Artigo de Pesquisa
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Artículo de Investigación
Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M
ACIDENTES COM MATERIAL BIOLÓGICO ENTRE
ESTUDANTES DE ENFERMAGEM
ACCIDENTS WITH BIOLOGICAL MATERIAL AMONG NURSING STUDENTS
ACCIDENTES CON MATERIAL BIOLÓGICO ENTRE ESTUDIANTES DE
ENFERMERÍA
Rafaela Thaís Colombo CanalliI
Tokico Murakawa MoriyaII
Miyeko HayashidaIII
RESUMO: Trata-se de estudo descritivo, retrospectivo, com abordagem quantitativa, que buscou investigar, através
de questionário autoaplicável, os acidentes com material biológico ocorridos entre alunos de enfermagem de três
instituições de ensino superior do interior paulista quanto à frequência, características, uso de equipamento de proteção
e condutas pós-exposição. Participaram do estudo 355 estudantes, em 2007. Foram identificados 55 (15,5%) acidentes;
o principal tipo foi o de pele íntegra (70,9%), seguido de acidente percutâneo (25,5%); o sangue foi o material biológico
mais presente nas exposições (72,7%) e a atividade mais envolvida foi a retirada de punção venosa (18,2%). Os alunos
nem sempre utilizavam equipamentos de proteção, bem como não notificaram o acidente. Os resultados obtidos são
preocupantes, não somente pela frequência de acidentes, mas também por condutas inadequadas tomadas após exposição acidental. Especial atenção deve ser dada à formação dos profissionais, para que no futuro eles possam atuar de
maneira segura.
Palavras-Chave: Estudantes de enfermagem; acidentes de trabalho; exposição a agentes biológicos; enfermagem.
ABSTRACT: This is a descriptive, retrospective study, with a quantitative approach. It aimed at investigating accidents
with biological material among nursing students from three higher education institutions in the São Paulo State, Brazil. A
self-reported questionnaire addressing frequency, characteristics, use of protective equipment, and post-exposure conducts
was used to that end. Three hundred fifty-five students participated in the 2007 survey. We identified 55 (15,5%)
accidents; the main type was with intact skin (70.9%), followed by needlestick injuries (25.5%); blood was the material
with highest presence during exposures (72.7%) and venipuncture removal ranked highest among the activities involved
(18.2%). Students failed to wear personal protection and to report the accident at all times. These findings are concerning,
not only because of accident frequency, but also because of inadequate conduct after accidental exposure. Education of
professionals must receive special attention so that they can work safely in the future.
Keywords: Nursing students; occupational accidents; exposure to biological agents; nursing.
RESUMEN: Es un estudio descriptivo, retrospectivo, con enfoque cuantitativo, que buscó investigar, por cuestionario
autoaplicable, los accidentes con material biológico ocurridos entre alumnos de enfermería de tres instituciones de
enseñanza superior en el interior de Estado de São Paulo-Brasil sobre frecuencia, características, uso de equipos de
protección y conductas después de la exposición. Participaron del estudio, 355 estudiantes, en 2007. Fueron identificados 55 (15,5%) accidentes; el principal tipo fue de piel íntegra (70,9%), seguido de accidente percutáneo (25,5%); la
sangre fue el material biológico más presente en las exposiciones (72,7%) y la actividad más involucrada fue la retirada
de punción venosa (18,2%). Los alumnos no siempre utilizaban equipos de protección, tampoco notificaron el accidente.
Los resultados obtenidos son preocupantes, no solamente por la frecuencia de accidentes, pero también por conductas
impropias adoptada después de la exposición. Especial atención debe ser dada a la formación de los profesionales, para
que ellos puedan actuar de forma segura en el futuro.
Palabras Clave: Estudiantes de enfermería; accidentes de trabajo; exposición a agentes biológicos; enfermería.
INTRODUÇÃO
A prática profissional expõe os trabalhadores
a vários tipos de acidentes e os da enfermagem não
fogem à regra, expondo-se também a todos os riscos
ocupacionais, ou seja, de acidentes, ergonômicos, físicos, químicos e biológicos.
No processo de ensino-aprendizagem, os alunos
dos cursos de enfermagem que realizam suas ativida-
des práticas em instituições de saúde se expõem aos
mesmos riscos que os trabalhadores da enfermagem.
No tocante aos riscos biológicos, os estudantes
aparecem como a quarta categoria que mais registrou
acidentes com material biológico neste sistema, entre 2000 e 2006, no Estado de São Paulo, totalizando
1069 acidentes1.
I
Enfermeira. Mestre pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail:
[email protected].
II
Professora Titular. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Curso de Enfermagem do Centro Universitário
Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
III
Enfermeira. Doutora em Enfermagem Fundamental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São
Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
Recebido em:
Recebido
em: 18.01.2010
18.01.2010––Aprovado
Aprovadoem:
em:18.03.2010
18.03.2010
Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64.
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Acidentes com material biológico
Na vivência profissional, é possível observar que
os alunos sofrem exposição acidental a material biológico potencialmente contaminado (MBPC), mas a
comunicação do acidente nem sempre é realizada.
Uma das maneiras mais importantes de se elaborar e implementar medidas de prevenção é através
do registro dos acidentes ocorridos, para que se conheça a magnitude do problema e se estabeleça acompanhamento adequado. Embora os acidentes com
material biológico ocorridos entre profissionais de
enfermagem possam acarretar consequências graves,
geralmente produzem lesão pequena (cortes, perfurações) ou ainda, não produzem lesões (respingos de
fluídos orgânicos), favorecendo a sua subnotificação2.
Embora se observe um aumento de estudos sobre acidentes ocupacionais com MBPC entre profissionais de enfermagem, poucas são as publicações sobre este tipo de exposição com alunos da graduação.
O diagnóstico da situação é fundamental para qualquer programa de saúde. Este estudo poderá fornecer
subsídios para o planejamento, implementação e/ou
reformulação de programas de prevenção e controle de
acidentes com material biológico potencialmente contaminado entre estudantes dos cursos de enfermagem.
Frente ao exposto, optou-se por investigar os
acidentes com material biológico potencialmente contaminado ocorridos entre os alunos dos cursos de enfermagem quanto à frequência, características, situações de risco envolvidas e condutas pós-exposição.
REFERENCIAL TEÓRICO
O estudo do acidente com material biológico entre
profissionais de enfermagem não é recente. Os autores de
uma revisão bibliográfica que englobou 59 publicações
que abordaram a temática entre 1998 e 2005 concluíram
que a maioria tratava da epidemiologia dos acidentes e
que estes ocorreram principalmente por picadas de agulhas, durante cuidados dispensados a pacientes no leito e
atingiram principalmente as mãos dos profissionais3.
Tais estudos demonstram que os trabalhadores
da enfermagem estão expostos ao risco biológico em
todas as áreas das instituições onde há contato direto
com pacientes e seus resíduos biológicos e que a não
adesão a medidas preventivas oferece riscos desnecessários a profissionais e clientes3.
A descoberta de que o Vírus da Imunodeficiência
Humana (HIV) responsável pela Síndrome da
Imunodeficiência Adquirida (AIDS) pode ser transmitido através de exposição percutânea e mucocutânea
para trabalhadores da saúde, durante a prática profissional, aumentou também a preocupação com a segurança dos alunos durante as atividades práticas4.
Os estudantes de enfermagem desenvolvem as
habilidades necessárias para o cuidado de pacientes
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lidando com objetos cortantes e perfurantes, bem
como fluídos corporais, o que frequentemente os expõem a riscos biológicos. Além disso, realizam grande variedade de atividades de ensino-aprendizagem,
em diferentes períodos de tempo e locais. Falta de
experiência e ansiedade podem contribuir para a ocorrência de acidentes. Estar constantemente em situações de aprendizado, supervisão e avaliação favorece
o aumento da ansiedade e estresse5.
Alguns estudos nacionais e internacionais que
abordaram a temática dos acidentes com MBPC entre
estudantes de enfermagem chegaram a conclusões semelhantes: acidentes desta natureza acometem alunos
em campo de ensino, portanto, torna-se necessário investigação das diversas realidades, implementação de
vigilância e medidas preventivas por parte de instituições de ensino e saúde, bem como a estruturação de um
programa de educação em biossegurança, para que se
estabeleça um ambiente de práticas seguras4-7.
METODOLOGIA
Estudo descritivo, retrospectivo e com abordagem
quantitativa foi realizado em três instituições de ensino
superior de enfermagem de um município paulista.
Os dados foram coletados no segundo semestre
de 2007, em sala de aula, após prévia autorização da
instituição de ensino, esclarecimentos verbais e escritos sobre a pesquisa e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos participantes.
A amostra foi constituída de alunos que apresentaram os seguintes pré-requisitos: já realizavam atividades práticas de ensino-aprendizagem em instituições de saúde, estavam presentes no dia da aplicação
do instrumento de coleta de dados (questionário
autoaplicável) e consentiram em participar do estudo.
Do total de 529 alunos que cursavam entre o
segundo e quarto ano de enfermagem e já executavam atividades práticas de ensino-aprendizagem, nas
três instituições de ensino superior, 355(67%) responderam ao questionário; 150(28%) não estavam
presentes em sala de aula e 24(5%) não consentiram
em participar do estudo.
O questionário autoaplicável passou por validação aparente e de conteúdo realizado por juizes
experts no assunto e na metodologia e por pré-teste
aplicado em amostra similar à do estudo. O questionário constou de itens sobre a caracterização do aluno (idade, sexo, série do curso, se já havia realizado
atividade prática em instituição de saúde e se houve
exposição acidental a material biológico) e do acidente (tipo, material biológico envolvido, atividade
que executava, região afetada e uso de equipamento
de proteção individual – EPI). O projeto obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de
Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010
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Enfermagem de Ribeirão Preto – Universidade de São
Paulo (Protocolo no 0818/2007).
Os dados coletados foram digitados em planilha
Excel 2003 e validados através do sistema de dupla entrada de dados. Para a análise estatística, os dados foram
processados no programa Epi Info, versão 3.4.3 e apresentados sob a forma de frequência e porcentagem.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entre os 355 alunos que responderam ao questionário, 150(42,2%) encontravam-se na faixa etária
de 22 a 25 anos; 329(92,7%) pertenciam ao sexo feminino, 155(43,7%) cursavam o quarto ano de enfermagem, 203(57,2%) em período integral e 44(12,4%)
mencionaram exposição acidental a MBPC.
Valores inferiores a 12,4% foram encontrados
entre alunos de enfermagem de uma universidade
brasileira, com índice de 9,6% de acidentes envolvendo MBPC5; e em outros estudos realizados em uma
mesma instituição brasileira de ensino superior em
enfermagem foram detectados índices de, respectivamente, 2,7%, 3,1% e 3,8% de acidentes envolvendo MBPC8-10. No cenário internacional, encontrouse taxa de 7% de acidentes em estudo realizado com
enfermeiras recém-formadas, em Virgínia, nos Estados Unidos da América4, e de 6,6% entre estudantes
de enfermagem italianos6.
Em contrapartida, com índices bem mais elevados, pode-se citar um estudo chinês que, em apenas
quatro meses de observação, obteve índice de
18(32,14%) acidentes entre 56 alunos do grupo experimental, que receberam treinamento específico
para prevenção de acidentes com MBPC e de 32(64%)
acidentes entre 50 alunos do grupo controle que não
receberam treinamento e tendo cursado disciplinas
do currículo básico11; em outro estudo, realizado entre os alunos de enfermagem espanhóis, 15% referiram exposições acidentais a MBPC12.
A faixa etária com maior porcentagem de alunos
acidentados foi a de 22 a 25 anos, que coincide com o
período em que estão cursando as séries mais avançadas, a terceira e quarta. A maioria dos alunos que relatou exposição a MBPC estava cursando o quarto ano
(68,1%), quando a carga horária de atividades práticas
de ensino-aprendizagem é maior e as atividades mais
complexas, o que pode ter contribuído para a maior
ocorrência de exposição acidental. Outros autores brasileiros também relataram em suas pesquisas que o
maior número de acidentes com MBPC ocorreu entre
alunos do quarto ano do curso de enfermagem5,8-10.
Quanto ao período do curso, houve predomínio
de exposição acidental entre alunos do período integral (75%). Em 10(22,7%) acidentes envolvendo
MBPC, os alunos eram de curso diurno e apenas
Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010
Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M
1(2,2%) noturno, o que pode ser explicado pelas oportunidades fornecidas em campo de ensino prático, pois
se sabe que grande parte dos procedimentos envolvendo a enfermagem é realizada no período diurno.
Entre os 44 alunos que relataram exposição a
MBPC, 77,2% referiram a ocorrência de apenas um acidente, 20,4% referiram dois acidentes e 2,3% referiram
três acidentes, o que totalizou 55 exposições acidentais.
Quanto ao tipo de exposição, a de pele íntegra
foi a mais frequente, 39(70,9%), seguida de acidente
percutâneo — 14(25,5%), acidentes em mucosa —
1(1,8%) — e exposição em pele lesada, 1(1,8%), conforme mostra a Tabela 1. A exposição em pele íntegra
refere-se a respingos ou derramamento de materiais
biológicos durante a realização de procedimentos.
Embora não se tenha registro da aquisição de doenças por acidentes deste tipo, o número é preocupante,
pois a pele íntegra pode conter micro lesões imperceptíveis e servir de porta de entrada para agentes
como os vírus da hepatite B (HBV), hepatite C
(HCV) e AIDS. Estudos que abordam a temática dos
acidentes com MBPC entre alunos de enfermagem
apontam os acidentes perfurocortantes como os de
maior ocorrência entre os alunos, seguido de respingos em mucosa4-6,8-10,12. Alguns estudos não consideraram as exposições acidentais que afetaram a pele
íntegra e, em outros, estas exposições podem ter sido
subnotificadas pelos alunos por julgarem sem importância ou considerarem desnecessário relatá-las.
É preciso registrar que as agulhas foram responsáveis por 9(64,3%) acidentes percutâneos, outros
3(21,4%) foram ocasionados por escalpe.
O sangue foi considerado o material biológico
mais envolvido — 40(72,7%); os demais abrangeram
o escarro — 7(12,7%) e a urina — 6(10,9%). Nestes
últimos, em três acidentes havia presença de sangue
visível. O dedo e a mão corresponderam a 41(74,6%)
das topografias afetadas, de acordo com a Tabela 1.
Especificamente, entre os acidentes percutâneos
registrados no presente estudo — 14(25,5%), 92,9%
afetaram o dedo e 7,1% a mão, o que se deve principalmente às características manuais do cuidado técnico de enfermagem5,8-10.
Quanto à atividade que realizava no momento
do acidente, ocorreu principalmente quando da retirada de punção venosa/soro — 10(18,2%), ao
puncionar ou coletar sangue — 9(16,4%) — e ao aspirar o paciente — 7(12,7%) —, como indica a Tabela 1.
Entre os acidentes percutâneos, foram relatados três que ocorreram durante o descarte de agulhas,
três durante a realização de glicosimetria, dois durante a retirada da punção venosa, dois na punção
propriamente dita, dois na administração de medicação, um ao reencapar agulha e um outro quando o
professor perfurou a aluna no momento do descarte.
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Acidentes com material biológico
TABELA 1: Caracterização dos acidentes com material biológico entre estudantes de enfermagem.
Ribeirão Preto-SP, 2007. (N=55)
Instituição
Variáveis
Tipo de acidente
Percutâneo
Mucosa
Pele lesada
Pele íntegra
Material biológico
Sangue
Urina
Escarro
Urina, fezes e escarro
Outro material biológico
Atividade
Puncionando/coletando sangue
Realizando glicosimetria
Lavando material
Manuseando material usado
Administrando medicação
Retirando punção venosa/soro
Descartando agulha
Reencapando agulha
Aspirando o cliente
Desprezando material biológico
Outros procedimentos
Região afetada
Dedo
Mão
Olhos
Face
Dedo e mão
Outra região
Uso de EPI
Luvas
Luvas grossas de borracha
Máscara
Gorro
Avental
Óculos de proteção
Nenhum
A
(n=33)
B
(n=9)
C
(n=13)
f
%
f
%
f
%
f
%
5
1
1
26
15,2
3
3
78,8
5
4
55,6
44,4
4
9
30,8
69,2
14
1
1
39
25,5
1,8
1,8
70,9
25
4
3
1
-
75,8
12,1
9,1
3
-
8
1
88,9
11,1
7
2
4
-
53,8
15,4
30,8
-
40
6
7
1
1
72,7
10,9
12,7
1,8
1,8
7
2
1
2
1
7
1
1
2
2
7
21,2
6,1
3
6,1
3
21,2
3
3
6,1
6,1
21,2
1
1
2
3
1
1
11,1
11,1
22,2
33,3
11,1
11,1
1
3
2
1
1
4
1
7,7
23,1
15,4
7,7
7,7
30,8
7,7
9
5
1
4
2
10
4
2
7
2
9
16,4
9,1
1,8
7,3
3,6
18,2
7,3
3,6
12,7
3,6
16,4
10
15
1
3
1
3
30,3
45,5
3
9,1
3
9,1
5
3
1
-
55,6
33,3
11,1
-
5
2
2
4
38,5
15,4
15,4
30,8
20
20
1
6
1
7
36,4
36,4
1,8
10,9
1,8
12,7
9
1
7
1
19
27,3
3
21,2
3
57,6
5
3
1
4
55,6
33,3
11,1
44,4
9
5
5
3
4
69,2
38,5
38,5
23,1
30,8
23
6
15
5
27
41,8
10,9
27,3
9,1
49,1
Entre os 10 acidentes que ocorreram por ocasião da retirada de punção venosa/soro, dois foram
percutâneos e oito exposições acidentais de sangue
em pele íntegra. Entre os alunos acidentados, apenas
três utilizavam luvas de procedimento durante a atividade, ou seja, na maioria dos casos não se observou
as normas de biossegurança.
Em 92,7% das exposições acidentais os alunos
lavaram o local atingido com água e sabão e em 45,5%
utilizaram soluções antissépticas como álcool e
polivinilpirrolidona-iodo (PVPI) tópico, frequente-
p.262 •
Total
Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64.
mente em exposições acidentais em pele íntegra. Dois
alunos espremeram o local atingido após acidente
percutâneo e um aluno não tomou nenhuma conduta.
Quase a totalidade dos alunos do presente estudo realizaram condutas adequadas em relação ao local
acidentado como lavar com água e sabão e utilizar
antisséptico; porém, dois alunos espremeram a região
atingida por acidente percutâneo, ação contraindicada
por aumentar a área lesada13,14. Outras pesquisas revelaram resultados semelhantes em termos de condutas
adequadas e inadequadas, pós-exposição a MBPC5,8-10.
Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010
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Ao sofrer uma exposição acidental a MBPC, é necessário procurar um médico imediatamente, se possível junto com o paciente-fonte, para dar início ao protocolo de acidente com presença de material biológico.
Cabe ao médico analisar a severidade da exposição13.
Sobre a conduta após o acidente, entre os 55 acidentes, 22(40,0%) foram notificados ao professor, oito
foram notificados ao professor e também os alunos procuraram atendimento médico; em dois casos apenas
procuraram atendimento médico sem notificar o acidente e em 21(38,2%) não tomaram nenhuma conduta. Ainda, dois estudantes adotaram outras condutas
como consultar o prontuário, coletar sangue do paciente e encaminhar o material ao laboratório. Entre os
14 acidentes percutâneos, dois não foram notificados,
portanto os acadêmicos não receberam assistência
médica. Alunos de enfermagem turcos notificaram o
acidente aos supervisores em 43,9% dos casos, mas
muitos não procuraram qualquer tipo de assistência7.
As justificativas dos sujeitos desta pesquisa para
nenhuma conduta foram: não considerar necessário,
pois a pele estava íntegra; ficar com medo de ser punido, criticado e prejudicado na nota e; por ter consultado o prontuário e certificado que não constava nenhuma informação preocupante. Entre as principais razões da falta de notificação do acidente encontradas
em outros estudos estão: medo de o professor reduzir a
nota, de ser discriminado como desatento e por entender como desnecessário porque só foi uma picada8-10.
Quanto às condutas do professor supervisor
quando notificados sobre a ocorrência do acidente, em
24 situações orientaram seus alunos, em 12 os encaminharam para avaliação médica, em seis ofereceram ajuda e em uma situação não foi tomada nenhuma providência. Outras condutas tomadas pelos professores
após serem comunicados sobre o acidente foram:
tranquilizar, encaminhar para avaliação e exames na
unidade de tratamento de doenças infecciosas e pedir
para lavar rapidamente o local da exposição acidental.
Vale ressaltar que em 25 acidentes os professores
supervisores não foram informados do acidente.
Muitos alunos ficam com medo de relatar uma
exposição acidental por temerem julgamento do docente, colegas e clientes e, muitas vezes, serem até prejudicados em sua avaliação prática. A conduta de consultar o prontuário do paciente, em busca de resultados de
exames de HBV, HCV e HIV, também não é correta,
pois não é obrigatória e rotineira a realização destes exames na admissão de paciente; afinal todos devem ser
considerados como potencialmente de risco14.
A opção de omitir a ocorrência de uma exposição acidental não pode ser julgada correta, pois as iniciativas tomadas, sem orientação específica e segura,
podem redundar em prejuízos irremediáveis à saúde.
Sobre o uso de equipamento de proteção individual (EPI) no momento do acidente, os dados apreRecebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010
Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M
sentados na Tabela 1 são preocupantes, pois revelam
que, em 27(49,1%) acidentes, os alunos não usavam
nenhum tipo de EPI. Em mais de 80% dos casos seria
recomendado que o estudante utilizasse ao menos as
luvas de procedimento, o que ocorreu em apenas
23(41,8%) acidentes. As luvas grossas de borracha,
indicadas para a lavagem de material, não estavam sendo utilizadas durante o procedimento que foi responsável por um acidente. Em estudo internacional, 65,2%
dos alunos de enfermagem turcos não utilizavam luvas
de procedimento no momento do acidente7.
Estudo realizado entre profissionais da enfermagem de um hospital de ensino de grande porte do
interior do Estado de São Paulo evidenciou que aproximadamente um terço dos profissionais acidentados (28,5%) não utilizavam EPI para a realização do
procedimento que culminou no acidente, o que revela a continuidade de práticas de risco entre trabalhadores de enfermagem15.
As justificativas apresentadas pelos alunos para
o não uso de EPI foram: dificuldade em retirar esparadrapo com luvas; julgar que não havia necessidade;
pressa ou falta de tempo; distração; dificuldade para
encontrar EPI adequado e de tamanho correto no
local de atividade prática e por entender que não precisava usá-lo. Considera-se preocupante o fato de
mencionarem que julgaram desnecessário o uso de
EPI em alguns procedimentos como, por exemplo, ao
realizar coleta de sangue, punção venosa e desprezar
material biológico.
Estudos internacionais4,7,11,12 mostram que a maioria dos acidentes com MBPC ocorridos entre estudantes de enfermagem poderia ter sido evitada pelo
uso de EPI e de práticas mais seguras como não
reencapar agulhas.
Entre trabalhadores de enfermagem de um hospital da cidade do Rio de Janeiro, o uso de EPI foi
apontado como fator fundamental para a prevenção
de acidentes com material biológico. Nesse mesmo
estudo, os profissionais enfatizaram que a enfermagem é uma profissão de alto risco de acidentes, mas
que este risco torna-se menor à medida que sejam
observadas normas de biossegurança e autocuidado
na prestação da assistência16.
Nesse contexto, faz-se necessário oferecer aos
alunos informações sobre prevenção de acidentes,
condutas a serem tomadas em caso de exposição acidental, bem como estabelecer um protocolo que facilite o encaminhamento da ocorrência.
CONCLUSÃO
Neste estudo, foi possível identificar os acidentes envolvendo exposição a material biológico potencialmente contaminado, ocorridos entre estudantes
de enfermagem de três instituições de um município
Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64.
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Acidentes com material biológico
paulista, quanto à frequência, tipo, atividades que eram
realizadas, material biológico envolvido, regiões afetadas, uso de EPI e condutas de alunos e supervisores.
Observa-se que estudantes estão frequentemente expostos a material biológico potencialmente contaminado durante as atividades de ensino-aprendizagem e que se torna imprescindível o acompanhamento do docente/supervisor bem como o ensino de
condutas corretas na realização do procedimento e
após a ocorrência de acidente. Igualmente importante é a educação permanente da equipe de enfermagem para que realizem procedimentos corretos e com
condutas adequadas e possam servir de exemplo para
os alunos, futuros profissionais.
Os achados deste estudo poderão auxiliar no
desenvolvimento de programas educacionais
direcionados para estudantes de enfermagem e na
instituição de políticas de prevenção de acidentes e
acompanhamento de casos nesta população.
Assim, considera-se que especial atenção deve
ser dada à formação dos profissionais da enfermagem
quanto ao tema prevenção de acidentes, para que no
futuro eles possam atuar de maneira segura e compatível com a promoção da saúde pessoal e dos clientes
sob os seus cuidados.
REFERÊNCIAS
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biológicos segundo categoria ocupacional no estado de
São Paulo - 2000 a 2006. Bol Epidem. 2007; 4 (1):10-11.
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material among undergraduate nursing students in a public
p.264 •
Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64.
Artigo de Pesquisa
Original Research
Artículo de Investigación
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Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010
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Accidents with Biological Material among Nursing Students