O CUIDADO DE ENFERMAGEM – QUE SENTIDO(S) ? INTRODUÇÃO Sempre que pretendemos descrever os cuidados de enfermagem, deparamo-nos com dificuldades que se relacionam com uma diversidade de factores, de que podemos salientar - a especificidade do saber em enfermagem; o estatuto da disciplina de enfermagem e a organização do cuidado de enfermagem. A reflexão que apresento desenvolve-se em torno da discussão sobre a centralidade da pessoa no processo de cuidados, através da análise da(s) prática(s) pela valorização dos métodos e instrumentos estruturantes do processo de cuidados enquanto sistema de acção concreto e espaço de formação. SENTIDO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM AO NÍVEL DAS PRÁTICAS Apesar de se falar em cuidado de enfermagem, este surge com frequência em função do acto médico, o qual se organiza em torno de tecnologias de investigação e reparação das doenças – CURE – cuidados de reparação. Penso que os objectivos de Florence Nightingale não foram continuados, na medida em que: § Não foram diferenciados o foco e os objectivos da enfermagem em relação á medicina; § O que começou a ser domínio da prática da enfermagem ( saúde; higiene; ambiente e cuidar ), passou nesta época a ser do domínio médico na prática, melhor desenvolvido e mais poderoso; § Os doentes passam a ser considerados pelos enfermeiros em função da doença que têm, sendo essa a base da tomada de decisão, privilegiando as tarefas em detrimento da interacção; § A valorização é da objectividade e não da subjectividade e sentimentos da pessoa, sendo desta forma a sua participação no processo de cuidados, quase nula. No início da década de 60 – Virginia Henderson - procura desequilibrar esta lógica ao propor a ruptura com o modelo subsidiário do acto médico, mantendo a importância da interdependência e da complementaridade, inseridas na autonomia que deriva da função específica da enfermeira: § Desenha-se aqui de novo um “ sentido “ do cuidado de enfermagem, através do que podemos designar por uma configuração alicerçada no eixo da dependência / independência das pessoas, para satisfação das Necessidades Humanas Básicas; § Quem pensa a enfermagem, sugere que quem a pratica tem dois papeis extremamente importantes: § O de educador; § O de quem acompanha o outro, até na morte, para que esta seja digna. A ruptura com o paradigma positivista, coloca-nos perante as dificuldades inerentes à invisibilidade do cuidado de enfermagem com uma orientação para a pessoa. Isto agrava-se num sistema social caracterizado pelo prestígio social das disciplinas, de acordo com o seu reconhecimento não só pelos conteúdos, como também pelo prestígio de que os profissionais gozam nesse sistema social. Parece-me claro que é maior o prestígio social que decorre do acto de salvar vidas ( habitualmente atribuído ao saber e poder médicos ), do que do acto de acompanhar as pessoas numa morte serena e digna ( habitualmente atribuído a um saber por vezes profano, para o qual não se necessita ter uma formação especial ). Os enfermeiros que “ pensam a enfermagem “, numa lógica de reivindicação de um estatuto de disciplina do cuidado de enfermagem, têm divulgado a noção de que para que uma disciplina possa nascer é necessário que os especialistas consigam criar uma zona de autonomia na encruzilhada de vários grupos sociais. Penso que uma das grandes dificuldades situa-se no facto de que a busca da especificidade do cuidado de enfermagem, sempre atravessou duas vertentes essenciais: § uma relacionada com a necessidade de um conhecimento e saber técnicos próprios; § outra relacionada com a exigência de competências relacionais, tidas como essenciais – uma atitude de ajuda e / ou substituição da pessoa quando necessário, esta dificuldade tem sido inerente à construção de conteúdos específicos da disciplina de enfermagem. Como já referi, Virginia Henderson, procura romper com o modelo biomédico como organizador do trabalho dos enfermeiros, definindo postulados que (re)clarificam o estatuto da pessoa no processo de cuidados. Esta mudança consistirá essencialmente no enunciar os elementos que constituem a mais valia no bem estar das pessoas. Permite também identificar as dificuldades e os constrangimentos inerentes à prática do Cuidado: § Os enfermeiros só por si não podem ter a pretensão de se atribuir os efeitos duma abordagem multiprofissional e / ou interdisciplinar; § A procura de uma especificidade do cuidado de enfermagem pode permitir explorar uma tradição oral, que formalize em texto um saber e metodologias que legitimem um estatuto diferente para o cuidado de enfermagem. § A ruptura com o paradigma biomédico, permitirá uma postura de confrontação do conflito que é provocada pelas zonas de incerteza e de sobreposição entre alguns actos médicos e alguns actos de enfermagem; § Se enfrentarmos o conflito, deixaremos de subsidiar o referido paradigma, através da formação para este modelo, de novos profissionais que se vêem constantemente confrontados com um discurso formativo próximo do paradigma humanista e a acção formativa subsidiária do paradigma biomédico. A CENTRALIDADE DA PESSOA NO PROCESSO DE CUIDADOS As diversas conceptualizações sobre o cuidado de enfermagem tiveram em consideração contextos socio-culturais e bases teóricas, educacionais e experimentais, bem como os interesses da enfermagem nas diferentes épocas. O interaccionismo deu contributos importantes para a conceptualização de um sentido do cuidado de enfermagem centrado na pessoa, na medida em que considera o como no processo de interacção e no desenvolvimento da relação enfermeiro / cliente. A pessoa passa a ser o centro de interesse, baseado numa relação interpessoal que ocorre entre a pessoa que necessita de ajuda e a solicita, e a pessoa capaz de dar ajuda, onde o cuidado não é um acto mecânico, mas sim humanístico. A experiência pessoal torna-se promotora de desenvolvimento, mesmo quando causa mal-estar, desde que lhe encontremos um sentido. Nesta lógica começa a considerar-se a pessoa doente ou não, como parceiro no processo de cuidados. Se a preocupação dos enfermeiros for apoiar e ajudar a pessoa a obter níveis de bem – estar superiores aos que possui; se acreditarmos que aquela pessoa está a viver a situação de uma forma diferente e única de qualquer outra pessoa, toda a concepção e organização do cuidado se modificará. A obtenção de resultados diferentes, fazendo embora as mesmas coisas, será uma realidade. Se conceptualmente é a pessoa o alvo e objecto do sentido do cuidado de enfermagem, o que acontece é que existe uma divisão de trabalho baseada na perspectiva medicocêntrica da organização do trabalho, baseado em tarefas / actividades, que deverão ser realizadas em cada turno de trabalho, emergindo dificuldades em clarificar o que é da pessoa e o que é do turno. O Plano de cuidados colectivo, fixo na parede de grande número de salas de trabalho de enfermeiros, à época em que surge, procura corporizar um novo sentido do cuidado de enfermagem, na medida em que pretende valorizar o doente como alvo e objecto de cuidados, congregando um conjunto de informações que fica aparentemente sob o controlo dos enfermeiros. E digo aparentemente porque, uma vez mais temos uma intenção que provém de quem pensa a enfermagem ( neste caso os enfermeiros chefe e os enfermeiros coordenadores ) e não dos que fazem a enfermagem. Esta perspectiva é reforçada por resultados de investigação recente ( Amendoeira, 1999) realizada em contexto hospitalar e onde a passagem de turno, enquanto espaço de informação essencial à organização do trabalho, precede outro momento que é o da prestação de cuidados, que por sua vez é claramente distinto do terceiro momento que é o dos registos ( figura 1 ) Nos registos enfatiza-se essencialmente o que se fez no turno e o que se deve fazer nos seguintes, constituindo-se a passagem de turno o espaço onde se informam os enfermeiros do que há para fazer nos períodos de trabalho seguintes. OS MÉTODOS E OS INSTRUMENTOS Este questionamento conduz-me essencialmente aos métodos e instrumentos utilizados pela disciplina de enfermagem. Nesta perspectiva, penso que a rotina que responde exclusivamente a cuidados parcelares ( tarefas ) que se constituem numa padronização de cuidados e não dos procedimentos dos mesmos, não tem, na maioria das vezes influência no bem estar das pessoas. Se a organização do trabalho se desenvolve em torno da tarefa, o enfermeiro mantém o papel técnico que lhe advém essencialmente da habilitação que lhe concede o poder para executar um conjunto de cuidados que decorrem da prescrição médica, continuando a depender, embora implicitamente, do papel moral em tudo o que foge a essas tarefas. O estatuto que este papel confere ao enfermeiro, torna-o de facto auxiliar do médico mesmo e, essencialmente nas expectativas do doente e / ou família, descaracterizando por completo a sua prestação de cuidados, baseada numa lógica de desenvolvimento de tarefas. Figura 1 - Um dia na Unidade de Internamento com as enfermeiras. OS MODOS DE ORGANIZAR O TRABALHO NORMATIVIDADE / ROTINA / CONTEXTUAL "ESTRUTURA ACTANCIAL" DOS CUIDADOS Método de distribuição do trabalho Sistemas de classificação dos doentes Tipos de doentes PASSAGEM DE TURNO • • • • • • • • Método de distribuição de trabalho Partilha de informação relativa a cada doente Espaços físicos diferentes Informação organizada em "pastas" A enfermeira que "passa" e a que "recebe" a informação Enfermeira "responsável"; "substituta" e "coordenadora" Enfermeira responsável regista os dados dos "seus" doentes Organização dos cuidados de acordo com: − − Quantidade de trabalho Plano de cuidados PRESTAÇÃO DE CUIDADOS DE ENFERMAGEM • • • Preparação e administração de terapêutica (diversos horários) Ajuda e/ou supervisão na alimentação dos doentes Planeamento de cuidados de higiene e conforto − Execução pelas próprias - Doentes dependentes e parcial- mente dependentes − • Delegação nas auxiliares - Doentes independentes Re-avaliação da situação do doente (pessoa no global) − Avaliar e registar sinais vitais; glicemia capilar (contextual) • Cuidados de manutenção a um grupo de doentes independente- mente de ser enfermeira "responsável" • Contacto com os familiares. ELABORAÇÃO DE REGISTOS • • • • Diagnósticos de enfermagem Prescrição de acções de enfermagem Respostas das pessoas às acções de enfermagem executadas Respostas das pessoas às acções terapêuticas sob prescrição médi- ca. PROCESSO HEURÍSTICO DE PRESTAÇÃO DE CUIDADOS Fonte: Amendoeira, José ( 1999 ) Formação em enfermagem. Que conhecimentos ? Que contextos ? p.194 Desta apreciação emergem dois aspectos: no que concerne à organização funcional do trabalho, faz com que terminadas as tarefas, fique terminada a intervenção que tem como contexto o turno e não as pessoas; relacionado com este aspecto está o anteriormente referido quanto à descaracterização do cuidado de enfermagem, quando por exemplo não é valorizado pelos enfermeiros o tipo de informação que se mobiliza para o doente e / ou familiares. Se estudarmos a prática dos cuidados e procurarmos compreender o(s) sentido(s), contribuiremos para a clarificação dos conteúdos disciplinares da enfermagem e muito concretamente do cuidado de enfermagem. É neste sentido que defendo uma perspectiva de análise interdisciplinar, na medida em que o processo de cuidados é também interdisciplinar. Assim, concebo a interacção social emergente das relações entre os diferentes intervenientes no processo de cuidados como objecto de estudo, de eleição, através da qual podemos caracterizar a acção, numa lógica de complementariedade entre o acto de enfermagem e o acto médico, naquilo que designo por Sistema de Acção Concreto. A fim de existir um processo de cuidados, é necessário que se considerem as actividades de enfermagem desenvolvidas pelos enfermeiros, tendo por base a interacção entre estes e os clientes, mas também com outros actores, na perspectiva da interacção social e interdisciplinaridade, anteriormente referidas Este é um processo de interacção entre os diferentes actores sociais em que mutuamente se elucidam, embora com competências diferentes e complementares, no sentido de que a relação seja a mais adequada. O enfermeiro ao adoptar uma estratégia de intervenção centrada nas necessidades dos clientes, foge ao trabalho realizado por tarefa, podendo o processo de cuidados tornar-se num momento de ligação entre o doente e um profissional que pretende prestar cuidados de qualidade, “é o processo de classificação que permite à burocracia profissional decompor as suas diferentes tarefas operacionais e consigná-las a profissionais que são relativamente autónomos “ ( Mintzberg, 1996 ). É quando se começa a valorizar a relação prestador de cuidados / utilizador de cuidados, que se desenvolvem os métodos e os instrumentos de planeamento e organização do trabalho e que surgem os primeiros modelos teóricos sobre o cuidado de enfermagem. OS MODELOS TEÓRICOS A importância dos modelos teóricos é evidente na medida em que: oferecem uma primeira articulação do que é a enfermagem e do que os enfermeiros fazem; proporcionam a conceptualização de como ajudar as pessoas no conforto, como realizar os tratamentos com o menor risco e como aumentar o bem – estar; oferecem uma linguagem comum de base e um acordo acerca de quem são os clientes; os clientes respondem ao cuidado de uma forma global; o cliente do cuidado é um membro de um grupo de referência e as intervenções só têm significado se o todo for considerado. A emergência dos modelos teóricos de enfermagem, pretendem conceptualizar o quê do cuidado de enfermagem, verificando-se o reforço da necessidade de distinguir a linguagem dos enfermeiros, da linguagem dos médicos. E fazê-lo com a consciência de que existem áreas de sobreposição, havendo a necessidade de assumirmos papeis diferentes, complementares mas não competitivos, na perspectiva da interdisciplinaridade. A investigação na década de sessenta, ao procurar essencialmente a objectivação e a explicação, fazia com que só o conhecimento científico fosse válido. Se assim é, porque é que a prática não é baseada em conhecimento científico? Parece-me que uma das razões decorre do facto já anteriormente referido em que, quando existe a tentativa de relacionar as disciplinas com as “ forças sociais que as introduziram no currículo educacional, é consequência, a organização do trabalho académico em torno das disciplinas “ ( Goodson, 1997) Por outro lado, sendo a definição das áreas disciplinares da responsabilidade dos médicos, até esta década, o conhecimento que era valorizado e transmitido, partia das ciências médicas, mas não lhe era atribuído estatuto de cientificidade. Estamos perante a relação entre conhecimento escolar a controlo social, quanto ao conteúdo e à forma: os que estão em posição de poder, tentarão definir o que se deverá entender como conhecimento de diferentes grupos e quais as relações aceites entre as distintas áreas de conhecimento e entre os que a elas têm acesso e as tornam disponíveis. A ARTICULAÇÃO TEÓRICO-PRÁTICA A partir desta década as escolas de enfermagem começam a pensar a formação em enfermagem no sentido da preparação para a verdadeira enfermagem. É assim que emerge a articulação teórico-prática, numa perspectiva de aos estudantes ser possibilitada a mobilização de conhecimentos teóricos, em situações reais de trabalho, o que levou a que se tornasse indispensável a colaboração dos enfermeiros em exercício nos locais de estágio. No entanto, o cuidado de enfermagem continua a ser definido por quem pensa a enfermagem e não por quem a faz. Ora o saber profissional da enfermagem não existe por criação exclusiva ou espontânea, pura, ou de forma descontextualizada, mas é antes um processo de construção, ( Donaldson, 1997 ) Os “ práticos “ ( os que fazem a enfermagem ) são habitualmente considerados como despojados do saber e da possibilidade de criar saber, o que conduz à inexistência de poder de controlo do processo de trabalho. Isto acontece na medida em que os saberes práticos estão directamente ligados à lógica instrumental do trabalho e não relacionados com saberes teóricos. São habitualmente estruturantes de uma identidade ameaçada de exclusão ( Dubar, 1997 ). O PROCESSO DE ENFERMAGEM Outro dos instrumentos utilizados pelos enfermeiros é o processo de enfermagem, que em si não nos dá nenhuma informação sobre o conteúdo e não é específico da enfermagem. É apenas uma sequência de etapas através das quais passamos ( em termos de raciocínio ), para chegar a determinado fim e, que podemos ver usado em muitos grupos profissionais. Concebido desta forma deveria ser um processo de raciocínio analítico ( chamo-o de heurístico – figura 1 – por ser simultaneamente pedagógico e de descoberta) que permitisse identificar o estado encontrado com a pessoa e definir o que para esta pode melhorar a situação. Strauss ( 1992 ), refere que a abordagem centrada no próprio trabalho, permite conceptualizar o doente como um actor do trabalho médico e de enfermagem e analisar as diferentes componentes da participação do doente. O doente encontra-se envolvido na quase totalidade dos processos de trabalho, mas a sua parte é difícil de determinar, pois não é um actor reconhecido. É assim que, este processo conceptualmente analítico, passa a caracterizar-se por ser sintético, próximo da padronização e promovendo efeitos benéficos e efeitos preversos. Quadro 1 – Alguns efeitos benéficos e efeitos preversos do processo de enfermagem EFEITOS BENÉFICOS EFEITOS PREVERSOS Foi através do processo de enfermagem que os “ operacionais “ começaram a questionar o que é a enfermagem e concretamente o cuidado de enfermagem, na sua especificidade; Questionam também a incompatibilidade que referem existir entre a padronização de acções que permite à gestão dos cuidados, um controlo do trabalho e a necessidade de contextualização das acções, quando centradas na pessoa doente ouu saudável; Permite analisar os conflitos entre quem “ manda “ e quem “ faz “; Ao mobilizar esta lógica para a formação, a “ escola “ tem que contar mesmo com os “ práticos “ e por outro lado “ os práticos “ têm que estar mais próximos da concepção pedagógica; Enfim, se mobilizada adequadamente, verificamos a importância que existe na cooperação interorganizacional, no âmbito da definição do conteúdo do cuidado de enfermagem Separação entre quem pensa e quem faz a enfermagem; O trabalho organizado mediante a padronização derivada do trabalho realizado por analistas / especialistas; A realização do próprio processo de enfermagem como mais uma tarefa a ser realizada no “ TURNO “; A sua utilização de forma sintética, limita a capacidade do “operacional “ controlar o processo de trabalho que desenvolve junto do cliente. Penso que os efeitos preversos são alguns dos obstáculos ao desenvolvimento de uma autonomia efectiva dos enfermeiros, na medida em que limitam o carácter relacional do poder, conceptualizado por Crozier e Friedberg ( 1970 ), na medida em que “ toda a relação entre duas ou mais partes supõe troca e adaptação de uma à outra e reciprocamente, o poder está inseparavelmente ligado à negociação; é uma relação de troca “. Mas se estes são , entre outros, obstáculos à emergência do campo das práticas como campo de análise e produção de saberes, a minha proposta é que se estude e compreenda o processo de cuidados, enquanto sistema de acção concreto e não como constructo teórico. O PROCESSO DE CUIDADOS COMO SISTEMA DE ACÇÃO CONCRETO Concebo o processo de cuidados como “ um processo de interacção, onde o centro de interesse é a pessoa e onde o profissional possui conhecimentos específicos que lhe permitem fazer o diagnóstico e o planeamento do cuidado, que ele próprio executa e controla “ ( Amendoeira, 1999 ) É nesta medida que o aproximo do Sistema de Acção Concreta, proposto por Crozier e Friedberg ( 1970 ), enquanto sistema de acção onde se relacionam as perspectivas sistémica e estratégica no estudo e compreensão da organização enquanto problema, e onde a cooperação, o poder, a incerteza e o conhecimento são dimensões importantes. A troca de que falei antes, baseia-se essencialmente nas zonas de incerteza que advêm: de competências particulares e de especialização funcional; da relação da organização com o seu contexto; do domínio da comunicação e da informação; da existência de regras organizacionais gerais. É neste sentido que a imprevisibilidade pode ser mobilizada como fonte de poder, se associada à decisão clara do cuidado de enfermagem, assumida por cada enfermeiro, numa perspectiva da mobilização do conhecimento com a responsabilidade, como garante da autonomia, ( figura 2 ). CONHECIMENTO PODER PROCESSO DE CUIDADOS INCERTEZA JOGO AUTONOMIA RESPONSABILIDADE Figura 2 - O processo de cuidados como sistema complexo de relações interpessoais. Adaptado de Amendoeira, 1999b, p. 162 O recurso do poder é portanto uma margem de liberdade dos indivíduos ou dos grupos, uns face aos outros. A diminuição da incerteza imposta por normas e regras da organização aos seus actores, reintroduz um mínimo de previsibilidade no comportamento de cada um, o que limita a capacidade de jogar com as incertezas, numa perspectiva da mobilização das qualificações e competências profissionais, para a tomada de decisão autónoma e responsável. Penso que, actualmente o que define o sentido do cuidado de enfermagem é a intenção de o tarefizar ou não. E como acredito que não é pela oposição entre o que os diferentes profissionais fazem ( neste caso, entre o que fazem os enfermeiros e o que fazem os médicos ), parece-me ser pela “ intenção “ que se coloque na acção, que clarificaremos o nosso sistema de acção, isto é, processo de cuidados. Quanto ao campo das práticas de cuidados de enfermagem, parece que a sua conceptualização foi retomado com Virginia Henderson, na medida em que procurou desenvolver uma intenção do cuidado de enfermagem que rompesse com a lógica da subordinação ao cuidado médico. No entanto, é necessário estar atentos ao facto da rotinização acontecer no processo de cuidados numa lógica da intervenção junto do doente e não na lógica da rotinização dos procedimentos, que em certa medida potencializariam as competências dos enfermeiros. A pouca valorização da prestação de cuidados, ainda hoje é uma realidade, pois é sempre de maior prestígio a intervenção fora do campo de acção onde a pessoa saudável ou doente necessita do cuidado, relacionando-se aqui o aspecto do prestígio social ser diferente, entre o salvar uma vida ou acompanhar na morte. A própria progressão na carreira de enfermagem é exemplo disto, quando é um sinal de prestígio sair da prestação de cuidados para que isso aconteça...! O PROCESSO DE CUIDADOS COMO ESPAÇO DE FORMAÇÃO A relação formação trabalho, enquanto relação dialéctica contribui para a compreensão do fenómeno – o cuidado de enfermagem – através da análise das práticas. A performance de um sistema de formação depende cada vez mais da qualidade da organização e das interacções de nível comunicacional, do que da rapidez das operações elementares, realçando-se a necessidade das intervenções formativas se caracterizarem pelo estabelecimento de relações densas e diversificadas nos contextos de trabalho e, já não exclusivamente com competências cognitivas dos seus destinatários individuais. Ao considerar a construção do processo de cuidados com base nas relações sociais complexas e em que este processo se desenvolve sob determinadas condições e através de formas diversas de organização do trabalho, valorizo-as como formativas. Há, no entanto, que distinguir entre a situação de trabalho que modifica o “ actor “, individual ou de grupo, por repetição ou impregnação; e a situação de traalho em que o “ actor “ tem intenção de se empenhar no processo de formação a partir da situação de trabalho, interpelando-o e mesmo (re)conceptualizando. Actualmente ainda se valoriza a acção numa lógica da resolução dos problemas e a formação numa lógica de compreensão dos problemas. É necessário, para a compreensão do sentido, não colar estas duas lógicas, mas sim procurar compreender o intervalo, no que separa, no que distingue, entre o interior e o exterior, entre o sujeito e o objecto, entre a pessoa e oo colectivo. Questionar as condições e as expectativas vividas na diferença para ultrapassar as separações onde elas se inscrevem e as delimitam, para as integrar em conjuntos novos. É necessário instituir o processo de tomada de decisão, na clarificação do que podemos resolver, através da utilização dos métodos e instrumentos, que associados aos conceitos básicos estruturam o sentido do cuidado de enfermagem. Considerando a importância de captar o sentido do cuidado de enfermagem, na acção, proponho como esquema interpretativo, figura 2, onde se podem inscrever um conjunto de factos, isto é, que nos conduza à compreensão de um determinado fenómeno ( neste caso o cuidado de enfermagem ). Com este esquema não pretendo decompor uma realidade, de a fragmentar em problemas pequenos e em grande número, no sentido da redução para a compreensão, mas trata-se antes de descobrir o modo de integração que torna a situação em estudo um fenómeno global particular. Considero-o com esquema actancial, porque implica o reconhecimento da intencionalidade da acção, que é desenvolvida pelo actor, individual ou colectivo ( organização ). Considero-o como um “ SISTEMA “, dentro do qual os actores ocupam posições particulares e mantêm relações determinadas; ou com “ situações “, enquanto realização da acção, numa configuração singular de actores singulares. O espaço social onde se realiza uma determinada acção, pode ser designado por “ campo social “, onde os intervenientes entram em interacção, mas em que cada um dos actores é definido com alguma precisão. Este sistema caracteriza-se por três dimensões ( figura 2 ) – o poder, essencialmente o de tipo relacional; as zonas de incerteza, que relacionadas com o jogo, permitem mobilizar a liberdade dos actores, no que concerne ao controlo dos processos de trabalho, com base em qualificações que se alicerçam em conhecimento , permitindo a tomada de decisão com responsabilidade, numa lógica de autonomia. Termino, mobilizando o que considero ser o(s) sentido(s) do cuidado de enfermagem, pela discussão acerca do cuidar e do curar, não numa perspectiva dicotómica, mas em que os considero: § Conceitos interdependentes porque são inerentes à pessoa e como tal não podem nem devem ser considerados em oposição. § O cuidar pode ser definido como fundamental para a compreensão da natureza humana, na medida em que CUIDAR é UMA FORMA DE SER. § CUIDAR, É SER, É ESTAR PRESENTE, mostrando interesse verdadeiro pela pessoa, ouvindo-o realmente, valorizando-o como PESSOA. § CUIDAR é uma ATITUDE, porque: § Organiza o que é importante para a pessoa § É sempre específico e relacional, e coloca a pessoa na situação, de tal forma, que certos aspectos aparecem como relevantes. Texto Publicado na colectânea – Costa, Arminda Mendes et al (2000) “Ensino de enfermagem. Processos e percursos de formação. Balanço de um projecto. Lisboa. DRHS. 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