconomia. 1951: Condecorada por decreto na Bélgica com a ordem Chevalier de l`ordre de la Couronne publicado nos jornais: Libre Belgique de 16-01-1951 e Minas Gerais de 24-01-1951 1952: Convidada pelo Secretário de Educação a trabalhar no curso de férias para Professoras de curso secundário. 143 1952: Convidada a trabalhar na Escola Senai para dirigir e orientar o ensino nos cursos vocacionais em Belo Horizonte. 144 Anexo III Documento mimeografado presente no acervo da artista doado ao Museu Mineiro. Sem data. Pontos para exames de suficiências –Trabalhos Manuais- 1º Ciclo 1º - Instrumentos empregados com madeira. Classificação. Descrição, conservação e preceitos técnicos de utilização. 2º - Os trabalhos manuais e seus objetivos. Objetivos profissionais. Objetivos educativos. Princípios e normas psicológicas a serem atendidos. O lema “aprender-seá fazendo” e o seu conceito. O ensino ativo e a prática dos trabalhos manuais. 3º- Os três principais grupos de material utilizado na execução dos trabalhos manuais. As madeiras, as argilas e as massas plásticas. Os metais. Material complementar: fios, fibras, papel cartão, arames. Associação dos diversos materiais. 4º - A eficácia e o alcance do ensino ativo nas classes de trabalhos manuais. O sistema de projetos e a sua essência. Concepção e realidade. Valores culturais e morais. Exatidão e precisão. Medida e sinceridade nos propósitos de ação. 5º - Encaixes, rebaixos e chanfros de madeira. Rebaixos curvos, côncavos e convexos. Encaixes marchelados e seus diversos tipos. Encaixes em rabo de andorinha. 6º - O programa dos trabalhos manuais nas duas primeiras séries. Sua importância, significação e finalidade. Sua feição técnica. 7º - Regularização e tratamento das superfícies curvas nos trabalhos com madeira. Peças cilíndricas, cônicas, em calotas esféricas ou elipsoidais. Emprego de galvanite. Acabamento das superfícies. 8º - Repuxados e latoaria. martelados e cinzelados. Recortes e serreados de metal em folha ou chapas de ferro batido. Cortes metais a frio. Trabalhos em chapa. Planificação dos sólidos e traçados do material. Ferramentas e operações de furar. 9º - O planejamento no sistema de projetos. Sua apresentação e desenvolvimento. Imitação, criação e “leitura do plano”. O desenho como linguagem no planejamento. 10º - Junções e articulações de madeira. Espécies mais comuns. Junções sobrepostas de meia madeira, de meia madeira cruzada, de meia madeira com talão. Articulações com tômos, cubos ou carrilhas. 145 11º - As bases objetivas de observação e de experiência nas aulas de trabalhos manuais. Compreensão dos problemas relacionados com as outras matérias do curriculum ginasial e seu tratamento. 12º - Breve notícia sobre as argilas e as massas plásticas. Operações principais da moldagem. 13º - O “ensino de oportunidade” e a sua aplicação em classes de trabalhos manuais. Tipos e valores de matérias primas. Procedência e uso prático. 14º - Representações e estereorâmicas. O barro de modelação. Ferramental necessário. Acabamento. Modelagem do relevo. 15º - Os trabalhos manuais e sua influência na definição de tendências, do gosto e da capacidade dos alunos. A “orientação educacional” e os trabalhos manuais. 16º - Modelagem de estereoramas para os exercícios da geografia física. Reprodução em pasta de papel. 17º - Os projetos coletivos e os trabalhos em cooperação. Cunho educativo e valores morais. As atividades manuais nas classes mistas. Técnica e aplicação. 18º - Representação em alto relevo. Modelagem de folhas e flores. Reprodução de formas de gesso. 19º - As madeiras e seu aproveitamento. Os metais e seu aproveitamento. As argilas e as massas plásticas. usos e valores. Procedência, uso prático e técnica de aproveitamento. 20º - As bases objetivas de observação e de experiência nas aulas de trabalhos manuais. Compreensão dos problemas relacionados com as outras matérias do curriculum ginasial e seu tratamento. 146 Anexo IV Lista de obras presente no arquivo pessoal da artista. Título da obra Material Data Vaidade gesso (realizada na Bélgica) s/data O resto do meu amor prata 1947 Retrato inglês gesso 1949 Meu cachimbo terracota 1950 Sonhando gesso 1962 Vera-retrato baixo-relevo em gesso 1964 Novidade baixo-relevo em canela 1969 Meu bebê gesso 1969 Meu Segredo imbuia 1970 O pescador de rede gesso 1969 Ternura gesso 1970 Coral baixo-relevo em imbuia 1975 A Deusa do Amazonas canela 1976 Os estivadores imbuia 1977 Carga Pesada terracota 1978 Solidão pau cetim 1978 Pé de lâmpada aroeira 1978 Carinho jacarandá 1979 Meus filhos aroeira vermelha 1979 Surpresa jacarandá 1982 Súplica imbuia 1982 A Espera imbuia 1982 As mulheres no cais jacarandá - esboço 1982 O filósofo jacarandá - esboço 1982 Baixo-relevo apagador gesso-pedra 1958 Luz indireta gesso patinado em bronze 1958 Adolescentes gesso 1932 Iara braúna 1976 147 Motivo decorativo imbuia-divisória 1977 148 Anexo V Lista de obras presente no arquivo pessoal da artista. Título Proprietário/local onde se Material encontra Hebe Sr. Louis Einch - Sabará Bronze Faunesse Sr. Louis Einch - Sabará Terracota Dançarina Sr. Louis Einch - Sabará Bronze Retrato do Sr. Louis Einch Sr. Louis Einch - Sabará Bronze entrada do Sr. Louis Einch - Sabará Bronze Retrato de Barbaçon??? Sr. Louis Einch – Sabará Trabalho na escritório Busto de Benedito Pará de Minas – Valadares Busto busto em bronze Praça busto em bronze pública de Benedito Eugenópolis – Praça pública busto em bronze de Benedito Cambuquira – Praça pública busto em bronze João de Ginásio em Pedra Azul Bronze Valadares Busto Valadares Baixo-relevo de Almeida Busto do Prof. Otaviano de Em Praça Pública na Santa Bronze Almeida Casa Homenagem a Rio Branco Dr. J. Lambert baixo-relevo em bronze Busto do Dr. Gilberto da Escola de Polícia Rafael Gesso Silva Porto Magalhães Alegoria à Pedagogia, com o Entrada do Instituto de Gesso retrato do Pr. Antônio Carlos Educação em Belo Horizonte Ribeiro de Andrade Alegoria à Pedagogia, com o Entrada retrato do Dr. do Instituto de Gesso Francisco Educação em Belo Horizonte Campos 149 Manhã inquieta Sr. Horst; Inês Brenck Bronze Medo Sr. Horst; Inês Brenck Bronze Primavera Sr. Horst; Inês Brenck baixo-relevo em gesso Ventania Carlos Alberto Fonseca Terracota Índio Sra. Lily Kraft ou Vera Bronze Milton Gomes Saudade Sra. Lily Kraft ou Vera Bronze Milton Gomes Vaidade Sra. Lily Kraft ou Vera em madeira pau cetim Milton Gomes Cântico à Virgem Sra. Lily Kraft ou Vera baixo-relevo em bronze Milton Gomes Castidade Sr. Silviano Brandão busto em terrracota Garimpeiro Dr. Osvaldo de Andrade Terracota Os emigrantes Dr. Alfredo Camare Santiago Terracota Retrato do Dr. Edmundo Dr. Edmundo Paulo Pinto Gesso Paulo Pinto Fauno Dr. Edmundo Paulo Pinto Gesso Última Palavra Dr. Edmundo Paulo Pinto Gesso Retrato do Dr. Francisco Dr. Francisco Fernandes Gesso Fernandes Visão de Guerra Dr. Francisco Fernandes Gesso Retrato Dr. Celso Machado Dr. Celso Machado Gesso Remorso Dr. Túlio Ribeiro Bronze O Bambi M. Jeanne Paque; Dra. Nelly Imbuia Enfadado Paque e Mlle. Louise Dubois Bronze Malícia Minha mãe Bronze Dr. Alfredo Carneiro Bronze Santiago A antipática Dr. Alfredo Carneiro Bronze Santiago A antipática Sr.Arthur Denis Retrato do Dr. Gilberto da Dr. Gilberto da Silva Porte Bronze busto em gesso 150 Silva Porte Mulata Priscila Freire Mulher Dr. Ângelo Bronze Osvaldo de Gesso Araújo Santos 151 Anexo VI DADOS DE CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO REALIZADA NA GALERIE MAISON D’OR Data: 21 de fevereiro a 4 de março de 1948 em Bruxelas. “Aprés une absense de 19 ans Jeanne Milde expose quelques sculptures faites au Brésil. Laureate avec distinction et grande distinction de l’Academie Royale de Belgique (classe de sculpture) Prix Godecharle en 1925. Prix de Rome en 1927. Ouevre acquise, en 1928, par le Gouvernement belge avec Danse Folle. Invitée en 1929, par le Gouvernement du Brésil pour remanier l’enseignement du dessin et de la sculpture. Medaile d’or en 1930, au Salon des Beaux-Arts de Rio de Janeiro – Brésil. Ouevre acquise en 1940, par le gouvernement de Rio de janeiro avec Água – Sua Alegria – Sua Embriaguez. Catalogue Série de Bronze, cire perdue et terre cuite. 1 – Souvenir (saudade) à 5 exempl. 2 – Melancolie à 5 exempl. 3 – La Peur à 5 exempl. 4 – Le Secret à 5 exempl. 5 – La danse (samba) à 5 exempl. 6 – Ma maman à 5 exempl. 7 – Timidité à 5 exempl. 8 – Mélancolie à 5 exempl. 9 – Malicieuse à 5 exempl. 10 – Miroir de l’eau à 5 exempl. 11 – Pensée interieur original 12 – Matin Inquiet original 13 – Chercheux de Cristeaux original 14 – Enchantement original 15 – Tête au vent original 152 16 – Antipatique original 17 – L’Angelus original 18 – Cantique á la vierge original 19 – Faunesse (masque) 5 exempl. 20 – Tête faunesse origina l 21 – Rieuse aux Perles 15 exempl. 22 – Tête d’indien original 23 – Tête mulatiesse original 24 – Tête l’ignorante original 25 – Destin original 26 – Portrait – Médaille: Mr Peltzer (anc. Ambassadeur à Rio de Janeiro) Mme Peltzer – De mot TERRE-CUITE 27 – Printemps de la vie 28 – L’Intelectuelle 29 – Songeuse 30 – Rêverie 153 Anexo VII ANDRADE, Moacyr. República Decroly. Belo Horizonte, Edições Pindorama, 1935. Trechos do livro República Decroly nos quais aparece a figura de Mlle. Milde e nos quais refere-se, especificamente, ao Pedagogium, identificado como a Escola de Aperfeiçoamento. “O cometa dissera, no hotel, que algumas moças do Pedagogium viviam na capital sozinhas em República como rapazes, inteiramente à solta...” (p.117) Dr. Abdias: Secretário da Instrução, falava às professoras: “As senhoras – disse – vão ser as legionárias do novo ensino no interior. Vão levar a todos os recantos de nossa terra o verdadeiro sentido da Pedagogia moderna. O secretário falava com eloqüência da grandeza de sua obra de administrador.” (p. 126-127) “[...] com ela [Zuleika] apenas reduzido número de moças levava a sério o Pedagogium. Para as outras o Pedagogium era bem aquilo que o cometa palavroso e indiscreto dissera em Itacoatinga: - pretexto para as moças do interior virem namorar na capital.” (p.132) “O secretário Abdias, compreendendo que, apesar de seu surpreendente esforço, O Pedagogium, para viver, tinha que ambientar-se no regime nacional do ensino burocrático, do ensino – repartição pública, culpava do insucesso do plano governamental o Dr. Roberto Rodrigues que, nos primeiros tempos, com a confiança direta do Presidente, pondo e dispondo na organização do Pedagogium, contrariava o professorado brasileiro, humilhando-o mesmo, para só destacar o valor da ciência que ele contratara na Europa, a franco-ouro. Sem o estímulo necessário para tornar vitoriosa realização daquele vulto, que teria naturalmente de encontrar tropeços e enfrentar descontentamentos, porque destinada a refinar o magistério – o grupo seleto de professores brasileiros, designados para o Pedagogium, ficou à margem. Mestres que especialmente conheciam as questões do ensino e para os quais a bagagem dos professores estrangeiros não trazia grandes novidades, eles cumpriam, pontualmente, o seu dever, mas lhe faltava o prestígio indispensável para sua missão, pois só se 154 reconhecia no Pedagogium um valor: - o dos mestres que o Dr. Roberto trouxera!” (p.133-134). Depreciação da diretora do instituto, D. Carmela Teixeira, a chamando de incapaz. “Pedagogium! Isso, para a professora do interior, era, naquele tempo, o mesmo que a Academia de Letras para o sonetista de arraial. Tinha muito de grande e qualquer coisa de inatingível. Ainda em Itacoatinga não se sabia bem o que fôsse o Pedagogium, nem poderia supor [...] O Pedagogium era a grande realização do governo do tempo. O Secretário de Instrução concedia entrevistas aos jornais, desdobrando o plano do novo instituto. O presidente, nas suas excursões, era, em cada lugar, saudado sempre como um grande beneficiador da Instrução – referindo-se sistematicamente os oradores, enquanto foguetes pipocavam no ar, a criação admirável do Pedagogium!... Cada governo tem predileção por determinado ramo da administração. São sempre salvadores todos eles. O estadista Fulano foi o salvador da Lavoura, aquele outro, da Indústria; este das Finanças... Quando se desenrolavam tais fatos, apontava-se, especialmente, o governo como “salvador da Instrução”. Tudo se reformava no ensino, e o Pedagogium nasceu dêsse prur ido reformador e renovador. O Secretário da Instrução, lido em autores franceses e alemães, familiarizado com filósofos e pensadores, queria deixar uma obra gloriosa. Fizera a reforma do ensino, dando- lhe segundo anunciava nas suas entrevistas caudalosas aos jornais, o “verdadeiro cunho científico.” Mandara á Europa buscar técnicos. O Dr. Roberto Rodrigues, amigo do secretário, fôra incumbido de procurar no estrangeiro, a qualquer preço, as sumidades pedagógicas. Com bôa ajuda de custo, foi o Dr. Roberto e de lá trazendo, sob contratos admiravelmente clausulados e papinguemente ou, como afirmava o povo, escandalosamente, corpo de técnicos estrangeiros do ensino. Eram todos nomes conhecidos em seus países, como grandes autoridades. 155 O Dr. Roberto Rodrigues, de cada país por onde andou, trouxe um representante: da Bélgica, da Suiça, da França e da Rússia, sem que por lá, entretanto, tivesse andado. Mas Rússia é que espalhara seus filhos por todos os países, sem atender ao seu valor e à sua posição. Daí filósofos russos como garçons de restaurantes, professores de Universidade catando papel na rua, princesas russas dansando em cabarets, generais e coronéis exibindo-se em politeamas – isso em Paris, em Roma, em Londres, em Bruxelas, em Berlim, em Viena... Um repórter, a convite especial do Dr. Rodrigues, dirigiu-se ao hotel, com a curiosidade com que entraria no circo Sarrazani, para ver os bichos... O Dr. Roberto mostrava, com a satisfação do empresário feliz, os sábios que trouxera para ilustrar as nossas professoras, os quais sorriam para o repórter, mas não falavam, porque ignoravam integralmente o português. E explicava que aquele barbado, ali, era grande educador francês, aquela senhora alta, ossuda e de óculos, notável psicóloga russa; aquela criaturinha loura como um esterlino, grande escultora suiça... - Escultora? Para que? Inquiriu o repórter, bisonho. - Ora, para que? Para as artes plásticas. Vai ser ela a orientadora do ensino dessa disciplina que será executado no nosso programa (esse “nosso” era dito com acento forte, porque o Dr. Roberto também colaborara na última reforma pedagógica), simultaneamente com o ensino do desenho. A criaturinha loura, a única que em matéria de estética, se salvava no punhado de autoridades que vieram do outro lado do Atlântico para nos ensinar pedagogia, sorria para o repórter, com seus dentes claros e fortes, parecendo estar compreendendo tudo. - Mas, doutor, o povo diz que esses professores vão custar rios de dinheiro ao governo... O senhor sabe como o povo é. Certamente, há exagero. Não seria conveniente informar aos leitores por quanto fica esta embaixada tão ilustre? O repórter fez a pergunta antevendo a possibilidade de ser lançado pela sacada do hotel à rua, mas é que a pergunta lhe fora especialmente aconselhada pelo redatorsecretário de seu jornal. O rapaz perguntou, mas ficou olhando para o Dr. Roberto. Foram segundos de agonia. Não viera a agressão física, devia vir grande desaforo, pesado como aerólito, porque o Dr. Roberto era notoriamente conhecido como o homem mais irritadiço da cidade. Surpreendendo ainda o repórter, não veio também o desaforo. 156 Era a primeira vez, na sua existência, que o Dr. Roberto Rodrigues perdera a oportunidade de um desabafo. Mas com a cólera a custo sopitada, respondeu: - O povo, isto é, esta canalha ignara não está na altura de compreender a obra governamental em matéria de ensino. São uns bárbaros, uns botocudos, incapazes de penetrar o plano educacional que cogitamos dar a nossa terra. Que era a escola até aqui? Um conglomerado de alunos de inteligências diferentes, verdadeira miscelânea de capacidades, tratados todos porém, por idênticos processos e métodos. Não havia análise da inteligência, nem o estudo da capacidade de apreensão de cada discípulo. Os “tests” embora existentes no regulamento não podiam ser aplicados vantajosamente. A professora ignorava até rudimentos psicológicos, indispensáveis para conhecer a sua classe. Era irrisório também o seu preparo em Metodologia. O regulamento de que dispunhamos alinhava obrigações para as professoras, mas não as armava dos conhecimentos imprescindíveis para o desempenho de suas funções. Era, pois, um regulamento impraticável pelo magistério. Agora não! Com os técnicos que acabo de trazer, vai o professorado, que passar pelo Pedagogium, adestrar-se para exercer, em todos os cantos do Estado, o verdadeiro ensino – não essa coisa empírica que existia por aí – porque a verdade é que não estávamos muito longe da escola do Tico-tico... mas o ensino adequado ás inteligências, o ensino para o aluno, com o cunho essencialmente científico. É esse, em resumo, o espírito da nossa reforma. O Dr. Roberto falava em tom enérgico e firme, como era seu costume, olhando o repórter, na disposição de desabafar sobre ele, se lhe opusesse leve contradita. O legítimo repórter, entretanto, com uma ordem do redator-secretário para executar, tem qualquer coisa de autômato. Nos ouvidos do pobre moço a voz forte do Dr. Roberto, dissertando sobre a grandiosidade do plano educacional do governo não apagara a ordem que trouxera do jornal – saber o preço da embaixada de técnicos. Dando a sua parte a entrevista por terminada, o Dr. Roberto estendeu a mão ao repórter, como quem não quer nem mais uma palavra. - E até logo... o senhor diga essas coisas no seu jornal. Mais tarde, procure-me no Pedagogium, quando as aulas começarem. E foi dando as costas. - Doutor, mas qual o preço do contrato dos professores que o senhor trouxe? Isso, o repórter disse, num supremo esforço de coragem, temendo a tempestade. 157 O Dr. Roberto voltou-se rápido, e respondeu: - Sabe que mais? Vá... e soltou um palavrão. A professorinha loura, que estendia numa das poltronas do hotel o corpo elegante, sorriu, porque a palavra que o doutor usara tem quase a mesma pronúncia em português, como em francês... Ele percebeu a gaffe e, querendo refazer-se da cólera, dirigiu-se-lhe, atencioso: - Pardon, mademoiselle... A professora russa, engolfada na leitura de um livro e o célebre professor francês, procurando notícias da pátria num “Matin” de quatro semanas, não pressentiram coisa alguma. Dois hóspedes que passavam no corredor voltaram-se para verificar de onde partira a palavra deselegante, o que não conseguiram, porque o Dr. Roberto, disfarçando o incidente, já conversava com a celebridade loura, que ia conduzindo para o bar do Hotel. O repórter, com surpreendente capacidade de migração, de que não parecia capaz com seu corpo rechonchudo ganhava a rua. E assim se inaugurava o Pedagogium, com professores notáveis e conhecidos mas de preços desconhecidos para o povo que pagava.” (p.31-43) “Aos professores estrangeiros, inteligentes e cultos, não escapava, apesar de pouco informados das minúcias administrativas do Estado, que o Pedagogium estava em crise. Interessados no progresso das alunas, realizando o máximo possível de trabalho, produzindo conferências notáveis, esses professores observaram muito bem que o meio pedagógico do Estado não comportava um instituto daquele gênero, nas bases em que o pretendiam moldar. Os cursos normais no Brasil, sempre feitos displiscentemente, não davam normalistas, mas moças diplomadas, como, aliás, em nosso país, as Escolas de Engenharia não produzem engenheiros, nem médicos as de Medicina, nem advogados as Academias de Ciências Jurídicas. Porque estamos, diante de outras nações, mesmo aqui na América, em situação vexatória em matéria de ensino, apesar da imponência arquitetônica dos problemas que quatrienalmente os governos apresentam. Madeimoselle Madeleine, a autoridade em artes plásticas, vinda na caravana estrangeira não compreend ia a nossa organização ou, melhor, a nossa desorganização administrativa, e ignorava que aqui cada governo se julga no dever de apresentar 158 iniciativas retumbantes para propaganda de seus méritos e obter elogios, não se preocupando depois com a realização da iniciativa, como o químico inescrupuloso que, lançando seu produto, faz dele espetaculoso reclame, mas não se interessa pela segurança de sua fabricação. Por ignorar taes particularidades do sistema brasileiro de administrar e observando apenassuas aluna s na Escola, mademoiselle Madelaine responsabilizava o aluno nacional, com o seu descaso pelo ensino, pela impossibilidade de levar adiante uma instituição como o Pedagogium, obra que mademoiselle julgava de grande interesse, mas que não era só para crescer pelo esforço das lentes, precisando também da colaboração das alunas. E estas, excetuando número restrito, não se preocupavam com o Pedagogium. Preferiam pensar nos bailes das associações elegantes, nas sessões “chics” dos cinemas, nas reuniões do Odeon, a sorveteria da moda, e nos passeios de automóvel, em corridas audaciosas, pelas estradas do Retiro Saudoso, da Serra das Almas, da Granja Universo e da Lagoa da Morte, lugares pitorescos, afastados da capital 30 e 50 quilômetros, pontos prediletos de qua ntos buscavam repousar um pouco do ruído urbano ou queriam esconder-se dos olhares curiosos da cidade... Á vista de suas discípulas, algumas muito inteligentes mas desatentas, moças que trabalhavam sem tirar os olhos do relógio, preocupadas com a hora da saída, mademoiselle Madeleine chegou certa vez a dizer, francamente, ao Secretário Abdias, pedindo-lhe excusas pela sua ousadia de estrangeira, que sentia faltar- lhe, entre nós, boa argila para modelagem, o que foi dito no seu belo francês, indicando as alunas que compreenderam a frase, mas julgavam que mademoiselle estivesse reclamando melhor argila para os trabalhos diários... O secretário sorriu e compreendeu que a estrangeirinha loura tinha razão, mas o ensino entre nós era aquilo mesmo... Ela não compreendia o Brasil... Ele, sim, o entendia muito bem... “Com argila ou sem argila” – Respondeu, também em francês, à professora das artes plásticas – o Pedagogium precisava ir para adiante. O Governo assim o queria e contava com o esforço dela e de seus companheiros. Era uma demonstração de autoridade, que ele se julgava no dever de dar, embora cortesmente.” (p.136-141) 159 Anexo VIII Poema de Carlos Drummond de Andrade sobre as alunas da Escola de Aperfeiçoamento. Transcrição de recorte do Jornal Estado de Minas, sem data, presente no acervo da artista doado ao Museu Mineiro. “As moças da Escola de Aperfeiçoamento São cinqüenta, são duzentas, são trezentas as professorinhas que invadem a desprevinida Belô? São cento e cinqüenta, ou mil as boinas azuis e verdes e róseas alaranjadas e negras e também roxas, os lábios coracionais e os tons pouce petulantes que elas ostentam, radiosas? De onde vêm essas garotas, eu que sei? Vêm de Poços de Caldas, de São João Del Rei, Juiz de Fora, Lavras, Leopoldina, Itajubá, Montes Claros, Minas Novas, cidades novas de Minas ainda não cadastradas no índice corográfico do Pelicano Frade? E são assim tão modernas, Tão chegadas de Paris par le dernier bateau ancorado na avenida Afonso Pena ou Bahia que a gente não as distingue das melindrosas cariocas em férias mineiras? Que vêm fazer essas jovens? 160 Vêm descobrir, saber coisas de Decroly, Claparède, novidades pedagógicas segredos de arte e de técnica revelados por Helène Antipoff, Madame Artus, Mademoiselle Milde, mais quem? Ou vêm para perturbar se possível mais ainda a precária paz de espírito dos estudantes vadios (eu, um deles) que só querem declinar os tempos irregulares de namorar e de amar? Ai, o mal que faz a Minas, A nós, pelo menos, frágeis irresponsáveis, dementes cultivadores da aérea flor feminina fechada em pétala de reticência a Escola novidadeira dita de Aperfeiçoamento! A gente não dava conta de tanto impulso maluco doridamente frustrado ante a pétrea rigidez dos domésticos presídios onde vivem clausuradas as meninas de Belô e irrompe essa multitude de boinas, bocas, batons escarlates, desafiando a nossa corda sensível que faz Mário Casassanta autoridade do ensino que não devolve essas moças 161 a seus lugares de origem? Chamo seu Edgarzinho, responsáve l pela Escola que ponha reparo – peço- lhe – nas crianças do interior que ficaram sem suas mestras, convém destituí- las logo à tarefa habitual. Ele responde: “São ordens Do doutor Francisco Campos nosso ilustre Secretário Vá-se embora, não insista Em perturbar nossos planos racionais”. Vou-me embora. Já na esquina A boina azul me aparece sob o azul universal que faz de Belô um céu pousado em pelúcia verde. Sua dona, deslizante entre forma costumeiras, é diferente de tudo e não olha para mim e não olha para mim deslumbrado, derrotado, que vou bobeando assim. Não há professora feia? Pode ser que haja. A vista até onde o sonho alcança, cinge a todas de beleza, e a beleza, disse alguém, é mortal como punhal.” 162 Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo