INSTITUTO OSWALDO CRUZ Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular CAROLINA DE QUEIROZ SACRAMENTO Efeitos do análogo triazólico da Ribavirina, PAR038, sobre a replicação in vitro do vírus influenza. Dissertação apresentada ao Instituto Oswaldo Cruz como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Biologia Celular e Molecular. Orientador: Prof. Dr. Thiago Moreno Lopes e Souza RIO DE JANEIRO 2013 ii INSTITUTO OSWALDO CRUZ Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular AUTORA: Carolina de Queiroz Sacramento Efeitos do análogo triazólico da ribavirina, PAR038, sobre a replicação in vitro do vírus influenza. ORIENTADOR: Prof. Dr. Thiago Moreno Lopes e Souza Aprovada em: 26/08/2013 EXAMINADORES: Prof. Dr. Prof. Dr. Profª. Drª. Prof. Dr. Profª. Drª. Marcelo Alves Pinto - Presidente André Miguel Japiassú Izabel Christina Nunes de Palmer Paixão Gonzalo José Bello Bentancor Andrea Cheble de Oliveira Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2013 iii Agradecimentos Ao Dr. Thiago Moreno, meu orientador, pelos ensinamentos, confiança e oportunidades; A Dra. Marilda Siqueira e equipe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo (LVRS), pela contribuição, troca de conhecimentos e momentos de confraternização; A Milene, Viviane, Adair por toda ajuda, conversas e conselhos e, principalmente, a Natalia e Andressa, que além de todo auxílio e companheirismo dentro do laboratório se tornaram grande amigas fora do LVRS; A minha mãe Aliane por todo amor incondicional, carinho, apoio, força e ajuda durante toda minha vida; Aos meus irmãos Rafael e Katherine, e minha “boadrasta” Beth, por sempre me proporcionarem momentos felizes; Ao meu namorado e amigo, Thiago Faria, por todo o amor, paciência e por sempre me apoiar e acreditar em mim; À amiga Flávia que, embora distante, está sempre presente em minha vida; À Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular, coordenadores, funcionários e corpo docente por todo aprendizado e oportunidade de crescimento; Aos colegas da Pós-Graduação, em especial a Flavia Savassi, que compartilhou disciplinas, seminários, almoços e conversas; Ao grupo da Dra. Núbia Boechat e Dr. Luiz Pinheiro de Farmanguinhos/Fiocruz por nos ceder os compostos utilizados neste estudo; Ao André Costa Ferreira e Dr. Fernando Bozza pelo auxílio, discussões e experimentos; Ao CNPq pelo apoio financeiro; E a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a conclusão deste trabalho. iv INSTITUTO OSWALDO CRUZ Efeitos do análogo triazólico da ribavirina, PAR038, sobre a replicação in vitro do vírus influenza. RESUMO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO Carolina de Queiroz Sacramento Os vírus influenza representam uma das principais causas das infecções respiratórias agudas, e são de grande impacto para saúde pública devido a ocorrência de epidemias sazonais e pandemias. A variabilidade genética deste vírus e seu amplo espectro de hospedeiros dificulta o controle das infecções através da vacinação, o que torna os antivirais importantes na prevenção e tratamento. Até o presente momento, existem duas classes de antivirais disponíveis para o tratamento da infecção pelo vírus influenza, os bloqueadores de canal M2 (amandadina e rimantadina), que não são mais utilizados clinicamente pois as cepas circulantes são resistentes e os inibidores de neuraminidase (NAIs – oseltamivir e zanamivir), classe em uso clínico embora já tenham sido descritas cepas resistentes ao oseltamivir. Existe também a ribavirina, um antiviral de amplo espectro que inibe DNA/RNA polimerases virais mas é altamente citotóxico. Devido ao número limitado de drogas anti-influenza, vem sendo realizados estudos sobre a eficácia da ribavirina e sua combinação com NAIs para tratamento das infecções causadas pelo influenza. A RNA polimerase do vírus influenza vem sendo cada vez mais explorada como alvo para novas drogas, e, desta forma, o objetivo deste trabalho foi investigar o efeito antiviral do PAR038, um análogo triazólico da ribavirina como potencial inibidor da polimerase. O composto PAR038 se mostrou menos citotóxico para células MDCK e 400 vezes mais potente que a ribavirina, com CC50 > 1000 µM e IC50 = 0,07 µM. Nosso composto foi capaz de inibir a RNA polimerase do vírus influenza com EC50 igual a 1,6 ± 0.15 µM, além de inibir a replicação viral em células A549 (IC50 = 21,2 µM) e apresentar propriedades imunomodulatórias, já que diminuiu os níveis de IL-8 e MCP-1 no sobrenadante das células A549 infectadas com o vírus influenza. Após 2 passagens do vírus influenza A H3N2 em células MDCK, utilizando-se uma concentração do PAR038 aproximadamente 400 vezes maior que seu IC50, ainda não foram observadas mutações de resistência ao composto. O PAR038 se mostrou um potente inibidor do vírus influenza in vitro e sua estrutura química é bastante promissora para o desenvolvimento de novas drogas anti-influenza. Palavras-chave: Vírus influenza A, antivirais, RNA polimerase RNA dependente, ribavirina, análogos triazólicos. v INSTITUTO OSWALDO CRUZ Effects of a ribavirin triazolic analogue, PAR038, in the in vitro replication of influenza virus. ABSTRACT DISSERTAÇÃO DE MESTRADO Carolina de Queiroz Sacramento Influenza virus represents one of the main causes of acute respiratory infections, being a major cause of mortality, morbidity and burden to public health system. The genetic variability of influenza viruses and broad spectrum of these viruses` hosts impose difficulties in control strategies through vaccination. Therefore, antiviral drugs have become critical in the prevention and treatment of the infections caused by influenza viruses. There are two classes of anti-influenza drugs, M2 channel blockers (amantadine and rimantadine), which are no longer used since circulating strains are resistant to these antivirals, and neuraminidase inhibitors (NAIs – oseltamivir and zanamivir), in clinical use. Despite that, oseltamivirresistant strains have been described. An additional antiviral, ribavirin, is endowed with a broad spectrum activity against DNA/RNA polymerases, although high cytotoxic has been described. Due to the limited number of anti-influenza drugs, studies have been carried out on the effectiveness of ribavirin and its combination with NAIs for treating influenza infections. Thus, influenza RNA polymerase still is a valid target for development of novel antiviral. Based on that, we aimed here to investigate the antiviral effect of PAR038, a triazolic analogue of ribavirin. PAR038 is 400-fold potent than ribavirin, with CC50 > 1000 µM and IC50 = 0,07 µM towards MDCKs cytotoxicity and influenza in vitro replication. Our compound inhibits influenza RNA polymerase with an EC50 of 1,6 ± 0,15 µM and also inhibits viral replication in an A549 cells (IC50 = 21,2 µM). PAR038 seems to have immunomodulatory properties, reducing the levels of IL-8 and MCP-1 on A549 culture supernatants. We did not find resistance mutations on influenza polymerase after the treatment with high levels of PAR038. Thus, PAR038 is a potent inhibitor of influenza polymerase and its chemical structure may be a promising one for the development of novel anti-influenza drugs. Keywords: Influenza A viruses, antiviral, RNA dependent RNA polymerase, ribavirin, triazolic analogues. vi ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1 1.1. Histórico ...................................................................................................................... 1 1.2. O Vírus Influenza ........................................................................................................ 2 1.2.1. Infecções causadas pelos vírus influenza .......................................................... 2 1.2.2. Classificação e nomenclatura ............................................................................ 3 1.2.3. Morfologia, genoma e proteínas virais .............................................................. 4 1.2.4. Ciclo replicativo ................................................................................................ 7 1.2.5. RNA polimerase viral ...................................................................................... 10 1.3. Antivirais .................................................................................................................... 14 1.3.1. Bloqueadores do canal M2 .............................................................................. 16 1.3.2. Inibidores de neuraminidase (NAIs) ............................................................... 16 1.3.3. Ribavirina ........................................................................................................ 18 1.3.4. Análogos triazólicos da ribavirina ................................................................... 20 2. OBJETIVOS ................................................................................................................... 22 2.1. Objetivo geral ............................................................................................................ 22 2.2. Objetivos específicos ................................................................................................. 22 3. METODOLOGIA .......................................................................................................... 23 3.1. Células, vírus e compostos utilizados ....................................................................... 23 3.1.1. Células ............................................................................................................ 23 3.1.2. Vírus ............................................................................................................... 23 3.1.3. Compostos ...................................................................................................... 23 3.2. Determinação da viabilidade celular ......................................................................... 24 3.3. Ensaios de inibição da replicação viral ..................................................................... 24 3.4. Avaliação da produção viral ..................................................................................... 25 3.4.1. Quantificação por RT-PCR em tempo real em etapa única ............................ 25 3.4.1.1. Extração de RNA ............................................................................... 25 3.4.1.2. RT-PCR em tempo real em única etapa ............................................. 25 3.4.2. Titulação em células MDCK por TCID50/ml ................................................. 27 3.5. Ensaios de inibição da atividade da polimerase viral ............................................... 27 3.6. Monitoramento da emergência de cepas resistentes ................................................. 28 vii 3.6.1. Treinamento viral .......................................................................................... 28 3.6.2. Sequenciamento da polimerase viral pelo método de Sanger ...................... 28 3.6.2.1. Síntese do cDNA .............................................................................. 28 3.6.2.2. PCR para amplificação dos genes da polimerase viral ..................... 29 3.6.2.3. Análise e purificação dos produtos amplificados ............................. 32 3.6.2.4. Reação de sequenciamento ............................................................... 32 3.7. Dosagem de citocinas .............................................................................................. 33 3.8. Análise estatística .................................................................................................... 33 4. RESULTADOS ........................................................................................................... 34 4.1. Efeito inibitório dos análogos triazólicos da ribavirina ......................................... 34 4.2. Citotoxicidade e efeito inibitório do composto PAR038 ...................................... 35 4.3. O composto PAR038 inibe a atividade da RNA polimerase viral ........................ 37 4.4. Geração de cepas virais resistentes ao PAR038 .................................................... 40 4.5. O composto PAR038 possui efeito imunomodulatório em células A549 ............. 40 5. DISCUSSÃO ............................................................................................................... 42 6. CONCLUSÕES .......................................................................................................... 48 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 49 viii Índice de Figuras Figura 1.1 - Esquema representativo do vírus influenza A .............................................. 5 Figura 1.2 - Representação de uma ribonucleoproteína viral (RNP) ............................... 5 Figura 1.3 - Representação esquemática do ciclo replicativo do vírus influenza A ........ 8 Figura 1.4 - Estrutura e função das três subunidades da RNA polimerase do vírus influenza ........................................................................................................................ 11 Figura 1.5 - Mecanismos de transcrição e replicação do genoma viral ......................... 13 Figura 1.6 - Etapas da replicação do vírus influenza que são alvos dos principais antivirais ........................................................................................................................ 15 Figura 1.7 - Estrutura principal dos adamantanos ......................................................... 16 Figura 1.8 - Estruturas químicas do NAIs ..................................................................... 17 Figura 1.9 - Estrutura química da ribavirina .................................................................. 18 Figura 1.10 - Possíveis mecanismos de ação da ribavirina ............................................ 20 Figura 1.11 - Comparação entre as estruturas químicas da ribavirina e dos seus análogos triazólicos ....................................................................................................................... 21 Figura 4.1 - Inibição da replicação viral em células A549 ............................................ 36 Figura 4.2 - Comparação entre a replicação viral em células MDCK e A549 .............. 37 Figura 4.3 - Inibição da atividade da RNA polimerase do vírus influenza A H3N2 pelo PAR038 ......................................................................................................................... 39 Figura 4.4 - Alteração nos níveis de citocinas após o tratamento com o PAR038 ........ 41 ix Índice de Tabelas Tabela 1.1 - Pandemias humanas de influenza ocorridas no século XX ......................... 1 Tabela 1.2 - Proteínas codificadas pelos segmentos genômicos do vírus influenza A e suas respectivas funções .................................................................................................. 6 Tabela 3.1 - Reagentes para a quantificação do gene M do vírus influenza A .............. 26 Tabela 3.2 - Reagentes para síntese de cDNA ............................................................... 29 Tabela 3.3 - Reagentes para amplificação dos genes PA, PB1 e PB2 ........................... 30 Tabela 3.4 - Relação dos primers utilizados para a amplificação dos genes PA, PB1 e PB2 ................................................................................................................................ 31 Tabela 3.5 - Reagentes para reação de sequenciamento ................................................ 32 Tabela 4.1 - Efeito inibitório dos três análogos triazólicos da ribavirina sobre a replicação in vitro do vírus influenza A H3N2 .............................................................. 35 Tabela 4.2 – Citotoxicidade, efeito inibitório e índice de seletividade do PAR038 ...... 36 Tabela 5.1 - Comparação entre a citotoxicidade, o efeito inibitório e o índice de seletividade do PAR038 e os compostos de referência ribavirina, oseltamivir e zanamivir ....................................................................................................................... 43 x Lista de Siglas e Abreviaturas A549 - Células de linhagem de epitélio pulmonar humano aa - Aminoácidos ATP - Adenina trifosfato BSA - Albumina de soro bovino CC50 - Concentração da droga que mantém 50% das células viáveis CDC - Center for Disease Control and Prevention cDNA - Ácido desoxirribonucleico complementar cm2 - Centímetros quadrados CO2 - Dióxido de carbono CPE - Efeito citopático Ct - Cycle threshold CTL - Linfócitos T citotóxicos CTP - Citosina trifosfato DMEM - Dulbecco's Modified Eagle Medium DMSO - Dimetilsulfóxido DNA - Ácido desoxiribonucleico dNTPs - Dideoxi-nucleotídeos DP - Desvio padrão EC50 - Concentração da droga capaz de inibir 50% da atividade enzimática EDTA - Ácido etilenodiamino tetra-acético FDA - Food and Drug Administration Fiocruz - Fundação Oswaldo Cruz GMP - Guanosina monofosfato GTP - Guanosina trifosfato HA - Hemaglutinina HCV - Vírus da hepatite C HPA - Health Protection Agency HSV - Vírus Herpes Simples IC50 - Concentração da droga capaz de inibir 50% da replicação viral IC50m - IC50 baseado em ensaio molecular IC50t - IC50 quantificado por titulação ICTV - Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus xi IFN-α/β/γ - Interferon alfa/beta/gama IL - Interleucina IMP - Inosina monofosfato IMPHD - Inosina monofosfato desidrogenase Kb - Kilobases LDH - Lactato desidrogenase MCP-1 - Proteína quimiotática para monócitos MDCK - Células epiteliais de rim canino mg - Miligramas ml - Mililitros mM - Milimolar MOI - Multiplicidade de infecção (relação vírus/célula) NA - Neuraminidase NAIs - Inibidores de neuraminidase NEP/NS2 - Proteína de exportação nuclear/proteína não estrutural 2 ng - Nanograma nm - Nanômetros nM - Nanomolar NP - Nucleoproteína NS1 - Proteína não estrutural 1 (nonstructural protein 1) nt - Nucleotídeos NTPs - Nucleotídeos trifosfatados OMS - Organização Mundial de Saúde OST - Oseltamivir PA - Polimerase ácida PB1 - Polimerase básica 1 PB2 - Polimerase básica 2 PBS - Tampão salina fosfato PCR - Reação em cadeia da polimerase pg - Picograma pH - Potencial hidrogeniônico PKR - Proteína kinase R pM - Picomolar PMS - N-metil-sulfato de metila dibenzopirazina xii RANTES - Regulated on Activation, Normal T cell Expressed and Secreted RB - Ribavirina RDP - Ribavirina defosfatada RE - Retículo endoplasmático RMP - Ribavirina monofostato RNA - Ácido ribonucleico RNAc - Ácido ribonucleico complementar RNAmc - Ácido ribonucleico mensageiro celular RNAmv - Ácido ribonucleico mensageiro viral RNAv - Ácido ribonucleico viral RNP - Ribonucleoproteína rpm - Rotações por minuto RpRd - RNA polimerase RNA dependente RT - Transcrição reversa RTP - Ribavirina trifosfato SFB - Soro fetal bovino SI - Índice de seletividade TCAD - Tripla combinação de drogas antivirias TCID50 - Título viral infectivo para 50% do tecido em cultura Th - Linfócitos T helper TNF-α - Fator de necrose tumoral alfa U - Unidades UTP - Uracila trifosfato VRS - Vírus Sincicial Respiratório WHO - World Health Organization XTT - Sal de tetrazol (ácido benzeno sulfônico (fenilaminocarbonil)-3,4-tetrazólio]-bis (4-metóxi-6-nitro)) ZAN - Zanamivir μl - Microlitros µM - Micromolar µg – Microgramas xiii hidratado sódio 3`-[1- 1. INTRODUÇÃO 1.1. Histórico Os primeiros relatos de infecção pelo vírus influenza ocorreram por volta do século V a.C., quando Hipócrates, considerado o “pai da medicina”, relatou casos de uma doença respiratória com sintomatologia semelhante à ocasionada pelo influenza, que, em algumas semanas, levou a muitos óbitos e depois desapareceu. Posteriormente, atribui-se ao vírus influenza a responsabilidade por variados surtos de doenças respiratórias ao longo da história [1]. No século XX ocorreram três notáveis pandemias nos anos de 1918, 1957 e 1968 e, uma de extensão menor em 1977 [2]. A Tabela 1.1 resume as quatro pandemias do século XX, identificando o subtipo e a possível origem do vírus influenza A que causou cada uma delas, além do impacto gerado pelas pandemias [2]. Tabela 1.1: Pandemias humanas de influenza ocorridas no século XX. Aqui estão representadas as pandemias de influenza que ocorreram no século XX, causadas por diferentes subtipos do vírus influenza A. Fonte: Adaptado de World Health Organization – Influenza Pandemic Plan [2]. Ano Nome / Vírus Origem Impacto 1918 “Gripe Espanhola” Recombinação vírus suíno ou 20 milhões a 40 milhões de óbitos. (H1N1) aviário ou adaptação direta do vírus aviário em humanos. 1957 1968 “Gripe Asiática” Possível recombinação (H2N2) genética de vírus humano 1 milhão de óbitos. (H1N1) e aviário (H2N2). Vírus H1N1 desapareceu. “Gripe de Hong Kong” Alta probabilidade de 1 milhão de óbitos. (H3N2) recombinação genética do vírus humano (H2N2) e do Vírus H2N2 desapareceu. vírus aviário (H3Nx). 1977 “Gripe Russa” (H1N1) Origem desconhecida, mas o Potencial pandêmico. Envolveu inicialmente vírus H1N1 é idêntico ao de pessoas nascidas após 1950. O vírus H1N1 1950. co-circulou com o H3N2. Em 1996, um novo vírus influenza aviário H5N1 altamente patogênico foi isolado de alguns gansos na província de Guangdong na China. Em 1997, foi detectado um surto deste mesmo subtipo em aves domésticas em Hong Kong e, neste mesmo ano, foram reportados 18 casos de infecção em seres humanos, sendo 6 casos fatais, confirmando o rompimento da 1 barreira animal-humano. Embora ainda não tenha sido confirmada a transmissão sustentada entre humanos, a emergência de um vírus aviário de alta patogenicidade capaz de infectar seres humanos é de significativa importância para a saúde pública, sendo necessária a vigilância contínua deste subtipo já que em fevereiro de 2003 ainda foram confirmados 2 casos de infecção humana pelo H5N1 em Hong Kong, sendo 1 caso fatal [4]. No ano de 2009 ocorreu a emergência de nova linhagem de influenza A/H1N1, que provocou a primeira pandemia do século XXI, e ficou conhecida como A(H1N1)pdm09. A circulação deste vírus teve início no México e Canadá e rapidamente se espalhou por todo o mundo [5]. Este novo vírus foi produto de um rearranjo gênico entre uma linhagem aviária norte-americana, uma linhagem sazonal de H3N2, a linhagem suína clássica norte-americana e uma linhagem suína euro-asiática [6]. Este vírus teve alta transmissibilidade entre humanos e, após a pandemia, o vírus A(H1N1)pdm09 passou a co-circular na população juntamente com o H3N2, tornando-se portanto, um influenza sazonal, que foi incluído nas vacinas de 2010, 2011, 2012 e 2013 [7-10]. Mais recentemente, em 2013, foi detectada pela primeira vez a infecção de seres humanos com o vírus influenza aviário A(H7N9). Foram confirmados 132 casos na China. A maioria dos casos foi considerada severa e 37 pessoas morreram. Embora seja um vírus aviário, o H7N9 não causa doença severa em aves domésticas, o que torna difícil a confirmação da procedência aviária dos casos reportados. O vírus H7N9 ainda é pouco conhecido com relação aos seus reservatórios e sua capacidade de transmissão de aves para humanos e entre humanos, porém, por ser um vírus altamente patogênico, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que os países se mantenham em alerta para uma possível circulação maciça desse subtipo viral [11]. 1.2. O Vírus Influenza 1.2.1. Infecções causadas pelos vírus influenza As infecções pelos vírus influenza ocorrem mundialmente, sob a forma de surtos localizados ou regionais, em epidemias ou pandemias associadas aos subtipos do vírus influenza A. Globalmente, a taxa de infecção atinge de 5 a 15% da população, podendo ocasionar cerca de 3 a 5 milhões de casos severos, com 250 mil a 500 mil óbitos [12]. Elas apresentam um padrão sazonal, ocorrendo surtos principalmente durante o período de inverno. No Brasil, devido à grande diversidade climática, são observados diferentes padrões de 2 sazonalidade, cujo o pico da epidemia no Norte do país costuma ocorrer cerca de três meses antes (março-abril) daquele observado na região Sul [13]. As infecções causadas pelos vírus influenza são infecções agudas do trato respiratório inferior cujos principais sintomas (febre, coriza, tosse, dor de cabeça e no corpo e inflamação das vias aéreas superiores) duram geralmente de 7 a 10 dias. Os picos de replicação do influenza ocorrem em aproximadamente 48 horas após a infecção e a excreção viral diminui dentro de 6 dias [14]. Apesar de geralmente auto-limitadas, as infecções causadas pelo vírus influenza apresentam grande impacto na saúde pública, pois constituem uma das principais causas de morbidade e mortalidade. Tanto a morbidade quanto a mortalidade por influenza podem variar ano a ano, dependendo das cepas circulantes, do grau de imunidade da população geral e da população susceptível. Os grupos mais vulneráveis a complicações devido à infecção pelos vírus influenza são crianças menores de 2 anos de idade, idosos com mais de 65 anos, portadores de doenças crônicas e imunodeprimidos [15]. 1.2.2. Classificação e nomenclatura Os vírus influenza estão classificados na família Orthomyxoviridae, gênero Influenzavirus [16]. Atualmente, existem 5 gêneros de vírus influenza: Influenzavirus A, B e C, considerados como vírus influenza propriamente ditos, além dos Isavirus e Thogotovírus [17]. Os Thogotovírus foram isolados de carrapatos e são agentes infecciosos capazes de causar meningite e meningoencefalite em seres humanos. Já os Isavirus estão relacionados a quadros clínicos de anemia infecciosa em salmões [17]. A característica geral dos 5 gêneros é apresentação do genoma na forma de RNA fita simples, segmentado com polaridade negativa [18]. Os três gêneros de vírus influenza propriamente ditos diferem na gama de hospedeiros e na patogenicidade. Os gêneros B e C são isolados quase exclusivamente de humanos, enquanto o gênero A possui uma ampla variedade de hospedeiros [19]. As aves aquáticas representam o reservatório natural dos vírus influenza A, que podem ser então transmitidos para cavalos, gatos, cachorros, baleias, focas, aves silvestres migratórias, galinhas, porcos, humanos e, mais recentemente, este gênero também foi encontrado em morcegos, embora sua origem ainda seja desconhecida [20]. Enquanto os vírus influenza A são responsáveis por causar de surtos epidêmicos a pandemias, os vírus influenza B causam epidemias periódicas, e o gênero C causa somente endemias e doenças respiratórias leves [14]. 3 Os vírus influenza A são divididos em subtipos de acordo com a combinação das suas glicoproteínas de superfície, a hemaglutinina (HA) e a neuraminidase (NA) [16]. Até o presente momento, já foram descritos 16 tipos de HA (H1 a H16) e 9 tipos de NA (N1 a N9), encontrados em diferentes espécies animais [21] [22]. De acordo com a OMS, a nomenclatura das amostras humanas é representada da seguinte maneira: indica-se o gênero do vírus ao qual pertence (A, B ou C), a origem geográfica de isolamento (cidade ou país), número da amostra do laboratório e ano de isolamento e, finalmente, coloca-se entre parênteses o subtipo de HA e NA. Por exemplo, uma amostra designada como influenza A/England/42/1972 (H3N2) pertence ao gênero A, subtipo H3N2, isolada na Inglaterra no ano de 1972 e recebeu o número 42. Em contraste com o vírus influenza A, não existem subtipos de influenza B. Este gênero é constituído por duas linhagens principais (Yamagata e Victoria). Embora existam diferenças consideráveis entre as linhagens, seja em termos genéticos ou antigênicos, elas não são suficientes para a designação em diferentes subtipos [23]. Assim, a nomenclatura adotada para o vírus influenza B descreve apenas o gênero, local de detecção, número de origem e ano (exemplo: B/Florida/4/2006). 1.2.3. Morfologia, genoma e proteínas virais Os vírus influenza são vírus envelopados com tamanho de 80-120 nm de diâmetro e apresentam capsídeo proteico com simetria helicoidal de aproximadamente 100 nm de diâmetro [16]. São constituídos de 0,8 a 1% de RNA, 70% de proteína, 20% de lipídios e 5 a 8% de carboidratos (Figura 1.1). 4 Figura 1.1: Esquema representativo do vírus influenza A. As glicoproteínas HA e NA encontram-se inseridas no envelope lipídico, assim como a proteína M2, que forma o canal iônico viral. Abaixo do envelope encontra-se a proteína de matriz M1 e, internamente à matriz estão os segmentos de RNAv fita simples. Fonte: Adaptado de Kaiser, J. Science, 2006. [24] Os vírus influenza A possuem 8 segmentos genômicos de RNA fita simples negativa (Figura 1.1). Cada segmento encontra-se associado a nucleoproteínas virais (NP), formando uma estrutura no qual o RNA viral (RNAv) enovela-se adquirindo uma forma helicoidal, e a um complexo polimerase, e este conjunto recebe o nome de ribonucleoproteína (RNP) (Figura 1.2) [25]. Dentro do vírion existem 8 RNPs, que se encontram ancoradas internamente ao envelope lipídico através das proteínas de matriz M1, que servem como proteínas adaptadoras. A proteína M1 confere rigidez ao envelope viral, além de atuar como a força motriz do brotamento viral. [26]. 5 O genoma do vírus influenza A apresenta cerca de 13 Kb. Dos 8 segmentos, 6 codificam uma proteína cada, enquanto os outros 2 (genes M e NS) codificam para mais de uma proteína. Os três maiores fragmentos genômicos codificam as três subunidades da RNA polimerase viral, PA, PB1 e PB2. O gene PB1 pode ainda gerar dois produtos gênicos menores: uma forma truncada da subunidade PB1 originada a partir de um códon de iniciação alternativo e um pequeno peptídeo, PB1-F2 [27]. As proteínas codificadas pelos segmentos genômicos do vírus influenza A e suas respectivas funções estão resumidas na tabela abaixo (Tabela 1.2). Tabela 1.2: Proteínas codificadas pelos segmentos genômicos do vírus influenza A e suas respectivas funções. A tabela relaciona a numeração (de 1 a 8) referente ao segmento de RNAv à(s) proteína(s) por eles codificadas, com suas respectivas funções. Entre parênteses estão representados o tamanho dos genes (em número de nucleotídeos) e das proteínas (em número de aminoácidos). Fonte: Adaptado do NIAID RNA Proteína Segmento 1 (2341 nt) PB2 (759 aa) RNA polimerase – reconhecimento do cap Segmento 2 (2341 nt) PB1 (757 aa) RNA polimerase – alongamento da cadeia Segmento 3 (2233 nt) PA (716 aa) RNA polimerase – atividade endonuclease Segmento 4 (1778 nt) HA (550 aa) Adsorção e fusão Segmento 5 (1565 nt) NP (498 aa) Ligação de RNA e forma o nucleocapsídeo Segmento 6 (1413 nt) NA (454 aa) Atividade sialidásica Segmento 7 (1027 nt) M1 (252 aa) Interação com RNP e importante para brotamento M2 (366 aa) Canal iônico NS1 (890 aa) Proteína multifuncional Segmento 8 (890 nt) NEP/NS2 (418 Função Exportação da RNP aa) Inseridas no envelope viral estão presentes duas glicoproteínas, a HA e a NA, e a proteína de membrana M2 (Figura 1.1) [16]. As glicoproteínas HA e NA conferem à partícula viral uma morfologia espiculada quando observadas à microscopia eletrônica [18]. A HA é uma proteína trimérica formada por monômeros de hemaglutinina (HA0), que são compostos por subunidades HA1 e HA2. A HA1 participa da adsorção viral, já que contém o sítio de ligação que interage com os resíduos de ácido siálico presentes na membrana plasmática da célula hospedeira. A HA2 é importante para fusão do envelope viral com a membrana endossomal. Esta subunidade possui o peptídeo de fusão na sua extremidade 6 N-terminal, que devido à mudança de pH no interior do endossoma, sofre uma mudança conformacional expondo o peptídeo e permitindo fusão de membranas [28]. A NA catalisa a clivagem de resíduos de acido siálico presentes na membrana plasmática, permitindo a liberação das novas partículas virais formadas. Além disso, a NA também remove o ácido siálico presente nas próprias glicoproteínas impedindo a agregação das partículas virais. Este processo é importante para a mobilidade dos vírus no trato respiratório [29]. A proteína M2 atravessa o envelope viral formando o canal iônico do vírion [30]. Após a endocitose do vírus, este canal permite o influxo de prótons e a acidificação do interior do vírion, necessária para a exposição do peptídeo de fusão presente na HA e para a dissociação entre as RNPs e as proteínas M1. Após este processo, as RNPs são então liberadas para migrarem para o núcleo e darem início à transcrição e replicação viral [31]. Proteínas não estruturais também estão presentes nas partículas virais, como a NS1 e a NEP/NS2 (do inglês nuclear export protein/nonstructural protein 1 e 2). A proteína NS1 possui diversas funções dentro do vírion. Ela está envolvida na regulação do splicing do segmento 8 do RNA viral, na inibição da poliadenilação e clivagem do RNA mensageiro celular (RNAmc), tornando-o disponível como fonte de iniciadores para a síntese de RNA mensageiro viral (RNAmv) e no escape viral ao sistema imunológico do hospedeiro. Neste último processo, a NS1 estimula inibidores celulares da proteína kinase R (PKR), que participa da resposta imunológica inata e inibe a síntese de proteínas virais e celulares durante a infecção [32]. Já a proteína NS2 participa da exportação do RNAmv do núcleo celular para o citoplasma, onde será traduzido em proteínas virais e parece estar envolvida na regulação da replicação viral [33]. 1.2.4. Ciclo Replicativo A replicação do vírus influenza A encontra-se esquematicamente apresentada na figura 1.3. O principal alvo da infecção pelos vírus influenza em humanos são as células epiteliais ciliadas do trato respiratório, por apresentarem maior abundância de resíduos de ácido siálico nas suas membranas. Os resíduos de ácido siálico ficam associados a resíduos de galactose por ligações α-2,3 ou α-2,6, que se encontram preferencialmente no trato respiratório superior e inferior, respectivamente [34]. Essas ligações são reconhecidas de maneira distinta por hemaglutininas de vírus humanos e animais e são críticos na determinação do hospedeiro e no tropismo tecidual. 7 Figura 1.3: Representação esquemática do ciclo replicativo do vírus influenza A. (a) O vírus influenza possui um envelope lipídico no qual estão inseridas as proteínas HA, NA e M2 e seu genoma possui 8 segmentos de RNA fita simples organizados em complexos proteicos chamados RNPs. As RNPs se encontram ancoradas no interior do envelope pelas proteínas de matriz M1. Durante a adsorção do vírus influenza à célula hospedeira, ocorre a ligação da HA aos resíduos de ácido siálico presentes na membrana citoplasmática. (b) O vírus é endocitado e o baixo pH do endossoma leva à acidificação no interior do vírion através da entrada de prótons pelo canal M2. Ocorre uma mudança conformacional na HA, que expõe o peptídeo responsável pela fusão do envelope viral com a membrana endossomal. A acidificação faz com que as RNPs se dissociem das proteínas M1 e sejam liberadas. As RNPs migram para o núcleo celular, onde ocorre a replicação e a transcrição viral. (c) No núcleo, ocorre a transcrição do RNAmv pela RNA polimerase dependente de RNA. As novas moléculas de RNAmv são exportadas para o citoplasma celular com auxílio da proteína NEP/NS2. (d) No citoplasma, os RNAmv são traduzidos nas proteínas virais. As proteínas de superfície HA, NA e M2 são processadas no RE, glicosiladas no complexo de Golgi e transportadas para a superfície celular. (e) A proteína NS1 tem um papel fundamental para a transcrição viral, já que impede a saída do RNAmc do núcleo. (f) A RNA polimerase viral também é responsável pela replicação do RNAv através da síntese de uma fita de RNA complementar que serve de molde para a geração de novas fitas de RNAv, com polaridade negativa. Neste momento, as NPs já se ligam aos novos RNAv formados gerando novas RNPs, que são transportadas para o citoplasma com ajuda das proteínas M1 e NEP/NS2. (g) As RNPs são direcionadas para a membrana plasmática celular, onde já estão ancoradas as proteínas de envelope viral, para formarem as novas partículas virais por brotamento. As novas partículas virais são liberadas para o meio extracelular pela ação da NA. Fonte: Adaptado de Das et al, Nature, 2010 [35]. 8 Os resíduos de ácido siálico permitem a ligação da HA e a adsorção do vírus influenza à membrana plasmática da célula hospedeira (Figura 1.3). A ligação ocorre na subunidade HA1. Após a adsorção, ocorre a endocitose da partícula viral (Figura 1.3). O endossoma celular já é um ambiente fisiologicamente ácido, permitindo então a entrada de prótons para o interior do vírion através do canal iônico M2 [36]. A acidificação (pH entre 5,0 e 6,0) do interior da partícula viral causa uma mudança conformacinal na HA, que leva à exposição de seu domínio hidrofóbico contendo o peptídeo de fusão. Este se insere na membrana do endossoma, possibilitando sua fusão com o envelope viral. A diminuição do pH dentro do vírion também possibilita que as RNPs se dissociem das proteínas M1 e sejam liberadas para o citoplasma celular [31]. Uma vez no citoplasma, as RNPs migram para o núcleo celular através da ligação a nucleoporinas (Figura 1.3). A penetração no núcleo é dependente de importinas α e β, que reconhecem sinais de localização nuclear presentes tanto na proteína viral NP [35] quanto na subunidade PB2 da RNA polimerase [37]. No núcleo ocorrem os processos de transcrição e replicação do genoma viral pelo complexo polimerase. A transcrição ocorre em momentos iniciais do ciclo replicativo e é um processo dependente de uma sequência iniciadora, que é obtida a partir do pré-RNAmc. Os RNAmv formados são transportados para o citoplasma celular com auxílio da proteína NEP/NS2 e de fatores celulares, onde serão traduzidos em proteínas virais utilizando-se da maquinaria celular. As proteínas virais de superfície, como a HA, NA e M2, são processadas no retículo endoplasmático (RE) da célula, glicosiladas no complexo de Golgi e são direcionadas para a membrana plasmática celular (Figura 1.3). A proteína M1 é sintetizada na fase inicial da replicação, a partir do RNAmv codificado pelo segmento 7, que, em uma fase mais tardia, sofre o mecanismo de splicing, originando a proteína M2. O mesmo acontece com as proteínas NS1 e NEP/NS2, sendo a segunda dependente do splicing [30]. A replicação do genoma viral se dá através da síntese de uma fita intermediária de RNA complementar (RNAc) com polaridade positiva, para posterior geração das novas fitas de RNAv polaridade negativa. Logo após a formação dos novos RNAv, as NP se ligam e dão origem às novas RNPs, que se associam às proteínas M1 e NEP/NS2. Juntamente com a maquinaria de exportação nuclear da célula, o complexo RNP-M1-NEP/NS2 é exportado para o citoplasma celular até a região da membrana plasmática onde estão inseridas as proteínas de superfície virais. A proteína M1 é a responsável por recrutar todos os componentes virais para o sítio de brotamento, além de se associar à membrana plasmática celular [30]. 9 A liberação das novas partículas virais ocorre por brotamento (Figura 1.3). Este processo requer uma curvatura da membrana plasmática, que é estimulada pelo acúmulo de proteínas M1 no interior da mesma [26]. O brotamento termina quando ocorre a fissão da membrana plasmática celular. Nesse momento, as novas partículas virais estão prontas para serem liberadas e a NA cliva os resíduos de ácido siálico presentes na membrana celular e remove o ácido siálico presente nas próprias glicoproteínas, impedindo a reinfecção da célula já infectada e a agregação das partículas virais (Figura 1.3) [29]. 1.2.5. RNA polimerase viral A polimerase do vírus influenza é uma RNA polimerase RNA dependente (RpRd) constituída por 3 subunidades: uma subunidade ácida, chamada de PA (do inglês polymerase acid) e duas subunidades básicas, chamadas PB1 e PB2 (do inglês polymerase basic 1 e 2) (Figura 1.4) [38]. As três subunidades interagem formando o complexo polimerase, responsável pela replicação e transcrição. A estrutura da RNA polimerase do vírus influenza ainda não foi totalmente caracterizada. A estrutura da subunidade PA é a mais conhecida (Figura 1.4), já que seu domínio C-terminal de interação com a subunidade PB1 foi determinado em 2008 [39-40], e, em 2009, foi atribuída ao seu domínio N-terminal a função de endonuclease, responsável pela clivagem do cap do pré-RNAmc [41-42]. A subunidade PB2 possui 3 domínios resolvidos: o domínio C-terminal de interação com PB1, um domínio central cuja função é de ligação ao cap do pré-RNAmc chamada de cap binding, e o domínio N-terminal de interação com proteínas do hospedeiro (Figura 1.4) [37]. Dentro deste último, estão bem descritos 2 resíduos, o 627, que está relacionado à adaptação do vírus influenza A aos seus diversos hospedeiros, e o de sinal de localização nuclear citado anteriormente (Figura 1.4) [37]. Diferentemente das subunidades PA e PB2, a PB1 permanece pouco caracterizada, sendo conhecidos somente os domínios de interação com as outras 2 subunidades (Figura 1.4). A estrutura central de PB1 possui motivos conservados característicos de RNA polimerases dependentes de RNA fita simples e, por isso, foi atribuída a função de polimerase propriamente dita a esta subunidade [43-44]. 10 Figura 1.4: Estrutura e função das três subunidades da RNA polimerase do vírus influenza. (A) Estrutura linearizada e estrutura terciária das subunidades PA (azul), PB1 (vermelho) e PB2 (verde). Os domínios estruturalmente caracterizados estão representados pelos retângulos mais largos nas três subunidades. Os resíduos apresentados em preto estão relacionados à adaptação ao hospedeiro. (B) Durante a transcrição do RNAv, a subunidade PB2 da polimerase se liga à extremidade 5`cap do pré-RNAmc (vermelho), que é clivado pelo domínio endonuclease da subunidade PA. O pequeno RNA capeado resultante é utilizado para iniciar a síntese do RNAmv a partir do RNAv molde (verde). O alongamento da nova fita é realizado pela subunidade PB1 e, com isso, é gerado o RNAmv (vermelho e azul), que é exportado para o citoplasma para ser traduzido em proteínas virais. Fonte: Adaptado de Boivin et al JBC, 2010 [37]. Durante o processo de transcrição do RNAv, a síntese do RNAmv se dá pelo complexo polimerase residente nas RNPs, que se encontra ligado ao RNA molde (RNAv) e na conformação cis (Figura 1.5) [45]. Cada segmento de RNAv contém sequências de 13 e 12 nucleotídeos nas extremidades 5` e 3`, respectivamente, que são conservadas e parcialmente complementares (de 5 a 7 nucleotídeos). Este fato faz com que os nucleotídeos complementares formem uma região pareada, que é reconhecida pelo complexo polimerase (Figura 1.5). O processo de transcrição é dependente de uma sequência iniciadora 5`cap, que é obtida através da ligação da subunidade PB2 ao pré-RNAmc e da clivagem pelo domínio endonuclease de PA (Figuras 1.4 e 1.5). A síntese do RNAmv é então iniciada na extremidade 3` do RNA molde e PB1 catalisa o alongamento da nova cadeia formada até a sequência de 5 a 7 uracilas (U) localizada a 16 nucleotídeos da extremidade 5` do RNA molde. 11 Diferentemente do RNAmc, que necessita de uma polimerase específica para a poliadenilação, a própria RNA polimerase viral sintetiza a cadeia poli-A do RNAmv [46]. A replicação do genoma viral ocorre em um momento mais tardio da infecção pelo complexo polimerase solúvel na conformação trans (Figura 1.5) [45]. O processo da replicação é independente de iniciador e o RNAv é sintetizado a partir de um RNAc de polaridade positiva. A extremidade 3` do RNAv (RNA molde) é liberada do complexo polimerase associado as RNPs por mecanismos não conhecidos, permitindo sua ligação ao complexo polimerase solúvel. A replicação é iniciada com auxílio de uma molécula de GTP e ocorre o alongamento da fita de RNAc. A extremidade 3` se desliga deste complexo e permite a ligação da extremidade 5` do RNA molde, para que ocorra a síntese completa do RNAc. A proteína NP é então recrutada e ocorre a síntese do novo RNAv (polaridade negativa) a partir do RNAc (Figura 1.5) [46]. Um mecanismo alternativo de síntese do RNAc envolvendo o complexo polimerase na conformação cis também já foi proposto. Neste caso, o complexo polimerase residente nas RNPs sintetiza os RNAc, que mesmo em baixos níveis ficam acumulados até que os complexos polimerase recém-sintetizados sejam importados para o núcleo da célula e os utilizem como molde para síntese do novo RNAv de polaridade negativa. Quando o RNAv é formado, a NP é recrutada e são formadas novas RNPs [46]. 12 Figura 1.5: Mecanismos de transcrição e replicação do genoma viral. O complexo polimerase presente nas RNPs, ou seja, na conformação cis, se liga à extremidade parcialmente complementar do RNAv (azul). (i) Para o início da transcrição, a subunidade PB2 se liga ao cap do pré-RNAmc (vermelho) e PA cliva essa extremidade. (ii) Esta extremidade é posicionada no sítio ativo de PB1 junto com a extremidade 3` do RNA molde (RNAv) e a transcrição se inicia. (iii) Ocorre o alongamento da fita de RNAmv (vermelho) e a poliadenilação é realizada pela própria RNA polimerase viral através da síntese repetitiva de A a partir da sequência de U presente próxima da extremidade 5` do RNA molde. (iv) O RNAmv é então liberado do complexo polimerase e se liga ao complexo de ligação ao cap (CBC) presente no núcleo celular, que auxilia a proteína NEP/NS2 no transporte para o citoplasma celular. (v) A replicação do genoma viral é realizada pelo complexo polimerase na conformação trans. Para tal, a extremidade 3` do RNA molde (azul) é liberada do complexo polimerase associado às RNPs por mecanismos não conhecidos, permitindo sua ligação ao complexo polimerase na conformação trans. (vi) A replicação é iniciada com auxílio de uma molécula de GTP, o que promove o alongamento da fita de RNAc (vermelho). (vii) Através da ligação da extremidade 5` do RNA molde ao complexo polimerase na conformação trans, ocorre a síntese completa do RNAc. A proteína NP é então recrutada e ocorre a síntese do novo RNAv (polaridade negativa) a partir do RNAc (não mostrado nesta figura). Fonte: Adaptado de Fodor, E. Acta Virologica, 2013 [46]. O RNAv funciona como molde tanto para a síntese do RNAmv na transcrição quanto para a síntese do RNAc durante a replicação. Embora os mecanismos de síntese sejam distintos, ambos são realizados pelo complexo polimerase do vírus influenza e ainda permanece bastante desconhecido quais são os mecanismos de regulação entre os processos de 13 transcrição e replicação. Uma possível explicação seria que durante a transcrição, o complexo polimerase atuaria em uma conformação distinta quando comparada ao processo de replicação [45]. Diferentemente do RNAmv, os RNAc e RNAv recém sintetizados são encapsidados, isto é, se ligam à NPs solúveis logo após a sua síntese. Este fato sugere que a NP esteja envolvida na regulação da troca entre transcrição e replicação e essa hipótese vem sendo discutida em diversos trabalhos, já que é a NP que interage diretamente tanto com o RNAv quanto com a RNA polimerase [47-48]. Além da NP, a proteína NEP/NS2 também parece estar envolvida com esse processo de regulação. Alguns artigos demonstraram que o efeito da NEP/NS2 na síntese de RNAv é dependente da sua concentração, já que em grandes quantidades a NEP/NS2 anula completamente a atividade da RNA polimerase [49]. Este dado ainda é um pouco controverso, já que também foi mostrado que baixas concentrações de NEP/NS2, além de estimularem a replicação, também estimulam a síntese de RNAmv dependendo do modelo experimental [33, 49]. Diversos outros mecanismos de regulação da troca entre replicação e transcrição vem sendo propostos. Entre eles estão a existência de pequenos RNAs virais que estariam envolvidos na regulação [50], além de fatores do hospedeiro, que poderiam interagir com a NP e com a polimerase viral durante estes processos [51-52], mostrando que ainda são necessários mais estudos estruturais e funcionais sobre as proteínas virais, suas interações e funções. 1.3. Antivirais Os vírus influenza apresentam grande variabilidade genética, ocasionada basicamente por dois processos: drift e shift genético. O drift genético corresponde ao acúmulo de mutações pontuais nas proteínas mais antigênicas do vírus influenza, HA e NA, devido ao fato da RNA polimerase viral não possuir atividade de correção. As mutações no gene HA constituem o principal obstáculo para o controle da doença através da vacinação, o que demanda a formulação anual das vacinas utilizadas nos hemisférios Norte e Sul [7, 12]. O outro mecanismo mais drástico que leva ao aumento da diversidade genética, o shift genético, corresponde ao rearranjo entre os segmentos genômicos de diferentes linhagens de influenza. Devido a dificuldade de controle das infecções pelo vírus influenza com a vacinação, outra estratégia empregada para a contenção e tratamento destas infecções durante os surtos sazonais é a utilização de drogas antivirais. 14 Existem duas classes de antivirais aprovadas para o uso contra a influenza pela agência reguladora norte americana, Food and Drug Administration (FDA) [53]. São eles: bloqueadores do canal de prótons M2 e inibidores de neuraminidase (NAIs) [54] (Figura 1.6). Figura 1.6: Etapas da replicação do vírus influenza que são alvos dos principais antivirais. Durante o ciclo replicativo do vírus influenza existem três principais pontos de inibição por drogas antivirais. As adamantanas (amantadina e rimantadina) bloqueiam o canal de prótons M2, não permitindo assim a fusão entre o envelope viral e a membrana do endossoma celular. Os NAIs (oseltamivir e zanamivir) inibem a enzima neuraminidase/sialidase e, consequentemente, inibem a liberação das novas partículas virais formadas. Já a ribavirina, inibe a RNA polimerase viral e, com isso, a replicação e a transcrição do genoma viral. Fonte: Adaptado de von Itzstein, Nature, 2007 [29]. 15 1.3.1. Bloqueadores do canal M2 Os adamantanos (Figura 1.7), amantadina e rimantadina, foram a primeira classe de drogas anti-influenza utilizada e atua somente contra os vírus influenza A [55]. Tanto a amantadina quanto a rimantadina possuem o mesmo mecanismo de ação, penetram no canal iônico M2 do vírus e bloqueiam a passagem de prótons para o interior do mesmo. A diminuição do pH no interior do vírus é necessária para a mudança conformacional da HA que permite a fusão entre o envelope viral e a membrana do endossoma celular e para a dissociação entre as RNPs e as proteínas M1 (Figura 1.6). Além disso, os adamantanos também podem se ligar às proteínas M2 recém-sintetizadas (Figura 1.6). Esta classe de drogas não possui atividade contra o vírus influenza B e, além disso, é rápido o desenvolvimento de resistência viral [56-57]. O vírus influenza A H1N1 pandêmico de 2009, por exemplo, surgiu naturalmente resistente aos adamantanos, pois adquiriu o gene M de um vírus influenza suíno euro-asiático resistente a esta classe, contendo a mutação de resistência mais frequente, a S31N (troca de serina por asparagina na posição 31 da proteína M2) [58]. 1.3.2. Inibidores de neuraminidase (NAIs) Desde 1999/2000, os NAIs (Oseltamivir; Tamiflu®, Roche e Zanamivir; Relenza®, GlaxoSmithKline) (Figura 1.8) têm sido utilizados para o tratamento de infecções pelos vírus Influenza dos gêneros A e B [59]. Estas moléculas são análogos do ácido siálico presente nas células alvo do vírus influenza. Portanto, os NAIs ligam-se de forma competitiva ao sítio ativo da NA, impedindo que ocorra a clivagem do ácido siálico e consequente liberação do vírus influenza no trato 16 respiratório, o que acarreta no acúmulo de partículas virais na membrana nas células infectadas e diminui o espalhamento da infecção. Figura 1.8: Estruturas químicas dos NAIs. Estão representadas as estruturas químicas do oseltamivir (à esquerda) e do zanamivir (à direita). Fonte: Adaptado de Das et al, Nature, 2010 [35]. Até 2007, a circulação mundial de cepas do vírus influenza resistentes aos NAIs era menor que 1% [60]. Porém, na temporada de 2007-2008 ocorreu a emergência de uma cepa sazonal de influenza A H1N1 resistente ao OST e, até a temporada de 2008-2009, a prevalência na circulação desta cepa aumentou para mais de 90% mundialmente, chegando a 100% em alguns países [61-62]. Além da circulação de cepas virais sazonais resistentes do subtipo H1N1, também já foram descritas cepas resistentes do vírus influenza sazonal H3N2 [62-64] e do vírus pandêmico de 2009 [65-66], demonstrando a necessidade de vigilância destes vírus. A sensibilidade da NA aos NAIs é avaliada através de ensaios de inibição enzimática [67-68] e, a partir destes ensaios, é definida a concentração de droga capaz de inibir 50% da atividade enzimática (IC50). A diminuição de sensibilidade ou a resistência a uma droga devido a alguma mutação é caracterizada pelo aumento de 100 a 10.000 vezes no valor de IC50 [62]. Porém, o valor de IC50 depende do tipo de ensaio utilizado, do gênero e subtipo do vírus influenza e da droga avaliada, sendo então necessárias análises adicionais para que a detecção de resistência seja clinicamente relevante. Para tal, é verificada a presença de mutações que conferem resistência ao OST, como a mutação no resíduo 274 do gene da NA (numeração de N2, ou, 275 na numeração de N1), a H274Y por pirosequenciamento [69] ou pelo sequenciamento convencional de Sanger [70]. Também vêm sendo descritas mutações 17 consideradas como redutoras da sensibilidade da NA ao OST, como a mutação E119V dos vírus H3N2 e a R152K dos vírus influenza B [71]. 1.3.3. Ribavirina A ribavirina (RB) (Figura 1.9) é um antiviral de amplo espectro, que inibe diversos vírus de RNA, como os paramyxovírus (vírus respiratório sincicial – VSR – e vírus parainfluenza), flavivírus (vírus da hepatite C - HCV, vírus da febre amarela e vírus do Oeste do Nilo) e orthomyxovírus (vírus influenza A e B). Este composto também possui atividade antiviral contra alguns vírus de DNA, como por exemplo os vírus herpes simplex tipos 1 e 2 (HSV-1 e 2) e adenovírus tipo 3. Em modelos animais, o efeito antiviral da RB é mais restrito, inibindo apenas alguns vírus de RNA [72-73]. Em humanos, a RB é utilizada principalmente no tratamento de hepatite C crônica juntamente com o interferon peguilado e no tratamento de infecções severas pelo VSR [7475]. Embora o VSR e o HCV sejam vírus de RNA, são bastante diferentes entre si. Além disso, o tratamento com a RB requer altas doses e causa muitos efeitos adversos. Desta maneira, compostos alternativos à RB têm sido de grande interesse entre os pesquisadores. No caso dos vírus influenza, devido ao número limitado de drogas anti-influenza, vários estudos clínicos da eficácia da RB e sua combinação com NAIs vêm sendo realizados. A RB se mostrou um potente inibidor in vitro e in vivo dos vírus influenza A e B. Em estudos utilizando a tripla combinação de drogas antivirias (TCAD), amantadina, OST e RB, observou-se um efeito inibitório sinérgico dos três compostos contra os principais subtipos de vírus influenza humanos, H1N1 e H3N2, sensíveis aos compostos ou resistentes à amantadina ou ao OST [76-77]. 18 Embora sejam realizados diversos estudos com relação à atividade antiviral da RB, seu mecanismo de ação ainda não foi completamente elucidado. Existem três possíveis mecanismos inibitórios propostos pela literatura (Figura 1.10). O primeiro mecanismo, descrito em 1973, foi o de inibição de enzimas celulares envolvidas na biossíntese de nucleotídeos, mas especificamente, da inosina monofosfato desidrogenase (IMPHD), responsável pela conversão de iosina 5`-monofosfato em xantina 5`-monofosfato e crucial na produção intracelular de guanosina trifosfato (GTP) e na síntese de RNA viral (Figura 1.10b) [78]. O outro mecanismo é o de inibição direta da RNA polimerase viral, embora acredite-se que este não seja seu principal alvo, já que até hoje não foram descritas mutações de resistência a este composto (Figura 1.10c). O terceiro mecanismo, proposto mais recentemente, é o de mutagênese letal (Figura 1.10d) [79-80]. Neste caso, a RB é incorporada como sendo análoga de GTP e ATP (adenosina trifosfato) por RNA polimerases dependentes de RNA. Desta maneira, pode ocorrer o aumento do número de mutações geradas durante a replicação viral para uma taxa acima do limite, levando ao acúmulo de erros (catástrofe por erro) e a diminuição da fidelidade genética. Consequentemente, novas partículas virais não funcionais são geradas ou o ciclo replicativo completo é abortado [73]. Além dos mecanismos de inibição da replicação viral, já foi descrita uma possível função imunomodulatória para a RB em modelos de camundongos com hipersensibilidade. Dependendo da linhagem utilizada, a RB inibiu ou aumentou a secreção de interleucina 10 (IL-10) [81]. Além disso, durante o tratamento de hepatite C crônica com a RB, se observa somente uma pequena redução da carga viral, sendo seu efeito predominante na diminuição dos danos hepáticos, sugerindo que esta droga possui um efeito anti-inflamatório suplementar ao efeito antiviral [82] (Figura 1.10a). 19 Figura 1.10: Possíveis mecanismos de ação da ribavirina. Este esquema demonstra os possíveis mecanismos de ação da RB, tendo como exemplo o tratamento contra hepatite C crônica. (a) A RB parece possuir um efeito imunomodulatório, inibindo a resposta Th2 e estimulando Th1. Este estímulo leva à secreção de IFN-γ e TNF-α por células T citotóxicas (CTL). (b) Após a entrada da RB na célula, esta é convertida em ribavirina monofosfato (RMP) e é então difosforilada (RDP – ribavirina difosfato) ou trifosforilada (RTP – ribavirina trifosfato) por enzimas celulares. A forma RMP inibe a enzima inosina monofosfato desidrogenase (IMPDH), levando à depleção de GTP intracelular e a inibição indireta da replicação viral. (c) A forma RTP é capaz de inibir diretamente a RpRd e, consequentemente, inibe a replicação viral. (d) A forma trifosfatada da RB também é capaz de atuar através do mecanismo de catástrofe por erro, que aumenta o número de mutações no RNA viral e os novos vírions formados não são funcionais. Fonte: Adaptado de Feld & Hoofnagle, Nature, 2005. [83] 1.3.4. Análogos triazólicos da ribavirina A RB é um antiviral de amplo espectro e por isso sua estrutura química pode ser um protótipo interessante para o desenvolvimento de novas drogas antivirais. Porém, seu uso clínico é limitado devido à toxicidade consideravelmente alta deste composto. Moléculas que possuem um anel triazólico em sua estrutura, como a RB, apresentam atividades biológicas diversas, antibacterianas [84], antifúngicas [85], anti-câncer [86], antivirais [87], entre outras. O grupo da Drª Núbia Boechat e do Drº Luiz Pinheiro de Farmanguinhos/Fiocruz sintetizou três compostos que são análogos triazólicos da RB. Foram utilizadas técnicas padrão da química medicinal, como, por exemplo, a substituição isostérica e o bioisosterismo 20 de anel (substituição de grupos farmacofóricos, ou seja, grupos funcionais), já descritas anteriormente pelo grupo [88-89]. Os três compostos possuem estrutura química semelhante à da RB, contendo a ribose e o anel triazólico (Figura 1.11), embora o anel 1,2,4-triazol da RB tenha sido substituído pelo 1,2,3-triazol. Foram adicionados radicais benzeno no lugar das hidroxilas para proteger as novas moléculas (Figura 1.11), já que trabalhos anteriores demonstraram que nucleosídeos protegidos possuem melhor atividade antiviral [87], além de serem intermolecularmente mais estáveis. A principal alteração na estrutura foi o grupo funcional amida da ribavirina, que foi substituído pelos radicais c-propil, trifluorometil e métoxi, originando os compostos chamados de PAR017, PAR018 e PAR038, mostrados na figura abaixo (Figura 1.11). Por serem compostos análogos à RB, são potenciais antivirais. Então, através de uma colaboração, os três análogos foram gentilmente cedidos ao nosso laboratório para que verificássemos sua atividade anti-influenza. Figura 1.11: Comparação entre as estruturas químicas da ribavirina e dos seus análogos triazólicos. Durante a síntese dos análogos triazólicos da ribavirina, foi mantido o corpo básico da estrutura, que representa a ribose (círculo cinza) e o anel triazólico (retângulo cinza). A principal alteração foi no grupo funcional, onde o grupo amida da ribavirina foi substituído pelos radicais c-propil, trifluorometil ou métoxi. 21 2. OBJETIVOS 2.1. Objetivo geral Estudar o efeito dos compostos análogos triazólicos da ribavirina sobre a replicação in vitro do vírus influenza. 2.2. Objetivos específicos Verificar a potência dos análogos PAR017, PAR018 e PAR038; Avaliar a citotoxicidade do PAR038; Determinar o efeito inibitório e a potência do PAR038 sobre a replicação in vitro do vírus influenza; Investigar o efeito do PAR038 sobre a RNA polimerase viral; Gerar cepas do vírus influenza resistentes ao PAR038; Avaliar a possível função imunomodulatória do PAR038. 22 3. METODOLOGIA 3.1. Células, vírus e compostos utilizados 3.1.1. Células Células epiteliais de rim canino (MDCK) e células de linhagem de epitélio pulmonar humano (A549) foram cultivadas, respectivamente, em meio de manutenção DMEM (Dulbecco's Modified Eagle Medium) suplementado com 10 % de soro fetal bovino (SFB) e DMEM/F-12 suplementado com 2% de soro fetal bovino e 1 % de L-glutamina. Ambos os meios foram também suplementados com antibióticos (penicilina; 100 U/mL, e estreptomicina; 100 µg/mL). Ambas as culturas foram mantidas em garrafas de poliestireno de 75 cm2, em atmosfera de 5% de gás carbônico (CO2) a 37ºC e acompanhadas diariamente ao microscópio óptico de campo claro. Durante o repique as células foram lavadas com PBS (tampão salina fosfato) 1x pH 7,2 e tratadas com tripsina 0,25 % (A549) ou tripsina-EDTA (ácido etilenodiamino tetra-acético) 0,25 % (MDCK). 3.1.2. Vírus A cepa viral utilizada nos experimentos foi a influenza A/England/42/1972 (H3N2), cepa sazonal do ano de 1972, sensível ao oseltamivir. Tal cepa foi utilizada por se tratar de um agente já adaptado a laboratório. Para propagação, esta cepa foi inoculada em células MDCK cultivadas em meio de inoculação (meio DMEM contendo 4 % de albumina – BSA – e 0,4 mg/mL de tripsina). A cultura foi incubada a 35ºC e acompanhada diariamente até a observação do efeito citopático (CPE), alterações causadas nas células devido à infecção viral. O sobrenadante foi então coletado e centrifugado a 1500 rpm por 5 minutos. O precipitado contendo os restos celulares foi descartado e o sobrenadante contendo os vírus foi coletado e congelado a -70ºC até sua utilização. 3.1.3. Compostos Os três compostos análogos triazólicos da ribavirina utilizados, PAR017, PAR018 e PAR038, foram sintetizados pelo grupo da Drª Núbia Boechat e do Drº Luiz Pinheiro de Farmanguinhos/Fiocruz e gentilmente cedidos ao nosso laboratório, através de uma colaboração, para que avaliássemos sua atividade biológica. Os compostos foram diluídos em 23 DMSO 100 % nas concentrações estoque de 50 e 1 mM. Durante o uso, os compostos foram diluídos em meio de manutenção de acordo com a concentração utilizada nos experimentos. 3.2. Determinação da viabilidade celular A citotoxicidade do análogo triazólico da ribavirina, PAR038, foi determinada a partir de ensaios de viabilidade celular em células MDCK e em células A549. Para o ensaio em células MDCK, utilizou-se a técnica de redução do sal de tetrazol, o XTT. Neste ensaio, as células viáveis metabolizam o XTT gerando o formazan, produto de coloração alaranjada cuja quantidade pode ser medida através de um espectrofotômetro. Então, quanto mais cor, maior o número de células viáveis. Para tal, as células foram semeadas em placas de 96 poços de fundo chato (5x104 células/poço) em meio de manutenção. Após 24 horas, foram tratadas com diferentes concentrações do composto (100, 250, 500, 750 e 1000 μM) diluído em meio DMEM com 2 % de SFB e foram mantidas por 72 horas a 37ºC e atmosfera de 5% CO2. Após esse período, 5 mg/mL do sal XTT foi adicionado em meio DMEM sem soro na presença de 0,01 % do ativador de respiração celular PMS (Nmetil-sulfato de metila dibenzopirazina). Após a incubação de 4 horas a 37ºC, foi realizada a leitura da metabolização do XTT pelas células viáveis no espectrofotômetro a 492 nm e 620 nm. Para a determinação do valor de CC50 (concentração do composto que mantém 50 % das células viáveis), foi feita uma curva de regressão linear utilizando-se o programa Excel. Para determinação da citotoxicidade em células A549, a liberação da enzima lactato desidrogenase (LDH) no conteúdo extracelular foi quantificada. Neste caso, as células A549 foram plaqueadas em placas de 24 poços (3x105 células/poço) e, após 24 horas foram tratadas com o composto PAR038 na concentração de 15 µM em meio de manutenção sem SFB. Após mais 24 horas de incubação a 37ºC e atmosfera de 5% CO2, o sobrenadante foi coletado e foi feita a dosagem de LDH com o kit de Doles, de acordo com as instruções do fabricante. Neste caso, a viabilidade celular será inversamente proporcional à liberação de LDH. 3.3. Ensaios de inibição da replicação viral Células MDCK foram semeadas em placas de 24 poços (2x105 células/poço) e cultivadas em meio de manutenção. Após atingirem 80% de confluência, o meio foi retirado, as células foram lavadas duas vezes com meio de inoculação e infectadas durante 1 hora a 35ºC e atmosfera de 5 % de CO2 com o vírus influenza A H3N2 em um MOI de 0,05 (multiplicidade de infecção – relação vírus/célula). O inóculo foi retirado e as células infectadas foram 24 tratadas com diferentes concentrações do composto PAR038 (1, 5, 10, 25 e 50 µM) diluído em meio de inoculação. Após 24 horas de tratamento, os sobrenadantes das culturas foram coletados e congelados a -70ºC até sua utilização. Os vírus presentes nos sobrenadantes foram quantificados por RT-PCR em tempo real e titulados em células MDCK por TCID50 (título de vírus infectivo para 50 % da cultura celular). Os ensaios de inibição da replicação viral também foram realizados nas células A549, as quais foram semeadas em placas de 24 poços (4x105 células/poço) em meio de manutenção. Após atingirem 80 % de confluência, o meio foi retirado, as células foram lavadas duas vezes com meio de inoculação e infectadas com o vírus H3N2 em um MOI de 0,25. Após incubação de 1 hora a 35ºC e 5 % de CO2, o inóculo foi retirado e as células infectadas foram tratadas com diferentes concentrações do PAR038 (0, 5, 15, 30 e 60 µM). Após 24 horas de tratamento, o sobrenadante foi coletado e os vírus foram titulados em células MDCK por TCID50/mL. 3.4. Avaliação da produção viral 3.4.1. Quantificação por RT-PCR em tempo real em etapa única 3.4.1.1. Extração de RNA As extrações de RNA viral foram realizadas utilizando-se o kit QIAmp Viral RNA mini kit (Qiagen), de acordo com as instruções do fabricante. Brevemente, foi adicionado 560 µL de solução desnaturante (tampão AVL) capaz de inativar RNAses e assegurar à liberação do RNA a 140 µL da amostra a ser extraída. Após incubação de 10 minutos a temperatura ambiente, foi adicionando 560 µL de etanol para permitir a ligação do RNA à membrana de sílica em gel “QIAamp”. Foram realizadas duas etapas de lavagens para retirada de impurezas e o RNA viral purificado foi eluído em 80 µL de água livre de DNAse/RNAse e estocado a 70ºC até o momento de uso. 3.4.1.2. RT-PCR em tempo real em única etapa O RNA viral foi submetido à reação de RT-PCR em tempo real em etapa única para quantificação do gene de matriz (M) do vírus influenza A, de acordo com o protocolo do 25 Centers for Disease Control and Prevention/Atlanta – World Health Organization (CDCWHO) (Tabela 3.1). Tabela 3.1: Reagentes para a quantificação do gene M do vírus influenza A. Reagentes Concentrações Tampão Rxn 2x Mistura enzimaa 5 U/µL Primer INFAb 0,8 µM Sonda Taqmanc 0,2 µM Rox 25 µM RNA 100 ng/µl Volume final 25 µL a SuperScriptTM III Transcriptase Reversa/Platinum® Taq DNA polimerase, proveniente do kit SuperScriptTM III Platinum® One-Step Quatitative RT-PCR da Invitrogen. b Sequências dos primers INFA: direto 5` GACCRATCCTGTCACCTCTGAC 3` e reverso 5` AGGGCATTYTGGACAAAKCGTCTA 3` (Kit Invitrogen, cat. A11400). c Sequência sonda: 5` TGCAGTCCTCGCTCACTGGGCACG 3` (Kit Invitrogen, cat. A11400). A transcrição reversa foi realizada a 50ºC por 30 minutos, seguida da desnaturação do DNA complementar (cDNA) por 2 minutos a 95ºC e 45 ciclos de amplificação a 95ºC por 15 segundos e 55ºC por 35 segundos. As reações foram realizadas em triplicata usando o sistema de detecção 7500 da Applied Biosystems. Para a quantificação do RNA viral foi realizada uma curva padrão do vírus H3N2 previamente titulado por TCID50/mL. Esta curva é utilizada para correlacionarmos os valores de Ct (cycle threshold - o número de ciclos que uma reação leva para atingir uma determinada quantidade de fluorescência emitida) obtidos das amostras analisadas com o título viral de uma amostra conhecida e, desta maneira, obtermos a quantificação do RNA viral, designada TCID50 relativo [90]. 26 3.4.2. Titulação em células MDCK por TCID50/mL Células MDCK foram semeadas em placas de 96 poços com fundo chato (5x104 células/poço) em meio de manutenção. Após atingirem 70% de confluência, o meio foi retirado e as células foram lavadas duas vezes com meio de inoculação. Para infecção, foram utilizados os vírus H3N2 presentes nos sobrenadantes coletados do ensaio de inibição da replicação viral citado anteriormente. Foi feito um pool dos sobrenadantes das replicatas de cada concentração do composto e cada pool foi utilizado para infecção de uma placa de 96 poços contendo as células MDCK. Os pools dos sobrenadantes foram adicionados na primeira linha das placas (das colunas de 1 a 10) e foi feita uma diluição seriada de base 10 até a última linha. Desta maneira, as colunas 11 e 12, contendo somente as células serviram como controles negativos. Após incubação de 1 hora a 35ºC e 5% de CO2, o inóculo foi retirado e foi adicionado meio de inoculação. As células infectadas foram mantidas durante 72 horas em atmosfera de 5% de CO2 a 37ºC. O efeito citopático foi avaliado ao microscópio óptico de campo claro e o TCID50 foi calculado de acordo com o protocolo da Organização Mundial da Saúde [91-92]. 3.5. Ensaios de inibição da atividade da polimerase viral Para avaliarmos o efeito do PAR038 sobre a atividade da RNA polimerase do vírus influenza A H3N2 foram realizados ensaios de inibição da polimerase. A RNA polimerase dos vírus influenza utilizados foi estimulada com cloreto de magnésio (MgCl2) e os vírus foram incubados com diferentes concentrações do composto (0,5, 1, 5 e 10 µM) por 1 hora a 37ºC. Foram adicionados os nucleotídeos trifosfatados (NTPs – ATP, UTP, CTP e GTP) na concentração de 150 µM e os vírus foram novamente incubados a 37ºC por 2 horas. Após esse período, o RNA viral foi extraído e quantificado por RT-PCR em tempo real em etapa única, como descrito anteriormente (item 3.4.1). Desta maneira, a atividade da RNA polimerase viral foi determinada na ausência e na presença das diferentes concentrações do composto. 27 3.6. Monitoramento da emergência de cepas resistentes 3.6.1. Treinamento viral Para geração de cepas de vírus influenza resistentes ao composto PAR038, foram realizadas passagens em série do vírus H3N2 na presença de concentrações crescentes do composto. Células MDCK foram semeadas em placas de 24 poços (2x105 células/poço) e cultivadas em meio de manutenção por 24 horas. O meio foi retirado, as células foram lavadas duas vezes com meio de inoculação e infectadas durante 1 hora a 35ºC e 5 % de CO2 com os vírus influenza H3N2 em um MOI de 0,05. O inóculo foi retirado e as células infectadas foram tratadas com 15 e 30 µM (1ª e 2ª passagens, respectivamente) do PAR038. Também foi realizada a passagem em série do vírus H3N2 na ausência do composto, como controle experimental para avaliar o surgimento de mutações devido somente à passagem do vírus em cultura de células. A inibição da replicação viral foi acompanhada diariamente por até três dias através da observação do CPE e através da quantificação da atividade NA no sobrenadante da cultura. Utilizamos o kit NA-Star Influenza Neuraminidase Inhibitor Resistance Detection Kit (Applied Biosystems), de acordo com as instruções do fabricante. Após a quantificação viral, os títulos foram normalizados e, em seguida, parte do sobrenadante foi utilizada para infecção de uma nova cultura e parte foi congelado a fim de sequenciarmos a RNA polimerase viral. 3.6.2. Sequenciamento da polimerase viral pelo método de Sanger 3.6.2.1. Síntese do cDNA A síntese do cDNA total foi realizada utilizando o primer UNI-12 para influenza, seguindo o protocolo do Health Protection Agency (HPA) de Londres (Tabela 3.2). 28 Tabela 3.2: Reagentes para síntese de cDNA. Reagentes Concentrações Tampão 5x DTT 0,1 µM Mistura dNTP 10 mM Primer UNI-12* 25 pmol/µl RNAse out 40 U/µl SIII RT 200 U/µl RNA 100 ng/µl Volume final 40 µl * Sequência do primer UNI-12: 5` AGCAAAAGCAGG 3`. A ciclagem utilizada foi de 42ºC por 90 minutos e 95ºC por 3 minutos. Todas as reações de transcrição reversa e PCR citadas ocorreram no termociclador Verity da Applied Biosystems. 3.6.2.2. PCR para amplificação dos genes da polimerase viral Foram amplificados os segmentos 1, 2 e 3 genoma do vírus influenza, que correspondem, respectivamente, aos genes do complexo polimerase: PB2, PB1 e PA. A reação de PCR foi realizada seguindo o protocolo do HPA de Londres. A mistura da reação está detalhada na tabela 3.3 e os primers utilizados destacados na Tabela 3.4. 29 Tabela 3.3: Reagentes para amplificação dos genes PA, PB1 e PB2. Reagentes Concentrações Tampão 10x MgSO4 50 mM Mistura dNTP 10 mM Primer direto 10 pmol/µl Primer reverso 10 pmol/µl Platinum Pfx DNA polimerase 2,5 U/µl cDNA 100 ng/µl Volume final 50 µl 30 Tabela 3.4: Relação dos primers utilizados para a amplificação dos genes PA, PB1 e PB2. PA Posição* 0-989 702-1292 702-1662 1444-2233 Posição* 22-843 711-1278 1139-1659 1532-2321 Posição* 1-816 713-1509 1447-2341 Sentido Direto Reverso Direto Reverso Direto Reverso Direto Reverso Sentido Direto Reverso Direto Reverso Direto Reverso Direto Reverso Sentido Direto Reverso Direto Reverso Direto Reverso Sequência 5`- 3` TGTAAAACGACGGCCAGTAGCAAAAGCAGGTACTGAT CAGGAAACAGCTATGACCGGTTCTTTCCATCCAAAGAATGTT TGTAAAACGACGGCCAGTTGCMTTGARAATTTTAGRACCTA CAGGAAACAGCTATGACCTCRCAKGCCTTGTTGAACTCATT TGTAAAACGACGGCCAGTTGCMTTGARAATTTTAGRACCTA CAGGAAACAGCTATGACCTCWAGTCTYGGGTCAGTGAG TGTAAAACGACGGCCAGTAATGCATCCTGTGCAGCAATGGA CAGGAAACAGCTATGACCAGTAGAAACAAGGTACCTTTT PB1 Sequência 5`- 3` TGTAAAACGACGGCCAGTAGCAAAAGCAGGTCAATT CAGGAAACAGCTATGACCCTRAAWACTTCTATRGTGTT TGTAAAACGACGGCCAGTTGAACACRATGACCAARGA CAGGAAACAGCTATGACCTTGAACATGCCCATCATCATYCCAGG TGTAAAACGACGGCCAGTCAAATACCYGCAGARATGCTAGC CAGGAAACAGCTATGACCCCAAGRTCATTGTTTATCAT TGTAAAACGACGGCCAGTGCYAATTTYAGCATGGAGCT CAGGAAACAGCTATGACCAGTAGAAACAAGGCATTT PB2 Sequência 5`- 3` TGTAAAACGACGGCCAGTAGCAAAAGCAGGTCAATT CAGGAAACAGCTATGACCGCTTTGRTCAAYATCRTCATT TGTAAAACGACGGCCAGTCAAGCAGTRTRTACATTGAAGT CAGGAAACAGCTATGACCGGAGTATTCATCYACACCCAT TGTAAAACGACGGCCAGTCCAAGYACMGAGATGTCAATGAGA CAGGAAACAGCTATGACCTAGTAGAAACAAGGTCGTT * Posição do nucleotídeo Após a desnaturação durante 10 minutos a 94ºC, foram realizados 35 ciclos de 94ºC/30 segundos, 55ºC/30 segundos e 68ºC/2 minutos, que correspondem aos processos de desnaturação, hibridização e extensão, respectivamente. E, finalmente, a extensão final se deu a 68ºC durante 10 minutos. 31 3.6.2.3. Análise e purificação dos produtos amplificados Os produtos amplificados pela reação de PCR foram analisados por eletroforese (EGel Agarose 2 % Gel Electrophoresis System, Invitrogen). Foi utilizado um marcador de peso molecular de 100 pares de base (Bioeasy) e a leitura do gel foi feita em transiluminador de luz ultravioleta. Após a confirmação da amplificação pela análise em gel, os amplicons foram purificados para remoção de dNTPs, primers e qualquer outro contaminante residual. Para tal, foi utilizado o QIAquick Extraction Gel (Qiagen), de acordo com as instruções do fabricante. 3.6.2.4. Reação de sequenciamento A reação de sequenciamento dos produtos purificados da reação de PCR foi conduzida utilizando o kit BigDye Terminator da Applied Biosystems. Os reagentes utilizados na reação estão mostrados na tabela abaixo (Tabela 3.5). Tabela 3.5: Reagentes para reação de sequenciamento. Reagentes Concentrações Tampão 5x Primer M13* 3,2 pmol/µl Kit BigDye 5x DNA 100 ng/µl Volume final 20 µl * Sequências dos primers M13: direto 5′ TGTAAAACGACGGCCAGT 3′ e reverso 5′ CAGGAAACAGCTATGACC 3′. As condições de ciclagem foram: 30 ciclos de desnaturação a 96ºC por 10 segundos, anelamento a 50ºC por 5 segundos e extensão a 60ºC durante 4 minutos. Após a reação de sequenciamento, o excesso de dNTPs terminadores de sequência marcados que não foram incorporados na construção das fitas foi removido pela purificação 32 do produto através de precipitação com isopropanol 75%. Após incubação de 15 minutos à temperatura ambiente, foi feita uma centrifugação a 4000 rpm por 45 minutos e o sobrenadante foi descartado. Em seguida, para secagem, uma nova centrifugação a 900 rpm por 1 minuto foi realizada com a placa invertida. Posteriormente à precipitação, os produtos purificados foram ressuspensos em 20 µL de Hi-Di formamida (Applied Biosystems), desnaturados a 95ºC por 5 minutos e imediatamente colocados no gelo para permitir a manutenção da desnaturação do DNA. Em seguida, foram submetidos à corrida eletroforética no sequenciador automático ABI3130XL (Applied Biosystems), de 16 capilares com 50 cm cada, utilizando o polímero POP-7 (Applied Biosystems) nas condições padrões do equipamento. Os eletroferogramas foram analisados com o programa Sequencher 5.0. 3.7. Dosagem de citocinas A partir dos ensaios de produção viral, parte do sobrenadante das culturas de células A549 infectadas com o vírus influenza H3N2 e tratadas com o composto PAR038 foi reservado para a quantificação de citocinas. Foram quantificadas as interleucinas 6 e 8 (IL-6 e IL-8) e as quimiocinas CCL2 ou MCP-1 (do inglês Chemokine Ligand 2 ou Monocyte Chemotactic Protein-1) e CCL5 ou RANTES (do inglês Chemokine Ligand 5 ou Regulated on Activation Normal T cell Expressed and Secreted), através do kit R&D Dual Set, de acordo com as instruções do fabricante. 3.8. Análise estatística A análise foi feita utilizando o programa Excel para Windows. Utilizamos o Teste-t de Student para atestar a significância de nossos dados. Utilizamos um intervalo de confiança de 95%; logo, valores de p < 0,05 foram considerados significativos. Todos os dados foram analisados a partir da observação de no mínimo três experimentos independentes, sua média e desvio padrão. 33 4. RESULTADOS 4.1. Efeito inibitório dos análogos triazólicos da ribavirina Os três análogos triazólicos da ribavirina, PAR017, PAR018 e PAR038, foram avaliados com relação aos seus efeitos sobre a replicação in vitro do vírus influenza. Para tal, células MDCK foram infectadas com o vírus influenza A H3N2 e tratadas com diferentes concentrações dos compostos. Após 24 horas de incubação com os compostos, o sobrenadante das culturas foi coletado, os vírus foram rapidamente quantificados por RT-PCR em tempo real; assim, calculamos a porcentagem de inibição da replicação viral e o valor de IC50m (concentração de droga capaz de inibir 50 % da replicação viral quantificado através de uma abordagem molecular) de cada um dos compostos (Tabela 4.1). Os três análogos da ribavirina, PAR017, PAR018 e PAR038, apresentaram porcentagens de inibição da replicação viral igual a 94, 96 e 98%, respectivamente, quando testados na concentração de 50 µM (Tabela 4.1). Esses valores são comparáveis à porcentagem de inibição da ribavirina (composto de referência utilizado como controle positivo), a qual, nesta mesma concentração, inibe em mais de 90% a replicação viral (Tabela 4.1). Além disso, os compostos PAR018 e PAR038 se mostraram mais potentes que a ribavirina, já que possuem valores de IC50m menores que o composto de referência (Tabela 4.1). O composto PAR017 possui IC50m semelhante ao da ribavirina, sendo, portanto, tão potente quanto o composto de referência (Tabela 4.1). A partir destes dados, o composto mais potente dos análogos da ribavirina, o PAR038, foi selecionado para aprofundarmos o estudo sobre sua ação antiinfluenza. Vale ressaltar, que além de mais potente, o PAR038 é o que possui a rota de síntese mais simples entre os três análogos, visando sua produção em larga escala. 34 Tabela 4.1: Efeito inibitório dos três análogos triazólicos da ribavirina sobre a replicação in vitro do vírus influenza A H3N2. Compostos % de inibição da replicação viral (50 IC50m (µM) µM) PAR017 94 ± 0,07 33 ± 5 PAR018 96 ± 0,3 19 ± 3 PAR038 98 ± 0,4 14 ± 1,6 Ribavirina > 90 30 ± 3 4.2. Citotoxicidade e efeito inibitório do composto PAR038 Determinamos a citotoxicidade do composto PAR038 através da redução do XTT. Incubamos células MDCK com diferentes concentrações de PAR038 durante 72 h. A partir da leitura obtida em nosso experimento fizemos uma curva de regressão linear para obtenção do CC50 (concentração de droga que mantém 50 % das células viáveis). O alto valor de CC50 deste composto, maior que 1000 µM, indica que o mesmo é pouco citotóxico às células MDCK (Tabela 4.2). Além disso, o CC50 do PAR038 é maior que o da ribavirina (94,3 µM), mostrando que a ribavirina é 10 vezes mais citotóxica que o nosso composto (Tabela 4.2). A fim de melhor mensurarmos a capacidade inibitória do PAR038 sobre a replicação in vitro dos vírus influenza A H3N2 - células MDCK foram infectadas, tratadas com diferentes concentrações do PAR038 e o sobrenadante destas culturas foi titulado por TCID50/mL [91]. Desta maneira, foi determinado o IC50t, por quantificação via titulação. Podemos observar uma potencia ainda maior do PAR038, aproximadamente 290 vezes superior à ribavirina, apresentando valor de IC50t igual a 0,07 µM, enquanto que o da ribavirina é de 20,5 µM (Tabela 4.2). Vale ressaltar que ao compararmos os valores de IC50 observamos uma diferença de aproximadamente 200 vezes quando os efeitos do PAR038 são avaliados por abordagens celulares e moleculares (Tabela 4.1.). Através da razão entre valores de CC50 e de IC50t do PAR038 previamente determinados, o índice de seletividade (SI – grau de segurança de uma substância in vitro) foi calculado. O SI obtido para o H3N2 foi maior que 14.000 indicando que a margem de segurança in vitro é alta e maior que à da ribavirina (SI igual a 4,6) (Tabela 4.2). 35 Tabela 4.2: Citotoxicidade, efeito inibitório e índice de seletividade do PAR038. Composto CC50 (µM) IC50t (µM) SI (CC50/IC50t) PAR038 > 1000 0,07 ± 0,006 > 14.000 Ribavirina 94,2 20,5 ± 3 4,6 Para os ensaios de citotoxicidade e inibição da replicação viral também foram utilizadas células A549, pois esta é uma linhagem de células epiteliais do trato respiratório. Nos ensaios de inibição da replicação viral, as células A549 foram infectadas com o vírus influenza A H3N2 e tratadas com diferentes concentrações do PAR038 por 24 h. Os vírus presentes nos sobrenadantes foram titulados em células MDCK por TCID50/mL e o IC50t foi calculado. Nosso composto foi capaz de inibir a replicação viral neste modelo celular com IC50t igual a 21,2 µM (Figura 4.1). Nas concentrações estudadas, o composto PAR038 não foi citotóxico para a célula A549, apresentando viabilidade acima de 95 %. Figura 4.1: Inibição da replicação viral em células A549. A monocamanda de células A549 foi infectada com o vírus influenza A H3N2 e tratada com diferentes concentrações do composto PAR038 por 24 h. Os vírus foram titulados por TCID50/mL em células MDCK. Vale mencionar que células MDCK replicam melhor o vírus influenza do que as células A549. Assim, em experimentos com MDCK utilizamos MOI de 0,05, enquanto que nos ensaios com A549 foi necessário o uso de um MOI de 0,25. Para comparação, podemos verificar a replicação do influenza em A549 e MDCK infectadas no MOI de 0,05 após 24 h (Figura 4.2). Naturalmente, o IC50 do PAR038 nas células A549 foi maior que o encontrado nas células MDCK, já que mais partículas virais foram necessárias para infectar estas células. 36 Figura 4.2: Comparação entre a replicação viral em células MDCK e A549. Células MDCK e A549 foram infectadas com o vírus influenza A H3N2 no MOI 0,05. Após 24 h de infecção, os sobrenadantes foram titulados em MDCK por TCID50/mL. 4.3. O composto PAR038 inibe a atividade da RNA polimerase viral Como o composto PAR038 é um análogo da ribavirina, espera-se que seus mecanismos de ação sejam semelhantes. A ribavirina inibe DNA e RNA polimerases virais [72] e por isso investigamos a capacidade do PAR038 em inibir a RNA polimerase do vírus influenza. Basicamente, a RNA polimerase viral apresenta duas classes principais de substratos, o RNA genômico e os NTPs. Nos nossos ensaios, enquanto um dos substratos foi mantido constante, o outro foi incubado em diferentes concentrações, na presença ou ausência do composto PAR038. Após as incubações específicas, o RNA viral foi extraído, quantificado por RT-PCR em tempo real e a atividade da RNA polimerase foi determinada (Figura 4.3). Podemos observar que houve uma diminuição da atividade da RNA polimerase conforme o aumento da concentração do PAR038, sugerindo um efeito inibitório dose-dependente deste composto (Figura 4.3 A). Avaliando cada imput inicial de vírus (um indicador do RNA genômico incluído em cada reação), frente ao tratamento com as diferentes concentrações da droga, podemos verificar uma inibição dose-dependente da atividade da RNA polimerase do vírus influenza (Figura 4.3 B). Podemos observar também que, independente da concentração de nucleotídeos utilizada, houve inibição da atividade da RNA polimerase viral pelo tratamento com o PAR038 (Figura 4.3 C). A partir destes dados, foi calculado o EC50 (concentração do composto que inibe 50% da atividade enzimática) e o valor obtido foi de 1,56 ± 0,16 µM. Neste mesmo ensaio, a ribavirina foi utilizada como controle e seu EC50 foi igual a 1,48 ± 37 0,48 µM. Esses dados sugerem que o PAR038 e a ribavirina são igualmente potentes contra a RNA polimerase do vírus influenza. 38 39 Figura 4.3: Inibição da atividade da RNA polimerase do vírus influenza A H3N2 pelo PAR038. Após o estímulo da RNA polimerase do vírus influenza na ausência e presença de diferentes concentrações do composto, sua atividade foi determinada por RT-PCR em tempo real. (A) No eixo X temos a concentração de substrato (relativo ao RNA genômico ou imput inicial de vírus em TCID) e no eixo Y, a atividade da RNA polimerase viral em TCID relativo por minutox10-3. Cada curva representa uma concentração distinta do composto. (B e C) O eixo X representa a concentração do PAR038 em µM e o eixo Y, a atividade da RNA polimerase viral em TCID relativo por minutox10-3. Cada curva representa um imput de vírus inicial diferente (B) e uma concentração de NTPs distinta (C). 4.4. Geração de cepas virais resistentes ao PAR038 Com o objetivo de verificarmos qual o alvo do composto PAR038 na enzima RNA polimerase do vírus influenza, passagens sequenciais do vírus influenza A H3N2 na presença de concentrações crescentes do PAR038 foram realizadas para a geração de cepas resistentes. Até o momento foram realizadas duas passagens do vírus H3N2, sendo a maior concentração de PAR038 utilizada (30 µM) aproximadamente 400 vezes maior que o valor de IC50t do composto. Mesmo utilizando altas concentrações da droga, ainda não foi possível encontrarmos mutações em nenhuma das três subunidades da RNA polimerase viral, PB1, PB2 e PA, quando comparamos suas sequências com as sequências dos vírus H3N2 passados na ausência do PAR038. 4.5. O composto PAR038 possui efeito imunomodulatório em células A549 Parte dos efeitos antivirais da ribavirina pode ser oriundo de uma atividade imunomodulatória [81-82]. Assim, é possível que o composto PAR038, análogo da ribavirina, compartilhe esta propriedade. Então, a fim de verificarmos tal possibilidade, duas citocinas (IL-6 e IL-8) e duas quimiocinas (MCP-1 e RANTES) foram dosadas nos sobrenadantes de células A549 infectadas com o vírus influenza A H3N2 e tratadas com 15 µM (IC50m encontrado no primeiro ensaio de inibição da replicação viral - Tabela 4.1.) do PAR038 ou com 10 µg/mL de dexametasona (Dexa – glicocorticóide com propriedades anti-inflamatórias conhecidas, utilizado como controle positivo) por 24 h. Como este foi um ensaio piloto, foram dosadas somente 4 citocinas e o composto de referência, a ribavirina, ainda não foi utilizado como controle. Podemos observar que, após o tratamento com PAR038, os níveis de IL-6 e RANTES permaneceram inalterados (Figura 4.4 A e D) e houve uma diminuição significativa nos níveis de IL-8 e MCP-1 (Figura 4.4 B e C). 40 Figura 4.4: Alteração nos níveis de citocinas após o tratamento com o PAR038. Após a infecção de células A549 com o vírus influenza H3N2 e tratamento com os compostos PAR038 ou dexametasona, foi realizada a dosagem das citocinas IL-6 (A) e IL-8 (B), e das quimiocinas MCP-1 (C) e RANTES (D) nos sobrenadantes das culturas. O eixo X dos gráficos representa o controle infectado não tratado e a condição experimental de células infectadas e tratadas, e, o eixo Y, a concentração de citocinas no sobrenadante da cultura em pg/mL (A, C e D) ou em ng/mL (B). * p < 0,05 41 5. DISCUSSÃO As infecções causadas pelos vírus influenza são de grande importância para saúde pública, sobretudo em países em desenvolvimento [12]. Todo ano ocorrem surtos epidêmicos durante os meses de inverno e, ocasionalmente, novas cepas potencialmente pandêmicas são geradas devido à grande variabilidade genética destes vírus. Embora campanhas de vacinação sejam realizadas anualmente na tentativa primária de controle das infecções causadas pelo vírus influenza, existem diversos casos nos quais a vacinação é ineficaz devido ao escape viral. As estratégias de vacinação custeadas pelos governos são muitas vezes focadas em certos grupos de pacientes em maior risco de desenvolver infecções mais severas, assim uma percentagem significativa de indivíduos permanecem não imunizados e, portanto, susceptíveis, podendo servir de hospedeiro de um eventual surto epidêmico. Além disso, no caso de uma eventual pandemia, é provável que não exista tempo hábil para produção de vacina em ovos embrionados. Assim, a estocagem e uso de antivirais é necessária como estratégia adicional de controle para ocupar as muitas lacunas abertas pelas ressalvas mencionadas na vacinação antiinfluenza. Considerando que atualmente o uso de apenas uma classe de drogas anti-influenza, os NAIs, é pertinente e levando-se em conta que cepas resistentes e com diminuição de sensibilidade a estes compostos existem [65-66, 93-94], a busca de novas drogas com diferentes alvos é de interesse científico e clínico. Neste contexto, este trabalho descreve os efeitos do composto análogo triazólico da ribavirina, PAR038, um promissor inibidor da RNA polimerase viral. A partir de três compostos análogos triazólicos da RB capazes de inibir a replicação do vírus influenza, selecionamos o mais potente entre eles, o PAR038, para aprofundarmos o estudo de sua atividade anti-influenza. Utilizando o composto de referência como controle, a RB, observamos que o PAR038 é menos citotóxico e 400 vezes mais potente (CC50 > 1000 μM e IC50 = 0,07 μM - Tabela 4.2). Isto nos revela grande margem de segurança para utilização in vitro deste composto, já que ele apresentou alto índice de seletividade (SI > 14000 - Tabela 4.2). Ao compararmos o composto PAR038 com os NAIs, drogas em uso clínico, vimos que nosso composto é menos citotóxico que o OST e o ZAN (CC50 maior que 20 μM e aproximadamente 300 μM, respectivamente), embora seja menos potente, já que o IC50 de ambos os NAIs é na faixa de nano molar (Tabela 5.1). Nosso composto e os NAIs apresentam mecanismos de ação distintos, nos propulsionando a investigar futuramente se existiria atividade sinérgica ou aditiva entre estas moléculas. 42 Tabela 5.1: Comparação entre a citotoxicidade, o efeito inibitório e o índice de seletividade do PAR038 e os compostos de referência ribavirina, oseltamivir e zanamivir. Composto CC50 IC50 SI (CC50/IC50) PAR038 > 1000 µM 0,07 µM > 14000 Ribavirina 94,2 µM 20,5 µM 4,6 Oseltamivir > 20 μM 0,2 nM > 100000 Zanamivir 300 μM 1 nM 300000 Diversos grupos vêm buscando terapias combinadas anti-influenza, com drogas existentes que atuem em diferentes alvos durante o ciclo replicativo viral. No entanto, muitos dos antivirais utilizados por estes grupos são substâncias de amplo espectro, como o inibidor de DNA/RNA polimerases, a RB [77] e o interferon [95]. No caso da RB, além de ser inespecífica, é altamente citotóxica, o que torna o futuro do nosso composto bastante interessante para eventual intervenção com terapias combinadas, já que ele é muito potente e menos citotóxico que a RB. Por ser um composto análogo à RB, espera-se que o PAR038 apresente mecanismos de ação semelhantes ao composto de referência. Embora o mecanismo de ação da RB ainda não seja completamente conhecido, existem três mecanismos propostos: 1) inibição direta da RNA polimerase viral; 2) inibição de enzimas celulares envolvidas na biossíntese de nucleotídeos e 3) catástrofe por erro [73]. Neste estudo, avaliamos a capacidade do PAR038 em inibir diretamente a RNA polimerase do vírus influenza e observamos uma inibição dosedependente desta enzima. Tal efeito ocorreu frente aos dois substratos da polimerase, RNA genômico viral e NTPs. O PAR038 se mostrou, então, um potente inibidor da RNA polimerase viral, assim como a RB (EC50 igual a 1,56 ± 0,16 e 1,48 ± 0,48 µM, respectivamente). Depois de verificarmos que o PAR038 é capaz de inibir a RNA polimerase do vírus influenza, tentamos determinar sua proteína alvo. Para tal, é necessária a geração de cepas virais com mutações de resistência ao PAR038. Após a geração, é verificado se as mutações pontuais geradas ou combinações entre elas realmente levam à resistência ao composto. Embora tenham sido realizadas somente duas passagens do vírus influenza A H3N2 em células MDCK na presença de concentrações crescentes do composto, a maior concentração utilizada foi bastante alta, aproximadamente 400 vezes maior que o valor de IC50 do PAR038. Até esta concentração não foram encontradas mutações nas três subunidades da RNA 43 polimerase, PA, PB1 e PB2, embora estejam sendo realizadas mais passagens na presença de concentrações ainda maiores do composto. Outros grupos ainda não demonstraram mutações de resistência na RNA polimerase do vírus influenza frente ao tratamento com a RB. Além da RNA polimerase viral, existem proteínas acessórias que contribuem para que o ciclo replicativo viral seja bem sucessido, como, por exemplo, a nucleoproteína e a proteína de exportação nuclear. Desta maneira, como não foram encontradas mutações na polimerase propriamente dita, seria interessante avaliar a presença de mutações nestas proteínas para verificarmos se o PAR038 poderia ter outro alvo de ação no vírus influenza. O complexo polimerase do vírus influenza possui múltiplas funções essenciais para replicação e transcrição do genoma viral, como a captura e clivagem do cap do RNAmc, a síntese do RNAmv e do RNA genômico, além da poliadenilação do RNAmv. A presença destas diversas funções faz com que o complexo polimerase seja um alvo atraente para o desenvolvimento de novos antivirais. Recentemente, diversos grupos vêm buscando moléculas capazes de inibir o complexo polimerase. Como exemplos temos moléculas que inibem a subunidade PA e sua atividade endonuclease [96-97]; moléculas que inibem a interação entre as subunidades da polimerase, como a ligação PA-PB1 [98]; e moléculas que, além de inibirem a enzima, induzem indiretamente citocinas ligadas à resposta antiviral como o IFN [99]. Entre os compostos descritos recentemente, o que se mostrou mais promissor é o T-705 (favipiravir), que inibe in vitro e in vivo a replicação dos vírus influenza A, B e C [100]. Este composto inibe a RNA polimerase e possui fraca inibição da enzima celular IMPDH, sugerindo que seu mecanismo de ação é diretamente na polimerase viral. O favipiravir teve seu estudo clínico de fase II concluído recentemente, em novembro de 2012, (dados não publicados – www.clinicaltrials.gov) e seu licenciamento para uso contra influenza é esperado para um futuro próximo. Curiosamente, os valores de inibição em 50 % do PAR038 sobre a enzima viral foram superiores ao observados para a cultura de células infectadas (EC50 de 1,56 contra IC50t de 0,07). Em geral, quando se analisa os parâmetros farmacológicos contra alvos mais específicos, os valores de inibição em 50 % tendem a ser menores. Um exemplo disso ocorre com o AZT, que inibe a replicação do HIV-1 em células e a atividade da enzima transcriptase reversa com valores de IC50 de 0,7 µM e 0,01 µM, respectivamente [101-102]. Nossos resultados com o PAR038 então sugerem que este composto pode apresentar mais de um mecanismo de ação para inibição da replicação do influenza. Isto é, o PAR038 talvez apresente também uma ação celular que resulta numa inibição viral, reforçando a necessidade de investigarmos mais modos de inibição, como a ação sobre enzimas celulares da via de 44 biossíntese de nucleotídeos e/ou desencadeamento do mecanismo de catástrofe por erro. Imaginamos que um destes mecanismos, ou ambos, podem se sinergizar com a inibição da RNA polimerase no interior das células infectadas pelo influenza. Os efeitos do PAR038 sobre o metabolismo podem ser mais amplos do que aquele apresentado por seu análogo, RB. Assim, outras vias além daquelas relacionadas com a biossíntese de purinas e pirimidinas devem ser investigadas. Afinal, durante a infecção pelo vírus influenza, uma série de alterações no estado metabólico da célula ocorre para favorecer a replicação viral [103]. O vírus utiliza metabólitos celulares para a replicação do genoma e a síntese de proteínas, levando à diminuição dos níveis intracelulares de nucleotídeos [103]. Ocorre também o aumento da síntese de ácidos graxos, já que os vírus adquirem seu envelope lipídico a partir da membrana plasmática da célula hospedeira [104]. Frente à infecção, um aumento significativo da glicólise também ocorre [103]. Desta maneira, é interessante verificar se o composto PAR038 poderia alterar enzimas chave e/ou a síntese de componentes intracelulares do metabolismo para, indiretamente, inibir a replicação viral. Além do PAR038 ter se mostrado mais potente em inibir a replicação viral em cultura de células MDCK, nosso composto foi capaz de inibir a replicação viral em células A549. O IC50 do PAR038 neste modelo (21,2 µM) foi maior que o encontrado em células MDCK (0,07 µM), porém, a quantidade de vírus necessária para a infecção das células A549 e produção de títulos virais mensuráveis também foi maior (MOI de infecção em células MDCK e A549 foi de 0,05 e 0,25, respectivamente). Na infecção em humanos, o principal alvo dos vírus influenza são as células epiteliais do trato respiratório, porém, o modelo de células utilizado para estudos in vitro e isolamento viral são as células MDCK, devido a sua alta susceptibilidade à infecção [105-106]. Esta alta susceptibilidade é, em parte, devido ao fato da sinalização gerada pelos IFNs (citocinas da resposta imune inata que leva a célula para um “estado antiviral”) ter apenas um pequeno efeito restritivo na replicação do vírus influenza nas células MDCK [107]. A porcentagem de infecção em células A549 é menor que em células MDCK durante as primeiras horas de infecção e aumenta após 24 e 48 h, mas não atinge 100%, provavelmente por estarem presentes mecanismos da resposta imune inata do hospedeiro humano que não são encontrados em células de outros mamíferos, como é o caso das MDCKs [108]. Durante uma infecção viral, as principais citocinas envolvidas com a resposta imunológica inata são os interferons tipo I (IFN-α e IFN-β). Estas moléculas induzem a expressão de proteínas celulares que atuam na resposta antiviral. No caso da infecção pelo vírus influenza, os IFN tipo I estimulam as células epiteliais infectadas a produzirem citocinas como IL-8, 45 MCP-1, RANTES, IL-6, IL-1 e TNF-α [109]. Essas citocinas levam a uma resposta tecidual pró-inflamatória e estimulam o recrutamento de monócitos/macrófagos, linfócitos T e B e células Natural Killer (NK) para o local de infecção. Essas células, por sua vez, produzem mais citocinas pró-inflamatórias que favorecem a resposta Th1, necessária para a imunidade antiviral específica. Além disso, a resposta celular é de grande importância no combate a infecção pelo vírus influenza, já que as células T CD8+ possuem papel crucial no clearance viral. Embora as respostas Th1 e citotóxica sejam essenciais para a eliminação da infecção viral, a grande liberação de citocinas pró-inflamatórias e moléculas citotóxicas resulta em dano no tecido pulmonar e agravo da infecção [110-111]. A produção exacerbada de citocinas pró-inflamatórias, cytokine storm, já foi associada a diversas doenças infecciosas e não infecciosas e, no caso da influenza, foi descrita pela primeira vez em infecções pelo vírus altamente patogênico H5N1 [112]. Infecções mais severas pelos vírus influenza, além do H5N1, também estão relacionadas ao cytokine storm, e, nestes casos, drogas imunomodulatórias deveriam apresentar benefícios terapêuticos. A terapia imunomodulatória adjuvante à terapia antiviral é extensamente utilizada através do emprego de corticóides. Porém, os efeitos causados pelo tratamento com estas moléculas são controversos com relação à melhora do paciente, período de excreção e carga viral [113-114]. Seria interessante então, se uma droga anti-influenza também possuísse propriedades anti-inflamatórias específicas. Neste contexto, e sabendo que a RB parece ter função imunomodulatória [81-82], investigamos se o composto PAR038 é capaz de alterar os níveis de citocinas em sobrenadantes de células A549 infectadas com o vírus influenza. Como citado anteriormente, células de linhagens humanas, como a A549, parecem possuir mecanismos da resposta imunológica do hospedeiro os quais não são compartilhados com células de linhagens de outros mamíferos, como as MDCKs. Portanto, a linhagem A549 foi utilizada para estes experimentos. Foram quantificadas, a princípio, 4 citocinas: IL-6, IL-8, MCP-1 e RANTES. Observamos que nosso composto reduz os níveis de IL-8 e MCP-1 e não altera IL-6 e RANTES. Estes foram experimentos iniciais, mas os dados já sugerem uma possível função imunomodulatória do composto PAR038 e abre portas para a avaliação de mais citocinas relacionadas à resposta anti-influenza e ao cytokine storm, como os IFN do tipo I, IL-1, IL-12, TNF-α, entre outras. Nosso grupo visa aprofundar os estudos anti-influenza do composto PAR038. Investigaremos se nosso composto pode estar atuando também através do mecanismo de catástrofe por erro e o impacto do tratamento com o PAR038 sobre o metabolismo celular. Continuaremos a busca por sítios de interação entre o PAR038, o complexo polimerase e as 46 proteínas acessórias NP e NEP/NS2. Aprofundaremos a análise das propriedades imunomodulatórias do composto in vitro e in vivo, além de avaliarmos os principais aspectos da farmacodinâmica do PAR038 frente à infecção por influenza in vivo. Nossos resultados, em conjunto, já demonstram que a estrutura do composto PAR038 é promissora para o desenvolvimento de novos compostos anti-influenza. 47 6. CONCLUSÕES O composto análogo triazólico da ribavirina, PAR038: É pouco citotóxico para células MDCK (CC50 > 1000 µM) e para células A549; Inibe a replicação do vírus influenza A H3N2 em ambos os modelos celulares, com valores IC50 iguais a 0,07 e 21,2 µM, respectivamente; É um potente inibidor da RNA polimerase do vírus influenza (EC50 igual a 1,56 µM) e, assim como a ribavirina, parece possuir outros mecanismos de ação além da inibição direta da polimerase viral; Ainda não foram encontradas mutações nas três subunidades da RNA polimerase viral, PA, PB1 e PB2, após duas passagens sequenciais do vírus influenza em células MDCK; Parece possuir propriedades imunomodulatórias frente a infecção de células A549 com o vírus influenza, já que foi capaz de reduzir a secreção de IL-8 e MCP-1. 48 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 2. 3. 4. 2012. 5. 6. Nicholson, K.G., Human influenza. . Textbook of Influenza., ed. R.W.a.A.H. KG Nicholson. 1998, London: Blackwell Science. 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