Revista Brasileira
Fase VII
O UTUBRO-NOVEMBRO-DEZEMBRO 2003
Ano IX
Esta a glória que fica, eleva, honra e consola.
Machado de Assis
o
N 37
ACADEMIA BRASILEIRA
DE LETRAS 2003
REVISTA BRASILEIRA
Dir e to r i a
Alberto da Costa e Silva – presidente
Ivan Junqueira – secretário-geral
Lygia Fagundes Telles – primeira-secretária
Carlos Heitor Cony – segundo-secretário
Evanildo Bechara – tesoureiro
Diretor
João de Scantimburgo
Me m b r o s e f e ti vos
Affonso Arinos de Mello Franco,
Alberto da Costa e Silva, Alberto Venancio
Filho, Alfredo Bosi, Ana Maria Machado,
Antonio Olinto, Ariano Suassuna,
Arnaldo Niskier, Candido Mendes de
Almeida, Carlos Heitor Cony,
Carlos Nejar, Celso Furtado,
Eduardo Portella, Evandro
Lins e Silva, Evanildo
Cavalcante Bechara, Evaristo de
Moraes Filho, Pe. Fernando Bastos
de Ávila, Ivan Junqueira, Ivo Pitanguy,
João de Scantimburgo, João Ubaldo
Ribeiro, José Sarney, Josué Montello,
Lêdo Ivo, Lygia Fagundes Telles,
Marcos Vinicios Vilaça, Miguel Reale,
Moacyr Scliar, Murilo Melo Filho, Nélida
Piñon, Oscar Dias Corrêa, Paulo Coelho,
Sábato Magaldi, Sergio Corrêa da Costa,
Sergio Paulo Rouanet, Tarcísio Padilha,
Zélia Gattai.
Produção edi tori al e Rev i são
Nair Dametto
C onselho edi tori al
Miguel Reale, Carlos Nejar,
Arnaldo Niskier, Oscar Dias Corrêa
A ssisten te edi tori al
Frederico de Carvalho Gomes
Proj eto g ráfi co
Victor Burton
Editoração eletrôni ca
Estúdio Castellani
A CADEMIA B RASILEIRA DE L ETRAS
o
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As colaborações são solicitadas.
Sumário
Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
PROSA
JOSUÉ MONTELLO Uma explicação da conferência de Graça Aranha. . . . . . . . . 9
MIGUEL REALE Variações sobre a humildade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
CELSO FURTADO A responsabilidade dos cientistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
BASÍLIO LOSADA A literatura brasileira vista da Espanha. . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
IVAN TEIXEIRA Literatura como imaginário: introdução ao conceito
de poética cultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
RUBENS RICUPERO Prefácio ao Livro do Museu de Arte de Brasília . . . . . . . . 69
DORA FERREIRA DA SILVA Hoelderlin, a proximidade e a distância
do Sagrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
J.O. DE MEIRA PENNA Nietzsche e a loucura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
Prêmio Senador José Ermírio de Moraes – 2003
MIGUEL REALE Sentido universal da Poesia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
BRUNO TOLENTINO Discurso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
CICLO DOS FUNDADORES DA ABL
JOÃO DE SCANTIMBURGO O fundador José do Patrocínio . . . . . . . . . . . . . . 115
MURILO MELO FILHO Patrocínio: um jornalista na Abolição . . . . . . . . . . . . 125
OSCAR DIAS CORRÊA O ficcionista Inglês de Sousa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
ALBERTO VENANCIO FILHO O fundador Valentim Magalhães . . . . . . . . . . 167
EVANILDO BECHARA Silva Ramos: mestre da língua . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
POESIA
IVAN JUNQUEIRA O que me coube . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221
MARCELO DINIZ Ócio / Agulhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 223
LENA JESUS PONTE Soneto volátil / Neve sobre brasa. . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
ILDÁSIO TAVARES Restos / Sem título . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227
HILDEBERTO BARBOSA FILHO Distonia poética / Insônia . . . . . . . . . . . . . . 229
FOED CASTRO CHAMMA Inverno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
GERALDO HOLANDA CAVALCANTI Fim de verão em Itaipava . . . . . . . . . . . 235
HELENA ORTIZ Ante-sala . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238
PAULO BOMFIM Poemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239
GUARDADOS DA MEMÓRIA
SYLVIO B. PEREIRA À margem das Décadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249
Edit o r ia l
C
om este número encerramos mais um ano na tarefa que nos
propusemos de cultuar as letras no Brasil, fazendo-o de várias opções, uma delas com a edição da Revista Brasileira, considerada
por todos os seus leitores como a melhor revista do país, tanto pelo
conteúdo de suas matérias, como pela elegância da forma com que é
apresentado o seu sumário. Neste número Josué Montello traz a
lume a participação de Graça Aranha na Semana de Arte Moderna,
para sermos mais precisos, no Modernismo, pois, ademais da conferência no Teatro Municipal de São Pauto, na abertura da própria
Semana, ainda foi o autor do episódio de que foi palco a própria
Academia Brasileira de Letras. O elegante Graça Aranha saiu carregado nos ombros de vários intelectuais, dentre eles Alceu Amoroso
Lima, já crítico literário de nomeada em todo o Brasil, em início de
uma gloriosa carreira de maître à penser de uma fase da evolução literária do país. Miguel Reale, uma das glórias da inteligência brasileira,
nos escreve sobre a humildade, essa virtude que falta a tanta gente e
que, não raro, tanto mal a sua lacuna acarreta às relações sociais,
principalmente no campo da literatura. Temos um conto de Dora
Ferreira da Silva, erudita cultora de vários gêneros literários, em todos com superioridade. Evanildo Cavalcanti Bechara apresenta um
estudo sobre o filólogo Silva Ramos, mestre da língua, que mereceu
Editorial
Editorial
5
Edito ri al
de Alcântara Machado um dos mais belos elogios que já se ouviu nas sessões
de posse da Academia. Em seguida, Rubens Ricupero, grande diplomata brasileiro, servindo em Genebra, escreve sobre Wladimir Murtinho, o saudoso
Wladimir, que nos deixou, partido para o outro lado, para uma das moradas
de Deus Nosso Senhor, à espera dos companheiros que aqui deixou.
Na segunda parte, dedicamos a Revista às comemorações de acadêmicos
fundadores, que devem ser lembrados, para não ficarem perdidos seus nomes
ilustres no limbo do esquecimento. Terão os leitores a série de conferências
proferidas na Academia sobre membros da Ilustre Companhia: Valentim Magalhães, Inglês de Sousa, José do Patrocínio.
Temos ainda a seção da Revista dedicada à poesia. São os novos que vêm,
cada qual com sua contribuição à Musa eterna, sem a qual, queira-se ou não, o
ser humano não pode viver. Provam-no os grandes nomes do mundo, desde o
Graça Aranha no Salão Nobre da ABL, no dia 19 de junho de 1924, lendo sua conferência.
Foto publicada na mesma tarde pelo jornal A Noite. No medalhão, uma das atitudes do
conferencista.
6
Edi to r i a l
passado remoto de Homero aos dias de hoje, com tantas manifestações poéticas que é difícil destacar, sem cometer injustiças, um ou outro nome, salvo
quando se trata de poetas que ultrapassaram os limite da plena inspiração para
se colocarem na área do gênio. E esse o motivo por que deixamos ao leitor a
leitura dos poetas e o julgamento, íntimo ou não, da qualidade da poesia que
assimilaram. Finalmente, temos um Guardado da Memória dos mais curiosos,
que acolhemos para reviver, nas páginas da Revista as Décadas, que Sylvio Pereira, um colaborador do Jornal do Brasil, escreveu no remotíssimo ano de 1925.
Não envelheceu esse texto, pois as Décadas são sempre as mesmas para encantar
os leitores com as suas referências de importância histórica. Esse o comentário
que fazemos, a título de editorial da Revista Brasileira que encerra um ano civil,
mas que continuará para gáudio dos nossos leitores.
7
Carta de Graça Aranha a Afonso Celso
Acervo do Arquivo da ABL – Cadeira 38
Uma explicação da
conferência de Graça
Aranha
J o su é M o nt e l l o
Q
uando Graça Aranha, a 19 de junho de 1924, proferiu a sua
conferência polêmica sobre o Espírito Moderno, propondo na Academia Brasileira de Letras a morte da própria Academia, se
esta não se colocasse ao lado dos moços que se batiam pela renovação total de nossa literatura, várias foram, ao tempo, as interpretações suscitadas por seu gesto rebelde. Como entender-lhe a rebelião?
Como explicar-lhe a atitude intempestiva, querendo pôr a pique o
barco de que era também tripulante?
Diplomata, homem de sociedade, discípulo de Joaquim Nabuco,
o mestre de Canaã era o homem polido por excelência, sem deixar
sentir na sua elegância de maneiras o homem de lutas que se revelaria
de repente na tribuna da Academia.
Dois anos antes, em fevereiro de 1922, na conferência com que
inaugurou a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São
Membro da ABL
(Cadeira 29)
desde 1954.
Além de
romancista e
ensaísta, é autor
de várias obras
de história
literária e sobre a
Academia, entre
as quais O
presidente Machado
de Assis, e
organizador do
volume O
modernismo na
Academia, reunião
de textos básicos
e artigos sobre o
movimento
modernista.
9
Josué Mo ntello
Paulo, havia ele ensaiado a sua oposição à Academia. Mas, entre essa conferência e a outra, o acadêmico parecia reconciliado com a instituição, tanto assim
que, assíduo às suas sessões, delas participou sem dar mostras de que iria brevemente romper com ela.
O gesto de rebeldia, contrastando com a mansidão da figura polida, tinha
de se constituir numa indagação. Por que o diplomata de ontem, tão fino, tão
educado, se colocara à frente da insurreição dos moços, atirando pedradas na
própria Casa?
Houve quem dissesse, para responder a essa pergunta, que Graça Aranha, de
regresso ao Brasil como diplomata aposentado, tentava, com aquela atitude,
refazer à sua volta o ambiente de prestígio que os muitos anos de ausência tinham desvanecido.
Afirmou-se ainda que, escritor de poucos livros, tendendo a levar mais a sério a vida literária que a literatura, nada mais havia feito do que transformar o
Modernismo em excelente pretexto para ocupar a cena como figura de primeiro plano, arvorando-se em chefe do movimento com a autoridade do seu grande nome.
Na verdade, teimava no escritor, por ocasião de seu regresso ao Brasil, não
obstante o decreto de aposentadoria que o mandava descansar, um saldo de juventude, confirmado por seu pendor a entusiasmar-se com as idéias novas.
Esse saldo de juventude identificava-o com os moços. E era ainda um traço
de união com o seu passado, visto que Graça Aranha, ao tempo de sua juventude, vivera sob o fascínio de Tobias Barreto, que elegera como seu patrono na
Academia e em cujo exemplo recolhera a lição do escritor em perene rebeldia
contra todas as formas de apego excessivo aos valores consagrados.
A lição de Tobias Barreto, recolhida assim na mocidade, ia servir de modelo
a Graça Aranha no declínio da maturidade, quando ele se encontrou com os
moços da Semana de Arte Moderna.
No famoso terror cósmico, a que reiteradamente aludiu na sua nebulosa filosofia literária da estética da vida, militava, em última análise, como princípio
e substância, o terror da velhice. Graça Aranha tinha medo de envelhecer. E
10
Um a expli c aç ão da c o nferênc ia de G r a ç a A r a n h a
como um dos meios de conjurar ilusoriamente a velhice é tomar o partido dos
jovens, o mestre de Canaã dele se socorreu, fazendo causa comum com a mocidade que reclamava, no ano do centenário da Independência, uma afirmação
brasileira de nossa arte e de nossa literatura.
Entre as muitas interpretações que a sua atitude suscitou, para justificar-lhe
as palavras de combate à Academia, a mais absurda, e que foi logo posta de
lado, não deixava de ter, entretanto, a sua lógica.
Refiro-me à que acusava Graça Aranha de estar a serviço da Santa Casa de
Misericórdia...
Quem se saiu com essa hipótese extravagante foi o poeta Luís Murat, já então afamado pela freqüência com que, através de processos espiritualistas, dialogava em sua própria casa com estes amigos: Dante, Homero, Goethe, Victor
Hugo, Shakespeare.
No entanto, a sua argumentação, ao acusar Graça Aranha, não deixava de
ser clara, objetiva – e apoiada em documento.
Se Graça Aranha conseguisse acabar com a Academia, quem lucraria com
isso? E o poeta respondia, muito sério, com um papel na mão:
– A Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro!
E para provar que não delirava, exibia, logo a seguir, o testamento do livreiro Francisco Alves, no trecho onde se lê: “Deixo tudo o que possuo à Academia Brasileira de Letras, enquanto ela existir, e, se deixar de existir, à Santa
Casa de Misericórdia, desta Capital.”
A propósito de cartas de amor
Restritas a uma edição de 125 exemplares, fora do mercado, as Cartas de
amor de Graça Aranha, que D. Nazaré Prado publicou em 1935, ainda no clima de consternação da morte do escritor, nunca foram aludidas, ao que suponho, nas apreciações da personalidade do romancista de Canaã.
A razão do silêncio estará na raridade da obra, e raridade que se teria agravado com a destruição de boa parte da edição.
11
Josué Mo ntello
A verdade é que, não obstante o seu conteúdo extremamente íntimo e
pessoal, essas cartas constituem subsídio de alta importância na ordem biográfica e literária. Direi mesmo que, sem a correspondência amorosa de
Graça Aranha, não teríamos a chave de seu temperamento, e com a qual talvez possamos entender algumas de suas atitudes, na fragilidade da condição humana.
Num dos capítulos de O presidente Machado de Assis, tive oportunidade de assinalar, estudando o diálogo epistolar do mestre de Dom Casmurro com o seu
amigo Graça Aranha, que este viveu sob a fascinação de dois modelos: um, da
juventude, Tobias Barreto; outro, da maturidade, Joaquim Nabuco.
A conferência sobre o Espírito Moderno, com a qual Graça Aranha assumiu a liderança do movimento modernista no salão da Academia Brasileira,
marcaria o instante em que o modelo da juventude voltou a dar a linha normativa ao temperamento do memorialista do O meu próprio romance. Sua palestra
polêmica, aplaudida pelos moços, corresponderia à reprodução do impacto de
Tobias Barreto no Recife, por ocasião do mais turbulento concurso da Faculdade de Direito, e a que assistiu o futuro romancista, ainda menino-e-moço,
recém-chegado do Maranhão.
O reencontro do diplomata aposentado com o paradigma da juventude não
ocorreu de improviso. Aos poucos a vida o preparou para ele. E aqui se evidencia a importância das Cartas de Amor que D. Nazaré Prado reuniu em volume.
Dizia Machado de Assis que o pior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.
Graça Aranha fez de sua paixão o argumento de A viagem maravilhosa. Ele é,
ali, Felipe, Nazaré Prado, Teresa.
Por uma dedicatória na primeira edição de Canaã, reproduzida ao fim das
Cartas de amor, o romancista confessava, em 1902, a “grande amizade” que já
dedicava a Nazaré Prado. Mas a paixão veemente, de que a correspondência
amorosa seria o espelho, somente se iniciou por volta de 1911, e iria até fevereiro de 1927, quando os correspondentes se uniram, sem dissimulações ou
mistérios.
12
Um a expli c aç ão da c o nferênc ia de G r a ç a A r a n h a
Autor de obra exígua, Graça Aranha soube ser epistológrafo copioso. Perto
de três mil cartas escreveu ele a Nazaré Prado. Lamentavelmente, diz-nos a
nota introdutória das Cartas de amor, “as cartas escritas nos últimos anos, devido aos acontecimentos revolucionários do Brasil, dos quais Graça Aranha foi
um doutrinador e colaborador, e por outras razões mais íntimas, foram destruídas na sua quase totalidade, pela natureza reservada dos assuntos nelas tratados e pela dificuldade de serem conservadas”.
Se bem me lembro, foi em Madame Sablière que li que o amor nada mais é
do que um egoísmo de duas pessoas.
Daí certamente o tom monótono que nos entedia nas correspondências
do amor alheio. O assunto é o mesmo, os mesmos os correspondentes. Até
Graça Aranha, com o fascínio de sua inteligência, não escapa à regra geral –
repetindo-se.
Salvam-se de suas cartas, entretanto, os lances característicos de seu temperamento exaltado, sempre aberto às novas idéias. A paixão da maturidade levou-o certamente à nostalgia da juventude, e daí ter ele volvido, na conferência
da Academia, ao modelo de Tobias Barreto.
Os jovens a quem Graça Aranha distinguiu com o privilégio de seu convívio, na fase em que os cabelos grisalhos lhe realçavam a beleza viril, dele guardaram a imagem nítida, não de um mestre, mas sim de um companheiro.
Dir-se-ia que o dom da juventude perene, que o gênio de Goethe converteu numa transação com o demônio no símbolo do Fausto, o romancista de Canaã o alcançou por intermédio de sua inteligência comunicativa,
ágil e cordial. O certo é que, já transpostos os sessenta anos, ninguém
soube ser mais jovem que ele, na renovação das idéias, na irradiação de
seus entusiasmos e no poder de deslumbrar-se diante da vida, numa atmosfera de alegria criadora. E dele se poderia dizer, num resumo de suas
virtualidades, que viveu para ilustrar com o seu exemplo este pensamento
de Picasso: “Leva-se muito tempo para ser jovem.”
13
Josué Mo ntello
Daí ter sido Graça Aranha um elo entre duas gerações, conforme observou
Alceu Amoroso Lima. A lição que ele deu aos jovens – diz-nos o mesmo crítico – foi mostrar a sua alegria de espírito, a sua confiança na vida e o seu desassombro de atitudes, ensinando os moços a serem moços.
Mas a verdade é que, se Graça Aranha fosse apenas o autor de Canaã ou de A
viagem maravilhosa, os livros que lhe deram a glória em duas épocas da vida, seria
hoje um autor esquecido, como a maior parte dos escritores de sua geração.
Porque não é por esses dois romances que ele sobrevive e sim pelo fascínio de
sua personalidade irradiante, que lhe permitiu chefiar de cabelos grisalhos a
mais importante rebelião de nossa história literária.
Na origem de toda vocação, afirmou Reger Martin du Gard, explicando o
seu próprio destino, há sempre um exemplo.
A vida de Graça Aranha, aparentemente contraditória em muitas de suas
atitudes, tem a unidade dos belos destinos coerentes, se a analisamos em face
dos dois exemplos que sensivelmente a moldaram: o exemplo de Tobias Barreto, no plano da vida mental, e o exemplo de Joaquim Nabuco, no plano da
vida social e política.
Era ele um adolescente, recém-chegado do Maranhão, quando se encontrou
com Tobias, no salão da velha Faculdade, à hora em que este, nos embates de
seu concurso polêmico, alvoroçava a Província com as muitas idéias de sua cabeça despenteada.
Quando o concurso terminou, recebeu Tobias uma estrondosa ovação dos
estudantes, a que se associou Graça Aranha, saltando a grade que o separava do
mestre e atirando-se aos seus braços.
– Vá a minha casa esta noite – convidou o mestre, ao saber que o moço maranhense já era acadêmico.
Meio século depois desse episódio, é assim que Graça Aranha termina a sua
evocação: “Que deslumbramento! Não voltei aos meus colegas. Fiquei por ali
mesmo, metido em algum canto da Congregação, e saí acompanhando, como
uma sombra pequenina, o mestre. À noite, eu estava na sua casa em Afogados.
Nunca mais me separei intelectualmente de Tobias Barreto.”
14
Variações sobre a
humildade
M ig u e l R e a l e
A
humildade, dentre as virtudes que ornam a conduta humana,
é uma das mais ricas de significado. Nossos dicionaristas que
melhor a interpretam são Caldas Aulete e Antônio Houaiss. O primeiro apresenta-a como “a virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza ou do nosso pouco ou nenhum mérito”,
enquanto que o segundo a considera a “virtude caracterizada pela
consciência das próprias limitações”, ou “um sentimento de fraqueza, de inferioridade, com relação a alguém ou algo”.
Trata-se, pois, de modéstia no trato social, caracterizando-se por
ser infensa ao orgulho e à ostentação. Por outro lado, lembram os
mestres da língua que ela assinala também o respeito a alguém ou
algo tido como superior, sendo, assim, uma forma de submissão.
Nessa ordem de idéias, costuma-se afirmar que o sábio, de maneira geral, é humilde, reconhecendo a finitude ou até mesmo a precariedade de seus conhecimentos. Nem sempre, porém, a sabedoria implica modéstia, havendo casos em que a posse da verdade, nas múlti-
Artigo publicado
n’O Estado de S. Paulo,
7 de junho de 2003.
Miguel Reale é
jurista, professor,
ensaísta. Sua
bibliografia
fundamental abrange
obras de Filosofia,
Teoria Geral do
Direito, Teoria
Geral do Estado e
estudos de Direito
Público e Privado. É
o fundador da Revista
Brasileira de Filosofia
(1951) e presidente
do Instituto
Brasileiro de
Filosofia.
15
M ig uel Reale
plas áreas de sua aplicação, culmina em atitudes de orgulho e de vaidade. Tudo
depende, no fundo, da espécie de homem ou de mulher que se é, podendo a
humildade ser tanto uma tendência natural como um estado de espírito adquirido ao fim de uma longa experiência, como bom senso do valor relativo de
nossas conquistas.
Cabe, outrossim, observar que se pode ser humilde com plena consciência
de seu próprio valor, de sua significação em confronto com as pessoas apontadas como representativas da coletividade, preferindo fruir de seu saber como
um patrimônio tanto mais precioso quanto mais recatado.
Há, por conseguinte, uma infinita multiplicidade de experiências existenciais, a cada uma delas correspondendo uma ou nenhuma forma de humildade.
Esta é, como se vê, uma das mais intrigantes variáveis do comportamento humano. Nem deixam de existir formas postiças de humildade, sendo a modéstia
taticamente assumida apenas para se granjear fama de criaturas excepcionais,
verdadeiros modelos merecedores do respeito social...
Não devem ser esquecidos os que parece terem nascido sob o signo de bem servir, sentindo-se felizes quando se submetem aos mandos e caprichos dos que se
projetam na liderança política, econômica, científica ou no variegado mundo das
artes e das letras. Nem devem ser considerados seres inferiores, por obedecerem à
própria natureza, sentindo-se realizados com os êxitos dos entes que admiram.
Pela apontada variabilidade de seus conteúdos, a humildade pode ser considerada um dos pontos referenciais do universo da cultura, embora nem sempre
seja analisada com a devida atenção pelos cultores da ética. A bem ver, deveria
ser objeto de constante estudo por parte de psicólogos e sociólogos, sobretudo
quando se tem em vista delinear as formas existenciais típicas, para conhecimento cada vez mais apropriado do ser humano e da sociedade.
A “figura dos humildes”, eis aí um tema dos mais empolgantes para a imaginação criadora dos literatos, em seus contos, crônicas e romances, e para quantos cuidam de penetrar nos refolhos da consciência ou da alma humana.
Há, todavia, um limite na abdicação da própria personalidade para a glorificação dos méritos alheios, não podendo sair ferida a dignidade da pessoa humana,
16
Vari aç õ es s o br e a h u m i l da de
valor que atualmente figura, no Artigo l.o da Constituição de 1988, como um
dos fundamentos do Estado Democrático de Direito.
Não posso encerrar estas variações sobre a humildade sem lembrar o que
sobre ela escreveram filósofos de todas as correntes de pensamento. Bela síntese dessa história é-nos dada por Nicola Abbagnano em seu Dizicionario della Filosofia, após lembrar que a antiguidade clássica não tratou da matéria.
A seu ver, foi na Idade Média que surgiram as primeiras manifestações filosóficas sobre o tema objeto do presente artigo, a partir do mistério da encarnação de Deus na figura humilde de Cristo, o deus-homem. Foi então que Tomás de Aquino viu a humildade como parte da virtude “que tempera e freia o
ânimo a fim de não se elevar sem medida no culto das coisas mais altas”.
Singular é a posição de Spinoza, que não aprecia a humildade como virtude,
visto nascer ela do sentimento da própria impotência em confronto com seres
mais perfeitos, reduzindo-se, assim, a uma “emoção passiva”.
Já Kant apresenta a humildade como “o sentimento da pequenez de nosso valor
perante a lei” e, ao mesmo tempo, como a pretensão de alcançar um valor moral
oculto mediante a renúncia do valor moral de si, considerando ele hipocrisia pretender os favores de Deus ou dos homens graças ao rebaixamento do próprio valor.
É analisando as relações agônicas entre o senhor e o escravo, tema tão debatido pela filosofia romântica no século XIX, que Hegel diz que a humildade “é
a consciência de Deus e da sua essência como amor”, o que, penso eu, quer dizer que o acesso a Deus depende de nosso humilde amor por ele.
Por fim, não há como esquecer a posição de Nietzsche, a qual não podia ser
senão a de protesto contra a humildade, vista como um aspecto da “moral dos
escravos”.
Filosoficamente, para mim, a humildade significa a renúncia aos poderes da
razão perante os problemas que a transcendem, aos quais ascendemos pelas
vias do amor. É nessa posição que talvez se situe a humilde confissão de Einstein quando reconhece que “por de trás da matéria há algo de inexplicável”,
contrastando com os que, orgulhosos das conquistas da razão no mundo das
ciências positivas, negam Deus e a imortalidade da alma.
17
A responsabilidade
dos cientistas
Cels o F u r t a d o
A
s palavras que pronunciarei comprometem apenas a mim
mesmo. Não tenho a pretensão de falar em nome de todos os
novos acadêmicos. Valho-me, contudo, desta oportunidade para dizer o quanto admiro os trabalhos acadêmicos do historiador José
Murilo de Carvalho e do cientista político, meu ex-aluno, Paulo Sérgio Pinheiro, também eleitos para esta Casa na condição de cientistas sociais. Em sua extensa obra, um e outro souberam nos revelar os
desvãos do inconsciente de nossa cultura, na qual o mito do «homem cordial» encobre formas perversas de repressão social.
Foi para mim motivo de profunda satisfação ser convidado para
participar das atividades desta nobre instituição fundada há quase
um século com a finalidade de promover, estimular e coordenar o
desenvolvimento da investigação científica e tecnológica, em qual-
Economista, dirigiu o
BNDE (1958-59),
elaborou o Plano de
Desenvolvimento do
Nordeste e dirigiu a
Sudene (1959-64);
primeiro titular do
Ministério do
Planejamento
(1962-1963) e autor
de extensa
bibliografia sobre a
economia brasileira.
Discurso de posse na
Academia Brasileira
de Ciências,
proferido em nome
de todos os novos
membros. Rio de
Janeiro, 4 de junho
de 2003.
19
Cel so Fu rtado
quer domínio do conhecimento. Muito jovem tive a intuição de que estava
destinado ao mundo do saber e tratei de defender-me de todas as tentações
que me afastavam desse rumo. Foi então que percebi que as ciências brotam do
mesmo tronco e que os valores universais, comuns a todas as culturas, se alimentam da mesma seiva. No Brasil, o que nos interessa em particular não é
tanto a ciência em si, mas a relevância da investigação científica que nos permita decifrar esse teorema apaixonante que é a construção deste país continental.
As peripécias da vida, decorrentes da certeza de que nosso povo merecia um
destino melhor, levaram-me a ser cassado de direitos políticos e partir para o
exílio, privando-me da fortuna de exercer atividades universitárias entre nós.
Mas, vinte anos como professor em universidades da Europa e dos Estados
Unidos permitiram-me reconhecer a importância do trabalho intelectual realizado no Brasil, mesmo nos anos em que foi mais duro o exercício da liberdade.
Hoje vem-me certa nostalgia ao rememorar as longas conversas que tive
com José Israel Vargas, ex-presidente desta Casa, à sombra dos vetustos colégios da Universidade de Cambridge, quando imaginávamos que dali a dez
anos, se muito, o Brasil estaria no chamado Primeiro Mundo. Passado mais de
um decênio, tive troca de idéias não menos interessantes com outro ilustre
membro desta Academia, José Leite Lopes. Sua lucidez não era menor, mas a
visão do futuro do Brasil assumira tons bem mais sombrios. Estávamos na
Universidade de Estrasburgo, onde se integram admiravelmente o espírito
francês e o espírito alemão. Essas longas caminhadas, que se estenderam a vários continentes, me permitiram observar a variedade da produção universitária
nos centros de maior prestígio, e consolidaram em mim a convicção de que
nosso país é um permanente desafio à criatividade, pela diversidade dos valores que integra. Portanto, havia que olhar para a frente, investir nas novas gerações.
As ciências evoluem graças a agentes que são capazes de atingir e ultrapassar
certos limites. Não basta armar-se de instrumentos eficazes. O valor de um cientista resulta da combinação de dois ingredientes: imaginação e coragem. Em
muitos casos, cabe-lhe também atuar de forma consistente no plano político,
20
A respo nsabi li da de do s c i e n ti s ta s
portanto assumir a responsabilidade de interferir no processo histórico. Não
devemos esquecer que a ciência está condicionada pelos valores da sociedade
onde é gerada. Basta lembrar que supostas teorias científicas sobre as diferenças raciais, que prevaleceram no século XIX, nada mais foram do que um simples subproduto das doutrinas imperialistas em voga na época.
As ciências sociais, talvez mais que outras, são sujeitas a influências ideológicas que refletem o espírito de uma época. Se ajudam os homens a enfrentar
uma profusão de problemas, também contribuem para conformar a visão do
mundo que prevalece em certa sociedade. Assim, podem servir de cimento ao
sistema de dominação social em vigor, mas também, eventualmente, justificar
abusos de poder. Ao longo da história, não foram raros os casos em que as estruturas de poder procuraram cooptar os homens de ciência. Os fornos crematórios foram fruto dessa colaboração espúria.
Daí a importância de que prevaleçam na sociedade compromissos éticos.
No campo das ciências sociais, cujo objeto de estudo, diferentemente de
um fenômeno natural, nem sempre é algo perfeitamente definido, e sim algo
em formação, criado pela vida dos homens em sociedade, o princípio da responsabilidade moral faz-se ainda mais premente. Na área que me é familiar – a
economia – verifica-se um empenho em buscar o formalismo, em adotar métodos que fizeram a glória das ciências chamadas exatas. Esse louvável esforço
tem, todavia, um custo, pois com freqüência nos leva a esquecer que o objeto
das ciências sociais nem sempre é compatível com a elegância formal.
Disso me dei conta cedo, ao me debruçar sobre os problemas do desenvolvimento econômico. Com efeito, o próprio conceito de desenvolvimento já
nos obriga a perceber que o homem é um fator de transformação agindo tanto
sobre o contexto social e ecológico como sobre si mesmo. Nesse sentido, a reflexão sobre o desenvolvimento traz em si uma teoria do ser humano, uma antropologia filosófica.
É natural que se esperem dos cientistas sociais, e dos economistas em particular, respostas às questões que mais afligem o nosso povo. Mas, como tudo o
que é humano tem uma dimensão social, esses problemas não podem ser apre-
21
Cel so Fu rtado
ciados fora de um contexto amplo que envolve variáveis políticas, portanto,
poder e valores. Partindo dessas reflexões, permitam-me abordar alguns temas
mais afins com a ciência econômica, os quais, creio, são de atualidade no momento histórico brasileiro.
O primeiro ponto diz respeito à tendência persistente de nossa economia
ao desequilíbrio interno e externo. Nas atuais condições de entrosamento internacional dos sistemas produtivos e dos circuitos financeiros, pergunto-me
se não estamos em face de um agravamento dos desequilíbrios estruturais com
sérias implicações externas? É evidente que nos países desenvolvidos as sociedades são cada vez mais homogêneas no que respeita as condições básicas de
vida, enquanto no mundo subdesenvolvido elas são cada vez mais heterogêneas. A integração política planetária, em processo de realização, está reduzindo
o alcance da ação regulatória dos Estados nacionais.
Nesse quadro é que devemos situar o tema da inflação crônica que marca a
economia brasileira, e leva governos a praticarem uma política recessiva, de
elevado custo social. Os economistas tendem a reduzir o problema a uma
simples dicotomia entre contração de demanda monetária ou expansão fomentada da oferta de bens e serviços. Mas qualquer solução para esse problema exige modificações amplas na distribuição da renda, que por seu lado tem
demonstrado ser um objetivo difícil de alcançar. Ademais, deve-se ter em
conta que muitas das variáveis com que lidamos no campo da política econômica dependem de decisões tomadas fora do país. Levando o raciocínio ao
extremo: o espaço de manobra de um governo pode ser tão restrito que ele se
veja privado da faculdade de ter política econômica, em razão de compromissos assumidos com credores externos, e seja forçado a praticar uma moratória com sérias projeções políticas.
Temos de reconhecer, assim, que nos escapa a lógica do processo de globalização em curso, o que nos dificulta captar o sentido do processo histórico
que estamos vivendo. Não conseguimos compreender os fundamentos do
acontecer atual, nem dirimir dúvidas essenciais, não obstante os fantásticos
avanços das técnicas da informação. Essa pouca transparência do processo em
22
A respo nsabi li da de do s c i e n ti s ta s
que estamos envolvidos, e a que chamamos de aceleração do tempo histórico,
revela a intervenção de fatores que fogem ao nosso entendimento, em particular os de natureza estrutural. Já praticamente não existem sistemas econômicos
nacionais dotados de autonomia. Os mercados de maior relevância, em especial os de tecnologia de vanguarda e de serviços financeiros, operam hoje unificados e marcham rapidamente para a completa globalização.
Mas este é um processo aberto. O que vai acontecer em cada país dependerá
em parte substancial do comportamento de seu povo e de seu governo. Vejamos o que está ocorrendo nas principais áreas econômicas mundiais. Os países
da Europa Ocidental estão empenhados na mais rica experiência de cooperação política e de integração dos mercados de fatores, inclusive de
mão-de-obra, o que implica um esforço financeiro comum para reduzir as desigualdades de nível de vida existentes na região.
Pretensamente com o mesmo propósito de mobilizar recursos políticos
para colher vantagens econômicas, os norte-americanos tomaram uma série de
iniciativas cujo objetivo é integrar sob seu comando as economias do hemisfério ocidental. Essa integração, no caso do Canadá, significa dar continuidade a
um processo histórico, conquanto enfrente problemas culturais. Mas, com
respeito à América Latina, e em particular o Brasil, os problemas decorrentes
desse plano de integração continental revestem-se da maior gravidade. Com
efeito, caso aceite firmar o acordo que acena com uma suposta integração entre
iguais, o Brasil estará na realidade firmando um compromisso entre desiguais,
pois quem lidera esse projeto é nada menos do que a maior potência mundial
em termos econômicos, políticos e militares. É evidente a assimetria entre os
futuros co-signatários desse projeto conhecido pelo nome de ALCA (Área de
livre-comércio das Américas), que estabelece regras comuns para um amplo
espectro de atividades, desde investimentos norte-americanos no hemisfério
até o controle da propriedade intelectual. Em outras palavras, o projeto acarreta
uma clara perda de soberania para o Brasil, que teria de renunciar a um projeto
próprio de desenvolvimento, abdicar de uma política tecnológica independente, e esfacelar o seu já fragilizado sistema industrial. Se o modelo de integração
23
Cel so Fu rtado
européia objetiva homogeneizar os padrões de desenvolvimento de seus membros, permitindo a mobilidade de mão-de-obra, a ALCA, ao contrário, exclui
toda possibilidade de fluxos migratórios. E mesmo que não excluísse, seria tão
prejudicial para o nosso país que, parodiando às avessas o famoso escritor que
fugiu do nazismo e veio a morrer entre nós, poderíamos proclamar: o Brasil é
um país sem futuro.
Faço essas reflexões para enfatizar a responsabilidade que nos advém coletivamente na construção de um Brasil melhor. Somos uma força transformadora
deste mundo. Cabe a nós, intelectuais e cientistas aqui presentes, balizar os caminhos que percorrerão as gerações futuras.
Quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras, afirmei que o domínio avassalador da razão técnica limita cada vez mais o espaço em que atuam os
seres humanos. Quero concluir estas palavras lembrando que a história é um
processo aberto e o homem é alimentado por um gênio criativo que sempre
nos surpreenderá. De instituições culturais como esta Academia espera-se que
velem para que essa chama criativa se mantenha acesa e ilumine as áreas mais
nobres do espírito humano.
Paris, maio de 2003
24
A literatura brasileira
vista da Espanha
B asil io L o s a d a
E
m primeiro lugar, um prefácio: eu não nasci para uma ocasião
como esta, não sei nunca em que língua devo falar. Eu nasci no
mundo galego da montanha, essa foi a minha primeira pátria. O galego foi a minha primeira língua. Foi a primeira língua que eu falei e a
primeira em que eu vim falar. O espanhol é, para mim, uma língua
aprendida, mas logo depois, na minha vida, tive que aprender muitas
línguas e tive que passar por muitas outras culturas. A minha mulher, a
minha querida Ilse, que hoje não está aqui, é alemã, nasceu em Hanover, mas está aprendendo galego, porque eu quero que as últimas – em
galego dizemos derradeiras – palavras que eu sinta na minha vida sejam também na primeira língua em que falei e em que me falaram.
Vou falar em espanhol, com a segurança de que ninguém vai ter
problemas nesta língua.1
Catedrático de
Filologia Galega
e Portuguesa na
Universidade de
Barcelona.
Tradutor de
autores
brasileiros e
portugueses para
o espanhol,
agraciado com o
Premi Nacional
de Traducción.
1
Até aqui em português no original. (N. do T.)
25
B a sil io Lo sada
Machado de Assis em Madri. Réplica da estátua instalada à entrada
do Petit Trianon, no Rio de Janeiro, doada ao povo espanhol,
em 1998, pela Academia Brasileira de Letras e a Fundação Roberto Marinho.
26
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
Feito este prefácio, passo, como é lógico nestas liturgias acadêmicas, à gratidão. Eu tenho muitos motivos de gratidão: à Academia Brasileira, ao Instituto
Cervantes, que tornaram possível minha viagem ao Brasil. Não é a primeira vez
que estou neste país. Em espírito, com pensamentos, com a ilusão e em sonhos,
estive muitas vezes. Mas creio que esta é a quinta vez que venho ao Brasil, e espero que não seja a última. O Brasil é, para mim, uma pátria, a pátria maior. Eu
coleciono pátrias, sou uma personagem estranha que coleciona pátrias e coleciona rios. Tenho dezenove pátrias e, à noite, conto minhas pátrias, uma a
uma, e, se me falta alguma pátria de que não me lembro, tenho de abrir minha
caderneta de pátrias até encontrar a que me falta. Baviera, Alsácia, Flandres...
Colecionar pátrias e colecionar rios: muitas vezes viajei por toda a Europa simplesmente com a ilusão de ver o Danúbio, ou ver o Volga, ou ver o Elba, ou ver
o Sena, e esses rios também são parte de minhas lembranças, como o são muitos rios desta minha pátria que é o Brasil.
Esta honra insigne, esta honra de falar-vos, é um dos atos em que minha vida
– já muito, muito avançada – em que minha vida culmina. Na verdade, eu deveria intitular esta minha palestra “História de uma paixão”. Como descobri Portugal? Como descobri o Brasil, o mundo da lusofonia que agora se prolonga com
meus amigos de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, como descobri este
continente de pátrias imensas, profundas e conflitivas? Foi a partir de minha
condição de menino galego que não sabia falar castelhano. Meu primeiro dia de
escola, tinha eu cinco anos, foi numa cidade de língua castelhana, León, e eu não
sabia falar castelhano. A primeira frase que eu disse na escola foi uma frase em
galego. Disse eu: “Ve, ve alí hai un gato e ten un rabo estalicado.” E aí todo o
mundo riu-se de mim, a começar pela freira, pela professora; e aí durante um ano
eu não quis falar. E não falei. Um ano inteiro fui à escola sem falar. E se me perguntavam quantas pessoas tinha a Santíssima Trindade, uma pergunta então razoável, eu sabia que eram três, mas me calava, e sempre havia algum obtuso que
dissesse “Tem oito pessoas”. Eu sabia que eram três, mas não me atrevia a falar,
até que me impus a obrigação de falar o espanhol melhor que os outros – coisa
que, realmente, consegui – mas sempre carreguei comigo, e ainda hoje a carrego,
27
B a sil io Lo sada
a lembrança daquele menino que falava uma língua desprezada, que era um estigma, uma marca de inferioridade, mas que nunca abandonei. E por isso espero
que, quando a morte chegar – como diz Woody Allen, eu não tenho medo da
morte, mas tentarei estar ausente quando ela chegar –, tentarei estar ausente,
mas, caso não possa estar ausente, quero ouvir as últimas palavras nesta variante
do português, que é o galego, porque hoje o português não é uma língua, é uma
constelação de línguas, é um sistema lingüístico que está em permanente evolução, em recriação constante. E eu falo com meus amigos angolanos, com escritores de Angola ou de Moçambique, e me surpreende a capacidade criativa deste
idioma que se renova constantemente.
Descobri por mim mesmo a literatura brasileira: durante meus estudos médios e na universidade, ninguém jamais me falara do Brasil nem da existência
de uma literatura brasileira. Terminei meus estudos de Filologia Românica, na
universidade, e ninguém me falara de Machado de Assis, por exemplo. A verdade é que, naquele tempo, falava-se de muito poucas coisas, e minha ignorância de então era uma ignorância enciclopédica que tudo abrangia. Mas um belo
dia vi, numa livraria de segunda mão, Os velhos marinheiros, de Jorge Amado, que
viria a ser um grande amigo meu, muito admirado e muito querido, e li Os velhos
marinheiros com paixão. Lia-o no ônibus. Nas aulas do curso de doutorado, na
universidade, eu escondia Os velhos marinheiros embaixo da carteira e o lia ali
também. Foi a partir daí que começou esta história de uma paixão. Mais tarde
tornei-me editor. Dirigi a seção de literatura de duas editoras muito importantes, hoje desaparecidas, a Editorial Caralt e a Editorial Noguer. Minha primeira preocupação, por conseguinte, foi que essas editoras publicassem livros de
literatura brasileira. E elas publicaram alguns. Publicaram, evidentemente, Os
velhos marinheiros e mais algumas obras de Jorge Amado. Publicaram obras de
Autran Dourado, numa época em que parecia impossível que uma editora espanhola publicasse livros do Brasil. Daqui a pouco explicarei qual é o problema da literatura brasileira, uma literatura fora dos circuitos, uma literatura que
não entra nos intercâmbios editoriais. Quando eu dirigia a Noguer, que era
uma grande editora de Barcelona, com milhares de títulos publicados, eu soli-
28
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
citava autorização para publicar um livro da Inglaterra ou da Alemanha e, freqüentemente, respondiam: “Está bem, cedemos-lhe os direitos deste livro, se
também publicarem este outro”. Há uma palavra em catalão, que é outra das
minhas línguas e outra das minhas pátrias, uma palavra para a qual não encontrei tradução em nenhuma das línguas que conheço. Esta palavra é torna. A torna
é o que acontece quando alguém vai comprar um quilo de pão e, ao pesarem-no, verificam que ali só há 900 gramas. Cortam, então, um pedaço de 100
gramas que equilibre a balança e o peso. E eu não sei se isto existe em alguma
outra língua.2 Além do mais, este é um elemento que caracteriza perfeitamente
a mentalidade catalã, o pesar as coisas e medi-las. Pois bem: quando eu negociava os direitos de publicação de um livro, outros livros entravam como torna,
para equilibrarem o peso; e eu nunca podia impor, como torna, um livro em espanhol. Pouco a pouco fui construindo minha própria imagem do Brasil, uma
imagem em nada diferente da imagem do Brasil que se tem, hoje em dia, na
Alemanha ou na Bélgica. Mensalmente dou um curso na Alemanha e outro
na Bélgica, em Lovaina e Antuérpia, e às vezes falo de um tema que, para
mim, é um tema permanente e de que logo voltarei a tratar: a oralidade na
literatura. E dou como exemplo de oralidade sublime, magnífica, uma das
três ou quatro grandes obras narrativas do século XX, Grande sertão: Veredas,
de Guimarães Rosa. E vejo em meus alunos alemães ou flamengos o estupor,
o assombro que lhes causa a existência da literatura brasileira. Por que esse
desconhecimento? Porque a literatura brasileira está fora dos circuitos, dos
grandes circuitos editoriais em que entram as literaturas que hoje em dia, no
aspecto narrativo, são de segundo plano. Por exemplo, a literatura narrativa
francesa, obcecada por problemas técnicos, por novas maneiras de narrar, esqueceu-se de que um romance é, essencialmente, uma histsória bem contada.
E, se esquecemos que um romance é uma história bem contada, estamos alie2
Existe. Leia-se o que diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, na acepção 5 do verbete
contrapeso: “Porção menor de uma mercadoria vendida a peso, que o vendedor acrescenta para
compensar o peso pedido.” Idêntico vocábulo existe em castelhano, com a mesma acepção.
(N. do T.)
29
B a sil io Lo sada
nando o público, estamos assumindo uma atitude elitista e altaneira que bem
pode ser a ruína da literatura.
Do Brasil existe a imagem tópica, a imagem dos tópicos: o carnaval, o futebol e as praias. Os tópicos são realidades, dizia Ortega y Gasset, um filósofo
espanhol que, atualmente, ninguém lê, mas que se deveria voltar a ler; os tópicos, dizia Ortega, são verdades cansadas, verdades que, de tão evidentes, esquecemos. Cumpre, então, reinventar os tópicos, cumpre reinventar os lugares-comuns, para que voltem a ter seu poder agressivo, seu poder de obrigar a
pensar. Carnaval, futebol e praias eram o que se me pedia quando, antes de ser
diretor editorial, eu ia de editora em editora com um livro brasileiro debaixo
do braço e o dava a examinar. O mesmo me sucedeu com a literatura portuguesa. Li o primeiro livro de Saramago – o primeiro não, perdão; o primeiro livro
fulminante, que foi o Memorial do convento – e fui àquela grande editora espanhola, a Seisbarral, dizendo: “Vejam, aqui está um escritor português que me parece extraordinário.” E olharam o Memorial do convento e me disseram: “É
português, não desperta interesse.” E eu: “Mas é uma obra extraordinária!” E
eles: “Sim, mas esse homem publicou algum outro livro, além desse?” E eu:
“Bem, ele publicou O ano da morte de Ricardo Reis.” E eles: “Ah, Ricardo Reis é
Pessoa, e Pessoa interessa.” Logo falarei deste fenômeno, de que hoje em dia,
na Europa, falar de literatura brasileira é difícil; mas, se, por exemplo, proponho-me falar de Machado de Assis, dizem-me: “O que os estudantes da universidade esperam é que lhes fale de Paulo Coelho.” Bom, então eu falo de Paulo Coelho, por que não? O mesmo se passa em relação a Saramago. Para a política cultural de um país, é muito difícil superar esses lugares-comuns, essas
barreiras. Qualquer novelista inglês de segunda classe tem possibilidades – e,
se for de terceira, ainda mais – de vir a ser publicado em espanhol. Há países
que encontram as barreiras fechadas, que estão fora de circulação.
Tenho para mim que toda grande literatura é uma grande literatura regional. Quero também dizer que sei, e disto estou convencido, que todo grande
escritor tem um mundo próprio e uma linguagem própria para exprimir esse
mundo. E foi isto que descobri na literatura do Brasil: um mundo próprio, di-
30
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
ferente, e uma linguagem ou umas linguagens capazes de exprimir essa diferença. Ler na Europa a literatura do Brasil é um descobrimento permanente. Não
vou citar nomes, mas poderia ser qualquer um dos que traduzi – Autran Dourado, Rubem Fonseca, Clarice, de modo especial. Tenho a imensa satisfação
de ter transmitido meu amor a este país e à sua variante lingüística a minha filha, que me sucedeu na direção do Departamento de Língua e Literatura Galego-Portuguesa, na Universidade de Barcelona e que vai começar a dirigir numa
editora prestigiosa, Ciruela, a publicação de toda a obra de Clarice Lispector,
com prólogos dela e também meus, ainda que a coisa se arrisque a parecer uma
empresa familiar. Pois bem: esta é uma literatura fora do circuito. Como se poderia mudar essa situação? Eu vejo a coisa com muita clareza: os futuros leitores da literatura do Brasil deverão sair das universidades. Desgraçadamente, em
toda a Europa, exceto em Roma, enfim, em todas as universidades européias
que eu conheço, não há docentes universitários de origem brasileira. Todos
são portugueses e, naturalmente, defendem sua literatura, sua língua canônica,
e até, em certos casos, me dão a impressão de que pretendem penetrar demasiado a fundo na literatura do Brasil. Creio que apenas Roma e a Universidade de
Barcelona têm, dentro do programa de licenciatura e doutorado, uma presença
constante da língua do Brasil, em sua variante brasileira, e da literatura do Brasil, certamente muito bem acolhida. Quando me jubilei, me aposentei, no ano
2000, tínhamos 1300 alunos, não desta licenciatura, os licenciados eram poucos, eram dez, mas vinham alunos de muitas outras faculdades ou de muitas
outras especialidades, para assistirem, por exemplo, a um curso sobre Guimarães Rosa, um curso de 60 aulas, ou um curso para doutorandos, em 20 aulas,
sobre a narrativa do Nordeste do Brasil.
Tendes uma língua em ebulição, uma língua magmática, uma língua criativa, uma língua que ultrapassa todas as definições canônicas. O espanhol de
hoje me parece rígido, impreciso, incapaz de manifestar emoções profundas a
partir de uma perspectiva nova. Por isso a grande literatura em espanhol não se
faz, hoje, na Espanha, mas sim nos países americanos de língua espanhola, nos
quais se entra na língua com um espírito libertário, com uma criatividade que,
31
B a sil io Lo sada
possivelmente, o espanhol, o francês, o português, o alemão nem tanto, perderam já. A literatura alemã continua a ser muito importante, e cada vez mais,
porque é a literatura que nasce da amargura, da frustração, da decepção, da tragédia, da rebeldia dos filhos contra os pais, quando lhes perguntam – coisa que
vivi em minha própria família – quando as crianças perguntam, agora ao avô,
anteriormente ao pai, por que aconteceu aquilo, como foi aquilo, como se
pode justificar aquilo. Uma literatura que nasce da tragédia é uma grande literatura, como o foram as literaturas medievais.
Pouco tempo depois tive a sorte de conhecer João Cabral de Melo Neto,
que foi cônsul em Barcelona. (Meu relógio estava marcando a hora espanhola,
e não a brasileira, de sorte que vi, alarmado, dez da noite e pensei: “Que diabo é
isso? Que aconteceu?” Mas, agora, já o acertei para a hora brasileira.) Mas eu
dizia que o enorme valor da literatura do Brasil é a oralidade. Foi o que descobri, por exemplo, em Guimarães Rosa. Era algo que se movia ao redor de mim
e dentro de minha cabeça: Onde está e quais são as razões da crise das literaturas narrativas nos dias que correm? Na realidade, as razões da deserção do público leitor é o fato de a literatura ter-se convertido em algo muito maçante.
Não me refiro à poesia, refiro-me ao romance que, na Europa, é infinitamente
maçante. Eu, que fui jurado dos prêmios nacionais de literatura narrativa na
Espanha, por vinte e cinco anos, tive de abandonar a coisa porque não estava
disposto a ler oitenta livros detestáveis, horrorosos, por ano. E decidi que já
não queria ser jurado do Prêmio Nacional de Narrativa. Fizeram-me, então, e
nomearam-me jurado permanente do Prêmio Nacional de Poesia. Estou disposto a ler oitenta ou cem poemas por ano, mas ler oitenta romances abomináveis era algo que só se poderia oferecer a título de penitência. A literatura
tornou-se muito enfastiante porque o leitor foi esquecido e o narrador está
ensimesmado, experimentando técnicas que, quando justificadas, funcionam,
mas que, quando não têm justificativa, são uma agressão ao leitor. É evidente
que, muitas vezes – e, no caso de James Joyce, é evidente –, o monólogo interior é necessário. Mas simplesmente introduzir um monólogo interior sem qualquer necessidade, como um exercício de exibição heráldica, de ostentação de
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A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
saberes prescindíveis, isso não tem sentido algum e ameaça o futuro da literatura narrativa.
Certa vez, em Marrakech, no Marrocos, uma cidade deslumbrante, descobri a oralidade que vislumbrara desde minhas origens na Galícia. Dei-me conta
de que havia narradores orais, ou seja, um mouro se sentava, tocava uma campainha e, imediatamente, as pessoas se reuniam ao redor dele para ouvirem as
histórias que ele contava. O narrador oral tem de estar muito atento às reações
do público. O mesmo, aliás, nos acontece, a nós, professores. Eu sempre disse
que um bom professor tem de ser um bom ator e, se não é um bom ator, não é
um bom professor. Se aborrece os alunos, se os leva ao desespero, se os alunos
vão para a aula como quem vai para a guerra, o professor fracassou. Eu via, então, os narradores de Marrakech contando histórias e muito atentos às reações
do público, porque quem escutava a história, caso esta não lhe interessasse ou
fosse enfadonha, ia ouvir outro narrador. E assim, na hora de passar o chapéu
ou a bandeja, o dinheiro também iria para o outro. Oralidade, então, é, fundamentalmente, o ter presente o leitor, ter presente que a criação literária é um
sistema de colaboração. E, em poesia, isto fica muito claro. Eu, que sou um poeta frustrado, antes, quando era jovem, diria que daria seis anos de minha vida
para escrever um bom poema. Agora, que não me restam seis anos de vida, já
não daria nada. Mas houve um tempo em que, para escrever um grande poema,
eu daria seis anos de vida. A poesia é como uma partitura para um músico. É
preciso ler a partitura. E a poesia é, em grande parte, enriquecida pelo leitor. É
o que eu explico a meus alunos, que agora são alunos americanos, e não espanhóis, contando-lhes uma história que vivi e que se relaciona com este aspecto
da literatura enquanto participação, e, de modo especial, com a poesia. De certa feita li um poema que me pareceu um bom poema, mas nada mais que isso.
Intitulava-se “A carta do amigo suicida” e um poeta, amigo meu, explicava
que, um dia, outro poeta, amigo dele, se suicidou e ele viu uma carta fechada
sobre a mesa de seu escritório e não a abriu. O poema me pareceu um hábil
exercício de poesia, até que a viúva de outro amigo me chamou: meu amigo se
suicidara, e ela me disse que pusesse os papéis dele em ordem, por faltarem-lhe,
33
B a sil io Lo sada
a ela, forças para tanto. Passei, então, uma tarde na casa de meu amigo, buscando papéis, e, ao abrir uma gaveta, encontrei uma carta fechada. De repente,
aquele poema, “A carta do amigo suicida”, se converteu numa vivência minha.
Já não num fato literário puro, mas numa enorme experiência emocional, porque eu sabia por que meu amigo se suicidara. Meu amigo tinha uma amante, e
sua amante lhe dera um ultimato: ou te divorcias e vens viver comigo, ou terminamos. E ele não se atrevia a divorciar-se e se matou. De pronto aquele poema, que não me parecera um poema especial, se enriquecera com minha experiência.
Em poesia o leitor é fundamental. Mas também o é no romance. A experiência dos narradores orais de Marrakech trouxe-me de volta o mundo da minha infância. Eu digo aos meus alunos de agora, que são americanos, que nasci
no século XII; e eles me olham e dizem: “Também não exagere!” Eu nasci nas
montanhas da Galícia, numa casa que não tinha luz elétrica. Vivíamos, minha
grande família de sessenta pessoas, numa casa imensa, e vivíamos exatamente
como se vivia no século XII, e falávamos uma língua também medieval, a minha língua. A oralidade, ali, era fundamental. Quando caía a noite, vinham os
camponeses das redondezas para a grande cozinha de minha casa, para a lareira, onde sempre ardia o fogo. É possível que, em quinhentos anos, aquele fogo,
aquele lume, jamais se tenha apagado. E então um tio meu contava histórias
que nós, meninos, ouvíamos assombrados, porque eram histórias de mortos,
de gente que vinha do outro mundo; mas eram histórias que também transmitiam os sinais de identidade da tribo e tinham enorme valor antropológico,
eram histórias que também transmitiam um mundo de cultura. Vou tentar
transmiti-lo em minha própria língua. Contava-se aos meninos, por exemplo,
que un día ían dous pequenos á escola e pasaban polo bosque, xa sabedes onde estaba o bosque,
aquel bosque tremendo, e alí, xunto á ponte vella, viron chegar un home, un vello que viña cargado con leña, era un vello moi feo, cunha barba longa, todo esfarrapado, e entón os pequenos ríanse
del. E o home aquel fixo así: Pluf! E aqueles dous nenos quedaron convertidos en dúas cerdeiras
bravas, dous cerezos salvaxes, no? E dicían: Son as cerdeiras bravas que hai alí, xunto á ponte
vella. Entón os nenos da casa, os meninos da casa, demos nomes àquelas duas cerejeiras:
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A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
uma se chamava Daniel e a outra, Genaro. E falávamos com as cerejeiras, e,
quando voltávamos da escola, dizíamos: “A professora é muito má, bate em
nós, é uma mulher terrível...” Aquelas cerejeiras eram dois meninos também.
Mas, quando íamos pelo bosque e víamos algum velho carregado com o que
quer que fosse, aproximávamo-nos dele e dizíamos: “Senhor, podemos ajudar-te. Queres que te ajudemos em algo?” Não eram apenas os sinais de identidade da tribo: era também um sistema de valores que transmitia aquela literatura oral. E, de certa feita, contei por escrito outra historia oral, e um amigo
meu, escritor, compôs um conto baseado nessa história e pediu-me licença
para antecipar-lhe a publicação: a lareira da casa3 não se apagava nunca e minha avó dizia (a porta de casa, a da cozinha, deixavam-na sempre aberta), e minha avó dizia, então: “Aquí, se algún día, se algún día vedes aquí alguén que ven de fóra, hai
que deixalo entrar e pode comer todo o caldo que queira, todo o que queira, non preguntedes nada,
non lle digades cal é o seu nome, porque pode ser Noso Señor.”4 E Nosso Senhor, não é verdade, não gosta que se lhe façam perguntas. E sucedeu que um dia voltamos
para casa, meu primo, que já morreu, e eu, muito crianças ainda, e vimos um
velho com uma barba branca servindo-se de conchas de caldo. Escondemo-nos num canto e eu perguntava a meu primo: “Achas que é Deus? Achas
que é Nosso Senhor?” E ele dizia: “Eu acho que é.” Mas estávamos em dúvida,
até que, depois de tomar sete xícaras de caldo – digo sete porque é um número
mágico, talvez fossem seis ou nove – o velho se levantou, juntou as mãos e disse: “E agora unha Ave María polos mortos desta casa.”5 E se foi. Neste ponto
fiquei convencido de que vira a Deus. Mais tarde vim a pensar que ele não era
Deus. E, já agora, volto a pensar que talvez fosse. Mas tudo isso era o mundo
da oralidade, e este mundo pode ser reconhecido na literatura do Brasil, em muitas histórias de Jorge Amado, de Guimarães Rosa, de tantos e tantos escritores
que fazem com que hoje a literatura do Brasil seja a mais estimulante, a mais
carregada de novidade e a mais rica entre as literaturas que eu conheço. E eu
3
Em galego no original. (N. do T.)
Idem.
5
Idem.
4
35
B a sil io Lo sada
prego de universidade em universidade, em Chicago, ou em Heidelberg, ou em
Malinas, prego que a literatura brasileira é a melhor do mundo, a mais interessante, a que pode devolver aos entediados leitores europeus a paixão pela arte
de narrar. Mas, com uma condição: não esquecer o leitor. O leitor é uma peça
importante, inclusive porque compra o livro. Isto é, se um homem gasta três
mil pesetas (eu ainda calculo em pesetas e não em euros), se um homem gasta
três mil pesetas num livro e o livro o enfara ou o leva à loucura, não torna a
comprar outro livro. Tem opções muito mais baratas, no futebol ou onde quer
que seja.
A literatura brasileira se move no âmbito do romance mais vivo. Por quê?
Porque este é um país magmático, incrivelmente confuso, um país em permanente recriação, onde o absurdo é o quotidiano. Eu, por exemplo, nunca vivi
em outro país do mundo uma aventura como a que vivi ontem, em meu hotel,
quando lá entraram três pistoleiros e armaram uma tremenda confusão. Eu, escondido, assistia à coisa com interesse evidente e me dizia: “Estou compondo
um capítulo de minhas memórias.” Isto nunca me aconteceu na Alemanha ou
em Nova York. É claro que é triste, mas, literariamente, é algo efetivo, é algo
que hoje tem valor. Também tem valor, tristemente, mas tem, outro incidente
que me aconteceu, ao almoçar num restaurante. No Rio de Janeiro as porções
de comida são brutais, são imensas, são intermináveis. E, por isso, deixei uma
grande parte da comida que trouxeram e disse: “Não agüento mais.” Veio, então, o criado, o garçom, e me perguntou: “O senhor se importa se dermos os
restos a alguém?” E eu disse: “Não, de modo algum.” Chamaram então uma
menina que estava na rua, uma menina linda, de uns doze anos, branca, mas
carregando um menino negro, e me emocionava o amor com que estreitava
contra seu corpo ainda infantil aquele menino negro. Deram-lhe a comida,
numa embalagem de papel de estanho, e, pouco depois, ao passar eu junto a
um jardim, vi essa menina comendo a comida que me sobejara. Outra experiência, creio eu, que jamais viverei na Europa. Não há dúvida que é uma experiência dramática, mas é também uma experiência que daria matéria para um
belo conto. Este país, o Brasil, no qual, em duzentos quilômetros, se pode pas-
36
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
sar do neolítico à tecnologia mais avançada; um país que está não apenas na
vanguarda da criatividade literária, mas também da criatividade artística em
design e arquitetura; este país de tremendos contrastes, um país invertebrado,
magmático; a miscigenação, que é uma realidade viva e é o futuro do nosso
mundo.6 Neste sentido, mesmo quando pensamos, por exemplo, que 15% dos
habitantes de Berlim são turcos, ou quando pensamos que 30% dos habitantes
de Paris são gente do norte da África, vemos, então que, também nisto, doloroso, difícil, possivelmente amargo, o Brasil está na vanguarda de um mundo
com o qual vamos ter de aprender a conviver, porque o futuro está na mestiçagem. Digo-o eu, que sou um mestiço cultural e, possivelmente, físico. Quero
dizer: no sangue de qualquer espanhol há muçulmanos, marroquinos judeus,
gente do norte: a mestiçagem é a liberdade. O mestiço é aquele que, tomando
um pouco daqui e um pouco dacolá, pode construir seu próprio mundo. A
mestiçagem, no meu caso, mestiçagem cultural, é algo que só reconheço na velhice e que foi uma imensa fortuna, uma imensa fortuna. Foi a minha grande
experiência de liberdade pessoal. Por isso coleciono pátrias e coleciono rios. E
por isso qualquer viagem, para mim, é a tentativa de descobrir mais uma nova
pátria que me enriqueça. Um rio a mais, no qual eu possa adivinhar, como Pessoa, os barcos que por ele transitaram ou as pessoas que o atravessaram repletas
de esperança ou desespero.
Pois bem: este país, que vive em permanente trabalho de reconstrução – nos
anos em que passo por aqui tenho visto mudanças de moeda, mudanças de governo – poderia, também, contar exercícios de oralidade e aventuras minhas
neste Brasil inusitado e assombroso. Por exemplo, como, no ano de 1970 me
prenderam sob a acusação de pretender seqüestrar um avião... Absurdo... Mas,
ao fim e ao cabo, o absurdo é a realidade! Muitas editoras me pediram que escrevesse um romance sobre esta minha experiência dos anos 70, quando me
6
Assim no original. Não há uma oração principal, à cuja volta se estruture, organicamente, todo o
período. Cumpre não esquecer que esta palestra constitui um bom exemplo daquele estilo oral, no
qual o encadeamento espontâneo das idéias tende a deixar a estruturação sintática em segundo plano.
(N. do T.)
37
B a sil io Lo sada
confundiram com um terrível revolucionário que ia seqüestrar um avião e desviá-lo para Cuba. E me perguntavam: “Mas o senhor ia para Cuba, não?” E eu
respondia: “Não, ia modestamente para Barcelona...” Coisas assim. E tudo
isso pode ser incidentes, anedotas, elementos passíveis de considerar-se destituídos de importância, embora, para mim, tenham sido muito importantes,
enormemente importantes, qualquer um desses fatos: a menina a quem, hoje,
deram os restos do meu almoço e que, pouco depois, os comia com uma fome
atrasada, junto aos gradis de um jardim; minha experiência de 1970, na minha
primeira visita ao Brasil. Digamos que o Brasil é, hoje em dia, um país onde
acontecem coisas interessantes. Há muitos outros países, desgraçadamente no
Iraque também estão acontecendo coisas interessantes, mas este é um país com
esperança, este é um país aberto, este é um país com tecnologia – e, cada vez
que venho aqui, noto avanços consideráveis, que dão alento, não à minha esperança no futuro, mas à minha convicção de que hoje o Brasil está avançando e
abrindo caminhos para o mundo.
Pois esta é sua literatura. Lembro-me de uma dos primeiros romances
que traduzi, A barca dos homens, de Autran Dourado. É um romance terrível, impressionante e belíssimo. Poderia falar das permanentes transgressões de linguagem de Clarice Lispector, sua constante tentativa de inventar uma linguagem nova, porque inventar uma linguagem nova é inventar
um mundo novo. Dizia Pessoa que a pátria do homem é sua língua. Outro, Rilke, dizia que a pátria do homem é sua infância. Outros dizem que
a pátria não é o lugar onde nascemos, mas aquele onde queremos morrer
(esta definição não me serve, porque eu não quero morrer em parte alguma). Outros, enfim, dizem que a pátria é o lugar onde nasceram nossos filhos. Eu sou muito mais modesto e digo: a pátria é o lugar onde as coisas
quotidianas não são um problema, onde alguém sabe onde comprar novos cordões para os sapatos, quando os cordões velhos se rompem, ou
uma aspirina (isto, literalmente, já me causou dores de cabeça em certos
países). Na pátria, em qualquer pátria, o quotidiano não é um problema.
Pois bem, a literatura do Brasil sempre me fascinou, porque nela vejo es-
38
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
Capas de Clóvis Graciano
De Jorge Amado Basilio Losada traduziu:
Los pastores de la noche (Os pastores da noite). Barcelona: Luis de Caralt, 1970; Barcelona:
Ediciones B, 1995.
Los subterráneos de la libertad (Os subterrâneos da liberdade). Barcelona: Bruguera, 1980.
Mies roja (Seara vermelha). Barcelona: Luis de Caralt, 1985.
Los viejos marineros: dos historias del muelle de Bahia (Os velhos marinheiros: duas histórias do cais da Bahia).
Barcelona, Ediciones B, 1988.
Jubiabá. Barcelona, Plaza & Janes, 1994.
Navegación de cabotage: apuntes para un libro de memorias que jamás escriberé (Navegação de cabotagem).
Madri: Alianza, 1995.
De cómo los turcos descubrieron América. Barcelona: Ediciones B, 1996.
39
B a sil io Lo sada
tes elementos de oralidade. Contar bem uma história, sem perder de vista
o leitor.
As últimas obras brasileiras que traduzi, Patrícia Melo, por exemplo, ou o
último livro de Rubem Fonseca, são literatura absolutamente insólita na Europa. Agora, como convencer os europeus daquilo que eu prego, a saber, que o
Brasil, não só em literatura, em muitas áreas (mas, para mim, por razões profissionais, fundamentalmente em literatura) está na vanguarda do mundo? Este
seria um trabalho que, no melhor sentido da palavra, poderia ser chamado de
político. Eu gostaria de ver em Heidelberg, em Hanover, em Göttingen, em
Florença, em Malinas, em Gand, docentes de literatura brasileira7 como o que
temos em Barcelona, que simplesmente transmite a seus alunos o amor a esta
literatura e lhes revela o seguinte: que esta literatura é de vanguarda, que ela
está rompendo os velhos esquemas das literaturas européias. Quando vejo que
na França continuam escrevendo romances cujo tema central é saber se a Senhora Dupont vai para a cama com o pintor do lado – um assunto que não interessa nem sequer ao Senhor Dupont – parece-me que a literatura será viver as
coisas, escrevê-las (e talvez eu escreva esta minha experiência de hoje, quando
compartilhei meu almoço, o que foi um ato involuntário, mas, não obstante,
fez com que me sentisse enobrecido; e, logo depois, eu teria gostado de falar
com aquela menina, para que ela me explicasse algumas coisas, e, talvez, deixar-lhe algum dinheiro a fim de que, durante um mês, ela e aquele menino negro que ela carregava pudessem esquecer a angústia de sobreviver um dia depois do outro).
Se a literatura, portanto, tem algo importante, se ela é algo importante, ela o
será nisto: descobrir-nos mundos, descobrir-nos novos usos da linguagem que
jamais prevíramos, pôr um adjetivo novo ao lado de um substantivo com o
qual esse adjetivo nunca se casara antes, provocar em nós essa emoção que às
vezes, tantas vezes, traduziu-se para mim na experiência de estar lendo, sobre7
No original está “lectores de literatura portuguesa”, um evidente lapsus linguae corrigível pelo
contexto. (N. do T.)
40
A li teratu ra brasi lei r a v i s ta da Es p a n h a
tudo um poema, e ter de fechar o livro, porque a tensão emocional era tão alta
que eu vislumbrava que aquilo não era deste mundo nem correspondia a minha
própria experiência. É esta a grandeza da literatura.
Continuarei a pregar, talvez inutilmente, de universidade em universidade,
dizendo que a literatura do Brasil é a mais nova, a mais rica, a mais sugestiva do
mundo. Continuarei a peregrinar pelas editoras com um livro brasileiro debaixo do braço (antes isto era fácil, porque todos os editores eram meus colegas,
gente de minha geração; em seguida, eram alunos meus; mas agora já é uma terceira geração, é gente que eu não conheço e que não me conhece e, aí, a coisa se
torna um exercício apostólico). Sinto-me em permanente apostolado, com
qual tento pagar tudo o que este país e esta língua me deram. Porque aquele
menino humilhado na escola, por falar uma língua humilhada, descobriu, mais
tarde, que essa mesma língua era uma língua carregada de dignidade. E a partir
daí viveu e assumiu essa língua com um orgulho imenso.
Esta é a história de uma paixão.
41
Literatura como
imaginário: Introdução
ao conceito de poética
cultural
I v a n T e ix e ir a
1. Pequena arqueologia do nome
Em português, o sufixo ário produz, entre outras, a idéia de coleção, de conjunto ou de lugar em que se guardam coisas, tal como se
verifica em vocabulário, apiário, relicário e armário. Pela via etimológica,
portanto, imaginário nada mais é do que um conjunto ou coleção de
imagens, visto que o termo decorre de imagem, e não de imaginação,
embora ambos sejam correlatos, como se verá mais adiante. Essa é a
primeira acepção de imaginário registrada por Gilbert Durand,1 que
o associa de imediato à idéia de museu, no sentido de repositório de
1
O Imaginário: Ensaio acerca das Ciências e da Filosofia da Imagem. São Paulo: Difel, 2001,
Leciona Cultura e
Literatura Brasileira no
Departamento de
Jornalismo e Editoração
da Escola de
Comunicações e Artes da
USP. É doutor em Letras
pela mesma Universidade.
Seu livro Mecenato Pombalino
e Poesia Neoclássica (EdUSP,
1999) recebeu o Prêmio
Jabuti, de São Paulo, e o
LASA Book Prize, da
Latin American Studies
Association, de Pittsburgh,
Pensilvania, EUA.
Escreveu e organizou
diversos livros, entre os
quais se contam Apresentação
de Machado de Assis (Martins
Fontes, 1987), Obras
poéticas, de Basílio da Gama,
e Poesias, de Olavo Bilac.
43
Literatura como imaginário
Iv a n Tei xei ra
imagens, não só as já produzidas pelo homem, mas também as ainda por se
produzirem. Logo, conforme o antropólogo, o sentido básico de imaginário
encerra não apenas a idéia de acumulação, mas também a de processo de produção, de reprodução e de recepção da imagem.
No dicionário etimológico de José Pedro Machado,2 o termo imagem, derivado do latim imagine, desencadeia uma longa sucessão semântica, em que se
destacam, por ordem de surgimento no verbete, as seguintes: representação, imitação, retrato; retrato de antepassado, imagem (em cera, colocada no átrio e levada nos funerais);
imagem, sombra de morto; fantasma, visão, sonho, aparição, espectro, etc. Associa-se, ainda,
à noção de comparação, parábola e apólogo. Além disso, traz uma curiosa nuança, que é a idéia de imitação, por oposição à realidade. Conclui-se daí que,
em bom português, imagem é sinônimo de símbolo, pois se trata de uma coisa
que se toma em lugar de outra.
Convém lembrar que o verbo imaginar, pela mesma via latina, designa o
ato de produzir imagens ou de representá-las. Por outro lado, imaginação,
ainda no século XVI, limitava-se à idéia de imagem ou de visão. Hoje,
como se sabe, o termo é definido, sobretudo, como a faculdade psíquica de
produzir imagens novas por meio de combinações imprevistas a partir de
imagens conhecidas. Sem esquecer as variantes semânticas atuais de ilusório
ou fantástico (como adjetivo), o vocábulo imaginário, ao assumir a condição
de substantivo, apresenta-se como resultado de fusão dialética entre imagem e imaginação, pois a criação de imagens pressupõe o uso da imaginação. Não é à toa que, em certas regiões do Brasil, imaginário designa, ainda, a
pessoa que produz estátua, conhecida também como estatuário, santeiro
ou imagineiro.
Então, se a etimologia for aceitável como estágio preliminar de investigação de um conceito, a idéia de imaginário pertencerá à esfera semântica
do mito, da utopia e da criação artística, em cujo âmbito se coloca a litera2
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Com a mais antiga documentação escrita e conhecida de
muitos dos vocábulos estudados. 3 vols. Lisboa: Editorial Confluência, 1967.
44
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
tura. Mas há outro termo que possui íntima relação com a noção de imaginário. Trata-se de tecnologia. Em sua origem grega, o vocábulo, que se
compõe de techné (arte, habilidade) e lógos (palavra, discurso), designava o
estudo de técnicas destinadas à obtenção de eficácia no desempenho de ofícios, que incluíam tanto a manufatura de uma cadeira quanto a pintura de
uma parede. Preservando a antiga raiz semântica, o vocábulo, em sua acepção mais elementar, designa, hoje, a produção sistemática de métodos, ferramentas e utensílios destinados a mediar a atuação do homem sobre a realidade. Tanto na acepção antiga quanto na atual, tecnologia pode ser entendida como uma linguagem de cuja aplicação resultam objetos ou procedimentos utilitários. Apesar de o imaginário participar do conceito de tecnologia, é possível traçar distinções entre ambos: o segundo configura-se
como linguagem predominantemente transitiva, no sentido de mediar a
ação do homem sobre o real; ao passo que o primeiro se apresenta basicamente como linguagem intransitiva, no sentido de produzir objetos destinados à contemplação estética.
Todavia, sem se destinar primordialmente à medição entre lógos e práxis, o
imaginário também possui efeitos sobre a ação do homem. Veja-se um exemplo comparativo. Hoje, acredita-se que a produção das figuras rupestres, com
todas as possíveis nuanças ritualísticas, associava-se ao propósito de controlar
os animais que seriam convertidos em caça.3 Simulacro e realidade misturavam-se na arte das cavernas, embora as figuras das paredes e dos tetos jamais se
confundissem com as armas do mesmo período. Originárias de projetos culturais afins, pintura e armas possuíam funções distintas: supõe-se que as figuras
afastavam o medo do homem pelos animais, gerando familiaridade com eles e
produzindo uma forma de conhecimento (imaginário); as armas tornavam
possível o triunfo sobre a caça, alterando efetivamente a relação do homem
com a paisagem (tecnologia).
3
Gombrich, E. H. The Story of Art. London: Phaidon Press Limited, 1995, pp. 39-43.
45
Iv a n Tei xei ra
2. Arte: cópia de imagens
Se o imaginário pertence ao universo das construções simbólicas, seu conceito pode partilhar da teoria da mimesis, que concebe a arte como imitação,
representação ou cópia do real (natureza, vida, caracteres, paixões). As origens
desse conceito encontram-se nos livros II, III e X de A República, de Platão.4 O
filósofo condena a imitação artística, porque julga que ela, mantendo identidade aparente entre cópia e objeto copiado, ostenta um falso conhecimento da
realidade. A arte, enfim, é cópia de cópia.5 Por isso, a visão utilitária de Platão
levou-o a condenar a pintura e a poesia na vida social da República. Reconhece
algum valor em Homero, mas julga-o inoperante na organização do Estado,
porque seu trabalho se funda em conhecimento parcial e aparente das coisas,
sendo, portanto, inferior ao do legislador, cujas leis são imagens de verdades
essenciais captadas por pessoas detentoras de saber especializado.6 Aristóteles,
ao contrário, julga que a imitação artística propicia espécie legítima de conhecimento, tal como se depreende do início do capítulo IV da Poética, citado aqui
na tradução inglesa de S.H. Butcher:
4
Ao discutir idéias do filólogo alemão H. Koller, Luís Costa Lima (1995, 63-65) apresenta noções
importantes acerca do conceito de mimesis antes de Platão. Originariamente, o vocábulo ocorre no
âmbito da poesia oracular e do teatro primitivo. Depois, surge na filosofia pitagórica da expressão,
associando-se a encenações musicadas e dançadas com finalidade terapêutica. Guimarães Rosa (Corpo
de Baile, Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, vol. I, 60-65) incorpora essa acepção do vocábulo à
novela “Campo Geral”. Aí, seu Aristeu cura o menino Miguilim por meio da dança e de frases
sibilinas. Na Física, de Aristóteles, a medicina também se apresenta como mimesis, no sentido de
restaurar o equilíbrio do corpo, interrompido pela doença. Se se admitir a idéia, defendida pelo
filósofo, de que o fim da natureza é promover a saúde, a medicina pode ser entendida como imitação
da natureza, sem ser necessariamente representação. Conforme Paul Woodruff, “Aristotle on
Mimesis”. In Essays on Aristotle’s Poetics. Edited by Amélie Oksenberg Rorty. Princeton: Princeton
University Press, 1992, p. 78.
5
Selden, Raman. “Imaginative Representation”. In The Theory of Criticism: From Plato to the Present, a
Reader. London, New York: Longman, 1995, p. 9.
6
A noção de que as normas da polis se manifestam como projeções de verdades essenciais surge em As
Leis. Conforme Paul Woodruff, “Aristotle on Mimesis”. Ob. cit., p. 77.6 A noção de que as normas
46
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
Poetry in general seems to have sprung from two causes, each of them lying deep in our nature. First, the instinct of imitation is implanted in man from childhood, one difference between him and other animals being that he is the most imitative of living creatures, and through
imitation learns his earliest lessons; and no less universal is the pleasure felt in things imitated.
We have evidence of this in the facts of experience. Objects which in themselves we view with
pain, we delight to contemplate when reproduced with minute fidelity: such as the forms of the
most ignoble animals and of dead bodies. The cause of this again is that to learn gives the liveliest pleasure, not only to philosophers, but to men in general; whose capacity, however, of learning is more limited.7
[Parece que a poesia em geral originou-se de duas causas, ambas com profundas raízes na natureza humana. Primeiro, o instinto de imitação arraiga-se
no homem desde a infância, sendo que a diferença entre ele e os outros animais consiste em que ele, entre as criaturas vivas, é a mais imitativa e por meio
da imitação obtém os primeiros ensinamentos; e não menos universal é o prazer ocasionado pelas coisas imitadas. Há prova disso na própria experiência.
Objetos que vemos com desgosto na natureza contemplam-se com deleite,
quando representados com rigorosa fidelidade: tal ocorre com as formas dos
mais repugnantes animais e de cadáveres. A causa disso é que o conhecimento
produz intenso prazer, não apenas nos filósofos, mas também nos homens
em geral, cuja capacidade de aprender, todavia, é menor.]
Como se sabe, a indagação de Aristóteles sobre mimesis toma corpo a partir
do conceito de tragédia, que imita uma ação de caráter elevado por meio da palavra e cuja finalidade é, em última análise, o conhecimento e o domínio do
homem sobre as próprias paixões. Mas não se pense que a mimesis transpõe a
vida para a arte. A arte não imita propriamente a vida, mas sim conceitos de realidade, os quais, convertidos em código do imaginário, produzem a impressão de verdade. Conforme esse argumento, os objetos da mimesis artística jamais serão reais. Serão sempre imagens de coisas reais. O ensaísta, tradutor e
7
Aristotle’s Poetics. With an introductory essay by Francis Fergusson. New York: Hill and Wang,
1995, p. 49.
47
Iv a n Tei xei ra
professor da Universidade do Texas Paul Woodruff8 apresenta a estimulante
idéia de que, conforme os pressupostos aristotélicos, o artista inventa as coisas
que pretende imitar e, depois, imita a própria invenção, dando arremate ao
processo mimético.9 Essa noção coincide mais ou menos com os estágios da
redação de qualquer texto, previstos pela retórica antiga: invenção (descoberta
do objeto), disposição (análise e organização mental do objeto) e elocução
(transformação do objeto em texto). O artista pode produzir em seu trabalho
imagens de coisas possíveis, como a personagem Hamlet, ou imagens de coisas
impossíveis, como o fantasma de seu pai.
Logo, na produção de arte, não é a realidade que se impõe ao artista, mas
sim uma certa idéia de arte e de realidade, que integra a dinâmica cultural da
época. Mais especificamente, essa dinâmica pode ser chamada de poética cultural.
O artista demonstrará maior ou menor grau de consciência da poética de sua
cultura, mas é ela que lhe apresenta os assuntos, os modos de organização e de
exposição da matéria artística de sua obra. Qualquer que seja o caso, a teoria
indica que o artista não trabalha com fatos, mas com uma poética dos fatos.
Ao serem incorporados no discurso, os fatos já se convertem em tópica artística, deixam de ser realidade exterior para se transformar em signos da cultura
ou em imagens artísticas da realidade. O simples uso de palavras ou de tintas já
transpõe os fatos para o universo das convenções culturais, distanciando-os da
esfera da natureza. O próprio conhecimento da realidade, responsável pelas
imagens que se convertem em arte, pressupõe a inclusão de suas formas em categorias conceituais que não se confundem com as coisas exteriores à estrutura
da obra de arte. Essas categorias também integram a poética cultural de um período, que envolve não só o conceito de arte e as regras de composição, de leitura e de veiculação, mas também a própria idéia de realidade vigente no mo8
“Aristotle on Mimesis”, ob. cit., p. 85.
Fundado em H. Koller, Luís Costa Lima parece ser o primeiro teórico brasileiro a questionar a idéia
de mimesis como imitatio, defendendo também o princípio de que o conceito aristotélico implica,
antes, um processo de imitação do que representação propriamente dita. Conforme Vida e Mimesis. São
Paulo: Editora 34, 1995, pp. 63-76.
9
48
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
mento da imitação. A poética cultural de cada período, regendo as práticas sociais, unifica conceitualmente o diverso e dá inteligibilidade ao mistério da arte
e da vida em geral.
A expressão poética cultural entra em cena como um aspecto da revalorização
da história nos estudos literários pós-estruturalistas. Stephen Greenblatt,10
responsável pela criação de uma linha de pesquisa norte-americana conhecida
como New Historicism, é o criador da expressão, mas parece ter sido Louis Montrose11 quem, pelos menos em termos explícitos, lhe deu mais consistência
como categoria de análise histórica. O ensaísta entende a história como uma
instância discursiva, constituída por dois aspectos distintos e complementares
que se apresentam por meio de um jogo quiasmático: a historicidade dos textos e a textualidade da história. A historicidade dos textos explica-se como
busca da especificidade cultural e do enquadramento social de todas as formas
de escrita, não só os textos que os críticos estudam, mas também aqueles que
estudam os textos dos críticos. O objeto de estudo é sempre textual: o discurso
historiográfico e a teoria da história. A isso Hayden White chama meta-história. A textualidade da história explica-se por duas noções: primeira, os
eventos passados não se deixam reconstituir em sua materialidade vivida, mas
somente através de textos cuja estrutura necessariamente revela certos processos ardilosos de preservação e de apagamento da imagem dos fatos; segunda,
os próprios textos que compõem o discurso historiográfico pressupõem outras mediações textuais, sobretudo quando se consideram os documentos a
partir dos quais os historiadores compõem o fio narrativo de história.12 Como
se vê, a idéia de poética da cultura associa-se ao conceito de episteme, adotado
por Michel Foucault13 para designar a base interdiscursiva responsável pela
10
“Towards a Poetics of Culture”. In New Historicism. Edited by H. Aram Veeser. London, New
York: Routledge, 1989, pp. 1-14.
11
“Professing the Renaissance: The Poetic and Politics of Culture”. In New Historicism. Edited by H.
Aram Veeser. London, New York: Routledge, 1989, pp. 15-36.
12
Idem, ibidem, p. 20.
13 A Arqueologia do Saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1995, pp. 214-222.
49
Iv a n Tei xei ra
criação dos saberes, dos valores e das convicções de uma comunidade. Em ambos os casos, a história, sendo discurso, não possui uma face cultural que existe
como espécie de apêndice da vida política e econômica de um povo, mas é, por
excelência, concebida como criação de sua cultura.
Ao falar, no capítulo I da Poética, em imitação da natureza, Aristóteles
pressupunha um inequívoco conjunto de mediações discursivas, que inclui
não só a idéia de gênero e decoro, mas também um vasto conjunto de normas
e princípios que definem a natureza da imitação, basicamente estudada conforme o meio, o objeto e o modo pelo qual se processa. O meio é a matéria na
qual se dá a imitação: a palavra para o poeta, o som para o músico, a cor para
o pintor e o gesto para o dançarino. O objeto será sempre imagens de pessoas
em ação, por meio das quais se imitam os caracteres e as paixões. As pessoas
que praticam a ação imitada classificam-se conforme três categorias morais:
superiores aos homens de seu tempo (tragédia e epopéia), iguais aos homens
de seu tempo (pinturas de Dionísio) ou inferiores aos homens de seu tempo
(comédia, paródia). O modo de imitação é analisado por Aristóteles apenas
na poesia, e não nas outras artes. A idéia de modo decorre do exame da maneira com que a voz poética apresenta a matéria, podendo se omitir ou participar ativamente do processo imitativo. A noção de gênero poético associa-se
ao conhecimento dos modos de representação, que são três: narrativa com
diálogo (epopéia); narrativa sem diálogo;14 diálogo sem narrativa (tragédia
ou comédia).
Entre a vida e a arte coloca-se a linguagem da arte, que determina o modo de
apreensão da imagem do real a ser imitada pelo discurso do artista. A assimilação e o respeito pela lógica dessa linguagem chamam-se decoro ou verossimilhança, de cuja obediência decorre a eficácia da imitação. Em rigor, a eficácia
14
Aristóteles não exemplifica esse modo mimético, mas é provável que pensasse em certos mitos
arcaicos em que só fala o narrador, sem nenhuma espécie de intermediário. Os intérpretes modernos
da Poética acreditam que a lírica atual seja contemplada por essa definição do filósofo, porque nela só
fala o poeta ou emissor.
50
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
de qualquer construção artística se mede pela força do efeito que produz na
audiência, a qual se deixa impressionar não pela relação de verdade que possa
haver entre uma obra de arte e o objeto cuja imagem representa, mas sim pela
relação existente entre a estrutura da obra e as regras do gênero a que pertence,
previamente admitidas pelo autor e pelo público a quem se dirige.
Ao se considerar a linguagem da arte, entra-se no reino das poéticas artísticas propriamente ditas, que se organizam em consonância com a poética da
cultura de seu tempo, mas não se confundem com ela, pois pertencem ao terreno particular das diversas hipóteses de construção da arte. As poéticas artísticas são o conjunto de convicções e preceitos de um determinado período aplicável a determinada esfera da criação. Podem ser predominantemente descritivas ou prescritivas, conforme se detenham mais na análise do perfil teórico das
técnicas de composição de obras do passado, como é a Poética de Aristóteles, ou
conforme se concentrem mais na exposição de preceitos a serem seguidos por
artistas vindouros, como é a Arte Poética de Horácio.
Em português, conhecem-se poucas poéticas sistemáticas, dentre as quais se
destacam a Nova Arte de Conceitos, de Francisco Leitão Ferreira, voltada para a
sistematização de princípios do estilo agudo e engenhoso, atualmente conhecido como Barroco; e a Arte Poética ou Regras da Verdadeira Poesia, de Francisco José
Freire, voltada para a sistematização do estilo claro e funcional do Iluminismo,
atualmente conhecido como Neoclassicismo. Do período romântico para cá,
as poéticas vem sendo substituídas – com exceções, é claro – por manifestos
artísticos, geralmente mais breves, menos abrangentes e mais combativos.
Muitos críticos avaliam obras de um período histórico por critérios de outro
período, geralmente o seu. O estudo das poéticas e dos manifestos específicos
de cada época não só resgata a possibilidade de compreensão da singularidade
histórica da obra de arte, mas também propicia a hipótese de reconstrução do
repertório dos artistas e do horizonte de expectativa dos diversos tipos de leitores que se configuram ao longo dos tempos.
Evidentemente, autor e leitor partilham de um código comum de referências, ainda quando não conscientemente admitido. No caso de serem de épocas
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e culturas diferentes, o leitor deverá previamente se municiar dos devidos protocolos de leitura, que o aproximarão dos pressupostos de formulação do sentido da obra. Mesmo descrendo em fantasmas, não estranhará o surgimento
do fantasma do pai de Hamlet na peça de Shakespeare: acatará o irreal para ser
beneficiado com a impressão de realidade, que produz prazer e conhecimento.
Diante da intromissão do fantástico em uma obra, a leitura crítica deverá conduzir a atenção para os procedimentos da poética do autor, em vez de investigar a relação do texto com a vida exterior a ele. O que se imita em Hamlet
(1602) não é a realidade propriamente dita, mas sim um discurso cultural sobre a Dinamarca do século XI, criado na Europa a partir do texto quase mítico
da História Dânica, de Saxo Grammaticus, escritor dinamarquês da segunda metade do século XII.
Assim como, do ponto de vista da história da arte, o reinado de Elisabeth I ficou conhecido como a época do teatro por excelência, é possível que o século
XX venha a se classificar como a era do cinema. Tal como na Atenas de Péricles
os freqüentadores dos festivais de teatro dominavam sem esforço as normas para
a apreciação eficiente de uma tragédia de Sófocles, os contemporâneos de Shakespeare assimilavam com facilidade as alusões, trocadilhos, imagens, reflexões,
tramas e subtramas de qualquer de suas peças. Em ambos os períodos, artistas e
platéia partilhavam dos mesmos princípios de teoria da arte e de compreensão
das coisas em geral, porque eram como que regidos pela poética cultural dos respectivos momentos. Da mesma forma, hoje, tudo se entende no cinema americano. Isso não quer dizer que suas normas sejam simples, mas sim que os freqüentadores de cinema se educam pela mesma gramática da percepção. Numa sala de
projeção, as cenas produzidas por máquinas transcorrem como se fossem naturais. Como no teatro e na literatura, as regras de produção de sentido do cinema
– responsáveis pelo efeito de realidade – não coincidem com as normas da vida
exterior ao filme. Mesmo galopando sobre a areia, a imagem de um cavalo em
um filme será sempre acompanhada do ruído de seu trote. Se não for assim, a
cena será recusada por adesão excessiva ao real e por traição à poética do cinema,
deixando de provocar a ilusão de verdade.
52
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
Como se sabe, é bastante comum o artista produzir enunciados ainda não
explicitamente formulados pela poética cultural de seu tempo. Todavia, eles
existem como hipóteses virtuais previstas pelo sistema da própria cultura, e
não exclusivamente como manifestação de suposta genialidade psicológica do
artista. Como quer que se considere a matéria, surgem daí os chamados momentos de ruptura, em que, de alguma forma, o artista altera o repertório coletivo de sua época. Diante da dificuldade de diálogo de Oswald de Andrade
com a maioria dos leitores de seu tempo, o poeta dizia que a camada da população que o desprezava ainda haveria de comer do fino biscoito que produzia.
Tendo incorporado temas e técnicas da vanguarda européia contemporânea,
Oswald não encontrou, no Brasil, soluções que o tornassem largamente apreciável em vida. A aceitação de sua poética específica teve de contar com o apoio interpretativo de jovens que, conhecendo-o já na velhice e em solidão, transformaram-no num valor reconhecido e inquestionável, graças a notável trabalho exegético, que se fundou, sobretudo, em vinculações do poeta com outros
valores consensuais no momento da institucionalização cultural de seu texto.
Portanto, o prestígio após a morte de um artista inovador, cujo maior exemplo
talvez seja Vincent van Gogh, não quer dizer necessariamente que os grandes
criadores estejam além ou acima do próprio tempo, mas que, com dados sutis
da poética de sua cultura, promovem articulações imprevistas pela média dos
contemporâneos.
3. Literatura: constelação de imagens
Literatura é imaginário: constelação hipotética de imagens. Suas imagens
tanto podem se originar do mundo extratextual quanto podem resultar de
apropriação de estruturas textuais pré-existentes à ficção que se constrói em
dado momento. Grandes obras da literatura européia explicam-se como imitação de discursos literários, por entenderem a ficção como integrante do mundo real – o mundo real das construções culturais, concebidas como fatos sociais. Essa segunda hipótese contempla, por exemplo, o caso de Os Lusíadas e de
53
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toda dramaturgia de Shakespeare. Em vez de cópia da natureza, essas obras
apresentam-se como imitação de textos especificamente considerados ou
como reduplicação da linguagem da própria literatura, cuja gramática se converte tanto em imagens da vida quanto em imagens do processo de semantização da vida.
Se grandes obras da literatura imitam imagens de textos, o mesmo ocorre
com as pessoas, cujas vidas possuem aspectos que só se explicam como cópia
de signos. Hoje, muitas instâncias do eu ou da personalidade se entendem
como invenção cultural. A própria noção de nascimento e de morte só se torna
possível através de relatos alheios, fundados, por sua vez, em discursos de outrem que se perdem no tempo.15 Os homens incorporam a idéia de nascimento
e de morte como experiências vividas, quando, em rigor, elas não passam de
efeito de discursos que se fundam em discursos que se fundam em discursos e
assim por diante. Nesses casos, como em outros, a experiência imita a ficção.
O mundo, enquanto palco do drama humano e, ao mesmo tempo, como objeto e espaço de conhecimento de si próprio, é primordialmente representação
ou encenação da experiência. Ao tratar do assunto, Jacques Le Goff afirma que a
primeira noção para seu conceito de imaginário é a de representação. Explica:
Ce vocable très general englobe toute traduction mentale d’une réalité extérieure perçue.
La représentation est liée au processus d’abstraction. La représentation d’une cathédrale, c’est
l’idée de cathédrale. L’imaginaire fait partie du champ de la représentation. Mais il y occupe la
partie de la traduction non reproductrice, non simplement transposée en image de l’esprit,
mais créatrice, poétique au sens étymologique.16
[Este vocábulo, de significação muito ampla, envolve todas as traduções
mentais de uma realidade exterior percebida. A representação associa-se ao
processo de apreensão da realidade. A representação de uma catedral é a
idéia de catedral. O imaginário pertence ao campo semântico da representa15
16
Foster, E. M. Aspectos do Romance. Porto Alegre: Globo, 1969, pp. 36-37.
L’Imaginaire Médiéval: essais. Paris: Gallimard, 1985, pp. I-II.
54
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
ção. Todavia, não deve ser entendido como simples reprodução dos objetos
ou mera imagem reflexa do espírito, mas como tradução criadora, poética
no sentido etimológico da palavra.]
Ao falar no sentido poético da representação, o historiador alude ao termo
grego poiésis, que, traduzido por poema, quer dizer criação ou instauração da realidade por meio do discurso verbal. Embora entendido como constelação dinâmica de signos, o imaginário em geral e a literatura em particular não devem
ser tomados como representantes de algo que exista fora de sua estrutura. Não
será também sintoma de alguma coisa a que não se tem acesso, mas que seria
desejável atingir. Isto é, a arte não será concebida como documento social,
como manifestação da nacionalidade e muito menos como projeção da psicologia individual do artista. Desde que se reconheça a especificidade de sua dimensão ontológica, terá um fim em si mesma, com usos tão práticos como
quaisquer outros bens culturais. Embora se relacione intrinsecamente com outras ordens discursivas, é ela própria um discurso singular; e, como tal, deve ser
abordada por categorias adequadas a seu modo de ser.
A realidade primordial da literatura consiste na dramatização do ato de construir imagens. Por isso, será tratada como arte, e não como outra coisa. Ao produzir o texto, o artista inventa a imagem de um poeta que escreve ou de uma pessoa que fala como se fosse um artista escrevendo, entre outras possibilidades de
enunciação ficcional. A última estrofe do “Poema Negro”, de Augusto dos
Anjos, serve de exemplo de poesia como dramatização do ato de criar:
Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Porventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.17
17
Anjos, Augusto dos. Eu. Rio de Janeiro, 1912, p. 112.
55
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Qual a condição do texto? Simultaneamente, trata-se de um artefato verbal
e de um evento cultural.18 Dotado de condição múltipla, o poema será entendido como projeção de repertórios, entre os quais se contam o do autor, o de
sua época e o do intérprete. Nenhum deles será entendido como somatória de
vivências psicológicas; todos se entenderão como articuladores de enunciados
culturais. Nesse sentido, interessa ver o poema como imagem que o define enquanto arte. O princípio básico para a leitura da estrofe seria, então, estabelecido a partir da seguinte circunstância: Augusto dos Anjos, no início do século
XX, imagina um poeta que acredita no poema como instrumento de expressão
da angústia de viver. A psicologia imaginada pelo autor dramatiza o paradoxo
segundo o qual a arte, devendo trazer alívio, acaba por intensificar a dor da
existência. Como se vê, a circunstância biográfica encenada partilha do temário romântico, que Augusto dos Anjos particulariza com idas e vindas a dispositivos técnicos da poética parnasiana e simbolista. Isso explica a escolha de
vocábulos mais ou menos corriqueiros (recusa da sofisticação parnaso-simbolista) e a adoção do verso decassílabo bem construído, cuja matriz se
reproduz seis vezes, todas arrematadas com jogos consonantais e vogais não
muito comuns na tradição da poesia brasileira (adoção do construtivismo parnaso-simbolista).
No capítulo 9 da Poética, Aristóteles apresenta a célebre distinção entre poesia
e história. Conforme os argumentos do filósofo, a poesia imita o universal; a história, o particular. Entende-se daí que ao poeta devem interessar não os fatos em
si, mas a estrutura deles; ao historiador, interessam os fatos em sua singularidade.
O historiador copia o que aconteceu; o poeta, o que poderia ter acontecido. Por
isso, o primeiro incorpora em sua imitação um simulacro da realidade empírica,
que encena falta de ordem nos eventos, de modo a gerar impressão de particularidade, isto é, de ausência de padrão pré-estabelecido. Por obedecer ao mesmo
18
Rosenblatt, Louse M. The Rader, the Text, the Poem: the Transactional Theory of the Literary Work. Carbondale,
Edwardsville: Southern Illinois University Press, 1994, 6-21. Culler, Jonathan. Literary Theory: A very
Short Introduction. Oxford, New York: Oxford University Press, 1997, p. 75.
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critério de coerência com o gênero adotado, o poeta opera com a lógica das probabilidades da efabulação, particularizando em sua estória as leis gerais da narrativa. Logo, o poeta mimetiza a poesia, a arte ou fatos hipotéticos inventados pela
tradição imaginosa da cultura; o historiador mimetiza imagens da vida propriamente dita, em que não se observa a mesma unidade dos eventos de um poema.
Ao reduplicar as regras de produção da narrativa, o poeta aristotélico prefigura,
entre outros, o princípio da unidade de ação, porque depende dele o efeito de
que o discurso que compõe é poesia (imagens da arte); ao passo que o historiador visa ao episódio sem unidade, porque dele resulta a sensação de que o discurso produzido é história (imagens da vida), e não da poesia.
A partir da formulação de Aristóteles e da estrofe de Augusto dos Anjos,
pode-se dizer que a lírica moderna, sem deixar de partilhar do conceito de poesia, incorpora elementos do discurso histórico, com o propósito de simular
imitação da vida, e não da arte. Abandonando a unidade narrativa da tragédia
ou da epopéia antigas, o poeta contemporâneo concebe o poema como um pedaço desorganizado da realidade singular de um eu imaginado. Mas não se
abandonam inteiramente os arquétipos narrativos, pois será sempre possível
entender o poema lírico moderno como desfecho de uma estória sem unidade.
Nesse sentido, poder-se-ia supor que o poeta ficcional de Augusto dos Anjos,
atormentado com a necessidade de expressar as imagens de um cérebro agitado, termina por se exaurir na pesquisa das visões que produz. Em seguida, a razão o leva ao conceito de arte como destruição da vida, por consumir o indivíduo e não facultar o equilíbrio desejado. Assim, pode-se afirmar que, entre outras hipóteses, a estrofe imita a tópica coletiva do eu dilacerado, que se divide
entre a riqueza temática da angústia existencial e a incapacidade de particularizar essa imagem na perfeição do poema total. Isso explica o modo irônico do
texto, no sentido de a voz poética se interromper e mostrar consciência de que
não se trata de expressão propriamente, mas de um trabalho de expressão.
A distinção aristotélica entre história e poesia decorre, antes de tudo, do
princípio de unidade da fábula, que imita a idéia de ação, isto é, uma estória hipotética, virtual, provável ou verossímil. Esse argumento, que começa no capí-
57
Iv a n Tei xei ra
tulo 7 e termina no 9, tem por finalidade caracterizar o enredo da tragédia,
que, sendo unitário, será poético. Ao concluir a defesa da necessidade do princípio para que a narrativa resulte perfeita, Aristóteles apresenta o paralelo entre poesia e história, como exemplo distintivo do que seja discurso unitário. O
filósofo adotará o mesmo procedimento no capítulo 23 para explicar a estrutura da ação épica, regida pela mesma lei de composição da tragédia:
It should have for its subject a single action, whole and complete, with a beginning,
a middle, and an end. It will thus resemble a living organism in all its unity, and produce the pleasure proper to it. It will differ in structure from historical compositions,
which of necessity present, not a single action, but a single period, and all that happened within that period to one person or to many, little connected together as the events
may be.19
[A epopéia] deve ter uma só ação, unitária e completa, com começo,
meio e fim. Desse modo, por todas as implicações de sua unidade, ela lembrará um organismo vivo, produzindo o prazer que se espera de sua espécie.
Do ponto de vista da estrutura, a epopéia será diferente das narrativas históricas, as quais, por definição, devem apresentar não uma só ação, mas todas
as ações praticadas por uma ou por várias pessoas num mesmo período de
tempo, por mais tênues que sejam a relação entre elas.]
Como se vê, o discurso histórico caracteriza-se pela unidade de tempo e
pluralidade de ação; o discurso poético, pela mobilidade de tempo e unidade de ação. O texto deixa ver também que somente as ações ideais são unitárias. A vida de Ulisses não possui unidade, mas a fábula da Odisséia, sim.
Por trabalhar com arquétipos, conceitos ou imagens de vida extraídas do
mundo conceitual da arte, a poesia é mais filosófica do que a história, cujo
discurso não visa ao hipotético, mas ao supostamente acontecido, ou seja, a
19
Butcher, S. H. Aristotle’s Poetics. With an introductory essay by Francis Fergusson. New York: Hill
and Wang, 1995, p. 105.
58
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
um simulacro da vida real. O próprio conceito de vida pressupõe a diversidade, que caracteriza o particular. Qualquer vida é um conjunto de episódios que se unem exclusivamente pelo fato de sucederem à mesma pessoa.
Os episódios de uma vida não decorrem um do outro, tal como se observa
na concatenação racional dos eventos de uma tragédia ou de uma epopéia.
É nesse sentido que Aristóteles considera a história menos filosófica do
que a poesia, pois o discurso histórico pretende produzir o efeito de retrato da vida como um todo, que necessariamente requer a união de episódios
desconexos entre si. Se se excluíssem alguns eventos da vida de Ulisses, ela
não perderia o sentido como biografia de um homem. Mas a Odisséia perderia o sentido como narrativa artística, caso um incidente de sua fábula fosse
excluído ou trocado de lugar.
O episódio de Faustino e Davidão, de Grande Sertão: Veredas, glosa a noção
aristotélica de que a vida possui menos acabamento do que a arte.20 Riobaldo
conta a um moço da cidade o caso ocorrido entre dois jagunços do Bando de
Antônio Dó. Insatisfeito com a falta de conclusão da história real das personagens, o moço compõe um desfecho ficcional para o caso, que atribui unidade à
dispersão da matéria vivida. Espantado com o milagre unificador da arte, Riobaldo comenta:
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de
sarrafaçar [...] No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem
acabam.21
Aristóteles delega o retrato da vida à história, porque aquilo que realmente
acontece não cabe na arte. Esse é também o pensamento de Riobaldo, para quem
20
Trata-se do pacto de vida e morte, situado no começo do romance, em engenhosa alusão ao pacto
central da obra. Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, pp.
84-86.
21
Ob. cit., p. 85.
59
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os eventos da realidade são errantes, imprecisos, inconclusos e muito lentos em
sua dinâmica. Por isso, a arte deve evitar a vastidão das coisas reais, dando-lhes
forma apreensível aos sentidos do homem. Conforme Aristóteles, a unidade de
ação e a justa grandeza da fábula é que possibilitam a inteligibilidade dos enunciados artísticos. Evidentemente, as imagens dos eventos particulares do discurso
histórico também são apreensíveis, mas não como virtualidades conclusas, e sim
como dispersão de eventos em progresso, cujo andamento prossegue depois de
sua representação pelo discurso do historiador. A idéia de unidade, portanto,
está a serviço de uma epistemologia bem definida.22
4. Imaginário crítico do século XX
Na análise das manifestações do imaginário artístico, não importa tanto ao
intérprete enfatizar suas conexões com o universo psicossocial de que supostamente se origina quanto examinar a sintaxe que rege as relações dele com os
discursos sociais que representa. O intérprete deve investigar o grau de importância dos elementos combinatórios que participam da geração do sentido, entendendo-o basicamente como resultado de um processo de correspondência
discursiva. Assim, o significado não se entenderá como abstração imanente e
isolada; decorrerá, antes, de operações efetuadas pelo intérprete, cuja análise
deverá levar em conta não só a configuração específica do objeto, mas também
a história e a teoria da leitura dele. Por essa perspectiva, uma das suposições
menos desejáveis quando se trabalha com as produções do imaginário de um
povo (digamos, a literatura brasileira) é entendê-las como expressão da alma
ou da essência desse povo. Pois a própria idéia de alma, de essência ou de povo
já é, em si mesma, manifestação do imaginário coletivo, construções resultantes do trabalho de intérpretes ou instituições consagradas, e não revelação es22
Em sentido diverso do aqui apresentado, G.E.M. de Ste. Croix apresenta argumentos importantes
sobre o assunto, no ensaio “Aristotles on History and Poetry”. In Essays on Aristotle’s Poetics. Edited by
Amélie Oksenberg Rorty. Princeton: Princeton University Press, 1992, pp. 23-32.
60
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
pontânea de uma presumida essência que jaz para além das configurações concretas da cultura do mesmo povo.
A maior imagem de uma comunidade é a noção de povo. Um conceito
operante de povo tem de evitar a falácia romântica segundo a qual as criações populares se entendem como reflexo do real absoluto. Teria também
de contrariar os pressupostos que fazem crer na nacionalidade como um
traço de imanência natural. Como se sabe, em Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, Benedict Anderson, em sintonia
com certas premissas da lingüística saussuriana e com alguns princípios da
retórica sofística, formulou uma teoria muito influente sobre a idéia de nação e de nacionalismo. Embora originário dos estudos de política internacional, seu conceito teve importantes conseqüências na teoria literária recente e nos estudos culturais. Conforme Anderson, não há uma essência espontânea que unifique as pessoas de uma mesma nação. O que ocorre, segundo ele, é a construção cultural de um logos discursivo que institui um simulacro apreendido como verdade natural ou como imanência preexistente ao discurso, à espera de assimilação pelos membros da comunidade. As
pessoas, empiricamente concebidas, não se confundem com o país. Ao
contrário, elas só podem ser concebidas como representantes do povo de
qualquer país quando passam a incorporar traços da normatividade discursiva que institui a idéia de nação – normatividade que pode ou não representar as instituições oficiais. Não se trata, portanto, de defender uma concepção idealista de cultura ou de imaginário, porque o discurso que pode
eventualmente representar um povo integra também a existência concreta e
singular desse povo. Ao contrário do idealismo como postura epistemológica, essa noção conduz ao conceito de identidade nacional não como essência imanente, mas como construção que partilha da materialidade cultural, pois mantém contínua relação de reciprocidade entre imagem e prática social. A formulação de Anderson é simples e direta:
61
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My point of departure is that nationality, or, as one might prefer to put it in view of that
word’s multiple significations, nation-ness, as well as nationalism, are cultural artefacts
(sic) of a particular kind.23
[O meu ponto de partida é que a nacionalidade, ou, como seria possível
dizer diante da multiplicidade de significados dessa palavra, tanto a nação-lidade quanto o nacionalismo são artefactos culturais de uma espécie
particular.]
Esse pressuposto permite fortalecer um argumento reflexivo sobre a crítica
literária dominante no Brasil, cujo modelo se funda na convicção hermenêutica de que há uma substância nacional espontânea e que ela foi captada por autores naturalmente talhados para isso, como Gonçalves Dias, Manuel Antônio
de Almeida, José de Alencar e Mário de Andrade, entre outros. De modo geral,
essa crítica, formulada no século XIX e consolidada no século XX, impôs-se a
missão de buscar no passado anterior à independência as raízes prenunciadoras desse trabalho que surge necessariamente como correlato do nascimento e
da consolidação da nação e do povo brasileiro. Vem daí que o modelo consagrado estabelece como critério de análise a valorização calorosa e a depreciação
glacial dos autores, conforme se aproximem ou se afastem do projeto de captação da alma brasileira. De acordo com as diretrizes finalistas do modelo, a culminância desse processo formativo teria sido o Modernismo. Decorreu dessa
convicção uma verdadeira ditadura do gosto modernista sobre os padrões anteriores. Cristalizou-se, então, o método hermenêutico e teleológico, que acabou por transformar o passado em alegoria do presente; método em que um
existe apenas como justificativa do outro. Essa prática, que possui uma versão
singular na vanguarda dos anos 1950, tem produzido visíveis deformações de
obras pretéritas em favor de sua acomodação aos valores atuais, como se identidade cultural fosse prerrogativa exclusiva do momento de enunciação crítica.
Em linhas gerais, consiste nisso a principal linha de força (e também a princi23
Anderson, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Revised
Edition. London, New York: Verso, 2002, p. 4.
62
Li teratu r a c o m o i m a g i n á r i o
pal fragilidade) dos estudos literários brasileiros do século XX, cujos remanescentes persistem ainda hoje em alguns rescaldos do repertório neo-romântico
da crítica modernista. Essa perspectiva se recusa a entender as essências como
resultado de convenções históricas; presa à idéia de revelação, insiste em desconsiderar o valor como produto da cultura ou da relação do homem com as
convicções de seu tempo.
Seria insano tentar demonstrar a ineficácia, a incoerência ou a escassez de
valor da leitura hermenêutica no Brasil. Trata-se da leitura possível e necessária ao momento de que surgiu. Todavia, novos tempos requerem outras alternativas, igualmente interessadas no diálogo intelectual próprio ao enunciado crítico. As obras de arte não existem sem enquadramento num sistema
de referência interpretativa. A história da arte é a história de sua leitura. Falar
de uma obra não é falar dela apenas, mas dos sentidos que se agregaram a ela
ao longo de sua existência como artefato verbal e como artefato cultural. Em
dimensão histórica, toda obra apresenta-se como palimpsesto. Dom Casmurro
não foi escrito exclusivamente por Machado de Assis, mas por todos aqueles
que procuraram discutir seu sentido a partir da estrutura oferecida pelo autor para que a história a fecundasse com as mais variadas hipóteses de inclusão ou exclusão semântica.24
5. Poesia: sentido e construção
Desde o início do texto, imaginário tem sido identificado com o ato de criação, no sentido de instauração poética do mundo, que pode assumir, dentre
outras, a forma do discurso verbal. A eficiência do enunciado poético obtém-se pela adoção ou rejeição de procedimentos retóricos como o ritmo, a
rima, a paronomásia, a metáfora, a metonímia, a sinestesia e o hipérbato, dentre outros. A incorporação ou recusa de tais operadores, também conhecidos
24
Iser, Wolfgang. The Act of Reading: A Theory of Aesthetic Response. Baltimore and London: The Johns
Hopkins University Press, 1980, pp. 53-54.
63
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como tropos e figuras de linguagem, seriam procedimentos destinados a afastar ou aproximar o enunciado do perfil poético dominante em dado momento,
atribuindo-lhe eficácia e poder de comunicação. O verdadeiro gesto poético é
aquele que imita a estrutura do gesto poético. Ao conjunto de artifícios que
atribuem perfil artístico à elocução, pode-se chamar, então, de imaginário, isto
é, a propriedade imaginosa (tanto para mais como para menos) que supervisiona o modo adequado de configuração retórica da mensagem. Nessa acepção,
imaginário seria também o conjunto de articuladores das imagens do mundo,
por meio das quais se imitam os padrões de arte de uma comunidade. Guardadas as devidas proporções, o imaginário se manifestaria tanto nas insinuantes
curvas de um entalhe em madeira de Aleijadinho quanto numa estrofe de cordel ou num trecho de João Cabral de Melo Neto. Examine-se a abertura do
poema “Formas do Nu”, em que esse poeta mistura técnicas da chamada poesia erudita com elementos da elocução popular, para operar a instauração do
imaginário:
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
de seu cuspe privado.25
Um dos passos marcantes para a obtenção do efeito de engenho milagroso
da estrofe é a personificação da aranha, pela atribuição de intencionalidade humana a seu trabalho animal. Isso decorre da perspectiva singular que o poeta
escolheu para a voz (humana) do poema, que, em vez de falar de si, fala do animal como se fosse um semelhante. Daí a sagacidade de imaginá-lo tecendo, fiando
e cuspindo. No conjunto, a linguagem adotada é metafórica, porque a voz poética vê um animal, mas o interpreta como gente. É como se dissesse: a aranha
produz teia, assim como o homem tece cortinas.
25
Melo Neto, João Cabral de. Terceira Feira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1961, p. 77.
64
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Graças ao poder sugestivo da doutrina implícita do poema, ele pode ser entendido como uma pequena alegoria do trabalho da criação poética, que deve
brotar das entranhas de quem o produz. Insinua um paralelo com o esforço
construtivo de certo tipo de poetas, dentre os quais se coloca o próprio João Cabral. Todavia, a lição mais abrangente que se pode inferir do poema para a formulação de um conceito de literatura como manifestação do imaginário é a noção de ficcionalização da realidade, por meio da metáfora distendida (alegoria),
que possibilita falar de uma coisa por meio de outra. Ao abandonar a elocução
denotativa, portadora de significado unívoco, e optar pela elocução conotativa,
desencadeadora de múltiplos sentidos, o poeta partilha do conceito de poesia
como encarnação viva do imaginário, não só por se fundar no uso imaginoso da
língua, mas também por mimetizar o ato da criação de imagens. O poeta imagina alguém falando da aranha e, depois, imita essa imagem, dramatizando a posição de uma pessoa que observa os miúdos movimentos do animal, contrapostos
à enorme imagem de outro homem tecendo ao tear. Assim como a aranha tece
sua cortina, o observador virtual vai tecendo a teia do texto, num trabalho paciente e minucioso como o do próprio bicho imaginado. Em última análise, pode-se dizer, também, que o texto imita um conceito de imaginário, fundado na
dilatação iluminadora do sentido do mundo, que pressupõe tanto o padrão
quanto formas alternativas de ruptura, de resistência e de superação.
Bibliografia
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Editorial Gredos, 1974.
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67
Anjos, escultura de Alfredo Ceschiatti
(Belo Horizonte, 1918- )
Duraluminio, Catedral de Brasilia
Fotografia de Claus Meyer
Prefácio ao livro do
museu de arte de Brasília
R u b en s R ic u p e r o
E
m “Remate de males”, Mário de Andrade dizia: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta”. Antes dele, Walt Whitman, mais ambicioso, sentia conter um milhão dentro de si. Quantos estariam contidos em Wladimir Murtinho? Não no sentido habitual de que somos todos contraditórios e diversos, de que cada um
é ele mesmo e o seu antípoda. Desse ponto de vista, Wladimir causava até a impressão oposta, pois parecia inteiro, personalidade feita
de um só bloco, sem rachaduras nem inconsistências.
Essa linha de aparente coerência interior, sempre fiel a si mesma,
coexistia com a infinidade de suas manifestações. Ao longo de seus
83 bem vividos anos, Wladi foi homem de muitas vidas, de incontáveis iniciativas. Quando as pessoas hesitavam em começar alguma
coisa por medo de que viesse a não dar certo, exclamava: “É preciso
lançar 30 projetos para poder terminar um ou dois!” Não afirmava
isso por leviandade ou falta de critério, por achar que dava tudo na
mesma. Indiferente à quantidade, rigoroso no gosto e julgamento,
Embaixador,
professor de Teoria
das Relações
Internacionais na
UnB e de História
das Relações
Diplomáticas
Brasileiras no
Instituto Rio
Branco; ex-ministro
da Fazenda (governo
Itamar Franco), atual
Secretário-Geral da
UNCTAD
(Conferência das
Nações Unidas sobre
o Comércio e o
Desenvolvimento).
69
Rubens Ri c u pero
não era fácil no elogio ou na admiração. Sabia, no entanto, que ser melhor, em
termos de homens ou idéias, não é garantia de prevalecer, compreendendo que
a virtù não bastava; também fazia falta a fortuna.
Era elevada, por isso mesmo, sua capacidade de resistência à frustração. No
seu momento mais ingrato no Ministério da Cultura, tinha sido desterrado
para cubículo longínquo, num fundo de corredor, paredes sujas, móveis e maquete em pedaços. Não se abalou, trouxe de casa quadros e objetos e – como
aquele velho tenor italiano aposentado, comensal do nosso Dom Casmurro –
quando andava, ao chegar ao escritório, “parecia cortejar uma princesa de Babilônia”. Nos primeiros dias de Brasília, em 1961, tempos de Jânio, acompanhei-o uma vez ao antigo DASP, para entrevista difícil com burocrata típico,
em tudo o seu avesso, o diretor do órgão, Moacir Briggs, a fim de raspar do
fundo do tacho do orçamento algum dinheiro para dar início às obras do Itamaraty. Foi a primeira revelação que tive de que nele o entusiasmo era servido
por poderosa inteligência e sentido prático das realidades. Não obstante o formalismo, a frieza, a má vontade dos burocratas, Murtinho conseguiu fazer
com que eles relutantemente admitissem o que, de saída, haviam negado: a legalidade e exeqüibilidade das fórmulas orçamentárias para financiar a construção. A renúncia logo depois, a turbulência e descontinuidade político-administrativa obrigaram a abandonar o empreendimento. Wladi não se
perturbou, foi fazer outra coisa. Creio que, nessa época, decidiu passar uns
anos fora e foi ser ministro-conselheiro junto à Embaixada no Japão, de onde
ele e Tuni regressaram enriquecidos de experiências e coisas bonitas.
Não tardou muito e estava de volta ao ponto de partida. Corria, nessa ocasião, no Itamaraty, o comentário de que só lhe tinham confiado a responsabilidade pela construção do prédio devido à convicção geral de tratar-se de missão
impossível. Mais uma vez, subestimou-se o único tipo de personalidade que
realiza algo de valor em meio adverso como o nosso: o sonhador de olhos
abertos, capaz de dar consistência ao sonho. Graças à perfeita complementação com Oscar Niemeyer e a um grupo talentoso de colaboradores, levou à
conclusão o que é, por fora e por dentro, a mais bela realização de Brasília, aju-
70
Prefác i o ao li vro do mu seu de a r te de B r a s í l i a
dando a completar a obra de sonhadores como Juscelino, Darcy, tantos outros. Contribuiu, assim, para consolidar a nova Capital, tornando inadiável a
resistida mudança das embaixadas estrangeiras e afastando, em definitivo, a
tentação do retorno ao Rio de Janeiro, secreta aspiração de alguns no começo
do regime militar.
Brasília foi, em certo sentido, o projeto-síntese que deu unidade e sentido à
sua existência e encarnou-lhe todos os sonhos. Foi lá que construiu a “casa della vita” e ali escolheu viver e morrer. Interessou-se por tudo, pelo Festival de
Cinema, a Universidade, o projetado e esquecido Instituto de Teologia de frei
Mateus Rocha, o Mosteiro, os projetos das embaixadas, a criação de bibliotecas no Plano-piloto e nas cidades-satélites; mergulhou no dia-a-dia das professoras, quando Secretário da Educação; era presença obrigatória em qualquer
projeção de filme polonês, romeno, iraniano, em concertos da Escola de Música e da Orquestra, antes e depois do Teatro Nacional, na luta pelo Galpão, em
todas as vernissages de galerias ou da Fundação Cultural. Sem perder a esperança, jamais se resignou a deixar inacabado o que faltava.
De tempos em tempos, tentava fazer com que os novos donos do poder se
interessassem em retomar a “construção interrompida”, sobretudo a do complexo da Biblioteca e dos museus da terra e do homem brasileiros, previstos e
nunca realizados na Esplanada. Enquanto demorava a encontrar o seu Pompidou ou Mitterrand, o homem público capaz de renovar no Planalto a metamorfose trazida a Bilbao pelo Museu Guggenheim, ia se ocupando de impulsionar o Museu de Arte de Brasília, de não deixar desalojar e morrer o Museu do
Índio, de contribuir para melhorar a qualidade dos nossos selos, para lançar as
edições dos “Intérpretes do Brasil”, para fazer sair do papel o Museu Aberto
do Descobrimento, possivelmente o que mais de importante há de ficar do V
Centenário.
Tinha idéias claras sobre as grandes instituições da cultura e da memória
brasileira: Biblioteca Nacional, Museu de Belas Artes, Arquivo Histórico, Jardim Botânico, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Elementos constitutivos da fundação da nacionalidade e da independência, elas deveriam conti-
71
Rubens Ri c u pero
nuar inseparáveis do Rio de Janeiro de dom João VI e do Império. Em lugar de
transferi-las para a nova Capital, seria preciso criar em Brasília instituições originais, não cópias das do século XIX mas que encarnassem o espírito renovador da mudança do centro de decisões, como foi o Centro Nacional de Referência Cultural, semente do Pró-Memória e do Ministério da Cultura, que
ajudou Aluízio Magalhães a criar. A essas entidades inspiradas em concepção
contemporânea é que caberia cuidar da criação cultural a partir da data da
transferência, em 1960, sem descurar a memória dos primórdios, como fez no
Projeto Resgate e no sítio baiano do Descobrimento.
A palavra-chave desse plano e “contemporânea”. Se, para Walter Benjamin,
Paris era a capital do século XIX, para nós Brasília teria de ser a capital da transição do século XX ao XXI, ao menos em termos brasileiros. Capital testemunha do seu tempo, que é sua missão captar e exprimir, não só na arquitetura e
no urbanismo mas especialmente no espírito que deve habitar e animar as instituições e as pessoas.
Muito, quase tudo ficou por fazer dessa última parte e quem sabe será essa a
tarefa das gerações que já viram a luz no Planalto Central, na nossa Terra do
Meio. Wladi era, acima de tudo, um visual, apaixonado pelas formas, cores,
proporção, equilíbrio, movimento. Era homem da arquitetura, da pintura, da
escultura, do cinema, do teatro, das exposições, dos museus. Nada lhe daria
tanta alegria como ver o nome lembrado numa das instituições que faltavam a
Brasília, para alguém cujo conhecimento do mundo se fazia primeiro pelos
olhos.
Há outra razão para que ele ficasse agradecido por esta homenagem. Wladimir não desanimava com os adiamentos e frustrações; sabia esperar, mas
gostava de terminar o que começara. Quando Tuni finalmente partiu, em inícios de julho de 2002, os amigos temeram que o gosto pela ação o abandonasse. Professor de vida até o fim, foi o contrário o que aconteceu. De modo sistemático, quase seguindo um plano secreto, ele foi completando tudo o que estava inacabado, inclusive a volta ao Equador de sua infância, que dizia às vezes
não querer mais rever, pois só encontraria as sombras do passado. Como era tí-
72
Prefác i o ao li vro do mu seu de a r te de B r a s í l i a
pico nele, pôs-se literalmente à obra, com jardineiros e pedreiros, reformou o
jardim, renovou pisos, refrescou as pinturas, colocou em ordem os livros, refez
sobretudo, com sua generosidade característica, o apartamento de Gladys, sua
fiel e perfeita escudeira e ama de casa. Estava tudo pronto e consumado; ele
podia enfim dizer, como em “Consoada”, seu poema predileto:
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
73
Templo de Apolo, Tesouro dos atenienses
Delfos
Hoelderlin: a
proximidade e a
distância do sagrado
Do r a F er r ei ra d a S il va
Quando eu era menino,
Muitas vezes um deus me salvava
Do alarido e do açoite dos homens;
Eu brincava tranqüilo, seguro
Com as flores do bosque
E as brisas do céu
Comigo brincavam.
HOELDERIN
H
oelderim (Johann Christian-Friedrich) nasceu na Suábia
em 1770, de família modesta. Sua mãe desejava que ele
fosse um pároco de aldeia, o que era comum em se tratando de um
jovem com dotes intelectuais e sem dinheiro, na sociedade alemã
aristocrático-burguesa daquela época.
José Paulo Paes cita um biógrafo moderno do poeta que menciona um detalhe curioso. Em alemão o nome medieval do diabo e Ho-
Dora Ferreira da
Silva, poeta,
ensaísta,
publicou
Andanças (1970),
Uma via de ver as
coisas (1973),
Jardins/esconderijos
(1979), Menina
sem mundo e
traduções. Sua
obra está em
Poesia reunida
(Topbooks,
1999).
75
Dora Ferrei ra da Si lva
elderlin, que significa “pequeno sabugueiro”, o qual segundo a tradição de certas regiões da Alemanha é considerado a árvore da vida, onde mora o espírito
do destino.
Terá sido talvez o destino que mudou o rumo de sua existência. Ainda no
seminário, belo como um Apolo com roupas eclesiásticas, inicia a leitura dos
antigos gregos. Alguns anos antes, na Latein-schule, e depois na escola do convento de Denkendorf, Hoelderlin aprendera rudimentos de latim, grego e hebraico, e suas respectivas literaturas. Em 1786 entra no seminário de Maulbronn, de severa disciplina religiosa, onde o proíbem de tocar flauta e só ocultamente lê então autores do pré-Romantismo: Klopstock, Schiller, Ossian.
Começa a escrever seus primeiros poemas nessa época.
A leitura dos gregos jamais representou em sua vida um exercício erudito,
mas sempre foi uma busca de paradigmas, modelos de ser que pouco a pouco
dele se apossaram, de início mansamente, depois com o impulso ambivalente
do inconsciente, ora criativo, ora destrutivo. A violência apaixonada da poesia
hoelderliniana, embora ligada à sua época, pressagia a modernidade. Como assinala Jose Paulo Paes, Hoelderlin teve de pagar por seu destino de vate precursor “o preço da penúria, do menosprezo e da insânia, à semelhança da progênie dos poetas malditos que o sucederia e sobre a qual ele estendeu, sem que
o soubessem, a sua sombra enorme e benfazeja”.
A poesia de Hoelderlin pode ser dividida cronologicamente em: Poemas da
Juventude (1789 – 1794); Diotima (1795 – 1798); a Maturidade (1798 –
1800); Odes e Hinos (1799 – 1802); As Grandes Elegias (1800 – 1801); os
Últimos Hinos (1800 – 1803); Fragmentos; Poemas da Loucura.
No momento primaveril da poesia hoelderliniana, a leitura apaixonada de
Platão, de Homero e dos trágicos gregos e o arrebatamento mais profundo de
sua alma orientam-no para o louvor da Grécia antiga. Eis um fragmento do
poema “Griechenland” (Grécia), onde invoca a pátria de seu espírito:
Meu desejo se volta para um país melhor,
Para Alceu e Anacreonte;
76
H oel derli n: a pro xi mi dade e a di s tâ n c i a do s a g r a do
Feliz eu dormiria nos túmulos exíguos
Dos heróis de Maratona.
Fosse esta a última lágrima
Vertida sobre a Grécia consagrada!
Ó Parcas, que vossas tesouras cantem
Pois meu coração pertence aos mortos.
Por que o poeta se volta tão ansiosamente para a Grécia, invocando as terríveis Parcas num desejo confessado de morte, o que e sublinhado ainda mais
pelo fecho do poema: “Pois meu coração pertence aos mortos.”?
Hoelderlin é um extemporâneo. Terrível augúrio. Naquela sociedade aristocrático-burguesa de sua época, eram poucas as possibilidades de inserção de
uma personalidade como a sua. Tornou-se um mero preceptor em casa de banqueiro, recomendado por Schiller, poeta já plenamente reconhecido. No entanto este último, numa carta a um amigo, referindo-se a Hoelderlin, confessa
que suspeitava daquela “subjetividade violenta à qual se alia um certo espírito
filosófico, não carente de profundidade”.
Hoelderlin fracassa nessa primeira tentativa de educar o filho de Charlotte von Kalb, menino cujo temperamento era problemático. Comenta-se
que o preceptor certo dia agarrara o discípulo pelo pescoço. Foi o fim de
seu emprego. Mas a bondade de Charlotte levou-a a ajudar Hoelderlin, que
se instalou em Iena, onde assistiu aos cursos de filosofia de Fichte, cujo
pensamento “titânico” o impressiona. Esporadicamente e também por
condescendência de Schiller alguns dos primeiros dos Hinos de Hoelderlin são publicados na Nova Talia e em outros almanaques da Suábia. Ao
voltar-se para estudos de filosofia e estética comenta, numa carta a um amigo, que os estudos filosóficos eram uma espécie de hospital dos poetas.
Mas de qualquer forma, sua amizade e participação nas idéias de Hegel
chega a ponto de ambos selarem um pacto designado pela expressão “Reino de Deus” ou “En kai Panta” (unidade e totalidade) como ideal supremo
da história do homem.
77
Dora Ferrei ra da Si lva
Hoelderlin continua com seus problemas financeiros. Não sendo homem
de recursos materiais, nem reconhecido em seu justo valor, tenta mais uma vez
o preceptorado em casa de banqueiro. Um destino obscuro parece impeli-lo.
A mulher do banqueiro é Susette Gontard, a Diotima que abrirá um novo ciclo na sua poesia e inspirará seu romance Hiperion.
Susette Gontard, esposa do banqueiro, mãe de quatro filhos menores, foi a
anima que passou a conduzir a poesia hoelderliniana. Houve entre ambos um
amor platônico, que o nome de Diotima dado pelo poeta à sua amada, parece
confirmar. Eis um poema em que Diotima é exaltada:
Vem, o delícia das Musas celestes,
Tu, que outrora reconciliaste os elementos hostis,
Vem apaziguar o caos deste tempo, a furiosa discórdia
Com os acordes da paz e que nos corações mortais
Se conciliem as forças inimigas!
Que a antiga natureza humana, sua alma grande e tranqüila
Retorne poderosa ao coração carente do povo, ó beleza viva,
Volta à mesa hospitaleira que é sempre tua e ao Templo!
Pois Diotima vive como as flores frágeis durante o inverno:
Rica de seu próprio espírito, busca no entanto o Sol.
Mas o Sol do espírito, o mundo mais belo pereceu
E na noite glacial alternam turbilhões.
Como já dissemos, em sua juventude Hoelderlin sofrera a influência dos
pré-românticos, cujo movimento Sturm und Drang (Tempestade e ímpeto) se
opunha ao racionalismo e iluminismo alemães (Aufklaerung). Com os primeiros
volta-se para a contemplação poética da natureza tal como Jean-Jacques Rousseau e, como este, acredita utopicamente no bon sauvage. Além desta postura
acalenta o sonho de uma sociedade fraterna (o Reino de Deus ou o En Rai
Panta), numa fusão idealizada de paganismo e cristianismo. A visão do mundo
helênica, segundo a qual apenas na beleza o bem e a verdade se irmanam, se
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H oel derli n: a pro xi mi dade e a di s tâ n c i a do s a g r a do
projeta numinosamente naquela maravilhosa criatura que foi Suzette Gontard;
para o poeta ela é a própria Diotima que no Banquete de Platão, como a Estrangeira de Mantinéia, é convidada por Sócrates a definir o Amor, o Eros. Ao que
ela responde com a definição sábia e profunda de que o Amor é abundância e
penúria, daí seu caráter paradoxal. Diotima abre um ciclo de poemas, além de
ser a figura feminina principal de seu romance Hiperion, ou o eremita na Grécia.
Trata-se de um romance epistolar entre Hiperion, Belarmin, Alabanda e Diotima. Neste momento de sua vida já estava ameaçado por sua extemporaneidade: era um poeta grego, vivendo na Alemanha, lutando como um Hiperion solar contra os turcos invasores da Grécia novecentesca, isolado do ambiente
acadêmico alemão (mas de altíssimo nível). Dilacerado entre paganismo e cristianismo – o título desse romance tão bem o revela – estava a um passo da loucura. Aquele belo filho de Apolo mergulharia na insanidade durante os últimos quarenta anos de sua vida.
Tal como Nietzsche, Friedrich Hoelderlin foi vítima da unilateralidade de
sua experiência interior. O predomínio do elemento urânico ou celeste em detrimento do sentido da Terra determinou o que se chama de “enantiodromia”
na psicologia junguiana, termo este que provém do pré-socrático Heráclito. O
significado da palavra grega enantiodromia é a conversão de um oposto no outro, terrível castigo da unilateralidade. O poeta parecia prever esta catástrofe
psíquica num poema do qual destacamos um fragmento:
Vergonhosamente
Uma força arrebata-nos o coração
Pois todos os deuses exigem oferendas;
E quando esquecemos um deles
Nada de bom sucederá.
As divindades que se manifestam ao longo da poesia de Hoelderlin não são
arbitrárias e irritam apenas as sensibilidades aliadas a uma falta de conhecimento da realidade anímica do ser humano. Longe de serem arbitrárias, elas
79
Dora Ferrei ra da Si lva
correspondem às metamorfoses da “imago dei” em sua mais íntima e sagrada
intimidade. O poema “Patmos” dos Últimos Hinos já prenuncia as fragmentações perigosas que ameaçam o poeta. Citemos um fragmento desse poema na
tradução de José Paulo Paes:
Está perto,
E difícil de alcançar, o Deus.
Mas onde há perigo há também salvação.
É nas trevas que moram
As águias, e sem medo
Os filhos dos Alpes cruzam,
Sobre frágeis pontes, os abismos.
[...]
A mina esconde o ferro, na verdade,
E resinas ardem dentro do Etna.
Assim eu poderia, com riqueza,
Pintar uma imagem onde se visse,
Tal como havia sido, o Cristo.
As resinas que “ardem dentro do Etna” devem ser associadas à entrega sacrifical de Empédocles, o taumaturgo e filósofo grego, personagem principal
da tragédia hoelderliniana A morte de Empédocles. Em seu poema “Patmos” a
energia destrutiva e suicida de Hoelderlin parece ter sido conjurada pela figuração do Cristo “tal como havia sido”. Mas a identificação do poeta com
Empédocles é funda demais e o Etna ameaçador com suas resinas ardentes
mora dentro dele.
Ao afastar-se de Fichte, Hoelderlin assume a realidade autônoma da natureza, espécie de Não-Eu diante do poder titânico do Eu. A natureza não é um cenário idílico, mas uma plenitude viva de forças divinas. O poeta vive em profundo pathos com a alma cósmica e sagrada, que pode embalar o menino que
“brincava tranqüilo”, mas cuja face escura é o avesso desse estado paradisíaco.
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H oel derli n: a pro xi mi dade e a di s tâ n c i a do s a g r a do
Uma das Grandes Elegias cuja tradução retomamos ao longo de meses se
intitula “O Arquipélago” e nela nos deteremos porque fala da “distância dos
deuses” (Gottesferne) e da “proximidade dos deuses” (Gottesnaehe).
A proximidade dos deuses é o momento auroral de uma cultura, que parece
bafejada pela presença benfazeja do sagrado:
Retornam as gruas, buscando-te de novo? Navios
Tentam aproar novamente em tuas margens ? Sobre
Tua água tranqüila sopram aragens e das profundezas
Emerge o golfinho para aquecer o dorso
Na luz amanhecida ? É a hora da Jônia em flor.
Os viventes, com novo coração, evocam na primavera
Seu primeiro amor e rememoram a Idade de Ouro.
Então venho saudar-te, Ancião, em teu silêncio!
Para sempre vives, Poderoso. Repousas como outrora
À sombra das montanhas e com teus braços ainda vigorosos
Estreitas a terra encantadora; nenhuma filha perdeste, Pai:
Tuas ilhas florescem, Creta persiste e Salamina
Reverdeja à sombra dos loureiros, Delos ergue ao sol
A fronte inspirada, cingida de raios;
Tinos e Chios transbordam de frutos,
Os vinhos de Chipre borbulham nas colunas embriagadas,
Das alturas de Caláuria precipitam-se riachos
Como antes, nas antigas águas do Pai.
Todas as ilhas ainda vivem, mães dos heróis,
Florescendo ano apos ano; se às vezes, do abismo
Desencadeia-se um incêndio noturno, e a tormenta
Arrebata uma das Graças, é em teu regaço
Que ela tomba agonizante, e tu sobrevives, Ancião divino,
Tu, que contemplas dos antros tantas auroras seguirem tantos crepúsculos.
81
Dora Ferrei ra da Si lva
O “Arquipélago”, a segunda das Grandes Elegias que aqui citamos parcialmente, evoca um mundo auroral, semelhante à Idade de Ouro, em que a Natureza orvalhada pelo divino desperta numa luz amanhecida. É o tema da aurora,
da primavera, do primeiro amor. Poseidon é saudado em seu silêncio criador.
Poderoso, enlaça a terra grega em seus braços vigorosos: “E a hora da Jônia em
flor.” As ilhas do Arquipélago são louvadas: Creta, Delos, Tinos e Chios, a
transbordante de frutos. As colinas embriagadas pelos vinhos de Chipre, todas
as ilhas – mães dos heróis – florescem ano após ano. E se uma das Graças é arrebatada pelo fogo das entranhas da terra, é no regaço do Ancião divino que
ela agoniza; mas o deus criador sobrevive, ele, que contempla o mistério de
tantas auroras e de tantos crepúsculos.
Neste último verso transparece o sentido meta-histórico da proximidade
dos deuses (Gottesnaehe) que precede a distância dos deuses (Gottesferne).
A esse macrocosmo da Grécia antropomorfizada e auroral corresponde o
microcosmo do poeta e sua missão criadora entre Céu e Terra:
Quando os vivos iniciam o sonho áureo
Que a cada aurora o poeta lhes prepara,
A ti ele oferece, ó deus entristecido, um sortilégio
Mais suave. Sua própria luz não alcança a beleza
Do diadema – sinal de amor – com que, fiel à tua lembrança,
Ele cinge a cada manhã os cachos grisalhos de tua fronte.
Por que cabe ao deus criador a tristeza, em meio a plenitude auroral do começo ? É porque através da carnação histérica, suas lutas e inícios criadores o
deus pressente que o abandono virá, a distância crescente entre deuses e homens. Impossível saber quem abandona e quem é abandonado.
A Elegia evoca então dolorosamente as ruínas gregas, após a batalha de Salamina:
Dize-me: Athenas, onde está? O deus em luto,
Viste tua cidade – a mais amada – desabar em cinzas
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H oel derli n: a pro xi mi dade e a di s tâ n c i a do s a g r a do
Nas margens, sobre as urnas funerárias
Dos Mestres! Acaso algum vestígio deles restou
Para que um marinheiro de passagem possa dizer-lhes o nome,
Consagrando-lhes um simples pensamento?
O “Arquipélago” já confrontara a presença do divino no poder de criar beleza do gênio helênico, em passagens como esta:
A Cidade... criação magnífica, obra do gênio firme e forte,
Semelhante às constelações, forjando para si mesmo liames de amor.
A fim de encerrar em formas grandiosas – por ele construídas –
Sua eterna mobilidade.
[...]
A obra sai viva de suas mãos e tudo nela prospera em radiância esplêndida.
Sempre de novo Hoelderlin traça a verticalidade unindo Céu e Terra e as
formas grandiosas dos templos da polis, que – diz ele – são semelhantes às
constelações. Numa intuição genial, ele menciona as formas grandiosas apolineamente encerradas na arquitetura e na escultura, prestes ao desbordamento dionisíaco de sua “eterna mobilidade”.
A luta de persas e gregos e seus episódios mais marcantes escapam à historicidade monótona, alcançando píncaros que só a leitura completa e atenta da
Grande Elegia revelará totalmente.
Em paralelo ao poder genial de criar beleza na proximidade do divino é evocado enfim o distanciamento dos deuses (Gottesferne), tal como mencionamos
atrás.
Prestemos atenção a estes cinco versos fortes e terríveis, exemplificando o
obscurecimento do fim de um mundo, antes de uma nova aurora:
No entanto, ai de nós! Nossa estirpe caminha na Noite,
Como se fora no Hades, longe dos deuses. Entregue ao labor
83
Dora Ferrei ra da Si lva
Da oficina ruidosa, cada um ouve apenas a si mesmo; poderosamente
Trabalham esses bárbaros, sem cessar. Seu miserável esforço
Permanece estéril para sempre, como o das Fúrias.
Nós estamos na Noite, no distanciamento do divino.
“A atualidade de Hoelderlin – diz Ernildo Stein – deve-se ao fato de ter
transposto o limiar de sua época, avançando para o futuro, sem propriamente
filiar-se a uma tendência estética em voga. Nesse caminho solitário, sem modelos, quando sua obra chegou à maturidade, o poeta criou algo que ainda que
mergulhado na história, ganhou uma historicidade atual em qualquer época.”
É impossível ignorar o momento de obscurecimento da luz que o mundo
atravessa. Atônitos sofremos dentro da humanidade, que é única, o desastre de
guerras terríveis, destruição em massa, campos de extermínio, a ambigüidade
da descoberta da energia nuclear, numa hora de rebaixamento da ética humana,
a preponderância do poder sobre o amor. Sim, nós estamos atravessando a
Noite do divino, à espera de um Dia que reconcilie tantas contradições.
Nietzsche disse no Zaratustra que Deus morreu. Forma extrema de exprimir o
distanciamento do Sagrado (Gottesferne) hoelderliniano. Acreditamos que Maria
Zambrano foi a mais profunda intérprete desta curta e dura sentença: “Deus
morreu”, que se encontra em seu livro El hombre y lo Divino. Citemos o último parágrafo deste seu livro que nos faz viver com toda intensidade e compreender até
onde é possível essa curta sentença, resumo de nosso destino histórico:
“Deus morreu.” Desfez-se de novo sua semente, desta vez nas entranhas do
homem, nesse nosso inferno, onde engendramos, quando engendramos. Quando o Ser se abisma – a realidade luminosa e una –, não caímos no nada e sim no
labirinto infernal de nossas entranhas, das quais não podemos desligar-nos.
Tudo pode aniquilar-se na vida humana: a consciência, o pensamento e toda
idéia que este sustenta, e até mesmo pode aniquilar-se a alma, esse vivo espaço
mediador. ... Tudo o que é luz ou acolhe a luz pode cair nas trevas; trata-se do
nada, da igualdade na negação, que nos acolhe como se fora uma mãe para fa-
84
H oel derli n: a pro xi mi dade e a di s tâ n c i a do s a g r a do
zer-nos nascer de novo. Uma obscuridade que palpita... umas trevas que novamente nos dão à luz. Deus, sua semente sofre conosco, em nós, esta viagem infernal, esta descida aos infernos da possibilidade inesgotável; este devorar-se é o
amor que se volta contra si mesmo. Deus pode morrer; podemos matá-lo... mas
só em nós, fazendo-o descer a nosso inferno, a essas entranhas onde o amor germina; onde toda a destruição se transforma em ânsia de criação. Onde o amor
padece a necessidade de engendrar e toda a substância aniquilada se converte
em semente. Nosso inferno criador. Se Deus criou do nada, o homem só cria a
partir de seu inferno nossa vida indestrutível. Dela, esgotada, nossa humana comunhão sairá um dia à claridade que não morre para, quase invisível, confundida com a luz, voltar a dizer a nosso amor resgatado: Noli me tangere...
De propósito, ou não, deslocamos o eixo da intuição hoelderliniana,
metafísica e meta-histórica, de caráter nitidamente masculino, para um
ponto de vista introvertido e filosoficamente feminino. Maria Zambrano
(e com ela concordamos) sublinha que só podemos matar Deus em nos
mesmos, isto é, a “imago dei”. E numa seqüência admirável de sua “razão
poética”, ela fala de “entranhas onde o amor germina” e “toda a destruição se transforma em ânsia de criação”, “onde toda a substância aniquilada se converte em semente”.
O poder da criatividade feminina reside no amor e daí sua fidelidade ao
Amado que aparentemente se ausenta deixando as palavras “Noli me tangere” de
quem se afasta, mas não abandona. A mudança de nível é evidente e o toque
sensível é negado, em benefício de outra forma de união e reencontro.
Terminando, eis um dos poemas da loucura, de Hoelderlin, que parece uma
pequena galáxia perdida na grande Noite:
A beleza é própria das Crianças,
Uma imagem de Deus, talvez.
Tem a calma e o silêncio
Que se louva também nos Anjos.
85
Friedrich Nietzsche
(1844-1900)
em 1873.
Nietzsche e a loucura
J . O. d e M e ir a P e nn a
N
o momento em que escrevo está no prelo, para próxima
publicação pela Editora da UniverCidade, com patrocínio
do Instituto de Filosofia e Ciências Aplicadas da aludida instituição,
um ensaio meu sobre Nietzsche, com o título acima. É um pequeno
livro de 170 páginas com ampla ilustração relacionada à vida do polêmico filósofo alemão. Meu propósito neste artigo é justificar e
anunciar o trabalho em pauta.
A filosofia de Nietzsche pouco conhecida ainda é no Brasil. Ela
aqui chegou por intermédio de traduções francesas e obras de pensadores franceses que, na época do apogeu do “existencialismo” de
Sartre e das divagações confusas de Foucault, Derrida, Deleuze,
Kristeva e Irigaray desembarcaram de contrabando em nosso litoral,
em que lutam tupinambás e tupiniquins. O primeiro francês a escrever uma vida de Nietzsche, num precioso ensaio crítico, foi Daniel
Halévy. Sua obra é de 1909; Nietzsche morrera havia pouco tempo.
Além de Guy de Pourtalès, que escreveu entre as duas guerras mundiais; Louis Corman, que abordou Nietzsche com o Psychologue des
profondeurs, em1982; Paul-Laurent Assoun, que realizou um con-
Diplomado em
Ciências Jurídicas e
Sociais. Embaixador
do Brasil em Lagos,
Israel, Chipre, Oslo,
Islândia, Quito e
Varsóvia. Professor
universitário, membro
da Academia
Brasiliense de Letras.
Autor de inúmeras
obras, entre as quais:
Shangai – aspectos históricos
da China moderna
(1944), Política externa,
segurança e desenvolvimento
(1967), O Brasil na
idade da razão (1980), O
evangelho segundo Marx
(1982), A ideologia do
século XX (1985),
Utopia brasileira (1988),
Decência já (1992).
87
J.O . de Mei ra Penna
fronto entre Freud et Nietzsche em 1980, e dos já mencionados Foucault e Deleuze, há uma coletânea das discussões havidas no Centre Culturel International
de Cerisy-la-Salle, em julho de 1972, do qual, além de alguns estrangeiros ilustres, entre os quais Karl Löwith, participaram Eric Blondel, Eric Clémens, Jeanne Delhomme, Edouard Gaède, Sarah Kofman, Philippe Lacoue-Labarthe,
Jean Maurel, Norman Palma e Paul Valadier em torno do tema específico
“Nietzsche Aujourd-hui?”. De algumas dessas obras tenho conhecimento, de que
me vali, no presente ensaio, com bastante esforço cartesiano.
Em 1985, ocorreu em nosso país uma onda intelectual a respeito do filósofo germânico. Wilson Coutinho discutiu o fenômeno e menciona um simpósio sobre Nietzsche na Faculdade Candido Mendes do Rio. Alguns “filósofos”, artistas e críticos da cultura que escrevem em vários jornais, participaram
dos debates. A obra foi então traduzida e publicada numa coletânea da Editora
Brasiliense, sob o título Nietzsche hoje?. A crise de “nietzschemania”, porém, durou pouco. Conheço igualmente o ensaio de Cecil Meira, O Eterno Retorno de
Frederico Nietzsche, de 1989, que li com muito interesse. Mas as “ondas” no Brasil podem ser altas e até servir para o surfe de intelectuários, atraídos pela celebridade momentânea. Entretanto, não me atrevo a afirmar com autoridade,
mas acredito que o livro Nietzsche – o Sócrates de nosso tempo, de Mário Vieira de
Mello, é um dos melhores que se tenha escrito em nossa terra sobre o pensador
germânico. Não se trata de uma mera biografia ou da exposição sucinta da
obra enorme de Nietzsche. É a defesa de uma tese. Mário enfatiza um aspecto
em geral não muito desenvolvido pelo considerável número de críticos que,
nos últimos anos, se debruçaram sobre essa obra: a importância da educação
no pensamento de Nietzsche. Na verdade, é particularmente o papel pedagógico que Nietzsche pode aqui desempenhar, o que merece ser contemplado em
toda tentativa de transplantar seu pensamento para esta nossa terra tropical,
cheia de encantos mil e habitada por um povo tão pouco sério, é verdade, mas
já naturalmente dionisíaco. Se Nietzsche tanto admirava e apreciava os italianos por sua espontaneidade, alegria e impulso vital, não se teria igualmente
afeiçoado ao Brasil, como contraponto da decadência que percebia na civiliza-
88
Ni etzs c h e e a l o u c u r a
ção européia do século XIX? Se, em vez de Oaxaca no México, houvesse pensado em Petrópolis como distante refúgio para sua solidão e criatividade intelectual, o que poderia haver acontecido?
O mais curioso é que pode Nietzsche ser apontado como antecipando o
tropicalismo, que no Brasil só se tornou consciente e inspirador de tendências
teóricas após a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, e a obra de Gilberto
Freyre. É óbvio que o tropicalismo está associado ao erotismo dionisíaco dos
povos morenos meridionais, vivendo em clima quente: Nietzsche certamente
se deu conta disso em sua breve experiência na Costa Amalfitana, um dos locais mais belos e afrodisíacos do litoral do Mediterrâneo.
Na obra de 1886, Além do Bem e do Mal, profeticamente assinalou Nietzsche
que virtualmente todos os moralistas de antanho descobriram qualquer coisa
de sedutoramente demoníaco na atmosfera quente das florestas tropicais. No
verdadeiro ódio aos seres dos trópicos, “quer seja isso lançado à conta da enfermidade ou degenerescência do homem ou a seu próprio inferno e tormento
próprio”, Nietzsche se pergunta por que ocorre tal ojeriza: para “benefício dos
homens das zonas temperadas? Para a moral? Para a mediocridade?”. Grande
amante da atmosfera da Itália, o filósofo descobre nas áreas quentes do planeta
o dionisismo que promove triunfalmente o Übermensch de sua filosofia. Nietzsche obviamente esquecera a idealização da Grécia e do trópico paradisíaco
que alucinou os grandes descobridores da época da Renascença...
O fato é que, retornando ao Brasil como aposentado no princípio dos anos
80, me dei conta que havia uma natural e elogiável curiosidade em nossa terra
pelo filósofo tedesco, em que pese uma compreensível reação a respeito dos aspectos mais extravagantes de um pensador, dado como profeta da violência, da
desigualdade, do elitismo e do ateísmo, aspectos que naturalmente repugnam
às tendências dominantes em nossa cultura intelectual.
No novo milênio, o interesse por Nietzsche parece pouco a pouco se firmar
no Brasil. O “Caderno de Cultura” de O Estado de S. Paulo publicou, a 7 de outubro de 2001, um pequeno estudo de Regina Schöpke que anuncia novas traduções de Nietzsche para nossa língua, assim como discute o livro de Rüdiger
89
J.O . de Mei ra Penna
Safranski, Nietzsche – Biographie Seines Denkens (2000). Esta obra teria mesmo inspirado um filme sobre a crise de loucura de Nietzsche do cineasta brasileiro
Júlio Bressane. Não posso comentar o filme, porque não o conheço. O livro de
Safranski, Nietzsche, uma biografia filosófica, que li na tradução inglesa de 2002, é
uma das melhores que julgo já haverem sido publicadas sobre a personalidade
excepcional do pensador, entre outras coisas por fazer uso amplo da correspondência de Nietzsche, entrando assim na intimidade do filósofo. O estilo
epistolar era muito comum na época e as cartas do filósofo são numerosas e
excepcionalmente reveladores de suas preocupações e seu caráter.
Do que ocorre na própria Alemanha, poucas informações possuo. Entretanto, no final dos anos 70 conheci, em Oslo, um jovem professor de origem
vienense, Hans Eric Lampl, que também lecionava literatura latino-americana
na Universidade local. Era um entusiasta de Nietzsche e membro de uma sociedade alemã que, anualmente, se reúne para longas discussões sobre o filósofo,
precisamente em Sils-Maria, cantão dos Grisões na Engadine suíça, onde Nietzsche viveu alguns anos e escreveu algumas das maiores obras do acervo. Isso
me faz crer que a memória de Nietzsche é ainda cultivada com fervor em seu
país natal, depois de haverem expurgado a idéia aberrante de qualquer associação espiritual entre o pensamento do filósofo e as ideologias totalitárias, nacionalistas e socialistas, que dominaram a Alemanha na maior parte do século
XX. Visitei certa vez Sils-Maria, pois costumo ir freqüentemente à Suíça
onde, como cônsul-geral em Zurique, vivi quatro anos de intensas experiências
intelectuais, inclusive como estudante no Instituto C.G. Jung de Psicologia,
que, estando Jung ainda em vida (faleceu em 1961), funcionava na Gemeindestrasse, bem perto do centro da cidade. Tenho assim a honra de haver conhecido
um dos principais intérpretes do filósofo e o local onde escreveu algumas de
suas obras mais formidáveis.
A verdade é que, como os leitores disso se darão conta neste ensaio, é sobretudo nos Estados Unidos e, particularmente, em suas Universidades, que Nietzsche é hoje estudado. Não só a estrutura do poder econômico e do poder
militar se localiza hoje nos EUA, mas também é o centro da cultura em proces-
90
Ni etzs c h e e a l o u c u r a
so de globalização. Por conseqüência, é sobretudo de autores de língua inglesa
que me vali para preparar as três conferências, com o título “The Mystery of
Nietzsche’s Breakdown”, que no Instituto C.G. Jung, agora localizado em Küsnacht, perto de Zurique, pronunciei em maio de 2000. Essas conferências
constituem o cerne do argumento que desenvolvo no ensaio Nietzsche e a loucura.
Os intelectuais brasileiros muito teriam a aprender com a leitura de Nietzsche, é o que concluí e o que pretendo defender como tese no ensaio aqui
referido. Por sobre a barreira da língua, do estilo exuberante e difícil, da desinformação e calúnias que sofreu, e das más traduções existentes de seus livros,
que seja ele lido com cuidado. A mensagem de Nietzsche é o de uma nova moralidade, de um novo mito, de uma “transfiguração de todos os valores”, de
um individualismo heróico, como pretende Leslie Paul Thiele – em suma,
uma mensagem apropriada para o mundo globalizado que está surgindo sob
nossos olhos, neste início de milênio. Não acreditava Nietzsche que sua obra
fora escrita para a posteridade, que ele nascera muito antes de seu tempo? Um
de seus primeiros trabalhos tem como título Meditações extemporâneas, que melhor talvez traduziríamos como “Meditações prematuras”. Certamente a
transfiguração que Nietzsche nos propõe pode servir de fermento nesta Terra
dos Papagaios, precisamente porque inteiramente nova é ainda nossa cultura,
sendo fácil contrapor-se e corrigir os vícios da inteligência e dos sentimentos
que ainda dominam a frágil e insegura elite intelectual do país – seriamente
contaminada por um vírus “romântico” que posso condensar na figura perversa de Jean-Jacques Rousseau.
Antes de tudo que se saiba que Nietzsche não é pós-moderno (o que quer que
signifique essa expressão esdrúxula). Ele não é ideológico. Não se coloca nem à
esquerda, nem à direita. É, em grau supremo, o que se chamaria ‘politicamente
incorreto’; mas representa, estou certo, uma das maiores forças intelectuais e morais no mundo em gestação, não tanto pelo que disse mas, como observa Karl
Jaspers, pelas questões desafiantes que brutalmente nos endereçou.
Noto que muitos dos amigos intelectuais que mais prezo possuem uma visão destorcida do pensamento nietzscheano. Gostaria de poder corrigir os
91
J.O . de Mei ra Penna
mal-entendidos. É por isso que me atrevo a colaborar no verdadeiro dilúvio de
publicações que hoje aparecem sobre o pensamento e a personalidade desse
homem excepcional. Os homens superiores, os Übermenschen de amanhã, serão
aqueles para quem a nobre Ética da Coragem, da Compaixão e da Reverência
pela Vida, que mergulha suas raízes mais profundas do Oriente ao Ocidente, e
tanto no Budismo quanto no Judaísmo e no Cristianismo, encontra expressão
parcial nas preocupações ecológicas com o meio ambiente e com a necessidade
de contenção demográfica, na insistência no sentido de respeito internacional
pelos chamados “direitos humanos” e no esforço de extensão universal da liberdade individual, segundo certas regras de convivência sob o império de uma
lei democrática. As descobertas mirabolantes da física, da cosmologia e da biologia, ao coexistir com a competição e a seleção darwiniana, devem procurar
superá-las num imperativo categórico de aceitação global – uma ética que sustente a noção platônica de philadelphia, ou seja, de fraternidade e amizade entre
todos os homens e mulheres.
O filósofo pôs à nossa frente, em toda sua complexidade e brutalidade, um
desafio com o qual teremos de lidar, procurando resolvê-lo. Nietzsche propõe
um novo significado, um sentido novo e transcendental para a nossa existência
frustrada e angustiada, vidas enfermas e insignificantes num Universo vertiginoso no qual nos sentimentos horrendamente privados de uma presença divina. Somos todos irmãos num mundo global. Mas somos órfãos. Num dos aforismo recolhidos em A vontade de potência, Nietzsche argumenta que Platão teria
pretendido que cada um de nós deseja ser o senhor de todos os demais homens, se somente fosse isso possível – e, acima de tudo, gostaria de ser o próprio Senhor Deus. “É esse espírito que deveria de novo retornar” – exclama
Nietzsche. De certa forma, toda a equação moral que a Humanidade enfrenta
no novo século, em uma perspectiva social, política e, principalmente, de caráter ético, individual, já fora vivida e colocada por Nietzsche em termos filosóficos, cem anos atrás. Por tal feito monumental, devemos honrar sua memória.
92
Prêmio Senador José
Ermírio de Moraes –
2003
Este ano coube o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes ao escritor e poeta Bruno Tolentino, pelo livro O mundo como Idéia. O premiado foi saudado pelo Acadêmico Miguel Reale. Damos a seguir a saudação proferida por Miguel Reale, e em seguida, as palavras de Bruno Tolentino. Representou a família do doador o Sr.
Antônio Ermírio de Moraes, membro da Academia Paulista de Letras.
A distribuição dos bens
masaccio (1401-1429)
Cappella Branccacci – Firenze
Chiesa del Carmine
Sentido universal
da poesia
Sau d aç ão pr o f e r id a p e l o
Ac ad êm i c o M i g u e l R e a l e
A
os que estranharem a outorga do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes a um poeta, lembraria o estupendo prefácio de
Euclides da Cunha ao livro Poemas e canções de Vicente de Carvalho,
mostrando que “nem tudo é golpeantemente decisivo na profissão
de números e diagramas”, como a de engenheiro que ele era e José
Ermírio também.
Ademais, o Senador José Ermírio de Moraes foi um empresário
do mais amplo espectro, desde a prodigiosa atividade industrial até a
fecunda atuação política, com o espírito sempre aberto às necessidades econômicas e às aspirações culturais do País, valores que os seus
filhos herdaram, instituindo o prêmio que estamos outorgando,
além de várias outras beneméritas iniciativas.
Foi a visão universal dos problemas do poeta Bruno Tolentino
que me levou a indicar aos caros confrades da Academia Brasileira de
Letras o seu livro O mundo como Idéia para receber, este ano, tão hon-
Prêmio Senador José Ermírio de Moraes – 2003
Sentido universal da poesia
Sessão realizada
no Salão Nobre
da Academia
Brasileira de
Letras, a 4 de
setembro de
2003.
95
Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
roso galardão. O que me impressiona em sua obra é o sentido universal de sua
poesia, não lançando mão de artifícios e artefatos para compor seus versos,
mas os desenvolvendo em sintonia com os valores estéticos da pintura e da
música.
A projeção ascendente de Bruno Tolentino, desde 1963, quando foi considerado Revelação de Autor, até receber os prêmios Jabuti, em 1995, Cruz e
Sousa, em 1996 e Abgar Renault, que lhe foi atribuído, em 1997, por nossa
Academia, corresponde à de um poeta clássico que ama e cultiva a forma como
valor imagético concreto, nela unitariamente fundindo o sensível e o intelectivo, a palavra e o seu conteúdo significante.
É em O mundo como Idéia que culmina a sua diretriz poética, suscitando desde
logo uma pergunta: Idéia em que sentido? Não é por certo, como racionalização final do espírito objetivo, à maneira de Hegel, mas antes como sempre renovado desafio de encontrar a verdade em sintonia com a realidade, sem nunca
se subordinar o eterno ao efêmero.
Tolentino declara-se seguidor de Santo Tomás, mas o seu realismo tomista
é o de um inconformado com as soluções alcançadas pelo homem em um
mundo de perplexas provisoriedades ante o mistério da morte, como o demonstra este soneto:
O real, fragmento separado
do ser (pela noção de fragmento,
entre outras), foi sendo imaginado
desde o início, talvez, do pensamento,
como conjuração ou como dado,
mas sempre como alheio. Alheamento
que, complicado pelo sofrimento,
levaria o espírito apressado
a uma equação que corrigisse o mundo
substituindo a Idéia ao perecível.
No entanto o coração é um moribundo
96
Senti do u n i v e r s a l da p o e s i a
apaixonado, e como pouco a pouco
a morte o vai reconvocando ao nível
do real, ama-o e nega-o como um louco.
Tolentino, porém, não é um filósofo, nem faz da filosofia um tema poético,
porquanto, antes de mais nada, é ele um poeta que, na sua incansável busca da
realidade como verdade, apela para o que nos dizem as artes, sobretudo a pintura e a música, partes integrantes de sua poesia.
Eis aí uma das originalidades do livro que a ABL neste instante consagra: o
recurso do poeta a obras de pintores, como Paulo Uccello, Piero Della Francesca, Tommaso Masaccio e Leonardo da Vinci, não como mera ilustração do
que é dito, mas como componente essencial do afirmado. Para ele, sem esse
apelo às demais artes, o poeta não teria condição de decifrar a verdade última
do Ser.
À luz dessa ampla compreensão estética, poderíamos afirmar que, ao ver de
Bruno Tolentino, para a solução dos problemas ontológicos não basta a Metafísica, sendo necessário recorrer às artes poéticas, pictóricas, escultórias e musicais, sem as quais não seríamos capazes de ascender até a realidade em si.
Em última análise, é esse o tema central das 70 páginas do prólogo do livro
que estamos premiando, o qual condiciona nada menos de 384 páginas de poemas, muitos dos quais em inglês, italiano, francês e castelhano.
Essa é outra originalidade de Tolentino, que transcende à língua portuguesa
e compõe, com reconhecido êxito, dezenas e dezenas de poesias no idioma do
lugar em que se encontra, ao lado de Ungaretti em Roma, de seus colegas das
universidades de Bristol, Essex e Oxford, e dos companheiros de Paris, talvez
pela força que tem a amizade nesse escritor, no fundo um homem solitário.
Se a linguagem, no dizer de Heidegger, é a morada do Ser, também essa é a
visão de Tolentino, que transcende às épocas, sabendo ser tanto um clássico
do Renascimento como um atormentado homem comum de nossos dias.
Nem se diga que, com essa compreensão universal da poesia, tenha ele se
tornado alheio à realidade nacional, tão brasileiro é ele, seja quando expressa
97
Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
nossos modos de sentir em uma língua estrangeira, seja quando verte esplendidamente para o inglês o extraordinário poema sobre a “Máquina do mundo”
de Carlos Drummond de Andrade.
Mas, voltando à indagação do sentido da palavra “Idéia” em seu último livro, talvez seja oportuno lembrar a distinção de Kant entre conceito e idéia. O
conceito segundo ele está em relação com a experiência e nela se constitui
como explicação dos entes e de suas relações naturais, podendo ser objeto de
verificação metódica e de prova. Já a idéia pertence ao plano da razão pura, não
estando sujeita às normas da sensibilidade e da inteligência: plana ela alto no
mundo da razão pura, como produto imprescindível da imaginação criadora.
No fundo, é essa a Idéia, ou o Ideal que Tolentino procura em vão alcançar,
sendo ele um poeta errante em busca da verdade e da realidade últimas, graças
a uma idéia que abrangesse e pacificasse o mundo das inquietações e das perguntas.
É na figura de Zenão de Eléia que o poeta vê o começo da indagação sem
fim:
Zenão, cruel Zenão, Zenão de Eléia,
tu me feriste com o harpão da Idéia,
esse vôo hipotético no ar:
ardo em música e o dardo me atravessa,
solar, a tartaruga não tem pressa
e Aquiles corre sem a ultrapassar...
O remédio, para que se atinja a Idéia, talvez esteja na língua. Daí o recurso à
linguagem que, com seus infinitos espectros, pode nos levar a uma solução superadora das perplexidades do mundo:
O prodígio da língua, como o lento
desdobrar-se do vento em vendaval,
dá-se no ar, mas vem e vai por dentro
98
Senti do u n i v e r s a l da p o e s i a
de um túnel cristalino e intemporal,
um casulo enraizado no geral
que abrisse seus enigmas no momento:
delicado, fugaz e impessoal.
O acorde a que chamamos pensamento
tem raízes no ser, mas vem no vento
particularizado do real.
E é ali, entre as partículas e o centro.
que desponta o poema, esse cristal:
materialização, refolhamento
da luz meticulosa e musical.
Devemos lembrar que Tolentino viveu dezenas de anos longe do Brasil,
tendo vivido o drama atormentado da renovação literária na França, na segunda metade do século passado.
Em um soneto intitulado “Galicismo d’alma”, confessa ter-se sentido perdido no torvelinho das imagens e das idéias então em conflito, até o ponto de
emitir juízos temerários contra grandes escritores como Camus e Gide.
Nesse soneto, que fixa um momento trágico de sua vida errante, Tolentino
tem o mérito de ser sincero e de não se esconder. São de cunho manifestamente
antibiográfico os terríveis versos com que ele investe contra tudo e contra todos:
Camus foi meu pior entusiasmo,
Claudel minha melhor desilusão,
Rimbaud a minha própria confusão
e Baudelaire o meu primeiro orgasmo.
Mallarmé me deixava um tanto pasmo,
mas fiz minha primeira comunhão
com Bernanos, achando Gide um asno,
Proust o gênio perverso da emoção
99
Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
e Sartre um ressentido. Mauriac
me dava sustos, mas foi Julien Green
quem me tirou do sério e pôs o spleen
do inefável em mim; tive um ataque
quando li Mont Cinère e Leviathan,
minhas flores do mal para amanhã...
É só em Julien Green que Tolentino julgou ter encontrado resposta às suas
perplexidades, em consonância com sua formação religiosa, da qual não queria
se afastar. Eis o soneto dedicado a Green:
A graça é uma promessa exasperante
se a desgraça não vem; foi Green, coitado,
quem, colocando as duas lado a lado
para que as visse bem, deu-me a constante,
o Leitmotiv de uma vida errante,
ávida de promessas: fui amado
por causa disso, e temos conversado!
Sem ele eu não teria sido o amante
sempre absurdamente idolatrado
e cheio da saudade delirante
de ser outro, o que fora batizado,
crismado e colocado ali diante
da Santa Eucaristia e do pecado.
Disse-lho e ele apertou-me a mão durante
meia hora dizendo-me obrigado!
Esses quatro últimos versos demonstram que a crise do poeta não era apenas filosófica ou estética, mas sobretudo religiosa, e ele se opunha com veemência a tudo que contrariasse as suas crenças.
100
Senti do u n i v e r s a l da p o e s i a
Mas também Paul Valéry vai ao encontro de sua sensibilidade, abrindo as
perspectivas da tão buscada Idéia:
Pobre Paul Valéry, queria tanto
um vento que o arrancasse ao seu torpor!
Mas em vez de cantar queria o Canto,
a Coisa Pura sem tirar nem pôr,
sem tocar nada, a vaga, a chaga ou a flor...
Como esperar que um vento alasse o manto
da sua estranha estátua de isopor
– a Idéia – sem o seu hábil esperanto
sem esperança de interlocutor,
era aquela magia sem quebranto,
a geometria? E como ser cantor
do mundo-como-idéia sem no entanto
atar as mãos ao vento, esse escultor
a desmanchar estátuas por enquanto...?
Sempre, pois, o sentimento da provisoriedade, da poesia que se torna estátua “por enquanto” para se volver sempre ao perene fluxo do transitório, que
todos os artistas também procuram superar.
É a Leonardo da Vinci que Tolentino dedica um de seus mais belos poemas, considerando-o um poeta em luta com “o mundo como Idéia”. Eis um
tópico expressivo desse poema:
Por mais que tenha a chave
de inferno ou paraíso,
não existe grandeza
101
Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
no gesto que interponha
uma só pincelada,
ou o verso mais perfeito,
entre o instante mortal
e as lendas do conceito:
a vaidade e a beleza,
o verdadeiro e o vão,
quando partilham um leito
engendram uma traição.
Sua Última Ceia
Leonardo a completa
como um poeta luta
com o mundo-como-idéia;
Essa aliança dos poetas, pintores, escultores e músicos, só ela – ao ver de
Tolentino – nos permite penetrar no âmago do ser, sendo realizada uma espécie de globalização estética, acima dos gêneros artísticos, assim como acima das diferenças dos idiomas.
Não obstante o recurso ao mundo todo das artes – não distinguindo entre
uma “pincelada” e um “verso” – o espírito de Tolentino não encontra paz, e,
em poema significadamente chamado “A grande Alma Penada”, não vê solução melhor do que um diálogo dentre Pascal e Baudelaire, após lembrar a proclamação do primeiro “Le silence eternel de ces espaces infinis m’effraie”:
Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,
terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
102
Senti do u n i v e r s a l da p o e s i a
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.
Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura
da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.
Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,
aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero
a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.
Como estão vendo, não me atrevi a me manifestar sobre o valor poético em si da
obra de Bruno Tolentino, por faltar-me o dom da crítica-poética de Alberto
Costa e Silva, Lêdo Ivo e Ivan Junqueira, tendo preferido estudar a razão de ser
do livro intitulado O mundo como Idéia que permeia todos os seus poemas.
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Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
Uma última observação me seja permitido fazer. Pode parecer que, tendo
vivido tantos anos fora do Brasil, Tolentino tenha se alheado do que se entranha na cultura brasileira. Para provar que esse alheamento não se dá, lembro
que, em sua obra, há diversos estupendos poemas integrados em nossas circunstâncias como, por exemplo, os dedicados ao nosso confrade Ivan Junqueira; a já citada versão para o inglês da “Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade; e, finalmente, os cem sonetos finais, de rara beleza, em homenagem a Ferreira Gullar, a demonstrar que diferenças ideológicas não afastavam os dois poetas do comum amor à poesia.
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Discurso do poeta
Bruno Tolentino
S
enhor Presidente, ilustríssimos senhores Acadêmicos, ilustríssimo e digníssimo senhor Antônio Ermírio de Moraes, meus
amigos, meus inimigos – como diria Bandeira.
É a segunda vez que ocupo esta tribuna, e pensei muito, desde então, na possibilidade de vir a ocupá-la um dia, mas certamente não
em circunstâncias como esta.
Não creio que exista um único escritor brasileiro que não tenha a
aspiração de integrar-se a esta Casa de algum modo. O sonho de
Machado de Assis na realidade atávica do gênio brasileiro, esta Casa
é, naturalmente, o casulo onde se dá a transformação do verme em
borboleta. Pode parecer extraordinária esta idéia, mas pensei muito
nela. A Academia Brasileira de Letras não é exatamente um lugar
onde se chega pronto. É um lugar que completa uma certa visão do
país. Os que estão dentro como os que estão fora pertencem a esse
mesmo processo, e não há dúvida disso. Há muito tempo, desde que
eu era criança, Manuel Bandeira brincava muito comigo e dizia jus-
Prêmio Senador José Ermírio de Moraes – 2003
Discurso do poeta Bruno Tolentino
Proferido de
improviso.
Transcrito de
gravação, sem a
revisão do Autor.
Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
tamente isso: – “Muito cuidado com o que disser. Um dia terá que dizê-lo de
fardão.” Era uma maneira de me intimidar um pouco aquela língua terrível que
eu tinha.
Em todo o caso, pensando na probabilidade de deixar os meus ossos
descansando junto aos de Machado e Manuel, que afinal de contas foram a
vida inteira os meus únicos modelos, não poderia de modo algum imaginar
que a próxima vez que ocupasse esta tribuna seria para ouvir as coisas que
acabamos de ouvir, e nas circunstâncias as mais inesperadas. Porque é certo
que ao compor este livro ao longo de quarenta anos eu tive uma idéia de Brasil,
uma idéia de cultura, uma interrogação entre essa idéia e a fé que eu poderia ter
nela.
É claro que se escreve, se compõe para uma comunidade de língua, de cultura. Não se escreve no vácuo, não se faz coisa alguma fora de um contexto muito preciso, que é antes de mais nada, diria eu, um contexto racial. Digo isto no
sentido mais profundo e intrínseco do que significa raça nesse sentido: a tribo,
a raça. Os tupis não são tupiniquins, os aimorés não são aimorés, tamoios e assim por diante.
É claro que nesse sentido a busca de definição nacional não pode deixar de
ter preocupado a todos os escritores a que nos curvamos, sobre esta língua, “a
última flor do Lácio”, que está cada vez mais bela e menos inculta. Nesta caminhada, tentando chegar a uma decisão quanto a poder aspirar a esta tribuna
uma outra vez, simplesmente me esqueci de que a realidade, a inexorável positividade do real anda muito adiante de nós, e que nada, absolutamente nada, se
faz sem uma conseqüência, sem um resultado. E que, com toda as minhas idiossincrasias, – afinal de contas sou obrigado a referir os meus defeitos porque
são as únicas coisas que eu conheço bem – as minhas rebeldias, as minhas impertinências, podia perceber aonde é que ele estava me levando, mas não podia
– e é isto que torna o real mais importante do que todas as idéias que possamos
ter dele – imaginar a reação, o efeito desta busca da expressão nacional, em termos paradoxalmente poliglotas, a recepção que isto viesse a ter. Tanto é assim
que considerei, todo esse tempo, este o meu único livro. Le livre – diria Mallar-
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Di sc u rso do po eta B r u n o To l e n ti n o
mé. Não sei bel se é verdade, mas em todo caso, todos os outros não teriam
sido senão uma espécie de degraus para este patamar.
Bem, até aí poderia eu pensar: tudo bem... quem sabe depois de publicar este
livro, se conseguir terminá-lo e publicá-lo, quem sabe então pedirei àqueles senhores licença para ocupar aquela tribuna outra vez. Porém, como mais um
candidato, mais um escritor brasileiro aspirando a uma cadeira nesta Casa. Jamais como homenageado desta Casa, por iniciativa de pessoas do nível honroso de... bem, a lista é muito longa... do Professor Miguel Reale, que chamei,
mais de uma vez, há muitos anos, como o “decano da mente livre”. A idéia de
que pudesse ele me trazer aqui, ele me colocar nesta situação, realmente, honestamente, senhores, esta não me passou pela cabeça. Até porque desconhecia
as ligações do Professor Reale com o Senador José Ermírio, como desconheço
muitas outras coisas importantes que no Brasil valem a pena.
De maneira que não preparei um discurso para esta ocasião, não acabei de
entender o que estava de fato se passando. Durante todo esse tempo tomei várias notas, do que eu diria ou não diria, mas a verdade é que não me via aqui,
não conseguia me ver a dizer as coisas, e muito menos a ouvir justamente essas
coisas. Não conseguia fazer esta transferência do óbvio para a realidade vivida.
É assim que o real se manifesta para um artista. Talvez um filósofo sinta isto
diferentemente, e certamente um cientista. Mas um poeta só acredita no real
quando a pedra lhe cai na cabeça. Ele tem uma relação não tanto de hesitação,
mas de desconfiança em sua própria idéia do real. Esta em todo caso terá sido a
minha conclusão da leitura que fiz durante tantos anos da poesia universal.
Evidentemente os senhores podem perceber a minha confusão, a minha
emoção e a minha perplexidade – isto creio que Deus vai me dar até o último
momento: a capacidade de estar aquém daquilo que acontece, de estar perpetuamente surpreendido com o que me acontece, seja excelente ou não.
Neste momento, recordo-a primeira coisa que me aconteceu, à qual o Professor Reale acaba de fazer referência. Em 1960, quando, repentinamente, me
comunicam que eu havia ganho o prêmio Revelação de Autor. Como? Eu não
concorri a prêmio nenhum. Minha mãe e meus primos haviam reunido os
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Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
meus poemas e feito essa inscrição. Um dia o Acadêmico Lêdo Ivo me telefona
– Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo eram os dois outros membros do júri – e
diz coisas como as que ouvi acabei de ouvir. Imaginem o efeito dessas palavras
num jovem poeta. Aliás, note-se aqui que, nessa trilogia de poetas do primeiro
prêmio Revelação de Autor, Manuel Bandeira ficou bastante confuso quando
recebeu esses manuscritos, com todos aqueles poemas que ele conhecia tão bem,
que ele me mandava refazer. Em relação a alguns ele dizia: neste você não mexe
mais não. Eram esses poemas que estavam ali, de maneira que ele os conhecia
muito bem. Como é que ele iria ser o juiz disso? A solução estava ali à mão: ele
colocou nas mãos de Lêdo Ivo a decisão, como relator do prêmio.
A partir daí a minha vida intelectual, a minha vida enquanto artista não foi
senão uma série de surpresas, de choques agradáveis, porque afinal de contas
são sempre um consolo. O que temos na cabeça é sempre muito pior. Disso estou convencido. Essa série de surpresas me faz, não obstante, não me preparar
para o que eu ouvi aqui hoje do Professor Reale. Até porque há uma extraordinária coincidência – e com isto pretendo terminar de importunar a vossa paciência. Atualmente faço parte do Instituto de Fé e Cultura da PUC de São Paulo, e nessa condição tenho que atender muitos alunos, muitas pessoas que
vêm me procurar, que queiram conversar, todas as tardes de quarta-feira, quando fico à disposição.
Desde a publicação de O mundo como Idéia tenho ouvido coisas impressionantes dos jovens que sabem onde me encontrar e portanto lá vão. O que mais me
impressionou recentemente foi um certo jovem poeta. Não vou dizer-lhe o
nome, e certamente todos vão saber quem é, um erudito, a pessoa que mais me
recorda José Guilherme Merquior, sem o qual me é muito difícil viver. É muito difícil estar no Brasil na ausência de José Guilherme. Afinal de contas, sempre estivemos às turras, ali no mesmo espaço. Esse rapaz me fez recentemente
uma análise, uma leitura desse livro tão parecida com a que o Professor Reale
acaba de fazer, tão idêntica nas expressões, na escolha dos textos, que a minha
conclusão agora é a seguinte: o milagre que é a arte, a cultura, o pensamento –
la vie de l’esprit, diriam os franceses. Como é possível, num país de que já se disse
108
Di sc u rso do po eta B r u n o To l e n ti n o
que não dá certo, que não vai dar certo, que dois intelectos separados por nada
menos que setenta anos tenham a mesma qualidade do toque do cristal (sabe-se muito bem o que é o cristal quando se bate nele), a mesma intensidade, a
mesma oportunidade, a mesma atualidade.
É isto que nos faz ter a certeza de que, como dizia Nélida Piñon, o Brasil vai
dar certo porque Machado de Assis deu certo – aliás, a coincidência vai a tal
ponto que se torna orgânica, é como a simbiose de forma e conteúdo. A existência de Machado de Assis logo no início do projeto nacional brasileiro enquanto identidade independente é de tal maneira significativa, simbólica, indicativa do destino nacional, que não podemos ignorar essa dimensão. Note-se
que na Argentina nossos queridos vizinhos esperaram até o final do século XX
para receberem o seu Jorge Luis Borges, o único escritor sul-americano à altura
de Machado de Assis. O Brasil começa com Machado de Assis.
Na tentativa de dizer alguma coisa de conseqüente, nesta tribuna, que não
tivesse a ver comigo, diria que andei relendo com toda atenção o magnífico livro de Gustavo Corção, O desacerto do mundo, onde há um ensaio magnífico sobre Machado de Assis. Aliás, consultei vários ensaios recentemente sobre Machado. Ali diz Gustavo Corção uma coisa que nos diz respeito a todos neste
momento, mais do que nunca, em que as gerações se unem, as águas se misturam, nesse ponto de mistério profundo do ser, de manifestação profunda da
nacionalidade, da vida do espírito de uma tribo, uma tribo que dúvida tanto de
si. Gustavo Corção faz uma observação, que a mim é particularmente cara e
que não será alheia aos corações de Vossas Senhorias. Ele nota que o grande
criador de Brás Cubas (1881), de Quincas Borba (1891), dessa galeria de horrores da condição humana, desse personagem que se definia já de saída como um
defunto-autor, que escrevia “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”,
este homem que não tinha ilusões sobre a natureza humana, que fez, por assim
dizer, a biografia do pecado original, como poucos fizeram na literatura universal, como talvez Diostoievski ou o grande escritor francês Julien Green –
que era francês parce qu’il le voulait,non parce qu’il l’était. Nós temos toda essa afinidade com o espírito eslavo, e aí está a genialidade de Machado, este homem ex-
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traordinário que não podia ter ilusões sobre a natureza humana, que foi tido
como amargo, cético, negativo. A verdade é que este homem, a partir de 1896
– três anos antes da publicação de Dom Casmurro (1900), a meio caminho da
publicação do seu quarteto fabuloso que terminará com Esaú e Jacó (1904), ao
qual haverá uma pequena coda com O memorial de Aires (1908), que ainda não
consegui colocar bem na minha análise – até o último momento de sua vida,
em 1908, fez o que nos toca, o que nos cabe a todos fazer todos os dias: com a
pena da galhofa e a tinta da melancolia podermos naturalmente complicar a
vida, e devemos complicá-la, devemos esmiuçar, devemos descrer. Le devoir du
cepticisme, como dizia Montaigne, está conosco, é um legado da modernidade.
Não há como escapar a ela.
Não obstante, paralelo a isto, este mesmo homem criava, diuturnamente, esta
Academia, o sonho desta Casa, o sonho desta teia perfeita, em que pudesse caber
a essência da nacionalidade, com todas as imperfeições que ele lhe conhecia. E
conhecia muito bem, a ponto de torná-las imortais, as deformações da alma nacional. Não obstante tudo isto, este homem esteve até o último momento – nas
cartas a Joaquim Nabuco, na correspondência com Magalhães de Azeredo, com
os amigos – insistindo nisto, induzindo as pessoas a virem a esta Casa. Conseguia verbas, criava até o último momento esta realidade. Machado teria sido
tudo, menos um homem vaidoso. Certamente não era por vaidade, não era como
para um pedestal para si mesmo que Machado fazia esse trabalho excepcional.
Este, senhores, é o ponto que todos temos em comum. Podemos ser grandes escritores, péssimos escritores, escritores medianos, escritores medíocres.
Podemos ser tudo isso, mas não temos como descurar o trabalho de unidade
nacional que esta Casa representa, que por aqui passa e aqui se salva necessariamente. Aqui começa, aqui deságua e aqui vem. Até o último momento, durante
os dois anos de viuvez, após a morte de Carolina – após o seu último soneto,
“A Carolina”, que por acaso coincide com o primeiro de Manuel Bandeira, “A
renúncia” – nesses dois anos Machado se curva sobre o término do seu trabalho literário, mas em nenhum momento descurou do dever de participação,
que tantos de nós, por idiossincrasia, por orgulho, por mal-entender até mes-
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Di sc u rso do po eta B r u n o To l e n ti n o
mo a essência das coisas, muitas vezes dizemos: – Ora, a Academia?!... ora, mas
como assim?... Fulano não precisava da Academia... Jorge de Lima era maior
que a Academia...
Nenhum escritor, nem mesmo Machado de Assis, e muito menos Machado
de Assis, é maior que a Academia Brasileira de Letras, é maior do que a nacionalidade brasileira, o gênio nacional, que está aqui localizado, encarnado tanto
quanto possível, mas certamente localizado.
A última palavra seria... não sei como agradecer ao Professor Reale e a presença desta brilhante Mesa, e especialmente àqueles que não tinham que estar
aqui. Poderiam estar aqui no dia 19, mas hoje é uma cortesia especial a presença de certos cavalheiros aqui.
Não posso encerrar isto sem recordar as vezes em que aqui estive, desde
muito pequeno, quando minha tia Jujuca, aquela belíssima figura,era a rainha
desta Casa. Aqui vínhamos, crianças, comer biscoitos às escondidas e ficávamos por aí a ouvir sessões. Não posso deixar de recordar as figuras extraordinárias que já ocuparam esta Casa e foram importantíssimas, decisivas na minha
formação e na minha definição enquanto membro da nacionalidade brasileira.
Entre essas figuras, Antônio Houaiss, que desde 1953foi o meu primeiro modelo. Há muitos outros, como José Guilherme Merquior, que já mencionei.
Quando deixei o Brasil, em 1964, eu não havia ouvido falar de Miguel Reale. Ao chegar à Itália, em setembro de 1965, em Portofino, no restaurante,
num almoço em que estava o grande jurista Carnelutti, ouvi falar pela primeira
vez de Miguel Reale. Ele me fez ir a Torino, à casa de sua filha, para que ele me
explicasse o que era a Teoria Tridimensional do Direito. Então, vejam como é
que a vida, de um modo circular, nos traz de volta aqui, para ouvir o que eu
ouvi. Os senhores podem imaginar, então, a minha emoção.
A última evocação, a de um poeta que não pertenceu a esta Casa, e que era
não obstante a sua encarnação, se é que se pode falar em reencarnação no caso
de Tasso da Silveira. A Academia concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis
no ano de 1959, pouco depois da publicação do seu esplêndido último livro,
Puro canto. A figura do uirapuru das neves, essa enorme cabeleira branca, cego já
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Prêmi o Senado r Jo sé Ermí ri o de M o r a e s – 20 0 3
como estava, tateando para subir a esta tribuna e fazer o seu discurso, nunca
me saiu da cabeça. Admirei-o, acompanhei-o, estudei-o, amei-o durante muitos anos. Mas essa imagem, essa particular visão tem tudo a ver com o que dizia Corção há algum tempo, em observação ao que eu dizia, do significado
profundo de um escritor. Tasso da Silveira não era um membro da Academia,
mas era um espírito encarnado desta Casa. E naquele momento ele a encarnava
melhor do que ninguém. Com esta observação termino, e já que ouvi tanta poesia de segunda categoria, preciso agora reequilibrar as coisas com um soneto
magistral, o último de Tasso da Silveira. Agradeço aos senhores de antemão,
porque depois da leitura do poema creio que não vou mais falar. Agradeço a
todos, agradeço gauchement – afinal, chegou o meu momento de ser gauche na
vida. Diz Tasso da Silveira no Soneto XXXII:
Somos aves do mar, batendo, ansiadas,
as asas, num viveiro de pomar.
Em torno, ao vento, agitam-se as ramadas:
ao vento vivo que nasceu do mar.
Ah, que nunca dobremos resignadas,
as asas, nem deixemos de sonhar.
O vento vem em trêmulas lufadas;
e no canto do vento vem o mar...
Se entre as formas efêmeras nascemos
foi para que a alma eterna que trouxemos
em si mesma realize, a soluçar
a absoluta beleza, à nostalgia
das origens divinas a que um dia
retornaremos como para o mar...
112
Ciclo dos Fundadores
da ABL
Alegoria de Rodolfo Amoedo
sobre José do Patrocínio
O grande José do
Patrocínio
J o ão d e Sc a n t im b u r g o
Q
ue tenho eu a falar sobre um negro, durante a vigência da
escravidão? Pode-se falar muito ou não falar nada. Pode-se
atribuir o poder à palavra, que já derrubou reinos, impérios, já destruiu linhagens dinásticas inteiras e já elevou às alturas da glória não
poucos de nossos semelhantes. Podem-se invocar as palavras proferidas por um Deus, na sua peregrinação, o Deus que deu testemunho
do sofrimento humano, da injustiça que nos rastreia os passos, seja a
do sublime da poesia, seja a da blasfêmia dos réprobos, que os há em
abundância em todas as raças e todas as latitudes deste mundo, que
já não sabemos como encontrar definições diante da agonia da civilização, a que os saltos prodigiosos da ciência não poderão dar um linimento até a cura.
Imagino, neste local, a Academia onde tantas vozes foram ouvidas, menos, infelizmente, a voz de José do Patrocínio na nossa tribuna, ele que sofreu calado, sufocando nas suas lágrimas, nos confrangimentos de seu coração, a desgraça de sua raça, que parece ter sido
Conferência
proferida na
ABL, a 1o de
abril de 2003,
abrindo o ciclo
Fundadores da
ABL.
115
Joã o de Sc anti mbu rgo
fadada a viver abaixo do nível da dignidade humana, ainda que seu caráter o tenha prestigiado. No discurso de ingresso nesta Casa, disse Mário de Alencar,
seu sucessor na Cadeira 21, que “não seguiria a regra usada na biografia dos
homens notáveis, de procurar nos antecedentes de família e nos atos da infância a razão dos sinais e dos vestígios do destino deles”.
A biografia de José do Patrocínio, se não fosse romanceada, com abundância de imaginação, como a de um Victor Hugo ou de um Sthendal, nada teria
que oferecesse ao curioso em sua história familiar e individual. Havia trabalhado numa quitanda do interior e na casa paroquial de uma igreja de província,
da qual o vigário era seu pai. Daí decidiu vir para a cidade grande, a vitrine carioca de seu tempo, quando o Rio de Janeiro projetava inteligências brilhantes
ou desfazia reputações duvidosas.
Segundo Mário de Alencar, de quem me valho, Patrocínio deixou Campos,
onde vivia a vida pachorrenta das cidades do interior, ainda hoje semelhante,
sob muitos aspectos, ao seu tempo, e arranjou um emprego como aprendiz de
farmácia na Santa Casa de Misericórdia, para ganhar a ínfima quantia de dois
mil réis, a moeda da época. Tinha casa e comida, mas esse dinheiro não lhe vinha da instituição, porém dos companheiros aos quais substituía em domingos e dias feriados. Era com o trabalho, enquanto os companheiros folgavam,
que podia ter abrigo certo e a mesa na qual se alimentava. A essa quantia miserável, acrescentaria dezesseis mil réis recebidos de seu pai, vigário de Campos.
Tinha portanto uma escora na qual se ampararia enquanto durasse a munificência obrigada pela consciência do vigário de Campos e a ajuda dos companheiros da farmácia da Misericórdia do Rio de Janeiro.
Homem sem passado de legenda, desses fulgurantes nomes que enchem as
páginas da história, e ou são heróis, ou santos, ou poetas, ou escritores, ou artistas em vária arte, que deixam nome à posteridade, para serem julgados,
como o Aleijadinho em Minas Gerais, para citar o nome mais dramático e
mais genial de quantos perambulam pelas páginas da nossa história.
Para estudar, Patrocínio procurou o Externato Aquino, e lá obteve o que
em nossos dias se chama bolsa de estudo. Começou a estudar. Aguilhoado pela
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O grande Jo s é do P a tr o c í n i o
vocação, queria ser médico. Estava inclinado a ser um desses seres que Deus escolheu para minorar a desgraça que colhe um ser no curso da vida. Não conseguiu por uma série de fatores que o impediram de chegar à Faculdade de Medicina. Mas, contentou-se com a de Farmácia, graças aos colegas que conquistou com sua inteligência, sua lhaneza, e às lições particulares que ministrava
nas horas vagas. De seus estudos superiores, formou-se, portanto, em Farmácia, vindo a ser colega do grande poeta parnasiano Alberto de Oliveira. Não
exerceu a profissão. Não era a sua vocação. Conformou-se, resignado, com a
impossibilidade de chegar a médico, e deixou na gaveta o diploma de farmacêutico, indo para outras atividades, numa das quais seria um dos grandes nomes do Brasil, o jornalismo.
Discreto ou envergonhado, Patrocínio não revelava seu passado, de resto
sobre não ter muito o que revelar de dias idos de sua infância e juventude na
modesta cidade de Campos, onde passou essa quadra de sua vida. Mas não interessa nesta evocação de um dos grandes nomes desta Casa e, mais ainda, um
dos grandes nomes do Brasil de sua época, sobretudo na época agitada da propaganda abolicionista, na qual seu brilho não foi ofuscado pelo de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, pela poesia de Castro Alves, e de quantos tomaram parte
na vigorosa campanha pela Abolição, que tardou, mais de vinte anos depois
que a Guerra de Secessão americana, com seiscentos mil mortos e feridos, libertou na grande nação do Norte os seus escravos, que, de resto, deixou-os
abandonados, cada qual escolhendo o caminho que desejasse seguir na vida.
O negro José do Patrocínio não precisou esconder nada de seus dias de
Campos e dos primeiros tempos no Rio de Janeiro, pois que foram tão límpidos quanto sua alma, uma alma clara como um cristal, servido de um caráter
cristalino como um brilhante. Sem dúvida, José do Patrocínio teve dias amargos e dias alegres em sua vida de menino pobre, jovem sem um horizonte a
atraí-lo para atividades que enaltecem a pessoa.
Dotado de uma inteligência viva, dessas que captam os acontecimentos, distantes ou próximos, com lucidez, José do Patrocínio não se lançou na poesia,
embora tenha poetado, nem na procura de um emprego que desse para o seu sus-
117
Joã o de Sc anti mbu rgo
tento. Iludindo-se a si próprio, preferiu a via do jornalismo, organizando um veículo, a que deu o nome de Os Ferrões – um panfleto, com o qual esperava desvendar o que fosse acessível aos leitores de jornais, principalmente no estilo com que
procurou se fazer notar numa cidade onde proliferavam os panfletos, os jornais
de quatro páginas sobre debates políticos. Lembra Mário de Alencar, com razão,
em seu discurso de ingresso nesta Casa, que José do Patrocínio procurou imitar
Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, que lançaram em Portugal As Farpas, imitação, em terras lusas, como os Ferrões no Brasil, das Les Guêpes, de Alphonse Kar,
em Paris. Evidentemente, haveria enormes diferenças entre uma e outra publicação, mas, o jovem negro, no seu ímpeto de conquistar um lugar de relevo no
meio jornalístico do Rio de Janeiro, fez de seu jornal um baluarte de criticas políticas, sociais e econômicas, em suma, o que interessasse ao público. Patrocínio
foi mesmo aguerrido, tantas vezes feroz nas suas críticas, mas Os Ferrões não alcançaram o prestígio com o qual ele sonhara – pois fora um sonho o seu ímpeto
de jornalista na linha de Les Guêpes ou de As Farpas – e o jornalzinho, depois de
dez números, sem progresso de venda que o sustentasse no Rio de Janeiro e um
pouco em São Paulo, acabou suspendendo a tiragem, morrendo de inanição,
com decepção amarga do fundador sobre a sua ambição
O jornal serviu, porém, para chamar a atenção dos diretores de jornais com
tiragem assegurada e freqüente no Rio de Janeiro e assinantes em São Paulo, e
Patrocínio foi contratado pela Gazeta de Notícias, um dos grandes órgãos de imprensa do Rio de Janeiro, no qual pontificava Ferreira de Araújo, até hoje um
dos maiores jornalistas do Brasil, especialmente nos comentários editoriais sobre a política e suas excentricidades, numa cidade frondeuse e politizada como
sempre foi o Rio de Janeiro, ao menos até a mudança da capital para Brasília,
quando Juscelino Kubitschek quis manter a palavra dada aos assistentes de um
comício de sua campanha de candidato à Presidência da República.
José do Patrocínio foi, em tudo, um justo. Daí, como vem num salmo, ter
florescido como a palmeira, isto é, retamente, entre os seus contemporâneos.
Negro, num país que fizera da escravidão a base da força econômica da qual
necessitava nas lavouras de café, no ouro e outros produtos, teria que ser alvo
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O grande Jo s é do P a tr o c í n i o
de preconceito. Foi, sem dúvida, uma das vítimas desse terrível mal que assola
as sociedades, mas soube superar os entraves que se lhe opunham, como demonstrou, com rara tenacidade, na sua vida livre. Mostrou-o optando pela farmácia, por não ter podido cursar a Medicina. Não se deixou abater quando o
seu jornalzinho de gossips políticos não passou de dez números, portanto, de
uma tremendo malogro, ele que punha na sua publicação a esperança de que
viesse a ocupar no Rio de Janeiro um lugar de honra, portanto, destaque dentre os órgãos de imprensa que circulavam na antiga capital do país.
Patrocínio não era, porém, de desanimar. Reuniu todas as forças com as
quais contava, inclusive a que o fez impor-se na sociedade do Rio de Janeiro, e
continuou a sua jornada. Homem tranqüilo, consciente de seu destino, não
possuía uma psicologia complexa, dessas que levam os mestres, sobretudo o
Dr. Freud, a longas meditações sobre a sua composição e seus reflexos no comportamento humano. Patrocínio era o perfeito homem de caráter e de convívio
ameno. Não havia quem se lhe aproximasse ou viesse a conhecê-lo, que dele
não se tornasse amigo. A amizade levou-o para o positivismo, que floresceu no
Brasil com ampla atração e conquistou inúmeros adeptos, para influir na proclamação da República e na formação dos chefes de governo ao menos durante
a primeira República, na qual predominou. Nos antecedentes do golpe de 15
de novembro de 1889, o positivismo era a filosofia que, inexplicavelmente,
dominou a classe alta da política, das faculdades, da imprensa, enfim, de quantos estudassem o pensamento que predominava de Augusto Comte e seus caudalosos livros (que estão sendo reeditados, sob a direção, até há pouco tempo,
até a sua morte, pelo filosofo e acadêmico francês Henri Gouhier). Mas essa
decisão, tomada sem muita convicção, custou-lhe o corte dos 16 mil réis do vigário de Campos, evidentemente antipositivista. Também o nosso compatriota Paulo Carneiro estava reunindo todos os seus papéis, sobretudo a correspondência, para publicá-los em livro, ainda que o positivismo, como filosofia,
não mais tenha seguidores, nem as novas gerações querem saber da lei dos três
estados, de resto não querem de nada saber de filosofia, que nas faculdades está
sendo lecionada gratuitamente, para mantê-la no currículo.
119
Joã o de Sc anti mbu rgo
Mas, Patrocínio desencantou-se com o positivismo e passou-se para o catolicismo, no qual se integrou. Estudou-o a fundo, tanto quanto o permitisse a época, e se tornou um súdito sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não foi, no entanto, em religião, um grande espírito, um desses astros que brilham no firmamento da inteligência, e logo esmaecem. Manteve-se na altura a que chegou, e foi
admirado e aplaudido, como escritor, como expositor e como cultor da apologética cristã. Era, como disse eu acima, um modelo de sinceridade e de conduta irrepreensível, qualidades com as quais conquistou definitivamente seus contemporâneos no Rio de Janeiro e em outras cidades do país. Conquistou São Paulo,
por exemplo, até onde chegavam os ecos de suas conferências, de seus discursos,
de sua luta por seus irmãos de raça, onde era aplaudido e seguido.
Se Patrocínio vivesse hoje seria, certamente, autor de novelas de uma das
emissoras dedicadas a esse filão de audiência. Era folhetinista, embora não os
assinasse. Mantinha-o por terem todos os jornais o indefectível folhetim,
como o têm hoje algumas televisões, para segurar audiência, que, de outra forma, debandaria para outras emissoras ou desistiria da tela fascinante.
Observando-o no seu trabalho, em que era a eficiência, Ferreira de Araújo
aproveitou Patrocínio como cronista parlamentar. Foi mandado para a Câmara dos Deputados, com ordem para colher tudo quanto necessitasse a fim de
atrair leitores. Patrocínio alcançou sucesso, porquanto sabia colher, no seu
exato sentido e na oportunidade que se lhe apresentava, a intenção dos debates, as intrigas entre os deputados, que as havia, como há ainda hoje, a atmosfera geral da Câmara. Foi um verdadeiro sucesso. Daí ter Patrocínio se voltado
para o romance, a fim de conquistar uma posição que lhe garantisse um lugar
de relevo dentre os mestres da ficção no Brasil da época.
O primeiro romance de Patrocínio foi Mota Coqueiro ou a Pena de Morte. O enredo: a condenação de um suspeito de crime. Executado, verificou-se que era
um inocente. Patrocínio deveria ter dividido com outros redatores a redação
do romance. Mas como se saiu admiravelmente bem, seus colegas o deixaram
sozinho para, sozinho, colher os louvores de uma vitória na imprensa e na crítica que se fazia na época.
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O grande Jo s é do P a tr o c í n i o
Conquistada a simpatia da imprensa e dos críticos, Patrocínio escreveu Pedro Espanhol, que alcançou igual sucesso, pois o nome do autor já estava feito na
crítica contemporânea. Depois, o seu maior romance, provavelmente, um dos
que resistiram ao tempo e pode ser lido hoje com proveito. Trata-se de Os retirantes, escrito em 1879, quando da grande seca do Ceará, seca tão violenta que
até mesmo levou o grande poeta português Guerra Junqueiro a dedicar-lhe um
poema, “A seca do Ceará”, em que ele fala da candente abóbada de um forno.
Patrocínio excedeu-se nas páginas, mas o número delas não impediu o seu
êxito, e a crítica não deixou de elogiá-lo, embora se referisse à extensão de seu
número de páginas. Patrocínio aproveitava-se dessa posição, alcançada com o
seu talento, para acudir aos interesses de seus irmãos de raça, à abolição.
Deu-se inteiro à campanha nas suas várias fases. Em 1888, saiu-se vencedor.
A eloqüência do tribuno, que ele veio a ser, do escritor, que ele era, do jornalista, comentarista dos fatos cotidianos, sobretudo da política, o seu mister.
Patrocínio elevou-se acima do nível dos homens de seu tempo, formando na
classe dos homens de pensamento, do que, em nossos dias denominamos, fazedores de opinião. Era isto o que distinguia Patrocínio dos demais companheiros, com a exceção das grandes figuras de seu tempo, dentre elas as de Rui
e Joaquim Nabuco, este que já despontava e se elevava como um dos grandes
nomes do nosso liberalismo e do pensamento nacional.
Patrocínio era dotado de rara eloqüência, e como falava sobre a Abolição
sua eloqüência como que se robustecia, e os auditórios aos quais ele se dirigia
empolgavam-se, voltando-se, desde logo, contra a escravidão. Foi com esse
nome de eloqüente, de orador fulgurante, de apóstolo de uma grande causa,
contra a qual se opunham milhares de brasileiros, com interesses econômicos
vinculados à escravidão, que entrou para a História. José do Patrocínio demonstrou estar possuído de um fogo sagrado, não lhe importando mesmo a
vida, pois que a ameaça poderia sair de alguma obscura fazenda do Nordeste,
ou do interior de mina de ouro de Minas Gerais, ou do bolso de um pagante de
matador profissional, numa época de justiça próxima apenas dos grandes centros, e eliminá-lo.
121
Joã o de Sc anti mbu rgo
Mas Patrocínio nem cogitava que poderiam lhe tirar a vida. Até mesmo se
dava conta que sua vida, abatida por um sicário, valeria mais para a causa da
Abolição do que em luta para alcançar o seu ideal, que era a libertação de seus
irmãos de raça e de cor. Num poema famoso e formoso, citado por Mário de
Alencar no seu discurso de posse na Academia, deixou Patrocínio expressa na
causa por que se batia, as lágrimas de seu coração de combatente pela invectiva
contra a da Abolição:
E levantam-se mudos, taciturnos,
Os mártires sombrios da avareza.
............................
E vão postar-se em quietação de estátuas
Ante o feitor, submissos, alinhados;
Os cães podem, latir ante os seus donos
Mas eles devem estar sempre calados.
Eis a revista! Um ato de miséria,
De escárnio e de vileza acerbo misto,
E que termina o escravo murmurando
Junto ao senhor: louvado seja o Cristo.
Louvado seja o Cristo! – mas Seus lábios
Ensinavam doçura e piedade;
Não mandavam que o déspota chumbasse
Uma grilheta aos pés da humanidade.
Louvado seja o Cristo! – mas nas sombras
Daquela angústia longa e sobre-humana
Irisava-se um arco de aliança
Por todo o céu da consciência humana.
122
O grande Jo s é do P a tr o c í n i o
Louvado seja o Cristo! – Ele era doce
Como aos domingos o romper da aurora;
Escravo! Não é ele quem sustenta
O homem torpe e vil que vos explora?
Quando se há de curar essa medonha
Chega hedionda e fatal do cativeiro;
E há de o trabalho sacudir os braços
Lançando dos grilhões os estilhaços
Longe dos céus formosos do Cruzeiro?!
José do Patrocínio, o Zé do Pato, como carinhosamente o chamavam seus
amigos das letras e do jornalismo, foi um rugido que ecoou pelo Brasil inteiro,
abalando a escravidão. Era um letrado, que se fizera por si mesmo, que aprendera com sacrifício, que se formara farmacêutico com os maiores esforços pessoais e econômicos, pois que era pobre, e como letrado fez reboar pelo Brasil a
sua voz tonitruante, que, finalmente, ajudou a mover montanhas, as montanhas da opressão, da insensibilidade dos interessados no eito dos escravos, e
não os queiram alforriados, pois que se veriam desfalcados do valor dessa força
humana, que deveria ser livre, como livres vieram a ser os escravos americanos,
pela Guerra Civil, que fez de Lincoln o herói nacional, a maior figura da história dos Estados Unidos.
A vida de José do Patrocínio não teve lances heróicos. Não se pode comparar
com os heróis da Guerra do Paraguai, ou com grandes vozes, ricas economicamente e ricas de amor à pátria, como a de Rui e de Joaquim Nabuco. Não se lhe
pode comparar Machado de Assis, mestiço, portanto, de origem africana, como
o fogoso Patrocínio, mas o nosso grande combatente, o nosso orador de grandes
recursos oratórios, o nosso combatente da justa causa da Abolição foi um dos
nomes que ficaram na História do Brasil, para edificação das gerações vindouras, e fez mais do que o Zumbi, por ter se exposto, de peito aberto, contra
eventuais assassinos, de pena afiada, como os mais corajosos combatentes da
123
Joã o de Sc anti mbu rgo
imprensa, como os pobres que se erguem acima dos ricos, enfrentam o poderio
da fortuna, e acabam vencendo quando justa é a causa que abraçaram.
José do Patrocínio viveu pobre, mas com meios suficientes para se manter
decentemente. Nos seus últimos dias na Terra, empobreceu mais, e já não tinha com que se manter, senão com o apoio de alguns amigos e com os jornais
para os quais escrevia, a fim de obter algum dinheiro, com que se alimentava e
se vestia pobremente, não raro próximo da indigência.
Concluindo, tenho a maior satisfação em proclamar aqui José do Patrocínio um dos maiores brasileiros de seu tempo, um grande compatriota nosso,
que teve uma vida aventurosa, inteiramente dedicada às grandes causas, a
maior das quais a Abolição. Bendito seja o nome de José do Patrocínio.
124
Patrocínio: Um
jornalista na Abolição
M u r i lo M e l o Fil h o
D
esejo que minhas primeiras palavras sejam do maior e do
mais sincero agradecimento ao Acadêmico Ivan Junqueira,
pelo honroso convite para fazer hoje, aqui, esta alinhavada palestra
sobre José do Patrocínio, na celebração do sesquicentenário do seu
nascimento, que se completará no dia 9 de outubro deste ano, e no
prosseguimento de um Ciclo de Conferências sobre os Fundadores
desta Academia. Agradeço também as generosas palavras do Acadêmico Ivan Junqueira, com as quais aqui fui apresentado, e que me
emocionaram profundamente.
João Carlos Monteiro era o nome de um vigário da Cidade de
Campos dos Goitacazes, no Norte Fluminense, debruçada à margem direita do rio Paraíba, famosa pela sua goiabada e pela sua cana-de-açúcar.
Conferência
proferida na
ABL, a 8 de abril
de 2003, durante
o ciclo Fundadores
da ABL.
M urilo Melo Fi lho
João Carlos formara-se em Direito pela Universidade de Coimbra, era vereador de sua Cidade de Campos e já fora promovido a cônego.
Naquele tempo, a Igreja Católica permitia que seus clérigos fossem maçons
e João Carlos era o Venerável da Loja “Firme União”, coabitando as suas funções de pastor das almas com os prazeres de duas mesas: a dos jogos de azar e a
dos banquetes gastronômicos.
Elegera-se deputado provincial, sendo também um fazendeiro e senhor de 92
escravos, que ele havia “reescravizado” como “africanos livres”. Ele já tinha 54
anos de idade quando se enfeitiçou por uma negrinha, de 13 anos, chamada Justina Maria, que engravidou e que, no dia 9 de outubro de 1853 – há 150 anos, portanto – deu à luz um bebê, com o nome de José Carlos do Patrocínio, batizado no
dia 8 de novembro, dedicado ao Patrocínio da Virgem Santíssima, e que era mais
um fluminense, conterrâneo aqui do Acadêmico Marcos Almir Madeira.
Na “roda dos expostos”
Filho da escrava Justina Maria e do padre João Carlos Monteiro, Patrocínio
propriamente não nasceu, porque, segundo informa o poeta campista Antônio
Roberto Fernandes, diretor da Biblioteca Municipal Nilo Peçanha, simplesmente foi “exposto” numa janela do Hospital da Santa Casa de Misericórdia,
na época situada à Praça das Quatro Jornadas, de Campos.
Na calada da noite, ele foi depositado no peitoril da janela e empurrado de
modo a que ela girasse em torno de um eixo central, num movimento que chamava a atenção da enfermeira de plantão. Foi então recolhido, medicado e
abrigado, até que aparecesse alguém – neste caso a sua própria mãe – para o
adotar. Aquela “roda dos expostos” tinha sido um recurso adotado para que
não se tornasse pública a sua origem incestuosa.
Filho de uma união tão ilícita, tão incomum e criado numa senzala, Patrocínio muito cedo se revoltou contra os açoites impostos pelo padrasto aos seus
irmãos negros.
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Patro c í ni o : Um j o rna l i s ta n a A bo l i ç ã o
Sua mãe, Justina, já não era mais a preferida do Cônego João Carlos. E José
do Patrocínio – o Zeca – sofria com aquela discriminação, que levara sua mãe
a transformar-se numa quitandeira, envolvida com o comércio de frutas e de
legumes.
Aos 15 anos de idade, o menino Patrocínio não se conformava com as humilhações sofridas pela sua mãe, na qualidade de mais uma das muitas amásias
do seu padrasto poligâmico, que sequer o havia reconhecido como filho.
Aquele era um lar sem afeição, simplesmente insuportável, sob o guante de
um vigário impulsivo e violento.
Certo dia, o menino confessou a Justina Maria:
– Mãe, quero ir embora daqui. Não agüento mais vê-la tão submissa, tão insultada e tão ofendida justamente por uma das outras amantes de João Carlos
Monteiro.
Todos quantos, algum dia, tiveram também de romper com suas famílias e
suas cidades, para irem em busca de um lugar ao sol, como deve ter acontecido
com alguns aqui presentes, podem imaginar facilmente o impacto causado na
cabeça de Justina Maria, com aquela separação.
Afinal de contas, o jovem Patrocínio era uma das poucas entidades que ainda lhe prendia à vida. Seria muito duro e difícil para ela privar-se dele e ficar
desamparada na solidão do seu cativeiro. Ia perdê-lo, mas resignava-se por ver
que aquela decisão do filho era certa e lógica.
Fugindo de campos
Patrocínio fugiu de Campos e veio para o Rio. Empregou-se na Santa Casa
de Misericórdia, aqui bem perto, na Rua Santa Luzia, trabalhando na sua farmácia, como aprendiz e como servente, a braços com remédios e purgantes e,
na enfermaria, como ajudante, às voltas com cadáveres pobres e indigentes.
Vai trabalhar no jornal A República, de Salvador de Mendonça, o fundador,
nesta Academia, da minha Cadeira no 20, que acabara de publicar o “Manifesto Republicano”, de Quintino Bocaiúva. E na Gazeta de Notícias, onde faz sua es-
127
M urilo Melo Fi lho
tréia como o grande e admirável jornalista que viria a ser pelos anos afora. Publica também seus primeiros versos, contra a inauguração de uma estátua de
bronze, em homenagem ao Imperador:
Aí vês, oh! nefando aviltamento,
De um despotismo cruento.
Neste solo americano,
Nas abas do régio bronze,
Ou seja, escárnio ao invés,
Os escravos curvos aos seus pés,
Aos pés dum rei, dum tirano.
Patrocínio é aí amparado por João Vilanova e pelo Capitão Emiliano Rosa
de Sena, que o convida para morar em sua casa e para ser o instrutor de suas filhas, uma das quais, Maria Henriqueta, viria a ser justamente sua mulher e
companheira pelo resto da vida.
Na Gazeta de Notícias, começa a escrever artigos políticos, já pregando o abolicionismo e usando o pseudônimo de “Proudhomme”, em homenagem a Pierre-Joseph Proudhom, o pai do anarquismo.
Era a época em que Manuel Antônio de Almeida começava a publicar os capítulos do seu Memórias de um Sargento de Milícias e José de Alencar fazia o mesmo
com o seu O Guarani.
O primeiro livro
Nesse meio tempo, um fazendeiro rico, Mota Coqueiro, e mais três capatazes da região de Campos, eram executados com a pena de morte, sob a acusação de terem assassinado uma família humilde do local. Um ano depois, Patrocínio recebe a carta de um padre que, às vésperas de morrer, escuta a confissão de um lavrador, assumindo a autoria do crime.
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Uma onda de protestos e de revolta toma conta do Rio e Patrocínio aproveita a história para publicar em capítulos o seu primeiro livro: Mota Coqueiro e a
pena de morte.
Pela Gazeta de Notícias, vai ao Ceará e, em candentes reportagens, narra o drama da seca que assolou o Nordeste em 1877, com Pedro II declarando que as
jóias da Coroa deviam ser vendidas, contanto que nenhum cearense morresse
de fome – um assunto, aliás, que hoje, mais de 100 anos depois – continua
atualíssimo e desafiante.
Durante quatro meses, Patrocínio convive com os flagelados, sua miséria,
pobreza, doenças, falta d’água, abandono, prostituição e morte.
Voltando de lá, escreve Os retirantes, que, localizado no Nordeste, tem um
padre como seu personagem central: um padre devasso e desonesto, que não
era outro senão o próprio Cônego Monteiro, pai de Patrocínio.
Esse Os Retirantes é o nosso primeiro livro sobre o drama das secas, precursor
e pioneiro do romance regionalista do Nordeste, assim saudado pelo crítico e
Acadêmico Araripe Júnior: “O Autor de Os retirantes é um escritor apaixonado,
que chora e se sensibiliza quando escreve e que se exalta e se enfurece quando
fala.”
Já fazia dez anos que Patrocínio estava longe de sua mãe e dedica-lhe um
poema:
Como outrora, ligou-se à minha infância,
Liguei também a ti a mocidade,
Não pela glória, que não tive nunca,
Mas pelo coração, pela saudade.
Patrocínio não nutria os mesmos sentimentos pelo padrasto, e escreve a poesia “O Padre”:
É preciso lançar por terra esse espantalho
Que se diz intérprete divino.
129
M urilo Melo Fi lho
E, sob a máscara de moral austera,
Esconde a negra vocação do abutre
E os instintos sangrentos da pantera.
Patrocínio já era aí um corajoso jornalista, um panfletário, engolfado nas
campanhas contra a escravatura e a favor da República.
Casa-se com Maria Henriqueta, a Bibi, que tinha sido sua aluna, uma jovem
branca e bonita, dez anos mais moça do que ele.
O jornalista Apulcro de Castro, de péssima reputação, não perdoa Patrocínio. E escreve em O Corsário:
“Casou-se o preto cínico da Gazeta e está muito ancho o manganão. Mas,
com quem ele foi casar-se? Procurou por acaso fazer a felicidade de uma pretinha, sua parenta? Escolheu uma dama de sua própria raça? Não. Nessa, não
caiu o nosso moleque, um espertalhão, um negrinho que quis por força uma
noiva, dengosa, alva e branca.”
No Ceará, novamente
Ao Ceará, onde estivera anos antes, testemunhando a tragédia da seca, voltaria depois, já então alcunhado de “Marechal Negro”, para solidarizar-se com
os bravos jangadeiros cearenses, que, sob a liderança de Chico da Matilde, haviam bloqueado o porto de Fortaleza ao desembarque de qualquer navio negreiro.
Vai à Europa, explicando sua ausência da campanha abolicionista pela necessidade de conseguir informações e documentos para o seu folhetim Pedro
Espanhol, que realmente lançaria pouco depois, e também em busca de melhores
condições de saúde. Patrocínio estava em Paris, sendo homenageado por importantes intelectuais franceses, quando recebe a notícia de que a escravidão
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fora abolida no Ceará. E ali mesmo faz um apelo para que Victor Hugo apóie
os abolicionistas brasileiros, recebendo dele, 48 horas depois e por escrito, a
seguinte mensagem:
“Uma província brasileira acaba de declarar extinta a escravatura, desfechando nela um golpe decisivo. Esta é uma grande notícia. Porque, antes do
fim deste século, a escravatura terá desaparecido sobre a face da Terra.”
No auge da popularidade, Patrocínio resolve visitar Campos. E aí é saudado por um combativo orador local, muito popular e de muito sucesso, chamado Carlos de Lacerda – (que pelo nome não se perca) – um homônimo e antecessor do futuro lutador e líder Deputado da Banda de Música udenista, companheiro aqui, do nosso estimado Acadêmico Oscar Dias Corrêa.
Aí em Campos, Patrocínio experimenta uma das maiores emoções de sua
vida. Tinha 32 anos e estava afastado há 17 anos dos seus conterrâneos. Durante um grande jantar que lhe foi oferecido, o mestre-de-cerimônias chamou
para presidir a mesa uma escrava de nome Justina Maria, justamente sua mãe,
com a qual ele se reencontra, em meio a muitos beijos e muitas lágrimas.
Justina já estava sofrendo as dores de um quisto surgido quando ainda era
jovem. Trazida pelo filho para o Rio de Janeiro, interna-se na Santa Casa de
Misericórdia, em cuja farmácia, Patrocínio, aos 14 anos, tivera, como já vimos,
o seu primeiro emprego.
É então operada daquele quisto, já então transformado num perigoso tumor cancerígeno, do qual viria a falecer, cinco meses depois. Mas, pouco antes
de morrer, Justina Maria ainda tem chance de embalar nos braços o seu neto:
José do Patrocínio Filho, recém-nascido, e que mais tarde seria também um teatrólogo e um razoável cronista (meio boêmio).
Aquela escrava, humilhada e repudiada pelo Cônego João Carlos Monteiro,
teve no seu enterro a presença de grandes homens, correligionários do seu filho: Campos Sales, Prudente de Morais, Olavo Bilac, Coelho Neto, Rui Bar-
131
M urilo Melo Fi lho
bosa, Joaquim Nabuco, Olegário e José Mariano, Aristides Espínola, Lopes
Trovão, Paula Ney e André Rebouças.
A morte e o enterro de Justina abalam Patrocínio, mas não o fazem desistir
da luta. Afinal, sua mãe não vira em vida o fim da escravatura, mas muitas outras mães não morreriam sem assistir à sua Abolição.
A abolição, em ascensão
A seguir, Patrocínio elege-se vereador da Cidade do Rio de Janeiro, conquistando uma nova tribuna para a sua pregação abolicionista, que, por sinal,
naqueles primeiros dias de maio de 1888, atravessa uma fase de crescente expansão.
Fazendeiros de São Paulo e de Minas, até então conhecidos por suas arraigadas convicções escravagistas, começam a alforriar seus negros.
Multiplicam-se os casos de escravos fugitivos, logo recolhidos e protegidos
em locais seguros.
Já enfermo, Dom Pedro II embarca para a Europa, em busca de saúde, e deixa no trono sua filha, a Regente Isabel, aconselhando-a no embarque: “Faça a
Abolição, antes que algum aventureiro a faça.”
Na Gazeta de Notícias, Patrocínio escreve:
“A escravidão é um roubo. E todo dono de escravo é um ladrão. Ela é o nosso opróbrio, que o Brasil simplesmente não merece.
O mais depressa possível, devemos varrê-la do nosso cenário.
Não há liberdade nem independência em uma terra com 1 milhão e 500 mil
escravos. De que valerá a pena instalarmos uma República numa pátria de tantos cativos?”
As lendas brasileiras sobre negros já eram aí enriquecidas pelo heroísmo de
Henrique Dias contra os holandeses, em Pernambuco; por Zumbi dos Palma-
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res, em Alagoas; pelo Quilombo Arraial dos Crioulos, em Minas; pelo esplendor de Chica da Silva, no Arraial do Tijuco; pela resistência de Antônio Conselheiro na epopéia de Canudos, na Bahia; e pela tradição de “Negrinho do
Pastoreio”, no Rio Grande do Sul.
O abolicionismo passou então por duas fases bem distintas: uma até 1879,
romântica, idealista, teórica, reflexiva; e outra, até 1888, bem mais prática, objetiva, com os pés no chão.
Funda-se aí a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, com duas alas bastante definidas: A primeira: aristocrática, formada por Nabuco, no Parlamento,
com apoio de Joaquim Serra, André Rebouças, Coelho Neto, Luís Murat,
Raul Pompéia e outros intelectuais cultos e refinados, meio filósofos e teóricos. A segunda: popular, constituída por Patrocínio, na rua e no meio do povo,
com Lopes Trovão, Luís Gama, Paula Ney, Pardal Mallet, Ferreira de Menezes, e outros líderes de ação prática e extremada, tribunos populares, que se alimentavam na reação dos comícios.
Uma oratória diferente
Ao revés de Nabuco, a oratória de Patrocínio nada tinha de elegante. Pelo
contrário: não seguia os modelos clássicos, não fora educada pela Retórica, era
desengonçada e feia, bamboleante, de gestos descoordenados. Mas, compensava esse desacerto com uma emoção que emanava de dentro daquele negro baixo, grosso, rechonchudo, quase calvo – de barba espessa e cerrada, no figurino
de José de Alencar e de Alcindo Guanabara, uma barba predecessora da de Fidel Castro e do nosso Lula – com um turbilhão de frases curtas e contundentes, que falavam de perto aos corações e às mentes de um público vibrátil a
cada frase sua.
Dir-se-ia uma centelha que se acendia e que inflamava. As palavras jorravam
como se estivessem num turbilhão, em catadupas, de uma cachoeira, com uma esplêndida faculdade criadora, imagens improvisadas e comparações imprevistas.
133
M urilo Melo Fi lho
O Acadêmico Olavo Bilac confessa que nunca esquecerá aquela cabeça que
assomava à tribuna, transfigurada e olímpica, parecendo crescer, inchar, dilatar-se, num torvelinho de rompantes geniais.
Essas imagens brotavam do fundo de sua alma, espontâneas e repentinas,
que captavam o auditório, mudo e quedo, submisso e silencioso, perplexo e de
respiração suspensa, num estado de êxtase, como se estivesse bebendo cada
uma de suas palavras.
Os epítetos e as metáforas brotavam em cintilações de fulgores e de relâmpagos.
As multidões prostravam-se aos seus pés, dóceis e obedientes, domadas, diante daquele Deus de ébano.
Era um tumulto feito homem, como bem definiu o Acadêmico Araripe Júnior,
um orador diferente, um misto de Cícero, Mirabeau, Danton, Lincoln e Robespierre, que parecia estar num palco, como um ator, representando um personagem
importante, que no fundo era ele mesmo. Recorda o Acadêmico Coelho Neto:
“Quem uma vez o viu na tribuna, guarda, por certo, na lembrança, a imagem de uma estranha figura semibárbara, quase grotesca. Não era um tribuno
de escola, disciplinado e ordeiro.
O seu discurso não tinha melodia: era um silvo ou um rugido. O seu gesto
era desconexo. O seu olhar despendia fagulhas. Avançava, recuava, girava, retraía-se, ficava na ponta dos pés e despejava as suas bombas.”
Há poucos minutos, o Acadêmico Marcos Almir Madeira contou-me que
Coelho Neto definia Patrocínio como “um desmantelo de tormenta”.
A batalha pela Abolição da Escravatura já tinha mais de meio século e se iniciara antes mesmo de Patrocínio nascer.
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Retrato de José do Patrocínio
Desenho: anônimo, s.d.
Retrato de José do Patrocínio na juventude.
Desenho: anônimo, c. 1870.
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M urilo Melo Fi lho
Primeiro. Ela começara no dia 7 de novembro de 1831, com a chamada
“Lei Feijó”, assinada por Diogo Antônio Feijó, um sacerdote paulista, Ministro da Justiça da Regência Trina, que libertava os africanos chegados depois
dela.
Segundo. Prosseguira com a Lei Eusébio de Queirós, sancionada em 4 de
setembro de 1850, que tomou o nome em homenagem ao seu Autor, nascido
em Angola, Ministro da Justiça no primeiro Gabinete do Marquês de Olinda e
que acabava com o tráfico dos escravos.
Terceiro. Continuara com a Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de
1871, apresentada pelo Visconde do Rio Branco e promulgada pela Princesa
Isabel, então na Regência do Império, que libertava os nascituros, filhos nascidos de mãe escrava.
Quarto. Seguira adiante com o Projeto Saraiva, apresentado em 13 de maio
de 1885 e transformado na Lei dos Sexagenários, que tornava livres os escravos com mais de 60 anos.
E quinto. Era concluída, a seguir, com a Lei Áurea, que tomou o no 3.353,
–redigida, apresentada, discutida e aprovada na Câmara e no Senado, no espaço de uma semana, apenas – para ser promulgada pela Princesa Isabel, no dia
13 de maio de 1888, que assim cumpria o conselho deixado pelo seu pai e que,
por completo, extinguia finalmente a escravidão no Brasil.
13 de maio: dia histórico
Numa crônica, Machado de Assis assim descreveu aquele 13 de maio: “Era
um belo dia de sol claro e fulgurante. O povo em delírio acorreu à Rua do Ouvidor para aclamar os líderes da campanha pela Abolição, que apareciam na sacada dos edifícios e aí recebiam os aplausos populares.”
No interior do Paço Imperial, a cena fora rápida. Em companhia do seu
marido, Gaston d’Orleans, o Conde d’Eu, um francês impopular, a Princesa
Isabel entra na sala, senta-se à mesa e, com letra firme – usando uma caneta de
ouro comprada numa subscrição popular – sanciona o projeto que ela própria
remetera ao Parlamento, e que abolia para sempre a escravatura no Brasil.
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Patrocínio, que entrara na sala carregado nos ombros de populares, aproxima-se da Princesa, ajoelha-se, beija-lhe as mãos e proclama:
– Vossa Alteza é a querida mãe branca dos escravos e a mãe loira dos brasileiros.
Não menos emocionado, o monarquista Joaquim Nabuco chega à janela do
Palácio, esforça-se para discursar, mas, com a voz embargada, consegue apenas
dizer:
– Está abolida a escravidão. Não há mais escravos no Brasil.
Aplausos, flores e palmas festejam suas palavras. O povo dançava nas ruas.
E a Abolição chegava finalmente ao seu feliz desenlace, como o mais belo movimento democrático de toda a História brasileira.
Aquela conquista, que nos Estados Unidos custara o preço de uma sangrenta guerra de cinco anos – a Guerra da Secessão – entre o Norte e o Sul, aqui no
Brasil era obtida com risos e festas.
As comemorações do triunfo não atraíam Patrocínio, nem o fascinavam.
Não gostava das vitórias, que costumam decepar os adversários. Atingido o
objetivo, preferia recolher-se.
E, na companhia de Paula Ney, refugia-se na redação do seu jornal. Está
cansado e exausto. Precisa dar um cochilo, mas é interrompido:
– Está aí fora o Dr. Benjamim Constant, com um grupo de cegos do seu
Instituto, para cumprimentá-lo.
Mesmo a contragosto, Patrocínio manda-os entrar. E Benjamim Constant
os apresenta:
– Patrocínio, trouxe-lhe aqui os meus cegos. Eles também te querem ver. Muito de propósito, emprego o verbo: os meus cegos te querem ver.
Patrocínio tenta agradecer a homenagem. Gagueja algumas palavras, mas
não as termina. Está comovido e começa a chorar.
Benjamim Constant percebe o desconforto da situação e explica:
– Meus queridos filhos cegos. Nem sempre as palavras conseguem exprimir
o que sentimos. Chorando, este grande homem e orador, que é José do Patrocínio, acaba de pronunciar o seu mais belo discurso. Não o vistes nem o ouvis-
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M urilo Melo Fi lho
tes falar. Mas o vosso coração deve tê-lo sentido. Basta de emoções. Vamos
embora.
E dando o braço a cada um deles, lá se foi Benjamim Constant, com os seus
cegos, cortando a multidão.
A libertação, em vez da coroa
Dizia-se que, sancionando aquele decreto, a Princesa imaginava salvar a
Monarquia, primeiro para seu pai e em seguida para ela mesma, embora o Barão de Cotegipe a tivesse advertido, poucos meses antes, de que ela poderia ganhar a batalha da Abolição, mas seguramente perderia a guerra da Coroa. No
dia 13 de maio, quando mostrou o decreto da libertação ao Conde d’Eu, seu
marido, a Regente ouviu dele o seguinte conselho:
– Não assine esse papel, Princesa. Este é o fim da Monarquia. V. Alteza está
perdendo o trono.
E ela respondeu com uma pergunta:
– Que direito tenho eu, livre e batizada, de permitir que meus irmãos negros
continuem escravizados, eles que, para libertá-los, só têm a mim?
Não fora à-toa, nem um mero impulso pessoal, aquele beijo de Patrocínio
na mão da Princesa Isabel. Por algum tempo, triunfará nele o abolicionista,
mas nele também, durante algum tempo, morrerá o republicano. Sua gratidão
à Princesa era total e apaixonada, a ponto de incentivar a organização de uma
Guarda Negra, constituída de ex-escravos, dispostos a defender a Princesa Regente, contra tudo e contra todos.
Segundo Patrocínio, aquela Princesa de nome extenso: Isabel, Cristina, Leopoldina, Augusta, Micaela, Gabriela, Rafaela e Gonzaga de Bragança, quando
assinou a Lei Áurea, já estava conformada de que trocava o seu Império pela libertação dos escravos.
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Minhas Senhoras e meus Senhores.
Peço-lhes agora licença para descrever aqui – com mais detalhes – um episódio a que o Acadêmico Ivan Junqueira se referiu, de passagem, na terça-feira
da semana passada.
Eram 20 horas do dia 17 de junho de 1889. Estávamos, naquela noite, no
Teatro Lucinda, aqui no Rio, quando Patrocínio se vê surpreendido e é provocado por outro grande orador, Silva Jardim – que depois morreria tragicamente na cratera do Vesúvio – e que, naquele momento, com dureza, o acusava de ser um traidor do movimento republicano, rendido aos encantos da
Princesa Isabel.
Patrocínio estava no camarote em frente, murcho e cabisbaixo, semiderrotado por aquela enxurrada de ataques. À certa altura, ensaiou uma resposta tímida, sem brilho e sem calor.
A surpresa de um aparte
Paula Ney, seu fraternal amigo, esgueirou-se de sua companhia e foi lá para
o meio do povão, na platéia, de onde, escondido, desferiu um aparte:
– Cala a boca, negro sem-vergonha. És o último negro vendido e sujo.
Aquela interrupção feriu Patrocínio intensamente. Sem saber de onde ela
vinha, cuidou de respondê-la.
Já agora era a fera ferida, de olhos esbugalhados, narinas acesas, o corpo trêmulo de indignação, que se agigantava na resposta, não apenas a Silva Jardim,
mas também ao desconhecido aparteante:
“Negro, sou, sim, com muito orgulho. Deus deu-me a cor de Otelo, para
que eu sempre honrasse os negros, dos quais tenho a honra de descender.
Sim, sou um negro de nascimento, filho de um padre com uma escrava.
Nada mais sou do que uma pessoa de três pês: preto, pobre e plebeu.”
E prosseguiu com tanto brilho, que saiu do Teatro carregado em triunfo.
Depois, no camarim, de acordo com relato do Acadêmico Osvaldo Orico, Patrocínio reclamou:
139
M urilo Melo Fi lho
– Eu só queria saber quem foi o patife que me atirou aquele desaforo.
E Paula Ney, presente:
– Fui eu, este seu criado.
– Foste tu, mesmo?
– Fui eu, sim. Querias então que eu assistisse, indiferente e omisso, à tua
derrota? Os amigos são mesmo para essas ocasiões.
Estavas dormindo no teu discurso. Eu vibrei um raio para te acordar. Só
com os raios se despertam os titãs.”
Desterro e ostracismo
Meus amigos.
Acusado de monarquista, Patrocínio é esquecido na organização do Ministério republicano, que conta com seus amigos: Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa e Benjamim Constant.
A República já tinha mais de um ano. E não se lembrava do seu nome. Sobretudo os militares fecham a questão contra ele, por causa de sua fidelidade a
Nabuco e Hilário de Gouveia, dois monarquistas radicais.
Patrocínio resolve candidatar-se à Câmara pelo 2o Distrito do Rio de Janeiro. Recebe 713 votos e é derrotado por Timóteo da Costa.
Floriano rebela-se contra Deodoro e termina conquistando o poder, para
iniciar uma implacável perseguição aos adversários.
Patrocínio é desterrado para Cucuí – lá no Alto Rio Negro – onde ele e seu
grupo enfrentam doenças, febres, fome e esquecimento.
Anistiado, volta ao Rio, mas não abranda o combate a Floriano, acusando-o de trair a República e reaproximando-se de velhos companheiros: Rui,
Bilac, Pardal Mallet, Prudente, Campos Sales, Quintino e Seabra.
O seu novo jornal A Cidade do Rio é fechado pelo governo, que o persegue e o
ameaça de prisão.
Com a posse de Prudente de Morais, Patrocínio reabre o jornal, fiel aos seus
ideais republicanos, porém sem o mesmo sucesso de antes.
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A fim de ocupar seu tempo, lança um projeto para construção de um balão dirigível – como aqui já narrou o Acadêmico Ivan Junqueira – cheio de
um gás mais leve do que o ar, e que, por isto mesmo, podia elevar-se e manter-se na atmosfera. Era uma réplica e um invento mais ou menos semelhantes ao “Pax” de Augusto Severo e ao “Demoiselle”, de Santos Dumont, que exigia investimentos pesados e inacessíveis ao seu bolso de jornalista desempregado.
Aprofunda seus estudos sobre aerostática, aeronáutica, mecânica e física.
Aperfeiçoa o seu projeto, consegue uma patente, mas não obtém o dinheiro
necessário para executá-lo.
Mais uma vez, candidata-se a um cargo político, agora ao Senado, na vaga
deixada por Lopes Trovão.
Tem uma plataforma socialista, de apoio às camadas mais pobres. E novamente é derrotado.
Pela terceira vez, também, afasta-se de Rui, por causa de Prudente de Morais: Rui, o Tartufo, contra Prudente; e Patrocínio, chamado de Aretino, a favor de
Prudente.
Eram dois gigantes e dois ícones do jornalismo brasileiro, que se bicavam com muita facilidade e que iriam hostilizar-se e reaproximar-se vezes
sucessivas.
Também com Carlos de Laet Patrocínio nunca teve muitas afinidades. Viviam brigando. Certa tarde, quando os fundadores desta Academia – entre os
quais ele próprio – ainda se reuniam na pequena sala do escritório de Rodrigo
Octavio, à Rua da Quitanda 47, Patrocínio ali chegou e só havia uma cadeira
vaga, justamente bem ao lado de Laet.
Patrocínio olhou, dirigiu-se para ela, mas antes quis saber:
– Afinal de contas, nós dois, hoje, estamos de bem ou estamos de mal?
– Estamos de bem.
– Então, posso sentar-me. Boa-tarde.
141
M urilo Melo Fi lho
A cadeira 21
José do Patrocínio foi o fundador da nossa Cadeira no 21 – depois chamada
de “a Cadeira da Liberdade” – que teve como patrono Joaquim Serra e, como
sucessores, acadêmicos de direita e de esquerda, em eleições pendulares, que
bem atestam a nossa índole apartidária: Mário de Alencar e Olegário Mariano,
de direita; Álvaro Moreyra, de esquerda; Adonias Filho, de direita; Dias Gomes, de esquerda; Roberto Campos, de direita, até o atual ocupante, Paulo Coelho, enfim, um radical de centro.
Patrocínio não foi o que hoje se chamaria propriamente de um escritor. Além
dos romances Mota Coqueiro e Os retirantes e do folhetim Pedro Espanhol, não teve
pretensão nem tempo de produzir uma obra literária realmente importante.
Esses seus três livros estão esgotadíssimos; deles existem hoje talvez dois ou
três exemplares e bem que se poderia encontrar um editor interessado em republicá-los.
Seria desejável também que se reunissem os seus artigos publicados nas três
“Gazetas” da época: a “de Notícias”, a “da Tarde” e a “do Rio”, e se editassem os seus
discursos pronunciados na campanha da Abolição.
Os seus discursos, pronunciados por um dos maiores “meetingueiros” e
“palanqueiros” de toda a oratória brasileira, poderiam até servir como subsídios para ilustrar a nossa variada bibliografia sobre a escravidão, que teve
seus pontos altos em Castro Alves, com “Navio Negreiro” e “Vozes
d’África”; em Bernardo Guimarães, com Escrava Isaura; em Machado, com o
poema “Sabina”; em Artur Azevedo, com A escrava”; em Aluísio Azevedo,
com O cortiço e O mulato, passando por Júlio Ribeiro, com A carne; por Coelho
Neto, com A conquista e O rei negro; por Luís Guimarães Júnior, com “Os escravos”; Raimundo Correia com “O banzo”; Vicente de Carvalho, com
“Fugindo ao cativeiro”; até chegar a Jorge de Lima, com “Essa nega Fulô”; a
Cassiano Ricardo, com “Sangue africano”; a Leonardo Mota, com “Violeiros do Norte”; a Luís da Câmara Cascudo, com Lendas brasileiras; e a Pedro
Calmon, com História de Castro Alves.
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Minhas Senhoras e meus Senhores.
Revoltado porque Sílvio Romero não cumprira a promessa de fazer uma
conferência a favor da Abolição, Patrocínio não o desculpa e mantém com ele
uma das mais violentas polêmicas de toda a nossa literatura. Escreveu então:
“Trata-se de um ‘teuto maníaco’ de Sergipe, que se chamava Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos, mas que depois passou a chamar-se Sílvio Romero.
Há vinte dias, encontrei-me com ele e ouvi dos seus lábios grossos e arroxeados, apesar de arianos, a confirmação de que não fizera a conferência por ainda
estar doente.
– Você é um miserável, um traste, um vilão muito ordinário, um pedante
com fumaças de filósofo, um “chichisbéu” da literatura, um belchior da jurisprudência, um macaco de Tobias Barreto e um Satanás do materialismo, que
se ajoelhou diante do catolicismo triunfante no Colégio Pedro II.
Chamou-me ignorante, porque não tenho o hábito de andar citando autores alemães. O que hei de discutir com o Sr. Sílvio ex-Vasconcelos da Silveira?
Este é o juízo que faço a seu respeito, oh! lazarento. Está respondido.”
52 anos de uma vida
Patrocínio viveu apenas 52 anos. Atravessou toda a segunda metade do século XIX, porque, tendo nascido em 1853 – portanto, há um século e meio –
morreu em 1905, sendo contemporâneo da sucessão dos vários gabinetes parlamentaristas, naquela gangorra que movimentou a maior parte do Segundo
Reinado de Pedro II: os gabinetes conservadores chefiados pelo Visconde do
Rio Branco, pelo Marquês de Olinda e pelo Duque de Caxias, sucedidos pelos
gabinetes liberais de Sinimbu, Saraiva, Lafaiete, Martinho Campos, Paranaguá, Sousa Dantas e novamente Saraiva, que devolveram o poder aos conservadores Cotegipe e João Alfredo, culminando com o gabinete liberal de Ouro
Preto, já nos estertores da monarquia parlamentarista e no advento do presidencialismo republicano.
143
M urilo Melo Fi lho
Quando começou o novo século, em 1901, Patrocínio tinha apenas 47
anos de idade. Mas, já estava velho e cansado. Suas colaborações para a Gazeta
do Rio eram cada vez mais raras e esparsas.
Ele já se transformara também num boêmio notívago, amante das madrugadas e aproveitador de sua imensa popularidade junto às mulheres, sobretudo as
charmosas francesas de então.
Enquanto Santos Dumont tem êxito em Paris com o seu “14-Bis”, o barracão de Patrocínio, no qual estava sendo construído o seu avião, aqui no Rio, é
destroçado por violenta tempestade. O projeto do seu invento era reduzido
pelo temporal a uma sucata de ferros retorcidos.
Sua situação financeira é cada vez mais grave. E mais difícil. Vende sua casa
na Rua Riachuelo, faz empréstimos, torna-se novamente um escravo, desta
vez, dos agiotas.
Vai morar numa humilde casinha no Engenho de Dentro e volta a escrever,
já então usando novo pseudônimo, que não era mais o Proudhome, o Zeca
Pato, o Notus Ferrão, o Pax Vobis ou o Pombo Correio, mas sim Justino
Monteiro, uma combinação do nome do seu padrasto João Carlos Monteiro
com o de sua mãe Justina Maria. E escreveu: “Cheguei a ser um conviva da genialidade e um íntimo da realeza. Fiz-me à custa de muita luta e de muita persistência. Mas, não merecia o fim que estou tendo.”
O jornal O Estado de S. Paulo faz uma campanha de donativos em seu favor,
que José do Patrocínio Filho repele com uma carta altiva, dizendo que seu pai
não estava precisando de esmolas.
Com o assunto nos jornais, o quitandeiro suspendeu o fornecimento de frutas e o farmacêutico já não mais lhe fiava os remédios.
A saúde de mal a pior
Seu estado de saúde vai de mal a pior. Uma tuberculose, que há mais de um
ano e meio se instalara em seus pulmões, agrava-se por uma vida desregrada e
extravagante e o torna fraco, magro e anêmico.
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Minhas Senhoras e meus Senhores.
Não quiseram os desígnios da vida que Patrocínio tivesse uma origem feliz.
Ele foi extraído de uma barriga humilde e escrava, dando-lhe à pele uma cor escura, cercando-lhe a infância de todas as desgraças, com a privação da paternidade legítima e os sofrimentos do seu povo escravizado.
Quiseram que no seu sangue e nos seus nervos se acumulassem as revoltas
da gente martirizada, contra a maldade dos opressores, toda a longa e trágica
odisséia do sacrifício africano.
O Acadêmico Olavo Bilac escreveu:
“A raça negra viu aparecer o profeta esperado, dentro de um furacão de trovões
e de flores, acendendo cóleras, cicatrizando feridas, despedaçando grilhões, fulminando orgulhos e ateando a fogueira em que o Brasil haveria de purificar-se.
Ao chegar a hora da erupção daquela cólera vingadora, os brasileiros estremeceram, abalados e tomados de uma comoção entontecida. Nunca houvera,
até então, no Brasil, uma voz que soasse tão alto e que ferisse tão fundo.”
Incontida força da emoção
Senhores Acadêmicos.
Informa o Osvaldo Orico que, a Patrocínio, “pouco importavam amizades,
estimas, conselhos e advertências. Na hora do combate, ele se transformava
numa visão animalesca do combatente. E só retornava a si mesmo, quando trazia, da arena áspera e crua, o troféu da vitória preso nos dentes”.
De acordo com Raymundo Magalhães Jr., Patrocínio “era uma incontida
força emotiva, singularizando um destino. Cessada a luta, voltava a ser o homem bom e hospitaleiro, simples e cordial, em cujo espírito brincavam a doçura de uma criança e a indulgência de uma etnia afetiva. Seus braços levantavam-se em protestos e em agradecimentos. Numa das mãos, um raio. Na outra
mão, uma rosa.”
145
M urilo Melo Fi lho
Dele disse o nosso confrade Joaquim Nabuco: “Ele foi a alma da Abolição,
uma alma democrática, aliada a uma outra alma dinástica, que foi a Princesa
Isabel.”
Filinto de Almeida, o grande amigo lusitano, consagrou Patrocínio em belos alexandrinos, como esta quintilha:
Ó luz sonora, luz articulada e viva,
Que pelos tempos vens clamando e iluminando.
Luz espiritual que da alma se deriva.
Verbo, libertador de uma raça cativa.
Mesmo depois de morto, tu continuarás vibrando.
Senhor Presidente.
Senhores Acadêmicos. Senhoras Acadêmicas,
Senhores Acadêmicos de Campos. Meus Amigos.
Concluindo, devo dizer que corria o dia 30 de janeiro de 1905, um domingo de sol vibrante e de verão senegalesco.
Patrocínio, que tinha pouco mais de meio século de idade, estava escrevendo para A Notícia, a mão, em cinco tiras, um artigo sobre a organização de uma
Sociedade Protetora dos Animais. E dizia: “Tenho pelos animais um respeito
egípcio. Penso que eles têm alma e que sofrem conscientemente as revoltas
contra a injustiça humana, porque...” Aí, interrompeu a escrita e não terminou
a frase. Levantou-se e correu para o banheiro, já engolfado no sangue da sua última hemoptise.
O médico legista atestou-lhe a causa mortis: uma ruptura no aneurisma da
aorta.
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Patro c í ni o : Um j o rna l i s ta n a A bo l i ç ã o
Do enterro ao despejo
Seu enterro foi custeado pelo governo, que pagou funerais solenes, coches
de gala, cavalos cobertos de luto, marchas fúnebres, embalsamamento do corpo e crepe nos lampiões.
Oito dias depois – segundo me informou há pouco tempo o Acadêmico
Carlos Heitor Cony – sua família tinha de desocupar a casa em que ele morrera, escorraçada por um mandato de despejo.
Patrocínio morreu como vivera, batendo-se por uma Sociedade Protetora e
defendendo os fracos, num último apelo em favor dos animais.
Ele não se arrependia do bem que fizera e transformou em piedade o próprio sofrimento, para se compadecer da sorte de todas as criaturas que sofrem.
Nasceu padecendo, mas morreu amando, perdoando e sorrindo.
Assim, morria o campeão de duas grandes bandeiras: a da Abolição e a da
República. Morria, talvez, um dos maiores oradores brasileiros de todos os
tempos.
Morria um plantador da Liberdade, um defensor do Direito, um apóstolo
da Lei, um advogado das causas populares, um jornalista de batalhas memoráveis, um líder contra a ditadura de Floriano, um inimigo das oligarquias e dos
senhores de engenho, um liberal dos direitos sociais, um paladino dos negros e
dos escravos, o redentor de uma raça, um entusiasta de temas heróicos, uma
bravura de procedimento, um ribombar de protestos, um poço de eloqüência e
de talento.
Morria o sonhador de um Brasil forte, próspero, industrialmente rico e socialmente justo.
Morria um inesquecível brasileiro, chamado simplesmente: JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO.
147
Inglês de Sousa (1853-1918)
Acervo o Arquivo da ABL
O ficcionista Inglês
de Sousa
Osc ar D ia s C o r r ê a
A
vida de Herculano Marcos Inglês de Sousa é marcada por
duas fases distintas: na primeira, o ficcionista, o primeiro
naturalista brasileiro, publicando seus livros no período que começa
em 1876, estudante de Direito em São Paulo, com O cacaulista e se
encerra com os Contos amazônicos, em 1892; e o segundo, o jurista dos
estudos de Direito Comercial, em 1897, com Os Títulos ao Portador,
no Rio de Janeiro.
Barbosa Lima Sobrinho, a quem citei no meu discurso de posse
nesta Academia, lembrando Renan disse, em prefácio ao discurso de
Rodrigo Octavio Filho, no centenário de Inglês de Sousa:
Conferência
proferida na
ABL, a 29 de
abril de 2003,
durante o ciclo
Fundadores da
ABL.
Renan falava da má vontade com que se considerava a manifestação de mestria em domínios opostos, e poderíamos estender o
seu conceito a domínios apenas diferentes. A crítica, ou o aplauso
público, não parece favorecer os regimes poligâmicos, em matéria
de atividade intelectual. Prefere, ou parece preferir, a disciplina e
149
O sca r Di as C o rrêa
a rigidez da monogamia, o gênero único, a atividade uniforme, que valoriza
e prestigia o conjunto da obra realizada.
Aconteceu isso com Inglês de Sousa, grande ficcionista, de quem se esqueceram os romances, ignorados hoje do grande público, e o grande jurista, que
acabou por predominar, talvez, digo eu, porque os juristas sejam menos desunidos e menos senhores de sua glória do que os ficcionistas.
Olívio Montenegro comenta:
Com Inglês de Sousa verifica-se um caso que não é comum na história
dos literatos brasileiros – foi literato, jurista e homem de Estado, ao mesmo tempo, tendo exercido o governo das províncias do Espírito Santo e
do Sergipe. E ainda hoje o seu nome é mais conhecido como jurista do
que como autor de ficção. Talvez porque a ficção no Brasil nunca fosse levada tão a sério como as letras jurídicas. Até pelo contrário: no homem
político do Brasil o gosto pela ficção literária sempre foi olhado com as
maiores reservas, quase depreciado, como uma falta de compostura, uma
espécie de boemia do espírito que não se casasse bem com a circunspecção
e a dignidade das altas funções administrativas.1
Prefiro não aquilatar da justeza da afirmação, mas o certo é que Inglês de
Sousa não teve o reconhecimento que sua obra merecia.
Nesta oportunidade e nesta Academia, não nos ocuparemos, senão de passagem, com o grande jurista, que inovou com seus estudos em Os Títulos ao Portador no Direito Brasileiro. A obra, que se inicia com alentada Introdução, “síntese
histórica” da matéria, desde os hebreus até o século XVII, tem configuração
de obra moderna e, mais, pela fluência e exatidão da linguagem, excede o comum dos livros jurídicos.
A exposição é viva e atual, e vêem-se alusões a temas modernos, ressaltando
aspectos econômicos (Seção 1a), como os problemas do crédito e da poupan1
O romance brasileiro, J. Olympio, 2a ed., pp. 99-100.
150
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
ça, expressamente referidos (item 60) e todos os mais que o aprofundamento
do tema exigia, demonstrando, demais disso, amplo e apurado conhecimento
da bibliografia alienígena então existente.
Do grande jurista, disse Rodrigo Octavio, depois de apresentar-lhe o filho:
“Este é um padrão de sabedoria e austeridade.” E o biógrafo assim remata:
Eu bem conheci o Mestre Inglês de Sousa. A aparência fria, reservada,
distante e severa, que, aliada ao seu grande saber e autoridade, a todos infundia respeito, vinha, dir-se-ia, de uma possível e remota ascendência britânica, que o nome de família – Inglês – faria presumir. Entretanto, um melhor
conhecimento de suas origens revela que a família – Inglês – é portuguesa,
argárvia (sic) de quatro costados e já conhecida nas Espanhas muito antes do
descobrimento do Brasil.2
Do grande advogado disse Xavier Marques, que lhe sucedeu nesta Casa:
Advogado durante cerca de quarenta anos, Inglês de Sousa não conheceu a estreiteza e secura da inteligência profissional. [...] A advocacia não
foi para ele o ato quase maquinal que se passa entre a banca e o foro, entre
a clientela e o mundo judiciário; [...] Ela não o privou do convívio nobilitante dos belos ideais; tampouco lhe afrouxou a austeridade ou diminuiu
a tensão aos escrúpulos com que discernia as causas propostas ao seu patrocínio. O causídico admirado pelo talento e a proficiência, ainda mais
porventura se impunha pela ética irrepreensível. Da advocacia, tão largamente exercida, desde o consultório em Santos até o Rio, onde se estabeleceu com a fundação da República, havia ele de tirar elementos para uma
alta reputação, que veio a culminar, por saber, moralidade e consciência,
na fama do jurisconsulto.3
2
Rodrigo Octavio Filho, Inglês de Sousa – 1o centenário de seu nascimento. Rio de Janeiro, Editora
Companhia Brasileira de Artes Gráficas, p. 11.
3
Discursos Acadêmicos, v. 5, pp. 98-99.
151
O sca r Di as C o rrêa
A publicação de Os Títulos ao Portador assegura-lhe projeção nacional e o torna jurisconsulto de fama e prestígio, sendo indicado para Diretor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais e Presidente do Instituto da Ordem dos
Advogados Brasileiros, qualidade na qual presidiu o Primeiro Congresso Jurídico Nacional.
Convidado, mais de uma vez, para o Supremo Tribunal, não aceitou a indicação, “por motivos de ordem pessoal”. E “convidado pelo Ministro Rivadávia Correia para organizar o novo Código Comercial, apresenta-o, dentro de
11 meses, com notáveis emendas aditivas, que o transformam em Código uno
de Direito Privado, de que era convicto partidário. Realiza Inglês de Sousa a
primeira codificação integral de todo o direito privado”.4
Isto, podemos dizer agora, com o novo Código Civil, em vigor a partir de
1/1/2003, que, em parte, a realiza, efetivamente.
Representou o Brasil no Congresso Pan-Americano, em maio de 1916, com
Pandiá Calógeras, e depois presidiu o Conselho Diretor da Caixa Econômica.
Depois de exercer o jornalismo em São Paulo, sobretudo em Santos, onde morava o pai, Dr. Marcos, Juiz de Direito da Comarca, o Conselheiro Saraiva nomeou-o, aos 27 anos, Presidente de Sergipe. Rodrigo Octavio Filho narra episódio
das eleições quando um chefe político do interior, Coronel Fraga, lhe diz:
“– Vim buscar a força.
– Que força? – perguntou Inglês de Sousa.
– A força militar; é preciso mostrar aos eleitores que estamos de cima. Agora o prestígio é nosso. É ou não é?
Inglês de Sousa, muito mais moço do que o Coronel Fraga, achando graça
no pedido, manifestou-lhe o seu respeito, e disse, incisivo:
– Não dou força nenhuma. As instruções do Presidente do Conselho
são claras. Nada de força, nada de violência. As eleições devem ser as mais
honestas...
4
Ob. cit., p. 28.
152
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
O coronel ficou bestificado. Podia esperar tudo, menos aquela resposta.
Mas não desistiu e disse:
– Está bem, Presidente. Se o senhor não me pode dar força, eu quero, ao
menos, um clarim.
Diante do espanto do Presidente, o Coronel Fraga acrescentou:
– Eu não quero um homem que toque clarim, não senhor. Eu quero somente o clarim, o instrumento...
Inglês de Sousa ordenou fosse entregue um clarim ao desapontado coronel,
que mandou ensinar os principais toque militares ao pajem que o acompanhava. E quando este se manifestou perito em clarinadas, o coronel retornou viagem para a sua cidadezinha natal, onde precisava impor, definitivamente, o seu
prestígio político. Calculou as coisas para chegar às portas da cidade antes do
dia amanhecer. E mandou que o improvisado corneteiro soprasse a plenos pulmões o clarim da vitória... A população acordou espantada com aquela intervenção militar. O coronel escondeu o clarim numa moita, entrou em sua cidade e foi dizendo a todos, amigos e inimigos políticos:
– A força aí está cercando a cidade. Vocês não ouviram os toques de clarim?
Pois é: o prestígio agora é nosso. E havemos de realizar a mais honesta das eleições...
Parece, conclui Rodrigo Octavio Filho, que a terra do Coronel Fraga foi a
única, de Sergipe, que não deu, naquela eleição, um único voto a candidato
oposicionista...”5
Tendo-se demitido da Presidência de Sergipe, foi nomeado Presidente do
Espírito Santo; e, eleito novamente deputado provincial por São Paulo, profere seu parecer, “obra monumental”, sobre o Código Comercial; volta a Santos
“e entrega-se de corpo e alma à advocacia”. Em 1891, publica, em Santos, O
missionário, na tipografia do Diário de Santos, “de que era proprietário”.6
5
6
Ob. cit., pp. 25-26.
Ob. cit., p. 26.
153
O sca r Di as C o rrêa
A passeio no Rio de Janeiro, é convidado pelo Marechal Deodoro para governador do Amazonas. E Silva Jardim e Aníbal Falcão o indicam para governador de Pernambuco, recusando Inglês de Sousa ambas as indicações.
Volta para São Paulo; morrendo-lhe uma filha de seis anos, tem a saúde
abalada e, a conselho médico, muda-se para o Rio de Janeiro, em julho de
1892. Aqui exerce ativamente a cátedra e a advocacia, e, em 1893, publica os
Contos amazônicos.
Mas, nesta Academia, dedicar-nos-emos ao ficcionista, dos mais poderosos
de nossa literatura, ainda que, pela ausência de seus livros nas estantes das livrarias e bibliotecas, tudo ajudado pela grande, irremediável e trágica desmemória nacional, seja um desconhecido, nem mesmo ilustre... se lhe não guardam o nome e as obras.
Nascido em 28 de dezembro de 1853, faz 150 anos, em Óbidos, Pará, era
filho do Desembargador Marcos Rodrigues de Sousa (que, quando juiz no
Amazonas, hospedou Agassiz, em viagem ao Brasil, na sua passagem por Parintins; terminou a carreira como desembargador da Relação de São Paulo) e
de D. Henriqueta Inglês de Sousa, de nobre ascendência algarvia, como assinala Rodrigo Octavio Filho.
A ascendência paterna, não menos ilustre, inclui, no século XVIII, Pedro e Maria Dolzani, do norte da Itália, que se dedicaram, em Óbidos, à criação de gado.
Sua filha, Carlota Dolzani, casou com Silvestre José Rodrigues Sousa, de sangue
português, envolvido com sua fazenda e a política local (e que aparece como Capitão Silvestre no conto “O Donativo do Capitão Silvestre”, dos Contos amazônicos),
que são os pais de Marcos, e avós de Inglês de Sousa, o que explica que seus livros
tenham sido publicados com o pseudônimo de “Luiz Dolzani”, estudante ainda
na Faculdade de Direito de São Paulo, quando surgiu O cacaulista, em 1876.
De Óbidos, onde passou os primeiros anos da infância, Inglês de Sousa foi
para o Maranhão, matriculando-se no Instituto de Humanidades, diz Rodrigo
Octavio Filho (a quem estamos seguindo na lembrança de seus dados biográficos), onde sentiu o primeiro contato com a literatura, quando um colega lhe
leu algumas passagens do Dom Quixote. “Foi realmente esse o seu primeiro con-
154
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
tato com a literatura de ficção. Ficou fascinado.” A propósito, convém lembrar, Taunay cuidou ver no O missionário de Inglês de Sousa, senão reminiscência, alguma afinidade com a maior de todas as novelas. “O Dom Quixote foi para
Inglês de Sousa o livro revelação.”7 E a nós nos parece que o estilo de O coronel
Sangrado lembra o “ingenioso hidalgo de la Mancha”.
Em 1867 veio para o Rio de Janeiro, e matriculou-se no Colégio Perseverança, começando aí sua inclinação pelas letras. Adoecendo, convalesce na casa
do Conselheiro José Vicente Jorge, Diretor Geral da Secretaria do Império.
“Leu então e de um trago, sofregamente, muito de Shakespeare, Hugo e Herculano. [...] Em 1870 viajou para Recife, onde completou os preparatórios e
matriculou-se na Faculdade de Direito.” Aí viveu “intensíssima vida intelectual, vastas leituras, freqüência aos teatros, longas conversas e intermináveis
discussões sobre religião, filosofia, exegese, história, sociologia e literatura. O
romantismo dos seus 18 anos não teria forças para resistir ao choque das novas
idéias”. Já no segundo ano de Direito, “combatendo as pieguices de A moreninha, de Macedo, e o indianismo de Alencar”, escreveu o primeiro romance, O
cacaulista, nos moldes do alsaciano Erckmann-Chartrian (1872). Seguiramse-lhe a História de um pescador e O coronel Sangrado, escritos em São Paulo, em cuja
Faculdade cursou o quinto ano de Direito e se formou em 1876.
No ano seguinte casou-se com D. Carlota Emília Peixoto, sobrinha-bisneta
de José Bonifácio, dedicada companheira de toda a vida.
Diplomado em Direito, em 1876, nesse mesmo ano publica História de um
pescador e O coronel Sangrado; em 1891, O missionário (escrito em 1888); e, em
1892, Contos amazônicos.
Esses livros firmaram-lhe a reputação literária, à época, e com eles conquistou lugar nos meios intelectuais do Rio de Janeiro. Aqui chegando, em 15 de
novembro de 1896 comparece à primeira sessão da Academia Brasileira de Letras, na redação da Revista Brasileira, e em 1897 participa da fundação da ABL,
“de cujos Estatutos foi o principal Redator”.8
7
8
Rodrigo Octavio Filho, ob. cit., p. 20.
Josué Montello, O presidente Machado de Assis, p. 34.
155
O sca r Di as C o rrêa
O mais interessante e estranho é que, a partir daí, sua obra é toda jurídica:
em 1898, Títulos ao Portador; em 1903, Projeto de Código Comercial e Projeto de Direito
Privado; talvez porque, abrindo banca de advogado, lecionando Direito Comercial e Marítimo, e presidindo o Instituto dos Advogados Brasileiros, a vida
lhe impunha dedicação a esses temas, aos quais se entregou, até vir a falecer, em
6 de setembro de 1918.
Não foi, pois, sem razão que Inglês de Sousa entrou para a ABL: era ele, à
época, reconhecida expressão da ficção brasileira, e sua obra, ainda hoje, embora
esquecida, o recomenda como uma das figuras mais admiráveis do romance brasileiro. E que se elegeu Tesoureiro da Academia, ao lado do Presidente Machado
de Assis. A impressão causada pela riqueza dos seus romances amazônicos se espelha na afirmação de Josué Montello, de que de “suas obras O coronel Sangrado,
embora correspondendo a uma narração completa, entrosa-se com O cacaulista,
de que constitui desdobramento. História de um pescador, conforme indicação de
seu prefácio, articular-se-ia a outros romances da série Cenas da Vida do Amazonas, sem prejuízo de sua ação distinta”.9 O curioso, continua Josué, é que,
“apesar de terem como cenário a Amazônia, esses romances fixam mais o homem que a selva, como se esta, com a sua opulência, não interessasse ao romancista, que desejava apenas surpreender e apreender o elemento humano, nas suas
lutas e nas suas fraquezas, nos seus caracteres e nas suas determinações”.10
Aí está, a meu ver, a grande virtude, sobretudo de O coronel Sangrado, que,
com Montello e Lúcia Miguel-Pereira, considero a obra fundamental da ficção de Inglês de Sousa: a intensa vida das figuras do romance prepondera sobre
a força da natureza.
Mas a preparação dele está em O cacaulista, escrito em Recife (é datado de
Recife, 24/06/1875) e publicado em Santos, em 1876. Volume de estréia,
experimenta a pena na fixação da trama do romance, no desenho da paisagem e
no debuxo das personagens. O próprio autor, Luiz Dolzani, pseudônimo que
adota, em 23/12/76 apresentando a obra, diz que “o romance que se vai ler
9
Ob. cit., p. 74.
Idem, p. 74.
10
156
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
foi escrito em 1875, na cidade do Recife, quando o autor cursava o quarto ano
da Faculdade de Direito”. E completa: “Fazendo parte da coleção – Cenas da
Vida do Amazonas – não é completo, como verá o leitor, e os episódios que
nele se narram hão de ter o seu complemento no Coronel Sangrado, romance
que brevemente sairá à luz.”
O Amazonas é o cenário, sobretudo as plantações de cacau, onde se desenvolve a história e onde se movem as figuras que criou. Já se pressente a força da
introspecção do romancista e o seu poder descritivo e narrativo.
Dedica-o ao pai, Marcos Antônio de Sousa, “Cavaleiro da Ordem de Cristo, Juiz de Direito da Comarca de Santos (Ao primeiro amigo a primeira
obra)”. Conta a história das lutas dos cacaulistas, em especial da Fazenda S.
Miguel, propriedade de D. Ana, viúva do português João Faria e, sobretudo,
mãe de Miguel de Faria, filho do casal, centro do romance.
Em torno dele se tece o enredo, que serve ao autor para os cenários da vida
amazônica, as terras do cacau, e envolve a disputa da fazenda de João Faria,
onde mora a viúva Ana, mãe de Miguel, e sobre as quais avança o Tenente Ribeiro, padrinho de Ritinha, amiga de infância de Miguel.
A duplicidade da situação deste, tendendo para Ritinha e detestando o Tenente; a esperteza deste, valendo-se dessa duplicidade, enriquecem a história e permitem a Inglês de Sousa pintar a vida da região, ao mesmo tempo em que lhe possibilita como que a introdução à cena política de O coronel Sangrado. Esse cenário lhe serve ao largo uso de suas virtudes literárias e à urdidura da trama romanesca.
Segue-se-lhe O coronel Sangrado. É lê-lo, ainda hoje, e gozar-lhe a malícia do
jogo político, que descreve com ironia e sarcasmo, movendo as personagens
com argúcia e finura, com tal realismo que se pode sentir a presença palpitante
delas nas cenas do livro.
Romance de costumes políticos, nada fica a dever aos que vieram depois
dele; pelo contrário, nos personagens mistura a esperteza e o sarcasmo, conjuga a ignorância e a arrogância, a graça e a matreirice, a timidez e a pureza, e
consegue, no meio da disputa política, insinuar a paixão amorosa agressiva e
dominadora. Espanta, a quem viveu a comédia política, a história da luta entre
157
O sca r Di as C o rrêa
conservadores e liberais por volta de 1870, como Inglês de Sousa pôde retratá-la no Amazonas, com as mesmas tintas com que se pintariam no Sudeste. E,
mais ainda, a riqueza da vida subjetiva dos personagens, figuras brasileiras de
todas as regiões: o Coronel Sangrado, chefe ignorante e arrogante, julgando-se
superior a todos, “dono do pedaço” (como se diz hoje), Napoleão, que pretendia não ter Waterloo; o Capitão Matias, o boticário Anselmo, o escrivão
Ferreira e toda uma paisagem humana conhecida e atuante.
A filha do Coronel Sangrado, a “feiarrona” Mariquinhas, alvoroçada com o
retorno de Miguel de Faria, escorraçado pelo chefe liberal, Tenente Ribeiro; o
reencontro de Miguel com Rita, filha ou afilhada de Ribeiro, a “cunhantã” da
meninice de Miguel, e já então mulher do Alferes Pedro Moreira Bentes; e
sobretudo o Capitão Antônio Batista, suplente de juiz municipal, de grande
influência no partido conservador da localidade, todos concorrem para a inestimável importância do desenrolar da história.
A partir desses personagens desenvolve-se o romance, que inclui todas as artimanhas, malícias, petas, traições que a luta política local pode oferecer: onde
os ódios são mais enraizados, e o vizinho é amigo ou inimigo do vizinho, e
tudo faz por ele ou contra ele.
Inglês de Sousa tece o romance com estilo vivo, fluente, veste-o de verve e
ironia, aflorando os sentimentos mais nobres e as atitudes mais chãs, ingredientes da autêntica farsa eleitoral daquela época.
Dele diz Bella Jozef, na excelente “Apresentação” que escreveu para o volume 72 da coleção Novos Clássicos:
Seu estilo é, na maioria das vezes, escorreito e sóbrio, compraz-se na escolha do termo justo e do vocábulo preciso, o que lhe dá encanto e espontaneidade. [...] É uma linguagem coloquial, procurando cingir-se ao vocabulário
vivo da região. Freqüentemente recorre ao estilo indireto livre no diálogo e
monólogo mental como meio favorito de fazer ouvir, falar e pensar seus
personagens.11
11
Agir, 1963, p. 12.
158
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
E assinala que Aurélio Buarque de Holanda, lembrando Eça de Queirós,
afirmou ter Inglês de Sousa “o mesmo ritmo sereno e ondulante, o mesmo espraiamento das palavras com breve estação nos incidentes para terminar com
dois adjetivos de sentido e efeito sônico bem contrastante, a aliança do trivial e
do raro, o jogo dos elementos díspares”.
Josué Montello, no estudo que dedica a “A ficção naturalista”, em A história
da literatura no Brasil, coordenada por Afrânio Coutinho, discorda em parte,
quando assinala:
Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Júlio Ribeiro e Adolfo Caminha, as
quatro figuras representativas do Naturalismo brasileiro, inclinaram-se pela
cópia da realidade, com um ou outro traço de tinta violenta e crua. Aos quatro faltou a ironia corrosiva com que Eça, na pintura da sociedade portuguesa, atendeu a seus propósitos de demolição. Em compensação, souberam
dispor da observação meticulosa, por vezes apaixonada, que, se não serviu a
atrair a atenção para a reforma do mundo burguês, pelo menos fixou indelevelmente alguns instantes brasileiros, com aquela fidelidade nítida que faz
do romance o espelho do tempo e da vida.12
Se a apreciação, a nosso ver, colhe quanto a O missionário, em O coronel Sangrado há passagens do melhor de Eça, no tom e no estilo.
No Inquérito promovido por João do Rio no Momento Literário, “Inglês de
Sousa afirmou que os autores que mais contribuíram para a sua formação literária foram Erckmann-Chartrian, Balzac, Dickens, Flaubert e Daudet”. E João
do Rio acrescenta: “Nessa relação não figuram, assim, Émile Zola, que parece
ter-lhe inspirado o argumento de O missionário, e Eça de Queirós, que o impressionou com o ritmo de seu estilo”. E Josué pergunta: “Por que ErckmannChartrian?” Ele mesmo responde:
12
Ob. cit., p. 68.
159
O sca r Di as C o rrêa
Hábeis fixadores de tipos e costumes alsacianos, Erckmann-Chartrian
deixaram obra copiosa no conto, no romance e no teatro. Antes que Zola
empolgasse o público parisiense, eram eles que dominavam esse público,
com o Realismo comedido de suas narrativas singelas. Seu mérito derivava
da fidelidade com que transplantavam da vida real para o papel literário as
paisagens e as figuras da Alsácia.13
Mas, o romance tido como marco na obra de Inglês de Sousa é O missionário,
que lhe assegura o lugar na coorte dos nossos primeiros naturalistas, como lhe
chama Peregrino Júnior, “literatura de índole regionalista na Amazônia”: “Na
primeira fase, de Inglês de Sousa e José Veríssimo – a dos homens da terra –
mais fidelidade ao real, mais autenticidade, um comovido amor à gente e aos
seus costumes.”14
Explica-se: como não haveriam Inglês de Sousa e José Veríssimo, por coincidência, ambos de Óbidos, de espelhar o sentimento nativo? O Missionário parece a Peregrino Júnior “romance denso e forte, mas prolixo, monótono, enfadonho, sem grande vivacidade. Contudo, um documento exato e minucioso da
vida amazônica”. Considera que “sem dúvida, mais palpitantes e concisos, são
os seus Contos da Amazônia”.15
Parece que o crítico não teve à mão O cacaulista, nem O coronel Sangrado, mas
há muito de verdade no seu comentário quanto a O missionário, quando lhe exproba o excesso naturalista de pormenores, ainda que se exceda quando o considera cansativo e tedioso.
O próprio Inglês de Sousa, tempos depois, em resposta a inquérito de João
do Rio, no Momento Literário, escreveria, textualmente:
Das poucas obras que hei publicado, prefiro O missionário, ainda que a sua
fatura não corresponda ao meu modo atual de ver e sentir a natureza. O O
13
Ob. cit., p. 73.
In: Coutinho, Afrânio, A literatura no Brasil, t. III, p. 227.
15
Ibidem, p. 228.
14
160
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
missionário é espesso e palavroso; tem, pelo menos, cem páginas a mais. Todavia, ainda hoje escreveria alguns capítulos como o da viagem do Padre, o
dia do Chico Fidêncio, o enterro do Totônio Bernardino.
O que acontece é que, à época, Inglês de Sousa, depois de ter elaborado,
com êxito, o romance vivo, ligeiro, mordaz, que é O coronel Sangrado, julgou dever comprovar sua aptidão para a expressão mais densa, carregada, ao gosto
naturalista do momento, o que fez em O missionário.
Josué Montello diz que o “livro é grande e derramado”, vendo na preocupação naturalista a influência de Zola e do anticlericalismo de Eça em O crime
do Padre Amaro.
Bella Jozef, ao contrário, afirma que “não há sentimento anticlericalista n’O
Missionário, apesar da idéia fixa no romance naturalista. Neste sentido afasta-se
totalmente de Zola e outros romancistas da época. Ao contrário deles, o clérigo é ser humano e não obrigatoriamente repulsivo”. Suas intenções, envenenadas desde a origem por um sentimento anticristão, a saber, o orgulho e a presunção (conforme assinalou Sérgio Buarque de Holanda, baseado, aliás, no
próprio texto do livro) teriam de ruir em face dos imperativos da herança e do
meio. “Sua queda não decorre tanto da impossibilidade de cumprir aqueles deveres sagrados em condições adversas do meio social, como das bases fragílimas em que eles realmente assentavam, o que evidencia, a nosso ver, a religiosidade de Inglês de Sousa. Um ímpio não teria problemas de fé, como o autor. O
que faz o Padre Antônio de Morais pecar é sua pouca fé, o falso conceito de
santidade e misticismo, produto a ambição e da vaidade.”16
Na verdade, pode dizer-se que haverá n’O Missionário a inspiração de Cervantes para as figuras do Padre Antônio de Morais e de Macário, o sacristão,
que lembram o Quixote e Sancho. Padre Antônio, cavaleiro da fé, que a pretende ver implantada na terra dos Mundurucus, à margem do Canumã, e idealiza a conversão dos silvícolas, “conquistando fama imorredoura, que levaria
16
Bella Jozef, ob. cit., p. 17.
161
O sca r Di as C o rrêa
seu nome à remota posteridade, com os de Francisco Xavier e José de Anchieta”.17 Macário, assombrado e enfatuado pela proximidade do Padre, fica bem
no papel de fiel escudeiro, como aliás lembra José Veríssimo: “... um Sancho
Pança bem local, bem original, uma boa criação do Sr. Inglês de Sousa.”
De passagem se diga que a crítica de Veríssimo é das mais exatas, porque alia
ao conhecimento crítico a visão da vida local, também ele, como Inglês de Sousa,
nascido em Óbidos. Analisa o romance detidamente, recorda-lhe os cenários e as
personagens, para dizer: “O livro è um dos melhores, ao meu parecer, da nossa
ficção em prosa,” embora lhe assinale um defeito: “A desproporção entre o assunto e o desenvolvimento que lhe deu o autor. O drama parece-me pequeno
para tão grande cenário, o painel demasiado vasto para a pintura.”
A análise de Veríssimo parece-nos consistente, quando conclui:
Não creio que o naturalismo tenha produzido no Brasil obra superior a
esta; mas nela mesma, estou em que o reconhecerá o próprio autor, deixou
os vícios inerentes aos preconceitos das escolas. Na explicação, por exemplo, dos motivos do Padre Antônio de Moraes, há talvez demasiada minúcia, rebuscada análise, sobeja interpretação. Recorre também o romancista a
noções científicas para robustecer a sua análise psicológica da alma e dos
móveis da ação do seu protagonista, o que se me afigura um erro.18
Olívio Montenegro (ob. cit., loc. cit.) começa o estudo da obra de Inglês de
Sousa dizendo que “há livros que são como certa espécie de gente: tem um
destino caipora. Livros cheios das melhores virtudes, do ponto de vista intelectual e artístico, e não se sabe porque não se apercebem deles. Não apanham
a menor popularidade”, para concluir que O Missionário é “o romance mais organicamente vivo e completo de quantos podemos filiar à escola naturalista do
Brasil”, embora mal tratado pela crítica, o que comprova no exame percuciente
que faz, concluindo:
17
18
O missionário. Ed. Topbooks, 1998, p 133.
Estudos de literatura brasileira, vol. III. Garnier Editor, p. 31.
162
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
No livro de Inglês de Sousa o homem não sofre no meio da paisagem
que o cerca: nem a paisagem parece diminuída ao contato do homem. Ele
colocou a paisagem no seu justo plano, no plano que lhe cabe em todo o
romance que é o fundo de quadro. O plano alto e que domina o resto da
vida do homem é o da vida do padre Antônio Ribeiro de Morais, o missionário.
Mas nada como ler a obra. Ou melhor, as obras, porque não há como não
ler O cacaulista, História de um pescador, O coronel Sangrado, O missionário e os Contos
amazônicos.
Os Contos amazônicos, de 1893, reeditam o estilo mais livre de O cacaulista e O
coronel Sangrado, sem a densidade da linguagem de O missionário, nas longas digressões que o Padre Antônio, de Silves, estabelece consigo mesmo, até a região perdida dos Mundurucus.
Dedicado a Sílvio Romero, misturam fatos e abusões da região, não faltando os lances patrióticos de “Voluntário”, na guerra contra o Paraguai, e de
“Rebelde”, nas lutas da cabanagem, reaparecendo em “Feiticeira”, em personagens de O cacaulista e O coronel Sangrado, como Miguel de Faria, Padre João e o
boticário Anselmo; ou no “Acauan”, na intensidade da narrativa, que sublima
o drama da antiga Vila de S. João Batista de Faro.
O estilo toma, às vezes, o tom irreverentemente delicioso de O coronel Sangrado, quando anatematiza, no conto “Amor de Maria” a “maldita política” que,
diz ele, dividiu a população, azedou os ânimos, avivou a intriga, e tornou insuportável a vida nos lugarejos à beira do rio”, para afirmar:
Depois que o povo começou a tomar a sério esse negócio de partidos,
que os doutores do Pará e do Rio de Janeiro inventaram como meio de vida,
numa aldeola de trinta casas as famílias odeiam-se e descompõem-se; os homens mais sérios tornam-se patifes refinados e tudo vai que é de tirar a coragem e dar vontade de abalar destes ótimos climas, destas grandiosas regiões
paraenses, ao pé das quais os outros países são como miniaturas mesqui-
163
O sca r Di as C o rrêa
nhas. Sem conhecerem a força dos vocábulos, o fazendeiro Morais é liberal
e o capitão Jacinto é conservador.19
Ou refere: “Alma generosa do povo brasileiro, quão mal apreciada és pelos
eternos faladores da Câmara dos Deputados!”20 E não poupa os ingleses:
Saindo do seu mutismo tradicional, o escrivão Ferreira contava numa
roda de senhores que os ingleses não querem saber de santos, que adoram
uma cabeça de cavalo, e se divertem socando as ventas aos amigos, para lhes
aliviar com essa amistosa operação o cérebro sujeito a congestões violentas,
pelo vapor da cerveja que sobe do estômago.21
Mas, não falta a Mariquinhas,
a mais gentil rapariga de Vila Bela! Era uma donzela de dezoito anos, alta
e robusta, de tez morena, de olhos negros, meu Deus! de cabelos azulados
como asas de anum! Era impossível ver aquele narizinho, bem feito, aquela
mimosa boca, úmida e rubra, parecendo feita de polpa de melancia, as mãozinhas de princesa, os pés da Borralheira, impossível ver aquelas perfeições
todas sem ficar de queixo no chão, encantado e seduzido!...22
E vai num crescendo que só a leitura de “Amor de Maria” propicia.
Mas, não devo exceder-me mais. Quaisquer tenham sido as influências que
recebeu, sua obra merece, ainda hoje, ser lida, porque poucas existem, em nossa
literatura, com as qualidades que apresenta, e tão bem espelhando a terra e a
gente.
É interessante dizer que, por mais longínquas possam ser as origens e fontes
dos seus romances, topamos, no Sudeste, com algumas das personagens que
brotaram no cenário amazônico e que ressurgem com a nitidez das que Inglês
de Sousa nos legou.
19
Contos amazônicos, Laemmert & C. Editores,1893, pp. 59-60.
Ibidem, p., 103.
21
Ibidem, p. 104.
22
Ibidem, pp.57-58.
20
164
O fi c c i o nis ta In g l ê s de So u s a
Àquelas influências confessadas acrescentaria Cervantes, como lembrou Taunay, nas figuras do Padre Antônio de Morais e do sacristão Macário, Quixote e
Sancho, bem como no estilo fluente, mordaz, satírico de O coronel Sangrado.
Mas, prezados Confrades, são críticos literários muitos dos que aqui estão,
consagrados pela obra; eu, leitor de muitas leituras e algum proveito, lhes direi
apenas que é hora de reeditar Inglês de Sousa, para que se lhe faça justiça, dando-lhe lugar na galeria dos grandes autores brasileiros.
Repetirei o que disse Rodrigo Octavio Filho, ao final de sua conferência, há
cinqüenta anos:
A maior homenagem que se poderia prestar à sua memória seria o reeditar-lhe a obra. Esperemos que isso aconteça, para que o seu espírito de
homem de letras e jurista recupere o lugar que lhe compete em nossa vida
cultural.23
Este o nosso objetivo ao resumir, nestas notas, nossa apreciação, renovando
as homenagens que todos os brasileiros devemos a Inglês de Sousa, pela obra
literária e jurídica que nos deixou, e que a posteridade, estou certo, não se esquivará de preservar e honrar, como esta Academia Brasileira de Letras, hoje,
com ufania, faz.
23
Ibidem, p. 40.
165
Valentim Magalhães (1853-1909)
Acervo do Arquivo da ABL
O fundador
Valentim Magalhães
Alb er to Ven a nc io Fil h o
A
Academia Brasileira de Letras prossegue na série de conferências dedicadas ao centenário de falecimento dos fundadores, ampliando a iniciativa da gestão do saudoso Presidente Austregésilo de
Athayde de homenagear o centenário de nascimento dos acadêmicos.
Se examinarmos a relação dos quarenta fundadores de nossa Instituição, veremos que eram na época figuras expressivas do meio intelectual, mas o decorrer do tempo acarretou o esquecimento de alguns
deles, cuja obra não teve permanência para chegar aos nossos dias. No
ano passado ocorreu o centenário de morte de Urbano Duarte, fundador da Cadeira no 12, que passou no esquecimento, e o mesmo aconteceria com Valentim Magalhães, não fosse a feliz iniciativa do Presidente Alberto da Costa e Silva e do Secretário-Geral Ivan Junqueira.
Desses fundadores, duas exceções se apresentaram então, a confirmar a escolha, Carlos Magalhães de Azeredo, com apenas vinte e
Conferência
pronunciada na
Academia
Brasileira de
Letras, a 15 de
abril de 2003,
durante o ciclo
Fundadores da
ABL.
167
Al ber to Venanc i o Fi lho
sete anos, que mal iniciava uma dedicada carreira literária, e Graça Aranha, que
até então não escrevera nenhum livro, apenas o prefácio para a obra de Fausto
Cardoso Concepção monística do Universo, porém vivia no ambiente da Revista Brasileira e cinco anos depois despontaria com a publicação de Canaã.
O acadêmico
Antônio Valentim da Costa Magalhães foi o fundador da Cadeira no 7 e
escolheu como patrono Castro Alves. A escolha dos patronos se deu em
fase posterior, muitas delas por critério de mérito, como Machado de Assis
a José de Alencar, e outros por caráter pessoal que atendia também o critério do mérito, como o de Junqueira Freire por Franklin Dória. Outras foram de caráter regionalista, como a de Maciel Monteiro por Joaquim Nabuco, e Luís Murat escolheu por pura amizade Adelino Fontoura. É curioso que Rui Barbosa, ao invés de escolher um jurista afinado com suas atividades principais, tenha se voltado para um jornalista – Evaristo da Veiga –
e há o caso de Raul Pompéia, escolhido por dois fundadores: Domício da
Gama e Rodrigo Octavio, cabendo àquele a preferência e Rodrigo Octavio
optando por Tavares Bastos.
Valentim Magalhães escolhe um poeta, um dos maiores, Castro Alves, dando a entender que na atividade intelectual gostaria de ser considerado como
poeta.
Na fase prévia de organização da Academia, fundada por Lúcio de
Mendonça, Valentim Magalhães não consta entre os dez acadêmicos que
seriam nomeados pelo Governo, nem nos vinte a serem eleitos, e nem nos
dez restantes que seriam correspondentes. Afastada a criação da Casa
como órgão do governo, reúnem-se na sala da Revista Brasileira para a fundação, em 15 de dezembro de 1896, quinze pessoas, entre as quais Valentim Magalhães. É de supor que sua presença tenha sido por influência
de Lúcio de Mendonça, de quem era particular amigo e com quem manteve extensa correspondência.
168
O fu ndado r V a l e n ti m M a g a l h ã e s
Na segunda reunião de 23 de dezembro a que comparecem apenas onze
pessoas, está presente novamente Valentim Magalhães. E na terceira reunião
em 28, Rui Barbosa, Filinto de Almeida e Valentim Magalhães justificam a
ausência em carta, quando é aprovado o projeto de estatuto.
Na sessão de 4 de janeiro de 1897, da eleição da diretoria, não esteve presente Valentim Magalhães, nem na sessão de 18 de janeiro, mas na sessão de
28 de janeiro, em que se completa a eleição dos quarenta acadêmicos, comparece Valentim Magalhães.
Curiosamente nem Lúcio de Mendonça nem Valentim Magalhães assistem
à sessão inaugural de 20 de julho de 1897 e justificaram a ausência por carta,
alegando enfermidade. Ocorreu algum incidente que magoou o fundador, sendo acompanhado por Valentim Magalhães?
Valentim Magalhães passa a freqüentar a Casa a partir da sessão de 16 de
maio de 1898 e as sessões de 6 e 16 de junho, e nessa sessão é nomeado, junto
com Graça Aranha e Lúcio de Mendonça para compor comissão que iria estudar as propostas de sócios correspondentes. Comparece a várias sessões de
1898, 1 de julho, de 8 de agosto, 1 de outubro, 3 de outubro, eleição do Barão
do Rio Branco, 30 de outubro, e 2 de dezembro. Há um período de ausência,
incluindo a posse de Domício da Gama em 1 de julho de 1900, que se interrompe com a presença na sessão de 15 de maio de 1902, última a que comparece. E na sessão de 27 de maio de 1903 a ata declara laconicamente: “O Presidente Machado de Assis abriu a sessão e comunicou à Academia o falecimento
de Valentim Magalhães.”
Dos membros fundadores pode-se concluir que foram pessoas dedicadas à
atividade literária, e muitos deles jovens, como Valentim Magalhães que em
1897 teria trinta e sete anos, mas já apresentava uma produção literária significativa, o mesmo ocorrendo com a grande maioria dos fundadores, embora no
futuro muitos, como Valentim Magalhães, tivessem ficado na obscuridade.
Valentim Magalhães foi sucedido por Euclides da Cunha, que no discurso
de posse traçou-lhe o perfil completo e exaustivo, que guardaria parelha na sucessão da cadeira, em idênticos estudos, com os discursos de Afrânio Peixoto
169
Al ber to Venanc i o Fi lho
sobre o autor de Os sertões, e o de Afonso Pena Júnior sobre o autor de A esfinge,
ambos sem qualquer referência ao fundador.
Coube ao meu mestre e nosso saudoso confrade Hermes Lima, sucedendo a
Afonso Pena Júnior, traçar na síntese primorosa do seu estilo o retrato de nosso homenageado de hoje:
O fundador Valentim Magalhães, morto na casa dos quarenta anos, foi
tão vário e dispersivo que sua existência lembra uma torrente sem caminho.
Prógono da “Idéia Nova” que na época vagamente sintetizava o movimento renovador da cultura, das letras e das artes, dotado de talento e ardendo
na ânsia de viver, gozou de notoriedade e prestígio, produziu muito, porém
improvisou demais. Ao sabor de solicitações contraditórias, cedo por elas é
devorado como se não lhe tivesse sobrado tempo para colocar na faixa de
seu destino a quota pessoal de realismo e disciplina que seu nome e sua vocação de escritor estavam a exigir.
O sucessor Pontes de Miranda limitou-se à reduzida síntese biográfica, e a
nossa colega Dinah Silveira de Queiroz vinculou a figura do patrono Castro
Alves ao fundador:
É ele, é Castro Alves, aquele jovem tão belo com sua larga testa, seus
olhos fundos, seus cabelos fortes como se tivessem movimento, vivos na
disparada de seus poemas, de sua “Vozes d’África”, que estaria agora influindo com sua profunda vocação todos os que se abrigaram à cadeira
número sete desta Academia como patrono. E por um desses prodígios da
bênção de padrinho imprimiria a nós, seus pupilos, uma direção. Eis aqui
Valentim Magalhães, um dos fundadores da Academia que, em 1879, recita: “Ó luz, Ó liberdade! Não estás longe, não! Vens perto da verdade.
Pois que o trabalhador começa a meditar!” O espírito revolucionário que
poderia defluir também do sentido da obra de Castro Alves, acrescenta
Valentim certa maneira satírica para estudar os escritores que lhe foram
170
O fu ndado r V a l e n ti m M a g a l h ã e s
contemporâneos e... “Entre nós, quando um poeta e um prosador, ao cabo
de haver-se arruinado a editar-se a si próprio, e de haver obrigado bom
número de cidadãos incautos a ficar com as suas obras... de graça e de estar
farto de se ouvir chamar célebre pelas gazetas – julga-se em caminho da
notoriedade, para fora do reposteiro negro da obscuridade, passa um dia,
inesperadamente, pelo amargo desengano, pela decepção de ouvir perguntar-lhe um dos seus colegas de repartição ou um dos seus habituais companheiros do café, do bonde ou da charutaria: – Como? Pois também você
é literato? Não sabia. Aquele ‘também’ é característico e, como sintoma,
vale bem um império.
E o nosso confrade e amigo Sergio Corrêa da Costa, atual ocupante da cadeira, vinculou-o aos objetivos da Academia:
O fundador da cadeira – Valentim Magalhães – revelou sempre intensa
preocupação com o Brasil e sua cultura, seja na liderança intelectual que
exerceu, seja na continuada prática do jornalismo, em que fixou temas e aspectos da nossa realidade social e política, até então escassamente apreciados. Seu empenho junto aos demais fundadores desta Academia, no sentido
de dar à Instituição um cunho nacional, eminentemente representativo das
tendências e características de todas as regiões do País, confirma esse traço
marcante que procuro assinalar.
O início
Valentim Magalhães era filho legítimo de Antônio Valentim da Costa
Magalhães e de D. Maria Custódia Alves Meira, aquele de nacionalidade
portuguesa e esta carioca e filha de negociantes abastados do Rio de Janeiro.
Nasceu nesta capital, a 16 de janeiro de 1859, na antiga Rua Conde d’Eu,
hoje Frei Caneca, 58, num domingo, e alguns meses depois era batizado na
Igreja de Santo Antônio dos Pobres, e recebeu o nome de Antônio.
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Al ber to Venanc i o Fi lho
Tinha um ano de idade apenas quando se viu órfão de mãe, mas não lhe faltaram os cuidados do pai, por ele criado e educado; e com seus tios Dr. João
Alves Meira e D. Maria Quitéria Alves Meira aprendeu as primeiras letras.
Depois de cursar por algum tempo as aulas do Colégio Fábio Reis, fez os
seus estudos preparatórios no antigo internato de São Francisco de Paula, sito
no Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), no mesmo edifício onde funcionou mais tarde o Clube Naval.
No livro Alma há uma página evocativa da figura bondosa do Cônego Belmonte, velho diretor do Colégio, recordando com saudades aqueles primeiros
tempos. Os jornais tinham noticiado o falecimento do mestre, e isto despertou
na alma do antigo discípulo uma recordação da infância.
Valentim Magalhães manifestou desde cedo pendor para as letras e já aos
treze anos colaborava em alguns jornais de província.
Em 1876, com dezessete anos, seguiu para São Paulo e no ano seguinte
matricula-se na Faculdade de Direito. Rui Barbosa, chegando a São Paulo
para concluir o curso de Direito, escreveu a um parente na Bahia: “Estou engolfado na vida acadêmica.” A vida acadêmica não era a freqüência às aulas e
o estudo dos manuais, mas sobretudo a participação nos clubes literários,
nos jornais estudantis, nos grêmios abolicionistas e republicanos, nas lojas
maçônicas. Foi essa vida acadêmica que Valentim Magalhães encontrou ao
fixar-se em São Paulo.
Logo no primeiro ano foi eleito redator do Labarum, com Eduardo Prado,
e colaborou na República, órgão do Club Republicano Acadêmico, a que se
havia filiado. Nessa última folha, dirigido então por Lúcio de Mendonça e
Manhães de Campos, publicou Valentim os seus primeiros folhetins chistosos e críticos.
Nesse mesmo ano, além de um poemeto elegíaco sobre o general Osório,
publicou ele, em colaboração com Silva Jardim, um livro em prosa e verso, Idéias de moço, rematando com um conto fantástico “O grito na treva”, escrito a
duas penas, no gosto byroniano, à maneira da Noite na taverna de Álvares de
Azevedo.
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Os poetas mais festejados na Academia naquele tempo eram Teófilo Dias,
Afonso Celso, Assis Brasil e Valentim Magalhães; mas em 1879 a nomeada
deste último superara o estreito círculo acadêmico com a publicação dos Cantos e lutas, livro de poesias que a imprensa acolheu com aplausos. E desde então,
integrando o jornalismo, começou a escrever nos jornais de maior importância
e maior circulação de São Paulo e da capital: a Província de S. Paulo, o Correio Paulistano, a Gazeta de Notícias, a Gazeta da Tarde, o Globo.
Em 1880 colabora com a Evolução, folha republicana e federalista, dirigida
por Júlio de Castilhos e Assis Brasil, com cooperação de Pereira da Costa,
Alcides Lima, Antônio Mercado, Teófilo Dias, Homero Batista, Pedro Lessa
e outros estudantes. Tendo ido a São Paulo em março apenas para se matricular no quarto ano, permaneceu toda a época letiva fora daquela cidade. Publicou então vários contos e poesias e escreveu folhetins na Gazeta de Notícias, e esta
lhe editou o poemeto “Colombo e Nenê” para distribuição como prêmio aos
assinantes; freqüentou as rodas literárias da capital, onde o espírito e o talento
lhe fizeram adquirir inúmeros amigos e admiradores; e, gozando das larguezas
proporcionadas pela recente lei do “ensino livre”, só voltou a São Paulo em
novembro, para prestar os exames, nos quais foi plenamente aprovado, apesar
de não haver assistido às respectivas aulas.
Em 1881, Valentim Magalhães fundou em São Paulo a Comédia, de que foi
redator, primeiro com Silva Jardim, e depois com Eduardo Prado. A Comédia
era de publicação diária e durou pouco menos de três meses, de 2 de março a
23 de maio.
A turma que se formou em 1881 contou figuras expressivas: Francisco de
Paula Paiva Baracho, juiz em São Paulo; Aristides de Araújo Maia, deputado
à Constituinte Republicana; Job Marcondes de Rezende, advogado, Manoel
José Villaça e Arlindo Ernesto Ferreira Guerra, magistrados de alto conceito; Estevam Leão Bourroul, justamente cognominado o Veuillot Brasileiro; Júlio Prates de Castilhos, o político rio-grandense; Raphael Corrêa da Silva
Sobrinho e João Braz de Oliveira Arruda, lentes da Faculdade; João Passos,
que, por muitos anos, exerceu com brilho as funções de procurador-geral do
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Al ber to Venanc i o Fi lho
Estado de São Paulo; João Antônio de Oliveira César; Isaías Martins de Almeida e Leopoldo Teixeira Leite, advogados afamados; Manoel Ignácio Carvalho de Mendonça, eminente civilista, a quem se devem a Doutrina e Prática das
Obrigações, Rio e Águas Correntes e Contratos no Direito Civil Brasileiro; Theófilo Dias
de Mesquita e Eduardo Paulo da Silva Prado. Diz Euclides:
Destacara-se (Valentim) notavelmente, granjeando invejável nomeada
entre conterrâneos que se chamavam Júlio de Castilhos, Silva Jardim, Barros Cassal, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Raul Pompéia, Lúcio de Mendonça, Assis Brasil, Afonso Celso, Fontoura Xavier, Augusto de Lima,
Alcides Lima, Alberto Sales, Pedro Lessa, Luís Murat, Júlio de Mesquita,
Raimundo Correia.
Ora, Valentim foi a figura representativa no meio de tão díspares tendências, por isto mesmo que lhe faltou sempre uma diretriz à atividade dispersiva.
Spencer Vampré, falando dessa fase, diria: “Valentim Magalhães, espírito
vibrante e combatido de poeta, de jornalista, e de crítico”, e dele transcreve:
A nau da vida
Veleja a nau da Vida... De repente :
– “Mais um!” brada Saturno, e às ondas lança
O cadáver de um ano... Docemente
Desliga o barco, ao sopro da Esperança.
Canta, na tolda, a Juventude ardente;
Chora a Velhice, e invalida descansa;
E a Morte, – nuvem negra –, indiferente,
Por sobre as águas pérfidas avança.
– “Mais um!” repete o nauta apavorado;
Como um fúnebre pêndulo, oscilando
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Na dúvida, que o punge e que o tortura;
– E enquanto ao sol da vida, rutilando,
Lhe aquece e beija o crânio atordoado
Vai-se-lhe abrindo aos pés a sepultura.
Sá Viana, nos Esboços críticos da Faculdade de Direito de São Paulo em 1879, relatou
com ironia a situação do corpo discente, falando dos “estudantes que são todos que vão diariamente ao convento ou mesmo que lá não vão, mas pagam a
matrícula à Fazenda Nacional. Classe que representa poucos, pois a aridez e
força dos estudos fazem recuar grupos numerosos que se limitam a adquirir
conhecimento geral. Nesse grupo está Valentim Magalhães”.
Considera Sá Viana que, de todos os ramos da literatura na Faculdade de
São Paulo, era a poesia que merecia o devido cultivo e aponta dois estudantes
que pensavam na mesma coisa, a poesia, Raimundo Correia e Valentim Magalhães. E deste último comenta: “É moço inteligente, podia ser bom estudante
de direito se se dedicasse com mais seriedade ao estudo, mas não, é poeta.” Diz
Euclides da Cunha:
Os primeiros quinze anos de Valentim Magalhães coincidem com uma
fase de profundas mudanças da nossa existência política. De 1860, ao levantar-se o preamar democrático, simbolizado em Teófilo Otoni e rugindo
na “Mentira de Bronze” de Pedro Luiz, a 1870 e 1875, quando a monarquia perdeu, uma após a outra, as muletas da aristocracia territorial e da
Igreja – foi tão intensiva a decomposição do antigo regime que o simples
enfeixar as frases acerbas dos maiores chefes de seus partidos é uma missão
de Tácito, e não se compreende que se perdesse tanto tempo para realizar-se o passeio marcial de 15 de novembro de 1889.
Assim, a juventude do escritor aparelhava-se para a vida, quando em
torno à sociedade se alterava, apercebendo-se de novos elementos para
existir; e isto precisamente no cenário mais revolto de uma tal metamorfose.
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Al ber to Venanc i o Fi lho
A geração de que Valentim Magalhães foi a figura mais representativa,
devia ser o que foi: fecunda, inquieta, brilhantemente anárquica, tonteando
no desequilíbrio de um progresso mental precipitado a destoar de um estado emocional que não poderia mudar com a mesma rapidez; e a sua vida, a
sua carreira literária vertiginosa, toda disposta a nobilíssimas tentativas reduzidas a belíssimos preâmbulos, a nossa própria vida literária, impaciente
e doidejante, brilhando fugazmente à superfície das coisas, inapta às análises fecundas pelo muito ofuscar-se com as lantejoulas das generalizações
precipitadas.
Formado, volta ao Rio. Em carta a Lúcio de Mendonça diria: “No dia 15
de maio de 1882 devo partir com a família – mulher e filho – para a cidade de
Piraí que V. conhece bem; aí vou trabalhar com o meu grande, com meu maior
amigo, o tio José Alves Meira, que V. também conhece e estima, certamente.”
A estada foi curta e retornou em pouco tempo para se desdobrar em vários
empregos. Em dezembro de 1883 mudava de planos: “Tomei uma decisão
heróica. E aqui me tens. Mudei-me do teu berço para o meu berço. Não é
que eu lá não arranjasse a vida às 500 maravilhas (mil seria exagero) o foro
ainda rende bastante, além disso eu trabalhava como o Meira, meu protetor e
meu amigo.”
E queixando-se da profissão: “Aquilo de só ver o nariz dos escrivães, as orelhas dos juízes, as unhas dos colegas, a cauda dos políticos – aquilo matava-me
lentamente. Não trepidei, abracei o Meira, disse um adeus ao teu berço e cá estou. Fiz bem? Fiz mal? Não o sei.”
E falando das novas atividades: “É preciso que saibas que ganhando dez réis
de mel coado, sou entretanto um dos homens apensionados desta cidade heróica. Tenho a Gazeta, tenho a Semana, tenho a Escola Normal (onde finjo ensinar pedagogia); tenho os exames de português na instrução pública, tenho uma
advocacia manhosa, tenho inúmeros cacetes, tenho o diabo.”
Em confidência a Lúcio: “Se eu tivesse ficado em tua terra, ganharia a mesma importância, mas não pude suportar aquilo. Voei de lá para aqui e, embora
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não folgadamente, vou indo. Trabalho muito, é verdade, mas ao menos ando
com o espírito arejado, leve, satisfeito.”
Fundou em 1885 A Semana e este periódico, estritamente literário, fez o milagre de durar numa primeira fase três anos. Mas para isto, à parte um concurso notável, em que se extremavam Urbano Duarte, Raul Pompéia, Alfredo
Sousa e Luís Rosa, despendeu o melhor da sua atividade e quanto lhe adviera
da herança paterna. Mas não vacilou ante a ruína. “Iludia-se quem lhe medisse
a fortaleza pela volubilidade. Era um caráter varonil blindado de uma jovialidade heróica. Tinha esse recato do sofrimento que é a única expressão simpática do orgulho. Os seus melhores amigos jamais lhe divisaram desânimos.”
Tive ocasião de compulsar a coleção quase completa que a Biblioteca da
Academia possui de A Semana e verificar a alta qualidade do periódico, com excelente apresentação gráfica, publicação certa, seções variadas, sem falar no excelente corpo de colaboradores.
Ao lançar o primeiro número da A Semana em 3 de janeiro de 1885, diria
Valentim Magalhães:
Dissemos nos prospectos com que anunciamos a criação desta folha: “A
Semana constitui uma novidade para o público. E acreditamos não havermos
enganado o público.” As razões que tínhamos e temos para pensar que A Semana é uma novidade são as seguintes, apontadas nos prospectos: Não é
propriamente uma revista, como as que até hoje tem havido. Publicação
hebdomadária, terá, no entanto, o caráter de um jornal diário.
O seu fim único será este: – fazer a história completa e fiel da semana, decorrida, dando a nota do dia. Para isso terá seções em que se ocupará com
tudo quanto tenha sido feito na semana em ciências, artes, letras, comércio,
indústria, costumes, religião, etc., oferecendo aos leitores uma curta notícia,
satisfatória e imparcial, de todos os fatos que em todos esses ramos de atividade se tiverem realizado nos sete dias decorridos.
No intuito de auxiliar os jovens escritores de talento, aceitará A Semana
qualquer trabalho literário em harmonia com a sua índole e o seu programa,
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publicando-o e pagando-o ao seu autor, de conformidade com a tabela da
folha. A primeira das condições para a aceitação desses trabalhos será a responsabilidade de seus autores.
Sobre o andamento de A Semana escrevia Valentim a Lúcio de Mendonça
em junho de 1885: “Estamos precisadíssimos de dinheiro. A coisa vai bem,
mas de fora das províncias, onde contamos grande número de assinantes, superior aos da Corte, pouco dinheiro tem vindo. E isto é o diabo atualmente em
que nos metemos em grandes despesas: tipografia, casa na Rua do Ouvidor,
etc. Tem paciência meu velho, e arranja-me esse par de botas ... pecuniárias.”
Em dezembro de 1897 comentava o fracasso em carta ao mesmo destinatário: “Obrigado pelos teus pêsames pela degringolade da A Semana. Apesar dos
pesares, ainda me julguei feliz vendendo tudo por uma tuta e meia, assumindo
a responsabilidade das dívidas passivas, que são muitas, e perdendo todo o dinheiro que ali enterrei, porque mesmo assim, não me estourou a folha nas
mãos, passei-a adiante, desobriguei-me com os assinantes e não fiz inteiro fiasco. Ao contrário, parece-me que consegui sair-me bem de tão terrível aperto.
Agradeço-te cordialmente, meu bom e bravo Lúcio, o muito que pela minha
pobre Semana fizeste. Rei morto, rei posto. Vou meter-me noutra!”
Desde o primeiro número havia uma seção História dos sete dias, comentando os fatos da semana, inicialmente sempre assinada por Valentim Magalhães e em números subseqüentes com outras assinaturas, que parecem ser pseudônimos do diretor, como Valmor N.N., José Reis Filho.
A revista teve vários endereços: a Travessa do Ouvidor, 36, sobrado; Rua
do Ourives, 51; e afinal Rua da Quitanda, 34, bem próximo do escritório de
Rodrigo Octavio nos altos da Farmácia Araújo Pena, onde se realizaram as
primeiras sessões da Academia.
Valentim Magalhães era o redator chefe e seus redatores, todos futuros
acadêmicos: Filinto de Almeida, Aluísio Azevedo, Luís Murat e Urbano Du-
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arte. A colaboração era a mais variada. Machado de Assis foi um colaborador
eventual e Capistrano de Abreu escreveu sobre temas históricos.
A Semana realizou um concurso sobre o maior poeta brasileiro, sendo vencedor Gonçalves Dias e em segundo lugar Castro Alves, e manteve por certo período a seção Galeria de Elogios Mútuos, em que um escritor escrevia a biografia do outro.
A Semana reaparece em julho de 1895, sob a direção de Valentim Magalhães e Max Fleiuss (1868-1943). O prospecto de lançamento, assinado pelo
primeiro, dizia, entre outras coisas:
O que foi este periódico, que, sob minha direção, existiu nesta capital de
janeiro de 1885 a novembro de 1887, sabe-o todo o Brasil, cujo movimento literário representou durante aquele período [...] A sua influência sobre o
movimento literário e artístico do Brasil foi tão patente [...] que acredito
que a notícia do ressurgimento d’A Semana será recebida com vivo júbilo e
geral aprovação.
Afirmava então ser oportuno o aparecimento:
Há quatro anos que o espírito público vive absorvido, ocupado, oprimido pela Política, com opor uma obsessão pesada e funesta.
As letras retraíram-se quase completamente e o nível intelectual tem descido de modo inquietante, perceptível aos olhos menos sagazes [...]
As incertezas e atribulações do atual momento político vão produzindo
sobre a alma nacional uma depressão tão funda e penosa, que é tempo de
abrir-lhe um respiradouro, de rasgar-lhe uma janela, aonde ela venha haurir
um ar puro, álacre, oxigenado vigorosamente pelas serenas produções da literatura contemporânea.
A Semana terá agora os mesmos colaboradores de então, além dos escritores novos que a queiram honrar com as suas produções. Não terá prevenções, nem coteries, nem preconceitos literários. Procurará ser moderna, sem
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acompanhar contudo as extravagâncias e despropósitos nascidos na sede de
ser novo, de ser original por qualquer modo.
A Semana apareceu em 1885 pela mesma razão por que vai reaparecer
em 1893: porque o estado cultural dos espíritos determinava esse fato naquele momento histórico.
Ao reiniciar a nova fase de A Semana em 1895, já contando com um eficiente
administrador, Valentim Magalhães atribuía o insucesso da fase anterior à falta de capital para os melhoramentos: “Não chegavam as assinaturas e os anúncios para fazer face às despesas excessivas. Tive de sacrificar o meu bolsinho.
Esgotado ele e sem elementos novos para a luta, desanimei e passei a folha adiante. Poucas semanas depois finava a probrezinha.” Mas afirmava ser A Semana
“a única de minhas obras de que imodestamente me orgulho”.
Nessa nova fase, o periódico vai durar até junho de 1897. Entre as suas promoções de 1895 figurou o concurso entre os leitores para saber quis “os seis
melhores romances escritos em língua portuguesa”, com o seguinte resultado:
1o lugar – Os Maias
2o lugar – O primo Basílio
3o lugar – Memórias póstumas de Brás Cubas
4o lugar – A relíquia
5o lugar – A mão e a luva
6o lugar – O Ateneu
Vendo na Semana uma capela de elogio mútuo, tacitamente antipática aos
valores emergentes das novas gerações, Luís Murat e Artur Azevedo fundaram
a Vida Moderna, episódio relatado por Coelho Neto, anos mais tarde, nas páginas de A conquista.
Valentim Magalhães tinha uma produção febril. Em 1886 escreveu Vinte
contos; em 1887, Horas alegres; publicou, refundidas em 1888, as Notas à margem;
em 1889, Escritores e Escritos... “Vede: não há a solução mais breve no duodecê-
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nio que percorremos. Não se pula uma data sem pular-se um livro. O escritor
violou doze vezes seguidas o nonum primatur in anno...”
Diz Euclides, comentando o período:
De 1889 a 1895 houve aparente descanso. A República, feita numa madrugada, criara a ilusão de grandes coisas feitas da noite para o dia. Valentim,
como todos, vacilou na vertigem geral. Ordinariamente se acredita que o empolgasse o anseio da fortuna fácil, naquela quadra que a ironia popular ferreteou com o nome de ‘encilhamento’. Com efeito, salvante alguns artigos esporádicos, o incansável homem de letras parecia mudado num infatigável homem de negócios. E fundou – como toda a gente – uma companhia.
Mas considerai como o sonhador desdenhou as voltas retorcidas dos cifrões e alinhou parcelas como se alinhasse versos; aquela ‘Educadora’, que se
transformou depois numa vulgar companhia de seguros, era uma fantasia
comercial. Não segurava vidas, segurava inteligências; e o segurado, ao invés
de um ajuste sinistro com a morte, a troco de alguns contos de réis, garantia
a educação dos filhos.
O devaneio mercantil não vingou.
Na expressão de Caio Prado Júnior sobre o Encilhamento:
A quase totalidade das novas empresas era fantástica e não tinha existência senão no papel. Organizavam-se apenas com o fito de emitir ações e despejá-las no mercado de títulos, onde passavam de mão em mão em valorizações sucessivas. Chegaram a faltar nomes apropriados para designar novas
sociedades, e inventavam-se as mais extravagantes denominações.
A transformação terá sido tão brusca e completa que revemos as próprias
classes e os mesmos indivíduos mais representativos da monarquia, dantes ocupados com a polícia e funções similares, e no máximo com uma longínqua e sobranceira direção de suas propriedades rurais, mudados subitamente em ativos
especuladores e negocistas. Ninguém escapará aos novos imperativos da época.
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Assim ocorreu com Valentim Magalhães, que dedicado à literatura e ao jornalismo, se abalançou a criar uma companhia de seguros, “A Educadora”, com
fins de garantir a educação dos jovens. Não é preciso dizer que esse empreendimento teve completo fracasso. Também o futuro Acadêmico Emílio de Menezes empenhou-se nessa aventura, da qual redundou apenas um sólido prejuízo.
Cabe relatar episódio curioso ocorrido com nosso confrade e decano, o Acadêmico Josué Montello. Certa vez Afonso Pena Júnior, diretor de bancos e de companhias de seguros, pediu-lhe que falasse a um grupo de empresários no Dia Internacional do Seguro. Josué Montello fez então uma explanação da vida e obra de
Valentim Magalhães, com grande espanto dos presentes, para afinal declarar que
escolhera essa figura, pois fora fundador de uma companhia de seguros.
Passado este interregno Valentim reavivou-se, e no qüinqüênio de
1895-1900 continuou a marcar os anos pelos livros e opúsculos: em 1895, Filosofia de algibeira; Bric-à-Brac, em 96; em 97, o seu primeiro romance, Flor de sangue; Alma e Rimário, em 98-99 – deixando prontos quatro outros: Fora da Pátria,
Na brecha, Novos contos e Outono, que lhe demarcariam, na mesma progressão, os
quatro últimos anos de existência...
Valentim Magalhães foi jornalista, escritor, poeta, contista, teatrólogo, romancista e deixou uma vasta produção literária, nesta conferência só sendo
possível analisar as principais.
O poeta
Na juventude e especialmente na poesia foi o mentor da Idéia Nova, movimento que não teve grande repercussão, mas que representava uma idéia de renovação do ambiente intelectual.
No ensaio A Nova Geração, refere-se Machado de Assis a dois poetas, Fontoura Xavier (de que cita poesias avulsas e um opúsculo, “O Régio Saltimbanco”) e Valentim Magalhães, que já a essa altura havia publicado os livros Idéias
de moço (1878), em colaboração com Silva Jardim, a quem pertence a parte em
prosa, e Cantos e lutas (1879), nos quais seguira a corrente socialista. Registrou
Machado de Assis:
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O primeiro livro de Valentim Magalhães sabemos já que na opinião dele,
a Idéia Nova é o céu deserto, a oficina e a escola cantando alegres, o mal sepultado, Deus na consciência, o bem no coração, e próximas a liberdade e a
justiça. Não é só na primeira página que o poeta nos diz isto; repete-o no
“Prenúncio da aurora”, “No futuro”, “Mais um soldado”, é sempre a mesma idéia, diferentemente redigida, com igual vocabulário. Pode-se imaginar
o tom e as promessas de todas essas composições. Numa delas o poeta afiança alívio às almas que padecem, pão aos operários, liberdade aos escravos,
porque o reinado da justiça está próximo.
Noutra parte, anunciando que pegou da espada e vem juntar-se aos combatentes, diz que as legiões do passado estão sendo dizimadas, e que o dogma, o privilégio, o despotismo, a dor vacilam à voz da justiça. Nessa contradição, que o poeta busca dissimular e explicar, há um vestígio da incerteza
que, a espaços, encontramos na geração nova, – alguma coisa que parece remota da consciência e nitidez de um sentimento exclusivo. É a feição desta
quadra transitória.
Quer o Sr. Valentim Magalhães que lhe diga? Essa idéia, a que emprestou alguns belos versos, não tem por si nem a verdade nem a verossimilhança; é um lugar-comum, que já a escola hugoísta nos metrificava há muitos
anos. Hoje está bastante desacreditada.
Tem o Sr. Valentim Magalhães o verso fácil e flexível; o estilo mostra
por vezes certo vigor, mas carece ainda de uma correção, que o poeta acabará por lhe dar. Creio que cede, em excesso, a admirações exclusivas. As idéias dele são geralmente de empréstimo; e o poeta não as realça por um modo
de ver próprio e novo. Crítica severa, mas necessária, porque o Sr. Valentim
Magalhães é dos que têm direito e obrigação de a exigir.
Silva Jardim, com quem escreveu Idéias de moço (1868) afirma: “Valentim
Magalhães é um petroleiro, vive embriagado pelas idéias modernas, roncando
contra o obscurantismo, a inquisição, os reis, e os padres, seduzido pela casta
idéia, a liberdade.”
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Como poeta, segundo Raimundo Corrêa, “Valentim Magalhães, em seguida ao lirismo dos verdes anos e da primeira adolescência, fez-se adepto fervoroso da escola social. Esta escola poética que, com vários corifeus ilustres no
Brasil e em Portugal, tentou substituir ao subjetivismo exagerado dos românticos o seu objetivismo abstrato e por demais palavroso, esteve muito em voga
entre nós, até à época do centenário de Camões, acontecimento que veio dar à
literatura nacional uma nova e mais segura orientação.
Por esse tempo foi que Valentim publicou os seus Cantos e lutas, obra adaptada aos moldes daquela escola. Três são as poesias que a crítica destacou aí
com mais vivos elogios: “Os dois edifícios”, “O herói moderno” e “Prenúncio
de aurora”.
A primeira delas acabou por figurar em várias antologias escolares, parecendo que a este fim mesmo é que estava destinada; a segunda foi excluída,
pelo autor, do seu Rimário; e a última é ainda hoje um dos melhores spécimens da escola.”
Sílvio Romero, na História da Literatura Brasileira, adotando espírito classificatório, trata dos vários períodos da poesia, e aponta na reação ao Romantismo
(1872 ou 1873 em diante) uma poesia realista, uma vez social, revolucionária
outras, e incluía junto com Valentim Magalhães, Carvalho Júnior, Fontoura
Xavier, Lúcio de Mendonça, Augusto de Lima, aos quais se prende Medeiros e
Albuquerque.
Descrevendo a Idéia Nova, Euclides esclarece:
Não maravilha que a nova geração, do avançar aforrado, não soubesse,
afinal para onde seguir.
Apenas um exíguo grupo se destacou: arregimentou-se em torno de um
filósofo; e afastou-se. Ninguém mais o viu – e mal se sabe que ele ainda
existe, reduzido a dois homens admiráveis, que falam às vezes, mas que se
não ouvem, de tão longe lhes vem a voz, tão longe eles ficaram no território
ideal de uma utopia, no dualismo da positividade e do sonho...
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O resto ficou numa fronteira indecisa a tatear dentro de uma miragem
que, à falta de melhor nome, se chamou durante muito tempo a Idéia Nova.
Que era a Idéia Nova? Eu poderia responder-vos que era uma coisa muito
velha, uma curiosa infantilidade de cabelos brancos, ou uma novidade de
cem anos – mas prefiro a palavra de um poeta do tempo.
Escutemo-lo:
Está deserto o céu. No grande isolamento,
Palpita ensangüentado o sol – um coração...
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?
Morreram. Era tempo. Agora encara a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da Escola um hino.
O gênio enterra o mal em uma negra cova.
Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálix purpurino.
Vem perto a Liberdade. É isto a Idéia Nova.
Os versos são de 1879 e o poeta, à volta dos vinte anos, chamava-se
Antônio Valentim da Costa Magalhães.
Valentim, na nota final de Rimário, último livro de poesia (1900), escreveu,
referindo-se à esposa: “Nos Cantos e lutas, em Alma e neste livro encontram-se,
palpitantes, os vestígios e os influxos de minha ventura doméstica, hoje extinta. Não é à memória d’Ela própria, viva, presente, inapagável, como existe e
existirá, sempre, no meu espírito e no meu coração. Este livro abre por um adeus, em 1878, o de um curto afastamento, e termina com um adeus, em 1899, o
da Morte, o do afastamento infindável. Estas datas marcam a alvorada e a noite de um dia de primavera luminoso e flóreo, e, por isso mesmo, demasiado rápido, – a minha mocidade!”
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O que finaliza aí, porém, não é somente a mocidade do poeta, é a sua própria vida, pois ele não tardou muito em seguir ao túmulo a esposa idolatrada.
Rimário (1878-1899), publicado em 1900, último livro de poesia, é a síntese da produção poética de mais de vinte anos, escoimada dos versos que excluiu. Nas notas fala do sucesso do primeiro livro, Cantos e lutas, da absorção pela
prosa:
Fui sendo esquecido como poeta, passei de moda. [...] A princípio fui gênio, mas tarde coisa nenhuma, hoje César, João Fernandes amanhã.
Passaram muitos anos e passaram alguns lustros. Bons ou maus, os meus
livros de prosa foram sucedendo-se, empilhando-se. Ultimamente lembrou-me juntar-lhes, para que não houvesse essa falha na minha obra total,
o livro, ainda por fazer, dos meus versos feitos.
Não alimento ilusões sobre a sorte deste livro. Nele vai a minha mocidade, a melhor porção da minha existência, o mais forte do meu cérebro, o
mais puro do meu coração. É a minha vida que passa cantando, cantando
suas aspirações e seus sonhos, seus desenganos e suas paixões, seus gozos e
seus martírios.
É desse livro o poema a Machado de Assis:
Honremos altamente esse que ensina
A subjugar os metros revoltosos;
Esse que torna os ares sonoros
Com a doce voz da lira peregrina;
Esse que da poesia os puros gozos
Liberalmente aos corações propina;
E tem da forma a religião divina
Apostolado aos crentes sequiosos;
Esse que arranca aos rígidos vocábulos
A música rebelde e fugidia;
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O fu ndado r V a l e n ti m M a g a l h ã e s
Que da língua os diamantes corta e lavra
E tange à rima os áureos tintinabulos.
Honra ao mestre da Prosa e da Poesia,
Ao vencedor da Idéia e da Palavra!
O contista
Em 1882 publicou os Quadros e contos, segundo Euclides “livro prometedor, onde refulgem páginas descritivas de excepcional colorido, avivadas todas daquela galanteria do escrever, que raro o abandona – e que se acaso o
abandona é para tornar maior. Realmente, joeirando-se todos os seus versos
escritos em 1883, talvez nos restassem apenas três sonetos; mas estas 42 linhas perduram nas nossas letras como a expressão mais eloqüente de uma saudade ao mesmo passo excruciante e encantadora na sua tocante singeleza.
Falecera-lhe o pai extremosíssimo, e Valentim, que até então escrevera para
toda a parte, num insofregado anelo da consideração coletiva, – surpreendido pela desdita, confiou, chorando, a alma da sua esposa, aquele poema de
duas páginas, ‘O nosso morto’.”
Quadros e contos é, na opinião de Wilson Martins, uma reunião de contos
propriamente ditos (nenhum deles “naturalista”, no sentido exato da palavra, mas todos de intenção “realista” evidente) e de páginas que poderíamos
denominar de crônicas, na acepção mais vaga do vocábulo. Dentre estas últimas, a mais impressionante é a desmistificação da vida acadêmica e, em particular, da legendária Academia de São Paulo, a propósito da cerimônia de colação de grau:
A colação de grau não se realiza em um só dia para todos os bacharelandos; mas dia a dia, e a quatro, depois de haverem prestado no derradeiro ato
as derradeiras parvulezas jurídicas.
Para essas festas acadêmicas não interrompe os seus deliciosos hábitos de
inveterada porcaria.
187
Al ber to Venanc i o Fi lho
O velho convento conserva as suas vidraças bordadas a pedra, trabalho da revolução de 71, a negra e abundante varíola que lhe sarapinta as paredes, trabalho do tempo, as suas fealdades clássicas, as suas enfermidades sujas e legendárias [...] Continua, – isto agora quanto ao interior – a estender sob as arcarias degringolantes e gafadas o mesmo estilo de corredores: preciosos depósitos dos
escarros de 20 gerações de bacharéis, que aí se acumulam – os escarros e não os
bacharéis – em gloriosas máculas escuras [...] A sala designada para o ato não se
enfeita, não se apelintra, não se lava; não é varrida ao menos [...].
Escapou-me observar que não há em todo o edifício da academia uma
sala especial, que digo eu?... um banco, um reles banco de pinho, para receber as famílias que concorrem ao ato, enquanto o esperam. As senhoras, em
grande tenue, conservam-se de pé, gentilmente alinhadas à parede, sendo forçadas a ter suspensas pelas pontas dos dedos as pomposas traînes dos vestidos ricos, a fim de não inutilizá-los, pousando-os no chão [...].
Enquanto com todo o vagar, a portas fechadas, se lavra a ata e se preparam as coisas para a cerimônia, toda essa pobre gente amarrota-se, abafa, desespera e sua; os homens sinistramente vermelhos, abotoados na suas redingotes, enforcados nos seus colarinhos novos e nas suas gravatas brancas,
dessorando mau humor e péssima pomada húngara.
E assim prossegue a página terrível, com que nos curar para sempre de todas as idealizações póstumas que se vieram acumulando desde o período romântico sob as “arcadas” do Largo de São Francisco; período estudado com
idênticas conclusões em meu livro Das Arcadas ao bacharelismo. “Os contos do
volume são convencionais e indecisos entre o sentimentalismo romântico e
algumas ‘notações’ que se querem realistas, mas pertencentes, na verdade,
àquele ‘realismo’ do monstruoso e do grotesco em que o romantismo também se comprazia.”
Notas à margem – diz Euclides – recordam uma escaramuça agitadíssima, estonteadora, sem rumos, à caça do imprevisto, onde não há triunfos nem reve-
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O fu ndado r V a l e n ti m M a g a l h ã e s
ses, e os recontros e os adversários se travam e se distinguem fugitivos, a relanços e aos resvalos, um reconhecimento armado que não para… Porém, o que
ali falta no compasso das idéias, sobra na propriedade do dizer e num desvelado apuro de linguagem, que influíram consideravelmente em nosso meio. Muita gente, entre nós, começou a escrever melhor, sob as reprimendas gráceis daquele infatigável caçador de solecismos e persistente fiscal de pronomes insubordinados. Ao mesmo passo na imprensa diária acentuou-se melhor esta forma literária facílima, que é o artigo do jornal, onde a medida e a intensidade
das idéias têm de ceder, não já aos dúbios contornos, capazes de ajustá-las ao
maior número possível de critérios, nos limites de uma atenção de quartos de
hora, senão também à fluidez de expressão, que lhes permita insinuarem-se nas
nossas preocupações, encantando-nos um momento um momento – e passando sem deixarem traços.
Vou agitar alguns conceitos falíveis. Revendo estes volumes, o que para
logo se põe de manifesto é uma falta de unidade pasmosa.
O escritor muda no volver das páginas.
Novamente Euclides:
Nos Cantos e lutas, escuta-se, ao toar solene dos alexandrinos, o lirismo
humanista que Pedro Luís divulgara desde 62.
De feito, a inspiração não lha diluem lágrimas: é robusta, impessoal, refulgente – e a sua
[...] grande musa austera e sacrossanta,
que para o céu azul os olhos a levanta
banhados no fulgor virgíneo da verdade,
era sem dúvida sincera.
Mas esta linguagem, cantando herculeamente as odes imortais, nunca
mais se repetiu. Ao contrário, a poesia filosófica (e falo assim por obedecer
à moda, porque uma tal poesia se me afigura tão absurda quanto uma geo-
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Al ber to Venanc i o Fi lho
metria lírica ou a astronomia romanceada de Flammarion), a poesia ‘social’,
em que tanto importa o subordinar-se a expressão à verdade, teve depois em
Valentim um irrequieto adversário.
No livro Notas à margem, Valentim Magalhães incluiu uma crônica, lamentando que ao enterro do grande jurista Teixeira de Freitas só tenham comparecido quatro pessoas. Machado de Assis glosou o comentário, dizendo também
a escassez de amigos e colegas no enterro de José de Alencar, que “também era
jurisconsulto, romancista, orador e político. Não era só isto: era o chefe da
nossa literatura”. E atribuía a ausência com ironia à falta de calças pretas.
De Alma, livro de contos, diz Raimundo Corrêa:
Mas para os que, como eu, preferem a todos os trabalhos de Valentim
Magalhães os que ele escreveu no estilo familiar, as suas melhores páginas
estão talvez nesse encantador livrinho – Alma. “O primeiro dente”, “O primeiro nome” e “Noites eternas” são com efeito três peregrinos poemas em
prosa; e, quando os leio, suponho que o autor seria inimitável, inexcedível
nesse gênero íntimo. Pondo de lado todos os discursos e conferências que
fez, didáticas e literárias, muitos artigos de polêmica e inúmeros escritos
dispersos por vários jornais, para considerar exclusivamente o que ele chegou a reunir em volume, não se pode negar que, com respeito ao prosador,
este seu legado, só por si, constitui uma obra vasta e multifária, pela infinidade de assuntos que abrange.
O ensaísta
José Veríssimo, escrevendo no início da República, diz que as letras não
exerciam qualquer influência nos movimentos de idéias: “Em nosso país os
movimentos de ordem espiritual, longe de atuarem sobre os fenômenos sociais,
destes recebem impulsão e vida.” Havia, registra ele, “uma sensível atmosfera
nacionalista depois da proclamação da República, mas o movimento literário
era pobre”. E acrescentava Valentim Magalhães:
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Literatura sem livros, literatura de folhetos, posso também chamar àquela
que ora temos. Escassíssima, a nossa produção literária quase que se resume
hoje exclusivamente no conto, na fantasia ligeira e desvaliosa, na poesia, ou
melhor, em alguns versos publicados nas folhas diárias ou em efêmeras revistas. O romance, a crítica, a filosofia, a história, os estudos literários, o drama,
este principalmente, morrem verdadeiramente à mingua de produção. A mesma literatura política [...] não dá senão raros e mesquinhos frutos.
Segundo Wilson Martins:
Constituído, como os Estudos brasileiros de José Veríssimo, de artigos escritos para diversos períodos desde 1881, o livro Escritores e escritos de Valentim Magalhães oferece curioso documento sobre a nossa vida intelectual
nesse período. Mencionemos, antes de mais nada, que começa com um elogio da Forma – “Ninguém que almeje passar por poeta tem mais o direito
de ignorar os preceitos gerais da arte do verso.”
Adepto do culto da forma, dizia Valentim Magalhães:
“Essa religião não tem entre nós mais que meia dúzia de sacerdotes. E
esses mesmos celebram as cerimônias do seu culto, praticam os divinos
mistérios de sua seita no meio de uma multidão de ignorantes, que lhes
não entende o Latim, e que só aplaude os versejadores pesadões, aqueles
que apenas conhecem da Poesia este princípio: escrever em linhas curtas.
Felizmente ainda temos alguns descendentes da raça divina dos helenos,
ainda temos alguns poetas... que se dão à árdua e deliciosa tarefa de procurar a forma perfeita. Pesam as palavras em balanças microscópicas, medem-nas, estudam-nas, combinam-nas, como um alquimista fantástico fazendo ouro; estudam Lecomte (sic), Gautier e Banville, como se foram
tratados de botânica e de mineralogia, e fazem o que tanto aconselhava
o poeta da Comédia da Morte e tanto recomenda o Artur de Oliveira –
lêem os dicionários.
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Al ber to Venanc i o Fi lho
Nos Escritores e escritos, afirma Euclides, “desponta-lhe o antagonismo em dizeres concisos, golpeantes”: “Em literatura a forma é quase tudo. Especialmente em poesia. É preciso ter como Teodoro de Banville o sentimento das
palavras... A Forma! Eis o grande, o milagroso talismã! Quem o possui atravessa a vida sem conhecer impossíveis caprichos do seu gênio.”
A “Forma” lá está com F maiúsculo. É o fetichismo do vocábulo. Com
efeito, poucas vezes na língua portuguesa a palavra foi tão voluntariosa no
violentar idéias, transfigurado-as ou emparelhando-as nas mais bizarras
antíteses.
O romancista
Em 1897 Valentim de Magalhães publicou seu único romance: Flor de sangue. Diz no prefácio:
Nesses quatro lustros de atividade mental, tenho feito um pouco de tudo
– versos, folhetins, contos, panfletos, crítica, biografia, artigos de todo gênero, teatro, que sei eu? e tenho construído com parte desses materiais para
mais de uma dúzia de livros.
A crítica tem me reconhecido, com munificência que me há penhorado,
um espírito vivaz, variável, curioso; uma atividade indefesa; um certo amor
à língua vernácula, e daí pronunciado carinho no escrevê-la e um estilo correto e agradável; porém não tem ocultado o seu pesar por me não ver abalançar-me a isso que chamam os críticos “obra de fôlego”, ou “trabalho sério” – um poema, um romance, um livro de crítica profunda. Ora, eu devo
confessar que essa censura me calou sempre no espírito por havê-la formulado muitas vezes a mim próprio. Mas as necessidades inadiáveis da vida
material, tão pesadas para um pai de família pobre neste terra em que das letras ainda não se pode viver exclusivamente, impediram-me sempre de levar
por diante esse projeto, cem vezes formulado e não poucas começado a exe-
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cutar. O tempo que me deixavam livre as ocupações de que provinha o pão
quotidiano e o meu estado de saúde, precário sempre, chegavam apenas
para escrever o conto, a notícia crítica, a crônica faceta, o artiguinho diário a
que me comprometera em um ou vários jornais; não havia possibilidade de
realizar o meu sonho, satisfazendo a exigência dos críticos – escrever uma
obra de fôlego.
Sem parágrafo escrevi-o sempre de uma assentada, capítulo por capítulo,
e, acabado, relia-o, corrigia-o, mandava copiá-lo por um secretário, conferia
a cópia e remetia-a aos tipógrafos.
Se conto este pormenores é para explicar as muitas imperfeições de forma que sou o primeiro a reconhecer, tais como a vulgaridade de algumas
frases, a fraqueza de certas expressões, o banal de vários títulos de capítulos
(e dei-lhes títulos por uma conveniência pessoal: para orientar-me em cada
capítulo do estado, do ponto em que ficara o enredo, a composição), um ou
outro galicismo, como “golpe de vista”, e outros defeitos mais.
O capítulo que primeiro escrevi, com a intenção de fazê-lo o primeiro livro, foi o quinto da segunda parte – um dos últimos: eu havia principiado
pelo fim!
Não resolvi fazer um romance naturalista, nem de aventuras, nem de psicologia, nem simbolista, nem idealista; resolvi simplesmente fazer um romance. E ele foi-me saindo dos bicos da pena com um certo feitio, uma certa fisionomia, um certo caráter, que não tentarei definir e ainda menos explicar.
Se todavia me interpelasse alguém sobre tal ponto, diria que para o seu
autor é o meu romance filiado à escola da verdade, a única, que como os
Goucourt, acredito real e fecunda em Arte. Todos os tipos que nele fiz mover-se, e não sei se viver, encontrei-os na vida social, não só fluminense, não
só brasileira, mas de todos os países.
O romance Flor de sangue descreve a vida amorosa de uma senhora da alta
burguesia, Corina, e está dividido em duas partes, cada uma terminando com
um suicídio, o primeiro, do amante, que era filho adotivo do marido, e o se-
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Al ber to Venanc i o Fi lho
gundo, do marido ao saber muito mais tarde da relação da esposa com o filho
adotivo. O suicídio está presente também no “Soneto de um suicida”:
(A Lucindo Filho)
Mata-me a dura lei da vária Natureza
Que nos faz desejar o que nos é proibido;
O fruto do pecado e o mais apetecido,
E o crime é um belo ornato as graças da Beleza.
O dístico – Mão toque e do mal a certeza
São dois imãs fatais, a que anda o amor vencido;
Os direitos cruéis do amante e do marido
Aumentam da paixão a tempestade acesa.
Morro porque te quero e não podes ser minha,
Separa-nos um muro estúpido e fatal,
Quando, no entanto, o amor, a rir, nos avizinha.
Suplício sobre-humano e delícia infernal,
Que todos podem ver mas ninguém adivinha:
– Morro porque és o bem e desejar-te é o mal.
É interessante salientar que o personagem principal do livro, Fernando Gomes, é um beneficiário do Encilhamento, o autor certamente transmitindo a
experiência pessoal para descrever os episódios, e é curioso apontar o teor da
errata: em lugar de “bosque nemoroso”, “bosque umbroso”; ao invés de “estourar os miolos”, “cortar o pescoço”.
José Veríssimo, em Estudos de literatura brasileira coloca o livro no Naturalismo
pelo tema e à literatura apressada de folhetim pela execução, aponta “indecências e imoralidades” e “quase nenhuma qualidade literária”.
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Com outro julgamento, Euclides contesta: “Nada direi do livro malogrado,
onde, entretanto, um velho tema se remoça com uma cativante originalidade
de desfecho. Considero apenas que a crítica desaçaimada, que o estraçalhou até
à errata final, não disse mais do que o próprio romancista, no prefácio.”
Raimundo Corrêa viu injustiça, por vezes, na severidade dos críticos, a qual
se acrescentava à “diatribe malévola dos desafetos”.
Escreve Machado de Assis:
Flor de sangue pode dizer-se que é o sucesso do dia. Ninguém ignora que
Valentim Magalhães é dos mais ativos espíritos da sua geração. Tem sido
jornalista, cronista, contista, crítico, poeta, e, quando preciso, orador. Há
vinte anos que escreve, dispersando-se por vários gêneros, com igual ardor e
curiosidade. Quem sabe? Naturalmente nem tudo o que escreveu terá o
mesmo valor.
Tudo é que as obras sejam feitas com o fôlego próprio e de cada um, e
com materiais que resistam. Que Valentim Magalhães pode compor
obras de maior fôlego, é certo. Na Flor de sangue o que o prejudicou foi
querer fazer longo e depressa. A ação, aliás vulgar, não dava para tanto;
mal chegaria à metade. Há muita coisa parasita, muita repetida, e muita
que não valia a pena trazer da vida ao livro. Quanto à pressa, a que o autor nobremente atribui os defeitos de estilo e de linguagem, é causa ainda de outras imperfeições.
Não insisto; aí fica o bastante para mostrar o apreço em que tenho o talento de Valentim Magalhães, dizendo-lhe alguma coisa do que me parece
bom e menos bom na Flor de sangue. Que há no livro certo movimento, é fora
de dúvida; e esta qualidade em romancista vale muito. Verdadeiramente os
defeitos principais deste romance são dos que a vontade do autor pode corrigir nas outras obras que nos der, e que lhe peço sejam feitas sem nenhuma
idéia de grande fôlego.
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Na classificação do romance e do conto, Sílvio Romero, na História da literatura brasileira, indica o meio naturalista da cidade (1860/1884), inicialmente
com Manuel de Almeida, Carneiro Vilela e Celso Magalhães, ao qual se prendem com Valentim Magalhães, Afonso Celso, Xavier Marques e Domício da
Gama. Finalmente, ao tratar da crítica comenta:
Em nosso quadro esquemático, foram somente contemplados os críticos
por temperamento os que fizeram da difícil arte de Sainte-Beuve a sua profissão espiritual, e postos fora os pretensos críticos de arribação, sujeitos
adventícios, que por capricho de momento, confundindo crítica com desforra ou desabafo ocasional, foram levados alguma vez a exercer a discussão
polemista, sempre com desaso.
É o caso de Alencar nas Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, Franklin Távora nas Cartas de Simprônio a Cincinato, Joaquim Nabuco no que escreveu
contra Alencar, e Valentim Magalhães no que publicou contra os Últimos arpejos, livro de poesias de Sílvio Romero.
O polemista
Na arena jornalística, Valentim Magalhães digladiou com intrépidos polemistas, como Ferreira de Araújo, Carlos de Laet e Sílvio Romero, adversários
dignos dele. Mas de permeio se metiam, às vezes, indivíduos que só desejavam
ganhar fama à sua custa, e outros que aproveitavam covardemente o ensejo
para o ferirem pelas costas. E, quantas vezes, por quem nem sequer o conhecia
de perto foi ele gratuitamente agredido! Entretanto, Valentim não esmoreceu
jamais.
Diria a Lúcio de Mendonça: “Tenho pintado o bode como tens visto. Ultimamente com o Sílvio (Romero) era preciso sová-lo. Sovei-o e me parece que
em regra.” Tratava-se do livro Notas à margem dos “Últimos arpejos” – crítica ao livro de versos de Sílvio. Eis a resposta de Sílvio Romero:
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Valentim Magalhães! – Famoso homem de letras em verdade... Foi durante mais de vinte anos o porta-bandeira da oposição tenaz, implacável, irredutível, contra tudo que se pensou e se fez na Escola do Recife nas últimas décadas do século passado. Guerra foi essa cuja constância, nunca desmentida, só podia rivalizar com a sua própria sem razão, sempre provada. –
Os serviços prestados às letras e ao pensamento nacional por uma legião inteira de combatentes da idéia, entre outros, os Tobias Barretos, os Viveiros
de Castro, um Martins Júnior, um Sousa Pinto ... não têm chegado para desarmar a odiosidade sistemática a uns, as censuras infundadas a outros, os
esquecimentos calculados a estes, as meias simpatias àqueles, e até os festejos suspeitos de certos renegados que por qualquer motivo caíram nas graças de determinados críticos, que se arrogam nesta boa terra a função de distribuir os títulos e louvores espirituais.
Adolfo Caminha, no romance Tentação, fez o louvor da província, o casal
de provincianos que se desloca para o Rio e aqui só encontra a falsidade e a
hipocrisia. Nessa obra, Adolfo Caminha quis vingar-se de Valentim Magalhães, ao “fazer-lhe a caricatura, freqüentemente insultuosa e desafiadora,
no tipo de Valdevino Manhães, diretor da Revista Literária e autor de muitíssimos livros, de muitíssimas obras, entre as quais o poema herói-cômico
“Juca Pirão”, paródia ao Y-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. A intenção de
desforra fez reviver o polemista que parecia espreitar em Caminha os movimentos do romancista, com o intuito de atenuar-lhe a força e desviar-lhe a
vocação”.
O teatrólogo
Valentim Magalhães também se dedicou ao teatro: Doutores e Inácia do Couto,
paródia à tragédia de D. Inês de Castro, incluídas no livro Teatro (1888); O império da lei e O país do café, incluídas no livro Horas alegres, e em colaboração com
Filinto de Almeida O Grão Galeoto e No seio da Morte, ambas tradução de D. José
Echegaray, também em colaboração com Filinto de Almeida, e A mulher-homem,
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entre outras. As peças eram mais para serem lidas do que representadas, e não
tiveram grande repercussão. Este comentário é confirmado pela análise de Ronald de Carvalho:
A literatura dramática brasileira, depois de Martins Pena, Macedo Alencar, França Júnior e Agrário de Menezes, se não deixa de existir pelo volume
da produção, minguou pelo caráter cênico das obras aparecidas. O ato ligeiro,
a burleta, a comédia trivial, a revista popular e anedótica de Artur Azevedo,
Valentim Magalhães, Moreira Sampaio e muitíssimos outros, todos empenhados, aliás, em “educar” o gosto do nosso público, “envenenado pelo dramalhão romântico” não conseguiram qualquer processo sensível para o nosso
teatro decadente. Ficamos, ao contrário, com um teatro fútil e parasitário,
imitado ou simplesmente traduzido do francês, menos nacional que nunca,
apesar dos propósitos e das intenções regeneradoras de que estava inçado.
Afinal, cabe o comentário de Raimundo Corrêa sobre o diletante:
Há bastantes anos que ele abrilhanta assiduamente as colunas do nosso jornalismo; a sua pena destra e nervosa não só pelo folhetim chistoso tem volateado, mas também pela poesia, pela sátira, pelo teatro e pela crítica, deslizando
sem dificuldades nos assuntos mais graves, como nos mais leves assuntos, e
quase que não há esfera de atividade literária para a qual se não ache voltada alguma das múltiplas faces do seu belo talento, nem departamento nenhuma das
letras onde a sua passagem não tenha ficado mais ou menos assinalada por algum bom serviço.
Essa complexidade cerebral, rara e invejável aliás, é, no entanto, por uns
visos de puro diletantismo, o que mais do que tudo o tem prejudicado, deprimindo aos olhos da crítica mal prevenida o seu real e contestável merecimento.
Que é que o faz não persistir por muito tempo e mais atiradamente num só
terreno? Será aquele suposto diletantismo, ou bem uma outra causa que me-
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lhor se pode investigar no próprio temperamento do escritor. Dir-se-á que, em
tratando um assunto qualquer, logo o desvia dele a sugestão de um novo e diferente assunto em que também não persiste mais do que no primeiro. O exercício ansioso e febril de uma atividade assim distribuída em tão várias direções
simultaneamente lhe não permite, ao incansável trabalhador, levantar edifício
bem sólido em terreno nenhum.
Quantos há, porém, de merecimento inegável embora, que cultivando um
só gênero exclusivamente, não têm conseguido neles êxito igual ao de Valentim Magalhães no cultivo simultâneo de muito?
Acrescenta Euclides:
Resumo o meu juízo: toda a obra literária de Valentim Magalhães pode
ter o título único de um de seus livros – Bric-à-brac. E a este propósito ouçamo-lo na esplêndida volubilidade de seu estilo disserto, referindo-se àquele
livro sem cuidar que fazia toda a sua psicologia literária:
[...] Pois esta obra é isto mesmo; é um amontoado de curiosidades literárias, e objetos de arte escrita... Junto a um conto comovido e sincero, um
trecho da sátira mordaz e irreverente; em seguida a um grito de entusiasmo,
uma caricatura a traço largo; depois de um surto amplo de fantasia caprichosa, um quadro exato e minucioso da vida social – Bric-à-brac. De manhã
à noite, em um só dia, o homem percorre toda a gama sentimental – enternece-se e lacrimeja; encoleriza-se e ruge; alegra-se e ri; enfara-se e boceja;
enamora-se e canta; indigna-se e satiriza...
A figura humana
A esse respeito diz Euclides:
Expressiva é aquela admiração delirante. Valentim Magalhães era excepcionalmente afetivo. Tudo lhe denuncia um nobre espírito impropriado a
agir sem os estímulos de uma ardente simpatia, vinculando-o às outras almas.
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Esta literatura associada que, em geral, a exemplo dos Goncourts, exige a
base da consangüinidade, ele a praticou como nenhum outro, reunindo um irmão legítimo, Henrique Magalhães (com quem escreveu uma paródia à Morte
de D. João), a Silva Jardim, a Filinto de Almeida e Alfredo Souza, nos laços da
mesma fraternidade. Não se conhece um livro sem uma dedicatória. São raríssimos os seus escritos dispersos, cujos títulos não tenham logo abaixo um parêntesis guardando o nome de um amigo. A admiração, que é o sintoma mais
lisonjeiro de um caráter, rompia-lhe sempre num enorme exagero. Admirou
daquele jeito Guerra Junqueira; admirou Camilo Castelo Branco, “polígrafo
indefeso, formidável, único”; admirou Ramalho Ortigão, “um mestre, senhor
de todas as verdades do mundo moderno...”; admirou Machado de Assis,
esse que arranca aos rígidos vocábulos
a música rebelde e fugidia...
admirou os seus próprios companheiros. Sendo preeminente na “nova geração”, não desdenhou fazer-se o garboso mestre sala, para apresentá-la ao país.
E o país conheceu-a, em grande parte, através da sua palavra carinhosa. Não
preciso exemplificar. No círculo daquela afabilidade irradiante e avassaladora
caíram os que chegavam pouco depois, desde Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e Olavo Bilac até aos mais obscuros escrevedores da província. A alguns cantou em verso, desde Carvalho Júnior, desaparecido tão moço e a quem
conhecemos apenas como um meinsinger loiro, alegre e extravagante, até alguém
que não preciso nomear, tão conhecido nosso é o
... que esculpido
Tem, sonhos, dores, alegrias
E é príncipe do Reino Unido
Das Harmonias.”
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Da capacidade de fazer amigos, mesmo à distância, aponte-se o depoimento
de Xavier Marques no discurso de posse nesta Casa:
Um dos fundadores desta Casa, Valentim Magalhães, cuja memória nesta
ocasião me é grato evocar, fez que eu, certa vez, cativo de sua insistência, lhe prometesse candidatar-me à primeira vaga que se abrisse na Academia. De ânimo
leve, um tanto fascinado, prometi. Mas apenas acabara de fazê-lo, tamanhos se
me afiguraram os óbices por vencer na íngreme subida a que me convidava o
amigo, que achei conveniente ir-me logo afeiçoando à idéia de uma evasiva, com
qualquer pretexto, no momento oportuno, isto é, no momento crítico.
Valentim Magalhães possuía, aprimorado, no melhor sentido da expressão, o espírito de camaradagem. Nunca lhe pude ouvir as razões que o induziram a considerar plausível a minha entrada, desde aquela época, para a
Academia. Pessoalmente nunca nos conhecemos. E somente em honra do
seu caráter afetivo assinalo a simpatia com que sempre me distinguiu o autor que, dezenove anos antes, estreara nas letras sob os auspícios de sua brilhante nomeada.
O tempo, para quem eu, com tão pouca fé pessoal e desvalido de “estro” havia apelado, deu a mais desconcertante resposta aos meus desígnios. Em março
de 1903 dizia-me em carta o saudoso acadêmico: “Escreva-me, dando-me notícias suas, e decida-se a apresentar-se à primeira vaga da Academia Brasileira.”
Em menos de dois meses, em 17 de maio, verificava-se a vaga. Era a de Valentim Magalhães...
Assim é que fui candidato, sem ilusões, quando razão não tinha para esperar
senão um junto revés: candidato por um desses motivos irraciocinados do sentimento, que às vezes nos levam a arcar com aparências audazes e emprestam
colorido extravagante, pretensioso, no caso, às ações mais inocentes.
Esta reminiscência é uma homenagem do coração devida àquele que, embora trocando pela justiça a liberalidade, primeiro cogitou de franquear-me este
egrégio cenáculo. Por exígua que seja, eu não a podia negar-lhe.
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E para EuclIdes:
A linha acentuada do caráter de Valentim ia de uma alevantada altivez a
uma robusta alacridade que o forrava aos rancores – embora não lhe faça a
grave injustiça de acreditar que ele fosse incapaz do ódio, que é muitas vezes
a forma heróica da bondade.
Mas este nunca lhe repontou nas polêmicas acirradas que travou e no
mais aceso das quais lhe refulgia a graça amortecendo ou falseando os mais
violentos golpes.
Foi, porém, o mais breve dos triunfos. Não que ao escritor diminuísse o
engenho, senão porque o surpreendeu um período anômalo da existência
política.
Dele citemos, afinal um auto-retrato aos vinte e seis anos:
Mas o que queres tu, meu Lúcio? Eu sou um nervoso, vivo pelos nervos;
preciso de atividade, de vibração, de variedade de aspectos, de área larga e
principalmente de carne fresca, de carne de vaca. Sofria de uma dispepsia
atroz, que a absoluta ausência de meio literário e de distrações agravavam
medonhamente.
Conclusão
No dia 13 de maio de 1903, à tarde, Raimundo Corrêa foi a Santa Teresa
em visita a Filinto de Almeida, e a esposa deste velho camarada recebeu-o, triste e apreensivo, com a notícia de que Valentim Magalhães estava gravemente
enfermo. Momentos depois chegou Filinto e partiram juntos, inquietos, para a
casa do comum amigo, que morava no Rio Comprido. Aí viram-no prostrado
no seu leito, vindo a falecer no dia 17 de maio.
202
203
Silva Ramos (1853-1930)
Acervo do Arquivo da ABL
Silva Ramos:
mestre da língua
Na p a s s ag em d o sesq u i c en t e n á r io d e
s e u na s c i m en to (6. 3 . 1 85 3 – 1 5 . 1 2 . 1 9 30 )
E v an i ld o B e c h a r a
O
último 6 de março assinalou a passagem do sesquicentenário de nascimento de um dos fundadores desta Casa, José
Júlio da Silva Ramos, vindo ao mundo, como quase tudo parece indicar, na cidade do Recife, em 1853.
Digo ‘como quase tudo parece indicar’ sua naturalidade recifense,
porque assim sempre a proclamou Silva Ramos, diante da curiosidade
de netos, intrigados que estavam do carregado sotaque lusitano que o
avô conservou pela vida fora. Para corroborar essa pequena ponta de
desconfiança existem alguns dados relevantes que um futuro biógrafo
seu terá de examinar com mais profundidade, entre os quais trago à
luz dois. Do arquivo da Universidade de Coimbra chegou-me a certidão de batismo do nosso homenageado,1 onde se declara que o ato religioso ocorreu aos 19 de junho de 1853, na Igreja da Conceição
Nova de Lisboa e que o pequerrucho José Júlio, filho de João da Silva
Ramos e de Emília Augusta Apolinário Ramos nascera em Lisboa.
Conferência
proferida na
ABL, a 6 de
maio de 2003,
durante o ciclo
Fundadores da
ABL.
1
Devo a pesquisa à minha colega Maria Aparecida Ribeiro, professora da Universidade
de Coimbra e diretora do Instituto de Estudos Brasileiros.
205
Ev a n ildo Bec hara
O outro dado, não intrigante como o anterior mas também não desdenhável, consiste na omissão do nome do nosso acadêmico no Dicionário Bibliográfico Brasileiro de Sacramento Blake, que não deixa de arrolar, em dois momentos, o pai pernambucano. É bem verdade que contamos com possível incompletude, lembrada pelo próprio operoso bibliófilo; mas estranha que
faltasse informação de um já professor do Colégio Pedro II (1898), de cujo
pai se ocupara Sacramento Blake com boa largueza de informações.
Mas não fostes convidados a esta sessão para uma escavação de ordem biográfica do nosso ilustre homenageado, e sim para revivermos juntos os
consagrados méritos que o guindaram ao quadro dos trinta primeiros que
pensaram e arquitetaram a construção deste cenáculo acadêmico, cada vez
mais respeitado e amado do povo brasileiro, como síntese harmoniosa de
sua pujança cultural e literária.
Acostumado e afeito às tertúlias literárias de sua longa permanência em
Coimbra e em Lisboa, e causeur cintilante que era, as reuniões da Academia,
ao lado de poetas, romancistas, críticos e jornalistas, traziam-lhe à lembrança e à saudade os doces momentos de convivência com João de Deus, Guerra
Junqueira, Cesário Verde e muitos outros. De tal modo lhe eram gradas as
sessões acadêmicas, que se inscreve entre os mais assíduos. Para terdes uma
idéia dessa assiduidade, basta-vos dizer que das 89 realizadas entre 1896 e
1908, sob a presidência de Machado de Assis, assistiu a 69, juntamente com
João Ribeiro, só atrás de José Veríssimo, com 79, e do presidente, com presença quase integral.2
Sua doação à Casa e o talento que seus confrades lhe conferiam devem,
certamente, ter pesado para que fosse, na sessão de 18 de janeiro de 1897,
eleito para ocupar o cargo de 2o Secretário com vista a integrar a primeira diretoria completa, juntamente com o 1o Secretário, Rodrigo Octavio.
2
Estatística levantada na tese de Cláudio Cezar Henriques Atas da Academia Brasileira de Letras –
Presidência Machado de Assis. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2001. (Coleção
Austregésilo de Athayde, vol. 2.)
206
Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
Nas homenagens que justamente lhe foram tributadas in memoriam, no seu
falecimento, ocorrido em 1930 e no transcurso do 1o centenário de nascimento, em 1953, os pontos de exaltação incidiram na sua produção de poeta, jornalista e tradutor, embora não lhe fossem esquecidos os méritos de excelente
filólogo e exímio professor de Língua Portuguesa.
Sobre Silva Ramos recaíam os votos da crítica de então elogiando o delicado poeta romântico com ressalto de sua veia lírica, denunciada na epígrafe de
Alfredo de Musset “L’amour est tout... Aimer est le grand point...” com que
abria seu único livro de versos, Adejos, publicado em Coimbra, em 1871, registrando-lhe os arroubos juvenis dos dezesseis aos dezoito anos. Ressaltava-se-lhe também o cronista encoberto no pseudônimo Julio Valmor de A Semana e outros órgãos da imprensa fluminense e, com não menos ênfase, o professor de nomeada, estimulador de estilistas e incentivador de futuros cultores
do idioma.
Os dotes de sua poesia, é bem verdade, foram exageradamente exaltados
pelo paulista que lhe sucedeu nesta Casa, o inspirado autor de Vida e Morte do
Bandeirante, Alcântara Machado. Outro ocupante da mesma cadeira n.º 37, sessenta e sete anos depois, com o peso de sua autoridade de excelente poeta, melhor os ajuizou. Eis as palavras do nosso confrade Ivan Junqueira no seu discurso de posse, acerca de Adejos:
[...] esses versos de Silva Ramos, além de irremediavelmente datados, refletem antes, ou tão-somente, os arroubos de um espírito ainda em ebulição
e as fundas influências que recebeu em Coimbra, as quais seriam decisivas
para a sua sólida formação de gramático e filólogo.3
Todos os discípulos que tiveram a honra de lhe assistir às aulas são unânimes em aludir ao amor ao idioma que inoculava em seus ouvintes, à interpreta3
Discurso de Posse de Ivan Junqueira e Discurso de Recepção de Eduardo Portella. Rio de Janeiro:
Academia Brasileira de Letras, 2000, p. 11.
207
Ev a n ildo Bec hara
ção reveladora das excelências lingüísticas escondidas nos textos literários e a
vivacidade com que, no sotaque lusitano, emprestava à leitura de trechos literários recolhidos na mais clássica e de bom gosto seleta escolar, a Antologia Nacional de Fausto Barreto e Carlos de Laet.
Silva Ramos perscrutava os meios estéticos de expressão utilizados nos textos literários, reconhecendo-lhes e decifrando-lhes ‘a indocilidade com que
eles recebiam a rigidez de normas inflexíveis’, para trazermos aqui uma frase
feliz do saudoso Barbosa Lima Sobrinho, em saudação à passagem do centenário do ilustre filólogo.4
Neste sentido são extremamente reveladores os depoimentos de seus numerosos alunos, entre os quais lembrarei apenas dois, o de Manuel Bandeira e o
de Sousa da Silveira, ambos filólogos que, já adultos, recordavam as aulas do
nosso homenageado a crianças do 1o ano da turma de 1897 do Ginásio Nacional, denominação, àquela fase republicana, do Colégio Pedro II.
Ainda hoje recordo – diz-nos Bandeira – a maravilhosa lição que foi a
leitura que fez da “Última corrida real de touros em Salvaterra”: não só tenho bem presente na memória o quadro objetivo da sala de aula, a atitude
dos colegas, a figura subitamente remoçada do mestre, a voz com todas as
suas inflexões mais peculiares, como também todas as imagens interiores
evocadas pelo surto eloqüente da leitura: o garbo e esplendor da ilustre Casa
de Marialva ficou para sempre dentro de mim como um painel brilhante.
Na verdade em um ponto da minha consciência quedou armado um redondel definitivo para essa última corrida de touros em Salvaterra, a qual nunca
deixou de ser uma das festas preferidas da minha imaginação. A tal ponto,
que longe de ser a última, passou a ser a eterna corrida de touros, eterna e
única, pois foi a primeira que vi – porque positivamente a vi! – e me fez
achar insípidas, mesquinhas, labregamente plebéias as verdadeiras touradas
4
Discurso do Presidente, Sr. Barbosa Lima Sobrinho. Sessão de 28 de maio de 1953. In: Revista da
Academia Brasileira de Letras, ano 52, vol. 85. Anais de 1953. Rio de Janeiro: ABL, 1953, pp. 237-240.
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Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
a que assisti depois com os olhos do corpo e não com os da imaginação excitada pelo gosto literário do mestre.5
O testemunho de Sousa da Silveira revela-nos o filólogo que aceita aquela
indocilidade à rigidez de regras inflexíveis a que atrás referi. Falando a Homero Senna acerca do mestre, lembra Sousa fatos de língua que já denunciam a argúcia do futuro comentador de textos:
Nesse primeiro ano do Ginásio encontro, entre os professores, Silva Ramos, de saliente e forte personalidade, embora disfarçada pela sua modéstia
e encantadora simplicidade. Posso dizer que foi ele quem primeiro me chamou a atenção para as belezas do idioma que falamos e para os recursos do
estilo. Lembra-me, por exemplo, que em classe fazia ressaltar as onomatopéias que se encontram na célebre página de Camilo referente ao suplício da
Marquesa de Távora. Na “Última corrida de touros em Salvaterra”, de Rebelo da Silva, entre muitas outras coisas, o velho mestre salientava a impressão de ansiedade que, em certa altura, se traduz pela sucessão de períodos
curtos. Também não me esquecerei jamais de que nos versos de Gonçalves
de Magalhães, relativos à descrição do Amazonas, indicou-nos o efeito dos
dois proparoxítonos usados pelo poeta para sugerirem a idéia de largura e
vastidão do rio:
Baliza natural, ao norte avulta
O das águas gigante caudaloso
Que pela terra alarga-se vastíssimo.
Ora... outro professor, a respeito de tais versos, nos teria dito que os nossos românticos não se preocupavam muito com a correção da língua e colocavam desordenadamente os pronomes. Censuraria, com certeza, Maga5
Manuel Bandeira, Poesia e Prosa. Vol. II, Prosa, pp. 1167-1168. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar,
1958.
209
Ev a n ildo Bec hara
lhães por ter colocado o pronome átono depois do verbo na oração subordinada relativa e ainda por cima depois de um adjunto adverbial. E não seria
de admirar que, se fosse versejador, sugerisse aos alunos uma emenda, substituindo um verso, como o de Magalhães, belo e sugestivo, por outro corretíssimo, do ponto de vista gramatical, mas sem nenhum poder de expressão.
Foi com Silva Ramos que adquiri o gosto do gênero de comentários que tenho feito à obra de alguns autores nossos e portugueses, de que pode servir
de exemplo a edição crítica que organizei das poesias de Casimiro de
Abreu... Esses comentários têm suas raízes nas lições do querido professor,
o qual lançou em meu espírito sementes que frutificaram... Sabia fazer com
que os alunos tomassem gosto pelo estudo da língua. E o mais importante...
é que lecionou à nossa turma apenas durante o ano de 1897. Mesmo assim,
pôde influir fortemente em meu espírito.6
Na oportunidade deste sesquicentenário desejo mostrar-vos, em modesto
bosquejo, um Silva Ramos eminentemente filólogo, no mais amplo sentido de
que se reveste o termo, com um embasamento teórico que raramente se encontra nos seus contemporâneos, numa época de formação superior autodidata
dentro de um momento histórico altamente renovador nos métodos de estudo
6
Apud Maximiano de Carvalho e Silva, Sousa da Silveira. O Homem e a Obra. Sua Contribuição à Crítica
Textual no Brasil. Rio de Janeiro: Presença / Pró-Memória / Instituto Nacional do Livro, 1984, pp.
11-12. Também a este mesmo propósito se manifesta M. Bandeira em carta a Alphonsus de
Guimaraens Filho, de 21 de fevereiro de 1942: “Não tenho no entanto a felicidade de estar fazendo
sonetos tão bonitos como esses que você me mandou. Imperfeições e deficiências? Sinceramente não
encontro nenhumas. O primeiro verso do primeiro soneto tem onze sílabas; e o quarto verso do
primeiro e do segundo soneto só tem nove. Mas depois da minha antologia romântica e da edição de
Casimiro, do Sousa da Silveira, um grande poeta e grande versejador como você não tem que dar
satisfações a ninguém: nós é que temos de descobrir, como eu e o Silveira fizemos, os motivos
secretos intuitivos que levam os poetas de verdade a pôr versos de 11 e 9 sílabas no meio de
decassílabos. No caso dos seus sonetos estão transparentes os tais motivos, e quando você morrer (o
que espera seja daqui a uns sessenta e tantos anos) e se fizer uma edição crítica de suas obras poéticas
há de aparecer um Sousa da Silveira para o interpretar e defender das possíveis cavalgaduras do fim
do século XX ... (Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Itinerários. Cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho.
São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1974, pp. 84-85.)
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Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
científico da linguagem e das línguas, especialmente modernas, cujo marco deflagrador, nas pegadas de Frederico Diez, se acha assinalado, em Portugal, a
partir de 1869, com a produção pioneira de Francisco Adolfo Coelho e, no
Brasil, em 1878, com a Gramática Histórica, de Pacheco da Silva Júnior e, em
1881, com a Gramática Portuguesa, de Júlio Ribeiro.
Silva Ramos, sem nos deixar uma obra orgânica sobre nossa língua, estava a
par dos princípios metodológicos mais correntes no seu tempo, princípios metodológicos a que chamava “estudos positivos dos fatos da linguagem [...] que
constituem a ciência das línguas”.7 Sabia a posição mais correta e operacional
em que deviam ficar tais princípios na tarefa de ensinar a língua a jovens estudantes ginasianos: por trás do mestre, orientando e disciplinando seu discurso
lingüístico e metalingüístico, e não fazendo desses princípios e das questões
complexas que envolvem o assunto da aula.
Graças ao empenho e iniciativa editorial de Laudelino Freire, podemos
contar hoje com uma coletânea de prosa, poesia e algumas lições de Língua
Portuguesa, vinda à luz em 1922, intitulada Pela Vida Fora. Caberá à Academia,
no prosseguimento da homenagem de hoje, reeditar em breve essa coletânea,
acrescida de outras lições esparsas em jornais e revistas, além de um opúsculo
que pouco parece na sua bibliografia, A Reforma Ortográfica e a Academia Brasileira
de Letras (1926).
Expôs seu ideário didático-pedagógico em mais de uma oportunidade; lembrarei uma de suas lições no artigo que escreveu para o número inicial da Revista
de Cultura, do Padre Tomás Fontes, em 1927, com o título de “Em ar de conversa”:
Toda nação tem o seu código de bem falar e escrever em que se instruem
os naturais até aos quinze ou aos dezesseis anos, e cada qual procura exprimir-se de acordo com ele, abandonando os problemas da língua aos filólogos e aos gramáticos a quem compete destrinçá-los.
7
Silva Ramos, Pela Vida Fora. Rio de Janeiro: Edição da Revista de Língua Portuguesa, 1922, pp. 75.
211
Ev a n ildo Bec hara
Entre nós, que sucede? Os estudantes de português e muitos dos que escrevem para o público descuram inteiramente da gramática elementar para
se interessarem pelas questões transcendentais: a função do reflexivo se, se
ele pode ou não figurar como sujeito, o emprego do infinitivo pessoal e do
impessoal, qual o sujeito do verbo haver impessoal e outras que tais cousas
abstrusas que nada adiantam na prática.
O apuro científico de Silva Ramos está presente em muitas de suas declarações sobre fatos da língua; um mergulho nelas, por superficial que seja, nos revela o princípio ou os princípios em que se assentam. Quando se alude ao mestre, logo acodem à lembrança palavras suas que se tornaram clássicas e assumiram até certo ar anedótico, como aquela afirmação: “Eu não sei como se colocam os pronomes, pela razão muito natural que não sou eu quem os coloca,
eles é que se colocam por si mesmos, e onde caem, aí ficam.”8
Por trás deste comentário aparentemente inocente, há um punhado de princípios metodológicos que cabe trazer à luz para análise. O primeiro deles é,
novidade àquela quadra dos estudos de linguagem, a introdução dos fatores de
fonética sintática e de entoação frasal como motivadores de fatos de distribuição de termos oracionais, especialmente do jogo de vocábulos tônicos e átonos
no boleio da frase. Não se tratava mais da famosa explicação por atração dessa
ou daquela palavra, mas sim pelos fenômenos de entoação, tema então recente
entre estudos de fonética praticados especialmente pelos lingüistas alemães,
revelados de maneira inovadora por M. Said Ali, em artigo na Revista Brasileira,
a 1 de março de 1895, de cuja lição só Silva Ramos soube extrair orientação
para seu magistério, pois não a vemos exarada nas melhores e mais correntes
gramáticas da época, que ainda insistiam na improdutiva e falsa teoria da atração vocabular.
Ainda nas pegadas de Said Ali e como corolário da nova teoria da entoação
frasal, pôde Silva Ramos compreender que, estando a distribuição dos prono8
Id., ibid., p. 119.
212
Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
mes oblíquos sujeita ao ritmo frasal e que esse ritmo era diferente entre brasileiros e portugueses, natural seria que a colocação não coincidisse nos dois espaços geográficos – o americano e o europeu. E mais: que o brasileiro teria direito a esse uso, recriminado pelos portugueses. Eis lição de Silva Ramos, em
1914, comentando os Novíssimos Estudos da Língua Portuguesa, de Mário Barreto:
Acreditamos, entretanto, que, quando o professor Mário Barreto se dispuser a tratar o assunto com a amplitude que ele comporta, a conclusão a
que terá de chegar, necessariamente, em face dos princípios da ciência que
tanto acata e venera, é que a situação do pronome átono na proposição, tanto no Brasil como em Portugal, é determinada exclusivamente pelo ritmo,
diferente numa e noutra região, consoante a tonicidade e o valor dos fonemas que não condizem aquém e além-mar.
O fenômeno é puramente de som, daquela fonética de que fala Brugmann, que considera a frase como “uma unidade fonética completa em si
mesma.9
Em 1907, na prova escrita do concurso a que se submeteu para preenchimento de cátedra do Colégio de Pedro II, não fora diferente a sua lição:
Seja como for, o regulador único da distribuição dos pronomes átonos
na locução brasileira é igualmente o ritmo, governado por princípios de que
os naturais do Brasil não têm a mínima consciência, como os que nasceram
em Portugal não a têm dos que regulam a cadência da locução portuguesa.
Ora, tentar reduzir o ritmo, o número, a cadência da linguagem brasileira ao
ritmo, ao número, à cadência da linguagem portuguesa é irracionável empreendimento. [...]
Ora, dependendo exclusivamente a situação dos pronomes átonos brasileiros da fonética peculiar ao Brasil, como se pôde originar essa preocupa9
Id., ibid., p. 82.
213
Ev a n ildo Bec hara
ção dos gramáticos e mestres do vernáculo, entre nós, de estabelecerem regras para a colocação daqueles elementos, de acordo com os hábitos do falar português, a ponto de ter o assunto servido de tema para uma tese de
concurso no Colégio de Pedro II?
Essa singularidade veio a gerar-se da maneira seguinte: José Feliciano de
Castilho, português, a cujo ouvido mal toava a construção brasileira, lembrou-se de censurar a José de Alencar pela forma por que ele usava colocar
os pronomes. Ora, se o ilustre escritor e crítico se tivesse limitado a afirmar
que a fraseologia do autor de Iracema se afastava, nesse particular, dos bons
modos da língua vernácula, nada haveria que lhe opor: ele, porém, não se ficou por aí: pretendeu sustentar, de clássicos em punho, que sempre eles
obedeceram a uma norma, na maneira como colocavam os pronomes; e entrou a deduzir regras. Foi o que o perdeu. Alencar defendeu-se galhardamente. Choveram de todos os lados contestações. A autoridade contrapunha-se autoridade, a citação retorquia-se com citação. Castilho quase perde
a cabeça [...] Os nossos gramáticos correram açodados a sancionar a doutrina de Castilho, estabelecendo regras que todas padeciam de fraqueza orgânica, visto como repousavam todas em considerações reportadas à sintaxe e
à morfologia, que nada têm que ver com a espécie: atração para o sujeito,
afinidade para as subordinativas, solicitação por parte das negativas, e quejandas relações, que deviam embaraçar muito seriamente [...] os que têm por
ofício manipular os acepipes literários.10
A visão científica com que Silva Ramos investigava a linguagem e os fatos
da língua portuguesa habilitara-o a tratar com a superioridade que não se encontrava nos gramáticos da sua época, ainda os mais bem informados, a existência das variedades de uma mesma língua histórica, diversificadas em diferenças cronológicas, regionais, sociais e estilísticas, em todas as dimensões de
concretização dos seus atos de língua. Está claro que se encontram em estu10
Id., ibid., pp. 222-224.
214
Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
diosos de todas as épocas percucientes intuições dessas variedades, mas não
fazem delas emprego operacional e funcional. Considerar uma língua não
como um bloco homogêneo e unitário, mas como um diassistema, vale dizer,
um complexo conjunto de variedades, é conceito bem moderno na ciência
das línguas. Silva Ramos, estilista e funcionalista avant la lettre, tirava partido
dessa realidade nos artigos sobre que doutrinava os adultos e nas lições em
que instruía os alunos.
Como as grandes figuras, estava a par das doutrinas em que se havia educado, mas não deixava de procurar aperfeiçoar conceitos e métodos. Assim é que
a lingüística antes do seu tempo se caracterizara pelas raízes do método evolucionista e naturalista, segundo cujos preceitos as línguas eram emparelhadas
aos organismos vivos, sob a égide das ciências naturais, que nasciam, cresciam,
se desenvolviam e morriam independentes da vontade dos homens.
Recebeu também Silva Ramos as luzes do método histórico-comparativo
alemão e a ele acrescentou o ideário sociocultural da escola do americano
Whitney. E mais avante acrescentou, já no final da vida e da ocupação magisterial, os ensinamentos incipientes do psicologismo francês de Ferdinando
Brunot, em La Pensée et la Langue, saído em 1922.
Registrem-se diferenças de visão da linguagem e das línguas nos dois excertos seguintes; o primeiro, datado de 1918, tipicamente fiel a um ideário naturalista em que a linguagem é uma proprietária biológica do homem. Neste sentido, vê como um processo fatalista de evolução as diferenças que se vão criando entre o português do Brasil e o português de Portugal, que haverão de favorecer o surgimento de um dialeto brasileiro independente:
O que particularmente nos poderia interessar a nós brasileiros, como se
depreende das consultas endereçadas freqüentemente aos professores de
português, era saber se está próxima ou remota a emancipação do dialeto
brasileiro, a ponto de se tornar língua independente.
A dialetação, como bem sabeis, é um fenômeno natural que a ninguém é
dado acelerar ou retardar, por maior autoridade que se arrogue; ao tempo, e
215
Ev a n ildo Bec hara
só ao tempo, é que compete produzi-lo. As línguas românicas foram dialetos do latim, um dos dialetos por sua vez do ramo itálico, dialeto ele próprio da língua dos árias; não pode haver, portanto, dúvida mínima, para
quem aprendeu na aula de lógica a induzir, que o idioma brasileiro, de dialeto português que ainda é, chegará a ser um dia a língua própria do Brasil.
Que poderão, entretanto, fazer os mestres neste momento histórico da
vida do português na nossa terra?
Ir legitimando pouco a pouco, com a autoridade das nossas gramáticas,
as diferenciações que se vão operando entre nós, das quais a mais sensível é a
das formas casuais dos pronomes pessoais regidos por verbos de significação transitiva e que nem sempre coincidem lá e cá; além da fatalidade fonética que origina necessariamente a deslocação dos pronomes átonos na frase, o que tanto horripila o ouvido afeiçoado à modulação de além-mar.
Consentiremos que os nossos alunos nos venham dizer que assistiram
festas, responderam cartas, obedeceram ordens, perdoaram colegas e que, em compensação, assegurem aos mestres que lhes estimam, que se lhes não visitam com
freqüência, é que receiam incomodar-lhes e que se lhes não saudaram na rua,
foi que lhes não viram?
Por mim, falece-me autoridade para sancionar tais regências, nem acredito que qualquer dos meus colegas se abalance a tanto. E, contudo, o que nenhum de nós teria coragem de fazer, hão de consegui-lo os anos que se vão
dobando lentamente.11
Em outro tom é o seguinte comentário, de 1919:
A língua não é um ser independente, não se pode desagregar de todos os
outros aspectos da atividade social a que está intimamente ligada, para se
considerar em abstrato; é uma resultante necessária da vida coletiva nas suas
infinitas modalidades. Se conseguirmos, portanto, assimilar as virtudes das
11
Id., ibid., pp. 178-179.
216
Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
atenienses, ático será o nosso dizer; se persistirmos em importar, à mistura
com os hábitos de elegância, os vícios, elegantes ou não, dos bárbaros e civilizados, proliferarão os barbarismos [= estrangeirismos], e se levarmos a
desídia ao extremo de nos abandonarmos, como os habitantes de Soles, segregados da Grécia culta num recanto da Cilícia, não há fugir aos solecismos e acabaremos todos por falar como a mucama que tanto me irritou. É
fatal.12
Por fim, cabe-nos falar da maior batalha que Silva Ramos travou nesta
Casa: a batalha da ortografia, a cuja vitória final chegou muitos anos depois de
morto, pelo peso científico dos princípios defendidos nos recuados anos de
1915.
Todas as discussões havidas nesta Academia sobre sistematização ortográfica, iniciadas com a proposta de Medeiros e Albuquerque aprovada na
sessão de 11 de junho de 1907, se caracterizaram por um empirismo e, como
conseqüência, por soluções que transgrediam muito do progresso já conseguido lá fora sobre os fundamentos científicos em que se deveria assentar um
tão razoável quanto possível sistema de representação na escrita do plano fônico da língua.
As primeiras luzes no domínio do português vieram com o aparecimento,
em 1904, da Ortografia Nacional, elaborada pelo competente foneticista e ortógrafo lusitano Gonçalves Viana. Aperfeiçoadas as suas recomendações com a
eliminação de alguns exotismos, as propostas de Viana serviram de base para a
reforma oficial da ortografia portuguesa de 1911. No Brasil, esta reforma simplificadora recebeu o beneplácito de Silva Ramos no seio da Academia, e no
magistério pela acolhida de Mário Barreto, Sousa da Silveira, Antenor Nas-
12
Id., ibid., pp. 119-120.
217
Ev a n ildo Bec hara
centes, Clóvis Monteiro e Jaques Raimundo, para ficarmos apenas com os
mais representativos professores do Rio de Janeiro.
Aceitando os argumentos técnicos do nosso homenageado, acolhe esta Casa
sua proposta de adoção da reforma portuguesa na sessão de 11 de novembro
de 1915. Essas núpcias entre as duas Academias duraram pouco, pois, em
1919, resolveram nossos confrades de então abandonar o acordo, pondo por
terra tudo o que se havia deliberado sobre a magna questão ortográfica. O retrocesso muito magoou a Silva Ramos, que resolveu não mais tratar do assunto com seus pares.
O argumento que nesta Casa se levantou contra a proposta incidia numa
falsa razão ainda hoje trazida à baila em debates dessa natureza: a lusitanidade
da pronúncia respeitada pelo acordo e tão natural ao autor de Pela Vida Fora.
Havendo diferenças visíveis na pronúncia de brasileiros e portugueses, era impossível um sistema gráfico único para as duas nações, justificavam.
Ora, falso o argumento, porque o sistema ortográfico não é essencialmente
fonético mas fonológico, isto é, só leva em conta as unidades fônicas que têm
valor lingüístico distintivo. Vale isto dizer que um vocábulo como menino, diretor ou também pode ser proferido diferentemente nas diversas regiões do Brasil e
de Portugal, mas só será representado na escrita, cá e lá, de uma única maneira.
E aí reside efetivamente a só responsabilidade de um sistema ortográfico. O
fato ocorre com toda língua espalhada no vasto território nacional ou entre
nações diferentes – como o espanhol, o francês, o inglês, o russo ou o árabe,
por exemplo –, mas para esses idiomas existe apenas um modo de se grafar a
grande maioria de seus vocábulos.
Entre brasileiros e portugueses ainda não se chegou a uma razoável unidade
porque se tem insistido em que o sistema ortográfico – argumento nem sempre verdadeiro – com a utilização excessiva de notações gráficas (como acentos, consoantes mudas e até o hífen) leva o falante a pronunciar “corretamente” as palavras dentro da diversidade fonética existente em todo o espaço da
lusofonia. Aqui está o calcanhar de Aquiles que tem impedido a tão sonhada
unidade gráfica no seio da Academia Brasileira de Letras e da Academia das
218
Si lva Ramo s : m e s tr e da l í n g u a
Ciências de Lisboa: quer-se uma unidade e se ameaça ela com os fatores da diversidade.
A proposta de 1915 de Silva Ramos e dos confrades que a subscreveram,
adotando o sistema oficial português, assinalaria o primeiro passo no sentido
da pretendida unificação. Posta em prática por largo tempo, viriam fatalmente
as emendas para se alcançar a unidade a que tanto aspiramos como um dos fatores de difusão da língua portuguesa no mundo.
Os argumentos de Silva Ramos contra propostas menos científicas acabaram vitoriosos com a aprovação do Formulário Ortográfico de 1943, revisto em
pequenas alterações de 1971, que consubstanciava a velha lição de Gonçalves
Viana.
De todo este percurso intelectual e acadêmico de Silva Ramos como filólogo abalizado e como mestre da língua exemplar resta-nos, nesta passagem do
sesquicentenário de nascimento, assumir o compromisso de levar avante sua
obra e suas lições.
219
Poesia
IVAN JUNQUEIRA
O que me coube
Pois foi só o que me coube:
o que eu quis e nunca houve.
o sonho que se fez logro,
como o daquele, o do Horto,
que na cruz pendeu exposto.
Foi só isto. E mais o açoite
que me vergasta o do aço do osso,
o vinagre, o fel na boca.
o céu ao reverso, torto,
e Deus, déspota, deposto.
Foi o sabor que me soube:
o da maçã, que era insossa,
o do vinho (azedo) no odre
e o do pão, estrito joio
sem trigo nenhum no miolo.
Poeta, crítico
literário e
tradutor, Ivan
Junqueira é
membro da ABL
(Cadeira 37).
Trabalhou na
imprensa carioca,
foi diretor do
Núcleo Editorial
da UERJ e
editor da revista
Poesia Sempre. Sua
poesia, desde Os
mortos (1964) até
A sagração dos ossos
(1994), está em
Poemas reunidos
(Editora Record,
1995).
221
IVAN JUNQUEIRA
Foi só isto o que me trouxe
a vida (essa morte em dobro
a quem faço ouvidos moucos),
além de uns parcos amores,
de um Pégaso avesso ao vôo,
de uma flébil flauta doce,
do corvo a chorar Lenora
e de Apolo aquele torso
a transmutar-se num outro.
Foi só. Mais nada. Acabou-se.
222
M ar c e l o D in iz *
Ócio
O sono não aguarda pautas
e, no espelho, um canto de quarto,
uns retratos que ninguém olha.
O sol novamente se arrasta,
* Poeta, letrista e
professor,
doutorando em
Letras pela
UFRJ.
confere o cálculo e se afasta
sem deixar vestígio de glória.
As palavras todas na página
e aquele mesmo armário aberto,
aquele mesmo espelho absorto.
Se a luz traduzisse em segredo
a distensão dos semitons,
cada nuança de sua incidência
oblíqua e filtrada, a modorra
teria o dorso de uma fêmea.
223
Marcelo Diniz
Marcelo Diniz
M a rcelo Di ni z
Agulhas
Não precipitemos as
coisas; essa vertigem
que parece insuflar
fôlego, palpitação
ao inanimado ainda
é muda, saibamos
perceber esse estado.
Não devotemos ainda
às pedras ou a qualquer
outro ente que nesse
perímetro nos afete
o discurso esperado
do cosmos, não estimemos
apelos dos astros no que
ainda é simples vibração
inaudita e presente
nesse íntimo espanto.
Sintamos apenas – não
denominemos o amor –
na língua as agulhas
do instante translúcido,
o conteúdo evanescente
após estourada a fina
esfera de toda metáfora.
224
Lena Jesus Ponte*
Soneto volátil
Pra onde vão os seus olhos, pra que pontos de fuga,
ariscos galopes em savanas africanas?
Pra onde escorre esse rio sem leito, incontido,
por que grotas se infiltra, rolando entre seixos?
Pra que estranhos planetas seus olhos viajam
de inabitáveis mundos, inóspitas paisagens?
Em que profundos universos abissais
nadam fosforescentes enguias submarinas?
* Formada em
Letras (UFRJ),
professora de
Língua
Portuguesa,
publicou entre
outros livros:
Meu mundo
(1965), Revelação
(1983) e O corpo
da Poesia (1992).
Como escapam, mercúrio, dos dedos fugindo...
Segredos ou medos por trás das cortinas
preservam cativos sentimentos despidos.
Saltitam seus olhos por sobre reticências...
não param no ponto onde habitam meus olhos,
meninos aflitos rompendo distâncias...
Neve sobre brasa
A pele da matéria vida
descasca ao sol.
Sem protetor, se expõe por inteiro
225
Lena Jesus Ponte
Lena Jesus Ponte
Lena Jesus Ponte
a cidade suada, em carne viva.
Um câncer social se adivinha,
se avizinha. As calçadas gritam.
Em gabinetes refrigerados,
o ar condicionado dos economistas
transforma em estatística
o que se mostra víscera.
Agoniza o corpo urbano
sob o olhar gelado das teorias.
226
Ildásio Tavares*
Restos
Há um resto de noite pela rua
que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
que antes de ser se foi, já não existe.
* Poeta, contista,
romancista,
tradutor e crítico
baiano. Entre
outros livros,
escreveu O canto
do homem cotidiano,
Roda de fogo, Nossos
colonizadores
africanos, O amor é
um pássaro selvagem.
Há um resto de ontem nas calçadas
que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
que nunca pude ser inteiramente.
I
O pavão
é cauda e cor
em ação,
tumulto de luz em desperdício.
227
Ildásio Tavares
Ildásio Tavares
Ildásio Tavares
Passo de pose, orgulho ao sol
beleza em vão
entre os demais,
o pavão
faz burguesia nos quintais.
II
O Pavão
come do milho em comunhão
para um depois de
garbo
e só.
Carne também,
destino ao prato,
o pavão
(enquanto assiste à degola, à depenação)
garante a vida
por decoração.
228
Hildeberto Barbosa Filho*
Distonia poética
Por mais que escave
a caverna dos fonemas;
por mais que explore
as entranhas da linguagem.
Por mais que revolva
as vísceras da página,
não há palavras
para o poema.
* Poeta e
ensaísta,
diplomado em
Ciências
Jurídicas e
Sociais e em
Letras. Alguns
ensaios
publicados:
Aspectos de Augusto
dos Anjos, Ascendino
Leite: paixão de ver e
de sentir, A
convivência crítica e
As ciladas da escrita:
aspectos da literatura
paraibana.
Nem mesmo o tédio
que se estende às tardes
de domingo;
nem mesmo a distonia
que me alaga a maldita
segunda-feira
devolvem-me o sabor
das frescas imagens
com que devo lavar e polir
a pele do poema.
229
Hildeberto Barbosa Filho
Hildeberto Barbosa Filho
Hildeberto Barbosa Filho
É cruzar os braços e sucumbir
ante a impotência dos vocábulos
e uma vez mais
morrer de silêncio.
Insônia
Todas as noites pastoreio
as novilhas da insônia
em pastas de morto leito.
Toco suas mandíbulas de onça
devassa que me devasta o sangue
e a alma.
Conto os algarismos
de sua garupa insensata,
nervo de canina ruminação.
Meu pensamento bóia
nas cisternas da insônia
como um peixe sufocado e órfão.
Como salvar-me
dessa gleba desolada?
Esculpindo
Imagens de outra amada
ou plantando estacas de sal
na carne do poema.
230
Foed Castro Chamma*
Inverno
Juntos viajamos ao confim dos tempos
desfrutando o sabor de teu hálito e o toque
delicado das mãos que me fogem
quais aves transparentes neste inverno
que pede o teu calor análogo ao mosteiro
cercado pelo gelo de uma Sibéria polonesa
e sobre o banco a monja deitada e o exorcista
a imprecar ao demônio que a abandone reeditando
a mística da Dor. O aconchego no inverno
atrai o fogo da carne ao amoroso que a vida
celebra na matéria onde germina o bálsamo
que vivifica as forças combalidas pelo gelo
da mortificação, o gelo de uma amora acesa
em ímpetos de labaredas invisíveis
que se ocultam e são as rosas de um jardim
florescente que Deus aguarda e rega as folhas
tépidas de Joana a negar o fragor crepitante
do gelo entre os galhos encobertos
pela fria, dolorosa estação.
* Poeta, ensaísta,
membro do
Grupo Jornal de
Poesia. Publicou
Melodias do estio,
Iniciação ao sonho,
O poder da palavra,
Labirinto, O
andarilho e a
aurora, Pedra da
transmutação, Sons
de ferraria, Navio
fantasma e o
ensaio Filosofia da
arte.
Rompe os parâmetros que se impõem ao Fogo
o ímpeto avassalador da Aliança concebida
entre os pares que no aconchego dos corpos
231
Foed Castro Chamma
Foed Castro Chamma
Foed Castro Chamma
suprem a imposição polar da álgida calota
de uma Antártida a reeditar o fogo branco
da Patagônia da nossa solidão
sombria em que afundamos exauridos
da ausência da alma e a liturgia necessária
ao conforto dos lábios afogueados sob o pêlo
de uma áfrica que o Continente de cocada
e sumo interminável a metáfora agasalha
qual imagem afogueada de assombro
e rapto ao confim dos tempos
no leito que convém aos corpos insubmissos
voltados para a dança e seus quadrantes
amorosos que as estações renovam
a cada inverno, a cada canto
consagrado ao rito da Natureza
que os anos celebram, os momos, as legiões
com suas listas de duas cores como as zebras.
Visões da fé não aquecem o corpo místico
da Dor que os braços enlaçados
buscam suprir na viagem sem retorno
afogueada do desejo e a impressão canina
da fome que avassala os nossos corpos
na contradição terrível que acompanha o Amor
e o inverno não aplaca em seus desígnios
paralelos. O brilho do diamante é de uma estrela
em miniatura que o pensamento induz
à relação do espírito a transfigurar-se
na compleição do homem tal um deus
cuja remota salvaguarda é a virtude
do herói que transforma o Arquétipo
em mito.
232
Foed Castro Chamma
O Inverno (c.1786)
Francisco Goya (1746-1828)
Óleo sobre tela, 275 x 293
Madri, Museu do Prado
233
Foed Castro Chamma
França Júnior
Paisagem (1877)
Óleo s/madeira, 16 x 24 cm
José Joaquim da França Júnior (Rio de Janeiro, RJ, 1838 – Poços de Caldas, MG, 1890) é
o patrono da Cadeira 12 da ABL.
Exerceu a advocacia, ocupou cargos públicos e dedicou-se ao jornalismo, à produção de
folhetins e textos teatrais e, a partir de 1873, começou a se interessar pela pintura,
tornando-se excelente paisagista. Participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1884, em
Paris, e realizou mostras individuais, em 1889, na Casa de Wilde e na Galeria Glace
Élégante, no Rio de Janeiro.
234
Geraldo Holanda Cavalcanti*
FIM DE VERÃO EM ITAIPAVA
1.
O azul é mais limpo
tem mais viço o espaço
se é início de março
Leio os verdes da mata
que a montanha escala
e de aquarela faço
Um gavião no alto
abre seu paraglide
e finge que flutua
mas a sombra na relva
a presa amedronta
que célere se oculta
Uma cigarra insiste
um cachorro protesta
uma andorinha passa
sussurra o pintassilgo
a cambaxirra pia
na asa do ipê
Geraldo Holanda Cavalcanti
Geraldo Holanda Cavalcanti
* Poeta,
diplomata.
Membro do
PEN Clube.
Publicou O
mandiocal de verdes
mãos (1964), O
elefante de Ludmila
(1965) e Poesia
reunida (2000).
Geraldo Holanda Cavalcanti
Impertinente o sabiá
desafiando o poeta
canta no lugar certo
e o meu verso infecta
2.
Minha piscina imita David Hockney
e a cada instante espero ver soltar-se]
da teia de luz a presença numinosa
que faz do instante inopinada
epifania
3.
Uma rapsódia de cores invade o ar
São as trombetas da solaridade
surgindo do pomar;
um oboé se esgueira,
um corne inglês desperta
um bandolim se afina
são a cadenza da nêspera,
o smorzando do abacate
e na miçanga escarlate
o pizzicato das pitangas
Mas Zora se agacha e mija em minha frente
4.
Uma lagartixa me repta
das divagações cromáticas
236
Geraldo Holanda Cavalcanti
com impacientes meneios
desvia-me o tento
Há outro cenário oculto
parece dizer-me
e atrás da escada some
E em vez da mata clara
outro mundo descubro
onde o meio-dia é escuro
mundo cujos ruídos
não são para meus ouvidos,
onde mais curto é o diálogo
entre a luz e a sombra
e outro metro define
a proporção dos seres
Nele
um grilo manco se esbate
prisioneiro exangue
de um harém de formigas
237
Helena Ortiz*
Ante-sala
* Coordenadora
do projeto
Panorama da
Palavra, que
apresenta
talentos da
poesia brasileira
e o jornal de
literatura
Panorama.
Publicou o livro
de poesia Ímpar,
na série Pintores
e Poetas (da
Telemar).
A noite passa lenta e fluorescente
purgam feridas
sobre a cama metálica
equipada para gestos mínimos
o corpo é vasto para delírios
e flutua inflado
pelos limites do quarto
onde se esgota
úmido
cada vez mais longe
da porta
Poemas
P au l o B o m f im
Apelo
...Mas deixai-me poetar
Em nome dos que não sonham,
Dos que calçam desespero
Em percursos cotidianos,
Dos que cruzam confluências
Com pára-brisas de tédio,
Dos fugitivos, nos bares,
Dos vencidos que se amam,
Dos inocentes que esperam.
...Mas deixai-me poetar
Neste esvair sem sentido
Com palavras indomadas,
Ou com vocábulos mansos.
– Que eu cante a vida que passa
E os destinos sem destino
– Que eu cubra de redondilhas
As damas da madrugada,
Jornalista e
poeta, estreou
em 1947 com o
livro Antônio
Triste (prefácio
de Guilherme de
Almeida). Autor
de vária obra,
traduzida para o
alemão, francês,
inglês, italiano e
espanhol. É o
decano da
Academia
Paulista de
Letras.
239
Pa ul o Bo mfi m
E meus versos sejam potros
Onde as crianças galopem,
Lona de circo estelante
Vestindo a fome do mundo,
Valsa brisa em realejo
Na esquina dos desencontros.
Sei da lógica das máquinas,
Das avenidas neuróticas,
Do roubo das alvoradas
E dos anjos que se matam.
Sou feito de tudo e nada.
...Mas deixai-me poetar!
Canto-cântaro
De que argila foste feito
Canto cântaro de amor?
Em que torno te tornaste
Dona e duna, chão e pluma!
Com que mármore marcaste
O perfil das alamedas?
Céu de selva onde caminho
Sem possíveis salvações!
Qual o sol por soletrar
Teus bizarros compromissos?
Ah! cilada tão silente,
Tecla solta em cravo rubro!
Fiandeira onde me fio
Dedos-dédalos danando:
– Se sou chuva é porque morro,
Canto-cântaro de amor!
240
Poemas
Soneto I
Não busco especiarias, sou apenas
Um corpo transformado na paisagem,
Barco de amor e morte, céu de penas,
Vôo tinto de rumos e ancoragem.
Se pastoreio estas contradições
Que são agora carne e pensamento,
É porque trago a noite e seus violões
A percorrer os quarteirões do vento.
Dos passos estrangeiros crio o mapa
E a bússola escondida na lapela,
O resto é chuva desenhando a capa
Que jogo sobre o corpo da procela.
Não busco especiarias. Sou somente
A mesa posta e o convidado ausente.
Soneto X
Os dormentes da estrada inda galopam.
Não são potros, nem rios, nem fazendas
Onde chegar com malas e moendas
De triturar vazios, e onde tocam
Sanfonas em varandas que hoje evocam
Os mortos, as partilhas, as contendas.
São apenas dormentes, quase lendas,
Demandas e fronteiras que provocam
O cismar de meninos já crescidos.
Só paisagens subindo na mangueira,
E apitos em mourões apodrecidos.
241
Pa ul o Bo mfi m
Não são rios, nem potros, são crianças
É fumaça vestida à marinheira:
– Sonhai, dormentes! silenciai, lembranças!
Soneto XIII
A legenda se impõe e os alaúdes
Salmodiam os feitos de ninguém,
O périplo dos dias se derem
Em trirremes de nobres atitudes.
Submersas as canções e os rostos rudes,
As ânforas partidas não retêm
O elã de continuar, e tudo além
É ímpeto morrendo nos açudes.
Na túnica do mundo vagos sóis
Relembram faunos, armas, inventivas,
E sortidas de deuses e de heróis.
A voz do coro é um eco desumano.
Captamos no desterro e nas derivas,
Algo sagrado e muito de profano.
Soneto XVIII
Nós, senhores de léguas, donatários
Do tempo que é sertão; de muitas milhas
De costa, herdeiros recebendo as filhas
Da terra descoberta em rumos vários
242
Poemas
Mal sabemos de nós, os perdulários,
Os que esbanjam lonjuras em guerrilhas,
Fidalgos de alma ruiva, reis de quilhas
E proas aportando calendários.
Nós, senhores de léguas, e mendigos
Da chama de um momento onde pervagam
Os serros, os cocares inimigos.
E o fim, senda e regresso, pluma a arder
No gorro audaz, e os passos que se apagam
Em sesmarias do deixar de ser!
Soneto XX
Um rei sem dama surge do baralho
E põe-se a galopar pela campina.
Nem a cota de malha nem a fina
Armadura retém-no sob o pálio
De nuvens que relincham pelo atalho
De chuva. Só a espada desatina
Os elementos, brilho que destina,
Metal de caos que ordena o impulso falho.
Cerco de olhares, lanças que fulguram!
Algo salta o baralho e em realeza
Suplanta seus barões e a rude tropa.
Senhor e palafrém se transfiguram:
(Os jogadores são de pedra à mesa)
Coroado de si mesmo um Rei galopa.
243
Pa ul o Bo mfi m
Soneto XXII
Inspiro a casa, os livros, e este vento,
As formas e as essências que hoje habitam
O chão do inundo. As forças que me ditam
Seus destinos de carne e pensamento.
Pelos caminhos do ar, renovo e invento
A vida que me cerca. Noites gritam
Nos olhos estrelados, que me fitam,
Desperto em mim, e esse acordar é lento.
Recrio o amor, as árvores frondosas,
O castelo perdido, o pão, a bruma,
A idéia do cristal, o som das rosas.
Quando sinto que o sol desperta a imagem,
Morro com ar que se tornou espuma,
Sopro a palavra no papel paisagem.
Soneto XXIV
Agora, peço muito que me ajudes
A retornar ao ponto de partida,
Novos olhos revejam minha vida
Antes que ela transborde dos açudes.
Despirei nesse instante as atitudes,
Minha roupa de estrelas já cerzida,
O chapéu de alvoradas e a esquecida
Capa de chuvas e de ventos rudes.
244
Poemas
Comigo ficarão unicamente
Os versos que escrevi e as derradeiras
Flores que desfolhaste em minha mente.
Depois, no grande espelho, a tarde é calma:
– Saber que passo além destas fronteiras,
Com meus disfarces já cobertos de alma!
De tudo quanto amamos
De tudo quanto amamos o que resta,
O riso desbotado dos retratos,
A talagarça dos momentos gratos
Ou a tristeza desse fim de festa?
Ficou por certo a ruga em nossa testa
Inventariando feitos e relatos,
E vozes e perfis somando fatos,
E a desfocada imagem da seresta.
E tudo o fogo aluga em canto findo,
Este porque de coisas devolutas,
E o tempo nômade que foi partindo.
Ficou de quanto amamos nos escolhos
A restinga das horas dissolutas,
E o mar aprisionado em nossos olhos!
245
Pa ul o Bo mfi m
Do menino
O menino, caminho de lembranças,
Bate a bola do mundo pela rua;
Traz cafezais nos bolsos, traz a lua,
E não encontra mais outras crianças!
Indaga das esquinas de águas mansas,
Do espectro dos sobrados, da falua,
Dos fastos que se foram, da alma nua
Que se vestia outrora de esperança.
O neto se disfarça em seus avós,
Retrato de memórias redivivas
E cantochão dos que ficaram sós.
Um menino entardece em suas fugas:
Que mãos o aprisionaram, tão esquivas,
Pássaro-tempo no alçapão das rugas!
Um dia
Um dia partirei com minhas malas,
(Espaços que carrego pela vida),
Com pássaros-gravatas e a medida
Do verde exato para tantas galas.
E quando me cansar de carregá-las,
Nelas colocarei a despedida,
A cantiga de amor mais pressentida,
O vôo do silêncio e as grandes falas.
246
Poemas
Irão cheias de sol, de bom agouro,
Com vastas solidões e meus remédios,
E bois pastando a mansidão do couro.
E quando alguém gritar na noite nua:
– Lá vai o poeta carregando tédios!
Deixai-me prosseguir de rua em lua.
247
João de Barros (c. 1497-1570)
Gravura de Teodoro A. de Lima.
Ligado à corte portuguesa, João de Barros foi Feitor da Casa da Índia por 35 anos.
Nessa posição, pôde consultar documentos e colher relatos de marinheiros e comerciantes
do Oriente. Foi o primeiro historiador português a documentar-se de forma sistemática.
Nas Décadas, obra oficial, encomendada por D. João III, seguiu o modelo de Tito Lívio.
Só publicou três Décadas da Ásia (1552, 1553 e 1563), obra que influenciou Luís de Camões
ao escrever Os Lusíadas. O continuador da obra foi Diogo do Couto (1542-1616).
Guardados d a M emó r ia
À margem das décadas
Sylv i o B. P e r e ir a
D
os clássicos portugueses que floresceram no século XVI,
João de Barros é, por todos os respeitos, um dos mais abalizados, o único, porventura, que, pela gravidade da narração, pureza
de estilo e opulência de linguagem, pode ser lido, ainda mesmo por
aqueles que se não dedicam ao estudo da língua através dos seus monumentos literários, sem que, em pouco, o livro, por falta de sabor,
lhes caia nas mãos. De feito, ele nas Décadas – a mais primorosa obra
do insigne cronista das glórias portuguesas na Ásia – muito que
aprender, e louvar, porque ao copioso do vocabulário se ajunta a admirável propriedade das palavras; as pompas de estilo, correntio, desafetado, insinuante, o alevantado quilate das vozes; a sintaxe que, de
fora parto certos archaismos de construção, e muito de imitar, o polimento e a técnica, perfeita do todo.
A João de Barros não tem faltado panegiristas, que ele os houve
grandes em cópia e qualidades. Mencionaremos de caminho e para o
leitor desafeito ao trabalho de tais coisas, apenas o nome e parecer de
alguns. Frei Antônio de São Romão, diz Agostinho de Campos na
Artigo Publicado
no Jornal do Brasil,
30 de janeiro de
1925.
249
À margem das décadas
Syl v i o B. Perei ra
sua Antologia Portuguesa, chama-lhe, com assaz de justiça, o Tito Lívio Português. Dom Fernando Alvia de Castro o compara, com não menos acerto, ao famoso autor da Ilíada. Francisco José Freire (mais conhecido talvez por Cândido Lusitano) discorrendo, nas Reflexões, acerca dos clássicos de sua terra,
dá-lhe, entre outros gabos, o título de Mestre da Linguagem Portuguesa. Para
Antônio Pereira de Figueiredo, João de Barros é aquele, em que mais reluz a
eloqüência da Língua Portuguesa considerada no seu fundo e que assim merece Barros ser o Escritor, de cuja lição mais se aproveitem todos os que aspiram
a falar bem a mesma língua. Nicolau Antônio chamou ao estilo de tão claro
historiador luculenta oratorio, Levianae aemulae, etc. Cícero, se fora seu contemporâneo, ou póstero chamar por certo illustris oratio.
Muito longe iríamos no enumerar dos louvores a tão conspícuo escrito, a
quem cabe a honra de haver disciplinado e polido a linguagem, enfadonha e
desataviada, dos Cancioneiros e das crônicas, que eram então os melhores monumentos literários. Outro, porém, é o nosso intento. Da leitura, paciente e
atenta, de tão pomposa obra, vimos tal curiosos exemplos do falar antigo –
muitos dos quase, por obra de um feliz e sensato ressurgimento, começam a
aparecer nas obras de alguns bons escritores daqui e de Portugal – que pensamos não haja malbarato de tempo no transcrever de parte deles. Poucos são
certamente os que, nestes tempos, se entregam a leitura e análise dos nossos
clássicos. É verdade, e verdade de todos conhecida, que os Luíses de Sousa e os
Vieiras, com seres de muita castiça e elegante elocução, fazem ao abandono, na
poeira das bibliotecas, onde, só de raro em raro, um ou outro estudioso, andando, no novo garimpeiro, á carta do ouro do genuíno e são dizer português,
os arranca para o sempre proveitoso manuseio.
Tamanha desafeição aos velhos e colendíssimos mestres é tanto mais de estranhar quanto é grande o número dos que por ali andam a jactar-se de sabedores de português.
Este trabalhinho – fruto das nossas vigílias após os labores cotidianos – é
mais que modesto e não sonha por si as honras de artigo. Não é nenhuma novidade o que vamos dizer, com permissão dos doutos, cuja benignidade pedi-
250
À m a r g e m da s dé c a da s
mos, e cujas observações acolheremos com sumo prazer. Pensamos, todavia,
que há muitas causas antigas, que, pela excelência do seu paladar, devem de
quando em quando, ser memoradas, por que não as desfaça e inutilize o esquecimento.
Muitas palavras, entre as de que vamos apontar algumas acepções pouco conhecidas para quem não se dão o convívio dos livros, são muito encontradas
em qualquer dos vinte e quatro volumes (edição de 1778) de que se compõem
as Décadas, incluídas neste número as que foram prosseguidas por Diogo do
Couto.
O substantivo golpe, fora o sentido por que é hoje geralmente conhecido, tinha também, e tem ainda, o do partitivo grupo, porção, certo número de homens, segundo se contém nos nossos bons Dicionários, e nos revelam os seguintes exemplos:
“Peró isto aproveitava já bem pouco, porque ante de sua vinda eram passados alguns Mouros de cavalo com um golpe de gente de pé...”
(Déc. II, L. VI. Cap. VIII, p. 119)
“No qual tempo veio dar com Jorge Botelho, que andava esgarrado dos outros Capitães, um golpe de gente de refresco...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 327)
“Andando este conflito às escuras da fumaça da artilheria um pequeno espaço, em quanto os nossos se detinham no subir da estância; tanto que um golpe
deles se fizeram senhores dela, assim descoseram na carne dos inimigos, que os
meteram a ambos em fugida...”
(Déc. III, L. II, Cap. II, pp. 124-125)
De Frei Luís de Sousa temos dois exemplos idênticos, que colhemos, á ventura, nos Annays de El Rei D. João III:
251
Syl v i o B. Perei ra
“Ordenou primeiro que tudo meter dentro na fortaleza um bom golpe de
gente para dous efeitos:
(Obr. cit. L. III, Cap. XIII, p. 167)
“Em 23 de março deste ano... apareceu antemanhã Laxamena sobre o sítio de
Upa, que junto á povoação dos mouros, e lançou em terra um golpe de gente.”
(Ibid., L. III. Cap. XIV, p. 172)
Na História de Portugal do “severíssimo” Alexandre Herculano encontramos:
“Doze golpes de gente, de dez soldados cada um, subiriam assim sucessivamente ao muro...”
(Ob. cit. Vol. I, L. II, p. 364)
A palavra té (que se não deve confundir com a preposição té com aférese do
a, muito usada assim na poesia como na prosa) com o sentido adverbial de cerca, pouco mais ou menos, aproximadamente:
“Em guarda da qual tranqueira deixou Affonso Pessoa com té setenta homens...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 322)
“...e depois de enxotar o grande número de gente que consigo tinha que poderia, ser té seis mil almas...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 325)
O substantivo camello servia para designar uma peça de artilharia.
“... mandou pôr uma barcaça com um camello, e outras seis peças pequenas de
metal...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 322)
252
À m a r g e m da s dé c a da s
“Pote Quetir porque quando a sua gente vinha cometer a tranqueira recebia
mais dano do camello... que dos espingardeiros de Affonso Pessoa...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 322)
“... somente ficou um bombardeiro que tirava com o camello que levaram
para se servir dele neste mister...”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, p. 323)
“E quando foram dar com o camello... acharam o cepo dele todo cheio de sangue, e segundo se soube, era por cortarem ali a cabeça ao nosso bombardeiro.”
(Déc. II, L. IX, Cap. I, pp. 328-329)
No primeiro destes quatro exemplos, o substantivo camello está escrito com
dois ll enquanto nos demais figura com um só, grafia esta que parece ser a adotada pelo autor. Tal dualidade ortográfica supomos deva ser levada à conta de
mero descuido de impressão.
Da conjunção senão com o sentido preposicional de exceto topamos o seguinte exemplo:
“... andava o mar tão alevantado, que soçobrou o esquife, e todos se salvaram, senão ele...”
(Déc. II, L. VIII, Cap. VI, p. 313)
Do substantivo cor com a acepção de vontade, desejo, houvemos à mão também
um exemplo:
“E porque já com esta cor de nos lançar de Malaca...”
(Déc. II, L. IX, Cap. IV, p. 354)
Muito e muito temos ainda que dizer, porque a matéria é substanciosa, e a
fonte que ela fornece inesgotável. Hoje, porém, contentemo-nos com o que já
dissemos.
253
PATRONOS, FUNDADORES E MEMBROS EFETIVOS
DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
(Fundada em 20 de julho de 1897)
As sessões preparatórias para a criação da Academia Brasileira de Letras realizaram-se na sala de redação da Revista Brasileira, fase III
(1895-1899), sob a direção de José Veríssimo. Na primeira sessão, em 15 de dezembro de 1896, foi aclamado presidente Machado de Assis. Outras sessões realizaram-se na redação da Revista, na Travessa do Ouvidor, n. 31, Rio de Janeiro. A primeira sessão plenária da Instituição realizou-se numa sala do Pedagogium, na Rua do Passeio, em 20 de julho de 1897.
Cadeira
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Patronos
Adelino Fontoura
Álvares de Azevedo
Artur de Oliveira
Basílio da Gama
Bernardo Guimarães
Casimiro de Abreu
Castro Alves
Cláudio Manuel da Costa
Domingos Gonçalves de Magalhães
Evaristo da Veiga
Fagundes Varela
França Júnior
Francisco Otaviano
Franklin Távora
Gonçalves Dias
Gregório de Matos
Hipólito da Costa
João Francisco Lisboa
Joaquim Caetano
Joaquim Manuel de Macedo
Joaquim Serra
José Bonifácio, o Moço
José de Alencar
Júlio Ribeiro
Junqueira Freire
Laurindo Rabelo
Maciel Monteiro
Manuel Antônio de Almeida
Martins Pena
Pardal Mallet
Pedro Luís
Porto-Alegre
Raul Pompéia
Sousa Caldas
Tavares Bastos
Teófilo Dias
Tomás Antônio Gonzaga
Tobias Barreto
F.A. de Varnhagen
Visconde do Rio Branco
Fundadores
Luís Murat
Coelho Neto
Filinto de Almeida
Aluísio Azevedo
Raimundo Correia
Teixeira de Melo
Valentim Magalhães
Alberto de Oliveira
Magalhães de Azeredo
Rui Barbosa
Lúcio de Mendonça
Urbano Duarte
Visconde de Taunay
Clóvis Beviláqua
Olavo Bilac
Araripe Júnior
Sílvio Romero
José Veríssimo
Alcindo Guanabara
Salvador de Mendonça
José do Patrocínio
Medeiros e Albuquerque
Machado de Assis
Garcia Redondo
Barão de Loreto
Guimarães Passos
Joaquim Nabuco
Inglês de Sousa
Artur Azevedo
Pedro Rabelo
Luís Guimarães Júnior
Carlos de Laet
Domício da Gama
J.M. Pereira da Silva
Rodrigo Octavio
Afonso Celso
Silva Ramos
Graça Aranha
Oliveira Lima
Eduardo Prado
Membros Efetivos
Ana Maria Machado
Tarcísio Padilha
Carlos Heitor Cony
Carlos Nejar
Rachel de Queiroz
Cícero Sandroni
Sergio Corrêa da Costa
Antonio Olinto
Alberto da Costa e Silva
Lêdo Ivo
Celso Furtado
Alfredo Bosi
Sergio Paulo Rouanet
Miguel Reale
Pe. Fernando Bastos de Ávila
Lygia Fagundes Telles
Affonso Arinos de Mello Franco
Arnaldo Niskier
Marcos Almir Madeira
Murilo Melo Filho
Paulo Coelho
Ivo Pitanguy
Zélia Gattai
Sábato Magaldi
Alberto Venancio Filho
Marcos Vinicios Vilaça
Eduardo Portella
Oscar Dias Corrêa
Josué Montello
Nélida Piñon
Moacyr Scliar
Ariano Suassuna
Evanildo Bechara
João Ubaldo Ribeiro
Candido Mendes de Almeida
João de Scantimburgo
Ivan Junqueira
José Sarney
Roberto Marinho
Evaristo de Moraes Filho
Composto em Monotype Centaur 12/16 pt; citações, 10.5/16 pt.
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