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HISTÓRIA DAS CIÊNCIASffiQ BRASIL
Lorelai Kury. Heloisa Gesteira (orgs.)
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Ensaios de
História das Ciências
no Brasil
(Ias Iuzes à nação independente
Lorelai Kury e 1-leloisa Gesteira (orgs.)
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Rio de Janeiro
2012
Copyright © 2012, dos autores
Todos os direitos desta edição reservados à Editora da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, ou
de parte do mesmo, em quaisquer meios, sem autorização expressa da editora.
47
L /1AR lO
EdUERJ
Editora da UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Rua São Francisco Xavier, 524— Maracanã
CEP 20550-013—Rio deJaneiro—RJ
Tel./Fax: (55)(21) 2334-0720/2334-0721
PREFÁCIO: O Rio DE JANEIRO E O ATLÂNTICO
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11
APRESENTAÇÃO
Editor Executivo
Assessoria Editorial
Coordenador de Publicações
Coordenadora de Produção
Coordenador de Revisão
Revisão
Capa, Projeto e Diagramação
Eiaboração dos mapas:
Lorelai Kury [Fiocruz
Lorelai Kury e Hc’loiso Cesteira
Italo Monconi
Fabiana Farias e Renato Alexandre de Souza
Renato Casimiro
Rosania Rolins
Fábio Flora
Andréa Ribeiro e Shirley Lima
Carlota Rios
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Bitsii.:
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SOBRE LICORES E XAROPES: PRÁTICAS CURATIVAS E EXPERIMENTALISMOS
JESUÍTICOS NAS REDUÇÕES DA PROvÍNCIA JESUÍFILA DO PARAGUAI
XVII-XVIII)
Eliane Cristina Dcckmann Fleck
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(sÉCuLos
RUMO AO BRASIL: A TRANSFERÊNCIA DA CORTE E AS NOVAS Í’RIIJ IAS DO
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RJ] e Ana Rosa de Oliveira [JBRJ]
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Xico Costa [Atlas histórico de cidades UFBAI
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31
PENSAMENTO MÉDICO
Márcia Moisés Ribeiro
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CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUSINPROTEC
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Ensaios de história das ciências no Brasil: das Luzes à nação
independente / Lorelai Kury, Heloisa Gesteira, orgs. Rio
—
DILEMAS DA HISTÓRIA SOCIAL DAS CIÊNCIAS NO BRASIL: AS AIUES DE CURAR
XIX
Betânia Gonçalves Figueiredo e Graciela de Souza Oliver
41
NO INÍCIO DO SÉCULO
P.WlE
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A (ulC»(
1 E A (iDADE 1)0 Rio DE J\NEIR()
de Janeiro : EdUERJ, 2012.
328 p.
Seminário As Ciências no Brasil no Período Joanino,
realizado de 17 a 20 de agosto de 2008,
ISBN 978-85-7511-239-7
1. Ciências Historia Brasil, 1. Kury, Lorelai. II. Gesteira,
Heloisa. 1. Seminário As Ciências no Brasil no Período
Joanino (2008 : Rio de Janeiro)
—
As ARTES DE CURAR E A FISICATURA-MOR NA
Tânia Salgado Pimenta
ÉPOCA DE
O. JOÃO VI
53
O JARDIM BOTÂNICO DO RIO DE JANEIRO E AS PAISAGENS DA C;ORTE
Ana Rosa de Oliveira
65
Rio DE JANEIRO JOANINO: ENTRE O MAR E O MANGUE
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Lorelai Kur’
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INSTEI CI 10 PEREGRINAIORLS. ALGUMAS QLESJ ÕES REFERENTES AOS MANUAIS
PORTUGUESES SOBRE MÉToDOS DE OBSERVAÇÃO FILOSOFICA E PREPARAÇÃO DE
A produção deste livro contou com o apoio do Museu de
Astronomia e Ciências Afins (Mast).
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PRODUTOS NATURAIS DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO
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O COLECIONISMO CIENTÍFICO
João Carlos Brigola
EM Poluu;,\L NOS FINAIS DO ANTIGO REGIME
(1768-1808)
135
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EABRICAÇ;ÃO DA PÓLVORA E TRABALI lOS SOBRE O SALITRE: PORTUCAL E Bl,\sIl.
DE FINAIS DO SÉCULO
XVIII
AS PRI\IEIR.\S DE(:•\D\S
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Mcrcta Helena Mciuk’s Ferraz
INSTRUÇÕES E IMPRESSÕES TRANSIMPERIAIS: HipÓmo i COSIA, CN:EIÇÃ0
Viioso E A (:IÊN( iA JOANINA
Neil Safter
167
N.vi L’RALISLA E I-IO\tIi\I PÚBLICO: A IRAJElÕRIA DO ILUSFR,\DO MAIUIM FRANCISCO
RIIWIR0 DE ANDRADA
(1796—1823)
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Alex Gonçalves ‘vuirela
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CIÊNCIAS E A CONSTRUÇÃO 1)0 TERRFIÓRI() DO BIo\SII.
Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno
INSIRUMENIOS MATEMÁTICOS E A (;ONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO: A MISSÃO DE
DIOGO SOARES E DOMINoOS CAPASSI AO BRASIL
(1720-1750)
207
Heloisa Gesteira
CIÊNCIA E PODER IMPERIAL NO
GRÃO-PARÁ:
DA EXPANSÃO
À
DESCONSTRIJÇÃO
(1750-1840)
Nelsan SanjLLLI
225
CULIURA (:ARI OGRÁFICA E GESTÃO TERRITORIAL NA ÉPOCA DA INSTALAÇÃO DA
239
CORtE PORIlCUESA
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IAGENS E VIAJANTES EUROPEUS E DESCRICÕES DO BRASIl:. A CORRESPONDÊNCIA
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1808.
TRÂNSITO DE SABERES
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Maria de FÍtirnu Nunes
NATUREZA, (;IÉNCIA E PoLÍTICA NO MUNDO LUSO-BRASILEIRO DE INÍCIOS
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Guilherme Pereira das Neves
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SOBRE OS AUTORES
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PORTLGL-BRSIL 1808.
TRÂNsiTo DE SABERES
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o século XVIII português, houve um impulso de reformismo científico nas ins
tituições de ensino científicas e militares. Na senda do trabalho do engenheiro-mor do
reino (Bernardo, 2005; Pereira, 2004; Calafate, 2001), o cartesiano do grand tour Manuel
Azevedo Fortes (Diogo, Carneiro e Simões, 2007) preparou o terreno para o impacto
do poder institucional das luzes pombalinas. No entanto, a regeneração científica foi
sobretudo protagonizada pela figura de D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-18 12), um
“homem de Estado” que soube estabelecer a ligação da Europa com Portugal e estender
o ramo da instrução e da ciência ao Brasil, na mítica e inaugural data de 1808 (Villalta,
2000; Kury, 2004; Mansuy, 2002-2006),’
É nesse contexto que se insere a renovação científica e pedagógica da Academia de
Marinha, e de seu Observatório, em 1779; a criação da Academia dos Guardas-Marinhas
em Lisboa, no ano de 1782; e a fundação da Sociedade Marítima e Geográfica, que
funcionou entre os anos de 1793 e 1807. Estas eram instituições que se integravam no
complexo de renovações cientfficas marcadas pela Reforma da Universidade de Coim
bra de 1772, de sua confirmação de 1777, e cujos professores estabeleciam pontos de
contacto com a cultura científica da Real Academia das Ciências de Lisboa, após 1779.
Instituições que serviam os objetivos de progresso e de crença cosmopolita na
ciência e na técnica como motores de desenvolvimento da nação. Ao território europeu
português chegava, por via da atividade científica dessas instituições, a projeção de uma
ciência útil vigente nas “nações cultas e civilizadas”. Portugal metropolitano funcionava
como espaço de formação para rentabilizar os recursos do Império, sobretudo o Brasil,
pelo estudo das potencialidades naturais (Kury, 1998; Brigola, 2003). As equipas de
Aação de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no Brasil possibilitou ampliar e institucionalizar os espaços de ciência e de
cultura que se vinham paulatinamente enraizando desde o final do século XVIII, favorecido pelo ambiente cultural
do naturalismo e do academisnso literário (Carvalho, 1939; Silva, 1974-1975, 1999; Dantas, 2001; Freitas, 2003;
Wegner, 2004).
268
•
Esuos I)1 lIISTÓLtt1
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filósofos naturais vs. cientistas realizavam as viagens filosóficas e, por meio dessa prática,
veiculavam conhecimentos de uma Europa de “além Pirineus” para o espaço de um
verdadeiro laboratório naturalista a colônia Brasil. Os militares das instituições de
Marinha e de Engenharia participavam também dessa aventura técnico-científica
(Nunes, 1988, 2002) por meio de uma renovação das instituições de Marinha. Nestas,
há sinais do impacto da geração dos ideólogos da Revolução Francesa,
2 no nível da
matemática, da física, da astronomia e da cartografia, como as fontes institucionais
nos evidenciam (D’Eça, 1892; Monteiro 1949; Cunha, 1967; Nunes, 1988; Borges e
Canas, 2007; DeNipoti, 2008). Nesse breve recordar de literatura de vários timbres,
obtemos informação suficiente para perspectivar um conjunto de saberes em circulação,
no momento em que Napoleão pretende unificar o espaço europeu sob a alçada de um
“Império francês”, talvez de uma “ciência colonial francesa”, o modelo das instituições de
sociabilidade científica caso de L’Institut ou de ensino culturalmente revolucionário
caso da École Politécnhique (Bret, 2002; Gusdorf, 1978).
Retomamos o tema comemorativo das “invasões francesas” sob o signo de (re)
leituras de obras de vários autores (Dhombres, 1989; Moravia, 1974; Gusdorf, 1978);
agora procurando estabelecer possíveis contatos de leitura entre a cultura científica por
tuguesa e a geração científica napoleônica (Nunes, 1988; Kury, 2004; DeNipoti, 2008).
É nessas ligações que inserimos alguns dos impactos dos acontecimentos de 1807-1808,
como a ida da corte para o Rio de Janeiro com o embarque de um patrimônio científico
e cultural extremamente valioso: bibliotecas (individuais, institucionais e públicas) e
instrumentos científicos para a colônia Brasil, cidade do Rio de Janeiro, sob a batuta
científica de D. Rodrigo de Sousa Coutinho (Silva, 1999, 1974, 1975; VilIalta, 1998;
Schwarcz e Azevedo, 2002; Schwarcz, 2007; Marrocos, 2008). Desse embarque nasce
ram os (futuros) espaços de ciência e das bibliotecas coloniais emergiram as bibliotecas
da (futura) nação do Império brasileiro. Uma perspectiva de utopia do olhar brasileiro
que não casa com a leitura negra dos saques dos franceses no espaço metropolitano.
Por outro lado, a ideia arrebatadora de “um império à deriva” (Gomes, 2007; Wilcken,
2008) é contrariada pela pista visionária de uma possível construção de identidade
nacional legitimada pela história das ciências, simbolizada nas “ciências no Paço de D.
João...” (Oliveira, 1999; Lopes, 1999; Villalta, 2000; Dantas, 2001; Freitas, 2003; Lury,
2004; Ferreira, 2004).
O tema de um modelo de “ciência em trânsito” será percepcionado por dois in
dicadores: o catálogo da biblioteca da Academia dos Guardas-Marinhas e o catálogo
da biblioteca particular do engenheiro militar que não embarcou para o Brasil: Marino
Miguel Franzini (1779-1861).
L\IÀ BIBL1OTEG ClI:NTÍFIC\ \TR\VESS.\ O XTLNT1CO
Na história da cultura científica no Brasil, a Academia dos Guardas-Marinhas e
sua biblioteca têm um importante lugar de relevo (Silva, 1999, pp. 134-47). O ambien
te cultural, letrado e militar do Rio de Janeiro acolheu essa instituição especializada
de ensino e incorporou seus livros como legado patrimonial e útil. Silva refere a ex
istência de um “catálogo sistemático, mandado elaborar pelo inspetor da ‘Companhia
dos Guardas-Marinhas’ e terminado em abril de 1812”. Sua organização pertence à
gramática de saberes das instituições de Marinha criadas por Rodrigo de Sousa Coutinho.
O inspetor da “Companhia dos Guardas-Marinhas” sistematizou os livros chegados em
5 1) ciências naturais; 2) ciências matemáticas (puras e
cinco grandes grupos temáticos:
6
mistas); 3) ciências e artes navais; 4) ciências e artes militares de Terra; e 5) politamia.
Uma biblioteca científica, uma instituição militar e de ensino fatos determinantes
para a história da ciência no Brasil (Silva, 1999, pp. 147.8).
Em 1972, o almirante Teixeira da Mota apresentou à Academia das Ciências de
Lisboa Classe de Ciências uma comunicação intitulada “Acerca da recente devolução
a Portugal pelo Brasil, de manuscritos da Sociedade Real Marítima, Militar e Geográfica
1798-1807” (Mota, 1972). Essa sociedade científica tinha como chefe de esquadra o
militar e matemático José Maria Dantas Pereira (1772.1836),8 importante figura de
ligação entre as várias instituições científicas existentes em Portugal no início do século
XIX, criadas no âmbito do movimento europeu das Luzes (Guedes, 1974).
Mota, em nota introdutória, explica que
—
—
Trânit de sbere
—
—
—,
—
—
a Sociedade [Real Marítima, Militar e Geográfical, [tinha] como presidentes os quatro
ministros de Estado, era composta de oficiais da Marinha e do Exército, dos lentes
efetivos e substitutos da Academia dos Guardas-Marinhas, dos lentes da Universidade
de Coimbra, de dois opositores da Faculdade de Matemática e do diretor-geral dos
Desenhadores, Gravadores e Impressores (1972, p. 6).
Trata-se de uma rede de poderes e saberes ligados entre si, por meio das insti
tuições militares e científicas em território metropolitano, que visavam à realização
Para maior detalhe informativo, a autora remete o leitor para seu artigo “Uma biblioteca científica brasileira no
início do século XIX”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, 1973, n. 14.
Essa sistematização contrasta profundamente com a organização do catálogo das “bibliotecas coloniais” (eclesiásti
cas, científicas e filosóficas), elaborado em 1826 no Rio de Janeiro (Silva, 1999, p. 134). Em sua hierarquização e
arrumação de assuntos, encontra-se a lógica do catolicismo iluminado escritura sagrada e santos padres; teologia
natural, dogmática e natural; direito natural e civil; teologia mística; sermonários; filosofia, matemática, história
natural e física, retórica e poética; geografia; dicionários; história universal e particular; miscelâneas.
Silva (1999, p. 147) engloba nessa categoria as obras gerais, as histórias navais e os relatos de viagem, chamando a
atenção para o fato de edições relativas às viagens da segunda metade do século XVIII estarem ausentes.
Texto editado pelo “Grupo de Estudos de Cartografia Antiga”, na Junta de Investigações do Ultramar, LXXIV seção
de Lisboa.
Nascido perto de Lisboa Alenquer embarca para o Brasil em 1807, tornando-se o primeiro diretor da Academia
Real dos Guardas-Marinhas, no Rio de Janeiro. Morre em 1836, em Montpellier, no exílio. Para informação sucinta,
ver o verbete “Dantas Pereira (José Maria)”, em Portugal dicionário histórico. Disponível em http:I/www.arqnet.
pt/dicionario/dantaspereirajm.html. Acessado em 14 set. 2009.
—
1
6
—
2
Membros da academia científica napoleônica Iilnstitut.
A documentação da Biblioteca Nacional de Portugal Reservados, cod. 12934— Fr 859— relativa a Marino Miguel
Franzini foi alvo de um recente e importante estudo sobre leitura e circulação de livros na Europa por parte de
DeNipoti (2008), inserido na atual agenda de investigação geograficamente comparativa sobre livro e leitura, redes
comerciais e bibliotecas (Abreu, 2000, 2003; Curto, 2002).
—
—
—,
—
• 269
27C’
•
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Por
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de práticas científicas em Portugal e nos espaços ultrarnarinos, com clara predominân
cia no Brasil (Freitas, 2003).
Nesse encontro de perspectivas de leitura do passado (Mota, 1972; Silva, 1999)
encontra-se a explicação para a fundação, no Rio de Janeiro, a 1° de abril de 1812, de
uma biblioteca para o apetrechamento científico e cultural da Companhia dos GuardasMarinhas, esta destinada ao ensino das elites da colônia.
As ciências instalavam-se no “Paço de D. João VI’, (Oliveira, 1999), com espaços
próprios, professores, livros e instrumentos científicos. Relembremos urna vez mais
a comunicação de Teixeira da Mota. No catálogo publicado, relativo ao material
embarcado, encontra-se referência a publicações e ao equipamento científico que
pertenciam à Sociedade Marítima, com particular interesse nas edições da própria So
ciedade, complementadas pelas da Academia Real das Ciências de Lisboa, Um espólio
científico que não voltou a Portugal e cuja importância é, na opinião de Mota, de um
“considerável interesse para a história da atividade científica portuguesa na época e
permite conhecer melhor produção de vários homens que se destacaram entre as elites
nacionais de então” (1972, p. 16). Mas foi por essa travessia científica pelo Atlântico
que o Brasil colônia institucionalizou a cultura científica herdada das experimentações
naturalistas dos Setecentos (Silva, 1986).
Nesse contexto de travessias científicas, uma breve reflexão sobre o manuscrito
Inventario de tudo quanto pertence Real Academia dos Goardas Marinhas e vai embarcar
para o Rio de Janeiro em a Charrua S. João Magananimo, por ordem do Exmo. Senhor Barão
da Arruda, Almirante da Armada Real.
9 Nele, encontramos a consciência científica dos
responsáveis pelo embarque da Academia dos Guardas-Marinhas, um dos elos da cadeia
das instituições militares inicialmente referenciadas. Do documento, constam os “gêneros”
que foram embarcados (e previamente listados), as caixas de livros, de mobiliário e de
instrumentos científicos, especialmente de astronomia. De sua primeira parte, consta
uma narrativa oral
° da “Livraria” organizada por autor título volume, cujo somatório
1
deverá ser a enumeração do conjunto dos livros que embarcaram em 31 “caixões”.
Após a travessia atlântica, esses caixotes, depois de terem sido abertos e seu con
teúdo, sistematizado no Rio de Janeiro, possibilitaram a execução do já referido catálogo
científico da Companhia dos Guardas-Marinhas do Rio de Janeiro, a lede abril de 1812
(Silva, 1999). Esse catálogo foi uma mais-valia cultural e científica que a longa viagem
dos livros possibilitou, uma vez que sua recepção foi feita de acordo com um registro
de taxinomia de saberes diferenciados das bibliotecas coloniais que atravessaram o
—
—
—
°
.3
Atlântico ao longo dos séculos XVII e XVIII (Silva, 1999; Schwarcz, 2007; Schwarcz
e Azevedo, 2002; Marrocos, 2008).
Compulsando as várias folhas manuscritas da listagem da Biblioteca da Academia
dos Guardas-Marinhas, é possível construir urna rede de autores científicos setecentis
tas (Nunes, 1988, pp. 29-33) cujos títulos indiciam temáticas civis e militares, línguas,
saberes politécnicos e enciclopedistas. São autores da geração cultural dos ideólogos
franceses, uns pertencentes à Academia das Ciências de Paris, outros, sobretudo
1
matemáticos, pertencentes ao Llnstitut)
No registro da partida de Lisboa para o Rio de Janeiro, é anotado o embarque de
livros de e.g. P Cotte, Gaspar Monge, Charles Bossut, Étienne Bezout, Lazare Carnot,
2
Alexis Clairaut, La Caule, d’Alembert, além das obras de Newton: Principa e Opuscula.’
Se se transferiu para o outro lado do Atlântico um saber atualizado pelos padrões
da Europa, é fundamental entender que foi no espaço da colônia que se executou um
novo “rol da biblioteca” (Silva, 1999), agora sob a forma de um catálogo sistematizado.
No contexto das academias naturalistas e literárias, dos jardins botânicos e das viagens
filosóficas, a ida para o Brasil de mais instrumentos científicos dotou o espaço colonial
de novos horizontes de emancipação, cruzando referentes de poder político, de ciência
e técnica utilitária, elementos potencialmente aglutinadores para a construção de uma
nação no Novo Mundo do início do século XIX (Dantas, 2001).
No dealbar do século XIX, Portugal e França representam dois mundos que entra
ram em conflituosidade militar a partir de 1807-1808. Um dos resultados dessa tensão
bélica foi a ida da corte para um porto seguro e longínquo, caso totalmente inédito na
história dos Estados ocidentais (Safier, 2009). Porém, no reino, espaço europeu, ficaram
recursos necessários e eficazes para programar a regeneração da nação em 18 12.13 Para
o Brasil, foi uma parte do patrimônio cultural, bibliográfico, científico e humano de
considerável importância que possibilitou a aceleração do tempo histórico na croto
logia programada da colônia, ou seja, a emancipação política conduzida pelo vigor e
o empenho constitucional dos deputados brasileiros no primeiro parlamento vintista
(1821-1822) em Lisboa (Vainfas, 2002).
1
2
13
Manuscrito que na década de 1980 estava no Arquivo de Marinha, no Quartel dos Marinheiros em Alcântara,
tendo como cota A. M. Brigada Real Dos Guardas-Marinhas, caixa 137, [1807], 11 fis. (frente e verso). Porém,
a transferência do Arquivo para as instalações da Cordoaria gerou uma alteração de arrumação e de catalogação.
Após várias tentativas junto à direção do A. M., não foi possível encontrar o documento original, pois o sistema de
numeração foi alterado.
Trata-se de uma série de nomes e de títulos transcritos foneticamente por meio de uma grafia oral, sem classes de
ordenação.
..
o Elnsritut foi criado em 25 de outubro de
1795. Ver http://wwwinstitut-de-france.fr.
Segundo historiadores da ciência (Dhonsbres, 1989), isso revela a importância da construção do poder com base no
saber para gerir e controlar impérios terrestres e aproveitá-los economicamente.
Podemos rotular o ano de 1812 como o “ano zero” da nova regeneração. Significou o ressurgimento de diversos
projetos editoriais no espaço português, como o Semanário de Instrução e Recreio (1812-1813); a Gazeta deAgricultura
e Commercio de Portugal (1812-1815), dirigida por Francisco Soares Franco; ou o Jornal de Coimbra (1812-1820),
periódico pensado em Coimbra e editado em Lisboa, servindo interesses médicos e militares. Outro dos sinais
da recuperação cultural e científica foi o retomar do funcionamento da Academia Real das Ciências de Lisboa,
iniciando-se a ediçáo da linha de Memórias de Física e de Matemática, completando o ciclo de Memórias econômicas
da ARCL, em 1815, que contêm a Memória de Trigoso sobre a “Introdução ao sistema métrico-decimal” (cnação da
França revolucionária) ou os estudos naturalistas sobre Cabo Verde.
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271
272
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UM IDEÓLOGO EM PORTUGÀL?
No contexto nacional do embarque da corte para o Brasil, ftxemo-nos numa das
personalidades científicas que permaneceu em Lisboa: Marino Miguel Franzini (17791861),’ membro da inteligência técnico-científica da engenharia militar portuguesa
que não foi para o Rio de Janeiro em 1807, contrariando a metáfora de Gomes (2007)
e de Wilcken (2008). Amigo de Junot, assumiu-se, no contexto de 1808, como engenheiro militar em ação, quer no Arquivo Militar, quer na Cordoaria, quer nas missões
cartográficas ou estatísticas que preparava.
O recente conhecimento público do catálogo de sua biblioteca privada’
5 toma pos
sível realizar uma incursão pela forma como Franzini organizou e classificou os livros que
foi adquirindo em vários circuitos de uma rede comercial europeia (DeNepoti, 2008);
tal como a documentaçao Rol dos livros que comecei a comprar em 1798 16 e o Catalogue
des livres etc... 17 permitem entender, analisar e idealizar.
Numa primeira leitura, ressalta a planificação temática redigida em francês. Quando
a comparamos com a organização de bibliotecas de época como a da Biblioteca Pública
de Évora, organizada por Frei Manuel do Cenáculo, em 79 seções’
8 (Vaz, 2004; Vaz
e Calixto, 2006), entendemos que a gramática usada por Franzini foi completamente
distinta, mas muito próxima daquela que no Rio de Janeiro foi utilizada em 1812 para
organizar a recém-chegada biblioteca da Companhia dos Guardas-Marinhas (Silva,
1999, p. 147). O universo classificativo de Marino Miguel apresenta urna configuração
muito próxima dos saberes da geração dos ideólogos, tendo a data de 1798 como ponto
de partida para as transações livreiras (DeNipoti, 2008, p. 435),19 período marcado pela
influencia cientifica do grupo que se encontrava a serviço de Napoleão Bonaparte e do
Imperio frances (Moravia, 1974; Gusdorf 1978). 20
O Rol parece indicar que existia um pensamento sistematizador de taxinomia de
saberes para acolher os livros à medida que chegavam e iam sendo incorporados e
alinhados nas estantes. O manuscrito apresenta-se deste modo:
M. M. FRANZINI
1.
2.
3.
4.
5.
6
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
.
-
—
15
Marino Miguel Franzini, engenheiro militar, fez seus estudos no âmbito das Academias de Marinha no período das
reformas de Rodrigo de Sousa Coutinho. Membro da Academia das Ciências de Lisboa, inspetor da Cordoaria Na
cional, meteorologista reconhecido internacionalmente na época, deputado vintista. Assumiu-se, após a revolução
liberal de 1820, como um liberal técnico-científico (Nunes, i988).
Manno Miguel Franzini, BNP Reservados, cod, 12934— Fr 859. Um espólio que contem papeis avulsos que pertenceram
a Franzini, com catálogos da livraria, róis de livros, cartas, apontamentos, contas, listas de livros e de livreiros, faturas,
recibos, receitas e despesas etc., 1798-1832. Essa documentação comprada recentemente pela Biblioteca Nacional de
Portugal foi estudada de forma exaustiva por DeNopit (2008), um trabalho inovador para a história dos circuito de
livros na Europa, a formação de bibliotecas individuais na transição do século XVIII para o século XX.
Com a indicação do preço de cada compra, com a contabilidade anual ou por temas de capital investido em aquisições
de saberes científicos.
O acervo da BNP contém ainda um Catálogo da livraria de Marino Miguel Franzini, organizado por outra entidade
posterior, pois se trata de um roteiro de áreas temáticas, com autores e títulos de livros ou de cartografia, por ordem
alfabética, como se de um catálogo organizado para um leilão ou para uma arrumação alfabética de uma biblioteca.
A biblioteca estava organizada em “72 estantes de li ordens cada uma” (Vaz 2004, p. i2), não havendo catálogo, mas
apenas a listagem dos livros que foram sendo comprados aos livreiros europeus por Frei Manuel do Cenáculo. Esse
assunto foi ampliado por Vaz (2006) nas comemorações dos duzentos anos da Biblioteca Pública de Evora, em 2005.
A análise de DeNipoti (2008) permite-nos entender que Franzini comprava seus livros pouco tempo depois de eles
aparecerem no mercado livreiro europeu, utilizando diferentes vias para a concretização da venda.
Momento em gue as instituições de ensino científico começavam a construir a matriz de saberes politécnicos,
alicerçados na Ecole Polytechnique (1794) e na atualização técnico-científica da Ecole de Ponts et Chaussé (1741),
ambas em Paris, o coração do Império francês.
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16
17
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Catalogue de livres
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[numeração dada por M, M. Franzini]
21
Mathématique
Application d’Optique
Physique
Musique
Astronornie
Ta bi es
Arithmétique Politique
Navigation
Construction
Manceuvre
Tactique
Scène Militaire
Artillerie
Fortification
Voyages
Histoires Militaires
Diverses Sciences
Botaniques
Chirnie
Philosophie [naturelle]
Grammaire
Histoire
Miscellanées
Médicine
Poesie et Romans
Politique
Géographie
Philosophie [metaphisique}
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Marino Miguel Franzini, BNP
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Reservados, cod. 12934— Fr. 859. “Table alphabétiques des classes” (fis, 1-28).
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273
274
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ENSUOS
DE HISTÓRIA DAS CItNCIAS O IIIIASIL
Porlugal.Braiil, 1ãO. Transito de saberes
Nessa arrumação, encontramos as mais recentes edições para cada uma das áreas
do saber,
22 evidenciando a existência de uma rede de circulação pelo espaço europeu,
23
em tempo de uma França napoleônica.
No documento Catalogo da biblioteca de Marino Miguel Franzini,
24 encontramos
outra lógica de apresentação: a sistematização alfabética, a abertura em subclasses das
principais taxinomias para captar a atenção do leitor para a existência de um «Catálogo»
em várias línguas: português, francês, inglês e latim.
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23
15, Matemática
a. Astronomia
b. Arqutiectura
c. Hidraulica
d. Máquinas
e. Óptica
f. Tábuas
g. Diversidades ctD’Alembert
16. Medicina
a. águas termais e banhos
17. Física, vulcões e meteorologia
18. Química e Mineralogia
19. Militares
a. Artilharia, miltires, fortificações
b. História militar
c. Topografia militar
d. Táctica
e. Miscelâneas c/ dicionários, almanaques
20. Viagens
a. Viagens terrestres
b. Viagens marítimas
21. Galanteria c/ Religiosa, Diderot
22. Atlas e Cartas
23. Cartas separadas
a. Espanha e Portugal
b. França
c. Itália
d. Veneza, Polónia, Rússia
e. Suissa
24. Cartas marítimas
25. Miscelânea
Artes
Autores Clássicos, c/ Linneu
Agricultura, c/ Brotero
Commercio
Estatistica
Filosofia
Geografia
Hidrografia
Gramática
História
Cronologia
Literatura
Poesia
Marinha
a. Construção
b. Manobra
c. Miscelânea
d. Táctica
Encontramos obras técnico-científicas completas, e.g. Connaissances des temps, 1787, 1788, 1789, pour l’an 6, 10, 11,
12 e Additions aux tables des connaissances des temps depuis 1790-1799 ou Instruction secrétes f. .1 contenant les ordres
secrêtes expédiés aux officiers, Hamburgo, 1796.
Quando se utiliza o Rol dos livros que comecei a comprarem 1798, é fácil entender a rede de contatos que Franzini
tinha com os livreiros e os conhecimentos que possuía das instituições científicas academias e estabelecimentos de
ensino militar. Nessa lista, encontra-se o registro do montante dispendido, assim como da diversidade de compras
realizadas: edições monográficas, edições antigas, publicações periódicas científicas e técnicas, cartografia variada,
livros de viagem, de literatura (incluindo poesia), manuais técnicos e de práticas de navegação. Vê-se uma orga
nização de compras pelo eixo de Itália (Veneza, Siracusa, Gênova via “negócio de Molini de Florencia”), passando
pelas aquisições pelo porto de Mahón e Llorient, na Catalunha, pelo porto da Corunha e pela praça de Lisboa; uma
listagem exaustiva, organizada contabilisticamente de 1798 a 1806. Para uma análise exaustiva sobre esses processos
de aquisição, ver DeNipoti (2008).
Marino Miguel Franzini, BNP Reservados, cod. 12934— Fr 859. Comparando o Rol com o Catálogo, parece-nos
claro que este último não foi organizado pelo proprietário original da biblioteca, mas por um comprador de bibliotecas
eruditas e históricas que as organizava em função de catálogos, para serem analisadas e compradas em leilões da
especialidade.
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24
Numa leitura seletiva e cronológica do conteúdo da biblioteca entre 1789 e 1801
ressalta a existência de um conjunto de obras técnico-científicas sobre astronomia,
náutica, matemática e assuntos militares, cujo local de edição é predominantemente
Paris. Nesse conjunto, destacamos os primeiros quatro volumes do Journal de l’École
Polytecnhique (1794-1797), de Lalande; Astronomie de Latitude (1790), de Douchet;
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1
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276 • ENsAios ia IhsTánis DAS CIÊNCIAS
Portugal-Brasil, IilOil. Trnsto de saberes
NO BItsIL
Métrologie terrestre compare’e (1797), do matemático Marie; e Leçons élementaires de
mathematique (1798).25 Vemos uma biblioteca constituída em plena efervescência
revolucionária francesa! Um espaço científico para a formação técnico-científica de um
futuro engenheiro militar: Marino Miguel Franzini na transição de século XVIII para o
XIX, Um tecnocrata vintista, um cidadão empenhado em regenerar a nação pela ótica
discursiva do liberalismo (Nunes, 1988).
As respostas são pertença de outras agendas de investigação e de reflexão, quer
para Portugal, quer para o Brasil, no contexto da circulação mundial dos saberes.
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Ei ABERTO: CIÊNCIk E rfçjç ENTRE EUROPA E BRSIL
No caldo cultural das práticas comemorativas do duplo centenário das invasões
francesas, retomemos o tópico “trânsito de saberes”. Nesse contexto, o Rio de Janeiro
ficou com novos e inovadores espaços de ciência. O Paço de D. João VI passou a ser
local de encontro simbólico de cruzamentos da comunidade científica colonial e euro
peia. Para tal, contribuiu também a abertura dos portos do oceano Atlântico. Ao Brasil
foram chegando naturalistas, astrônomos, artistas de toda a Europa.
Pelos dois casos abordados, procuramos demonstrar que existia uma plataforma
giratória de conhecimentos científicos que chegavam e partiam de Portugal continen
tal, onde os livros de matemática e de astronomia tinham um papel importante. As
instituições científicas e militares, nascidas das reformas impostas por Rodrigo de Sousa
Coutinho (Mansuy, 2002-2006), instalaram no reino e nas colônias uma ciência
europeia. Mas o espfrito reformista deixou também no Portugal metropolitano uma sólida
reserva científica da nação, simbolizada pelo engenheiro militar Marino Miguel Franzini.
O breve zoom realizado sobre as bibliotecas de época uma que embarcou para
o Rio, outra que ficou no espaço metropolitano permite entender que a ciência que
circulou para o Brasil foi uma parte representativa da cultura científica da Europa do
século XVIII, com um espectro de leitura muito amplo e alargado (Silva, 1999; Abreu,
2000; Schwarcz, 2007; Schwarcz e Azevedo, 2002).
Diríamos que uma parte instrumental da “ciência portuguesa” fugiu às invasões
francesas, o que permitiu o aparecimento real das instituições científicas no Rio de
Janeiro (e na Bahia) formatadas por uma matriz europeia.
Podemos, então, sugerir a hipótese de o Brasil ter sido apetrechado com uma
ciência europeia mercê das transferências de personalidades e instituições de Portugal
para o Rio de Janeiro? E quais as posteriores relações científicas entre a ex-colônia e
a ex-metrópole durante o século XIX? Quais os interlocutores científicos diretos que
o Brasil Império e República escolheu para dotar o Estado brasileiro de renovação e
atualização científica?
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25
Esses dados foram apresentados e discutidos pela primeira vez num papar intitulado “Léchec de la science du temps
de Napoléon au Portugal: le cadre militaire et scientifique et l’Académie Royale des Sciences de Lisbonne. Circula
tion du savoir scientifique dans une Europe des nations”, apresentado em setembro de 2009, em Aix de la Province,
no simpósio Le Portugal et Napoléon. Les Raisons d’un Echec.
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