Psicologia da Educação:
Múltiplas Abordagens
Elaine Moral
Ligia A. Vercelli
(orgs.)
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©2013 Ligia Vercelli; Elaine Moral
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M7922 Moral, Elaine; Vercelli, Ligia (orgs.)
Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens (Pedagogia de A a Z; Vol. 8 )/
Ligia Vercelli; Elaine Moral (orgs.). Jundiaí, Paco Editorial: 2013.
216 p. Inclui bibliografia. Inclui imagens e gráficos. Vários autores.
ISBN: 978-85-8148-233-0
1. Psicologia 2. Educação 3. Psicanálise 4. Desenvolvimento humano. I.
Vercelli, Ligia II. Moral, Elaine
CDD: 370
Índices para catálogo sistemático:
Educação – Pedagogia
Psicologia Educacional
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal
370
370.15
Sumário
Apresentação.........................................................................5
Capítulo 1
O Surgimento da Psicologia: Breve Histórico.................9
Jussara Moreira Pilão
Capítulo 2
Ciência e Senso Comum: Um Desafio para a Pedagogia....27
Rosileny Alves dos Santos Schwantes
Capítulo 3
As Concepções de Desenvolvimento Humano
e suas Repercussões no Cotidiano Escolar......................39
Ligia A. Vercelli
Capítulo 4
Dr. Piaget, Muito Prazer....................................................61
Sylvia Paula de Almeida Torres Vilhena
Capítulo 5
Compreendendo o Processo de Desenvolvimento
Humano: As Contribuições da Psicologia
Sócio-Histórica de Vygotsky.............................................89
Margarete Mota
Capítulo 6
Henri Wallon: A Psicogênese da Pessoa Completa.......103
Regiane Rodrigues de Moraes
CApítulo 7
teoria de Aprendizagem Significativa
de David paul Ausubel......................................................125
Doralice Bortoloci Ferreira
CApítulo 8
Inteligências Múltiplas: um olhar na Educação.........149
Elaine de oliveira Carvalho Moral Queiroz
CApítulo 9
A Contribuiçao da psicanálise para a Educação............165
Joel Santos de Abreu
CApítulo 10
Eric Erikson e as oito Idades do Homem.......................189
Rita Sibele Detilio
Sandra Regina Soares pereira
os autores..........................................................................207
APRESENTAÇÃO
A interlocução entre psicologia e Educação há muito tempo é tema de debates entre os profissionais que trabalham com
formação de professores. Historicamente, a disciplina psicologia
da Educação é uma das áreas de conhecimento que sempre direcionou a prática pedagógica, por isso, tem papel importante
no currículo básico das licenciaturas. Ela oferece aos professores
subsídios para que possam entender de forma mais abrangente o
desenvolvimento humano e o processo de ensino aprendizagem
do aluno sob diferentes ângulos, já que apresenta diversos referenciais teóricos, com objetos e metodologias próprios.
o livro Psicologia da Educação segue nessa direção, apresentando
contribuições para o fazer pedagógico do professor, uma vez que oferece reflexões acerca de diferentes teóricos da psicologia que podem
iluminar a práxis cotidiana. Dessa forma, o volume possui dez capítulos que foram escritos por diferentes autores aqui apresentados.
No primeiro capítulo, “o surgimento da psicologia: breve
histórico”, Jussara Moreira pilão destaca a importância do conhecimento da constituição da psicologia pré-científica e científica, refletindo sobre alguns dos principais pressupostos que dão
apoio ao ensino da disciplina psicologia da Educação. Sintetiza
abordagens teóricas e históricas sobre o tema com possibilidades
de entendimento da história da psicologia.
No segundo capítulo, “Ciência e senso comum: um desafio
para a pedagogia”, Rosileny Alves dos Santos Schwantes apresenta
alguns conceitos sobre senso comum e ciência. Incialmente, mostra a origem da expressão “senso comum”, passando pelo desvendar de uma realidade cotidiana. Em seguida, investiga o fenômeno
como forma de se fazer ciência. também aborda como se faz ciência na pedagogia e a relação existente entre ciência e senso comum.
No terceiro capítulo, “As concepções do desenvolvimento
humano e suas repercussões no cotidiano escolar”, ligia de Carvalho Abões Vercelli apresenta as diferentes concepções de de5
Elaine Moral e Ligia Vercelli
senvolvimento humano (inatista, ambientalista e interacionista)
e suas correntes teóricas e como cada uma repercute no cotidiano
escolar. Cada concepção entende o homem de uma forma diferente e oferece subsídios de como a escola pode trabalhar com o
aluno e, consequentemente, como determina a aprendizagem. O
texto fornece embasamento teórico para que o professor possa
avaliar as diferentes concepções e delas extrair elementos que poderão dar suporte à prática pedagógica.
No quarto capítulo, “Dr. Piaget, muito prazer”, Sylvia Paula
de Almeida Torres Vilhena inicia o texto com uma breve apresentação biográfica de Jean Piaget. Em seguida explica as bases dos
pressupostos teóricos da epistemologia genética, teoria criada pelo
autor que no campo da educação, em aplicações na Pedagogia, é
nominada como construtivismo. Também busca aproximar alguns
dos focos de suas pesquisas a possíveis implicações da prática pedagógica. Por fim, destaca pontos para uma reflexão sobre o impacto
político de uma educação construtivista no século XXI.
No quinto capítulo, “Comprendendo o processo de desenvolvimento humano: as contribuições da Psicologia Sócio-Histórica de Vygotsky”, Margarete Mota apresenta algumas contribuições de Lev Semenovich Vygotsky para o entendimento do
desenvolvimento humano a partir do pressuposto cunhado pelo
autor de que a cultura se integra ao homem pela atividade cerebral estimulada pela interação entre parceiros sociais e mediada
pela linguagem. O texto está estruturado enfocando o pensamento central de que o desenvolvimento é baseado na visão de
um organismo ativo, sendo construído em um contexto que é
histórico-social.
No sexto capítulo, “Henri Wallon: a psicogênese da pessoa
completa”, Regiane Rodrigues de Moraes expõe aspectos gerais
da teoria de Henri Wallon estabelecendo uma aproximação com
a prática docente. Aborda os conceitos de afetividade, tema central desta teoria, conjunto funcional e a visão de desenvolvimento humano defendida por Wallon. Aponta como este autor bus6
Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens
cou compreender a origem do psiquismo humano, sua formação
e transformação ao longo do processo de desenvolvimento.
No sétimo capítulo, “Teoria de aprendizagem significativa
de David Paul Ausubel”, Doralice Bortoloci Ferreira aborda a
teoria da aprendizagem significativa de Ausubel, que propõe que
os conhecimentos trazidos pelos alunos sejam valorizados. Para
que isso ocorra, é necessário que o aluno tenha disposição em
aprender e, além disso, que o conteúdo a ser estudado seja potencialmente significativo para ele e não apenas memorizado de
forma arbitrária. Aponta que o educador tem papel importante
para que a aprendizagem significativa ocorra.
No oitavo capítulo, “Inteligências múltiplas: um olhar na
educação”, Elaine de Oliveira Carvalho Moral Queiroz apresenta
a teoria sobre as “Inteligências Múltiplas”, ideia divulgada pelo
cientista norte-americano Howard Gardner. O texto se inicia
com um breve histórico a fim de entendermos a proposta acerca
da teoria de Gardner, assim como sua trajetória de pesquisa sobre
as “Inteligências Múltiplas”. Em seguida, a autora expõe as nove
inteligências estipuladas por Gardner. É tecida a reflexão sobre
uma nova visão de educação imbuida de um novo olhar metodológico, concebendo as inteligências como inter-relacionadas e
com possibilidades de existência de diferentes perfis intelectuais.
No nono capítulo, “A contribuição da psicanálise para a
educação”, Joel Santos de Abreu aborda determinados aspectos
sobre o processo de ensino aprendizagem à luz de alguns conceitos psicanalíticos. Aponta que a cultura vem tecendo o histórico
percurso civilizatório e que as instituições educacionais, constituídas no propósito de cumprir importante papel nesse processo,
deveriam promover experiências positivas, mas, infelizmente, a
priorização da formalidade em detrimento da espontaneidade
costuma frustrar o ideal esperado.
No décimo capítulo, “Eric Erickson e as oito idades do homem”, Rita Sibele Detilio e Sandra Regina Soares Pereira fazem
um breve histórico da vida de Eric Erickson e descrevem as oito
7
Elaine Moral e Ligia Vercelli
idades do homem descritas por ele. Eric Erickson, autor da teoria psicossocial, define o desenvolvimento humano como resultado da integração das características inatas e das influências do
meio ambiente.
Esperamos que esses textos suscitem discussões e que os leitores, principalmente os universitários, futuros docentes, possam
discuti-los com seus professores em sala de aula, pautados em
situações reais vivenciadas na escola. A educação tal como se
encontra atualmente merece ser repensada e analisada à luz das
contribuições oferecidas pelas diferentes áreas do conhecimento,
entre elas, a Psicologia da Educação.
Elaine de Oliveira Carvalho Moral Queiroz
Ligia de Carvalho Abões Vercelli
(orgs.)
8
CAPÍTULO 1
O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA:
BREVE HISTÓRICO
Jussara Moreira Pilão
introdução
o tema aqui contemplado não é novo. Muitos outros pesquisadores já o apresentaram, trazendo diferentes formas de
compreensão sobre o assunto, alguns gerando polêmicas que vivificam o estudo.
No entanto, acreditamos que a retomada do tema tem valor
pela interveniência de outro sujeito-reflexivo além do contexto
em que situa esse novo estudo, pelas suas formas peculiares de
elaborar e reelaborar um conhecimento.
Se o que está acontecendo hoje no campo da psicologia é
uma construção a partir do que aconteceu no passado – e é
crível essa hipótese – nada mais coerente do que se fazer uma
reflexão histórica e entender quais as relações dessa ciência
com a Educação.
É sabido que muitos pesquisadores escolhem variadas
linhas de estudo: só para se ter uma ideia, alguns seguem a linha behaviorista ou, ao contrário, dedicam-se a estudar as funções cognitivistas em meio a tantas outras vertentes. o único
ponto em comum, que é consenso entre os estudiosos, é, sem
dúvida, o da constituição histórica do conhecimento a que
se dedica aprofundar. Concordamos com Schultz e Schultz
(2011, p. 2), quando afirmam que “a única linha de trabalho
que une essas áreas e esses tratamentos distintos para formar
um contexto coerente é a história, ou seja, a evolução da psicologia ao longo do tempo (...)”.
9
Jussara Moreira Pilão
Assim, o entendimento da Psicologia em nossos dias passa
pelo entendimento de sua história. As atuais tendências, os conflitos, as contribuições, os dilemas e as perspectivas futuras são
importantes para contextualizar uma área do conhecimento.
Portanto, a evolução dos estudos em Psicologia está relacionada à evolução mais geral das sociedades humanas, em sua dinamicidade e heterogeneidade, ou seja, na própria situação de
constante movimento.
Quanto ao ensino, baseia-se no fato de que um processo de
formação – seja ele em Psicologia ou não – ocorre geralmente
de acordo com a concepção que se tem sobre a área do conhecimento que se propõe estudar e ensinar; aprender e apreender.
Essas concepções têm a ver com modos de vida em cada tempo
e espaço, gerando princípios filosóficos, éticos e metodológicos
que orientam teorias científicas e práticas profissionais.
Então, uma retrospectiva histórica das principais contribuições da Psicologia pode auxiliar na compreensão das suas relações com a Educação, uma vez que o entendimento da Psicologia
passa necessariamente pela sua constituição em um determinado
contexto histórico.
Ainda que sintética, a relevância da retrospectiva histórica
pode ser atribuída, entre outros fatores, à importância da consciência histórica sobre as explicações dos comportamentos humanos que inúmeros estudiosos (sejam filósofos, psicólogos ou
educadores) atribuíram ou atribuem a uma ciência.
Muitas escolas de pensamento desenvolveram-se ao longo da
história da Psicologia. Cada uma delas surgiu em contextos específicos, com maneiras diferenciadas de conceber seu objeto. Mas
não se pode deixar de considerar que uma nova forma de pensar
acaba por utilizar a anterior como modelo, como base, seja para
dar-lhe continuidade, seja para contrapô-la.
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Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens
1. Aspectos históricos da constituição da Psicologia como área de conhecimento
No que se refere à Psicologia, vamos dividir seus estudos
em dois grandes momentos: o primeiro trata de uma Psicologia ainda subliminar, que necessita de interpretação pessoal que
denominamos de pré-científica; o segundo aborda os estudos e
pesquisas da área que chamamos de Psicologia científica.
Já na Grécia Antiga, existiam textos que sinalizavam uma
Psicologia, e aspectos desse estudo também aparecem durante a
Idade Média e o Renascimento (SCHULTZ; SCHULTZ, 2011;
PALMER, 2005; BROZEK; MASSINI, 1998; GOODWIN,
2005). Desse modo, embora a Psicologia tenha iniciado sua caminhada verdadeiramente científica somente em fins do século
XIX, não é errado afirmar que ela pode (e deve) ser observada
desde a Antiguidade, a partir de formas específicas de se pensar
o homem em sua relação com o mundo e com o conhecimento:
porque indagações a respeito de suas atitudes, seus pensamentos
ou sentimentos estão sempre presentes nas reflexões humanas.
A Psicologia foi sendo produzida ao longo dos séculos, integrada a outras áreas do conhecimento e a interesses diversos,
muito antes de adquirir autonomia e status científicos. As preocupações com as questões psicológicas não são recentes: desde a
era pré-socrática já se notavam inclinações para definir o homem
em relação ao mundo por meio de suas percepções (PALMER,
2005). Mas, nesse período, as questões presentes giravam mais
em torno da existência do mundo; os pensadores que antecederam Sócrates se perguntavam se o homem via um mundo já
existente. A partir de Sócrates (469-399 a.C.), autores admitem
que a Psicologia começa a ganhar consistência. A preocupação
de Sócrates nesse aspecto era com o limite entre o homem e o
animal irracional. Para ele, a principal característica do homem
11
Jussara Moreira Pilão
era a razão. Via a razão como essência humana. Pode-se dizer que
é com Sócrates que têm início as teorias da consciência. Dentre seus postulados, o que podemos relacionar a algum indício
de preocupação com a “Psicologia da Educação” é a defesa da
maiêutica, ou seja, o “parto” das ideias (PESSANHA, 1999).
Em Sócrates, a Psicologia, a Psicologia da Educação e a Educação são inseparáveis (PILÃO, 2002). Ele legitima a Psicologia ao
afirmar “conhece-te a ti mesmo”, que é, ao mesmo tempo, a base
de uma Psicologia e um princípio pedagógico.
Segundo Platão (427-344 a.C.), a cabeça concentra a alma humana que, no entanto, era concebida por ele como separada do restante do corpo e assim, para toda criança, deveria ser dado o direito
de aprender a pensar e, para tanto, teria de participar desde cedo do
estudo sobre como alcançar as ideias (PESSANHA, 1979).
Aristóteles (284-322 a.C.), por sua vez, acreditava que a alma
e o corpo não podiam ser dissociados. Pensava que a psiché era
o princípio ativo da vida, uma vez que tudo que nasce cresce,
alimenta-se, reproduz-se e possui alma. Pode-se atribuir a ele o
primeiro estudo das diferenças entre a razão, a percepção e as
sensações. Esse estudo originou o tratado que ficou conhecido
como “De anima”. Nele, tem início uma trajetória em direção à
Psicologia com preocupações evidentes acerca da educação em
sentido mais amplo (PESSANHA, 1978).
De modo muito geral, ao serem observados os principais
pensamentos gerados na Antiguidade, é possível identificar o homem como um ser pensado abstratamente, ou seja, que ele seria
eminentemente passivo diante da complexidade do cosmo.
A Idade Média foi marcada pelo domínio da Igreja Católica.
Assim, como aborda Palmer (2005), o conhecimento em geral
estava relacionado ao conhecimento religioso. Alguns dos principais representantes do pensamento dessa época foram Santo
Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274).
Santo Agostinho tem suas bases em Platão. Para ele, assim
como para Platão, existia estreita relação entre corpo e alma.
12
Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens
Essa última era a manifestação divina do homem físico. A alma,
diferentemente do corpo, foi considerada por Santo Agostinho
imortal e um elo de ligação entre o homem e Deus. São Tomás
de Aquino por sua vez, adere aos conhecimentos aristotélicos.
Tinha profunda preocupação com a distinção entre a essência e a
existência. A busca da perfeição pelo homem era a própria busca
de Deus. Como um fiel religioso de seu tempo, São Tomás de
Aquino, garantia o monopólio da Igreja no estudo do psiquismo
humano (PALMER, 2005; GOODWIN, 2005).
Na Era Cristã, o homem estava subordinado a uma ordem
divina, em que a moral apresentava-se fundamentada em Deus.
Portanto, a visão de mundo, que na Antiguidade era cosmocêntrica, passa a ser teocêntrica, porque a verdade encontrava-se, segundo os pensadores dessa época, também fora do homem – não
no cosmo, mas sim em Deus.
Para compreender o homem e educá-lo, só integrando-o
a Deus. Muitos textos desse período evidenciam essa preocupação, tendo um eixo que podemos denominar teopsicológico
(FREITAS, 2002).
Mais tarde, a transição do Feudalismo para o Capitalismo
veio em decorrência de profundas transformações econômicas e
socioculturais e, dentre elas, pode-se destacar a valorização do
homem; uma nova forma de organização econômica e social; e
significativos avanços nas artes, nas tecnologias e nas ciências. Só
para ilustrar, em 1543 Copérnico postulava que a Terra não era o
centro do universo e, em 1610, Galileu demonstrava, empiricamente, as primeiras experiências da Física moderna. Na Filosofia,
Descartes (1596-1659) introduziu os conceitos de “reflexo” e de
“consciência” em seus tratados teóricos, considerando a existência da matéria e da alma como substâncias distintas, contrapostas
e independentes. A consciência era chamada por ele de “cogito”
e essa foi sua mais expressiva colaboração para o que se poderia
identificar como Psicologia (DESCARTES, 1999). A autoconsciência humana foi preocupação presente nessa área. As especula13
Jussara Moreira Pilão
ções e os estudos sobre o homem, seu significado, seu pensamento
e seus comportamentos perpassam esse período, constituindo-se
um verdadeiro embrião para as preocupações com a subjetividade humana e seus consequentes (PILÃO, 2002).
Assim, Espinoza (1632-1677) buscou, com sua obra, superar o dualismo de Descartes (corpo-alma). Para esse autor, a alma
era a ideia do corpo. Sua visão sobre o ser do homem era naturalista e, dessa forma, o homem consistia em um modo finito da
substância infinita que, constantemente, está submetido às leis
da natureza. Ele afirmava que a Psicologia deveria compreender
as ações humanas; considerava que a mente era constituída de
uma associação de ideias que seguiam leis fixas, como a geometria. A Psicologia estava sob a submissão dessas leis rígidas e sob a
objetividade da matemática (DESCARTES,1999).
Vale destacar que a grande contribuição da obra de Espinoza
foi postular o monismo de duplo aspecto, em contraposição ao
dualismo interacionista de Descartes, que dará base a diferentes
concepções da Psicologia em Educação, influenciando teóricos
os mais diversos (HUENEMANN, 2010).
Sob esses referenciais, começa a ser delineada a era científica
da Psicologia. A era Moderna (ou o Renascimento) marcou uma
nova visão na qual o homem passou a ser visto como o centro do
conhecimento; como tendo amplas possibilidades de dominar a
natureza para o seu próprio benefício e fazer escolhas. A moral
estava, então, fundamentada no homem; sua visão passa a ser
antropocêntrica, negando definitivamente o pensamento aristotélico. A verdade encontrava-se na razão, na relação homem-mundo, sujeito-objeto.
Vale ressaltar que a era pré-científica da Psicologia – produto
da própria história do homem em suas relações e indagações, desde
os povos da Grécia Antiga até a Era Moderna – evidencia a grande
preocupação com a origem e o respectivo significado do homem e
com esse homem em relação ao mundo que o cerca. Essa preocupação reflete-se nos estudos filosóficos, na arte, na literatura e na
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Psicologia da Educação: Múltiplas Abordagens
religião, constituindo e consolidando conhecimentos a partir do
senso comum até chegar a elaborações lógicas, articuladas e, mais
tarde, à verificação empírica (GOODWIN, 2005).
Já em meados do século XVIII, a Psicologia promove seus
primeiros ensaios científicos independentes. Mas não se pode negar que a produção da sua autonomia como ciência teve como
sustentação as ideias de filósofos que mostraram preocupação e
trataram de questões que, tipicamente, vão constituir o campo
da Psicologia e que são relacionadas à subjetividade humana ou
ao comportamento do homem em situações diversas. A transitoriedade entre pré-ciência e ciência perdurou até meados do
século XIX, quando a Psicologia ainda era tida como um ramo
da filosofia, mas então já incorporando elementos de explicação
objetiva e embasada em dados externos ao homem.
Schultz e Schultz (2011), ao estudarem as origens da Psicologia, mostram as várias possibilidades e dizem que foi só a
partir do século XIX, que ela se torna independente, com “(...)
métodos de pesquisa distintos e fundamentação teórica. Embora
seja verdade, como já observamos, que os filósofos (...) se preocupavam com problemas que ainda hoje são de interesse geral (...)”
(SCHULTZ; SCHULTZ, 2011, p. 4). Embora de maneiras diversas e muito distintas das que sabemos hoje, uma vez que eram
filósofos e não psicólogos.
A Psicologia vai tornando-se científica à medida que começa
a se desprender da Filosofia e a apresentar-se como campo autônomo. Dentre os fatos significativos que marcam esse momento,
podemos destacar discussões e demarcações quanto à definição
do objeto de estudo (comportamento, vida psíquica, consciência); quanto à delimitação do campo de estudo; quanto aos métodos específicos de estudo; e quanto à formulação de teorias
específicas para essa classe de estudos.
Weber (1705-1778) é um desses demarcadores, explicando o psíquico a partir das sensações visuais e táteis. Em seus
ensaios, Herbart (1776-1841) também já procurava por leis
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