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CONCURSO NACIONAL PARA O PLANO PILOTO
DA NOVA CAPITAL DO BRASIL
INTRODUÇÃO
É na periferia do desenvolvimento econômico brasileiro da década de
50 que se concretiza um dos maiores empreendimentos nacionais: Brasília. A
construção de Brasília representava muito mais do que parte de uma estratégia
de segurança do núcleo do poder brasileiro, ela foi a materialização de um
projeto de interiorização, nacionalismo e desenvolvimento nacional; a concretização de um projeto modernista tipicamente europeu em uma sociedade que
combina o moderno com o atraso.
É nesse contexto que se insere o Concurso Nacional do Plano Piloto da
Nova Capital do Brasil, um concurso que, ao contrário do que muitos pensam
quando veem os elogios feitos ao projeto de Lúcio Costa, foi polêmico e
não-consensual. Decidia-se ali não só os aspectos físicos e estruturais da nova
capital, mas também os aspectos sociais, de justiça e igualdade que a escolha
de um projeto urbanístico fomentaria.
“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em
cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o
amanhã o do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma
confiança sem limites no seu grande destino.”
Juscelino Kubitschek, 1957
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ARQUITETURA, URBANISMO, SOCIEDADE
o que é um arquiteto e urbanista?
Arquitetura e urbanismo é o âmbito profissional responsável pelas
transformações de espaços – internos e externos – em uma sociedade, com
base em critérios como conforto, estética e funcionalidade. O arquiteto e
urbanista é agente criador de novos projetos públicos e privados e transformador dos já existentes, bem como é ativo e necessário para a correta
conservação e valorização de patrimônios e monumentos, para o planejamento
de reformas, execução de obras e organização de cidades. Seu trabalho é
idealizar, aprovar e orientar a construção de residências, edifícios, praças,
parques, sistemas de transportes, sistemas de saneamento, zoneamento de
cidades e outros. Além disso, esse profissional deve conduzir-se por atitudes de
responsabilidade técnica e social, priorizando a qualidade de vida e a durabilidade das construções em associação com a preservação e melhoramento do
ambiente natural e artificial em que está inserido, sendo instrumento manejador
dos elementos novos e antigos atribuindo-lhes forma, função e significados
subjetivos.
O uso da tecnologia tem se tornado um importante aparato facilitador
da profissão desde a obtenção de matérias-primas até o levantamento de
construções e seu consequente ensaio técnico. Os aparelhos tecnológicos que
foram e vêm sendo desenvolvidos atuam como esclarecedores de dados e
valores (instrumentos de medição laboratorial), disseminadores e conferidores
das normas a serem seguidas (ABNT), espalhadores de informações e
novidades e outros. Tudo isso tem o intuito de atender às necessidades socioeconômicas, estéticas e culturais sem o comprometimento da segurança
pessoal do usuário e do ambiente, além de buscar, pois, a manutenção de um
sistema ecológico sustentável e equilibrado com a preservação dos valorosos
patrimônios das cidades. As habilidades e competências de um arquiteto e
urbanista, tendo em vista a repercussão de sua atividade profissional, são
regulamentadas pela Lei 12.378 de 31 de dezembro de 2010, a qual deu espaço
para a criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR)
seguido ainda hoje.
como o traçado urbano intefere na nossa percepção como
membro de uma sociedade?
Traçado urbano, ou malha urbana, é a trama formada pela composição
de linhas imaginárias em um mapa guiadas pelos eixos formadores do sistema
viário de uma cidade atrelada à sua consequente subdivisão espacial em
quarteirões dedicados à vida pública ou à vida privada. Essa malha é determinante na criação de espaços, na delimitação de áreas a serem ocupadas –
baseadas em seu uso – e na determinação das melhores estratégia de locação
de cada setor ao longo do perímetro da cidade em observação. Esse traçado
urbano pode ser criado sem estudo prévio, a partir apenas do crescimento
urbano e populacional dos lugares em função do tempo ou pode também ser
determinado pelo arquiteto e urbanista na fase de distribuição territorial de uma
cidade planejada, como foi Brasília.
É tendo como base esse recurso desenvolvido por arquitetos e
urbanistas que a sociedade se desmembra em setorizações diversas para
atender a diferentes funções e atender a públicos de classes econômicas
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também diversas. Dessa forma, é possível afirmar que o desenho planejado de
ruas e quarteirões é definidor da subdivisão do território em áreas nobres e
áreas marginalizadas. Por vezes, essa subdivisão é intencional, sendo ela
previamente estudada e conhecida, entretanto, às vezes, ela acontece como
fruto do crescimento populacional desenfreado atrelado à falta de espaço ou
aos altos custos de moradia e serviços.
As áreas popularmente conhecidas como nobres são entendidas como
as regiões que compreendem uma maior e melhor rede de infraestrutura
urbana e maiores fluxos de dinheiro. São lugares com maiores facilidades de
transporte, mais oportunidades de emprego – devido aos centros comerciais e
empresariais –, sistemas eficazes de saneamento e métodos mais eficientes de
fornecimento de segurança e saúde. Por esses motivos, essa zona é também
aquela que agrega maior poder econômico social, onde as facilidades e
benefícios dispendem maiores gastos e, por isso, detém uma população
permanente significativamente menor em relação ao seu entorno, ainda que em
horários comerciais sua população atinja picos graças à oferta de emprego para
os moradores de outras regiões.
A marginalização de pontos territoriais, por sua vez, é relacionada aos
problemas de infraestrutura como elemento causa e causador, isto é, lugares
com pior rede de infraestrutura tendem a atrair pessoas somente pelos baixos
custos atrelados à moradia e serviços, ao mesmo tempo que a baixa visibilidade
política desses pontos retarda seu desenvolvimento social e urbano. Os
sistemas de transporte, saúde, educação, segurança e saneamento deficientes
são elementos pouco ou quase nada trabalhados nessas regiões, sendo elas
quase invisíveis para os polos comerciais e consequente geração de empregos
ou renda. Essas áreas marginalizadas, portanto, costumam ser foco de maiores
índices de miséria e violência.
A solução para o melhoramento das regiões marginalizadas das
cidades vem sendo, pouco a pouco, objeto de estudo de programas governamentais e de iniciativas privadas, buscando uma melhor qualidade de vida da
população regional e expandindo os focos de empregos para uma efetiva
descentralização de capitais e serviços.
Por esses motivos, o projeto desenvolvido pelo arquiteto e urbanista
define não apenas as questões espaciais de pequeno porte, mas também uma
organização imensa de cidades e pessoas, tendo por consequência todas
questões sócio-políticas e econômicas correlacionadas à qualidade de vida dos
habitantes atrelada à setorização espacial da sociedade.
SÉCULO XX E O MOVIMENTO MODERNO
contexto histórico
Nos primeiros anos do século XX, a Europa estava imersa em uma
onda de pensamentos otimistas derivados da época de paz em que vivia e da
primeira Revolução Industrial. – os famosos “anos dourados”, que posteriormente recebeu o nome de Belle Époque.
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Durante o período da Belle Époque, uma série de inovações e acontecimentos mudaram a percepção do viver e do pensar cotidiano, tais como a
invenção do telefone, cinema, automóvel e avião. E foi a partir das facilidades
proporcionadas por essas e outras inovações, que o acesso e a troca de
informações começaram a atingir e afetar proporções maiores – de escala
mundial.
Assim, intensificou-se o processo de globalização – ponto importante
que influenciou novas correntes de pensamentos em diversas áreas, como
política, arquitetura e urbanismo. A cidade foi profundamente afetada com o
processo de globalização. A maior integração da economia internacional se
reflete diretamente no espaço urbano através dessa troca constante entre
pessoas, bens e capital – além do início da preocupação com o meio ambiente e
bem-estar social, dado os problemas em consequência da alta industrialização e
aumento populacional, como escassez de áreas públicas, poluição das cidades
e crescimento a todo e qualquer custo.
o início do movimento moderno
Com o final da Primeira Grande Guerra, a Belle Époque já não fazia
mais sentido dentro daquele cenário caótico, e as formas de arte que eram
associadas à época também perderam o significado.
O que era antes visto como “tradicional”, tornou-se ultrapassado. E era
fundamental a criação de uma nova cultura que conseguisse expressar essa
busca pelo novo. Os pensadores da época argumentavam que a as novas
realidades do século XX eram permanentes e eminentes”, e a sociedade deveria
se moldar à essa nova visão de mundo.
Uma tecnologia que estava causando alvoroço nesse período de
reconciliação mundo-arte, era a máquina fotográfica. Sua capacidade de captar
o instante se aproximava muito mais do real do que a pintura – e os pintores,
que até então viviam para enquadrar a realidade em sua tela, agora eram
ameaçados por essa nova forma de arte. Foi nesse momento que os valores
subjetivos, que já apareciam desde o movimento iluminista, começaram a
ganhar força no cenário artístico da época.
Os artistas então procuraram se reinventar, assumir o espaço bidimensional da tela – já que não possuíam mais a obrigação de retratar cenas – e,
assim, o olhar do artista subjetivo começou a ser valorizado.
“A forma de entender o mundo de cada artista se traduzia em cores, formas,
traços e temas que não precisavam ter nenhum compromisso com o real. A arte
assumiu uma nova condição, onde o artista ganha o papel central. E com este papel,
diante de todas circunstâncias e acontecimentos da Europa, ele começa a desenvolver
um novo olhar sobre sociedade como um todo, os modos e as condições de vida.”
Roberta Calixto, 2013
Foi nesse ambiente heterogêneo e caótico que as vanguardas
europeias nasceram e ganharam força. Os vanguardistas buscavam constantemente a crítica e negação do passado, do que era considerado tradicional –
ganhando o nome de “modernistas”, que remetia ao novo.
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As vanguardas eram bem distintas, cada uma seguia uma forma de
expressão diferente e única. Entre as vanguardas, é importante destacar:
expressionismo, cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo e construtivismo.
Esses são os principais movimentos que irão influenciar o movimento moderno
brasileiro e, consequentemente, os ideais buscados pelo júri do Concurso
Nacional do Plano Piloto.
conceito inicial: a arquitetura modernista
Não era apenas no âmbito pintura-escultura-literatura que se limitava
a expansão do movimento moderno, na arquitetura sua influência também foi
perceptível. A arquitetura moderna não teve uma data ou obra que marcou seu
início, mas sim várias correntes de pensamentos semelhantes que foram
ganhando espaço entre arquitetos europeus.
França e Alemanha foram os primeiros países a começar a construção
de obras que seriam mais tarde reconhecidas como modernas. Os principais
nomes do berço dessa arquitetura foram o suíço naturalizado francês,
Charles-Edouard Jeanneret-Gris, o aclamado Le Corbusier, e Walter Gropius,
fundador da escola de arquitetura modernista Bauhaus.
os legados para brasília: quem foi le corbusier?
Considerado um dos maiores arquitetos e pensadores do século XX, Le
Corbusier foi uma peça-chave na concepção de Brasília – tanto em urbanismo
como na arquitetura.
Seus ideais transcendiam o universo arquitetônico, buscando sempre
agregar em seus projetos críticas ao espaço em que estavam inseridos e sua
influência no espaço urbano. Um de seus projetos mais conhecidos foi a
Unidade de Habitação, finalizada em 1953 na cidade de Marselha e a Villa
Savoye, localizada nas margens de Paris.
unidade de habitação | villa savoye
Ao longo de sua carreira, Le Corbusier estipulou cinco pontos para a
nova arquitetura, e todos podem ser encontrados em seu projeto Villa Savoye.
São eles:
pilotis
terraço-jardim
fachada livre,
janela em fita
planta livre
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esquema dos cinco pontos
Le Corbusier também fez grandes estudos no âmbito do urbanismo –
chegou a propor a “cidade ideal” em várias de suas anotações. Seus questionamentos sobre arquitetura e urbanismo o fizeram ser um dos idealizadores dos
CIAM – Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna – e ser uma
referência na arquitetura até os dias de hoje.
“Uma vez me perguntaram qual o maior legado de Le Corbusier. Respondi
que foi Oscar Niemeyer”
Lúcio Costa, 1961
os legados para brasília: o que foram os CIAMs?
Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna foram criados
pelos principais nomes da arquitetura da época para debater os rumos dos
vários domínios que a arquitetura abrange. Foram eles que fundaram a
definição do Estilo Internacional – a arquitetura funcionalista modernista – e
introduziram a arquitetura como um instrumento político e econômico, capaz de
promover o progresso social se coexistisse com o poder público.
Em 1933, na quarta edição do CIAM, Le Corbusier elaborou, em
colaboração com os outros membros, a famosa Carta de Atenas – manifesto
resultante das discussões desse congresso, e que posteriormente viria a ser o
guia do urbanismo moderno mundial.
O CIAM alegava que a Carta tinha como objetivo uma “reforma
fundamental de todos os métodos que provocaram no inteiro, o deterioramento
das cidades”. Eles pregavam que a liberdade individual e a ação coletiva não
estavam em harmonia nas cidades da época.
Então, foi estipulado as “chaves do urbanismo” na Carta de Atenas, que
estão presentes nas quatro funções de: habitar, trabalhar, recrear-se e circular.
“O urbanismo tem quatro funções principais, que são: primeiramente,
assegurar aos homens moradias saudáveis, isto é, locais onde o espaço, o ar puro e o
sol, essas três, condições essenciais da natureza, lhe sejam largamente asseguradas;
em segundo lugar, organizar os locais de trabalho, de tal modo que, ao invés de serem
uma sujeição penosa, eles retomem seu caráter de atividade humana natural; em
terceiro lugar, prever as instalações necessárias à boa utilização das horas livres,
tornando-as benéficas e fecundas; em quarto lugar, estabelecer o contato entre as
diversas organizações mediante uma rede circulatória que assegure as trocas,
respeitando as prerrogativas de cada uma. Essas quatro funções, que são as quatro
chaves do urbanismo, cobrem um domínio imenso, sendo o urbanismo a consequência
de uma maneira de pensar levada à vida pública por uma técnica de ação”
Carta de Atenas, 1933
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Sua influência foi internacional e duradoura. Em todos os projetos
premiados do Concurso Nacional do Plano Piloto, ocorrido anos depois, em
1956-57, é ainda notável a influência da Carta de Atenas para a elaboração dos
mesmos.
MODERNISMO BRASILEIRO E O CENÁRIO POLÍTICO
o estopim dessa história
Em 1912, Oswald de Andrade retorna ao Brasil depois de uma viagem
à Europa. Oswald volta influenciado pelo discurso das vanguardas europeias,
com o desejo de tornar o movimento moderno parte do Brasil.
Nessa época, a política dominante era a do café-com-leite – alternância de poder entre São Paulo e Minas Gerais – e era na região sudeste onde se
concentravam os intelectuais, aristocratas e o berço da industrialização do país.
Enquanto, nos outros estados, especialmente na região norte-nordeste, a
pobreza e a escassez de suprimentos ainda eram comuns.
O Brasil continuava sendo uma cópia do modelo europeu-colonizador,
tanto nas organizações sociais quanto nas artes. A arte produzida era quase
artificial, sem identidade – e não agradava aos jovens que estavam emergindo.
A busca por uma arte nacional de qualidade se uniu com os pensamentos
modernistas, e foi o impulso necessário para que o movimento moderno
brasileiro ganhasse forma.
“O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de
princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a inteligência nacional”
Mario de Andrade, 1942
Com o tempo, o movimento moderno no Brasil foi se estruturando e
unificando seu discurso – o que culminou num dos eventos mais marcantes
para a arte brasileira do século XX: a Semana de Arte Moderna de 1922.
A mostra de artes de todos os tipos que ocorreu durante a semana
deixa legado até hoje. Foi ela quem influenciou toda uma linha de pensamento
nacionalista que veio posteriormente, fazendo, inclusive, Juscelino Kubitschek
um de seus maiores discípulos.
juscelino e seu sonho de um país moderno
A carreira do futuro presidente começou como prefeito da cidade da
cidade de Belo Horizonte, no início dos anos 40. Logo ficou conhecido como
“prefeito furacão” pelo grande número de mudanças pela cidade que foram
realizadas em pouco tempo.
Juscelino era um idealizador – sonhava com um Brasil moderno, pólo
cultural e tecnológico. Assim, começou a aplicar seus conceitos na cidade
mineira: asfaltando ruas, alargando avenidas, restaurando prédios. Por último,
almejava um centro de lazer e cultura para os moradores da cidade: o futuramente conhecido Complexo da Pampulha. Então, juntamente com seu amigo
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Cândido Portinari, o arquiteto Oscar Niemeyer e o paisagista Burle Marx,
Juscelino cria o Complexo da Pampulha – marco na arquitetura mineira. Alguns
anos mais tarde, ajuda a trazer para Belo Horizonte a Semana de Arte Moderna
de 1944, consolidando-se uma personalidade modernista do Brasil na época.
JK continuou sua carreira política como Deputado Federal, Governador
de Minas Gerais e, finalmente, foi eleito em 1956 presidente da República
Federativa do Brasil com a promessa da construção de uma nova capital para o
país.
“A criação de Brasília, a interiorização do governo, foi um ato democrático e
irretratável de ocupação efetiva do nosso vazio territorial”
Juscelino Kubitscheck, 1975
ANTECEDENTES E IMPLICAÇÕES AO CONCURSO DA NOVA CAPITAL
iniciativas para a construção de brasília
O concurso, desde sua concepção, foi movido por intrigas e polêmicas.
Houveram vários debates sobre como a capital seria planeja – seria um
concurso? Nacional ou internacional? Alguém seria contratado? Quem seria o
júri? Quem teria poder de voto?
Antes de qualquer pontapé inicial, JK se reuniu com a Comissão de
Planejamento da Construção e Mudança da Capital Federal para tentar
organizar como seria concebido o conceito da nova cidade. Até a ideia de
contratar o famoso arquiteto Le Corbusier foi levantada – hipótese levantada
pelos membros Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx. Porém, gerou
discordâncias por parte do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que, através de
declarações e manifestos, demonstrou o interesse dos arquitetos brasileiros na
discussão da nova capital federal.
Juscelino também chegou a considerar Oscar Niemeyer para a
elaboração do projeto, a despeito de Oscar ter dito que não era a pessoa ideal e
ter indicado seu amigo Lúcio Costa para tal. Então, foi recaído a Oscar a
responsabilidade de projetar os principais edifícios de Brasília – desta vez,
aceitou a oferta. Lúcio Costa foi procurado logo em seguida pela Comissão de
Planejamento, porém, também negou enquanto sugeria a criação de um
concurso nacional sob o patrocínio do IAB.
Em agosto, de 1956, um mês antes do edital do concurso ser lançado,
o Instituo de Arquiteto do Brasil encaminha para o governo o chamado “Manifesto dos arquitetos ao Presidente da República”. Nesse documento era
proposto um concurso público, com arquitetos nacionais e diretrizes-base para
a elaboração do projeto da capital. Também, era enfatizado a necessidade de
formalizar um plano que priorizasse o equilíbrio entre três elementos: território,
economia e população.
No entanto, para o desprazer do IAB, em 20 de setembro de1956,
lançava-se no Diário da União o edital para o Concurso do Plano Piloto da Nova
Capital do Brasil, sob autoria de Ernesto Silva e comando da recém-criada
Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil – Novacap, cujo presidente
era o engenheiro Israel Pinheiro. Esse fato, apesar das polêmicas geradas pela
pressa para o lançamento mesmo, traduzia o desejo cego, nacionalista e
determinado de um presidente movido pelos conceitos modernistas.
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EDITAL PARA O CONCURSO NACIONAL DO PLANO PILOTO
redigido por ernesto silva, em 1956
A Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital
Federal, com sede na Avenida Presidente Wilson, 210, salas 306 e 307, nesta
Capital, torna pública a abertura do concurso nacional do Plano Piloto da Nova
Capital do Brasil, sob as normas e condições estabelecidas no presente edital.
Inscrição:
1. Poderão participar do concurso as pessoas físicas ou jurídicas
domiciliadas no país, regularmente habilitadas para o exercício da engenharia,
da arquitetura e do urbanismo.
2. As inscrições dos concorrentes estarão abertas dentro de 10 (dez)
dias a partir da data da publicação do presente Edital no Diário Oficial da União e
serão feitas mediante requerimento dirigido ao Presidente da Comissão, pelo
prazo de 15 dias, contado da abertura das inscrições.
3. O Plano Piloto deverá abranger:
a) traçado básico da cidade, indicando a disposição dos principais
elementos da estrutura urbana, a localização e interligação dos diversos setores,
centros, instalações e serviços, distribuição dos espaços livres e vias de
comunicação (escala 1:25.000);
b) relatório justificativo.
4. Os concorrentes poderão apresentar, dentro de suas possibilidades,
os elementos que serviram de base ou que comprovem razões fundamentais
de seus planos, como sejam:
a) esquema cartográfico da utilização prevista para a área do Distrito
Federal, com a localização aproximada das zonas de produção agrícola, urbana,
industrial, de preservação dos recursos naturais – inclusive florestas, caça e
pesca, controle de erosão e proteção de mananciais – e das redes de comunicação (escala 1:50.000)
b) cálculo do abastecimento de energia elétrica, de água e de transporte, necessários à vida da população urbana
c) esquema do programa de desenvolvimento da cidade, indicando a
progressão por etapas e a duração provável de cada uma;
d) elementos técnicos para serem utilizados na elaboração de uma lei
reguladora da utilização da terra e dos recursos naturais da região;
e) previsão do abastecimento de energia elétrica, de água, de transporte e dos demais elementos essenciais à vida da população urbana;
f) equilíbrio e estabilidade econômica da região, sendo previstas
oportunidades de trabalho para toda a população e remuneração para os
investimentos planejados;
g) previsão de um desenvolvimento progressivo equilibrado, assegurando a aplicação dos investimentos no mais breve espaço de tempo e a
existência dos abastecimentos e serviços necessários à população em cada
etapa do programa;
h) distribuição conveniente da população nas aglomerações urbanas e
nas zonas de produção agrícola, de modo a criar condições adequadas de
convivência social.
5. Só poderão participar deste concurso equipes dirigidas por arquitetos, engenheiros ou urbanistas, domiciliados no país e devidamente registrados
no Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura.
6. O Plano Piloto deverá ser executado a tinta, cópia heliográfica ou
fotostática, sobre fundo branco e trazer a assinatura dos seus autores, sendo
vedada a apresentação de variantes, podendo, entretanto, o candidato
apresentar mais de um projeto.
7. Os relatórios devem ser apresentados em sete vias.
8. Júri, presidido pelo Presidente da Cia. Urbanizadora da Nova Capital
do Brasil, compor-se-á de: dois representantes da Cia. Urbanizadora da Nova
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Capital do Brasil, um do Instituto de Arquitetura do Brasil, um do Clube de
Engenharia e dois urbanistas estrangeiros.
9. Os trabalhos deverão ser entregues dentro de 120 dias, a partir da
data da abertura das inscrições.
10. O Júri iniciará seu trabalho dentro de cinco dias a contar da data do
encerramento do concurso e o resultado será publicado logo após a conclusão
do julgamento.
11. Os concorrentes, quando convocados, farão defesa oral de seus
respectivos projetos perante o Júri.
12. A decisão do Júri será fundamentada, não cabendo dela qualquer
recurso.
13. Após a publicação do resultado do julgamento, a Cia. Urbanizadora
da Nova Capital do Brasil poderá expor os trabalhos em lugar acessível ao
público.
14. Os autores do Plano Piloto, classificados em primeiro, segundo,
terceiro, quarto e quinto lugares, receberão os prêmios de Cr$ 1.000.000,00 (um
milhão de cruzeiros), Cr$ 500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros), Cr$ 400.000,00
(quatrocentos mil cruzeiros), Cr$ 300.000,00 (trezentos mil cruzeiros) e Cr$
200.000,00 (duzentos mil cruzeiros), respectivamente.
15. Desde que haja perfeito acordo entre os autores classificados em
primeiro lugar e a Cia. Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, terão aqueles a
preferência para o desenvolvimento do projeto.
16. O Júri não será obrigado a classificar os cinco melhores trabalhos e
consequentemente a designar concorrentes que devam ser premiados, se, a
seu juízo, não houver trabalhos merecedores de todos ou de alguns dos
prêmios estipulados.
17. Todo trabalho premiado passará a ser propriedade da Cia. Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, após o pagamento do prêmio estipulado,
podendo dele fazer o uso que achar conveniente.
18. A Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da
Capital Federal coloca à disposição dos concorrentes, para consulta, os seguintes elementos:
a) mosaico aero fotográfico, na escala de 1:50.000, com curvas de
forma de 20 em 20 metros (apoiados em pontos de altura determinados no
terreno por altímetro de precisão Wallace & Tiernane de todo o Distrito Federal;
b) mapas de drenagem de todo o Distrito Federal;
c) mapas de Geologia de todo o Distrito Federal; de mapas de solos
para obras de engenharia de todo o Distrito Federal;
d) mapas de solos para obras de engenharia de todo o Distrito Federal;
e) mapas de solos para agricultura de todo o Distrito Federal;
f) mapas de utilização atual da terra de todo o Distrito Federal;
g) mapa de conjunto, indicando locais para perfuração de poços,
exploração de pedreiras, instalações de usinas hidrelétricas, áreas para cultura,
áreas para criação de gado, áreas para recreação, locais para aeroportos, etc.,
etc.;
h) mapa topográfico regular, na escala de 1:25.000, com curvas de nível
de 5 em 5 metros, executado por aerofotogrametria, cobrindo todo o sítio da
Capital (cerca de 1.000 km²) e mais uma área de 1.000 km² a leste do Sítio da
Capital, abrangendo a cidade de Planaltina e grande parte do vale do Rio São
Bartolomeu;
i) ampliação fotográfica dos mapas do sítio da Capital (200 km2) para
a escala de 1:5.000, com curvas de nível de 5 em 5 metros;
j) mapas detalhados de drenagem, geologia, solos para engenharia,
solos para agricultura e utilização da terra, do sítio da cidade (1.000 km²) e mais
1.000 km2 a leste desse sítio;
k) mapas topográficos regulares, na escala de 1:2.000, com curvas de
nível de metro a metro e de dois em dois metros, da área de 150 km², indicada
como ideal para a localização da zona urbana da Capital Federal;
l) relatório minucioso relativo aos estudos do solo e do subsolo, do
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macro clima e do micro clima, das águas superficiais e subterrâneas, das
possibilidades agrícolas e pecuárias, etc.
19. Caberá aos concorrentes providenciar as cópias heliográficas,
fotográficas, etc., que julgarem indispensáveis a elaboração dos projetos, sendo
que, para esse fim, serão fornecidos os seguintes elementos:
a) mapas topográficos regulares em 1:25.000, com curvas de 5 em 5
metros, do sitio da Capital;
b) mapas ampliados para a escala de 1:5.000, de 200 km² do sítio da
Capital;
c) mapas topográficos regulares, na escala de 1:2.000, com curvas de
nível de metro a metro e de dois em dois metros, da área de 150 km², indicada
como ideal para a localização da zona urbana da Capital Federal.
20. A Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da
Capital Federal facilitará aos concorrentes visita ao local da futura Capital, para
melhor conhecimento da região.
21. Qualquer consulta ou pedido de esclarecimento sobre o presente
concurso deverá ser feito por escrito, sendo que as respostas respectivas serão
remetidas a todos os demais concorrentes.
22. As publicações relativas ao concurso serão insertas no Diário
Oficial da União e em outros jornais de grande circulação no Distrito Federal e
nas principais Capitais Estaduais.
23. A Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da
Capital Federal, considerando que o planejamento de edifícios escapa ao âmbito
deste concurso, decidiu que os projetos dos futuros edifícios públicos serão
objeto de deliberações posteriores, a critério desta Comissão.
24. A participação neste concurso importa, da parte dos concorrentes,
em integral concordância com os termos deste Edital.
Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1956
ANTECEDENTES E IMPLICAÇÕES AO CONCURSO DA NOVA CAPITAL
o concurso com suas peculiaridades
O edital do concurso era bem controverso. Segundo o IAB, destoava
bastante do que o “Manifesto dos arquitetos ao Presidente da República”
pregava, cobrando muito pouco do ponto de vista da abrangência e do detalhamento – além de deixar para segundo plano a entrega de estudos econômicos,
demográficos, entre outros.
Havia diversos mapas à disposição dos participantes, a maioria em
escalas reduzidas e sem muito detalhamento. O principal era que esse material
sugerira áreas a serem urbanizadas, como a localização prévia do aeroporto e
dos edifícios representativos do Poder: executivo, legislativo e judiciário. De novo,
o IAB criticou a escassez de dados e diretrizes no material disponível.
Essas crescentes críticas, levaram, mais tarde, à demissão de Oscar
Niemeyer do posto de vice-presidente da NOVACAP, se mantendo apenas como
representante da parte de projeto da entidade. Isso se deve ao fato que, depois
de divulgado os componentes do júri, foi levantada a suspeita de que Oscar
Niemeyer estaria influenciando-os de alguma forma.
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Também é interessante ressaltar que desde o início o arquiteto Oscar
foi a favor de um projeto de Lúcio Costa, e vários indicativos apontam que
apenas uma minoria dos 26 projetos apresentados para Brasília foram avaliados.
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O júri foi composto de nomes nacionais e internacionais:
Sir William Holford - assistente e consultor do Ministério de Alojamento
e Planificação e do Departamento Colonial da Grã-Bretanha. William foi um dos
responssáveis pelo Plano Regulador de Londres e pelo projeto de requalificação
de Piccaly Circus, famosa região londrina.
André Sivè - consultor do Ministério de Reconstrução e Moradia da
França.
Stamo Papadaki - norte-americano representante do departamento de
urbanismo da NOVACAP.
Oscar Niemeyer - arquiteto brasileiro reconhecido internacionalmente e
também representante do departamento de urbanismo da NOVACAP.
Paulo Antunes Ribeiro - arquiteto e representante do Instituto de
Arquitetos do Brasil.
Luiz Hildebrando Barbosa - engenheiro e representante da Associação
dos Engenheiros.
Israel Pinheiro da Silva - presidente da NOVACAP, e sem direito à voto.
*outros membros foram adicionados para o bom andamento do comitê
e serão citados posteriomente, no guia de posicionamento
O JULGAMENTO E AS PROPOSTAS DO CONCURSO NACIONAL
tensões e incertezas
No total, foram 26 participantes do Concurso Nacional para o Plano
Piloto da Nova Capital do Brasil. Porém, apenas sete projetos tiveram o prestígio
de serem premiados e reconhecidos. Esses projetos foram de autoria:
(I) Lúcio Costa
(II) Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Gonçalves
(III) Irmãos Roberto / Rino Levi, Roberto Cerqueira César e Luíz
Roberto de Carvalho Franco
(V) Carlos Casacaldi, João Vilanova Artigas, Mário Wagner Vieira e
Paulo de Carmargo e Almeida /Milton Ghiraldini e equipe / Henrique Mindlin e
Giancarlo Palanti
*foi optado por dois terceiros lugares e três quintos lugares
As prioridades que orientaram o júri foram principalmente: localização,
zoneamento das áreas, articulação de vias, caráter de destaque dos edifícios
administrativos e identidade do projeto. Apesar de serem considerados
relevantes, a maioria dos jurados deu pouca importância para fatores como
estudos estatísticos sobre o crescimento da cidade - afirmando posteriormente
de que se tratava de um concurco de ideias. Esse parecer, porém, não agradou à
toda banca, principalmente ao representante do IAB, que desde o início alegou
falta de profissionalismo dos jurados para a escolha da Nova Capital - afinal,
não seria importante, para a futura sede do poder brasileiro, ter um bom plano
de expansão, estudo de qualificação dos espaços urbanos, ou simplesmente
algum projeto que vá além de uma utopia? - Inclusive, foi pela previsão de
escolhas precipitadas que o arquiteto Affonso Reidy se recusou à participar do
concurso.
Porém, é importante ressaltar que desde o início da concepção de
Brasília, o fato tempo foi relevante - Juscelino teria apenas 4 anos para definir
diretrizes, escolher um projeto e construir uma nova capital para o Brasil. Assim,
esse aspecto afetou diretamente a construção de Brasília: a pressa de se lançar
um edital e de escolher um projeto vencedor. Seria por isso que vários elementos cruciais para o planejamento de uma cidade foram deixados de lado? Ou foi
apenas pela valorização da estética acima da funcionalidade dos projetos?
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As próprias Aras da Comissão Julgadora evidenciam essa necessidade de
realização imediata sob determinadas políticas.
Sobre a escolha dos projetos vencedores, o júri estabeleceu previamente alguns parâmetros. “A capital administrativa deveria ser diferente de
qualquer outra cidade, para expressar a grandeza de uma vontade nacional. Sua
principal característica deveria ser a administração, para onde todas as funções
deveriam convergir”, afirma a historiadora Aline Moraes. Além desses parâmetros, a análise também se dividiu em duas partes: o plano funcional e o plano
arquitetônico. Sobre o plano funcional podemos destacar os dados topográficos, a extensão da cidade com relação à densidade, integraçã dos elementos e
a relação da cidade com o ento rno. Já o plano arquitetônico seria a
composição geral, estética e expressão específica da sede do governo.
A expectativa era que as propostas apresentadas fossem movidas pelo
racionalismo. Mas a surpresa foi que todos os 26 projetos apresentados
seguiam a linha modernista de se pensar a cidade - a influência do arquiteto e
pensador Le Corbusier era evidente quando se via que os planos eram setorizados em atividades de habitação, circulação, trabalho e lazer, como a Carta de
Atenas sugeria.
Além da definição clara dos setores da cidade, a liberação dos espaços
e o tipo célula de moradia eram notórios. O conceito de Unidade de Vizinhança
englobava os planos ao mesmo tempo que era óbvia a diferença das propostas
desses tipos de moradia.
CORRESPONDÊNCIAS ENTRE IAB E NOVACAP
Senhor Presidente,
De acordo com os entendimentos verbais e as declarações prestadas
por V. Excia., por ocasião da entrevista coletiva concedida ao Conselho Diretor
deste Instituto sobre o Edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova
Capital do Brasil, vimos solicitar, conforme ficou estabelecido naquela oportunidade, sejam confirmados os esclarecimentos sobre os seguintes itens do
referido Edital:
Item 8 que os 2 (dois) representantes da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil no Júri serão arquitetos e que, na indicação
dos urbanistas estrangeiros, será tomada em consideração a lista de nomes já
fornecida por este Instituto;
Item 9 que o prazo de 120 (cento e vinte) dias, para a entrega
dos trabalhos, será contado a partir do encerramento das inscrições;
Item 15 qual a garantia a ser dada pela Companhia ao
vencedor do concurso, para que lhe seja assegurado o direto de desenvolvimento do projeto;
Item 18 que, ao invés de ser colocada à disposição, para
consulta, seja fornecida aos concorrentes cópia do Relatório;
Tendo as consultas formuladas neste ofício sido objeto de deliberação
do nosso Conselho Diretor, aguardamos o pronunciamento de V. Excia. Para que
possamos esclarecer, de público, os nossos associados sobre a participação do
concurso.
Valemo-nos da oportunidade para reiterar os protestos de nossa mais
distinta consideração.
Ary Garcia Roza, Presidente do IAB em 12 de outubro de 1956
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Senhor Presidente,
Em complemento à exposição que tive oportunidade de fazer aos
Diretores e Representantes do Instituto de Arquitetos do Brasil, esclareço, pelo
presente, alguns pontos do Edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova
Capital do Brasil, os quais suscitaram dúvidas na sua interpretação.
Assim, o artigo 15 deverá ser assim entendido:
“Os autores classificador em primeiro lugar ficarão encarregados do
desenvolvimento do projeto, desde que haja perfeito acordo com a Companhia
Urbanizadora da Nova Capital do Brasil sobre as condições para a execução
desse trabalho.”
Comunico-lhe, ainda, que determinei seja o prazo de 120 dias para a
entrega do plano piloto, contado a patir da data do encerramento das incrições e
que sejam fornecidas aos concorrentes, cópias do Relatório Belcher, nas partes
que lhe possam interessar.
Reitero os meus protestos de elevado apreço.
Israel Pinheiro, presidente da NOVACAP em 16 de outubro de 1956
Ao sr. Ary Garcia Roza
Diretor-presidente do IAB
O Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil responde às consultas formuladas, até esta data,
pelos concorrentes ao plano piloto da Nova Capital:
1 Ventos Dominantes: predominam os ventos leste.
2 Estrada de ferro: uma nova estrada de ferro deverá ligar Anápolis ou
Vianópolis à Nova Capital.
3 Estrada de Rodagem: deverá ser projetada de Anápolis à Brasília.
4 Represa, hotel, palácio residencial e aeroporto: A represa (cujo nível
corresponde à cota 997), hotel e o palácio residencial ficarão situados de acordo
com a planta já fixada e à disposição dos concorrentes. O palácio do Governo
projetado aguardará fixação do plano piloto. Nessa planta se acha também
localizado o aeroporto definitivo, já em construção.
5 Ministérios: para os estudos do plano piloto permanece atual
organização ministerial, acrescida de três ministérios. Somente cerca de 30%
dos funcionários serão transferidos.
6 Indústria e Agricultura: deverá prever-se um desenvolvimento
limitado, em vista do caráter político-administrativo da Nova Capital.
7 Loteamento e propriedade: o assunto aguardará sugestões do plano
piloto.
8 Densidade: provisão para 500 mil habitantes no máximo.
9 Construções em andamento: estão sendo iniciadas obras de um
hotel e de um palácio residencial para o Presidente da República. Além dessa
obras, estão em construção, em caráter provisório, as instalações necessárias
ao funcionamento da NOVACAP e dos serviços que ali se iniciam.
10 Relatório: foi enviada cópia do relatório ao Instituto de Arquitetos do
Brasil e à Faculdade de Arquitetura de São Paulo.
11 Apresentação dos trabalhos: os concorrentes terão plena liberdade
dna apresentação de seus projetos, inclusive no uso de cores etc.
12 Escala: a escala para o plano piloto permanecerá de 1:25 000,
entretanto será permitido aos concorrentes apresentarem detalhes do referido
plano na escala que desejarem.
13 Colaboradores: o arquiteto inscrito no concurso para o plano piloto
de Brasília terá a liberdade de escolha de seus colaboradores, que poderão
assinar as plantas apresentadas.
14 Defesa Oral: na defesa oral, os arquitetos poderão ter a assitência de
seus colaboradores.
Oscar Niemeyer, diretor do departamento de urbanismo e arquitetura da
Novacap
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INDICATIVOS DE FAVORECIMENTO AO PROJETO DE LÚCIO COSTA
incertezas e inverdade sobre o julgamento
Foram apenas alguns dias de debate para que logo fosse escolhido o
projeto vencedor. Entretanto, várias incertezas circundam o projeto premiado.
Um telegrama enviado aos participantes alguns dias antes da entrega dos
projetos estipulava o horário limite de 18h00, e Lúcio Costa, quem até o
momento final jurou que não fosse participar do concurso (recusando várias
propostas de equipes), pediu para sua filha Maria Elisa entregar seu plano piloto
quando saísse do trabalho. O projeto de Lúcio Costa foi entregue para os
jurados depois das 23h do dia 11 março - porém, no Edital para o Concurso não
havia horário estipulado, apenas o dia. E a única limitação de horário seria esse
telegrama enviado às equipes alguns dias antes. Até hoje ainda existe a dúvida
se o projeto de Lúcio Costa deveria ter sido, ou não, desclassificado. Ou se foi a
influência de seu amigo Oscar Niemeyer que o fez continuar na disputa.
A composição do júri era tendesiosa já que em sua maioria eram
pessoas com bom relacionamento com Oscar. O diretor de urbanismo da
NOVACAP declarava que o projeto vencedor deveria ser de uma cidade monofuncional, setorizada e eficiente. A escolha do projeto vencedor baseou-se nos
argumentos do inglês William Holford, que procurava o ideal de uma cidade
administrativa, uma utopia de capital - em suas palavras, o concurso era um
“concurso de ideias, não de detalhes”. De fato as escolhas do júri refletiram os
princípios modernistas ainda em voga no Brasil, e o resultado dos finalistas
comprovava isso.
Desde a primeira reunião do júri, no dia 12 de março, o desfecho final
esteve polarizado entre Paulo Antunes Ribeiro e os estrangeiro William Holford e
André Sive. Afinal, enquanto o representante do IAB possuía disciplina e respeito
por todos os projetos, os estrangeiros gozavam da simpatia de Oscar Niemeyer.
Assim, quando na primeira reunião Paulo Antunes sugere uma avaliação
aprofundada de todos os projetos e o francês André Sive propõe uma pré-seleção para definir uma seleção menor de concorrentes, a opinião estrangeira
ganha e é definido um conjunto de 10 projetos para serem analisados. No dia
seguinte, Sive faz outra sugestões para facilitar e agilizar o trabalho: estabelece
uma listagem mínima de critérios para a seleção, sendo: a. topografia; b.
densidade; c. integração; e d. plástica. Ainda assim, a necessidade de uma
avaliação mais precisa era cobrada e a ideia de Paulo Antunes de que o dia 14
fosse destinado à apreciações individuais e que no dia seguinte o júri se
reunisse para a elaboração do relatório final foi aceita. Porém não foi exatamente assim que se prosseguiu.
No dia 14 foram feitas as apreciações individuais - entretanto, no início
do dia 15, Oscar Niemeyer apresenta à Paulo Antunes o relatório final com a
relação dos vencedores, todo escrito pelos estrangeiros. Sem espaço para
opinar e discordando dos procedimentos, o representante do IAB nega-se a
assinar tal relatório e abandona o local indignado. Assim, diante da situação,
Israel Pinheiro sugere a Paulo Antunes que elabore um relatório separado a ser
anexado ao relatório final dos demais jurados. Nesse relatório o representante
do IAB expõe sua opinião; os fatos ocorridos e apresenta uma solução paralela:
a composição de uma equipe formada pelos membros dos onze projetos
previamente selecionados (os dez escolhidos pelo júri além do projeto por ele
escolhido e acrescido à lista) para formarem uma comissão responsável pelo
planejamento da Nova Capital. Essa sugestão, como já esperado, foi ignorada,
prevalecendo o projeto de Lúcio Costa, relatório que foi assinado por todos os
membros, exceto Paulo Antunes Ribeiro.
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Após a divulgação dos resultados sucederam-se diversas publicações
em jornais e revistas especializadas, divulgando e criticando a forma de escolha.
As críticas redundaram quanto à forma sumária de apresentação do projeto de
Lúcio Costa (algumas folhas datilografadas seguidas de croquis feitos à mão) e
dos investimentos de algumas equipes que apresentaram dezenas de pranchetas e maquetes. Outras reportagens voltaram-se à rapidez na escolha dos
finalistas e no processo de seleção, que contava com figuras sempre ligadas à
pessoa de Oscar Niemeyer, colocando em discussão a validade e a competência de tal concurso. Foi inevitável a publicação, ainda, da atitude de Paulo
Antunes Ribeiro e o questionamento daquilo que de fato haveria por trás de
tamanha discussão. Porém, como já esperado, as críticas, com o tempo, foram
diminuindo e os elogios ao projeto vencedor prevaleceram.
juscelino
oscar e lúcio
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
breves comentários do júri: sugestões, críticas e vantagens da capital
quinto colocado: milton ghiraldini e equipe, construtécnica s.a.
Críticas:
1. Enorme extensão de estradas além da trama central; difíceis, porém,
asligações cruzadas no centro.
2. 18 e meio quilômetros do Palácio Presidencial à estrada.
3. Simplificação exagerada das zonas, sendo três centrais e as
restantes todas do mesmo tipo de baixa densidade de habitação.
4. Não tem o caráter de uma capital.
5. Má penetração da ferrovia na cidade.
Vantagens:
1. Bonito modelo de aldeia agrícola
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
quinto colocado: vilanova artigas e equipe
Suposições:
Plano de desenvolvimento para vinte anos de população de 550000
pessoas, das quais 130000 funcionários públicos.
348000 em casas
145000 em apartamentos
42000 em casas arrendadas
cívico
Críticas:
1. Zonas residencias demasiado uniformes
2. Má circulação das resistências para a sede do governo e centro
3. Boa solução para as centrais ferroviária e aeroviária, mas duvidosa
quanto à rodovia, sendo necessárias 3 pontes.
4. O centro governamental não faz uso do lago.
5. Oportunidades topográficas perdidas: casas na parte mais elevada,
sem relação com o local
6. Onde estão as embaixadas e consulados? Os centros de rádio e de
TV?
7. Densidade muito baixa, área construída enorme: 50 pessoas por
hectare.
Vantagens:
1. Boa apresentação: claro, decisivo.
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
quinto colocado: henrique mindlin e giancarlo palanti
Críticas:
1. As moradias de operários, a indústria e os entrepostos estão
segregados (por classe) a oeste da ferrovia.
2. As embaixadas são agrupadas numa extremidade da artéria central
e os ministérios na outra. Não parece haver qualquer lógica de desenvolvimento
do plano de leste para oste.
3. As unidades de habitação resultariam disformes na prática, e não se
acomodam muito bem no local; mas o sistema rodoviário é bastante simples e
direto.
4. A disposição arquitetônica detalhada dos Ministérios, assim como as
embaixadas dando para a artéria central, não são tão interessantes como em
outros projetos.
Vantagens:
1. O projeto parece estar certo quanto ao tamanho e densidade, e
econômico quanto ao uso da terra, ponts, etc.
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
terceiro colocado: m.m.m. roberto e equipe
Suposições:
7 unidades urbanas de 72000 pessoas cada uma, aumentando
normalmente para 10 e, no máximo 14 unidades.
População máxima tolerada acima de um milhão.
Cada uniade tem como centro um departamento governamental.
Críticas:
1. Embora seja um plano para a “cidade do bem-estar”, é desumano a
ponto de serem controladas e restringidas todas as posições e circulações.
2. O ideograma da Unidade Urbana de 72000 habitantes é válido para
qualquer cidade numa região plana; não é especial para Brasília; não é o plano
para uma capital nacional.
3. As partes são separadas, isto é, suas relações não tem caráter
metropolitano; a cabeça permanece a mesma, enquanto os 7 corpos crescem
para 10 ou 14, com vida prórpria ou diferente.
Vantagens:
1. O estudo sobre utilização da terra é o melhor e mais completo do
concurso.
2. Os tipos de fazenda e aldeia são excelentes.
3. O programa para construção e financiamento é prático e realista.
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
terceiro colocado: rino levi e equipe
Suposições:
288000 pessoas em bloco de 300 metros de altura +%, isto é, 16000
em cada bloco x3 = setor
15000 pessoas nos blocos de densidade alongada ou média (100-200
p./hect.)
70000 pessoas em extensões fora do plano.
Críticas:
1. No há centro de transporte.
2. Altura desnecessária; resistência aos ventos; trocade elevadores;
concentração desaconselhável.
3. Pistas de alta velocidade através dos edifícios.
4. Mercado central inacessível, embora previstos mercados locais.
5. Do ponto de vista plástico, são os edifícios de apartamentos que dão
feição à capital - não os edifícios governamentais.
Vantagens:
1. Boa aparência e orientação.
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
segundo colocado: boruch milman e equipe
Suposições:
Flexibilidade ilimitada.
4 subordinamos para cada funcionários.
45000 funcionários até 1980.
92000 funcionários até 2050.
População total: 1980 - 270000; 2050 - 673000
Críticas:
1. Centro comercial isolado e formalizado numa série rígida de superblocas de tamanho igual.
2. Áreas adequadas para 750000 não podem com facilidade ser
desenvolvidas até o infinito.
3. Todos os hotéis juntos ao centro de transporte.
4. Não utilização da parte mais elevada do terreno.
5. Inúmeras viassem o desenvolvimento periferial o que muito encarece
os serviços.
Vantagens:
1. Muito atraente a localização das habitações na península.
2. Densidade aproximadamente certa.
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AS PROPOSTAS PREMIADAS
primeiro colocado: lúcio costa
Suposições:
Uma: “civitas”, e não uma “urbs”.
Críticas:
1. Demasiada quantidade indiscriminada de terra entre o centro
governamental e o lago.
2. O aeroporto talvez tenha que ser mais afastado.
3. A pate mais longínqua do lado e as penínsulas não são utilizadas
pelas habitações.
4. Não especificação do tipo de estradas regionais, especialmente com
relação a possíveis cidades satélites.
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Vantagens:
1. O único plano para uma capital administrativa do Brasil.
2. Seus elementos podem prontamente ser apreendidos: o plano é
claro, direto e fundamentalmente simples - como, por exemplo, o de Pompéia, o
de Nancy, o de Londres feito por Wren e o de Paris de Louis XV.
3. O plano estará concluído em dez anos, embora a cidade continue a
crescer.
4. O tamanho da cidade é limitado: seu crescimento após 20 anos se
fará (a) pelas penínsulas e (b) por cidades satélites
5. Um centro conduz a outro, de modo que o plano pode ser facilmente
compreendido.
6. Tem o espírito do século XX: é novo, é livre e aberto; é disciplinado
sem ser rígido.
7. O método de crescimento - por arborização, alguns caminhos e a
artéria principal - é o mais prático de todos.
8. As embaixadas são bem situadas, dentro de um cenário variável.
9. Devemos partir do geral para o particular - e não de modo contrário.
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CONCURSO NACIONAL PARA O PLANO PILOTO DA NOVA