Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M ACIDENTES COM MATERIAL BIOLÓGICO ENTRE ESTUDANTES DE ENFERMAGEM ACCIDENTS WITH BIOLOGICAL MATERIAL AMONG NURSING STUDENTS ACCIDENTES CON MATERIAL BIOLÓGICO ENTRE ESTUDIANTES DE ENFERMERÍA Rafaela Thaís Colombo CanalliI Tokico Murakawa MoriyaII Miyeko HayashidaIII RESUMO: Trata-se de estudo descritivo, retrospectivo, com abordagem quantitativa, que buscou investigar, através de questionário autoaplicável, os acidentes com material biológico ocorridos entre alunos de enfermagem de três instituições de ensino superior do interior paulista quanto à frequência, características, uso de equipamento de proteção e condutas pós-exposição. Participaram do estudo 355 estudantes, em 2007. Foram identificados 55 (15,5%) acidentes; o principal tipo foi o de pele íntegra (70,9%), seguido de acidente percutâneo (25,5%); o sangue foi o material biológico mais presente nas exposições (72,7%) e a atividade mais envolvida foi a retirada de punção venosa (18,2%). Os alunos nem sempre utilizavam equipamentos de proteção, bem como não notificaram o acidente. Os resultados obtidos são preocupantes, não somente pela frequência de acidentes, mas também por condutas inadequadas tomadas após exposição acidental. Especial atenção deve ser dada à formação dos profissionais, para que no futuro eles possam atuar de maneira segura. Palavras-Chave: Estudantes de enfermagem; acidentes de trabalho; exposição a agentes biológicos; enfermagem. ABSTRACT: This is a descriptive, retrospective study, with a quantitative approach. It aimed at investigating accidents with biological material among nursing students from three higher education institutions in the São Paulo State, Brazil. A self-reported questionnaire addressing frequency, characteristics, use of protective equipment, and post-exposure conducts was used to that end. Three hundred fifty-five students participated in the 2007 survey. We identified 55 (15,5%) accidents; the main type was with intact skin (70.9%), followed by needlestick injuries (25.5%); blood was the material with highest presence during exposures (72.7%) and venipuncture removal ranked highest among the activities involved (18.2%). Students failed to wear personal protection and to report the accident at all times. These findings are concerning, not only because of accident frequency, but also because of inadequate conduct after accidental exposure. Education of professionals must receive special attention so that they can work safely in the future. Keywords: Nursing students; occupational accidents; exposure to biological agents; nursing. RESUMEN: Es un estudio descriptivo, retrospectivo, con enfoque cuantitativo, que buscó investigar, por cuestionario autoaplicable, los accidentes con material biológico ocurridos entre alumnos de enfermería de tres instituciones de enseñanza superior en el interior de Estado de São Paulo-Brasil sobre frecuencia, características, uso de equipos de protección y conductas después de la exposición. Participaron del estudio, 355 estudiantes, en 2007. Fueron identificados 55 (15,5%) accidentes; el principal tipo fue de piel íntegra (70,9%), seguido de accidente percutáneo (25,5%); la sangre fue el material biológico más presente en las exposiciones (72,7%) y la actividad más involucrada fue la retirada de punción venosa (18,2%). Los alumnos no siempre utilizaban equipos de protección, tampoco notificaron el accidente. Los resultados obtenidos son preocupantes, no solamente por la frecuencia de accidentes, pero también por conductas impropias adoptada después de la exposición. Especial atención debe ser dada a la formación de los profesionales, para que ellos puedan actuar de forma segura en el futuro. Palabras Clave: Estudiantes de enfermería; accidentes de trabajo; exposición a agentes biológicos; enfermería. INTRODUÇÃO A prática profissional expõe os trabalhadores a vários tipos de acidentes e os da enfermagem não fogem à regra, expondo-se também a todos os riscos ocupacionais, ou seja, de acidentes, ergonômicos, físicos, químicos e biológicos. No processo de ensino-aprendizagem, os alunos dos cursos de enfermagem que realizam suas ativida- des práticas em instituições de saúde se expõem aos mesmos riscos que os trabalhadores da enfermagem. No tocante aos riscos biológicos, os estudantes aparecem como a quarta categoria que mais registrou acidentes com material biológico neste sistema, entre 2000 e 2006, no Estado de São Paulo, totalizando 1069 acidentes1. I Enfermeira. Mestre pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. II Professora Titular. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. III Enfermeira. Doutora em Enfermagem Fundamental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. Recebido em: Recebido em: 18.01.2010 18.01.2010––Aprovado Aprovadoem: em:18.03.2010 18.03.2010 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64. • p.259 Acidentes com material biológico Na vivência profissional, é possível observar que os alunos sofrem exposição acidental a material biológico potencialmente contaminado (MBPC), mas a comunicação do acidente nem sempre é realizada. Uma das maneiras mais importantes de se elaborar e implementar medidas de prevenção é através do registro dos acidentes ocorridos, para que se conheça a magnitude do problema e se estabeleça acompanhamento adequado. Embora os acidentes com material biológico ocorridos entre profissionais de enfermagem possam acarretar consequências graves, geralmente produzem lesão pequena (cortes, perfurações) ou ainda, não produzem lesões (respingos de fluídos orgânicos), favorecendo a sua subnotificação2. Embora se observe um aumento de estudos sobre acidentes ocupacionais com MBPC entre profissionais de enfermagem, poucas são as publicações sobre este tipo de exposição com alunos da graduação. O diagnóstico da situação é fundamental para qualquer programa de saúde. Este estudo poderá fornecer subsídios para o planejamento, implementação e/ou reformulação de programas de prevenção e controle de acidentes com material biológico potencialmente contaminado entre estudantes dos cursos de enfermagem. Frente ao exposto, optou-se por investigar os acidentes com material biológico potencialmente contaminado ocorridos entre os alunos dos cursos de enfermagem quanto à frequência, características, situações de risco envolvidas e condutas pós-exposição. REFERENCIAL TEÓRICO O estudo do acidente com material biológico entre profissionais de enfermagem não é recente. Os autores de uma revisão bibliográfica que englobou 59 publicações que abordaram a temática entre 1998 e 2005 concluíram que a maioria tratava da epidemiologia dos acidentes e que estes ocorreram principalmente por picadas de agulhas, durante cuidados dispensados a pacientes no leito e atingiram principalmente as mãos dos profissionais3. Tais estudos demonstram que os trabalhadores da enfermagem estão expostos ao risco biológico em todas as áreas das instituições onde há contato direto com pacientes e seus resíduos biológicos e que a não adesão a medidas preventivas oferece riscos desnecessários a profissionais e clientes3. A descoberta de que o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) responsável pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) pode ser transmitido através de exposição percutânea e mucocutânea para trabalhadores da saúde, durante a prática profissional, aumentou também a preocupação com a segurança dos alunos durante as atividades práticas4. Os estudantes de enfermagem desenvolvem as habilidades necessárias para o cuidado de pacientes p.260 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación lidando com objetos cortantes e perfurantes, bem como fluídos corporais, o que frequentemente os expõem a riscos biológicos. Além disso, realizam grande variedade de atividades de ensino-aprendizagem, em diferentes períodos de tempo e locais. Falta de experiência e ansiedade podem contribuir para a ocorrência de acidentes. Estar constantemente em situações de aprendizado, supervisão e avaliação favorece o aumento da ansiedade e estresse5. Alguns estudos nacionais e internacionais que abordaram a temática dos acidentes com MBPC entre estudantes de enfermagem chegaram a conclusões semelhantes: acidentes desta natureza acometem alunos em campo de ensino, portanto, torna-se necessário investigação das diversas realidades, implementação de vigilância e medidas preventivas por parte de instituições de ensino e saúde, bem como a estruturação de um programa de educação em biossegurança, para que se estabeleça um ambiente de práticas seguras4-7. METODOLOGIA Estudo descritivo, retrospectivo e com abordagem quantitativa foi realizado em três instituições de ensino superior de enfermagem de um município paulista. Os dados foram coletados no segundo semestre de 2007, em sala de aula, após prévia autorização da instituição de ensino, esclarecimentos verbais e escritos sobre a pesquisa e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos participantes. A amostra foi constituída de alunos que apresentaram os seguintes pré-requisitos: já realizavam atividades práticas de ensino-aprendizagem em instituições de saúde, estavam presentes no dia da aplicação do instrumento de coleta de dados (questionário autoaplicável) e consentiram em participar do estudo. Do total de 529 alunos que cursavam entre o segundo e quarto ano de enfermagem e já executavam atividades práticas de ensino-aprendizagem, nas três instituições de ensino superior, 355(67%) responderam ao questionário; 150(28%) não estavam presentes em sala de aula e 24(5%) não consentiram em participar do estudo. O questionário autoaplicável passou por validação aparente e de conteúdo realizado por juizes experts no assunto e na metodologia e por pré-teste aplicado em amostra similar à do estudo. O questionário constou de itens sobre a caracterização do aluno (idade, sexo, série do curso, se já havia realizado atividade prática em instituição de saúde e se houve exposição acidental a material biológico) e do acidente (tipo, material biológico envolvido, atividade que executava, região afetada e uso de equipamento de proteção individual – EPI). O projeto obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Enfermagem de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (Protocolo no 0818/2007). Os dados coletados foram digitados em planilha Excel 2003 e validados através do sistema de dupla entrada de dados. Para a análise estatística, os dados foram processados no programa Epi Info, versão 3.4.3 e apresentados sob a forma de frequência e porcentagem. RESULTADOS E DISCUSSÃO Entre os 355 alunos que responderam ao questionário, 150(42,2%) encontravam-se na faixa etária de 22 a 25 anos; 329(92,7%) pertenciam ao sexo feminino, 155(43,7%) cursavam o quarto ano de enfermagem, 203(57,2%) em período integral e 44(12,4%) mencionaram exposição acidental a MBPC. Valores inferiores a 12,4% foram encontrados entre alunos de enfermagem de uma universidade brasileira, com índice de 9,6% de acidentes envolvendo MBPC5; e em outros estudos realizados em uma mesma instituição brasileira de ensino superior em enfermagem foram detectados índices de, respectivamente, 2,7%, 3,1% e 3,8% de acidentes envolvendo MBPC8-10. No cenário internacional, encontrouse taxa de 7% de acidentes em estudo realizado com enfermeiras recém-formadas, em Virgínia, nos Estados Unidos da América4, e de 6,6% entre estudantes de enfermagem italianos6. Em contrapartida, com índices bem mais elevados, pode-se citar um estudo chinês que, em apenas quatro meses de observação, obteve índice de 18(32,14%) acidentes entre 56 alunos do grupo experimental, que receberam treinamento específico para prevenção de acidentes com MBPC e de 32(64%) acidentes entre 50 alunos do grupo controle que não receberam treinamento e tendo cursado disciplinas do currículo básico11; em outro estudo, realizado entre os alunos de enfermagem espanhóis, 15% referiram exposições acidentais a MBPC12. A faixa etária com maior porcentagem de alunos acidentados foi a de 22 a 25 anos, que coincide com o período em que estão cursando as séries mais avançadas, a terceira e quarta. A maioria dos alunos que relatou exposição a MBPC estava cursando o quarto ano (68,1%), quando a carga horária de atividades práticas de ensino-aprendizagem é maior e as atividades mais complexas, o que pode ter contribuído para a maior ocorrência de exposição acidental. Outros autores brasileiros também relataram em suas pesquisas que o maior número de acidentes com MBPC ocorreu entre alunos do quarto ano do curso de enfermagem5,8-10. Quanto ao período do curso, houve predomínio de exposição acidental entre alunos do período integral (75%). Em 10(22,7%) acidentes envolvendo MBPC, os alunos eram de curso diurno e apenas Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010 Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M 1(2,2%) noturno, o que pode ser explicado pelas oportunidades fornecidas em campo de ensino prático, pois se sabe que grande parte dos procedimentos envolvendo a enfermagem é realizada no período diurno. Entre os 44 alunos que relataram exposição a MBPC, 77,2% referiram a ocorrência de apenas um acidente, 20,4% referiram dois acidentes e 2,3% referiram três acidentes, o que totalizou 55 exposições acidentais. Quanto ao tipo de exposição, a de pele íntegra foi a mais frequente, 39(70,9%), seguida de acidente percutâneo — 14(25,5%), acidentes em mucosa — 1(1,8%) — e exposição em pele lesada, 1(1,8%), conforme mostra a Tabela 1. A exposição em pele íntegra refere-se a respingos ou derramamento de materiais biológicos durante a realização de procedimentos. Embora não se tenha registro da aquisição de doenças por acidentes deste tipo, o número é preocupante, pois a pele íntegra pode conter micro lesões imperceptíveis e servir de porta de entrada para agentes como os vírus da hepatite B (HBV), hepatite C (HCV) e AIDS. Estudos que abordam a temática dos acidentes com MBPC entre alunos de enfermagem apontam os acidentes perfurocortantes como os de maior ocorrência entre os alunos, seguido de respingos em mucosa4-6,8-10,12. Alguns estudos não consideraram as exposições acidentais que afetaram a pele íntegra e, em outros, estas exposições podem ter sido subnotificadas pelos alunos por julgarem sem importância ou considerarem desnecessário relatá-las. É preciso registrar que as agulhas foram responsáveis por 9(64,3%) acidentes percutâneos, outros 3(21,4%) foram ocasionados por escalpe. O sangue foi considerado o material biológico mais envolvido — 40(72,7%); os demais abrangeram o escarro — 7(12,7%) e a urina — 6(10,9%). Nestes últimos, em três acidentes havia presença de sangue visível. O dedo e a mão corresponderam a 41(74,6%) das topografias afetadas, de acordo com a Tabela 1. Especificamente, entre os acidentes percutâneos registrados no presente estudo — 14(25,5%), 92,9% afetaram o dedo e 7,1% a mão, o que se deve principalmente às características manuais do cuidado técnico de enfermagem5,8-10. Quanto à atividade que realizava no momento do acidente, ocorreu principalmente quando da retirada de punção venosa/soro — 10(18,2%), ao puncionar ou coletar sangue — 9(16,4%) — e ao aspirar o paciente — 7(12,7%) —, como indica a Tabela 1. Entre os acidentes percutâneos, foram relatados três que ocorreram durante o descarte de agulhas, três durante a realização de glicosimetria, dois durante a retirada da punção venosa, dois na punção propriamente dita, dois na administração de medicação, um ao reencapar agulha e um outro quando o professor perfurou a aluna no momento do descarte. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64. • p.261 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Acidentes com material biológico TABELA 1: Caracterização dos acidentes com material biológico entre estudantes de enfermagem. Ribeirão Preto-SP, 2007. (N=55) Instituição Variáveis Tipo de acidente Percutâneo Mucosa Pele lesada Pele íntegra Material biológico Sangue Urina Escarro Urina, fezes e escarro Outro material biológico Atividade Puncionando/coletando sangue Realizando glicosimetria Lavando material Manuseando material usado Administrando medicação Retirando punção venosa/soro Descartando agulha Reencapando agulha Aspirando o cliente Desprezando material biológico Outros procedimentos Região afetada Dedo Mão Olhos Face Dedo e mão Outra região Uso de EPI Luvas Luvas grossas de borracha Máscara Gorro Avental Óculos de proteção Nenhum A (n=33) B (n=9) C (n=13) f % f % f % f % 5 1 1 26 15,2 3 3 78,8 5 4 55,6 44,4 4 9 30,8 69,2 14 1 1 39 25,5 1,8 1,8 70,9 25 4 3 1 - 75,8 12,1 9,1 3 - 8 1 88,9 11,1 7 2 4 - 53,8 15,4 30,8 - 40 6 7 1 1 72,7 10,9 12,7 1,8 1,8 7 2 1 2 1 7 1 1 2 2 7 21,2 6,1 3 6,1 3 21,2 3 3 6,1 6,1 21,2 1 1 2 3 1 1 11,1 11,1 22,2 33,3 11,1 11,1 1 3 2 1 1 4 1 7,7 23,1 15,4 7,7 7,7 30,8 7,7 9 5 1 4 2 10 4 2 7 2 9 16,4 9,1 1,8 7,3 3,6 18,2 7,3 3,6 12,7 3,6 16,4 10 15 1 3 1 3 30,3 45,5 3 9,1 3 9,1 5 3 1 - 55,6 33,3 11,1 - 5 2 2 4 38,5 15,4 15,4 30,8 20 20 1 6 1 7 36,4 36,4 1,8 10,9 1,8 12,7 9 1 7 1 19 27,3 3 21,2 3 57,6 5 3 1 4 55,6 33,3 11,1 44,4 9 5 5 3 4 69,2 38,5 38,5 23,1 30,8 23 6 15 5 27 41,8 10,9 27,3 9,1 49,1 Entre os 10 acidentes que ocorreram por ocasião da retirada de punção venosa/soro, dois foram percutâneos e oito exposições acidentais de sangue em pele íntegra. Entre os alunos acidentados, apenas três utilizavam luvas de procedimento durante a atividade, ou seja, na maioria dos casos não se observou as normas de biossegurança. Em 92,7% das exposições acidentais os alunos lavaram o local atingido com água e sabão e em 45,5% utilizaram soluções antissépticas como álcool e polivinilpirrolidona-iodo (PVPI) tópico, frequente- p.262 • Total Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64. mente em exposições acidentais em pele íntegra. Dois alunos espremeram o local atingido após acidente percutâneo e um aluno não tomou nenhuma conduta. Quase a totalidade dos alunos do presente estudo realizaram condutas adequadas em relação ao local acidentado como lavar com água e sabão e utilizar antisséptico; porém, dois alunos espremeram a região atingida por acidente percutâneo, ação contraindicada por aumentar a área lesada13,14. Outras pesquisas revelaram resultados semelhantes em termos de condutas adequadas e inadequadas, pós-exposição a MBPC5,8-10. Recebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Ao sofrer uma exposição acidental a MBPC, é necessário procurar um médico imediatamente, se possível junto com o paciente-fonte, para dar início ao protocolo de acidente com presença de material biológico. Cabe ao médico analisar a severidade da exposição13. Sobre a conduta após o acidente, entre os 55 acidentes, 22(40,0%) foram notificados ao professor, oito foram notificados ao professor e também os alunos procuraram atendimento médico; em dois casos apenas procuraram atendimento médico sem notificar o acidente e em 21(38,2%) não tomaram nenhuma conduta. Ainda, dois estudantes adotaram outras condutas como consultar o prontuário, coletar sangue do paciente e encaminhar o material ao laboratório. Entre os 14 acidentes percutâneos, dois não foram notificados, portanto os acadêmicos não receberam assistência médica. Alunos de enfermagem turcos notificaram o acidente aos supervisores em 43,9% dos casos, mas muitos não procuraram qualquer tipo de assistência7. As justificativas dos sujeitos desta pesquisa para nenhuma conduta foram: não considerar necessário, pois a pele estava íntegra; ficar com medo de ser punido, criticado e prejudicado na nota e; por ter consultado o prontuário e certificado que não constava nenhuma informação preocupante. Entre as principais razões da falta de notificação do acidente encontradas em outros estudos estão: medo de o professor reduzir a nota, de ser discriminado como desatento e por entender como desnecessário porque só foi uma picada8-10. Quanto às condutas do professor supervisor quando notificados sobre a ocorrência do acidente, em 24 situações orientaram seus alunos, em 12 os encaminharam para avaliação médica, em seis ofereceram ajuda e em uma situação não foi tomada nenhuma providência. Outras condutas tomadas pelos professores após serem comunicados sobre o acidente foram: tranquilizar, encaminhar para avaliação e exames na unidade de tratamento de doenças infecciosas e pedir para lavar rapidamente o local da exposição acidental. Vale ressaltar que em 25 acidentes os professores supervisores não foram informados do acidente. Muitos alunos ficam com medo de relatar uma exposição acidental por temerem julgamento do docente, colegas e clientes e, muitas vezes, serem até prejudicados em sua avaliação prática. A conduta de consultar o prontuário do paciente, em busca de resultados de exames de HBV, HCV e HIV, também não é correta, pois não é obrigatória e rotineira a realização destes exames na admissão de paciente; afinal todos devem ser considerados como potencialmente de risco14. A opção de omitir a ocorrência de uma exposição acidental não pode ser julgada correta, pois as iniciativas tomadas, sem orientação específica e segura, podem redundar em prejuízos irremediáveis à saúde. Sobre o uso de equipamento de proteção individual (EPI) no momento do acidente, os dados apreRecebido em: 18.01.2010 – Aprovado em: 18.03.2010 Canalli RTC, Moriya TM, Hayashida M sentados na Tabela 1 são preocupantes, pois revelam que, em 27(49,1%) acidentes, os alunos não usavam nenhum tipo de EPI. Em mais de 80% dos casos seria recomendado que o estudante utilizasse ao menos as luvas de procedimento, o que ocorreu em apenas 23(41,8%) acidentes. As luvas grossas de borracha, indicadas para a lavagem de material, não estavam sendo utilizadas durante o procedimento que foi responsável por um acidente. Em estudo internacional, 65,2% dos alunos de enfermagem turcos não utilizavam luvas de procedimento no momento do acidente7. Estudo realizado entre profissionais da enfermagem de um hospital de ensino de grande porte do interior do Estado de São Paulo evidenciou que aproximadamente um terço dos profissionais acidentados (28,5%) não utilizavam EPI para a realização do procedimento que culminou no acidente, o que revela a continuidade de práticas de risco entre trabalhadores de enfermagem15. As justificativas apresentadas pelos alunos para o não uso de EPI foram: dificuldade em retirar esparadrapo com luvas; julgar que não havia necessidade; pressa ou falta de tempo; distração; dificuldade para encontrar EPI adequado e de tamanho correto no local de atividade prática e por entender que não precisava usá-lo. Considera-se preocupante o fato de mencionarem que julgaram desnecessário o uso de EPI em alguns procedimentos como, por exemplo, ao realizar coleta de sangue, punção venosa e desprezar material biológico. Estudos internacionais4,7,11,12 mostram que a maioria dos acidentes com MBPC ocorridos entre estudantes de enfermagem poderia ter sido evitada pelo uso de EPI e de práticas mais seguras como não reencapar agulhas. Entre trabalhadores de enfermagem de um hospital da cidade do Rio de Janeiro, o uso de EPI foi apontado como fator fundamental para a prevenção de acidentes com material biológico. Nesse mesmo estudo, os profissionais enfatizaram que a enfermagem é uma profissão de alto risco de acidentes, mas que este risco torna-se menor à medida que sejam observadas normas de biossegurança e autocuidado na prestação da assistência16. Nesse contexto, faz-se necessário oferecer aos alunos informações sobre prevenção de acidentes, condutas a serem tomadas em caso de exposição acidental, bem como estabelecer um protocolo que facilite o encaminhamento da ocorrência. CONCLUSÃO Neste estudo, foi possível identificar os acidentes envolvendo exposição a material biológico potencialmente contaminado, ocorridos entre estudantes de enfermagem de três instituições de um município Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 abr/jun; 18(2):259-64. • p.263 Acidentes com material biológico paulista, quanto à frequência, tipo, atividades que eram realizadas, material biológico envolvido, regiões afetadas, uso de EPI e condutas de alunos e supervisores. Observa-se que estudantes estão frequentemente expostos a material biológico potencialmente contaminado durante as atividades de ensino-aprendizagem e que se torna imprescindível o acompanhamento do docente/supervisor bem como o ensino de condutas corretas na realização do procedimento e após a ocorrência de acidente. Igualmente importante é a educação permanente da equipe de enfermagem para que realizem procedimentos corretos e com condutas adequadas e possam servir de exemplo para os alunos, futuros profissionais. Os achados deste estudo poderão auxiliar no desenvolvimento de programas educacionais direcionados para estudantes de enfermagem e na instituição de políticas de prevenção de acidentes e acompanhamento de casos nesta população. Assim, considera-se que especial atenção deve ser dada à formação dos profissionais da enfermagem quanto ao tema prevenção de acidentes, para que no futuro eles possam atuar de maneira segura e compatível com a promoção da saúde pessoal e dos clientes sob os seus cuidados. REFERÊNCIAS 1.São Paulo (Br). Secretaria de Estado da Saúde. Programa DST/AIDS. Avaliação dos acidentes ocupacionais biológicos segundo categoria ocupacional no estado de São Paulo - 2000 a 2006. Bol Epidem. 2007; 4 (1):10-11. 2.Napoleão AA, Robazzi MLCC. Acidentes de trabalho e subnotificação entre trabalhadores de enfermagem. Rev enferm UERJ. 2003; 11:59-63. 3.Almeida ANG, Tipple AFV, Silva e Souza AC, Brasileiro ME. Risco biológico entre os trabalhadores de enfermagem. Rev enferm UERJ. 2009; 17:595-600. 4.Schaffer S. Preventing nursing exposure incidents: the role of personal protective equipment and safety engineered devices. Journ Nurs Educ. 1997; 36:416-20. 5.Reis RK, Gir E, Canini SRMS. 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