Volume 11, Número 2, 2011 Editores Juliana Barreiros Porto Universidade de Brasília Mauro Magalhães Universidade Federal da Bahia Suzana da Rosa Tolfo Universidade Federal de Santa Catarina Revista Psicologia: Organizações e Trabalho ISSN 1984-6657 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index Associação Brasileira dos Editores Científicos de Psicologia Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho SUMÁRIO EDITORIAL Juliana Barreiros Porto Revista Psicologia:Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011.............................................................................................................. 2-4 ARTIGOS Mara de Souza Leal, Fernanda Aguillera & Lucy Leal Melo-Silva Revista Psicologia: Organizações e Trabalho – Uma década de sua produção científica em análise...................................................... 6-20 Fellipe Coelho-Lima, Ana Ludmila Freire Costa & Oswaldo Hajime Yamamoto O exercício Profissional do Psicólogo do Trabalho e das Organizações: Uma Revisão da Produção Científica..................................... 21-35 Vanessa Rodrigues Lopes & Maria do Carmo Fernandes Martins Validação Fatorial da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) para Brasileiros............................................................ 36-50 Mary Sandra Carlotto Tecnoestresse: diferenças entre homens e mulheres............................................................................................................................ 51-64 Ana Vicente, Teresa Rebelo & Gustavo Inverno Moderadores do Impacto de Percepções de Responsabilidade Social das Empresas no Comprometimento Organizacional: Um Estudo no Setor Cerâmico Português.............................................................................................................................................. 65-83 Marlene Catarina de Oliveira Lopes Melo, Meire Rose de Oliveira Loureiro Cassini & Ana Lúcia Magri Lopes Do Estresse e Mal-Estar Gerencial ao Surgimento da Síndrome de Estocolmo Gerencial..................................................................... 84-99 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 2-4 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho EDITORIAL Revista Psicologia: Organizações e Trabalho Volume 11, Número 2, jul-dez 2011 Por: Juliana Barreiros Porto rPOT, 11, 2, jul-dez 2011 A rPOT há mais de uma década divulga pesquisas inéditas em Psicologia Organizacional e do Trabalho e se consolidou como a principal revista brasileira na área. Os trabalhos empíricos, as revisões de literatura e os estudos teóricos publicados têm contribuído para o debate crítico, a pesquisa e o ensino em PO&T. Esta é uma revista democrática em seus temas como demonstra o artigo de Leal, Aquillera e Melo-Silva neste número. E, acima de tudo, tem atraído pesquisadores de vários estados brasileiros, de outros países e das mais variadas correntes teóricas. Este número, que temos o prazer de apresentar aos nossos leitores, traz essa diversidade aliada ao rigor científico que sempre foi forte característica da revista. Os dois primeiros artigos — Revista Psicologia: Organizações e Trabalho — Uma década de sua produção científica em análise de Mara de Souza Leal, Fernanda Aguillera e Lucy Leal Melo-Silva e O exercício profissional do psicólogo do trabalho e das organizações: uma revisão da produção científica de Felipe Coelho-Lima, Ana Ludmila Freire Costa e Oswaldo Hajime Yamamoto – apresentam pesquisas bibliográficas que permitem uma reflexão tanto da produção científica quanto da prática profissional em PO&T. O primeiro faz uma análise dos artigos publicados na primeira década da rPOT e o segundo analisa artigos publicados em periódicos nacionais sobre o papel do psicólogo em PO&T. Os quatro artigos seguintes contribuem com o desenvolvimento de medidas validadas nacionalmente e para a compreensão de importantes fenômenos do mundo do trabalho. Assim, Vanessa Rodrigues Lopes e Maria do Carmo Fernandes Martins no artigo Validação fatorial da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (CD-RISC-10) para brasileiros, traz evidência de validade da referida escala para o público brasileiro. Mary Sandra Carlotto, no artigo Tecnoestresse: diferenças entre homens e mulheres, aborda uma variável recente do mundo do trabalho e oferece contribuições para o desenvolvi- 3 mento de políticas de prevenção e saúde no trabalho. A pesquisa de Ana Vicente, Teresa Rebelo e Gustavo Inverno, Moderadores do impacto de percepções de responsabilidade social das empresas no comprometimento organizacional: um estudo no sector cerâmico português, apontam para a importância de se considerar o perfil do trabalhador na implantação de práticas de responsabilidade social. Por fim, o artigo Do Estresse e Mal-Estar Gerencial ao Surgimento da Síndrome de Estocolmo Gerencial de Marlene Catarina de Oliveira Lopes Melo, Meire Rose de Oliveira Loureiro Cassini e Ana Lúcia Magri Lopes revelam aspectos relevantes para uma reflexão crítica sobre a função gerencial. Este número da revista reforça a sua importância para os psicólogos em PO&T. Portanto, agora é chegado o momento de aumentar a visibilidade da revista e o seu impacto na comunidade científica. Durante 2011, foi empreendido grande esforço para a manutenção da sua qualidade e para atingirmos os critérios exigidos para indexação da revista em importantes bases de dados. Estamos esperançosos de que em 2012 tenhamos boas notícias a compartilhar sobre esse assunto. Com novas indexações aumentamos o poder de alcance dos nossos textos e poderemos cumprir de forma mais efetiva a nossa meta de divulgação da produção científica em PO&T. Com relação ao impacto da nossa publicação, precisamos cada vez mais qualificar a nossa produção e para isso dependemos dos pesquisadores. Assim, a rPOT incentiva os autores a encaminharem trabalhos empíricos com boa fundamentação teórica, com modelos explicativos consistentes, que enfoquem nos processos psicológicos e sociais que promovem as variáveis investigadas, que evitem o uso exclusivo de autorrelatos e que busquem explicações multiníveis. As pesquisas descritivas são bem-vindas, desde que focalizem tópicos com poucas pesquisas e que permitam avançar teoricamente sobre o assunto. As revisões de literatura devem Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 2-4 4 Porto trazer contribuições e agendas de pesquisa para a área e não simplesmente sistematizar a literatura revista. Por fim, são esperados dos estudos teóricos avanços na teoria ou proposição de novas teorias com forte argumento lógico que tenha consistência interna e validade externa. Agradecemos aos autores, pareceristas, revisores, assistentes editoriais, diagramador e diretoria da SBPOT que contribuíram para este número e fazemos um amplo convite à comunidade científica para que encaminhem os seus trabalhos para a rPOT e continuem a contribuir para o crescimento da área. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 2-4 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 ARTIGOS Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Mara de Souza Leal, Fernanda Aguillera & Lucy Leal Melo-Silva Revista Psicologia: Organizações e Trabalho – Uma década de sua produção científica em análise (6-20) Fellipe Coelho-Lima, Ana Ludmila Freire Costa & Oswaldo Hajime Yamamoto O exercício Profissional do Psicólogo do Trabalho e das Organizações: Uma Revisão da Produção Científica (21-35) Vanessa Rodrigues Lopes & Maria do Carmo Fernandes Martins Validação Fatorial da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) para Brasileiros (36-50) Mary Sandra Carlotto Tecnoestresse: diferenças entre homens e mulheres (51-64) Ana Vicente, Teresa Rebelo & Gustavo Inverno Moderadores do Impacto de Percepções de Responsabilidade Social das Empresas no Comprometimento Organizacional: Um Estudo no Setor Cerâmico Português (65-83) Marlene C. O. Lopes Melo, Meire R. O. Loureiro Cassini & Ana Lúcia Magri Lopes Do Estresse e Mal-Estar Gerencial ao Surgimento da Síndrome de Estocolmo Gerencial (84-99) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo - Relato de Pesquisa Empírica Revista Psicologia: Organizações e Trabalho – Uma década de sua produção científica em análise1 Mara de Souza Leal* Fernanda Aguillera* Lucy Leal Melo-Silva* 1 Este artigo consiste no desdobramento do estudo apresentado e premiado no IV Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho, realizado no período de 05 a 08 de julho de 2010 em São Bernardo do Campo, SP * Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Departamento de Psicologia e Educação. Av. Bandeirantes, nº 3900, CEP: 14040-901, Ribeirão Preto – SP, Brasil. Fone: (16) 3602-3789 Resumo Este estudo, do tipo estado da arte, objetivou analisar os artigos publicados na Revista Psicologia: Organizações e Trabalho – rPOT, em seus dez anos de existência. Avaliaram-se 20 fascículos, totalizando 137 artigos. As variáveis de análise foram: tipo de trabalho, número de autores, gênero dos autores, filiação institucional, estado de origem e temática. Os principais resultados mostraram predomínio de relatos de pesquisa e de trabalhos com autoria múltipla, sendo a maioria dos autores do gênero feminino. Grande parte das publicações está vinculada à Universidade de Brasília, destacando a região centro-oeste do Brasil, em especial o Distrito Federal, como grande núcleo de pesquisa da área. Entre as categorias temáticas, destacaram-se: “Relações de trabalho”, “Estratégias, avaliação e procedimentos de intervenção em Psicologia Organizacional e do Trabalho” e “Saúde e satisfação no trabalho”, demonstrando que as pesquisas avaliadas estão mais voltadas à prática e ao desenvolvimento de estratégias, que à construção de modelos teóricos, apesar do reduzido número de relatos de experiências. Verificou-se a necessidade de maior investimento em pesquisas na área em outras regiões do Brasil, abrangendo a diversidade cultural e econômica do país, bem como mais espaço a experiências e autoria de profissionais. Palavras-chave: Psicologia Organizacional; Psicologia Aplicada ao Trabalho; revisão de literatura; produção científica. Abstract Psychology: Organizations and Work Journal (Revista Psicologia: Organizações e Trabalho) – Analysis of a decade of scientific production. This state-of-the-art study aimed to analyze the articles published in the Brazilian journal “Psychology: Organizations and Work” in its ten years of existence. We analyzed 20 issues, totaling 137 articles, organized according to the following categories: type of paper, number of authors, authors’ gender, institutional affiliation, home state, subjects, and topics. The results showed a predominance of research reports and co-authored papers, female authors prevailing. Most of the publications are linked to the University of Brasilia, highlighting central-western Brazil, especially the Federal District, as a major center for this area of research. The themes include: “labor relations,” “strategies, assessment, and intervention procedures in Organizational and Work Psychology,” and “health and job satisfaction.” This shows that the studies evaluated are focused more on practice and on developing strategies than on the construction of theoretical models, despite the reduced number of experimental research reports. The need is identified for greater investment in research in the other regions of Brazil that includes the cultural and economic diversity of the country, as well as more space for experiments and authorship by psychology professionals. Keywords: Organizational Psychology; Psychology Applied to Work; literature review; scientific production Leal, Aguillera & Melo-Silva. rPOT – Produção científica Recebido em: 22.06.2011 Aprovado em: 14.11.2011 Publicado em: 30.12.2011 rPOT – Produção científica “ A ciência que não se vê não existe”. Essa afirmação traduz a importância da divulgação de trabalhos científicos, considerando-se que as pesquisas são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer área do conhecimento, o que se alcança de fato apenas quando a produção científica decorrente dos estudos é posta à disposição da comunidade científica e de possíveis usuários das informações, para que venha a ser aplicada em diversos contextos da vida acadêmica e prática. Desse modo, para um estudo ser reconhecido academicamente e seus resultados serem úteis para a elaboração de novas pesquisas, intervenções e perspectivas teóricas, é necessário que ele seja publicado em periódicos acadêmicos, anais de congressos ou outros meios que permitam o acesso pela comunidade científica, o que tem sido facilitado pelos meios digitais de disseminação das informações. A publicação de pesquisas em periódicos é um dos meios mais utilizados de divulgação do conhecimento, até pela confiabilidade pressuposta pelos crivos de análise, aos quais os manuscritos são submetidos, na intenção de se garantir o nível de qualidade das produções científicas. Publicar resultados de pesquisas e experiências profissionais possibilita o intercâmbio de informações, o que é imprescindível para a evolução da ciência e o consequente desenvolvimento da sociedade. Ao ordenar e sistematizar as informações de estudos é possível traçar um panorama do que tem sido realizado em determinada área e identificar lacunas, vieses e objetos de futuras investigações. As pesquisas que buscam fazer um levantamento da produção científica de determinada área do conhecimento são chamadas pesquisas do “estado da arte” ou do “estado do conhecimento”, cuja característica é notadamente a natureza descritiva e de caráter documental bibliográfico (Ferreira, 2002). Em geral, esses estudos se respaldam em métodos como a Bibliometria, que, através da quantificação, busca um perfil dos registros 7 do conhecimento (Bufrem & Prates, 2005) e contribui para a organização de saberes científicos e tecnológicos (Guedes & Borschiver, 2005). Mas também são usuais as práticas relacionadas ao que é conhecido como metaciência, segundo Witter (1999), que possibilita análises qualitativas da produção científica, sendo igualmente relevante e útil aos estudos de revisão bibliográfica. Esse tipo de estudo tem sido realizado nas últimas décadas no Brasil e em outros países como uma tentativa de mapear e discutir a produção e entender a dinâmica de determinadas áreas, ao destacar o que foi produzido em diferentes contextos e tentar abrir caminhos para novos olhares. Alguns dos estudos do tipo estado da arte contemplam temas específicos, buscando compreender os avanços científicos na compreensão de dado fenômeno, instrumento ou prática, como foi o trabalho de Nakano e Wechsler (2007) sobre as produções acerca da criatividade no país, e o de Souza Filho, Belo e Gouveia (2006), que focalizou testes psicológicos. Outros possuem focos mais amplos, como aqueles que se referem a certa área do conhecimento, como o fez Yamamoto, Souza e Yamamoto (1999) em relação à produção científica na Psicologia, quando analisaram periódicos brasileiros; Noronha e cols. (2006) quando analisaram teses e dissertações sobre Orientação Profissional; e Melo-Silva, Leal e Fracalozzi (2010) que focaram os anais e programas dos congressos brasileiros organizados pela Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP). Diante dessas publicações, nota-se que é comum os recortes de análise dessa natureza terem por base fontes diversas. Mas também a análise de determinados veículos de disseminação das informações é relevante, especialmente aqueles que focam subáreas específicas, na medida em que servem como referencial básico aos profissionais daquela prática profissional. Diante disso, uma diversidade de estudos com essas características tem sido produzida no Brasil, como é o caso de Oliveira, Cantalice, Joly e Santos Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 8 Leal, Aguillera & Melo-Silva (2006), que analisaram a Revista Psicologia Escolar e Educacional na ocasião de seus dez anos de existência; Suehiro e Rueda (2009), que estudaram a Revista Avaliação Psicológica no período entre os anos 2002 e 2007; Teixeira, Lassance, Silva e Bardagi (2007) e Rueda (2009) em relação à Revista Brasileira de Orientação Profissional. Em relação à Psicologia Organizacional e do Trabalho, revisões de literatura são publicadas desde 1950 nos volumes anuais do Anual Review of Psichology, segundo Borges-Andrade e Pagotto (2010). Já no contexto brasileiro, publicações dessa natureza têm sido produzidas desde Borges-Andrade e Abbad (1996), quando o foco se voltou ao treinamento e desenvolvimento, em busca de análise crítica da produção até aquele momento e reflexões que fomentassem o avanço da área. Desde então, seguiu-se uma série de estudos, com forte tendência a análises mais específicas. São exemplos disso: o estudo de Demo (2003), em relação ao comprometimento no trabalho, realizado a partir de uma revisão da produção nacional; Coelho e Borges-Andrade (2004), que produziram uma análise empírica dos estudos sobre a cultura organizacional; e Borges-Andrade, Coelho e Queiroga (2006), que analisaram os estudos brasileiros sobre microcomportamento organizacional. Entre os estudos mais amplos de revisão sistemática da produção na área, destacam-se dois estudos mais recentes: Tonetto, Amazarray, Koller e Gomes (2008), que analisaram os artigos publicados nas principais revistas brasileiras de Psicologia disponíveis no Portal Scielo, no período entre 2001 e 2005; e Borges-Andrade e Pagotto (2010), que traçaram um panorama mais amplo das produções em nível nacional no período de 1996 a 2009, considerando também a pós-graduação e a publicação internacional. Em ambos os estudos, destacou-se a diversidade temática e metodológica da produção científica em Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), marcada pelo olhar para fora e para dentro das organizações, considerando-se aspectos do fazer humano no trabalho e da gestão de pessoas. Também elucidaram a predominância de estudos empíricos que se propõem a não apenas impulsionar o desenvolvimento teórico da área, mas evidentemente a subsidiar intervenções e respaldar a prática profissional, embora se reconheça que não é usual a produção científica decorrente dessa vivência. Diante disso, uma agenda estratégica para a pesquisa em POT foi convocada por Borges-Andrade e Pagotto (2010), assim como a efetivação de redes sociais como uma forma privilegiada de produção científica. Reiterou-se ainda a importância da disseminação do conhecimento por meio de veículos dela própria e da Psicologia, como se tem valorizado o sistema de avaliação Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), mas sem, no entanto, abandonar os veículos da Administração que sempre a acolheram. Como um dos meios de divulgação da produção realizada na área do trabalho são os artigos publicados em periódicos científicos e revistas especializadas, o objetivo do presente estudo é mapear a produção científica publicada na Revista de Psicologia Organizações e Trabalho no período de 2001 a 2010. O recorte de uma década de produção do conhecimento por ela veiculada permite traçar o panorama histórico dessa época, identificando as características e práticas mais comuns no contexto brasileiro, lacunas, vieses e principalmente objetos para futuras investigações. MÉTODO Esta pesquisa, de caráter bibliográfico, visou analisar anualmente a produção científica da Revista Psicologia: Organizações e Trabalho no período de 2001 a 2010. Foram analisados 20 fascículos do periódico, totalizando 137 artigos publicados. Os fascículos analisados foram: v1n1(2001), v1n2(2001), v2n1(2002), v2n2(2002), v3n1(2003), v3n2(2003), v4n1(2004), v4n2(2004), v5n1(2005), v5n2(2005), v6n1(2006), v6n2(2006), v7n1(2007), v7n2(2007), Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 rPOT – Produção científica 9 v8n1(2008), v8n2(2008), v9n1(2009), categorias temáticas para classificação dos v9n2(2009), v10n1(2010) e v10n2(2010). estudos. Mas é importante considerar que alguns artigos foram classificados em mais de Procedimentos de coleta e análise dos dados uma categoria, em razão de tratarem de teA princípio, foi realizada a leitura flu- mas abrangentes, de considerarem relações tuante dos resumos publicados em cada fas- entre assuntos concernentes a duas categocículo da Revista Psicologia: Organizações e rias temáticas ou de apresentarem estratéTrabalho, considerando-se o período estuda- gias de intervenção ou desenvolvimento de do, de modo a estabelecer um primeiro con- instrumentos de avaliação, por exemplo, que tato com os documentos para então definir as se direcionassem a temas específicos. As cacategorias de análise, conforme recomenda tegorias estão descritas a seguir. Bardin (1977). A seguir, foi realizada a leitu(a) Estratégias, avaliação e procedira dos artigos na íntegra e criada uma base mentos de intervenção em Psicologia Organide dados no Programa Excel, visando classi- zacional e do Trabalho: agrupam artigos que ficar e organizar suas informações de acordo enfocam estratégias utilizadas na atuação com as seguintes categorias: tipo de trabalho, profissional em Psicologia Organizacional e número de autores, gênero dos autores, uni- do Trabalho, além de avaliações de progradade federativa da filiação institucional dos mas e intervenções realizadas na área, como autores (considerando-se estados brasileiros experiências de recrutamento e seleção, ou contribuições internacionais) e eixos temá- avaliação de treinamentos, estratégias de ticos. Uma análise estatística dos dados, com gestão e aconselhamento de trabalhadores, enfoque descritivo, foi realizada adotando-se entre outros. o software Statistical Package for Social Scien(b) Relações de trabalho: estão classifices (SPSS 15). A seguir são detalhadas as vari- cados nesta categoria os artigos que enfocam áveis estudadas. as relações estabelecidas entre as pessoas - Tipo de trabalho: os artigos foram ava- no ambiente de trabalho e as relações das liados e distribuídos entre as categorias relato pessoas com o próprio trabalho; aqui foram de pesquisa, relato de experiência, estudo te- classificados assuntos como o assédio, novos órico e ensaio. modelos de interação profissional e de orga- Número de autores: considerou-se a nização do trabalho, uso das redes sociais, enquantidade de autores de cada artigo. tre outros. - Gênero dos autores: foi observado o (c) Saúde e satisfação no trabalho: os sexo dos autores dos artigos. artigos assim categorizados tratam de fatores - Unidade federativa da filiação institu- relacionados à saúde e à qualidade de vida do cional dos autores (estados brasileiros ou con- trabalhador, assim como à satisfação deste tribuição internacional): refere-se às unidades com o trabalho, considerando-se seus impacfederativas nas quais estão localizadas as ins- tos na saúde e bem-estar. Desse modo, aqui tituições de afiliação dos autores. Se mais de estão agrupados assuntos como condições de um autor fosse da mesma instituição, esta era trabalho e saúde do trabalhador, estresse e contabilizada apenas uma vez. Para artigos estratégias de enfrentamento, saúde mental provindos de instituições estrangeiras ou em e desemprego, entre outros aspectos. que um dos autores apresentasse vinculação (d) Crenças, valores e cultura organiinternacional, foi criada a categoria “contri- zacional: são abordadas as crenças e reprebuição internacional”. sentações sociais relacionadas ao mundo do - Eixos temáticos: após uma leitura trabalho, assim como aspectos estruturais e atenta dos resumos, foram definidas algumas políticos das organizações, que se refletem Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 10 Leal, Aguillera & Melo-Silva no conceito de cultura organizacional. Artigos que discutem diretamente a cultura organizacional, assim como o significado do trabalho; expectativas e crenças de trabalhadores e empregadores; valores culturais e sucesso de estratégias empresariais são alguns dos temas classificados nessa categoria. (e) Conceitualização, modelos e aproximações teóricas em Psicologia Organizacional e do Trabalho: estão inclusos os artigos que propõem um novo modelo ou discutem teorias e conceitos da área da Psicologia Organizacional e do Trabalho, como por exemplo, concepções de carreira, análise de diferentes propostas teóricas e metodológicas, entre outros. (f) Construção, adaptação e validação de instrumentos: reúnem-se nessa categoria os artigos que propõem a construção de instrumentos de avaliação, a adaptação e/ou a validação de instrumentos existentes, além daqueles que descrevem os resultados da aplicação de um instrumento. (g) Processos de grupos/equipes e organizacionais: assim foram categorizados aqueles artigos que abordam diretamente as temáticas clássicas desse campo de estudo, como poder, liderança, comportamento grupal, conflito, aprendizagem organizacional, gestão de mudanças. São destacados também os artigos que discutem o comportamento de algumas categorias profissionais diante de desafios relacionados à sua prática. (h) Comportamento e perspectivas do consumidor: abordam-se as pesquisas que trazem a opinião do consumidor sobre determinados produtos, analisam-se as tendências de interesse ou estratégias de vendas, por exemplo. (i) Comprometimento no trabalho: reúnem-se nessa categoria os artigos que têm como tema o comprometimento no trabalho e os fatores a ele relacionados, como vínculo do trabalhador com a organização, criatividade, entre outras. (j) Formação e competências de psicólogos organizacionais e de outros profissio- nais: são abordados os artigos que discutem aspectos relacionados à formação e à prática profissional do psicólogo organizacional e do trabalho ou à de outros profissionais, em geral. Alguns assuntos como aconselhamento, formação universitária, efeitos de treinamentos e/ou de oportunidades de qualificação profissional, por exemplo, são apresentados nessa categoria. (k) Reestruturação produtiva e mudanças organizacionais: aqui estão contemplados os estudos que se direcionaram a mudanças na organização do trabalho e seus impactos sobre as organizações e as pessoas, considerando-se a avaliação de necessidades e consequências, como ganhos e perdas, significados e reações, entre outros. (l) Clima organizacional: estão nessa categoria os artigos que tratam diretamente do clima organizacional e de fatores relacionados como satisfação, comprometimento, estresse, entre outros. (m) Gênero e trabalho: são classificados nessa categoria os artigos que relacionam questões de gênero e trabalho, como aqueles que estudam a mulher no mercado de trabalho, relações de gênero no trabalho, gênero e status no trabalho, por exemplo. (n) Desemprego: nesse conjunto foram incluídos os artigos que exploraram o desemprego em suas diversas dimensões de análise, ou mesmo experiências de intervenção, como gestão de programas de demissão voluntária, aconselhamento a pessoas desempregadas, entre outros. A seguir, estão apresentados e discutidos os resultados da análise. RESULTADOS E DISCUSSÃO O primeiro recorte de análise buscou identificar o tipo de trabalho apresentado em cada artigo, considerando-se como categorias o relato de pesquisas, o relato de experiências, o estudo teórico e o ensaio. A Tabela 1 apresenta a distribuição dos tipos de trabalhos em função dos volumes da revista. Conforme pode ser observado, consta- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 rPOT – Produção científica 11 Tabela 1. Distribuição do tipo de trabalho por volume (n = 137) Tipo de trabalho V1 Fi(%) V2 Fi(%) V3 Fi(%) V4 Fi(%) V5 Fi(%) V6 Fi(%) V7 Fi(%) V8 Fi(%) V9 Fi(%) V10 Fi(%) Total Fi(%) Pesquisa 9 (90) 7 (63,4) 11 (84,6) 9 (75) 11 (84,6) 12 (75) 8 (57,1) 15 (93,8) 10 (66,6) 11 (64,7) 103 (75,2) Estudo teórico 0 (0) 3 (27,3) 2 (15,4) 2 (16,7) 2 (15,4) 3 (18,8) 1 (7,1) 0 (0) 1 (6,6) 5 (29,4) 19 (13,9) Estudo de caso 0 (0) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 5 (35,8) 0 (0) 3 (20) 0 (0) 8 (5,8) Experiência 1 (10) 1 (9,1) 0 (0) 1 (8,3) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (6,2) 1 (6,6) 0 (0) 5 (3,6) Ensaio 0 (0) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (6,2) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (5,9) 2 (1,5) 10 (100) 11 (100) 13 (100) 12 (100) 13 (100) 16 (100) 14 (100) 16 (100) 15 (100) 17 (100) 137 (100) Total ta-se a predominância de relatos de pesquisas em todos os volumes, em um total de 103 estudos, o que representa 75,2% dos artigos publicados. Tal fato pode ser devido à preferência editorial por este tipo de publicação nos periódicos científicos, pela própria natureza e objetivos dos mesmos, o que os caracteriza nas mais diversas áreas do conhecimento. Nesse sentido, também os artigos do tipo estudo teórico tiveram uma participação relevante no conjunto analisado (13,9% do total de estudos), marcando presença na maioria dos volumes, exceto no primeiro e no oitavo. A esses, vale acrescentar os dois estudos classificados como ensaio, por também pautarem suas reflexões em aspectos teóricos. Estudos de caso basearam oito dos artigos publicados, apesar desse modelo de estudo não ser muito valorizado nos meios científicos, sendo recusados por vários periódicos em razão dos limites que se discutem à generalização dos resultados. No entanto, foi possível observar pesquisas muito bem fundamentadas, com múltiplas participações e recortes de análise, que se caracterizaram como estudos de caso em razão do enfoque a dada região do país ou a segmentos específicos, assim como a certas organizações ou grupos empresariais. É o caso do trabalho de Régis, Bastos e Dias (2007), por exemplo, que analisou as redes sociais em incubadoras de base tecnológica no Recife. Até pelo caráter prático e aplicado da área, são indiscutíveis a validade e a contribuição de estudos de casos que elucidem a dinâmica de relações e sentidos nas organizações, bem como formas de se enfrentarem problemas e desenvolverem soluções. Os relatos de experiência, porém, apareceram em pequeno número: apenas cinco artigos foram assim classificados, o que equivale a 3,6% das publicações, reiterando a constatação de Borges-Andrade e Pagotto (2010) de que a pesquisa brasileira raramente ocorre no campo profissional. Por esse recorte de análise, se considerada a necessidade de modelos à atuação e o anseio dos profissionais por alternativas e caminhos para aplicação prática, poder-se-ia avaliar que a revista talvez não esteja atendendo a essa demanda. Embora isso não se confirme a seguir, na apreciação das temáticas estudadas, vale sugerir que esse aspecto seja melhor investigado junto ao público de interesse da revista. Também se recomenda o incentivo aos próprios profissionais para submissão de relatos de suas experiências nas chamadas de trabalhos, embora se reconheça os limites da própria prática: cultura científica e compromisso com a produção e divulgação do conhecimento ainda incipiente entre muitos profissionais da área no país, em especial aqueles sobrecarregados de trabalho Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 12 Leal, Aguillera & Melo-Silva nas organizações; trabalhos planejados sem o devido registro, sistematização e avaliação de resultados, o que compromete a visibilidade de seus efeitos, tanto interna como externamente às organizações; limitações quanto à autorização de algumas empresas para socialização de suas práticas e soluções; entre outros problemas. Talvez estes sejam alguns dos entraves que impedem um desenvolvimento mais acelerado da área no Brasil, apesar dos evidentes avanços científicos e no campo da formação profissional nos últimos anos, conforme se pode constatar a partir da evolução observada e discutida por autores como Bastos (1988,1992), Zanelli (1994, 2002), Malvezzi (2004), Borges-Andrade e Zanelli (2004), Zanelli e Bastos (2004), Borges-Andrade e Pagotto (2010) e Borges (2010). A Tabela 2 mostra o número de autores por artigo. Verifica-se a predominância de produções científicas em parcerias, à medida que a maioria dos artigos analisados são de autoria dupla (46,7%) ou tripla (22,6%). Somando-se esses dados aos percentuais de artigos produzidos por quatro e por cinco ou mais autores, a produção em parceria representa 82,5% das publicações, contra apenas 17,5% de trabalhos de autoria única. Adotando-se um recorte de análise focado na evolução desses dados ano a ano, po- de-se verificar que a produção solitária foi um pouco mais expressiva até o quarto volume, publicado em 2004, tendo diminuído apenas nas publicações posteriores. Vale observar que essa mudança se deu no ano subsequente ao I Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho, evento que deu notoriedade à área, à própria Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT) e, consequentemente, à rPOT no país, além de ter estimulado a divulgação de trabalhos e o intercâmbio de conhecimentos e práticas. Esse fato pode ter contribuído não apenas para a formação de novos grupos de trabalho e consolidação dos já envolvidos com a própria associação, mas, fomentando o reconhecimento da revista como espaço democrático de divulgação do conhecimento científico, com diferentes aportes teóricos e práticos, pode ainda ter possibilitado a esse veículo a aproximação de outras parcerias já existentes. Observou-se também, a partir desse período, um pequeno aumento do número de artigos publicados em cada volume. Esse crescimento talvez reflita um aumento do número de artigos submetidos ou mesmo da qualidade dos trabalhos em análise, aspecto que poderia ser melhor investigado pelos próprios editores da revista, como um possível indica- Tabela 2. Distribuição de artigos por volume, em função do número de autores por trabalho (n=137) Nº de autores V1 V2 V3 V4 V5 V6 V7 V8 V9 V10 Total Fi(%) Fi(%) Fi(%) Fi(%) Fi(%) Fi (%) Fi (%) Fi(%) Fi(%) Fi (%) Fi (%) 1 3 (30,0) 5 (45,4) 4 (30,7) 5 (41,6) 1 (7,7) 2 (12,5) 1 (7,14) 2 (12,5) 1 (6,6) 0 (0,0) 24 (17,5) 2 4 (40,0) 3 (27,3) 7 (53,8) 3 (12,0) 7 (53,8) 4 (25,0) 6 (42,8) 6 (37,5) 10 (66,6) 14 (82,3) 64 (46,7) 3 2 (20,0) 1 (9,1) 2 (15,3) 3 (12,0) 3 (23,1) 5 (31,2) 6 (42,8) 4 (25,0) 4 (26,6) 1 (5,9) 31 (22,6) 4 0 (0,0) 1 (9,1) 0 (0) 0 (0,0) 0 (0,0) 2 (12,5) 0 (0,0) 2 (12,5) 0 (0,0) 1 (5,9) 6 (4,4) 5 ou mais 1 (10,0) 1 (9,1) 0 (0) 1 (8,3) 2 (15,3) 3 (18,7) 1 (7,14) 2 (12,5) 0 (0,0) 1 (5,9) 12 (8,8) Total 10 (100) 11 (100) 13 (100) 12 (100) 13 (100) 16 (100) 14 (100) 16 (100) 15 (100) 17 (100) 137 (100) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 rPOT – Produção científica dor da evolução da área e da notoriedade da publicação. Em relação ao gênero dos autores, os dados estão apresentados na Tabela 3. Observa-se que a maioria deles são mulheres (n = 200), o que indica a predominância feminina na produção acadêmica nesta área. Excetuando-se o quinto volume, o número de autoras foi maior que o de autores em todos os volumes analisados, sendo que no oitavo volume o número de autoras foi maior que o dobro do número de autores (72%). Alguns estudos têm demonstrado a presença majoritária de pesquisadoras na produção e divulgação do conhecimento em diferentes áreas da Psicologia, como evidenciam os achados de Yamamoto e cols. (1999), Oliveira, Cantalice, Joly e Santos (2006), Suehiro, Cunha e Santos (2007) e Rueda (2009), por exemplo. Se considerado que a Psicologia, em um sentido mais amplo, é uma área do conhecimento em que predomina a presença feminina, esse dado não é nada surpreendente. Mas vale salientar que a Psicologia Organizacional e do Trabalho, apesar da maciça presença feminina, em torno de 83% da amostra estudada por Gondim (2009) e Gondim e Bastos (2010), é a área da Psicologia em que a presença masculina é mais elevada, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia. A Tabela 4 mostra a distribuição dos artigos em função dos estados de origem ou da procedência internacional dos autores. Entre os estados, o Distrito Federal foi o mais expressivo polo da produção científica divulgada na revista. Marcando presença em todos os volumes, contribuiu com a publicação de 13 44 do total de 137 artigos analisados, o que equivale a 32,1%. Em relação à Universidade de Brasília, deve-se considerar sua tradição na área, tanto no âmbito da pesquisa e produção do conhecimento como na própria formação profissional, tendo sido berço de vários dos autores de grande vulto que hoje contribuem para o desenvolvimento da área em vários estados brasileiros. Os estados da Bahia, de Santa Catarina e de São Paulo também se destacam pela sua produção, tendo ficado empatados em número de artigos publicados, cada um com percentual de 8% de participação na revista. Os dois primeiros estados são reconhecidos como polos de produção científica na área, em razão de grupos de pesquisa atuantes e respeitados nacionalmente. Já o estado de São Paulo, mesmo não tendo essa notoriedade tão significativa em POT, é considerado polo de produção de conhecimento de diversas áreas do saber (Yamamoto & cols.1999). Considerando-se os estados que mais produziram o conhecimento divulgado pela revista nesses 10 anos, cumpre destacar que a rPOT é uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho e está vinculada a três programas de pós-graduação em Psicologia: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Desse modo, sua própria origem justifica que os estados vinculados a essas universidades sejam mais presentes: são o berço de grupos consolidados e que incentivam a produção e disseminação do conhecimento na área. Tabela 3. Distribuição dos autores em função do gênero (n=336) Gênero V1 Fi(%) V2 Fi(%) V3 Fi(%) V4 Fi(%) V5 Fi(%) V6 Fi(%) V7 Fi(%) V8 Fi(%) V9 Fi(%) V10 Fi(%) Total Fi(%) Feminino 10 (47,6) 14 (60,8) 13 (54,1) 15 (60) 16 (47) 31 (62,0) 19 (52,7) 36 (72) 21 (63,6) 25 (62,5) 200 (59,5) Masculino 11 (52,3) 9 (39,1) 11 (45,8) 10 (40) 18 (53) 19 (38,0) 17 (47,2) 14 (28) 12 (36,3) 15 (37,5) 136 (40,5) Total 21 (100) 23 (100) 24 (100) 25 (100) 34 (100) 50 (100) 36 (100) 50 (100) 33 (100) 40 (100) 336 (100) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 14 Leal, Aguillera & Melo-Silva Tabela 4. Distribuição dos artigos em função da procedência por estados e contribuições internacionais (n = 137) Unidades federativas * V1 Fi(%) V2 Fi(%) V3 Fi(%) V4 Fi(%) V5 Fi(%) V6 Fi(%) V7 Fi(%) V8 Fi(%) V9 Fi(%) V10 Fi(%) Total Fi(%) DF 3 (30) 4 (36.4) 2 (15) 2 (16,7) 5 (38,5) 8 (50) 8 (57,1) 6 (37,5) 4 (26,7) 2 (11,8) 44 (32,1) BA 2 (20) 0 (0) 2 (15) 1 (8,3) 0 (0) 1 (6,3) 1 (7,1) 0 (0) 0 (0) 4 (23,5) 11 (8) SC 1 (10) 3 (27,3) 3 (23) 1 (8,3) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (6,3) 1 (6,7) 1 (5,9) 11 (8) SP 0 (0) 1 (9) 0 (0) 2 (16,7) 1 (7,7) 2 (12,5) 2 (14,3) 1 (6,3) 1 (6,7) 1 (5,9) 11 (8) RS 0 (0) 0 (0) 2 (15) 1 (8,3) 1 (7,7) 0 (0) 1 (7,1) 0 (0) 2 (13,3) 2 (11,8) 9 (6,6) GO 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (8,3) 1 (7,7) 2 (12,5) 0 (0) 1 (6,3) 0 (0) 1 (5,9) 6 (4,4) MG 0 (0) 0 (0) 1 (8) 1 (8,3) 1 (7,7) 0 (0) 0 (0) 1 (6,3) 2 (13,3) 0 (0) 6 (4,4) RN 1 (10) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 2 (15,4) 1 (6,3) 0 (0) 1 (6,3) 0 (0) 0 (0) 5 (3,6) RJ 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (8,3) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (6,3) 2 (13,3) 0 (0) 4 (2,9) Outros 1 (10) 1 (9) 2 (16) 1 (8,3) 2 (15,4) 0 (0) 1 (7,1) 2 (12,5) 2 (13,3) 3 (17,6) 15 (11) Internacionais 2 (20) 2 (18,2) 1 (8) 1 (8,3) 0 (0) 2 (12,5) 1 (7,1) 2 (12,5) 1 (6,7) 3 (17,6) 15 (11) Total 10 (100) 11 (100) 13 (100) 12 (100) 13 (100) 16 (100) 14 (100) 16 (100) 15 (100) 17 (100) 137 (100) No item outros estados foram contabilizados aqueles com apenas uma participação por volume. Foram eles: Paraíba, Ceará, Espírito Santo, Paraná, Pará, Sergipe, Amazonas e Pernambuco. Essa representatividade da maioria dos estados brasileiros permite apontar que a área tem agregado maior número de profissionais, corroborando com dados de Gondim e Bastos (2010), por exemplo, que a revelam como o segundo campo de dedicação exclusiva dentre os mais de 4 mil psicólogos brasileiros que participaram daquela pesquisa. Porém, nota-se a necessidade de incentivar pesquisadores e profissionais de outras regiões a estudar e publicar mais, assim como a formação de grupos de pesquisa que envolvam pesquisadores de diferentes centros, buscando ampliar populações e recortes das pesquisas. Partindo-se para os eixos temáticos dos estudos, como mostra a Tabela 5, uma observação relevante diz respeito ao total de classificações (250) não coincidir com o total de artigos da amostra estudada (137), devido a grande parte dos artigos terem sido classificados em mais de uma categoria, como os estudos sobre o desenvolvimento de instrumentos para avaliação de um constructo específico, por exemplo, que foram contabilizados à categoria Construção, adaptação e validação de instrumentos, além da categoria que contemplava o aspecto central do instrumento em desenvolvimento. Sendo assim, se o objetivo era verificar as temáticas mais estudadas e aquelas que demandem maior atenção dos pesquisadores, manteve-se o total de 137 artigos como referencial para a verificação das frequências. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 rPOT – Produção científica A temática mais estudada foi Relações de trabalho, tendo se destacado especialmente nos anos de 2008 (vol. 8) e 2010 (vol. 10), quando 9 (de 16) e e 10 (de 17), respectivamente, focalizaram esse eixo temático. Observa-se que, apesar de qualquer aspecto estudado em POT dizer respeito direta ou indiretamente a relações de trabalho, é importante ressaltar que nessa categoria foram considerados apenas aqueles cujo eixo central do estudo tratava da relação interpessoal no trabalho ou a relação individual com o próprio trabalho. Desse modo, destacaram-se assuntos como redes sociais e assédio moral nessa categoria. Já a categoria Estratégias, avaliação e procedimentos de intervenção em POT se configurou como eixo temático de 33 publicações, tendo se destacado especialmente nos anos de 2001, 2009 e de 2010, quando foram publicados cinco ou seis estudos acerca do tema. Isso reflete muito da prática profissional em POT, dado que, mais do que uma subárea do conhecimento, a POT é um campo de aplicação ou intervenção, como bem sintetizam Borges-Andrade e Pagotto (2010) e Borges (2010), apesar da pouca regularidade com que a pesquisa se dá em articulação com a vivência profissional em POT no Brasil, se considerados os percentuais de empregabilidade na área. Desse modo, identificou-se que esse aspecto foi sim privilegiado na revista, em comparação com outros eixos temáticos, apesar da análise inicial dos tipos de trabalho evidenciar baixa incidência de relatos de experiência e elevado número de relatos de pesquisa. Por si só esse é um modelo importante: fazer pesquisa na prática e embasar a prática na pesquisa. Mas ainda é de fundamental importância o incentivo à produção do conhecimento que sirva de modelo aos profissionais, que permita não apenas a compreensão de fenômenos, mas seja passível de aplicação, dê subsídios às intervenções e traga soluções em POT. Saúde e satisfação no trabalho foi outro eixo temático de destaque, no qual fo- 15 ram classificados 32 artigos, publicados entre 2002 e 2010, com destaque para o ano de 2009, com oito artigos sobre esse assunto, seguido pelos anos 2003, 2006, 2007 e 2010, com quatro artigos em cada volume. A predominância de estudos relativos a essa temática poderia ser considerada previsível, dado que a Psicologia é uma área que se dedica à saúde e ao bem-estar, evidenciando os interesses de grande parte dos profissionais. Além disso, se esses aspectos devem nortear as práticas, é fundamental que se explore o assunto de modo sistemático para que se possa implementar ações que os favoreçam. Crenças, valores e cultura organizaciona” foi outro eixo temático relevante, com 25 estudos nele categorizados, o que representa 20% das publicações. A ele se seguiram Conceitualização, modelos e aproximações teóricas e Construção, adaptação e validação de instrumentos, com 14,7% dos estudos em cada caso e destaque para o ano de 2007, em que foram publicados seis trabalhos referentes a instrumentos. A temática Processos de grupos/equipes e organizacionais aparece em sexto lugar, com 18 estudos publicados (12,6%). Vale mencionar que assuntos dos mais tradicionais nesse campo, como liderança, poder e estilos gerenciais, foram identificados como aspectos centrais de seis trabalhos, assim como comportamentos intragrupais e de equipes. Desse modo, já somam maior número que o encontrado por Tonetto, Amazarray, Koller e Gomes (2008), cujos resultados apresentaram apenas três publicações em cada um desses conjuntos. Em relação a essa categoria temática, destacam-se os anos de 2002 e 2008. Na sequência, o eixo temático Comportamento e percepções do consumidor contou com 12 estudos, 8 deles divulgados em número especial no ano de 2006, tendo aparecido novamente em apenas dois volumes da revista: 2004 e 2008. Também Comprometimento no trabalho e Formação e competência de profissionais foram temas de 12 estudos (8,4%), tendo se seguido pela temática Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 16 Leal, Aguillera & Melo-Silva Tabela 5. Distribuição dos artigos em função do eixo temático (n = 137) Classificação por temas V1 Fi(%) V2 Fi(%) V3 Fi(%) V4 Fi(%) V5 Fi(%) V6 Fi(%) V7 Fi(%) V8 Fi(%) V9 Fi(%) V10 Fi(%) Total Relações de trabalho 1 (0,7) 2 (1,4) 0 (0) 3 (2,1) 3 (2,1) 2 (1,4) 3 (2,1) 9 (6,3) 3 (2,1) 10 (7) 36 (25,2) Estratégias, avaliação e procedimentos 5 (3,5) 2 (1,4) 2 (1,4) 3 (2,1) 2 (1,4) 2 (1,4) 2 (1,4) 4 (2,8) 5 (3,5) 6 (4,2) 33 (23,1) Saúde e satisfação 0 (0) 1 (0,7) 4 (2,8) 3 (2,1) 2 (1,4) 4 (2,8) 4 (2,8) 2 (1,4) 8 (5,6) 4 (2,8) 32 (22,4) Crenças, valores e cultura 3 (2,1) 3 (2,1) 1 (0,7) 3 (2,1) 2 (1,4) 2 (1,4) 4 (2,8) 2 (1,4) 2 (1,4) 3 (2,1) 25 (17,5) Conceitualização, modelos e aproximações teóricas 2 (1,4) 1 (0,7) 2 (1,4) 2 (1,4) 2 (1,4) 4 (2,8) 1 (0,7) 2 (1,4) 1 (0,7) 4 (2,8) 21 (14,7) Construção, adaptação e validação de instrumentos 0 (0) 0 (0) 0 (0) 3 (2,1) 3 (2,1) 2 (1,4) 6 (4,2) 0 (0) 3 (2,1) 4 (2,8) 21 (14,7) Processos de grupos/equipes e organizacionais 3 (2,1) 5 (3,5) 0 (0) 1 (0,7) 2 (1,4) 0 (0) 1 (0,7) 4 (2,8) 2 (1,4) 0 (0) 18 (12,6) Comportamento e percepções do consumidor 0 (0) 0 (0) 0 (0) 2 (1,4) 0 (0) 8 (5,6) 0 (0) 2 (1,4) 0 (0) 0 (0) 12 (8,4) Comprometimento no trabalho 1 (0,7) 0 (0) 3 (2,1) 0 (0) 1 (0,7) 0 (0) 1 (0,7) 2 (1,4) 1 (0,7) 3 (2,1) 12 (8,4) Formação e competência de profissionais 1 (0,7) 0 (0) 2 (1,4) 2 (1,4) 2 (1,4) 0 (0) 1 (0,7) 1 (0,7) 1 (0,7) 2 (1,4) 12 (8,4) 0 (0) 0 (0) 1 (0,7) 1 (0,7) 2 (1,4) 0 (0) 0 (0) 2 (1,4) 3 (2,1) 0 (0) 9 (6,3) 1 (0,7) 0 (0) 2 (1,4) 2 (1,4) 1 (0,7) 0 (0) 0 (0) 1 (0,7) 0 (0) 0 (0) 7 (4,9) 0 (0) 1 (0,7) 0 (0) 2 (1,4) 1 (0,7) 1 (0,7) 1 (0,7) 1 (0,7) 0 (0) 0 (0) 7 (4,9) 1 (0,7) 1 (0,7) 0 (0) 0 (0) 1 (0,7) 0 (0) 0 (0) 0 (0) 1 (0,7) 1 (0,7) 5 (3,5) Reestruturação produtiva e mudanças Clima organizacional Gênero e trabalho Desemprego Reestruturação produtiva e mudanças, com 9 estudos (6,3%). Já as categorias menos estudadas foram Clima organizacional e Gênero e trabalho, com sete estudos direcionados a cada eixo, o que representa 4,9% da amostra, e Desemprego com apenas cinco estudos (3,5%). A primeira temática aqui evidenciada é de extrema relevância no contexto da gestão de pessoas e em interface com a saúde e bem-estar no trabalho, demandando a intervenção dos pro- fissionais com relativa frequência nas organizações. Já as temáticas ligadas a “Gênero” e “Desemprego”, igualmente relevantes, têm sido mais contempladas em publicações do campo da Psicologia Social. Deve-se destacar a necessidade de maior atenção dos pesquisadores a essas temáticas, na medida em que o momento histórico pede discussão mais ampla sobre a exclusão, seu combate e caminhos para superá-la, assuntos com os quais a Psicologia Organizacional e do Trabalho deve Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 rPOT – Produção científica estar sensibilizada e disposta a contribuir. Acrescenta-se a temática: Desenvolvimento da Carreira, que nem se configurou uma categoria nesse estudo, dado que poucos artigos faziam menção a questões associadas à carreira e de maneira indireta, tratando da aposentadoria, por exemplo. Vale mencionar ainda que algumas temáticas se apresentaram em todos os volumes publicados, no caso Estratégias, intervenção e avaliação em POT, Crenças, valores e cultura e Conceitualização, modelos e aproximações teóricas, demonstrando o equilíbrio da revista no sentido de sempre contemplar teoria e prática. Desse modo, consolida-se sua imagem de veículo democrático e que se direciona ao incentivo e divulgação da pesquisa, e especialmente ao embasamento do exercício profissional no mercado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo não teve a pretensão de um mapeamento mais amplo da produção brasileira em POT, como estudos de Borges-Andrade e Pagotto (2010) e Tonetto, Amazarray, Koller e Gomes (2008), ou ainda no campo do trabalho, como apresentou Rossoni (2006). Portanto, tem como limitação a impossibilidade de ser considerado representativo da área do conhecimento no Brasil, dado que há muito se sabe que esta tem por tradição buscar outros veículos de disseminação dos conhecimentos produzidos e junto a diferentes áreas parceiras. Enquanto mapeamento de uma revista científica, outra limitação evidenciada foi o fato de não esgotar as possibilidades de análise dos resultados encontrados. Sob outros ângulos a produção ainda pode ser analisada. No entanto, buscando atender ao objetivo de identificar tendências e lacunas no conhecimento disseminado pela revista, este artigo possibilitou traçar um panorama que permite a definição de uma agenda de estímulo à pesquisa e à divulgação, de modo a promover o desenvolvimento da área e fomentar o intercâmbio de conhecimentos entre acadêmicos e práticos de diferentes regiões do país. 17 Um primeiro aspecto a destacar se refere à predominância de estudos do tipo relato de pesquisa, em detrimento dos relatos de experiência. Se considerada a necessidade de modelos à atuação e o anseio dos profissionais por alternativas e caminhos para aplicação prática, recomenda-se o incentivo aos próprios profissionais para submissão de investigações sobre a avaliação suas de experiências nas chamadas de trabalhos, embora se reconheçam os limites da formação e da própria prática. De um lado, algumas universidades podem deixar de cumprir seu papel na formação técnica que reconhece a pesquisa como subsídio à prática, não apenas como embasamento, mas como instrumento para um diagnóstico mais sistemático e preciso das necessidades, assim como para avaliação de resultados e estratégia para evidenciar efeitos da atuação e negociar projetos futuros. De outro, o cotidiano profissional parece consolidar a falta de cultura científica e compromisso com a produção e divulgação do conhecimento entre muitos profissionais, devido a entraves como a sobrecarga de trabalho e a falta de autorização de algumas empresas para socialização de suas práticas e soluções, por exemplo. Diante disso, é fundamental aproximar universidade e mercado de trabalho, desde a formação dos profissionais, com o intuito de criar essa cultura científica e estimular a produção do conhecimento no exercício da profissão, que deve ser reconhecida por todos como um meio de se alcançar a eficácia. A pesquisa não pode se restringir aos meios acadêmicos, como parece ser uma tendência no país, ainda mais em uma área aplicada do conhecimento como a POT. É preciso se incorporar à prática e dela renascer, ressaltando-se a importância da produção do conhecimento psicológico fora do espaço acadêmico, como evidenciado por Aguiar Netto (1988), além da aplicabilidade do conhecimento produzido e do compromisso com a realidade social. Considerando-se a procedência dos estudos, apesar de a revista apresentar representatividade nacional, o maior volume Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 18 Leal, Aguillera & Melo-Silva de suas produções se refere a espaços privilegiados no tocante à POT, à medida que a maioria dos autores é filiada a instituições reconhecidas pela tradição na área, ou porque mantém programas de pós-graduação stricto sensu ou linhas de pesquisa a ela atreladas em programas mais amplos. Quanto aos eixos temáticos, avalia-se a revista como bastante eclética e de fato democrática, nesse caso considerando-se também as diferentes visões teóricas elucidadas, embora esse aspecto não tenha sido alvo da investigação. Apesar disso, ressalta-se a importância de maior atenção às temáticas de menor presença na revista e cuja relevância para a área são indiscutíveis, como desemprego, relações de gênero e carreira, entre outros. Por fim, consolida-se aqui a certeza de que a rPOT tem cumprido sua missão, firme em seus propósitos, contribuindo para a integração e o fortalecimento da área ou seu florescimento, termo emprestado de Borges (2010). E isso se reconhece na própria avaliação dos pares. Qualificar a produção e a disseminação do conhecimento deve ser sempre a meta dos periódicos e isso se faz, também, com avaliações sistemáticas. REFERÊNCIAS Aguiar Netto, M. C. (1988). A produção do conhecimento psicológico fora do espaço acadêmico. Em Brasil. Conselho Federal de Psicologia. 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Lattes: http://lattes.cnpq.br/1076835353870440 Fernanda Aguillera, Doutoranda em Psicologia pela FFCLRP-USP. Professora da UNIMEP. Email: [email protected]. Lattes: http://lattes.cnpq. br/4017876750149256 Lucy Leal Melo-Silva, Livre docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Editora da Revista Brasileira de Orientação Profissional e pesquisadora do CNPq. Email: [email protected]. Lattes: http://lattes.cnpq. br/1041574665110656 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 6-20 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo - Relato de Pesquisa Empírica O exercício Profissional do Psicólogo do Trabalho e das Organizações: Uma Revisão da Produção Científica Fellipe Coelho-Lima* Ana Ludmila Freire Costa* Oswaldo Hajime Yamamoto* * Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia, sala 614, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590, Ramal 212. Resumo O objetivo da pesquisa foi analisar características da profissão de psicólogo da área da Psicologia Organizacional e do Trabalho a partir da produção científica sobre o tema. Foram identificados 22 artigos a partir de bases de dados eletrônicas, selecionados por meio de juízes. Por meio de uma leitura minuciosa dos textos, agrupou-se o conteúdo dos materiais em três eixos. No Eixo 1, foram identificadas três posições a respeito do papel do psicólogo neste contexto; no segundo, evidenciou-se as principais críticas a essa subárea; e o último eixo apresenta as prescrições apontadas pelos autores para a psicologia do trabalho. Desse quadro geral, conclui-se que há dois movimentos centrais na área: um de permanência de certas problemáticas do campo ao longo dos anos, e outro da coexistência de duas perspectivas ideopolíticas. Os resultados indicam a necessidade de que o campo, mais do que se polarizar, deve buscar o diálogo entre as duas posições a fim de avançar em questões nodais. Palavras-chave: atuação do psicólogo; psicólogo no contexto do trabalho; produção científica; método comparativo constante. Abstract The professional practice of the psychologist in the organization and work context: a review of scientific production This paper analyzes features of the profession of psychologist in the area of Organizational and Work Psychology present in the scientific literature. Through a detailed reading, the content of texts were grouped in three axes. The results were arranged in three axes. The first one presents the role of the psychologist in the work context, the second axis brings out the major criticisms of the field, and the last assembles the requirements for improving development of the field. This scenario reveals two central movements in the area: one, the maintenance of certain issues over the years, and the other, the co-existence of two opposite ideopolitical perspectives, towards the organizations or towards the workers. The main conclusion refers to the idea that, rather than polarizing, the field needs to seek dialogue between these two positions in order to move forward on central topics. Keywords: psychologist’s professional practice; psychologist in the context of work; scientific production; Constant Comparative Method. Lima, Costa & Yamamoto. Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho Recebido em: 06.06.2011 Aprovado em: 21.11.2011 Publicado em: 30.12.2011 22 Lima, Costa & Yamamoto A história da inserção do psicólogo no contexto do trabalho, que remonta ao desenvolvimento da própria Psicologia no Brasil, é permeada de polêmicas que abrangem desde a sua denominação, as atividades que seriam de sua competência, até o lugar que o profissional desse campo ocuparia na divisão capitalista do trabalho. A literatura registra diversas tentativas de sistematização da evolução da área. Para Sampaio (1998) e Freitas (2002), a Psicologia do Trabalho e das Organizações se desenvolveu no Brasil em três fases. A primeira corresponderia à chamada Psicologia Industrial, inaugurada em meados da década de 1930, quando o profissional ainda era intitulado de psicotécnico. O trabalho do psicólogo resumia-se, primordialmente, à seleção e à colocação profissional no ambiente de indústrias, especialmente nas empresas ferroviárias. O segundo momento é identificado pelos autores como o da Psicologia Organizacional, representando uma ampliação do objeto-alvo sem, contudo, uma ruptura radical com a fase anterior, visto que os psicólogos permaneceriam voltados a assegurar a produtividade das empresas. Nessa fase, agregam-se às atividades provenientes da Psicologia Industrial, ações com os grupos que compõem a organização. A última fase corresponderia à Psicologia do Trabalho, considerada um campo cujo aspecto central seria “o estudo e a compreensão do trabalho humano em todos os seus significados e manifestações” (Lima, 1994, p. 53). Fortemente influenciada pelos pressupostos da Psicologia Social Crítica, a Psicologia do Trabalho considera o trabalho uma construção histórica e social, com influências significativas sobre a subjetividade e saúde do trabalhador (Tomanik, 2003; Veronese, 2003). Zanelli e Bastos (2004) indicam que, nos dias atuais, a atenção à saúde (mental) do trabalhador cresce como subcampo e faz com que o psicólogo ultrapasse os limites convencionais da área, lidando com categorias ocupacionais diversas, como aqueles que vivem em situação de desemprego/subemprego, de aposentadoria, invalidez, e também os que se inserem em novos arranjos produtivos, como as cooperativas e trabalho voluntário. Outra abordagem sobre a constituição histórica da Psicologia Organizacional e do Trabalho, não restrita ao âmbito nacional, é encontrada em Martin-Baró (1989), Peiró (1996) e Borges, Oliveira e Morais (2005). Segundo esses estudiosos, o primeiro momento dessa Psicologia seria caracterizado por um enfoque individualista, ligado diretamente ao contexto do capitalismo mais tradicional, com a consolidação do setor industrial, produção em massa, extensão da jornada de trabalho, fragmentação e desqualificação do fazer laboral. Com as mudanças sociopoliticoeconômicas e o consequente fortalecimento dos movimentos sindicais e das lutas trabalhistas (Antunes, 1999), essa abordagem teria se mostrado limitada frente às demandas das organizações. Assim, a Psicologia nesse contexto teria adotado o enfoque sistêmico, caracterizado pela ampliação de seu objeto de análise do nível individual para o grupal e organizacional. O ambiente de trabalho passou a ser visto como um sistema com elementos inter-relacionados e dinâmicos e as atividades do psicólogo se voltaram para o ajuste da organização ao indivíduo e vice-versa. Mais uma vez, seguindo o movimento de reestruturação do capital em escala mundial e seus efeitos sobre as empresas, sociedade e a organização da classe trabalhadora (Antunes, 1999; Harvey, 2010), é construída uma nova abordagem para essa Psicologia. Neste contexto, Martin-Baró (1989) chama este terceiro ciclo de Enfoque Político, pois para a intervenção em Psicologia do Trabalho se faz necessária uma análise do comportamento que leve em conta mediações políticas e tratem, em um âmbito estratégico, as políticas organizacionais e as políticas públicas de trabalho e emprego. Outra tentativa de periodização, também não referente ao quadro brasileiro, é oferecido por Shimmin e Strien (1998), que pensam o desenvolvimento da área em três etapas, cada uma delas marcada por res- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho postas cada vez mais complexas a contextos sociais, econômicos, políticos e tecnológicos igualmente mais complexos. A primeira, a da Psicologia Industrial, corresponderia ao período de estabelecimento da profissão, que iria até 1945, é definida de maneira análoga às outras classificações já referidas. A Psicologia Organizacional, estruturando-se nos dois períodos subsequentes (expansão e consolidação pós-Segunda Guerra, até 1960; e reorientação, nos anos de 1960-70), transita das abordagens e métodos do período precedente a uma crítica a estes, buscando ultrapassar as abordagens no nível micro para intervenções mais globais. O período atual corresponderia ao terceiro período, o da Psicologia Organizacional e do Trabalho, marcada pela necessidade de responder às transformações no mundo do trabalho, a partir de uma perspectiva socioconstrutivista. Como se pode verificar nos esforços empreendidos pelos autores referidos, as periodizações propostas têm por base diferentes compreensões do que seria o papel do psicólogo no campo do trabalho, refletindo leituras da realidade a partir de marcos sociopolíticos diversos. As classificações e cronologias têm, também, uma função didática, como advertem os próprios autores. Nessa direção, a análise das atividades desenvolvidas pelos profissionais e da própria produção científica do campo, aponta que é impossível advogar-se por uma linearidade na história da Psicologia do Trabalho e das Organizações (Gondim, Bastos & Peixoto, 2010). Em outras palavras, fica claro que as fases apresentadas são construídas em determinados momentos históricos, mas a emergência de uma não implica a eliminação das demais: em cada contexto histórico e social estabelece-se uma dinâmica de interação entre as “fases”, o que impele uma maior complexidade na compreensão dos determinantes do desenvolvimento desse campo. Tal esforço em apresentar, em linhas gerais, a reconstrução histórica do campo justifica-se pela necessidade de se compreender os 23 seus determinantes, levantando os elementos que conferiram o contorno atual para esse fenômeno. Sem tal compreensão histórica dos fenômenos torna-se inviável qualquer aproximação com a sua essência que é, necessariamente, expressa e construída social, espacial e temporalmente (Kosik, 1963/2002). O presente estudo partiu dessa constatação e, na tentativa de contribuir para o debate sobre as características da área, focalizou a atenção para o pensamento expresso pelos pesquisadores do campo Psicologia Organizacional e do Trabalho na sua produção sobre a profissão. Bastos (2003) afirma que a comunidade científica dessa área ainda era restrita e a sua produção científica vinculava-se estritamente às temáticas e tendências internacionais nos primeiros anos do século XXI, contudo o cenário atual não é mais o mesmo. Essas mudanças se traduzem na criação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT), em 2001, do seu respectivo congresso bienal (CBPOT), com primeira edição em 2004 e da Revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho (rPOT). No mesmo período despontaram outras duas revistas científicas na área: os Cadernos de Psicologia Social do Trabalho – coordenado pela USP – e a Revista Brasileira de Orientação Profissional – vinculado a Associação Brasileira de Orientação Profissional. Além disso, registram-se os esforços dos Grupos de Trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia e das diversas linhas de pesquisa criadas nos programas de pós-graduação que vêm fomentando estudos no campo (Borges, 2010). Contudo, como ressaltado por Botomé (1988), tão importante quanto conduzir pesquisas e construir conhecimento que subsidie a prática profissional, é promover sistematizações do conhecimento produzido até então, de forma a analisar os avanços alcançados e identificar os desafios postos à comunidade científica. A área da Psicologia tem se dedicado a avaliar a produção científica sobre a profissão no Brasil (p.ex., Coelho-Lima, Cos- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 24 Lima, Costa & Yamamoto ta & Yamamoto, 2010; Souza Filho, Belo & Gouveia, 2006; Tonetto, Amazarray, Koller & Gomes, 2008; Yamamoto & Costa, 2010; Yamamoto, Souza & Yamamoto, 1999). Especificamente abordando a produção sobre a Psicologia do Trabalho e das Organizações, o material ainda é escasso (p.ex., Bastos, França, Pinho & Pereira, 1997; Borges-Andrade & cols.,1997; Borges-Andrade & Pagotto, 2010; Tonelli, Caldas, Lacombe & Tinoco, 2003; Tonetto, Amazarray, Koller & Gomes, 2008). Incluindo-se no escopo desses trabalhos, a presente pesquisa pretendeu investigar o que tem sido publicado em periódicos da área da Psicologia no Brasil sobre a profissão de psicólogo no campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho. Nessa direção, objetivou-se caracterizar tal produção quanto às discussões sobre o papel desse psicólogo, as críticas que são realizadas a essa profissão no contexto do trabalho, bem como as prescrições apontadas para o campo. A PESQUISA O presente estudo é um dos desdobramentos do projeto “Historiografia da produção sobre a profissão de psicólogo no Brasil”, tendo como recorte os materiais em formato de artigo publicado em periódicos científicos brasileiros. A coleta ocorreu entre o segundo semestre de 2008 e o ano de 2009, quando houve a busca de material nas principais bases de dados eletrônicas1. A leitura dos resumos dos trabalhos viabilizou a classificação dos documentos em Psicologia do Trabalho e das Or1 As bases de dados utilizadas para a coleta foram: 1) a Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia (BVS-PSI), que por sua vez engloba a Scientific Eletronic Library Online (SciELO), a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), o Index Psi Periódicos Técnicos-Científicos, o Index Psi Periódicos de Divulgação Científica e o Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC); 2) o Catálogo Global On-line (DEDALUS) do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP (Sibi-USP) e 3) o sítio eletrônico Psicologia Online, do Conselho Federal de Psicologia. Dada a especificidade do tema em questão, realizou-se uma coleta complementar, no primeiro semestre de 2010, nos periódicos “Cadernos de Psicologia Social do Trabalho” e “Revista Psicologia: Organizações e Trabalho”. ganizações, referendada pelo recurso a juízes. O conjunto final analisado é composto por 22 artigos dos 323 identificados pelo projeto mais amplo. O Anexo traz um quadro identificando cada artigo por um código, que foi atribuído pela equipe da pesquisa e utilizado nos resultados; referência completa e breve descrição do conteúdo. Uma caracterização geral desse material aponta que os 22 artigos foram publicados entre 1978 e 2008 em 11 revistas diferentes, que tinham a sua linha editorial dedicada ou à Psicologia, ou a alguma das subáreas (Organizacional e do Trabalho ou Social). Em sua maioria, foram produzidos individualmente (nove deles são produções coletivas), sendo os autores principalmente da região Sudeste (10) e Sul (11), havendo participação também de autores do Nordeste (2), Norte (1) e um de nível Nacional. Eles são resultados principalmente de ensaios teóricos (14), com relatos de pesquisa (6) e de experiência (2) com uma menor frequência. A análise do conteúdo na íntegra dos artigos foi realizada por uma leitura minuciosa e constante do material textual, buscando partir de afirmações mais simples e imediatas a ideias mais abstratas e gerais, tendo como norte os materiais concretos. Com isso, de cada leitura foram abstraídas categorias que, em um primeiro momento, eram particulares de cada documento, procurando, em momentos posteriores, aproximar as categorias entre si, até a formulação daquelas que conseguiram estar presente no maior número possível de casos. Auxiliando na compilação, organização e análise do material, foram utilizados os softwares Microsoft Office Excel 2007 (para as informações bibliométricas) e o QDA Miner 3.2 (para a análise do conteúdo). A partir da leitura geral de todos os trabalhos, foi possível reunir os conteúdos em três eixos principais que, por sua vez, contém categorias mais específicas de análise, que são apresentadas na Tabela 1. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 25 Tabela 1. Resumo dos eixos e categorias analisadas Eixos Categorias O papel do psicólogo no contexto do trabalho Compromisso com a empresa, em detrimento dos trabalhadores Equidade entre o compromisso com a empresa e com os trabalhadores Compromisso com os trabalhadores, em detrimento da empresa Avaliação negativa da profissão pelos próprios psicólogos Críticas à profissão de psicólogo no contexto do trabalho Regulação dos trabalhadores Defasagem teórica e prática “Clinicismo” Deficiência na formação do psicólogo para o campo do trabalho Atualização dos currículos de Psicologia Prescrições para a profissão de psicólogo no contexto do trabalho Apropriação de bases teórico-filosóficas pelos profissionais Promoção de inovações na atividade profissional do psicólogo Adoção de novos rumos gerais para profissão OS ARTIGOS De maneira geral, percebe-se que os artigos tratam, em sua maioria, ou da descrição das atividades do psicólogo ou da análise do papel desse profissional, conforme Anexo. Mesmo considerando o pequeno volume de artigos em comparação a outras subáreas da Psicologia (Costa, Amorim & Costa, 2010), a análise demonstra que tanto profissionais como acadêmicos estão preocupados, ao longo dos anos, com o modo pelo qual a profissão de psicólogo no contexto do trabalho vem se desenvolvendo. Eixo 1: O papel do psicólogo no contexto do trabalho Esse eixo trata das posições que os autores defendem quanto ao lugar que o psicólogo deve ocupar no contexto do trabalho, isto é, qual o fundamento de sua ação, seus objetivos, metas e compromissos. Quase todos os artigos (19 de 22) apresentaram algum conteúdo dessa natureza. Foi possível extrair o tipo de relação esperada entre o psicólogo com a empresa e com os trabalhadores, sendo possível arranjá- -la em três gradações, conforme se referem a esse binômio. Em A10, L136 e L380, percebe-se o compromisso do psicólogo primeiramente com as empresas e, posteriormente, com os trabalhadores. De maneira geral, para esses autores, é necessário que se atue junto aos sujeitos que compõem a organização a fim de se aperfeiçoar o desempenho da empresa. Estão inseridas as considerações de que o psicólogo deve atuar em setores de Recursos Humanos (A10, L380 e L474) e de maneira macro organizacional (D343, J365, L380, L474, L479 e M94). Também foi possível identificar textos que colocam lado a lado o compromisso com a empresa e com os trabalhadores. Neste grupo, incluem-se os trabalhos J46, L222, L479 e M94, que expressam a impossibilidade de o psicólogo escapar do seu duplo compromisso dentro das organizações: por um lado, deve atuar a favor do desenvolvimento dos trabalhadores, realizando atividades voltadas para a promoção de Saúde Mental destes; por outro, ele deve atuar em prol dos resultados empresariais, principalmente quanto ao incremento da produtividade e competividade. A última perspectiva, por seu turno, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 26 Lima, Costa & Yamamoto defende a tese de que o psicólogo deveria se comprometer, prioritariamente, com os trabalhadores, estando em segundo plano, o compromisso com a empresa. L223 e NV02 apresentam essa posição, na medida em que apontam o psicólogo como um profissional que deveria possuir no horizonte final de suas ações propostas de melhoria de vida e das condições de trabalho para o trabalhador. Outros autores radicalizam essa proposta e consideram que, em última instância, os psicólogos nos contextos do trabalho, deveriam promover o desenvolvimento e emancipação dos trabalhadores, atuando conforme as necessidades dos homens e mulheres e não do sistema (J146, F25, J367 e NV01). Assim, o que se depreende a partir da análise desse eixo é a presença do binômio capital-trabalho como pano de fundo para se definir o lugar do psicólogo nas organizações e no trabalho. Ou seja, de maneira direta ou indireta, as categorias transitam de modos específicos entre os dois pólos, mas não os perdem de vista. Deve-se ter em mente, para essa análise, que a definição do espaço ocupado por esses psicólogos – as organizações de trabalho, seja privada, pública, sem fins lucrativos, entre outras – já torna patente a necessidade de se refletir sobre essa relação, já que ela se expressa claramente no cotidiano desse profissional (Oddone & cols., 1981, citado por Sato, 2010). Eixo 2: Críticas à profissão de psicólogo no contexto do trabalho A apreciação dos artigos em questão proporcionou também a identificação de diversas críticas que os autores fazem à área. Esse conteúdo está organizado no Eixo 2, abrigando seis categorias distintas. A primeira se refere à avaliação negativa que os próprios psicólogos fazem da sua atividade. F440 apontou que esses profissionais avaliavam negativamente, principalmente, a remuneração, a satisfação com o trabalho, as condições para atuação e interação com ou- tros profissionais. Essas questões são atualizadas ao longo dos anos e adiciona-se, a esse quadro, o desconhecimento das lideranças organizacionais sobre o real papel do psicólogo nesse contexto (A10, J304), a carga excessiva de trabalho e a deterioração de outras esferas da vida do psicólogo em favor da sua atividade profissional (J304). A regulação dos trabalhadores para a promoção da produtividade organizacional é outro foco de críticas presente principalmente em A07, D21, D343, J304, J367 e NV01. No final da década de 1980, em A07, afirma-se que a entrada do psicólogo nas empresas ocorreu ao passo em que a coerção física aos trabalhadores começou a ser limitada. Uma década depois, o texto NV01 reiterou que “as perspectivas para a psicologia na área organizacional são excelentes, (...) pois nunca se necessitou tanto de um aparato ideológico tão bem fundamentado” (p. 51), sendo o psicólogo responsável por garantir que os trabalhadores não necessitem de regulações externas, mas que sejam autorregulados (D343, J304, NV01). Há também uma crítica mais geral sobre a defasagem teórica e prática desses profissionais, proposta em D21, F25, J46, J365, L222, L380, L382, L474, M94 e NV01. Na segunda metade de 1980, em L222, afirmava-se que o profissional da área se encontrava desamparado teórico-metodologicamente, tendo que importar os conhecimentos produzidos em outros países. Dez anos depois, o texto L382 resgatou o tema e avançou em tais críticas, ao definir que a principal falta de fundamentação é com relação ao mundo do trabalho, relações de trabalhos e processos grupais, além de o profissional possuir uma visão arcaica sob o fenômeno humano. Já sobre a defasagem da atuação, em L474 denunciava-se a carência de embasamento crítico e integrativo dos profissionais, atrelada a uma atuação superficial e em L380 criticava-se a permanência do psicólogo nos níveis técnicos de ação, tendo dificuldades de inserção nos níveis estratégicos da empresa. Sobre a entrada dos psicólogos em novos contextos de tra- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho balhos, como nas cooperativas, o artigo F25 afirma que as bases teóricas e instrumentais baseadas nos locais tradicionais de atuação desse psicólogo – os setores de Recursos Humanos – não oferecem subsídios às atividades nos novos espaços. Outra categoria se relaciona com esta última: o “clinicismo”. Presente nas críticas de J367, L136, L222, L380 e L474, essa categoria se refere ao comportamento dos profissionais em priorizarem a clínica, em detrimento das demais áreas. Historicamente, quatro consequências são listadas para essa situação: (a) o profissional acaba extrapolando o embasamento clínico que possui para o ambiente organizacional (L474), (b) há a descaracterização da identidade profissional do psicólogo no contexto do trabalho (L222), (c) negligencia-se a compreensão do comportamento a partir do paradigma do trabalho, em favor da dicotomia saudável/não saudável, que se mostra contraproducente (J367) e (d) há desvalorização das atividades específicas do ambiente organizacional, quando comparado com a atuação nos consultórios particulares (L380). A última categoria é a que reúne maior volume, tanto de comentários, como de artigos (D21, F440, J365, L136, L222, L223, L380, L382, L474 e M94): a deficiência na formação do psicólogo para atuar no contexto do trabalho. Essa crítica desponta na literatura desde final da década de 1970, com L136 que relaciona a má formação desse psicólogo à limitação da sua ação e à dificuldade de inserção plena dentro das indústrias. Essa posição é reafirmada, posteriormente, por J365, L380, L382 e L474. As problemáticas mais recorrentes relacionadas à formação desse psicólogo são: prioridade dos currículos para disciplinas e conteúdos eminentemente clínicos (J365, L382, L474 e M94); a formação de um profissional liberal, distante da realidade de atuação desse psicólogo (F440, J365 e L474); o anacronismo e disparidade entre o profissional formado e a realidade social brasileira (L222, L223 e L474); e o déficit no ensino de temas como processos organizacionais, reali- 27 dade econômica e social e saúde mental do trabalhador (D21, L382 e L474). Em resumo, é importante notar que os autores estabelecem uma relação entre a má qualidade da formação e a atuação, sendo nesta última categoria o ponto central e, direta ou indiretamente, explicativo para as demais críticas arroladas na literatura. Pesquisas mais restritas a essa temática (Botelho, 2003; Freitas, 2002; Guareschi & Freitas, 2004; Iema, 1999; Zanelli, 1994, 1995, 2002) corroboram tal análise e denunciam exatamente essa defasagem entre a formação e o preparo do psicólogo para atuar no contexto do trabalho. Eixo 3: Prescrições para a profissão de psicólogo no contexto do trabalho O último eixo engloba as possibilidades indicadas pelos autores para um desenvolvimento mais consistente da profissão. Tais apontamentos estão agrupados em quatro categorias distintas. O primeiro conjunto, melhoria na formação, aparece em J365, L136, L382 e L474, cujas indicações se referem à atualização dos currículos dos cursos de Psicologia, nos quais deveria haver maior dedicação a disciplinas relacionadas à Psicologia Organizacional e do Trabalho, bem como interfaces com outros campos, como a Administração e a Economia. Esses autores concordam que é necessário que haja uma maior aproximação tanto entre a teoria e a prática, como entre a realidade social brasileira e os conteúdos tratados nas disciplinas. De maneira geral, essas indicações encontram forte respaldo nas críticas que esses próprios autores elaboraram, presentes no eixo de análise anterior. Outro grupo de prescrições, presente em J146, J367, L380 e M94, aponta ser necessário para o psicólogo no contexto do trabalho se apropriar de sólidas bases teóricas e filosóficas. Identifica-se nessa literatura, diretamente, três correntes que são indicadas como possíveis fundamentos para a atuação desse psicólogo: o paradigma do trabalho de Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 28 Lima, Costa & Yamamoto tradição marxista (J367), a psicanálise (J146) e o behaviorismo radical (M94). É curioso notar que são exatamente essas correntes teóricas as citadas como fundamentando a prática desses profissionais em estudos recentes sobre a profissão de psicólogo no Brasil (Gondim, Bastos & Peixoto, 2010). Ou seja, mesmo os profissionais assinalando que fazem uso dessas teorias, ainda parece ser preocupante o modo como se apropriam e aplicam os conceitos A terceira categoria de prescrições é voltada à necessidade de inovação na atividade profissional do psicólogo no contexto do trabalho, sendo corroborada por análises de F25, J46, J146, J367, L223 e L479. Essas inovações girariam em torno de: (a) atuação proativa e preventiva em vez da tradicional postura reativa e remediativa (J46); (b) incentivo às reflexões dentro da própria organização, promovendo o seu autodesenvolvimento (L479); (c) inserção em variados contextos, como sindicatos, grupos de trabalhadores desempregados (L223) e cooperativas de trabalhadores (F25); e (d) ações que tomem como norte o benefício direto dos trabalhadores (J146 e J367). Assim, concorrem, dentro da mesma categoria, prescrições voltadas para inovações quanto a atividades desempenhadas no interior das empresas e em prol do seu desenvolvimento, e outras orientadas para o desenvolvimento da classe trabalhadora. A última categoria faz remissão à reorientação da profissão, havendo considerações de J365, L222, L223, L380, L382, L474 e L479. Aqui, é marcante a indicação da necessidade de o profissional se integrar aos níveis estratégicos e decisórios da organização, sinalizada desde a década de 1980 (L222) e 1990 (L380) do século passado. L382 e L479 complementam essa reflexão, ao afirmarem que também é preciso que esses profissionais avaliem criticamente suas ações, tomando como norte os conflitos sociais. Segundo o texto J365, a reorientação da profissão passa, necessariamente, pela inserção efetiva dos psicólogos nas equipes multidisciplinares. Como pontuado ao longo desta seção, muitas das prescrições apontadas pelos autores possuem forte relação com as críticas identificadas. Ademais, confirma-se, mais uma vez, a insatisfação e a urgência para que ocorram transformações no modo como este campo profissional vem se desenvolvendo. Considerações sobre a produção a respeito do psicólogo no contexto do trabalho A partir de uma reflexão sobre os artigos analisados, depreende-se dois movimentos centrais expressos nessa produção. O primeiro deles se refere à existência de uma continuidade temporal das principais discussões apontadas sobre a profissão. Independente do eixo de que se trata, essa dinâmica é encontrada, refletindo a dificuldade do campo de enfrentar suas principais problemáticas. Elencam-se aqui dois determinantes centrais para esse quadro histórico. Um deles, levantado pela própria literatura analisada, situa-se na inadequação da formação acadêmica. Havendo um ciclo vicioso no processo formativo (seja nos métodos, seja nos conteúdos abordados), os psicólogos que saem das instituições de ensino superior para ingressar no contexto de trabalho acabam por não inovar nem superar diversas posturas já largamente criticadas. Como já levantado por alguns outros autores (Botelho, 2003; Freitas, 2002; Guareschi & Freitas, 2004; Iema, 1999; Zanelli, 1994, 1995, 2002), a formação nesse campo é deficitária tanto em questões curriculares como de qualificação dos docentes. Por outro lado, é preciso relativizar até onde essa formação pode ser julgada como principal viés do desenvolvimento profissional dessa área, uma vez que os psicólogos, ao longo de sua carreira, tendem a entrar em contato com outras experiências formativas que vão compondo a base para a sua atividade profissional (Yamamoto, Souza, Silva & Zanelli, 2010). Desse modo, é importante integrar nessa análise, como segundo componente, a configuração das próprias relações trabalhis- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho tas estabelecidas pelo psicólogo. Percebe-se que os espaços ocupados por essa categoria profissional, em diversas situações, não viabilizam a concretização de ações que escapem as já consagradas. Para tanto, basta constatar que, dos artigos aqui analisados, aqueles que apresentam atuações voltadas a novos públicos e propõem atuações diferenciadas são gestadas dentro de experiências acadêmicas de extensões ou de reflexões teóricas. Com isso, as inovações nessa área restringem-se a um fazer prático e técnico, e não de pressupostos ético-políticos. Resgatando as análises empreendidas por Iamamoto (1998, 2007), é possível ampliar esse debate, ao considerar que a atividade profissional exercida pelos psicólogos, nos diversos contextos do trabalho, é perpassada por relações internas de poder, determinada por seu contrato de trabalho. Com isso, as políticas institucionais não podem ser consideradas como meros objetos extrínsecos a sua ação, mas sim condicionantes das atividades que são desenvolvidas. Por outro lado, a constatação de tal limitação não precisa ser tomada como uma subordinação fatalista da profissão aos ditames do capital, uma vez em que, em alguma dimensão, ainda é viável a criatividade e independência na atuação desse profissional. Deste modo, essa análise evidencia os limites, mas não sepulta as possíveis inovações que o campo possa oferecer. Quanto ao segundo movimento identificado, refere-se à coexistência de duas perspectivas ideopolíticas nos artigos analisados. Verifica-se que nos três eixos, de acordo com os pressupostos fundamentais adotados pelos autores, as conclusões oscilam, remetendo-se ora à defesa de uma atuação orientada para a manutenção e desenvolvimento do capital organizacional, ora a ações que tenham como meta final a promoção da emancipação dos trabalhadores – com diversas graduações entre esses dois extremos. Tais perspectivas remontam à origem da atuação do psicólogo no contexto do trabalho, cuja inserção ocorreu de maneira espe- 29 cífica na dinâmica entre o capital e o trabalho, uma vez que, tradicionalmente, é chamado para oferecer subsídios às gerências no processo de controle de pessoal. Ou, como assinalado por Figueiredo (1989), o psicólogo trabalha como um mantenedor do status quo, garantindo a pacificação e o direcionamento dos trabalhadores de acordo com as necessidades das empresas. É exatamente desse contexto histórico que emerge a perspectiva orientado para as empresas e para o desenvolvimento do capital. Contudo, sabe-se que nas décadas de 1970 e 1980, principalmente nos países europeus e latino-americanos, construiu-se um movimento crítico dentro da Psicologia que propunha a reorientação de diversas atuações, decorrente, em grande parte, da dinâmica política da época (período posterior aos governos autocráticos burgueses), bem como da aproximação dos psicólogos com as demandas sociais (Bernardes, 2005). Nesse momento, passou-se a observar questionamentos dirigidos às teorias tradicionais individualistas que fundamentavam a Psicologia e aos posicionamentos que excluíam o contexto social da compreensão dos fenômenos psicológicos. Assim, os conhecimentos e práticas da Psicologia do Trabalho e das Organizações foram postos em questão, tendo em vista que não contabilizavam as demandas dos trabalhadores nos locais de trabalho. Em contrapartida, foram produzidos estudos e fomentadas ações que buscassem essa aproximação entre o psicólogo e os problemas enfrentados pelos trabalhadores, atuando diretamente em prol da sua autonomia. Por sua vez, a perspectiva gestada nesse período foi propalada ao longo dos anos e passou a conviver em paralelo (mas não de maneira pacífica) com a perspectiva anterior2. A identificação dessa dualidade não é novidade no campo. Um exemplo direto é a discussão conduzida por Sato (2010), que 2 Respeitando o escopo dessa pesquisa, apenas é possível afirmar a existência de ambas as perspectivas no período que compreende a década de 1970 até 2010. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 30 Lima, Costa & Yamamoto afirma ser a relação entre a Psicologia e a temática do Trabalho mediada por duas abordagens. A primeira, vinculada historicamente com as necessidades dos engenheiros e gerentes em lidar com os trabalhadores dentro das indústrias, tornou-se, ao longo dos anos, a perspectiva hegemônica da área e se ligou, fundamentalmente, a uma abordagem profissionalizante. A segunda abordagem, já nos anos de 1950, no cenário mundial, deriva da Psicologia que tratava a questão do Trabalho para além das organizações. No curso histórico, essa última abordagem tem sido remetida à Psicologia Social (ou da Saúde), não sendo incorporada nas discussões do primeiro campo – que se consolidou como a Psicologia Organizacional e do Trabalho. Esse debate possui implicações claras para o desenvolvimento tanto do conhecimento psicológico como para o seu campo profissional. A existência em paralelo de ambas as perspectivas, em muitos momentos, tem se mostrado contraproducente no avanço de questões nodais desse campo da Psicologia. É fato que as duas concorrem para atender a demandas distintas: enquanto a perspectiva empresarial se alinha com a necessidade de inserção dos psicólogos dentro das organizações de trabalho, sendo eles próprios trabalhadores que se subjugam as agruras das condições mercadológicas; a perspectiva oposta agrega uma dimensão crítica a esses psicólogos que visam desenvolver um compromisso com a classe trabalhadora, o qual, por muito tempo, foi renegado. Todavia, tal distinção não procura valorar, moralmente, uma perspectiva em detrimento da outra. Por outro lado, com o intuito de produzir respostas atualizadas aos problemas complexos que emergem do contexto histórico-social atual, percebe-se como mais relevante a promoção de maior interação entre as abordagens. As mudanças no mundo do trabalho e do capital, que vem sendo evidenciadas pela literatura (Antunes, 1999; Harvey, 2010), implicam a atualização dessa Psicologia que, se por um lado, não pode se abster de ocupar os espaços dentro das indústrias e empresas, também não é adequado se furtar das preocupações enfrentadas pela classe trabalhadora. A própria literatura analisada oferece exemplos de integração dessas perspectivas dentro das atividades nas empresas, como as atuações relacionadas à Saúde Mental dos Trabalhadores. Outras saídas são os locais, exteriores às organizações tradicionais de trabalho, onde se demanda a atuação dos psicólogos, como os Centros de Referência a Saúde dos Trabalhadores e os sindicatos. É verdade que esses contextos representam uma pequena parcela do contingente de vagas disponibilizadas para esse profissional, mas podem ser o celeiro de potenciais avanços em pontos que, classicamente, esse campo da Psicologia vem sendo criticado. CONSIDERAÇÕES FINAIS As discussões empreendidas, baseadas na análise da produção científica sobre a profissão de psicólogo no contexto do trabalho e das organizações, buscaram colocar em foco as configurações desse campo, tanto no que diz respeito às suas limitações quanto às possibilidades de avanço. É fato que as discussões aqui empreendidas, apesar de muitas vezes adentrar-se em apontamentos gerais para a profissão, encontra limitações, principalmente pelo tipo de material analisado. O que se abordou foram as perspectivas e indicações realizadas pela literatura em direção à profissão do psicólogo dentro dos contextos de trabalho. Assim, focalizou-se os debates realizados, eminentemente, pelo campo acadêmico sobre o campo profissional. Esses debates, por sua vez, repercutem concretamente na prática dos profissionaisr, tanto por embasar a sua formação básica, graduada, como por subsidiar os estudos posteriores desse profissional. Contudo, não cabe no escopo das discussões da presente pesquisa apontamentos sobre as atividades concretamente desenvolvidas por esses psicólogos. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 31 Nessa direção, sugere-se que estudos Borges, L. O. (2010). A Psicologia do Trabalho e das Organizações no Brasil floresce? Estuposteriores adensem os debates a respeito das dos de Psicologia, 15, 3, 277-279. tendências da profissão do psicólogo nos espaços laborais pela via da análise das atividades Borges, L. O., Oliveira, A. C. F., & Morais, L. T. W. A. (2005). O exercício do papel profissional desenvolvidas pelos profissionais. Ademais, da Psicologia Organizacional e do Trabalho. também permanece no horizonte a necessiRevista Organizações e Trabalho, 5, 2, 101dade de discussões de cunho teórico e político 139. que contemplem análises mais atuais sobre o Botelho, A. S. O. (2003). Estudo exploratório-desatual lugar social que esses profissionais tem critivo sobre a formação do psicólogo do ocupado dentro da sociedade brasileira. trabalho no Brasil. Dissertação de mestrado REFERÊNCIAS Antunes, R. (1999). Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo. Bastos, A. V. B. (2003). Psicologia organizacional e do trabalho: que resposta estamos dando aos desafios contemporâneos da sociedade brasileira? Em O. H. Yamamoto & V. V. Gouveia (Orgs.), Construindo a psicologia brasileira: desafios da ciência e da prática psicológica (pp. 139-166). São Paulo: Casa do Psicólogo. Bastos, A. V. B., França, A., Pinho, A. P. M., & Pereira, L. (1997). Pesquisa em comportamento organizacional no Brasil: O que foi divulgado nos nossos periódicos científicos? Em Anais. XXVI Congresso Interamericano de Psicologia (p. 52). São Paulo: Sociedade Interamericana de Psicologia. Bernardes, J. S. (2005). História. Em M. G. C. Jacques; M. N. 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Sobre os Autores Fellipe Coelho-Lima, Membro do Grupo de Pesquisas Marxismo e Educação. Mestrando do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia, sala 613, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590, Ramal 211. E-mail: [email protected]. Ana Ludmila Freire Costa, Membro do Grupo de Pesquisas Marxismo e Educação. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia, sala 613, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590, Ramal 211. E-mail: [email protected]. Oswaldo Hajime Yamamoto, Coordenador do Grupo de Pesquisas Marxismo e Educação. Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia, sala 614, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590, Ramal 212. E-mail: [email protected] Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 34 Lima, Costa & Yamamoto ANEXO Anexo 1. Temas dos artigos analisados ID Referência Descrição do trabalho A07 Mello, S. L. (1989). O psicólogo e as organizações. Boletim de Psicologia, 39, 90-1, 59-64. Reflete, com base na análise da história da classe trabalhadora brasileira, sobre o papel do psicólogo nas organizações A10 Campos, K. C. L., e Lomônaco, J. F. B. (2003). O protótipo do psicólogo organizacional: um estudo exploratório com graduandos de um curso de Psicologia. Boletim de Psicologia, 53, 118, 73-87. Levanta as representações que os alunos do curso de Psicologia possuem sobre a atuação do psicólogo nas organizações D21 Jacques, M. G. C. (2007). O nexo causal em saúde/ doença mental no trabalho: uma demanda para a Psicologia. Psicologia & Sociedade, 19, especial, 112119. Indica possibilidade de atuação do psicólogo junto à saúde mental do trabalhador D343 Merhy-Silva, F. N. (2008). Lobo mau: analisador da transversalidade entre organização do trabalho e saúde mental? Fractal: Revista de Psicologia, 20, 1, 4164. Analisa, baseado em experiência de campo e reflexões teóricas, o lugar do termo “lobo mau da Psicologia” e da atuação do psicólogo na saúde mental do trabalhador F25 Coutinho, M. C.; Beiras, A.; Picinini, D., e Lückmann, G. L. (2005). Novos caminhos, cooperação e solidariedade: a Psicologia em empreendimentos solidários. Psicologia & Sociedade, 17, 1, 7-13. Relata uma experiência de atuação do psicólogo com empreendimentos solidários F440 Borges-Andrade, J. E. (1990). A avaliação da profissão, segundo os psicólogos da área organizacional. Psicologia: Ciência e Profissão, 10, 1, 19-23. Identifica, junto aos psicólogos inseridos nas organizações, quais as opiniões deles sobre a profissão. J46 Azevedo, B. M., e Cruz, R. M. (2006). O processo de diagnóstico e de intervenção do psicólogo do trabalho. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 9, 2, 89-98. Apresenta um modelo a ser utilizado pelos psicólogos na descrição do trabalho. J146 Campos, C. I. C. M. e Vaisberg, T. M. J. A. (2003). Propondo intervenções clínicas psicanalíticas no ambiente de trabalho. Diálogo - Revista do Departamento de Psicologia e Psicanálise Londrina, 3, 1, 11-17. Propõe contribuições da Psicanálise para a intervenção junto a trabalhadores. J304 Silva, P. C. e Merlo, A. R. C. (2007). Prazer e sofrimento de psicólogos no trabalho em empresas privadas. Psicologia: Ciência e Profissão, 27, 1, 132-147. Identifica as fontes de prazer e sofrimento dos psicólogos em organizações privadas. J365 Bastos, A. V. B., e Galvão-Martins, A. H. C. (1990). O que pode fazer o psicólogo organizacional. Psicologia: Ciência e Profissão, 10, 1, 10-18. Elenca quais são as atividades desenvolvidas pelos psicólogos nas organizações. J367 Jacques, M. G. C. (1989). Uma proposta de redimensionamento do papel do psicólogo do trabalho. Psico (Porto Alegre), 17, 1, 15-21. Reflete teoricamente sobre a profissão de psicólogo nas organizações, fundamentada em uma análise histórica da Psicologia como profissão. L136 Batitucci, M. D. (1978). Psicologia Organizacional: uma saída para uma profissão em crise no Brasil. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 30, 1/2, 137-156. Reflete sobre a condição profissional do psicólogo nas organizações e descreve uma proposta de especialização para esses profissionais. L222 Tupinamba, A. C. R. (1987). A Psicologia Organizacional no Brasil: sua evolução e situação atual. 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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35 do Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo - Relato de Pesquisa Empírica Validação Fatorial da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) para Brasileiros Vanessa Rodrigues Lopes* Maria do Carmo Fernandes Martins** *Universidade Federal de Uberlândia ** Universidade Metodista de São Paulo. Endereço para correspondência: Rua Barão de Melgaço, 369, apto 31, Real Parque, São Paulo, SP. CEP: 05684-030. Emails: [email protected]; [email protected] Resumo Resiliência é definida como a habilidade de um indivíduo para se recuperar das adversidades e se adaptar positivamente em situações de tensão e estresse. Estudiosos das relações entre indivíduo, organização e trabalho têm voltado a atenção para o fenômeno na tentativa de elucidar seus antecedentes e consequentes no contexto organizacional. Estudos sobre o assunto são incipientes e, dada a diversidade e os desacordos sobre o conceito, observa-se confusão e divergências na forma de avaliá-lo. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar as características psicométricas de uma versão brasileira da CD-RISC-10, medida bastante utilizada em estudos internacionais. Participaram 463 pessoas com idade média de 28 anos (DP = 9,7) e, em sua maioria, com ensino médio completo. A análise fatorial exploratória confirmou estrutura unifatorial com os dez itens da escala e alfa de Cronbach de 0,82. Isso indica que a CD-RISC-10 é medida promissora para avaliar níveis de resiliência e ferramenta disponível para incrementar a investigação desse fenômeno. Destaca-se, entretanto, a necessidade de outros estudos de validade, fidedignidade e normatização em amostras diversas. Palavras-chave: resiliência; validação; escalas de medida; CD-RISC-10. Abstract Factorial Validation and Adaptation of the Connor-Davidson Resilience Scale (Cd-Risc-10) for Brazilians Resilience is defined as an individual’s ability to recover from adversities and to adapt positively in tense and stressful situations. Researchers of the relationship between individual, organization, and work have turned their attention to this phenomenon in order to attempt to clarify its antecedents and effects in the organizational context. Studies regarding this subject are beginning to appear, and, in view of the diversity and disagreement over the concept, there is confusion and divergence on the way to evaluate it. Thus, the purpose of this study was to evaluate the psychometric characteristics of a Brazilian version of the CD-RISC-10 - a widely used measure in international studies. 463 people, on average 28 years of age (SD = 9,7) and mostly high school graduates, took part in this study. Exploratory factor analysis confirmed a one-factor structure with the ten scale items and a Cronbach’s alpha of 0.82. This indicates that the CD-RISC-10 is a promising measure for evaluating levels of resilience, and an available tool for improving the investigation of this phenomenon. However, it is important to emphasize the need for further studies regarding validity, reliability, and standardization in diverse samples. Keywords: resilience; validation; measurement scales; CD-RISC-10 Lopes & Martins. Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) Recebido em: 28.10.2010 Aprovado em: 25.11.2011 Publicado em: 30.12.2011 Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) D esde o final da década de 1970, o conceito de resiliência começou a ser estudado com maior interesse pela psiquiatria e pela psicologia do desenvolvimento, que se interessavam pela compreensão dos processos que permitem que determinadas pessoas passem por situações totalmente adversas de vida e consigam superá-las com relativa competência (Libório, Castro & Coelho, 2006). Infante (2005) apresentou um roteiro do desenvolvimento histórico do conceito de resiliência e identificou duas gerações de pesquisadores. A primeira, nos anos de 1970, se preocupou em identificar os fatores de risco e de resiliência que exercem influência no desenvolvimento de crianças que se adaptam positivamente, apesar de viverem em condições de adversidade. Essa geração utilizou o modelo triádico de resiliência, que organiza os fatores resilientes e de risco em três grupos: os atributos individuais, os aspectos da família e as características dos ambientes sociais a que as pessoas pertencem. A segunda geração de pesquisadores, que começou a publicar nos anos de 1990, agrega o estudo da dinâmica entre os fatores (individuais, familiares e sociais) que estão na base da adaptação resiliente. Portanto, o construto resiliência passa a ser entendido enquanto processo. De acordo com Infante (2005), autores como Rutter (1993) e Grotberg (2005) são pioneiros na noção de dinâmica de resiliência, enquanto Luthar e Cushing (1999), Masten (2001) e Kaplan (1999) são considerados autores mais recentes dessa segunda geração. Para essa geração mais atual de estudiosos, resiliência é tida como um processo dinâmico em que as influências do ambiente e do indivíduo interatuam em uma relação recíproca e que, apesar da adversidade, permitem à pessoa se adaptar (Luthar, Cicchetti & Becker, 2000). Assim, distinguem-se três componentes essenciais que devem estar presentes no conceito de resiliência: a) a noção de diversidade, trauma, risco ou ameaça ao desenvolvimento humano; b) a adap- 37 tação positiva ou superação da adversidade; c) o processo que considera a dinâmica entre mecanismos emocionais, cognitivos e socioculturais que influem no desenvolvimento humano (Infante, 2005). A resiliência é um conceito muito usado para explicar diferenças nos efeitos que um mesmo nível de estresse tem sobre diferentes indivíduos (Grotberg, 2005; Rutter, 1993). É frequentemente citada como um dos processos que explicam a superação de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações1 (Campanella, 2006; Castleden, McKee, Murray & Leonardi, 2011). Ou ainda como a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiências de adversidade (Grotberg, 2005; Melillo, 2005; Rutter, 1993; Yunes, 2003). Ao abordar a questão do desenvolvimento da resiliência, Rutter (1985) identifica como fatores importantes as experiências positivas que levam a sentimentos de autoeficácia, autonomia e autoestima, capacidade para lidar com mudanças e adaptações, e um repertório amplo de abordagens para a resolução de problemas. De acordo com Peres, Mercante e Nasello (2005), o aspecto crucial para o desenvolvimento da resiliência reside nas crenças de autoeficácia. Os autores afirmam a que a percepção de autoeficácia, baseada no conhecimento da própria capacidade de enfrentar e superar dificuldades, representa um preditor da resiliência. Bandura (2008) salientou que é possível promover a resiliência por meio da modificação de crenças de autoeficácia. Segundo Grotberg (2005), a resiliência tem sido reconhecida como aspecto importante na promoção e manutenção da saúde mental, podendo reduzir a intensidade do estresse e diminuir sinais emocionais negativos, como ansiedade, depressão ou raiva. Portanto, “a resiliência é efetiva não apenas para enfrentar adversidades, mas também para 1 Resiliência organizacional é a capacidade das organizações resistirem e se recuperarem de situações adversas (Castleden, McKee, Murray & Leonardi, 2011) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 38 Lopes & Martins a promoção da saúde mental e emocional” (Grotberg, 2005, p. 19). No Brasil, os estudos sobre a resiliência são recentes, uma vez que os primeiros estudos publicados nessa área podem ser encontrados somente a partir do final da década de 1990, destacando-se os desenvolvidos por pesquisadores do sul do país (Libório & cols., 2006). Um levantamento das publicações sobre o tema elaborado por Souza e Cerveny (2006) mostra que a temática mais focada na época eram crianças expostas a situações de risco, fatores de proteção e vulnerabilidade psicossocial e perfil do executivo. Em suma, apesar da diversidade conceitual que ainda é encontrada nos estudos da área, é adequado afirmar que resiliência se refere a um processo dinâmico que tem como resultado a adaptação positiva em contextos de grande adversidade (Luthar & cols., 2000). A capacidade de manter o bom funcionamento após a exposição ao estresse não constitui uma exceção (Bonanno, 2004); ao contrário do que se possa pensar, é mais comum as pessoas se manterem saudáveis depois de passarem por situações difíceis, do que se desestruturarem. Considera-se que estudar a resiliência é importante para alcançar uma compreensão global das respostas humanas ao estresse e às adversidades. Medidas de Resiliência: o que revelam estudos empíricos De uma forma geral, os estudos empíricos brasileiros sobre resiliência têm demonstrado ligeira preferência pelo método qualitativo de investigação. No entanto, conforme esclarecem Paludo e Koller (2006), os diversos métodos que foram utilizados para compreender a resiliência psicológica se mostraram úteis para compreender as estruturas psicológicas que estão conectadas aos seus resultados cognitivos e fisiológicos. Ressaltam que, apesar de estudos quantitativos terem mostrado resultados importantes, não há consenso sobre a melhor maneira de mensurar ou avaliar aspectos relacionados à resiliência, uma vez que a área ainda possui muita confusão conceitual que se reflete nas medidas existentes. Por outro lado, para estudiosos como Pesce e cols., (2005), o aumento do interesse pelo conceito de resiliência evidencia a necessidade do desenvolvimento de medidas apropriadas desse construto. Nesse sentido, para que se estenda a amplitude dos estudos sobre resiliência e se consolidem os achados sobre o tema, torna-se importante para a utilização de instrumentos de medida válidos e fidedignos, de rápida aplicação e interpretação. No contexto das organizações, esse problema ainda é maior, uma vez que foi localizado apenas um instrumento validado no Brasil para uso com trabalhadores (Oliveira & Batista, 2008). A literatura revela a preocupação com a construção de medidas de boas propriedades psicométricas. Muñoz (2007) realizou uma revisão bibliográfica de estudos que relatavam construção e/ou validação de medidas de resiliência. Encontrou 30 artigos, categorizando-os em três áreas. A primeira área englobava as provas projetivas, que consistiam em mostrar histórias excessivamente problemáticas a um grupo de adultos e pedir para que completassem o final da história. A segunda área se referia às provas psicométricas, em sua maioria de autorrelato, respondidas em escalas do tipo Likert e submetidas à análise fatorial. Por fim, a última área englobava as avaliações neurológicas, que se basearam em medições de potenciais eletroencefalográficos, provas neuroendocrinológicas, de sistema imune e exames genéticos, as quais enfocavam seus estudos no temperamento do indivíduo resiliente. Ahern, Kiehl, Sole e Byers (2006) realizaram extensa revisão de publicações que relatavam construção e/ou validação de instrumentos para se mensurar resiliência, tendo identificado os seguintes instrumentos: Baruth Protective Factors Inventory – BPFI (Baruth e Carroll, 2002), Brief-Resilient Coping Scale - BRCS (Sinclair e Wallston, 2004), Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) Adolescent Resilience Scale - ARS (Oshio, Kaneko, Nagamine e Nakaya, 2003), Connor– Davidson Resilience Scale – CD-RISC (Connor e Davidson, 2003), Resilience Scale for Adults (Friborg, Hjemdal, Rosenvinge, e Martinussen, 2003) e Resilience Scale - RS (Wagnild e Young, 1993). As características desses instrumentos, bem como as da Resilience Factors Scale– FSR de Takviriyanun (2008), podem ser visualizadas na Tabela 1. Entre esses sete instrumentos identificados, somente a Resilience Scale desenvolvida por Wagnild e Young (1993) foi adaptada e validada para a população brasileira por Pesce e cols (2005), com uma amostra de adolescentes de 7ª e 8ª séries do ensino fundamental e de 1ª e 2ª séries do ensino médio. A escala original é um inventário com 25 itens em escala Likert de sete pontos (variando entre discordo totalmente e concordo totalmente), que mede os níveis de adaptação psicossocial positiva em face de eventos de vida importantes. Nessa medida, a estrutura fatorial da resiliência é composta por dois fatores: competência e aceitação de si mesmo e da vida. O estudo de Pesce e cols (2005) identificou três fatores pouco diferenciados entre si, pois encontraram itens que pertenciam a mais de um fator e houve dificuldade para discriminá-los semanticamente, diferentemente da escala original. Os três fatores obtidos não distinguiram nitidamente competência pessoal e aceitação de si e da vida, o que fez com que os autores decidissem por distingui-los segundo outras categorias teóricas. Assim, designaram os seguintes fatores: resolução de ações e valores; independência e determinação; autoconfiança e capacidade de adaptação a situações. No entanto, esse procedimento de distinção dos fatores, sustentado em outras categorias teóricas, prejudicou a identificação da estrutura fatorial do construto, pois incorporou fatores semanticamente pouco distintos. Mais recentemente, Oliveira e Batista (2008) se propuseram a validar essa mesma escala para ser utilizada no contexto organizacional. As autoras partiram da versão da 39 Escala de Resiliência previamente adaptada e validada para adolescentes brasileiros por Pesce e cols., (2005). Os resultados da análise dos componentes principais e do scree plot indicaram a existência de dois fatores, no máximo, em contraposição aos três fatores do estudo com adolescentes. Após rotação oblíqua, somente um fator com 15 itens apresentou confiabilidade satisfatória (alfa de Cronbach = 0,90) e explicou 28% da variância total do construto. Os itens dos fatores denominados “independência e determinação” e “autoconfiança e capacidade de adaptação a situações” da escala adaptada por Pesce e cols., (2005) foram eliminados, com exceção de dois itens do último fator citado. Os estudos sobre resiliência no contexto de trabalho são ainda mais recentes (Edward, 2005; Harland, Harrison, Jones & Reiter-Palmon, 2005; Jackson, Firtko & Edenborough, 2007; Judkins, Arris & Keener, 2005; Luthans, 2002; Luthans & Youssef, 2007; Menezes de Lucena, Fernández, Hernández, Ramos & Contador, 2006; Todd & Worell, 2000). Uma breve revisão dos estudos sobre resiliência e trabalho revela que o problema da medida é um aspecto preocupante, conforme declaram Harland e cols., (2005), pois a medida nem sempre se relaciona com o conceito de resiliência. O estudo de Todd e Worell (2000) é um exemplo de confusão conceitual e de medida que permeia algumas publicações, uma vez que os autores avaliam resiliência com a Escala de bem-estar psicológico de Ryff (1989). Outro exemplo que ilustra a confusão na escolha de instrumento para avaliar resiliência é o estudo de McCalister, Dolbier, Webster, Mallon e Steinhardt (2006), no qual resiliência é avaliada com uma escala para aferir resistência psicológica (hardiness). Dessa forma, percebe-se a necessidade de se ampliar os estudos sobre resiliência, e de se disponibilizar medidas com boas características psicométricas, não só com populações de adolescentes, como é comumente encontrado nos estudos brasileiros, mas também com populações adultas e de trabalha- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 40 Lopes & Martins Tabela 1. Características psicométricas de alguns instrumentos de medida de resiliência Escala Autor(es) Fatores Nº de itens 1-competência pessoal Alfa fator Alfa geral s/i 2-confiança nos próprios instintos e tolerância à adversidade CD-RISC Connor e Davidson (2003) 3-aceitação positiva de mudanças 25 0,89 4-controle 5- espiritualidade Entre 0,67 e 0,90 1-competência pessoal RSA 2- competência social Friborg, Hjemdal, Rosenvinge, e Martinussen 3- coerência familiar (2003) 37 s/i 4- suporte social 5-estrutura pessoal 1- personalidade adaptativa Inventário de Fatores Baruth e Carroll (2002) Protetores de Baruth 16 0,76 2- meio suportivo 0,98 3- experiências compensatórias 0,83 1- competência s/i s/i RS Wagnild e Young (1993) BRCS Sinclair e Wallston (2004) unifatorial 4 RS Harland, Harrison, Jones e Reiter-Palmon (2005) unifatorial 4 0,85 0,85 CD-RISC 10 Campbell-Sills e Stein (2007) unifatorial 10 0,85 0,85 2- aceitação de si mesmo e da vida 25 0,83 1- determinação e habilidade na solução de problemas 2- suporte pessoal EFR Takviriyanun (2008) 3- outros suportes 0,91 Variou em três aplicações: 0,76, 0,69 e 0,71 s/i 27 s/i s/i 4- pensamento positivo s/i 5- assertividade s/i 6- equilíbrio do self e habilidades sociais s/i Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 Autores informam índices psicométricos aceitáveis Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) dores. Por isso, e considerando a instabilidade fatorial apresentada pela Escala de Resiliência de Wagnild e Young (1993), optou-se neste estudo por avaliar outro instrumento com ampla utilização em pesquisas internacionais e que apresentasse boas características psicométricas no estudo original. A partir desse critério, o instrumento que se mostrou bastante adequado foi a Connor-Davidson Resilience Scale (CD-RISC), desenvolvida por Connor e Davidson (2003), revalidada por análise fatorial confirmatória por Campbell-Sills e Stein (2007) que consolidaram uma versão abreviada (CD-RISC-10). A Connor-Davidson Resilience Scale (CD-RISC), originalmente, foi administrada a seis grupos populacionais distintos: população geral americana, pacientes de cuidados primários, pacientes psiquiátricos ambulatoriais, sujeitos de um estudo de ansiedade generalizada e duas amostras de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A versão final da escala, com 25 itens, reuniu cinco fatores (competência pessoal, confiança nos próprios instintos e tolerância à adversidade, aceitação positiva da mudança, controle e espiritualidade) e apresentou provas de boa confiabilidade, tanto pelo alfa de Cronbach (0,89), como pelas análises de teste-reteste (coeficiente de correlação = 0,87). Enquanto o instrumento original de Connor e Davidson (2003) possui 25 itens, reunidos nos cinco fatores citados acima, Campbell-Sills e Stein (2007) identificaram em análise fatorial confirmatória uma estrutura unifatorial, composta por 10 itens; a esse fator único chamaram resiliência e a CD-RISC recebeu nova denominação – CD-RISC-10 - para diferenciá-la de sua forma de 25 itens. No presente estudo, a adaptação e validação para amostra brasileira foi feita a partir da CD-RISC-10, pois se entendeu que essa forma mais condensada facilitaria o preenchimento por parte dos indivíduos e reduziria o tempo demandado, proporcionando essencialmente, as mesmas informações que a escala completa. Campbell-Sills e 41 Stein não informaram que a escala reduzida apresentou uma correlação alta e significativa com o instrumento original (r = 0,92). A escala é unidimensional e os autores verificaram alta consistência interna (alfa de Cronbach = 0,85) e boa validade de construto, validade convergente e discriminante. Observa-se o crescimento da literatura sobre o uso da CD-RISC, com o seu uso em diferentes países, incluindo China (Yu & Zhang, 2007), África do Sul (Jorgensen & Seedat, 2008), Coreia (Baek & cols., 2010), Irã (Khoshouei, 2009). Uma ampla variedade de populações tem sido estudada, incluindo amostras da população geral, sobreviventes de traumas diversos, adolescentes, idosos, pacientes em tratamento para transtorno de estresse pós-traumático, membros de diferentes etnias e culturas (Campbell-Sills, Cohan & Stein, 2006; Gillespie, Chaboyer & Wallis, 2007; Lamond & cols., 2009; Roy, Sarchiapone & Carli, 2007). As propriedades psicométricas da CD-RISC foram plausíveis em todos os estudos, mas a estrutura fatorial encontrada tem sido variada. Não foram localizados estudos que tenham testado a estrutura fatorial da CD-RISC em contexto de trabalho. No entanto, McCalister e cols., (2006) a utilizaram como medida de resistência psicológica para testar a capacidade preditiva desse fenômeno sobre o estresse e a satisfação no trabalho, o que confirma a confusão conceitual anteriormente referida. Foi realizada uma revisão sobre o uso e/ ou adaptação da escala nas bases de dados MEDLINE e LILACS, nenhum trabalho foi encontrado sobre a adaptação para o português da Connor-Davidson Resilience Scale (CD-RISC), tampouco foi observada sua utilização em estudos no Brasil. A partir dessa explanação teórica e da descrição dos estudos de construção de instrumentos designados para avaliar resiliência, constata-se a relevância de traduzir e adaptar semanticamente a CD-RISC-10 para amostras brasileiras; bem como de avaliar sua estrutura Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 42 Lopes & Martins fatorial, de modo a obter indícios de sua vali- Instrumento dade e fidedignidade. Para isso, foram empreO instrumento a ser validado para o gados procedimentos metodológicos, éticos e Brasil neste estudo é a Connor-Davidson Resiestatísticos que serão apresentados a seguir. lience Scale (CD-RISC), de Connor e Davidson (2003), na versão apresentada pelo estudo MÉTODO confirmatório de Campbell-Sills e Stein (2007) com 10 itens (CD-RISC-10), que concentra “as Participantes características fundamentais da resiliência” Participaram do estudo 463 pessoas (Campbell-Sills & Stein, 2007, p.1027). Os oriundas de diferentes camadas da popula- itens que compõem a CD-RISC-10 avaliam a ção. A Tabela 2 sintetiza os dados da amostra, percepção dos indivíduos da sua capacidade demonstrando que a maioria dos participan- de adaptação à mudança, de superar obstácutes (66,1%) foi do sexo masculino. A idade dos los, de se recuperarem após doenças, lesões respondentes foi ampla, variando de 18 a 68 ou outras dificuldades, entre outros (Campanos, com média de 28 anos (DP= 9,7), sendo bell-Sills & Stein, 2007). O instrumento é auem sua maioria (56,8%) pessoas solteiras. A toaplicável e os participantes registram suas escolaridade oscilou entre ensino fundamen- respostas em uma escala de 0 (nunca é verdatal incompleto a pós-graduação completa, de) a 4 (sempre é verdade). Os resultados são sendo a maior frequência (55,5%) encontrada apurados somando-se a pontuação apontada entre os que estão cursando ou completaram pelos participantes em cada item e podem vao ensino médio. As profissões dos participan- riar entre zero e quarenta pontos; pontuações tes foram as mais diversas, desde profissio- elevadas indicam alta resiliência. nais liberais a serviços gerais, sendo que as mais encontradas foram: estudantes (15,8%), Procedimento militares (7,8%) e professores (6%). Inicialmente, realizou-se contato com os autores da CD-RISC, com vistas a obter permissão para a adaptação da escala. Após Tabela 2 . Dados demográficos da amostra (N= 463) acordar com os termos de uso da escala e enVariável Categoria N % caminhar os devidos formulários, a Connor-Davidson Resilience Scale foi disponibilizada até 19 anos 45 9,8 pelos autores. 20-29 anos 313 68 Em relação à adequação do tamanho Idade 30-39 anos 41 8,9 da amostra para a análise fatorial, Pasquali (2006) recomenda, no mínimo, 100 sujeitos 40 ou mais 61 13,3 no total ou cinco sujeitos por item, e aponta média (DP) 28 (9,7) que dez indivíduos por item é o ideal. Após masculino 302 66,1 eliminação dos questionários incompletos Sexo feminino 155 33,5 (31), permaneceram 432 respondentes, em uma relação de 43,2 sujeitos por item, porsolteiro 260 56,8 tanto, atendendo o recomendado na literatuEstado Civil casado/união estável 174 38 ra especializada. Escolaridade divorciado/viúvo 24 5,3 ensino fundamental 24 5,3 ensino médio 255 55,5 ensino superior 162 35,3 pós-graduação 18 3,9 Tradução do instrumento de medida A escala foi traduzida para o português por três peritas, além das autoras. Duas peritas eram psicólogas bilíngues, sendo uma delas americana naturalizada brasileira. A ter- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) ceira perita possui graduação em Letras com especialização na língua inglesa. Para assegurar uma correta tradução da CD-RISC para o português, a melhor combinação entre as quatro formas foi selecionada. A partir desses resultados, os itens foram retraduzidos para o inglês, de modo a permitir a comparação entre a forma original da escala e a resultante do trabalho de tradução. As duas formas foram então comparadas por dois especialistas na língua inglesa, com vistas a assegurar a fiel correspondência entre as formas. A etapa seguinte foi enviar o formulário de retradução para um dos autores da escala para verificar a concordância com os itens originais, o que possibilitou a formatação da primeira versão da escala. 43 Aplicação da CD-RISC-10 Os participantes foram abordados em diversas instituições de ensino, tais como escolas de idiomas, informática, artes e de educação para adultos, cursos profissionalizantes e em pontos estratégicos de fluxo de pedestres, de forma a se garantir a maior variabilidade da amostra. Portanto, a amostra foi voluntária, não havia restrição de gênero, maiores de 18 anos, independente de raça ou credo religioso, de qualquer nível de escolaridade, desde que fossem alfabetizados, considerando que deveriam responder a questionários escritos, pressupondo-se capacidade de leitura e compreensão de frases e instruções simples. Os participantes leram previamente e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, onde foram oferecidas informações, entre outros aspectos, sobre a natureza da pesquisa, sobre o sigilo e confidencialidade das respostas e sobre o caráter voluntário da participação, garantindo-se o cumprimento das normas vigentes em pesquisa envolvendo seres humanos (Resolução CNS - 196/96). A realização do estudo foi previamente aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição à qual pertencia uma das pesquisadoras. Análise teórica dos itens Com vistas a garantir que a seleção dos itens da escala abordasse não apenas questões empíricas, mas também recebesse considerações práticas e teóricas (Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005), a primeira versão da escala foi apresentada a cinco juízes (docentes e alunos de pós-graduação em psicologia) que analisaram a estrutura das frases e as terminologias a serem utilizadas, atestando, à luz da definição de resiliência, a adequação dos seus conteúdos ao conceito. Procedimento de análise As respostas obtidas foram inicialmenAdaptação semântica te analisadas descritivamente. PosteriormenA adaptação semântica, que também te, a fim de explorar a validade da escala, os serviu como estudo piloto, contou com a dados foram submetidos a análises dos comcolaboração de 11 voluntários, os quais pre- ponentes principais e à fatoração dos eixos encheram a escala na presença de uma das principais. Finalmente, correlações interitens autoras, individual e/ou coletivamente. Fo- e consistência interna foram analisados. ram avaliados critérios como clareza da formulação das perguntas, dificuldades enconRESULTADOS tradas em perguntas e respostas específicas e o grau de compreensão das frases, entre Análises descritivas outros aspectos. As alterações sugeridas foMédia, desvio padrão e valores míniram incorporadas. Todos os voluntários eram mos e máximos foram calculados para o topessoas com características semelhantes à tal da amostra. A distribuição de escores na população de estudo. Feitas as devidas ade- CD-RISC-10 é mostrada na Figura 1, indicando quações, procedeu-se a aplicação da versão que a pontuação média foi 29,07 (DP = 5,47; final da escala. intervalo = 10 - 40). Houve uma assimetria Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 44 Lopes & Martins Figura 1. Distribuição de escores na CD-RISC-10 (N = 463) negativa, com mais indivíduos pontuando no dos é adequada à análise fatorial. extremo superior da escala. Apesar desse paFoi dado prosseguimento às análises de drão geral, assimetria (-0,67) e curtose (0,41), exploração, como será descrito a seguir. a distribuição pode ser considerada praticamente normal, pois seus valores flutuavam Validação psicométrica entre ±1 (Bryman & Cramer, 2003). A análise dos componentes principais (PC) apontou para a existência de um único Verificação da fatorabilidade da matriz componente. O exame do gráfico scree plot A fim de verificar se as suposições para corroborou essa indicação. Depois disso, os a realização de análise fatorial foram atendi- dados foram submetidos à análise fatorial dos das (Hair & cols., 2005), verificou-se a matriz eixos principais com rotação Varimax, uma de correlações, as medidas de adequação da vez que uma extração com rotação oblíqua amostra e a significância geral da matriz de (Oblimin) revelou baixa correlação entre os correlações. Inicialmente, realizou-se uma fatores. análise fatorial exploratória pelo método Para definir o número de fatores, foi dos componentes principais (PC). Conforme examinada a importância de cada fator por apresentado na Tabela 3, as correlações en- meio da observação dos autovalores e do pertre as variáveis são altamente significantes. A centual de variância explicada de cada fator e medida de adequação da amostra verificada considerada a teoria de base do construto. Os pelo teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) foi de critérios de retenção dos fatores foram auto0,89, considerado bastante satisfatório (Hair valores maiores do que um e variância expli& cols., 2005). O teste Bartlett de esfericidade cada maior do que 3%. Para a retenção dos foi significativo (940,981; p<0,001) e o deter- itens foram exigidos valores de cargas fatominante da matriz de correlações foi de 0,11. riais maiores do que 0,40. Atendendo a esses Esses resultados mostram que a matriz de da- critérios, havia um único fator confirmando Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) 45 Tabela 3. Avaliação da adequação da análise fatorial: correlações, medidas de adequação da amostra e correlações parciais Item 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1. Adaptar a mudanças 2. Lidar com qualquer situação 0,42** 3. Ver o lado engraçado dos problemas 0,30** 0,32** 4. Lidar com estresse 0,28** 0,39** 0,21** 5. Dar a volta por cima 0,36** 0,41** 0,32** 0,31** 6. Atingir objetivos 0,21** 0,31** 0,15** 0,26** 0,29** 7. Concentração e pensamento claro 0,31* 0,36** 0,27** 0,36** 0,26** 0,27** 8. Não ser desencorajado pelo fracasso 0,24** 0,31** 0,22** 0,22** 0,32** 0,27** 0,34** 9. Ser pessoa forte 0,28** 0,35** 0,29** 0,26** 0,35** 0,37** 0,29** 0,27** 10. Lidar com sentimentos desagradáveis 0,32** 0,37** 0,29** 0,34** 0,30** 0,22** 0,38** 0,22** 0,28** Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) = 0,89 Teste Bartlett de esfericidade = 940,981; p < 0,001) determinante da matriz=0,11 ** Correlação significante a 0,01; * Correlação significante a 0,05 análise visual do scree plot (ver Figura 2). Esse fator reuniu os dez itens da escala e explicou 38% da variância total. Posteriormente, a confiabilidade da escala foi calculada pelo alfa de Cronbach, revelando um índice de 0,82. Na Tabela 4 são apresentadas as cargas fatoriais, as comunalidades, a variância explicada pelo fator encontrado e o coeficiente de confiabilidade (alfa de Cronbach). Como se pode observar, os resultados confirmam a mesma estrutura unifatorial apresentada no instrumento original (CD-RISC-10) relatada no estudo confirmatório de Campbell-Sills e Stein (2007), reunindo os 10 itens no fator nomeado resiliência. O coeficiente de precisão encontrado (0,82) é satisfatório, pois segundo Hair e cols., (2005) e Pasquali (2006), o limite inferior geralmente aceito é de 0,70. Análises fatoriais conduzidas para ambos os sexos separadamente revelaram estruturas idênticas. Análise de variância revelou não haver diferenças entre os gêneros, [F (1, 461) = 3,699; p >0,05]. Por outro lado, houve correlação positiva (Pearson), embora fraca, entre idade e resiliência (r=0,10; p <0,05). DISCUSSÃO E CONCLUSÕES O objetivo do estudo foi traduzir os itens para a língua portuguesa, adaptar semanticamente e validar a estrutura fatorial da versão abreviada da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (CD-RISC-10) com uma amostra brasileira. A escala pode ser considerada psicometricamente adequada, apresentando índice de confiabilidade acima de 0,80 (Pasquali, 2006). O percentual de variância explicada pelo instrumento foi de aproximadamente 38%, índice este considerado satisfatório no campo das ciências sociais e do comportamento. Campbell-Sills e Stein (2007) realizaram um estudo fatorial confirmatório das propriedades psicométricas da Escala de Resiliência de Connor-Davidson (2003) e encontraram uma escala unifatorial com 10 itens, que demonstrou bons indicadores de consistência interna e de validade, consolidando-se a versão abreviada da escala (CD-RISC-10). No presente estudo, a estrutura fatorial da escala, obtida através da análise fatorial exploratória, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 46 Lopes & Martins Figura 2. Scree plot revelou um único fator com cargas fatoriais variando de 0,53 a 0,72. O resultado confirma empiricamente a escala unifatorial de resiliência proposta por Campbell-Sills e Stein (2007), fornecendo indícios de validade de construto da escala. Esse fator revelou índice de consistência interna bastante satisfatório (0,82). Ademais, a adaptação semântica também demonstrou ser adequada, tendo sido julgada por cinco juízes independentes. Portanto, a CD-RISC-10 teve sua estrutura confirmada e apresenta boas características psicométricas. A resiliência, avaliada com a CD-RISC-10, parece ter distribuição aproximadamente normal na população em geral, embora mais indivíduos se avaliem como mais resilientes do que menos resilientes. O escore médio de 29,07 na CD-RISC-10 na amostra estudada Tabela 4. Cargas fatoriais, comunalidades, porcentagem de variância e alfa de Cronbach Itens 2. Lidar com qualquer situação 5. Dar a volta por cima 7. Concentração e pensamento claro 10. Lidar com sentimentos desagradáveis 9. Ser pessoa forte 1. Adaptar a mudanças 4. Lidar com estresse 8. Não ser desencorajado pelo fracasso 6. Atingir objetivos 3. Ver o lado engraçado dos problemas Alfa de Cronbach Variância (%) Cargas fatoriais 0,72 0,67 0,65 0,64 0,62 0,61 0,60 0,56 0,54 0,53 0,82 38,0 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 Comunalidades 0,47 0,37 0,35 0,34 0,31 0,30 0,30 0,25 0,22 0,22 Escala de Resiliência de Connor-Davidson (Cd-Risc-10) sugere que o indivíduo médio oriundo dessa população se percebe frequentemente com características mais resilientes. Esses dados são congruentes com a literatura e mostram que a resistência ao estresse e a capacidade de lidar com adversidades é a norma e não a exceção na população em geral (Bonanno, 2004; Campbell-Sills & cols., 2006). A média de resiliência aqui aferida (29,07, DP = 5,47) ficou um pouco acima do estudo original que descreve a construção da escala, no qual a média obtida foi 27,21, com desvio padrão de 5,84. Por este se tratar do primeiro estudo brasileiro em que se utilizou a CD-RISC-10, seria precoce atribuir tal resultado a alguma característica da amostra ou do próprio instrumento, pois a área carece de outros estudos que autorizem conclusões mais substanciais nesse sentido. Um dos aspectos a ser investigado em estudos futuros, além das características demográficas, refere-se ao impacto de diferenças étnico-culturais sobre os escores de resiliência. Neste estudo, estruturas fatoriais idênticas foram encontradas para ambos os gêneros e nenhuma diferença nos níveis de resiliência foi detectada entre eles, o que confirma resultados de outros estudos (Connor & Davidson, 2003; Campbell-Sills & Stein, 2007; Lundman, Strandberg, Eisemann, Gustafson & Brulin, 2007) e diferem dos resultados de Bonanno, Galea, Bucciarelli e Vlahov (2007), onde as mulheres apresentaram escores inferiores. Portanto, os resultados ainda são inconclusivos, necessitando de maiores investigações. Os resultados também revelaram que a resiliência aumenta com a idade, embora a correlação encontrada seja de baixa magnitude. Esse resultado pode ser decorrente da composição predominantemente jovem da amostra estudada, pois 77,8% dos participantes têm menos de 30 anos. Ainda assim, os achados corroboram os de outros estudos como o de Bonanno e cols., (2007) e Lundman e cols., (2007), os quais apontam que indivíduos mais maduros lidam melhor com situações 47 de estresse e adversidades. Masten (2001) argumentou que a resiliência seria uma aquisição normativa decorrente das demandas de adaptação inerentes ao desenvolvimento humano. Portanto, o avanço da idade e a consequente exposição a eventos adversos e a aprendizagem de estratégias de enfrentamento favoreceriam o desenvolvimento da resiliência. O conjunto dos participantes era bastante heterogêneo em termos de escolaridade e profissão, mas não contemplou amostras clínicas ou de indivíduos com alta exposição ao trauma. Assim, não é possível concluir sobre as propriedades psicométricas da CD-RISC-10 para essas populações, sugerindo que estudos futuros possam avaliar as propriedades da escala em amostras selecionadas com base na exposição ao trauma e, ainda, ampliar sua aplicação em doentes em cuidados primários, pacientes psiquiátricos ambulatoriais, pacientes com TEPT e com outros transtornos psiquiátricos. Outra limitação se refere à validade convergente e discriminante, que apesar de ter sido avaliada nos dois estudos que deram origem à escala (Campbell-Sills & Stein, 2007; Connor & Davidson, 2003), não foi avaliada neste estudo. Desse modo, sugere-se que outros estudos sejam realizados, especialmente por já se ter outro instrumento validado para o Brasil (Escala de Resiliência, Wagnild & Young, 1993, adaptada por Pesce e cols., 2005), possibilitando importantes contribuições para os estudos sobre resiliência. Além dessas sugestões, propõe-se que estudos futuros se dediquem também a validar a CD-RISC-10 por meio de análise fatorial confirmatória e testem sua estrutura fatorial em contexto de trabalho. Em suma, considerando os resultados obtidos, conclui-se que a versão brasileira da CD-RISC-10 possui uma adequada correspondência com a escala original e características psicométricas que autorizam seu uso como uma ferramenta confiável e com indícios de validade para avaliar a resiliência em pesquisas brasileiras. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 36-50 48 Lopes & Martins REFERÊNCIAS Ahern, N. R., Kiehl, E. M., Sole, M. L., & Byers, J. (2006). A review of instruments measuring resilience. Issues in Comprehensive Pediatric Nursing, 29, 103–125. Baek, H.S., Lee, K. U., Joo, E. J., Lee, M. Y., & Choi, K. S. (2010). Psychometric analysis of the Korean version of the CD-RISC. Psychiatry Investigation, 7, 109-115. Bandura, A. (2008). 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Sob esse enfoque, o objetivo deste estudo é identificar a existência de diferenças na associação entre as dimensões do tecnoestresse, variáveis demográficas, laborais e estratégias de enfrentamento utilizadas por homens e mulheres. O estudo foi realizado com 668 trabalhadores de instituições localizadas em Porto Alegre (RS) e região metropolitana. Como instrumentos de pesquisa foram utilizados a escala de Tecnoestresse (RED/TIC), uma escala acerca das Estratégias de Enfrentamento (COPE) além de um questionário contendo variáveis sociodemográficas e laborais. Os resultados evidenciaram que mulheres apresentam médias mais elevadas nas dimensões de descrença, ansiedade e ineficácia. Com relação às variáveis sociodemográficas, foram identificadas diferenças entre homens e mulheres nas variáveis idade e escolaridade; e, quanto às laborais, na utilização de e-mail e chat. As estratégias de enfrentamento utilizadas por homens e mulheres também revelaram diferenças significativas homens individuaram médias mais elevadas em enfrentamento ativo, planejamento, supressão de atividades concomitantes; e as mulheres indicaram médias mais elevadas nas estratégias de suporte social e emocional, retorno para a religiosidade, foco na emoção, negação, desligamento comportamental e desligamento mental. Palavras-chave: estresse; tecnoestresse; tecnologia de comunicação e informação. Abstract Technostress: differences between men and women Technostress is a negative psychological state associated with the use of Information and Communication Technologies (ICT). This psychosocial phenomenon consists of four dimensions: disbelief, anxiety, fatigue, and inefficiency. From this perspective, the objective of this study was to identify the existence of differences in association between the dimensions of technostress, sociodemographic and work variables, and coping strategies used by men and women. The study was conducted with 368 workers from establishments located in Porto Alegre (RS) and its metropolitan area. The data collection instruments used were: the RED Technostress (ICT) scale, COPE - a Coping Strategy scale, and a questionnaire on sociodemographic and work variables. The results showed that women have higher averages in the dimensions of disbelief, anxiety, and inefficiency. The sociodemographic variables showed differences between men and women in terms of age and education; and the work variables in the use of email, internet, and chat. The confrontation response strategies used by men and women also showed significant differences. Men had higher averages in active coping, planning, and suppression of competing activities. Women showed higher averages in emotional social support, religious coping, focus on emotion, denial, and behavioral and mental disengagement strategies. Keywords: stress; technostress; communication and information technology. Carlotto. Tecnoestresse em homens e mulheres Recebido em: 13.04.2010 Aprovado em: 15.11.2011 Publicado em: 30.12.2011 52 Carlotto A sociedade contemporânea é globalizada e está centrada no uso e aplicação de informação e conhecimento, cuja base material está sendo alterada por uma revolução tecnológica concentrada na tecnologia da informação, com inquestionável impacto nas relações sociais, nos sistemas políticos e nos sistemas de valores (Castells, 1999). Do comércio eletrônico (e-commerce) ao aprendizado eletrônico (e-learning), as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), como a internet e outros sistemas de telecomunicações mundiais, são os principais canais através dos quais a sociedade contemporânea é encenada (Selwyn, 2008). TIC é definida como um conjunto de equipamentos (computadores, dispositivos de armazenamento e de comunicação), de aplicações (sistemas), de serviços (help-desk, desenvolvimento de aplicações, metodologias) e de pessoas (analistas, programadores, gerentes) utilizado pelas organizações para tratarem dados e informações (Luftman,1996). As TICs encontraram o seu espaço nos diversos setores que compõem o funcionamento socioeconômico atual, tais como os sistemas bancário e produtivo, setores de transportes, serviços públicos, educação e atendimento médico (Pinto, Ulman & Assi, 2004). Nesse sentido, não surpreende que, no atual mercado de trabalho, a área tecnológica seja responsável por 80% dos postos disponíveis, havendo ainda uma defasagem de 20% na força de trabalho para se encaixar em tal realidade (Ferreira, 2006). O paradigma informacional, característica central das sociedades baseadas no conhecimento, exige uma nova organização do trabalho - com a integração sistêmica de diversas unidades, práticas gerenciais interativas, equipes responsáveis por um ciclo produtivo completo (Schaff, 1995). Na nova organização, o trabalho tem incorporado, no seu cotidiano, pelo menos alguns dos elementos da interação virtual envolvendo comunicação não presencial intermediada por e-mail, telefone, chat, videoconferência, entre outros modos, sendo crescente o número de equipes que se comunica, quase que exclusivamente, por meios eletrônicos (Bejarano, Pilatti, Scandelari & Oliveira, 2006). À medida que a tecnologia da informação vai sendo incorporada ao sistema produtivo, altera radicalmente a estrutura e o modo pelo qual o trabalho é executado e gera a necessidade de um novo perfil de trabalhador (Valle, 1996). A necessidade de gestão das informações exige maior capacidade de memória, atenção, concentração, raciocínio, conhecimento formal, mapeamento conceitual e entendimento sistêmico dos processos e de suas inter-relações (Handel, 2003). O trabalho com TIC requer maior exigência cognitiva com sobrecarga em seus processos mentais (Pacheco, Ferreira Jr., Pereira & Pereira Filho, 2005). As inovações e mudanças tecnológicas se, por um lado, trazem benefícios econômicos para a organização e para muitos aspectos relacionados ao conteúdo do cargo do trabalhador; por outro, podem produzir problemas humanos e sociais com sérias consequências à saúde mental do trabalhador (Korunka, 2002; Pinto, Ulman & Assi, 2004). A tecnologia, todavia, é neutra, isto é, por si mesma, não gera efeitos negativos nem positivos. A qualidade e a intensidade dos seus efeitos dependem de fatores como as exigências e a falta de recursos gerados no trabalho, assim como das crenças nas próprias capacidades e competências para enfrentar com êxito as mudanças tecnológicas (Salanova, 2007). Nesse contexto, o estresse é um dos fenômenos cada vez mais comum entre os trabalhadores, o que pode ser constatado pelos casos de transtornos psicossomáticos e doenças ocupacionais evidentes e/ou emergentes (Ferrreira, 2006; Pacheco, Ferreira Jr., Pereira & Pereira Filho, 2005). Na perspectiva biopsicossocial, o estresse se constitui em uma relação particular entre a pessoa, seu ambiente e as circunstâncias às quais está submetida, avaliado como uma ameaça ou algo que exige dela mais que suas próprias habilidades ou recursos, percebido como um perigo ao seu Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 Tecnoestresse em homens e mulheres bem-estar (França & Rodrigues, 1997). No atual ambiente de negócios, caracterizado pelo acirramento da concorrência e por constantes mudanças, o potencial da TIC está sendo utilizado para elevar a vantagem competitiva de empresas na maioria das organizações. A intensidade e o ritmo das mudanças impostas às empresas, determinadas pela globalização e evolução das tecnologias da informação e da comunicação, irão aumentar os níveis de estresse relacionados ao trabalho entre o pessoal que trabalha com TIC (Love & Zahir, 2007). Toda a mudança que exige adaptação por parte do organismo causa certo nível de estresse (Lipp,1996), pois envolve algum tipo de perda, principalmente quando abrange a natureza do trabalho. A necessidade de se adaptar às mudanças é considerada um dos estressores ocupacionais de maior relevância (McLean,1979; Stranks, 2005). A utilização de TIC, enquanto evento estressor, depende da apreciação do usuário, momento em que determina as consequências esperadas. Pode realizar uma avaliação positiva, considerando que sua utilização fará com que o trabalho seja mais interessante e que aprenderá novas habilidades para seus procedimentos de trabalho; ou pode realizar uma avaliação negativa, temendo perder o emprego ou que não terá habilidades necessárias para sua utilização (Beaudry & Pinsonneault, 2005). As demandas decorrentes da inserção da tecnologia no ambiente de trabalho tornam os trabalhadores mais propensos ao estresse tecnológico, denominado de tecnoestresse (Salanova, Llorens, Cifre & Nogareda, 2004). Seu conceito está diretamente relacionado aos efeitos psicossociais negativos do uso de TIC e sua primeira definição foi desenvolvida por Brod (1984), que o considerou uma enfermidade de adaptação causada pela falta de habilidade para tratar com as novas tecnologias de computadores de maneira saudável. Segundo Weil e Rosen (1997), trata-se de qualquer impacto negativo, no tocante às 53 atitudes, pensamentos, comportamentos ou fisiologia, causado direta ou indiretamente pela utilização de tecnologia. Mais recentemente, Salanova (2003) o caracterizou como um estado psicológico negativo relacionado com o uso de TIC, sendo este condicionado pela percepção de um desajuste entre demandas e recursos inerentes ao uso de TIC, que conduz a um alto nível de ativação psicofisiológica não prazerosa, dessa maneira, promovendo o desenvolvimento de atitudes negativas frente às TICs. Segundo esta autora, compõe-se de quatro dimensões: 1) Descrença - caracterizada pelo sentimento que o uso de TIC não traz benefícios ao seu trabalho; 2) Fadiga - refere-se ao cansaço mental e cognitivo pelo uso continuado de TIC; 3) Ansiedade - constitui-se em estado de tensão frente ao uso de TIC; e, 4) Ineficácia - revela sentimentos negativos sobre a própria capacidade e competência no uso de TIC. Sabe-se, todavia, que tanto o processo de inserção como a utilização das TICs se apresentam de forma desigual na sociedade em geral, no contexto de trabalho e em relação ao gênero (Hirata, 2000; Lie, 2003; Salanova, 2003; Silva, 2005; Zauchner, Korunka, Weiss & Kafka-Lützow, 2000). Neste sentido, a categoria analítica gênero é entendida como forma de estruturar o sistema perceptivo dos indivíduos e remeter à organização concreta de toda a vida social (Tilly,1994). Os sistemas de gênero são conjuntos de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades definem pela diferença sexual anatomofisiológica e que fornecem sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e ao relacionamento entre as pessoas (Barbieri, 1993). A categoria trabalho incorpora, historicamente, visíveis relações de desigualdade e de poder assimétrico entre homens e mulheres (Cyrino, 2009). No Brasil, a crescente participação das mulheres na atividade econômica não conseguiu reverter ainda as desigualdades de gênero no trabalho, que se manifestam em salários inferiores, maior de- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 54 Carlotto semprego, maior informalização do trabalho, ocupações de menor prestígio social e menos direitos trabalhistas e previdenciários (Leone & Baltar, 2006). O trabalho de homens é geralmente associado aos ganhos e reconhecimentos que decorrem da assertividade e do foco no sucesso material. Já o trabalho feminino é associado a profissões delicadas, cooperativas e preocupadas com a qualidade de vida das outras pessoas (Belo, Sousa & Camino, 2008). Na utilização de novas tecnologias, pesquisas indicam que as mulheres estão sendo excluídas dos treinamentos que possibilitam o conhecimento das máquinas e de programação, sendo mantidas nas funções que exigem menos qualificação (Teixeira, 2005). Homens e mulheres partilham de muitas condições de trabalho e de vida similares; no entanto, há situações concretas de gênero que estabelecem diferenças nos processos de enfermidade. Segundo Rohlfs (1999), os papéis atribuídos e assumidos por homens e mulheres são importantes na explicação e compreensão de seu estado de saúde. A maneira como vivenciam os estressores e as estratégias de enfrentamento utilizadas se revelam de formas diferenciadas entre homens e mulheres (Piko, 2001) e, por vezes, estão na base do desenvolvimento de determinados adoecimentos (Gil-Monte, 2005; Mirvis, Graney, Ingram, Tang & Kilpatrick, 2006). Em estudos concernentes ao estresse ocupacional, as estratégias de enfrentamento utilizadas constituem uma importante variável a ser analisada (Tamayo, Lima & Silva, 2004). As estratégias de enfrentamento são respostas ou reações ao estresse (Folkman, 2009) e individuam variações de acordo com o contexto cultural (Heppner, 2008), sendo ativadas conforme o estressor atua como elemento provocador de instabilidade do bem-estar subjetivo da pessoa (Leipold & Greve, 2009). Os indivíduos desenvolvem estilos de enfrentamento, não como uma preferência por determinadas formas de comportamento, mas como uma tendência a utilizar certa reação em uma dada situação de estresse (Carver, Scheier & Weintraub, 1989). Lazarus e Folkman (1984) estabeleceram um modelo de coping constituído de duas categorias funcionais: coping focalizado no problema e coping focalizado na emoção. O primeiro, com foco na emoção, é definido como um esforço para regular o estado emocional que é associado ao estresse com a função de reduzir a sensação física desagradável provocada pelo evento estressor. Já o segundo, coping focalizado no problema, consiste em um esforço para agir na situação que deu origem ao estresse, tentando mudá-la no intuito de solucionar o problema existente. A longo prazo, de acordo com Endler e Parker (1999), estratégias focalizadas na ação sobre o problema são mais eficazes e se relacionam com a maior qualidade de vida e menor probabilidade de adoecimento. Apesar do aumento de estudos que relacionam estresse e estratégias de enfrentamento, as análises baseadas no gênero ainda são limitadas (González-Morales, Peiró, Rodríguez & Greenglass, 2006), principalmente, quando envolvem o uso de tecnologias (Love & Zahir, 2007). Em relação ao estresse, estudos têm apontado que mulheres registram níveis mais elevados de estresse ocupacional que os homens (Galanakis, Stalikas, Kallia, Karagianni & Karela, 2009; Lim & Teo,1996). Também se verificam diferenças nos estilos de enfrentamento de situações estressantes em homens e mulheres, estando essa questão relacionada ao processo de socialização (Lazarus & Folkman, 1984; Piko, 2001). Homens têm evidenciado maior utilização de estratégias focadas no problema, ou seja, agem diretamente sobre o estressor; as mulheres, por sua vez, geralmente, utilizam estratégias focadas na emoção (Keogh & Herdenfeldt, 2002; Ptacek, Smith & Dodge, 1994), sendo estas consideradas menos adaptativas e com maior probabilidade de se relacionarem a problemas de saúde (Gil-Monte, 2005; Keogh & Herdenfeldt, 2002). Estudo com trabalhadores de tecnologia de informação, realizado por Lim e Teo (1996), identificou que mulheres buscam maior apoio social e dialogam com pessoas Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 Tecnoestresse em homens e mulheres frente a situações de estresse, enquanto os homens tendem a reprimir suas emoções e a lidar com os problemas de uma forma mais lógica, buscando conter as emoções. Por conseguinte, examinar as maneiras pelas quais as pessoas lidam com o estresse em suas vidas pode facilitar a compreensão dos processos e mecanismos a partir dos quais as estratégias neutralizam o impacto negativo do estresse quanto à saúde, bem-estar e qualidade de vida (Somerfield & McCrae, 2000). Assim, considerando que a literatura aponte fatores de risco de adoecimento diferenciados entre homens e mulheres e que haja uma relação diferenciada no uso de tecnologias e gênero (Lie, 2003), o presente estudo visou identificar a existência de diferenças na associação entre as dimensões do tecnoestresse, variáveis sociodemográficas e laborais e também diferenças nas estratégias de enfrentamento utilizadas por homens e mulheres em relação a estressores presentes no trabalho com TIC. A pesquisa se desenvolveu com sujeitos que atuam em organizações situadas na região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, 2008. MÉTODO Participantes Trata-se de uma amostra não probabilística, constituída de 668 participantes, 398 mulheres (59,6 %) e 270 homens (40,4%) que utilizam TIC no trabalho. Os sujeitos são provenientes de organizações de trabalho localizadas em Porto Alegre - RS e região metropolitana. No grupo feminino, a maioria é solteira (59,6%), sem filhos (60,8%), com idade média de 30 anos (DP=10) e 2,7 anos (DP=1,2) de trabalho com TIC. Em relação à escolaridade, 69% possuem ou estão realizando curso superior. Quanto à função exercida, 58,9% dos sujeitos trabalham em funções administrativas. A maioria trabalha em empresas de grande e médio porte (80,8%). No grupo masculino, a maioria é solteiro (55,2%), sem filhos (61,9%), tem, em média, 32 anos (DP=10) e 3 anos (DP=1,8) de 55 trabalho com TIC. Em relação à escolaridade, 64,8% possuem ou estão realizando curso superior. Quanto à função exercida, 66,4% exercem funções administrativas e 76,7% executam trabalho em empresas de grande e médio porte. Instrumentos Utilizou-se um questionário para levantamento das variáveis sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, filhos, escolaridade) e laborais (função, tempo de trabalho com TIC, horas de trabalho com TIC, horas de utilização de e-mail, internet, chat, tamanho da organização). As variáveis idade, escolaridade, tempo de trabalho, tempo de trabalho com TIC, horas de trabalho e horas de utilização de e-mail, internet, chat e tamanho da organização foram trabalhadas de forma quantitativa. A avaliação do tecnoestresse foi realizada com a Escala de Tecnoestresse - RED/TIC. Escala essa que se baseia no modelo de Recursos, Emoções/Experiência, Demandas (RED) e que entende o estresse como um processo interacional entre demandas do ambiente de trabalho e recursos ambientais e pessoais de que dispõe o sujeito ao seu enfrentamento (Salanova, Llorens, Cifre e Martínez, 2006). A escala consiste de 16 questões, subdivididas em quatro dimensões: 1) descrença – sentimento que o uso de TIC não traz benefícios ao seu trabalho; fadiga - avalia o cansaço mental e cognitivo pelo uso continuado de TIC; 3) ansiedade – tensão frente ao uso de TIC; e, 4) ineficácia – sentimentos negativos sobre a própria capacidade e competência no uso de TIC. Todos os itens foram avaliados em escala tipo Likert de sete pontos, variando de zero (nunca) a seis (sempre). O escore final de cada um dos atributos foi dado pela média das respostas de seus itens, sendo que médias elevadas nas dimensões são indicadores de tecnoestresse. A escala validada na Espanha (Salanova, Llorens, Cifre & Nogareda, 2004) se encontra disponível no site da WONT (<http://www.wont.uji.es>). Estudo prévio das propriedades psicométricas (análise fa- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 56 Carlotto torial confirmatória e análise de confiabilidade), realizado por Carlotto e Câmara (2010), identificou que o modelo teórico se ajustou satisfatoriamente aos dados,����������������� oferecendo validade fatorial e consistência interna adequada para avaliar o tecnoestresse em profissionais brasileiros. Além de ter apresentado um valor de Qui-quadrado estatisticamente significativo (χ²(98) = 269,79, p<0,001), outros indicadores de ajuste dão suporte a esse resultado: a razão χ²/gl foi de 2,75, com um GFI de 0,97 e o RMSR de 0,07. O NNFI foi de 0,98, o CFI de 0,98 e PNFI = 0,79. Todos ���������������������� os fatores apresentaram alfa de Cronbach superior a 0,70 (Descrença = 0,74; Fadiga = 0,89; Ansiedade = 0,77; Ineficácia = 0,80). Para avaliar as estratégias de enfrentamento, foi utilizado o inventário COPE – Escala de Coping no Trabalho, de Carver, Sheier e Weintraub (1989). A partir desse método, o participante deveria responder as questões em relação a estressores relacionados ao seu trabalho com TIC. O instrumento é autoaplicado e totaliza 60 itens com sistema de pontuação de 1 a 4, sendo o 1 para “não costumo fazer isso nunca”, o 2 para “costumo fazer isso um pouco”, o 3 para “costumo fazer isso moderadamente” e o 4 para “costumo fazer isso muito”. A escala se constitui de 15 fatores (4 itens para cada fator) que determinam um perfil de estratégias de enfrentamento: 1) Coping ativo, que consiste no processo de estabelecer passos sucessivos para remover ou melhorar os efeitos do estressor; 2) Planejamento, que representa a atividade de pensar sobre alternativas para lidar com um estressor; 3) Supressão de atividades concomitantes, que se caracteriza pela supressão de atividades que distraiam o sujeito do foco representado pelo estressor; 4) Coping moderado, que significa esperar uma oportunidade apropriada para a ação, restringindo a impulsividade; 5) Busca de suporte social por razões instrumentais, que se configura pela procura por conselho ou informação sobre o estressor; 6) Busca de suporte social por razões emocionais, ou seja, a busca por apoio moral, compaixão ou entendimento; 7) Foco na expressão de emoções, que é a tendência em focalizar na experiência de estresse, expressando sentimentos negativos; 8) Desligamento comportamental, que é o abandono das tentativas para atingir metas nas quais o estressor interfira; 9) Desligamento mental, que ocorre através da utilização de atividades alternativas para afastar o problema da mente; 10) Reinterpretação positiva, que consiste em reinterpretar uma situação tensa em termos positivos; 11) Negação, no sentido de recusa em acreditar na existência do estressor; 12) Aceitação, que corresponde, em um primeiro momento, à percepção do estressor como real e, num segundo momento, à aceitação do estressor como um fenômeno natural; 13) Retorno para a religiosidade, que é a tendência a se voltar para a religião como forma de aliviar a tensão; 14) Humor, que se configura como a estratégia de fazer graça da situação estressora; e 15) Uso de substâncias, que consiste em se desviar do problema através do uso de substâncias psicoativas que interfiram na capacidade de avaliação das situações. O processo de adaptação foi realizado pela autora do estudo, tendo sido o instrumento traduzido e adaptado pelo processo de retrotradução a partir das versões inglesa e espanhola da escala. Resultados do estudo preliminar com amostra brasileira de 355 estudantes, considerando-se os 15 fatores originais da escala, apresentaram alfas que variaram de 0,64 a 0,86. Na escala original, a fidedignidade encontrada em relação à consistência interna variou de 0,62 a 0,91 nos 15 fatores, o que foi considerado satisfatório pelos autores. Apenas a dimensão desligamento mental obteve alfa inferior de 0,51. Os autores atribuem a baixa consistência interna ao fato de essa subescala ser diferente das demais por apresentar uma maior diversidade de ações possíveis (Carver, Scheier & Weintraub,1989). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 57 Tecnoestresse em homens e mulheres Procedimentos Éticos Foram realizados os procedimentos éticos conforme Resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), no que diz respeito à pesquisa com seres humanos. O estudo possui aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa pela instituição de afiliação da autora. Foi esclarecido aos sujeitos e diretores das instituições de trabalho que se trata de uma pesquisa sem quaisquer efeitos avaliativos individuais e/ou institucionais e que as respostas e os dados referentes aos resultados eram anônimos e confidenciais. lação de Pearson, considerando um nível de significância de 5%. RESULTADOS Os resultados apontaram diferenças nas associações entre as dimensões de tecnoestresse em homens e mulheres. Mulheres apresentam maiores Descrença, Ansiedade e Ineficácia (Tabela 1). Tabela 1. Diferença das médias das dimensões de tecnoestresse de acordo com o sexo Dimensões Sexo Descrença Fadiga N M DP p Feminino 398 1,28 1,18 <0,05 Masculino 270 0,90 1,10 Feminino 398 2,01 1,49 Masculino 270 1,93 1,35 Feminino 398 1,76 1,34 Masculino 270 1,38 1,03 Feminino 398 0,95 1,03 Masculino 270 0,70 0,88 >0,05 Coleta de dados Após autorização, os instrumentos foram aplicados em salas de aulas com 355 estudantes universitários que trabalhavam com TIC e recolhidos, logo após o preenchimento, pelas pesquisadoras. Em uma segunda etapa, utilizou-se a técnica em cadeias (bola-de-neve) (Biernacki & Waldorf, 1981), em que os primeiros respondentes indicam outros, os quais, por sua vez, indicam outros e, assim, sucessivamente. A seleção desses indivíduos, dentro de cada cadeia, respeitou os critérios de inclusão da amostra: trabalhar com TIC e o princípio do voluntariado. Após indicação por parte dos estudantes da primeira etapa de aplicação, alunos do Laboratório de Ensino e Pesquisa entraram em contato com os indicados para convidá-los à participação no estudo. Nesta etapa, os instrumentos foram entregues no horário de intervalo do trabalho, depois de obtida autorização da empresa, e recolhidos no dia seguinte à entrega. Identificaram-se diferenças entre homens e mulheres nas variáveis demográficas idade e escolaridade, bem como nas laborais, a utilização de e-mail e chat (Tabela 2). As estratégias utilizadas por homens e mulheres também revelaram diferenças significativas. Homens apresentaram médias mais elevadas em coping ativo, planejamento, supressão de atividades concomitantes. Por sua vez, detectaram-se médias mais elevadas em mulheres nas estratégias de Suporte Social Emocional, Retorno para a Religiosidade, Foco na Emoção, Negação, Desligamento Comportamental e Desligamento Mental (Tabela 3). Análise de dados Na primeira etapa, foi realizada análise univariada a fim de apresentar as frequências e as medidas de tendência central das variáveis que caracterizam a amostra. Posteriormente, elaboraram-se análises bivariadas por meio da prova t de Student para comparação entre grupos e análise de corre- DISCUSSÃO O presente estudo buscou identificar a existência de diferenças entre homens e mulheres na relação entre tecnoestresse, variáveis sociodemográficas, laborais e estratégias de enfrentamento, tendo o resultado evidenciado a diferença entre os grupos. Com relação às dimensões de tecno- Ansiedade Ineficácia Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 <0,05 <0,05 58 Carlotto Tabela 2. Matriz de correlação de Pearson entre dimensões de tecnoestresse e variáveis sociodemográficas e laborais em homens e mulheres Variáveis Mulheres Homens DE FA AN IN DE FA AN IN Idade -0,017 -0,062 0,010 0,077 0,071 -0,076 0,058 0,169** Escolaridade -0,169** -0,093 -0,202** -0,131* 0,059 0,090 0,016 0,089 Tempo de trabalho com TIC -0,091 -0,035 -0,041 -0,024 0,007 0,006 -0,017 -0,022 Horas de trabalho com TIC 0,071 0,070 -0,002 -0,054 0,097 0,113 0,117 0,082 Tamanho da organização 0,052 -0,061 -0,059 -0,008 0,035 0,030 -0,026 -0,112 Horas de e-mail 0,123* 0,195** 0,015 -0,007 0,030 0,110 -0,021 -0,075 Horas de Internet 0,024 * 0,137 0,009 0,009 0,109 0,061 -0,140* -0,121 Horas de Chat -0,046 -0,073 -0,081 -0,009 0,044 0,195** 0,048 0,029 Notas: * Correlação significativa ao nível de 5% ** Correlação significativa ao nível de 1% DE (Descrença), FA (Fadiga), AN (Ansiedade), IN (Ineficácia) estresse, as mulheres apresentaram médias mais elevadas que homens na dimensão de Descrença, Ansiedade e Ineficácia. Resultado semelhante foi identificado por Pocinho e Garcia (2008), sendo que, nesse estudo, a fadiga também se mostrou mais elevada em mulheres. Os achados do estudo podem ser entendidos a partir do que refere Lie (2003), que aponta para a existência de vários níveis de ligação entre as tecnologias e gênero. Em âmbito estrutural, ocorre a dominância dos homens nas profissões técnicas; em âmbito simbólico, as tecnologias têm produzido imagens de masculinidade e, desse modo, têm contribuído para as identidades de gênero. No mundo, genericamente, homens e mulheres utilizam os computadores e as TICs de formas muito diferentes, desde o jardim de infância, sendo o computador um objeto de meninos, muito mais utilizado por estes (Cassell, 2002). Estudo realizado no Brasil, pelo IBOPE e NETRATINGS (2008), identificou que os homens se revelaram mais envolvidos com a tecnologia, com 73% deles afirmando ter acesso à mesma, contra 64% entre as mulheres. Conquanto, no Brasil, o gênero não te- nha evidenciado influência para determinar o acesso à internet, de acordo com Schlegel (2009), as mulheres apresentam ainda desvantagem com relação às competências informacionais. Para Zauchner, Korunka, Weiss e Kafka-Lützow (2000), essa diferença ocorre porque as mulheres tendem a ocupar postos de menor qualificação e participação no trabalho. A divisão sexual do trabalho assume formas conjunturais e históricas, constrói-se como prática social, ora conservando tradições que ordenam tarefas masculinas e tarefas femininas na indústria, ora criando modalidades da divisão sexual das tarefas. A subordinação de gênero também se manifesta nos critérios que definem a qualificação das tarefas, nos salários e na disciplina do trabalho (Carloto, 2001). Com relação às variáveis sociodemográficas, verifica-se que, em homens, quanto mais elevada a idade maior é o sentimento de ineficácia. Esse resultado pode sinalizar uma aprendizagem tardia influenciando o sentimento de baixa eficácia. No grupo feminino, quanto maior a escolaridade menor a descrença, a ansiedade e a ineficácia. À medida que ocorre um aumento da escolaridade, pode-se supor que esta exige algum tipo de uso Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 Tecnoestresse em homens e mulheres 59 Tabela 3. Comparação das estratégias de enfrentamento de acordo com sexo Estratégias Sexo Coping ativo Planejamento Supressão de atividades concomitantes Coping moderado Suporte social instrumental Suporte social emocional Reinterpretação positiva Aceitação Retorno para a religiosidade Foco na emoção Negação Desligamento comportamental Desligamento mental Humor Uso de substâncias M DP p Feminino 2,87 0,59 <0,05 Masculino 3,06 0,48 Feminino 3,15 0,64 Masculino 3,30 0,53 Feminino 2,61 0,57 Masculino 2,84 0,60 Feminino 2,46 0,57 Masculino 2,42 0,48 Feminino 2,92 0,69 Masculino 2,85 0,63 Feminino 2,85 0,69 Masculino 2,26 0,69 Feminino 3,33 0,58 Masculino 3,35 0,47 Feminino 2,45 0,66 Masculino 2,36 0,66 Feminino 2,60 0,94 Masculino 1,90 0,84 Feminino 2,35 0,65 Masculino 2,03 0,66 Feminino 1,73 0,59 Masculino 1,58 0,55 Feminino 1,62 0,53 Masculino 1,37 0,44 Feminino 2,23 0,62 Masculino 1,92 0,64 Feminino 2,22 0,87 Masculino 2,13 0,84 Feminino 1,28 0,65 Masculino 1,26 0,59 de TIC que lhe garantiu uma maior eficácia, ou seja, maior crença de que ela é benéfica ao seu trabalho e menor ansiedade no seu uso. No tocante às variáveis laborais, os resultados apontam que conforme aumentam as horas destinadas ao uso de chat maior é <0,05 <0,05 >0,05 >0,05 <0,05 >0,05 >0,05 <0,05 <0,05 <0,05 <0,05 <0,05 >0,05 >0,05 a fadiga em homens. Em mulheres, à medida que aumenta as horas de utilização de e-mail maior a descrença e a fadiga. Esse resultado pode estar relacionado ao que refere Lie (2003), quando pontua a dominância dos homens nas profissões técnicas e das mulheres Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 60 Carlotto naquelas centradas no atendimento às pessoas, como no uso de chat, o que explicaria as diferenças entre as associações das dimensões do tecnoestresse segundo o tipo de tecnologia utilizada. As estratégias de enfrentamento utilizadas por homens e mulheres também revelaram diferenças significativas. Homens apresentaram médias mais elevadas em coping ativo, planejamento, supressão de atividades concomitantes; em mulheres, foram identificadas médias mais elevadas nas estratégias de suporte social emocional, retorno para a religiosidade, foco na emoção, negação, desligamento comportamental e desligamento mental. Verifica-se predominância do uso de estratégias com foco no problema ou aproximativas por parte dos homens; e com foco na emoção ou evitativas no grupo de mulheres, de acordo com classificação realizada por Carver, Sheier e Weintraub (1989). O resultado é semelhante ao identificado por Ptacek, Smith e Dodge (1994), mas diferente do encontrado por Piko (2001), que aponta que, na vida adulta, homens utilizam em maior quantidade estratégias que se distanciam do problema; e mulheres tentam resolver o estressor de forma aproximativa. A controvérsia desse resultado pode indicar aspectos relacionados ao tipo de estressor. No caso de utilização de TIC, os homens, ao terem acesso mais cedo, assim, fazendo parte mais intensa de seu processo de socialização, percebem-se mais eficazes e, por isso, lidam com os estressores de forma mais centrada no problema. Segundo Silva (2005), os produtos educativos informatizados são identificados com a masculinidade em vários níveis que iniciam na sua concepção, passam pela forma como são divulgados e comercializados e, posteriormente, integrados na educação formal e informal. A autora refere haver, no processo educativo, estereótipos de gênero relacionados com a utilização de computadores e manejo de TIC, exemplificando que os professores demonstram maiores expectativas de competência em meninos. Os pais também costumam reforçar e estimular atividades relacionadas a computadores nos filhos homens (Kekelis, Ancheta & Heber, 2005; Sanders, 2006). Pode-se verificar essa questão no uso de videogames e jogos computadorizados, geralmente orientados para batalhas/ guerras competitivas, denotando claramente um perfil, considerado pela cultura, voltado para meninos. Para Canada e Brusca (1991), não são os computadores e tecnologias que afastam as meninas, mas sim o ambiente competitivo, comumente vinculado ao gênero masculino, que circunda o seu contexto de utilização. Essas questões terminam por refletir em percepções diferenciadas em termos de competências, dessa maneira, orientando escolhas profissionais com claro prejuízo para o desenvolvimento profissional de mulheres. O estudo ressalta um perfil de risco constituído por mulheres, com menor escolaridade, que utilizam e-mail como ferramenta de trabalho e que utilizam suporte social emocional, retorno para a religiosidade, foco na emoção, negação, desligamento comportamental e desligamento mental, tendo em vista estas serem consideradas estratégias voltadas para a emoção e evitativas. Pode-se intuir que mulheres percebam a utilização de TIC como uma ameaça sobre a qual têm pouco controle quanto aos eventos, pois, de acordo com Folkman e Moskowitz (2000), quando avaliadas como ameaça e os usuários sentem que têm um controle limitado sobre a situação, suas estratégias de enfrentamento serão principalmente focadas na emoção. Estas, na medida em que não buscam soluções por meio de um processo objetivo e analítico, focado, primariamente, no ambiente e, posteriormente, em si mesmo, não objetivam avaliar a relação de custo e benefício das alternativas para definir ações a serem tomadas, não modificam as pressões do ambiente e não reduzem ou eliminam a fonte de estresse (Gil-Monte, 2005; Lipp, 1996). Ao contrá- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 Tecnoestresse em homens e mulheres rio, o estresse se torna cumulativo, ocasionando impacto negativo sobre a saúde física e emocional do trabalhador. A maior utilizaçao de estratégias com foco no problema ou aproximativas por parte dos homens; e com foco na emoção ou evitativas no grupo de mulheres sugere a existência de desigualdades de gênero em termos de acesso, formação e utilização de TIC no contexto laboral. Destaca-se a necessidade de aprofundamento dos resultados obtidos, tendo em vista que os mesmos não podem ser generalizados, pois se trata de uma amostra não probabilística. É necessário pontuar que a literatura sobre tecnoestresse é quase exclusivamente internacional, dificultando a comparação com estudos nacionais. Assim, é importante dar seguimento com novos estudos, a partir de amostras probabilísticas e em contextos ocupacionais específicos a fim de ampliar a compreensão sobre o fenômeno de tecnoestresse e também da sua relação com gênero. Analisar as variações de gênero com base nas estratégias de enfrentamento pode oferecer informações importantes para o desenvolvimento de políticas educacionais, assim como para prevenção e desenvolvimento de programas de saúde que atendam às necessidades diferenciadas de homens e mulheres (Fielden & Davidson, 2001), pois, conquanto o uso das TICs não seja um prerrequisito para sobreviver na sociedade do século XXI, é, certamente, um elemento integral para prosperar na sociedade deste século (Selwyn, 2008). REFERÊNCIAS Barbieri, T. de. (1993). Sobre a categoria Gênero: uma introdução teórico-metodologica. Recife: SOS Corpo. Beaudry, A. & Pinsonneault, A. (2005). Understanding user responses to information technology: a coping model of user adaptation. MIS Quarterly, 29(3), 493-524. 61 Bejarano, V.C, Pilatti, L. A, ScandelarI, L. & Oliveira, A. C. (2006). Equipes virtuais - um estudo de caso na indústria têxtil norte-americana. Produção, 16(1), 161-170. Belo, R. P., Sousa, T. 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Gender, Work and Organization, 7(2), 119132. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 64 Carlotto Sobre os Autores Mary Sandra Carlotto, Psicóloga; Mestre em Saúde Coletiva (ULBRA-RS); Doutora em Psicologia Social (USC/ES); Professora da Faculdade de Psicologia e do PPG em Psicologia - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Bolsista produtividade do CNPq. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 51-64 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo - Relato de Pesquisa Empírica Moderadores do Impacto de Percepções de Responsabilidade Social das Empresas no Comprometimento Organizacional: Um Estudo no Setor Cerâmico Português Ana Vicente* Teresa Rebelo* Gustavo Inverno* * NEFOG – Núcleo de Estudo e Formação em Organização e Gestão - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação - Universidade de Coimbra. Rua do Colégio Novo, Apartado 6153, 3001-802, Coimbra. Tel. +351 239 851 454, Fax. +351 239 851 454. Emails: [email protected] Resumo Na presente investigação pretendeu-se esclarecer o papel de variáveis individuais (gênero e idade) e profissionais (antiguidade e função) dos colaboradores na relação entre as suas percepções de responsabilidade social das empresas (RSE) e os níveis de comprometimento organizacional, na sua dimensão pessoal (CP), exibidos pelos mesmos. Uma amostra de 289 colaboradores de 13 empresas portuguesas do setor cerâmico respondeu ao Questionário de Responsabilidade Social das Empresas (Inverno e Rebelo, 2008) e ao Questionário de Comprometimento Organizacional (ASH-II) (Quijano, Aparício, Bonavia, Masip, Navarro e Ruiz, 1999). Com vista a testar o efeito moderador das variáveis mencionadas, foram utilizadas regressões hierárquicas. Os resultados sugerem que o gênero e a função moderam o impacto de percepções de RSE, na sua dimensão externa, no comprometimento pessoal. Contrariamente ao esperado, nem a antiguidade, nem a idade dos colaboradores moderaram a relação entre as duas variáveis. Palavras-chave: percepções de responsabilidade social das empresas; comprometimento organizacional; moderadores. Abstract Moderators of the impact of corporate social responsibility perceptions on organizational commitment: a Portuguese ceramic sector study In the present research, we intended to clarify the role of individual (gender and age) and professional variables (workers’ tenure and job) of the workers in the relationship between their corporate social responsibility (CSR) perceptions and the levels of organizational commitment, in its personal dimension (PC), expressed by them. A sample of 289 workers from 13 Portuguese ceramic companies filled out the Corporate Social Responsibility Questionnaire (Inverno & Rebelo, 2008) and the Organizational Commitment Questionnaire (ASH-II) (Quijano, Aparício, Bonavia, Masip, Navarro & Ruiz, 1999). With the purpose of testing the moderator effect of the variables aforesaid, hierarchical regressions were conducted. The results point out that gender and job moderate the impact of CSR perceptions, in its external dimension, on personal commitment. Contrary to our expectations, neither workers’ tenure, nor their age, revealed to moderate the relationship between CSR and personal commitment. Keywords: corporate social responsibility perceptions; organizational commitment; moderators. Vicente, Rebelo & Inverno. RSE e CO: moderadores Recebido em: 07.05.2010 Aprovado em: 28.09.2011 Publicado em: 30.12.2011 66 Vicente, Rebelo & Inverno INTRODUÇÃO A sociedade como hoje a conhecemos enfrenta um conjunto de desafios que carecem da atuação das nações, das organizações internacionais, das empresas e dos próprios indivíduos. Problemáticas como as mudanças climáticas, a escassez de recursos ou a escalada dos níveis de pobreza são cada vez mais realidades às quais todos são chamados a intervir. É, pois, na dualidade resultante de um meio em mutação no âmbito da globalização e do mercado interno, que as empresas vêm, também, reconhecendo o valor da sua responsabilidade social para fazer face a esses desafios (Comissão das Comunidades Europeias, 2001). Diante do exposto, é possível constatar o fundamento para a popularidade crescente do conceito de responsabilidade social das empresas (RSE), ocupando, cada vez mais, um lugar proeminente nas preocupações, no comportamento, nas políticas e na gestão da imagem das empresas, bem como estimulando a produção de publicações científicas relacionadas à área (Halme & Laurila, 2009; Carvalho, 2007). No seio da temática da RSE, o seu impacto nos diferentes stakeholders é um dos polos atuais de interesse e discussão. Contudo, trata-se de um debate que, para avançar, necessita de um maior suporte no nível investigativo. As investigações que se intersectam no domínio da RSE têm girado, fundamentalmente, em torno da seguinte questão: O que se almeja com a adoção desse tipo de práticas e políticas? Entre os inúmeros argumentos a favor da adoção da RSE, aquele que diz respeito à sua possível relação com a performance financeira das empresas, variável de inequívoca relevância para os shareholders, tem assumido destaque na literatura e investigação (p.ex., Orlitzky, Schmidt & Rynes, 2003), constituindo, não obstante, um corpo de investigação “autoperpetuante”, à medida que não parece haver consenso, quer na relação per se, quer na direcionalidade desta. Mais consensual na comunidade científica parece ser o reflexo que a RSE tem no comportamento dos stakeholders (p.ex., Carroll, 2004) e em um conjunto de resultados organizacionais intangíveis (p.ex., Maignan & Ferrell, 2001). O cenário exposto parece evidenciar, por um lado, a necessidade de aprofundar conhecimento em torno da temática com recurso da investigação e, por outro lado, desenvolver em um nível de análise mais micro, de forma a melhor compreender o impacto que a percepção de práticas e políticas organizacionais socialmente responsáveis exerce naqueles que são os stakeholders organizacionais de relevo, nomeadamente nos colaboradores (Barnett, 2007; Carroll, 2004; Margolis & Walsh, 2003; Orlitzky, Schmidt & Rynes, 2003; Rupp, Ganapathi, Aguilera & Williams, 2006; Wood & Jones, 1995). Os colaboradores efetuam juízos sobre as preocupações sociais subjacentes às ações organizacionais, sobre os resultados delas decorrentes e sobre a forma como os indivíduos, dentro e fora da organização, são tratados como resultado dessas ações. Combinados, esses juízos modelam as percepções dos colaboradores relativas ao nível de responsabilidade social das empresas com que colaboram, ativando respostas atitudinais, entre as quais se encontra o seu comprometimento organizacional (Rupp & cols., 2006). Este último parece deter consequências positivas no âmbito dos resultados organizacionais fulcrais para a competitividade e eficácia organizacionais (p.ex., turnover, absenteísmo, orientação para a inovação, desempenho global dos indivíduos, satisfação, comportamentos extrapapel) e para o bem-estar do colaborador (p.ex., estresse). Inverno (2008), tendo por base o modelo de RSE do Livro Verde e o modelo de comprometimento organizacional de Quijano, Navarro e Cornejo (2000), que apresentaremos neste artigo, procurou avaliar qual o impacto Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores das percepções de responsabilidade social dos colaboradores nos seus níveis de comprometimento organizacional. Dessa investigação se concluiu a existência de uma relação positiva e estatisticamente significativa entre percepções de responsabilidade social das empresas e o comprometimento organizacional, na sua dimensão pessoal, apontando as percepções de RSE como boas preditoras do comprometimento dos colaboradores. Os resultados obtidos pelos autores (op.cit.) sugerem que a aposta na RSE parece promover o comprometimento pessoal dos colaboradores. Levando em consideração os resultados obtidos por Inverno (2008) e tendo em conta que a relação entre duas variáveis nunca é isenta da influência de variáveis externas, definiu-se para a presente investigação o seguinte objetivo: aprofundar o conhecimento da relação entre percepções de responsabilidade social das empresas, por parte dos colaboradores, e os níveis de comprometimento organizacional exibidos pelos mesmos. Tendo apresentado o nosso objetivo de investigação, em seguida abordaremos os dois conceitos centrais : responsabilidade social das empresas e comprometimento organizacional, centrando-nos nos dois modelos adotados pelo estudo. No tocante à responsabilidade social das empresas, embora a controvérsia e a falta de consenso que ainda a caracteriza, inclusive no que diz respeito a sua própria definição, na literatura é possível detectar alguns pontos de convergência. Assim, nesse âmbito, definimos RSE como um conjunto de políticas e práticas adotadas voluntariamente pelas empresas, incorporando as dimensões ética, legal, social e ambiental na estratégia organizacional e, consequentemente, criando valor para todos os stakeholders envolvidos (Dahlsrud, 2006). De acordo com o Livro Verde da Comissão Europeia (2001), cujo framework adoptamos, o constructo de RSE é passível de ser concebido segundo duas dimensões: interna e externa. A responsabilidade social das empresas, 67 na sua dimensão interna, engloba todas as práticas e políticas de RSE adotadas em nível intraorganizacional, assumindo nesse âmbito o stakeholder colaborador um lugar de particular preponderância. No seio do modelo do Livro Verde essa vertente de RSE incorpora as seguintes subdimensões: (1) gestão de recursos humanos (2) saúde e segurança no trabalho; (3) adaptação à mudança e (4) gestão do impacto ambiental e recursos naturais. A segunda dimensão, responsabilidade social das empresas externa, por oposição à dimensão previamente exposta, tem um olhar mais extra e interorganizacional. Mais voltada para a envolvente e para a interface organizacional, embora em continuidade com os seus processos internos, inclui as seguintes subdimensões: (1) comunidades locais; (2) parceiros, fornecedores e consumidores; (3) direitos humanos; e (4) preocupações ambientais e globais. Tendo definido e sumariamente caracterizado o nosso primeiro core concept, atentemos no de comprometimento organizacional (CO). O Modelo de Comprometimento Organizacional proposto por Quijano, Navarro e Cornejo (2000, p.33), define-o como o “vínculo psicológico do indivíduo com a organização”. Argumentando a sua natureza atitudinal, concebem-no sobre a forma de uma variável explicativa de um conjunto de comportamentos adotados pelos colaboradores com consequências organizacionais favoráveis. Com base na confluência de diferentes modelos de comprometimento organizacional (Jaros, Jermier, Koehler & Sincich, 1993; Kelman, 1958; Luna, 1986; Meyer & Allen, 1984, 1991; O’Reilly & Chatman, 1986) propõem um modelo multidimensional do construto com três níveis: comprometimento de necessidade (CN), comprometimento de troca (CT) e comprometimento pessoal (CP). De acordo com Quijano e cols. (2000), o comprometimento de necessidade, representando o nível mais baixo de vinculação do indivíduo para com a organização, é simples- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 68 Vicente, Rebelo & Inverno mente sustentado pela ausência de outras alternativas de trabalho e/ou pela necessidade de nele permanecer. Dessa forma, o colaborador trabalha para níveis mínimos de desempenho, com vistas a evitar sanções e/ou o despedimento. O comprometimento de troca se prende com o vínculo que o colaborador estabelece com a organização em função do intercâmbio, mais ou menos satisfatório, que com ela efetua. Assim, o colaborador desenvolve trabalho em função das recompensas intrínsecas e extrínsecas que recebe por meio da empresa. Por fim, o comprometimento pessoal, referente ao vínculo que o colaborador estabelece para com a organização em nível afetivo e valorativo, tem vários pontos de toque com a identificação organizacional. Trata-se de um vínculo estabelecido em consequência de uma necessidade de afiliação e de pertença, pelo que vai largamente além da simples relação contratual. O colaborador experiencia congruência face aos valores e metas organizacionais, fazendo-os seus. Nesse âmbito, cremos ser preponderante sublinhar que os dois primeiros níveis de comprometimento acima apresentados detêm, obviamente, uma natureza puramente instrumental, pelo que são menos desejados enquanto resultado organizacional (Quijano & cols., 2000). O comprometimento pessoal, por sua vez, como o nível de vinculação mais forte que o colaborador estabelece para com a organização, em adição ao fato de evitar o turnover (tal como as dimensões restantes o fazem), tem vindo a demonstrar ser, dos três níveis do construto, aquele que detém as consequências mais desejáveis para o comportamento organizacional, assim como para os colaboradores. É em consonância com o fato do comprometimento pessoal se associar a tais benefícios, que grande parte das investigações em torno das suas variáveis antecedentes e consequentes estão em torno dessa dimensão de comprometimento organizacional (Tavares, 2001). Tendo apresentado o nosso objetivo de investigação, assim como os frameworks teóricos referentes aos seus dois conceitos-chave – responsabilidade social das empresas e comprometimento organizacional –, é fundamental que definamos qual o seu âmbito: procuraremos aprofundar o conhecimento acerca da relação entre percepções de RSE e CO pela inclusão, neste estudo, da análise dos efeitos moderadores de algumas variáveis suscetíveis de influenciá-la. Considerando que o nosso foco está no stakeholder colaboradores, pela análise de uma variável critério como o comprometimento organizacional, a inclusão de variáveis pessoais e profissionais como potenciais moderadoras do impacto das percepções de responsabilidade das empresas nos níveis de comprometimento organizacional dos colaboradores, pareceu-nos pertinente. Tendo em conta o exposto, operacionalizou-se o objetivo na seguinte questão de investigação: qual o papel de variáveis pessoais e profissionais dos colaboradores na relação entre percepções de responsabilidade social das empresas e comprometimento organizacional? De acordo com o objetivo e a questão de investigação previamente apresentados, estabelecemos dois pares de hipóteses de investigação em torno daquele que é o nível mais desejado de comprometimento organizacional: o pessoal. O primeiro par se relaciona às variáveis individuais (gênero e idade) e o segundo às variáveis profissionais dos colaboradores (função e antiguidade). Relativamente ao gênero, argumentamos que o impacto das percepções de RSE dos colaboradores no nível de comprometimento pessoal é maior em indivíduos do sexo feminino, comparativamente a indivíduos do sexo masculino. A dimensão interna de RSE (mais centrada em uma perspectiva intraorganizacional e mais voltada para o stakeholder colaboradores), compreendendo a gestão responsável dos recursos hu- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores manos, nomeadamente no que concerne à aplicação de políticas e práticas de conciliação trabalho-família, e a dimensão externa (mais voltada para o ambiente interorganizacional), sublinhando a disponibilização de estruturas de cuidado à infância para filhos dos colaboradores, tenderão a fortalecer o comprometimento pessoal (CP) de forma mais veemente em colaboradores do sexo feminino, em detrimento de colaboradores masculinos. Investigações sugerem que as mulheres tendem a perceber a ética e responsabilidade social como mais importantes que a eficácia organizacional, em comparação com os homens (Singhapakdi, Karande, Rao & Vitell, 2001). As mulheres tendem a atribuir maior ênfase ao comportamento organizacional altruísta, à estrita adesão a políticas e regulamentos relativos à prevenção da discriminação por gênero no trabalho e a padrões éticos, sendo que os homens tendem a atribuir maior ênfase a questões econômicas (Ibrahim & Angelidis, 1994; Powell & Mainiero, 1992). Tendo em conta as assunções que expusemos no que concerne ao gênero dos colaboradores, formulamos a seguinte hipótese de investigação: Hipótese 1: O gênero dos colaboradores modera de forma significativa a relação entre as suas percepções de RSE (nas suas dimensões interna e externa) e o comprometimento pessoal, sendo o impacto das percepções de RSE nos níveis de comprometimento pessoal maior em colaboradores do sexo feminino, se comparados a colaboradores do sexo masculino. No tocante à idade dos colaboradores, há a tendência para que o aumento da idade constitua uma barreira ou força de resistência à mudança (Robbins, 1996). A implementação de práticas e políticas de RSE, enquanto novas práticas, poderá ser percebida, com maior probabilidade em colaboradores de faixas etárias mais elevadas, como ameaça aos seus 69 hábitos, acarretando medo pelo desconhecido e, consequentemente criando resistência a mudanças organizacionais (Robbins, 1996). Nesse sentido, argumentando que quanto maior a idade dos colaboradores, menor tenderá a ser o impacto das suas percepções de RSE nos consequentes níveis de comprometimento pessoal1, apresentamos nossa segunda hipótese de investigação: Hipótese 2: A idade dos colaboradores modera significativamente a relação entre as suas percepções de RSE (nas suas dimensões interna e externa) e o comprometimento pessoal, sendo o impacto das percepções de RSE nos níveis de comprometimento pessoal superior exibidos para colaboradores de menos idade, quando comparados a colaboradores de mais idade. No que concerne à variável antiguidade, aqui entendida como o número de anos de colaboração de um indivíduo para uma organização específica, argumentamos que as percepções de RSE tenderão a exercer menor impacto no comprometimento pessoal em indivíduos com maior antiguidade na organização, em comparação com indivíduos com menos anos de trabalho na organização2. Em outras palavras, cremos que indivíduos com um maior número de anos de colaboração para com determinada organização projetem como mais próximo no seu futuro a saída dessa mesma organização, pelo que práticas e políticas de RSE não serão tão valorizadas pelos mesmos e, consequentemente, o impacto das suas percepções de RSE no CP seja menor. Por com1 Ainda relativo à variável idade dos colaboradores enquanto moderadora da relação percepções de RSE – CP, sublinhamos que se trata de uma hipótese detentora de caráter exploratório, podendo também ser estabelecida na direção contrária. 2 Embora tenhamos conferido esse sentido à hipótese anterior, não pretendemos afirmar que indivíduos com mais antiguidade não valorizem práticas e políticas de RSE – se mais uma vez atentarmos na importância das condições de reforma facilmente compreenderemos –, todavia argumentamos que o impacto dessas percepções é maior em colaboradores com menos antiguidade, em comparação aos de mais antiguidade. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 70 Vicente, Rebelo & Inverno paração, colaboradores cuja antiguidade seja menor, ainda depositam muitas expetativas na organização em que colaboram, projetando nela o seu futuro próximo. Nesse sentido, o impacto das percepções de RSE no comprometimento pessoal desses colaboradores será maior. Por outro lado, tendo em conta que em Portugal, geralmente a antiguidade na empresa está fortemente correlacionada à idade dos colaboradores, no âmbito deste estudo as hipóteses assumem o mesmo sentido. Em conformidade com o que acabamos de enunciar, formulamos a seguinte hipótese de investigação: pacto exercido pelas percepções de RSE no comprometimento pessoal mais veemente em colaboradores em funções de chefia, por comparação com colaboradores no exercício de outras funções. Tendo em conta a escassez de investigação em torno de outras dimensões de comprometimento organizacional que não a pessoal e dada a ênfase que a responsabilidade social das empresas parece suscitar na sua relação com o comprometimento pessoal (Inverno, 2008), as hipóteses formuladas no âmbito da presente investigação giram apenas em torno dessa dimensão do construto de comprometimento organizacional, que, tal Hipótese 3: A antiguidade dos cola- como já referimos, é a mais desejada enquanboradores modera de forma significativa a to resultado para a organização. relação entre as percepções de RSE desse stakeholder e os seus níveis de compromeNa Figura 1 representamos o modelo hitimento pessoal, sendo superior o impacto potético que pretendemos testar, no qual são das percepções de RSE no comprometimen- analisados os efeitos interativos das práticas e to pessoal em colaboradores com menos an- políticas de RSE, do gênero, da idade, da antiguidade, quando comparados com colabo- tiguidade e da função dos colaboradores, na radores de mais antiguidade. predição do comprometimento pessoal. Finalmente, no concernente à variável função enquanto moderadora da relação entre as percepções de RSE e o comprometimento pessoal, propomos que o impacto das referidas percepções nesse nível de comprometimento seja maior em função de chefia, por comparação a outras funções exercidas pelos colaboradores. As funções de chefia, porque mais envolvidas nos processos de desenvolvimento e implementação de práticas e políticas de responsabilidade social interna e externa, tenderão a percebê-las de forma mais intensa e conhecedora, o que se refletirá em um acrescido impacto nos níveis de comprometimento pessoal destes. Nesse sentido estabelecemos a nossa última hipótese de investigação: Hipótese 4: A função dos colaboradores modera de forma significativa a relação entre as percepções de RSE desse stakeholder e o seu comprometimento pessoal, sendo o im- MÉTODO Caracterização da amostra3 A amostra de partida do nosso estudo é constituída por 300 colaboradores pertencentes a 13 pequenas e médias empresas do setor cerâmico (mín. = 20 trabalhadores e máx. 3 Os dados relativos à presente amostra foram recolhidos em 2007 em uma parceria entre o NEFOG (Núcleo de Estudo e Formação em Organização e Gestão) e o CTCV (Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro), estando assim integrada em um projeto de investigação mais amplo. O setor cerâmico, por sua história no contexto português, pela modernização de que tem sido alvo, pelo número significativo de empresas que contempla e pelas suas taxas de produtividade e exportação, assume inegável importância no cenário econômico português. A amostra foi previamente utilizada por Inverno (2008) no âmbito da análise do impacto das percepções de RSE no comprometimento organizacional. Tendo em conta os objetivos deste estudo, o recurso a essa amostra se revela adequado na medida em que foram recolhidos dados em torno das variáveis moderadoras de interesse (gênero, idade, antiguidade e função dos colaboradores), assim como das suas percepções de RSE - Escala RSE (Inverno e Rebelo, 2008) e comprometimento organizacional Escala de Comprometimento com a Organização – ASH –II (Quijano, Aparício, Bonavia, Masip, Navarro & Ruiz, 1999). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores 71 Figura 1 – Modelo hipotético dos efeitos interativos das práticas e políticas de RSE, do gênero, da idade, da antiguidade e da função dos colaboradores na predição do CP Variáveis demográficas: Gênero (H1) Idade (H2) Responsabilidade Social das Empresas Interna Externa Comprometimento Pessoal Variáveis profissionais Antiguidade (H3) Função (H4) = 316) que, no seu total, à data da coleta de dados, empregavam 1325 pessoas. A amostra de trabalhadores em cada empresa respeitou o respectivo organograma. Porém, os dados referentes a 11 (3,7%) colaboradores foram eliminados por conterem um número de itens não respondido igual ou superior a 10% em pelo menos um dos questionários autoadministrados (Bryman & Cramer, 2004), sendo que as restantes não respostas foram substituídas pelo método da regressão. Desse modo, após esses procedimentos iniciais, a amostra ficou com um total de 289 participantes. Do total da amostra de inquiridos, 47,1% são mulheres e 50,9% são homens. A mediana do grupo de idades se situa no intervalo dos 35 aos 40 anos. No que concerne ao tipo de contrato dos colaboradores, sublinhamos que, na presente amostra, 82% dos colaboradores são trabalhadores efetivos e 51,2% colaboram com as respectivas empresas há mais de 10 anos. Em adição, os colaboradores encontram-se repartidos pelas áreas: comercial (6,2%); administrativa (4,8%); financeira (0,3%); recursos humanos (1%); marketing (0,7%); qualidade (5,9%); produção (58,5); e investigação e desenvolvimento (1%). Em termos funcionais, contamos com 42,9% de operários/operadores; 15,5% de comerciais, administrativos e técnicos ; e 25,2% de chefias (encarregados, chefias de seção, direção de departamento e direção de topo). Instrumentos de medida Foram utilizados a mesma amostra e instrumentos que em Inverno (2008), de modo que apresentaremos resumidamente os resultados das análises fatoriais elaboradas pelo autor, em adição à exposição dos instrumentos em questão. Escala RSE A responsabilidade social das empresas foi avaliada com base na Escala RSE, desenvolvida por Inverno e Rebelo, em 2008, e utilizada por Inverno (2008). O referido instrumento visa obter uma medida das percepções dos colaboradores acerca das práticas e políticas de responsabilidade social concernentes às empresas com as quais colaboram. Trata-se de um questionário autoadministrado com uma escala tipo Likert de cinco pontos, pelo que, para responderem a questões relativas à empresa na qual trabalham, os inquiridos dispõem de cinco opções de resposta (1 – discordo muito; 2 – discordo; 3 – não concordo nem discordo; 4 – concordo; 5 – concordo muito). A Escala de RSE, em uma fase inicial Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 72 Vicente, Rebelo & Inverno constituída por um total de 26 itens, formulados com base nos indicadores mais preponderantes de responsabilidade social interna e externa, constantes no modelo do Livro Verde (Comissão das Comunidades Europeias, 2001), foi sujeita a um processo de depuração do qual resultou uma estrutura final composta por um total de dez itens. Tendo submetido os dez itens a uma análise fatorial exploratória em componentes principais (com rotação varimax e extração livre de fatores), Inverno (2008) encontrou uma estrutura bifatorial explicativa de uma variância total de 51,5%, tendo os itens revelado comunalidades e pesos fatoriais satisfatórios (superiores a 0,5). As dimensões sugeridas pela estrutura fatorial encontrada são equiparáveis às dimensões interna - RSEI (fator 1 - p.ex., item 3 – “Os colaboradores costumam ser solicitados para darem a sua opinião relativamente ao funcionamento da empresa”) e externa - RSEE (fator 2 – p.ex., item 11 – “A empresa onde trabalho, não só respeita, como também protege ativamente o meio ambiente”) do modelo de RSE proposto pela Comissão Europeia (Quadro 1).Cada fator é constituído por cinco itens que possibilitam a caracterização de uma empresa socialmente responsável, explicativos, respectivamente, de 26,14% e 25,32% da variância total. Os fatores apresentam ainda valores de alfa de Cronbach de 0,728 (dimensão interna) e 0,760 (dimensão externa), indicadores de um grau de consistência interna aceitável, porque superiores a 0,70 (Nunnally, 1978). Escala de Comprometimento com a Organização – ASH (Auditoria do Sistema Humano) Como medida avaliativa do construto de comprometimento organizacional (CO), recorremos ao questionário elaborado pela equipe ASH – Auditoria do Sistema Humano (Quijano & cols., 1999), construído com base em um conjunto de questionários de diversos autores detentores de destaque na temática de comprometimento organizacional (p.ex., Buchanon, 1974; O’Reilly & Chatman, 1986; Meyer & Allen, 1991; Porter, Steers & Boulian, 1974). Tal como a Escala RSE, trata-se de um questionário autoadministrado com uma escala tipo Likert de cinco pontos, (1 – discordo muito; 2 – discordo; 3 – não concordo nem discordo; 4 – concordo; 5 – concordo muito) e com um total de 25 itens que se debruçam sobre três construtos: comprometimento organizacional, identificação com a empresa e implicação com o trabalho. No âmbito do presente estudo, apenas faremos recurso à subescala dos 11 itens relativos ao comprometimento organizacional. Uma vez submetidos a um processo de depuração, dos 11 itens resultou uma estrutura final composta por três fatores obtida por meio de uma análise fatorial exploratória, com extração forçada de três fatores e rotação varimax. A variância total explicada por essa solução de três fatores foi de 68,3%. O primeiro fator – comprometimento pessoal (CP) – é composto por um total de seis itens e com um alfa de 0,866 é explicativo de 32,55% da variância (p.ex., item 4 – “O que esta empresa defende e apoia é importante para mim”). O segundo fator – comprometimento de necessidade (CN) – detentor de um alfa de 0,823, é constituído por três itens e explica 21,03% da variância total (p.ex., item 8 – “Creio que se surgisse outro trabalho algumas pessoas desta empresa abandonariam os seus postos imediatamente”). Finalmente, o terceiro fator – comprometimento de troca (CT) – com um alfa de 0,728, contém dois itens que se correlacionam positivamente (0,58) e é explicativo de 11,81% da variância total (p.ex., item 9 – “A menos que me recompensem por isso, não tenho razões para fazer esforços extra em benefício da minha empresa”). É ainda pertinente ressalvar que todos os itens apresentaram valores de saturação fatorial superiores a 0,50 e comunalidades favoráveis (Quadro 2). Note-se nesse âmbito o fit entre a estrutura encontrada e aquela resultante da análise efetuada por Quijano e cols. (2000): preten- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores 73 Quadro 1. Escala RSE: Saturações fatoriais (S) e Comunalidades (h2) (Fonte: Inverno, 2008) S Item Fator 1 Fator 2 h2 3. Os colaboradores costumam ser solicitados para darem a sua opinião referente ao funcionamento da empresa. 0,770 0,162 0,618 2. Esta empresa emprega pessoas com dificuldades de integração profissional (p.ex., desempregados há muito tempo ou pessoas portadoras de deficiência). 0,732 0,044 0,538 22. Existem serviços de apoio à família (jardim de infância, ATL, benefícios de saúde, etc.). 0,624 0,046 0,392 10. No caso de despedimentos, a empresa prepara antecipadamente os colaboradores para os desafios da procura de um novo emprego. 0,620 0,295 0,471 18. Os espaços desta empresa são agradáveis e confortáveis (p.ex., existem espaços de lazer e convívio, máquinas de comida e bebida, espaços limpos e organizados, etc.). 0,558 0,316 0,411 9. Os nossos produtos correspondem ao que anunciamos e publicitamos. -0,018 0,767 0,588 5. A nossa empresa estabelece uma relação transparente com os clientes. 0,217 0,759 0,623 23. Pode-se observar em todos os espaços e ações da empresa a preocupação que existe com a preservação do meio ambiente (p.ex., existem vários coletores para reciclagem). 0,095 0,685 0,479 11. A empresa onde trabalho, não só respeita, como também protege ativamente o meio ambiente (p.ex., níveis de ruído, da luz, da poluição, das emissões gasosas e do transporte e eliminação de resíduos). 0,379 0,588 0,489 12. Essa empresa se esforça por contribuir para o desenvolvimento da região. 0,448 0,579 0,536 No presente estudo, tendo em conta o n discrepante em cada nível das moderadoras, assim como a complexidade da análise de efeitos moderadores quando a variável categorial (moderadora) tem muitos níveis e visando maximizar o poder estatístico da regressão múltipla na detecção de efeitos interativos, foram previamente conduzidas análises da variância univariadas (ANOVA) com vistas à recategorização das variáveis moderadoras categoriais idade, antiguidade e função4. Assim, a ausência de diferenças estatisticamente significaRESULTADOS tivas entre os diferentes níveis das variáveis categoriais em questão no comprometimento Considerações e procedimentos prévios pessoal (CP), asseguraria a recategorização das Quando se pretendem analisar efeitos variáveis em um número menor de níveis. moderadores e uma das variáveis independen- 4 Neste sentido, com a finalidade de testar a existência tes é categorial – no presente estudo as variáveis de diferenciação entre os diferentes níveis das variáveis categoriais no comprometimento pessoa, foram gênero, idade, antiguidade e função são dessa conduzidas três análises da variância (ANOVA), uma natureza –, Frazier, Tix e Baron (2004) aponpara cada moderadora (idade, antiguidade e função). Adotamos um nível de significância mais conservador, a tam três opções metodológicas, entre as quais de0,025, para permitir um maior controle do erro de tipo a codificação da variável categorial, de forma a I. Ainda relativo ao processo de recategorização efetuado, realçamos que, para além dos resultados obtidos pelas tornar possível a avaliação dos efeitos moderaANOVAs, procuramos criar grupos com n semelhante, dores através da regressão múltipla hierárquica. não esquecendo, obviamente, o sentido que tinham que fazer do ponto de vista teórico. Essa foi a opção metodológica por nós adotada. dendo confirmar a multidimensionalidade do construto de CO, os autores analisam a estrutura do questionário ASH-ICI (Quijano, Massip, Navarro & Aubert, 1997a, 1997b) em uma amostra de 247 indivíduos pertencentes a dez organizações distintas. As análises demonstram uma aceitável fiabilidade do construto. Não obstante a estrutura dimensional apresentada, apenas a subescala de CP (Comprometimento Pessoal) será utilizada neste estudo. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 74 Vicente, Rebelo & Inverno Quadro 2. Escala de Comprometimento com a Organização – ASH-II: Saturações fatoriais (S) e Comunalidades (h2) (Fonte: Inverno, 2008). S Item h2 Fator 1 Fator 2 Fator 3 6. Prefiro a minha empresa a outras, pelos valores que ela defende e apoia. 0,802 -0,155 -0,129 0,611 11. Sinto-me orgulhoso de trabalhar nesta empresa. 0,767 -0,145 -0,392 0,699 1. Sinto que existe uma grande semelhança entre os meus valores e os valores da minha empresa. 0,753 -0,193 0,077 0,769 15. Sinto-me orgulhoso quando digo a outros que sou membro da minha empresa. 0,734 -0,113 -0,417 0,509 4. O que esta empresa defende e apoia é importante para mim. 0,678 -0,084 -0,204 0,782 10. Sinto-me parte desta empresa. 0,596 0,006 -0,417 0,683 5. Penso que alguns membros desta empresa iriam embora imediatamente se encontrassem outro trabalho. -0,049 0,849 0,242 0,748 8. Creio que se surgisse outro trabalho algumas pessoas desta empresa abandonariam os seus postos imediatamente. -0,152 0,847 0,082 0,695 2. Algumas pessoas desta empresa estão aqui porque não encontram outro trabalho. -0,190 0,809 0,088 0,529 3. Sinto que não estou disposto a dar mais a esta empresa em relação ao que recebo dela. -0,149 -0,272 0,820 0,758 9. A menos que me recompensem por isso, não tenho razões para fazer esforços extra em benefício da minha empresa -0,316 0,125 0,761 0,726 Da aplicação do procedimento acima apresentado, resultou o seguinte desdobramento das variáveis moderadoras em categorias: a variável idade foi recategorizada para dois níveis (até aos 40 anos e mais de 40 anos); a variável antiguidade foi recategorizada para dois níveis (até 10 anos e mais de 10 anos) e a variável função foi recategorizada para três níveis (chefias, ACT – administrativos, comerciais e técnicos - e operários(as)). De forma a avaliar o papel exercido pelas variáveis demográficas (gênero e idade) e profissionais (antiguidade e função) dos colaboradores na relação entre percepções de RSE e comprometimento pessoal, foram conduzidas seis análises de regressão múltipla hierárquica. Desde já realçamos que os testes aos pressupostos da regressão, realizados tendo por base as recomendações de diversos autores (Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005; Pestana & Gageiro, 2005; Tabachnick & Fidell, 2001), revelaram resultados satisfatórios nas diferentes análises. No que diz respeito à avaliação dos efeitos moderadores, de acordo com Jaccard e Turrisi (2003), quando estamos na presença de uma variável categorial dicotômica (dois níveis) devemos examinar os testes de significância dos coeficientes de regressão individuais associados ao termo-produto para afirmarmos a significância estatística do efeito de interação, não sendo necessário que a introdução dos termos de interação na equação de regressão seja significativa. Porém, quando estamos em presença de uma variável categorial de três ou mais níveis, para atestarmos a significância da interação, é necessário que a introdução dos termos que contêm as interações introduza variância significativa na variável dependente. Assim, o teste associado ao ΔR2 no passo em que entram os termos de interação deve ser significativo. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores Percepções de RSE e Comprometimento Pessoal No Quadro 3 são apresentadas as médias, desvios-padrão e as intercorrelações entre as dimensões de RSE e o comprometimento pessoal. do gênero e da idade, apresentada no Quadro 4, indica-nos que, em média, quer para o sexo feminino, quer para o masculino, quer para colaboradores com menos ou mais de 40 anos, as percepções de responsabilidade social interna são inferiores àquelas concernentes à dimensão externa. A análise do Quadro 5, relativo às regressões múltiplas hierárquicas com a variável gênero, permite-nos constatar que a introdução no terceiro passo, dos termos que contêm as interações introduz variância significativa no comprometimento pessoal (∆R2=0,02, p =0,03). O coeficiente de regressão relativo à interação entre a variável “feminino” (contrasta colaboradores do sexo feminino com colaboradores do sexo masculino) e a responsabilidade social das empresas é significativo para a sua dimensão externa (RSEE) (B=0,35, p =0,01) e não significativo na presença da dimensão interna de RSE (B= -0,05, p > 0,05). Assim, encontramos suporte parcial para a Hipótese 1. Os resultados obtidos com a análise de regressão múltipla hierárquica (Quadro 5), assim como a Figura 2, permitem-nos compreender que os colaboradores do sexo feminino, quando comparados com o grupo de referência (sexo masculino), parecem aumentar os seus níveis de comprometimento pessoal (CP) em consequência das práticas e políticas de RSE externa (RSEE) que percebem. No que concerne à variável idade, podemos, pela análise do Quadro 6, constatar que a introdução, no terceiro passo, dos termos que contêm as interações, introduz variância significativa no comprometimento pessoal Quadro 3. Intercorrelações, médias e desvios-padrão da RSEI, RSEE, CP M DP 1 1. RSEI 13,19 3,64 -- 2. RSEE 17,99 3,31 0,52** 3. CP 21,18 4,13 0,41** 0,59** 2 3 4 5 --- * p < 0,05; ** p < 0,01 A análise das duas dimensões da RSE, dimensão interna e dimensão externa, revela-nos que os colaboradores percepcionam mais práticas e políticas de responsabilidade social externa (M =17,99; DP = 3,31), comparativamente a práticas e políticas de responsabilidade social interna (M = 13,19; DP = 3,64), sendo que ambas as dimensões revelam se correlacionar de forma positiva e significativa com o comprometimento pessoal [r = 0,41 (p <0001) para a RSEI e r = 0,59 (p <.001) para a RSEE]. A análise desses resultados sugere que, quanto maiores as percepções de RSE (em ambas as dimensões), maiores tendem a ser os níveis de comprometimento pessoal. Variáveis individuais na relação entre Percepções de RSE e Comprometimento Pessoal A análise da frequência média das dimensões interna e externa de RSE em função Quadro 4. Pontuações médias e desvios-padrão da RSEI, RSEE em função do gênero e da idade. Gênero Idade Feminino n =136 Masculino n = 147 Até 40 anos n = 181 Mais de 40 anos n = 104 M DP M DP M DP M DP RSEI 13,21 3,86 13,14 3,52 13,05 3,50 13,29 3,99 RSEE 17,70 3,55 18,26 3,06 17,69 3,25 18,43 3,36 CP 20,37 4,23 21,83 3,79 20,64 3,97 21,95 4,04 Variáveis 75 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 76 Vicente, Rebelo & Inverno Quadro 5 – Resultados das análises de regressão múltipla hierárquica com a RSE e o gênero e a sua interação na predição do CP. Variáveis Comprometimento Pessoal B EPB b 0,17 0,63 0,06 0,07 0,15* 0,51** Passo 2. RSEI 0,18 RSEE 0,61 Género feminino -1,13 0,06 0,07 0,40 0,16** 0,49** -0,14** Passo 3. RSEI RSEE Feminino RSEI X Feminino RSEE X Feminino 0,09 0,10 0,39 .13 0,14 0,19* 0,34** -0,14** -0,04 0,21* Passo 1. RSEI RSEE 0,21 0,42 -1,14 -.05 0,35 R2 ∆R2 Quadro 6 – Resultados das análises de regressão múltipla hierárquica com a RSE e a idade e a sua interação na predição do CP Variáveis Comprometimento Pessoal B EPB b R2 0,33** 0,36** Passo 1. RSEI RSEE 0,15 0,62 0,06 0,07 0,14* 0,51** 0,38** 0,02** Passo 2. RSEI RSEE >40 0,16 0,61 0,83 0,06 0,07 0,41 0,14* 0,50** 0,10* Passo 3. RSEI RSEE >40 RSEI X >40 RSEE X >40 0,18 0,59 0,82 -0,06 0,04 0,08 0,09 0,42 0,13 0,15 0,17* 0,48** 0,10 -0,04 0,02 0,40** 0,02* 0,37** 0,38** ∆R2 0,03* 0,03* *p < 0,05; ** p < 0,01 Figura 2 – Impacto da RSEE no CP em função do género dos colaboradores mais de 10 anos de antiguidade, quer para chefias, ACT ou operários5, as percepções de responsabilidade social externa são superiores àquelas referentes à dimensão interna. A análise do Quadro 8, relativo às regressões múltiplas hierárquicas com a variável antiguidade, permite-nos verificar que a introdução, no terceiro passo, dos termos que contêm as interações não demonstra variância significativa no comprometimento pessoal (ΔR2=0,00, p =0,48). Em adição, os coeficientes de regressão relativos à interação não são significativos, pelo que não encontramos suporte para a Hipótese 3. A variável antiguidade ou tempo de trabalho na empresa não revelou moderar a relação entre as percepções de RSE (interna e externa) e o comprometimento pessoal. Finalmente, o teste da Hipótese 4 (Quadro 9) relativo a uma variável categorial de 3 níveis (função) requer que a introdução, no terceiro passo, dos termos que contêm as interações se traduza em um acréscimo da variabilidade explicada na VD (comprometimento pessoal), fato que se verificou na aná- Comprometimento Pessoal *p < 0,05; ** p < 0,01 Responsabilidade Social Externa das Empresas (CP) (∆R2=.03, p =.03). Todavia, uma vez que os coeficientes de regressão relativos à interação entre a variável “> 40” (contrasta colaboradores com mais de 40 anos com colaboradores com menos de 40 anos) e a dimensão interna (B= -0,06, p =0,65) e externa (B=0,04, p =0,77) de responsabilidade social não são significativos, não encontramos suporte para Hipótese 2. Variáveis profissionais na relação RSE e Comprometimento Pessoal A análise do Quadro 7, no que toca à frequência média das dimensões interna e externa de RSE em função da antiguidade e da função, indica-nos que em média, quer para colaboradores com menos de 10 anos ou com 5 A variável categorial função encontra-se subdividida em três níveis: (1) chefias - direção de topo, direção de departamento, chefia de seção e encarregado; (2) ACT administrativos, comerciais e técnicos); e (3) operários(as). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores 77 Quadro 7. Pontuações médias e desvios-padrão da RSEI, RSEE, CP em função da antiguidade na empresa e da função Antiguidade Até 10 anos n =136 Função Mais de 10 anos n =148 Operários n =124 ACT n =45 Chefias n =73 M DP M DP M DP M DP M DP RSEI 13,35 3,71 12,86 3,58 13 3,17 12,80 3,90 13,47 4,10 RSEE 17,83 3,29 18,06 3,30 17,62 3,04 18,63 3,68 18,46 3,53 CP 20,52 4,01 21,60 3,98 20,22 3,95 21,62 3,63 22,48 3,94 Variáveis Quadro 8 – Resultados das análises de regressão múltipla hierárquica com a RSE e a antiguidade e a sua interação na predição do CP Comprometimento Pessoal Variáveis B EPB b Passo 1. RSEI RSEE 0,15 0,62 0,06 0,07 0,14* 0,51** Passo 2. RSEI RSEE Até 10 anos 0,17 0,60 -1,03 0,06 0,07 0,40 0,15** 0,49** -0,13* Passo 3. RSEI RSEE Até 10 anos RSEI X Até 10 anos RSEE X Até 10 anos 0,11 0,59 -1,02 0,12 0,02 0, 09 0,09 0,40 0,13 0,14 0,10 0,48** -0,13* 0,08 0,01 R2 ∆R2 0,35** 0,36** 0,02* 0,37** 0 *p < 0,05; ** p < 0,01 lise (ΔR2=0,03, p =0,03). É de salientar que o coeficiente de regressão relativo à interação entre a variável “ACT” (contrasta administrativos, comerciais e técnicos com o grupo de referência – operários) e a dimensão externa de responsabilidade social das empresas (RSEE) é significativo (B= -0,63, p <0,001), contrariamente àquele relativo à interação entre a variável “Chefias” e a dimensão externa de RSE (B= -0,10, p =0,55). A dimensão interna de RSE, pelo contrário, não revelou interagir com nenhuma das categorias de função na predição do comprometimento pessoal. Assim, a hipótese segundo a qual a função dos colaboradores modera a relação entre as percepções de RSE e o CP é parcialmente suportada pelos dados. Os resultados obtidos com a análise de regressão múltipla hierárquica (Quadro 9), assim como a Figura 3, permitem-nos concluir que a interação entre “Chefias” e a RSEE na predição do comprometimento pessoal não é significativa, quando comparamos este nível (chefias) com o grupo de referência. Tal como demonstra a Figura 3, as duas retas relativas a “chefias” e “operários” são praticamente paralelas, pelo que apenas se cruzam em valores extremamente altos (provavelmente inverossímeis) de responsabilidade social externa das empresas. Contrariamente ao exposto, a reta para o nível “ACT” (administrativos, comerciais e técnicos) intercepta a reta do grupo de referência (operários), corroborando a significância da interação RSEE X ACT na pre- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 Vicente, Rebelo & Inverno Quadro 9 – Resultados das análises de regressão múltipla hierárquica com a RSE e a função e a sua interação na predição do CP Variáveis Comprometimento Pessoal B EPB Passo 1. RSEI RSEE 0,12 0,61 0,07 0,08 0,11 0,33** 0,51** Passo 2. RSEI RSEE Chefias ACT 0,13 0,59 1,71 0,83 0,07 0,08 0,50 0,58 0,11 0,49** 0,37** 0,03** 0,20** 0,08 Passo 3. RSEI RSEE Chefias ACT RSEI X Chefias RSEI X ACT RSEE X Chefias RSEE X ACT 0,08 0,75 1,65 1,17 -0,01 0,31 -0,10 -0,63 0,10 0,11 0,49 0,59 0,16 0,18 0,17 0,19 0,07 0,63** 0,19** 0,12* 0,40** 0,03* -0,01 0,13 -0,05 -0,26** b R2 ∆R2 *p < 0,05; ** p < 0,01 dição do comprometimento pessoal quando o grupo de referência são os “operários”. Assim, níveis elevados de RSE externa detêm o maior impacto no comprometimento pessoal dos operários, pelo que os administrativos, comerciais e técnicos, comparativamente aos últimos, são menos “atingidos” nos seus níveis de comprometimento pessoal decorrentes de percepções de práticas e políticas de RSE externa. Dessa forma, espera-se que colaboradores que levem a cabo um trabalho detentor de um pendor mais fabril, experienciem níveis superiores de comprometimento pessoal como consequência das suas percepções de RSE externa, nomeadamente quando comparados com outros detendo funções administrativas, comerciais ou técnicas. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Tendo Inverno (2008) suportado o papel das percepções de RSE dos colaboradores na predição do comprometimento pessoal, no âmbito desta investigação, e porque nas ciências sociais nenhuma relação entre dois construtos é direta, propusemo-nos explorar o papel exercido, nessa relação, por variáveis Figura 3 – Impacto da RSEE no CP em função da função dos colaboradores Comprometimento Pessoal 78 Responsabilidade Social Externa das Empresas individuais e profissionais dos colaboradores. Os resultados expostos na seção anterior, como pudemos constatar, forneceram suporte parcial para duas das hipóteses de investigação por nós formuladas. O primeiro conjunto de resultados se relaciona com os efeitos moderadores das variáveis individuais, gênero e idade, na relação entre percepções de RSE no comprometimento pessoal, previstos pelas hipóteses 1 e 2, respectivamente. Relativamente ao efeito moderador da variável gênero, encontramos suporte parcial para a Hipótese 1. Os resultados significativos encontrados indicam que o efeito das percepções de responsabilidade social externa no comprometimento pessoal é moderado pela variável gênero. Concluímos que o impacto das percepções de práticas e políticas de responsabilidade social externa, dimensão com uma ênfase extra e interorganizacional, no comprometimento pessoal, é mais notório em colaboradores do sexo feminino em comparação a colaboradores do sexo masculino. Contrariamente ao esperado, porque havíamos considerado que a dimensão de responsabilidade social interna, contemplando no modelo do Livro Verde indicadores referentes à gestão responsável da conciliação trabalho-família, tenderia a expressar níveis mais elevados de vinculação afetiva e valorativa para com a organização nas colaboradoras (sexo feminino), as percepções de práticas e políticas concernentes a essa dimensão de RSE não revelaram interagir com o gênero na Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores predição do comprometimento pessoal. Entre inúmeros fatores passíveis de explicar tal resultado, atentemos no seguinte: analisando os itens que a dimensão interna (fator 1) da Escala RSE contempla, podemos constatar que os mesmos não consideram de forma abrangente a questão da conciliação trabalho-família, pelo que, ainda que práticas e políticas de RSE concernentes a essa problemática possam ser percebidas pelos colaboradores, porque não suficientemente contempladas no âmbito do questionário administrado à amostra do nosso estudo, não puderam ser expressas. Tal fato pode ser, potencialmente, explicativo da não interação significativa dessa dimensão com o gênero dos colaboradores na predição do comprometimento pessoal. Apontando a referida lacuna à Escala RSE, sublinhamos a preponderância de rever os itens relativos à dimensão interna, com vistas a contemplar um espectro mais abrangente de indicadores que permitam atestar, com maior rigor, os efeitos interativos dessa dimensão de responsabilidade social com o gênero. A Hipótese 2, relativa ao efeito moderador da variável idade dos colaboradores na relação entre as percepções de RSE e o comprometimento pessoal, não foi suportada, pelo que os resultados não significativos encontrados indicam que o efeito das percepções de práticas e políticas de RSE no comprometimento pessoal dos colaboradores não varia em função dos diferentes níveis da variável moderadora considerada: a idade. O segundo conjunto de resultados que iremos analisar diz respeito aos efeitos moderadores das variáveis profissionais dos colaboradores – antiguidade e função – na relação entre percepções de práticas e políticas de responsabilidade social e comprometimento pessoal. Contrariamente ao que havíamos previsto na Hipótese 3, a antiguidade dos colaboradores não revelou interagir de forma significativa com as percepções de responsabilidade social na predição do comprometimento pessoal. Assim, concluímos que, na nossa amos- 79 tra, o impacto dessas percepções nos níveis de comprometimento pessoal exibidos pelos colaboradores não varia em função do seu tempo de trabalho na organização. Por fim, no que concerne à variável função enquanto moderadora da relação entre percepções dos colaboradores de práticas e políticas de RSE e o comprometimento pessoal, encontramos suporte parcial para a Hipótese 4, uma vez que a responsabilidade social externa das empresas revelou interagir significativamente com a variável ACT (administrativos, comerciais e técnicos) na predição do comprometimento pessoal. Dessa forma, concluímos que os administrativos, comerciais e técnicos, comparativamente aos operários, são menos afetados no comprometimento pessoal pelas suas percepções de RSEE. Na argumentação relativa à Hipótese 4, havíamos proposto que as funções de chefia, habitualmente mais envolvidas nos processos de desenvolvimento e implementação de práticas e políticas de RSE, tenderiam a percebê-las de forma mais intensa e conhecedora desenvolvendo, como consequência, níveis superiores de comprometimento pessoal em comparação aos níveis hierárquicos inferiores (operários). Todavia, constatamos que a diferença do impacto das percepções de responsabilidade social externa no comprometimento pessoal entre as funções de chefia e os operários não é significativa, sendo que, embora as chefias estejam envolvidas no processo de desenvolvimento e implementação da RSE, é fundamental compreender que aos operários cabe o cumprimento das instruções e procedimentos decorrentes da implementação de práticas e políticas de responsabilidade na empresa. É, contudo, possível que a aglutinação de funções em categorias tão amplas tenha impedido a obtenção de resultados de maior interesse. Pela discussão que efetuamos dos resultados obtidos, podemos verificar que quando da presença de efeitos interativos entre as variáveis moderadoras consideradas e as percepções de responsabilidade social, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 80 Vicente, Rebelo & Inverno tal ocorre sempre com a dimensão externa de RSE. Já nos resultados obtidos por Inverno (2008), e contrariamente ao previsto pelo autor, a dimensão de RSE revelou um maior poder preditivo do comprometimento organizacional, se comparado à dimensão interna do construto. Uma vez que o stakeholder por nós considerado são os colaboradores, era de esperar que a dimensão interna de responsabilidade social, porque explicitamente direcionada para esse stakeholder, revelasse efeitos interativos significativos com as variáveis moderadoras apresentadas (gênero, idade, antiguidade e função), o que não se verificou. Questionando-nos acerca do porquê dessa dimensão não ter sobressaído nos nossos resultados, argumentamos que o fato das percepções de práticas e políticas de responsabilidade social externa terem média superior na nossa amostra, por comparação à dimensão interna, poderá ter alguma influência nos resultados obtidos. Tais resultados podem ser interpretados à luz da temática da imagem organizacional. De acordo com Collier e Esteban (2007) a forma como a organização é percebida pelos vários elementos que lhe são externos é fundamental na identificação dos colaboradores com a organização. Tendo em conta que Quijano e cols., (2000) sublinham que a dimensão pessoal do comprometimento organizacional é próxima da identificação organizacional, duas questões concernentes à imagem organizacional permitem-nos, de algum modo, compreender o porquê da dimensão externa de RSE se revelar mais veemente na interação com variáveis moderadoras na predição do CP. Dessa forma, podemos inferir que o comprometimento pessoal dos colaboradores é desenvolvido, entre outros, em função da imagem que os colaboradores têm acerca da forma como a organização é percebida pelos outros. Assim, é plausível afirmar que os colaboradores integrantes da nossa amostra, atribuindo maior importância a questões de imagem externa e em consequência à dimen- são externa de práticas e políticas de RSE, cujo enfoque são os stakeholders externos, desenvolvam, em consequência maiores níveis de vinculação afetiva e valorativa para com a organização. Em congruência com a notoriedade que a dimensão externa de responsabilidade social revelou nos nossos dados, encontram-se os estudos concernentes à relação entre reputação organizacional e atitudes de trabalho dos colaboradores. De acordo com a referida área de investigação, os colaboradores sentem orgulho na pertença a organizações detentoras de uma reputação favorável, desenvolvendo, consequentemente, atitudes de trabalho positivas pela sua associação a uma organização estimada (Ashfoth & Mael, 1989; Dutton, Dukerich & Harquail, 1994; Hess, Rogovsky & Dunfee, 2002; Maignan & Ferrell, 2001). Assim, poderíamos afirmar que a nossa amostra parece valorizar mais as projeções externas de práticas e políticas de responsabilidade social, pela intervenção organizacional nas comunidades locais, pelo estreitamento de relações com parceiros, fornecedores e consumidores, pela preocupação com os direitos humanos e com problemáticas ambientais e globais. Por outro lado, será pela sua não proeminência nas empresas, que as práticas de responsabilidade interna não se revelam tão impactantes no CP dos colaboradores? Talvez estejamos em presença, na nossa amostra, de práticas e políticas empresariais de responsabilidade social interna desintegradas. Assim, ainda que práticas e políticas de RSE interna sejam comunicadas e publicitadas aos stakeholders principais, aos colaboradores chegam somente sob a forma de instruções ou briefings. Nessa linha, porque não verdadeiramente integradas no seio organizacional, não afetam tanto o comprometimento pessoal dos colaboradores, em comparação com as práticas externas. Não obstante as nossas hipóteses terem sido apenas parcialmente suportadas pelos nossos dados, cremos nesse âmbito ser fulcral Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 RSE e CO: moderadores expressar que qualquer gestor não deverá de forma alguma conceber a implementação de práticas e políticas de responsabilidade social como detendo um efeito direto e linear no nível individual, nomeadamente no que concerne ao comprometimento organizacional, especificamente naquele que as organizações mais desejam, o comprometimento pessoal. É fundamental que se compreenda que tais relações variam, quando trabalhamos com pessoas, em função de toda um considerável conjunto de variáveis. De acordo com o nosso estudo, parecem pelos menos variar em função do gênero e função. Encerrando o presente estudo com um conjunto de limitações, entre as quais estão o fato de não ser longitudinal e a própria natureza da nossa amostra de investigação, sublinhamos a pertinência de, em investigações futuras, desenvolver modelos investigacionais mais complexos: fazendo recurso, por exemplo, a outros tipos de resultados organizacionais de relevo, como a satisfação e motivação dos colaboradores; considerando o papel de outras variáveis como possíveis moderadoras do impacto da responsabilidade social das empresas no comprometimento organizacional, como o contrato dos colaboradores, a sua área departamental, a comunicação organizacional, desenvolvendo a investigação em uma amostra maior e detentora de maior heterogeneidade e por fim, conduzindo não apenas estudos fragmentados e transversais, mas sim estudos longitudinais. CONCLUSÕES Tendo a presente investigação o objetivo de aprofundar e esclarecer o impacto que as percepções de práticas e políticas de responsabilidade social das empresas exercem nos níveis de comprometimento organizacional expressos pelos colaboradores, designadamente o pessoal, apenas encontramos suporte parcial para as hipóteses por nós estabelecidas. Não obstante o referido, consideramos que o nosso estudo oferece alguns contributos do ponto de vista acadêmico e do 81 ponto de vista prático. Do ponto de vista acadêmico, fornece evidência empírica de que o gênero e o tipo de função dos colaboradores moderam de forma significativa o impacto exercido pelas políticas e práticas de RSE, na sua dimensão externa, no comprometimento pessoal dos mesmos. Do ponto de vista prático, e como conclusão, é fundamental que as organizações, quando da concepção/definição e implementação de políticas e práticas de responsabilidade social, tenham em linha de conta todo um conjunto de variáveis referentes aos colaboradores, na medida em que a RSE exerce níveis potencialmente distintos no comprometimento organizacional destes em função, segundo o nosso estudo, do seu gênero e função. REFERÊNCIAS Ashforth, B., & Mael, F. (1989). Social identity theory and the organization. Academy of Management Review, 14, 20-39. Barnett, M. (2007). Stakeholder influence capacity and the variability of financial returns to corporate social responsibility. Academy of Management Review, 32 (3), 794-816. Bryman, A., & Cramer, D. (2004). Constructing variables. In M. Hardy, & A. Bryman (Eds.), Handbook of data analysis (pp. 17-34). London: Sage. Buchanon, B. (1974). 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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 65-83 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo - Relato de Pesquisa Empírica Do Estresse e Mal-Estar Gerencial ao Surgimento da Síndrome de Estocolmo Gerencial Marlene Catarina de Oliveira Lopes Melo* Meire Rose de Oliveira Loureiro Cassini* Ana Lúcia Magri Lopes* * Faculdade Novos Horizontes. Rua Alvarenga Peixoto, 1270, Bairro Santo Agostinho, CEP: 30180121, Belo Horizonte, MG. Fone: (31) 3293- 7010, (31) 3293- 7026. Emails: [email protected], [email protected], [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivo analisar o mal-estar gerencial vivenciado pelos gestores do setor de informática, considerando as variáveis pressões e estresse, presente nas práticas gerenciais. O estudo é de natureza qualitativa. Foram realizadas 36 entrevistas semiestruturadas, com gerentes em 10 empresas de médio e grande porte do setor de informática localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, MG. As entrevistas foram gravadas e transcritas posteriormente, preservando-se na íntegra o discurso dos gerentes. A análise dos dados fundamentou-se nos princípios da análise de conteúdo. A pesquisa permitiu o surgimento de duas descobertas: primeiro, a necessidade de se conhecer as fontes de estresse gerencial para diagnosticar condições de trabalho do gestor e formular proposições para uma melhor qualidade de vida desse grupo profissional. A segunda e mais significativa, apontou para uma percepção de normalidade das situações de pressão, cobranças, falta de tempo, exigências de atualizações aceleradas e constantes, entre outras, até então consideradas como condições de estresse e de adoecimento presentes no exercício da função gerencial. A estas “normalidades” apresentadas, denominamos de Síndrome de Estocolmo Gerencial, revelando um novo contexto para a análise da função gerencial no campo do estresse e do mal-estar no âmbito organizacional. Palavras-chave: estresse, mal-estar gerencial, síndrome de Estocolmo gerencial. Abstract From Management Stress and Discomfort to the Emergence of Management Stockholm Syndrome This article aims to analyze the managerial malaise experienced by computer industry managers, considering the variable pressures and stress that occur in management practice. The study is qualitative in nature. 36 semi-structured interviews were conducted with managers in 10 companies, medium-size and large, from the computer industry in the metropolitan area of Belo Horizonte, MG. The interviews were recorded and later transcribed, preserving the managers’ full discourse. Data analysis was based on the principles of content analysis. The research revealed two discoveries: the first, a need for awareness of the sources of management stress in order to diagnose management working conditions and formulate proposals for a better quality of life for this professional group. The second, and more significant, indicated a perception of normality of situations involving pressure, budget issues, lack of time, demands for accelerated and constant updates, among others, hitherto regarded as conditions for stress and illness seen in the exercise of the managerial function. To these exhibited “normalities” we give the name Management Stockholm Syndrome, revealing a new context for analysis of the managerial role in the field of stress and discomfort in the organizational context. Keywords: Stress, Managerial Malaise, Management Stockholm Syndrome Melo, Cassini & Lopes. Síndrome de Estocolmo Gerencial Recebido em: 09.12.2010 Aprovado em: 26.11.2011 Publicado em: 30.12.2011 Síndrome de Estocolmo Gerencial INTRODUÇÃO T em sido observada a fluidez de produtos, matéria-prima, capital e trabalho por todo o mundo, acendendo a exasperação da competitividade, com reflexos nas constantes adequações no interior das organizações, além de percebíveis transformações nos conceitos de produtividade, qualidade, dos requisitos de qualificação dos recursos humanos e dos modelos de gestão. Tais situações comprometem a vida profissional, passando a exigir mais flexibilidade e maior qualificação do trabalho das pessoas no espaço organizacional (Kingeski, 2005). Assim sendo, as organizações se concentram na estruturação de um quadro profissional/funcional mais ágil e cada vez mais condensado, capaz de responder com mais rapidez às constantes mudanças. Corroborando, Melo (2000) aponta que as organizações estão em busca de profissionais aptos a trabalharem em equipe, capazes de terem uma ação flexível, com iniciativa, mas orientados para resultados. De forma a suportar essas novas manifestações no mundo das organizações, a informática vem sendo aplicada como meio de capacitação e diferenciação por aqueles que a utilizam. Daniels (1996) destaca que as organizações devem tornar a distância e o tempo mínimos e, coletivizar as informações entre os funcionários. De um modo geral, busca-se a renovação tecnológica, pois, através desse desenvolvimento surgem outras e novas formas de produção, armazenamento, processamento, recuperação e transmissão de informações. Nesse contexto surgem novos e complexos desafios para os gerentes, uma vez que o teor da mudança é produzido pelos próprios gerentes, cabendo a esse grupo funcional o papel de difusão do fluxo das informações que são geradas pelas mudanças e, posteriormente, disseminadas pela organização. Ressalta-se que as práticas gerenciais concretizam, por meio de decisões e ações, a ideia de transformar a realidade da organização em 85 prol dos objetivos organizacionais e dos resultados almejados (Melo, 2007). A realidade do mundo do trabalho, permeado por pressões e mudanças constantes, requer mais e mais ações estratégicas para enfrentá-las e promover o mínimo de bem-estar no ambiente organizacional. Assim, a proposta deste artigo é analisar, a partir da percepção de gestores do setor de informática, o mal-estar gerencial por eles vivenciado, considerando as variáveis pressões e estresse presentes no exercício da função gerencial. Para este estudo, foram realizadas 36 entrevistas semiestruturadas, sendo 18 com gerentes do sexo feminino e 18 com gerentes do sexo masculino, em 10 empresas de médio e grande porte do setor de informática, localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte – MG. O artigo está estruturado em cinco outras seções, além desta introdução. A segunda apresenta o aporte teórico. A terceira seção traz a metodologia aplicada neste estudo. A quarta seção discute os dados coletados, seguida das considerações finais e referências. APORTE TEÓRICO Da função à prática gerencial Apesar dos múltiplos estudos e pesquisas no campo gerencial, desde o início do século passado, a definição da função gerencial permanece fragmentada, ambígua e dispersa, o que torna difícil definir objetivamente o papel do gestor em uma organização. De acordo com Motta (1995), existe uma concordância sobre os papéis e as funções, no entanto, não há uma homogeneidade sobre o que significa ser gerente, o que tem estimulado vários estudiosos da administração a se dedicarem à ação gerencial. Mesmo os autores clássicos da Teoria das Organizações já apontavam para a função gerencial, apresentando características funcionais e/ou comportamentais ainda presentes nas discussões teóricas da primeira década do século XXI. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 86 Melo, Cassini & Lopes Taylor (1970), no início do século XX, elucida parte da função do gerente em seus estudos observando diretamente o trabalho de operários, destacando o que chamou de “supervisão funcional”, pela qual o gerente assume responsabilidades na concepção e no andamento do processo produtivo. Fayol (1990), também no início do século passado, identifica as clássicas cinco funções básicas: planejamento/previsão, organização, direção/ comando, coordenação e controle. Segundo o autor, além de ter competência, responsabilidade e autoridade sobre o processo produtivo, o gerente deve, ainda, ser dotado de iniciativa, colaborar com a subordinação dos interesses individuais aos organizacionais, estar atento à remuneração do pessoal, associado à percepção de justiça, de imparcialidade e de estabilidade, promovendo o espírito de equipe e a sua satisfação. Na análise de Weber (1946), o gestor ocupa um cargo formal na burocracia, ou seja, ele detém uma especialização e um poder permitido e delimitado, inicialmente, pelo cargo ocupado. Nessa perspectiva, a função gerencial é legitimada tanto pelo nível hierárquico que ocupa, como pela meritocracia, competência técnica, profissionalização e pela separação entre a administração da organização e sua propriedade, implicando em racionalidade e funcionalidade. Dando sequência a essa análise Blau e Scott (1970) e Selznick (1972) fazem uma apreciação crítica do modelo, apontando as disfunções burocráticas no trabalho efetivo dos gerentes, relacionados à divisão do trabalho e aos processos de delegação levando ao questionamento da competência técnica do gestor, o que mina sua autoridade formal. Para Simon (1965), o gestor é essencialmente um tomador de decisões e para o desempenho da sua função é necessário que se tenha capacidade de compreender as condições e os problemas organizacionais, identificar suas causas, criar alternativas e soluções, avaliar as opções, escolher uma alternativa satisfatória, colocar em prática e controlar os resultados. Motta (2001) ressalta que o gerente é parte do processo decisório organizacional. Seu comportamento, ou seja, seus valores, atitudes individuais, bem como as experiências administrativas e sua própria subjetividade influenciam as decisões que serão tomadas no âmbito organizacional. Mintzberg (1986) identificou dez papéis gerenciais reunidos em três grupos, a saber: papéis interpessoais, papéis de informação e papéis de decisão. O autor realça que o desempenho do papel gerencial está condicionado a amplitude das habilidades que, na sua concepção são: de relacionamento, de liderança, de resoluções de conflitos, de processamento de informação, de tomar decisões em condições de ambiguidade, de alocação de recursos, de empreendedor e de introspecção. Para Melo (2000), a função gerencial, no seu conjunto, apresenta fases distintas segundo o contexto social, tecnológico e político, sinalizando uma evolução do modelo de gestão considerado mais apropriado às organizações contemporâneas. Essas fases surgem de acordo com o nível de desenvolvimento de cada organização e são destacadas em quatro fases: A primeira fase retrata o gerente deixando o papel de burocrata em busca do conhecimento para assumir o papel de gerenciador de pessoas e de processos. A segunda fase incide na modernização da função gerencial, quando o gestor percebe o imperativo de mudanças na sua forma de trabalhar e começa a entender o todo da organização, busca a eficiência e um melhor desempenho dos integrantes visando resultados organizacionais. A terceira fase destaca a função gerencial como uma parceria com os subordinados e com a organização, para que o gerente obtenha sucesso. A quarta fase se refere à função gerencial compartilhada, onde acontece uma mudança da perspectiva da ação gerencial em relação à função do gerente, incluindo no processo a equipe e práticas de empowerment, ou empoderamento, de pessoas e de equipes. Trata-se de formas de construir novos mecanismos Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial de tomada de decisões e de responsabilidades compartilhadas. Na verdade, trata-se de novas concepções do exercício do poder no ambiente organizacional. Segundo Dubar (1997), as habilidades e competências gerenciais possuem caráter relacional. Nesse sentido, o papel do gestor não pode ser considerado uma tarefa simples, uma vez que exige conhecimentos e habilidades no trato das questões sociais e técnicas que constituem os processos organizacionais. Melo (2002) destaca também que a atuação do gerente contribui, de maneira direta, para o desenvolvimento de instrumentos, processos, ritos e argumentos nas relações interpessoais, agindo de forma importante na regulação dos conflitos organizacionais. O caráter multifacetado da função gerencial é também ressaltado por Hill (1993), entre outros autores. As características de variedade e de fragmentação do trabalho gerencial se explicam face sua dependência em relação aos outros atores sociais, principalmente os subordinados e pela natureza ambígua da função. Para o alcance de metas e objetivos, a tarefa acaba se tornando árdua, por agregar esforços variados em campos diferentes indo dos psicológicos aos técnicos e todos inseridos nas relações de poder. Em relação às características femininas, Davel e Melo (2005) expõem que estas podem trazer um diferencial no exercício da função gerencial. No entanto, fazer referência a um “estilo feminino” de gerência, significaria, de algum modo, reforçar os paradigmas patriarcais. A lacuna existente a respeito de um consenso sobre a função gerencial, até mesmo entre os gerentes, observando-se, portanto, a enorme diversidade de percepções sobre os desafios que se impõem aos gerentes, às características e habilidades que eles precisam ter, além das múltiplas contradições que esse grupo profissional vivencia no exercício de suas funções, no entanto, deve ser destacado (Melo, 2000; 2002; 2006). 87 Sobre pressão, estresse e mal-estar gerencial No Brasil, a partir dos anos de 1990, os gerentes passaram a conviver com novas situações de trabalho nas organizações, como a criação de unidades de negócio, redução dos níveis hierárquicos e discurso do gerente parceiro, o que os levou a uma nova vivência em seu campo profissional e a novas exigências, segundo as regras da lógica do novo capitalismo. Sennett (1999) analisa os efeitos das práticas do novo capitalismo sobre os indivíduos. Entre essas práticas, destacam-se duas com forte efeito sobre o trabalho gerencial: o trabalho flexível e os sistemas de poder que se escondem nas modernas formas de flexibilidade. O autor examina que, ao se falar de riscos, situação inerente ao trabalho flexível, utiliza-se a ideia de “estar em risco”, o que é mais deprimente do que promissor. As proposições dos manuais de negócios referentes ao risco diário da organização flexível indicam, de fato, o estado contínuo de vulnerabilidade vivido pelos indivíduos. “Provoca-se, assim, uma espécie de preocupação surda, contínua, reforçada pela exagerada ambiguidade do sucesso e fracasso” (Sennett, 1999, p. 97). As diversas formas de flexibilidade escondem a concentração de poder sem a real descentralização do poder. A sobrecarga dos pequenos grupos de trabalho é uma característica frequente da reorganização das empresas. Assim, a nova ordem acrescenta novas formas de poder desigual e arbitrário nas organizações. O controle pode ser estabelecido por meio da criação de metas de produção ou lucro para uma grande variedade de grupos na organização, em que cada unidade tem “liberdade” de cumprir as metas da maneira que julgar adequada. Raramente as organizações flexíveis estabelecem metas de fácil cumprimento. Em geral, as unidades são pressionadas a produzir ou a ganhar muito mais do que está ao alcance de suas capacidades imediatas (Harrison, 1994). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 88 Melo, Cassini & Lopes Não se tem dúvida de que o trabalho, bem como suas condições, pode trazer consequências negativas ou positivas para a saúde e qualidade de vida das pessoas (Levi, 2008). Segundo o autor, a relação funciona em mão dupla, onde o trabalho pode afetar a saúde em todos seus aspectos, físicos, mental, as relações familiares e sociais. Para Cooper, Sloan e Williams (1988), o estresse organizacional é desencadeado devido às consequências físicas e mentais nocivas, desenvolvidas em função da percepção de características, vistas pelo indivíduo como negativas, em seu ambiente de trabalho. Nessa acepção, o indivíduo não se sente capaz de lidar com as fontes causadoras de pressão no trabalho. Tamayo (2008) argumenta que os impactos provocados pelas constantes manifestações de tensão nos ambientes organizacionais provocam o estresse no trabalho. Para o autor, as fortes cargas de pressões, as situações que envolvem ameaças, autoestima, o convívio, como também as condições de trabalho, entre outras, são manifestações de tensões existentes no ambiente de trabalho. Soma-se a estas, o caráter destrutivo do estresse, que acarreta outros tipos de problemas como o aumento do consumo de álcool e drogas, a insatisfação, baixa produtividade, reduz o comprometimento e propicia alto índice de afastamento do trabalho. Tudo isso se relaciona com fatores objetivos como o excesso de tarefas, maiores exigências de qualificação, redução do quadro de funcionários, a preocupação em permanecer na organização com a deterioração das relações em todos os níveis, além de fatores estruturais como as relações de poder vivenciadas e as contradições próprias da função gerencial. Esse conjunto de fatores contribui para o desenvolvimento de situações de mal-estar e estresse gerencial. Apesar da importância dos estudos relativos ao estresse gerencial (Cooper, Sloan & Williams 1988; Couto, 1987; Zille, 2005; Rossi, 2008, entre outros), este artigo aborda o fenômeno do mal-estar gerencial. Trata-se de situações muitas vezes próprias da função, considerando que o grupo gerencial vivencia uma situação ambígua em relação à organização empregadora. Além disso, resultados de pesquisa (Melo, 2006) mostram que a competição, o individualismo e a vaidade estão presentes no cotidiano dos gerentes. Para um número significativo deles, esses fatores são responsáveis por divergências entre os pares, impedindo que tenham uma visão de si como parte de um único grupo profissional. Os gerentes identificam, ainda, a insegurança dos cargos gerenciais como fonte geradora de competição entre os pares. O não reconhecimento da organização e o pouco tempo para contato foram igualmente apontados como dificuldades para a unificação dos gerentes em um grupo mais organizado e homogêneo. A relação estresse e mal-estar gerencial é tênue e pouco discutida, pois os estudos em geral enfocam a questão do estresse que pode anteceder ou ser consequência do mal-estar gerencial compreendido e percebido pelo próprio gerente. Nesse cenário, a função gerencial se apresenta como arquétipo, pois no seu escopo se encontram pressões inerentes ao próprio posto de trabalho, em diversidade e intensidade maiores se comparado a outros cargos. São profissionais que vivenciam pressões e insegurança no cotidiano de trabalho e na medida em que a pressão competitiva aumenta, cresce também a insegurança no emprego (Quick & cols., 2003). Segundo Zille, Braga e Marques (2008), a insegurança nas relações decorrentes das cobranças, dificuldades nas relações interpessoais e da introdução de recursos tecnológicos são comuns no ambiente organizacional, provocando inovações nas estratégias de gestão. Nesse sentido, os gerentes são impulsionados a se posicionarem de modo diferente, assumindo novas responsabilidades e novas formas de pensar os problemas, os princípios teóricos e tecnológicos, além de terem que superar inúmeros desafios. Dessa forma, à função gerencial estão associados numerosos fatores capazes de alterar o nível de ansiedade e o nível de tensão resultando em estafa ou esgotamento físico- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial -mental (Couto, 1987). Entre os fatores desencadeantes de pressão no trabalho citados pelo autor, destacam-se: dificuldade de relacionamento (com pessoas difíceis); mudanças (físicas); prazos (excessivos, determinados e urgentes); tomada de decisão (podendo afetar muitas pessoas); recuperação de desempenho (problemas financeiros); gerenciamento eficaz (pouco recurso e sem apoio); correção de erros (antecessores); excesso de viagens; gestão de conflitos (equipe); interface com diversos clientes (internos e externos). Hill (1993, p. 158) ao estudar um grupo de gerentes durante um ano depois de sua promoção ao cargo gerencial percebeu que “os gerentes recebem ativamente as tensões causadas pela mudança e pelo aumento dos desafios, como se fosse uma oportunidade de desenvolvimento pessoal”. Entretanto, a autora enfatiza que as tensões vivenciadas pelos gerentes acabam sendo maiores e mais exaustiva do que haviam imaginado. A autora descreve quatro fontes básicas de tensão que os gerentes devem aprender a enfrentar: a tensão da função, a negatividade, o isolamento e o ônus da responsabilidade da liderança. Sobre a tensão da função, podem-se apontar determinadas fontes envolvidas no papel gerencial, como a sobrecarga, as ambiguidades da função e os conflitos. Ao atuarem juntos, esses fatores elevam o nível de tensão do indivíduo, podendo chegar aos seus limites em pouco tempo, decorrente de demandas de atividades a serem realizadas em tempo reduzido e com limitação de recursos. A negatividade ligada à função gerencial é percebida como “uma conspiração contrária (a eles)” (Hill, 1993, p. 164). Nesse fator, uma das dificuldades da responsabilidade gerencial, de lidar com subordinados tidos como empregados-problemas, nem tanto motivados ou competentes, gerava em ambos emoções negativas como medo, ansiedade, frustração e raiva. Outra fonte de estresse apontada se refere ao isolamento. Para a maioria dos gerentes, a convivência e a interação com o 89 grupo e os outros empregados são aspectos importantes de satisfação. Mesmo confirmada a necessidade de independência e de autonomia, suportar o sentimento de solidão é um desafio, além de causador de ansiedade e de insegurança. Em relação ao ônus da liderança, os gerentes percebem sobre si a tensão existente por serem eles os portadores de autoridade decisiva e de responsabilidade definitiva. Nesse campo, a gerência é caracterizada como uma “preocupação perpétua, impossível de escapar”, por mais que busque se esquivar dela (Hill, 1993, p. 167). Tanure, Carvalho Neto e Andrade (2007) destacam, em relação aos gerentes, a sensação de estar em débito e a relação com o tempo. Para eles, a primeira deriva dos processos de reestruturação, nos quais intensificam as tarefas e responsabilidades. Assim, afetaria de forma significativa o trabalho, elevando o nível de cobrança e a instabilidade no emprego. Já em relação ao fator tempo são, geralmente, vivenciados pelos gerentes como um fator ausente na realização das tarefas e, de frustração, por não vivenciarem momentos sociais, necessários ao ser humano, fora do ambiente organizacional. Outro ponto considerado pelos autores diz respeito à autonomia, à capacidade de liberdade e à independência vivenciada que, se de um lado ocasiona prazer e sentido ao trabalho, de outro trazem tensão na realização das atividades. Entretanto, conforme aponta Chanlat (2005), vale destacar que cada pessoa percebe os fatores de pressão de forma distinta, interiorizando-os e reagindo a eles de modo particular, melhor dizendo, algumas características pessoais como a personalidade e a experiência de vida, influenciam o modo como o indivíduo reagirá, afetiva e cognitivamente, aos eventos que circundam sua vida. Assim sendo, explica-se o fato de os gerentes perceberem de forma diferenciada o mal-estar gerencial, como sendo próprio da função de gestor. Ou, o que nos parece mais instigante, acatando e introjetando pressões, exigências, cobrança, excesso de trabalho em uma rela- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 90 Melo, Cassini & Lopes ção de indicação de independência e identificação com a organização e sua condição de trabalho, conforme resultados obtidos nesta pesquisa. Para essa situação demos o nome de síndrome de Estocolmo gerencial. O setor de informática e a gerência O setor de informática é caracterizado pela divisão em dados e seu processamento compreendendo os segmentos de software, de hardware e prestação de serviços. Essas definições, de hardware, software e serviços, são empregadas para classificar as organizações de acordo com o seu foco de atuação principal (Duarte & Branco, 2001). Modificações constantes e frequentes afetam o setor de informática tornando seus produtos e equipamentos obsoletos em um curto espaço de tempo, sendo esta uma das características principais desse setor. A década de 1980 foi marcada pela transformação no ambiente externo das organizações. A partir dessa época, as atividades empresariais aumentaram sua dependência com relação à aplicação das tecnologias. Esse período assinala a evolução do mercado mundial no desenvolvimento de novas tecnologias, implicando em uma mudança de postura do Brasil que decidiu investir internamente no setor e se aperfeiçoar nos segmentos de hardware e software. Já a década de 1990, inicia-se com uma política de abertura de mercado em vários setores da economia, caracterizando-se como um período marcado pela gradual extinção do protecionismo brasileiro que proibia a importação de produtos similares aos brasileiros, garantindo certa exclusividade na comercialização interna de hardware e software para os produtores instalados no país. Em 1991, é promulgada a Lei da Informática (Lei 8.248/91) pelo governo, constituindo-se como política de incentivos à produção nacional, sem restrições ao capital estrangeiro e às importações. A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) estimou as receitas de serviços de informática em U$$ 11,1 bilhões, sendo 62% desse montante, ou U$$ 6,9 bilhões, oriundos da oferta de serviços técnicos de informática ou U$$ 4,2 bilhões, decorrentes da comercialização e licenciamento de software. Os programas de computador desenvolvidos no exterior atendem cerca de dois terços do mercado brasileiro de software (IBGE, 2009). Para Olinto (2004), o elevado potencial desse segmento propicia que profissões relacionadas com tecnologia tenham melhores perspectivas no mercado, principalmente, as que estão diretamente ligadas ao sistema de informação de alta qualificação como administrador de sistemas de informação e de computação, analista de redes e de comunicação de dados, analista de sistema de computação, engenheiros de software e administradores de bases de dados. No entanto, a participação feminina na indústria de Tecnologia da Informação (TI) é bastante reduzida quando comparada à força de trabalho masculina. Tanto que alguns fabricantes vêm criando cursos e incentivos para aumentar a porcentagem de mulheres no setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), mas apesar dos esforços, os homens ainda ocupam cerca de 80% dos cargos. Em relação ao cargo gerencial, os dados gerais da Catho (2009), apresentaram um crescimento importante de gerentes femininos, em termos percentuais, no Brasil, chegando a 34,14% em 2009, pois em 2005, apenas 25,64% dos cargos de gerentes eram do sexo feminino. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Este estudo de natureza qualitativa foi realizado em 10 empresas de médio e grande porte do setor de informática, localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte – MG. Os sujeitos dessa investigação foram 36 gerentes que ocupam cargos de nível intermediário sendo, 18 homens e 18 mulheres. Os dados foram coletados por meio de Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial entrevistas semiestruturadas. As entrevistas foram gravadas com a permissão dos entrevistados e, posteriormente, transcritas na íntegra e agrupadas segundo a categoria e a questão tratada. O processo de análise dos dados coletados passou por três fases de tratamento: preparação das entrevistas transcritas segundo o roteiro de perguntas e agrupamento das respostas de cada categoria para as respectivas questões; tabulação quantitativa propiciando a identificação de componentes das respostas dos entrevistados e agrupamento de acordo com o tema da pergunta, sintetizado o conteúdo das entrevistas. Esse procedimento permitiu melhor visualização das opiniões e dos conteúdos das respostas dos entrevistados após a sua sistematização, considerando a frequência dos temas apontados (Richardson & cols., 1999; Minayo, 2000; Melo & cols., 2007), seguido de elaboração de uma planilha temática a partir da interpretação inicial dos dados coletados, tendo por referência os objetivos da pesquisa. Essa técnica de análise de dados segue os princípios de análise de conteúdo que tem por finalidade explicar o fenômeno em estudo a partir do ponto de vista e da experiência dos sujeitos pesquisados. APRESENTAÇÃO DOS DADOS Pressão gerencial vivenciada por gerentes do setor de informática e o surgimento de uma nova relação do gerente com a sua condição de trabalho A função gerencial traz consigo uma variedade de atividades e tarefas a serem executadas adequadamente, sendo muitas delas previstas e outras criadas em função de determinados objetivos e estruturas das relações de poder existente. Volta-se para o gerente responsabilidades para com a empresa, com seus superiores, com seus subordinados, com seus pares e com os stakeholders em geral. Do gerente, é cobrado que seja competente tecnicamente, possua capacidade de relacio- 91 namento e que seja um líder, além de outros atributos bastante diversificados. Na visão dos gerentes entrevistados, entre os requisitos necessários para se ingressar na carreira gerencial, destacam-se: a habilidade de relacionamento (42,1%), a liderança e a gestão de pessoas (35,9%), o conhecimento do negócio (28,1%), a formação profissional (28,1%) e atributos subjetivos ligados à personalidade do indivíduo, além de habilidades específicas com 21,9%, cada. Primeiramente, o gerente deve ter um bom conhecimento técnico, uma boa disposição técnica, um conhecimento do negócio que se vai gerenciar e, também, ter uma postura de bom relacionamento entre as pessoas. Não adianta você ser um excelente técnico, um excelente conhecedor das suas atribuições, mas não saber lidar com isso, não saber fazer com que as pessoas que estão ao seu lado possam convergir para o mesmo resultado. (H/07). Os entrevistados reconhecem que o gerente é o responsável pelos resultados da equipe e consideram um requisito para a prática gerencial a capacidade de conduzir a equipe para atingir as metas estabelecidas pela direção. Diante disso, os gerentes destacam a pressão evidenciada no seu cotidiano de trabalho: Eu acho que é a cobrança cada vez maior em cima de metas, de resultados [...] muitas vezes chega em um determinado nível de pressão que a gente não consegue mais filtrar e acaba passando para todo mundo que está na sua equipe. (H/31). A cobrança por resultados é apresentada como um dos principais fatores de pressão sobre os gerentes (42,2% das respostas). Vale ressaltar, que os homens (65,6%) se sentem mais cobrados para o alcance de resultados que as mulheres, que apresentaram 18,7%. Entretanto, as gerentes relatam preocupações e pressões vivenciadas quanto à necessi- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 92 Melo, Cassini & Lopes dade de atualização no campo das inovações tecnológicas (37,5%), correspondendo, de certo modo, a uma preocupação em torno do desenvolvimento profissional e, indiretamente, da apresentação de resultados. A maior pressão é por resultados. E muitas vezes não só os resultados, mas a sobrevivência da sua própria empresa, [...]. O mercado é cada vez mais competitivo [...]. Isso faz com que cada um seja mais exigido, faz com que o gerente exija mais de cada um deles, isso faz com que a empresa tenha um clima, não diria mais tenso, mas um clima mais dinâmico, o que muitas vezes faz com que o gerente seja o ator responsável e protagonista principal dessa transformação. (H/26). [...] você tem que trabalhar em termos de resultados. Mas, a maior preocupação está na atualização tecnológica, e se nós não estivermos em contínuo aprendizado, não conseguimos dar resultado que a empresa deseja (M/21). Em decorrência da alta competitividade entre as organizações, cada empresa busca o desenvolvimento e planejamento de metas e alvos para os gerentes, que logo envolvem suas equipes de trabalho. Entretanto, as metas parecem, por vezes, serem inatingíveis, e na maioria das vezes, vivenciada como pressão: Pressão por resultados. [...] sinto que eu e minha equipe não trabalhamos nesse momento para melhorar de salário; a gente trabalha para conseguir manter a nossa existência aqui, nesse momento. É uma cobrança por meta louca! Isso pesa muito no dia-a-dia da gente. (M/ 16). A pressão é praticamente restrita em cima de meta. Na verdade, a cobrança aqui é, não importa a hora que eu chego, não importa a hora que eu saio. Na verdade, um gerente tem que estar mantendo sempre o andamento dos negócios [...]. (H/22). Muitas vezes os resultados se tornam uma obsessão exigindo maior tempo de seu dia para assegurar geração de resultados. Essa escolha leva o gerente a um dilema entre a dedicação de tempo para o trabalho e o tempo para a família e vice-versa (optando, em sua maioria pelo trabalho, em função da insegurança pela permanência). Na percepção dos gerentes entrevistados, a família os vê com admiração para 71,8% das mulheres gerentes e, para 56,2% dos homens. Mas, percebem também que a família os vê com crítica, isso devido ao excesso de trabalho a que se submetem, na visão das gerentes (31, 2%) e dos gerentes (21,8%). [...] A minha família hoje, por mais que isso prejudique muito o relacionamento familiar, a dedicação que eu tenho hoje é pela empresa, eles sabem que eu tenho muito reconhecimento dentro da empresa, então, eles acham isso importante por mais que eu fique um pouco fora do relacionamento familiar. (M/32). As habilidades e competências gerenciais possuem caráter relacional (Dubar, 1997), desse modo, a ação dos gerentes e o seu espaço organizacional são, também, resultados da concorrência de estratégias de gerentes de outras organizações e até mesmo gerentes da mesma empresa, em situação de sucesso. O gerente, para responder às demandas do mercado, seja para acompanhar o desenvolvimento tecnológico dos concorrentes, seja para atender as demandas de clientes, deve se manter em uma eterna busca por atualização de seus conhecimentos. Essa necessidade de reciclar os conhecimentos nesse setor é derivada de uma tecnologia cuja velocidade de obsolescência é bastante rápida. Dessa forma, acompanhar o desenvolvimento tecnológico global passa a ser um desafio diário para os gestores da área. [...] a gente tem que mudar o tempo todo [...] o mercado muda muito, e no nosso Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial caso, aqui, a gente tem que estar em dia com as novas tecnologias [...] você tem a todo o momento que se atualizar. (H/31). 93 Estar sempre de antena ligada e fazendo tudo acontecer em tempo mais que hábil, tudo pra ontem. Então, eu acho que a minha pressão maior é tempo com qualidade. (M/10) Esse aspecto foi realçado pela gerência feminina. A maioria (66,4%) afirma sofrer Os gerentes relatam, também, um pressão para desenvolver capacidade de se adaptar às mudanças tecnológicas, seguida grande acúmulo de funções e com prazos de de 47,3%, para manter o conhecimento atu- execução de serviços mais limitados. A cada momento é necessário acelerar mais para se alizado. conseguir completar as tarefas em tempo e Pressões de atualizações tecnológicas. A criar uma capacidade de ser um profissional gente tem que estar sempre acompanhan- dinâmico. do as novas tecnologias, porque o gerente em uma área de informática, tem que estar sempre propondo soluções. Então a gente tem que estar se atualizando constantemente, atrás das tecnologias. (M/24) De outro modo, o excesso de informações existente na área da informática, a grande quantidade de dados que nem sempre são úteis, também se constituem em fator de pressão sobre o gerente. A pressão que eu tenho é estar absolutamente informada das mudanças no mercado, o que chega de novo, o que os concorrentes estão fazendo. Então, a pressão e o volume de informação que você tem que acessar todo dia é muito grande. [...] o nível de leitura diária é um absurdo chega às raias do ridículo. E a pressão é imensa de você ter que se diferenciar, você tem que se recriar todos os dias. Nós vivemos um momento em que mudança é rotina. (M/28) Para acompanhar a velocidade imprimida pelo mercado, os gerentes são impulsionados a acelerar o seu dia-a-dia. Fatores como excesso de tarefas, rapidez na tomada de decisão, excesso de informações necessárias ao trabalho e pressão do tempo cada vez maior são apresentados pelos gerentes como pressões sofridas: Nossa! Tempo, agilidade, cobrança por resultados é o que a gente está mais exposta. Muita cobrança. 24 horas é pouco. Com a qualidade total, imputada no Brasil na década de 1980, com a ideia de acabar com o cargo de chefia. Todo mundo ter mais ou menos o mesmo nível, banalização de responsabilidades, correto? Mas só que na prática não é bem assim. Na verdade isso veio, como diria Marx, é a mais valia, a forma de você segregar uma mão de obra, de reduzi-la, e você que fazia uma atividade, você passa a fazer 3, 4, 5, 6. É uma loucura. É uma forma de o empresário estar obtendo mais resultados sobre você. Então você se tornou muito dinâmico. Hoje em dia, se o profissional não for muito dinâmico ele não sobrevive no mercado. (M/32) Pressões políticas, não ter os recursos necessários para o trabalho, e medo de perder o emprego, constituem um complicador para esse quadro de pressão, ao qual os gerentes estão submetidos em seus cotidianos. Se por um lado precisam se esforçar para acompanhar o ritmo imposto pelo mercado, por outro precisam driblar os entraves internos para a geração de resultados, enfim, os gerentes são “condenados a vencer”1. Os efeitos dessa rotina de pressões podem ser sentidos pelos gerentes, tanto os 1 Segundo Pagés e cols., (1987), condenado a vencer se relaciona ao fato de que o indivíduo ao fazer carreira não significa, necessariamente, obter remunerações mais altas, ter funções hierárquicas mais importantes ou verem seu prestígio e influência aumentarem. Esses elementos são apenas benefícios secundários ou sinais exteriores da satisfação de uma necessidade mais imperiosa: vencer. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 94 Melo, Cassini & Lopes homens quanto as mulheres, após um dia de trabalho. Observou-se o sentimento de cansaço e estresse em 42,2% das respostas do grupo entrevistado e também nas respostas que indicam oscilação entre o se sentir bem e o sentimento de estresse, as quais representam 28,2% dos entrevistados. Esgotado, muito esgotado. (H/10) Tem dia que eu me sinto um bagaço, totalmente moída [...]. (M/29) Se tiver muita tarefa eu fico muito nervosa. Às vezes não consigo nem dormir direito. [...] quando tem esses picos de tarefas, por exemplo, [...] me desestrutura um pouco. É, aí começa: não almoço direito, não durmo direito, trabalha mais, entendeu? (M/32) muito mais dele do que ele pode lhe oferecer e a culpa é só sua, quer dizer só minha. (M/32) A gente queria ter mais tempo, ter mais tempo pra cuidar da minha saúde, mais tempo pra diversão, [...] mas não consigo (H/31). Esses dados sinalizam que não apenas as fortes cargas de pressão, as situações que envolvem ameaça, a autoestima e o convívio, como também as condições de trabalho, entre outras, são manifestações de tensão existentes no ambiente de trabalho, conforme apresentado por Tamayo (2008), mas também que os impactos provocados pelas constantes manifestações de tensão nos ambientes organizacionais provocam o estresse no trabalho. Cientes da alta exigibilidade da função, alguns entrevistados afirmaram se utilizar de mecanismos para evitar que a prática da função gerencial lhes cause danos, tais como: práticas de autorregulação, praticar esportes, prática de acupuntura, busca do autoconhecimento e estudar. Essa situação de pressão constante traz consigo consequências para a saúde física e mental dos entrevistados. Para Couto (1987) estão associados à função gerencial numerosos fatores capazes de alterar seu nível de ansiedade, aumentar o nível de tensão, resultando em estafa ou esgotamento físico-mental. Se você deixar... levar seus problemas para Diante disso, alguns gerentes afirmaram casa, viver seus problemas da empresa em prejuízos à saúde provenientes da prática gecasa.. o estresse afeta tudo [...] no meu caso eu tento me controlar bastante, eu já fui rencial. Entre esses respondentes, a maioria muito mais tenso [...] aí eu chego em casa (homens e mulheres) apresenta quadros de e vou caminhar com as minhas cadelas, eu estresse (42,2%), sendo desse percentual, vou correr e depois eu tomo um banho e ressaltado por 46,8% dos gerentes e 37,5% vou relaxar. (H/32). das gerentes. Entre outros aspectos citados, destacam-se a percepção de certo desequiResultados da pesquisa mostram que líbrio emocional identificado pelas gerentes (15,5%) e, pelos gerentes, dores de cabeça, mesmo com um grande acúmulo de atividabem como outras doenças relacionadas ao des e sofrendo grandes pressões no decorrer de todo o seu dia, parte dos gerentes vão se trabalho (9,3%). conscientizando das suas necessidades espeVivo estressada. Se eu for ao médico hoje cíficas e procuram formas adequadas para ele vai falar que eu estou estressada, que gerir sua vida, seu tempo e seus espaços, preciso tomar remédio, que tenho que des- buscando com isso, mesmo que ainda em baicansar, que tenho que sair de férias, então xos níveis, minimizar os efeitos das pressões eu já não vou, começou a dor de cabeça es- sobre si, buscando reduzir o estresse ou as quece, nem tomo mais remédio, é o ritmo o sequelas físicas ou psíquicas advindas de seu corpo da gente não aguenta, a gente cobra cotidiano. Dentro do contexto teórico sobre o Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial tema, tais dados reforçariam a colocação de Chanlat (2005) ao afirmar que cada pessoa percebe os fatores de pressão de forma distinta, interiorizando-os e reagindo a eles de modo particular, de acordo com as características pessoais como a personalidade e a experiência de vida. No entanto, observamos que a explicação para os dados obtidos vão além dessas colocações. E que mesmo admitindo as pressões vivenciadas, e por vezes percebidas como sobre-humanas, alguns gerentes as assumem como próprias da função gerencial. Torna-se, assim, institucional e socialmente aceitável que os gerentes trabalhem em uma rotina de constante pressão e estresse: “e não faria sentido se também não houvesse essas pressões, certo? Quer dizer, a arte de gerenciar, porque eu considero até uma arte realmente, ela implica nisso aí. Você tem que ser cobrado mesmo, diariamente você tem que estar sofrendo pressões e trabalhar de forma positiva essas pressões”. (M/16). Tal colocação nos conduziu para análise que sinaliza que as novas gerações de gerente estão aprendendo a se identificar com o agressor, no caso, o novo sistema capitalista analisado por Sennett (1999) criando uma outra dinâmica para a atividade gerencial, favorecendo uma analogia direta com a síndrome de Estocolmo. A síndrome de Estocolmo foi descrita por Nils Bejerot, em 1973, como um estado psicológico particular, no qual a vítima demonstra indícios de lealdade e sentimento de gratidão para com seu sequestrador, de início, como mecanismo de defesa por medo de retaliação. Essa estratégia de sobrevivência pode levar o indivíduo a uma dependência do seu “protetor” não se dando conta da submissão na qual se encontra (Montero, 1999). Segundo Fabrique e cols (2007), compreender corretamente a síndrome de Estocolmo exige uma compreensão do processo que provoca o seu desenvolvimento, destacando que essa condição fornece às pessoas mecanismos de defesa. Ou seja, maneiras de se manter conscientemente inconsciente de pensamentos, sentimentos e desejos desagradáveis. 95 Os autores afirmam que em muitas circunstâncias os reféns regridem e o agressor se transfigura em figura materna onde a mãe protege seu filho de uma ameaça do mundo exterior. A descrição da síndrome de Estocolmo nos possibilita uma associação com a nova situação identificada nesta pesquisa quanto à relação do gerente com a sua realidade profissional, que denominamos síndrome de Estocolmo gerencial. Assim, a análise do conteúdo dos relatos dos gerentes entrevistados, em relação ao seu cotidiano na função gerencial nos possibilitou a construção de um modelo teórico explicativo das relações e implicações do gerente com as suas condições de trabalho, conforme Figura 1 (p. 96). CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo sinalizou que a função gerencial está sujeita às várias mudanças ocorridas nos ambientes organizacionais e, portanto, está continuamente se adequando a elas. Nesse sentido, pode-se observar, a partir dos relatos dos próprios gerentes, que estes estão cada vez mais sujeitos às pressões e ao estresse, e consequentemente ao mal-estar gerencial. Nesse percurso, numerosos fatores associados à função gerencial são fontes capazes de alterar o nível de ansiedade e de tensão do gerente, resultando em estafa ou esgotamento físico-mental, e ainda, a sobrecarga de trabalho e a ambiguidade dos papéis gerenciais, ao atuarem juntas, geram frustração, esgotamento e sentimento de culpa superdimensionados quando as metas não são alcançadas. A cobrança por resultados é apresentada, então, como um dos principais fatores de pressão sobre os gerentes, mas também imprescindível, uma vez que a pressão está atrelada à sobrevivência da empresa em um mercado global cada vez mais competitivo, e consequentemente, à sua permanência no em- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 96 Melo, Cassini & Lopes Trajetória profissional e acesso ao cargo gerencial Funções gerenciais prescristas e exercidas Fatores de tensão Características e pressões do setor Pressões Organizacionais Relação crítica com a autonomia Vivenciadas de forma subjetiva Condenados a vencer Mudanças tecnológicas, excesso de informação e exigências de qualificação Pressões políticas Pressões familiares Vivência subjetiva dos fatores de tensão Estresse Adoecimento Estratégias Individuais de Regulação Síndrome de Estocolmo Gerencial Figura 1 – Modelo interpretativo da situação de trabalho vivenciada pelo gerente. prego. A busca por melhores resultados, muitas vezes, se torna uma obsessão, conduzindo o gerente a um dilema expresso pela dedicação de tempo para o trabalho em detrimento do tempo para a família e vice-versa (optando, em sua maioria, pelo trabalho, em função da manutenção da inserção profissional). De outro modo, as pressões são também vivenciadas em função da demanda do mercado, onde constantemente os gerentes devem se atualizar, no intuito de acompanhar o desenvolvimento tecnológico global. A sobrecarga de trabalho, os prazos e o aumento do número de demissões também foram destacados como pressões vivenciadas frente às novas demandas por mudanças e adaptações, exigindo dos gerentes, homens e mulheres, uma melhor administração do tempo. Os efeitos de uma rotina de pressões após um dia de trabalho foram descritos pelos gerentes como sentimento de cansaço e estresse em função das demandas por resultados, acúmulo de atividades e tempo, entre outros, e de oscilação entre o sentimento de se sentir bem e o estresse, gerado em função de metas atingidas, ocasionando consequências para sua saúde física e mental provenientes da prática gerencial. Tais resultados mantêm coerência com estudos descritos no campo da saúde, estresse e mal-estar gerencial. Pode-se aferir, então, que os padrões e as formas de gerenciamento não são fixas e são maleáveis a partir das forças atuantes dos grupos sociais e profissionais da organização. Assim, essas mudanças impõem aos quadros gerenciais, qualificações constantes e o desenvolvimento de novas práticas organizacionais conforme encontrado em outros estudos (Melo, 2002). Essa magnitude de contradições e fragmentações vivenciadas pelos gerentes acaba por implicar em certo desânimo dos mesmos quando percebem o valor que precisam pagar pelas suas necessidades de poder, status e realização profissional. Todavia, essa dimensão do estresse e mal-estar gerencial foi descrita sutilmente por eles, justificada pelo fato de Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 84-99 Síndrome de Estocolmo Gerencial serem também representantes da empresa e que um fracasso dela em qualquer aspecto é também o próprio fracasso. As quatro fontes de tensão para a atividade gerencial apontadas por Hill (1993): a tensão da função, a negatividade, o isolamento e o ônus da responsabilidade de liderança foram observados nos relatos dos gerentes. A pesquisa deixou claro que o mal-estar gerencial se relaciona com as múltiplas contradições da função, o que o diferencia significativamente de condições e qualidade de vida no trabalho. Ademais, alguns relatos dos gerentes entrevistados nessa pesquisa apontaram para uma outra questão, ou seja, para uma percepção de normalidade das pressões, da escassez do tempo, da sobrecarga de trabalho, da fadiga diária. Assim, essa pesquisa nos possibilitou duas descobertas importantes. A primeira se relaciona com a questão do estresse gerencial e o mal-estar dos gerentes. Naturalmente, conhecer as fontes de estresse gerencial é fundamental para diagnosticar condições de trabalho do gestor e formular proposições para uma melhor qualidade de vida desse grupo profissional. No entanto, sem um debate mais profundo sobre o mal-estar gerencial, que se encontra no âmago da natureza do exercício gerencial nas organizações, os estudos sobre estresse gerencial permanecem na superficialidade. A segunda, ainda mais surpreendente, revela um novo contexto para a análise da atividade gerencial no campo do estresse e do mal-estar com o surgimento de depoimentos dos entrevistados que apontam para a normalidade das situações de pressão, cobranças, falta de tempo, exigências de atualizações aceleradas, entre outras, até então consideradas condições de estresse e de adoecimento, para as quais nos referimos como síndrome de Estocolmo gerencial. Apontamos como principal implicação deste estudo a contribuição com novos olhares para a análise das temáticas: qualidade de vida e estresse gerencial e prazer e sofrimento no trabalho gerencial. 97 Naturalmente, o estudo apresenta também limitações: realização da pesquisa em um único setor; os sujeitos da pesquisa são gerentes intermediários, sendo importante incorporar os outros níveis gerenciais, entre outros. Entretanto, as limitações devem ser olhadas como oportunidades para o desenvolvimento do tema tratado no artigo. 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