ATUALIZA ASSOCIAÇÃO CULTURAL ENFERMAGEM EM EMERGÊNCIA INGRID VANESSA LEITE DIAS PAPEL DO ENFERMEIRO NA HUMANIZAÇÃO DA EMERGÊNCIA PEDIÁTRICA SALVADOR - BA 2012 INGRID VANESSA LEITE DIAS PAPEL DO ENFERMEIRO NA HUMANIZAÇÃO DA EMERGÊNCIA PEDIÁTRICA Monografia apresentada à Atualiza Associação Cultural como requisito parcial para obtenção de título de Especialista em Emergência sob orientação do Professor Fernando Reis do Espírito Santo. SALVADOR - BA 2012 D541p Dias, Ingrid Vanessa Leite Papel do enfermeiro na humanização da emergência pediátrica / Ingrid Vanessa leite Dias, 2012. 30f.; 30 cm. Orientador: Prof. Dr. Fernando Reis do Espírito Santo Monografia (pós-graduação) – Especialização em Enfermagem em Emergência, Universidade Castelo Branco, Atualiza Cursos, 2012. 1. Enfermagem em emergência 2. Humanização 3. Emergência Pediátrica I. Espírito Santo, Fernando Reis II. Universidade Castelo Branco III. Atualiza Cursos IV. Título. CDU 616-083 INGRID VANESSA LEITE DIAS PAPEL DO ENFERMEIRO NA HUMANIZAÇÃO DA EMERGÊNCIA PEDIÁTRICA Monografia apresentada à Atualiza Associação Cultural como requisito parcial para obtenção de título de Especialista em Emergência sob orientação do Professor Fernando Reis do Espírito Santo. COMISSÃO EXAMINADORA Nome Instituição Nome Instituição Nome Instituição Salvador – BA, / / 2011. RESUMO Este estudo aborda sobre a humanização, que é um tema bastante discutido dentro da prática profissional do enfermeiro e dentro desse importante tema um grupo se destaca no cuidado desse profissional por se tratar de paciente com maior vulnerabilidade, já que a internação pediátrica é um momento bastante difícil, gerador de ansiedade e medo e é vivenciada por crianças e famílias, diariamente, em unidades de saúde. Por isso, os profissionais de enfermagem, tendo como uma das bases do exercício da profissão, os cuidados através do contato humanizado, apresentam-se como atores principais em prol da promoção do maior conforto para o cliente pediátrico, para inserção adequada dos pais e outros familiares para este momento importante que é a internação em uma emergência pediátrica. Tem como objetivo evidenciar, a partir da literatura, o papel do enfermeiro na humanização da emergência pediátrica. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica exploratória. Foi feito um levantamento de artigos e outros estudos publicados entre 1980 e 2011, com o objetivo de analisar os cuidados do enfermeiro na humanização da emergência pediátrica. Os resultados desta pesquisa mostram que é preciso trabalhar sobre o distanciamento entre os trabalhadores, que produz grupos apartados da possibilidade de produzir e alcançar resultados que tenham impacto sobre a gestão e a assistência. Para que assim o enfermeiro e toda a equipe possam prestar um atendimento de qualidade e humanizado aos pacientes pediátricos. Palavras Chave: humanização, enfermagem. ABSTRACT This study focuses on the humanization, that is a topic widely discussed within the professional nursing practice within this important topic and one group stands out in this professional care for being patient with greater vulnerability, as the pediatric hospital is a moment very difficult, generating fear and anxiety and is experienced by children and families every day in health units. Therefore, nursing professionals, and as a cornerstone of the profession, the humanized care through contact, present themselves as leading actors for the promotion of comfort for the pediatric client, suitable for insertion of parents and other family for this important moment is that admission to a pediatric emergency. Its objective evidence from the literature, the role of the nurse in the pediatric emergency humanization. This is a bibliographic exploration. We conducted a survey of other studies and articles published between 1980 and 2011, with the aim of analyzing the care of the nurse in the pediatric emergency humanization. The results of this research show that it is necessary to work on the gap between the workers, which produces groups apart from the possibility of producing and achieve results that impact on the management and care. So that the nurses and the entire staff can provide quality care to pediatric patients and humanized. Keywords: humanization, nursing. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 7 1.1 APRESENTAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO .................................................. 7 1.2 JUSTIFICATIVA ................................................................................................. 8 1.3 PROBLEMA: ...................................................................................................... 8 1.4 OBJETIVO ......................................................................................................... 8 1.5 METODOLOGIA ................................................................................................ 9 2 REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................................... 10 2.1 ENFERMAGEM PEDIÁTRICA ......................................................................... 10 2.2 HUMANIZAÇÃO............................................................................................... 12 2.3 PERFIL DO ENFERMEIRO DA EMERGÊNCIA .............................................. 22 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................... 26 4 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ 28 7 1. INTRODUÇÃO 1.1 APRESENTAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO Trata-se de uma revisão de literatura sobre o importante papel do enfermeiro na humanização do atendimento do paciente pediátrico na emergência. O trabalho em saúde, no mundo moderno, e particularmente as ações de enfermagem sofrem influência direta do modelo político-econômico das sociedades capitalistas. O processo de trabalho em enfermagem se organizou de acordo com Melo (1986) e Silva (1989) em três direções: a primeira com a finalidade de organizar o cuidado com o doente, ou seja, sistematizar a assistência; a segunda direção voltada para organizar o ambiente terapêutico, através dos mecanismos de limpeza e higiene do ambiente, e a terceira, organizar os agentes de enfermagem, com treinamento e disciplina. A enfermagem, portanto, partindo desse pressuposto, caracteriza-se por ser uma ciência formada por pessoas e observações, compreendendo a saúde e a doença (LIMA, 1993). Seguindo as mudanças da sociedade, a técnica também necessita evoluir, ainda mais quando na área médica a tecnologia anda a uma velocidade muito rápida, o que inclusive obriga aos profissionais da área estar sempre se atualizando, incluindo aí o enfermeiro, que necessita estar informado a respeito das mudanças para além de realizar as suas funções e ter condições de orientar os profissionais que estão sob sua responsabilidade técnica e administrativa. A técnica é um instrumento de ligação do enfermeiro com o paciente/usuário, e é utilizada para prestar os cuidados baseados tanto no conhecimento científico como também no respeito às normas éticas e humanísticas. É importante lembrar que o saber da enfermagem tem sido um saber que busca outras áreas do conhecimento para organizar a sua prática, sendo prevalente a área 8 biológica. A função peculiar do enfermeiro é dar assistência ao individuo doente ou sadio, ou desempenhar atividades que contribuam para manter a saúde ou para recuperá-la. 1.2 JUSTIFICATIVA A humanização é um tema bastante discutido dentro da prática profissional do enfermeiro e dentro desse importante tema um grupo se destaca no cuidado desse profissional por se tratar de paciente com maior vulnerabilidade, já que a internação pediátrica é um momento bastante difícil, gerador de ansiedade e medo e é vivenciada por crianças e famílias, diariamente, em unidades de saúde. Por isso, os profissionais de enfermagem, tendo como uma das bases do exercício da profissão, o cuidado através do contato humanizado, apresenta-se como ator principal em prol da promoção do maior conforto para o cliente pediátrico, para inserção adequada dos pais e outros familiares para este momento importante que é a internação em uma emergência pediátrica. 1.3 PROBLEMA: Qual o papel do enfermeiro na humanização da emergência pediátrica? 1.4 OBJETIVO Evidenciar, a partir da literatura, o papel do enfermeiro na humanização da emergência pediátrica. 9 1.5 METODOLOGIA Quanto à natureza: Qualitativa, pois segundo Becker (1997), a pesquisa qualitativa consiste em interpretar o fenômeno que se observa, portanto seus principais objetivos são a observação, descrição e compreensão do objetivo a ser estudado. Quanto ao objetivo: Exploratória, que segundo Becker (1997), tem como objetivo a caracterização inicial do problema, sua classificação e de sua definição. Constitui o primeiro estágio de toda pesquisa científica. Quanto ao procedimento: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica qualitativa e exploratória, que segundo Gil (2002), Refere-se “a pesquisa desenvolvida com base em material já elaborado, construído principalmente de livros e artigos científicos”. Foi feito um levantamento de artigos e outros estudos publicados entre 1980 e 2011. A pesquisa foi realizada via internet nas seguintes bases de dados: SciELO (Scientific Eletronic Library Online), Lilacs e Pubmed. Os descritores utilizados para o levantamento de artigos foram: humanização, emergência pediátrica, papel do enfermeiro na humanização, Equipe de enfermagem e humanização. Os artigos foram obtidos na íntegra através do próprio site ou através do link para as revistas online. Sites oficiais brasileiros também foram consultados. A busca foi realizada de Janeiro/2011 à Abril/2011. 10 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 ENFERMAGEM PEDIÁTRICA A enfermagem se institucionaliza e emerge com a finalidade de organizar, disciplinar e hierarquizar o ambiente hospitalar para possibilitar o projeto de cura e recuperação da força de trabalho, com a organização e institucionalização do hospital como local de cura, na Europa, no final do século XVIII (ALMEIDA et al., 1989). O hospital, para Foucault (1977), representa o local onde o saber médico passa a ser traduzido no dia-a-dia de forma ativa e atual, não apenas nos livros e de forma impressa. È a partir dessa nova prática da medicina e do surgimento do hospital como instituição criada com o intuito de cuidar do corpo anátomo-patológico e como instrumento do trabalho médico para alcançar a cura dos doentes, que é possível o encontro da medicina com a enfermagem (ALMEIDA et al., 1989). O trabalho em saúde, no mundo moderno, e particularmente as ações de enfermagem sofrem influência direta do modelo político-econômico das sociedades capitalistas. Processo iniciado com a Revolução Industrial, no século XVIII, e fortalecido com o surgimento da enfermagem moderna na Inglaterra no séc. XIX (TURKIEWICZ, 1995). Surge, então, na Inglaterra, um ícone da enfermagem mundial, Florence Nightingale, que resolve se dedicar a estudar a enfermagem com determinação, dedicação e amor à profissão (GASTALDO; MEYER, 1989). O processo de trabalho em enfermagem se organizou de acordo com Melo (1986) e Silva (1989) em três direções: a primeira com a finalidade de organizar o cuidado com o doente, ou seja, sistematizar a assistência; a segunda direção voltada para organizar o ambiente terapêutico, através dos mecanismos de limpeza e higiene do ambiente, e a terceira, organizar os agentes de enfermagem, com treinamento e disciplina. O nascimento da enfermagem profissional no Brasil e na Inglaterra apresentam algumas peculiaridades semelhantes, como a arregimentação de 11 parcelas diversificadas com vinculações de classes diferenciadas da população feminina, engajadas na profissão. Os atos de enfermagem estão contrabalançados entre a arte e a ciência, a filosofia e a técnica. A enfermagem, portanto, partindo desse pressuposto, caracteriza-se por ser uma ciência formada por pessoas e observações, compreendendo a saúde e a doença (LIMA, 1993). Para Almeida e Rocha (1989), as técnicas “estiveram sempre presentes nos cuidados de enfermagem e eram tidas como a arte da enfermagem. O objeto da enfermagem não estava centrado no cuidado do paciente, mas na maneira de ser executada a tarefa”. Segundo Almeida (1984), existia dentro dessa visão a quebra entre a concepção e execução do trabalho. O objetivo primordial era a execução da tarefa no menor período de tempo, sem a necessidade de reflexão sobre o trabalho executado, principalmente, pelos trabalhadores de menor instrução dentro da enfermagem. Segundo essa autora, enquanto o saber da medicina vai passando do ambiente para o doente, o da enfermagem centra-se no ambiente dele. A visão da enfermagem como arte é anterior à enfermagem como ciência, pela forma como a enfermagem era desenvolvida, como prioridade do cuidado ao doente com ternura, carinho, abnegação, em detrimento do conhecimento. A arte é um conjunto de conhecimentos práticos que mostram como trabalhar para conseguir certos resultados. Uma arte não envolve qualquer entendimento do por que das obras acabadas. [...] a enfermagem deve ser compreendida como a arte e ciência de pessoas que convivem e cuidam de outras pessoas. É uma profissão dinâmica, sujeita as transformações permanentes e que está continuamente incorporando reflexões sobre novos temas, problemas e ações; porque seu princípio é o manter ou restaurar a dignidade do corpo em todos os âmbitos da vida (LIMA, 1993). Para Collet et al. (1996) as técnicas constituíram o primeiro arcabouço organizado e sistematizado que instrumentalizou o processo de trabalho da enfermagem moderna. Seguindo as mudanças da sociedade, a técnica também necessita evoluir, ainda mais quando na área médica a tecnologia anda a uma velocidade muito 12 rápida, o que inclusive obriga aos profissionais da área estarem sempre se atualizando, incluindo aí o enfermeiro, que necessita estar informado a respeito das mudanças para além de realizar as suas funções e ter condições de orientar os profissionais que estão sob sua responsabilidade técnica e administrativa. A técnica é um instrumento de ligação do enfermeiro com o paciente/usuário, e é utilizada para prestar os cuidados baseados tanto no conhecimento científico como também no respeito às normas éticas e humanísticas. Com o avanço da tecnologia no Século XX, a divisão do trabalho se faz presente tanto nas empresas, de uma forma geral, como também dentro das instituições de saúde, com as especializações e dentro do corpo de enfermagem. Isso em decorrência do aumento do número de hospitais e da necessidade premente de pessoal para ocupar os cargos que estavam surgindo. Com a divisão do trabalho, aparece então dentro da enfermagem, os cargos de diretor, supervisor, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e atendentes de enfermagem. O enfermeiro com nível superior voltado para o ensino e para a administração da assistência, controlava a assistência delegando tarefas específicas de cunho manual aos demais membros da equipe. Essa delegação de tarefas implicou também a delegação de responsabilidades entre os diferentes níveis hierárquicos, com a conseqüente possibilidade de sanções pelo não cumprimento, fundamentado na proposta de gerência, que tinha como visão a racionalidade e eficiência nas fábricas e separação entre concepção e execução do trabalho (ALMEIDA, 1984). 2.2 HUMANIZAÇÃO O crescimento do número de pacientes e a estratificação do pessoal de enfermagem acabou com a relação um por um, enfermeiro - paciente, que existiu na enfermagem particular americana, dando lugar à enfermagem funcional, baseada em tarefas, com pessoas não preparadas, e os enfermeiros passando a ocupar cargos de supervisão nas unidades de internação. Surge então, na década de 50, a necessidade da organização de princípios científicos para nortear a prática de enfermagem. A enfermagem até então era vista como não 13 científica e suas ações baseadas na intuição. A proposta dos princípios científicos foi debatida por muitos estudiosos americanos da área, e em 1959 surge a primeira edição dos princípios que norteariam a enfermagem. São princípios derivados da psicologia, sociologia, antropologia, química, física, anatomia, fisiologia e microbiologia (ALMEIDA, 1984). Segundo, ainda, a mesma autora citada acima, enquanto são elaborados os princípios científicos, procurando dar fundamentação para os procedimentos de enfermagem, na assistência é elaborado e caracterizado o trabalho em equipe, na busca de harmonizar a assistência com os princípios científicos e dar um tratamento humanizado, a fim de melhorar o cuidado ao paciente. É importante lembrar que o saber da enfermagem tem sido um saber que busca outras áreas do conhecimento para organizar a sua prática, sendo prevalente a área biológica. A função peculiar do enfermeiro é dar assistência ao individuo doente ou sadio, ou desempenhar atividades que contribuam para manter a saúde ou para recuperá-la (ou favorecer uma morte serena) (ALMEIDA, 1984; CHIAVENATO, 2000). Na década de 40, nos Estados Unidos, houve uma mudança no discurso favorável à divisão de tarefas, e começou a introdução da modalidade do trabalho em equipe, por conta da organização do trabalho que se automatizava nas fábricas. Surge então, a escola de relações humanas que critica a administração cientifica, sugerindo a substituição do homo economicus pelo homo social, mas sempre perseguindo o aumento da produtividade com a redução dos custos (CHIAVENATO, 2000). Com a introdução da escola de relações humanas, o homem passa a ser o foco da atenção, reforçado pelo posicionamento da psicologia social e individual, valorizando não só o homem como um corpo biológico, mas um ser bio-psicosocial. O foco da enfermagem que estava centrado na tarefa passa a centrar-se nas necessidades do paciente (CHIAVENATO, 2000). Não é apenas a complexidade do saber que vai direcionar o que cabe à enfermeira realizar, mas sim o próprio desenrolar da prática de enfermagem no conjunto das práticas de saúde. A determinação do limite das funções de cada categoria dentro 14 da enfermagem tem sido muito difícil, na prática, devido à crise de identidade desses elementos; o que se pode observar é que todas as atividades são executadas por todos, e não como esclarece a definição da própria Lei do Exercício Profissional (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2009), que coloca nas mãos dos enfermeiros as atividades ditas mais complexas e aquelas mais simples nas mãos do pessoal auxiliar. Junto a essas peculiaridades, é acrescentada a dificuldade para definir o que é mais complexo no cuidado ao paciente. A definição das funções desses vários entes da enfermagem tem sido o movimento mais forte e constante dos enfermeiros brasileiros nos últimos decênios, na definição do seu espaço e, consequentemente, diferenciação e liderança do pessoal auxiliar. A Lei do exercício profissional da enfermagem é regulamentada em 1986, sob o Nº 7.498/86 (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2009). A Lei diz no Artigo 11 que o enfermeiro exerce todas as atividades de enfermagem, cabendo-lhe privativamente, entre outras: “Parágrafo 1º - Cuidados diretos de enfermagem a pacientes graves com risco de vida; Parágrafo 2º-Cuidados de Enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos de base científica e capacidade de tomar decisões imediatas”. Portanto, baseada nas suas responsabilidades, a enfermagem tem procurado desenvolver suas próprias teorias, na busca de constituir um corpo de conhecimentos específicos que não seja unicamente a soma de fatos e princípios de outras ciências. Tem avançado desde uma era pré-científica a uma era científica e humanista. É conveniente que ela mesma determine seus próprios limites de atuação no contexto das relações de colaboração que estabelece com outros profissionais da saúde. A preocupação fundamental consiste em colocar em um de seus mais altos níveis de prioridades as necessidades de saúde da coletividade. Com base no que foi visto até agora se observa que, na atualidade, o trabalho de enfermagem, no Brasil, pode ser caracterizado, genericamente, como de modalidade funcional, ou seja, é todo dividido em tarefas e procedimentos, sendo as técnicas e os princípios científicos os instrumentos de trabalho dominantes. Os saberes e as práticas da enfermagem não são os produtos somente do cientificismo técnico e o produto da enfermagem tomado isoladamente. O seu 15 saber é histórico e, assim sendo, contempla a estrutura organizacional e política dos serviços de saúde e a estrutura social do país, na dinâmica das relações econômicas, políticas e ideológicas. Um dos problemas da assistência de enfermagem no Brasil é o distanciamento do enfermeiro do seu objeto de trabalho, o cuidado ao paciente. O profissional enfermeiro passa a gerenciar o processo de trabalho que foi subdividido com os profissionais de nível médio e elementar, na maioria das vezes alienados do processo de trabalho e realizando apenas as tarefas que lhes são delegadas. Para controlar o pessoal, o enfermeiro utiliza seu saber, como instrumental ideológico de poder. Essa divisão técnica, que caminha no mesmo sentido da divisão social do trabalho, não é um acontecimento isolado, mas um problema que envolve todos os que fazem parte do próprio setor da saúde. Pois não existe uma teoria que articule o processo de trabalho em saúde, contemplando todo o pessoal da área (VIANA, 2005). No século XIX, o objeto da enfermagem era a execução de técnicas; na atualidade, esse objeto está centrado no cuidado. O cuidado apresenta-se de acordo com Waldow (1998) como sendo o processo de: Desenvolvimento de ações, atitudes e comportamentos, com base em conhecimento científico, experiência, intuição e pensamento crítico, realizadas com e para com o paciente/ cliente/ser, cuidado no sentido de promover, manter e/ou recuperar sua dignidade e totalidade humanas. Essa dignidade e totalidade englobam o sentido de integridade e a plenitude física, social, emocional, espiritual e intelectual nas fases do viver e do morrer e constitui, em última análise, um processo de transformação de ambos, cuidador e ser cuidado. Na instituição hospitalar, o trabalho do enfermeiro se desenvolve em unidades de cuidados, organizadas segundo as várias especialidades médicas e de acordo com as categorias existentes na carreira de enfermagem. Os técnicos e auxiliares de enfermagem executam suas tarefas, obedecendo a uma escala diária de atividades, a qual é elaborada pelo enfermeiro logo que se inicia o turno de trabalho nesses locais. Fica sob a responsabilidade do enfermeiro a avaliação do paciente, a elaboração dos planos de cuidados, a execução dos cuidados mais complexos e ao nível médio (técnicos e auxiliares) ficam os cuidados conforme sua capacitação profissional. A delegação do trabalho mais simples se refere àquelas 16 atividades que podem ser organizadas em rotinas, necessitando apenas do saber técnico para realizá-las. A distribuição diária, através da escala, faz com que os técnicos e os auxiliares de enfermagem realizem a maioria dos cuidados diretos com o paciente, tornando as suas relações mais próximas quando comparadas com a relação estabelecida entre o enfermeiro e o paciente (MAGALHÃES; JUCHEN, 2000). Boff (1999) diz que: “cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro”. O objeto de trabalho hospitalar é complexo e humano, interage com o profissional e o processo depende dessa cooperação. Por interagir no processo de trabalho, pode ser considerado também como parte dos recursos humanos do hospital. A necessidade social geradora do trabalho e o objeto do trabalho hospitalar formam uma unidade e essa cooperação ocorre entre o trabalhador e o seu objeto (MACHADO; CORREA, 2002). O hospital tem na sua organização um conjunto de normas e regras que estabelecem a forma como o trabalho deve ser executado em uma unidade de produção. Ou seja, ele funciona com disciplina rígida, com controle dos tempos e dos espaços, e envolve aspectos técnicos e afetivos dos trabalhadores, além de outros aspectos que são controlados, como: grau de iniciativa e autonomia, grau de ambigüidade sobre os resultados da tarefa; status social da atividade; possibilidade de cooperação e comunicação, entre muitos outros. A forte ligação dos trabalhadores com todo o processo pode causar distúrbios quando esses têm pouca participação no controle sobre o processo de trabalho no hospital, o que pode resultar em carga psíquica (DEJOURS, 1998; MACHADO; CORREA, 2002; REGO, 1993). Ainda sobre a origem da institucionalização da prática da enfermagem, no modo de produção capitalista, o corpo é colocado socialmente como agente de trabalho e simultaneamente como força de trabalho, cuja manutenção e recuperação são centrais na garantia de sua atividade produtora (SCHRAIBER, 1992). O trabalho da enfermagem não é gerador de lucro direto para o capital, mas tem como produto um 17 serviço, que é prestado a alguém, com a finalidade de aperfeiçoar a reprodução da força de trabalho para o capital (MARTINS; FARIAS; 2003). No entendimento desse novo modo de cuidar a doença, e os doentes, é que a enfermagem se constitui em extensão do trabalho médico, tendo sua organização fundamentada no modelo clínico. Assim, o objeto de trabalho da enfermagem, como o da medicina, é o corpo individual sobre o qual foram elaboradas técnicas e procedimentos para o cuidado (COSTA, 1990). Em contraponto ao uso acrítico da técnica como ato repetitivo e rotina de trabalho, encontra-se a dimensão do relacional que prioriza relações de trabalho como redefinidoras da prática de enfermagem. O meio hospitalar é o campo privilegiado na hipervalorização das relações humanas, centradas na dualidade enfermeira-doente e numa proposição ético profissional que visa à qualificação técnica e relacional (MEYER; WALDOW; LOPES, 1998). Assim, a ação cotidiana da equipe de enfermagem constitui um cuidado resultante de um saber acumulado, de disciplinas que desvendam as relações humanas e o contato com o outro, mas, também, de experiências desenvolvidas nas práticas efetivas, aprendidas e desenvolvidas em serviço. Baggio, Callegaro e Erdmann (2008) ao realizarem estudo sobre a compreensão do significado das relações de cuidado de enfermagem em uma unidade de emergência na percepção do paciente (usuário), chegam à conclusão de que a enfermagem é um elo que articula e relaciona a rede de ações complexas que fazem parte do cuidado no ambiente de emergência em suas condições múltiplas. Essas relações são facilitadas por atitudes e características exclusivamente humanas, levando-se em consideração as ações técnicas como a medicação, exames, a empatia e o diálogo entre o cuidador e o ser cuidado. Por esses motivos o cuidar humanizado está inteiramente ligado com o profissional que o executa: seu estado psicológico, físico e mental; com suas experiências anteriores, o cansaço físico pode ser um fator desfavorável à prática do cuidado humanizado. O número de profissionais deve ser equivalente ao número preconizado pelo Conselho Regional de Enfermagem para que o cuidado seja 18 adequado, de forma que o profissional tenha condições de ouvir o cliente/paciente, dando atenção às suas reivindicações em relação às coisas simples do seu dia-a-dia (COREN-SP, 2004). Na integração da equipe são fundamentais a valorização e o respeito entre os profissionais, ocorrendo assim um reflexo positivo na relação entre os mesmos. Quando esta integração acontece, o cliente/paciente sente-se mais confiante, seguro e mais tranqüilo no que se refere aos cuidados prestados por toda equipe, ocorrendo assim uma diminuição da ansiedade e proporcionando um ambiente hospitalar mais esperançoso (COSTA, 1990). O hospital, para ser humanizado na sua estruturação e construção física, deve se preocupar com sua localização, sendo de fácil acesso; se possível, longe do tráfego intenso, com proteção contra chuvas e ventos fortes em áreas descobertas. Espaços externos que ofereçam ao paciente/cliente tranqüilidade e uma paisagem (um ar que não seja tão hospitalar). A área interna deve promover fácil locomoção, com placas que indiquem os diversos setores dentro das instituições, que facilitam não só para as pessoas internadas, mas também para seus entes queridos nos momento de possíveis visitas; a disposição e tamanho dos quartos e as condições térmicas e acústicas devem ser favoráveis ao conforto. As cores das áreas internas das alas de internação são de extrema importância e deveriam manter um padrão que favoreça a sensação de tranqüilidade. A distância do posto de enfermagem é algo que também tem importância fundamental para o cuidado humanizado, pois cada vez que um enfermeiro sai do posto em direção aos leitos durante seu plantão, pode gerar cansaço, que poderia ser evitado no momento de sua estruturação, pois quanto menos cansado estiver este enfermeiro, melhor sua atenção a pequenas reivindicações do paciente/cliente (COSTA, 1990). Deve-se levar em consideração alguns aspectos para que um hospital seja humanizado: os equipamentos disponíveis para o usuário, a importância em que se dá ao pessoal que presta serviço tanto o interno como externo, dando condições para o aperfeiçoamento destes colaboradores. Uma educação continuada eficiente pode cooperar em potencial para capacitação destes profissionais, pois de nada adianta pretender dedicar cuidados especiais ao paciente/cliente se quem lida com 19 os mesmos não está devidamente qualificado para desempenho de um cuidado humanizado (MEYER, 2002). A seleção de profissional especializado para os diversos setores do hospital facilita o desenvolvimento do trabalho humanizado, que é executado com prazer e dedicação, dando o seu melhor, em prol de outrem, sem se deixar influenciar pelo tecnicismo e, com isso, modificando a relação com o ser humano (CORENSP, 2004). A assistência de enfermagem tornou-se indireta e fria, uma vez que toda a atenção é dada à aparelhagem e material disponível na unidade, tendo maior visibilidade pela necessidade constante de conferências e, sendo assim, o contato com o paciente/cliente fica cada vez mais distante do modelo de humanização (MEYER, 2002). Os hospitais não devem se esquecer do paciente/cliente nos seus aspectos psicológicos e religiosos, em virtude dos mesmos se sentirem alienados durante sua hospitalização, devido a separação de seu convívio familiar e social. Num hospital humanizado, o paciente/cliente, ao ser admitido, recebe um preparo psicológico, as orientações durante a realização de procedimentos delicados e invasivos, de exames e cirurgias, evitando, assim, sofrimentos desnecessários, ansiedade e traumas (COSTA; LUNAARDI; SOARES, 2003). No Brasil existem alguns aspectos que cooperam para que os hospitais sejam desumanos, como, por exemplo, a falta de leis hospitalares; a falta de reposição de materiais quando danificados; e, um dos problemas mais relevantes, a falta de programas para resolver a problemática de longas filas de espera que geram desconforto, irritabilidade e insatisfação por parte destes usuários, que na maioria das vezes não têm outra opção se não esperar pacientemente com dor, sem ter onde reclamar, e quando o faz, sofrendo represálias por parte de alguns profissionais. Há carência absoluta de materiais delicados e indispensáveis para que aconteçam cirurgias de médio e grande porte. Concomitante, a ausência de mão-deobra qualificada é um dos principais contribuintes para o aumento significativo das filas de espera, tornando o atendimento cada vez menos humanizado (COSTA; LUAARDI; SOARES, 2003). 20 Diante de tantos problemas, é necessário que ocorra uma mudança de atitude por parte de profissionais, com propostas que venha melhorar os níveis da assistência hospitalar, por parte dos administradores, diretores técnicos e enfermeiros envolvidos na assistência ao paciente/cliente (SOARES, 2003). A humanização trás consigo a necessidade de uma integração entre os diversos setores de um hospital, especificamente da emergência. Nesse sentido, uma pesquisa teve um resultado positivo quando aplicou o psicodrama como recurso psicoterapêutico e pedagógico, permitindo, assim, resgatar o sentido lúdico da comunicação, facilitando a expressão e compreensão das idéias. Profissionais envolvidos tiveram a oportunidade de exteriorizar os problemas e dificuldades, permitindo sua exploração e entendimento. Assim, foi possível analisar a utilização do psicodrama despertando nos profissionais o interesse por uma aprendizagem diferente da tradicional que primou pela reflexão relativa a uma forma humanizada do atendimento a saúde na emergência (SAEKI et al., 2002). Esta aplicação foi desenvolvida em etapas; nas temáticas que foram utilizadas no segundo momento da pesquisa foi de vital importância que todos os envolvidos passassem por todas as etapas para a atualização de referências pessoais e profissionais, individuais e grupais, para que estes profissionais dramatizassem situações. Era solicitado dos mesmos que relacionassem co m situações de suas vivências cotidianas. Após cada encontro, os coordenadores se reuniam para discutir as convivências e registrar o que emergia dos grupos, suas observações e percepções e planejavam o que seria abordado no próximo encontro (SAEKI et al., 2002). No momento da análise dos encontros foi possível repensar a humanização no contexto hospitalar da emergência, sendo que o grupo envolvido mostrou uma baixa auto-estima em relação ao seu trabalho, o que parece ter sido pela falta de reconhecimento profissional, desde os colegas até chefias, levando-os a se sentirem à margem da instituição, eximindo-os quanto à sua capacidade de desenvolver a humanização, tanto no que diz respeito ao usuário, quanto à equipe multidisciplinar (SAEKI et al., 2002). 21 Como um maior apoio, as vivências que envolvem o pensar, o sentir e o agir podem produzir resultados que podem permanecer com os profissionais ao longo do tempo. (DATNER, 1999). Faz-se necessário reaproximar os profissionais dos resultados positivos de seu trabalho na tentativa do resgate da valorização e do orgulho profissional pelo esforço singular realizado. Para que efetivamente a humanização tenha êxito, faz-se necessário que a educação continuada norteie as ações para a prática do atendimento humanizado e que as mesmas partam da direção da instituição e possam atingir toda a equipe, os quais as aplicará ao paciente/cliente (SAEKI et al., 2002). Dentro do âmbito da humanização pediátrica, temos que abordar especificamente e com cuidado o paciente pediátrico já que a internação pediátrica é um momento bastante difícil, gerador de ansiedade e medo e é vivenciada por crianças e famílias, diariamente, em unidades de saúde. Para os pais, a hospitalização é marcada por sentimentos de culpa, ansiedade e medo a partir da notícia da necessidade de internação de seu filho. Com isso, são levados a procurar causas para esse drama, temporário ou não, podendo ocorrer acusações mútuas e tendo a possibilidade de desestruturação familiar e ou término de relacionamentos.Verifica-se, também, por ocorrência da atenção redobrada por parte dos genitores (por acharem/não terem outros familiares capacitados para esta função) e com a existência de mais filhos em casa, a criança apresenta sentimentos de carência da afeição filial, muitas vezes regridem (apresentam comportamentos abaixo da idade cronológica) e demonstram atitudes rebeldes ou inserem-se em mutismo (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Todas essas repercussões podem interferir negativamente no desenvolvimento psíquico e comportamental da criança, como um todo. Para o cliente pediátrico, a hospitalização é uma etapa árdua de sua vida; não sabem quanto tempo ficarão sem praticar suas atividades lúdicas, ter convivência integral com seus familiares e também, com outras pessoas de seu círculo social, estando limitado a um espaço novo e estranho, sendo em alguns casos não tão novo, quando na condição de portador de doenças crônicas. Os profissionais de enfermagem, tendo como uma das bases do exercício da profissão, o cuidado através do contato humanizado, apresentam-se como atores principais em prol da promoção do maior conforto para 22 o cliente pediátrico, para inserção adequada dos pais e outros familiares para este novo momento (DESLANDES, 2004). Estratégias de humanização e acolhimento aplicadas pela equipe de enfermagem unidades de internação pediátrica são baseadas na Política Nacional de Humanização do SUS, através do fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade, tendo o propósito de ofertar uma assistência específica promotora de recuperação holística para as crianças e seus acompanhantes durante o período de internação. Esta tendência confronta diretamente com a exposição de casos de mal atendimento ou des-atenção por parte das equipes de saúde em instituições especializadas, assistidas diariamente em veículos da mídia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Entre os diversos agentes atuantes no processo de trabalho em saúde, a enfermagem destaca-se por ser uma categoria profissional que assume atividades como: o cuidado, monitoramento, práticas educativas e administração de serviços de saúde. A trajetória dessa categoria possui uma história marcada pela influência religiosa, distinção do gênero feminino e relação com a medicina enquanto estruturação de um campo de conhecimentos científicos (LIMA, 2005). 2.3 PERFIL DO ENFERMEIRO DA EMERGÊNCIA A atuação do enfermeiro na emergência pediátrica contribui para manter a organização e o funcionamento da sala de emergência por meio de controle de materiais e aparelhos, da realização de protocolos de atendimento e capacitação da equipe de enfermagem com finalidade de garantir uma assistência eficiente e eficaz com objetivo de reduzir os riscos de seqüelas e incapacidades da criança em situação de emergência. Em uma situação de emergência, a enfermeira desenvolve diferentes ações, dentre elas a de administrar os recursos humanos, técnicos e auxiliares de enfermagem, 23 como também garantir a disponibilidade e a qualidade de recursos materiais e de infra estrutura que permitam à equipe atuar no atendimento emergencial. A unidade de emergência pediátrica tem caráter dinâmico e esta característica básica, traz algumas repercussões institucionais que implicam na melhor organização de outras áreas do hospital. Em função das atividades exercidas, alguns serviços devem ser mantidos em condições de utilização a qualquer momento. O sucesso do atendimento, também, pode estar diretamente relacionado à disponibilidade de outras áreas, como: laboratório, radiologia, unidades de internação, unidades de terapia intensiva, centro cirúrgico, banco de sangue. (Gomes, 1994) Nos dias de hoje, já se tem a clareza de que a qualidade dos serviços prestados está, também, diretamente relacionada com a funcionalidade da estrutura arquitetônica e organizacional de uma instituição de saúde. A alta tecnologia, o profundo conhecimento científico e a excelência na habilidade técnica da equipe, ficam severamente prejudicados quando os elementos arquitetônicos e administrativos não estão em harmonia com as reais necessidades do serviço. No âmbito da enfermagem pediátrica, percebe-se que havia, na atribuição do exercício profissional, a incumbência de estabelecer o elo entre criança e familiares, e, na substituição destes, atuar de forma “maternal” (LIMA, 2005). A incorporação da família e/ou o acompanhante no universo da internação trouxe uma ampliação do foco da atenção e convocou as equipes a estruturarem um novo arranjo teórico e prático (COLLET, ROCHA, 2004). Sendo assim, torna-se importante se debruçar sobre a gestão do processo de trabalho da enfermagem, pois, nesse cenário, estão inscritas as relações entre equipe de saúde, pacientes e familiares, cenários de possibilidades e obstáculos para um cuidado integral e acolhedor. Segundo a Resolução 293/2004 do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN, 2004), a composição mínima de uma equipe voltada para cuidados intermediários é de 33 a 37% de enfermeiros (mínimo de seis), além dos demais profissionais, como Auxiliares e/ ou Técnicos de Enfermagem. Sendo assim, havia uma defasagem 24 entre o cumprimento do parâmetro e a composição das equipes observadas em alguns estudos, implica na concentração das decisões sobre o cuidado nas mãos de poucos, acarretando automatismo, rotinas e padronizações diante do aumento e complexidade da demanda (PITTA, 2003). Spagnol (2002) encontrou resultados que apontam para uma comunicação organizacional no âmbito hospitalar ainda excessivamente formalizada e vertical, predominando a impessoalidade nas relações, o que evidencia o estilo clássico de gestão que segue sendo adotado na enfermagem. As influências do modelo de gestão exercido pela enfermagem representam a marca da lógica do controle, que racionaliza a organização do trabalho, determina aos trabalhadores a maneira de se executarem as tarefas, centralizando as ações no gerente Contudo, diante de casos graves com elevado grau de complexidade no cuidado, a rigidez imposta por um modelo hierárquico repercute em problemas na condução do trabalho, já que o mesmo demanda um atendimento transversal pautado pelo diálogo para tomada de decisões. No contexto do trabalho em saúde, compreende-se que a enfermagem assume a função de um veículo para a materialização do cuidado, podendo tornar os encontros com o outro, momentos potenciais que contribuem para a melhoria do quadro de saúde dos indivíduos. A administração da assistência pela enfermagem implica desenvolver habilidades técnico-científicas e de liderança para gerir o trabalho, a equipe e assistir aos pacientes (Spagnol, 2006). A Política Nacional de Humanização propõe a gestão participativa e a promoção de comunidades ampliadas de pesquisa como possibilidades instrumentais na construção de novas vias para o trabalho. Assim, o modelo de gestão proposto pelas bases da humanização pode ser compreendido como centrado no trabalho em equipe e na construção de colegiados voltados para a tomada de decisões pactuadas, o que pode auxiliar na construção de um fazer mais democrático. No processo de trabalho em saúde, as ações de fazer e aprender estão indissociadas, o que faz com os próprios trabalhadores possam ser reconhecidos como produtores de conhecimento. Assim, além do exercício de uma gestão colegiada e participativa, podem-se construir espaços 25 ampliados de pesquisa, com a participação dos diferentes atores, que têm como propósito produzir um processo contínuo de construção e desconstrução de saberes, valores e de avaliação das formas de funcionamento coletivo que podem estar causando adoecimento ou promovendo a saúde (BRASIL, 2009). 26 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo conclui que trabalhar em uma emergência pediátrica exige do profissional não só habilidades técnicas científicas e dinamismo, mas um olhar diferenciado, sabedoria e paciência em acolher o doente e a família, que se encontra em um momento frágil de angústia, que por muitas vezes se sente impotente por não saber lidar com o sofrimento do ente querido. A criança é quase sempre a principal vítima, necessitando de uma atenção especial dadas as peculiaridades biológicas e psicológicas no país, sujeito aos agravos decorrentes das doenças prevalentes na infância, necessitando de recursos materiais e humanos especializados para o atendimento emergencial. É possível afirmar após esta pesquisa que as reações familiares dependem de múltiplos e complexos fatores, sendo que o impacto emocional de uma doença aguda, acidente ou falecimento de um familiar intempestiva provoca uma série de conflitos emocionais que afetam a unidade familiar. Nesse momento os integrantes da equipe passam a compartilhar as manifestações psicossociais da família, podendo tornar-se elementos de transmissão de calma e tranqüilidade. Constatamos, portanto que diferentes situações manifestadas por sentimentos de estresse e dor, fazem com que a enfermeira se sinta limitada na atenção à família. Ela pode desenvolver uma série de mecanismos e estratégias para atuar com os familiares, entretanto superar essas situações é difícil para qualquer membro da equipe. Assim, concluímos que é preciso trabalhar sobre o distanciamento entre os trabalhadores, que produz grupos apartados da possibilidade de produzir e alcançar resultados que tenham impacto sobre a gestão e a assistência. Para que assim o enfermeiro e toda a equipe possam prestar um atendimento de qualidade e humanizado aos pacientes pediátricos. É possível afirmar após esta pesquisa, que nos processos de gestão da enfermagem, não se pode negar a interface, quase que constante, entre os 27 processos produtivos e a busca de condições que garantam a continuidade e a concretização do cuidado. Nesse sentido, a utilização das tecnologias na gestão do trabalho pode privilegiar a reorientação do modelo, mediante a valorização do outro nas diferentes relações, procurando abertura ao diálogo com os diferentes pares e construindo vias que respondam de forma mais acolhedora às demandas de usuários e trabalhadores. O desafio do coletivo analisado é recompor distintos desejos e interesses dos grupos, expressos por intermédio de iniciativas isoladas, de forma que se construa outra sociabilidade, mais democrática e solidária, que dialogue por meio de um projeto de humanização do grupo. 28 4 REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. C. P. Estudo do saber de enfermagem e sua prática. 1984. Tese (Doutorado) - Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1984. ALMEIDA, P. J. S.; PIRES, D. E. P. O trabalho do enfermeiro em emergência: entre o prazer e o sofrimento. Revista eletrônica de enfermagem, Goiânia, v. 9, n. 3, p. 617-629, 2007. 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