CLÁUDIO PEREIRA GOMES A MÚSICA E A DANÇA CONTRIBUINDO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL Criciúma, 2007 CLÁUDIO PEREIRA GOMES A MÚSICA E A DANÇA CONTRIBUINDO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL Monografia apresentada à Diretoria de PósGraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, para obtenção do título de especialista em Treinamento Desportivo. Orientadora: Profª Msc Clarice Vaz S. Arbelo Criciúma, 2007 AGRADECIMENTOS Quero expressar minha gratidão a todas as pessoas que direta ou indiretamente, me proporcionaram apoio para que eu pudesse realizar este trabalho, de modo especial a Deus, meus colegas e professores que em momentos difíceis me apoiaram nesta caminhada. Muito obrigado! SEJA FELIZ “Sonhe com aquilo que você quiser, Vá para onde você quiser, seja o que você quer ser, Porque você apenas possui uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, Elas sabem fazer o melhor das oportunidades. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam, Para aqueles que querem, conhecem a importância das pessoas que passam por sua vida. O futuro mais brilhante sempre estará baseado num passado esquecido. Você tem sucesso na vida quando esquecer os erros e as decepções do passado. Quando você nasceu, você estava chorando e todas as pessoas ao seu redor estavam sorrindo. Viva de um modo que ao morrer você seja aquele que esteja sorrindo, enquanto todos a sua volta estejam chorando. E o mais importante, viva a presença de DEUS, quando seu tempo na Terra acabar aproveite seu tempo agora para conhecê-lo e aprender quem Ele é , e quem Ele quer que você seja enquanto você está aqui” (Autor desconhecido) TÍTULO: A música e a dança contribuindo no processo de aprendizagem dos alunos do Ensino Fundamental AUTOR: Cláudio Pereira Gomes ORIENTADORA: Profª Msc Clarice Vaz dos Santos Arbelo RESUMO O presente trabalho bibliográfico procura abordar a música e a dança contribuindo no processo de ensino aprendizagem dos alunos do ensino fundamental. A música e a dança são produções sociais que representam os diversos aspectos da vida do ser humano. Neste sentido, deve-se considerar que ambas (música e dança) são conteúdos relevantes dentro da disciplina de Educação Física. A integração de ambas no processo ensino aprendizagem possui a finalidade de criar e desenvolver oportunidades para a criança se expressar, ser criativa e espontânea. É importante ressaltar a preciosidade em termos de desenvolvimento da expressão, imaginação e criatividade para o ser humano, bem como a importância da educação de ambas para que os alunos possam atuar no presente em busca de um mundo melhor no futuro. O educador é o elemento articulador desse processo, devendo estar atento e autorizado para organizar uma educação de boa qualidade, sendo que através da música, o educador pode despertar o interesse do educando na construção de uma nova aprendizagem. Para a realização da pesquisa bibliográfica, a busca de leituras foram constantes, permeando assim, a elaboração do material escrito, o qual teve como suporte teórico os seguintes autores: Snyders (1997), Rosa (1999), Libâneo (1994), Rego (1995), entre outros. Esta pesquisa se constitui como um mecanismo que visa contribuir com a escola, no sentido de viabilizar a conquista da vivência democrática, pois permite que todos participem do processo ensino-aprendizagem, tornando-se atuantes nas decisões escolares. Palavras-chave: Música; Dança; Criatividade. Processo ensino aprendizagem SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................6 1 A HISTÓRIA DA MÚSICA......................................................................................10 1.1 A cultura na música popular dos anos 60.......................................................12 1.2 A teoria da música..............................................................................................16 1.2.1 O poder da música............................................................................................17 1.2.2 Os que mais se opõem não são os mais opostos.............................................18 1.3 O desenvolvimento psicológico da criança.....................................................20 1.4 A música no processo ensino-aprendizagem.................................................21 1.4.1 Por uma pedagogia cognitivista da música.......................................................22 1.4.2 O educador, a música e a escola......................................................................23 1.4.3 A mediação do educador...................................................................................25 2 A HISTÓRIA DA DANÇA........................................................................................28 2.1 A dança no Brasil...............................................................................................30 2.2 Concepções de ensino na Educação Física....................................................31 2.2.1 Corporeidade e movimento humano.................................................................34 2.3 A dança na escola..............................................................................................34 2.3.1 A dança e a co-educação..................................................................................36 2.3.2 A improvisação: enquanto proposta metodológica para o ensino da dança..........................................................................................................................37 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................39 REFERÊNCIAS..........................................................................................................41 INTRODUÇÃO Atualmente a aprendizagem escolar, o comportamento e o interesse dos educandos vem ocupando um grande lugar na preocupação e capacitação dos educadores e de todos os profissionais da educação, cuja atuação se relacionam com modificações a serem realizadas na personalidade humana e nas estratégias pedagógicas. Desta forma, o presente trabalho bibliográfico desenvolveu o tema: “A música e a dança contribuindo no processo de aprendizagem dos alunos do ensino fundamental”. A finalidade é desvendar a compreensão do significado da música e da dança na educação e os benefícios trazidos pela utilização das mesmas, partindo do pressuposto que ambas são linguagens, e conseqüentemente, um conhecimento, e como tal deve ser explorada. Através da música e da dança, a escola pode oferecer acesso aos principais expoentes da nossa cultura, que pode ser através do canto, dos instrumentos e dos movimentos corporais. A música e a dança devem ser apreciadas, contextualizadas e refletidas, para que posteriormente, possibilite a crítica. A escola deve propiciar, aos alunos as progressivas alegrias dos encontros com a música e a dança, naquilo que ela tem de genial. A função mais evidente da escola é preparar os jovens para o futuro, para a vida adulta, para a vida profissional e para a cidadania. Considerando que os jovens passam na escola tantos e tantos anos - os mais belos de sua juventude, de sua vida - é preciso que a escola tenha por tarefa verificar o presente desses jovens e fortalecê-los neste presente, propiciando uma alegria que seja vivida hoje. A utilização da dança e da música em sala de aula é uma das formas para o educando realizar as atividades propostas pelo educador com maior facilidade, tornando-se mais produtivo, engajando-se naquilo que fazem, apropriando-se desta forma do domínio dos meios de expressão, e também da capacidade de ouvir uns aos outros. Eles comunicam-se pela música e pela dança, exprimem através delas o que está em seus corações e experimentam a alegria de uma atividade que se desenrola de acordo com seus interesses e desejos. A música e a dança como processos dinamizadores, significa identificá-las como um desafio a ser encarado, em busca de perspectivas para melhoria da aprendizagem e mudanças de comportamentos nos educandos. E a melhor forma de trabalho pedagógico é aquela que proporciona a educação da pessoa inteira, criativa e crítica, pois olhar o mundo é aprender e perceber significados em todas as coisas. A música e a dança acompanham o homem praticamente desde o início da humanidade. Os povos antigos cantavam e dançavam por diversos motivos religiosos e guerreiros. Elas sempre estiveram presentes entre os homens préhistóricos, fazendo parte das homenagens aos deuses, nos ritos de guerras das tribos indígenas e nas nações africanas, nas festividades da Idade Média entre outros. A música e a dança passaram por várias fases nas suas histórias, cederam a diferentes estilos de acordo com a época. Sendo a escola e a educação um espaço privilegiado da construção do conhecimento humano, na Educação Física também ocupa esse espaço, pois ela deve proporcionar a seus alunos participarem da construção do conhecimento de si mesmo e de seus colegas, considerar suas percepções, para possibilitar ao aluno descobrir como um sujeito de sua própria história e não um objetivo dela. Os conteúdos da Educação Física são as manifestações da linguagem ou expressão corporal e se apresentam em jogos, esportes, ginástica e dança. É de vital importância salientar que o professor não pode excluir alguns conteúdos como também não pode permitir a hegemonia de outros. Um dos conteúdos da Educação Física no âmbito escolar mais excluído é a música e a dança. Talvez por preconceito por achar que aquilo que diverte não contém conhecimento ou por insegurança de trabalhar um conteúdo com o qual tem pouca familiaridade. Muitos professores vêm deixando-a do lado de fora da sala de aula. Com raríssimas exceções, a única ocasião em que a música e a dança entram na escola é na época das Festas Juninas, quando os alunos ensaiam a quadrilha. Mesmo nesse caso, muitas vezes elas são realizadas de forma mecânica sem que os alunos saibam suas origens e seus significados. Em geral, quando se canta ou dança, ocorre um movimento espontâneo nas crianças, geralmente, as meninas, que imitam o que é divulgado pela mídia. Tanto a música como a dança são campos aprendizagem privilegiada, é uma forma de arte que utiliza como material apenas o corpo e seus movimentos. É preciso considerar que incentivar a música e a dança aos alunos, não significa formar músicos ou bailarinos, mas sim, tirar aproveito de todas as capacidades que pode ajudar a desenvolver. E é essa compreensão da música e da dança como expressão que devemos privilegiar nas aulas de Educação Física, tendo-a como uma forma de estimulação dos alunos para expressão corporal, aguçando sua criatividade através de movimentos livres e próprios. Partindo dessas considerações surgiu a seguinte problemática: como a música e a dança contribuem no processo de ensino-aprendizagem dos alunos do ensino fundamental? Como objetivo esse trabalho busca compreender através de pesquisa bibliográfica como a música e a dança podem ser aplicadas e incluídas pelos professores de Educação Física em suas aulas. Devido há vários fatores como preconceito e hegemonia dos esportes, a música e a dança têm sido consideradas como “conteúdos fantasmas” nas aulas de Educação Física. E por isso, há necessidade de fazer o resgate das aulas de música e dança e legitimação de aulas mistas (co-educação). Este estudo estrutura-se em três (03) momentos: No primeiro momento, apresenta-se a história, a teoria, o poder da música; bem como o desenvolvimento psicológico da criança, onde destaca-se a música no processo ensino-aprendizagem; a pedagogia cognitivista da música, o educador, a música e a escola e a mediação do educador. No segundo momento, apresentam-se a história da dança, as concepções de ensino na Educação Física, a dança na escola, ressaltando-se a dança e a coeducação e a improvisação: enquanto proposta metodológica para o ensino da dança E finalizando, no terceiro momento, destacam-se as Considerações Finais e as Referências. 1 A HISTÓRIA DA MÚSICA A origem da música é proveniente em nosso vasto território, das mais variadas músicas a começar da catequese dos Jesuítas até a contribuição portuguesa, africana e indígena. (MIGNONE, 1980, p. 33). Mignone (1980), ressalta ainda que a história da música abrange vários períodos. O colonial, o de D, João VI, o romantismo e indianismo, o moderno, o contemporâneo e o da Vanguarda1. Os dois grandes ramos da música brasileira são o popular e o erudito. Erudito, quer dizer música trabalhada, feito com saber e construção variada. No período colonial, colocaremos em primeiro lugar a música dos indígenas, segundo Mignone (1980, p. 34): “possui elementos de referência para saber como era a música dos índios no tempo da descoberta”. O certo é que eles tenham a própria cultura musical que aprecia em seus contos e ritmos. Os Jesuítas que vieram ao Brasil para dar instruções metodológicas e orais aos Silvícolas ficaram assustados ao ouvir os seus contos, os seus instrumentos de percussão2 e ver a sua dança. Resolveram ensina-lhes o cantochão e outros contos religiosos. Com isto, conseguiram destruir a música espontânea e natural dos nativos. Além dos Jesuítas, participaram deste crime, os frades mercenários (frades evangelistas que resgatavam os escravos das mãos dos mouros). Em decorrência da ação civilizadora dos Jesuítas, a música nativa acabou perdendo, lamentavelmente suas características. (MIGNONE, 1980, p. 35). Segundo Mignone (1980), com o início da escravatura nos meios de grande prosperidade, como Bahia e Pernambuco, criou-se um campo novo de manifestações culturais. Não resta dúvida, de que a contribuição cultural do negro foi praticamente iniciada no próprio Brasil. Os escravos chegavam com seus instrumentos de percussão e quase nenhum contato com o português e os índios semi-civilizados, começaram a criar musicais e combinações instrumentais, cujas características se originaram do próprio ambiente encontrado. Na política, o Ocidente organizava seus Estados Feudais, dividindo-os em vilas burguesas, castelos e conventos. O fracionamento político atinge também a 1 2 Vanguarda: grupo político, social ou artístico que defende idéias pioneiras. Percussão: conjunto de instrumentos. música, nas vilas, o povo cantava as canções de oficio, simples no ritmo e na melodia, fáceis de decorar. Nos castelos ouvem-se músicas aristocráticas. Os trovadores3, condicionados, no início, as regras gregorianas4, levam ao castelo, pela música a distração e a informação. Com eles, a música e a divulgação em âmbito mais amplo, passa através das regiões. Fundem-se as antigas melodias as atribuições folclóricas dos diversos povos. (FAHLBUSCH, 1990). A opulência da Renascença também deixa suas marcas na música. Compositores descobrem que não basta construir é necessário exprimir e inovar. Os protestantes buscam nas antigas músicas do povo seus temas musicais. A música passa época por época e, em cada uma lhe é acrescentado algo de novo. Das transformações da Renascença surge à música barroca, música como arte. (FAHLBUSCH, 1990). Depois, vem a Revolução Francesa, as idéias liberais espalham-se por toda a Europa e daí se irradiam para o resto do mundo. A Europa e o mundo inteiro se transformou. Com ela veio o Romantismo e a alienação da arte de salão feita para a elite aristocrática, a música deveria falar mais ao povo, mediante uma linguagem mais simples. (MENDES, 1985). As coisas caminharam assim até meados do século XIX. Nesse século, duas novas tendências juntam-se às buscas da música clássica: a música eletrônica e a música concreta. Como decorrência da música concreta aparece à música eletrônica, que emprega sons produzidos em laboratório por osciladores eletrônicos. E mais recentemente, iniciaram-se as pesquisas sobre música aleatória, isto é, a música do ‘acaso’. As modernas manifestações de música concreta e eletrônica, somadas as aleatórias, estão entre os fenômenos mais controvertidos da história da música. A música, por meio do Canto Orfeônico, passa a compor esse conjunto curricular, na década de 30, e tem como seu maior representante o compositor Heitor Villa Lobos. O projeto musical de Villa-Lobos esbarrou no problema da formação de educadores e para adequar-se a essas condições, acabou transformando-se em aulas de teoria musical trabalhada matematicamente pelo código musical com memorização de peças orfeônicas. (BRASIL, 2000). 3 4 Trovadores: poetas medievais, que faz trovas. Gregorianas: refere-se ao rito ou ao canto, atribuídos ao Papa Gregório I, no século VI. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (2000, p. 56): “É somente nos anos sessenta, que o Canto Orfeônico foi substituído pela Educação Musical, criada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1961 (primeira LDB Nacional)”. Entre os anos 1920 a 1970, o movimento da Escola Nova leva a um redimensionamento da educação escolar como um todo e a escola vai aos poucos tendo o educando como centro do processo educativo. Sendo assim, o ensino da arte passa a dar ênfase aos processos de desenvolvimento e criação da criança, trabalhando com a livre expressão. (BRASIL, 2000). A Educação Musical também incorpora este enfoque e a música passa a ser cantada, dançada, tocada e sentida. Por meio de jogos, brincadeiras, rodas de instrumentos de percussão buscam-se um desenvolvimento auditivo, rítmico da expressão corporal estimulando as crianças a experimentar, improvisar e criar. (BRASIL, 2001, p. 56) Em 1971, com a reforma da LDB de nº 4024/61, o ensino da Arte passa a ser definido como Educação Artística e considerada como atividade educativa. Essa passa a ser um componente curricular e traz como conteúdo a música, o teatro, a dança e as artes plásticas para o então 1º e 2º graus. (BRASIL, 2001, p. 57). A partir dos anos 80, os educadores de arte, tanto da educação formal com da informal, mobilizam-se e constitui o movimento Arte-Educação. Este tem repercussão nacional e promove um amplo estudo sobre o ensino da arte. (BRASIL, 2001). Em 1996, o ensino da arte é confirmado como componente curricular obrigatório na Educação Básica pela lei nº 9394/96, de 23 de dezembro de 1996 (art. 26, parágrafo 2º) e em 1998, é identificado como Arte (e não mais por Educação Artística) pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Nestes Parâmetros, a proposta nacional para o desenvolvimento da linguagem musical tem como conteúdo a comunicação e a expressão em música, envolvendo a interpretação, a improvisação e a composição, a apreciação significativa, envolvendo a escuta, a compreensão da linguagem musical, e o estudo da música como produto cultural e histórico. O que fundamenta essa proposta de conteúdo é entre outras, a idéia de que a criação artística se distingue das outras modalidades de conhecimento pela qualidade de comunicação que se estabelece entre os seres humanos, por meio da linguagem desenvolvida na obra de arte. (BRASIL, 1998). A manifestação artística tem em comum com o conhecimento científico, técnico ou filosófico seu caractere de criação e inovação. Essencialmente, o ato criador, em qualquer dessas formas de conhecimento, estrutura e organiza o mundo, respondendo aos desafios que eles emanam, num constante processo de transformação do homem e da realidade circundante. (BRASIL, 2000, p. 32). Outro princípio, igualmente relevante, destacado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (2000), resulta do entendimento de que não dá para falar em formação do cidadão sem se oportunizar ao estudante a condição de participar ativamente como ouvinte, interprete, compositor e improvisador, desenvolvendo a linguagem musical como forma de aprender a realidade, expressar-se no mundo. Assim, o ensino da música pode desempenhar um papel essencial para situar em seus justos lugares, as técnicas, os exercícios, em resumo, os meios e as finalidades profundas da educação. 1.1 A cultura na música popular dos anos 60 No Brasil, início dos anos 60, a ideologia nacional desenvolvimentista é a regra e a prática dentre grande parte da população. A intelectualidade e a classe política alimentam a crença em um país vivendo o seu momento de arrancada. Enfim, a era das dualidades5 iria terminar e o moderno venceria o arcaico6 em questão de anos. Afinal, tinha-se uma nova capital, a televisão e um campeonato mundial de futebol. Tinha-se uma industrialização crescente e a formação de uma infra-estrutura que daria conta desta modernização eminente. Assim, um modelo de desenvolvimento ia se formando no país, onde a questão do ‘atraso’ dos povos periféricos7 em relação aos grandes centros mundiais, não era mais definida no campo cultural. É o crescimento econômico que surgiria um mundo onde todos poderiam ter prosperidade e paz, através do consumo e do trabalho. (GAINZA, 1988). O modelo, implementado no Brasil com relativo sucesso neste período, cria condições para a formação de seu próprio contrapeso. A estrutura caótica8 dos grandes centros urbanos, fruto da massiva migração interna que ocorria neste 5 Arcaico: fora de uso, antiquado. Dualidades: dois princípios básicos e opostos. 7 Periféricos: proximidade, vizinhança. 8 Caótico: muito confuso. 6 período, criaria condições para o surgimento de uma população diversificada e atuante, na medida em que se sofisticavam os instrumentos de atuação política em um país de crescentes desigualdades sociais. De forma irônica, a caminhada a passos firmes para a modernidade, deixava para trás um rastro de pobreza nas cidades e miséria nos campos. Ao adentro a década de sessenta, o país encontrava-se em meia a uma crise institucional e financeira. O presidente Jânio Quadros renuncia em 1961 e a inflação atinge picos de 50% em 1962. (GAINZA, 1988). Neste quadro histórico, Gainza (1988, p. 45) destaca a presença de uma elite cultural, formada no bojo9 destes discursos e fatos contraditórios, inicia um trabalho onde a produção e o consumo da arte não seriam mais meros entretenimentos. No teatro, na música popular, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, nas academias e redações, cada vez mais se ouvia o casamento entre cultura e poder. Frente um país que permanecia com seus horizontes políticos indefinidos, as produções culturais acenam com a possibilidade de pleitear algo mais que um consumidor passivo. (CHARTER apud SNYDERS, 1997, p. 28). Num dado momento, o discurso cultural passa a adotar estratégias de um discurso político, não só nas suas diversas linguagens, como na prática efetiva do artista enquanto agente social. (SNYDERS, 1997). Esta mudança no estatuto da cultura brasileira deve ser bem localizada e delineada, pois inaugura uma forma de ação política que até então era ignorada por aqui: a conscientização do “povo” através da idéia de uma “cultura nacional popular”, como base de um projeto político efetivo. Em períodos com o Estado Novo, um governo constrói para o país uma cultura nacional “oficial”, ou seja, a população é inserida nesta cultura de forma automática, aceitando sua posição na hierarquia10 social que vive. Já estes setores, produzem uma cultura nacional engajada da qual, teoricamente, a população é sua fonte e sua finalidade, para detonar um processo de tomada de poder. Ao se apropriar do que é popular para conscientizar a população, invertem uma lógica legitimadora que fundamentava o jogo político nacional até aquele momento. (SNYDERS, 1997). 9 Bojo: saliência arredondada. Hierarquia: classificação ordenada de níveis de subordinação. 10 As questões de protesto com seu auge entre 1964 a 1968 canalizaram para a canção popular está relação entre cultura e poder, buscando na ampla aceitação popular desta música, um local perfeito para a difusão deste novo discurso. Politizadas pelo seu constante trabalho com um teatro que fora o precursor do engajamento cultural no país. (CHARTER apud SNYDERS, 1997, p. 31). É a partir da Bossa Nova, curiosamente o “carro-chefe” do período cultural desenvolvimentista que se definem as novas funções do músico brasileiro na sociedade. Como marco inicial, pode-se remeter ao ano de 1959, quando é lançado pela gravadora ODEON o disco “Chega de Saudade”, do cantor e compositor João Gilberto, considerado um ícone11 na música e na cultura nacional, sua simbologia cristaliza até hoje a fase áurea de um discurso acerca das transformações históricas que o Brasil sofria neste período. A Bossa Nova atinge fama internacional, permanecendo até hoje marcada com o significado da renovação ‘modernizada’, refratando para o campo musical a já ideologia nacional desenvolvimentista deste período. Durante os anos JQ - JG (1960-64), o músico brasileiro, fazendo da Bossa Nova um ‘produto de exportação’ que, junto com o Cinema Novo, conquistava o primeiro mundo. (SNYDERS, 1997). O momento de ruptura e ratificação das diferenças entre os produtos culturais no país ocorre em 1964. Após o Golpe Militar, este novo discurso ‘revolucionário’ é posto em prática no cenário cultural brasileiro. A canção de protesto é constituída enquanto um debate em torno do engajamento e da eficácia revolucionária da palavra poética. Esta afirmação, decorrência direta do lema dos Centros Populares de Cultura (CPC) da UNE. Fora da arte política não há arte popular, redefinem não só o papel da música enquanto objeto cultural, como a do próprio autor enquanto agente social. Em outras palavras, o uso social da música passa a ser revolucionário e seu autor engajado. Músicas e compositores como Sérgio Ricardo, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Carlos Lyra e até mesmo, Vinícius de Moraes, apesar de usufruírem o status da Bossa Nova, percebem a estruturação de um discurso com novas tonalidades dentro da cultura nacional e não hesitam em migrar para um novo posicionamento nesta cultura, mesmo contrariando um público consumidor já construído. (SNYDERS, 1997). Já o surgimento de Elis Regina e a proliferação de trios à semelhança de Tamba, (piano, baixo e bateria), com Luis Eça, Bebeto e Ohana, depois Hélcio Milito, 11 Ícone: tendência de comportamento própria de uma época. como Zimbo Trio (Amilson Godoy, Rubens Barsoti e Luiz Chaves), Bossa de Três e dezenas de outras, abriram as portas da televisão para Bossa Nova. A mesma, que desaguaria no período dos Festivais de MPB, onde se afirmam nomes como Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorim Gaymmy, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Aldair Blanc, Maria Alcina, Gutemberg, Toquinho, Nelson Mota, Paulinho da Viola, entre tantos compositores e interpretadores. E assim, novos nomes apareceram mesclando influências e assumindo novas experiências. (SNYDERS, 1997). Para Bourdieu: Em dado quadro histórico, a oratória política sobre o estado brasileiro não é mais exclusiva de partidos, latifundiários, empresários e generais. Neste momento, o artista consegue criar o estatuto de revolucionário para a sua produção cultural. (apud SNYDERS, 1997, p. 45). É claro que dentro da própria produção e consumo da música popular, a ‘canção de protesto’ não atinge o status de hegemonia12 ou sucesso de público. Seu surgimento, porém, causa uma divisão que marcaria por anos a produção neste campo: músicos engajados versus músicos alienados. Esta divisão inicia num processo de radicalização por parte de um público consumidor, que apesar de restrito, era presente. Neste sentido, sem negar a baixa aceitação popular dos ‘engajados’, suas canções permaneciam como discursos políticos, pelo fato de materializarem, no seio da produção musical brasileira, uma exportação, ou como instrumento de conscientização popular mesmo com todas contradições. (SNYDERS, 1997). Após trinta anos, a música ocupa um posto na cultura (e na economia) brasileira que se nos anos 60 estava se iniciando, hoje em dia, atinge cifras e dados impressionantes. Atualmente, mercados antes periféricos, como Axé Music, os sertanejos e os grupos de sambalanço, pagodes e sambas românticos, devem ser analisados já que são os best sellers da população brasileira, uma população com maioria analfabeta, mas ávida consumidora de discos e fitas. Como estratégias de produção definidas, a música popular nunca esteve tão presente no cotidiano do cidadão, como nos dias de hoje. Mesmo que o lema do CPC não seja mais adequado ao momento histórico atual, cria-se a necessidade de se ficar atento ao 12 Hegemonia: domínio, preponderância. que será produzido para o mercado musical daqui alguns anos, para poder analisar questões como cidadania na sociedade brasileira. Não se pode mais subestimar o potencial social e histórico que a música popular detém, seja como entretenimento ou discurso. Afinal, se poucos aqui lêem um livro que fale sobre educação ou cultura em geral, todos podem ouvir, em qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer rádio, um morador de periferia paulista narrando, com detalhes os últimos dias de um presidiário do Carandiru. A música popular ainda pode ser a maior fonte de (in) formação do cidadão no país. Sem a prestação de sugerir uma postura cívica para a análise da realidade do Brasil. (SNYDERS, 1997). 1.2 A teoria da música A música tem sido, através dos séculos, uma das formas de comunicação entre os indivíduos. As tribos mais primitivas e os povos mais antigos usavam nos momentos importantes da vida. Thiessen et al (1987, p. 56), afirma que a: “evolução do homem tem sido acompanhada pela música, uma vez que ela é o veículo ideal para as manifestações de seus sentimentos”. A música no ensino destina-se a fazer com que os educandos encontrem mais, e tem sua justificativa no fato de existirem obras muito mais bonitas do que ouvimos no dia-a-dia. Múltiplos são os caminhos da Educação Musical, seus recursos e seus meios. (VERDERI, 1998). Sendo que a vida na escola não significa apenas bom desenvolvimento do plano de ensino-aprendizagem ou termos educandos espertos e barulhentos. Para Thiessen et al (1987, p. 56): “a música é um dos meios de expressão da mais profunda realidade humana”. Ela exterioriza um sentimento imaginário, cria um clima propício para o despertar das faculdades criadoras. “O fazer musical requer atitudes de concentração e desenvolvimento com as atitudes propostas que devem estar presentes durante todo o processo educativo, em suas diferentes fases”. (BRASIL, 1998, p. 60). A Educação Musical incorpora o desenvolvimento do intelecto, o desenvolvimento sensorial e o da sensibilidade, ou seja, eleva o nível cultural. (VERDERI, 1998). A aquisição sensorial é fundamental para a aquisição de todas as outras faculdades. Nada há na criança que não tenha passado primeiro pelos sentidos. “Ouvir música é apreciar melhor aquilo de que gosta, por aí podemos escrever uma reconciliação entre amor e o consentimento de todo ser ao amor”. (BALZAC apud SNYDERS, 1997, p. 120). A utilização da música promove uma técnica de ensino-aprendizagem baseada na ação das sensibilidades artísticas e não meramente, racionalização material. (VERDERI, 1998) De acordo com os psicólogos e pedagogos da música, o desenvolvimento musical se dá de modo contínuo, iniciando-se com experiências concretas e encaminhando-se pouco a pouco, para o conhecimento das abstrações correspondentes. O desenvolvimento musical, como todo desenvolvimento humano não ocorre todo ao mesmo tempo. Os conceitos musicais são primeiro, aprendidos vagamente e depois, progressivamente compreendidos e interpretados, cada vez mais, com mais precisão. As aquisições prévias exercem influências e efeitos prolongados sobre novas experiências. (VERDERI, 1998). Porém, aprender música significa integrar experiências que envolvam a vivência, a percepção e a reflexão, encaminhando-as para níveis cada vez mais elaborados. 1.2.1 O poder da música A música não prende o ser humano apenas de um determinado lado, mas o atinge só em um determinado aspecto dele mesmo, toca o centro de sua existência, atinge o conjunto de sua pessoa, coração, espírito, corpo. “A música, freqüentemente toma conta de mim como se fosse um mar” (BAUDELAIRE apud SNYDERS, 1997, p. 42). É difícil encontrar uma única fração do corpo que não sofra a influência dos tons musicais. As raízes dos nervos auditivas estão mais extensas que as de quaisquer outros nervos do corpo. A música influi na digestão, nas secreções, internas, na circulação, na nutrição e na respiração. Sendo que as redes nervosas do cérebro são sensíveis aos princípios harmônicos13. O corpo é afetado de acordo com a natureza da música, cujas vibrações incidem sobre ele. A música exerce 13 Harmônicos: espécie de acordeão. poderosa influência sobre a atividade muscular, que aumenta ou diminui de acordo com o caráter das melodias empregadas. (SNYDERS, 1997). A música pode positivamente, modificar o metabolismo, afetar a energia muscular, elevar ou diminuir a pressão sangüínea e influir na digestão. E pode fazer todas essas coisas com maior sucesso e de maneira bem mais agradável do que quaisquer outros estimulantes capazes de produzir as mesmas alterações em nosso corpo. (BRINCKLIN, 1983, p. 82) Tendo estabelecido que a música exerce uma clara influência sobre o homem como indivíduo, a questão de saber se ela afeta a sociedade em geral ou é uma simples questão de extrapolação14. Se os caracteres de uma grande proporção dos indivíduos que compõem a sociedade se modificam, essa sociedade sofrerá, sem dúvida, certo grau de modificação similar. (BRINCKLIN, 1983). Então, o trabalho com música deve reunir toda e qualquer fonte sonora: brinquedos, objetos do cotidiano e instrumentos musicais. É preciso lembrar que a voz é o primeiro instrumento e o corpo humano é fonte de produção sonora. Falta apenas estímulo nas escolas. 1.2.2 Os que mais se opõem não são os mais opostos E o processo dos educandos? A situação poderia parecer desesperadora para o educador se a realidade dos educandos correspondesse inteiramente ao que eles dizem e às recusas que acumulam. Em primeiro lugar, a violência de suas reações, quando a música que apreciam é atacada, prova que sentem bastante tudo o que está em foco nas escolhas musicais: não se trata absolutamente de simples diferenças de sensações, como quando alguns educadores podem ser ameaçados em sua classe é porque os julgamentos que os educandos têm sobre a música fazem parte integrante de suas vidas, colocam-se literalmente à sua pele e aí eles sentem-se agredidos em suas próprias pessoas, quando seus valores musicais são questionados. Isto mostra que há aqui, julgamentos de valores, portanto, uma possibilidade de discussão, uma possibilidade de educação. (SNYDERS, 1997). Estes julgamentos de valor são complexos, talvez contraditórios, e de qualquer forma pedem um aprofundamento; com efeito, os educandos afirmam, simultaneamente, a completa liberdade individual do gesto musical (“Tenho o direito 14 Extrapolação: ultrapassar, exceder. de ter meus gostos, a gente gosta do que gosta”) e o fato de que todos os jovens apreciam a mesma música; o gosto seria então, menos uma coisa individual do que de geração. A prova disto é que existem exceções, efetivas ou hipotéticas, seriam constituídas não para os jovens desviados, por um gosto falso, mas por jovens que estariam traindo ou pelo menos se desviado gravemente de seu grupo, e sendo sancionados enquanto tais: quando gostamos do clássico somos malvistos, a música clássica é destinada à pessoa de idade. Você vê algum jovem escutar Schubert em seu walkman? Certamente não. Seus colegas ririam ‘dele’, diz um educando do Liceu Fénelon. Pensei, no início da frase, que Schubert seria descartado como desinteressante, na verdade, ele fora condenado em nome de um código grupal, colocado como algo obsoleto. Há lugar aqui para progressos na tomada de consciência. (SNYDERS, 1997). Levando isto ao paradoxo15, dir-se-ia que são os momentos mais violentos de recusa ao educador e à sua influência, que constituem na verdade as chances mais reais de evolução, pois revelam o quanto à música está nos antípodas16 de uma simples moda, de um esnobismo, do divertimento, atitudes que bloqueariam ainda mais duramente o diálogo com o educador. (SNYDERS, 1997). Na oposição declarada ao professor empoeirado, ultrapassado, fora da moda, aparece o medo de que seus argumentos, seu modo de fazer constituam uma força ameaçadora, capaz de expulsar os jovens para longe de seus gastos, de roubar-lhes suas alegrias; e se elas forem vendidas e o professor conseguir impor-lhes suas alegrias. (FÉNELON apud SNYDERS, 1997, p. 141) Mas esta não é a prova de que eles não estão tão seguros de suas posições como gostam de declarar? Muitas resistências, enfim a Beethoven diga-se ainda uma vez, significam também a angústia de não estar ‘a altura’, e elas se desenvolvem num fundo de culpabilidade que questiona não apenas o educando, mas também seu modo de vida; não é para mim, não é para nós, não é para gente como a gente. (SNYDERS, 1997). Para Snyders (1997), sob as insolências17 e as negações, é preciso saber ler as fragilidades e até mesmo, os apelos, em uma palavra, os mecanismos de 15 Paradoxo: contradição. Antípoda: contrário, oposto. 17 Insolências: desaforo,atrevimento. 16 defesa; uma das tarefas do educador é tranqüilizar os educandos que mostram uma segurança abalada. 1.3 O desenvolvimento psicológico da criança Para Wallon (1989), existe uma clara diferença entre o desenvolvimento psicológico da criança e o desenvolvimento adulto, enfatizando que a transição da infância para a fase adulta envolve uma total transformação no ser humano. No entanto, assinala Wallon, é o mundo dos adultos que define o ambiente para o desenvolvimento da criança, o que explicaria uma certa uniformidade nas estruturas de cada estágio que a criança vivencia em seu processo de desenvolvimento. Uma observação interessante, feita por Wallon, é de que a maneira como a criança assimila determinado material, pode não ter semelhança alguma com a maneira como o adulto o faz, por isso, diz ele, se o adulto supera a criança, essa é a sua maneira supera o adulto. Para Wallon (1989, p. 48): “As emoções e a linguagem, como domínios funcionais no desenvolvimento da criança”. Para ele, as emoções da criança, em seus primeiros dias de vida, e desencadeada por estímulos naturais ou incondicionais. Entre as fontes que podem originar as emoções na criança, Wallon destaca o movimento. O papel que as emoções desempenham na vida mental salienta Wallon, está associada com a percepção e com a noticidade. De acordo com Wallon (1989), do conhecimento pedagógico, a concepção psicológica, a concepção de que a música, o desenho e a escrita devem ser vistos como momentos diferentes de um processo essencialmente unificado de desenvolvimento da linguagem escrita, poderia parecer, de certa forma, exagerado. Entretanto, eles mostram que por mais complexo que o processo de desenvolvimento da linguagem escrita possa parecer, ou ainda, por mais que seja aparentemente errático18, desconexo19 e confuso, existe, de fato, uma língua histórica unificada que conduz às formas superiores da linguagem escrita. Sendo que a música desenvolve em cada um dos indivíduos diversas reações, umas que trazem lembranças outras que os leva até a imaginação. Assim, tornando-se de importância em suas vidas. 18 19 Errático: indivíduo que erra muito. Desconexo; sem conexão, sem ligação. 1.4 A música no processo ensino-aprendizagem Segundo Rosa (2000), vive-se uma mutação20 histórica no ensino da música, pela primeira vez torna-se tecnicamente possível fazer os educandos ouvirem obras musicais, em condições de quase perfeição. A música é feita para ser bela e o belo existe para proporcionar alegria, a alegria estética. O ensino da música tem por objetivo levar aos educandos um contato feliz com as obras musicais, fazê-los viver em experiência de alegria a partir delas. (ROSA, 2000). Deste modo, constata-se que é inspirando-se, apoiando-se em um ensino musical renovado que o ensino das outras disciplinas poderia acelerar seu próprio progresso. O mínimo que se pode dizer é que ele não é muito valorizado nem pelos educandos e suas famílias, nem pelos outros educadores. Mas trata-se exatamente de superar os preconceitos e modificar as estruturas que, causaram esses preconceitos. O caso de música é exemplar mostrar que as dificuldades de solução que existem em todas as disciplinas escolares são vividas mais intensamente e aparece com mais acuidade21, como se estivessem escritos em letras maiúsculas, no ensino da música. (ROSA, 2000). De uma forma ampla, o ensino da música pode desempenhar um papel exemplar, quando se trata de articular a direção pelo educador, que é a característica própria da escola, é a liberdade do educando, sem a qual se pode esperar nenhum engajamento de sua pessoa. No ensino da música encontra-se as interrogações, especiais para todos os educadores, sobre a cultura, como algo reservado a uma elite ou acessível ao conjunto generalizável à custa de determinados esforços. (ROSA, 2000). Ao mesmo tempo, a música constitui uma das áreas onde é mais comum evocar a noção de dom, fulano tem ‘dom’ para cantar, tocar instrumento e mesmo para gostar de ouvir, e o dom aparece logo como uma espécie de característica natural, quase filosófica, imutável e irredutível. O ensino da música tem, então, um papel exemplar; precisamente porque não visa ao futuro, ao sucesso futuro, só existe e se justifica pela alegria cultural que oferece a vida dos educandos. Para 20 21 Mutação: mudança, transformação. Acuidade. agudeza de percepção. Mignon (1998, p. 143): “O ensino de música pode desempenhar um papel essencial para situar em seus justos lugares as técnicas, os exercícios, em resumo, os meios e as finalidades profundas da educação”. Mas a educação escolar optou em ficar alheia às necessidades de expressão de emoções e sentimentos do educando, ela esquece que o talento se forma, a inspiração se adquire, a emoção se prepara e o som é apenas uma maneira de denominar, provisoriamente, um processo que não se sabe ainda explicar. (ROSA, 2000). Para Rosa (2000, p. 34): “As crianças são originais nas suas formas de percepção, nas suas experiências de vida, contudo, no potencial criador que depende das oportunidades que elas têm de expressá-lo”. Depende do apoio de educadores, leigos ou profissionais, conscientes da ação que o canto, bem como a música exerce sobre a personalidade. 1.4 1 Por uma pedagogia cognitivista da música Para uma visão cognitivista, o conhecimento musical se inicia por meio da interação com o ambiente, através das experiências concretas, que aos poucos levam à abstração. A criança se envolve integralmente com a música e a modifica constantemente, transformando-a, pouco a pouco, numa resposta estruturada. (ROSA, 2000). A criança precisa encarar a aula de música como um momento agradável e produtivo. Cabe ao educador a delicada tarefa de conseguir um clima tranqüilo e ao mesmo tempo, ativo, que propicie a criação e a manifestação espontânea dos alunos. A linguagem musical deve ser um dos meios para se alcançar esta educação e os bons resultados no ensino da música, serão alcançados pela adequação das atividades, pela postura reflexiva e crítica do professor, facilitando a aprendizagem, propiciando situações enriquecedoras, organizando experiências que garantam a expressividade infantil. (ROSA, 2000, p. 23). Sendo que a linguagem musical é estruturada e analisada em diferentes aspectos; como terapia, como relação importante entre certos comportamentos da sociedade e o consumismo, como recurso dos meios de comunicação de massa, como meio de sensibilização na educação de diferentes auditivos e como auxiliar em psicoterapia. (ROSA, 2000). Assim, a aula de música na escola se transforma na maior liberdade dos educandos e maior espontaneidade dos educadores, aumentando a prática musical expressiva e criativa. Para Gainza (1988), por princípio, todo conceito deverá ser percebido e apoiado pela prática e manifestação do ambiente sonoro, a investigação e construção dos instrumentos, o uso sem preconceitos dos instrumentos tradicionais, a descoberta e a valorização do objeto sonoro. Na pedagogia como na arte são constantes o movimento, a busca interna e a exploração da realidade circundante. Quanto mais se conhece o desenvolvimento humano, mais eficaz será o trabalho educativo no campo da música. Sendo que educar musicalmente é propiciar à criança uma compreensão progressiva da linguagem musical, através de experimentos e convivência orientada. Este é o desafio que deve enfrentar os educadores. (ROSA, 2000). 1.4.2 O educador, a música e a escola Hoje, a formação de educadores está passando por um momento de crise. Muitos são os motivos que provocaram está situação. Entre eles podemos citar: o questionamento do próprio papel exercido pela educação na sociedade, a falta de clareza sobre a função do educador e a problemática relativa à redefinição do curso. (SOARES, 1998). Esta abordagem tende a ver os problemas relativos à formação da pessoa humana numa perspectiva individualista ou quando muito, atenta à realidade de interação social. (SOARES, 1998). O desafio do educador é manter-se lúcido, diferenciando o que é da história do sujeito que ele retoma naquele momento, para poder desenvolver ao seu dono o que lhe pertence. A partir disso, o educador deve proporcionar ao educando uma aula, que desperte interesse. (ROSA, 2000). O educador ao incluir a música em suas aulas, depara-se logo com dois problemas, o número elevado de educandos em algumas turmas e a falta de recursos nas escolas, acredita-se que a música poderá se tornar fonte inspiradora para sua atuação nesse campo do conhecimento, já que, por um lado às atividades apresentadas são, em grande maioria, realizados, em grupo e, por outro lado não necessitam de materiais de difícil acesso. (ROSA, 2000). Não se encontra nos méritos da questão sobre competência profissional. Sendo que o educador não deverá, necessariamente dominar a linguagem musical, bem como a execução de um instrumento. E na maioria das vezes, os educadores por falta de conhecimento acabam deixando à música um pouco de lado no processo de ensino-aprendizagem. Gainza (1988, p. 10) afirma que: “Sendo a música uma disciplina complexa, que abrange teoria prática de execução, deve ser ensinada por pessoas qualificadas para isso”. Tendo em vista a precariedade de recursos disponíveis em nossas escolas, ao trazer o canto para o cotidiano das aulas, os educandos estarão praticando música através daquele instrumento disponível em qualquer sala de aula, a voz. Será, portanto, a partir da canção que os educandos poderão desenvolver sua musicalidade e construir processos para a aquisição de novas músicas. (GAINZA, 1988). O educador, ao dirigir e estimular o processo de ensino em função da aprendizagem dos educandos utiliza intencionalmente um conjunto de ações, passos, condições externas e procedimentos, a que chamamos métodos de ensino. (SOARES, 1998). O método de ensino expressa a relação conteúdo-método, no sentido que tem como base um conteúdo determinado. O método vai ao conteúdo determinado, vai à busca das relações internas de um objeto, de um fenômeno, de um problema, uma vez que esse objeto de estudo fornece as pistas, os caminhos para conhecêlos. Mas, quando se fala que o método propicia a descoberta das relações entre as coisas que se estudam, refere-se à idéia de que os fatos, os fenômenos e os processos estão em constante transformação, em constante desenvolvimento em virtude de que é, pela ação humana que as coisas mudam. (SOARES, 1998). Para explicar o papel da escola no processo de desenvolvimento do indivíduo, Vygotsky (apud REGO, 1995), faz uma importante distinção entre os conhecimentos construídos na experiência pessoal, concreta e cotidiana das crianças, que ele chamou conceitos cotidianos ou espontâneos e aqueles, elaborados na sala de aula, adquiridos por meio do ensino sistemático, que chamou conceitos científicos. Na perspectiva Vygotskiana (REGO, 1995, p. 76): “Embora os conceitos não sejam assimilados prontos, o ensino escolar desempenha um papel importante na formação dos conceitos de um modo geral e dos científicos em particular”. A escola propicia às crianças um conhecimento sistemático sobre aspectos que não estão associados ao seu campo de visão ou vivência direta (como no caso dos conceitos espontâneos). Possibilita que o indivíduo tenha acesso ao conhecimento científico construído e acumulado pela humanidade, por envolver operações que exigem consciência e controle deliberado, permite ainda, que as crianças se conscientizem dos seus próprios processos mentais (processo metacognitivos). (apud REGO, 1995). Pode-se concluir que desse ponto de vista, o aprendizado escolar exerce significativa influência no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, justamente na fase, em que elas estão em amadurecimento. Portanto, através da música, a criança aprende a atuar numa esfera cognitiva que depende de motivações internas. 1.4.3 A mediação do educador A finalidade geral do ensino é estimular a assimilação ativa dos conhecimentos sistematizados, das capacidades, habilidades e atitudes necessárias à aprendizagem, tendo em vista a preparação para o prosseguimento dos estudos série a série, para o mundo do trabalho, para família e para as demais exigências da vida social. (REGO, 1995). O sinal mais indicativo da responsabilidade profissional do educador é o seu permanente empenho na instrução e na educação dos seus educandos, dirigindo o ensino e as atividades de estudo de modo que estes dominem os conhecimentos básicos e as habilidades e desenvolvam suas forças, capacidades físicas e intelectuais, tendo para enfrentar os desafios da vida prática no trabalho e nas lutas sociais pela democratização da sociedade. Assim o compromisso social, expresso primordialmente na competência profissional, é exercido no âmbito da vida social e política. Como toda profissão, o magistério é um ato político porque se realiza no contexto das relações sociais onde se manifestam os interesses das classes sociais. O compromisso ético político é uma tomada de posição frente aos interesses sociais, em jogo na sociedade. (REGO, 1995). Quando o educador se posiciona, consciente e explicitamente, ao lado dos interesses da população majoritária da sociedade, ele insere sua atividade profissional, ou seja, sua competência técnica, na luta ativa por esses interesses, a luta por melhores condições de vida e de trabalho e ação conjunta pela transformação das condições gerais (econômicas, políticas, culturais) da sociedade. (SOARES, 1998). Muitas pessoas acreditam que o desempenho satisfatório do educador na sala de aula depende de vocação natural ou somente da experiência prática, descartando-se a teoria. É verdade que muitos educadores manifestam especial tendência e gosto pela profissão, assim como se sabe que mais tempo de experiência ajuda no desempenho profissional. Entretanto, o domínio das bases teóricas-científicas e técnicas e sua articulação com exigência concreta do ensino, permitem maior segurança profissional, de modo que o docente ganhe base para pensar sua prática e aprimore sempre mais a qualidade de seu trabalho. Para Libâneo (1994, p. 29): “O processo de ensino é uma atividade conjunta de professores e alunos, organizada sob a finalidade de promover as condições e meios pelos quais os alunos assimilam ativamente conhecimentos habilidades, atitudes e comunicações”. A educação escolar é uma tarefa eminentemente social da humanidade. Não é suficiente dizer que os educandos precisam dominar os conhecimentos; é necessário dizer como fazê-lo, isto é, investigar objetos e métodos seguros e eficazes para a assimilação dos conhecimentos. (LIBÂNEO, 1994). Ensinar e aprender, pois são duas facetas do mesmo processo, e que realizam em torno das matérias de ensino, sob a direção do processo. O educador não ficará constatando diferenças, justopondo-as, espantando-se com elas; tampouco buscará nelas motivos de ceticismo, de ‘relativismo’ quanto ao julgamento de valores estéticos ‘tudo vale’, e logo ‘nada vale’, sem falar do campo da estética é a história mesma que perderia sua coerência. (LIBÂNEO, 1994). A tarefa de hoje é guiar os educandos em direção a uma nova universidade, consciente, evidentemente, da diversidade, enriquecida com contribuições diferentes e que não renuncie à unidade humana. Segundo Wagner: Se o professor de música puder avançar um pouco em direção a uma saída para este conflito exemplar de culturas, esta abrindo um caminho no qual as outras disciplinas poderiam também engajar-se desta vez com menos dificuldade. (apud SNYDERS, 1997, p. 42). Portanto, o educador de música é favorecido, já que a imensa maioria de seus educandos está mergulhado na alegria musical. Ele corre o risco, todavia, de ser exemplarmente desfavorecido, porque é na sua área que a concorrência, a oposição e até o conflito de culturas mostram uma aspereza exemplar. (SNYDERS, 1997). Mas todo educador através da música experimentará, rapidamente, o questionamento do gosto musical de cada educando, causando escândalo e correndo o risco de colocá-lo numa posição difícil. 2 A HISTÓRIA DA DANÇA A dança acompanha o homem praticamente desde o início da humanidade. Onde os primeiros documentos sobre a origem da dança, são provenientes de descobertas das pinturas e esculturas gravadas nas pedras das cavernas. (MENDES, 1985). Mesmo antes de o homem falar, ele se utilizou o gesto rudimentar para expressar suas emoções. A dança fazia parte dos momentos importantes da vida do homem primitivo como: nascimento, casamento, procriação, mortes, doenças, caças, pescas, guerras, colheitas, paz, festa do sol e da lua, vitórias, que tinham emocionalmente um caráter ritualístico. (MENDES, 1985). Na Idade Paleolítica, a dança tornou-se uma obra de arte. As altas civilizações fizeram da dança uma simples manifestação estética e tornou-se um objeto de espetáculo, agindo somente sobre os homens e deixando de lado o poder ritualístico sobre os deuses e os espíritos, assim perderam as suas forças e potencialidade mágica. (MENDES, 1985). A dança, como toda atividade humana, sofreu o destino das formas e das instituições da existência social dos homens. E, assim, a dança de poder místico, que agia sobre os homens, espíritos e deuses, transformou-se numa dança da propriedade humana, contagiando os homens pela sua ação puramente estética. A dança religião extinguiu-se, cedendo lugar à dança-arte. (FAHLBUSCH, 1990, p. 16). Mais tarde, no final do século XV na Europa, na época da Renascença, surgiu o ballet clássico originário da dança da corte. O termo ballet veio do italiano ‘baillare’ que significa bailar ou dançar. A Renascença italiana deu ao ballet uma estrutura dramática diferente levando-o para o lado da arte sensorial e emotiva, onde na França o ballet se fortaleceu e abriu horizontes para o ballet clássico. Por muito tempo o ballet foi diversão para a realeza e por eles mesmos realizados. E pouco a pouco os bailarinos profissionais substituiram a nobreza, e o ballet passou dos salões para os teatros como espetáculo propriamente dito. (FAHLBUSCH, 1990). Encontramos em Mendes (1985, p. 51), que com a crescente industrialização, porém, aproximava a Rússia cada vez mais da Europa ocidental, facilitando maior penetração de novas idéias, novos conceitos de arte, em grande efervescência principalmente na França. Entretanto, o ensino do ballet como arte teatral sempre objetivou a preparação de profissionais para espetáculos, exigindo de seus executantes determinados atos que deveria atender as características dos métodos. Isto tornou o ballet clássico uma forma de linguagem única, universal, cuja nomenclatura é ensinada em francês. (MENDES, 1985). No início do século XIX, surgiu um novo estilo de dança: a dança moderna, tendo como percussor o pesquisador francês, François Delsarte. Delsarte coloca os princípios existentes entre o espírito e o corpo, entre o pensamento e o gesto. Ele percebe que o movimento é a expressão da alma. E como aparecimento da dançarina Isadora Duncan, surgiu os primeiros sinais da nova revolução estética e formal da dança, onde ela instaurou a ‘dança livre’ se opondo ao rigor do balé. Rudolf Laban, também deu sua contribuição. Ele deu ênfase na relação dos movimentos que se manifestam na dança, com o trabalho que o homem executa em determinado momento histórico, onde abordou os fatores: tempo, espaço, energia e fluência que são características que envolvem os movimentos da dança. (MENDES, 1985). Dentre as destacadas figuras que se libertam dessa escola é Martha Graham, que constituiu um sistema de disciplina corporal baseado em tensões que arrastam o corpo inteiro em contrações, recuperações, percussões, quedas e suspensões. (MENDES, 1985). Segundo Graham (apud FAHLBUSCH, 1990, p. 56): “Na dança moderna, o movimento não é produto da invenção, mas a descoberta de que ele pode expressar a emoção”. Entre esses estilos de dança, há as danças folclóricas com as suas culturas, onde retrata seus valores, crenças, trabalhos e significados. Exemplos de danças folclóricas quadrilhas, alemã, italiana, africana, açoriana, portuguesa e outras. (FAHLBUSCH, 1990). Segundo Fahlbusch (1990, p. 25) relata que: “Uma característica distinta desse tipo de dança é sua forma tradicional como expressão de nacionalismo. É o verdadeiro espelho da alma popular”. Com as mudanças culturais sofridas pelas comunidades, a dança vai acompanhando o processo evolutivo, adaptando-se às vezes espontaneamente como uma aquisição do próprio homem. 2.1 A dança no Brasil O Brasil é um país que pulsa o samba, o bumba-meu-boi, o maracatu, o frevo, o afoxé, a catira, o baião, o xote, o xaxado entre muitas outras manifestações, é surpreendente o fato de a Educação Física ter promovido apenas a prática de técnicas de ginástica e (eventualmente) danças européias e americanas. A diversidade cultural que caracteriza o país tem na dança uma de suas expressões mais significativas, constituindo um amplo leque de possibilidades de aprendizagem. (BRASIL, 2000). Todas as culturas têm algum tipo de manifestação rítmica e/ou expressiva. No Brasil existe uma riqueza muito grande dessas manifestações, danças trazidas pelos africanos na colonização, danças relativas aos mais diversos rituais, danças que os imigrantes trouxeram em sua bagagem, danças que foram aprendidas com os vizinhos de fronteira, danças que se vêem pela televisão. As danças foram e são criadas a todo tempo: inúmeras influências são incorporadas e as danças transformam-se, multiplicando-se. Algumas preservam suas características e pouco se transformaram com o passar do tempo. Outras recebem múltiplas influências, incorporam-nas, transformando-as em novas manifestações. (BRASIL, 2000). Nas cidades existem danças como o funk, o rap, o hip-hop, as danças de salão, entre outras, que se caracterizam por acontecerem em festas, clubes, ou mesmo nas praças e ruas. Existem também as danças eruditas como: a clássica, a contemporânea, a moderna e o jazz, que podem às vezes ser apreciadas na televisão, em apresentações teatrais e são geralmente ensinadas em escolas e academias. (BRASIL, 2000, p. 52) A presença de imigrantes no país também trouxe uma gama significativa de danças das mais diversas culturas. Quando houver acesso a elas, é importante conhecê-las, situá-las, entender o que representam e o que significam para os imigrantes que as praticam. (BRASIL, 2000). Existem casos de danças que estão desaparecendo, pois não há quem as dance, quem as conheça suas origens e significados. Conhecê-las, por intermédio das pessoas mais velhas da comunidade, valorizá-las e revitalizá-las é algo possível de ser feito dentro da escola. (BRASIL, 2001). 2.2 Concepções de ensino na Educação Física Quando a criança vai à escola e vivencia o processo de elaboração e reelaboração do conhecimento, via movimento, é a criança em sua totalidade que participa. Propiciar a vivência da corporeidade é de fundamental importância para a Educação Física escolar. Assim, para reforçar as idéias acima, nos valemos da reflexão de Gonçalves: A Educação Física, lidando com a corporalidade e movimento, não tem diante de si um corpo simplesmente biológico, que seria um instrumento da alma, nem apenas um feixe de reações a estímulos externos ou internos, mas a exterioridade visível de uma unidade que se esconde e se regada o sentido do sensível e do corpóreo na vida humana. A práxis humana se efetiva porque o homem é um ser corpóreo, que possui necessidades materiais e espirituais. Sua relação com o mundo não é simplesmente a relação de uma consciência que pensa o mundo, sem deixar-se tocar, mas é a relação de um ser engajado no mundo - que tem emoções, que ama, que odeia, que tem fome, que tem dor, que vive a solidão, a amizade, o desprezo etc., – enfim, um ser que sente. (1994, p. 176). Nesta perspectiva, falar em educação, processo ensino aprendizagem, produção do conhecimento, sem se referir à corporeidade é permanecer no reducionismo da dualidade corpo e mente. Neste sentido, é importante ressaltar que corporeidade não é fonte complementar de critérios educacionais, mas sim o seu foco deve ser primeiro e principal, a relevância da contribuição. (KUNZ, 1998). A dança é uma produção social que representa os diversos aspectos da vida do homem. “É uma linguagem que permite exteriorizar sentimentos, emoções da afetividade vivida nas esferas da religiosidade, do trabalho, dos costumes, dos hábitos, da saúde e da guerra. Onde há uma representação estilizada e simbólica da história social dos homens”. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 82). Kunz, autor da obra ‘Transformação Didático-Pedágogica do Esporte’, aponta que: A dança assim como o esporte é uma das manifestações da cultura do movimento mais importantes e relevantes em todo mundo. Porém ela faz um alerta que ela vem se fragmentando cada vez mais em tipos e modelos diferentes e com auxílio dos meios de comunicação e da indústria cultural, muitas delas têm se orientado para o total desportivização. (KUNZ, 1994, p. 176). Os autores citados anteriormente, também defendem a importância de duas das concepções que são chamadas como Progressistas dentro da Educação Física. Na área de conhecimento da Educação Física, encontramos algumas concepções de ensino com perspectivas transformadoras que se preocupam com a construção da criticidade e da criatividade dos alunos, permitindo a transformação pessoal e social através do exercício da autonomia. No que se refere ao estudo da dança na Educação Física, tais concepções tem a preocupação de que seus alunos não sejam meros executores de movimentos, ou seja, não realizar movimentos mecânicos, repetitivos e quadronizados, preocupando-se que os alunos possam construir movimentos respeitando a sensibilidade, a expressividade, a espontaneidade dos mesmos. (KUNZ, 1994). A concepção de ensino crítico-superadora, proposta pelo Coletivo de Autores (1992), baseia-se fundamentalmente na pedagogia histórico-crítica, desenvolvida por Dermeval Saviani e seus colaboradores e auto-intitulou-se críticosuperadora. Entende nessa proposta que o objeto da área de conhecimento da Educação Física é a cultura corporal que se concretiza nos seus diferentes temas, quer sejam, o esporte, a ginástica, o jogo, as lutas, a dança e a mímica. Deste modo, o Coletivo de Autores (1992, p. 80), afirma que o conhecimento da Educação Física pode ser sistematizado em ciclos: Da organização da identidade dos dados da realidade; da iniciação à sistematização do conhecimento; da ampliação da sistematização do conhecimento; do aprofundamento da sistematização do conhecimento. Onde propõe que este seja tratado de forma historicizada, de maneira a ser apreendido em seus movimentos contraditórios. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 80). Já a concepção de ensino denominada crítica-emancipatória foi proposta por Kunz (1998), ele parte de uma concepção de movimento que ele denomina dialógica. O movimentar-se humano é visto aí como uma forma de comunicação com o mundo. Outro princípio importante em sua pedagogia é a noção de sujeito tomado numa perspectiva iluminista de sujeito capaz de crítica e de atuação autônomas. A proposta aponta para a tematização dos elementos da cultura do movimento, de forma a desenvolver nas crianças a capacidade de analisar e agir criticamente nessa esfera. Mediante a tematização das diferentes perspectivas da cultura do movimento, o processo metodológico de acordo com Kunz (1994, p. 67), busca transcender limites e orienta-se em três fases: * Na experimentação, procurando extrapolar as possibilidades básicas propostas pelos materiais e regras; * Na aprendizagem, com a ampliação ilimitada das possibilidades de aprender; * Na criação, invenção, com a possibilidade de avançar em todos os sentidos as propostas vivenciadas e discutidas; Para esse mesmo autor, ainda existem outras concepções de ensino, como: Concepção Biológico-Funcional (tendência higienista), Concepção FormativoRecreativo (tendência pedagogicista), Concepção Técnico-Esportiva (tendência da esportivização), porém compreendemos que só é possível trabalhar a dança com sentidos e significados do movimento. A partir de uma Concepção Crítica da educação, da sociedade que considera o aluno como sujeito que participa, que cria e não um mero executor. De acordo com o Coletivo de Autores (1992, p. 54), propõe alguns princípios curriculares no trato com o movimento: * A relevância social do conteúdo: deverá estar vinculado à explicação da realidade social e concreta e oferecer subsídios para a compreensão dos determinantes sócio-históricos do aluno, particularmente a sua condição de classe social; * Contemporaneidade do conteúdo: o conteúdo deve garantir aos alunos o conhecimento do mais moderno existente no momento, mantendo-o informado dos acontecimentos ocorridos na atualidade; * Adequação às possibilidades sócio-cognoscitivas do aluno: adequar o conteúdo à capacidade cognitiva e à prática social do aluno enquanto um sujeito histórico; * Simultaneamente dos conteúdos enquanto dados da realidade: os conteúdos são organizados e apresentados aos alunos de maneira simultânea, e não por etapismo; * Espiralidade da incorporação das referências do pensamento: o conhecimento não é pensado em etapas, que significa compreender as diferentes formas de organizar as referências do pensamento sobre o conhecimento para ampliá-las; * Provisoriedade do conhecimento: é a partir dele que se organiza e sistematiza os conteúdos de ensino, rompendo a idéia de terminalidade, onde o professor e o aluno poderão construir juntos os conteúdos de acordo com sua realidade; Com base nos princípios aqui abordados, percebeu-se a importância da dinâmica curricular na perspectiva dialética favorecendo a formação do sujeito histórico à medida que lhe permite construir, por aproximações sucessivas, novas e diferentes referências sobre o real no seu pensamento. 2.2.1 Corporeidade e movimento humano Convém esclarecer que a Educação Física é uma área do conhecimento diretamente relacionada com a corporeidade do educando, ou seja, com o movimento humano consciente e sua capacidade de movimentação. Para Verderi (1998, p. 24): Corporeidade é o derivado do corpo [...] o corpo se define simplesmente por ser, por ocupar um espaço, faz pare do mundo, se relaciona com ele, interage com as coisas do mundo e também se relaciona com outros corpos. (1998, p. 24) Pode-se perceber com isso que o movimento humano, qualquer que seja ele, é dotado de significados elaborados através da mente que, quando exteriorizado, expressam sua linguagem através do corpo. De acordo com VerderiI (1998, p. 31): Estaremos com isto ampliando sua visão de totalidades e interdependência, dando novos possibilidades para busca do novo e também lhe oferecendo a valorização do sentir, pensar e agir, no momento da prática educativa. Pois precisamos fazer com que nossos alunos deixem de ser corpo-objeto e torne-se corpo-sujeito, um corpo vivido. (1998, p. 31). A Educação Física deve possibilitar aos alunos a participação da construção do conhecimento de si mesmo e de seus colegas, onde deve-se considerar suas percepções, para possibilitar ao aluno descobrir como sujeito de sua própria história e não um objeto dela. 2.3 A dança na escola Considerando a dança como um conteúdo da Educação Física, expressão da corporeidade, o movimento um meio para visualizar esta corporeidade em nossos alunos, a dança na escola deve proporcionar oportunidade para que a criança possa desenvolver enquanto ser humano, estabelecendo relações de solidariedade, cooperação, respeitando a si mesmo, o outro e ao mundo. Verderi (1998, p. 33), “Acredita na importância de aprendizagem do movimento e da exploração da capacidade de se movimentar, a dança na escola, está voltada para este aspecto”. A criança ao ingressar na escola, ela já traz consigo um conhecimento amplo a respeito de seu corpo, mas muitas vezes, que não foi despertado. E a partir daí que o professor deve propiciar múltiplas experiências para a criança poder aprimorar sua criatividade e interpretatividade propostas nas atividades. (VERDERI, 1998). A dança na escola tem um papel fundamental enquanto atividade pedagógica, pois propicia atividades geradoras de ação e compreensão, favorecendo a estimulação para ação e decisão no desenrolar das mesmas, assim reforçando a auto-estima, a auto-confiança e o auto-conceito. A variedade de atividade que a dança nos possibilita deverá permitir a máxima integração com os processos de ensino-aprendizagem a fim de atender aos objetivos gerais propostos, criando oportunidades para a criança se expressar, se mover, ser criativa, espontânea e conviver com os colegas e com ela mesma. (VERDERI, 1998, p. 59). Assim pode-se dizer, que a dança, enquanto um processo educacional, cria condições às crianças estabelecendo relações com pessoas e com o mundo. Através das danças os alunos poderão conhecer as qualidades do movimento expressivo como leve/pesado, forte/fraco, rápido/lendo, fluído/interrompido, intensidade, duração, direção, sendo capaz de analisá-los a partir destes referenciais; conhecer algumas técnicas de exceção de movimentos e utilizar-se delas; ser capazes de improvisar, de construir coreografias, e, por fim, de adotar atitudes de valorização e apreciação dessas manifestações expressivas. Verderi (1990, p. 59), de acordo com seus estudos nos relata que: As atividades a serem aplicadas com as crianças devem ser naturais, devem envolver o andar, o correr, o saltar, o saltitar, o equilibrar, o rodopiar, o girar, o rolar, o trepar, o pendurar, o puxar, o empurrar, o desligar, o rastejar, o galopar e o lançar. (VERDERI, 1990, p. 59). Nas aulas deve haver experimentação do movimento, noções básicas de diferentes ritmos e estilos de dança, respeitando a individualidade de cada criança. Para o ensino da dança, não devemos adotar uma didática massificante e mecânica, e sim uma didática que permita individualidade à criança e espontânea. (VERDERI, 1990). O objetivo do professor, não é ensinar ao aluno como se deve dançar, e sim, favorecer a aprendizagem e criar condições para que ele se movimente, ampliando a concepção do movimento que ele possui. Mas é essencial que o professor tenha conhecimento dos fatores que compõe a dança, como a música (harmonia e melodia), o ritmo (intensidade, duração e métrica) e o movimento (tempo, espaço, fluência e peso) com os seus respectivos elementos. (VERDERI, 1990). 2.3.1 A dança e a co-educação A co-educação é uma prática conjunta de meninas e meninos, que propicia as mesmas vivências de movimento para ambos na aula de Educação Física. Essa prática está fundamentada na compreensão de que os movimentos não têm sexo, e de que a descriminação tradicional de movimentos para homens e mulheres é construída no processo de socialização das pessoas, sendo atrelada a visões e valores culturais. Para Kunz, o que geralmente acontece: É que quando as crianças ingressam na escola, com seis ou sete anos de idade, tem já bastante desenvolvido, através de educação familiar [...], um conceito e uma percepção do que sejam os papéis de homem e mulher na sociedade. (apud SOARES et al, 1998, p. 26). Na Educação Física tradicional encontra-se ainda isto, ou seja, existe uma separação de práticas e vivências entre os sexos opostos que se estabelecem baseadas no preconceito da desigualdade e na inferioridade feminina. A dança, através dos conteúdos é um caminho viável, na medida em que se desvia dos processos de aprendizagem rígidos e puramente técnicos, onde constrangiam na sua grande maioria os meninos. E para que não faltem oportunidades aos meninos, a improvisação é um conteúdo riquíssimo da dança, onde permite que todas as pessoas dancem, movimentem, expressem, dentro de suas possibilidades individuais. (SOARES, 1998). 2.3.2 A improvisação: enquanto proposta metodológica para o ensino da dança Improvisar significa executar algo, sob certas condições, não previamente planejada, sendo assim, improvisação significa dar uma forma espontânea. A improvisação em dança significa criar movimentos não treinados, espontâneos, sem uma prévia preparação além de conteúdo da dança, é conteúdo do movimento, oferecendo possibilidades de ultrapassar os limites da experimentação padronizada na escola. (SOARES, 1989, p. 39) A abordagem dos conteúdos ligadas à improvisação, segundo Haswlbach (1990), objetiva desmistificar a Educação Física apenas como Esporte, proporcionando aos alunos a liberdade para conduzir os movimentos de forma não tradicional e mecanicista, mas sim através da cultura de movimento, marcada pelas suas experiências, criatividade livre e expressão. Na improvisação, o aluno que dança poderá ter a liberdade de escolha, relacionada com a sua possibilidade de transformar idéias em movimentos, construção de gestos a partir de idéias do seu cotidiano. Através do conjunto de percepções-visuais, auditivas, olfativas, gustativas e tátil-cinestésicas - pode-se melhorar especialmente a capacidade de comunicação e expressão. O aluno aprende a colocar-se consciente, atento e sensível em relação ao outro e ao meio, podendo participar, perceber outras reações, diferenciá-las e reagir adequadamente a elas. Onde o aluno cultiva a responsabilidade, cooperação socialização e comunicação que são objetivos importantes da improvisação. (SOARES, 1998). Há outro objetivo importante na improvisação: o desenvolvimento do campo cognitivo. Para Soares (1998, p. 45): Através da improvisação deve ser estimulada a capacidade de representação do improvisador, assim como a capacidade de elaborar combinações de movimentos. a concentração e compreensão de formas, suas diferenciações e articulações na representação de idéias, sentimentos e objetivos, são importantes para o desenvolvimento e as combinações criadas. Assim encontra-se articulado com esse objetivo, a criatividade, porque nela são exigidos, especialmente a espontaneidade, a flexibilidade do agir e a fantasia. Pois o aluno ao sentir-se capaz de criar, pode dar razão a sua sensibilidade externa e interna, ser original às novas experiências está sempre procurando motivação e desenvolve confiança em si, pensa de forma original e individual e coloca sua fantasia e imaginação para fora, além disso, pode ser capaz de gerar um grande número de idéias e soluções durante um problema. O importante é que a dança-improvisação proporciona o desenvolvimento das capacidades do indivíduo. Por isso, a necessidade de trabalhar a dança na escola, mas de forma criativa, atrativa e conscientemente planejada, objetivando a aprendizagem dos alunos e seu conseqüente desenvolvimento. (SOARES, 1998). Considerando-se todos esses objetivos da dança-improvisação, percebese que ao excluirmos a dança dos conteúdos das aulas de Educação Física, estaremos omitindo aos alunos uma das possibilidades de desenvolvimento do seu repertório de movimentos. CONSIDERAÇÕES FINAIS É inegável a influência que a música e a dança possuem sobre as pessoas. Tanto a música como a dança são linguagens que se traduzem em formas capazes de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos, por meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e o movimento. Elas estão presentes em todas as culturas, nas mais diversas situações: festas e comemorações, rituais religiosos, manifestações cívicas, políticas. Esta pesquisa bibliográfica teve como base os estudos e as reflexões realizadas por meio das leituras realizadas. A música e a dança suscitam no ser humano um grande prazer, por ser uma linguagem expressiva, que sensibiliza todas as gerações. Elas podem ser integradas as diferentes áreas do conhecimento, sendo que através delas ocorrem à união entre a interação e o prazer, efetuando a interdisciplinaridade de vários conteúdos escolares. Acredita-se que, o educador ao trabalhar com música e a dança irá favorecer o desenvolvimento de novos conhecimentos, bem como do gosto estético e da expressão artística. Pois, o educador ao formar o ser humano, com uma cultura musical estará educando futuros adultos capazes de usufruir a música, de analisá-la e de compreendê-la. Cabe a ele, então, fazer com que o educando descubra, analise e compreenda os ritmos do mundo por meio da observação e do contado com essas linguagens. Espera-se que esse trabalho sirva para os educadores e todas as pessoas que dele se utilizarem, no sentido de colaborarem, na busca de uma educação de qualidade e de acordo com a realidade em que se vive. REFERÊNCIAS BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte. v. 3. Brasília: A Secretaria, 2000. ______ . Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. 3. ed. v. 7. 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