Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens Elaine Moral Ligia A. Vercelli (orgs.) Conselho Editorial Av Carlos Salles Block, 658 Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] Profa. Dra. Andrea Domingues Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna Prof. Dr. Carlos Bauer Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha Prof. Dr. Fábio Régio Bento Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins Prof. Dr. Romualdo Dias Profa. Dra. Thelma Lessa Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt ©2013 Ligia Vercelli; Elaine Moral Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. M7922 Moral, Elaine; Vercelli, Ligia (orgs.) Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens (Pedagogia de A a Z; Vol. 8 )/ Ligia Vercelli; Elaine Moral (orgs.). Jundiaí, Paco Editorial: 2013. 216 p. Inclui bibliografia. Inclui imagens e gráficos. Vários autores. ISBN: 978-85-8148-233-0 1. Psicologia 2. Educação 3. Psicanálise 4. Desenvolvimento humano. I. Vercelli, Ligia II. Moral, Elaine CDD: 370 Índices para catálogo sistemático: Educação – Pedagogia Psicologia Educacional IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal 370 370.15 Sumário Apresentação.........................................................................5 Capítulo 1 O Surgimento da Psicologia: Breve Histórico.................9 Jussara Moreira Pilão Capítulo 2 Ciência e Senso Comum: Um Desafio para a Pedagogia....27 Rosileny Alves dos Santos Schwantes Capítulo 3 As Concepções de Desenvolvimento Humano e suas Repercussões no Cotidiano Escolar......................39 Ligia A. Vercelli Capítulo 4 Dr. Piaget, Muito Prazer....................................................61 Sylvia Paula de Almeida Torres Vilhena Capítulo 5 Compreendendo o Processo de Desenvolvimento Humano: As Contribuições da Psicologia Sócio-Histórica de Vygotsky.............................................89 Margarete Mota Capítulo 6 Henri Wallon: A Psicogênese da Pessoa Completa.......103 Regiane Rodrigues de Moraes CApítulo 7 teoria de Aprendizagem Significativa de David paul Ausubel......................................................125 Doralice Bortoloci Ferreira CApítulo 8 Inteligências Múltiplas: um olhar na Educação.........149 Elaine de oliveira Carvalho Moral Queiroz CApítulo 9 A Contribuiçao da psicanálise para a Educação............165 Joel Santos de Abreu CApítulo 10 Eric Erikson e as oito Idades do Homem.......................189 Rita Sibele Detilio Sandra Regina Soares pereira os autores..........................................................................207 APRESENTAÇÃO A interlocução entre psicologia e Educação há muito tempo é tema de debates entre os profissionais que trabalham com formação de professores. Historicamente, a disciplina psicologia da Educação é uma das áreas de conhecimento que sempre direcionou a prática pedagógica, por isso, tem papel importante no currículo básico das licenciaturas. Ela oferece aos professores subsídios para que possam entender de forma mais abrangente o desenvolvimento humano e o processo de ensino aprendizagem do aluno sob diferentes ângulos, já que apresenta diversos referenciais teóricos, com objetos e metodologias próprios. o livro Psicologia da Educação segue nessa direção, apresentando contribuições para o fazer pedagógico do professor, uma vez que oferece reflexões acerca de diferentes teóricos da psicologia que podem iluminar a práxis cotidiana. Dessa forma, o volume possui dez capítulos que foram escritos por diferentes autores aqui apresentados. No primeiro capítulo, “o surgimento da psicologia: breve histórico”, Jussara Moreira pilão destaca a importância do conhecimento da constituição da psicologia pré-científica e científica, refletindo sobre alguns dos principais pressupostos que dão apoio ao ensino da disciplina psicologia da Educação. Sintetiza abordagens teóricas e históricas sobre o tema com possibilidades de entendimento da história da psicologia. No segundo capítulo, “Ciência e senso comum: um desafio para a pedagogia”, Rosileny Alves dos Santos Schwantes apresenta alguns conceitos sobre senso comum e ciência. Incialmente, mostra a origem da expressão “senso comum”, passando pelo desvendar de uma realidade cotidiana. Em seguida, investiga o fenômeno como forma de se fazer ciência. também aborda como se faz ciência na pedagogia e a relação existente entre ciência e senso comum. No terceiro capítulo, “As concepções do desenvolvimento humano e suas repercussões no cotidiano escolar”, ligia de Carvalho Abões Vercelli apresenta as diferentes concepções de de5 Elaine Moral e Ligia Vercelli senvolvimento humano (inatista, ambientalista e interacionista) e suas correntes teóricas e como cada uma repercute no cotidiano escolar. Cada concepção entende o homem de uma forma diferente e oferece subsídios de como a escola pode trabalhar com o aluno e, consequentemente, como determina a aprendizagem. O texto fornece embasamento teórico para que o professor possa avaliar as diferentes concepções e delas extrair elementos que poderão dar suporte à prática pedagógica. No quarto capítulo, “Dr. Piaget, muito prazer”, Sylvia Paula de Almeida Torres Vilhena inicia o texto com uma breve apresentação biográfica de Jean Piaget. Em seguida explica as bases dos pressupostos teóricos da epistemologia genética, teoria criada pelo autor que no campo da educação, em aplicações na Pedagogia, é nominada como construtivismo. Também busca aproximar alguns dos focos de suas pesquisas a possíveis implicações da prática pedagógica. Por fim, destaca pontos para uma reflexão sobre o impacto político de uma educação construtivista no século XXI. No quinto capítulo, “Comprendendo o processo de desenvolvimento humano: as contribuições da Psicologia Sócio-Histórica de Vygotsky”, Margarete Mota apresenta algumas contribuições de Lev Semenovich Vygotsky para o entendimento do desenvolvimento humano a partir do pressuposto cunhado pelo autor de que a cultura se integra ao homem pela atividade cerebral estimulada pela interação entre parceiros sociais e mediada pela linguagem. O texto está estruturado enfocando o pensamento central de que o desenvolvimento é baseado na visão de um organismo ativo, sendo construído em um contexto que é histórico-social. No sexto capítulo, “Henri Wallon: a psicogênese da pessoa completa”, Regiane Rodrigues de Moraes expõe aspectos gerais da teoria de Henri Wallon estabelecendo uma aproximação com a prática docente. Aborda os conceitos de afetividade, tema central desta teoria, conjunto funcional e a visão de desenvolvimento humano defendida por Wallon. Aponta como este autor bus6 Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens cou compreender a origem do psiquismo humano, sua formação e transformação ao longo do processo de desenvolvimento. No sétimo capítulo, “Teoria de aprendizagem significativa de David Paul Ausubel”, Doralice Bortoloci Ferreira aborda a teoria da aprendizagem significativa de Ausubel, que propõe que os conhecimentos trazidos pelos alunos sejam valorizados. Para que isso ocorra, é necessário que o aluno tenha disposição em aprender e, além disso, que o conteúdo a ser estudado seja potencialmente significativo para ele e não apenas memorizado de forma arbitrária. Aponta que o educador tem papel importante para que a aprendizagem significativa ocorra. No oitavo capítulo, “Inteligências múltiplas: um olhar na educação”, Elaine de Oliveira Carvalho Moral Queiroz apresenta a teoria sobre as “Inteligências Múltiplas”, ideia divulgada pelo cientista norte-americano Howard Gardner. O texto se inicia com um breve histórico a fim de entendermos a proposta acerca da teoria de Gardner, assim como sua trajetória de pesquisa sobre as “Inteligências Múltiplas”. Em seguida, a autora expõe as nove inteligências estipuladas por Gardner. É tecida a reflexão sobre uma nova visão de educação imbuida de um novo olhar metodológico, concebendo as inteligências como inter-relacionadas e com possibilidades de existência de diferentes perfis intelectuais. No nono capítulo, “A contribuição da psicanálise para a educação”, Joel Santos de Abreu aborda determinados aspectos sobre o processo de ensino aprendizagem à luz de alguns conceitos psicanalíticos. Aponta que a cultura vem tecendo o histórico percurso civilizatório e que as instituições educacionais, constituídas no propósito de cumprir importante papel nesse processo, deveriam promover experiências positivas, mas, infelizmente, a priorização da formalidade em detrimento da espontaneidade costuma frustrar o ideal esperado. No décimo capítulo, “Eric Erickson e as oito idades do homem”, Rita Sibele Detilio e Sandra Regina Soares Pereira fazem um breve histórico da vida de Eric Erickson e descrevem as oito 7 Elaine Moral e Ligia Vercelli idades do homem descritas por ele. Eric Erickson, autor da teoria psicossocial, define o desenvolvimento humano como resultado da integração das características inatas e das influências do meio ambiente. Esperamos que esses textos suscitem discussões e que os leitores, principalmente os universitários, futuros docentes, possam discuti-los com seus professores em sala de aula, pautados em situações reais vivenciadas na escola. A educação tal como se encontra atualmente merece ser repensada e analisada à luz das contribuições oferecidas pelas diferentes áreas do conhecimento, entre elas, a Psicologia da Educação. Elaine de Oliveira Carvalho Moral Queiroz Ligia de Carvalho Abões Vercelli (orgs.) 8 CAPÍTULO 1 O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA: BREVE HISTÓRICO Jussara Moreira Pilão introdução o tema aqui contemplado não é novo. Muitos outros pesquisadores já o apresentaram, trazendo diferentes formas de compreensão sobre o assunto, alguns gerando polêmicas que vivificam o estudo. No entanto, acreditamos que a retomada do tema tem valor pela interveniência de outro sujeito-reflexivo além do contexto em que situa esse novo estudo, pelas suas formas peculiares de elaborar e reelaborar um conhecimento. Se o que está acontecendo hoje no campo da psicologia é uma construção a partir do que aconteceu no passado – e é crível essa hipótese – nada mais coerente do que se fazer uma reflexão histórica e entender quais as relações dessa ciência com a Educação. É sabido que muitos pesquisadores escolhem variadas linhas de estudo: só para se ter uma ideia, alguns seguem a linha behaviorista ou, ao contrário, dedicam-se a estudar as funções cognitivistas em meio a tantas outras vertentes. o único ponto em comum, que é consenso entre os estudiosos, é, sem dúvida, o da constituição histórica do conhecimento a que se dedica aprofundar. Concordamos com Schultz e Schultz (2011, p. 2), quando afirmam que “a única linha de trabalho que une essas áreas e esses tratamentos distintos para formar um contexto coerente é a história, ou seja, a evolução da psicologia ao longo do tempo (...)”. 9 Jussara Moreira Pilão Assim, o entendimento da Psicologia em nossos dias passa pelo entendimento de sua história. As atuais tendências, os conflitos, as contribuições, os dilemas e as perspectivas futuras são importantes para contextualizar uma área do conhecimento. Portanto, a evolução dos estudos em Psicologia está relacionada à evolução mais geral das sociedades humanas, em sua dinamicidade e heterogeneidade, ou seja, na própria situação de constante movimento. Quanto ao ensino, baseia-se no fato de que um processo de formação – seja ele em Psicologia ou não – ocorre geralmente de acordo com a concepção que se tem sobre a área do conhecimento que se propõe estudar e ensinar; aprender e apreender. Essas concepções têm a ver com modos de vida em cada tempo e espaço, gerando princípios filosóficos, éticos e metodológicos que orientam teorias científicas e práticas profissionais. Então, uma retrospectiva histórica das principais contribuições da Psicologia pode auxiliar na compreensão das suas relações com a Educação, uma vez que o entendimento da Psicologia passa necessariamente pela sua constituição em um determinado contexto histórico. Ainda que sintética, a relevância da retrospectiva histórica pode ser atribuída, entre outros fatores, à importância da consciência histórica sobre as explicações dos comportamentos humanos que inúmeros estudiosos (sejam filósofos, psicólogos ou educadores) atribuíram ou atribuem a uma ciência. Muitas escolas de pensamento desenvolveram-se ao longo da história da Psicologia. Cada uma delas surgiu em contextos específicos, com maneiras diferenciadas de conceber seu objeto. Mas não se pode deixar de considerar que uma nova forma de pensar acaba por utilizar a anterior como modelo, como base, seja para dar-lhe continuidade, seja para contrapô-la. 10 Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens 1. Aspectos históricos da constituição da Psicologia como área de conhecimento No que se refere à Psicologia, vamos dividir seus estudos em dois grandes momentos: o primeiro trata de uma Psicologia ainda subliminar, que necessita de interpretação pessoal que denominamos de pré-científica; o segundo aborda os estudos e pesquisas da área que chamamos de Psicologia científica. Já na Grécia Antiga, existiam textos que sinalizavam uma Psicologia, e aspectos desse estudo também aparecem durante a Idade Média e o Renascimento (SCHULTZ; SCHULTZ, 2011; PALMER, 2005; BROZEK; MASSINI, 1998; GOODWIN, 2005). Desse modo, embora a Psicologia tenha iniciado sua caminhada verdadeiramente científica somente em fins do século XIX, não é errado afirmar que ela pode (e deve) ser observada desde a Antiguidade, a partir de formas específicas de se pensar o homem em sua relação com o mundo e com o conhecimento: porque indagações a respeito de suas atitudes, seus pensamentos ou sentimentos estão sempre presentes nas reflexões humanas. A Psicologia foi sendo produzida ao longo dos séculos, integrada a outras áreas do conhecimento e a interesses diversos, muito antes de adquirir autonomia e status científicos. As preocupações com as questões psicológicas não são recentes: desde a era pré-socrática já se notavam inclinações para definir o homem em relação ao mundo por meio de suas percepções (PALMER, 2005). Mas, nesse período, as questões presentes giravam mais em torno da existência do mundo; os pensadores que antecederam Sócrates se perguntavam se o homem via um mundo já existente. A partir de Sócrates (469-399 a.C.), autores admitem que a Psicologia começa a ganhar consistência. A preocupação de Sócrates nesse aspecto era com o limite entre o homem e o animal irracional. Para ele, a principal característica do homem 11 Jussara Moreira Pilão era a razão. Via a razão como essência humana. Pode-se dizer que é com Sócrates que têm início as teorias da consciência. Dentre seus postulados, o que podemos relacionar a algum indício de preocupação com a “Psicologia da Educação” é a defesa da maiêutica, ou seja, o “parto” das ideias (PESSANHA, 1999). Em Sócrates, a Psicologia, a Psicologia da Educação e a Educação são inseparáveis (PILÃO, 2002). Ele legitima a Psicologia ao afirmar “conhece-te a ti mesmo”, que é, ao mesmo tempo, a base de uma Psicologia e um princípio pedagógico. Segundo Platão (427-344 a.C.), a cabeça concentra a alma humana que, no entanto, era concebida por ele como separada do restante do corpo e assim, para toda criança, deveria ser dado o direito de aprender a pensar e, para tanto, teria de participar desde cedo do estudo sobre como alcançar as ideias (PESSANHA, 1979). Aristóteles (284-322 a.C.), por sua vez, acreditava que a alma e o corpo não podiam ser dissociados. Pensava que a psiché era o princípio ativo da vida, uma vez que tudo que nasce cresce, alimenta-se, reproduz-se e possui alma. Pode-se atribuir a ele o primeiro estudo das diferenças entre a razão, a percepção e as sensações. Esse estudo originou o tratado que ficou conhecido como “De anima”. Nele, tem início uma trajetória em direção à Psicologia com preocupações evidentes acerca da educação em sentido mais amplo (PESSANHA, 1978). De modo muito geral, ao serem observados os principais pensamentos gerados na Antiguidade, é possível identificar o homem como um ser pensado abstratamente, ou seja, que ele seria eminentemente passivo diante da complexidade do cosmo. A Idade Média foi marcada pelo domínio da Igreja Católica. Assim, como aborda Palmer (2005), o conhecimento em geral estava relacionado ao conhecimento religioso. Alguns dos principais representantes do pensamento dessa época foram Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274). Santo Agostinho tem suas bases em Platão. Para ele, assim como para Platão, existia estreita relação entre corpo e alma. 12 Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens Essa última era a manifestação divina do homem físico. A alma, diferentemente do corpo, foi considerada por Santo Agostinho imortal e um elo de ligação entre o homem e Deus. São Tomás de Aquino por sua vez, adere aos conhecimentos aristotélicos. Tinha profunda preocupação com a distinção entre a essência e a existência. A busca da perfeição pelo homem era a própria busca de Deus. Como um fiel religioso de seu tempo, São Tomás de Aquino, garantia o monopólio da Igreja no estudo do psiquismo humano (PALMER, 2005; GOODWIN, 2005). Na Era Cristã, o homem estava subordinado a uma ordem divina, em que a moral apresentava-se fundamentada em Deus. Portanto, a visão de mundo, que na Antiguidade era cosmocêntrica, passa a ser teocêntrica, porque a verdade encontrava-se, segundo os pensadores dessa época, também fora do homem – não no cosmo, mas sim em Deus. Para compreender o homem e educá-lo, só integrando-o a Deus. Muitos textos desse período evidenciam essa preocupação, tendo um eixo que podemos denominar teopsicológico (FREITAS, 2002). Mais tarde, a transição do Feudalismo para o Capitalismo veio em decorrência de profundas transformações econômicas e socioculturais e, dentre elas, pode-se destacar a valorização do homem; uma nova forma de organização econômica e social; e significativos avanços nas artes, nas tecnologias e nas ciências. Só para ilustrar, em 1543 Copérnico postulava que a Terra não era o centro do universo e, em 1610, Galileu demonstrava, empiricamente, as primeiras experiências da Física moderna. Na Filosofia, Descartes (1596-1659) introduziu os conceitos de “reflexo” e de “consciência” em seus tratados teóricos, considerando a existência da matéria e da alma como substâncias distintas, contrapostas e independentes. A consciência era chamada por ele de “cogito” e essa foi sua mais expressiva colaboração para o que se poderia identificar como Psicologia (DESCARTES, 1999). A autoconsciência humana foi preocupação presente nessa área. As especula13 Jussara Moreira Pilão ções e os estudos sobre o homem, seu significado, seu pensamento e seus comportamentos perpassam esse período, constituindo-se um verdadeiro embrião para as preocupações com a subjetividade humana e seus consequentes (PILÃO, 2002). Assim, Espinoza (1632-1677) buscou, com sua obra, superar o dualismo de Descartes (corpo-alma). Para esse autor, a alma era a ideia do corpo. Sua visão sobre o ser do homem era naturalista e, dessa forma, o homem consistia em um modo finito da substância infinita que, constantemente, está submetido às leis da natureza. Ele afirmava que a Psicologia deveria compreender as ações humanas; considerava que a mente era constituída de uma associação de ideias que seguiam leis fixas, como a geometria. A Psicologia estava sob a submissão dessas leis rígidas e sob a objetividade da matemática (DESCARTES,1999). Vale destacar que a grande contribuição da obra de Espinoza foi postular o monismo de duplo aspecto, em contraposição ao dualismo interacionista de Descartes, que dará base a diferentes concepções da Psicologia em Educação, influenciando teóricos os mais diversos (HUENEMANN, 2010). Sob esses referenciais, começa a ser delineada a era científica da Psicologia. A era Moderna (ou o Renascimento) marcou uma nova visão na qual o homem passou a ser visto como o centro do conhecimento; como tendo amplas possibilidades de dominar a natureza para o seu próprio benefício e fazer escolhas. A moral estava, então, fundamentada no homem; sua visão passa a ser antropocêntrica, negando definitivamente o pensamento aristotélico. A verdade encontrava-se na razão, na relação homem-mundo, sujeito-objeto. Vale ressaltar que a era pré-científica da Psicologia – produto da própria história do homem em suas relações e indagações, desde os povos da Grécia Antiga até a Era Moderna – evidencia a grande preocupação com a origem e o respectivo significado do homem e com esse homem em relação ao mundo que o cerca. Essa preocupação reflete-se nos estudos filosóficos, na arte, na literatura e na 14 Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens religião, constituindo e consolidando conhecimentos a partir do senso comum até chegar a elaborações lógicas, articuladas e, mais tarde, à verificação empírica (GOODWIN, 2005). Já em meados do século XVIII, a Psicologia promove seus primeiros ensaios científicos independentes. Mas não se pode negar que a produção da sua autonomia como ciência teve como sustentação as ideias de filósofos que mostraram preocupação e trataram de questões que, tipicamente, vão constituir o campo da Psicologia e que são relacionadas à subjetividade humana ou ao comportamento do homem em situações diversas. A transitoriedade entre pré-ciência e ciência perdurou até meados do século XIX, quando a Psicologia ainda era tida como um ramo da filosofia, mas então já incorporando elementos de explicação objetiva e embasada em dados externos ao homem. Schultz e Schultz (2011), ao estudarem as origens da Psicologia, mostram as várias possibilidades e dizem que foi só a partir do século XIX, que ela se torna independente, com “(...) métodos de pesquisa distintos e fundamentação teórica. Embora seja verdade, como já observamos, que os filósofos (...) se preocupavam com problemas que ainda hoje são de interesse geral (...)” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2011, p. 4). Embora de maneiras diversas e muito distintas das que sabemos hoje, uma vez que eram filósofos e não psicólogos. A Psicologia vai tornando-se científica à medida que começa a se desprender da Filosofia e a apresentar-se como campo autônomo. Dentre os fatos significativos que marcam esse momento, podemos destacar discussões e demarcações quanto à definição do objeto de estudo (comportamento, vida psíquica, consciência); quanto à delimitação do campo de estudo; quanto aos métodos específicos de estudo; e quanto à formulação de teorias específicas para essa classe de estudos. Weber (1705-1778) é um desses demarcadores, explicando o psíquico a partir das sensações visuais e táteis. Em seus ensaios, Herbart (1776-1841) também já procurava por leis 15