Arlete Maria Francisco Doutora em Arquitetura Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente, Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita filho” – Unesp [email protected] Os Desafios do Planejamento Urbano em Áreas de Fundo de Vale Consolidadas: o Caso da Microbacia do Córrego do Veado em Presidente Prudente,SP Resumo Este trabalho tem o objetivo de descrever a situação das Áreas de Preservação Permanente da microbacia do Córrego do Veado em Presidente Prudente, SP, os quais foram os primeiros cursos d´água a serem confrontados com a expansão urbana, no período anterior à vigência do Código Florestal, de 1965, quando as nascentes e os corpos d´água passam a ser legalmente protegidos e discutir os possíveis tratamentos destas áreas, hoje consolidadas. Primeiramente, é abordada a relação entre as águas e o processo de ocupação e expansão da cidade, no período de 1919 a 1965, verificando o modo como vão sendo tratadas as águas e os fundos de vale os quais surgem pelo caminho; num segundo momento, mostra as ações do poder público na reurbanização dos córregos e a atual situação destas áreas, e, por ultimo, discute-se os desafios do planejamento urbano para estas áreas consolidadas. Compreender como os cursos d´água e os fundos de vale foram tratados no inicio da urbanização da cidade é importante para a discussão da superação do modelo de uso e ocupação que ainda aparece arraigado tanto na opinião da administração pública quando da sociedade, de modo geral. Palavras-chave: Planejamento urbano. Fundos de Vales. Área de Preservação Permanente. Presidente Prudente,SP. Abstract This paper describes the situation of Permanent Preservation Areas of the Córrego do Veado watershed, in Presidente Prudente, SP, which were the first waterways to be faced with urban sprawl, in the previous period the duration of the Forest Code of 1965, when the springs and water bodies are now legally protected and discuss possible treatments of these areas, now consolidated. First, we discuss the relationship between water and the process of occupation and expansion of the city, in the period 1919 to 1965, checking how the waters are being treated and the valley bottoms which appear in the road, a second time shows the actions of public authorities in the redevelopment of the streams and the atual situation of that areas, and finally, discusses the challenges of urban planning areas for these statements. Understanding how the watercourses and valley bottoms were treated at the beginning of the urbanization of the city is important to discuss the replacement of the model for use and occupation that still appears so rooted in the view of government as society in general. Key-Words: Urban Planning. Valley Bottoms. Permanent Preservation Área. Presidente Prudente, SP. Introdução Na história das cidades brasileiras, até meados do século XX, foi possível verificar uma relação mais harmoniosa entre os rios e a cidade, embora raramente fossem considerados como elementos estruturadores do desenho urbano. A partir da intensificação do processo de urbanização, rios e córregos foram, paulatinamente, retificados, canalizados e ocultados da paisagem citadina e, por vezes, das plantas oficiais, sendo lembrados apenas em dias de chuvas torrenciais, no momento em que se pode ouvir o seu ruído e perceber o poder das suas águas à jusante. Habitações e indústrias ocuparam de modo irregular as suas várzeas, tendo o curso d´água como fundo de lote, espaço escondido para onde não se volta o olhar. Além de serem vistos como entraves ao desenvolvimento urbano e barreiras geográficas a serem transpostas, os rios passaram a ser utilizados como receptáculo de boa parte daquilo que a sociedade descarta, sendo, portanto, negados e tornados simples elementos do sistema de drenagem urbana. Deste modo, de potenciais marcos paisagísticos passaram a se constituir em áreas de conflito. Estas práticas resultaram na destruição das Áreas de Preservação Permanentes (APP), contribuindo para a degradação ambiental e, conseqüentemente, trazendo riscos para a vida humana, na medida em que causam: enchentes periódicas, ilhas de calor, inversão térmica e contaminação da rede hídrica, sobretudo pelo esgoto doméstico. Além disso, obstruíram o acesso público às orlas e seu aproveitamento como espaços livres urbanos. Portanto, o modelo de produção e apropriação das áreas de fundo de vales é fundamentado em relações conflituosas entre o homem e a natureza e no desprezo às características específicas do sítio urbano. Isso pode ser observado tanto nas cidades grandes, com maiores impactos, mas, também, em cidades médias e até pequenas. A superação deste modelo se coloca como um desafio ao planejamento urbano, talvez com boa perspectiva de sucesso em cidades médias, como Presidente Prudente, SP, onde tais áreas não estão totalmente ocupadas. O presente trabalho tem como objetivo descrever a situação das áreas de preservação permanente da microbacia do Córrego do Veado – composto por este, da cabeceira até a sua confluência com o Córrego da Colônia Mineira e pelos córregos Água Bôscoli e do Bacarin (Mapa 01) –, os quais foram os primeiros cursos d´água a serem confrontados com a expansão urbana, no período anterior à vigência do Código Florestal, de 1965, quando as nascentes e os corpos d´água passam a ser legalmente protegidos e discutir os possíveis tratamentos destas áreas, hoje consolidadas. Duarte (2006) chama a atenção para o fato de que o resgate histórico nos permite compreender como uma postura urbanística determina o modo como um elemento territorial participa ou não daquilo que se constitui como o destino urbano da cidade. Assim, compreender como os cursos d´água e os fundos de vale foram tratados no inicio da urbanização de Presidente Prudente e verificar as condições em que se encontram é mister para a discussão da superação do modelo de uso e ocupação dos fundos de vale que ainda aparece arraigado tanto na opinião da administração pública quando da sociedade, de modo geral. As recentes obras de urbanização de 2 córregos, que se resumem na canalização do curso d´água e plantio de grama, atestam este fato. Este trabalho traz os primeiros resultados da pesquisa intitulada: “Análise do desenho urbano das áreas de fundo de vale em Presidente Prudente-SP: estudo de caso da Microbacia do Córrego do Veado”, desenvolvida no Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente, da Unesp, Presidente Prudente. Mapa 01. Presidente Prudente. Malha urbana e rede hidrográfica. Fonte: PMPP. Modificado por Gabriel Vieira Dyonisio. 3 A cidade e suas águas: expansão urbana 1919-1965 Presidente Prudente está localizada no sudoeste do Estado de São Paulo, numa área denominada Alta Sorocabana, a 558 Km da capital. Considerada de porte médio, conta hoje com 207,6 mil habitantes e é sede da 10a Região Administrativa do Estado. Fundada em 1921, a cidade teve inicio a partir de dois núcleos urbanos que se formaram ao redor da Estação de Trem Presidente Prudente da linha férrea Alta Sorocabana que passa ao longo do espigão formado pelos rios do Peixe e Paranapanema: um a oeste da estação – a Vila Goulart (desenhada em 1919) e outro a leste – a Vila Marcondes (Mapa 02). A ocupação e expansão inicial decorreram desta bipolaridade, com maior desenvolvimento voltado para a porção oeste que, além da topografia ser mais favorável, encontrava-se defronte à estação ABREU (1972). A expansão do núcleo original teve como orientação: o espigão da ferrovia, na medida em que o transporte ferroviário era o principal meio de circulação de pessoas e de mercadorias; bem como as áreas compreendidas pelos interflúvios entre os Córregos Bacarin e Água Bôscoli e entre este e o Córrego do Veado, isto é, as áreas mais elevadas da cidade (Mapa 02). Figuras 01. Planta dos loteamento do Jardim Paulista, 1962. O córrego como fundo de lote. Fonte: PMPP. Contudo, os loteamentos reproduziram o modelo da grelha ortogonal do quadrilátero original, desconsiderando a topografia e os córregos enquanto elementos estruturadores da paisagem citadina e integrados ao desenho da cidade, potencializando o seu caráter de contemplação e área livre. Os lotes deram costas aos córregos, negando-os, como podemos observar no exemplo dos projeto do loteamento do Jardim Paulista (Fig. 01). Neste período de expansão territorial, podemos observar que os novos loteamentos surgiram contíguos à malha urbana, determinados, de acordo com Sposito (1983), pelo “nível de consumo” dos lotes pela população. 4 Mapa 02. Crescimento urbano de Presidente Prudente. 1919 a 1967. Fonte: BARON (2011, p. 48), modificado pela autora. A desconsideração dos córregos como importantes recursos naturais e elementos paisagísticos resultou na desarticulação do espaço urbano, tendo aqueles como barreiras físicas, foco de mosquitos e lugar insalubre, dada a precariedade do saneamento básico, na época. Além disso, dificultou a preservação das áreas de fundo de vale, imprescindíveis à qualidade do meio ambiente urbano. A reurbanização dos Córregos do Veado, Bacarin e Água Boscoli Após 1964, com o golpe militar, a política urbana contou com a participação mais incisiva e centralizada do Estado, visando responder às necessidades de 5 desenvolvimento do capitalismo na sua etapa monopolista que exigiu a utilização de investimentos maciços em infraestrutura necessária para dar fluidez ao capital HORA (1994). Assim, É no âmbito dos novos rumos assumidos pela política urbana federal, aliados às mudanças no cenário político local, que ocorreram as maiores transformações urbanas em Presidente Prudente, trazendo novas condições para a comercialização da mercadoria solo. E, neste sentido, a década de 1970 foi marcada por uma nova fase no processo de expansão/(re)estruturação urbana, sendo que as transformações territoriais traziam em seu bojo mecanismos de sustentação e incentivo à reprodução do capital. HORA (1994, p. 15). É neste contexto que se deu a reurbanização dos córregos do Veado, do Bacarin e Água Bôscoli, com recursos provenientes do programa do governo federal denominado Comunidade Urbana para Recuperação Acelerada (CURA1) e, no caso do Córrego do Veado, também do Fundo de Desenvolvimento Urbano (FDU) SILVA (1994, p. 50). O programa CURA era destinado a cidades com mais de 50 mil habitantes, na época consideradas de porte médio, como era o caso de Presidente Prudente, contemplada por três vezes: CURA I e CURA II, implantados no período entre 19767 e 1982 com obras destinadas à porção oeste da cidade e CURA III, implantado entre os anos 1985 e 1987, com recursos alocados na zona leste HORA (2001, p. 140). Em 1973 foi aprovado o primeiro Plano Diretor do Município (Lei n. 1.582/73) baseado no projeto de plano elaborado pela equipe do Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (CEPEU/USP). O relatório entregue em 1969 apontava a necessidade de melhoria do sistema viário e a superação dos obstáculos à expansão urbana para que a cidade pudesse “progredir” – como era o caso do Córrego do Veado que se constituía como barreira física, que dificultava o acesso aos bairros do entorno, e como obstáculo ao crescimento da cidade para sudoeste. O progresso de Presidente Prudente foi o principal apelo do discurso que deu sustentação à implantação da reurbanização dos córregos urbanos, de acordo com os veículos de comunicação da época HORA (1994). A reurbanização do Parque do Povo, hoje a principal área verde e de lazer da cidade, foi a obra de maior repercussão do Programa CURA I e a mais expressiva na (re)estruturação do espaço urbano da cidade, segundo HORA (1997); SILVA (1994) e IKUTA (2003). No curso superior do Córrego do Veado, foram realizadas canalização aterrada e arborização; no trecho entre as Avenidas Coronel José Soares Marcondes e Manoel Goulart, a retificação e a canalização aberta do curso d´água IKUTA (2003, p. 94). Posteriormente, em 1995, após algumas enchentes que destruíram o parque, este trecho também foi aterrado. 6 Figura 02. Recorte da imagem aérea de Presidente Prudente. Em destaque a área de Preservação Permanente do Córrego do Veado. Fonte: Google Earth, 2010, modificado pela autora. Fotos 01, 02 e 03. Área de lazer do Parque do Povo. Arquivo da autora. Na área do parque, a faixa considerada hoje como APP está, em boa parte, preservada, conforme podemos observar na figura 02. O trecho 1 é o mais arborizado, enquanto no trecho 2, a vegetação é bastante esparsa, pois é onde foram construídos vários equipamentos e serviços, tais como: o Centro Olímpico Paulo Salim Maluf, com piscinas, tanque de saltos, campo de futebol, quadras poliesportivas e serviços de apoio; conjunto esportivo, contendo um campo de futebol e três quadras poliesportivas; lanchonetes; vestiários; calçadas; pista de ciclismo; pista de skate; 4 playgronds; área para espetáculos circenses; bancos e iluminação HORA (1997, anexo 12) (Fotos 01, 02 e 03). No trecho 3, até a sua confluência com o Córrego da Colônia Mineira, a canalização encontra-se aberta e ainda há resquícios de mata ciliar na faixa da APP, o que a transforma em uma barreira física e visual. A reurbanização do Córrego Água Bôscoli consistiu na canalização fechada do córrego e implantação, na quadra da Avenida Cel. Marcondes, do Parque de Uso Múltiplo (PUM), com duas quadras poliesportivas cobertas, teatro de arena e playground. Boa parte do córrego encontra-se sob as residências e só é possível perceber a sua presença pelo som que emana dos bueiros (Fig. 03). Na área residual (área livre), foi implantado, em 1998, o Mercado Modelo de Presidente Prudente (mercado publico) e, em 2008, uma praça que se resumiu na paginação de piso, na instalação de uma Academia da Terceira Idade (ATI) e na colocação de alguns mobiliários, porém de maneira aleatória (Fotos 04, 05 e 06). Não foi plantada vegetação, justamente, na área que deveria ser preservada e um trecho considerável recebeu pavimentação asfáltica para servir como estacionamento do mercado modelo. 7 Figura 03. Recorte da imagem aérea de Presidente Prudente. Em destaque a área de Preservação Permanente do Córrego Água Bôscoli. Fonte: Google Earth, 2010, modificado pela autora. Fotos 04, 05 e 06. Mercado Modelo; estacionamento e Área de lazer do Córrego Água Bôscoli, respectivamente. Arquivo da autora. O Córrego Bacarin foi canalizado, também com recursos do CURA I, da APEA até a Rua Alfândega e, nas proximidades do Tênis Clube (na confluência do Córrego do Bacarin com o córrego do Veado), foram construídas galerias de águas pluviais, pois este trecho da cidade era bastante vulnerável a inundações e ao assoreamento decorrente de erosões provocadas por chuvas torrenciais que atingiam a cidade no verão. Havia uma pressão exercida pela alta sociedade prudentina, associada ao clube, por medidas urbanísticas que pudessem sanar os problemas enfrentados, desde 1949, quando as chuvas de dezembro destruíram todas as instalações do clube antes mesmo de serem inauguradas. O Córrego do Bacarin [...] Era uma via natural de capitação de águas pluviais. Com o crescimento da cidade, passou a captar o esgoto. Em noites de verão, moradores mais próximos à baixada e freqüentadores do Tênis Clube eram incomodados pelos miasmas emanados de material orgânico putrefato. Somente as chuvas mais fortes traziam algum alívio, mas de outro lado provocavam estragos e prejuízos. Reivindicação antiga a canalização do córrego. Eram duas as obras básicas que as diretorias viviam solicitando dos prefeitos: asfalto até o Tênis e a galeria para canalizar o Córrego Bacarin. MELO (1999, p. 73-4). Na década de 1990, foi implantada uma área de lazer em um trecho da porção residual (área livre) (Fotos 08 e 09), impermeabilizando boa parte do solo. Porém, 8 não foi considerada a presença do córrego, nem tampouco a possibilidade de integração desta áreas com o entorno. No trecho não contemplado pela área de lazer (foto 07) é onde o solo se torna permeável, embora a vegetação seja bastante escassa. Figura 04. Recorte da imagem aérea de Presidente Prudente. Em destaque a área de Preservação Permanente do Córrego Bacarin. Fonte: Google Earth, 2010, modificado pela autora. Fotos 07, 08 e 09. Área residual e Área de lazer do Córrego do Bacarin. Arquivo da autora. Os desafios do planejamento urbano em áreas de fundo de vale consolidadas O processo de crescimento de Presidente Prudente criou um padrão de ocupação do solo que impossibilitou a preservação das áreas adjacentes aos córregos, sobretudo anteriormente a 1965, ano em que passa a vigorar o Código florestal, que estabelece as normas de preservação destas áreas. Vimos que tal ocupação aconteceu de modo a negar os córregos da microbacia do Córrego do Veado e quando da oportunidade de reurbanizá-los, na década de 1970, a solução encontrada foi a canalização – com calhas de concreto – e o aterramento, fazendo com que desaparecessem dos mapas da cidade. Somente foi possível identifica-los a partir das plantas dos loteamentos que trazem a posição do córrego e das informações contidas nos relatórios do Programa CURA. Vários trechos encontram-se sob as edificações e alguns se transformaram em espaços residuais, ladeados pelos altos muros dos fundos das residências, como podemos observar nos casos do Córrego água Bôscoli (Foto 06) e do Córrego do Bacarin (Foto 07). A reurbanização dos fundos de vale foi concebida como respostas técnicas, ora para atender a necessidades de expansão urbana, ora como resposta às pressões políticas – e imobiliárias – e não como resultado de um planejamento físico e territorial urbano de âmbito global.Ikuta (2003) observa algumas características do modelo de ocupação das áreas de fundo na cidade: a supressão da vegetação e os remanescentes de matas ciliares; carência de áreas verdes e de lazer; a diluição de esgotos; a deposição de resíduos sólidos; a retificação e a canalização dos cursos d´água. 9 Atualmente, verificamos três situações distintas das APPs dos cursos d´água em estudo: 1. APP preservada no parque linear circundada por vias de circulação (Trecho do Parque do Povo no Córrego do Veado): canalização aterrada; solo permeável; e reposição de vegetação, embora escassa em alguns trechos. 2. APP parcialmente ocupada pelas edificações e parcialmente ocupada por área de lazer incrustada entre muros (Córregos do Bacarin e Água Bôscoli): canalização aterrada; solo impermeável, na maior parte; e vegetação escassa. 3. APP preservada (trecho 3 do Córrego do Veado): canalização aberta; solo permeável; e preservação da vegetação original. A supressão da mata ciliar deixou os fundos de vale e os cursos d´água suscetíveis à degradação ambiental, sobretudo erosões, assoreamento, deposição de resíduos sólidos e enchentes. Nas Áreas de Preservação Permanente, a cobertura vegetal é de fundamental importância no processo de absorção e escoamento das águas pluviais e contribui amenizar as altas temperaturas. Assim, além da sua importância para conservação do meio ambiente, contribui para a qualidade de vida nos centros urbanos, sobretudo quando se constituem como áreas verdes livres, como é o caso do Parque do Povo que recebe tratamento diferenciado por se constituir em cartão postal da cidade. Um grande desafio consiste na conciliação entre interesses ecológicos, de preservação, e urbanísticos, de ocupação, pois as APPs de córregos urbanos desempenham importante função de urbanidade que, de acordo com Holanda (2002) se define como o valor que qualifica a vida urbana, no sentido da interação entre os cidadãos no espaço coletivo, da promoção do encontro e do convívio social; bem como da interação harmônica entre as pessoas e os elementos naturais do espaço urbana, tais como: os corpos d´água e suas margens, as montanhas, os bosques, as vegetações. Mello (2007) demonstra, por meio de vários situações existentes no mundo, que é possível obter um bom desempenho de urbanidade tanto em “configuração de artificialização” (casos 1 e 2) quanto em “configuração de naturalização” (caso 3) de margens de córregos urbanos. O maior desafio do planejamento urbano é buscar estratégias para a reestruturação destes tecidos urbanos comprometidos pelo nível de consolidação das edificações e para a valorização do espaço público na cidade contemporânea. Uma medida possível a ser tomada seria a elaboração de uma política municipal para o aproveitamento do potencial das Áreas de Preservação Permanentes dos Fundos de Vale ainda existentes na área central, com o propósito de recuperar o ambiente e integrá-lo à cidade. Uma questão nos parece fundamental: ninguém cuida daquilo que não vê. Mesmo com a canalização dos córregos, as Áreas de Preservação Permanente (APP) não deixam, necessariamente, de existir. Mesmo que a água não esteja visível – o que 10 seria recomendável –, os seus benefícios devem ser externalizados. Mello (2007) advoga que o uso sustentável desses espaços viabiliza o “sentimento de pertencimento” pelos moradores do entorno que passa a zelar por eles. Qualquer intervenção nestas áreas deverá considerar a vivencia na cidade, a possibilidade de abrir os córregos onde isto for possível, tornar as áreas permeáveis, arborizá-las e desenvolver um projeto de integração destas áreas com as edificações do seu entorno, transformando-os em espaços com vitalidade. “... A modernidade havia expropriado a cidade da presença do corpo; a fenomenologia da contemporaneidade o recoloca no centro da experiência” SECCHI (2006:150). Considerando espaço livre como “um bem público, onde, além de promover-se o encontro do homem com a natureza, desenvolvem-se as atividades urbanas, como os ritmos, em todas as escalas, desde a ida diária ao trabalho, à escola, às compras, o passeio domingueiro até a percepção da mudança das estações do ano” KLIASS & MAGNOLI (2006: 247), não pode ser considerado um luxo, acessível à minoria, nos amplos condomínios fechados da cidade contemporânea. Considerações Finais Culturalmente, a população se serve das águas dos rios e córregos, interferem no seu curso e poluem as suas águas, sem a devida consciência da importância da preservação e conservação dos rios e da paisagem, algo que vem se modificando nas ultimas décadas, mas a passos bem lentos. Devido a essa cultura, os espaços que deveriam ser preservados e enaltecidos como elementos paisagísticos são indevidamente ocupados ou se transformam em vias de circulação, impermeabilizando as terras adjacentes, ocasionando prejuízos à própria população e ao meio ambiente. É importante romper o paradigma de que os cursos d´água são um problema para a cidades e verificar as suas potencialidades. Faz-se necessária uma mudança de atitude com relação à conformação da cidade, tanto no desenho urbano das áreas de expansão quanto do redesenho dos espaços consolidados, reconhecendo e aproveitando os seus recursos naturais. Os rios e córregos devem ser tratados como patrimônios ambientais, de fato, sendo que o planejamento da cidade deve considerá-lo a partir da articulação de diversos aspectos: funcional, ambiental e, também, cultural e estético. Deste modo, é de extrema importância a incorporação dos córregos e dos fundos de vale ao traçado urbano, tanto do ponto de vista ambiental, de preservação do patrimônio coletivo e como forte elemento qualificador da paisagem urbana construída. Acreditamos, assim, na possibilidade de um outro desenho urbano voltado a minimizar os impactos negativos causados no meio ambiente físico, cultural e natural, de modo que os elementos a serem modificados ou acrescentados na estrutura físico-espacial não ameacem a integridade morfológica do conjunto, mas contribua para a criação de uma intensa imagem urbana e de um espaço com vitalidade, pois a cidade contemporânea, em oposição à cidade modernista, se volta para a diversidade e elege a paisagem como um princípio fundamental para resolver esta relação conflituosa entre o homem e a natureza, entre espaços edificados e livres, entre espaços públicos e privados. 11 Referências ABREU, Diores Santos. Formação histórica de uma cidade pioneira paulista: Presidente Prudente, F.F.C.L., 1972. ANDRADE, Liza M. S.; ROMERO, Marta A. B. A importância das áreas ambientalmente protegidas nas cidade. In: Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação e pesquisa em Planejamento urbano e regional – ANPUR, XI, 2005, Salvador. Anais... Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2005. BARON, Cristina Maria P. Habitação e Cidade em Presidente Prudente. 2011. 221f. Tese (Doutorado em Arquitetura) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, são Carlos, 2011. DUARTE, Fabio. Rastros de um rio urbano – cidade comunicada, cidade percebida. Ambiente & Sociedade, vol. IX, nº2, p. 105-122, jul./dez. 2006. GORSKI, Maria Cecilia Barbieri. Rios e cidades: ruptura e conciliação. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010. HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília: EditoraUnb, 2002. HORA, Maria Flora F. O projeto CURA III em Presidente Prudente: uma porta para a cidade? 1997. 273f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Presidente Prudente, 1997. IKUTA, Flávia Akemi. A cidade e as águas: expansão territorial urbana e a ocupação dos fundos de vales em Presidente Prudente-SP. 2003. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Presidente Prudente, 2003. KLIASS, Rosa G.; MAGNOLI, Miranda M. Áreas verdes de recreação. Paisagem e Ambiente, São Paulo, FAU, n. 21, 2006, p. 245-56. MELO, Jayo Gonçalves. Tênis Clube de Presidente Prudente. Sua história de 1934 a 1980. Presidente Prudente: Jornal Oeste Notícias, 1999. MELLO, Sandra S. Áreas de Preservação Permanente em margens de corpos d´água urbanos: princípios de intervenção e subsídios à construção do marco legal. In: Seminário de APP urbana, I, 2007, São Paulo. Anais..., São Paulo, Universidade de São Paulo, 2007. SECCHI, Bernardo. Primeira lição de urbanismo. Trad. Marisa Barda e Pedro M.R. Sales. São Paulo: Perspectiva, 2006. (Debates; 306). SILVA, M. J. M. O parque do povo em Presidente Prudente-SP: a lógica de intervenção do poder público local no processo de (re)estruturação do espaço urbano. 1994. 152f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Presidente Prudente, Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Presidente Prudente, 1994. SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. O “chão” em Presidente Prudente: a lógica de expansão territorial urbana. 1983. Dissertação (mestrado) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Rio Claro, SP, 1983. 1 O CURA do Governo Federal consistiu em um Programa de Complementação Urbana criado pelo em 1973 pelo Conselho de Administração do Banco Nacional da Habitação (BNH) para complementação de infraestrutura urbana em áreas consolidadas, a fim de promover o adensamento populacional e combater os vazios urbanos especulativos. 2 Relatório da Companhia Prudentina de Desenvolvimento – Prudenco. 12