O CUIDADO DE ENFERMAGEM – QUE SENTIDO(S) ?
INTRODUÇÃO
Sempre que pretendemos descrever os cuidados de enfermagem, deparamo-nos com
dificuldades que se relacionam com uma diversidade de factores, de que podemos
salientar - a especificidade do saber em enfermagem; o estatuto da disciplina de
enfermagem e a organização do cuidado de enfermagem.
A reflexão que apresento desenvolve-se em torno da discussão sobre a centralidade da
pessoa no processo de cuidados, através da análise da(s) prática(s) pela valorização dos
métodos e instrumentos estruturantes do processo de cuidados enquanto sistema de
acção concreto e espaço de formação.
SENTIDO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM AO NÍVEL DAS PRÁTICAS
Apesar de se falar em cuidado de enfermagem, este surge com frequência em função do
acto médico, o qual se organiza em torno de tecnologias de investigação e reparação das
doenças – CURE – cuidados de reparação.
Penso que os objectivos de Florence Nightingale não foram continuados, na medida em
que:
§
Não foram diferenciados o foco e os objectivos da enfermagem em relação á
medicina;
§
O que começou a ser domínio da prática da enfermagem ( saúde; higiene;
ambiente e cuidar ), passou nesta época a ser do domínio médico na prática, melhor
desenvolvido e mais poderoso;
§
Os doentes passam a ser considerados pelos enfermeiros em função da doença
que têm, sendo essa a base da tomada de decisão, privilegiando as tarefas em detrimento
da interacção;
§
A valorização é da objectividade e não da subjectividade e sentimentos da
pessoa, sendo desta forma a sua participação no processo de cuidados, quase nula.
No início da década de 60 – Virginia Henderson - procura desequilibrar esta lógica ao
propor a ruptura com o modelo subsidiário do acto médico, mantendo a importância da
interdependência e da complementaridade, inseridas na autonomia que deriva da função
específica da enfermeira:
§
Desenha-se aqui de novo um “ sentido “ do cuidado de enfermagem, através do
que podemos designar por uma configuração alicerçada no eixo da dependência /
independência das pessoas, para satisfação das Necessidades Humanas Básicas;
§
Quem pensa a enfermagem, sugere que quem a pratica tem dois papeis
extremamente importantes:
§
O de educador;
§
O de quem acompanha o outro, até na morte, para que esta seja digna.
A ruptura com o paradigma positivista, coloca-nos perante as dificuldades inerentes à
invisibilidade do cuidado de enfermagem com uma orientação para a pessoa.
Isto agrava-se num sistema social caracterizado pelo prestígio social das disciplinas, de
acordo com o seu reconhecimento não só pelos conteúdos, como também pelo prestígio
de que os profissionais gozam nesse sistema social.
Parece-me claro que é maior o prestígio social que decorre do acto de salvar vidas (
habitualmente atribuído ao saber e poder médicos ), do que do acto de acompanhar as
pessoas numa morte serena e digna ( habitualmente atribuído a um saber por vezes
profano, para o qual não se necessita ter uma formação especial ).
Os enfermeiros que “ pensam a enfermagem “, numa lógica de reivindicação de um
estatuto de disciplina do cuidado de enfermagem, têm divulgado a noção de que para
que uma disciplina possa nascer é necessário que os especialistas consigam criar uma
zona de autonomia na encruzilhada de vários grupos sociais.
Penso que uma das grandes dificuldades situa-se no facto de que a busca da
especificidade do cuidado de enfermagem, sempre atravessou duas vertentes essenciais:
§
uma relacionada com a necessidade de um conhecimento e saber técnicos
próprios;
§
outra relacionada com a exigência de competências relacionais, tidas como
essenciais – uma atitude de ajuda e / ou substituição da pessoa quando necessário,
esta dificuldade tem sido inerente à construção de conteúdos específicos da disciplina de
enfermagem.
Como já referi, Virginia Henderson, procura romper com o modelo biomédico como
organizador do trabalho dos enfermeiros, definindo postulados que (re)clarificam o
estatuto da pessoa no processo de cuidados.
Esta mudança consistirá essencialmente no enunciar os elementos que constituem a
mais valia no bem estar das pessoas.
Permite também identificar as dificuldades e os constrangimentos inerentes à prática do
Cuidado:
§
Os enfermeiros só por si não podem ter a pretensão de se atribuir os efeitos duma
abordagem multiprofissional e / ou interdisciplinar;
§
A procura de uma especificidade do cuidado de enfermagem pode permitir
explorar uma tradição oral, que formalize em texto um saber e metodologias que
legitimem um estatuto diferente para o cuidado de enfermagem.
§
A ruptura com o paradigma biomédico, permitirá uma postura de confrontação
do conflito que é provocada pelas zonas de incerteza e de sobreposição entre alguns
actos médicos e alguns actos de enfermagem;
§
Se enfrentarmos o conflito, deixaremos de subsidiar o referido paradigma,
através da formação para este modelo, de novos profissionais que se vêem
constantemente confrontados com um discurso formativo próximo do paradigma
humanista e a acção formativa subsidiária do paradigma biomédico.
A CENTRALIDADE DA PESSOA NO PROCESSO DE CUIDADOS
As diversas conceptualizações sobre o cuidado de enfermagem tiveram em consideração
contextos socio-culturais e bases teóricas, educacionais e experimentais, bem como os
interesses da enfermagem nas diferentes épocas.
O interaccionismo deu contributos importantes para a conceptualização de um sentido
do cuidado de enfermagem centrado na pessoa, na medida em que considera o como no
processo de interacção e no desenvolvimento da relação enfermeiro / cliente.
A pessoa passa a ser o centro de interesse, baseado numa relação interpessoal que
ocorre entre a pessoa que necessita de ajuda e a solicita, e a pessoa capaz de dar ajuda,
onde o cuidado não é um acto mecânico, mas sim humanístico.
A experiência pessoal torna-se promotora de desenvolvimento, mesmo quando causa
mal-estar, desde que lhe encontremos um sentido.
Nesta lógica começa a considerar-se a pessoa doente ou não, como parceiro no processo
de cuidados.
Se a preocupação dos enfermeiros for apoiar e ajudar a pessoa a obter níveis de bem –
estar superiores aos que possui; se acreditarmos que aquela pessoa está a viver a
situação de uma forma diferente e única de qualquer outra pessoa, toda a concepção e
organização do cuidado se modificará. A obtenção de resultados diferentes, fazendo
embora as mesmas coisas, será uma realidade.
Se conceptualmente é a pessoa o alvo e objecto do sentido do cuidado de enfermagem, o
que acontece é que existe uma divisão de trabalho baseada na perspectiva
medicocêntrica da organização do trabalho, baseado em tarefas / actividades, que
deverão ser realizadas em cada turno de trabalho, emergindo dificuldades em clarificar
o que é da pessoa e o que é do turno.
O Plano de cuidados colectivo, fixo na parede de grande número de salas de trabalho de
enfermeiros, à época em que surge, procura corporizar um novo sentido do cuidado de
enfermagem, na medida em que pretende valorizar o doente como alvo e objecto de
cuidados, congregando um conjunto de informações que fica aparentemente sob o
controlo dos enfermeiros.
E digo aparentemente porque, uma vez mais temos uma intenção que provém de quem
pensa a enfermagem ( neste caso os enfermeiros chefe e os enfermeiros coordenadores )
e não dos que fazem a enfermagem.
Esta perspectiva é reforçada por resultados de investigação recente ( Amendoeira, 1999)
realizada em contexto hospitalar e onde a passagem de turno, enquanto espaço de
informação essencial à organização do trabalho, precede outro momento que é o da
prestação de cuidados, que por sua vez é claramente distinto do terceiro momento que é
o dos registos ( figura 1 )
Nos registos enfatiza-se essencialmente o que se fez no turno e o que se deve fazer nos
seguintes, constituindo-se a passagem de turno o espaço onde se informam os
enfermeiros do que há para fazer nos períodos de trabalho seguintes.
OS MÉTODOS E OS INSTRUMENTOS
Este questionamento conduz-me essencialmente aos métodos e instrumentos utilizados
pela disciplina de enfermagem.
Nesta perspectiva, penso que a rotina que responde exclusivamente a cuidados
parcelares ( tarefas ) que se constituem numa padronização de cuidados e não dos
procedimentos dos mesmos, não tem, na maioria das vezes influência no bem estar das
pessoas.
Se a organização do trabalho se desenvolve em torno da tarefa, o enfermeiro mantém o
papel técnico que lhe advém essencialmente da habilitação que lhe concede o poder
para executar um conjunto de cuidados que decorrem da prescrição médica,
continuando a depender, embora implicitamente, do papel moral em tudo o que foge a
essas tarefas.
O estatuto que este papel confere ao enfermeiro, torna-o de facto auxiliar do médico
mesmo e, essencialmente nas expectativas do doente e / ou família, descaracterizando
por completo a sua prestação de cuidados, baseada numa lógica de desenvolvimento de
tarefas.
Figura 1 - Um dia na Unidade de Internamento com as enfermeiras.
OS MODOS DE ORGANIZAR O TRABALHO
NORMATIVIDADE / ROTINA / CONTEXTUAL
"ESTRUTURA ACTANCIAL" DOS CUIDADOS
Método de distribuição do trabalho
Sistemas de classificação dos doentes
Tipos de doentes
PASSAGEM DE TURNO
•
•
•
•
•
•
•
•
Método de distribuição de trabalho
Partilha de informação relativa a cada doente
Espaços físicos diferentes
Informação organizada em "pastas"
A enfermeira que "passa" e a que "recebe" a informação
Enfermeira "responsável"; "substituta" e "coordenadora"
Enfermeira responsável regista os dados dos "seus" doentes
Organização dos cuidados de acordo com:
−
−
Quantidade de trabalho
Plano de cuidados
PRESTAÇÃO DE CUIDADOS DE ENFERMAGEM
•
•
•
Preparação e administração de terapêutica (diversos horários)
Ajuda e/ou supervisão na alimentação dos doentes
Planeamento de cuidados de higiene e conforto
−
Execução pelas próprias - Doentes dependentes e parcial- mente
dependentes
−
•
Delegação nas auxiliares - Doentes independentes
Re-avaliação da situação do doente (pessoa no global)
−
Avaliar e registar sinais vitais; glicemia capilar
(contextual)
•
Cuidados de manutenção a um grupo de doentes independente-
mente de ser
enfermeira "responsável"
•
Contacto com os familiares.
ELABORAÇÃO DE REGISTOS
•
•
•
•
Diagnósticos de enfermagem
Prescrição de acções de enfermagem
Respostas das pessoas às acções de enfermagem executadas
Respostas das pessoas às acções terapêuticas sob prescrição médi- ca.
PROCESSO HEURÍSTICO DE PRESTAÇÃO DE CUIDADOS
Fonte: Amendoeira, José ( 1999 ) Formação em enfermagem. Que conhecimentos ? Que contextos ? p.194
Desta apreciação emergem dois aspectos:
no que concerne à organização funcional do trabalho, faz com que terminadas as
tarefas, fique terminada a intervenção que tem como contexto o turno e não as pessoas;
relacionado com este aspecto está o anteriormente referido quanto à
descaracterização do cuidado de enfermagem, quando por exemplo não é valorizado
pelos enfermeiros o tipo de informação que se mobiliza para o doente e / ou familiares.
Se estudarmos a prática dos cuidados e procurarmos compreender o(s) sentido(s),
contribuiremos para a clarificação dos conteúdos disciplinares da enfermagem e muito
concretamente do cuidado de enfermagem.
É neste sentido que defendo uma perspectiva de análise interdisciplinar, na medida em
que o processo de cuidados é também interdisciplinar.
Assim, concebo a interacção social emergente das relações entre os diferentes
intervenientes no processo de cuidados como objecto de estudo, de eleição, através da
qual podemos caracterizar a acção, numa lógica de complementariedade entre o acto de
enfermagem e o acto médico, naquilo que designo por Sistema de Acção Concreto.
A fim de existir um processo de cuidados, é necessário que se considerem as
actividades de enfermagem desenvolvidas pelos enfermeiros, tendo por base a
interacção entre estes e os clientes, mas também com outros actores, na perspectiva da
interacção social e interdisciplinaridade, anteriormente referidas
Este é um processo de interacção entre os diferentes actores sociais em que mutuamente
se elucidam, embora com competências diferentes e complementares, no sentido de que
a relação seja a mais adequada.
O enfermeiro ao adoptar uma estratégia de intervenção centrada nas necessidades dos
clientes, foge ao trabalho realizado por tarefa, podendo o processo de cuidados tornar-se
num momento de ligação entre o doente e um profissional que pretende prestar cuidados
de qualidade, “é o processo de classificação que permite à burocracia profissional
decompor as suas diferentes tarefas operacionais e consigná-las a profissionais que são
relativamente autónomos “ ( Mintzberg, 1996 ).
É quando se começa a valorizar a relação prestador de cuidados / utilizador de cuidados,
que se desenvolvem os métodos e os instrumentos de planeamento e organização do
trabalho e que surgem os primeiros modelos teóricos sobre o cuidado de enfermagem.
OS MODELOS TEÓRICOS
A importância dos modelos teóricos é evidente na medida em que:
oferecem uma primeira articulação do que é a enfermagem e do que os
enfermeiros fazem;
proporcionam a conceptualização de como ajudar as pessoas no conforto, como
realizar os tratamentos com o menor risco e como aumentar o bem – estar;
oferecem uma linguagem comum de base e um acordo acerca de quem são os
clientes;
os clientes respondem ao cuidado de uma forma global;
o cliente do cuidado é um membro de um grupo de referência e as intervenções só
têm significado se o todo for considerado.
A emergência dos modelos teóricos de enfermagem, pretendem conceptualizar o quê do
cuidado de enfermagem, verificando-se o reforço da necessidade de distinguir a
linguagem dos enfermeiros, da linguagem dos médicos. E fazê-lo com a consciência de
que existem áreas de sobreposição, havendo a necessidade de assumirmos papeis
diferentes, complementares mas não competitivos, na perspectiva da
interdisciplinaridade.
A investigação na década de sessenta, ao procurar essencialmente a objectivação e a
explicação, fazia com que só o conhecimento científico fosse válido.
Se assim é, porque é que a prática não é baseada em conhecimento científico?
Parece-me que uma das razões decorre do facto já anteriormente referido em que,
quando existe a tentativa de relacionar as disciplinas com as “ forças sociais que as
introduziram no currículo educacional, é consequência, a organização do trabalho
académico em torno das disciplinas “ ( Goodson, 1997)
Por outro lado, sendo a definição das áreas disciplinares da responsabilidade dos
médicos, até esta década, o conhecimento que era valorizado e transmitido, partia das
ciências médicas, mas não lhe era atribuído estatuto de cientificidade.
Estamos perante a relação entre conhecimento escolar a controlo social, quanto ao
conteúdo e à forma: os que estão em posição de poder, tentarão definir o que se deverá
entender como conhecimento de diferentes grupos e quais as relações aceites entre as
distintas áreas de conhecimento e entre os que a elas têm acesso e as tornam
disponíveis.
A ARTICULAÇÃO TEÓRICO-PRÁTICA
A partir desta década as escolas de enfermagem começam a pensar a formação em
enfermagem no sentido da preparação para a verdadeira enfermagem.
É assim que emerge a articulação teórico-prática, numa perspectiva de aos estudantes
ser possibilitada a mobilização de conhecimentos teóricos, em situações reais de
trabalho, o que levou a que se tornasse indispensável a colaboração dos enfermeiros em
exercício nos locais de estágio.
No entanto, o cuidado de enfermagem continua a ser definido por quem pensa a
enfermagem e não por quem a faz.
Ora o saber profissional da enfermagem não existe por criação exclusiva ou espontânea,
pura, ou de forma descontextualizada, mas é antes um processo de construção, (
Donaldson, 1997 )
Os “ práticos “ ( os que fazem a enfermagem ) são habitualmente considerados como
despojados do saber e da possibilidade de criar saber, o que conduz à inexistência de
poder de controlo do processo de trabalho. Isto acontece na medida em que os saberes
práticos estão directamente ligados à lógica instrumental do trabalho e não relacionados
com saberes teóricos. São habitualmente estruturantes de uma identidade ameaçada de
exclusão ( Dubar, 1997 ).
O PROCESSO DE ENFERMAGEM
Outro dos instrumentos utilizados pelos enfermeiros é o processo de enfermagem, que
em si não nos dá nenhuma informação sobre o conteúdo e não é específico da
enfermagem. É apenas uma sequência de etapas através das quais passamos ( em termos
de raciocínio ), para chegar a determinado fim e, que podemos ver usado em muitos
grupos profissionais.
Concebido desta forma deveria ser um processo de raciocínio analítico ( chamo-o de
heurístico – figura 1 – por ser simultaneamente pedagógico e de descoberta) que
permitisse identificar o estado encontrado com a pessoa e definir o que para esta pode
melhorar a situação.
Strauss ( 1992 ), refere que a abordagem centrada no próprio trabalho, permite
conceptualizar o doente como um actor do trabalho médico e de enfermagem e analisar
as diferentes componentes da participação do doente. O doente encontra-se envolvido
na quase totalidade dos processos de trabalho, mas a sua parte é difícil de determinar,
pois não é um actor reconhecido.
É assim que, este processo conceptualmente analítico, passa a caracterizar-se por ser
sintético, próximo da padronização e promovendo efeitos benéficos e efeitos preversos.
Quadro 1 – Alguns efeitos benéficos e efeitos preversos do processo de enfermagem
EFEITOS BENÉFICOS
EFEITOS PREVERSOS
Foi através do processo de enfermagem que os “ operacionais “ começaram a questionar
o que é a enfermagem e concretamente o cuidado de enfermagem, na sua
especificidade;
Questionam também a incompatibilidade que referem existir entre a padronização de
acções que permite à gestão dos cuidados, um controlo do trabalho e a necessidade de
contextualização das acções, quando centradas na pessoa doente ouu saudável;
Permite analisar os conflitos entre quem “ manda “ e quem “ faz “;
Ao mobilizar esta lógica para a formação, a “ escola “ tem que contar mesmo com os “
práticos “ e por outro lado “ os práticos “ têm que estar mais próximos da concepção
pedagógica;
Enfim, se mobilizada adequadamente, verificamos a importância que existe na
cooperação interorganizacional, no âmbito da definição do conteúdo do cuidado de
enfermagem
Separação entre quem pensa e quem faz a enfermagem;
O trabalho organizado mediante a padronização derivada do trabalho realizado por
analistas / especialistas;
A realização do próprio processo de enfermagem como mais uma tarefa a ser realizada
no “ TURNO “;
A sua utilização de forma sintética, limita a capacidade do “operacional “ controlar o
processo de trabalho que desenvolve junto do cliente.
Penso que os efeitos preversos são alguns dos obstáculos ao desenvolvimento de uma
autonomia efectiva dos enfermeiros, na medida em que limitam o carácter relacional do
poder, conceptualizado por Crozier e Friedberg ( 1970 ), na medida em que “ toda a
relação entre duas ou mais partes supõe troca e adaptação de uma à outra e
reciprocamente, o poder está inseparavelmente ligado à negociação; é uma relação de
troca “.
Mas se estes são , entre outros, obstáculos à emergência do campo das práticas como
campo de análise e produção de saberes, a minha proposta é que se estude e compreenda
o processo de cuidados, enquanto sistema de acção concreto e não como constructo
teórico.
O PROCESSO DE CUIDADOS COMO SISTEMA DE ACÇÃO CONCRETO
Concebo o processo de cuidados como “ um processo de interacção, onde o centro de
interesse é a pessoa e onde o profissional possui conhecimentos específicos que lhe
permitem fazer o diagnóstico e o planeamento do cuidado, que ele próprio executa e
controla “ ( Amendoeira, 1999 )
É nesta medida que o aproximo do Sistema de Acção Concreta, proposto por Crozier e
Friedberg ( 1970 ), enquanto sistema de acção onde se relacionam as perspectivas
sistémica e estratégica no estudo e compreensão da organização enquanto problema, e
onde a cooperação, o poder, a incerteza e o conhecimento são dimensões importantes.
A troca de que falei antes, baseia-se essencialmente nas zonas de incerteza que advêm:
de competências particulares e de especialização funcional;
da relação da organização com o seu contexto;
do domínio da comunicação e da informação;
da existência de regras organizacionais gerais.
É neste sentido que a imprevisibilidade pode ser mobilizada como fonte de poder, se
associada à decisão clara do cuidado de enfermagem, assumida por cada enfermeiro,
numa perspectiva da mobilização do conhecimento com a responsabilidade, como
garante da autonomia, ( figura 2 ).
CONHECIMENTO
PODER
PROCESSO DE
CUIDADOS
INCERTEZA
JOGO
AUTONOMIA
RESPONSABILIDADE
Figura 2 - O processo de cuidados como sistema complexo de relações interpessoais.
Adaptado de Amendoeira, 1999b, p. 162
O recurso do poder é portanto uma margem de liberdade dos indivíduos ou dos grupos,
uns face aos outros.
A diminuição da incerteza imposta por normas e regras da organização aos seus
actores, reintroduz um mínimo de previsibilidade no comportamento de cada um, o que
limita a capacidade de jogar com as incertezas, numa perspectiva da mobilização das
qualificações e competências profissionais, para a tomada de decisão autónoma e
responsável.
Penso que, actualmente o que define o sentido do cuidado de enfermagem é a intenção
de o tarefizar ou não.
E como acredito que não é pela oposição entre o que os diferentes profissionais fazem (
neste caso, entre o que fazem os enfermeiros e o que fazem os médicos ), parece-me ser
pela “ intenção “ que se coloque na acção, que clarificaremos o nosso sistema de acção,
isto é, processo de cuidados.
Quanto ao campo das práticas de cuidados de enfermagem, parece que a sua
conceptualização foi retomado com Virginia Henderson, na medida em que procurou
desenvolver uma intenção do cuidado de enfermagem que rompesse com a lógica da
subordinação ao cuidado médico.
No entanto, é necessário estar atentos ao facto da rotinização acontecer no processo de
cuidados numa lógica da intervenção junto do doente e não na lógica da rotinização dos
procedimentos, que em certa medida potencializariam as competências dos enfermeiros.
A pouca valorização da prestação de cuidados, ainda hoje é uma realidade, pois é
sempre de maior prestígio a intervenção fora do campo de acção onde a pessoa saudável
ou doente necessita do cuidado, relacionando-se aqui o aspecto do prestígio social ser
diferente, entre o salvar uma vida ou acompanhar na morte.
A própria progressão na carreira de enfermagem é exemplo disto, quando é um sinal de
prestígio sair da prestação de cuidados para que isso aconteça...!
O PROCESSO DE CUIDADOS COMO ESPAÇO DE FORMAÇÃO
A relação formação trabalho, enquanto relação dialéctica contribui para a compreensão
do fenómeno – o cuidado de enfermagem – através da análise das práticas.
A performance de um sistema de formação depende cada vez mais da qualidade da
organização e das interacções de nível comunicacional, do que da rapidez das operações
elementares, realçando-se a necessidade das intervenções formativas se caracterizarem
pelo estabelecimento de relações densas e diversificadas nos contextos de trabalho e, já
não exclusivamente com competências cognitivas dos seus destinatários individuais.
Ao considerar a construção do processo de cuidados com base nas relações sociais
complexas e em que este processo se desenvolve sob determinadas condições e através
de formas diversas de organização do trabalho, valorizo-as como formativas.
Há, no entanto, que distinguir entre a situação de trabalho que modifica o “ actor “,
individual ou de grupo, por repetição ou impregnação; e a situação de traalho em que o
“ actor “ tem intenção de se empenhar no processo de formação a partir da situação de
trabalho, interpelando-o e mesmo (re)conceptualizando.
Actualmente ainda se valoriza a acção numa lógica da resolução dos problemas e a
formação numa lógica de compreensão dos problemas.
É necessário, para a compreensão do sentido, não colar estas duas lógicas, mas sim
procurar compreender o intervalo, no que separa, no que distingue, entre o interior e o
exterior, entre o sujeito e o objecto, entre a pessoa e oo colectivo. Questionar as
condições e as expectativas vividas na diferença para ultrapassar as separações onde
elas se inscrevem e as delimitam, para as integrar em conjuntos novos.
É necessário instituir o processo de tomada de decisão, na clarificação do que podemos
resolver, através da utilização dos métodos e instrumentos, que associados aos conceitos
básicos estruturam o sentido do cuidado de enfermagem.
Considerando a importância de captar o sentido do cuidado de enfermagem, na acção,
proponho como esquema interpretativo, figura 2, onde se podem inscrever um conjunto
de factos, isto é, que nos conduza à compreensão de um determinado fenómeno ( neste
caso o cuidado de enfermagem ).
Com este esquema não pretendo decompor uma realidade, de a fragmentar em
problemas pequenos e em grande número, no sentido da redução para a compreensão,
mas trata-se antes de descobrir o modo de integração que torna a situação em estudo
um fenómeno global particular.
Considero-o com esquema actancial, porque implica o reconhecimento da
intencionalidade da acção, que é desenvolvida pelo actor, individual ou colectivo (
organização ).
Considero-o como um “ SISTEMA “, dentro do qual os actores ocupam posições
particulares e mantêm relações determinadas; ou com “ situações “, enquanto realização
da acção, numa configuração singular de actores singulares.
O espaço social onde se realiza uma determinada acção, pode ser designado por “
campo social “, onde os intervenientes entram em interacção, mas em que cada um dos
actores é definido com alguma precisão.
Este sistema caracteriza-se por três dimensões ( figura 2 ) – o poder, essencialmente o
de tipo relacional; as zonas de incerteza, que relacionadas com o jogo, permitem
mobilizar a liberdade dos actores, no que concerne ao controlo dos processos de
trabalho, com base em qualificações que se alicerçam em conhecimento , permitindo a
tomada de decisão com responsabilidade, numa lógica de autonomia.
Termino, mobilizando o que considero ser o(s) sentido(s) do cuidado de enfermagem,
pela discussão acerca do cuidar e do curar, não numa perspectiva dicotómica, mas em
que os considero:
§
Conceitos interdependentes porque são inerentes à pessoa e como tal não podem
nem devem ser considerados em oposição.
§
O cuidar pode ser definido como fundamental para a compreensão da natureza
humana, na medida em que CUIDAR é UMA FORMA DE SER.
§
CUIDAR, É SER, É ESTAR PRESENTE, mostrando interesse verdadeiro pela
pessoa, ouvindo-o realmente, valorizando-o como PESSOA.
§
CUIDAR é uma ATITUDE, porque:
§
Organiza o que é importante para a pessoa
§
É sempre específico e relacional, e coloca a pessoa na situação, de tal
forma, que certos aspectos aparecem como relevantes.
Texto Publicado na colectânea – Costa, Arminda Mendes et al (2000) “Ensino de
enfermagem. Processos e percursos de formação. Balanço de um projecto. Lisboa.
DRHS.
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